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	<title>Arquivos Sonho - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Tue, 19 May 2026 15:23:11 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Sonho - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O que fazer com um sonho frustrado?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-que-fazer-com-um-sonho-frustrado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 May 2026 21:58:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[caetano veloso]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[devaneios]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
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		<category><![CDATA[o quereres]]></category>
		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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		<category><![CDATA[sonhos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste artigo, busco refletir sobre a frustração dos sonhos não realizados e convido você a fantasiar uma sociedade que sustentasse o fracasso, em vez do samba-exaltação ao ego contemporâneo, que acredita poder tudo o que quer.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Neste artigo, busco refletir sobre a frustração dos sonhos não realizados e convido você a fantasiar uma sociedade que sustentasse o fracasso, em vez do samba-exaltação ao ego contemporâneo, que acredita poder tudo o que quer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhadas com alguma doçura, as Neurociências nos contam que biologia é poesia. Os mesmos circuitos neuronais ativados quando sonhamos dormindo estão também ativos, idênticos, quando sonhamos acordados, no mais puro devaneio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No descanso da consciência, sono, tudo pode nos ocorrer. Símbolos surreais contam histórias aparentemente desconexas, frequentemente imorais e magicamente reveladoras, quando observadas com algum interesse, curiosidade e insistência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deixarei-hoje-os-sonhos-sonhados-na-escuridao-da-noite-livres-de-ampliacoes-para-me-render-aqueles-que-alimentamos-a-luz-de-uma-pretensa-consciencia-que-insiste-em-se-acreditar-capaz-de-realiza-los" style="font-size:16px">Deixarei hoje os sonhos sonhados na escuridão da noite livres de ampliações, para me render àqueles que alimentamos à luz de uma pretensa consciência que insiste em se acreditar capaz de realizá-los.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sonhamos. Desde pequenos podemos fantasiar vidas para nós mesmos. A profissão, a casa, os amigos, as viagens, o amor. Sonhamos uma família, o almoço de domingo, a noite de Natal. Inventamos nomes para os filhos, vestidos para o casamento, casas para a praia, malas para as viagens, escritório para a empresa, uniformes para o servir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tempo passa e nem sempre as invenções despudoradas se manifestam na vida entendida como real. Podem seguir nos ocorrendo todas as noites, entre a fronha do travesseiro e a cabeça pesada pelas tentativas incessantes de compreender os motivos das frustrações e, ainda, pelos esforços de esquecer o sonho, a fim de não fazê-lo doer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por muitas vezes ao longo da vida de muitas vidas não adiantou sonhar, imaginar, sentir no corpo a sensação de que aquelas ideias se realizariam. Para cada sonho também há, na vida, a contraparte perfeita de sua frustração.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-que-fazer-com-essa-parte-sombria-da-qual-tentamos-fugir-pesados-pela-vergonha-da-nao-realizacao-em-uma-epoca-em-que-se-acredita-tudo-poder" style="font-size:17px">E o que fazer com essa parte sombria, da qual tentamos fugir, pesados pela vergonha da não-realização, em uma época em que se acredita tudo poder?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez valha antes de mais nada aceitar que, diferente do que podemos acreditar, o sonho sonhado na vigília também é fruto do inconsciente. No texto <em>Criptomnésia, de Estudos Psiquiátricos, </em>Jung nos lembra que “O inconsciente premedita todos os novos pensamentos e combinações. E quando a consciência se aproxima do inconsciente com um desejo, foi o inconsciente que previamente lhe inspirou este desejo”. (<em>OC 1 </em><strong>§ </strong>172)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O verso do fracasso não entra no samba-exaltação do ego contemporâneo, que acredita que pode tudo o que quer, ritmado pela tríade “força, foco e fé”. A exclusão do verso triste da canção, talvez, faça a falta da realização doer ainda mais pois a torna pretensamente invisível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é raro ver que o sambista sente no corpo a dor do que não realizou, mesmo tentando calar sua batida ou buscando reinventá-la criativamente. Os sonhos, agora sim, os sonhados no mais profundo da noite, tendem a revelar compensatoriamente aquilo que a consciência não dá conta de sentir, pois frustrada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-onde-nao-queres-nada-nada-falta-diz-caetano-veloso-em-o-quereres-sera" style="font-size:17px">“E onde não queres nada, nada falta”, diz Caetano Veloso em <em>O Quereres</em>. Será?</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.6"><em>“Talvez a maioria dos histéricos que frui plenamente de seus sentidos seja doente porque possui grande massa de recordações, dotada de muita emoção e, por isso, profundamente arraigada no inconsciente; já não pode ser controlada e tiraniza a consciência e a vontade do doente. Em mulheres trata-se às vezes de esperança frustrada de amor ou de um casamento infeliz; em certos homens pode ser uma posição insatisfatória ou méritos não reconhecidos. Os doentes procuram excluir suas emoções da vida diária; por isso, de noite elas os atormentam com sonhos ruins, e de dia os importunam com repentinos ataques de ansiedade precordial, inibem as forças de ação, levam as pessoas a procurar as seitas, produzem dor de cabeça que desafia todos os curandeiros, todos os meios mágicos da eletricidade, banhos de sol e dietas alimentares. Também o gênio tem que carregar o peso da superioridade de um complexo psíquico; se o conseguir, ele o fará com prazer; se não o conseguir, ele o fará com sofrimento. Terá que executar as ‘ações sintomáticas’ que seu talento lhe inspira; colocará na poesia, na pintura, na composição musical o seu sofrimento”.&nbsp; (C.G. Jung, OC 1 §176)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez um gesto de rebeldia contemporânea seja assumir a si mesmo e depois ao mundo seus fracassos. Como complexos cheios de afeto, ao serem vividos com o sabor da frustração percam a potência, mas se manteriam vivos no potencial de realização. A não realização de um sonho não deveria matá-lo na tentativa de esquecê-lo. Se foi do inconsciente que surgiu, não caberia a consciência domesticá-lo, calá-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma sociedade que sustentasse a frustração poderia ler epitáfios assim: “Tentou, bravamente, mas não conseguiu dançar”. Num outro, poderia estar escrito: “Chamaria Luiza, a filha que não teve”. E ainda: “Morreu acreditando que amaria e seria amada”. Ou “Preparou todos os domingos o almoço para a família que não vinha”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-lapides-talhadas-a-partir-do-compromisso-com-a-honestidade-de-pessoas-que-ousaram-uma-vida-vivida-na-plenitude-sem-disfarces-sustentados-por-personas-bem-sucedidas-e-sombras-amarguradas" style="font-size:17px">Lápides talhadas a partir do compromisso com a honestidade de pessoas que ousaram uma vida vivida na plenitude, sem disfarces sustentados por Personas bem-sucedidas e Sombras amarguradas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não seriam lápides criadas na unilateralização do sucesso, da conquista, do amor e da alegria. Tais frases revelariam, com frustração, a insistência no sonho: o homem que queria dançar, a mulher que desejou ser mãe, a que queria um amor recíproco, a que perdoou a família todas as vezes que foram necessárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Eu queria querer-te e amar o amor<br>Construirmos dulcíssima prisão<br>E encontrar a mais justa adequação<br>Tudo métrica e rima, e nunca dor</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Mas a vida é real e de viés<br>E vê só que cilada o amor me armou<br>Eu te quero e não queres como sou<br>Não te quero e não queres como és”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung </strong>nos explica que a palavra <em>criptomnésia </em>provém da literatura científica francesa. “Criptomnésia significa <em>‘<strong>recordações não reconhecidas como tais</strong></em>’”. Assim como os sonhos que, frustrados, deixam de ser sonhados.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Uma parte da cura para uma sociedade tão adoecida poderia ser a sustentação do fracasso. “<em>Do querer que há e do que não há em mim</em>”, conclui o poeta.</strong></p>



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<iframe title="📃Artigo novo: &quot;O que fazer com um sonho frustrado?&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/4S114HfmbtU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/">Luciana Branco &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-jung-c-g-estudos-psiquiatricos-o-c-1-9ª-edicao-petropolis-editora-vozes-2012" style="font-size:16px">JUNG, C.G.<em> Estudos Psiquiátricos O/C 1.</em> 9ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VELOSO, Caetano. <em>O Quereres. </em>Salvador, Philips/PolyGram (atual Universal Music), 1984.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-12921" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1024x576.jpg 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-300x169.jpg 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-768x432.jpg 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1536x864.jpg 1536w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-150x84.jpg 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-450x253.jpg 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1200x675.jpg 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2.jpg 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Venha participar &#8211; Inscrição Comum R$ 120,00</strong> &#8211; Certificado de 30h: <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia ">https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia </a></p>



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			</item>
		<item>
		<title>Sonhos: mensageiros do inconsciente</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sonhos-mensageiros-do-inconsciente/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Caroline Santos Costa]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Feb 2026 16:30:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Sonho]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Você já se perguntou o que seus sonhos significam? Desde tempos ancestrais, os sonhos, com seus enredos intrigantes, instigam a curiosidade humana, que busca desvendar seus mistérios. Atualmente, a interpretação dos sonhos é um campo fértil na psicologia, especialmente nos settings de análise junguiana, onde a pergunta "Qual foi o seu sonho?" se torna um ponto de partida para a exploração do inconsciente. Neste ensaio, adentraremos o mundo dos sonhos sob a perspectiva da Psicologia Analítica de Carl Jung, ampliando sobre como essas narrativas noturnas podem revelar mensagens profundas e guiar você em sua jornada de autoconhecimento e individuação.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em><strong>Resumo</strong>: Você já se perguntou o que seus sonhos significam? Desde tempos ancestrais, os sonhos, com seus enredos intrigantes, instigam a curiosidade humana, que busca desvendar seus mistérios. Atualmente, a interpretação dos sonhos é um campo fértil na psicologia, especialmente nos settings de análise junguiana, onde a pergunta &#8220;Qual foi o seu sonho?&#8221; se torna um ponto de partida para a exploração do inconsciente. Neste ensaio, adentraremos o mundo dos sonhos sob a perspectiva da Psicologia Analítica de Carl Jung, ampliando sobre como essas narrativas noturnas podem revelar mensagens profundas e guiar você em sua jornada de autoconhecimento e individuação.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os sonhos, eventos psicológicos intrigantes, frequentemente nos acompanham ao longo da noite, afetando-nos com as emoções das imagens vivenciadas. Seja pelo medo de um pesadelo ou pela curiosidade diante de uma imagem enigmática, perguntas nos atravessam: o que tudo isso significa? Qual é a mensagem por trás desse sonho?&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A sabedoria contida nos sonhos transcende nossa consciência. Considerados a expressão espontânea da atividade psíquica inconsciente, eles podem ser interpretados como mensagens do inconsciente, indicando caminhos para a cura da alma, entendida aqui como a busca pela integridade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-utilizacao-dos-sonhos-como-oraculos-e-fontes-de-profecia-foi-uma-pratica-comum-e-significativa-em-diversas-civilizacoes-antigas-que-viam-o-mundo-onirico-como-um-canal-de-comunicacao-direta-com-o-divino-ou-sobrenatural" style="font-size:18px">A utilização dos sonhos como oráculos e fontes de profecia foi uma prática comum e significativa em diversas civilizações antigas, que viam o mundo onírico como um canal de comunicação direta com o divino ou sobrenatural.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na antiguidade, a interpretação dos sonhos era uma prática comum e profundamente significativa, refletindo a crença de diferentes povos sobre a natureza da comunicação com o mundo espiritual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os egípcios, por exemplo, viam os sonhos como mensagens enviadas por deuses e espíritos dos mortos. A interpretação desses sonhos era frequentemente realizada por sacerdotes especializados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os gregos antigos também atribuíam grande valor às profecias, e os sonhos eram considerados mensagens divinas capazes de prever o futuro ou indicar curas para doenças. Acreditava-se que deuses como Morfeu enviavam mensagens que eram interpretadas por sacerdotes. Templos dedicados a deuses da cura, como Asclépio, praticavam o sono incubatório, um ritual em que os suplicantes/pacientes, após rituais de purificação, dormiam no templo na esperança de receber instruções de cura através dos sonhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na Bíblia e em outros textos religiosos, encontramos inúmeros relatos de sonhos proféticos, nos quais Deus se comunica com indivíduos para transmitir mensagens importantes, advertências ou revelações sobre o futuro. Exemplos notáveis incluem a interpretação, por José- filho de Jacó, dos sonhos do Faraó sobre sete vacas gordas e sete vacas magras, que prediziam sete anos de fartura seguidos por sete anos de fome no Egito, salvando o povo da escassez. Daniel também interpreta o sonho do rei Nabucodonosor, que predizia a ascensão e queda de grandes reinos mundiais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para essas civilizações, o caráter oracular dos sonhos derivava da crença de que, durante o sono, o ego ou a consciência era rebaixada, permitindo que a alma se tornasse mais receptiva a sinais divinos ou sobrenaturais. A interpretação desses sonhos – um processo chamado oniromancia – era fundamental, pois as mensagens quase nunca eram diretas; apareciam geralmente de forma simbólica. Em várias culturas, como no Egito, havia até manuais de interpretação de sonhos, e os sacerdotes faziam o papel de intérpretes oficiais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-perspectiva-moderna"><strong>Perspectiva moderna</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na modernidade, o uso dos sonhos permanece central tanto na psicanálise quanto na psicologia junguiana, embora com abordagens teóricas e práticas distintas. Ambas as correntes consideram os sonhos formações do inconsciente, mas divergem fundamentalmente em sua função e interpretação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na psicanálise, a partir dos postulados de Freud em &#8220;<strong>A Interpretação dos Sonhos</strong>&#8220;, os sonhos eram, em essência, vistos como a realização disfarçada de desejos reprimidos, funcionando como uma válvula de escape para conteúdos que, de outra forma, perturbaria o sono ou a consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung, por sua vez, desenvolveu uma abordagem mais ampla, considerando os sonhos não apenas como expressões de desejos reprimidos, mas como manifestações simbólicas e criativas do inconsciente pessoal e coletivo. Para Jung, o sonho não esconde; ele revela e compensa atitudes conscientes unilaterais, buscando o equilíbrio psíquico. Os sonhos revelam os personagens internos que nos habitam e que pouco conhecemos. São vistos como mensageiros do inconsciente que, através de narrativas simbólicas, refletem aspectos essenciais da psique.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-perspectiva-da-psicologia-analitica-os-sonhos-sao-entendidos-como-o-teatro-do-mundo-interior-retratando-a-situacao-interna-do-sonhador-a-verdade-que-o-ego-consciente-reluta-em-aceitar" style="font-size:18px">Na perspectiva da psicologia analítica, os sonhos são entendidos como o teatro do mundo interior, retratando a situação interna do sonhador, a verdade que o ego consciente reluta em aceitar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eles surgem como a expressão de um processo psíquico inconsciente, alheio ao controle da consciência. A ampliação dos sonhos, portanto, pode levar à compreensão do momento psicológico vivido pelo indivíduo, de sua verdade interior e, assim, auxiliar no redirecionamento da vida, cumprindo uma função teleológica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os sonhos não se expressam na linguagem verbal ou lógica da vida consciente, mas sim na linguagem simbólica. Para compreendê-los, é preciso aprender a linguagem do inconsciente, repleta de símbolos e imagens oníricas. Podemos compará-los a um texto incompreensível, cuja leitura nos apresenta dificuldades.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É importante ressaltar que toda interpretação é uma hipótese, uma tentativa de compreender um texto desconhecido. A interpretação adquire maior segurança na ampliação de uma série de sonhos, nos quais os conteúdos e motivos básicos se tornam mais claros. Jung nos orienta que, durante a sessão de análise, o terapeuta vá compondo cuidadosamente junto com o cliente o contexto do sonho, por meio das associações e amplificações das imagens oníricas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-metodos-de-interpretacao-dos-sonhos"><strong>Métodos de interpretação dos sonhos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Após o relato do sonho pelo cliente, Jung propõe que o terapeuta incentive a livre associação dos símbolos e imagens oníricas que emergem. O terapeuta deve, então, questionar constantemente as associações do cliente a cada elemento do sonho, lembrando que cada imagem possui uma individualidade simbólica, cuja interpretação mais precisa reside no sonhador. Por essa razão, é fundamental evitar significados predefinidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Depois de trabalhar com as associações do cliente e as reflexões sobre os possíveis significados e a intenção do sonho, o terapeuta pode recorrer à amplificação dos símbolos, estabelecendo paralelos com mitos, contos, filmes ou séries.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-salienta-que" style="font-size:18px"><strong>Jung salienta que:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;“os sonhos nos dão informações sobre a vida interior , oculta e nos desvendam componentes da personalidade do paciente, que na vida diurna se exprimem apenas por sintomas neuróticos, não se pode realmente tratar o paciente unicamente por e em seu lado consciente, é necessário tratá-lo também em sua parte inconsciente&#8230; não vejo outra possibilidade de fazê-lo , a não ser integrando amplamente os conteúdos do inconsciente a consciência, através da assimilação.” (Jung. 2012, p.35)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-assimilacao-pode-ser-compreendida-como-a-interpenetracao-entre-conteudos-conscientes-e-inconscientes-dessa-forma-o-principal-objetivo-da-analise-dos-sonhos-e-a-descoberta-e-a-conscientizacao-desses-conteudos-inconscientes" style="font-size:18px">A assimilação pode ser compreendida como a interpenetração entre conteúdos conscientes e inconscientes. Dessa forma, o principal objetivo da análise dos sonhos é a descoberta e a conscientização desses conteúdos inconscientes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O autor também acrescenta que existe uma relação de compensação entre a consciência e o inconsciente, onde o inconsciente busca complementar a parte consciente da psique, apontando o que falta para a totalidade e prevenindo perdas de equilíbrio.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No processo de ampliação dos sonhos no setting terapêutico, Jung enfatiza que o cliente não deve ser induzido a uma verdade preestabelecida. Caso o terapeuta adote uma postura sugestiva, estará se dirigindo apenas à razão do cliente, limitando o alcance da análise. O trabalho terapêutico, portanto, deve conduzir o cliente à sua própria compreensão, alcançando assim uma experiência mais profunda e transformadora. É crucial ressaltar a importância da tomada de consciência, que permite submeter aspectos inconscientes da personalidade à análise crítica. Diante de um desafio, o paciente é estimulado a expressar sua opinião e a tomar decisões de forma consciente</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-explica-que-a-psique-como-um-sistema-de-autorregulacao-semelhante-ao-corpo-busca-o-equilibrio" style="font-size:18px">Jung explica que a psique, como um sistema de autorregulação semelhante ao corpo, busca o equilíbrio.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Processos unilaterais excessivos, portanto, desencadeiam, de forma imediata e obrigatória, suas compensações. Sem esse mecanismo, não haveria metabolismo nem psiques saudáveis. Nesse sentido, a teoria das compensações é uma regra básica do comportamento psíquico. Em outras palavras, o que falta em um lado, gera um excesso no outro. A relação entre consciente e inconsciente segue essa lógica compensatória. Por isso, ao ampliar um sonho clinicamente, é fundamental questionar: que atitude consciente o sonho está compensando? qual a função desse sonho?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É fundamental enfatizar que a ampliação de um sonho não pode ser realizada com segurança sem o conhecimento prévio da situação consciente do cliente. Somente a partir do entendimento da situação consciente que ocorre no decorrer do processo de análise podemos entender a direção dos conteúdos inconscientes que emergem nos sonhos. O trabalho com os sonhos no setting terapêutico é um processo sério e individualizado, distante das práticas de adivinhação a que, equivocadamente, é associado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-funcoes-dos-sonhos"><strong>Funções dos sonhos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na psicologia analítica, os sonhos nos mostram situações que podem confirmar, modificar ou até negar as atitudes que o nosso &#8220;eu&#8221; consciente -o ego- tem na vida real.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para entender melhor como os sonhos funcionam, trago um breve resumo das quatro funções principais, conforme explicado por Magaldi no livro Fundamentos da Psicologia Analítica (Cf. Magaldi, 2022, p. 311):</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>a)</strong> <strong>Compensador</strong>: O sonho age como um contrapeso, buscando o equilíbrio psíquico. Ele autorregula ou &#8220;compensa&#8221; uma atitude consciente que esteja muito exagerada ou unilateral.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>b) Prospectivo</strong>: O sonho funciona como uma antecipação. Ele prevê, de forma inconsciente, possibilidades de realizações futuras, mas como potenciais, nunca como uma profecia garantida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>c) Orientador do ego</strong>: Com um caráter pedagógico (de ensino), o sonho nos predispõe à reflexão, ajudando a pensar sobre nossas atitudes e intenções na vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>d)</strong> <strong>Dessensibilizador redutivo causal</strong>: O sonho ajuda o ego a processar e a reduzir a sensibilidade (dessensibilização) de conteúdos ou experiências traumáticas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sonhos-e-processo-de-individuacao"><strong>Sonhos e processo de individuação</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os sonhos têm um papel essencial no que Jung chama de processo de individuação. A individuação pode ser entendida como o caminho natural da vida de uma pessoa, onde ela se torna, de fato, quem ela sempre foi destinada a ser. Nas palavras de Jung (2014, p. 49), esse processo &#8220;corresponde ao decorrer natural de uma vida, em que o indivíduo se torna o que sempre foi&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora seja um processo natural, a individuação exige um esforço consciente. É necessária uma interação constante entre o ego e o Self. O Self é o centro organizador de toda a psique, o &#8220;eu&#8221; verdadeiro e completo. Ele funciona como uma espécie de guia interno. Jung (2016, p. 212) o descreve como o &#8220;centro organizador de onde emana essa ação reguladora, que parece ser uma espécie de &#8216;núcleo atômico&#8217; do nosso sistema psíquico&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-simbolos-sao-os-portadores-das-mensagens-do-self-eles-representam-imagens-de-conteudos-inconscientes-que-estao-tentando-se-manifestar" style="font-size:18px">Os símbolos são os &#8220;portadores&#8221; das mensagens do Self. Eles representam imagens de conteúdos inconscientes que estão tentando se manifestar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung definiu o símbolo como &#8220;o termo que melhor traduz um fato complexo e ainda não claramente apreendido pela consciência&#8221; (JUNG, 2013, p. 20). Eles têm uma natureza misteriosa: mesmo que não entendamos um símbolo completamente de imediato, ele tem o poder de nos fazer sentir ou intuir seu significado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Portanto, a análise dos sonhos nos permite usar esses símbolos para entrar em contato com conteúdos internos. Se esses conteúdos permanecessem escondidos no inconsciente, poderiam nos causar sofrimento. Em vez de ignorá-los, a análise nos ajuda a confrontar esses elementos, ouvir o que eles têm a nos dizer e, assim, buscar um caminho para nos tornarmos pessoas mais integradas e completas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-um-terapeuta-trabalha-com-sonhos-na-sessao-de-analise-sua-postura-deve-ser-a-de-um-investigador" style="font-size:18px">Quando um terapeuta trabalha com sonhos na sessão de análise, sua postura deve ser a de um investigador.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O foco é explorar as imagens, sentimentos, pensamentos e sensações que o cliente sente ao relatar o sonho. O objetivo é entender para onde esses símbolos apontam e o que estão tentando revelar sobre a vida do paciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Além de entender o sonho, o terapeuta deve incentivar a reflexão sobre a ação: como o cliente pode agir para equilibrar as tendências conflitantes que o sonho mostrou? Isso permite que o paciente lide de forma saudável e adaptativa com os desafios da vida. No fim das contas, esse processo revela o que há de essencial no ser humano, culminando no florescimento da sua totalidade — o processo de individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em minha prática como analista junguiana, ouço relatos de sonhos diariamente e observo a importância fundamental que eles têm em auxiliar o paciente a integrar conteúdos inconscientes à consciência. O cerne deste trabalho reside no diálogo contínuo com o inconsciente, abordando os sonhos como mensagens vitais que impulsionam o autoconhecimento e oferecem um novo sentido à vida. Para a psicologia analítica, o sonho atua como uma força criativa e autorreguladora que guia o indivíduo rumo à totalidade e ao processo de individuação.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Sonhos mensageiros do inconsciente" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/WhFfRU9qdNs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/caroline/">Caroline Costa &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Membro Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Ab-reação, análise dos sonhos e transferência</em>. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. <a></a></p>



