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	<title>Arquivos complexo paterno - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos complexo paterno - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Meditando os Complexos: Psicologia Junguiana, Filosofia Oriental e Neurociência</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/meditando-os-complexos-psicologia-junguiana-filosofia-oriental-e-neurociencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Mitsuo Sato]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Feb 2026 23:49:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[complexo paterno]]></category>
		<category><![CDATA[Meditação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quem nunca se sentiu impotente frente a uma situação da vida, seja no trânsito, em um conflito no trabalho, no relacionamento? Por vezes, coisas que parecem banais – como uma palavra, um barulho, um olhar – podem, em um determinado contexto, ativar conteúdos inconscientes e constelar complexos que causam danos desproporcionais.</p>
<p>Os complexos, por carregarem uma grande carga afetiva, fazem parte da vida cotidiana de todos nós. Somos, em maior ou menor grau energético, constantemente atravessados por eles, impactando todas as áreas da nossa vida, pois atuam de maneira autônoma diretamente nas relações, sejam elas familiares, profissionais, afetivas ou amizades.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quem nunca se sentiu impotente frente a uma situação da vida, seja no trânsito, em um conflito no trabalho, no relacionamento? Por vezes, coisas que parecem banais – como uma palavra, um barulho, um olhar – podem, em um determinado contexto, ativar conteúdos inconscientes e constelar complexos que causam danos desproporcionais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os complexos, por carregarem uma grande carga afetiva, fazem parte da vida cotidiana de todos nós. Somos, em maior ou menor grau energético, constantemente atravessados por eles, impactando todas as áreas da nossa vida, pois atuam de maneira autônoma diretamente nas relações, sejam elas familiares, profissionais, afetivas ou amizades.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conforme-a-definicao-de-jung-complexo-nbsp" style="font-size:18px">Conforme a definição de Jung, complexo:&nbsp;</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de&nbsp;<em>autonomia</em>, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da es até um certo limite e, por isto, se comporta, na esfera do consciente, como um&nbsp;<em>corpus alienum</em>&nbsp;corpo estranho, animado de vida própria. (JUNG, 2013, p.43, grifos do autor)&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O fator determinante de um complexo é o seu tônus afetivo. É a carga emocional que dá ao complexo sua autonomia. Quando um complexo é constelado, ocorre o rebaixamento do nível mental, ou seja, a consciência do Ego é enfraquecida e o complexo assume o controle dos nossos pensamentos, sentimentos e ações. <em><strong>Nas palavras do próprio Jung (2013, p.43): “os complexos podem nos ter”.&nbsp;</strong></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Foi justamente vivenciando e elaborando esses complexos que resolvi escrever esse artigo. No processo de análise junguiana, o trabalho de enfraquecer energeticamente o complexo é uma construção cuidadosa, minuciosa e que exige a participação ativa da consciência. Mas e quando somos constelados por um complexo e não temos o suporte imediato da terapia?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-podemos-fazer-para-despotencializar-esses-complexos" style="font-size:18px">O que podemos fazer para despotencializar esses complexos?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A meditação pode ser uma ferramenta eficiente para reduzir a carga energética dos complexos e, consequentemente, os sofrimentos psíquico e emocional dos eventos. O objetivo não é trazer a meditação como uma atividade ligada às práticas religiosas, mas entender como o ato de meditar pode nos ajudar a identificar, elaborar e despotencializar os nossos complexos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Jung (2013, p.21) entendia que</strong>: “<em>É a partir de dentro que devemos atingir os valores orientais e procurá-los dentro de nós mesmos, e não a partir de fora. Devemos procurá-los em nós próprios, em nosso inconsciente. Aí, então, descobriremos quão grande é o temor que temos do inconsciente e como são violentas as nossas resistências</em>.”&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-a-palavra-meditacao-principalmente-em-sua-raiz-tibetana-significa-familiarizar-se-com-a-sua-propria-mente-seus-pensamentos-emocoes-e-padroes-habituais-permitindo-observa-los-sem-julgamento-para-compreende-los-e-transforma-los" style="font-size:18px">A palavra meditação, principalmente em sua raiz tibetana, significa “familiarizar-se com a sua própria mente, seus pensamentos, emoções e padrões habituais, permitindo observá-los sem julgamento para compreendê-los e transformá-los”.