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	<title>Arquivos Envelhecimento - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos Envelhecimento - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Da Aurora ao Entardecer: o Desafio de Integrar a Tríade Nascimento, Desenvolvimento e Morte</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/da-aurora-ao-entardecer-o-desafio-de-integrar-a-triade-nascimento-desenvolvimento-e-morte/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Apr 2025 15:41:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
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		<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
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		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Ler a Obra Completa de Carl Gustav Jung é uma realização pessoal, uma possibilidade de refletir sobre um vasto conhecimento e ao mesmo tempo um desafio. Nesta ampliação comparecem aspectos contidos no livro 14/3 – Mysterium Coniunctionis – com a intenção de trazer para o contexto o que no primeiro momento parece de difícil [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/da-aurora-ao-entardecer-o-desafio-de-integrar-a-triade-nascimento-desenvolvimento-e-morte/">Da Aurora ao Entardecer: o Desafio de Integrar a Tríade Nascimento, Desenvolvimento e Morte</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Resumo</strong>: Ler a Obra Completa de Carl Gustav Jung é uma realização pessoal, uma possibilidade de refletir sobre um vasto conhecimento e ao mesmo tempo um desafio. Nesta ampliação comparecem aspectos contidos no livro 14/3 – <em>Mysterium Coniunctionis</em> – com a intenção de trazer para o contexto o que no primeiro momento parece de difícil compreensão, em função do teor erudito, mesclado pela filosofia da natureza e pelo cristinianismo, aprofundado pela alquimia, conhecido como <em>Aurora Consurgens</em> &#8211; a aurora que surge &#8211; e que permite uma variedade de conexões. Neste sentido, são apresentadas questões sobre o desenvolvimento humano e o entardecer da vida. &nbsp;De modo especial, comparecem reflexões acerca do significado e sentido do número três na consciência, no inconsciente pessoal e coletivo e também sobre a possibilidade de integrar a tríade nascimento, desenvolvimento e morte.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-termo-aurora-pode-ser-associado-a-muitos-aspectos-e-comum-comparecer-em-nome-de-diferentes-lugares-pelo-brasil-afora" style="font-size:19px">O termo <strong><em>aurora </em></strong>pode ser associado a muitos aspectos. É comum comparecer em nome de diferentes lugares pelo Brasil afora.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Vale lembrar que Aurora de Tocantins tem uma natureza exuberante, com rios e cachoeiras ainda pouco exploradas pelo turismo. Na música, Aurora é o nome de uma cantora norueguesa. Igualmente, <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Aurora_(Disney)">Aurora</a>&nbsp;é uma personagem da Disney, o nome do livro de Friedrich Nietzsche, do filme <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Sunrise:_A_Song_of_Two_Humans"><em>Sunrise: A Song of Two Humans</em></a><em> </em>(1927), de clubes de futebol, de uma vinícula brasileira famosa ou mesmo o fenômeno <em>Aurora Boreal</em> da Islândia e também é nome da árvore <em>Hibiscus Mutabilis. </em>Na mitologia romana, Aurora é deusa do alvorecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Em <em><strong>Mysterium Coniunctionis</strong></em>, no capítulo II &#8211; <em><strong>Aurora Consurgens</strong> &#8211;</em> comparecem motivos que justificam o título e o nome do texto, ou seja, a aurora que surge: hora do ouro ou hora propícia; o meio entre a noite e o dia; os doentes sentem-se aliviados das dores noturnas e adormecem e no amanhecer a alegria ocupa o espaço do pranto. Por último, o fim da noite e início do dia com rubor e fim da duração invernal (Cf. JUNG, 2012, p.61). No espírito da época, procurou-se unir a concepção cristã e a alquimia, que se interpenetravam (Cf. JUNG, 2012, p.11-12).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Neste sentido, a aurora que brilha entre a noite e o dia também é explicada pelo simbolismo das cores alquímicas <em>nigredo</em> (noite), <em>albedo</em> (dia), <em>rubedo </em>e <em>citrinitas</em>, nas cores vermelha e amarela, que representam simbolicamente a transformação (Cf. JUNG, 2012, p.212).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O oposto de aurora nos remete ao entardecer, momento em que o sol desaparece no horizonte. Para muitos, representa um registro lindo do crepúsculo com suas cores intensas, como acontece na <em>Pedra do Arpoador</em>, no Rio de Janeiro e em tantos locais marcantes. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outros-porem-veem-o-por-do-sol-como-um-recolhimento-um-escurecer-da-vida-uma-dimensao-historica-e-uma-configuracao-de-sentido-assim-descrita-no-poema-anoitecer-de-carlos-drummond-de-andrade" style="font-size:19px">Outros porém veem o pôr do sol como um recolhimento, um escurecer da vida, uma dimensão histórica e uma configuração de sentido, assim descrita no poema <em>Anoitecer </em>de Carlos Drummond de Andrade:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px;line-height:1.4"><blockquote><p>É a hora do descanso,<br>mas o descanso vem tarde,<br>o corpo não pede sono,<br>depois de tanto rodar;<br>pede paz – morte – mergulho<br>no poço mais ermo e quedo;<br>desta hora tenho medo.<br>Hora de delicadeza,<br>gasalho, sombra, silêncio.<br>Haverá disso no mundo?</p><cite>(ANDRADE, 1992, p.100)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-percurso-entre-a-aurora-e-o-entardecer-da-vida-pode-ser-longo" style="font-size:19px">O percurso entre a aurora e o entardecer da vida pode ser longo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para ampliar essa compreensão é interessante novamente contemplar o livro O/C 14/3, na <em>Quarta Parábola</em>, em que é destacada a importância da fé filosófica, que consiste no número três: “Diz-se mesmo que tal como é o Pai, tal é o Filho e tal é o Espírito Santo, e os três são um só, isto é, corpo, espírito e alma, pois toda a perfeição consiste no número três, isto é, a medida, o número e o peso”. (JUNG, 2012, p. 85). No contexto, o Pai representa a sabedoria, o Filho a verdade e o Espírito Santo, a bondade. Ainda, as virtudes da Santíssima Trindade são exaltadas, assim como também o batismo, que permite a transformação do que estava morto em alma vivente:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px;line-height:1.4"><blockquote><p>A água preserva o feto durante três meses no ventre da mãe, o ar nutre nos três meses seguintes e nos últimos três meses o fogo o protege. A criança jamais viria à luz antes da consumação desses meses.</p><cite>JUNG, 2012, p. 89</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Assim sendo, pode-se entender simbolicamente que o primeiro trimestre da gestação é marcado pela água (função sentimento), o segundo evidencia o ar (função pensamento) e o terceiro manifesta o fogo (função intuição). O nascimento pode ser compreendido como terra, (função sensação), período em que a criança, a mãe e os familiares experenciam diferentes sensações, principalmente voltadas aos órgãos dos sentidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Como foi mencionado anteriormente, o número três tem o seu destaque na referida parábola e comparece em muitas situações corriqueiras, que acontecem na maioria das vezes sem serem percebidas e também Jung, mais para o final da vida,&nbsp; buscou um maior entendimento sobre a relevância dos números.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-gestacao" style="font-size:19px">Gestação</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Devido a sua importância, neste primeiro momento será dado enfoque ao <strong>período gestacional</strong> – os três trimestres &#8211; desde a fecundação até o nascimento, que pode simbolizar a aurora, o entardecer e a sua integração, pois geralmente envolve um período de nove meses que tem início, desenvolvimento e final. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para um melhor entendimento e acompanhamento das diferentes fases do&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Desenvolvimento_pr%C3%A9-natal">desenvolvimento pré-natal</a>, a gravidez é convencionalmente dividida em três trimestres e é marcada por muitas transformações. Ela&nbsp;resulta da fecundação do óvulo pelo espermatozoide, pode ocorrer pela&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Rela%C3%A7%C3%A3o_sexual">relação sexua</a>l&nbsp;ou ser&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Reprodu%C3%A7%C3%A3o_medicamente_assistida">medicamente assistida</a> com outros recursos de gestação, como a&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Insemina%C3%A7%C3%A3o_artificial">inseminação artificial</a>&nbsp;e a&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Fertiliza%C3%A7%C3%A3o_in_vitro">fertilização in vitro</a>. É um processo que inicialmente envolve dois seres que se transformam em três ou mais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-trimestres-gestacionais" style="font-size:19px">Trimestres gestacionais</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O <strong>primeiro trimestre</strong> compreende 12 semanas, tem início com o&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Zigoto">óvulo fecundado</a> que forma o&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Embri%C3%A3o">embrião</a>, depois de oito semanas torna-se feto&nbsp;e é alimentado pela&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Placenta">placenta</a>. É importante observar que neste período são formados os principais órgãos. Alguns sintomas podem comparecer – cansaço, enjoos, aumento da frequência urinária sonolência e desejos por alimentos específicos &#8211;&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Gravidez#Altera%C3%A7%C3%B5es_fisiol%C3%B3gicas_maternas">diversas alterações fisiológicas</a>&nbsp;e emocionais da gestante que se prepara para o parto e para a maternidade.&nbsp;É um período de muitas mudanças e a função sentimento está bem presente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O s<strong>egundo trimestre o</strong>corre entre a 13ª e a 27ª semana de gestação e o sistema do bebê é concluído, associado pela gestante como fase mais tranquila e com mais disposição. As transformações e adaptações são naturalizadas e a função pensamento bastante presente permite a realização de projetos relacionados ao espaço físico da casa, ao enxoval do bebê e também ao planejamento do parto.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Já o t<strong>erceiro trimestre o</strong>corre entre a 28ª semana até o nascimento.&nbsp;Desconfortos comparecem, em função do ganho de peso e altura do bebê.&nbsp;&nbsp;Com a proximidade do parto, a fase pode ser marcada por aspectos ansiosos, em forma de medo da dor do parto, da morte ou que o bebê tenha problemas, entre outros.&nbsp;Como foi citado anteriormente, a função intuição estará mais presente nestes três meses.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">De um modo geral, embora seja um tempo de muitas expectativas positivas, também é marcado por alterações fisiológicas, hormonais, metabólicas, bioquímicas e anatômicas, podendo a gestante desenvolver <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Hipertens%C3%A3o_arterial#Durante_a_gravidez">hipertensão</a>,&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Diabetes_gestacional">diabetes gestacional</a>,&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Anemia_ferropriva">anemia por deficiência de ferro</a>,&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Hiper%C3%AAmese_grav%C3%ADdica">náuseas, vômitos </a>e abortos. São aspectos que envolvem mais a fase <strong>nigredo </strong>do período gestacional.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-importante-ressaltar-que-durante-a-gravidez-analogicamente-tambem-ha-um-percurso-entre-a-aurora-e-o-entardecer-onde-nigredo-e-albedo-transformam-se-em-rubedo-o-nascimento" style="font-size:19px">É importante ressaltar que durante a gravidez analogicamente também há um percurso entre a aurora e o entardecer, onde nigredo e albedo transformam-se em rubedo, o nascimento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Com a dilatação, expulsão do bebê e da placenta, inicia-se uma nova fase, ou seja, um percurso intenso de vida. Algumas vezes o parto por cesariana é necessário, seguido do puerpério e alguns casos a depressão pós-parto está presente. Laços afetivos vão se estabelecendo e o apoio do pai tem um papel significativo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pode-ocorrer-uma-mistura-de-emocoes-e-cuidados-tao-bem-expressados-na-cancao-de-luiza-possi-e-roberta-campos-voce-sorriu-pra-mim" style="font-size:19px">Pode ocorrer uma mistura de emoções e cuidados, tão bem expressados na canção de Luiza Possi e Roberta Campos, <em>Você Sorriu Pra Mim:</em></h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px;line-height:1.4"><blockquote><p>Você sorriu pra mim<br>Eu fui em direção do seu sorriso<br>Do céu até o chão<br>Pedaço de saudade<br>Te levo pela mão<br>Agora somos nós e o nosso tempo.</p><cite>(POSSI; CAMPOS, 2012)&nbsp;</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dar-a-luz-pode-integrar-a-condicao-de-ser-mae-maternidade-com-os-cuidados-afetuosos-delicados-e-carinhosos-da-mae-maternagem-e-com-caracteristicas-instintivas-e-tambem-arquetipicas-materno" style="font-size:19px"><strong>Dar à luz pode integrar a </strong>condição de ser mãe (maternidade), com os cuidados afetuosos, delicados e carinhosos da mãe (maternagem) e com características instintivas e também arquetípicas (materno).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O&nbsp;arquétipo materno&nbsp;é uma força universal com uma variedade de aspectos, que envolvem a fertilidade, o acolhimento, o alimento, a bondade nutritiva, o cuidado, a criação de vínculos e afetos, entre outros (cf. JUNG, O /C 9/1, p. 87-90).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-maternidade-maternagem-e-arquetipo-materno-sao-tres-forcas-poderosas-para-dar-a-luz-na-integracao-de-polaridades" style="font-size:19px">Maternidade, maternagem e arquétipo materno são três forças poderosas para dar à luz na integração de polaridades.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Vindo ao encontro, a autora Adriana Tanese Nogueira também se debruçou sobre o tema e em seu livro apresentou sete deusas presentes na tríade gravidez, parto e pós-parto: <strong>Héstia</strong><em>,</em> inspirando o ninho; <strong>Perséfone</strong>, guiando o centramento; <strong>Deméter</strong>, liderando a maternidade plena; <strong>Afrodite</strong>, causando a sensibilidade; <strong>Atena </strong>e<strong> Hera</strong> equilibrando planos e estratégias, com autonomia e respeito e <strong>Ártemis</strong>, movendo para um bom parto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Num contexto amplo, é preciso trazer para a luz, parir, produzir, gerar e criar para transformar o mundo! E isso pode ocorrer na fase da vida que aqui denominamos de desenvolvimento, entre o nascimento e a morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Anteriormente as ampliações foram centradas na fase gestacional pela importância que o período representa. De agora em diante será abordado o desenvolvimento humano a partir do nascimento, que não é linear e sequencial, mas tão importante quanto a gestação. Existem diferentes fases, estudadas pela psicologia, pela medicina e demais áreas da saúde e da educação: infância, adolescência, vida adulta e velhice. De forma resumida será apresentado um percurso com algumas características apontadas pela psicologia analítica e considerações de Magaldi Filho.&nbsp; O período ampliado anteriormente, da concepção até os seis meses de vida, é denominado de <strong>Pleroma</strong><em>. </em>&nbsp;Nesta fase a criança ainda não tem a consciência de si mesma. Posteriormente, até um ano e meio ela entra na fase urobórica, sentindo-se o centro das atenções. Tudo é voltado para ela, principalmente pelas experiências sensoriais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ate-os-sete-anos-a-crianca-vive-o-mundo-da-mae-e-ate-os-catorze-anos-o-mundo-do-pai-mesmo-nao-tendo-a-presenca-dele" style="font-size:19px">Até os sete anos a criança vive o mundo da mãe e até os catorze anos o mundo do pai, mesmo não tendo a presença dele.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A adolescência é a fase de expansão e da criatividade, em que se busca a autoafirmação perante o grupo, apresentando mais inibição de instintos, consolidação de valores culturais, sociais e religiosos. Até os quarenta e cinco anos ocorre a fascinação pela razão, pela riqueza e pela ciência e o mundo adulto é voltado para a verdade objetiva. Com o passar dos anos e no decorrer do processo evolutivo é comum ocorrer uma diferenciação do indivíduo, com superações e integrações. Depois dos quarenta e cinco anos geralmente inicia o processo de individuação, que é um processo individual e relacional, marcado pela integração total do belo, do bom e do verdadeiro (Cf. MAGALDI FILHO, 2009, p. 244-47).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-diferentes-fases-da-vida-tambem-ocorrem-as-crises-apresentadas-por-alguns-autores-como-parte-da-vida-de-sete-em-sete-anos-porem-nao-necessariamente-acontecem-dentro-de-uma-perspectiva-cronologica" style="font-size:19px">Nas diferentes fases da vida também ocorrem as crises, apresentadas por alguns autores como parte da vida, de sete em sete anos, porém não necessariamente acontecem dentro de uma perspectiva cronológica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">As crises podem ocorrer em qualquer momento da vida e são oportunidades de crescimento e de tornar algo melhor. Na Psicologia Analítica, a metanoia significa uma crise típica da vida adulta com mudança de visão de mundo e possibilita a ressignificação de velhos padrões. Quando ocorre, é comum a presença da angústia, que também pode abarcar o saudosismo, como comparece no poema <strong>Meus Oito Anos</strong>, de Casimiro de Abreu, que na vida adulta referiu-se à infância de forma saudosa:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Que aurora, que sol, que vida,<br>Que noites de melodia<br>Naquela doce alegria,<br>Naquele ingênuo folgar!<br>O céu bordado d’estrelas,<br>A terra de aromas cheia<br>As ondas beijando a areia<br>E a lua beijando o mar!</p><cite>ABREU, 1972</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pode-se-ir-alem-com-as-ampliacoes-que-envolvem-o-numero-tres-no-desenvolvimento-do-ser-humano-em-todas-as-dimensoes-da-vida" style="font-size:19px">Pode-se ir além com as ampliações que envolvem o número três no desenvolvimento do ser humano em todas as dimensões da vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Os três movimentos reptilianos &#8211; sobreviver, crescer e perpetuar &#8211; aos poucos poderão dar espaço para a alteridade e a individuação. A vida também é marcada por aspectos tridimensionais, que envolvem altura, comprimento, largura e é difícil imaginar algo que não seja assim.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-mesmo-modo-os-personagens-em-formato-de-trios-deixaram-marcas-como-por-exemplo-na-cultura-popular" style="font-size:19px">Do mesmo modo, os personagens em formato de trios deixaram marcas, como por exemplo na cultura popular.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Quem não lembra das <em>Meninas Superpoderosas </em>(Florzinha, Lindinha e Docinho)? Da série dos anos 70, <em>As Panteras? </em>Do programa do final da tarde de domingo<em> Os Trapalhões? As Três Marias </em>(Maria Augusta, Maria José e Maria da Glória), romance de Raquel de Queiroz também marcou época, assim como no universo infantil, os famosos <em>Luizinho, Zezinho e Huguinho</em>, <em>Os Metralhas</em> e o clássico <em>Os Três Porquinhos</em>. E para os que apreciam música sertaneja, o <em>Trio Parada Dura </em>até hoje faz sucesso<em>.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Do mesmo modo, existem as três notas musicais&nbsp;DÓ, MI e SOL, que são enfatizadas nos estudos da música, embora as outras notas também sejam importantes. A forma geométrica triangular também é muito utilizada tanto em objetos, como em vivências. Do mesmo modo, os três reinos da natureza &#8211; animal, vegetal e mineral &#8211; permeiam a vida dos seres vivos e dos materiais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sao-apenas-alguns-de-uma-variedade-de-exemplos-vivos-na-consciencia-no-inconsciente-pessoal-e-coletivo-e-que-permitem-pensar-na-importancia-do-numero-tres" style="font-size:19px">São apenas alguns de uma variedade de exemplos vivos na consciência, no inconsciente pessoal e coletivo e que permitem pensar na importância do número três.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Seguindo com esse olhar, encontram-se em diferentes fontes sobre a <strong>Homeopatia</strong> três doenças crônicas descritas por <strong>Hahnemann</strong>: <em>psora</em> (alergias e manifestações cutâneas serosas e mucosas); <em>sicose </em>(alergias e manifestações cutâneas serosas e mucosas); <em>sífilis</em> (destruição dos tecidos em forma de úlceras, fistulas, furúnculos).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">De forma similar, três aspectos também fazem parte da <strong>Abordagem Integrativa Transpessoal</strong>: <em>nous</em> (mente contemplativa e silenciosa), <em>psique</em> (alma, memória e ancestralidade) e <em>soma</em> (corpo físico e parte material do ser). Na <strong>Análise Transacional</strong>, três aspectos da personalidade humana são chamados de <em>Estados do Ego </em>(Pai, Adulto e Criança). </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Enquanto isso, a <strong>Psicanálise</strong> apresenta três tipos básicos de <em>transtornos mentais</em> (neurose, psicose e perversão) e o <strong>Behaviorismo</strong> se baseia em três conceitos fundamentais: <em>comportamento, estímulo e resposta.</em> Assim, é possível perceber que em qualquer área o significado e sentido do número três está presente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Paracelso </strong>também contribuiu com a ciência ao introduzir a química na medicina e o conhecimento sobre a tríade <em>zinco, ferro e manganês</em>. Ao mesmo tempo ele deixou outras valiosas contribuições ao afirmar que o médico não só deve conhecer as coisas externas do ser humano, mas também precisa conhecer de alquimia e do céu interno de cada ser, integrando sintomas exteriores e interiores (Cf. JUNG, 2013, p. 25-27).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Por falar em <strong>alquimia</strong>, os metais utilizados nos laboratórios eram compostos de <em>enxofre, mercúrio e sal, </em>considerados os três princípios de todas as coisas, que permitem diferentes analogias e uma delas é a representação da tríade <em>alma, espírito e corpo</em> ou mesmo o princípio masculino, feminino e a sua integração.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Vale lembrar das afirmações de <strong>Waldemar</strong> <strong>Magaldi</strong>, que em aulas, cursos, vídeos e palestras apresenta os três “AS” &#8211; autoconhecimento, autoestima e autonomia &#8211; como parte do processo de análise, da integração de polaridades e ressignificação de padrões.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-acompanhando-esse-raciocinio-e-unanime-a-definicao-de-axioma-como-algo-verdadeiro-que-interfere-na-comunicacao-e-na-convivencia-dos-individuos" style="font-size:19px">Acompanhando esse raciocínio, é unânime a definição de axioma como algo verdadeiro, que interfere na comunicação e na convivência dos indivíduos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Os três principais axiomas que podem promover reflexões sobre os temas aqui abordados são: <em>ontológico</em> (envolve questões filosóficas), <em>lógico</em> (proposição óbvia e que não precisa ser demonstrada para a aceitação de uma teoria) e de <em>complexidade</em> (concebe que a realidade é inacabada, incompletude e incerteza não só quantitativa, mas&nbsp; principalmente qualitativa).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">De algum modo isso faz lembrar da Pedagogia, em que escola, pais e alunos é uma tríade que precisa estar integrada para que aprendizagens ocorram e de Piaget, ao afirmar que o processo de construção do conhecimento e da inteligência é composto de <em>assimilação, acomodação e equilibração.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">No Hinduísmo a tríade de divindades <em>Brahma </em>(deus da criação),<em> Vishnu </em>(deus da preservação)<em> e Shiva </em>(deus da destruição) formam a <em>Trimurti</em>, a trindade suprema da religião. A tríade <em>força</em> (criar), <em>duração</em> (manter) e <em>destruição</em> (extinguir) é necessária para haver evolução e a mudança consiste em desconstruir o que é velho para o novo entrar, florescer e frutificar. Dessa forma, ao confrontar-se com seu inconsciente pelo processo imaginal e reflexivo, personificando a vida e a morte, Jung apresentou <em>Abraxas, </em>umdeus que é sol e também abismo, que comparece descrito em <em>Aprofundamentos, </em>durante <em>Os Sete Sermões dos Mortos.</em> (JUNG, 2015, p. 459-460).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-representacao-de-abraxas-permeia-tres-mundos-o-mundo-de-baixo-o-mundo-do-meio-e-o-mundo-do-alto" style="font-size:19px">A representação de <em>Abraxas </em>permeia três mundos<em>: o mundo de baixo, o mundo do meio e o mundo do alto.</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Esses três mundos podem representar as fases <em>nigredo, albedo e rubedo</em>, bem como o processo de individuação, que tem como base a diferenciação. Ainda, no encontro imaginal de Jung no decorrer do <em>Livro Vermelho</em>  comparecem três personagens: <em>Elias, Salomé e a Serpente.</em> Elias representa a função pensamento, Salomé a função sentimento e a Serpente, uma dualidade que penetra vários objetos terrenos e também vai às profundezas, representando as funções sensação e intuição.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O entardecer, por sua vez, remete-nos para uma história interessante sobre a morte no Antigo Egito. Osíris era considerado o deus do julgamento, da vegetação e da ordem. Em Budge (1978, vol. I, p. 16-8), encontra-se um estudo sobre o <em>Mito de Osíris, </em>que envolve uma história de julgamento na <em>Sala das Duas Justiças</em> ou <em>Sala das Duas Verdades</em>, um local onde se estabelecia o contato entre o submundo dos mortos e o além, pela pesagem do coração que deveria ser mais leve que uma pena.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-disse-jung-profundeza-e-superficie-devem-misturar-se-para-que-surja-nova-vida-mas-a-nova-vida-nao-nasce-fora-de-nos-e-sim-dentro-de-nos-jung-2015-p-137" style="font-size:19px">Como disse Jung: “<strong>Profundeza e superfície devem misturar-se para que surja nova vida, mas a nova vida não nasce fora de nós, e sim dentro de nós</strong>” (JUNG, 2015, p. 137). </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Profundeza, superfície e nova vida também envolve uma tríade e simbolicamente pode representar nascimento, desenvolvimento e morte.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-entardecer-da-vida-pode-ser-vivido-de-varias-formas-alguns-se-tornam-velhos-as-outros-se-tornam-idosos-as" style="font-size:19px">O entardecer da vida pode ser vivido de várias formas. Alguns se tornam velhos (as), outros se tornam idosos(as).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">E não é apenas a idade cronológica que define um estado ou outro. Velho (a) é quem tende a se entregar para o desânimo e para a doença. Idoso (a) para a sabedoria, percorrendo caminhos desconhecidos com um propósito de vida, que é a grande diferença. Morfeu, da mitologia grega, é inspiração para descrever o sono profundo de indivíduos que negam o crescimento em todos os âmbitos e permanecem nos braços de Morfeu. Como já foi mencionado, é preciso desconstruir o que ocupa espaço para algo novo entrar! Apesar da presença de idade cronológica marcante e limitante em muitos aspectos, sempre há tempo para a renovação. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-cancao-o-filho-que-eu-quero-ter-revela-como-tudo-se-renova" style="font-size:19px">A canção <em>O filho que eu quero ter,</em> revela como tudo se renova:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px;line-height:1.4"><blockquote><p>É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer<br>Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer<br>Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr<br>E assim, chorando, acalentar o filho que eu quero ter (&#8230;)<br>E ao sentir, também, sua mão vedar meu olhar dos olhos seus<br>Ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus<br>Dorme, meu pai, sem cuidado, dorme que ao entardecer<br>Teu filho sonha acordado, com o filho que ele quer ter. </p><cite>(TOQUINHO; MORAES, 1979)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-contrario-de-morte-e-nascimento-e-vida-e-o-acontece-em-todos-os-momentos-durante-o-percurso" style="font-size:20px">O contrário de morte é nascimento e vida é o acontece em todos os momentos durante o percurso.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A vida é cíclica, tudo tem começo, meio e fim, para novos recomeços. Essa tríade pode alcançar a plenitude com um quarto elemento: a integração. É preciso resgatar a leveza da criança, conectar-se com o momento presente, aquietar a mente e ouvir a voz do coração. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Como na fala de Jung: “A<strong>s coisas pesadas não podem ser aliviadas se não se ligarem às leves, nem as coisas leves podem ser levadas ao fundo se não se ligarem às pesadas</strong>”. (JUNG, 2012, p. 99).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A afirmação envolve um constante processo de ressignificação de padrões, que resulta em mais alma nas vivências. É uma tarefa desafiante, porém possível. É preciso gerar ideias e coisas novas para melhorar a vida e o mundo, inspirados (as) no surgir da aurora. Que possamos fecundar e gerar um mundo melhor!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-que-nos-espera-no-entardecer-talvez-fernando-pessoa-tenha-respondido-com-o-poema-para-alem-da-curva-da-estrada" style="font-size:19px">E o que nos espera no entardecer? Talvez Fernando Pessoa tenha respondido com o poema <em>Para Além da Curva da Estrada</em>:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px;line-height:1.4"><blockquote><p>Para além da curva da estrada<br>Talvez haja um poço, e talvez um castelo,<br>E talvez apenas a continuação da estrada.<br>Não sei, nem pergunto.<br>Enquanto vou na estrada antes da curva<br>Só olho para a estrada antes da curva,<br>Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.<br>De nada me serviria estar olhando para outro lado<br>E para aquilo que não vejo.<br>Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.<br>Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.<br>Se há alguém para além da curva da estrada,<br>Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.<br>Essa é que é a estrada para eles.<br>Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.<br>Por ora só sabemos que lá não estamos.<br>Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva<br>Há a estrada sem curva nenhuma.</p><cite>PESSOA, F. 1997, p. 165</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Pode-se escolher a curva, a estrada ou ambas. Pode-se escolher viver melhor o momento presente. A vida com leveza é feita de escolhas mais assertivas: viver bem o hoje, criar um novo sentido e definir um propósito de vida, realizando assim a integração da tríade nascimento, desenvolvimento e morte, entre o surgir da aurora e do entardecer da vida.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Da Aurora ao Entardecer: o Desafio de Integrar a Tríade Nascimento, Desenvolvimento e Morte" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/_z8KkeNLofY?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Claci Maria Strieder – Membro Analista do</strong> <strong>IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Waldemar Magaldi Filho – Coordenador e Analista Didata do IJEP&nbsp;&nbsp;</strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-fontes-de-consulta" style="font-size:20px">Fontes de Consulta:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">ABREU, C. <em>Meus Oito Anos. &nbsp;</em>As Primaveras. São Paulo: Livraria Editora Martins S/A co-edição Instituto Nacional do Livro, 1972.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">ANDRADE, C. D. de. <em>Poesia e Prosa</em>. 8ª ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">BUDGE, E. A. W. <em>Osíris and the Egyptian resurrection</em>. Londres: Routledge &amp; Kegan Paul, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">JUNG, C. G. <em>Mysterium coniunctionis. </em>3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>_________ O espírito na arte e na ciência.</em> 8. ed. Petrópolis: Vozes: 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">_________ <em>O livro Vermelho:</em> edição sem ilustrações. 4. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">_________ <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">MAGALDI FILHO, W. <em>Dinheiro, saúde e sagrado</em>: interfaces culturais, econômicas e religiosas à luz da psicologia analítica. São Paulo: Eleva Cultural, 2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">NOGUEIRA, A.T. <em>As deusas na gravidez, parto e pós-parto</em>. Editora Simplíssimo, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">PESSOA, F. <em>Para Além da curva da estrada</em>. Vida e obras de Alberto Caeiro. 1 ed. São Paulo: Global, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">POSSI, L; CAMPOS, R. <em>Você sorriu pra mim.</em>&nbsp; Midas&nbsp;<em>Music,</em> 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">TOQUINHO; MORAES, V. O filho que eu quero ter. CD 10 anos de Toquinho e Vinícius. Philips/Universal Music, 1979.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>X Congresso Junguiano IJEP&nbsp;(9, 10, 11 Junho/2025) : Online e Gravado – 30h Certificação</strong></p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="532" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-1024x532.png" alt="" class="wp-image-10374" style="width:749px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-1024x532.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-300x156.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-768x399.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-150x78.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-450x234.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><em>30 palestras com os Professores e Analistas Junguianos do IJEP: Saiba mais e se inscreva</em>:<strong>&nbsp;</strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep">https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep</a></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Maturidade feminina: preste atenção, você está sendo testada</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/maturidade-feminina-e-a-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Euflausina Goes dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 May 2024 20:21:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[maturidade feminina]]></category>
		<category><![CDATA[meio da vida]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9056</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este texto explora os desafios enfrentados na maturidade feminina e a importância de abrir-se para novas possibilidades no entardecer da vida, conectando-se com o que ressoa em sua alma. Essa jornada envolve reconhecer demandas externas que já não têm relevância nesta fase da vida e as grandes descobertas podem ser fascinantes.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando  queremos  falar  sobre  a  maturidade  feminina,  prepare-se,  uma  onda  com a força de um maremoto se aproxima.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De  um  lado,  a  alma  clama  por  significado,  por  uma  maior  espontaneidade  e  sentido.  Por  outro,  há  uma  sensação  social  de  que  o  melhor  já  passou,  restando  apenas resignação e lamentação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No  entanto,  esta  reflexão  presente  busca  interromper  esse  ciclo.  É  crucial  respeitar a história que nos trouxe até aqui.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-analisando-o-desenvolvimento-da-vida-humana-percebemos-uma-semelhanca-com-o-caminho-do-sol-em-relacao-a-terra" style="font-size:20px">Analisando  o  desenvolvimento  da  vida  humana,  percebemos  uma  semelhança  com  o  caminho  do  Sol  em  relação  à  Terra. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nas  primeiras  horas  do  dia,  o  Sol  emerge,  irradiando  seu  brilho  e  intensificando  sua  força  até  alcançar  o  auge  ao  meio-dia.  Em  seguida,  sua  energia  diminui  conforme  avança,  num  processo  chamado enantiodromia, culminando no entardecer (Jung, 2013).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na  manhã  da  vida,  o  homem  é  como  um  jovem,  focado  em  suas  buscas  externas:  construir  uma  família,  trabalhar,  estudar,  alcançar  objetivos  materiais.  À  tarde,  naturalmente,  ele  começa  a  buscar  sentido  em  tudo  ao  seu  redor,  voltando-se  para  dentro. Numa  jornada  de  autoconhecimento  e  entendimento  do  Ser,  um  objetivo cultural (Jung, 2013).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p> “É  enorme  o  engano  de  supor  que  o  sentido  da  vida  esteja  esgotado  depois  da  fase  juvenil  de  expansão,  que  uma  mulher  esteja  “liquidada”  ao  entrar  na  menopausa.  O  entardecer  da  vida  humana  é  tão  cheio  de  significação  quanto  o  período  da  manhã.  Só  diferem  quanto  ao  sentido  e  intenção.”  (Jung, 2013, p. 86)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"> Essa  passagem  se  assemelha  à  adolescência,  sendo  uma  transição,  uma  segunda  puberdade.  No  entanto,  as  antigas  formas  de  resolver  conflitos  não  funcionam  mais  nesta  nova  fase,  que  é  um  processo  de  maturação  interna.  De  acordo com Jung (2013, p.87 ):</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p> “O  que  a  juventude  encontrou  e  precisa  encontrar  fora,  o  homem  no  entardecer da vida tem que encontrar dentro de si”.</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-contrariamente-ao-que-a-cultura-prega-na-maturidade-feminina-existe-um-campo-de-expansao-onde-a-psique-e-criativa" style="font-size:20px">Contrariamente  ao  que  a  cultura  prega,  na  maturidade  feminina,  existe  um  campo  de  expansão,  onde  a  psique  é  criativa. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A  proposta  deste  artigo  é  ampliar  o  campo  da  consciência  e  perceber  a  movimentação  que  pode  ser  criativa  para  as  formas  de  buscar  uma  maior  interiorização,  para  se  empoderar  com  o  que  faz  sentido e significado neste período da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por  meio  do  autoconhecimento,  é  importante  estar  ciente  de  como  vão  as  relações  com  as  áreas  da  vida,  como  o  trabalho,  a  expressão  do  amor  e  da  sexualidade  em  suas  relações,  a  interação  social  e  o  cuidado  com  a  saúde. De fato, o  lidar  com  essas  áreas  até  então  pode  ter  sofrido  uma  influência  gigantesca  do  externo,  com  o  que  os  outros  queriam  de  mim,  ou  o  que  é  considerado  adequado.  Mas  nesta  fase, o convite é: o que pode ter mais sentido para a minha alma?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-questao-nao-e-simples-de-responder-e-pode-surpreender-pode-ser-assustador-perceber-que-ate-o-momento-existe-uma-distancia-descomunal-de-si-mesmo" style="font-size:19px">Essa  questão  não  é  simples  de  responder,  e  pode  surpreender,  pode  ser  assustador  perceber  que  até  o  momento,  existe  uma  distância  descomunal  de  Si  Mesmo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"> A  meia  idade,  o  entardecer  para  Carl  G.  Jung,  é  um  período  fértil  na  vida  humana  trazendo  a  possibilidade  de  um  grande  encontro  com  o  Si-Mesmo.  Uma  nova  forma  de  ser  no  mundo  surge  pedindo  para  reconhecer  o  pedido  de  mudanças  e a morte de muitas maneiras existentes, é um não resistir, seguir o fluxo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, por  meio  de  uma  linguagem  simbólica,  a  mulher  pode  se  conectar  com  sua  essência  do  prazer  genuíno,  encontrando  assim  uma  conexão  com  sua  energia  vital. Ao  trazer  essa  singularidade  para  o  universo  feminino,  torna-se  importante  a  abertura  para  o  universo  simbólico,  bem  como  as  forças  arquetípicas. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-capacidade-de-simbolizar-e-atribuir-sentido-e-significado-a-propria-existencia-e-fundamental" style="font-size:20px">A  capacidade  de simbolizar e atribuir sentido e significado à própria existência é fundamental.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Muitas  vezes,  as  mulheres  não  reconhecem  as  forças  internas  que  clamam  por  um  sentido  maior  em  suas  vidas,  um  chamado  para  se  tornarem  protagonistas  de  suas  próprias  histórias.  A  conscientização  das  forças  estereotipadas  da  cultura  que  exercem  poder  sobre  elas  contrasta  com  as  energias  internas  necessárias  para  as  mudanças  no  entardecer  da  vida,  influenciando  suas  ações  e  emoções  no  mundo, segundo a autora Bolen, 2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As  mudanças  corporais  revelam  que  a  pausa  para  a  interiorização  e  a  tomada  de  decisões  conscientes  são  primordiais  nessa  jornada.  É  essencial  permitir-se  sentir  o  luto  pela  juventude. Abrir  espaços  para  as  emoções  que  emergem  e  buscar  intensamente  a  intuição  para  discernir  o  que  é  real  do  que  é  apenas um preconceito.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung  nos  alerta  para  o  período  do  entardecer  da  vida,  onde  as  conquistas  externas  perdem  parte  de  seu  valor,  e  buscar  a  consciência  de  que  nos  preparamos  para  a  finitude  se  torna  essencial,  dando  espaço  para  nos  conectarmos  com  nosso  universo interno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-passado-se-faz-presente-com-suas-repressoes-trazendo-mudancas-biologicas-que-anunciam-a-transicao-de-uma-fase-para-outra-e-o-futuro-permanece-como-uma-incognita" style="font-size:19px">O  passado  se  faz  presente  com  suas  repressões,  trazendo  mudanças  biológicas  que  anunciam  a  transição  de  uma  fase  para  outra,  e  o  futuro  permanece  como  uma  incógnita. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse  período  de  transição,  Jung  nos  mostra  que  é  repleto  de  significado,  e  as  reflexões  nos  conduzem  a  vislumbrar  um  futuro  mais  pleno  de  sentido e espontaneidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A  sabedoria  adquirida  no  convívio  com  outras  mulheres  maduras,  o  riso  compartilhado,  a  descoberta  de  novas  paixões  como  a  dança,  a  expressão  artística  ou  até  mesmo  uma  nova  profissão,  o  enfrentamento  e  elaboração  das  dores,  assim  como  o  processo  de  estar  em  sintonia  com  sensações  diferentes  em  nosso  próprio  corpo,  podem  servir  como  trampolins  para  uma  nova  vivência;  os  caminhos  são  infinitos. Porém,  o  mais  crucial  é  acreditar  que  novas  possibilidades  nesta  etapa  da  vida são viáveis e que as auto descobertas podem ser fascinantes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em  uma  era  de  mídias  sociais  que  idolatram  a  juventude  eterna,  que  promovem  a  constante  exibição  de  felicidade  e  alegria,  que  glorificam  um  corpo  sem  rugas  ou  marcas  do  tempo,  além  de  uma  cultura  patriarcal  que  valoriza  exacerbadamente  o  masculino  e  evidencia  um  flagrante  etarismo, é  possível  perceber  os  desafios  que  as  mulheres  enfrentam  para  encontrar  sua  própria  espontaneidade, sentido e significado pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os  riscos  de  prosseguir  na  trajetória  sem  reflexão, e  simplesmente  seguir  o  fluxo  imposto  pela  sociedade,  podem  resultar  em  um  vazio  existencial  que  se  intensifica  com  o  passar  dos  anos.  Junto  a  esse  vazio,  surgem  sintomas  diversos,  como um aviso do Self para mudar a rota.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"> O  desafio  reside  em  retornar  ao  que  verdadeiramente  ressoa  com  a  alma  fazendo  escolhas  conscientes  e  significativas, por  meio  do  autoconhecimento  das  transformações  do  corpo,  mente  e  espírito. É  não  permitir  ser  arrastada  pelas  demandas sociais, mas sim alcançar a plenitude durante o entardecer da vida.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: Maturidade Feminina: preste atenção, você está sendo testada" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/YqnM6b8IoMc?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/euflausina-goes-dos-santos/"> Euflausina Goes dos Santos – Membro Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong> <a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong> Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&nbsp;Jung CG. Psicologia do inconsciente, 23ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&nbsp;BOLEN JS. As deusas e a mulher: nova psicologia das mulheres. 8ª ed São</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"> Paulo: Paulus Editora, 2009</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e conheça nossos cursos e pós-Graduações:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Conheça também os <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">Congressos Junguianos do IJEP</a>! Online e gravados, uma ótima maneira de estudar a Psicologia Junguiana.</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img decoding="async" width="1024" height="414" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2024/05/image-1-1024x414.png" alt="" class="wp-image-9064" style="width:817px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/05/image-1-1024x414.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/05/image-1-300x121.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/05/image-1-768x311.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/05/image-1-150x61.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/05/image-1-450x182.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/05/image-1-1200x486.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/05/image-1.png 1500w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Mitos sobre o envelhecimento feminino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/envelhecimento-feminino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Nov 2023 14:07:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Contos de Fada]]></category>
		<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[amadurecimento]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8380</guid>

