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	<title>Arquivos AA - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos AA - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Spiritus contra spiritum: uma possível compreensão para a questão do alcoolismo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/spiritus-contra-spiritum-uma-possivel-compreensao-para-a-questao-do-alcoolismo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[André Orioli]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Jan 2025 14:37:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dependência Química]]></category>
		<category><![CDATA[AA]]></category>
		<category><![CDATA[Alcoolismo]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[self]]></category>
		<category><![CDATA[sobriedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“A receita então é spiritus contra spiritum”, escrevia Jung, em uma carta a Bill, cofundador do AA, para dar contornos mais bem definidos à questão do alcoolismo. “A história de AA e seu entrelaçamento com Jung”, artigo publicado neste mesmo site, é uma espécie de preambulo a este trabalho. Desta vez, iremos mergulhar na espiritualidade, [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“A receita então é spiritus contra spiritum”, escrevia Jung, em uma carta a Bill, cofundador do AA, para dar contornos mais bem definidos à questão do alcoolismo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>“<a href="https://blog.sudamar.com.br/a-historia-de-aa-e-seu-entrelacamento-com-jung/">A história de AA e seu entrelaçamento com Jung</a>”, artigo publicado neste mesmo site, é uma espécie de preambulo a este trabalho. Desta vez, iremos mergulhar na espiritualidade, em uma investigação de como ela se relaciona com a questão do alcoolismo. Que boas reflexões possam surgir a partir deste texto.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-criacao-do-aa-remonta-a-historia-da-recuperacao-de-um-amigo-alcoolico-de-bill-rowland-hazard-que-havia-se-tratado-com-jung-sem-sucesso-para-a-questao-do-alcoolismo" style="font-size:18px">A criação do AA remonta à história da recuperação de um amigo alcoólico de Bill, Rowland Hazard, que havia se tratado com Jung, sem sucesso, para a questão do alcoolismo. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Resumidamente, ao final de quase um ano de tratamento, Rowland alcançaria a <strong>sobriedade</strong> alcoólica, que seria rapidamente perdida em sua volta aos EUA. Acreditando que Jung seria sua “tábua de salvação”, regressaria a Suíça sendo surpreendido pelas duras e honestas palavras de seu analista, que lhe afirmaria não ver “esperanças para ele em novos tratamentos, fossem eles médicos ou psiquiátricos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao ser indagado se haveria ou não alguma esperança para seu caso, Jung responderia “<em>que poderia haver sim e que esta seria a de tornar-se o sujeito de uma genuína experiência espiritual ou religiosa – em resumo, de uma autêntica conversão</em>”, recomendando, em seguida, “<em>que se colocasse em uma atmosfera religiosa e que esperasse</em>.” (Carta a Jung, ANEXO C).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esta-passagem-nos-da-uma-ideia-do-que-jung-pensava-a-respeito-do-alcoolismo-em-sua-essencia-sendo-este-o-tema-central-de-nossa-investigacao" style="font-size:18px">Esta passagem nos dá uma ideia do que Jung pensava a respeito do alcoolismo, em sua essência, sendo este o tema central de nossa investigação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para isso, tomaremos como base sua carta em resposta a Bill<a id="_ftnref1" href="#_ftn1"><sup>[1]</sup></a> (ANEXOS A e B), que lhe escrevera, em agradecimento, relatando como ele havia sido importante no processo do nascimento e desenvolvimento do AA.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sua carta pode ser sintetizada em alguns poucos pontos, como quando Jung inicia dizendo, em relação ao alcoolismo de Rowland, que, “o que eu realmente concluí sobre o seu caso foi o resultado das minhas inúmeras experiências com casos semelhantes ao dele”, indicando, assim, uma abordagem científica da questão em debate. Em seguida explica, ainda a respeito de Rowland, que “seu desejo por álcool equivalia, em um nível inferior, à sede espiritual de nosso ser pela totalidade, expressa em linguagem medieval: a união com Deus.”