</h3>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No oriente, o objetivo da meditação não é relaxar, mas eliminar as perturbações da consciência. Muitas vezes, busca-se na meditação apenas um estado alterado de consciência, o relaxamento passageiro, a paz momentânea enquanto se está de olhos fechados. Embora agradável, esse estado não despotencializa os complexos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-satchidananda-explica-que" style="font-size:18px">Satchidananda explica que:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os pensamentos obstrutivos apresentam-se em dois estágios: a forma potencial, antes que venham à superfície e sejam convertidos em ação; e os manifestos, que são aqueles que já estão sendo colocados em prática. É mais fácil controlar as coisas manifestas primeiro; depois, partindo do mais grosseiro, podemos lentamente adentrar no mais sutil. As formas-pensamento em estado potencial (samskaras) não podem ser removidas pela meditação. Quando você medita sobre essas impressões, você as traz à superfície. Você não pode destruí-las por esse meio, mas pode vê-las e compreendê-las com clareza, assumindo o controle sobre se elas devem ou não se manifestar em ação. Você pode rastreá-las até sua forma sutil e ver diretamente que o ego é a base de todos esses pensamentos obstrutivos. (SATCHIDANANDA, 2012, p.219, tradução nossa)&nbsp;&nbsp;</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa observação sem julgamento proposta pela tradição oriental é, na linguagem da psicologia analítica, o primeiro passo para a desidentificação do complexo. Quando estamos inconscientes, nós somos o complexo (a raiva, o medo, a vítima). Porém, no momento em que meditamos e assumimos a postura de observadores da própria mente, criamos uma separação entre o EU e o objeto observado, que pode ser um pensamento, um sentimento, uma emoção, uma imagem ou uma situação específica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung descreve esse processo, chamado de <strong>apercepção</strong>: <em>“A apercepção é constituída de duas fases: a primeira é a apreensão do objeto, e a segunda a assimilação da apreensão à imagem previamente existente ou ao conceito mediante o qual o objeto é “compreendido”</em> (2013, p.23)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao sustentar esse olhar atento, cortamos o suprimento de energia.&nbsp;Ao sustentarmos essa tensão dos opostos (o impulso de reagir versus a decisão consciente de observar), é possível gerar novas perspectivas e novas atitudes. O complexo não desaparece, mas sem a injeção constante de nossa atenção e identificação emocional ele sofre uma despotencialização. Nesse sentido, a meditação atua como um treino diário para fortalecer o ego frente aos impulsos do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em tempo, ainda podemos trazer estudos da neurociência para “traduzir” o que acontece no cérebro durante o estado meditativo. <strong>Richard Davidson</strong> e <strong>Daniel Goleman</strong>, durante 40 anos de estudos e pesquisas, ao analisarem o cérebro de praticantes de meditação de longo prazo, identificaram alterações funcionais que explicam a perda de força dos complexos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eles mediram a velocidade de recuperação da amígdala após um evento disruptivo (podemos fazer um paralelo aqui com a constelação de um complexo). Em não-meditadores, uma imagem perturbadora mantém a amígdala ativa por muito tempo (ruminação), enquanto em meditadores experientes, a amígdala dispara, mas desliga quase&nbsp;que imediatamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Goleman demonstra que o indicador de saúde mental não é a ausência de perturbação emocional, mas a rapidez com que o cérebro retorna à linha de base após um gatilho. O meditador mais experiente, ao confrontar uma situação que ativaria um complexo, vivencia o impacto, mas seu circuito neural impede que a reação momentânea se transforme em horas de ruminação obsessiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Além disso, a pesquisa destaca o efeito das ondas gama. Enquanto em cérebros comuns essas ondas de alta frequência (associadas à integração de informações e insights) aparecem apenas em lampejos breves, em meditadores avançados elas se tornam um traço constante.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Desse estudo, trazem a definição de traços alterados na prática de meditação:&nbsp;&nbsp;“Um traço alterado — uma nova característica que surge com a prática da meditação — perdura independentemente da meditação. Traços alterados moldam como nos comportamos em nossa vida diária, não apenas durante ou imediatamente após meditar.” (GOLEMAN e DAVIDSON, 2017, posição 9 de 298)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Conforme descrevem Goleman e Davidson (2017), no começo da prática meditativa as mudanças são imperceptíveis, mas com a persistência, tornam-se visíveis, porém ainda flutuantes, elas vem e vão. É somente com a frequência da prática que as alterações se tornam constantes e duradouras.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo a pesquisa, apenas sete horas de prática acumuladas ao longo de duas semanas já são suficientes para aumentar a conectividade nos circuitos cerebrais ligados à empatia e às emoções positivas. Goleman aponta que esse fenômeno — onde os efeitos se manifestam mesmo fora do momento da meditação — é o primeiro indício biológico de um &#8216;estado&#8217; começando a se transformar em um &#8216;traço&#8217; de personalidade, mas que, sem a continuidade diária, essas novas conexões tendem a se desfazer.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora os complexos sejam estruturais e, segundo Jung, não possam ser simplesmente eliminados, eles podem ser despotencializados. A meditação se revela, portanto, não como uma fuga da realidade, mas como um ato de coragem, introspecção e autoconhecimento. Ao treinarmos o olhar observador, retiramos a energia que antes constelava os nossos complexos e a devolvemos para a consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez a meditação não seja para todos e, decerto, nem todos sentir-se-ão atraídos pela prática. Mas é uma ferramenta que nos permite sentir a emoção sem nos tornarmos ela, garantindo que, diante dos diversos eventos e afetos do nosso cotidiano, tenhamos sempre a liberdade de escolha, e não apenas sermos reféns da reação.</p>