					<description><![CDATA[<p>Envelhecimento e morte são temas tabus, com cargas diferenciadas na sociedade ocidental, deixando de lado a riqueza dessa etapa da vida e o quanto podemos aprender com ela. Falar sobre os tabus da sociedade é uma forma saudável de nos melhorar como pessoas. Os mitos são fontes para simbolizarmos e ampliarmos questões psíquicas importantes. O presente artigo traz mitos relacionados ao envelhecer e reflexões sobre novas perspectivas para essa fase. Carl Gustav Jung nos fala que o entardecer da vida é uma fase mais reflexiva, com maior introspecção e contato com conteúdos internos, sejam memórias ou aquilo que desejamos e ainda não vivemos.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>O presente artigo traz mitos relacionados ao envelhecimento e reflexões sobre novas perspectivas para essa fase. </em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“A grande clareza e percepção, o grande amor que tem magnitude, o grande autoconhecimento que tem profundidade e amplitude, a expansão da aplicação refinada da sabedoria&#8230; tudo isso é obra em andamento, não importa quantos anos de vida a mulher tenha acumulado” (ESTÉS, 2007)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo a Organização Mundial de Saúde (2022), o&nbsp;envelhecimento saudável&nbsp;é um processo contínuo de otimização da habilidade funcional e de oportunidades para manter e melhorar a saúde física e mental, promovendo independência e qualidade de vida. Estima-se que em 2030, 1 a cada 6 pessoas terá 60 anos ou mais de idade. O envelhecimento vem atrelado a muitas intervenções, medicalização, altos custos, redução da qualidade de vida, doenças crônicas &#8211; aspectos considerados negativos. Saindo dessa abordagem tão egóica, a velhice é a fase da vida que nos possibilita nos reencontrar com aspectos que foram negligenciados devido as atribulações da vida, momento que já acumulamos muitas experiências e que nos permite nos aproximar mais do Self, ir ao encontro da nossa individuação e espiritualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O envelhecer é uma conquista da humanidade, e é reflexo de mudanças tecnológicas, ampliação de conhecimentos, políticas públicas voltadas para redução de doenças infecto parasitárias. Isso nos levou à redução da mortalidade por patologias e ao aumento da expectativa de vida, que chegou &nbsp;a 77 anos em 2021, segundo o IBGE (2023). Em paralelo, a redução do número de crianças, com a queda da fecundidade feminina, aumenta o processo de envelhecimento das sociedades em boa parte dos países do mundo. Será que estamos preparados? Será que o envelhecer de agora é o mesmo de antes ou será o mesmo no futuro?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Le Breton</strong> (2013) questiona em seu livro “<strong>Adeus ao corpo</strong>” sobre a relação que nossa sociedade estabelece com o corpo. Ele nos fala que os humanos têm uma fantasia de que abolindo o corpo, substituindo por uma máquina mais eficiente, seremos capazes de lutar contra a morte. <strong>ZIEGLER</strong> (2012, p. 27-28) menciona que “apesar de toda a vitalidade da vida, não podemos ignorar pelo menos uma quantidade mínima de decomposição inevitável. A natureza garante a morte, pois somos programados geneticamente para ter um fim”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-contos-de-fadas-o-feminino-mais-amadurecido-aparece-de-diferentes-formas-desde-a-fada-madrinha-a-bruxa-a-madrasta">Nos contos de fadas, o feminino mais amadurecido aparece de diferentes formas, desde a fada madrinha, a bruxa, a madrasta.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Mas existe algo em comum entre elas, uma força numinosa, com certo mistério, medo, admiração; uma alma mais independente na história</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos<strong> contos nórdicos e celtas</strong>, é muito comum a figura de uma <strong>velha sábia, feiticeira </strong>ou<strong> bruxa</strong> ajudar o herói em sua busca, normalmente em troca da gentileza do jovem para com ela.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Estés</strong> (2014, p. 41-44), apresenta o mito da <strong>La loba</strong> ou a <strong>Mulher Que Sabe</strong>. Ela é um símbolo da velha, ligado ao mundo mais sombrio e instintivo, se conecta a função do feminino de descobrir e cantar o hino da criação, realizado de forma solitária, no deserto da psique. Essa história é interessante e nos conecta com um feminino diferente da <strong>Grande Mãe</strong>, da <strong>Criança Divina</strong>, da <strong>Feiticeira, da Virgem, da Jovem, da Guerreira-heroína</strong> ou da <strong>Boba</strong>. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela se relaciona ao instinto feminino e a memória arquivada das intenções femininas. <strong>La Loba</strong> é um arquétipo ligado ao terreno psíquico mais enraizado e ao funcionamento do sistema imunológico. O que nos leva a crer que dependendo da relação psíquica com esse arquétipo, doenças imunológicas podem surgir. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em um conto Russo, <strong>Estés</strong> (2014, p. 96) relaciona a <strong>intuição</strong> (tesouro da psique feminina) à <strong>velha sábia</strong>, ou seja, que nos diz exatamente qual o problema e que caminho tomar. O conto da <strong>Vasalisa</strong> fala sobre a iniciação da mulher. E para ocorrer a iniciação, a jovem Vasalisa precisa encontrar a Baba Yaga, uma bruxa muito temida (muito citada em diferentes contos de fadas, como João e Maria, por exemplo). Baba Yaga fala para a menina que Saber demais envelhece as pessoas antes do tempo. Graças a intuição herdada de mãe para filha, Vasalisa consegue receber o fogo da Velha Mãe Selvagem, para que volte a aquecer sua casa interior. &nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nessa-jornada-a-primeira-fase-e-deixar-a-mae-boa-demais-morrer-ou-seja-tornar-se-alerta-sozinha-e-desenvolver-a-propria-conscientizacao" style="font-size:20px">Nessa jornada, a primeira fase é deixar a mãe-boa-demais morrer, ou seja, tornar-se alerta sozinha e desenvolver a própria conscientização.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na segunda parte, os aspectos sombrios precisam ser aprendidos (aspectos exploradores, ciumentos e rejeitadores do Self), são as falas internas: <strong>Você não sabe fazer isso, você não é boa nisso ou você é tola</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Baba Yaga representa um sentimento numinoso em relação ao poder intuitivo, o mistério, e para seguir a jornada, Vasalisa precisa confiar em seus instintos mais profundos e encarar a Megera Selvagem. Baba Yaga representa o poder da aniquilação e o poder da força da vida ao mesmo tempo. Vasalisa sobrevive a esse encontro demonstrando respeito diante de um poder extremo. Baba Yaga é uma mulher selvagem, disfarçada de bruxa em nossa psique. O termo<em> witch </em>em inglês deriva de wit, que significa sábio. Essa é uma parte importante do feminino que nos afasta da persona da mulher boazinha demais (ESTÉS, 2014, p. 98-112).</p>