<p class="wp-block-paragraph">______. <em>A natureza da psique</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a>______.</a> <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2014a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. <em>O homem e seus símbolos</em>. 3. ed. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI FILHO. Sono e sonho. In: MAGALDI FILHO, W. (Org.) Fundamentos da psicologia analítica. São Paulo: Eleva Cultural, 2022. p. 301.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



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		<title>O Ritmo Lento da Transformação: A Porta Oculta e a Síntese da Ave-Preguiça</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-ritmo-lento-da-transformacao-a-porta-oculta-e-a-sintese-da-ave-preguica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Monica Martinez]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Dec 2025 00:12:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[animus]]></category>
		<category><![CDATA[cgjung]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologiaanalitica]]></category>
		<category><![CDATA[PsicologiaJunguiana]]></category>
		<category><![CDATA[transformação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este artigo parte da análise de um sonho para desvelar um momento de transição psíquica. O símbolo central, um bichinho híbrido (ave e bicho-preguiça) no ninho, pode representar a função transcendente, que exige a síntese entre a visão elevada (Apolo) e o ritmo orgânico (Dionísio), contrariando o ativismo compulsivo. O dilema de sacrificar os [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo parte da análise de um sonho para desvelar um momento de transição psíquica. O símbolo central, um bichinho híbrido (ave e bicho-preguiça) no ninho, pode representar a função transcendente, que exige a síntese entre a visão elevada (Apolo) e o ritmo orgânico (Dionísio), contrariando o ativismo compulsivo. O dilema de sacrificar os seios (Eros) em prol da liberdade de ser um homem (Animus) revela o conflito entre nutrição e autonomia. A resolução ocorre na alquímica <em>Solutio</em>, quando a rigidez do Ego (o portão fixo) se dissolve, revelando uma Porta Oculta. O processo de individuação aponta para a humildade de desconfiar da própria inflexibilidade, permitindo que a nova atitude, lenta e sábia, se manifeste.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-sonho" style="font-size:20px"><strong>O Sonho</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Estou com uma amiga (professora da USP). Ela me mostra um bichinho que tem. Ele está numa espécie de ninho. Eu olho e digo que algo mudou quando aquele bichinho chegou. Ela concorda e olhamos para o bichinho, que parece ser um misto de ave e bicho-preguiça.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Estou numa casa grande e um pouco escura. Converso com um homem. Ele comenta a conversa que teve com outro homem, mais desleixado, que disse que ele estava bem vestido. O homem ri e explica que era porque ia trabalhar mesmo no dia de folga.<br>Olho para ele e penso que daria uma parte de meu corpo para poder estar na pele de um homem, pois sabia que eles agiam de forma diferente na frente de mulheres e entre homens. Não consigo decidir qual parte seria esta. Olho para meus seios, firmes e morenos, bonitos e ornados com um colar, e penso que preciso deles para dar colo.<br>Estou na frente da casa, na calçada, e me apoio numa parte do portão que julgava fixa. Ele se abre para eu entrar, revelando uma porta que eu não imaginava existir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-funcao-prospectiva-do-sonho" style="font-size:20px"><strong>A Função Prospectiva do Sonho</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>O sonho não apenas reflete o estado atual da psique, mas aponta para a atitude futura necessária à individuação</strong>. Em termos simbólicos e alquímicos, pode revelar um momento de profunda renegociação entre Logos, Animus e Eros, sugerindo a emergência de um novo ritmo de ser, a partir do trabalho analítico da associação e ampliação simbólica dos seus elementos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O cenário se inicia com o Ego na esfera do Logos, representado pela amiga professora — um ambiente de alta intelectualidade e exigência social. Nesse contexto, a função transcendente se manifesta no símbolo central: o bichinho híbrido, aninhado, como uma fórmula do Self para a transformação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A ave representa a esfera superior, o espírito, a intuição, a clareza e a luz — o princípio Apolíneo, o voo do Logos em busca da ordem superior. O bicho-preguiça, por outro lado, evoca a quietude, o ritmo orgânico, a conexão com a Terra e a entrega ao fluxo instintivo — o princípio Dionisíaco.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>O ninho é o receptáculo, o vaso alquímico onde a nova atitude é gestada</strong>. A síntese que emerge indica que o Self exige um Logos temperado pelo tempo interno, uma visão elevada que se manifesta com paciência e aterramento — um antídoto à compulsão pela produtividade e ao ativismo desenfreado. O crescimento autêntico deve ser lento e orgânico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-conflito-alquimico-calcinatio-e-o-dilema-do-animus" style="font-size:20px"><strong>O Conflito Alquímico: <em>Calcinatio</em> e o Dilema do Animus</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O sonho prossegue com a manifestação do Animus projetado na figura de um homem que trabalha no dia de folga, representando uma sombra da compulsão e da negação do descanso.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O ponto de <em>Calcinatio</em> — a queima da atitude rígida — reside no desejo de sacrificar uma parte do corpo (os seios) – como a figura da Amazona que o amputa para manejar melhor o arco e a flecha – para conquistar a liberdade e autenticidade do Animus. Este é um dilema arquetípico: integrar o Animus (ação, Logos) sem castrar ou mutilar o Eros (relação, nutrição, acolhimento).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O Self intervém na hesitação: o Eros da sonhadora está em plenitude e não deve ser desmembrado. A liberdade de ação não precisa custar a capacidade de acolhimento; <strong>é possível integrar a força do Animus sem renunciar à riqueza do Eros</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-porta-oculta-solutio-e-a-redencao-da-rigidez" style="font-size:20px"><strong>A Porta Oculta: <em>Solutio</em> e a Redenção da Rigidez</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A resolução, típica da <em>Solutio </em>alquímica, acontece quando o Ego se apoia no portão que julgava fixo — símbolo da rigidez defensiva — e este se abre, revelando uma porta invisível anteriormente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O toque do Self é claro: o caminho para a &#8220;casa grande e escura&#8221; (o inconsciente a ser iluminado) não está na barganha dolorosa ou no esforço da vontade, mas na humildade e na confiança. A Porta Oculta é o reconhecimento de que a rigidez do Ego é uma barreira que bloqueia a passagem. O suporte estava presente o tempo todo, mas invisível à percepção.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O sonho convida a confiar na fluidez do processo e no ritmo orgânico da ave-preguiça. A verdadeira liberdade é agir a partir da quietude, não da compulsão. Ao abandonar a exigência de sacrifício e a rigidez do portão, a sonhadora adentra o vasto território do Self, onde a integração entre Eros e Logos, Apolo e Dionísio, pode ser sustentada pela alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Esta jornada onírica serve como guia: para se libertar, é preciso desacelerar, confiar na força do que nutre e abandonar a crença de que a Porta da Iniciação exige sempre um preço alto.</strong></p>