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<iframe title="📃Artigo novo: &quot;Meditando os Complexos: Psicologia Junguiana, Filosofia Oriental e Neurociência&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/cs1mdfMFO5U?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ricardo-mitsuo-sato/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/ricardo-mitsuo-sato/"><strong>Ricardo Mitsuo Sato</strong> &#8211; <strong>Analista em formação pelo IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/"><strong>Glória Miranda</strong> <strong>&#8211; Analista Didata IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-r-eferencias" style="font-size:18px"><strong>R</strong>eferências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">GOLEMAN, Daniel; DAVIDSON, Richard J. A ciência da meditação: como transformar o cérebro, a mente e o corpo. Objetiva, 2017. E-book&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ Psicologia e religião oriental. 9.ed. Petrópolis: Vozes, 203</p>



<p class="wp-block-paragraph">SATCHIDANANDA, S. The Yoga Sutras of Patanjali: Translation and commentary by Sri Swami Satchidananda.&nbsp;Buckingham: Integral Yoga Policátions, 2012. E-book</p>
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			</item>
		<item>
		<title>À procura do pai no parceiro amoroso</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-procura-do-pai-no-parceiro-amoroso/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristiane dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Oct 2025 19:12:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[complexo paterno]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Esse texto foi fundamentado no livro O Desenvolvimento da Personalidade, de Carl Gustav Jung e apesar de abordar um recorte feminino, a problemática é análoga à vivência masculina, ou seja, o homem procurando sua mãe na parceira amorosa. O intuito dessas linhas é convidar o leitor à reflexão de como estamos conduzindo a educação [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6"><strong>Resumo</strong>: Esse texto foi fundamentado no livro <em>O Desenvolvimento da Personalidade,</em> de Carl Gustav Jung e apesar de abordar um recorte feminino, a problemática é análoga à vivência masculina, ou seja, o homem procurando sua mãe na parceira amorosa. O intuito dessas linhas é convidar o leitor à reflexão de como estamos conduzindo a educação de nossas crianças. Visa também a conscientização de como pequenas atitudes, que muitas vezes julgamos inofensivas, podem provocar danos profundos à psique de nossas crianças e que repercutirão durante a vida toda. É um chamado à introspecção e à análise sobre qual terreno estamos edificando as nossas relações e que tipo de herança estamos deixando para as futuras gerações. Boa leitura!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tudo-aquilo-que-quisermos-mudar-nas-criancas-devemos-primeiro-examinar-se-nao-e-algo-que-e-melhor-mudar-em-nos-mesmos-jung"><strong><em>“Tudo aquilo que quisermos mudar nas crianças, devemos primeiro examinar se não é algo que é melhor mudar em nós mesmos.” Jung</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nos meus atendimentos comecei a perceber um padrão recorrente em algumas de minhas clientes e durante a anamnese pude perceber que elas estavam vivenciando uma dinâmica familiar herdada nos primeiros anos da vida e até durante a gestação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Traições, relacionamentos tóxicos e abusivos, agressividade, drogadicção, sensação de não serem ouvidas ou validadas, desrespeito e comportamentos que impactavam a autoestima eram questões constantemente narradas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Durante a anamnese comecei a perceber que essa vivência era muito familiar, pois, quando crianças, haviam presenciado essa estrutura emocional em seus lares e que atualmente, de forma inconsciente, estavam replicando esse padrão comportamental em suas vidas.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A criança tem uma psicologia singular. Assim como o seu corpo, durante a vida embrionária, é uma parte do corpo materno, também sua mente, por muitos anos, constitui parte da atmosfera psíquica dos pais. </p><cite>(JUNG, 2013, p. 84)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung destaca com essa afirmação que a maneira de viver dos pais influencia profundamente na formação da personalidade da criança e que a atmosfera familiar molda e determina o direcionamento que essa pessoa dará à sua vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung (2013, p. 60) diz que durante a infância a consciência vai se formando por um agrupamento gradual de fragmentos e que esse processo dura a vida inteira, mas que a partir da puberdade, vai se tornando cada vez mais lento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É devido à esta constatação que se diz que a primeira infância é a época propícia para incutir crenças e valores nas crianças, além de corrigir tendências nocivas que por ventura elas apresentem.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse é o momento em que as sementes lançadas encontram as condições mais promissoras para fecundação e crescimento.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>&#8230; o que importa não são palavras boas e sábias, mas tão somente o agir e a vida real dos pais. Também não está resolvido o assunto se os pais apenas procuram viver de acordo com os valores morais geralmente aceitos, porque o cumprimento de costumes e leis pode servir igualmente para encobrir uma mentira de tal modo sutil que, por isso mesmo, escape à percepção de outras pessoas. </p><cite>&nbsp;(JUNG, 2013, p. 49)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-nos-convoca-a-necessidade-de-uma-atitude-etica-verdadeira-e-transparente-em-nossas-relacoes" style="font-size:19px">Jung nos convoca à necessidade de uma atitude ética, verdadeira e transparente em nossas relações.