<p class="wp-block-paragraph">No mito da <strong>Deusa Tríplice</strong>, as três facetas são compostas por Deméter (a mãe terra), por Hécate (deusa do mundo inferior ou subterrâneo) e por Perséfone &#8211; que transita entre os dois mundos, como um elo entre eles. Deméter é uma deusa mais amadurecida e se relaciona ao plantio do milho e as estações do ano, representando as forças naturais que se expandem na superfície da Terra. Hécate costuma ser representada como uma bruxa assombrosa, a personificação dos horrores do inferno. Contudo, ela é a guardiã do Mundo Inferior e a única com poder sobre os três reinos &#8211; o céu, o mar e a Terra (MCLEAN, 2020, p. 65-75). <strong>Ela é uma mediadora entre a luz e a sombra, assim como a Baba Yaga</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Essa percepção da figura de Hécate foi particularmente consolidada na psique ocidental durante o período medieval, quando a Igreja organizada projetou esse arquétipo em simplórias pessoas pagãs do campo que seguiam seus antigos costumes e habilidades populares ligados com a fertilidade.”</p>
<cite> (MCLEAN, 2020, pág. 77)</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-num-mundo-dual-a-perseguicao-ao-feminino-no-periodo-medieval-representou-o-temor-de-uma-deusa-triplice-de-um-feminino-mais-independente-em-relacao-ao-masculino" style="font-size:21px">Num mundo dual, a perseguição ao feminino no período medieval, representou o temor de uma deusa tríplice, de um feminino mais independente em relação ao masculino.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O povo <strong>Nambikwara</strong> possui um mito intitulado “<strong>A pele nova da mulher velha</strong>” (MUNDURUKU, 2004, p. 23-25). Nesse mito havia uma mulher muito velha (estima-se 165 anos) e todos se afastavam dela devido a sua velhice. Um dia ela teve um sonho de que poderia rejuvenescer usando colares, pulseiras, brincos, pintada com cores do urucum e do jenipapo, e até mesmo um cocar. Para produzi-lo, pediu ajuda de um jovem que passou a noite em sua casa para buscar penas para o cocar. Ao colocar todos os apetrechos, ela tirou sua pele velha e rejuvenesceu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, a pele ficou pendurada próxima ao rio e algumas crianças começaram a brincar e jogar flexas na pele pendurada. Ela viu e ficou desesperada com o estrago em sua pele velha e castigou os meninos, que ficaram velhinhos e morreram. Ela vestiu em seguida a pele velha e morreu também. Ninguém da aldeia quis chegar perto de seu corpo e uma cobra a velou, e por sua generosidade, a cobra ganhou a capacidade de mudar de pele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse mito reforça a ideia de que <strong>a velhice assusta</strong>, afastando as pessoas e gerando isolamento. O isolamento social costuma ser um fator de risco importante na terceira idade, com tendência a depressão e mesmo decrepitude pela falta de convívio com outras pessoas. A pessoa na terceira idade precisa de suporte biopsicossocial da família e amigos e o isolamento só maximiza os problemas enfrentados nessa fase. &nbsp;O medo do contágio das doenças é presente em nossa sociedade, um sentimento construído ao longo dos milênios, quando isolava-se os doentes dos sãos, com o objetivo de evitar o alastramento das doenças infecciosas, que incidiam mais no passado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa visão de que a velhice é uma doença, algo que assusta, nos remete a nossa própria finitude, como um espelho de que a vida corpórea tem um fim. Contudo, o conto nos mostra que a capacidade de trocar de pele é nossa capacidade de renovação, deixar morrer aspectos internos e externos que concluíram seu ciclo, que nos pede contato com a sabedoria, com o velho/a sábio/a que existe em nós e pode nos conduzir nesse processo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Chopra </strong>(1994, pág. 76-77) questiona as crenças sobre o envelhecimento e relata que estudos realizados por gerontologistas mostraram que pessoas que permanecem ativas a vida toda, inclusive acima dos 70 anos, faz cessar a perda de músculo e tecidos ósseos. A crença de que podemos envelhecer de forma mais saudável e ativa pode modificar nossa relação com nosso corpo, e de forma inconsciente absorve essa nova forma de pensar e de viver o envelhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As ideias de Chopra podem ser relacionadas aos estudos em epigenética, que observam como as ligações químicas de longa duração que regulam nossos genes respondem ao ambiente, à alimentação, aos poluentes que somos expostos, as interações sociais, e por que não, às nossas crenças. Essa interação entre os genes e o meio mostram que a carga genética não nos define unicamente, mas a nossa interação com o mundo sim, pode ativar ou desligar genes, inclusive aqueles relacionados a manutenção da saúde e prevenção de doenças (Francis, 2015, pág. 9).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-mulheres-com-40-e-50-anos-e-ate-mais-nao-se-identificam-com-o-rotulo-social-de-mulheres-de-meia-idade-que-supostamente-as-identificaria" style="font-size:20px">As mulheres com 40 e 50 anos (e até mais) não se identificam com o rótulo social de “mulheres de meia idade”, que supostamente as identificaria.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na plenitude de sua vida, se recusam a serem definidas pela sua idade, incluindo um novo conceito de <em>ageless</em>, por serem inclassificáveis. Essa perda da força da importância do rótulo social vinculado à idade, as mantém motivadas, interessadas e com projetos de vida (Pereira &amp; Jaeger, 2018). Quando se fala em velhice, o cinza e preto estão associados, contudo, somos uma paleta extensa de cores e luz, não podemos nos ater a monocromia e a preconceitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O amadurecimento vem seguido pela velhice, e depois ao encerramento do ciclo, a morte do corpo que nos habitou. O que ocorre após a nossa morte é um grande mistério, e como tudo que não conhecemos nos amedronta em primeira mão. É natural que o final do ciclo da vida venha com um peso. Por isso, muitos se agarram com afinco à ideia da juventude. Ser jovem é um estado de espírito, uma conexão com nossa criança interior, que nos leva para a criatividade, curiosidade em relação ao mundo, a conexão com inconsciente, ao desejo por novos projetos, ao movimento e a circulação de energia. Jung (2014, pág. 180) nos fala que a criança não é apenas um ser do começo, mas também um ser do fim. O ser do começo existiu antes do homem e o ser do fim, continua depois dele. A criança simboliza a essência humana pré-consciente (primeira infância) e a vida pós-consciente (vida além da morte).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Temos uma voz instintiva, inconsciente, que se recusa a ser silenciada. Alguma coisa nega adaptar-se às exigências do ego. Se não for ouvida e atendida, a própria vida pode estar correndo risco. O anseio espiritual, ou se torna amigo do ego e com ele comunga as benesses da vida, ou se torna mais bélico que um inimigo e desfecha um contra-ataque contra a vida. Em algum momento temos que decidir que lado tomar, nos unir aos demônios e lutar contra os deuses, ou ajustar nossos valores conscientes para entrar em harmonia com as exigências divinas (WOODMAN, 2002, p. 28). Ou seja, quando decidimos ir contra os deuses, eles se tornam doenças que podem mesmo nos levar à morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diversos contos de fadas e mitos falam sobre a juventude eterna: a pedra filosofal que daria vida eterna com seu elixir; o santo graal, quem bebesse dele poderia viver eternamente; vampiros que sugam o sangue de outras pessoas para se manterem “vivos”; bruxas que matam crianças para se manterem jovens e belas: fontes da vida, quem bebesse de suas águas seria imortal; anéis de poder que prolongam a vida; magia negra com rituais macabros e pactos com o diabo. Em geral, a imortalidade tem um preço a ser pago, seja a vida de outras pessoas, a perda da fertilidade, a sanidade mental ou a entrega da alma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-conexao-com-o-sagrado-talvez-assuste-a-muitos-pois-entramos-em-campo-desconhecido-que-se-aproxima-de-questoes-metafisicas-que-muitos-preferem-passar-toda-vida-sem-entrar-em-contato" style="font-size:19px">A conexão com o sagrado talvez assuste a muitos, pois entramos em campo desconhecido, que se aproxima de questões metafísicas que muitos preferem passar toda vida sem entrar em contato.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O ditado &#8211; “A ignorância é uma benção” &#8211; relaciona-se ao confortável e fácil. Isso é bem verdade, viver na inconsciência, junto ao rebanho exige menos do ser humano. Tornar-se consciente demanda esforço, confrontos com o misterioso e sombrio em nós, gera incômodo. Entrar em contato com a Baba Yaga, com Hécate e com Sofia pode dar arrepios na nuca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Elas vão te olhar nos olhos com profundidade de quem sabe das coisas, e seremos como Inana descendo aos infernos. Elas nos querem nuas, sem adornos, vestimentas, personas, até chegarmos ao vazio, ao caos e a morte. De lá, vamos precisar de nossos instintos adormecidos para sermos capazes de discernir o que é bom para nós, ter forças para decidir que vida queremos e transcender, alcançando um novo lugar, com novas vestes e em contato com outras energias psíquicas.&nbsp; </p>



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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/michellacechinel/">Michella Paula Cechinel Reis</a></strong> – Mestre e Analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>E. Simone Magaldi</strong> </a>-Doutora e Membro Didata do IJEP</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BRASIL, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (c). <em>Tábuas completas de mortalidade</em>. Disponivel em: <a href="https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&amp;id=73097">https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&amp;id=73097</a>. Acessado em: 14 de fevereiro de 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CHOPRA, D. <em>Corpo sem idade, mente sem fronteiras</em>: a alternativa quântica para o envelhecimento. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ESTÉS, C.P. <em>Mulheres que correm com os lobos</em>: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. 1 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ESTÉS, C.P. <em>A ciranda das mulheres sábias</em>: ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANCIS, R.C. <em>Epigenética</em>: como a ciência está revolucionando o que sabemos sobre hereditariedade. 1 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. <em>A natureza da psique</em>: a dinâmica do inconsciente. 10 ed. Petrópolis, Vozes, 2013-a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 11 ed. Petrópolis, Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LE BRETON, D. <em>Adeus ao corpo</em>: antropologia e sociedade. 6 ed. Campinas, SP: Papirus, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MCLEAN, A. <em>A deusa tríplice</em>: em busca do feminino arquetípico. 2 ed. São Paulo: Ed. Pensamento Cultrix, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MUNDURUKU, D. <em>Contos indígenas brasileiros</em>. 2 ed. São Paulo: Global, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, E. <em>A Grande Mãe</em>: um estudo fenomenológico da constituição feminina do inconsciente. 5 ed. São Paulo: Cultrix, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PEREIRA, B.S.; JAEGER, A.A. <em>Mulheres que desafiam o envelhecimento e o questionamento dos estereótipos de gênero</em>. Seminário Corpo, Gênero e Sexualidade. Rio Grande do Sul: Ed. Da FURG, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WHO, Organização Panamericana de Saúde. <em>Envelhecimento saudável</em>. Disponível em: https://www.paho.org/pt/envelhecimento-saudavel.Acessado em 01 de outubro de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WOODMAN, M. <em>O vício da perfeição</em>: compreendendo a relação entre distúrbios alimentares e desenvolvimento psíquico. São Paulo: Summus Editorial, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZIEGLER, A.J. <em>Medicina arquetípica</em>. São Paulo: Paulus, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>
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		<title>Reflexões sobre o Amadurecimento Feminino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/amadurecimento-feminino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Sep 2023 12:17:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
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		<category><![CDATA[Epigenética]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo trás reflexões sobre algumas dificuldades encontradas pelas mulheres no seu processo de amadurecimento.<br />
As mudanças corporais são visíveis diante do espelho, como rugas, melasma, flacidez, perda de colágeno e massa muscular, além de desgaste nas articulações e coluna, osteoporose, menopausa, queda da vitalidade, entre outros.<br />
As mudanças também ocorrem no mundo interno e somos<br />
convidadas a olhar aspectos mais inconscientes, guardados nas sombras. O que antes cabia como personas e atitudes, talvez já não caiba mais nessa etapa o que traz reflexões sobre o futuro.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Como amadurecer de modo saudável?</em> </strong>A imagem pessoal e corporal é construída desde antes de nascermos, quando estamos imersos no inconsciente materno. Jung nos fala que <strong>não nascemos como uma página em branco</strong>, como muitos pensam, e faz sentido sua fala quando olhamos para os reflexos e instintos já existentes no bebê desde seu nascimento. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Soma-se a isso estudos em epigenética que vão ao encontro da teoria junguiana e falam sobre a influência do meio sobre a genética humana. Os genes que nos constituem podem ser ligados ou desligados conforme as circunstâncias e a nossa necessidade de adaptação, o que nos leva a pensar que o envelhecimento também pode ser modificado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung em suas obras fala sobre a <strong>metanoia</strong>, que seria o entardecer da vida, quando cruzamos o pico de nossas vidas e começamos uma curva descendente, em rumo ao envelhecimento e a morte. Complexos estão atuando nessa fase da vida, que chamamos de segunda metade, e que tem se tornado cada vez mais tardia com o prolongamento da expectativa de vida. <strong>A meia vida que ocorria aos 35 anos, hoje ocorre entre 40 e 45 anos.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-amadurecimento-da-mulher">Amadurecimento da mulher</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O amadurecer para mulher representa o cessar do período reprodutivo chamado<strong> menopausa</strong>, promovendo muitas alterações físicas e psíquicas, com diversos sintomas, como calores ou fogachos, alterações bruscas de humor, melancolia, alterações hormonais que levam a ressecamentos do corpo e mucosas, perda acentuada de massa muscular, aumento do risco cardiovascular e assim por diante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na realidade, o amadurecimento, processo natural da vida biológica, pode ser encarado de maneiras muito distintas. Desde a aceitação e aprendizado até uma paralisação em comportamentos infantilizados (complexo de <em>puella</em>)*.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhando simbolicamente os hormônios produzidos pelas mulheres, podemos depreender que o comportamento mais maternal pode ser relacionado à progesterona, o comportamento mais sensual com o estrogênio e o comportamento testosterônico mais sexual. Muitas mulheres que na juventude tinham um padrão de comportamento mais sensual, podem buscar na metanoia um padrão mais maternal; e vice-versa. É um período de mudança de paradigmas, revisão de comportamentos e vivências; com grande possibilidade de guinadas de vida, em diferentes aspectos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-envelhecimento-x-sonho-de-imortalidade">Envelhecimento x Sonho de imortalidade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um grande volume de produtos com objetivo de retardar o envelhecimento aquecem o mercado: cosméticos anti-idade, massagens, procedimentos, polivitamínicos, tratamentos hormonais, intervenções cirúrgicas e estéticas, entre outros. E ao final, quem lucra mais? As companhias e profissionais de saúde, ou aqueles que se endividam para consumir um <strong>sonho de se tornar imortal</strong>. Observamos um enfoque no combate ao envelhecimento como algo que precisa ser derrotado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Chopra (1994, p. 10) questiona o paradigma do envelhecimento criado pela humanidade. O amadurecer é vivenciado de acordo com a crença coletiva que nos condiciona. Se acreditamos que envelhecer é sinônimo de adoecimento e decrepitude, essa será a vivência que teremos. Entretanto, corpo e alma são parte do mesmo ser, um proporciona as relações objetivas com o mundo, e o outro proporciona vivências subjetivas, como os pensamentos, sentimentos e desejos. Se mudarmos nossa percepção, mudaremos nossa experiência com o corpo e com o mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A maturidade pode vir associada ao adoecimento físico e psíquico, embora não haja idade para isso. O que ocorre é o aumento ou predisposição ao adoecimento em decorrência das relações estabelecidas com o mundo externo (trabalho, comportamento social, familiar, autocuidado, influências do meio ambiente etc.), e com o mundo interno (desenvolvimento intelectual, cultural, psíquico e emocional).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-corpo-fisico-e-envelhecimento">Corpo físico e envelhecimento</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A nível celular, as coisas que nos trouxeram sofrimentos ou alegrias estão presentes. E mesmo situações estressantes, que já foram esquecidas, deixam marcas e reações, que constituem o que somos (CHOPRA, 1994, p. 24).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Ramos</strong>: “a doença orgânica é uma reação do organismo, uma compensação, com a finalidade de levar o indivíduo a integrar o reprimido, religar o ego ao seu eixo com o Self”  (2018, p. 73). Por seu turno, conforme  <strong>Dahlke</strong> : “os sintomas são manifestações da sombra muito acessíveis devido ao fato de terem emergido das profundezas da alma para a superfície do mundo corpóreo, tornando-se assim excepcionais indicadores do caminho da perfeição.” (2007, p. 19)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logo, a sombra constitui-se de conteúdos inconscientes que muitas vezes não queremos olhar, e quando somatizamos esses conteúdos em nossos corpos, ocorre uma espécie de desvio de energia, pois ficamos presos às dificuldades físicas e poupamos a energia necessária para aproximarmo-nos da sombra em questão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em resumo, o adoecimento entra em nossa jornada para nos ajustar, trazer oportunidades de aprendizado, mas não descartamos os resultados das práticas de saúde incorporadas durante a vida, como exercícios físicos, alimentação equilibrada e regularidade de sono.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-autocuidado-e-essencial-para-termos-uma-boa-saude-o-processo-de-amadurecer">O autocuidado é essencial para termos uma boa saúde: o processo de amadurecer</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se acreditamos que a vida não vale muito, é pesada, um sacrifício, o corpo entenderá o recado e pode trazer retorno às crenças que possuímos. Se acreditamos que a vida deve ser vivida, com alegria e leveza, a energia psíquica se apresenta de outra forma. Crenças e valores auxiliam na construção ou desconstrução que eu possa vir a experienciar, se considerar que somos energia e informação, como as pesquisas em física quântica vem evidenciando. A epigenética é uma área em franco crescimento, que estuda as influências externas ao ambiente celular e genético. A modulação gênica é complexa e influenciada pelo meio e a forma que vivemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Georg Grodeck </strong>apud<strong> Dahlke</strong> (2007, p. 292): “<em>a torrente de comprimidos coloridos que serve de prevenção à cinzenta velhice hoje em dia mostra que a medicina moderna concebe os sinais de velhice como sintomas de uma doença digna de ser combatida</em>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É interessante essa unilateralidade da nossa época, com fixação na juventude e, ao mesmo tempo, com envelhecimento de boa parte dos países. Os impactos desse envelhecimento populacional em termos socioeconômicos podem ser metrificados. Contudo, <strong>os impactos no inconsciente não podem ser medidos de forma direta, mas sentidos pelo consciente como afetos ou incômodos, intuições, sonhos ou sentimentos</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Coletivamente, nas sociedades ocidentais, o que se propaga sobre a mulher mais madura? Podemos resumir em uma palavra: perfeição. <strong>A mulher madura precisa se manter jovem e atraente, ser bem-sucedida, independente, ter filhos bem-educados, um marido e u</strong>ma <strong>casa, um corpo atlético, andar muito bem</strong> <strong>vestida e ser reconhecida pela comunidade</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Será que essa é a busca para todas as mulheres? Ou podemos ter chamados diferentes? Poderíamos dizer que é exigido que a mulher madura atinja o ápice de uma heroína, a <strong>mulher maravilha</strong>, que luta incansavelmente sem quebrar nenhuma unha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sintomas-que-surgem-no-amadurecimento-feminino">Sintomas que surgem no Amadurecimento Feminino</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, desejar é uma coisa, obter é outra. Alguns sintomas podem surgir com o avanço da idade, como a osteoporose ou descalcificação dos ossos. É como se o próprio corpo pedisse um outro ritmo de vida, com mudança de enfoque. O aparecimento de barba (pelos no rosto das mulheres) após a menopausa pode ser um sinal de que precisamos dar atenção ao polo masculino. Com a queda dos hormônios femininos, aspectos masculinos podem vir à tona, indicando que o animus deve se realizar em planos mais sutis, como o espiritual, por exemplo (DAHLKE, 2007).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outros sintomas físicos podem ser vivenciados com o amadurecimento. Simbolizando essa necessidade premente de conexão com o mundo interno, como a presbiopia, o desgaste das articulações do corpo, a surdez e a mudança da pele (Melasma, rugas e flacidez). O mal de Alzheimer, com incidência entre 50 e 60 anos, acomete principalmente as mulheres. E por fim, a crise da meia-idade, muito comum, reflete um desacerto ou descompasso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No momento em que a pessoa deveria harmonizar sua criança interna com a sabedoria alcançada ao longo da vida, o que vemos com certa frequência é uma regressão ou infantilidade. Uma recusa por visualizar outras camadas, mais sutis, interiores – as sombras e luzes ignoradas até o momento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-autocuidado-e-busca-de-sentido-no-envelhecimento-sadio">Autocuidado e busca de Sentido no envelhecimento sadio</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Reitero que o objetivo desse artigo não é estimular o desleixo e falta de cuidado com o corpo e com a saúde. Ao contrário disso, nós mulheres podemos envelhecer sim, com dignidade, respeito aos nossos limites e desejos, com autocuidado, amorosidade e aceitação. É importante vivermos com saúde e bem-estar físico, financeiro, psíquico e espiritual. Entretanto, podemos encontrar espaços para reflexões sobre as exigências feitas pela sociedade de consumo vigente ou feitas por nós mesmas. O que estamos nos impondo? É algo realmente nosso ou vem de fora, de um lugar mais coletivo? E para quê ou para quem? Estamos felizes assim?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>James Hollis</strong> (1995) trata da busca de sentido para a vida e das transformações pelas quais somos levados nessa fase (a famosa crise dos quarenta). As projeções em relacionamentos com o outro perdem força e podemos entrar em contato com conteúdos inconscientes, num convite para a conexão com o Si Mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A meia idade é um período de muitas mudanças – físicas, psíquicas, na vida profissional ou nos relacionamentos. Mas, acima de tudo, é uma fase de amadurecimento e que podemos nos questionar sobre o que foi vivido até ali, e a quem pertence, pois muitas de nós vive a vida não vivida dos pais, compensando questões familiares.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-e-o-meio-da-vida">Jung e o meio da vida</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung (2013, p. 351), fala que ao nos aproximarmos do meio da existência, com atitudes pessoais e posição social mais estabelecidas, cresce em nós o sentimento de haver descoberto o verdadeiro curso da vida, princípios e ideais de comportamento, o que nos leva a ficar presos a eles.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sao-muitos-os-aspectos-da-vida-que-poderiam-ser-vividos-e-jazem-depositados-nas-sombras-do-inconsciente">São muitos os aspectos da vida que poderiam ser vividos e jazem depositados nas sombras do inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Mas ao atingirmos o ponto mais alto de nossa vida, entramos em outro movimento, de descida, e os princípios que antes faziam sentido, podem começar a endurecer, levando ao fanatismo, intolerância, ou a sensação de insegurança. É muito comum a projeção em ameaças externas nessa fase, afastando o indivíduo de olhar os conteúdos que estão pedindo licença para emergir.</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-large is-style-modern has-small-font-size"><blockquote><p>“Todos os distúrbios neuróticos da idade adulta têm em comum o fato de quererem prolongar a psicologia da fase juvenil para além do limiar da idade do siso.”</p><cite><em>JUNG, 2013, p. 352</em></cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Ele menciona que entramos totalmente despreparados na segunda metade da vida, com a falsa suposição que nossas verdades e ideais continuarão como antes. Não podemos viver a tarde de nossa vida com a programação da manhã” (JUNG, 2013, p. 355).</p>