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<iframe title="📄Artigo novo: &quot;O Ritmo Lento da Transformação: A Porta Oculta e a Síntese da Ave-Preguiça&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/lfT_PwUrF1M?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/monicamartinez/">Monica Martinez – Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Do Surfista Sagrado à Avó Ancestral: Análise de um Sonho à luz da Jornada da Heroína</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/do-surfista-sagrado-a-avo-ancestral/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Monica Martinez]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 02 Aug 2025 14:32:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[análise simbólica]]></category>
		<category><![CDATA[simbologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Neste artigo, propõe-se a análise de um sonho à luz da jornada da heroína, conforme delineada por Maureen Murdock (1990, 2022), em diálogo com os referenciais simbólicos de Carl Gustav Jung e o modelo mítico formulado por Joseph Campbell. Os sonhos constituem o palco simbólico onde o inconsciente se manifesta com potência imagética, muitas [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: Neste artigo, propõe-se a análise de um sonho à luz da jornada da heroína, conforme delineada por Maureen Murdock (1990, 2022), em diálogo com os referenciais simbólicos de Carl Gustav Jung e o modelo mítico formulado por Joseph Campbell.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-sonhos-constituem-o-palco-simbolico-onde-o-inconsciente-se-manifesta-com-potencia-imagetica-muitas-vezes-antecipando-ou-acompanhando-processos-de-transformacao-psiquica" style="font-size:19px">Os sonhos constituem o palco simbólico onde o inconsciente se manifesta com potência imagética, muitas vezes antecipando ou acompanhando processos de transformação psíquica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na psicologia analítica, os sonhos são compreendidos como expressões do movimento de individuação — a jornada pela qual a personalidade se torna íntegra ao reunir seus opostos, isto é, conteúdos conscientes e inconscientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Murdock </strong>desenvolveu sua teoria a partir de uma crítica à “Jornada do Herói” apresentada por Campbell (CAMPBELL, 2008, 2023), com quem chegou a dialogar diretamente. Enquanto Campbell descrevia uma trajetória arquetípica centrada no masculino — na superação de provas, conquista do elixir e retorno ao mundo —, Murdock percebeu que essa narrativa não dava conta da experiência psíquica da mulher. Para ela, a jornada da heroína (MARTINEZ; ARAÚJO, 2022) envolve a separação e posterior reconciliação com o feminino, passando por fases de identificação com valores patriarcais, desilusão, retorno à ancestralidade e integração dos polos masculino e feminino dentro do próprio ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Com base nessa estrutura simbólica, propõe-se aqui o estudo de caso de um sonho arquetípico, cujas imagens serão examinadas em diálogo com os estágios da jornada da heroína de Maureen Murdock, com respaldo na psicologia analítica de C. G. Jung e nos princípios simbólicos da alquimia psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-sonho" style="font-size:21px"><strong>O Sonho</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Estou com alguns homens à beira-mar. Noto, para minha surpresa, tratar-se de Jesus. Ele surfa as ondas com facilidade. Me mostram as imagens que o retratam e vejo os sinais das cristas das ondas e me pergunto por que nunca as observei antes.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Algo acontece e um de seus discípulos entra debaixo de um carro para se esconder e se preparar para um ataque. Um dos demais acha boa a ideia e lhe dá uma arma para ter em mãos.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Estou chegando de carro com minha mãe na casa de minha avó. Vou ficar com ela. Já minha mãe, que ficará ali 30 dias, reservou um hotel nas proximidades. Acho estranho ela agir assim, mas respeito. Entro na casa de minha avó e ela está sentadinha no sofá da sala, como gostava de fazer, recebendo visitas. Conversa gostosamente e me olha feliz. Noto como muitas pessoas a visitavam, que era um hábito cordial dos tempos antigos, por meio do qual as pessoas trocavam histórias e afetos. Vejo colchões espalhados no chão e crianças dormindo neles, felizes.”</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jesus-surfista-e-o-despertar-da-consciencia" style="font-size:21px"><strong>Jesus surfista e o despertar da consciência</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A primeira cena do sonho apresenta uma figura arquetípica elevada: Jesus, não na forma sofredora, mas leve, integrada ao fluxo das águas. Ele surfa as ondas com destreza — um símbolo da capacidade de se mover com consciência sobre os movimentos emocionais e inconscientes. A água, tradicionalmente associada ao inconsciente coletivo, torna-se aqui caminho e campo de expressão espiritual. A surpresa da sonhadora e sua pergunta sobre as “<em>cristas das ondas</em>” revelam um despertar da percepção simbólica, característica do início da operação alquímica da Albedo: fase de purificação, discernimento e iluminação interior (JUNG, 2012).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse momento do sonho pode ser relacionado ao estágio da jornada da heroína em que há uma quebra com os valores patriarcais, na medida em que o Cristo apresentado não impõe sacrifício ou controle, mas manifesta uma espiritualidade nova, mais fluida e solar. Para Murdock, essa fase representa a abertura para o Self, a conexão com uma verdade mais profunda que não nega o corpo nem o feminino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-armada-defesa-e-regressao" style="font-size:21px"><strong>A sombra armada: defesa e regressão</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em contraste com essa revelação, aparece a imagem sombria: um discípulo se esconde debaixo de um carro para se armar. O carro, símbolo do ego e da persona, torna-se refúgio defensivo. O gesto revela uma postura psíquica de regressão e prontidão para o conflito — expressão de um complexo autônomo ainda operando a partir do medo e da vigilância.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O fato de outro discípulo entregar uma arma reforça a existência de conivência interna com esse padrão de resposta reativa, sugerindo que nem todas as partes da psique acompanham o novo paradigma espiritual proposto pelo Self, aqui representado pela figura de Jesus surfista. Essa tensão é central na jornada da heroína: o feminino começa a emergir com força, mas ainda encontra resistência de estruturas internas moldadas pela lógica da sobrevivência e da luta no contexto do patriarcado (WOODMAN, 1992).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-retorno-a-casa-da-avo-reconexao-com-o-feminino-ancestral" style="font-size:21px"><strong>O retorno à casa da avó: reconexão com o feminino ancestral</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na sequência, o cenário muda: a sonhadora chega com a mãe à casa da avó. A mãe, embora vá passar 30 dias na cidade, prefere ficar num hotel, o que pode ser interpretado como uma separação geracional e emocional. A casa da avó, por sua vez, está cheia de vida: visitas, conversas, afetos e crianças dormindo. A avó aparece como figura arquetípica ancestral, representando o feminino profundo, a sabedoria encarnada, a hospitalidade da alma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-parte-do-sonho-corresponde-ao-estagio-em-que-segundo-murdock-a-heroina-retorna-ao-corpo-e-a-linhagem-feminina" style="font-size:19px">Essa parte do sonho corresponde ao estágio em que, segundo Murdock, a heroína retorna ao corpo e à linhagem feminina.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A casa da avó é símbolo do lar interior, da memória afetiva e da tradição relacional que sustentava a vida coletiva. As crianças que dormem no chão — seguras e felizes — sinalizam que há espaço interno para o repouso ou crescimento seguro dos aspectos novos, para a regeneração de conteúdos anímicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:21px"><strong>Conclusão e Prognóstico</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O sonho analisado descreve uma travessia simbólica alinhada à jornada da heroína tal como proposta por <strong>Maureen Murdock</strong>: um caminho que parte da cisão com o feminino, atravessa o patriarcado defensivo e reencontra a alma ancestral. As imagens de Jesus surfista e da avó acolhedora representam dois polos de uma reconciliação em curso: o masculino solar e fluido, e o feminino receptivo e enraizado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Contudo, o discípulo armado sob o carro revela que há ainda conteúdos psíquicos atuando sob o domínio da sombra, temerosos da entrega e prontos para o ataque. O prognóstico é positivo: o sonho aponta para uma consciência que se amplia e se sensibiliza, capaz de reconhecer tanto a luz quanto a sombra, o Self e os complexos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Como indicam os colchões no chão e as crianças que dormem, a alma está preparando espaço para novos começos. O feminino ancestral não foi perdido — apenas esquecido —, e agora retorna como fonte de cura e reconexão. Cabe à sonhadora, no caminho de sua individuação, continuar a escutar as ondas e as histórias, acolhendo em si mesma o casamento simbólico entre espírito e alma, força e afeto.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Do Surfista Sagrado à Avó Ancestral: Análise de um Sonho à luz da Jornada da Heroína" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/cl2HADMz1eA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/monicamartinez/">Monica Martinez – Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/"><strong>Waldemar Magaldi – Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">CAMPBELL, J. <strong>The hero with a thousand faces</strong>. California: New World Library, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CAMPBELL, J. <strong>O herói de mil faces</strong>. 1. ed. São Paulo: Palas Athena, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Psicologia e alquimia (OC 12)</strong>. 6. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MARTINEZ, M.; ARAÚJO, T. Métodos em estruturas narrativas míticas: a jornada da heroína de Maureen Murdock. <strong>Revista Esferas</strong>, n. 24, p. 305–325, 16 ago. 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MURDOCK, M. <strong>The heroine´s journey</strong>. Boston: Shambhala, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MURDOCK, M. <strong>A Jornada da Heroína: a busca da mulher para se reconectar com o feminino</strong>. Rio de Janeiro: Sextante, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WOODMAN, M. <strong>Leaving my father’s house: a journey to conscious femininity</strong>. Boulder, Colorado: Shambhala, 1992.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>A inflação nossa de cada dia</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-inflacao-nossa-de-cada-dia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[José Luiz Balestrini Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Oct 2024 11:17:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[complexos]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
		<category><![CDATA[jornada do herói]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Numa sociedade que reforça a identificação patológica com os complexos, como o indivíduo pode encontrar a coragem e a vontade necessárias para se entregar religiosamente para o processo do autoconhecimento, considerando a participação do inconsciente como ser autônomo e portador de uma inteligência superior à da consciência? Em outras palavras, para a aventura que podemos enxergar na imagem do arquétipo da jornada do herói que reflete o caminho que o ego precisa fazer para a criação de consciência integrada com a alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a reflexão proposta aqui, logo de início, temos que manter em mente que o ego não é o herói, porém ele tem o potencial para viver essa jornada arquetípica de maneira verdadeira e completa (Franz, 1990). <strong>O indivíduo consegue fazer isso exatamente quando recupera de maneira consciente, repetidamente durante todo o processo, o conhecimento de sua pequenez, não caindo na identificação unilateral com a imagem do herói</strong>; <strong>situação típica da contemporaneidade que leva a um estado de inflação</strong>. Abrindo mão do poder e do tesouro obtido no final da aventura em favor da coletividade (Campbell, 2004), sempre trabalhando para desidentificar a si mesmo do si-mesmo, a pessoa pode retornar, no final da aventura, à sua condição de mortal, assumindo sua humanidade e caminhando para o processo de individuação. Ou seja, o ego completa a jornada quando percebe que, como <em>artifex</em> (artesão), não tem controle sobre o processo, mas mesmo assim precisa entregar-se para ele, tornando-se, como diz C. G. Jung (2011d), “terreno fértil” para aquilo que pode germinar em si através do exercício da capacidade crítica e reflexiva da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa jornada requer, entre outras coisas, a sustentação angustiante da ignorância do resultado, a aceitação da falta de qualquer garantia de que aquilo que surge como recompensa corresponde aos desejos do ego. Desilusões e decepções inevitavelmente surgirão porque as projeções são inevitáveis (Jung, Carl Gustav, 2011b). Isso irá fazer surgir dúvidas e, se a fé na própria alma não encontra suporte egóico daquele que se encontra identificado com a persona e com o espírito da época, ocorrem regressões, a jornada não é completada e o processo precisa ser reiniciado. Porém é importante apontar que nem toda regressão é necessariamente negativa, muitas vezes elas são necessárias para que o ego se estruture de maneira diferente a partir da criação de consciência sobre novos fatos e situações, para que então seja possível seguir em frente numa nova tentativa de evolução. Isso tudo exige prontidão – em seus mais variados aspectos &#8211; e pode acontecer a partir daquilo que Jung igualou ao <em><strong>relegere</strong>, </em>uma atitude religiosa de releitura reflexiva disciplinada e minuciosa dos fenômenos simbólicos que conectam as realidades interna e externa (Jung, Carl Gustav, 2011a).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O espírito da época invade mesmo aqueles que parecem bem-intencionados e que despejam discursos de bondade e suposta sabedoria, mas que no fundo vivem seguindo os ditames desse espírito, que na contemporaneidade se revela principalmente como neoprotestante e capitalista predatório. Fazem isso inconscientes de suas atitudes, acreditam, do alto de sua inflação de identificação com a imagem do herói, que são os líderes salvadores e influenciadores da massa, para utilizar uma expressão bastante usada atualmente. Porém, os sintomas individuais e coletivos não tardam a surgir, mostrando que da profundidade psíquica irrompe uma tentativa de correção desse comportamento, uma compensação imposta pela totalidade psíquica, o que conhecemos psicologicamente de acordo com a teoria junguiana como o si-mesmo ou Self.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-sua-analise-psicologica-sobre-a-visoes-do-santo-padroeiro-da-suica-niklaus-von-flue-conhecido-tambem-como-bruder-klaus-marie-louise-von-franz-descreve-uma-visao-que-ele-teve-durante-seu-isolamento" style="font-size:17px">Em sua análise psicológica sobre a visões do Santo padroeiro da Suíça, Niklaus von Flüe, conhecido também como Bruder Klaus, Marie-Louise von Franz descreve uma visão que ele teve durante seu isolamento:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote has-very-light-gray-background-color has-background" style="font-size:18px"><blockquote><p>Pouco depois de ter começado sua vida em retiro, ele foi ao prado em Melch para cortar a grama e, no caminho, rezou a Deus, pedindo a graça de viver uma vida piedosa. Naquele momento, uma nuvem no céu falou com ele e lhe disse para se submeter à vontade de Deus. Ela (a voz) disse que ele era um homem tolo e deveria estar disposto a se submeter ao que Deus queria dele.<a id="_ftnref1" href="#_ftn1">[1]</a> </p><cite>Von Franz, 2022, p. 30.</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Essa imagem revela algo de extrema importância que está conectado com a discussão proposta aqui. Muitas vezes o ego acredita que, porque está escolhendo valores que lhe parecem corretos e superiores, está seguindo o caminho de realização do mito do significado individual, ou seja, o processo de individuação. Porém, o inconsciente intercede mostrando que a identificação com essas ideias também pode não passar de inflação. Como afirma Jung, <strong>o ser humano sem sombra é irreal</strong> (Jung, Carl Gustav, 2011c); <strong>a sombra também é uma expressão da totalidade</strong>. Pedir a Deus – ou para quaisquer outras personagens consideradas divinas &#8211; para que vivamos somente uma vida de equilíbrio idealizado, unilateralizados, com foco somente naquilo que acreditamos trazer alegrias e realizações do ponto de vista egóico e acreditar que esse é o caminho do processo de individuação, não passa de autoengano egóico e autoerótico. Na imagem descrita por von Franz, a voz de Deus, psicologicamente compreendida como uma expressão do Self, alerta Niklaus von Flüe que não cabe a ele a decisão ou a escolha absoluta sobre como sua vida deve prosseguir, mas sim à dimensão divina e arquetípica (Von Franz, 2022). O ego deve se submeter à vontade do Self, mesmo que muitas vezes tenha de agir contrariamente às vontades e desejos do entorno relacional, assim como às suas próprias vontades e desejos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-afirma-tambem-marie-louise-von-franz-em-seu-capitulo-o-processo-de-individuacao-no-livro-o-homem-e-seus-simbolos" style="font-size:17px">Como afirma também Marie-Louise von Franz em seu capítulo <em>O processo de individuação, </em>no livro <em>O homem e seus símbolos:</em></h2>



<figure class="wp-block-pullquote has-very-light-gray-background-color has-background" style="font-size:18px"><blockquote><p>Quando uma pessoa tenta obedecer ao inconsciente, fica muitas vezes, como vimos, impossibilitada de fazer o que quer. E vai estar igualmente incapacitada de fazer o que as outras pessoas querem que ela faça. Acontece muitas vezes que precisará separar-se do seu grupo – família, parceiro ou outras relações pessoais – para poder encontrar-se. É por isso que se diz que atendendo ao inconsciente as pessoas tornam-se antisociais ou egocêntricas.</p><cite>Jung; Henderson; Von Franz; Jaffé<em> et al.</em>, 2016, p. 292.</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos então numa situação de inflação individual e coletiva, ditada pelo espírito da época que ensina que cada indivíduo precisa ser um herói, mostrando isso nas suas ações e conquistas, no seu poderio financeiro, material, político, social e intelectual. Tudo isso registrado diariamente e publicado através de postagens nas redes sociais que nada revelam a não ser a persona e a tentativa compensatória de solução da angústia humana fundamental que acompanha cada um de nós. Todo esse mecanismo faz com que o usuário acredite estar monetizando o conteúdo que produz, quando na verdade ele mesmo, seu tempo de vida, seu corpo e seu espírito, são monetizados pelas grandes corporações que controlam essa dinâmica através dos algoritmos. Isso sem tocarmos com profundidade na manipulação da opinião pública que acompanha disputas políticas populistas que mais lembram atos circenses de palhaços que se atacam com cadeiradas do que debates que deveriam levar em consideração a coletividade. <strong>Parece que as pessoas precisam se agarrar ao sentimento de superioridade heroico para aplacar o vazio existencial e a pequenez não reconhecida do ego perante a totalidade</strong>. A sua miserabilidade anímica é compensada pela falsa grandiosidade alcançada através das curtidas obtidas nas redes sociais. Como afirma <strong>Byung Chul-Han</strong> (2021), a curtida substitui o <em>amém, </em>assim cada uma delas faz com que o indivíduo se sinta como um deus; pura inflação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além dos conflitos internos inerentes a esse processo, quando alguém consegue aceitar essas condições e se dedicar religiosamente ao conhecimento de si mesmo, o problema se torna ainda mais complicado quando as mudanças começam a ser percebidas do lado de fora, já que o próprio entorno relacional se incomoda e não suporta a transformação daquele que se empenha verdadeiramente nessa jornada. Isso está conectado com a afirmação de <strong>Marie-Louise von Franz</strong>, quando a autora fala na citação anterior sobre a acusação de que as pessoas que se dedicam ao trabalho com o inconsciente sofrem, sendo consideradas egocêntricas e antissociais. Para se libertar da condição de objeto de depósito das projeções patológicas das pessoas à sua volta, o indivíduo precisará de coragem, empenho, suporte de si mesmo e do Self.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-afirma-joseph-campbell" style="font-size:17px">Como afirma <strong>Joseph Campbell</strong>:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote has-very-light-gray-background-color has-background" style="font-size:18px"><blockquote><p>(&#8230;) o indivíduo moderno que tem a coragem de atender ao chamado e empreender a busca da morada dessa presença, com a qual todo o nosso destino deve ser sintonizado, não pode — e, na verdade, não deve — esperar que sua comunidade rejeite a degradação gerada pelo orgulho, pelo medo, pela avareza racionalizada e pela incompreensão santificada. &#8220;Vive&#8221;, diz Nietzsche, &#8220;como se o dia tivesse chegado.&#8221; Não é a sociedade que deve orientar e salvar o herói criativo; deve ocorrer precisamente o contrário. Dessa maneira, todos compartilhamos da suprema provação — todos carregamos a cruz do redentor —, não nos momentos brilhantes das grandes vitórias da tribo, mas nos silêncios do nosso próprio desespero.</p><cite>Campbell, 2004, p. 206.</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de encontrarmos atualmente uma grande quantidade de pessoas que afirmam se dedicar à psicologia profunda nas suas mais diferentes expressões, e isso pode até ser verdade do ponto de vista conceitual, utilizo as palavras do próprio Jung, as quais acredito ainda serem verdade, para dizer que quando se trata de dar verdadeira atenção aos conteúdos do inconsciente e aceitar a realidade da alma, isso não parece ser o que acontece:</p>