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ele nos convida à inteireza, com a integração dos aspectos luminosos e sombrios de nossa personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa é uma questão muito complexa, pois, para se ter uma relação realmente harmoniosa, exige-se do casal, primeiramente, uma sinceridade consigo mesmo e depois com o parceiro. É essencial desnudar-se e entrar na relação de forma inteira, sem subterfúgios, manipulações ou falsas promessas.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Coisas que pairam no ar ou que a criança percebe de modo indefinido, a atmosfera abafada e cheia de temores e apreensões, tudo isso penetra lentamente na alma da criança, como se fossem vapores venenosos.</p><cite>(JUNG, 2013, p. 139)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Não adianta querer representar uma relação do tipo “<strong><em>família margarina</em></strong>”, pois o inconsciente da criança, como diz Jung: “<strong><em>constitui parte da atmosfera psíquica dos pais</em></strong>” e está à espreita, vendo e registrando tudo o que acontece, para no futuro balizar suas escolhas baseadas nessas impressões.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essas-escolhas-acontecem-de-forma-inconsciente-pois-como-o-padrao-esta-incutido-na-psique-essas-pessoas-vao-atrair-para-suas-vidas-parceiros-e-circunstancias-similares-como-se-fossem-um-ima" style="font-size:19px">Essas escolhas acontecem de forma inconsciente, pois, como o padrão está incutido na psique, essas pessoas vão atrair para suas vidas, parceiros e circunstâncias similares, como se fossem um ímã.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">&nbsp;Os amores não vivenciados, as mentiras ocultadas, as emoções veladas, os desejos reprimidos e as verdades não verbalizadas pelos pais são captadas pelo inconsciente da criança, que dependendo do grau de ligação a eles, influenciará as escolhas em sua vida, no caso dos relacionamentos amorosos, a pessoa buscará um parceiro com tendências idênticas ou diametralmente opostas.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Em regra, a vida que os pais podiam ter vivido, mas foi impedida por motivos artificiais, é herdada pelos filhos, sob uma forma oposta. Isto significa que os filhos são forçados inconscientemente a tomar um rumo na vida que compense o que os pais não realizaram na própria vida. </p><cite>(JUNG, 2013, p. 49)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-verificamos-assim-que-o-padrao-energetico-do-parceiro-escolhido-esta-estritamente-vinculado-a-energia-psiquica-do-modelo-de-pai-que-essa-mulher-teve" style="font-size:19px">Verificamos assim que o padrão energético do parceiro escolhido está estritamente vinculado à energia psíquica do modelo de pai que essa mulher teve.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Não é uma questão de azar, ou de dedo podre, ou gostar de sofrer, essa escolha é fruto de uma “<em>infecção que se dá por via indireta, fazendo com que os filhos assumam uma atitude em relação ao estado de espírito dos pais: ou reagem em defesa própria por meio de um protesto mudo, ou se tornam vítimas de uma coação interna de imitação, que os paralisa psiquicamente</em>.” (JUNG, 2013, p. 89)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entao-os-pais-devem-ser-perfeitos-para-assegurar-uma-vida-sem-influencias-negativas-aos-seus-filhos-jung-nos-diz-que" style="font-size:19px">Então os pais devem ser perfeitos para assegurar uma vida sem influências negativas aos seus filhos? Jung nos diz que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O que importa não é que os pais devam ser perfeitos, a fim de não causarem danos aos filhos. Caso fossem realmente perfeitos, isto seria catastrófico para os filhos, pois neste caso não restaria a estes outra coisa senão o sentirem-se moralmente inferiores; a não ser que preferissem ultrapassar os pais, empregando os mesmos meios que eles, isto é, imitando-os. Mas este último recurso apenas adia a prestação de contas, no máximo até a terceira geração. Os problemas recalcados e os sofrimentos que foram deste modo poupados fraudulentamente na vida produzem um veneno secreto, que penetra na alma dos filhos, mesmo através das paredes mais grossas do silêncio ou do reboco mais duro aplicado sobre os sepulcros, porque passa através de tudo isso como que deslizando de maneira fraudulenta e sobreposta. </p><cite>(JUNG, 2013, p.89)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-como-saio-dessa-situacao" style="font-size:19px">“E como saio dessa situação?”</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>“É possível atrair parceiros diferentes desse padrão?</strong>”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essas são perguntas que constantemente ouço após a identificação e conscientização dessa dinâmica, desse padrão de atração repetitivo, inicialmente totalmente inconsciente e tão desestruturante.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung (2013, p. 205) diz que esse momento de conscientização pode ser atingido através de vários caminhos, mas que eles obedecem a certas leis. Normalmente essa mudança acontece no início da segunda metade da vida, que é uma fase de fundamental importância psicológica.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O meio da vida é um tempo de desenvolvimento máximo, quando a pessoa ainda está trabalhando e operando com toda a sua força e todo o seu querer. Mas nesse momento tem início o entardecer, e começa a segunda metade da vida&#8230;. Procura-se encontrar suas motivações verdadeiras e surgem descobertas. O indivíduo consegue conhecer sua peculiaridade por meio da consideração crítica de si próprio e de seu destino. Mas esses conhecimentos não lhe são dados de graça. Chega-se a tais conhecimentos apenas por abalos violentos. </p><cite>(JUNG, 2013, p. 205-206)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os abalos violentos mencionados por Jung são decorrentes da mudança de paradigma que a pessoa vivencia no entardecer da vida, provenientes da constatação de que aquilo que era importante na primeira metade da vida, agora se mostra insuficiente ou inadequado e que os valores e crenças que alicerçavam sua vida, se tornaram frágeis e insustentáveis.