<a href="#_ftn2" id="_ftnref2"><sup>[2]</sup></a> E segue, complementando que “o único caminho correto e legítimo para tal experiência é que ela aconteça para você na realidade e ela só pode acontecer se você procurar um caminho que o leve a uma compreensão mais alta”, indicando que o indivíduo “poderá ser conduzido a esta meta pela ação da graça, pela convivência pessoal e honesta com os amigos ou através de uma educação superior da mente, para além dos limites do mero racionalismo.” Jung segue com franqueza, renunciando aos tão costumeiros cuidados com a crítica racionalista, declarando:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><strong>“Estou fortemente convencido de que o princípio do mal que prevalece neste mundo leva a necessidade espiritual não reconhecida à perdição, se não for neutralizada por uma visão religiosa real ou pela barreira protetora da comunidade humana. Um homem comum desligado dos planos superiores, isolado de sua comunidade, não pode resistir aos poderes do mal, muito propriamente chamados de Diabo. Mas o uso de tais palavras suscita tantos enganos que só podemos manter-nos afastados deles tanto quanto possível.” </strong></p><cite><strong>(Carta a Bill, ANEXO B)</strong></cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Jung encerra a correspondência dando contornos bem definidos à questão:</strong> <strong>“veja você, <em>álcohol</em> em latim significa “espírito”, e você, no entanto, usa a mesma palavra tanto para designar a mais alta experiência religiosa como para designar o mais depravador dos venenos. A receita então é <em>spiritus</em> contra <em>spiritum</em>.”</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-poucas-e-profundas-palavras-somos-apresentados-a-uma-compreensao-acerca-do-alcoolismo" style="font-size:18px">Em poucas e profundas palavras somos apresentados a uma compreensão acerca do alcoolismo. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse sentido, vale observar que os aspectos fisiológicos da adicção por álcool também são considerados por Jung, em alguma medida, pelo entendimento de que <strong>“a alma humana vive unida ao corpo, numa unidade indissolúvel, por isto só artificialmente é que se pode separar a psicologia dos pressupostos básicos da biologia” (JUNG, 2014c, p.71),</strong> ressaltando ainda que <strong>“a alma é o ponto de partida de todas as experiências humanas, e todos os conhecimentos que adquirimos acabam por levar a ela. A alma é o começo e o fim de qualquer conhecimento.”</strong> (JUNG, 2014c, p.71). Como diz Jung:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-importante-para-a-meta-da-individuacao-isto-e-da-realizacao-do-si-mesmo-que-o-individuo-aprenda-a-distinguir-entre-o-que-parece-ser-para-si-mesmo-e-o-que-e-para-os-outros" style="font-size:18px">É importante para a meta da individuação, isto é, da realização do si-mesmo, que o indivíduo aprenda a distinguir entre o que parece ser para si mesmo e o que é para os outros.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É igualmente necessário que conscientize seu invisível sistema de relações com o inconsciente, ou seja, com anima, a fim de poder diferenciar-se dela. No entanto, é impossível que alguém se diferencie de algo que não conheça. (JUNG, 2014a, p.87).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Conhecer a alma compreende reconhecer que ela “possui uma função religiosa natural” e que <strong>“a tarefa mais nobre de toda a educação (do adulto) é a de transpor para a consciência o arquétipo da imagem de Deus”</strong>, pois a alma é “<em>naturaliter</em> religiosa, isto é, dotada de uma função religiosa.” (JUNG, 2011, p.25).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Nesse sentido, Jung (2014c, p.315) aponta para a existência de complexos inconscientes, que normalmente estão ligados ao ego, e de complexos que não deveriam estar ligados ao ego. </strong></p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><strong>“Os primeiros são os complexos das almas, e os segundos os complexos dos espíritos.” ou seja, “enquanto os conteúdos do inconsciente pessoal são sentidos como fazendo parte da própria alma do indivíduo, os conteúdos do inconsciente coletivo parecem estranhos e como que vindos de fora.”