<figure class="wp-block-pullquote has-very-light-gray-background-color has-background" style="font-size:18px"><blockquote><p>Devo, entretanto, chamar agora a atenção do meu leitor, que talvez não esteja bem familiarizado nem com a alquimia, nem com a psicologia moderna do inconsciente, para o fato de que hoje em dia só com extrema raridade alguém entra em tal situação. Já nenhuma pessoa tem simpatia para com a perplexidade de um pesquisador que manipula substâncias mágicas, e existem, extremamente poucos que experimentaram no próprio corpo os efeitos de uma análise do inconsciente, e, por assim dizer, ninguém incorre na ideia de tomar para meditação aquelas alusões objetivas que os sonhos trazem.</p><cite>Jung, 2018, p. 313.</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Utilizando os <strong>sonhos</strong> como exemplo de expressão simbólica, Jung insistia que <strong>o trabalho com os conteúdos do inconsciente é demorado e requer paciência, dedicação disciplinada e tempo</strong>. Ele fala não só da passagem do tempo para que a maturação e o próprio processo alquímico aconteçam, mas também da importância do tempo diário, aquele que usamos de maneira consciente para nos sentarmos perante nós mesmos, olhando e destilando as imagens oníricas que nos foram presenteadas pelo Self, circumambulando pacientemente esse material para que o sentido e o significado surjam <em>Deo concedente </em>(concedidos por Deus), e não por simples desejo do ego. <strong>Sabemos que a paciência não é uma característica do espírito da época, que prega exatamente o contrário: a pressa e a velocidade</strong>. Por isso, o ego identificado com esse espírito, inflado com suas exigências modernas, não suporta precisar esperar pela intervenção divina no processo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-taoismo-encontramos-a-mesma-visao-afirmada-da-seguinte-maneira-no-capitulo-50-do-tao-te-ching-segundo-a-traducao-de-james-legge" style="font-size:17px">No taoísmo encontramos a mesma visão, afirmada da seguinte maneira no capítulo 50 do Tao Te Ching, segundo a tradução de <strong>James Legge</strong>:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote has-very-light-gray-background-color has-background" style="font-size:18px"><blockquote><p>De cada dez (homens), três são ministros da vida (para si mesmos); e três são ministros da morte. Há também três em cada dez cujo objetivo é viver, mas cujos movimentos tendem para a terra (ou lugar) da morte. E por qual razão? Por causa de seus esforços excessivos para perpetuar a vida.<a id="_ftnref2" href="#_ftn2">[2]</a> </p><cite>Legge, 2013, p. 50.</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Não irei me alongar na ampliação desse trecho do livro, farei isso em outra oportunidade. Por hora, podemos dizer a partir de uma leitura simbólica dos dizeres do Tao Te Ching que, a cada dez pessoas, um indivíduo tem a coragem para mergulhar no mundo interior, ouvir a vontade do Self e se entregar para o processo de realização do mito do significado que é supraordenado e não definido pelo ego. Os outros nove se perdem entre identificações com a vida ou com a morte (esses números não devem ser compreendidos literalmente, mas como imagem da dificuldade que enfrentamos aqui). O texto do Tao Te Ching irá continuar explicando que nem morte e nem vida encontram lugar para se fixar no coração do homem sábio, porque ele não se identifica com nenhuma delas. Exatamente por não se identificar com nenhum dos opostos, pode viver enquanto morre, pode morrer enquanto vive. Compreende que, enquanto indivíduos, somos seres intermediários; egos e não deuses. O contrário disso é inflação, que surge muitas vezes nos pequenos momentos em que criamos consciência de alguns aspectos ou conteúdos internos, para logo nos identificarmos com um deles ou com a grandiosidade do próprio Self, confundindo mais uma vez o que somos enquanto ego, com aquilo que somos como totalidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-palavras-do-proprio-jung" style="font-size:17px">Nas palavras do próprio Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote has-very-light-gray-background-color has-background" style="font-size:18px"><blockquote><p>Sendo assim, existem igualmente demônios nas ilhas da consciência, demônios que nos possuem. Em uma linguagem psicológica: lá somos possuídos por um afeto uma vez que nos identificamos inteiramente com ele, pois no afeto podemos ser inteiramente o que sentimos. Por isso, ele também tem algo fascinante. Existem muitas pessoas que idolatram sempre o afeto com o qual se identificam naquele momento.</p><cite>Jung, C. G., 2011, p. 96.</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Para encerrar essa reflexão, trago a imagem descrita por D. T. Suzuki em seu livro <em>Introdução ao Zen Budismo</em> que conta com prefácio e comentários de C. G. Jung. Suzuki fala aqui da necessidade de <strong>desidentificação</strong> à qual nos referíamos durante todo o texto, para que seja possível que o Self se manifeste através do ego, fazendo uso da luz da consciência que ele mesmo, ou seja o Self, concedeu primeiramente ao ego:</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-default has-black-color has-very-light-gray-background-color has-text-color has-background has-link-color wp-elements-1989b149bd267433efeb9d71aa416dca" style="font-size:18px"><blockquote><p>Transforme seu corpo e seu espírito em um pedaço de natureza inanimada, como uma pedra ou um pedaço de madeira. Quando você estiver completamente voltado para dentro, de modo que todos os sinais de vida desapareçam, então, de repente, uma plenitude de luz entrará em você, como uma luz vinda da mais profunda escuridão. Então o Self, livre de todo sofisma, será revelado, a face original do seu próprio ser, a paisagem maravilhosa do seu lar original será revelada. Há apenas um caminho direto que está aberto e sem obstáculos e você pode entrar nele assim que tiver renunciado a tudo.<a id="_ftnref3" href="#_ftn3">[3]</a></p><cite>Suzuki, 1991, p. 64.</cite></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;A inflação nossa de cada dia&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/m5GV4RISs4A?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata em Formação</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Waldemar Magaldi – Analista Didata Responsável</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Crédito da imagem</strong>: Balloon Race by Hiro Yamagata. Pode ser usada para propósitos educativos. Pode ser encontrada no link: <a href="https://www.wikiart.org/en/hiro-yamagata/balloon-race-1990">https://www.wikiart.org/en/hiro-yamagata/balloon-race-1990</a>.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:14px"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> No original: “Shortly after he had begun his life in retreat, he went to the meadow in Melch to cut the grass and, on the way, he prayed to God, asking for the grace to live a pious life. At that moment, a cloud in the sky spoke to him and told him to submit to the will of God. It said he was a foolish man and should be willing to submit to what God wanted of him”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:14px"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> “Of every ten three are minister of life (to themselves); and three are minister of death. There are also three in every ten whose aim is to live, but whose movements tend to the land (or place) of death. And for what reason? Because of their excessive endeavors to perpetuate life” (TTK, cap. 50).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:14px"><a href="#_ftnref3" id="_ftn3">[3]</a> Transform your body and your spirit into a bit of inanimate nature, like a stone, or a piece of wood. When you are completely turned inwards so that all signs of life disappear, then suddenly a plenitude of light will enter you, like a light out of the deppest darkness. Then the Self, freee of all sophistry, will be revealed, the orignal face of your own being, the the marvellous landscape of your original home will be unveilled. There is only one direct way which is open and without hindrance and you can enter upon it as soon as you have given everything away.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">CAMPBELL, Joseph. <strong>Herói de Mil Faces, O</strong>.&nbsp; Cholsamaj Fundacion, 2004. 8531502942.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">FRANZ, Marie-Louise von. A interpretação dos contos de fada. <strong>São Paulo: Paulinas</strong>, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">HAN, Byung-Chul. <strong>O desaparecimento dos rituais: uma topologia do presente</strong>.&nbsp; Editora Vozes, 2021. 6557133330.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, C. G. Seminários sobre sonhos de crianças. <strong>Vozes</strong>, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, Carl G; HENDERSON, Joseph L; VON FRANZ, M-L; JAFFÉ, Aniela<em> et al.</em> <strong>O homem e seus símbolos</strong>.&nbsp; HarperCollins Brasil, 2016. 8595081468.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. <strong>Interpretação psicológica do dogma da trindade</strong>.&nbsp; Editora Vozes Limitada, 2011a. 8532641083.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. <strong>Mysterium Coniunctionis 14/1: Os componentes da Coniunctio; Paradoxa; As personificações dos opostos</strong>.&nbsp; Editora Vozes Limitada, 2011b. 8532641261.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. <strong>A natureza da psique</strong>.&nbsp; Editora Vozes Limitada, 2011c. 8532641342.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. <strong>O espírito na arte e na ciência</strong>.&nbsp; Editora Vozes Limitada, 2011d. 8532641024.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, CG. <strong>Mysterium Coniunctionis 14/2</strong>.&nbsp; Editora Vozes Limitada, 2018. 8532658407.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">LEGGE, James. <strong>Tao Te Ching (Legge)</strong>.&nbsp; Simon and Schuster, 2013. 1625583095.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">SUZUKI, Daisetz Teitaro. <strong>An introduction to zen buddhism</strong>.&nbsp; Grove Press, 1991. 0802130550.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">VON FRANZ, Marie-Louise. <strong>Niklaus Von Flüe And Saint Perpetua: A Psychological Interpretation of Their Visions</strong>.&nbsp; Chiron Publications, 2022. 1685030319.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e conheça nossos Cursos e pós-Graduações com&nbsp;<strong>Matrículas Abertas</strong>:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicossomática</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicologia Analítica</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Arteterapia e Expressões Criativas</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Conheça nossos&nbsp;<a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">Congressos Junguianos</a>&nbsp;e Combos Promocionais:</p>



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			</item>
		<item>
		<title>A cotransferência no processo de análise de sonhos</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-cotransferencia-no-processo-de-analise-de-sonhos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Monica Martinez]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 Mar 2024 19:30:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No mundo desalmado em que vivemos, como podemos dar tempo e espaço ao universo sutil? E como realizar isso? A psicologia analítica junguiana pode ser uma ajuda valiosa. Grande parte do trabalho analítico visa estabelecer uma conexão entre o mundo externo e o interno, enriquecendo a aridez do cotidiano com as imagens ricas da alma. A ponte entre esses dois universos é construída por meio do que Freud chamou desde o início de 'via régia': os sonhos. Além disso, é construída pelo método posteriormente desenvolvido por Jung, envolvendo estímulo através da imaginação ativa e expressões criativas. Neste campo fértil, a interface com a mitologia é preciosa. Afinal, como Joseph Campbell afirmava, o sonho é para o indivíduo o que o mito representa para a coletividade.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Resumo:</strong> No mundo desalmado em que vivemos, como podemos dar tempo e espaço ao universo sutil? E como realizar isso? A psicologia analítica junguiana pode ser uma ajuda valiosa. Grande parte do trabalho analítico visa estabelecer uma conexão entre o mundo externo e o interno, enriquecendo a aridez do cotidiano com as imagens ricas da alma. A ponte entre esses dois universos é construída por meio do que Freud chamou desde o início de &#8216;via régia&#8217;: os sonhos. Além disso, é construída pelo método posteriormente desenvolvido por Jung, envolvendo estímulo através da imaginação ativa e expressões criativas. Neste campo fértil, a interface com a mitologia é preciosa. Afinal, como Joseph Campbell afirmava, o sonho é para o indivíduo o que o mito representa para a coletividade.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-imaginacao">A imaginação</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na década de 1980, <strong>Michael J. Meade</strong> foi um pioneiro do Movimento dos Homens nos Estados Unidos. Atualmente o <strong>mitólogo</strong>, contador de histórias, autor e fundador da Mosaic Voices continua a publicar e ensinar para um público mais amplo, que inclui, mas não se limita a, pessoas que se identificam como pertencentes ao sexo masculino. Ele também é o responsável pelo podcast chamado <strong>Living Myth</strong> (algo como Mito Vivo em português). Na edição de número 359, de dezembro de 2023, ele aborda <strong>A Necessidade da Imaginação</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Meade, a imaginação é crucial, pois dá voz à alma. Não é à toa que, neste mundo desalmado em que vivemos, ele sugere que um bom antídoto seria dedicar tempo e espaço ao mundo sutil e subjetivo do ânimo. Mas como fazer isso? É aqui que a psicologia analítica junguiana pode oferecer ajuda.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desde-sua-origem-a-psicologia-analitica-junguiana-caminha-de-maos-dadas-com-a-mitologia-ou-seja-com-as-historias-sagradas-juntas-ambas-bebem-na-fonte-pura-do-mundo-imaginal">Desde sua origem, a psicologia analítica junguiana caminha de mãos dadas com a mitologia, ou seja, com as histórias sagradas. Juntas, ambas bebem na fonte pura do mundo imaginal.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Por um lado, o mundo objetivo e consciente é literalizado, o que se refere ao ato de tornar algo mais literal ou representar algo de maneira exata e direta, sem muita interpretação ou abstração. Na linguística, por exemplo, podemos falar em &#8220;tradução literalizada&#8221; para descrever uma tradução que segue de perto as palavras e a estrutura da língua original, sem muita adaptação ou interpretação livre. Como diríamos de maneira informal, ao pé da letra. Uma mesa é uma mesa, ponto final.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já o espaço subjetivo interno é incrivelmente rico. Principalmente porque, na maior parte dos casos, seu conteúdo é inconsciente. Para uma pessoa uma mesa pode ser a mesa de jantar da casa da avó querida ou a mesa onde um tio foi velado. Essa riqueza é imaginal &#8211; uma vez que a mesma imagem pode evocar inúmeras possibilidades.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-mundo-imaginal">O mundo imaginal</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O termo &#8216;mundo imaginal&#8217;, aliás, foi popularizado pelo filósofo e estudioso das religiões francês <strong>Henry Corbin</strong> (1903-1978). Ele introduziu esse conceito para descrever uma dimensão da realidade que transcende tanto o mundo físico quanto o puramente imaginativo. Corbin explorou a ideia de que existe um reino intermediário entre o mundo material e o mundo puramente mental, denominando esse espaço de &#8216;mundus imaginalis&#8217; em latim, traduzível como &#8216;mundo imaginal&#8217;. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse contexto, o mundo imaginal não é simplesmente fruto da imaginação individual. É concebido como uma realidade autônoma, habitada por formas arquetípicas. Corbin tinha especial interesse na tradição mística islâmica e nas filosofias persas, onde encontrou conceitos semelhantes. O mundo imaginal, portanto, é considerado um domínio intermediário, no qual a imaginação atua como uma ponte entre o material e o que poderíamos chamar de não material, o espiritual ou sagrado, utilizando a terminologia de <strong>Mircea Eliade</strong>. </p>



<p class="wp-block-paragraph">É digno de nota que a experiência imaginal é resultado da vivência subjetiva de cada um de nós, podendo ser expressa por apenas um ou todos os cinco sentidos. Até podemos incluir a intuição como um sexto sentido, que também pode estar presente. Desta forma, <strong>o resultado imaginal não é necessariamente atrelado a uma representação visual</strong> como apregoa o senso comum.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-mitos-e-contos-de-fada-geralmente-encontramos-um-psicopompo-entre-o-mundo-interno-e-externo">Nos mitos e contos de fada, geralmente encontramos um psicopompo entre o mundo interno e externo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A palavra &#8216;psicopompo&#8217; tem origem grega, resultando da união de &#8216;psique&#8217; (alma) e &#8216;pompo&#8217; (condutor). Na mitologia um psicopompo é uma entidade, espírito, deidade ou figura mitológica que atua como guia, condutor ou acompanhante das almas dos mortos para o além, auxiliando-as na transição entre a vida e a morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na psicologia, muitas vezes, esse papel é desempenhado pelo analista. Isso se justifica pelo fato de figuras consideradas psicopompos incluírem Anúbis na mitologia egípcia, a divindade Yama no hinduísmo, Hermes e Caronte na mitologia grega, Exu da etnia Iorubá e Condutor de Almas (também conhecido como Bardo) no budismo tibetano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas entidades são vistas como guias que auxiliam as almas a encontrar seu caminho após a morte, proporcionando assistência e proteção durante essa jornada. No entendimento da Psicologia Analítica Junguiana, quem facilita o papel de mediador entre os mundos e auxilia na busca do caminho possível é um profissional treinado. Esse indivíduo é especializado, pois possui uma base teórica sólida, bem como treinamento em supervisão e terapia pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O método junguiano para lidar com <strong>sonhos</strong> é bastante abrangente. Inicialmente, adota a <strong>associação de ideias</strong>, seguindo a tradição de Freud, ao estimular o inconsciente pessoal do sonhador. Freud afirmava que esses conteúdos eram reprimidos, latentes e não desenvolvidos. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, a partir de Jung, promove também a ampliação, quando o psicoterapeuta fornece feedback sobre como esse conteúdo ressoou nele mesmo. Geralmente, nesse ponto, adentra-se nos <strong>conteúdos arquetípicos e míticos</strong>, ou seja, no <strong>inconsciente coletivo</strong> conforme preconizado por Jung.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-costuma-se-dizer-que-o-sonho-pertence-ao-sonhador-e-isso-e-verdade">Costuma-se dizer que o sonho pertence ao sonhador, e isso é verdade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, em certo sentido, quando o sonho é analisado se torna algo presente nos inconscientes, tanto de quem sonha quanto de quem analisa. Assim, argumentamos que podemos considerar esse processo como uma cocriação, pois o resultado mobiliza conteúdos em ambas as pessoas: o analisando e o analista. Quando uma análise é bem conduzida ela pode ser transformadora para ambos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não por acaso, os <strong>psicopompos</strong> desempenham um papel crucial em diversas tradições religiosas e mitologias ao redor do mundo, frequentemente associados a rituais funerários, resgate de almas ou condução das almas para o além após a morte. No entanto, como Jung mesmo alertava, nem todos os sonhos são passíveis de análise. Adentramos o mistério do inconsciente com respeito, pedindo humildemente licença para entrar, conscientes de que estamos longe de sermos senhores nesse domínio. Por fim, é crucial adentrar o território do outro com reverência, conscientes de que estamos diante de um vasto e complexo universo, no qual a compreensão humana é apenas uma pequena parcela.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/monicamartinez/">Monica Martinez – Analista em Formação pelo IJEP</a><br><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata – IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e conheça nossas Pós-Graduações:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Vem aí</strong>: IX Congresso Junguiano do IJEP: “Arteterapia e Expressões Criativas na Psicologia Analítica”. Inscreva-se já:&nbsp;<a href="https://ijep.pages.net.br/ix-congresso-ijep-arteterapia">congresso.ijep.com.br</a></p>