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aquilo-que-foi-propagado-como-garantia-de-felicidade-nao-produz-preenchimento-interno-nem-tampouco-paz-a-alma" style="font-size:19px">Aquilo que foi propagado como garantia de felicidade não produz preenchimento interno, nem tampouco, paz à alma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa fase desperta na pessoa um profundo desejo de tornar-se uno e indivisível.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É nesse momento que ela percebe que passou muito tempo em sua vida, procurando por alguém que a completasse, que preenchesse o vazio existencial originado na infância, decorrente das situações em que vivenciou o abandono, o abuso, a rejeição, a violência, a inadequação, a falta de afeto e atenção, quando sua voz e vontade foram suprimidas e sua autoestima reprimida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-e-a-hora-de-virar-o-jogo-e-parar-de-projetar-no-parceiro-os-aspectos-desse-pai-ausente-fraco-castrador-devorador-manipulador-abusivo-e-violento" style="font-size:19px">Essa é a hora de virar o jogo e parar de projetar no parceiro os aspectos desse pai ausente, fraco, castrador, devorador, manipulador, abusivo e violento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Perceber que se faz necessário a ruptura da vontade inconsciente de querer salvar nossos pais, vivendo a vida que eles não conseguiram, para sermos dignos de receber o amor, o afeto, a atenção e a validação deles.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse é um processo extremamente desafiador, mas, profundamente libertador.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;À procura do pai no parceiro amoroso&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/uEZSjeu6wTY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-santos/">Cristiane dos Santos &#8211;  Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:20px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. &nbsp;<em>O Desenvolvimento da Personalidade</em>. 14.ed. Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br"><strong>www.ijep.com.br</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Onde está o Outro? O efeito da ausência do pai nos relacionamentos amorosos femininos</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/onde-esta-o-outro-o-efeito-da-ausencia-do-pai-nos-relacionamentos-amorosos-femininos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marta Beatriz Conceição Guedes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Sep 2025 13:40:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[complexo paterno]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[figura paterna]]></category>
		<category><![CDATA[pai]]></category>
		<category><![CDATA[pais]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos femininos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este artigo analisa o impacto da ausência paterna na composição dos relacionamentos amorosos femininos. Com base na psicologia analítica junguiana, o texto traz inicialmente o papel do pai na constituição da psique feminina e como a sua falta provoca um vazio simbólico, o que pode aprisionar a mulher em uma identidade infantilizada, presa ao [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong>Resumo</strong>: <strong>Este artigo analisa o impacto da ausência paterna na composição dos relacionamentos amorosos femininos</strong>. Com base na psicologia analítica junguiana, o texto traz inicialmente o papel do pai na constituição da psique feminina e como a sua falta provoca um vazio simbólico, o que pode aprisionar a mulher em uma identidade infantilizada, presa ao mundo materno, bloqueando o acesso ao outro, à alteridade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-abordou-no-ensaio-a-importancia-do-pai-no-destino-do-individuo-que-consta-no-titulo-freud-e-a-psicanalise-volume-iv-das-obras-completas-o-papel-do-pai-para-a-psique" style="font-size:20px">Jung abordou no ensaio <em>A importância do pai no destino do indivíduo,</em> que consta no título <em>Freud e a Psicanálise</em>, volume IV das Obras Completas, o papel do pai para a psique.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Para Jung, o pai representava a função de mediação e orientação; o princípio do Logos; e a estruturação da consciência, o que será melhor desenvolvido no decorrer do trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">O pai possui então extrema importância psíquica, pois para além do pai individual, ele é o representante da luta do herói divino contra o dragão-mãe, a fim de libertar o herói do poder da escuridão da inconsciência “como uma tentativa do próprio inconsciente de resgatar a inconsciência da regressão ameaçadora” (Jung, 2013a, §738).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong>Tal força se refletia fortemente na cultura ocidental, outrora, na imagem do pai individual, a quem se devia obediência e respeito de forma inquestionável</strong>. Isso porque, além de arquetipicamente representar a força contra o inconsciente, ele era o provedor financeiro e espiritual da família. Contudo, com o passar do tempo, este papel passou por um processo de esvaziamento na cultura ocidental, pois, dentre outros fatores: as mães também se tornaram provedoras do lar; o Estado assumiu certa parte da função normatizadora; a Igreja passou a ter voz de autoridade espiritual sobre o lar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sendo-assim" style="font-size:20px">Sendo assim,</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px;line-height:1.4"><blockquote><p><strong>O status de pai foi, portanto, alterado no mundo externo; ele não é mais tomado coletivamente como figura predominant</strong>e. Essa mudança afetou o pai individual, tornando-o inseguro e incerto de seu papel na família, deixando às decisões à mãe, assim fortalecendo fatalmente seu animus.