</strong></p><cite><strong>(JUNG, 2014c, p.318)</strong></cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O espírito não é um objeto de fácil delimitação conceitual, mas os múltiplos aspectos provenientes da quantidade de sentidos e nuances de significados atribuídos à sua palavra fornecem um quadro concreto desse fenômeno. Assim, Jung (2016, p.301)<a id="_ftnref3" href="#_ftn3"><sup>[3]</sup></a> define-o como “<strong>um complexo funcional, que originariamente era sentido, em nível primitivo, como uma presença invisível, a modo de um sopro</strong>.”</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“A manifestação psíquica do espírito indica simplesmente que é de natureza arquetípica, isto é, o fenômeno que denominamos espírito depende da existência de uma imagem primordial autônoma, universalmente dada de modo pré-consciente na disposição da psique humana.” </p><cite>(JUNG, 2016, p.307)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este fenômeno, quando considerado em seu sentido religioso, é representado por um “espírito superior” que “tornou-se o princípio cósmico ordenador sobrenatural e supramundano e, como tal, foi designado por “Deus”” (JUNG, 2016, p.302). <strong>Enquanto complexo funcional, o espírito se apresenta como um fenômeno psíquico imediato, sem ligação direta com os eventos materiais, diferentemente da alma. </strong>Nesse sentido, ao fenômeno espiritual é atribuído uma imaterialidade maior que ao fenômeno anímico, pois, “devido à íntima conexão de certos processos psíquicos com fenômenos físicos paralelos não é possível aceitar uma total imaterialidade do anímico.” (JUNG, 2016, p.303).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“Assim como é preciso recordar os deuses da Antiguidade Clássica para poder apreciar devidamente o valor psicológico do tipo anima-animus, do mesmo modo Cristo<a id="_ftnref4" href="#_ftn4">[4]</a> é para nós a analogia mais próxima do si-mesmo e de seu significado.”</p><cite> (JUNG, 1982, p.67)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-espirito-age-a-modo-instintivo-jung-2014b-no-mais-profundo-do-ser-por-uma-ordem-dinamica-de-maneira-que" style="font-size:18px">O espírito age a modo instintivo (JUNG, 2014b), no mais profundo do ser, por uma ordem dinâmica, de maneira que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“Esta última circunstância nos recorda a primeira e importante frase do Fundamentum (fundamento) de Inácio de Loyola: “Homo creatus est [ad hunc finem], ut laudet Deum Dominum nostrum, ei reverentiam exhibeat, eique serviat et per haec salvet animam suam”.”<br><br>“[&#8230;] A consciência foi produzida com a finalidade de reconhecer (laudet) que sua existência provém de uma unidade superior (Deum); de considerar atentamente esta fonte (reverentiam), cujas determinações ela deve executar de modo inteligente e responsável (serviat), proporcionando deste modo um grau ótimo de vida e de possibilidade de desenvolvimento à psique em sua totalidade (salvet animam suam).” </p><cite>(JUNG, 1982, p.264, 265)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-preciso-no-entanto-ter-claro-que-o-si-mesmo-enquanto-arquetipo-da-totalidade-pelo-principio-dos-opostos-complementares-jung-2013a-compreende-tanto-o-bem-quanto-o-mal" style="font-size:18px"><strong>É preciso, no entanto, ter claro que o si-mesmo, enquanto arquétipo da totalidade, pelo princípio dos opostos complementares (JUNG, 2013a), compreende tanto o bem quanto o mal.</strong> </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em crítica à doutrina de um Deus <em>Summum Bonum</em> (Sumo Bom), Jung esclarece que Cristo “corresponde apenas a uma das metades do arquétipo em consideração. A outra metade se manifesta no Anticristo. Este último ilustra igualmente o si-mesmo, mas é constituído pelo seu aspecto tenebroso.” (JUNG, 1982, p.67). Nesse sentido, <strong>Jung (1982, p.76) alerta que “hoje, como em todas as épocas, é necessário que o homem não feche os olhos para o perigo do mal que está à espreita dentro dele mesmo”, mal que em sua carta a Bill, sem meias palavras, referenciou como sendo o Diabo.