<p class="wp-block-paragraph">E nesse momento, o que chamamos de<strong> crise da meia idade</strong> vem à tona. É, em suma, um chamado para o contato com o mundo interno, para olhar outras questões, como a espiritualidade, os potenciais criativos deixados de lado. Esse período de transformação do meio da vida, Jung chamou de metanoia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-pela-eterna-juventude">A busca pela eterna juventude</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O conto da <strong>Branca de Neve</strong> representa bem essa ideia de resistência ao amadurecimento. A madrasta, que chega na meia idade, fica rivalizando com a enteada jovem e bonita (Branca de Neve), competindo com sua juventude. Sua dificuldade em aceitar as mudanças vindas com o tempo fica evidente nos diálogos que ela tem com o espelho, ou sua imagem. E a trama mostra que a projeção na enteada, fruto de sua insatisfação consigo mesma, leva a um caminho desastroso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A desconexão do eixo ego-self e o medo do envelhecimento a paralisa em um comportamento, o complexo de <em>puella </em>ganha força, uma obsessividade em matar a jovem donzela externa ao invés de deixar morrer as demandas da primeira fase da vida, impedindo-a de viver com leveza e plenitude seu processo de amadurecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro aspecto que clama por atenção é a identificação com o masculino. Ao longo da vida, muitas mulheres se afastaram do feminino mais profundo, lidando com as questões da rotina, se identificando com a energia do pai ou masculina. Essa energia mais masculina normalmente é exigida pelo mundo do trabalho e fazem sentido quando estamos construindo nossas vidas. Contudo, depois dos 40 anos estamos mais estabelecidas e uma sensação de ausência ou vazio começa a despontar. Essa fase convida para reconexão com as forças da grande Mãe, como fonte de energia, possibilidades, criatividade, viabilizando novos projetos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-arquetipo-da-meia-idade">O arquétipo da meia-idade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Brewi &amp; Brennan (2004, p. 10-11), a meia-idade é tão arquetípica como a gestação, a crise da adolescência, a transição e a morte. As três perspectivas arquetípicas da espiritualidade na meia-idade compõem-se de: a <strong>Sombra</strong>, a <strong>Criança</strong> e a <strong>Sabedoria</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Sombra representa as experiências não vividas ou desconhecidas, ora assustadoras, ora estimulantes. É um momento de confronto entre a vida não vivida por nós e aquela que de fato aconteceu. A Criança nos lembra de nossa capacidade de admiração e contemplação: é a Sábia Mulher Velha em potencial. A conexão com a criança divina proporciona leveza, humor e flexibilidade. Por final,a Sabedoria nos permite lidar com as ambiguidades e paradoxos em busca de unidade e integração das dualidades. A Sabedoria é nossa capacidade de discernimento e compreensão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-etapas-de-transicao">Etapas de transição</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso ciclo humano é constituído de nascimentos e mortes. A transição da meia-idade não é somente uma movimentação da juventude para a meia-idade. Ela é a retirada da energia psíquica de tarefas, objetivos e valores que eram importantes na primeira metade da vida. Essa etapa nos chama para uma jornada interna, para a aventura de integração de conteúdos inconscientes da psique com a consciência. O processo de integração e completude deve fluir na segunda metade da vida, nos preparando para o processo de morte e nosso quarto e último nascimento. O nascimento em direção à vida eterna (Brewi &amp; Brenan, 2004, p. 41-42).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mulher que consegue superar as etapas da jornada, se reconectando com o feminino, olhando para suas sombras e acolhendo-as, se aproxima de Sofia ou a sabedoria. E Sofia nos mostra que temos o sagrado e profano em nós, somos paradoxais, e com essa consciência, seremos capazes de escolher o que faz sentido dali para frente, e aquilo que já pode ser deixado de lado. O processo de autoconhecimento é contínuo, havendo a possibilidade de alcançarmos outros patamares do estado de consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>E a cada mergulho e retomada que somos capazes de fazer, um novo conteúdo pode ser adicionado ou revisitado. Essa é a beleza da vida, a eterna capacidade de crescimento humano, seja individualmente, seja de forma coletiva.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/michellacechinel/">Michella Paula Cechinel Reis</a> &#8211; Mestre e analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Ercília Simone Magaldi</a> – Doutora e membro didata do IJEP</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Reflexões sobre o Amadurecimento Feminino" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/V2LC6oLouPs?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><a>Referências</a></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BREWI, J.; BRENNAN, A. <em>Arquétipos junguianos</em>: a espiritualidade na meia-idade. São Paulo: Ed. Madras, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CHOPRA, D. Corpo sem idade, mente sem fronteiras: a alternativa quântica para o envelhecimento. Tradução Haroldo Netto. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DAHLKE, R. <em>A doença como linguagem da alma</em>: os sintomas como oportunidades de desenvolvimento. São Paulo, Cultrix, 2007, pág. 292-317.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. <em>A passagem do meio</em>: da miséria ao significado da meia idade. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. <em>A natureza da psique</em>: a dinâmica do inconsciente. 10 ed. Petrópolis, Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RAMOS, D.G. <em>A psique do corpo</em>: a dimensão simbólica da doença. 6 ed. São Paulo: Sumus, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



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		<title>A formação junguiana como “rito de passagem” para o homem na metanoia</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/metanoia-formacao-junguiana-rito-passagem/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Wagner Borges]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Dec 2022 09:12:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=6945</guid>

					<description><![CDATA[<p>A crise da meia-idade ou metanoia não é uma invenção e, sob o prisma da psicologia analítica de C. G. Jung, costuma estar associada à dificuldade para encontrarmos um significado para o ocaso de nossa vida. Jung escreve: “Só aquele que se dispõe a morrer conserva a vitalidade, porque, na hora secreta do meio-dia, se inverte a parábola e nasce a morte.” Como encontrar significado no poente de nossas jornadas? A formação em psicologia analítica pode nos ajudar nessa íntima busca?</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Ao longo de nossa existência, precisamos passar por transformações estruturais em nossas personalidades; transformações que são, a um só tempo, anímicas e fisiológicas: transformações arquetípicas (Cf. BRENNAN e BREWI, 2004, p. 38).</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-assim-ao-passarmos-da-infancia-a-adolescencia-da-adolescencia-a-juventude-da-juventude-a-meia-idade-e-da-meia-idade-ao-fim-da-vida-cf-jung-2013a-756-7-8" style="font-size:19px">É assim ao passarmos da infância à adolescência, da adolescência à juventude, da juventude à meia-idade e da meia-idade ao fim da vida (Cf. JUNG, 2013a, §756-7-8)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Psicologicamente falando, tratam-se de mudanças significativas de mentalidade, verdadeiras mortes e renascimentos. É preciso “morrer” como criança para “nascer” jovem; “morrer” como jovem para “nascer” para a meia-idade e, assim, tomar o rumo da velhice (Cf. HOLLIS, 2020, p. 20). No caso específico da mudança que se vive na meia-idade, podemos chamar também de metanoia. Jung a entende como uma transmutação psíquica significativa a partir de um relevante e profundo acréscimo de consciência. Sua finalidade seria livrar o homem do “pecado” da ignorância, da inconsciência (Cf. JUNG. 2011a, §299).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em linhas gerais, essas diferentes etapas da vida exigem, sempre, uma “nova consciência”. A criança, na adolescência, começa a se abrir para o mundo, para as relações que extrapolam o círculo familiar. É preciso, ao se tornar um jovem adulto, conquistar seu lugar no mundo: ter uma profissão, segurança financeira, relações sociais consistentes etc. Esse é o chamado da natureza (Cf. JUNG, 2013a, §769).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ja-na-meia-idade-segundo-jung-2013a-778-o-sol-comeca-a-declinar-e-este-declinio-significa-uma-inversao-de-todos-os-valores-e-ideias-cultivados-durante-a-manha-a-luz-e-o-calor-diminuem-e-por-fim-se-extinguem" style="font-size:19px">Já na meia-idade, segundo Jung (2013a, §778): “o Sol começa a declinar e este declínio significa uma inversão de todos os valores e ideias cultivados durante a manhã [&#8230;] A luz e o calor diminuem e por fim se extinguem”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No meridiano da existência, para <strong>Jung</strong> (2013a, §800), “<strong><em>só aquele que se dispõe a morrer conserva a vitalidade, porque, na hora secreta do meio-dia, se inverte a parábola e nasce a morte”. Para ele, “a segunda metade da vida não significa subida, expansão, crescimento, exuberância, mas morte, porque o seu alvo é o seu término</em></strong>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-aceitar-esse-fato-assim-como-se-recusar-a-conquistar-seu-lugar-no-mundo-na-juventude-equivale-a-nao-querer-viver" style="font-size:19px">Não aceitar esse fato, assim como se recusar a conquistar seu lugar no mundo na juventude, equivale a não querer viver.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A metanoia não tem um marco etário preciso, varia de psique para psique — e neste artigo, vale o registro, tratamos mais diretamente da psique masculina. Tampouco é certo que se dê, na prática, em todas as pessoas. Ainda assim, pela experiência é possível afirmar que tende a acontecer entre os trinta e quarenta e cinco anos de vida. Seja quando for, a metanoia não é uma experiência trivial, ainda mais em uma sociedade que supervaloriza as qualidades da juventude, desvaloriza a velhice, superestima o racionalismo, os bens materiais e despreza a espiritualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Há pelo menos sete ou oito décadas, Jung já havia notado o impacto do racionalismo da civilização ocidental sobre seus indivíduos e considerava que as <a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-51132694">depressões</a> e <a href="https://exame.com/ciencia/ansiedade-chega-ao-ponto-maximo-entre-os-40-e-60-anos/">crises de ansiedade</a>, comuns na meia-idade em nosso mundo, eram frutos da ruptura entre o homem moderno e a sua própria religiosidade (Cf. JUNG, 2013a, §790). <strong>E por que essa cisão teria tal impacto sobre a psique humana</strong>?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-onde-vem-o-chamado-a-transmutacao" style="font-size:19px"><strong>De onde vem o chamado à transmutação</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nossa psique, na visão junguiana, não se constitui apenas de consciência e inconsciente pessoal — este, fruto de vivências e memórias reprimidas da consciência. Jung (2011b, §3) desenvolveu a tese do inconsciente coletivo: “optei pelo [termo] ‘coletivo’ pelo fato de o inconsciente não ser de natureza individual, mas universal”, possuindo “conteúdos e modos de comportamento” que são “os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos.” A tais conteúdos, Jung deu o nome de arquétipos, que seriam as imagens primordiais que nos habitam.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung (2013a, §794) escreve que tais símbolos “são as matrizes de qualquer pensamento que nossa consciência seja capaz de cogitar”. As religiões e os mitos são constituídos dessa mesma “matéria” e foi justamente por causa de um profundo estudo de religião comparada, da experiência que teve em hospitais psiquiátricos e do exercício da psicologia clínica que Jung constatou que tais símbolos, mesmo que mudem na forma, entre diferentes povos e pessoas, têm a mesma essência. A ideia de uma vida após a morte seria, para Jung, um desses pensamentos primordiais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Segundo ele, o racionalismo de nosso mundo contribui para que as pessoas, sobretudo na meia-idade, vivam um sofrimento psíquico fruto da negação da própria e natural espiritualidade. Isso é especialmente comum na população mais culta&nbsp;&nbsp;(Cf. JUNG, 2013a, §790), porque a adesão a uma religião coletiva não costuma funcionar para elas. Os cultos e ritos das igrejas, muitas vezes, não lhes causam o efeito numinoso necessário para despertá-las para a atitude religiosa fundamental na meia-idade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-o-valor-da-atitude-filosofico-religiosa" style="font-size:19px"><strong>Sobre o valor da atitude filosófico-religiosa</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Mas, afinal, o que seria essa atitude? “Encaro a religião como uma atitude do espírito humano, que, de acordo com o emprego originário do termo:&nbsp;<em>religio</em>, poderíamos qualificar a modo de uma consideração e observação cuidadosas de certos fatores dinâmicos conhecidos como ‘potências’” (JUNG, 2012, §8). Por potências, Jung quer dizer complexos e arquétipos. Sobre esses conteúdos é que o indivíduo deve se debruçar com religiosa dedicação para compreender que mensagens sua natureza traz.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Vale dizer que os complexos são conteúdos do inconsciente pessoal com um núcleo arquetípico e se constituem de imagens de determinadas situações psíquicas de forte carga emocional (Cf. JUNG, 2013a, §201). São nessas imagens, que se manifestam de diversas formas, inclusive em sonhos, mas também em visões, realizações artísticas e outras experiências, que precisamos encontrar os símbolos que nos levarão a integrar aspectos valiosos do inconsciente à consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para mostrar a necessidade psicológica do homem de estar sob os desígnios dos “princípios simbólicos”, Jung (2013a, §788) recorre a exemplos de povos tradicionais, que, a seu ver, em virtude de uma relação mais integrada com a natureza, compreendem mais naturalmente o papel do indivíduo na segunda metade da vida: “Nas tribos primitivas, observamos que os anciãos quase sempre são guardiões dos mistérios e das leis, e é através destas, sobretudo, que se exprime a herança cultural da tribo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Além de toda a experiência acumulada, esses anciãos estão mais próximos da morte física, da vida espiritual e coletiva do inconsciente. É possível dizer que, para eles, o mundo onírico, que em grande medida se confunde com o mundo vígil, é uma espécie de templo no qual é possível integrar o indivíduo ao todo, justamente por reservar, ao mistério, um papel inestimável e insubstituível.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dos-conteudos-do-inconsciente-coletivo-quando-se-trata-da-tal-atitude-religiosa-deve-se-destacar-o-self-ou-si-mesmo-o-arquetipo-da-totalidade-que-na-teoria-junguiana-abrange-toda-a-consciencia-e-inconsciencia-da-psique" style="font-size:19px">Dos conteúdos do inconsciente coletivo, quando se trata da tal atitude religiosa, deve-se destacar o <em>Self</em>, ou Si-mesmo, o arquétipo da totalidade que, na teoria junguiana, abrange toda a consciência e inconsciência da psique.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Estamos falando do arquétipo cuja representação é a imagem de Deus (Cf. JUNG, 2011a, §9). Em última análise, a atitude religiosa de que tratamos pressupõe a capacidade de o ego, centro focal da consciência, colocar-se a serviço do <em>Self</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para isso, é necessário que o indivíduo seja capaz de integrar, antes, outros conteúdos do inconsciente, como mensagens trazidas pela&nbsp;<em>anima</em>, o lado feminino da psique inconsciente masculina e fator determinante de suas projeções: “Onde quer que se manifeste: nos sonhos, nas visões e fantasias, ela aparece personificada, mostrando características de um ser feminino” (JUNG, 2011a, §26). O correspondente feminino à&nbsp;<em>anima</em>, na concepção de Jung (2011a, §29), seria o&nbsp;<em>animus</em>: “Este vocábulo significa razão ou espírito. Como&nbsp;<em>anima</em>&nbsp;corresponde ao Eros materno, o&nbsp;<em>animus</em>&nbsp;corresponde ao Logos paterno”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Outro arquétipo importante é a sombra, que reúne atributos negados e desagradáveis ao ego, mas cuja integração de alguns de seus elementos é imprescindível para a autotransformação (Cf. JUNG, 2011a, §13-4), que, por sua vez, é a derradeira etapa do processo que Jung (2011b, §489) batizou de individuação: “Uso o termo ‘individuação’ no sentido do processo que gera um ‘individuum’ psicológico [&#8230;] uma unidade indivisível, um todo”, fruto, justamente, grosso modo, dessa transformadora e íntima tomada de consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-caso-do-intelectual-e-seus-400-sonhos" style="font-size:19px"><strong>O caso do intelectual e seus 400 sonhos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A análise junguiana está fortemente alicerçada na ampliação dos sonhos, que se constituem verdadeiras vias de acesso a conteúdos do inconsciente, como os citados&nbsp;<em>anima</em>&nbsp;e sombra. Em “Psicologia e religião”, ao analisar o caso de um cliente, um intelectual na meia-idade e “extremamente racionalista”, que registrou mais de 400 de seus sonhos, Jung demonstra como a análise contribui para o encontro da atitude necessária para dar significado e sentido à crise do meio da vida (Cf. JUNG, 2012, §39).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-sonhos-mostram-como-seu-analisando-havia-se-distanciado-nao-so-de-sua-fe-mas-tambem-de-sua-afetuosidade-negligenciando-sua-anima-cujo-encontro-era-pre-requisito-para-acessar-a-propria-religiosidade-cf-jung-2012-71" style="font-size:19px">Os sonhos mostram como seu analisando havia se distanciado não só de sua fé, mas também de sua afetuosidade, negligenciando sua <em>anima</em>, cujo encontro era pré-requisito para acessar a própria religiosidade (Cf. JUNG, 2012, §71).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em sua realidade vígil, o analisando, de alguma maneira, procurava esquivar-se do contato com a <em>anima</em>. No fundo, ele tentava, aos olhos de Jung, encaixar a imagem de Deus em sua racionalidade. Mas seus sonhos diziam que isso não era possível, pois, antes, era necessário abrir-se à <em>anima</em> para reconhecer a própria inconsciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Depois de despertá-lo para a&nbsp;<em>anima</em>, seus sonhos levam-no a outras representações arquetípicas da totalidade (Cf. JUNG, 2012, §91-2), no caso, símbolos circulares e quaternários. Ao longo de décadas de análise de sonhos, Jung constatou que a presença de tais símbolos são comuns no universo onírico e que os sonhadores, embora desconheçam seu significado histórico e sagrado para civilizações antigas, são capazes de associá-los, intuitivamente, à ideia de um princípio criador, um “Deus interior” (Cf. JUNG, 2012, §100).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No caso em questão, o avanço do processo levou o analisando a imagens cada vez mais numinosas (de inspiração sagrada, divina), as quais ele conseguiu atribuir significado e, por conseguinte, alcançar a atitude necessária para o autoconhecimento e a transformação que seu momento de vida exigia (Cf. JUNG, 2012, §124).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-conjunta-pelo-fator-eficaz" style="font-size:19px"><strong>A busca conjunta pelo “fator eficaz”</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung escreveu que, enquanto escolas e faculdades preparam os jovens para viver a primeira metade da vida, não há cursos para as pessoas ingressarem na segunda (Cf. JUNG, 2013a, §784). Porém, pondera que, em outros tempos, as igrejas costumavam ter mais êxito nessa missão, mas “[&#8230;] acreditar tornou-se uma arte tão difícil, hoje em dia, que está fora da capacidade da maioria das pessoas” (JUNG, 2013a, §790).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Vimos, contudo, no exemplo acima, que a crença em um significado existencial que transcenda a própria vida pode ser alcançada no processo analítico. Essa atitude é bem mais profunda na prática do que possa parecer à primeira vista. Para Jung, tal atitude seria tão importante ao homem que vive a “passagem do meio”, quanto para o analista. E é aqui que, finalmente, este artigo chega ao que promete no título.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No esforço por encontrar, em seus sonhos, algo que lhe sirva também em sua vida prática, o analisando precisa chegar a um “fator eficaz” de compreensão dos símbolos oníricos — a palavra verdade, nesse caso, soaria pretensiosa demais (Cf. JUNG, 2013b, §95). O papel do analista, então, é “procurar, junto com o paciente, o fator eficaz. Por isso, é de extrema importância ter a maior quantidade de informações possível a respeito da psicologia primitiva, da mitologia, arqueologia e histórias de religiões comparadas”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essas-areas-fornecem-preciosissimas-analogias-que-servem-para-enriquecer-as-inspiracoes-dos-pacientes-juntos-poderemos-fazer-com-que-as-coisas-aparentemente-sem-sentido-do-mundo-onirico-se-acerquem-da-zona-rica-em-significado-jung-2013b-95-6" style="font-size:19px">Essas áreas fornecem preciosíssimas analogias, que servem para enriquecer as inspirações dos pacientes: “<em>Juntos poderemos fazer com que as coisas, aparentemente sem sentido [do mundo onírico], se acerquem da zona rica em significado” (JUNG, 2013b, §95-6).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A quem o método possa parecer excessivamente fantasioso, o próprio Jung (2013b, §96) responde: “No fundo, no fundo, nunca superamos a fantasia. Existem fantasias sem valor, deficientes, doentias, insatisfatórias, não resta a menor dúvida. Em pouco tempo, qualquer pessoa de mente sadia percebe a esterilidade de tais fantasias”. E acrescenta: “No entanto, como é sabido, o erro não invalida a regra. Toda a obra humana é fruto da fantasia criativa”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-formacao-junguiana-como-rito-de-passagem-na-metanoia" style="font-size:19px"><strong>A formação junguiana como rito de passagem na metanoia</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Fica evidente, então, que, se a missão do analista é ajudar o analisando a encontrar sentido nas imagens primordiais e em passagens como o envelhecimento e a morte, é indispensável que, antes, seja capaz de encontrar tais sentidos e significados em si mesmo. Jung (2013b, §166) escreve: “o médico também &#8216;está em análise&#8217;, tanto quanto o paciente. Ele é parte integrante do processo psíquico do tratamento [e] está exposto às influências transformadoras”. Por isso, a formação para analista exige que o aspirante se submeta à análise e à supervisão, constantemente, e que considere e observe, de forma religiosa, seus próprios conteúdos inconscientes para ser capaz de ajudar o analisando a fazer o mesmo por si.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-obra-psicoterapia-a-analista-marie-louise-von-franz-traz-um-caso-que-ilustra-com-propriedade-o-que-queremos-dizer" style="font-size:19px">Na obra “Psicoterapia”, a analista <strong>Marie-Louise von Franz</strong> traz um caso que ilustra, com propriedade, o que queremos dizer.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ela conta a história de um homem que, aos quarenta anos, passa por uma transição de carreira e encontra, na formação como analista, a chance de fazer a transformação que sua natureza pede. A analista conta que seu analisando experimenta, ao iniciar os atendimentos, grande insegurança por duvidar de sua capacidade de ampliar os sonhos de suas clientes (Cf. FRANZ, 2021, p. 14).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-entao-que-ele-sonha-ser-um-interprete-de-sonho-marie-louise-von-franz-divide-o-metassonho-de-seu-analisando-em-quatro-partes-cf-franz-2021-p-15" style="font-size:19px">É, então, que ele sonha ser um intérprete de sonho. Marie-Louise von Franz divide o metassonho de seu analisando em quatro partes (Cf. FRANZ, 2021, p. 15).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na primeira, os sonhos vêm em um pergaminho gigante que se desenrola e, quando “intérprete” e sonhador — um jovem loiro que von Franz entende ser a representação do <em>Self</em> de seu analisando —, põem-se a analisar juntos o que está escrito, o pergaminho é atingido por pedras que caem do céu: o vasto e misterioso inconsciente, segundo von Franz.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os pedaços resultantes do choque viram pães, ou seja, algo que pode ser digerido ou integrado à consciência. Os choques também geram porcas e parafusos, novamente a ideia de integração, que se acumulam e viram uma imensa pirâmide: símbolo tumular e da imortalidade (Cf. FRANZ, 2021, p. 17).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na segunda parte, o sonho apresenta um rio: fluxo da vida e da transformação permanente. A pirâmide, agora se constitui de quadros e triângulos que lembram a obra do pintor cubista Braque, e reforça a ideia de união dos opostos (Cf. FRANZ, 2021, p. 24). No topo da pirâmide, que, em si, representa a totalidade e onde as quatro faces triangulares se unem num só ponto, há um vazio numinoso: a visão panorâmica necessária para a ampliação dos sonhos (Cf. FRANZ, 2021, p. 23).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na terceira etapa, o sonho faz da pirâmide de quadros e triângulos uma pirâmide de fezes. Nela, o sonhador consegue divisar a mão de Deus e, no topo da pirâmide, o vazio radiante agora passa a representar, para o sonhador, a face de Deus. Segundo von Franz (2021, p. 25): ‘Os alquimistas da Antiguidade e da Idade Média nunca se cansavam de repetir que a pedra filosofal ‘é descoberta no meio do excremento’ e que as pessoas deste mundo descuidadamente esmagam esse refugo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na quarta parte, o sonhador se vê em análise com von Franz (2021, p. 26), e ela diz, a ele, que tem “sessenta e um anos, não dezesseis, mas que a soma interna dos dois números é sete”: um número bastante simbólico, até porque também é o resultado final da soma de três e quatro. Assim, é possível afirmar que o número sete está presente em todo o sonho e traz a ideia de desenvolvimento da personalidade em busca da totalidade, em busca de um sentido divino e numinoso (Cf. FRANZ, 2021, p. 26-9).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-marie-louise-von-franz-antes-de-terminar-as-suas-consideracoes-sobre-o-sonho-do-analisando-estabelece-uma-relacao-entre-os-numeros-que-aparecem-no-contexto-onirico-com-o-contexto-de-vida-vigil-dele" style="font-size:19px">Marie-Louise von Franz, antes de terminar as suas considerações sobre o sonho do analisando, estabelece uma relação entre os números que aparecem no contexto onírico com o contexto de vida vígil dele.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ela lembra que seus quarenta anos o colocam no meio do caminho entre a idade da própria von Franz, à época, e a idade das moças que ele começava a atender. Ele tinha muita experiência de vida para elas, mas, mesmo assim, sentia-se inseguro: a saída, então, era seguir a trilha do autodesenvolvimento, representado pelo número sete. Afinal, como escreveu von Franz (2021, p. 27): “a vida é desenvolvimento, tanto na juventude quanto na velhice”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-sonho-busca-dizer-entao-ao-jovem-analista-que-para-ser-capaz-de-ajudar-seus-clientes-a-ampliar-seus-sonhos-ele-precisa-antes-ter-um-compromisso-inexoravel-com-o-proprio-autoconhecimento-precisa-antes-e-mais-intensamente-se-dedicar-a-ampliacao-de-seus-proprios-sonhos-cf-franz-2021-p-28" style="font-size:19px">O sonho busca dizer, então, ao “jovem” analista, que, para ser capaz de ajudar seus clientes a ampliar seus sonhos, ele precisa, antes, ter um compromisso inexorável com o próprio autoconhecimento, precisa antes e mais intensamente se dedicar à ampliação de seus próprios sonhos (Cf. FRANZ 2021, p. 28).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Embora não seja requisito obrigatório, a experiência da meia-idade pode se somar às competências necessárias a um analista. Da mesma maneira, o fato de a análise exigir do terapeuta o exercício da atitude religiosa leva-nos a acreditar que a formação possa ser também um “rito de passagem”,&nbsp;&nbsp;fonte de entusiasmo para o homem que vive o meridiano de sua jornada. Afinal, como escreveu James Hillman (2001, p. 12), a crise da meia-idade “refere-se menos ao fato de ser velho demais do que ser jovem demais [&#8230;] não se refere à falta de capacidade, mas à falta de ilusão [&#8230;] aos quarenta anos não temos oitenta, e temos muito mais ‘tempo acordados’ pela frente do que no nosso passado”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/wagnerhilario/">Wagner Borges &#8211; Membro Analista em Formação</a> </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Simone Magaldi &#8211; Membro Analista Didata</a></strong></p>