</p><cite>Heydt, 1979, p. 156</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Podemos inferir que, em virtude do esvaziamento de sua função dentro dos lares, há também certo esvaziamento da experiência da vivência do pai arquetípico luminoso na cultura, causando sintomas desagradáveis – o que não consegue ser compensado pela atuação do pai pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Há que se ressaltar que o pai possui um papel ao mesmo tempo que representante do pai pessoal o é também uma estrutura arquetípica, que tem como função primordial retirar o indivíduo de sua situação natural de inconsciência. Por isso, mesmo que não tenha um pai individual, a pessoa possui o tipo pai em sua base. Nas palavras de Jung,</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px;line-height:1.4"><blockquote><p>a criança possui um sistema herdado que antecipa a existência dos pais e sua possível influência sobre ela. Em outras palavras, atrás do pai existe o arquétipo do pai e neste tipo preexistente está o segredo do poder paterno, a exemplo da força que leva o pássaro a migrar. Esta força não é produzida por ele, mas provém dos antepassados. </p><cite>Jung, 2013a, p. §739</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A título de exemplo da manifestação da paternidade sombria temos o recente dado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, referente a 2022, que revela que no Brasil, 11 milhões de mulheres criam sozinhas os filhos (<a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-08/no-brasil-11-milhoes-de-mulheres-criam-sozinhas-os-filhos">https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-08/no-brasil-11-milhoes-de-mulheres-criam-sozinhas-os-filhos</a>). Vê-se que é um fenômeno geral e particular concomitantemente, que nos evocou alguns questionamentos: Qual o papel do pai na psique? O que acontece quando o pai é ausente ou insuficiente? <a>Qual o reflexo da sua ausência na vida das filhas, em especial nos relacionamentos amorosos?</a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A tais perguntas pretendemos tecer breves considerações, aprofundando um pouco no que tange o reflexo da ausência do pai na vida das filhas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-qual-o-papel-do-pai-na-psique" style="font-size:20px"><strong>Qual o papel do pai na psique?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Segundo Jung, podemos citar 3 papéis simbólicos principais para o pai: função mediadora e de orientação; ele representa o princípio do logos na psique; e ele dá estrutura à consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A função mediadora do pai significa que ele representa o princípio que introduz a criança no mundo da cultura, da lei e da ordem simbólica, bem como atua como mediador entre mãe e criança, de forma e romper a fusão inicial existente entre eles. Em suas palavras:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>O pai representa o mundo das ordens e proibições morais (&#8230;). O pai é o representante do espírito que se opõe à impulsividade, impedindo-a. É este seu papel arquetípico, que lhe cabe inexoravelmente, sem interferir em suas demais qualidades pessoais. </p><cite>JUNG G. C., 2013b</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Além do papel ordenador e mediador, o pai representa o <em>logos</em> a função que introduz direção, consciência discriminativa dos opostos:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px;line-height:1.4"><blockquote><p>Não existe consciência sem diferenciação de opostos. É o <em>princípio paterno do Logos</em> que, em luta interminável, se desvencilha do calor e da escuridão primordiais do colo materno, ou seja, da inconsciência.</p><cite>JUNG, 2016, §178</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Como terceiro papel, o pai simbólico dá estrutura à consciência, possibilitando que a criança desenvolva com maior firmeza o ego, seu sentido de orientação e acesso a instâncias superiores da psique, como o espírito e o Self. Na falta dessa função, a consciência tende a permanecer mais enredada nos conteúdos inconscientes maternos, dificultando a individuação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-acontece-quando-o-pai-e-ausente-ou-insuficiente" style="font-size:20px"><strong>O que acontece quando o pai é ausente ou insuficiente?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Primeiramente, deixemos claro aqui que estamos falando da imagem de pai que cada indivíduo tem, do pai internalizado, não no pai real. Tratamos, portanto, do pai interno que, de forma luminosa, castra, diz “não”, que separa, que estrutura a psique, que permite que o ego emerja do inconsciente indiferenciado, ambiente nato do arquétipo materno. Sem essa função, a psique permanece envolta numa névoa simbiótica, onde ainda se está no mundo da mãe, dominada por afetos indistintos, fantasias arcaicas, um eterno presente sem forma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Quando o pai real é suficientemente bom, na forma do que <strong>Winnicott</strong> dispõe, ele encarna esse princípio como função, permitindo que a criança internalize uma estrutura que a ajude a se orientar no mundo, constituindo o chamado complexo paterno positivo. Contudo, como dito anteriormente, grande parte das crianças brasileiras não possui figura paterna que atenda a ideia de suficiência, formando um vácuo que abre espaço para