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>É nessa perspectiva que, quando Jung nos fala da tarefa da educação do adulto, de transpor para a consciência o arquétipo da imagem de Deus, está se referindo à espiritual(idade): o processo de apreensão do instintivo pela via espiritual, que é a conquista da consciência de si.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A espiritualidade é simples mas não é fácil, pois refere-se à aceitação e à submissão a uma presença invisível, percebida, quiçá, “a modo de um sopro”. Aceitação e submissão que, em realidade, não são objetos de escolha para o ego. Essa ilusão de escolha é muito confundida, na compreensão comum, com o conceito do livre arbítrio que é, naturalmente, limitado ao campo da consciência (JUNG, 1982). Trata-se, portanto, de um sentimento subjetivo de liberdade, cujos limites se encontram no mundo subjetivo interior que entra em conflito com os fatos do si-mesmo. Nesse sentido, é possível que muitos dos tropeços evolutivos do ser humano, incluindo o alcoolismo, possam ser atribuídos a uma interpretação inadequada desse conceito.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-tratado-alquimico-aurora-consurgens-o-surgir-da-aurora-existe-a-casa-do-tesouro-que-a-sabedoria-construiu-sobre-pedra-jung-1997-p-260-trazendo-orientacoes-em-principio-superiores-a-consciencia" style="font-size:18px">No Tratado alquímico <strong>Aurora <em>consurgens</em></strong>, “O surgir da aurora”, existe a “casa do tesouro que a sabedoria construiu sobre pedra” (JUNG, 1997, p.260), trazendo orientações, em princípio Superiores, à consciência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nessa casa existem 14 pedras angulares em que a 13<sup>a</sup> é a pedra da “inteligência espiritual”, <em>spiritualis intellectus</em>, que “é a compreensão “sutil”, tal como exigem frequentemente os textos alquímicos, a fim de que o adepto não seja arrastado à sua perda, tomando os textos simbólicos num sentido concretista”. A 14<sup>a</sup> é “a última pedra, a obediência”, que “significa uma submissão à vontade de Deus – psicologicamente, uma renúncia à atitude do ser eu e uma subordinação ao si-mesmo.” (JUNG, 1997, p.281).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Compreendendo que “sem a vivência dos opostos não há experiência da totalidade e, portanto, também não há acesso interior às formas sagradas” (JUNG, 2011, p.33), o livre arbítrio apresenta-se como a concessão Superior ao direito de integralidade do ser, que se traduz, em última instância, na liberdade de escolher a quem iremos obedecer, e não se iremos obedecer, pois o espiritual não é a interrogação, tampouco o si-mesmo, a questão é: “Deus” e o “Diabo”.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Certamente uma pergunta que se fará a este respeito é se não haveria indivíduos para os quais o próprio livre-arbítrio constituiria o supremo princípio do agir, de modo que todas as suas atitudes seriam intencionalmente escolhidas por eles próprios. Não acredito que alguém haja atingido ou venha atingir esta semelhança com Deus, mas sei que há muitos que almejam este ideal, porque estão dominados pela ideia heroica da liberdade absoluta. <strong>De um modo ou de outro, todos os homens são dependentes; todos são determináveis de alguma forma, pois não são deuses.</strong> (JUNG, 2014c, p.348, grifo nosso).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A liberdade de escolher a “quem” seguir, para o alcoólico na ativa, já não existe, sendo essa, portanto, a própria definição da adicção alcoólica, uma vez que o espírito do álcool &#8211; percebido como o espírito do Diabo &#8211; “tomou” o indivíduo. É importante ressaltar que cada pessoa é única, assim como sua história, no sentido mais amplo possível. No entanto, em termos gerais, para o alcoólico, podemos compreender que o processo de guiança do si-mesmo, enquanto arquétipo da ordem dinâmica, em algum momento ganhou contornos atípicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sanford-1988-p-146-a-respeito-da-lenda-de-lucifer-traz-que-o-amago-do-arquetipo-do-mal-e-a-busca-do-poder-pois-o-pecado-de-lucifer-foi-tentar-tomar-o-lugar-de-deus-no-trono-do-ceu" style="font-size:18px"><strong>Sanford (1988, p.146), a respeito da lenda de Lúcifer, traz que o âmago do arquétipo do mal é a busca do poder, pois “o pecado de Lúcifer foi tentar tomar o lugar de Deus no trono do céu.”