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		<title>&#8220;Sonhos não lembrados: O papel da Super Aceleração e da Hiper Produtividade atual na perda da Alma&#8221;</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sonhos-nao-lembrados-o-papel-da-super-aceleracao-e-da-hiper-produtividade-na-perda-da-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Helena Soares Marinho]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Jan 2024 15:31:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[hiperconexao]]></category>
		<category><![CDATA[insônia]]></category>
		<category><![CDATA[lembrar dos sonhos]]></category>
		<category><![CDATA[recordação dos sonhos]]></category>
		<category><![CDATA[técnicas recordação sonhos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A influência da super aceleração e hiperprodutividade nos adoecimentos psíquicos e a consequente não lembrança dos sonhos são abordados neste artigo. A influência da aceleração da vida moderna e o modo de vida competitivo são apontados como responsáveis por essa dificuldade. A falta de espaço para a vida interior compromete a qualidade do sono e a conexão com os sonhos, afetando o processo de individuação. É crucial repensar nossa relação com a tecnologia e reavaliar nossos limites produtivos para dormirmos melhor e valorizarmos o processo terapêutico dos sonhos.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>No contexto contemporâneo, marcado pela hiperconexão e a hiperprodutividade, observa-se uma perda crescente da conexão com o mundo dos sonhos. Este artigo examina, sob a ótica da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, como esses fenômenos impactam a lembrança dos sonhos e, consequentemente, o trabalho de conteúdos inconscientes, memórias e processos criativos.&nbsp;</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-hiperconexao-e-hiperprodutividade"><strong>Hiperconexão e Hiperprodutividade</strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo dados da Associação Brasileira do Sono (ABS), pesquisa realizada em 2019, 73 milhões dos brasileiros (ou seja, ⅓ da população) sofrem de insônia, e a venda do <strong>Zolpidem</strong>, um dos fármacos hipnóticos mais conhecidos da atualidade, cresceu cerca de 676% entre 2012 e 2021 (*CMED, acesso em 02, Maio/2023).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Em grandes cidades como São Paulo, em que o ritmo de vida é muito agitado, os índices são significativamente mais altos que a média</strong>. Uma pesquisa do Instituto do Sono (EPISONO), realizada com 1000 voluntários entre 2018 e 2019 revelou que 45% da população paulistana queixa-se de insônia ou dificuldade para dormir, sendo que 35% toma medicação para estimular o sono, mesmo sem prescrição médica. (EPISONO, 2023)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-insonia-pode-se-dar-por-varios-motivos-um-deles-e-o-fato-aparentemente-simples-uma-resistencia-a-dormir-por-acumulo-de-ansiedade">A <strong>insônia </strong>pode se dar por vários motivos. Um deles é o fato aparentemente simples: <strong>uma resistência a dormir por acúmulo de ansiedade</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Isto vai influenciar na dificuldade de lembrar dos sonhos, mesmo considerando que todos sonhamos todas as noites cerca de cinco sonhos, já que estes são um fenômeno neurológico, necessário para o equilíbrio psico afetivo e mental do ser humano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos possíveis fatores que contribuíram para o cenário descrito até aqui é de cunho sócio-cultural e econômico. <strong>A hiperprodutividade dos indivíduos na sociedade neoliberal também tem influência significativa na não-lembrança dos sonhos</strong>. Em seu livro “<strong>A alma precisa de tempo</strong>”, a analista junguiana Verena Kast (2016) fala sobre o quanto a aceleração atual exige não só uma eficácia cada vez maior no mundo externo mas também no mundo interno, fazendo com que tenhamos que fazer cada vez mais em menos tempo, constrangidos a cumprir mais compromissos ou sentir-nos culpados se perdemos um prazo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do mesmo modo, há pressão para resolvermos um distúrbio psicológico rapidamente; e a perda da tranquilidade e do aconchego igualmente leva a uma marginalização da alma. Se permitirmos isso, a vida será mais fria, os relacionamentos serão dominados pela funcionalidade. Muitos temem ou já vivenciam isso. Por seu turno, o sociólogo <strong>Byung-Chul Han</strong> (2017, p.34) diz que a sociedade atual tem uma tolerância bem pequena ao tédio e não admite experimentá-lo ao nível profundo, algo importante para todos os processos criativos, incluindo o sonho. Assim, perdeu-se a capacidade de se aquietar e contemplar. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-han-cita-walter-benjamin-a-pura-inquietacao-nao-gera-nada-de-novo-reproduz-e-acelera-o-ja-existente-nao-se-tece-mais-e-nao-se-fia-2017-p-34">Han cita Walter Benjamin: &#8220;<strong>A pura inquietação não gera nada de novo, reproduz e acelera o já existente. Não se tece mais e não se fia</strong>”. (2017, p. 34)</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O termo <strong>alétheia</strong> significa verdade e, ao mesmo tempo, realidade, no sentido de desvelamento, ou seja, de descobrir o que estava encoberto, oculto (a= negação, lethe = esquecimento). Martin <strong>Heidegger </strong>(apud Macieira, 2023) retomou o termo para definir a tentativa de compreensão da verdade. Para esse escritor, a alétheia é distinta do conceito leigo de “verdade” – esta considerada um estado descritivo objetivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim sendo, alétheia traz consigo a revelação imediata da realidade, no sentido de onisciência e de memória, significando o equivalente a mnemosÿne (memória). A única potência que se opõe à alétheia, mas que, todavia a complementa, é lethe (em grego = esquecimento). Tecendo um paralelo com a condição moderna da nossa existência, faltam condições para se viver a experiência da Alétheia e os sonhos ficam perdidos nos rios de Lethe, uma vez que os indivíduos tendem a desvalorizar a escuta interna e dar prioridade aos estímulos do mundo exterior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-papel-dos-sonhos-na-psicologia-anali-tica-de-jung"><strong>O Papel dos Sonhos na Psicologia Analí</strong><strong>tica de Jung</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na psicologia junguiana, os sonhos são vistos como manifestações vitais do inconsciente, oferecendo compensações para as atitudes unilaterais da consciência. Eles desempenham um papel crucial no processo de autoconhecimento e individuação, agindo como guias para o equilíbrio psíquico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung (2013b, p. 465) define o conceito de individuação como o processo de formação e particularização do ser individual; em especial, o desenvolvimento do indivíduo psicológico como ser distinto do conjunto, da psicologia coletiva. É, portanto, um processo de diferenciação que objetiva o desenvolvimento da personalidade individual. Uma vez que o indivíduo não é um ser único, mas pressupõe também um relacionamento coletivo para sua existência, também o processo de individuação não leva ao isolamento, mas a um relacionamento coletivo mais intenso e mais abrangente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os sonhos e o processo de individuação possuem íntima conexão, uma vez que os sonhos são a maneira mais direta e natural de estabelecermos comunicação com nosso inconsciente, o que concorre para o autoconhecimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung">Segundo Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-default" style="font-size:17px"><blockquote><p>Inicialmente as compensações aparecem como ajustamentos momentâneos de atitudes unilaterais ou o restabelecimento de certos desequilíbrios da situação. Mas um conhecimento e uma experiência mais aprofundados nos mostram que estas ações compensadoras aparentemente isoladas obedecem a uma espécie de plano pré-determinado.<br><br>Parecem ligadas umas às outras e subordinadas, em sentido mais profundo, a um fim comum, de modo que uma longa série de sonhos não aparece mais como uma sucessão fortuita de acontecimento desconexos e isolados, mas como um processo de desenvolvimento e de organização que se desdobra segundo um plano bem elaborado. Designei esse fenômeno inconsciente, que se exprime espontaneamente no simbolismo de longas séries de sonho, pelo nome de processo de individuação. (JUNG, 2013a, p. 244)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Jung &nbsp;(2013b, p. 465) nos ensina que, se nos comprometemos com a análise de longas séries de sonhos, com a competente assistência de um analista, por um longo tempo, é raro que não vejamos nosso horizonte alargar-se e enriquecer-se. Justamente devido a seu comportamento compensador, a análise adequadamente conduzida nos descortina novos pontos de vista e abre novos caminhos que nos ajudam a sair da estagnação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele explica que um conhecimento e uma experiência mais aprofundados nos mostram que essas ações compensadoras aparentemente isoladas obedecem a uma espécie de plano pré-determinado. Parecem ligadas umas às outras e subordinadas, em sentido mais profundo, a um fim comum, de modo que uma longa série de sonhos não aparece mais como uma sucessão aleatória de acontecimentos desconexos e isolados, mas como um processo de desenvolvimento e de organização que se desdobra segundo um plano bem elaborado. A este fenômeno inconsciente, que se exprime espontaneamente no simbolismo de longas séries de sonhos, Jung (2013b, p. 467) também designou como <strong>processo de individuação</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>E mesmo que muitas vezes os sonhos não sejam compreensíveis, eles agem sobre a nossa psique e nossas vidas</strong>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Se os sonhos produzem compensações tão essenciais, por que então eles não são compreensíveis? Esta questão me tem sido dirigida frequentemente. Devemos responder que o sonho é um acontecimento natural e que a natureza não está de modo algum disposta a oferecer seus frutos de certo modo gratuitamente aos homens, na medida das suas expectativas. Muitas vezes se abjeta que a compensação pode permanecer ineficaz, se não se entende o sentido do sonho, mas isto não é assim tão claro, porque há muitas coisas que atuam sem serem compreendidas. Mas nós podemos, sem dúvida, aumentar consideravelmente sua eficácia pela compreensão, e muitas vezes isto se revela necessário, porque a voz do inconsciente pode também não ser ouvida. (JUNG, 2013a, p. 250)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Porquanto a individuação tenha por objetivo o ser único, exercitando sua singularidade mais íntima, última e incomparável<em>, </em>despojando-o dos invólucros falsos da persona, os sonhos, então, se apresentam como peças-chave para desvelar as compensações entre consciência e inconsciente. Se ampliados simbolicamente de maneira eficaz, seus conteúdos podem ser integrados de forma mais harmoniosa à consciência, fazendo com que o indivíduo revise personas inautênticas e (re)construa com essas instâncias relações mais saudáveis, caminhando em direção ao seu processo de autoconhecimento e autodesenvolvimento egóico, de si-mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung (2015) também explica que, quanto mais consciente nos tornamos de nós mesmos, tanto mais se reduzirá a camada do inconsciente pessoal que recobre o inconsciente coletivo:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Desta forma, vai emergindo uma consciência livre do mundo mesquinho, suscetível e pessoal do eu, aberta para a livre participação de um mundo mais amplo de interesses objetivos. Essa consciência ampliada não é mais aquele novelo egoísta de desejos, temores, esperanças e ambições de caráter pessoal, que sempre deve ser compensado ou corrigido por contratendências inconscientes; tornar-se-á uma função de relação com o mundo de objetos, colocando o indivíduo numa comunhão incondicional, obrigatória e indissolúvel com o mundo.<br><br>As complicações que ocorrem nesse estádio já não são conflitos de desejos egoístas, mas dificuldades que concernem à própria pessoa e aos outros. Neste estádio aparecem problemas gerais que ativaram o inconsciente coletivo; eles exigem uma compensação coletiva e não pessoal. É então que podemos constatar que o inconsciente produz conteúdos válidos, não só para os indivíduos, mas para os outros: para muitos e talvez para todos&#8221;. (JUNG, 2015, p. 68)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-import-ancia-do-resgate-da-lembranca-dos-sonhos-reaprendendo-a-sonhar-e-o-retorno-ao-interior-profundo-da-alma"><strong>A Import</strong><strong>ância do Resgate da Lembrança dos Sonhos: Reaprendendo a sonhar e o retorno ao interior profundo da alma</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aquilo que fazemos antes de dormir será um dos fatores determinantes da qualidade do sono e consequentemente influenciará na sua lembrança. É a chamada &#8220;higiene do sono&#8221;. A mesma ensina que, por pelo menos 30 minutos antes de dormir, convém evitar o uso de aparelhos celulares, computadores, tablets e televisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Narrativas que despertem o <strong>mundo imaginal </strong>podem ser benéficas. Além disso, o uso de algumas substâncias afeta a fisiologia do sono, portanto é recomendável evitar o uso de álcool, tabaco, café, maconha, pílulas para dormir, etc., estar hidratado e não se alimentar de maneira excessiva; uma postura assim ajudará o indivíduo a dormir melhor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Exercícios físicos extenuantes também irão atrapalhar. Por sua vez, alguns exercícios meditativos podem ser interessantes, mas é necessário saber exatamente o que se está fazendo. Muitas vezes esse tipo de prática acaba mobilizando as faculdades mentais e produzindo agitação, isso irá atrapalhar mais do que ajudar o sono.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-lembrar-dos-sonhos-pode-ser-um-desafio-para-muitas-pessoas-mas-existem-algumas-tecnicas-que-podem-ajudar-a-aumentar-a-capacidade-de-recordacao-dos-sonhos" style="font-size:17px">Lembrar dos sonhos pode ser um desafio para muitas pessoas, mas existem algumas técnicas que podem ajudar a aumentar a capacidade de recordação dos sonhos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Uma dela é a autossugestão, que também pode ser importante: autossugestionar-se, um minuto exatamente antes de dormir: &#8220;Vou sonhar, lembrar e relatar&#8221;. Segundo <strong>Ribeiro</strong>: permanecer imóvel na cama ao despertar, para que a prolífica caixa de Pandora se abra  (2017, p. 17). O ideal é não pular da cama e tentar buscar e manter na consciência as imagens oníricas durante o despertar. Prestar atenção na transição entre o mundo onírico e o mundo vígil e tentar ficar nesse lugar por algum tempo. Observar a si quando estiver passando para o mundo de cá: corpo, respiração, sentimentos, emoções etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Papel e lápis à mão, o sonhador de início se esforçará para lembrar com o que sonhou. A princípio parece impossível, mas rapidamente uma imagem ou uma cena, mesmo que esmaecida, virá à tona. A ela o sonhador deve se agarrar, mobilizando a atenção para aumentar a reverberação da lembrança do sonho. Essa primeira memória, mesmo frágil e fragmentada, servirá como peça inicial do quebra-cabeça, ponta do novelo a ser desenrolado. Através de sua reativação as memórias associadas começarão a se revelar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se no primeiro dia esse exercício produz apenas algumas frases desconexas, após uma semana é frequente encher páginas inteiras do <strong>sonhário</strong>, com vários sonhos independentes coletados depois de um único despertar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-realidade-sonhamos-durante-quase-toda-a-noite-mesmo-na-vigilia-muito-embora-chamemos-isso-de-imaginacao" style="font-size:20px"><strong>Na realidade, sonhamos durante quase toda a noite, mesmo na vigília, muito embora chamemos isso de imaginação</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O sonho é essencial porque nos permite mergulhar profundamente nos subterrâneos da consciência. Experimentamos no transcorrer desse estado uma colcha de retalhos emocionais. Pequenos desafios, modestas derrotas e vitórias cotidianas geram um panorama onírico que reverbera as coisas mais importantes da vida, mas tende a não fazer sentido globalmente. Quando a existência flui mansa é difícil interpretar a algaravia simbólica da noite&#8221; (RIBEIRO, 2021, p. 18)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Descrever os sonhos imediatamente ao despertar é uma prática simples que enriquece enormemente a vida onírica: em poucos dias, quem jamais os recordara começa a preencher páginas e mais páginas de seu diário dos sonhos, ou &#8220;sonhário&#8221;, recomendado desde a Idade Antiga para estimular a rememoração.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-o-estudo-dos-sonhos-jung-2016-nos-ensina-que-nao-podemos-nos-permitir-nenhuma-ingenuidade">Sobre o estudo dos sonhos, Jung (2016) nos ensina que não podemos nos permitir nenhuma ingenuidade:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:21px"><blockquote><p>[&#8230;] eles têm sua origem em um espírito que não é bem humano, e sim um sopro da natureza — o espírito de uma deusa bela e generosa, mas também cruel. Se quisermos caracterizar esse espírito, vamos nos aproximar bem melhor dele na esfera das mitologias antigas de nas fábulas primitivas das florestas do que na consciência do homem moderno. (JUNG, 2016, p. 58)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Isso porque o homem primitivo era muito mais governado pelos instintos do que seu descendente, o homem &#8220;racional&#8221;, que aprendeu a &#8220;controlar-se&#8221;. Além disso, Jung (2016, p. 59) também julga tolice acreditar em guias pré-fabricados e sistematizados para a interpretação dos sonhos, como se pudéssemos comprar um livro de consultas para nele encontrar a tradução de determinado símbolo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nenhum-simbolo-onirico-pode-ser-separado-da-pessoa-que-o-sonhou-assim-como-nao-existem-interpretacoes-definidas-e-especificas-para-qualquer-sonho" style="font-size:18px">Nenhum símbolo onírico pode ser separado da pessoa que o sonhou, assim como não existem interpretações definidas e específicas para qualquer sonho.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando os pontos mencionados acima, técnicas expressivas como desenhos livres, pinturas, colagens, mandalas e esculturas são ótimos recursos para expressar os símbolos oníricos, mensageiros indispensáveis da parte instintiva da mente humana para a sua parte racional; a sua interpretação enriquece a pobreza da nossa consciência fazendo-a compreender, novamente, a esquecida linguagem dos instintos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enfim, o tema abordado é bastante complexo e requer mudanças profundas na sociedade atual, em diversas camadas: uma reeducação para lidar com as imagens oníricas, transformações significativas na relação com as tecnologias, e a reavaliação de como a sociedade contemporânea lida com seus próprios limites produtivos. Como foi discutido ao longo do artigo, o indivíduo contemporâneo está mergulhado nas águas do rio de Lethe, esquecido de seus sonhos, e longe de si mesmo, com pouco ou nenhum contato com seu mundo onírico. Contudo, estudos relacionados ao sonho voltaram a tomar espaço nos meios científicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-avanco-tecnologico-possibilitou-a-neurociencia-descobrir-e-publicar-dados-que-corroboram-muitas-ideias-e-hipoteses-levantadas-por-jung-e-freud" style="font-size:18px">O avanço tecnológico possibilitou à neurociência descobrir e publicar dados que corroboram muitas ideias e hipóteses levantadas por Jung e Freud.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A própria ciência, que durante muito tempo deixou os estudos relacionados ao processo onírico de lado, diz agora que é extremamente importante para a nossa saúde e adaptação que sonhemos, e que o material surgido do inconsciente precisa participar das nossas decisões conscientes. Muito tem se falado da importância dos sonhos para as civilizações antigas, do quanto isso se perdeu na atualidade e do quanto é necessário resgatar essa relação basilar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O presente estudo também nos mostrou a importância dos sonhos no nível individual e coletivo, como função reguladora da psique, instrumento poderoso de autoconhecimento que refere também as relações sociais e interesses da comunidade. Nesse sentido, o sonho não guarda importância somente no âmbito individual, mas aponta para aquilo que está acontecendo na sociedade e no mundo; mostra para onde estamos caminhando enquanto coletividade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-precisamos-voltar-a-sonhar"><strong>Precisamos voltar a sonhar!</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Por final, espero que esse artigo seja um convite a todos aqueles que se encorajem a trabalhar com o inconsciente e a utilizarem mais recursos expressivos com seus pacientes, a fim de incentivá-los a registrarem as viagens ao interior da alma. O mergulho nas múltiplas dimensões do sonho, arte quase completamente esquecida atualmente, pode e deve reativar o hábito ancestral de sonhar e narrar.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Sonhos não lembrados: O papel da Super Aceleração e da Hiper Produtividade na perda da Alma" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/fOQ8zeV1-d0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Maria Helena Soares Marinho – Analista em Formação IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Cristina Mariante Guarnieri – Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">REFERÊNCIAS:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A Natureza da Psique</em>. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Tipos Psicológicos</em>. 7.ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O eu e o inconsciente</em>. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O Homem e seus Símbolos.</em> 3.ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HAN<em>, </em>Byung-Chul. <em>Sociedade do Cansaço</em>, 2.ed. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RIBEIRO, Sidarta. <em>O Oráculo do Sono</em>, 1.ed. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena. <em>A Alma precisa de tempo</em>. Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MACIEIRA, Rita. <a href="https://blog.sudamar.com.br/pequena-reflexao-em-tempos-de-aletheia/">https://blog.sudamar.com.br/pequena-reflexao-em-tempos-de-aletheia/</a> / Acesso em 30/Nov/2023</p>



<p class="wp-block-paragraph">CMED &#8211; Câmara de regulação do mercado de medicamentos, enviados pela Anvisa.<a href="https://noticias.r7.com/saude/venda-de-zolpidem-remedio-da-moda-para-dormir-cresce-676-em-dez-anos-no-brasil-28112022"> <u>https://noticias.r7.com/saude/venda-de-zolpidem-remedio-da-moda-para-dormir-cresce-676-em-dez-anos-no-brasil-28112022</u></a>. Acesso em 02 maio 2023</p>