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<iframe title="A formação junguiana como “rito de passagem” para o homem na metanoia | Wagner Hilário" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/DdmALrjZtm4?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Bibliografia</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">BRENNAN e BREWI, Anne e Janice. Arquétipos junguianos — a espiritualidade na meia-idade. São Paulo: Madras, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANZ, Marie-Louise von. Psicoterapia. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James. A força do caráter: e a poética de uma vida longa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. A passagem do meio — da miséria ao significado da meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Aion — estudo sobre o simbolismo do Si-mesmo, 8ª ed. Petrópolis: Vozes, 2011a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________. A natureza da psique. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________. A prática da psicoterapia. 16ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 7ª ed. Petrópolis: Vozes, 2011b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________. Os fundamentos da psicologia analítica. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________. Psicologia e religião. 11ª ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>
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		<title>Um perfil psicológico do velho triste a partir de Jung</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/um-perfil-psicologico-do-velho-triste-a-partir-de-jung/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dimas Künsch]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Jun 2022 21:48:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Morte]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A arte de viver – a mais sublime e a mais difícil, segundo Jung – interpela a todos, também os idosos. Envelhecer é da vida, faz parte do ritmo natural da existência. Já o sentido de uma vida plena – ainda que muitas vezes no conflito e na dor -, esse, não! Depende de escolhas. [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h4 class="wp-block-heading" id="h-a-arte-de-viver-a-mais-sublime-e-a-mais-dificil-segundo-jung-interpela-a-todos-tambem-os-idosos-envelhecer-e-da-vida-faz-parte-do-ritmo-natural-da-existencia-ja-o-sentido-de-uma-vida-plena-ainda-que-muitas-vezes-no-conflito-e-na-dor-esse-nao-depende-de-escolhas-dimas-a-kunsch"><em>A arte de viver – a mais sublime e a mais difícil, segundo Jung – interpela a todos, também os idosos. Envelhecer é da vida, faz parte do ritmo natural da existência. Já o sentido de uma vida plena – ainda que muitas vezes no conflito e na dor -, esse, não! Depende de escolhas.</em> &#8211; <strong>Dimas A. Künsch</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">“Perversão.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Ausência de estilo.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Uma verdadeira monstruosidade psicológica.”</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Carl Gustav Jung</strong> não segura a língua nem mede palavras quando deseja chamar a atenção para o triste destino de um tipo de vida que poderíamos designar como besta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso específico, ele usa essas e outras expressões, igualmente fortes, para se referir ao envelhecimento, quando esse envelhecimento ocorre, tristemente, na contramão do sentido natural da vida humana.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vida sem propósito, desprovida de qualidade. É isso que a vida acaba virando. “Uma vida desgraçada”, lamenta <strong>Jung</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A conversa é, pois, como avançado, sobre aquilo que <strong>Jung</strong> chama de <strong>“o outono da vida”</strong>, isto é, o envelhecimento e sua consequente proximidade com a morte. E, para essa conversa, dois ensaios do pai da Psicologia Analítica se revestem de particular importância. Ambos se encontram na parte final do volume 8/2 das Obras Completas de Jung, que traz como título&nbsp;<em>A natureza da psique</em>&nbsp;(JUNG, 2012).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro desses ensaios, “As etapas da vida humana”, foi publicado em 1930, o ano em que Jung completou 55 anos de idade. O segundo, “A alma e a morte”, viria à luz quatro anos depois, em 1934, aos 59 anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, só para lembrar, morreria em 1961, aos 85 anos, cerca de três décadas depois de ter se ocupado pela primeira vez com a produção desses textos. E é interessante observar o seguinte: no prólogo de&nbsp;<em>Memórias, sonhos, reflexões</em>&nbsp;(JUNG, 2006, p. 31), uma espécie de autobiografia publicada no ano de sua morte, Jung anotaria que sua vida foi “a história de um inconsciente que se realizou”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Tudo o que repousa no inconsciente”, expõe Jung, “aspira a tornar-se acontecimento”. A personalidade “quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Um inconsciente que se realiza!</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Um inconsciente cujos conteúdos e potencialidades mais recônditos aspiram a se tornar acontecimento, realidade vivida, experiência de vida!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sonho humano da totalidade, da plenitude – tão diferente da ideia, humanamente torta e até perversa, de os humanos alcançarem a perfeição!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lembrando as palavras iniciais deste texto – retiradas da boca do próprio Jung –, podemos facilmente concluir que Jung não viveu nem de longe o outono de sua vida como “um pervertido”, um carente de “estilo”, uma “monstruosidade psicológica”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não fez de sua vida uma coisa besta.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não morreu bestamente.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não teve uma velhice desgraçada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A gente sabe que não. E não é apenas porque ele o disse, com todas as letras e com toda a sua autoridade intelectual e moral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aliás, nem poderia ser diferente. Curador ferido, ao tratar da velhice, como de outras etapas da vida humana, Jung fala antes e acima de tudo de si mesmo – e de seu si-mesmo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque ninguém pode dar o que não tem, Jung deixa claro em mais de um trecho de sua obra. Ninguém pode ensinar o que não sabe.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Se alguém quer educar, que primeiro seja educado”, escreve, em outro ensaio, sobre “A formação da personalidade” (JUNG, 2013, p. 179).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, nessa última citação, está se referindo ao “ideal pedagógico” de educar as crianças para a personalidade. Fala do “entusiasmo pedagógico” de pais e educadores. Alfineta: diz que ele mesmo nutre sérias dúvidas se essa mania de querer educar nossas crianças não esconde o medo que temos de nos confrontar com as nossas próprias sombras e os nossos complexos todos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Todo o nosso problema educacional tem orientação falha: vê apenas a criança que deve ser educada, e deixa de considerar a carência de educação no educador adulto” (JUNG, 2013, p. 180).&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em resumo, voltando ao tema do inconsciente, que teria se realizado na vida de Jung: em Jung, com efeito, vida e caminho da individuação não se distinguem. Uma coisa leva à outra. Uma coisa briga, sofre e se alegra com a outra. Sem muita chance para a vida besta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Convém, no entanto, não exagerar na compreensão da ideia de totalidade em Jung. Nele mesmo e em toda a sua obra, a totalidade está longe de ser totalitária, um samba de uma nota só, algo unívoco, unilateral, sem conflito, sem ferida e sem dor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A personalidade, no sentido da realização total de nosso ser, é um ideal inatingível”, diz Jung. E complementa: “O fato de não ser atingível não é uma razão a se apor a um ideal, pois os ideais são apenas os indicadores do caminho e não as metas visadas” (JUNG, 2013, p. 183).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>‘Angelus novus’ invertido</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas investidas retóricas e práticas de Jung contra a velhice sem propósito nem qualidade, dois trechos dos ensaios citados chamam fortemente a atenção pela sua assertividade. No primeiro (par. 800), Jung adverte sobre o fato de que “muitas pessoas se petrificam na idade madura”. Elas não conseguem acompanhar o fluxo da “vida natural”, que é “o solo em que se nutre a alma”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vidas petrificadas!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não-vidas!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas pessoas, ele continua, “olham para trás e se agarram ao passado, com um medo secreto da morte no coração”. “Ficam paradas como colunas nostálgicas, com recordações muito vívidas do seu tempo de juventude, mas sem nenhuma relação vital com o presente.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Múmias paralíticas, na voz de Waldemar Magaldi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vidas na contramão da natureza e da história de si mesmas e, também, do mundo!</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Medo da morte” como “medo também das exigências normais da vida” (JUNG, 2012, p. 362).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Me lembrei, aqui, da figura do “Angelus Novus”, de Paul Klee, que é “o anjo da história”, na visão de Walter Benjamin. Olhos arregalados, boca aberta, asas estendidas e rosto voltado para trás, o anjo parece querer afastar-se de algo que fita atentamente, horrorizado. Foge de seu passado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas palavras de Benjamin, o passado de que o anjo assustado tenta fugir representa a mais pura imagem de uma enorme catástrofe. Há escombros por toda parte. São destroços e mais destroços que ninguém, nem mesmo um anjo, consegue juntar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma tempestade muito forte, com rajadas de um vento impetuoso, não permite ao anjo bater as asas para obter algum sucesso em seu movimento desesperado de fuga. De costas para o passado, nosso anjo, com cara de dar dó, é arremessado violentamente de encontro ao futuro, enquanto “um amontoado de escombros cresce diante dele até o céu”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa metáfora, como imagina Benjamin, a tempestade é o progresso.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O progresso doido, incontrolável e amedrontador.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas voltemos para Jung e para a nossa conversa sobre o envelhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pensando bem, o velho de vida triste e infeliz de que estamos falando mais se parece com um&nbsp;<em>angelus novus</em>&nbsp;invertido.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É do futuro que ele foge.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do entardecer da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele foge da morte.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao contrário do anjo de Paul Klee, o velho triste, na visão de Jung, está de costas, não para o passado que o assusta, mas para o futuro. O passado o seduz.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele se agarra ao passado. Sente nostalgia. Foge para o passado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele tem medo da morte que se avizinha: o mistério da morte!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tem medo de dizer sim ao chamado da vida, não importa nunca a idade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso pobre velho infeliz, que leva uma vida besta, busca um consolo impossível numa juventude e, mais atrás ainda, numa infância que, a bem da verdade, ele nunca viveu. Uma juventude e uma infância que nunca existiram de fato. Pelo menos, não nos moldes da nostalgia e da ilusão que o nosso velho triste acalenta.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se bem que, na vida vivida, aquém e além das imagens e das analogias, passado e futuro se deixam embaralhar nos percursos da vida besta, seja ela de que idade for. “Quem se protege contra o que é novo e estranho e regride ao passado está na mesma situação neurótica daquele que se identifica com o novo e foge do passado”, assinala Jung. “A única diferença é que um se alheia do passado e o outro do futuro. Em princípio, os dois fazem a mesma coisa: mantêm a própria consciência dentro de seis estreitos limites, em vez de fazê-la explodir na tensão dos opostos e construir um estado de consciência mais ampla e mais elevada” (JUNG, 2012, p. 351).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O passado como ilusão e fuga</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">No parágrafo seguinte (801), Jung acena para o que era óbvio em seu tempo – e o é, tanto ou mais que tanto, também em nossos dias: “A velhice é sumamente impopular”. Não é daquelas coisas das quais se possa dizer: “Nossa! Que felicidade que é ser velho!”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não, não é.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em nossa cultura e em nosso mais que assimétrico e injusto modo de organizar a sociedade e a vida, associar velhice com felicidade pode parecer uma verdadeira provocação.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O desprestígio de que padece a velhice, para além do medo da morte, pode em parte representar uma razão por que, sempre nas palavras de Jung, “nos apegamos ao nosso passado e ficamos presos à ilusão da nossa juventude”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vidas iludidas!</p>