</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A nível psicológico, esse poder destrutivo pode ser visto como uma qualidade arquetípica do ego humano que quer se impor ao si-mesmo. Trata-se da tendência obscura formada em nossa estrutura de ego para tentar estabelecer a dominação deste sobre toda a psique, ao invés de permitir que o centro divino da psique dite as leis. (SANFORD, 1988, p.146).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-atraves-da-perspectiva-de-sanford-podemos-estabelecer-uma-correlacao-entre-o-alcoolismo-e-o-mal-entre-o-individuo-alcoolico-e-o-diabo-por-meio-da-vontade-de-poder" style="font-size:18px">Através da perspectiva de Sanford, podemos estabelecer uma correlação entre o alcoolismo e o mal, entre o indivíduo alcoólico e o Diabo, por meio da vontade de poder.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa vontade está presente desde o nível do complexo do ego, ou seja, da consciência, até a esfera mais profunda da realidade arquetípica “funcional”, ou seja, a nível espiritual. Com isso, por inferência, também encontraríamos a vontade de poder a nível anímico, em uma eventual investigação das etapas do processo psíquico da adicção alcoólica, pois, certamente, muitos enfrentamentos na esfera da sombra precederam o momento derradeiro de dominação da alma pelo espírito maligno. Como Von Franz (PEACEFULNESS, 1983) afirma: “se você tivesse seu quarto e houvesse uma porta não fechada, lá o Diabo pode entrar. E se você conhece sua sombra pessoal, pode fechar todas as portas.”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O estado neurótico conduzido pela vontade de poder, que Adler (apud JUNG, 2014a, p.28) denominou de “semelhança a Deus”, “consiste em atribuir a si mesmo qualidades ou valores que evidentemente não lhe pertencem, pois ser semelhante a Deus é ser semelhante a um espírito superior ao espírito humano.” (JUNG, 2014a, p.143). O termo adleriano trata de semelhança, o que novamente nos remete à questão da interpretação do conceito de livre arbítrio, pois ambas as questões orbitam em torno desse núcleo comum, de coisas similares.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A semelhança a Deus, que surge em função de uma consciência obnubilada, atua como um artifício da própria malignidade, pois, pelo entendimento de que a coisa mais parecida com a realidade é a ilusão, esse estratagema se presta perfeitamente a desviar os desígnios Superiores.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Dessa maneira, podemos analisar os estágios preliminares do processo da adicção alcoólica no indivíduo, por sua postura “obstinada” em seu estado de semelhança a Deus, seu estado de inflação, como reflexo dessa condição ilusória. Tamanha “semelhança” com a realidade tende a convertê-lo em um ser sem dúvida, convicto, o que, por si só, já denuncia sua propensão à rigidez e, portanto, a uma patológica suscetibilidade neurótica. É como Mefistófeles escreveu no álbum do estudante, em Fausto de Goethe (apud JUNG, 2014a, p.142): “<em>Eritis sicut Deus, scientes bonum et malum</em>”, você será como Deus, conhecendo o bem e o mal.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-afirma-que-onde-impera-o-amor-nao-existe-vontade-de-poder-e-onde-o-poder-tem-precedencia-ai-falta-o-amor-um-e-a-sombra-do-outro-jung-2013a-p-65" style="font-size:18px">Jung afirma que “onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro.” (JUNG, 2013a, p.65).