<p class="wp-block-paragraph">EPISONO – Instituto do Sono: &nbsp;<a href="https://institutodosono.com/en/episono/">&nbsp;<u>https://institutodosono.com/en/episono</u></a>/ Acesso em 02 maio 2023</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e conheça nossas Pós-Graduações:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" width="1024" height="577" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2024/01/pos-graduacoes-1024x577.png" alt="" class="wp-image-8767" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/pos-graduacoes-1024x577.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/pos-graduacoes-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/pos-graduacoes-768x433.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/pos-graduacoes-1536x865.png 1536w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/pos-graduacoes-150x85.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/pos-graduacoes-450x254.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/pos-graduacoes-1200x676.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/pos-graduacoes.png 1640w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Vem aí: IX Congresso Junguiano do IJEP: “Arteterapia e Expressões Criativas na Psicologia Analítica”. Inscreva-se já:&nbsp;<a href="https://ijep.pages.net.br/ix-congresso-ijep-arteterapia">ix congresso arte (pages.net.br)</a></p>



<figure class="wp-block-image"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="512" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2024/01/arteterapia-1-1024x512.png" alt="" class="wp-image-8768" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/arteterapia-1-1024x512.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/arteterapia-1-300x150.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/arteterapia-1-768x384.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/arteterapia-1-1536x768.png 1536w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/arteterapia-1-2048x1024.png 2048w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/arteterapia-1-150x75.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/arteterapia-1-450x225.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/arteterapia-1-1200x600.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



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<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Sonhos na psicologia junguiana – uma proposta de investigação para terapeutas iniciantes</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/abordagem-de-sonhos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rafael Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Oct 2023 17:59:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Você é terapeuta ou analista iniciante e não sabe muito bem como abordar os sonhos nos atendimentos que você conduz? Este artigo foi escrito pensando em você, lhe orientando e apontando em passos gerais como dar espaço para que o sonho ocupe mais espaço em seus atendimentos. Diferentemente de indicar como analisar ou interpretar um [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/abordagem-de-sonhos/">Sonhos na psicologia junguiana – uma proposta de investigação para terapeutas iniciantes</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Você é terapeuta ou analista iniciante e não sabe muito bem como abordar os sonhos nos atendimentos que você conduz? Este artigo foi escrito pensando em você</em>, <em>lhe orientando e apontando em passos gerais como dar espaço para que o sonho ocupe mais espaço em seus atendimentos.</em> <em>Diferentemente de indicar como analisar ou interpretar um sonho, este artigo sugere como abordar o sonho, antes mesmo de analisá-lo</em>. <em>Algo que já foi feito com maestria por diversos autores junguianos.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desde-muito-jovem-mesmo-antes-de-conhecer-a-psicologia-analitica-os-sonhos-me-fascinaram" style="font-size:18px">Desde muito jovem, mesmo antes de conhecer a psicologia analítica, os <strong>sonhos</strong> me fascinaram.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Já mais velho, ao longo do meu processo de análise pessoal, aprendi muito e continuo aprendendo com eles. Paralelamente, na prática de Analista Junguiano, me deparo semanalmente com uma série de <strong>sonhos</strong> dos meus analisandos. Além de também investigar secundariamente <strong>sonhos</strong> dos clientes que meus supervisionandos apresentam nos grupos de discussão de casos por mim conduzidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar da longevidade que os <strong>sonhos</strong> participam da minha vida – o primeiro em que tenho registro escrito eu tinha 16 anos de idade (irritantemente Jung lembra de sonhos de quando ele tinha 4 anos), e na data de publicação deste artigo tenho 40 anos – eles ainda permanecem paradoxalmente fascinantes e reveladores, mas ao mesmo uma incógnita a ser constantemente descoberta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De certa forma já me penitenciei por essa sensação de incógnita, mas hoje, com mais profundidade na psicologia analítica, percebo que esta “ignorância” diante dos <strong>sonhos</strong> é até benéfica, pois me permite investigá-los tais como eles se apresentam, evitando interpretações ansiosas e reducionistas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, no decorrer dos meus estudos, preciso confessar que sempre busquei algum livro que me desse algum tipo de “caminho”, seguramente influenciado pelo pensamento, minha provável tipologia predominante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-queria-uma-especie-de-manual-na-arte-de-analisar-sonhos-visando-aplacar-minha-angustia-mas-nao-encontrei-e-menos-ainda-na-obra-de-jung" style="font-size:17px">Queria uma espécie de “manual” na arte de analisar <strong>sonhos</strong>, visando aplacar minha angústia, mas não encontrei, e menos ainda na obra de Jung!</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A maneira como o mestre nos ensina a investigar <strong>sonhos</strong> está longe de obedecer a algum tipo de método rigoroso e sistematizado que nos permita aplicá-lo como se fosse uma “fórmula” da descoberta dos motivos simbólicos dos <strong>sonhos</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Inclusive, se assim o fosse, contradiria a própria proposta de Jung, que consiste em ampliar as imagens, buscando nelas significados tanto no âmbito pessoal (inconsciente pessoal). Isto é, no histórico de vida e rede de associações dos analisandos, como no âmbito coletivo (inconsciente coletivo), evocando mitos, contos de fada e símbolos religiosos para nos ajudar a compreender arquetipicamente as imagens.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entao-nao-ha-metodo"><strong>Então não há método?</strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na verdade, existem alguns passos gerais que devem ser aplicados, mas ainda assim, de forma alguma garantem uma interpretação definitiva do <strong>sonho</strong>. Fato é que no campo junguiano evitamos o termo “interpretação”, pois não é isso o esperado que façamos. Devemos ampliar ou analisar os <strong>sonhos</strong>, ou seja, buscar possíveis sentidos e significados para as imagens para além daquilo que o <strong>sonho</strong> expressa de maneira literal, de forma a ajudar os analisandos a produzirem insights, a sustentarem suas angústias, a criar novas reflexões e até mesmo a alcançar a função transcendente, que é aquela que integra conteúdos da consciência e do inconsciente (OC 8/2). Lembrando que a palavra <em>análise</em> se refere a decomposição de uma totalidade, portanto, no sonho fazemos esta espécie de decomposição para recompô-lo numa síntese.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-marie-louise-von-franz-nos-auxilia-profundamente-a-investigar-os-sonhos-ao-introduzir-o-estudo-dos-contos-de-fada-dentro-da-psicologia-analitica" style="font-size:16px"><strong>Marie-Louise von Franz</strong> nos auxilia profundamente a investigar os sonhos ao introduzir o estudo dos contos de fada dentro da Psicologia Analítica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Porém, não é um método ou modelo a ser seguido literalmente, ao menos da maneira como foi idealizado por mim (ou pelo pensamento dominante em mim). Por isso resolvi, por conta e risco, (e com o aval de meu analista didata) publicar neste breve ensaio algumas etapas que julgo importantes no processo de análise dos <strong>sonhos</strong>. Aprendidas na minha própria análise, nos meus processos de supervisão em grupo e individual, assim como nos meus estudos acadêmicos junguianos (livros, cursos e congressos). Talvez este texto interesse bem mais àqueles que estão mais no início da prática da terapia/análise junguiana do que àqueles que já possuem mais experiência clínica e na análise de <strong>sonhos</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-passo-a-passo">Passo a passo</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Também é claro para mim que as sugestões aqui expostas são apenas contribuições simplificadas para apoiar profissionais iniciantes, que ainda têm poucos recursos para investigar os <strong>sonhos</strong> de seus analisandos. Tais contribuições estão longe de terem caráter definitivo ou de obedecerem a uma rigidez metodológica. Entretanto, com esse artigo, sem a profundidade de um livro, penso que intenciono oferecer aos colegas algo que nunca encontrei: um passo a passo com relativa clareza do que se fazer diante dos <strong>sonhos</strong> de nossos analisandos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em <em>Tipos Psicológicos</em> (OC 6) <strong>Jung</strong> disse que sua classificação tipológica era uma forma mais ou menos “grosseira” de entender alguns padrões da consciência. Digamos que, em escala bem menor, estou fazendo o mesmo com a forma de se analisar os <strong>sonhos</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para encerrar esta parte, informo que diferentemente de explicar para que servem os <strong>sonhos</strong>, quais são suas dinâmicas compensatórias no inconsciente e quais são as suas propriedades prospectivas ou pedagógicas, vou me concentrar mais nas ações que o Analista deve ter diante deles na clínica junguiana, uma vez que esses elementos mais conceituais sobre o sentido e o significado dos <strong>sonhos</strong> para a psique é facilmente encontrado na literatura junguiana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-passo-1-peca-sonhos-aos-seus-analisandos"><strong>Passo 1: peça sonhos aos seus analisandos.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não existe um livro de Jung que seja dedicado explicar o método de análise dos <strong>sonhos</strong>, pois isso aparece de maneira difusa em seus escritos. Porém, de certa forma, ele aplica o método de maneira bastante consistente em <em>Símbolos da Transformação</em> (OC 5), quando avalia a série de fantasias/pensamentos registrados por Miss Miller. Em <em>Psicologia e alquimia</em> (OC 12) ele também analisa uma série de <strong>sonhos</strong> de um analisando. Entretanto, em ambos os livros, Jung já inicia na análise dos <strong>sonhos</strong>, e não nos diz de maneira clara, até porque não é o seu estilo de escrita, o que devemos fazer antes da análise propriamente dita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além disso, Jung era conhecido e respeitado pela sua grande capacidade de analisar <strong>sonhos</strong>, algo que nem todos temos! O comum entre ambos os livros é a série de imagens ou <strong>sonhos</strong>, isso implica em ter um registro desses conteúdos, portanto, é preciso que os analisandos os tragam para a conversa analítica a partir do seu estímulo como analista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda sobre os dois livros mencionados, há algo fundamental: olhar não só para um <strong>sonho</strong> isoladamente, mas olhar para uma série de <strong>sonhos</strong>, por isso você precisa pedir que seus analisandos tragam <strong>sonhos</strong> para a análise. Alguns ficarão entusiasmados, alguns desconfiados e outros curiosos, mas independentemente disso, peça <strong>sonhos</strong> a eles. Não precisa ser a todo momento, nem toda a semana, mas de quando em quando relembre-os de que os <strong>sonhos</strong> são bem-vindos na análise. E penso que do menos experiente ao mais experiente Analista, sempre haverá pessoas em meio a sua clientela que terão resistência a trazer <strong>sonhos</strong>, por isso nosso papel será sempre pedir que tragam <strong>sonhos</strong>, afinal, tal como proferiu e ensinou <strong>Jung </strong>ao se dirigir à médicos: </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“O que fazer quando o paciente não sonha absolutamente nada? Posso lhes garantir que todos os pacientes, mesmo os que dizem nunca ter sonhado antes, começam a sonhar quando passam pela análise. Por outro lado, acontece também que pacientes que sonhavam bastante, de repente não são capazes de se lembrar de seus sonhos. Adotei a norma empírica e prática de que o paciente que não sonha tem bastante material consciente que ele está escondendo por alguma razão. Uma delas, a mais comum, é: ‘Estou nas mãos do analista e estou disposto a ser tratado. Mas é ele que deve fazer o trabalho; vou ficar passivo’”</em> </p>
<cite>(OC 4, §535).</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-passo-2-aja-como-um-ignorante-diante-do-sonho-e-nao-tenha-vergonha-disso"><strong>Passo 2: aja como um ignorante diante do sonho, e não tenha vergonha disso.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Eu sei que muitos de nós desejaria ter um repertório impecável, com a capacidade de dar todas as respostas aos <strong>sonhos</strong> dos analisandos. Mais irritante ainda é quando lemos alguns livros do Jung e ele nos relata casos de pessoas que com apenas um <strong>sonho</strong> ele deduziu questões muito profundas. Contudo, o próprio Jung admite que alguns <strong>sonhos</strong> que escutou deixaram ele na angústia, por não ter a mínima ideia do que eles queriam dizer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logo, agir como um ignorante é fazer perguntas, perguntas e mais perguntas. Temporariamente, esqueça as deduções, apenas pergunte, como se fosse algo totalmente novo a você, mesmo que não o seja. Vou exemplificar: <em>cliente sonhou que estava numa festa com muitas pessoas</em>. Perguntas possíveis para se fazer ao analisando:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Quem eram essas pessoas? Você conhecia alguma delas? Ou conhecia todas? Você sabe o que era festejado? Você costuma ir a esse tipo de festa? Lembra alguma festa parecida que você já foi? Se não sabe qual festa era de fato, se parecia com que tipo de festa, ou seja, se assemelha com alguma categoria de festa mais típica, como casamento, aniversário, debutante, ano novo etc.? Era uma festa sua ou você era convidado? Como era o ambiente da festa? Que tipo de roupa você vestia? Que tipo de roupa as pessoas vestiam? Esse espaço da festa lembra algum lugar que você já tenha ido, mesmo que não em situação de festa?</em> Por aí vai&#8230; Claro que não precisa fazer exatamente todas essas perguntas, mas penso que me fiz entender.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-investigacao-e-do-basico-mesmo" style="font-size:16px">A investigação é do básico mesmo!</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Você perceberá que a partir desse processo dialético estimulado por essas perguntas investigativas insights começarão a surgir, assim como novas perguntas. Mas também é bem possível que você chegue a lugar nenhum com isso, e está tudo bem, é assim mesmo, por isso é importante olhar para uma série de <strong>sonhos</strong> – falaremos mais abaixo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-passo-3-exercite-a-ampliacao"><strong>Passo 3: exercite a ampliação</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ampliar o <strong>sonho</strong> é algo paradoxalmente simples e complexo! Consiste em buscar possibilidades imagéticas para as cenas oníricas. Isso se constrói em conjunto com o analisando e não cabe apenas ao analista essa tarefa. Ampliação é essencialmente o “como se” (HILLMAN, 2018). Para exemplificar voltemos ao <strong>sonho</strong> da festa. Suponhamos que a pessoa não saiba dizer do que se tratava a festa onírica. Então você pergunta: <em>essa festa se parecia com o que?</em> E o analisando responde: “era <em><strong>como se</strong> </em>fosse uma festa de casamento”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir daí diversas possibilidades podem emergir. Assumindo que era potencialmente uma festa de casamento, mesmo que não se saiba se realmente era, podemos partir deste ponto, com as perguntas: <em>O que se pode ter numa festa de casamento? O que se celebra numa festa de casamento? O que o casamento representa social e/ou culturalmente? O que o analisando sabe sobre casamento? Ele já se casou? Quais narrativas cinematográficas, míticas e/ou contos de fada sobre casamento que se assemelham com o <strong>sonho</strong> apresentado, segundo o contexto apresentado?</em> E assim vamos trazendo possibilidades de entendimento para as imagens.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esse-tipo-de-exercicio-vai-possibilitando-um-entendimento-mais-ampliado-das-imagens-do-sonho-pois-a-partir-do-que-o-analisando-comenta-podemos-trazer-algumas-imagens-para-observar-as-cenas-oniricas-por-outros-angulos" style="font-size:16px">Esse tipo de exercício vai possibilitando um entendimento mais ampliado das imagens do <strong>sonho</strong>, pois a partir do que o analisando comenta podemos trazer algumas imagens para observar as cenas oníricas por outros ângulos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Isso tem uma relação direta com o repertório do analista – falarei sobre isso mais abaixo. No meu caso, geralmente me ocorrem imagens cinematográficas (gosto bastante de filmes) que podem ajudar a examinar o <strong>sonho</strong> sob uma perspectiva mais geral, e também imagens da mitologia grega. Alguns outros simbolismos participam também das minhas percepções mais gerais, tais como temáticas alquímicas, mitologia iorubá e temáticas cristãs. Mas tenho pouco repertório em contos de fada (em construção&#8230;), por exemplo, e por isso dificilmente trarei imagens ligadas a essa temática. Mas cabe lembrar que ampliar repertório, conhecendo contos, mitologias e religiões é parte do nosso processo de formação contínua, pois gradativamente vamos agregando conhecimentos ao nosso manancial de referenciais simbólicos enquanto analistas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-passo-4-investigue-serie-de-sonhos"><strong>Passo 4: investigue série de sonhos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Mais acima reforcei a importância de pedir <strong>sonhos</strong> aos analisandos. Disse isso pois além do próprio Jung incentivar que o façamos, posso dizer por experiência que examinar uma série de <strong>sonhos</strong> é muito mais rico que olhar isoladamente para um <strong>sonho</strong>. Logo, pedindo <strong>sonhos</strong> aos analisandos, mesmo que um <strong>sonho</strong> ou outro não nos diga nada, é bem possível que aquele <strong>sonho</strong> incompreensível se faça ser compreendido por outro <strong>sonho</strong> posterior.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos últimos tempos adotei o hábito de anotar os <strong>sonhos</strong> de meus analisandos e percebi que ficou mais rica minha capacidade de análise, pois além de aumentar minha concentração na escuta do <strong>sonho</strong>, permitiu com que eu trouxesse com mais facilidade <strong>sonhos</strong> anteriores para participarem da conversa quando surge um novo <strong>sonho</strong>. É realmente surpreendente quando olhamos para uma série de <strong>sonhos</strong>. Faça esse exercício e perceberá como eles possuem conexão entre si, mesmo que numa visão mais geral, pareçam ser totalmente diferentes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-passo-5-leve-os-sonhos-de-seus-analisandos-para-sua-supervisao"><strong>Passo 5: leve os sonhos de seus analisandos para sua supervisão</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Parece óbvio, mas é preciso dizer! Tenho impressão de que às vezes os supervisionandos suprimem o relato de sonhos de seus analisandos por temerem revelar que não conseguiram trabalhá-los muito bem em análise. Contudo, a supervisão também é o espaço para exercitarmos o raciocínio investigativo. Dito de outra forma, mesmo que você não tenha extraído nada do sonho de seu analisando, trabalhe esses sonhos em supervisão, pois seguramente lhe ajudarão no processo. Arrisco dizer que é até preferencial que você leve uma série de <strong>sonhos </strong>à supervisão. Cinco <strong>sonhos</strong> já são o mínimo suficiente para a investigação de uma série. Na supervisão, especialmente se esta for em grupo, os <strong>sonhos</strong> de seus analisandos ganham uma “sobrevida” pois eles voltam a participar de maneira muito construtiva e criativa no processo analítico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Digo isso porque já me deparei com situações de supervisão em que o supervisionando trouxe uma série de <strong>sonhos</strong> de seu analisando para discussão em grupo, e ficou surpreso de como os <strong>sonhos</strong> apontavam para as respostas das dúvidas que justamente fizeram com que o caso fosse escolhido para ser apresentado. Isso só se deu porque o grupo supervisionandos começou a ampliar e trazer as impressões que tiveram dos <strong>sonhos</strong>. O mesmo vale para a supervisão individual. De minha parte, posso dizer que quando comecei a trabalhar série de <strong>sonhos</strong> dos meus analisandos em minha supervisão individual, minha forma de perceber e valorizar os <strong>sonhos</strong> mudou. É e foi muito rico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-passo-6-construa-repertorio"><strong>Passo 6: construa repertório</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Mencionei mais acima a importância do repertório. Isto se trata da construção de um conhecimento acerca de motivos míticos, religiosos, culturais e outros. Portanto, aprenda sobre mitologias, todas que puder, não apenas a grega; aprenda contos e/ou lendas; investigue sobre religiões, não apenas a que você eventualmente comungue, mas outras também, até para ter uma espécie de autorização simbólica de “entrar” no altar religioso de seus analisandos, que muitas vezes é diferente do seu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que almejo com essa sugestão de construção de repertório não é dar margem para a catastrófica mania de querer saber o que significa especificamente uma imagem onírica em sentido estrito, ou seja, aquela ânsia de querer correr para dicionários de <strong>sonhos</strong> – fuja deles – e/ou de símbolos – use com moderação – a fim de dar um sentido literal para a imagem que se apresenta no <strong>sonho</strong>. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Exemplo: suponhamos que o já mencionado <strong>sonho</strong> da festa tivesse um aquário com peixes. É claro que o peixe possui diversas simbologias, tal como Jung examinou em <em>Aion</em> (OC 9/2), mas a priori, um peixe é só um peixe! Ele possui diversas possibilidades de entendimento simbólico e isso se constrói com uma combinação entre o que o analisando fala e o repertório que você, analista, tem. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-analise-de-um-sonho-comeca-com-as-impressoes-que-surgem-da-consciencia-pois-e-ela-que-lembra-do-sonho-e-e-ela-que-e-sensibilizada-pela-carga-afetiva-expressada-no-sonho-o-sonho-e-uma-mensagem-para-a-consciencia" style="font-size:16px">A análise de um <strong>sonho</strong> começa com as impressões que surgem da consciência, pois é ela que lembra do <strong>sonho</strong> e é ela que é sensibilizada pela carga afetiva expressada no <strong>sonho – </strong>o <strong>sonho</strong> é uma mensagem para a consciência!</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Com isso, é essencial levantar quais são as experiências e associações que o analisando traz sobre o <strong>sonho</strong>, para que em seguida possamos averiguar os aspectos compensatórios, pedagógicos e prospectivos do sonho e, por fim, nos aproximarmos de imagens arquetípicas. Afirmar categoricamente que o peixe do aquário da festa é uma imagem de Jesus Cristo, por exemplo, é um exagero, a priori. Pode até ser que seja, nunca sabemos, só não podemos tomar isso como verdade absoluta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro hábito que já observei em alguns núcleos junguianos é a necessidade de enquadrar as imagens oníricas em algum conceito de Jung, por exemplo, “esse homem do <strong>sonho</strong> é o animus”, “essa mulher assustada é o complexo de inferioridade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Claro que o animus e os complexos se expressam nos <strong>sonhos</strong>, mas simplesmente atribuir às imagens oníricas conceitos antes de se fazer uma investigação ao estilo das perguntas que coloquei acima, é reduzir e não ampliar, ou seja, é o oposto do que Jung nos sugere.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então o que aparece <strong>no sonho não é o animus ou um complexo a priori, se trata de uma imagem, e</strong> essa imagem pode querer revelar conteúdos que a consciência ainda não é capaz de abarcar com seu manancial conceitual vigente. Os conceitos são sempre após o inconsciente, então devemos ser muito respeitosos com o que o inconsciente nos apresenta, pois nunca sabemos se estamos diante de algo jamais conhecido até então pelo nosso pequeno ego.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-passo-7-e-quando-o-analisando-nao-traz-sonhos"><strong>Passo 7: e quando o analisando não traz sonhos?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essa é uma angústia típica de analistas iniciantes e não podemos fazer muito quanto a isso, a não ser pedir e insistir aos analisandos sistematicamente! Me parece que cabe também um aspecto pedagógico, explicando aos analisandos o que podemos extrair dos <strong>sonhos</strong> e como eles podem contribuir para o processo de análise. Então adote a prática de perguntar regularmente “e aí, sonhou”? Em algum momento eles trarão e você pode se surpreender.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro ponto a perguntar a si é se o motivo de os analisandos não trazerem <strong>sonhos</strong> não possui uma relação contratransferencial com o fato de você ter uma espécie de “medo” dos <strong>sonhos</strong>, justamente por não saber muito bem como abordá-los – para isto que resolvi escrever este artigo! </p>