o complexo paterno negativo, constituindo os indivíduos que Seligman (1982) chama de “meio-vivos”, que são aqueles em que esse princípio parece não ter sido incorporado, ou foi incorporado de forma fraca, parcial, distorcida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-resultado-e-uma-psique-sem-eixo-nao-ha-um-centro-forte-uma-identidade-solida-um-espaco-interno-onde-a-experiencia-possa-ser-metabolizada-eliade-2018-o-individuo-pode-viver-desempenhando-papeis-adaptando-se-mas-sem-raiz-ou-direcao-nas-palavras-de-alberto-pereira-filho" style="font-size:20px"><em>O resultado é uma psique sem eixo</em>. Não há um centro forte, uma identidade sólida, um espaço interno onde a experiência possa ser metabolizada (Eliade, 2018). O indivíduo pode viver desempenhando papéis, adaptando-se, mas sem raiz ou direção. Nas palavras de <strong>Alberto Pereira Filho</strong>,</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px;line-height:1.4"><blockquote><p>(&#8230;) a ausência de um representante do pai é danosa para a personalidade: se faltam regras e limites, o filho se dilui no lugar de se relacionar com o mundo; invade-o, ou se deixa invadir por ele. Ou ainda, em outro extremo, torna-se rígido, uma vez que a prontidão psíquica para a constelação do arquétipo paterno se incumbe de preencher lacunas da consciência com a massa bruta do arquétipo a ser ativado. </p><cite>Lima Filho, 2002, p. 69</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Quando o pai se faz ausente pode haver uma falha na formação da sua imagem; e se não há um outro representante que faça esse papel, pode ocorrer uma carência na estruturação do cosmos no caos (Eliade, 2018), da separação do indivíduo do mundo materno para o exterior. Pode haver uma falha de contorno, gerando os “meio-vivos”, pessoas que apesar de funcionais, não se sabem como existentes, como donas de vontade, autônomas e conscientes de si.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-qual-o-reflexo-da-ausencia-da-figura-do-pai-na-vida-das-filhas-em-especial-nos-relacionamentos-amorosos" style="font-size:20px"><strong>Qual o reflexo da ausência da figura do pai na vida das filhas, em especial nos relacionamentos amorosos?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A condição de “meio-vivo” é particularmente comum entre mulheres criadas em famílias onde o pai era ausente e a mãe sobrecarregada. Mas não se limita ao feminino. Homens também podem ser “meio-vivos” — especialmente aqueles criados em lares caóticos, sem figuras masculinas afirmativas. Nesses casos, o homem pode crescer com uma aparência de força — musculosa, racional, ambiciosa — mas por dentro, vazio, inseguro, desconectado. Contudo, no caso das meninas a situação é agravada, pois uma vez identificada biologicamente com a mãe, o seu mundo infantil fica destituído da imagem do diferente, do outro, da alteridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Quando não há uma figura paterna, mãe e filho estão voltados um para o outro, como no ato da amamentação (Lima Filho, 2002) . Ou seja, é um sistema fechado, marcado pela mutualidade, característica da participação mística, que significa falta de fronteiras psíquicas. Já na situação em que há a figura do pai presente, ele surge como um terceiro elemento, entre a mãe e o filho/a, apontando para a futuro, formando um sistema aberto ou relativamente aberto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Vê-se, portanto, um papel fundamental da figura paterna na estruturação da psique humana. Quando essa figura está ausente — seja física, emocional ou simbolicamente — cria-se um vácuo afetivo que compromete a organização da personalidade. A filha não sai do ambiente materno por não ter uma referência de pai ou tê-la de forma incipiente para sair da casa psíquica da mãe, prejudicando a formação da existência do outro em si mesma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muitas-mulheres-como-as-pacientes-descritas-no-ultimo-livro-de-schwartz-nbsp-2025-relatam-relacoes-amorosas-com-parceiros-emocionalmente-indisponiveis-frios-criticos-ou-distantes" style="font-size:20px">Muitas mulheres, como as pacientes descritas no último livro de Schwartz&nbsp;(2025), relatam relações amorosas com parceiros emocionalmente indisponíveis, frios, críticos ou distantes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Essa escolha, embora inconsciente, parece uma tentativa de recriar o cenário emocional da infância, numa esperança inconsciente de resolver, desta vez, o abandono do pai original. No entanto, a repetição do padrão não as salvas, mas repete a ferida inicial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Projeta-se nos parceiros amorosos o desejo não atendido pela relação com o pai, de ser amada, reconhecida e validada incondicionalmente, criando vínculos de dependência emocional, idealização ou submissão. Como observa Schwartz, a ausência de um olhar amoroso paterno muitas vezes resulta numa filha que busca, incessantemente, um parceiro que finalmente a veja.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-autora-afirma-que" style="font-size:20px">A autora afirma que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px;line-height:1.4"><blockquote><p>A falta emocional e física, e a tristeza consequente, afetam o reino imaginário e a entrada simbólica precoce que a criança não consegue nomear o que perdeu nem o que lamenta ter perdido. (&#8230;) a presença paterna e experiência de ser vista ou ressoar com algo era quase completamente estéril e, posteriormente, vivenciou o mundo como algo que lhe oferecia pouco.