<p class="wp-block-paragraph">“[&#8230;] um septuagenário jovem não é delicioso?”, Jung pergunta, repercutindo o modo tosco e torto de pensar daqueles que propõem ilusoriamente que o velho deva ser eternamente jovem.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“Não, não é nada delicioso”, responde Jung, antes de desferir mais um cruzado no corpo alquebrado de nossas frágeis ilusões. Tanto “o homem de trinta anos com espírito infantil, [que] é certamente digno de lástima”, quanto o idoso iludido de ser jovem “são pervertidos, desprovidos de estilo, verdadeiras monstruosidades psicológicas”.&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Vidas monstruosas!</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“[&#8230;] um velho que não sabe escutar os segredos dos riachos que descem dos cumes das montanhas para os vales não tem sentido, é uma múmia espiritual e não passa de uma relíquia petrificada do passado. Está situado à margem da vida, repetindo-se mecanicamente até a última banalidade.”&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Vidas mumificadas, à margem da vida!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Relíquias petrificadas do passado!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vida banal! Besta!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse tipo de vida, segundo Jung, não merece de fato outro adjetivo que “desgraçada”. Para esse tipo de velhos tristes, parece mesmo não restar muita coisa além de sonhar que essa não-vida chegue o mais rápido possível ao seu fim, como sublinha Jung em outro trecho do mesmo ensaio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A insuportável vida regada a desgraça, sem propósito, sem sentido, a vida besta vê a morte “como o fim de um processo”, e não como “uma meta e uma consumação” (JUNG, 2012, p. 362).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A tempestade que ameaça o anjo benjaminiano projeta a vida humana para o futuro de uma história infeliz, o da afirmação do progresso. Sob o ponto de vista da Psicologia Analítica, no caso do velho triste, trata-se, antes, da negação do progresso da consciência, da não-consumação do desenvolvimento da personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, e de novo, aquilo que nesse caso se nega não é o progresso que tanto assusta o anjo. Nega-se o fluxo natural da vida de que fala Jung. Nega-se o solo fértil do qual se alimenta a alma humana.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nega-se, como já citado, a possibilidade de fazer a consciência “explodir na tensão dos opostos e construir um estado de consciência mais ampla e mais elevada” (JUNG, 2012, p. 351).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Arte de viver e arte de morrer</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Embutida nesse dinamismo negacionista encontra-se, portanto, a mais completa traição àquilo que se pode chamar de propósito natural da velhice.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">De novo o tema do propósito, nas palavras de Jung: “Se atribuímos uma finalidade e um sentido à ascensão da vida, por que não atribuirmos também ao seu declínio?”, ele pergunta. “Se o nascimento do homem é prenhe de significação, por que é que a sua morte também não o é?” (JUNG, 2012, p. 365).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Declínio/morte com significado!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há um arquétipo ali, nesse lugar onde a vida há milhões e milhões de anos se faz e refaz, se molda, se apresenta, mostrando o ar de sua graça!</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“O ser humano não chegaria aos setenta ou oitenta anos se esta longevidade não tivesse um significado para a sua espécie”, prossegue Jung. “Por isto, a tarde da vida humana deve ter também um significado e uma finalidade próprios, e não pode ser apenas um lastimoso apêndice da manhã da vida” (JUNG, 2012, p. 356).&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">“Mas não devemos esquecer que só bem pouquíssimas pessoas são artistas da vida, e que a arte de viver é a mais sublime e a mais rara de todas as artes” (JUNG, 2012, p. 357).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desse modo, há vidas que, por tantos e tão diversificados motivos, não se realizam. Não se desenvolvem. Não se consumam.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apenas chegam a um fim – e, quanto antes, parece que melhor.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“O vinho da juventude nem sempre se clarifica com o avançar dos anos; muitas vezes até mesmo se turva”, comenta Jung, para dizer em seguida que “é nos indivíduos de mentalidade unilateral em que melhor se podem observar os fenômenos acima mencionados, muitos dos quais se manifestam ora mais cedo, ora mais tardiamente” (JUNG, 2012, p. 352).</p><p>Os “fenômenos acima mencionados”, de que fala Jung, são em primeiro lugar um endurecimento/enrijecimento de convicções e princípios que nortearam os idosos até então, “principalmente os de ordem moral”. E isso “pode levá-los, crescentemente, a uma posição de fanatismo e intolerância [&#8230;]. É como se a existência desses princípios estivesse ameaçada, e, por esta razão, se tornasse mais necessário ainda enfatizá-los” (JUNG, 2012, p. 352).</p><p>É nesse ponto, eu julgo, que Jung oferece a chave que nos permite fugir de uma velhice infeliz, petrificada, desgraçada: “Para o jovem constitui quase um pecado ou, pelo menos, um perigo ocupar-se demasiado consigo próprio, mas para o homem que envelhece é um dever e uma necessidade dedicar atenção séria ao seu próprio si-mesmo” (JUNG, 2012, p. 355-356).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O si-mesmo!</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Se ligarmos o que aqui está sendo dito com a ideia, antes apontada, do fluxo natural da vida rumo à consumação da vida – vamos dizer assim: a ideia de um arquétipo da velhice –, temos que, quanto mais se aproxima de seu fim, tanto mais a vida humana anseia por sentido, por plenitude, por totalidade. Por um diálogo denso e por certo também tenso com o si-mesmo, o centro maior da vida psíquica e da personalidade humana.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um diálogo difícil, agonístico, mas necessário. Fundamental.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Depois de haver esbanjado luz e calor sobre o mundo, o Sol recolhe os seus raios para iluminar a si mesmo”, resume Jung (2012, p. 356), numa imagem que me parece belíssima.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas Jung volta aos “fenômenos acima mencionados” para insistir que não é muito isso o que se vê acontecer e o que se experimenta no cotidiano da vida de tantas pessoas idosas. “Em vez de fazer o mesmo” que a metáfora do Sol indica, “muitos indivíduos idosos preferem ser hipocondríacos, avarentos, dogmatistas e&nbsp;<em>laudatores temporis acti&nbsp;</em>(louvadores do passado) e até mesmo eternos adolescentes” (JUNG, 2012, p. 356).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Transformam-se, essas pessoas, em “lastimosos sucedâneos da iluminação do si-mesmo”, como “consequência inevitável da ilusão de que a segunda metade da vida deve ser regida pelos princípios da primeira” (JUNG, 2012, p. 356).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“O pior de tudo é que pessoas inteligentes e cultas [&#8230;] entram inteiramente despreparadas na segunda metade de suas vidas.” Vive-se sob a “falsa suposição de que nossas verdades e nossos ideias continuarão como dantes”, mas não é isso que acontece: “Não podemos viver a tarde de nossas vidas segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã será falso no entardecer” (JUNG, 2012, p. 355).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">E há um complicador na trajetória desse exército de pessoas infelizes: não estamos aptos interiormente para esse entardecer da vida. Não estamos capacitados, nutridos para isso.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“O jovem é preparado durante vinte anos ou mais para a plena expansão de sua existência individual”, lembra Jung. “Por que não deve ser preparado também, durante vinte anos ou mais, para o seu fim?” (JUNG, 2012, p. 365).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Uma observação cabe aqui, sobre o termo “preparado”. Talvez preparar não seja o caso. O espanto e a criatividade rompem com o preparo. A ideia de preparar, a partir sobretudo da escola, mais lembra o ideal iluminista de praticar aquele tipo de educação que Jung tanto e tantas vezes duramente critica.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Sábio, diz Jung, traz consigo a energia da Criança Divina. Diferentemente acontece no caso do Senex, que vive o tempo todo à sombra do Puer egoísta, como bem lembra, de novo, Magaldi.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Um grande ponto de interrogação</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Que imagem se pode esboçar desse velho triste, desse não-velho ou antivelho, a partir dessas breves anotações, com base nos dois ensaios de Jung?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta minha leitura dos dois ensaios junguianos não é falsa nem mentirosa, mas completa também não é. Trata-se de um recorte. São pinçados e frisados alguns aspectos apenas, ainda que muito salientes.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aquilo que eu aqui faço, que é sério, muito sério, não passa às vezes (quase) de uma brincadeira. Porque a vida não se faz de explicações. Não cabe em conceitos e definições. A velhice também não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O próprio Jung, ao iniciar o primeiro de seus ensaios, sobre “as etapas da vida humana”, lembra que está tratando de coisas “difíceis, questionáveis ou ambíguas”, questões que admitem mais de uma resposta, sem segurança, sem clareza de verdade. “Por este motivo, haverá não poucos aspectos que nossa mente terá de abordar com um ponto de interrogação” (JUNG, 2012, p. 343).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em um trecho mais adiante, num verdadeiro tributo ao pensamento kantiano, Jung anota que, para ele, “a significação e a finalidade de um problema não estão na sua solução, mas no fato de trabalharmos incessantemente sobre ele”. E é essa atitude que “nos preservará da estupidificação e da petrificação” (JUNG, 2012, p. 350-351).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ora, imaginar que tanta desgraça possa vir junta, num indivíduo só, por mais triste que possa ser o velho triste, não me parece razoável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou talvez se possa, sim, admitir essa possibilidade, uma vez que, no mundo da infelicidade humana, não costuma fazer muito sentido medir o tamanho ou pesar a quantia da angústia e da dor. Até se poderia lembrar Tolstói, quando ele aponta que todas as famílias felizes se parecem, mas que cada família infeliz é infeliz à sua maneira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vida besta e desgraçada o é, também, à sua maneira.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Perfil (anti)ideal do velho triste</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O alemão Max Weber, um dos pais da ciência da Sociologia, criou uma categoria de análise a que ele deu o nome de “tipos-ideais”. São tipos mais ou menos concretos, objetivos, que ajudam no entendimento dos fatos sociais. Mas são ideais. Não se realizam de fato. São auxílios teóricos. São ferramentas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir das colocações de Jung nesses dois ensaios – e sem acrescentar nada de novo, para além do quanto já dito –, enumero aqui, em forma de tópicos, algumas características principais do perfil do velho triste, basicamente sob o ponto de vista psíquico do desenvolvimento da personalidade. Um tipo-ideal de velho triste. Ou, melhor dizendo, um antitipo. Um não-tipo ideal. Ou um tipo não ideal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso velho triste, tristemente, pode ser entendido como alguém petrificado, incapaz de acompanhar o fluxo natural da vida; | que olha para trás e se agarra ao passado, como uma relíquia petrificada desse mesmo passado; | que tem medo da morte; | que não passa de uma coluna nostálgica do passado e que, ainda por cima, cultiva a ilusão de ser jovem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso velho triste, como o descreve o próprio Jung, pode ser visto como um pervertido, desprovido de estilo, verdadeira monstruosidade psicológica; | uma múmia espiritual; | alguém que está situado à margem da vida; | aliás, uma vida desgraçada a dele, para a qual a morte aparece como um fim – e tomara que chegue logo!; | desafortunadamente, a tarde da vida acaba se transformando em um lastimoso apêndice de sua manhã; | constata-se com frequência um endurecimento/enrijecimento de convicções e princípios; | o que beira muitas vezes o fanatismo e a intolerância.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hipocondríaco, avarento e dogmático em suas posições, nosso velho triste não se sente apto, capacitado, nutrido para viver essa fase de sua vida. E, também por causa de tudo isso, falha no propósito fundamental da vida humana, que seria o de dedicar atenção séria ao seu próprio si-mesmo nessa etapa da vida que a metáfora do Sol, cumprida a sua tarefa em cada nova manhã, tão bem ilustra. Ilumina.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é neste ponto que a (quase) brincadeira assume ares de uma seriedade incomparável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bem distribuído socialmente, o fenômeno do infortúnio da vida besta pode frequentar, às vezes com ampla desenvoltura, qualquer canto e qualquer vida, de qualquer classe social, o palácio ou a tapera, o masculino ou o feminino, a vida do senhor doutor como a do homem simples, ordinário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é assim que a pobreza de espírito acaba muitas vezes por se juntar a um rosário imenso de dificuldades, dores e feridas que acossam a vida de tantos velhos e velhas por aí. É a dor física que vem do desgaste do corpo, de suas energias e potencialidades. É a dor das malditas condições injustas que assolam a vida de tantos miseráveis, empobrecidos, esquecidos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O diálogo fértil e bem complexo com o arquétipo do Velho Sábio não dirime, por certo, tanta dor, nem nos afasta do abraço da morte. Mas triste, mesmo, verdadeiramente triste, é entrega de si mesmo ao arquétipo do Senex.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Senex é o velho velho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O velho como adjetivo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O velho triste.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>PS.:</strong>&nbsp;Este texto é resultado de minha participação numa videoconferência para o VII Congresso Junguiano do Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa, o Ijep (6-8/06/22), com o título de “Envelhecer cedo e mal, doença contemporânea que pode ser curada”. Participaram, junto comigo, Caroline Santos Costa e Patrícia Moura Vernalha, ambas analistas junguianas em formação. Mediou a conversa Waldemar Magaldi, da Direção do IJEP.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dimas A. Künsch &#8211; Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Didata &#8211; Waldemar Magaldi</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Um perfil psicológico do velho triste a partir de Jung | Dimas Künsch" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/dK4Sr6AnzM0?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem: “Velho na tristeza” (Van Gogh) &#8211; Reprodução</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>A natureza da psique</strong>. 8 ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>O desenvolvimento da personalidade</strong>. 14 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>Memórias, sonhos, reflexões</strong>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KÜNSCH, Dimas A. Viver a velhice, viver na velhice.&nbsp;<strong>IJEP</strong>. Disponível em:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/viver-a-velhice-viver-na-velhice">https://www.ijep.com.br/artigos/show/viver-a-velhice-viver-na-velhice</a>. Acesso em: 2 jun. 2022.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>O Sentido do Envelhecimento e Psicologia Analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-sentido-do-envelhecimento-e-psicologia-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristina Guarnieri]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 02 Apr 2022 13:21:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>É necessária uma revisão de atitudes e de conceitos. A velhice não é uma derrota, e sim uma vitória; não é um castigo, e sim um privilégio. Na educação, acentuamos a importância da adaptação do jovem à sociedade. Nossa tarefa é exigir a adaptação da sociedade aos idosos.&#160;A. J. Heschel Envelhecimento e morte são temas [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">É necessária uma revisão de atitudes e de conceitos. A velhice não é uma derrota, e sim uma vitória; não é um castigo, e sim um privilégio. Na educação, acentuamos a importância da adaptação do jovem à sociedade. Nossa tarefa é exigir a adaptação da sociedade aos idosos.&nbsp;A. J. Heschel</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Envelhecimento</strong> e morte são temas extremamente interessantes de serem discutidos e, geralmente, fazem parte da lista daqueles cuja atração se dá justamente para que o conhecimento nos defenda da difícil tarefa que é viver essa etapa da condição humana na prática.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não pretendo discorrer sobre como ser um velho ativo, em como&nbsp; seria envelhecer de modo saudável ou mesmo em como aceitar o <strong>envelhecimento</strong>. Mas sim falar de uma experiência que é nova para nós: estamos vivendo mais e, por isso, temos um aumento significativo da população idosa. O fato é que, com essa mudança, nunca antes tivemos tanta experiência com o processo de envelhecer e, como consequência, estamos descobrindo que muito pouco conhecemos sobre essa etapa da vida.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O psicólogo suiço Carl Gustav Jung afirmava que deveria haver um sentido para o <strong>envelhecimento</strong>, pois não chegaríamos a idades tão avançadas, se não houvesse um propósito para a espécie. (Cf. 1984, § 787) Diante disso, gostaria de propor uma reflexão sobre o <strong>envelhecimento</strong> utilizando como base o próprio Jung, em seus ensaios&nbsp;Etapas da vida humana&nbsp;e&nbsp;A alma e a morte,&nbsp; em diálogo com o filósofo judeu A. J. Heschel, especificamente o seu ensaio&nbsp;Crescer em Sabedoria, onde o autor crítica nosso medo de envelhecer e a ideia de que a velhice é uma derrota. Ambos autores possibilitam argumentar que envelhecer para além de ser uma etapa da vida, requer nossa atenção para que possamos dignificar a vida humana e retomar, a partir disso, o sentido de viver uma existência significativa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tornar-se velho</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acostumada a trabalhar com o tema da morte, tenho adquirido nesses últimos anos um profundo sentimento de respeito advindo de minhas reflexões e de minha experiência prática.&nbsp; Observo as mais diversas reações de pacientes, de alunos, de amigos e familiares diante da perda, da presença da morte ou mesmo, de quando algo que nos amedronta surge e para o qual construímos uma série de soluções consoladoras. E, diante de tantos modos de reações, tenho concluido que, inevitavelmente, nosso intuito é somente apaziguar nossa angústia de ser finito. O horror ao desconhecido, somado a nossa condição de desamparo e a necessidade de interferir na natureza para garantir à nossa sobrevivência, nos colocou&nbsp; em um mundo obcecado pelo progresso tecnológico e pela ideia de felicidade e, paradoxalmente, constatamos que nunca o temor da morte foi tão explicitamente experimentado como hoje.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Frente à isso, não podemos deixar de observar que vivemos um momento pobre em recursos para o enfrentamento da morte, da perda, do sofrimento e da dor. E, amedrontados, caminhamos para um distanciamento e para uma negação de tudo que se opõe à felicidade, à realização e à eficiência. Negamos a experiência de ser humano em toda a sua totalidade. E, recentemente, tenho constatado que o mesmo ocorre com o <strong>envelhecimento</strong>. Envelhecer hoje, talvez, seja o tema mais interessante e lucrativo para se dedicar, mas, ao mesmo tempo, a condição que enfrenta mais o nosso mecanismo de negação. É conhecido o fato que nossa população está envelhecendo, estamos sendo obrigados a lidar de forma mais frequente com esse <strong>envelhecimento</strong>, e não temos ainda muito conhecimento sobre esse processo. Sim, nossa sociedade sempre envelheceu, mas parafraseando Elizabeth Kubler Ross em relação à morte, o que mudou foi nosso modo de lidar com o <strong>envelhecimento</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da infância ao <strong>envelhecimento</strong>, nossa jornada de expansão da consciência sofre com os limites de nossa fisiologia. E por isso Jung (1984) trata essas etapas da vida humana como fases do processo de individuação &nbsp;&#8211; que é&nbsp; o ponto central onde se quer chegar, o sentido para onde caminha a nossa existência -, justamente por entender que a limitação de cada etapa torna-se também o recurso que possibilita o sentido da vida. Para o autor, individuação significa tornar-se um ser único, uma singularidade íntima, última e incomparável; tornar-se &#8220;si mesmo&#8221;. A nossa existência é constituída de tarefas que precisamos enfrentar para construir o nosso dia a dia, e&nbsp; com isso e a partir disso, nos faz confrontar com o mistério do que somos, de onde viemos e para onde vamos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como qualquer objeto que envelhece e que, portanto, não possui mais eficiência, as limitações do envelhecer vai se evidenciando no tempo, como uma máquina, vai parando lentamente de funcionar até nos descartarmos seu uso, pois esta não tem mais funcionalidade; é um estorvo que precisa ser descartado para dar espaço ao novo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não descartamos os idosos&#8230;será? Forte demais ousar fazer tal afirmação, mas o fato é que nosso sistema acaba inexoravelmente realizando isso e o ser humano acaba por se sentir invisível. Nossa mundo está pautado por funções e atividades, e a velhice já não pode atender à essa demanda. O velho também teme perder o papel que desempenha no social, e &#8220;considera a si mesmo como uma pessoa que sobrevive à sua utilidade e sente-se como se tivesse de pedir desculpas por estar vivo.&#8221;( Heschel, 2002, p.254) Ou mesmo, arrumando um modo de ser útil, dando valor, por vez até exagerado, a sua tarefa de existir. A partir dos 50 anos brigamos para não nos tornarmos invisíveis, brigamos por ocupar um lugar na vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não estamos preparados para ser velho. Não sabemos o que fazer com nós mesmos e, talvez, por isso não sabemos o que fazer com a velhice, porque, na realidade, o que não sabemos, é o que fazer com a privacidade, pois no momento em que temos a oportunidade maior de nos voltarmos para nós mesmos, estranhamos esse tempo e essa tarefa. E Jung deixa claro que é justamente essa a tarefa a ser feita: entrar em contato profundo com nós mesmos, permitindo o confronto com o inconsciente, em uma relação dialética que faz com que a consciência busque nova orientação na inconsciência. Esse seria o momento que melhor caracteriza o envelhecer, momento onde nos voltamos para dentro, iluminando à nós mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A passagem para o envelhecer estabelece a urgente necessidade de atender à um chamado interior, em sintonia com a totalidade da psique, que se desdobra em uma maior flexibilidade e saúde psicológica. Mas como tudo, há também a possibilidade do oposto, essa transformação resultar em um endurecimento e enrijecimento do indivíduo em relação aos seus valores, justamente pela ameaça enfrentada nessa passagem, devido ao medo do próprio movimento da vida, de perder o estado de juventude, de perder o que conhecemos, e com isso nos perder de nós mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E quem é esse novo idoso?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O trato com o idoso varia nas diversas culturas, assim como nos diferentes momentos históricos. É difícil, portanto, identificar um comportamento único ou estabelecer uma comparação no intuito de buscar uma referência para lidar com o processo de envelhecer. Mas é&nbsp; fácil de observar que&nbsp; o movimento&nbsp; hoje parece tender para uma infantilização do idoso, propondo uma atividade constante em nome da saúde e, principalmente, em nome do nosso conforto, pois é difícil olhar as insuficiências de quem amamos e de quem sempre foi a nossa referência. Na verdade, aprendemos durante muito tempo a ser cuidado por eles, depois descobrimos que eles tinham uma vida e, ainda bem, pois queríamos muito ter a nossa. Isso na melhor das hipóteses. E lentamente vamos vendo os filhos crescerem na mesma medida que&nbsp; os&nbsp; pais vão envelhecendo. E o tempo passa rápido e quando olhamos novamente para eles, os filhos se tornam adultos e seus pais estão diferentes, com demandas estranhas para as quais você não estava preparado. E posso afirmar, pelo que venho observando, ninguém está.&nbsp; O <strong>envelhecimento</strong>, no modo como se apresenta para nós hoje, é uma grande novidade, e tudo é muito novo. E mais, exige uma grande esforço da sociedade em geral com um agravante: tudo isso ainda precisa ser considerado pelo ponto de vista econômico. Não por acaso,&nbsp; cria-se uma&nbsp; demanda de um envelhecer saudável, pois isso possibilita diminuir os custos. E, além disso, também precisamos evitar o tédio, a depressão ou o desânimo, termos que insistimos em utilizar para &nbsp;algo que deveria ser natural para aquele que está enfrentando uma mudança significativa de sentido de vida. Mas, como todo o nosso sistema é pautado pelos valores da juventude, nosso idoso é estimulado a viver para os esportes, para os hobbies, para investir&nbsp; em viagens, ocupar seu tempo, com toda sua energia para fora. Esse mundo externo, muito valorizado, acaba impedindo a verdadeiro sentido do envelhecer, que pede uma ênfase maior na introspecção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Heschel (2002) critíca a ideia que cuidar dos idosos deva ser considerado um ato de caridade; para ele deveria ser um privilégio supremo, pois argumenta que esse cuidado possui referência no mandamento &#8220;honrar pai e mãe&#8221;, e argumenta ainda que não há respeito por Deus sem respeito por pai e mãe. O pensador religioso inicia sua reflexão resgatando um valor há muito esquecido, a importância da ancestralidade. Essa importancia nos atravessa tanto em relação à saude psíquica, como também em relação à dignidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Heschel, temos um duplo problema hoje: a atitude da sociedade para com os idosos e a atitude do idoso com seu envelhecer. E, esse duplo problema diagnostica a grande fonte de causas de males na contemporaneidade: o afastamento do mistério, do sublime e da glória; o afastamento de Deus.(Cf.&nbsp;Ibid., p.255) E Jung não poupa em suas críticas a mediocridade que estamos vivendo quando estabelecemos um padrão de viver que ignora as etapas da existência e o sentido teleológico da psique:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um jovem que não luta nem triunfa perdeu o melhor de sua juventude, e um velho que não sabe escutar os segredos dos riachos que descem dos cumes das montanhas para os vales não tem sentido, é uma múmia espiritual e não passa de uma relíquia petrificada do passado. Está situado à margem da vida, repetindo-se mecanicamente até à última banalidade. Pobre cultura aquela que necessita de tais fantasmas! (1984, § 801)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung parece profético em sua frase final, nossa pobre cultura sucumbiu aos &#8220;tais fantasmas&#8221; e hoje estamos diante de jovens confusos e perdidos, com velhos que não sabem escutar e valorizar os segredos de sua própria experiência de vida. Segundo Heschel (2002,p.255), os passatempos estão sendo priorizados para que &#8220;matemos&#8221; o tempo, não devemos ficar ociosos, pois queremos ser valorizados por servir para alguma coisa, por ser útil, ser um objeto de valor na vida. Ao invés do ritual e da oração, vamos ao clube, as viagens, a qualquer lugar que signifique que ainda sou visto e valorizado. O idoso precisa se sentir útil, e é essa utilidade que, para o filósofo, deveria significar, na velhice, o poder de celebrar, de santificar o tempo. Não adianta viver mais tempo se ele não tiver sentido. Como lembra Hillman, &#8220;a importância da velhice está em relação inversa ao progresso&#8221; (2001, p.45)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Heschel, os males espirituais básicos da velhice podem ser resumidos em três pontos: 1. Sensação de ser inútil e ser rejeitado pela família e pela sociedade; 2. Sensação de vazio interior e tédio; 3. A solidão e o medo do tempo. (2002, p.255)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o valor de uma pessoa é considerado só a partir de sua utlilidade, esse valor será medido enquanto essa pessoa estiver satisfazendo as necessidades do outro. E é a partir da ideia de sentido que Heschel trabalhará com o indivíduo e a sociedade. Se a sociedade for parâmetro de valorização e importância ao sujeito, seja ele idoso ou qualquer outra faixa etária ou condição social e de pertença, nós estaríamos condenados a sentidos perenes e vazios, pois estariam vinculados à um tempo ou a um contexto que é tão finito como qualquer outro valor coisificado. O que Heschel está enfatizando aqui é a importância do sentido da existência tal como Jung reforça também quando se refere ao sentido como saúde psíquica. O sentido de porque estamos aqui, do para que estamos aqui, o sentido de tudo isso aqui não é só um fato, é uma busca que pede o comprometimento com uma existência que se faz autêntica na medida que somo fieis a própria alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sentido do envelhecer</p>



<p class="wp-block-paragraph">Refletir sobre a necessidade do <strong>envelhecimento</strong> é pautar essa mesma reflexão na necessidade do ser humano no mundo. Talvez a pergunta melhor seja, não o que é necessário para sermos algo, mas sim como diria Heschel (Cf.1974, p.210), para quem somos necessários. O filosofo da religião rapidamente argumenta à favor do mandamento de &#8220;amar ao próximo&#8221; e defende que quando cita o mandamento, está pensando em alguém de carne e osso, e não necessariamente no humano como conceito. Para ele, nem a humanidade, nem o humano, nem o idoso é um conceito; somos seres preciosos, pois cada vida humana é uma necessidade de Deus e por isso o sentido da vida se evidencia. (Cf. IDEM, 2002, p.257-8)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Heschel argumenta que a sociedade não pode ser o sentido da vida humana, pois a própria sociedade precisa de sentido e também da indagação se ela é necessária. E é na sensação de vazio que a questão da necessidade será mais evidente. A velhice, segundo o autor, se caracteriza como uma época de angustia e tédio, pois perdemos o sentido do que é ter uma existência significativa, pois essa nada tem de funcionalidade objetivamente clara. O filósofo defende a necessidade de uma configuração espiritual que possibilite a velhice, como toda vida humana, para algo que transcende a existência pessoal. (Cf.&nbsp;Ibid., p.257-8)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ler o pensador religioso é compreender a importância dada por Jung aos símbolos e as religiões. Viver em harmonia com esses símbolos é voltar-se à eles com sabedoria (Cf. JUNG, 1984, § 794). Jung questiona o fato de prepararmos à juventude para a plena expansão de sua vida individual e não prepararmos as pessoas para o fim, na segunda metade da vida. &nbsp;&#8220;É por isso que todas as grandes religiões prometem uma vida no além, um objetivo supra-mundano que permite ao homem mortal viver a segunda metade da vida com o mesmo empenho em que viveu a primeira.&#8221; (Ibid., §789)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não se trata aqui de entrar na discussão sobre o quanto a compreensão de religião pode sofrer uma redução a partir da psicologia. Jung tinha clareza sobre isso. Assim como Heschel, que era ciente desse risco, inclusive o cita em sua análise sobre os Profetas e faz uma crítica da tentativa de explicação por parte da psicologia sobre a experiência mística. Mas, nossso intuito aqui é colocar em diálogo o conhecimento de ambos, em uma tensão profícua, que mostra a importância de retomar os símbolos e a sabedoria religiosa que, para Jung, &#8220;só é possíovel a vida em plenitude quando estamos em harmonia com esses símbolos.&#8221; (Ibid.,§794).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Heschel,&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhando para a nossa própria existência, somos forçados a admitir que a essência da existência não está na nossa vontade de viver. Temos que viver e vivendo obedecemos. A existência é um cumprimento e não um desejo. Uma concordância e não um impulso.&nbsp;Sendo, obedecemos. (HESCHEL, 1974, p. 210)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se ser é obedecer, ninguém deveria poder deixar de ser. E o filósofo fala de um ser em movimento, pois não podemos ignorar nosso desenvolvimento como um contínuo que deveria atingir seu auge na velhice: momento onde trabalhamos nos elevados valores, nos insights espirituais, na sabedoria. Ser velho, afirma Heschel (2002), não é garantia de sabedoria, ao contrário, e durante a nossa juventude que nos preparamos para a velhice, portanto envelhecer é algo que diz respeito à todos nós, pois o preparo espiritual para a velhice se inicia na juventude, é um processo que dura a vida toda. Quando negamos o <strong>envelhecimento</strong>, quando reduzimos a nossa velhice a conceitos de funcionalidade e atividade, estamos deixando de lado o que torna uma existência de fato significativa: a preciosidade de ser humano. Preciosidade é um conceito que caracteriza a dignidade da condição humana na filosofia hescheliana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A solidão e o medo do tempo são dois dos maiores males da velhice. O medo do tempo é o nosso medo de envelhecer, pois, geralmente, é quando constatamos que o tempo passou, que o tempo é curto e, principalmente, que não controlamos o tempo. E não há como segurar o tempo. Embora seja a única coisa que temos, o tempo escapa de nós ou, na verdade, a maioria de nós não vive no tempo e foge dele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vida natural é o solo em que se nutre a alma. Quem não consegue acompanhar essa vida, permanece enrijecido e parado em pleno ar. É por isso que muitas pessoas se petrificam na idade madura, olham para trás e se agarram ao passado, com um medo secreto da morte no coração. Subtraem-se ao processo vital, pelo menos psicologicamente, e por isto ficam paradas como colunas nostálgicas, com recordações muito vividas do seu tempo de juventude, mas sem nenhuma relação vital com o presente. &nbsp;Do meio da vida em diante, só aquele que se dispõe a morrer conserva a vitalidade, porque na hora secreta do meio dia da vida inverte-se a parábola e nasce a morte. (JUNG, 1984,§ 800)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Só podemos dominar o tempo, com o tempo, diz Heschel. O permanente começa dentro do tempo e não além. Para ele, o tempo pode ser visto sob o aspecto da temporalidade ou sob a eternidade. O tempo sob o aspecto da eternidade transforma nossos dias como representantes desse, pleno de sentido, isto é, vivemos como se o destino de todo o tempo dependesse de um só momento. Sob o aspecto da temporalidade, a essência do tempo é separação, isolamento, apenas um momento solitário e fugáz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é no tempo que podemos contemplar, segundo Heschel, o que é sublime a partir da criação &#8211; onde se dá o encontro Deus, ser humano, onde cada instante é compreendido como ato de criação. O tempo é a Presença de Deus no mundo e no espaço. Ao envelhecer com sentido de Presença, segundo Heschel, sabemos que não estamos perdendo, e sim ganhando tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para concluir: cada instante deve ser celebrado</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma vida significativa, segundo o pensador judeu, pede que cada instante seja uma celebração, pois o ato de existir é sagrado, o momento é um milagre. E só por meio da celebração podemos perceber o milagre, pois é nossa tarefa &#8220;santificar o tempo em todos os seu atos. Tudo o que se necessita para santificar o tempo é Deus, uma alma e um momento. Os três estão sempre presentes,&#8221; (HESCHEL, 2002, p.261)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa alma guarda a certeza de um instante bem vivido, uma recordação, um sonho, um momento basta para que possamos perceber o sublime presente na vida. Existir é uma graça, no sentido de gratuidade, isto é, você recebeu de graça, como um presente e o modo como você utilizará esse presente está em suas mãos. Talvez por isso, o velho seja aquele cuja memória sempre preenche seus contos e falas. Um bom velho é um contador de histórias. Mas há nesse exercício duas possibilidades. Por um lado, ele possui a tendência já observada e citada acima de destruir o presente, talvez em seu caso para garantir a posse do tempo, como nos jovens quando estes se preocupam com o futuro &#8211;&nbsp; algo também que sugere a mesma ideia de controle do tempo. Porém, o que alcançamos é apenas a proeza de não viver o presente. Ao entender que o idoso é algo ultrapassado, aquele que não pretende experimentar a morte em vida caminha contrário a tarefa que precisaria empreender. E ao fazer isso, nega a sabedoria como resultante do processo de envelhecer, pois entende, como sempre foi ensinado a compreender, que o que possui sentido é aquilo que pode ser quantificado e ter funcionalidade. Sua memória é o modo como ele possui o tempo, isto é, ele reafirma o passado como um bom tempo, o tempo que é o seu e que, portanto, coisificado e conquistado, torna-se ultrapassado como tudo que é engolido pelo movimento do tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já a segunda possibilidade, é ver o tempo como a única coisa que de fato temos, mas como o aspecto da existência que está totalmente fora de nosso controle. &#8220;O esforço para restaurar a dignidade da velhice dependerá de nossa capacidade de reviver a equação da velhice e da sabedoria.&#8221; (Ibid., p.263) Ser idoso é se abrir para a tarefa de respeito ao insight espiritual na humanidade, a segurança do <strong>envelhecimento</strong> depende disso, da essência que é a sabedoria na existência; tarefa para toda vida, defende Heschel, sustentada no mandamento &#8220;Honrar pai e mãe&#8221;. Viver se torna sagrado quando a Presença de Deus, de uma alma, em um momento se encontram abrindo a certeza de um novo tempo, uma nova graça, uma abertura para o milagre de existir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">HESCHEL, A.J.&nbsp;O último dos profetas.&nbsp;São Paulo: Ed. Manole, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">____________ .&nbsp;The prophets.&nbsp;New York: Harp and Row Publishers, 1998.</p>