<p class="wp-block-paragraph">Pergunte-se qual é sua participação, pois é possível que exista este fenômeno a ser avaliado também. Sobre isso, <strong>Jung </strong>diz o seguinte<em>: </em></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“Quando o paciente não sonha desde o começo ou para de sonhar, então há algum material escondido que é passível de uma elaboração consciente. Neste caso, o relacionamento pessoal entre analista e paciente deve ser considerado como o obstáculo mais importante. Ele pode impedir a ambos, paciente e analista, de ver com clareza a situação. Não se pode esquecer que concomitantemente com o interesse que o analista deve demonstrar em penetrar na psicologia do paciente, este, por sua vez, se for uma pessoa de espírito ativo, procurará sentir a psicologia do analista e se posicionará assim perante ele.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>Na medida em que o analista não vê a si mesmo e seus problemas inconscientes, também permanece cego perante a atitude de seu paciente. Por isso reafirmo que o analista deve ele mesmo ter ido analisado, caso contrário a análise poderá se tornar para ele uma grande desilusão, pois, em certas circunstâncias, pode empacar e perder a cabeça. Em casos como este é grande a tentação de dizer que a psicanálise é uma tolice, para não ter que reconhecer que foi ele mesmo que entornou o caldo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>Se o analista estiver seguro de sua própria psicologia, poderá dizer com tranquilidade ao paciente que ele não sonha porque ainda existe material consciente a ser examinado. Nesses momentos é preciso estar seguro de si mesmo, pois o que se ouve de críticas e julgamentos impiedosos pode derrubar quem não está preparado para isso. A consequência imediata da perda de equilíbrio emocional pelo analista é que começa a discutir com o paciente para manter sua influência sobre ele. E aí a análise se torna impossível”</em>.</p>
<cite> (OC 4, §536)</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-passo-8-e-quando-o-analisando-traz-sonhos-mas-foge-deles"><strong>Passo 8: e quando o analisando traz sonhos, mas “foge” deles?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Isso é relativamente comum. É como se o analisando trouxesse o <strong>sonho</strong> de maneira protocolar, mais para satisfazer o desejo do analista de que ele traga <strong>sonhos</strong> do que trazê-los por uma vontade genuína de examiná-los em sua análise. Nesse caso também não tem muito o que fazer, a não ser convidar a pessoa a ficar no <strong>sonho</strong> e trazê-la suavemente para participar da investigação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nada impede que eventualmente sejamos mais austeros, apontando esse comportamento de fuga diante do <strong>sonho</strong>. Na grande maioria das vezes – para não dizer sempre – contar um <strong>sonho</strong>, mas não entrar na investigação dele, é defesa egóica. Logo, simplesmente “forçar” o analisando a entrar no <strong>sonho</strong>, pode ser menos eficaz do que fazer isso de maneira mais suave. Seja de uma forma, ou de outra, o fundamental é tentar, sempre que possível, utilizar o conteúdo onírico no processo de análise, pois essa é a base da psicologia analítica de C. G. Jung.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-passo-9-quais-livro-posso-ler"><strong>Passo 9: quais livro posso ler?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Optei por escrever um artigo sem ficar colocando muitas referências. Digamos que escolhi “sonhar” este artigo em vez de pensá-lo, para depois transformá-lo em “pensamento”, mas existem inúmeros livros de Jung e do campo junguiano que exploram os <strong>sonhos</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-seguem-alguns-deles-com-um-breve-comentario" style="font-size:16px">Seguem alguns deles com um breve comentário:</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li><em>Símbolos da transformação</em> <em>(OC 5)</em> – Jung faz uma ampliação das fantasias de Miss Miller. Ainda que não sejam exatamente <strong>sonhos</strong>, o método de ampliação aplicado é rigorosamente o mesmo utilizando na análise de sonhos;</li>



<li><em>A natureza da psique (OC 8/2) </em>– há um capítulo específico em que Jung expõe a natureza do <strong>sonho</strong>;</li>



<li><em>Psicologia e alquimia (OC 12) </em>–Jung examina simbolicamente e alquimicamente uma série de 56 <strong>sonhos</strong>;</li>



<li><em>Ab-reação, análise dos sonhos e transferência (OC 16/2) </em>– há um breve capítulo que Jung ensina como analisar e investigar os <strong>sonhos</strong>.</li>



<li><em>Sonhos na psicologia junguiana (Faria, Freitas e Gallbach, ORGs.)</em> –neste livro diversos autores do campo junguiano trazem suas experiências e contribuições na análise de <strong>sonhos</strong>.</li>



<li><em>Uma investigação sobre a imagem (James Hillman)</em> – ao mesmo tempo que não é um livro sobre <strong>sonhos</strong>, é um dos melhores livros que já li sobre <strong>sonhos</strong>, pois Hillman ensina como investigamos as imagens, logo, vale o mesmo para os <strong>sonhos</strong>.</li>



<li><em>Jung e a interpretação dos sonhos (James A. Hall)</em> – é um livro bastante objetivo que ajuda a sedimentar os pilares da análise dos <strong>sonhos</strong>.</li>



<li><em>Sonhos: um portal para a fonte (Edward C. Whitmont e Sylvia Brinton Perera) – </em>também uma leitura relevante para seus estudos.</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-breve-lista-de-livros-e-so-uma-sugestao-muito-sintetica-pois-ha-inumeras-producoes-junguianas-que-trabalham-os-sonhos" style="font-size:16px">Essa breve lista de livros é só uma sugestão muito sintética, pois há inúmeras produções junguianas que trabalham os <strong>sonhos</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Também sinto que poderia ter colocado muitas outras técnicas aqui neste artigo, mas isto o tornaria maior do que já ficou. De qualquer forma, o mais importante é se manter constantemente em capacitação. Espero que este breve artigo faça parte desta sua construção contínua de novos repertórios.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Sonhos na psicologia junguiana – uma proposta de investigação para terapeutas iniciantes" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/WDoL99hwKXk?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/rafaelrodrigues/">Rafael Rodrigues de Souza – Analista Didata em Formação.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Dr. Waldemar Magaldi Filho – Analista Didata responsável.</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Freud e a psicanálise <strong>(OC 4)</strong>. Ed. digital. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Símbolos da transformação <strong>(OC 5)</strong>. 9 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos <strong>(OC 6)</strong>. 7 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique <strong>(OC 8/2)</strong>. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Aion – estudo sobre o simbolismo do si-mesmo <strong>(OC 9/2)</strong>. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia <strong>(OC 12)</strong>. 6 ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James. Uma investigação sobre a imagem. Petrópolis: Vozes, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesso nosso site:<a href="https://www.ijep.com.br/"> IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/abordagem-de-sonhos/">Sonhos na psicologia junguiana – uma proposta de investigação para terapeutas iniciantes</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Importância do sonho no setting terapêutico – relato de um caso</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/importancia-do-sonho-no-setting-terapeutico-relato-de-um-caso/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[José Luiz Balestrini Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Nov 2021 13:20:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=4572</guid>

					<description><![CDATA[<p>Fazendo uma leitura psicológica do fenômeno conhecido como possessão, podemos afirmar que estamos falando, dentro da teoria junguiana, de complexos constelados. Segundo Jung a via régia para o inconscientes são exatamente os complexos, os quais podem se manifestar de diferentes maneiras, sendo uma delas nas imagens oníricas. No presente artigo exploramos como um sonho pode, através de suas imagens e de seu enredo, mostrar de maneira clara as afirmações acima, assim como suscitar reflexões conscientes que levem o indivíduo a uma melhor adaptação e harmonização da sua vida cotidiana.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-image is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://www.ijep.com.br/img/artigos/artigo_599.jpeg" alt="IMPORTÂNCIA DO SONHO NO SETTING TERAPÊUTICO – RELATO DE UM CASO Psicologia Junguiana" width="462" height="653"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas vezes Jung compara a constelação de complexos a um estado de possessão, como se forças demoníacas tomassem conta dos pensamentos, do corpo e das ações do indivíduo. Sabemos que não estamos falando literalmente de demônios &#8211; sem negar possibilidades metafísicas, mas não as considerando para uma explicação psicológica do fenômeno -, mas sim de personalidades fragmentárias, personagens psíquicas que habitam o inconsciente pessoal e que, quando carregadas de energia, irrompem na consciência determinando o comportamento da pessoa. Nas palavras do próprio Jung:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Toda constelação de complexos implica um estado perturbado da consciência. Rompe-se a unidade da consciência e se dificultam mais ou menos as intenções da vontade, quando não se tornam impossíveis. Daí se deduz que o complexo é um fato psíquico que, em termos de energia, possui um valor que supera, às vezes, o de nossas intenções conscientes; do contrário, tais rupturas da ordem consciente não seriam de todo possíveis. De fato, um complexo ativo nos coloca por algum tempo num estado de não liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas para os quais, sob certas circunstâncias, o conceito jurídico de imputabilidade limitada seria o único válido. (JUNG, 8/2, §200)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Nesse sentido, podemos dizer que&nbsp;a possessão&nbsp;é&nbsp;a irrupção na consciência de uma imagem reflexa de um afeto personificado, ou seja, um complexo. O ego enxerga esse personagem como se não fosse parte do indivíduo; tenta criar explicações para tal fenômeno, sendo uma delas aquilo que em diversas religiões foi chamado do possessão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para começarmos a falar sobre os sonhos e entender como os complexos estão relacionados ao assunto, lembremos rapidamente de Freud que afirmou que o sonho seria a via régia para o inconsciente. O pai da psicanálise não estava completamente errado, sua afirmação só não estava completa, faltando-lhe a percepção daquilo que Jung irá afirmar mais tarde quando diz que a verdadeira via régia para o inconsciente são os complexos. A visão mais ampla de Jung permite que compreendamos que os complexos se manifestam sim nos sonhos, mas podem aparecer também personificados em muitos outros tipos de narrativas, como por exemplo nas imaginações dirigida ou ativa; nas produções artísticas e nos sintomas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para essa pequena reflexão, trouxe o sonho de uma cliente, material que se apresentou de maneira muito pedagógica para ilustrar como a própria psique cria imagens que demonstram aquilo que Jung afirmou em sua teoria. Veremos no material onírico o complexo personificado como uma jovem possuída pelo demônio que luta para invadir o espaço consciente do indivíduo. Se trata do caso de uma mulher de quase cinquenta anos com cerca de dois anos de trabalho analítico comigo. A história completa não importa para a discussão desse evento particular, o mais importante aqui é um aspecto específico do relacionamento que essa mulher tinha com a mãe, a qual, mesmo durante a vida adulta da filha, vivendo fisicamente longe e afastada de sua vida cotidiana, continuava agindo como se ela fosse uma adolescente e repetindo frases do tipo “você só pensa em você”, “você só faz aquilo que quer”, “você não enxerga os outros”; coisas que costumava lhe dizer quando ela ainda estava se descobrindo como ser individual que poderia pensar e agir de maneira diferente dos próprios pais. O sonho foi assim:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu dirijo uma espécie de mini ônibus, uma van, o veículo está vazio. É noite, eu passo por uma rua pouco iluminada e paro no ponto onde os passageiros poderiam embarcar, embora só tenha uma pessoa. Lá em baixo, pelo vidro da porta do veículo, eu vejo a menina do filme&nbsp;<em>O exorcista;</em>&nbsp;ela está como no filme, com o rosto desfigurado e possuída pelo demônio. Ela quer entrar no ônibus e por alguns segundos eu fico em dúvida se devo ou não deixá-la subir. Por fim decido que é melhor não, saio com a van deixando ela no ponto. Não me arrependo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O fato mais interessante dessa história foi essa mulher contar esse sonho e fazer as associações somente após o material onírico ter sido útil em sua vida consciente, o que aconteceu antes mesmo da sessão de análise quando ela relatou o sonho. A situação foi a seguinte: numa discussão com sua mãe ao telefone, enquanto ela ouvia as costumeiras provocações que sempre a levavam a perder o controle e cair em discussões absurdas e descabidas, ela sentiu que isso estava prestes a acontecer novamente e que em muito breve perderia o controle, porém, dessa vez, teve o seguinte pensamento “não vou deixar esse demônio subir no meu ônibus”. Essa ideia surgiu enquanto a imagem da moça possuída que lhe visitara no sonho reaparecia de maneira clara em sua mente. Depois desse pensamento ela pôde simplesmente deixar sua mãe discutindo sozinha enquanto a ouvia pacientemente e aguardava que se acalmasse sem precisar entrar numa das brigas sem sentido que sempre acabavam acontecendo nessas situações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Após o acontecido, durante a sessão, relatou o sonho e fez as seguintes associações: o veículo de transporte público era o seu próprio comportamento, sua própria vida; ela deveria dirigir e decidir quem poderia ou não entrar. A figura da mulher possuída foi associada diretamente à sua adolescência, momento da vida em que discutia e brigava muito com a mãe, período também em que se interessou muito por filmes e histórias de terror e horror. Através da experiência ela já havia percebido a capacidade do sonho comunicar mensagens importantes para uma possível adaptação mais harmoniosa à maneira como ela lidava com aquela situação com sua mãe, que se arrastava fazia muitos anos. Ela percebeu ali que há&nbsp;muito tempo brigava com a projeção de&nbsp;um personagem que habitava a sua própria psique&nbsp;(seu complexo materno) e se deixava ser invadida por aquela adolescente possuída do sonho, a qual poderíamos dizer que caracteriza um complexo carregado de conteúdos sombrios. Porém, mais importante do que nomear qualquer função da psique, é perceber a dinâmica de funcionamento desse complexo. Nesse caso isso foi possível para ela através do encontro da mensagem enviada pelo inconsciente no sonho e da experiência que ela teve ao falar com a mãe no telefone.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Durante a sessão aproveitamos para fazer algumas poucas ampliações das imagens, mesmo que o recado principal do sonho estivesse dado e compreendido através da experiência que ela viveu; isso havia sido o mais importante naquele momento. Não parecia necessário insistir em ampliações no nível do objeto, isso porque sempre existe a possibilidade de sonhos do passado voltarem a nos visitar no futuro se essa for a necessidade da psique; quero dizer que se for preciso esse sonho irá retornar para o nosso espaço analítico. Em momentos diferentes o mesmo sonho pode aparecer trazendo um novo recado que faça sentido em outras situações de vida; também não podemos esquecer o fato de que o inconsciente é um sitema compensatório natural da consciência, é atemporal e aespacial, portanto, os sonhos falam de passado, presente e futuro se olharmos do ponto de vista da consciência. Insistir em interpretações no nível do objeto pode arruinar a análise do ponto de vista do sujeito quando as conexões entre a vida consciente do indivíduo e o material do inconsciente estão tão claramente expostas, como foi no caso em questão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Podemos aproveitar o sonho e as associações da sonhadora para exemplificar as três principais funções atribuídas ao sonho por Jung, sendo elas a compensação, a pedagogia e a premonição. Sobre a primeira, Jung diz:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quanto mais unilateral for a sua atitude consciente e quanto mais ela se afastar das possibilidades vitais ótimas, tanto maior será também a possibilidade de que apareçam sonhos vivos de conteúdos fortemente contrastantes como expressão da autoregulação psicológica do indivíduo. (JUNG, OC 8/2, §487)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Do ponto de vista compensatório, o sonho diz claramente que minha cliente deveria decidir melhor aqueles que podem ou não influenciar sua vida consciente, no mundo exterior e na sua própria psique pessoal. Se deixasse o demônio entrar no veículo novamente, continuaria na mesma dinâmica de repetição de comportamento que a levava a discutir com a mãe, vivendo momentos de estresse e gastando energia a toa em brigas pífias. A ampliação durante a sessão a levou a pensar em como esse demônio poderia estar agindo em outros aspectos de sua vida, parecia portanto que ele tomava conta do veículo em outras situações onde ela precisaria manter a direção sobre controle. Não podemos confundir aqui a ideia de &#8220;manter o controle&#8221; com apenas seguir em linha reta; o ego estruturante quando dirige o carro precisa exercer sua habilidade e capacidade de decisão e flexibilidade para fazer as curvas necessárias para não sair da pista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A característica pedagógica do sonho cria para o ego uma possibilidade de reflexão sobre suas intenções existenciais negando, confirmando ou modificando a direção atual da consciência.&nbsp;Para ajudar nesse aspecto, vamos ver o que Marie Louise Von Franz tem a dizer a respeito dessa função:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eles (os sonhos) possuem inteligência superior, uma sabedoria e uma perspicácia que nos orientam. Eles nos mostram em que aspecto estamos enganados e nos alertam a respeito de perigo; predizem eventos futuros; aludem ao sentido mais profundo da nossa vida e nos propiciam insights reveladores. (VON FRANZ, 1996, p. 11) (parênteses meus)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A função pedagógica da aventura vivida neste sonho pode ser enxergada exatamente na atitude do ego onírico. Por um momento ela hesita, se pergunta se deve deixar aquele demônio entrar ou não no veículo, porém, decide que o melhor é não fazê-lo. O sonho a ensina que nesta situação específica, nesse momento de sua vida, o melhor é deixar esse demônio para trás e continuar seguindo em seu caminho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O sonho&nbsp;é&nbsp;uma antecipação inconsciente da realização consciente futura, mas como um plano rascunhado antecipadamente e não como uma profecia infalível. Nesse sentido, sua função premonitória esboça a solução para um conflito, uma espécie de plano que o ego poderá ou não seguir de acordo com sua capacidade de integrar as mensagens enviadas pelo inconsciente. De acordo com Jung:</p>