&nbsp;</p><cite>Schwartz, 2025</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A ausência do pai ou sua presença incipiente exibe, na verdade, a marca da presença de uma ausência, o complexo paterno negativo, que se dá quando a imagem do pai, carregada de rejeição, negligência ou ausência, se torna um núcleo autônomo na psique (complexo), influenciando emoções, pensamentos e comportamentos futuros. <strong>Schwartz </strong>descreve como muitas filhas internalizam mensagens de não merecimento, invisibilidade ou inadequação afetiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-pode-levar-a-dois-movimentos-psiquicos-nos-relacionamentos-amorosos-que-sao-a-busca-compulsiva-por-aprovacao-masculina-e-ou-a-evitacao-de-intimidade" style="font-size:20px">Isso pode levar a dois movimentos psíquicos nos relacionamentos amorosos, que são a busca compulsiva por aprovação masculina e/ou a evitação de intimidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Pelo primeiro, as mulheres se envolvem em relações com homens indisponíveis emocionalmente, na tentativa de provar o próprio valor e &#8220;conquistar&#8221; o amor negado na infância; pelo segundo, se protegem da repetição da dor, rejeitando relações profundas, mantendo-se emocionalmente distantes ou escolhendo parceiros com os quais não haja real envolvimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Um outro aspecto levantado pela autora como efeito da ausência do pai para a vida das filhas é o desenvolvimento de uma vida emocional “como se”, que se manifesta nos relacionamentos amorosos quando as mulheres aparentam ter uma vida afetiva normal, estando em casamentos, namoros ou parcerias – mas que internamente vivem uma desconexão emocional profunda. O que ocorre, na verdade, é que elas interpretam papéis (persona): a namorada perfeita, a esposa dedicada, a amante compreensiva. No entanto, em seus relatos mais íntimos, como os casos clínicos descritos por Schwartz, surgem sentimentos de vazio, falta de autenticidade e uma sensação de que estão vivendo uma &#8220;vida provisória&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muitas-nao-conseguem-se-sentir-verdadeiramente-vistas-amadas-ou-valorizadas-pelo-parceiro-esse-afastamento-emocional-ecoa-mais-uma-vez-a-distancia-original-vivida-com-o-pai" style="font-size:20px">Muitas não conseguem se sentir verdadeiramente vistas, amadas ou valorizadas pelo parceiro. Esse afastamento emocional ecoa, mais uma vez, a distância original vivida com o pai.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Por fim, um último efeito que ocorre para as filhas de pai ausente, é o “<strong>desejo não elaborado</strong>”, pelo qual a filha que não foi vista não consegue escolher, mesmo podendo fazê-lo. Trata-se de uma mistura de fome de afeto com medo do abandono, podendo levar a vínculos marcados por ambivalência: ora carência extrema, ora frieza defensiva. A mulher deseja o outro, mas teme que esse outro a abandone, tal como o pai fez.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong>Susan Schwartz</strong> propõe para que as filhas que tenham o efeito negativo da ausência do pai rompam com o padrão negativo de seus relacionamentos amorosos que entrem em contato com a dor da ausência paterna, reconhecendo e elaborando o luto por aquilo que não foi vivido. O trabalho terapêutico de confronto dos complexos paternos inconscientes e a ressignificação de suas relações com o masculino podem auxiliar e muito a suavização dos sintomas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A conexão com a figura do pai interno saudável, (uma vez que todos temos o arquétipo paterno em potência, tanto em sua luz como em sua sombra) – mesmo que o pai real tenha sido ausente ou negligente – é essencial para que a mulher possa estabelecer vínculos amorosos mais autênticos, com limites claros e com maior capacidade de receber e dar afeto de forma equilibrada.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Faz parte do processo de individuação: a mulher, ao tomar consciência da sua história emocional, pode deixar de buscar no outro aquilo que o pai não pôde dar, diminuindo a projeção de suas feridas, abrindo espaço para relações verdadeiras, não baseadas na repetição da ausência.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Onde está o Outro? O efeito da ausência do pai nos relacionamentos amorosos femininos" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/cmig5L6A_HQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/marta-guedes/">Marta Guedes &#8211; Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia">Bibliografia:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Eliade, M. (2018). O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: WMF Martins Fontes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fundação Getúlio Vargas (2023). No Brasil, 11 milhões de mulheres criam sozinhas os filhos. Agência Brasil. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-08/no-brasil-11-milhoes-de-mulheres-criam-sozinhas-os-filhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2011). Freud e a Psicanálise. Obras Completas, v. IV. Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2013a). <em>Freud e a Psicanálise.</em> Petrópolis, RJ.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, G. C. (2013b). <em>Símbolos da Transformação: análise dos prelúdios de uma esquizofrenia.</em> Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2013c). Tipos Psicológicos. Obras Completas, v. VI. Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2016). Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Obras Completas, v. IX/1. Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lima Filho, A. (2002). O pai e a psique (1 ed.). São Paulo: Paulus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Schwartz, S. (2025). A Jungian exploration of the puella archetype: girl unfolding (1 ed.). New York: Routledge.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seligman, E. (1982). The Half-Alive Ones. Journal of Analytical Psychology, 1-20.</p>



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