<p class="wp-block-paragraph">____________. O homem não está só.&nbsp;São Paulo: Ed. Paulinas, 1974a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James.&nbsp;A força do caráter: e a poética de uma vida longa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C.G.&nbsp;A natureza da psique, In.&nbsp;Obras completas&nbsp;vol.8,&nbsp;Rio de Janeiro, Vozes, 1984.</p>
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		<title>O esquecimento e a demência: as relações com o estresse e modo de vida.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ivone Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Dec 2021 11:41:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Geriatria]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nosso artigo refere-se aos esquecimentos, que muitas vezes possam parecer sem importância, mas que podem ser um sinal de possível quadro de demência. Quais os cuidados que deve-se ter antes de classificá-las de dementes , os sinais que devem ser investigados para um melhor tratamento e seguimento dessas pessoas. Muitas vezes esses quadros de esquecimento, estão relacionados ao estresse, excesso trabalho, perda sentido vida.</p>
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<p class="wp-block-paragraph">“A psique e o corpo funcionam juntos de maneira poderosa para curar a alma em sofrimento, ou resgatá-la de situações intoleráveis”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ashok Bedi, M.D</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem numa conversa não se esqueceu de repente do que iria falar ou quando na busca de algo em outro ambiente em sua casa, se esquece do que iria buscar, ou ainda dando uma aula, tem uma questão que&nbsp;é&nbsp;importante e sente um branco. Correspondem a momentos que perdemos o contato temporariamente com o que estamos fazendo. Falhas temporárias, esquecimentos que passam despercebidos e muitas vezes não nos preocupamos, e deixamos passar.&nbsp; As vezes pode ser um sinal, de que nosso sistema nervoso central, possa estar entrando em colapso, por um momento estressante de nossas vidas, problemas afetivos, grande exigência do meio social ou ainda alteração orgânica e funcional. Apesar de aparecer em qualquer idade, as vezes há&nbsp;preocupação de ser o indício de um estado demencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Frequentemente o envelhecimento está&nbsp;associado a dificuldades de memória e&nbsp;à&nbsp;lentidão de raciocínio. Observa-se que os idosos têm dificuldades em lembrar e compreender situações novas, quando apresentadas rapidamente, mas em contrapartida superam os jovens em raciocínios que exigem maior&nbsp;“sabedoria”. (Parente, Taussik, 2002).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O envelhecimento&nbsp;é&nbsp;inevitável e está&nbsp;ligado a diferentes fatores, como: econômicos, culturais, tecnológicos entre outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) (<em>WHO</em>, p.25, 2015), o envelhecimento constitui um fenômeno de mudanças complexas, não são lineares e nem consistentes e, portanto, são fracamente associadas com a idade em anos. Isso quer dizer que os mecanismos do envelhecimento são incertos e influenciados pelo ambiente e o comportamento de cada indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A demência não afeta somente o indivíduo, acaba afetando a vida de todos ao seu redor, a partir disso&nbsp;é&nbsp;considerada um problema de saúde pública, justamente pelo comprometimento do indivíduo e alteração na vida de seus familiares, sendo um fardo econômico para as famílias e nações. (OMS) (WHO, 2012).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A memória seria essa capacidade de registrar, manter e evocar as experiências e os fatos já&nbsp;ocorridos. (Dalgalarrondo, p. 137, 2008).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa possibilidade de nos reconheceremos no presente, de saber onde estamos, quem somos, o que fazemos, com quem nos relacionamos, isto&nbsp;é, ter uma história de vida, corresponde a todas as experiencias de vida vivida, faz parte da nossa memória. (Jung, p. 283, 2013). Segundo Jung sem a consciência não conseguiremos nos relacionar com o mundo. Nós vemos, ouvimos, apalpamos, e cheiramos o mundo, através dos&nbsp;órgãos dos sentidos e a partir daí&nbsp;temos consciência do que ocorre ao nosso redor. Essas percepções sensoriais, nos diz o que está&nbsp;fora de nós, mas não nos dizem o que isto seja em si. Esta tarefa faz parte da apercepção, que consiste em um complexo processo psíquico sensorial, onde há&nbsp;cooperação de diversos processos psíquicos.&nbsp; (Jung, p.284, 2013)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Neuropsicologia tem demonstrado que a crença de que o envelhecimento constitui um período de declínio inevitável está&nbsp;sendo atualmente desafiada, considerando o aumento de sujeitos que envelhecem não apenas de forma ativa e independente como também de forma criativa. (M Parente, I Taussik, 2002)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Dalgalarrondo (p. 137, 2008) há&nbsp;quatro tipos de memória:&nbsp;<strong>mem</strong><strong>ó</strong><strong>ria cognitiva</strong>&nbsp;–&nbsp;habilidade do indivíduo de registrar, conservar e evocar elementos obtidos através de experiências;<strong>&nbsp;mem</strong><strong>ó</strong><strong>ria gen</strong><strong>é</strong><strong>tica</strong>, seria&nbsp; a carga genética transmitida pelos seres vivos ao longo da evolução filogenética das espécies<strong>; mem</strong><strong>ó</strong><strong>ria imunol</strong><strong>ó</strong><strong>gica</strong>, informações registradas e potencialmente recuperáveis pelo sistema imunológico de um ser vivo;&nbsp;<strong>mem</strong><strong>ó</strong><strong>ria coletiva ou cultural</strong>, corresponde aos costumes, valores e práticas culturais geradas e passadas para um grupo social. Há&nbsp;uma diferença em relação ao tempo, ou seja, a memória imediata ou de curto prazo (poucos segundos de 1 a 3), memória recentes (de poucos minutos até&nbsp;3 ou 6 horas) e memória remota ou de longo prazo (meses ou anos).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O déficit cognitivo leve apresenta um conjunto de síndromes associadas, ou seja, queixa de falhas mnésicas (confirmadas por pessoas próximas) sem interferência nas atividades do dia a dia. Esses distúrbios não apresentam confusão mental, lesão cerebral orgânica, distúrbios psiquiátricos ou uso de drogas psiquiátricas., mas diferente da Demência, observa-se um comprometimento cognitivo geral que resulta em um declínio funcional. (Ritchie&nbsp;<em>et al,</em>&nbsp;2017).</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com a Alzheimer’s Disease International (p. 8, 2009) há&nbsp;uma projeção para 115 milhões em 2050. Esse aumento afetará&nbsp;os países em desenvolvimento, ou seja, 36 milhões de pessoas vivendo com demência em algum lugar do mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há&nbsp;diferentes síndromes demenciais devido as perdas de múltiplas habilidades cognitivas funcionais, sem falar nos aspectos clínicos, segundo Dalgolarrondo (p. 376, 2008): perda memória (principalmente recente), alterações da linguagem, da compreensão dos problemas, prejuízos na aprendizagem e julgamento, alteração das funções executivas relacionadas ao lobo frontal, como o prejuízo na capacidade de planejamento e monitorização de atos complexos, queda da fluência verba, perda da flexibilidade cognitiva, dificuldade pensamento abstrato, alteração da personalidade, com a perda de hábitos sociais mais refinados e do controle emocional, além do descuido com a higiene pessoal e alimentação, o progredir da síndrome&nbsp;é&nbsp;silencioso, progressivo e muitas vezes irreversível, mas existem algumas formas tratáveis e reversíveis de demência, a síndrome demencial acarreta alterações no tecido cerebral, de forma difusa, crônica e geralmente progressiva, geralmente o indivíduo está&nbsp;desperto, vigilante, mas as vezes pode ocorrer momentos de delírio,&nbsp; podendo&nbsp; ocorrer aparecimento de sintomas psicológicos associados, com ideias paranoicas, depressão, ansiedade, delírios, alucinações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A patologia que não se manifesta claramente&nbsp;é&nbsp;a degeneração do sistema nervoso central e os subtipos de demência compreendem a D. Alzheimer, demência vascular, demência dos corpos de Lewy e demência frontotemporal. (Ritchie&nbsp;<em>et al</em>, 2017).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além da degeneração há várias causas relacionadas a demência: medicamentos, alcoolismo, neoplasias, desnutrição, hipotireoidismo, hipocalcemia, traumatismos cranianos, infeções (HIV), inflamações, hemorragia cerebral e outras. (Gil, R; p. 231, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph">As primeiras queixas de pessoas com doença do espectro de Alzheimer são geralmente problemas cognitivos, como planejamento e julgamento, perdas de memória. Essas queixas podem levar ao diagnóstico de Comportamento Cognitivo Leve (Mild Cognitive Impairment ou MCI), se houver testes que revelem uma evidência objetiva de alteração no comportamento cognitivo. Esse diagnóstico&nbsp;é&nbsp;importante para diferenciar essa população de um grupo com comprometimento cognitivo subjetivo, p.ex. queixas de perda de memória, sem serem detectados em testes neuropsicológicos provavelmente sem alterações degenerativas. MCI consiste numa condição heterogênea com pouco valor prognóstico. Esse comprometimento pode ter quatro desfechos; progressão para D. Alzheimer; progressão para outra demência; manter MCI estabilizado; recuperação. (Ritchie e<em>t al</em>, 2017).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Vetersen comenta que muitos das características do conceito de MCI estão presentes no DSM-5 (APA, p. 591, 2013).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sob o nome de Transtornos Neurocognitivos Leves, isto quer dizer que existe a possibilidade de que esse estado seja consequência ou associação a transtornos mentais, p.ex. transtorno depressivo maior, esquizofrenia, isolamento social ou mesmo um declínio cognitivo negligenciado em decorrência de envelhecimento e baixo nível cultural.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A função da consciência&nbsp;é&nbsp;reconhecer e assumir o mundo exterior, através dos&nbsp;órgãos do sentido e traduzir criativamente o mundo exterior para a realidade visível. (Jung, p. 103, 2013).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O conhecimento sobre o indivíduo, necessita um olhar mais cuidadoso sobre seu mundo interno, sua alma e suas relações com o meio ambiente, social, cultural, suas crenças, medos e experiencias de vida, antes de rotular-se aquele que nos procura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Várias pesquisas demonstram que o exercício físico em idosos promovem benefícios em relação a qualidade de vida e a autoestima. (Silvai,&nbsp;<em>et al</em>, p.65,2019).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A atividade física por si promove mudanças na percepção da pessoa sobre sua idade ocorrendo aumento da sua independência e integração social. Reduz o risco de muitas doenças crônicas em idosos, como as doenças coronarianas, a hipertensão, arterial sistêmica, o diabetes mellitus etc. Também melhora os aspectos emocionais. (Silvai,&nbsp;<em>et al</em>, p.65, 2019).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pensando no aspecto cognitivo o exercício físico, a curto prazo, melhora a função cognitiva porque aumenta o fluxo sanguíneo, a oxigenação e a nutrição cerebral; a longo prazo, observa-se aumento da performance cardiorrespiratória com consequente melhora prolongada da oxigenação cerebral, queda do LDL e liberação de fatores antioxidantes que ajudam a retardar a perda cognitiva da lesão cerebral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As famílias e os indivíduos devem se preparar e se planejar para a velhice, mostrando força de vontade e esforço com adoção de uma postura adequada como a prática de atividades saudáveis em todas as fases da vida (alimentação saudável, atividade física etc.).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao falarmos sobre o estresse e as&nbsp;questões&nbsp;de esquecimento, estudos demonstram que a ansiedade&nbsp;é&nbsp;uma das causas de perda de memoria em todas as faixas etárias. A ansiedade faz com que ocorra ativação de inúmeras regiões do cérebro e aumento da atenção e hipervigilância a estímulos ameaçadores, como na tentativa de lembrarmos do nome de determinada pessoa, que se encontra na nossa frente por exemplo. (Parente, Taussik, 2002).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo (Jung, pg 278. 2013), uma lembrança, um afeto, será&nbsp;consciente se tiver relação com o eu. As situações estressantes, como a ansiedade, podem em determinado momento, fazer com que o indivíduo se esqueça de quem&nbsp;é&nbsp;e o que está&nbsp;fazendo, qual a data atual, ou quem ele conhece e perceber sua situação, deixando-o mais nervoso e inseguro. Esses esquecimentos demonstram, como as situações estressantes, podem fazer com que muitas situações vividas se percam em algum lugar na sua psique, tornando-se obscuras e inacessíveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No envelhecimento temos que lidar com nosso mundo interior, com as questões do&nbsp;<em>Self,&nbsp;</em>com as camadas do inconsciente pessoal que ainda não foram assimiladas. O envelhecimento psicológico está&nbsp;associado ao esforço pessoal contínuo na busca do autoconhecimento e do sentido da vida. Um olhar mais profundo sobre as experiências&nbsp; vividas , e aprender a esperar sem precisar conquistar, buscar o equilíbrio espiritual como se fosse um alimento para a alma.&nbsp; (Jung, 2013).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ivone Ferreira &#8211; Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Didata Responsável: Maria Cristina Mariante Guarnieri</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Refer</strong><strong>ências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. APA.&nbsp;<strong><em>Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders DSM-5.</em></strong>&nbsp;– EUA, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; DALGALARRONDO, P.&nbsp;<strong><em>Psicologia e Semiologia dos transtornos mentais</em></strong>&nbsp;(2ª. ed) &#8211; Brasil: Artmed, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; GIL, R.&nbsp;<strong><em>Neuropsicologia</em></strong>&nbsp;(4ª ed) –&nbsp;Brasil: Santos, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. IBGE.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211;&nbsp; JUNG, C.G<strong>.&nbsp;</strong><strong><em>A natureza da psique</em></strong>; [Tradução de Mateus Ramalho Rocha].&nbsp;–&nbsp;10. ed.&nbsp;– Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; PARENTE, M.A. de M.P., TAUSSIK, I. Neuropsicologia, distúrbios de memória e esquecimentos benignos.&nbsp;<strong><em>Revista Eletr</em></strong><strong><em>ô</em></strong><strong><em>nica de Jornalismo</em></strong>, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; SILVAI, L.A.dos S.; DIAS, A.K.; GONÇALVES, J.G.; PEREIRA, R.A.; COSTA, R.S.; SILVA, G.O. A IMPORTÂNCIA DA PRÁTICA DE EXERCÍCIOS FÍSICOS NA TERCEIRA IDADE.&nbsp;<strong><em>Revista Extensão.</em></strong>&nbsp;– Palmas-TO: v.3, n.1, 2019.</p>



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<iframe title="O esquecimento e a demência: as relações com o estresse e modo de vida" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/9umKSnNCjEI?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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<h4 class="wp-block-heading" id="h-ivone-ferreira-21-12-2021"><strong><em>Ivone Ferreira &#8211; 21/12/2021</em></strong></h4>
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			</item>
		<item>
		<title>Viver a velhice, viver na velhice</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/viver-a-velhice-viver-na-velhice/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dimas Künsch]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Dec 2021 11:34:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“A arte de viver é a mais sublime e a mais rara de todas as virtudes.” - Carl Gustav Jung Nessa segunda fase da vida, o “objetivo natural” da manhã deve abrir espaço para o “objetivo cultural” do entardecer. “Para atingir o primeiro objetivo, a natureza ajuda; e, além dela, a educação. Para o segundo objetivo, contamos com pouca ou nenhuma ajuda”, sublinha Jung, falando a partir de sua Suíça encantada da primeira parte do século passado, entre uma guerra mundial e outra.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-image is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://www.ijep.com.br/img/artigos/artigo_207.jpeg" alt="VIVER A VELHICE, VIVER NA VELHICE Psicologia Junguiana" width="503" height="670"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">“A arte de viver é a mais sublime e a mais rara de todas as virtudes.”</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Carl Gustav Jung</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Em: “As etapas da vida humana” (OC 8/2, par. 789).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>“Envelhecer é uma merda”</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu estava ali na livraria, naquela tarde de sábado, para o lançamento de um novo livro de um dos mais prestigiados repórteres brasileiros. Cheguei um pouco mais cedo, e tive a sorte de ser o segundo de uma extensa fila de gente esperando por um autógrafo. À minha frente encontrava-se alguém meio encurvado, só o via pelas costas. Era uma pessoa velha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conheço o autor do livro que estava sendo lançado e sua trajetória profissional. Um dos jornalistas mais premiados do Brasil, hoje com 86 anos de idade e sempre ainda muito ativo em sua profissão, é difícil imaginar um estudante brasileiro de jornalismo que não tenha ouvido falar dele e que não o reverencie.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não tinha ainda iniciado o ritual do lançamento, quando vejo o nosso autor se deslocar uns metros de distância da mesa de autógrafos para cumprimentar o número 1 da fila. “Você está velho, hein, cara?”, é como o nosso repórter e autor de renome se dirigiu a ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, aí, foi engraçado. Alheios a todo o clima, quase <em>glamour </em>do momento, os dois personagens mantiveram uma conversa de uns cinco minutos, não sobre “a arte de viver, a mais sublime”, segundo Jung, mas sobre “a merda que é ficar velho”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia de que ficar velho é uma merda foi trazida pelo número 1 da fila, que logo eu perceberia se tratar igualmente de uma pessoa conhecida – e&nbsp; admirável. Famoso e reverenciado como o nosso autor, o número 1 da fila hoje está com 73 anos de idade. Se me coubesse montar uma lista imaginária de homenagens ao jornalismo com inicial maiúscula, eu nem saberia dizer, neste momento, qual dos dois personagens ocuparia o primeiro lugar, se o autor do livro ou se ele, o número 1 da fila de autógrafos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estavam ali ambos, de repente, debulhando um rosário imenso de lamentações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muito engraçado!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem é de tradição católica sabe que um rosário, com suas ave-marias e pai-nossos, se compõe de três terços. Em cada terço, a pessoa que reza contempla um conjunto de “mistérios” da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo. Há os mistérios dolorosos, os mistérios gloriosos e os mistérios gozosos. “No primeiro mistério doloroso contemplamos a agonia de Nosso Senhor no Horto das Oliveiras…” E por aí vai…</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na rápida conversa que mantiveram um com o outro, os dois muito queridos e famosos repórteres se concentraram nos mistérios dolorosos da vida humana. E só.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ali, naquele momento, a velhice aparecia como sinônimo de pura dor e miséria. E eu não estava nem um pouco certo de que, se mais tempo tivessem para a troca de lamentações, conseguiriam romper a barreira do mau humor e dos ressentimentos contra a velhice, para vislumbrar alguma glória e algum gozo na vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Intercambiaram figurinhas sobre suas dores, uma pior que a outra, como se estivessem brincando de quem consegue contar uma desgraça maior.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imaginei a seguinte cena, como parte possível do diálogo dos desafortunados:</p>



<p class="wp-block-paragraph">– Ganhei! – proclama o autor do livro. – Essa minha dor é pior que a sua!</p>



<p class="wp-block-paragraph">– Ganhou, não! Eu é que ganhei! – retruca o número 1 da fila. – O seu braço direito dói bastante? No meu caso, me dói também o esquerdo e mais as duas pernas! Você é um pobre! Um perdedor! Sou mais cheio de dor do que você! Se toque!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Confidenciaram segredos sobre remédios, alimentação, bons hábitos… “Saudade dos tempos antigos!”, um sussurrou ao pé do ouvido do outro, com um sorriso meio suspeito na cara. Acho até que sei o que estava pensando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Angustiante, a conversa. Me deu até uma certa preguiça de escutar aquele lero-lero. Envelhecer, ali, me pareceu uma verdadeira descida ao inferno de Dante, sem nenhum propósito declarado de arrancar das trevas do desalento a Beatriz amada. Sem garantia alguma de se retornar algum dia de lá. Inferno da dor e do sofrimento!</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Sim, envelhecer é uma merda”, concordou o repórter-autor, encerrando a conversa densa, intensa, plena de significações. Estava sendo convocado para mais uma entrevista para uma emissora de televisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>“Sobre a brevidade da vida”</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é o caso, eu entendo, de se tirar conclusões apressadas, nem muito menos de se tentar dourar de algum modo a pílula. Quem já passou de suas sessenta primaveras – eu, por exemplo –, tendo atingido a estação que Jung gosta de chamar de outono da vida, sabe que a coisa não é de se brincar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobram, para quem atravessou os limites da última fase da vida, os “prazeres duvidosos da velhice”, reflete Jung (7/1, par. 88). De repente, ainda segundo Jung, a pessoa percebe que “o que antes significava para ela progresso e satisfação não passa de engodo”, e essa pessoa, num “misto de desencanto e inveja”, vê descortinar-se à sua frente “o fim de todas as ilusões” (7/1, par. 90).</p>



<p class="wp-block-paragraph">São dores físicas, as que nos acometem com o avançar dos anos, mas não só. Porque, sendo o ser humano complexo, multifacetado, dual, como a gente sabe, é interessante a gente não esquecer que o padecimento maior costuma “vir da alma”, como ensina o Herr Doktor Jung (7/1, par. 1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">São dores típicas dessa fase da vida em que, como diz Mário de Andrade, a gente conta os anos vividos e descobre ter menos tempo para viver a partir daqui do que o que viveu até agora. “Nós temos duas vidas”, escreve o poeta. “E a segunda começa quando você percebe que só tem uma.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Eu digo, revise e reconte os dias da sua vida”, escreve Sêneca: “Verá que sobraram para você poucos e sem valor” (2020, p. 37).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos maiores representantes do estoicismo romano – o outro é o imperador Marco Aurélio –, Sêneca (ca. 4a.C.- 65) escreve em seu tempo sobre a brevidade da vida. Até me lembra Hipócrates, com o seu famoso adágio de que “A vida é breve e a arte, longa”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gosto de pensar que Hipócrates – me perdoem o parêntese –, por “arte”, entende a arte da cura: a arte médica. Longa é a conversa com quem é acometido pela dor. O juízo (médico) é difícil. O tempo oportuno para se agir, verdadeiro kairós, é fugidio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao assumir o “paciente” como sujeito (de fala) e primeiro e mais importante tecedor da narrativa (sujeito, e não objeto! Um Tu e não um Isso, diria Martin Buber), Hipócrates me lembra sempre o melhor da arte terapêutica junguiana e de quantos militam por essas sendas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro dia eu comentava com uma médica, amiga minha, que conheci uns anos atrás numa clínica do meu antigo plano de saúde. Ia lá por causa do meu eterno problema com (o risco de) câncer de pele. Parei de ir. Deus me livre! Então passei a frequentar a clínica particular da minha amiga dermatologista, com direito a um bom desconto e consultas sempre muito agradáveis. Um amor, a doutora!</p>