<p class="wp-block-paragraph">A função prospectiva é uma antecipação, surgida no inconsciente, de futuras atividades conscientes, uma espécie de exercício preparatório ou um esboço preliminar, um plano traçado antecipadamente. Seria injusto classificá-los de proféticos, pois, no fundo não são mais proféticos do que um prognóstico médico ou meteorológico.” (JUNG, OC 8/2, §493)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, não podemos deixar de notar a função premonitória do sonho que, sonhado anteriormente à conversa por telefone com a mãe, anuncia o momento com certa antecedência. Poderia-se argumentar que sendo essa uma situação vivida de maneira repetida pela sonhadora, o sonho não estaria na verdade trazendo nenhuma novidade. Porém, se for necessário procurar por algo novo nesse enredo, encontramos isso no fato de que no sonho ela continua seu caminho, ao invés de permitir que o demônio entre no veículo. Esse fato levanta uma questão diretamente conectada ao paradoxo da função premonitória do sonho: caso ela não tivesse sonhado com o demônio, teria entrado na discussão com a mãe? A atitude madura de perceber que ela continuava lutando contra seus fantasmas internos projetados na pessoa da mãe teria surgido naturalmente sem a ajuda do sonho? Nesse caso o sonho estaria apenas anunciando aquilo que já vinha se estabelecendo em sua psique. Ou será que o sonho realmente trouxe um ensinamento fundamental para a sua mudança de atitude?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; É&nbsp;claro que a imagem desse sonho poderia ser ampliada das mais diferentes maneiras, ganhando ainda mais volume se procurássemos motivos mitológicos em seu enredo, porém, não é essa a intenção desse pequeno artigo. Meu objetivo era apenas exemplificar como o sonho se conecta claramente com a vida consciente e, mesmo sem aprofundamentos teóricos e, principalmente sem interpretações fechadas e reduzidas, pode ajudar o indivíduo a encontrar um caminho de harmonização em sua vida. Atualmente o homem contemporâneo encontra chaves interpretativas com muita facilidade na internet e em dicionários de imagens e símbolos; acredito que o nosso papel como terapeutas, estudiosos e promotores do pensamento junguiano seja o de ensinar o indivíduo que ele não precisa dessas ferramentas, com as quais irá encontrar apenas alívio imediato, porém falso, para as suas angustias existenciais e para o entendimento das mensagens enviadas pelo inconsciente através dos sonhos ou até mesmo de outras maneiras. As respostas para a decodificação das mensagens simbólicas estão escondidas em nossa capacidade de viver o paradoxo e a dúvida que elas trazem, em permitir que elas nos invadam quando for necessário e, através desse contato com as imagens, sejam elas oníricas ou de outra ordem, viver as metáforas que elas propõem e tomar decisões egóicas que levem à realização da totalidade da psique: a consciência e o inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nota: A cliente permitiu que o sonho e os detalhes aqui apresentados fossem utilizados para a divulgação teórica, científica e pedagógica proposta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">José Balestrini &#8211; Membro Analista do IJEP; Analista Didata em Formação do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Didata Responsável &#8211; Waldemar Magaldi</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem: Francisco de Borja conduz um exorcismo; autor: Fracisco de Goya. Por volta de 1788. Domínio Público.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. 10ª Ed. Petrópolis: Vozes, OC 8/2.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie-Louise. O caminho dos sonhos. São Paulo: Cultrix, 1996&nbsp;</p>



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<iframe title="IMPORTÂNCIA DO SONHO NO SETTING TERAPÊUTICO – RELATO DE UM CASO" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/aJ24xOy7Hdg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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<h4 class="wp-block-heading" id="h-jose-belestrini-30-11-2021"><strong><em>José Belestrini &#8211; 30/11/2021</em></strong></h4>
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		<title>Sonhos: reais ou imaginários?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sonhos-reais-ou-imaginarios/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 May 2021 19:18:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[o que significam os sonhos]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sonhos]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Os&nbsp;sonhos&nbsp;são processos psíquicos estudados por diferentes áreas e principalmente pela psicologia. O ciclo do sono e dos sonhos é interligado. Todos nós sonhamos, porém muitas vezes não conseguimos lembrar do seu conteúdo. De um modo geral, também relacionamos o sonho&nbsp;com a imaginação, o devaneio, o encantamento, a ficção, a utopia e, para muitos sonhar é render-se à ilusão por querer muito alguma coisa. Diante dessas possibilidades, surgem questionamentos se os sonhos são reais ou imaginários.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A vida onírica de Carl Gustav Jung era intensa. Desde cedo, seus sonhos o tocavam muito. Da mesma forma, ampliava os sonhos de seus clientes, que faziam muito sentido para compreensão do psiquismo humano. Em toda obra de Jung, não existe um único livro sobre sonhos, no entanto ele evidencia os sonhos no decorrer da sua teoria. Vale lembrar que pelos sonhos ele se aproximou de Freud e depois foi um dos motivos que gerou desencontro e ruptura com ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Segundo Jung, os sonhos podem ser uma reação inconsciente frente a uma&nbsp;situação consciente, que pode surgir a partir de um&nbsp;conflito, contribuindo para modificar uma atitude: “Os sonhos, afirmo eu, comportam-se como compensações da situação da consciência em determinado momento” (O/C 8/2, 2013, §487).&nbsp;Também pode ser algo que em princípio não tenha&nbsp;uma relação&nbsp;com a situação consciente, porém com o trabalho de ampliação poderá fazer sentido. O sonho tem diferentes funções e as principais são: compensatória, pedagógica e premonitória. Tanto os sonhos que acontecem no período do sono, quanto aqueles que nos atravessam em vigília, também chamados de devaneios ou fantasias, apontam para nossos desejos mais íntimos e, por isso mesmo, precisamos levá-los a sério.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; É importante lembrar que Jung viu o sonho como qualquer outro conteúdo psíquico e fez severas críticas à sua interpretação causal: “Quando se trata de explicar um fato psicológico, é preciso não esquecer que todo fenômeno psicológico deve ser abordado sob um duplo ponto de vista, ou seja, do ponto de vista da causalidade e do ponto de vista da finalidade” (O/C 8/2, 2013, §456). &nbsp;De modo idêntico, ele nos orienta para serem levadas em consideração as recordações do sonhador, pela evidente relação associativa com o conteúdo do sonho: “Para explicar psicologicamente os sonhos, devemos, portanto, primeiramente investigar as experiências precedentes, de que se compõem. Assim, no que diz respeito a cada uma das partes da imagem onírica, devemos remontar até seus antecedentes (O/C 8/2, 2013, §451). É uma forma de entendermos o simbolismo do inconsciente pessoal e coletivo, em forma de arquétipos, por meio dos contos de fadas, da religião, dos mitos, da arte e de todas as manifestações culturais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A mitologia grega contribui no entendimento dos sonhos. Hipnos é considerado o deus do sono, que vivia sempre em paz e silêncio. Ele e sua esposa tiveram quatro filhos: Morfeu, deus dos sonhos bons ou abstratos, Ícelo, deus dos pesadelos, Fântaso, criador dos objetos inanimados, monstros, quimeras e devaneios e Fantasia, deusa do delírio e da fantasia. O mais conhecido é&nbsp;Morfeu, um deus alado, que tem a habilidade de assumir qualquer forma humana e aparecer nos sonhos das pessoas.&nbsp; A frase “vá para os braços de Morfeu”, sugere ter um sono tranquilo, com bons sonhos. Ao mesmo tempo, a história registra que o pai Hipnos e o filho Morfeu, simbolizam avanços para o campo da saúde. Vindo ao encontro, em 1806, o farmacêutico alemão Friedrich Sertüner desenvolveu a alcaloide de ópio, conhecida por morfina, inspirado em Morfeu. Mais tarde, o médico James Braid, em 1843, batizou como hypnotism (hipnotismo) sua técnica de indução de um transe semelhante ao sono.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A nossa cultura reproduz no seu contexto conhecimentos em forma de ditos populares ou provérbios, acerca do ato de sonhar, retratando diferentes realidades. Algumas pessoas são otimistas e afirmam que precisamos “sonhar acordados” ou “sonhar de olhos abertos” para mantermos acesa a chama da esperança diante das dificuldades, até porque “sonhar não custa nada”. Outras, são mais ponderadas, afirmando que “visão sem ação é&nbsp;sonho” e “uma ideia não executada, transforma-se em&nbsp;sonho”. Há aquelas que alertam sobre as melancolias da vida: “homem só envelhece quando os lamentos substituem seus&nbsp;sonhos”. De forma idêntica, algumas pessoas ironizam situações, talvez com a intenção de tornar a vida mais leve: “o ladrão tem trabalho leve e&nbsp;sonhos&nbsp;ruins” e “o amor é um&nbsp;sonho, e o casamento um despertador”. Isso nos leva a pensar no contexto atual: roubos e sonhos desfeitos estão tão naturalizados!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os poetas, por sua vez, afirmam em seus versos que “vivemos enquanto tivermos sonhos”. Isso se confirma com Clarice Lispector, que não tinha medida para dizer o que pensava: “Sonhe com o que você quiser. Vá para onde você queira ir. Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos”. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. Enquanto isso, Fernando Pessoa nos convida para refletirmos com seus diferentes olhares: “Dorme, dorme. Dorme, vaga em teu sorrir. Sonho-te tão atento que o sonho é encantamento e eu sonho sem sentir”. Segundo o poeta, sonhar é uma forma de nos tornarmos mais leves: “De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos”. Ele também nos incentiva para sonharmos: “Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso”. E Carlos Drummond de Andrade nos deixou falas que exaltam o sonhar e amar: “Que nunca te arrependas pelo amor dado, faz parte da vida arriscar-se por um sonho&#8230; Porque se não fosse assim, nunca teríamos sonhado”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os sonhos nos acompanham há muito tempo. Independente de credo, eles também envolvem o campo da espiritualidade. Na Bíblia, por exemplo, os sonhos comparecem com o sentido de Deus se manifestar e conversar com seu povo. Existem relatos que naquela época várias pessoas tiveram sonhos de Deus, com planos para o futuro, como podemos constatar em Mateus 1:20-21, ao aparecer em sonho para José um anjo do Senhor, que disse: &#8220;José, filho de Davi, não tema receber Maria como sua esposa, pois o que nela foi gerado procede do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e você deverá dar-lhe o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados.&#8221;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Algumas vozes divinas, como a de Maria Bethânia, cantam o que denominamos de sonhar: “Sonho meu, sonho meu, vá buscar quem mora longe, sonho meu. Vá mostrar essa saudade, sonho meu, com a sua liberdade, sonho meu (&#8230;) Sinto o canto da noite na boca do vento, fazer a dança das flores no meu pensamento”. Em Sonho Impossível, ela nos fala de persistência: “Sonhar mais um sonho impossível, lutar quando é fácil ceder. Vencer o inimigo invencível, negar quando a regra é vender. Sofrer a tortura implacável, romper a incabível prisão (&#8230;) E assim, seja lá como for, vai ter fim a infinita aflição. E o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão”. Sonhar nos faz dançar, flutuar e imaginar&#8230; Agora Eu Vou Sonhar, com Titãs, convida-nos a mergulhar no sonho: “Agora eu vou sonhar, eu vou sonhar mais alto. E cada sonho meu, há de tornar mais leve o salto. Agora eu vou sonhar, eu vou sonhar mais livre. E vou pedir a Deus que o sonho não me escravize (&#8230;) Agora eu vou sonhar, eu vou sonhar maior. E cada sonho meu, há de criar-se ao meu redor.” Raul Seixas, em Prelúdio, convoca-nos para sonharmos juntos: “Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade”. O que será que ele, com seu espírito de profundeza, estava sonhando de olhos abertos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;As teorias e as experiências de consultório nos mostram o quanto é importante prestarmos atenção nos sonhos, tanto os sonhados ao dormirmos, quanto os sonhados acordados. Ampliar esses sonhos que ocorrem durante o sono não é tarefa fácil, pois envolve trazer o inconsciente à luz da consciência, pela associação, ampliação e contextualização, que nos possibilita ressignificar velhos padrões. Sonhar de olhos abertos faz parte da vida, mas não podemos perder o foco no tempo presente. Viver de forma harmoniosa o presente é o que temos de mais precioso. Gonzaguinha, deixa-nos a lição, com a canção Nunca Pare de Sonhar: “Não se desespere, nem pare de sonhar. Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs, deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar. Fé na vida, fé no homem, fé no que virá. Nós podemos tudo, nós podemos mais, vamos lá fazer o que será”!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Claci Maria Strieder, Analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem:&nbsp;Morfeu e&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Dris_(mitologia)">Íris</a>&nbsp;&#8211;&nbsp;Por&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre-Narcisse_Gu%C3%A9rin">Pierre-Narcisse Guérin</a>, 1811.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leituras de apoio:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ANDRADE, Carlos Drummond.&nbsp;<em>Amar se aprende amando</em>. São Paulo:&nbsp;<a href="https://www.companhiadasletras.com.br/">Companhia das Letras</a>, 2018.GRIMAL, Pierre. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.&nbsp; &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>JUNG, C. G. &nbsp;</em><em>A Natureza da Psique</em>. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>___________ Seminário sobre Sonhos de Criança</em>. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PESSOA, Fernando<em>. Livro do desassossego</em>. São Paulo: Brasiliense, 1989.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">https://www.letras.mus.br&nbsp;› MPB › Gonzaguinha&nbsp;https://www.pensador.com › sonho_poema_de_clarice_lispector</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Claci Maria Strieder&nbsp;</em></strong></h4>
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