<p class="wp-block-paragraph">– Nossa! – eu dizia para ela. – A consulta, lá naquele clínica do plano de saúde, não durava mais que cinco minutos!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">–&nbsp;<em>Eram</em>&nbsp;cinco minutos, em média – ela me corrigiu. – Agora são três.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas voltemos a Sêneca, que dá um sentido diferente ao termo “breve”, quando ele fala da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Breve, de verdade, segundo ele, é a vida dos “ocupados”, essa espécie nada rara de gente tola que adora ficar buscando a felicidade lá onde a pessoa acaba só encontrando infelicidade, mais angústia e mais dor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A arte de viver é a mais sublime e a mais rara de todas as virtudes”, aponta Jung (OC 8/2, par. 789). Jung, como se sabe, não está se referindo a alguma coisa que você um dia aprende, e pronto. Ele fala de uma vivência, uma experiência de vida: não é uma arte que “é”, mas uma arte que se vive, vivendo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma arte-acontecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Deve-se aprender a viver por toda a vida, e, por mais que você se admire, toda a vida é um aprender a morrer.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Poderia ser Jung quem está dizendo isso. Mas não é, pelo menos desta vez e com essas palavras. É de novo Sêneca, que opõe o caminho do “ócio” ao caminho dos “ocupados”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Muitos dos homens mais importantes”, escreve Sêneca (2020, p. 35), “tendo abandonado todos os empecilhos e renunciado às riquezas, aos cargos e desejos, buscaram uma única coisa até a mais extrema velhice: saber viver”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o mesmo Sêneca constata que muitos desses homens, todavia, “deixaram a vida tendo confessado ainda não saber.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Morreram sem saber o que é viver, é o que Sêneca está dizendo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Arte que não aconteceu, então.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acho até que Sêneca, o estóico, está exagerando bastante, ao imaginar que tanta gente importante esteja elegendo o caminho do bem viver, fugindo às ilusões do ter, do poder e da glória. Talvez Sêneca esteja mais correto ao comentar que não basta eleger o caminho dessa arte, que Jung considera “a mais rara de todas as virtudes”. São muitos os que querem, mas não conseguem. De novo: morrem sem saber.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vejo Sêneca conversando com Jung através dos séculos, quando distingue entre existir e viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existir é uma coisa. Viver é outra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cito Sêneca textualmente: “Não se deve julgar que alguém viveu por muito tempo por causa dos cabelos brancos e rugas: ele não viveu muito tempo, mas existiu muito tempo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“De fato – se pergunta Sêneca –, consideraria ter navegado muito quem, logo que tivesse saído do porto, fosse carregado para lá e para cá por uma cruel tempestade e vicissitudes dos ventos de diversas direções, tivesse sido forçado a mover-se em círculos pelo mesmo lugar? Este não navegou muito, mas foi muito sacudido” (Sêneca, 2020, p. 39).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Triste é a sina dos “ocupados”, ou dos “sacudidos”, essas almas pueris oprimidas pela velhice! “Chegam a ela despreparados e desarmados, pois nada providenciaram: caíram nela de súbito e sem esperar, não percebiam que ela chegava dia após dia” (Sêneca, 2020, p. 46-47).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diferente é a condição, a atitude dos “ociosos”, esses bem-aventurados, virtuosos, que sabem tirar sentido de todo canto e de cada esquina da vida, mesmo da dor. Mesmo da merda da vida!</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Dentre todos, apenas são ‘ociosos’ aqueles que estão disponíveis para a sabedoria, só estes vivem; pois não apenas cuidam bem de seus anos, mas também a eles adicionam toda a eternidade” (Sêneca, 2020, p. 69).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estar disponível para a sabedoria – eis a questão. Algo bem diferente daquela ideia maluca de que ser velho é ser sábio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pode ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pode.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como pode ser qualquer outra coisa, agradável ou desagradável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entre os muitos diálogos que é possível tecer com o ócio – que não é sinônimo de preguiça, mas de virtude –, a arte do saber viver a velhice pode buscar “acalmar-se com Epicuro, vencer a natureza humana com os estóicos, ultrapassá-la com os cínicos”, sugere Sêneca (2020, p. 69).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sêneca nos coloca desta forma em contato com três importantes correntes filosóficas daqueles tempos, o epicurismo, o estoicismo e o cinismo. As três se fundam na ideia de uma ética como a arte do bem viver. Trata-se de uma parte importante da herança do que restou da Grécia Clássica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma Grécia que não existia mais nos tempos de Sêneca, depois de invadida, pilhada, devastada pelos exércitos macedônios e tendo de sobreviver, a partir dos anos 320 antes de Cristo, sob o comando dos novos donos do poder.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tempos difíceis!</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O mundo envelheceu”, era o que se escutava dizer, entre os escombros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Melhor morrer logo”, diziam os mais desanimados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ouço, no meio dessa tristeza toda – os mistérios dolorosos –, a voz dos cínicos: cuide do ser, porque o ter, ter e ter coloca você em contato direto com o mundo da produção da dor. Mundo dos ocupados. Dos sacudidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mundo do&nbsp;<em>negotium</em>, a negação do ócio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ouço Epicuro, proclamando que vencer a dor é possível, e sugerindo, qual Jung dos tempos antigos, o cultivo da arte da imaginação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ouço Sêneca, pleiteando vida em plenitude,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vida vivida, não apenas existida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Velhice sábia. Se não longe da dor, pelo menos a uns bons passos de distância da pura merda. Da falta de sentido e de propósito.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>“Laudatores temporis actis”</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Qualquer discurso sobre a velhice nos dias de hoje nos remete forçosamente ao fato de que há mais gente vivendo vida mais longa – ou apenas existindo, para lembrar Sêneca. Talvez sobrevivendo, mal e porcamente. Quiçá vegetando.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para além dos números, das estatísticas, mil coisas poderiam ser ditas sobre essa situação, algumas dessas coisas, de amargar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sistema capitalista triunfante, voraz até a medula, transforma prontamente tudo em indústria, a serviço da sede insaciável do capital. Assim, como nem poderia deixar de ser, temos hoje também uma indústria florescente da velhice, com mil ofertas de consumo para os bem-aventurados que, em consumindo, existem: consumo, logo existo!</p>



<p class="wp-block-paragraph">É nesse palco de muito malvadas assimetrias de toda ordem que a “sociedade do desempenho” (Byung-Chul Han) conversa animadamente com o descarte do velho, o consumo, a infelicidade e a dor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E não custa lembrar que, incensando muitas vezes essas injustiças todas, correm por todo lado uns discursos meio trôpegos sobre isso que gostam de chamar de “a melhor idade” e sobre um tempo, supostamente feliz, de o velho fazer e acontecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Carpe diem, velho!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Realize o seu sonho!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Viva a vida que até agora não viveu!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Argh!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sugiro estarmos atentos ao modo de Jung ver as coisas. Sempre muito lúcido e realista em suas ponderações sobre a vida, não importa muito se antes ou se depois de o sol ter atingido o zênite, o pai da Psicologia Analítica nos propõe o desafio da arte de viver! A mais difícil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Vida tão difícil de possuir completa e tão triste de possuir parcial” (Fernando Pessoa).</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O que preocupa”, assegura Jung (7/1, par. 113) sobre essa fase da vida, “não é mais a questão de desembaraçar-se de todos os empecilhos ao exercício de uma profissão, ao casamento ou ao fazer qualquer coisa que signifique expansão da vida. Estamos diante do problema de encontrar o sentido que possibilite o prosseguimento da vida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp; arte de viver, nesta segunda fase da vida tem assim&nbsp; a ver, precipuamente, com a busca por sentido, como propõe Jung.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E ele acrescenta que por vida é bom a gente entender “algo mais do que simples resignação e saudosismo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Nossa vida compara-se à trajetória do sol. De manhã, o sol vai adquirindo sempre mais força até atingir o brilho e o calor do apogeu do meio-dia. Depois vem a enantiodromia. Seu avançar constante não significa mais aumento e sim diminuição de força. [&#8230;] É enorme o engano de supor que o sentido da vida esteja esgotado depois da fase juvenil de expansão [&#8230;]. O entardecer da vida humana é tão cheio de significação quanto o período da manhã” (Jung, 7/2, par. 114).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa segunda fase da vida, o “objetivo natural” da manhã deve abrir espaço para o “objetivo cultural” do entardecer. “Para atingir o primeiro objetivo, a natureza ajuda; e, além dela, a educação. Para o segundo objetivo, contamos com pouca ou nenhuma ajuda”, sublinha Jung, falando a partir de sua Suíça encantada da primeira parte do século passado, entre uma guerra mundial e outra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que mais ocorre nessa fase da vida, sempre de acordo com Jung, é a entrega patológica a uma montanha enorme de ilusões. “É por isso que a passagem da fase natural para a fase cultural é tão tremendamente difícil e amarga para tanta gente” (Jung, 7/1, par. 114), costumando vir acompanhada por uma carga pesada de “rigidez, petrificação, bitolamento, incapacidade de evoluir” dessa espécie de velho a quem Jung atribui o título de “laudatores temporis acti” (Jung, 7/1, par. 116): vivem sonhando com um passado que, de fato, nunca existiu. Fantasiam: “Bons tempos, o tempo da infância, da juventude!”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“São desagradáveis e até prejudiciais”, reclama Jung no mesmo trecho. “A maneira de apresentar uma verdade ou outro valor qualquer é tão rígida e violenta que a rudeza tem mais força de repulsão do que o valor possui de força de atração – e com isso se obtém o contrário do que se desejava.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">A conclusão de Jung vai num sentido bem diverso do que é oferecido pela indústria da velhice e pelo enlevo das narrativa da “melhor idade”: “No fundo”, diz Jung, “o motivo do enrijecimento é o medo do problema dos contrários” (7/1, par. 116).</p>



<p class="wp-block-paragraph">E com isso se torna mais compreensível a alusão anterior de Jung ao tema da “enantiodromia”: “O velho Heráclito, que era realmente um grande sábio, descobriu a mais fantástica de todas as leis da psicologia:&nbsp;<em>a função reguladora dos contrários.&nbsp;</em>Deu-lhe o nome de&nbsp;<em>enantiodromia</em>&nbsp;(correr em direção contrária), advertindo que um dia tudo reverte em seu contrário” (Jung, 7/1, par. 11).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro jeito parece não haver que fazer da arte da vida, nesta etapa da existência, um diálogo nada fácil com a lei psíquica do confronto dos contrários. “Na segunda metade da vida, o desenvolvimento da função dos contrários, adormecida no inconsciente, significa renovação de vida” (Jung, 7/1, par. 91).</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O que a juventude encontrou e precisa encontrar fora, o homem no entardecer da vida tem que encontrar dentro de si” (Jung, 7/1, par. 114).</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A passagem da manhã para a tarde é uma inversão dos antigos valores. É imperiosa a necessidade de se reconhecer o valor oposto aos antigos ideais, de perceber o engano das convicções defendidas até então, de reconhecer e sentir a inverdade das verdades aceitas até o momento, de reconhecer e sentir toda a resistência e mesmo a inimizade do que até então julgávamos ser amor” (Jung 7/1, par. 115).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa busca nada fácil de sentido, pelo velho, esse diálogo tremendamente complicado com o mais profundo de si mesmo e com as promessas e ameaças do inconsciente coletivo – ali onde habitam nossos deuses e nossos demônios – não se dá no mundo da pura ilusão, ou da fantasia nostálgica, da “laudatio temporis actis”. Não está isento de toda sorte de tropeços. Ai, as nossas sombras! Ai, os nossos complexos! Ai, as neuroses todas da velhice, que, segundo Jung, constitui um tempo propício para a manifestação de tanta coisa escondida bem lá no fundo da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Infelizmente, há muita gente falando do homem, mas sempre do homem ideal, de como seria bom que ele fosse, mas nunca do homem tal como ele é na realidade” (Jung, 7/1, par. 93).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na agonia da experiência sofrida dos contrários, o risco da unilateralidade nos espreita em cada esquina&nbsp; Nem natureza demais, nem cultura demais!</p>



<p class="wp-block-paragraph">É o que sugere Jung.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Difícil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, de novo, quem disse que a arte de viver é fácil?</p>



<p class="wp-block-paragraph">“É no oposto que se acende a chama da vida”, insiste Jung (7/1, par. 77).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acho maravilhosa essa imagem da “chama da vida”, colocada ali por Jung, no exato momento em que, como ele diz, a luz e o calor do sol – outra imagem – vão se tornando mais e mais fracos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Cumpra-se o seu dever em relação à vida”, velho! “Em todos os sentidos, manifeste sua vitalidade como membro ativo da sociedade humana”, velho! (Jung, 7/1, par. 112).&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Difícil, muito difícil!</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Terrível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas quem disse que é fácil a arte de viver?!</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; “Seria muito simples se a simplicidade não fosse verdadeiramente a mais difícil das coisas”, aponta Jung, em O Segredo da Flor de Ouro (2013, p. 33).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Que outro caminho se pode propor para quem quer “vida em plenitude” (Jung)?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para quem se deixa inspirar pelo desejo mais profundo de fugir da vida besta?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para o velho e a velha que imaginam poder escapar da ditadura do consumo e da ilusão da felicidade fácil, e em muitas prestações?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para você e eu que acreditamos que melhor idade não parece existir, a não ser a idade – qualquer idade! –, de tecer cotidianamente o fio de nossa vida… na agonia… e com arte?</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O caminho não é isento de perigo”, adverte Jung. Porque “tudo que é bom é difícil, e o desenvolvimento da personalidade é uma das tarefas mais árduas”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes, durante e depois do meio-dia, “trata-se de dizer sim a si mesmo, de se tomar como a mais séria das tarefas, tornando-se consciente daquilo que se faz e especialmente não fechando os olhos à própria dubiedade, tarefa que de fato faz tremer” (Jung, 2013, p. 35).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dimas Künsch &#8211; Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Didata &#8211; Waldemar Magaldi</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem: Dimas Künsch &#8211; 66 anos. Fotógrafo: Thales Carraro.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>Psicologia do inconsciente</strong>. 22.ed. Petrópolis: Vozes, 2012. (OC 7/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>O eu e o inconsciente</strong>. 24.ed. Petrópolis: Vozes, 2012. (OC 7/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. As etapas da vida humana. In:&nbsp;<strong>A natureza da psique</strong>. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2012, p. 343-360. (OC 8/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>O segredo da flor de ouro</strong>: um livro de vida chinês. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SÊNECA.&nbsp;<strong>Sobre a brevidade da vida humana</strong>. São Paulo: Edipro, 2020.</p>



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<iframe title="VIVER A VELHICE, VIVER NA VELHICE" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/bKYqsSvznkc?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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<h4 class="wp-block-heading" id="h-dimas-kunsch-21-12-2021"><strong><em>Dimas Künsch &#8211; 21/12/2021</em></strong></h4>
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		<title>Sentido para a vida após a aposentadoria</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sentido-para-a-vida-apos-a-aposentadoria/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Caroline Santos Costa]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Nov 2021 13:33:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Geriatria]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[aposentadoria]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=4583</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este artigo visa fazermos a reflexão sobre o tema da busca de sentido para a vida após a aposentadoria a fim de obtermos uma melhor compreensão sobre este processo e sobre as dificuldades que alguns indivíduos encontram para lidar com esse momento de transição, segundo a perspectiva da psicologia analítica.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-image is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://www.ijep.com.br/img/artigos/artigo_598.jpeg" alt="Sentido para a vida após a aposentadoria Psicologia Junguiana" width="705" height="370"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A aposentadoria é um fenômeno historicamente recente. Teve início na sociedade industrial e sofreu algumas modificações, no decorrer do tempo, com a finalidade de garantir ao trabalhador o direito de se afastar da atividade profissional que exerceu com regularidade durante a vida e continuar recebendo uma remuneração, após ter cumprido as condições estabelecidas pelo direito previdenciário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com o crescimento da expectativa de vida da população brasileira, o número de pessoas que adquire a condição legal para aposentar-se teve um aumento significativo, sendo que muitas delas sentem dificuldade em lidar com esse momento de transição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O estudo da aposentadoria é um campo de pesquisa novo na área da psicologia, mas não menos relevante diante da realidade do aumento do percentual de pessoas que estão passando por esse processo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante disso, este artigo visa uma reflexão sobre o tema e uma melhor compreensão sobre as dificuldades que alguns indivíduos encontram para dar sentido à vida durante o processo da aposentadoria, segundo a perspectiva da psicologia analítica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vida segue seu percurso na forma de uma parábola composta por várias fases, onde cada uma corresponde a múltiplos aspectos a serem experienciados, visando ao desenvolvimento integral do indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Jung compara o processo do desenvolvimento humano ao percurso da parábola realizada pelo sol, fazendo uma analogia do que ocorre ao meio dia com a metade da vida do indivíduo, ressaltando as inversões dos valores que acontecem a partir deste período.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na visão do autor, na primeira metade da vida o ser humano tem como meta realizar o movimento de crescimento e realização voltado para a adaptação ao mundo exterior. O crescimento é direcionado para lidar com o mundo social. O jovem luta para ser aceito e conquistar&nbsp;um&nbsp;lugar na sociedade, escolhe uma profissão, torna-se um especialista, constrói uma família, dedica-se para adquirir bens materiais e status social, modificando a própria natureza para se adaptar às exigências externas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com o objetivo de ser aceito, o sujeito cria uma máscara ou persona para apresentar-se ao mundo externo, através da qual busca adaptar-se às convenções de cunho moral, social, político, filosófico e religioso impostas pela sociedade. Para Magaldi “a persona representa a proteção que uma pessoa usa para confrontar-se com o mundo. A persona está ligada ao status social, à profissão, ao trabalho exercido, à identidade sexual, entre outras formas de reconhecimento social” (MAGALDI, 2009, p. 177). Nesse sentido, a persona apresenta-se como fator positivo que facilita a atuação nos diversos papéis sociais, no decorrer da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, a persona também pode se desenvolver de forma patológica, quando o indivíduo fica identificado com o papel desempenhado por ela, pois exclui partes essenciais de sua totalidade. Jung ressalta que “em benefício de uma imagem ideal, à qual o indivíduo aspira moldar-se, sacrifica-se muito da sua humanidade” (JUNG, 2015, p. 46).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Na segunda metade da vida, período a partir do qual o indivíduo tende a atingir o ápice de suas conquistas externas, ocorre uma inversão natural da energia psíquica, visando ao desenvolvimento interior e conscientização das projeções externas, a fim de tornar-se fiel à expressão de sua totalidade. Neste momento, o indivíduo é convidado à introspecção, ao autoconhecimento, aos questionamentos dos antigos valores, à busca do sentido para a vida. Jung esclarece que “a causa fundamental de todas as dificuldades dessa fase de transição é uma mudança singular que se processa nas profundezas da alma” (JUNG, 2013a, p. 352).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobre essa mudança, o autor salienta:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entramos totalmente despreparados na segunda metade da vida, e pior do que isto, damos este passo sob a falsa suposição de que nossas verdades e nossos ideais continuarão como dantes. Não podemos viver a tarde da nossa vida segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã, será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã, será falso no entardecer (JUNG, 2013a, p.&nbsp;785).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao entrar no entardecer da vida, faz-se necessário reconhecer a importância das conquistas e experiências vividas na primeira etapa. Contudo, é imprescindível compreender a necessidade de renunciar aos papéis vividos e à identidade da juventude, bem como entender que cada fase possui a sua importância e precisa ser vivida plenamente de acordo com suas demandas peculiares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com isso, viver com entusiasmo é essencial para obter o melhor desenvolvimento em cada fase da vida. Jung ressalta que “o indivíduo deve entregar-se ao caminho com toda a sua energia, pois só diante da sua integridade poderá prosseguir e só ela será uma garantia de que tal caminho não se torne uma aventura absurda” (JUNG, 2017, p. 45).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando que a persona é uma construção psicológica e social adotada pelo indivíduo para um determinado fim, então, ela pode ser dissolvida e reconstruída, de acordo com a necessidade de adaptação no decorrer da vida. &nbsp;No entanto, o indivíduo frequentemente identifica-se com a persona e com os papéis que desempenha durante a vida. Geralmente, quanto mais prestígio oferece um papel, maior é a tendência de o sujeito identificar-se com ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O homem moderno é submetido durante toda a vida às influências da cultura patriarcal, com suas ideologias familiares, éticas, históricas e religiosas e, consequentemente, moldado para atender as expectativas da sociedade e oprimir as características da própria alma. É educado para ser julgado e valorizado pela sua produtividade, negligenciando o mundo interior e acreditando ser o papel que desempenhou durante a vida que foi sua principal fonte de reconhecimento, prestígio e poder.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, quando chega o momento da aposentadoria, depara-se com a necessidade da mudança e, num instinto natural de resistência, tende a se agarrar aos padrões antigos. Não conseguindo se diferenciar do papel profissional que representou, encontra dificuldades em dar um novo sentido para a vida, mesmo tendo oportunidade de usar seu tempo para atividades que lhe proporcione prazer. Mas como fazer isso, sem ter buscado o autoconhecimento e se preparado ao longo do caminho?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Hollis, a partir da segunda metade da vida, surge a necessidade de responder ao questionamento: “Quem sou eu, além da minha história e dos papéis que representei?” (HOLLIS, 1995, p. 25).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na visão de Santos “o sujeito que investiu no papel profissional de tal forma que ele se tornou a principal ou a única forma de engajamento social, de reconhecimento, de prestígio ou de poder, a aposentadoria será vivida de forma dolorosa e difícil” (SANTOS, 1990, p. 28).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, a autora salienta que “se o sujeito construir durante a vida outras fontes de reconhecimento e valorização, a perda do papel profissional e as mudanças que daí decorrem são vividas de forma menos problemática” (SANTOS, 1990, p. 29).</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, mesmo passando pelas perdas, o sujeito precisará se adaptar e reorganizar seus papéis. Considerando que, após a aposentadoria, o indivíduo não poderá contar com o papel profissional que lhe serviu de máscara no decorrer de anos, ele será obrigado a olhar para dentro, tomar consciência das características desconhecidas, diferenciar o que é seu do que foi imposto pela socialização, e assim, reconhecer e integrar novos papéis com o objetivo de encontrar sentido para a vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, a aposentadoria surge como oportunidade para o indivíduo questionar valores e olhar para dentro de si, a fim de entregar-se ao seu próprio caminho na busca do sentido para a vida e do significado existencial, não apenas com foco na sobrevivência biológica e no valor profissional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entender o valor do papel profissional na formação da identidade do sujeito é fator fundamental para compreender por que alguns indivíduos apresentam dificuldade em dar sentido à vida após a aposentadoria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assumir a condição de aposentado de forma brusca, sem reflexão e preparação prévia, potencializa a ocorrência de problemas no reposicionamento e no engajamento na estrutura social, e, consequentemente, implicações no plano pessoal. Portanto, torna-se essencial planejar e buscar novas áreas de interesses, incentivando a descoberta de potencialidades não desenvolvidas e o reconhecimento das limitações orgânicas, para que sejam mitigados os conflitos que emergem nessa fase da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O momento da aposentadoria, como foi explicitado, geralmente coincide com a maturidade psicológica, reunindo características psíquicas peculiares dessa fase.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung:</p>



<p class="wp-block-paragraph">A tarde da vida deve ter também um significado e uma finalidade próprios, e não pode ser apenas o lastimoso apêndice da manhã da vida. [&#8230;] Quem estende assim a lei da manhã, isto é, o objetivo da natureza, até a tarde da vida, sem necessidade, deve pagar este procedimento com danos à sua alma. [&#8230;] A preocupação em ganhar dinheiro, a existência social, a família, o cuidado com a prole são meras decorrências da natureza, mas não cultura. Esta situa-se para além da esfera dos objetivos da natureza (JUNG, 2013c, p. 356).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Deste contexto, podemos inferir que o entardecer da vida torna-se doloroso caso o indivíduo continue preso de maneira regressiva aos objetivos da juventude, como se esse padrão fosse de natureza eterna. O desenvolvimento da cultura que proporciona ao indivíduo a conexão com a alma faz-se necessário nesse momento, a fim de proporcionar, de forma saudável, o encerramento de um ciclo e o início de outro. Assim, o que é importante para o jovem encontrar no mundo externo, a fim de realizar as conquistas necessárias dessa fase, o homem na segunda etapa da vida precisa encontrar dentro de si.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sentido está ligado à conexão com a alma, a desenvolver a vida respeitando o ser. Assim, no momento da aposentadoria, o encontro do sentido é o grande desafio a ser vencido, a fim de obter motivação para continuar a vida. França ressalta que “o projeto de vida pode ser tão importante a ponto de curar, postergar ou estacionar uma doença” (FRANÇA, 1999, p. 23).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conclui-se, assim, que a maior dificuldade em encontrar sentido para a vida após a aposentadoria ocorre quando o indivíduo permanece preso ao valor psicossocial e à rotina do papel profissional que executou durante a sua fase laboral. Isso geralmente acontece pela falta de autoconhecimento que dificulta compreender e acolher as diversas facetas do si mesmo e encontrar a melhor forma de transição para essa nova etapa da vida e, também, pela falta de planejamento que, por sua vez, prejudica uma melhor adaptação ao momento em que se encontra o indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O autoconhecimento surge como alternativa para os momentos de passagem, viabilizando o planejamento da nova fase e permitindo um olhar cuidadoso que, por sua vez, possibilita ao indivíduo entrar em contato com aspectos inconscientes, integrando-os à consciência e promovendo a realização possível da personalidade.&nbsp;A conexão com a alma estabelecida pelo autoconhecimento permite descobrir o sentido para a vida de acordo com as peculiaridades do ser no momento em que se encontra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma, podemos constatar que o autoconhecimento, atrelado ao planejamento, é essencial para o processo da aposentadoria. Juntos, permitem que seja vislumbrado um caminho para a adaptação do indivíduo à nova realidade, respeitando as demandas da alma e proporcionando a vivência saudável desse novo ciclo da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Caroline Santos Costa – Analista em Formação pelo IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Analista didata – Waldemar Magaldi</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências bibliográficas</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANÇA, Lucia Helena de F.P. Preparação para a aposentadoria: desafios a enfrentar. In: VERAS, Renato Peixoto<em>. Terceira idade</em>: alternativas para uma sociedade em transição. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1999. p. 11-34.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James<em>. A passagem do meio</em>: da miséria ao significado na meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>A natureza da psique</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______.&nbsp;<em>O eu e o inconsciente</em>. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______.&nbsp;<em>O segredo da flor de ouro</em>: um livro de vida chinês. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI FILHO, Waldemar.&nbsp;<em>Dinheiro, saúde e sagrado</em>: interfaces culturais, econômicas e religiosas à luz da psicologia analítica. 2. ed. São Paulo: Eleva Cultural, 2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SANTOS, Maria de Fátima.&nbsp;<em>Identidade e aposentadoria</em>. São Paulo: Epu, 1990.</p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-caroline-santos-costa-16-11-2021"><strong><em>Caroline Santos Costa &#8211; 16/11/2021</em></strong></h4>
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