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Visto do ponto de vista unilateral da atitude consciente, a sombra é uma parte inferior da personalidade. Por isso, é reprimida, devido a uma intensa resistência. Mas o que é reprimido tem que se tornar consciente para que se produza a tensão entre os contrários, sem o que a continuação do movimento é impossível. A consciência está em cima, digamos assim, e a sombra embaixo, e como o que está em cima sempre tende para baixo, e o quente para o frio, assim todo consciente procura, talvez sem perceber, o seu oposto inconsciente, sem o qual está condenado à estagnação, à obstrução ou à petrificação. É no oposto que se acende a chama da vida. (JUNG, 2013a, p.65).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><strong>O drama do indivíduo alcoólico, do alcoolismo, é, como define Pedraza (2002, p.88), a tragédia de uma pessoa que busca a própria destruição. “O espírito penetra de tal modo o ser humano que este corre o maior perigo de acreditar-se seu criador e possuidor. [&#8230;] quando na verdade aprisiona sua liberdade em mil laços, tornando-se uma ideia obsessiva.” </strong></p><cite><strong>(JUNG, 2016, p.305)</strong></cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A vida entregue ao espírito sombrio do Diabo é como que a formalização de um estado há muito cultivado pelo indivíduo; a ideia de liberdade absoluta, representada na vontade de poder, encontra no espírito das trevas sua validação e acolhimento. É como diz Efésios 2:1-2: &#8220;vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados, nos quais costumavam viver, quando seguiam a presente ordem deste mundo e o príncipe do poder do ar, o espírito que agora está atuando nos que vivem na desobediência.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-vez-guiado-pelo-espirito-do-mal-o-movimento-entre-opostos-que-alimenta-a-chama-da-vida-tende-a-estagnacao-em-um-polo-e-com-ele-a-propria-vida" style="font-size:18px"><strong>Uma vez guiado pelo espírito do mal, o movimento entre opostos, que alimenta a chama da vida, tende à estagnação em um polo e, com ele, a própria vida.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Pedraza</strong> (2002, p.88) também nos diz que “gostaria que a psicologia da dependência fosse totalmente assumida como própria do âmbito arquetípico de Dioniso”, o que nos auxilia na construção de uma imagem para esse quadro, construído sobre o alicerce da ilusão, provenientes da inflação e eventual alienação do ego. Como apontado por Barcellos (2019, p.219), “essa é a loucura dionisíaca: borrar os limites entre homem e deus, entre mortal e imortal.” Em oposição à razão de uma disposição apolínea que, como diz Jung (2015, p.182), é “a imagem gloriosa e divina do princípio da individuação”, o dionisíaco se contrapõe pela “libertação do instinto sem limites, a irrupção da dynamis (força dinâmica) desenfreada de natureza animal e divina.”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>O dionisíaco “é o horror à destruição do princípio da individuação e, ao mesmo tempo, o “feliz êxtase” de que seja destruído.” (JUNG, 2015, p.182).</strong> Assim, conforme temos analisado, a destituição de qualquer possibilidade de desidentificação do ego encontra seu ápice em Dioniso, onde “cada qual se sente ‘um’ com o próximo (‘não apenas unificado, reconciliado e fusionado’). Sua individualidade deve estar, então, completamente abolida.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ainda-que-o-conceito-de-deus-seja-um-principio-espiritual-por-excelencia-e-uma-necessidade-coletiva-ve-lo-tambem-como-a-causa-primeira-criativa-da-qual-provem-toda-aquela-instintividade-que-se-apresenta-como-repugnante-a-espiritualidade" style="font-size:18px">Ainda que o conceito de Deus seja um princípio espiritual por excelência, é uma necessidade coletiva vê-lo também como a causa primeira criativa, da qual provém toda aquela instintividade que se apresenta como repugnante à espiritualidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim sendo, Deus não seria apenas a essência da luz espiritual, que aparece como a última flor na árvore do desenvolvimento, nem a meta da salvação espiritual na qual culmina toda a criação, e nem o fim último e o supremo desígnio, mas também seria tudo o que há de mais escuro e a causa mais baixa de todas as tenebrosidades naturais. Este é um enorme paradoxo, que pelo visto corresponde a uma verdade psicológica profunda. Ou seja, representa nada mais do que a contraditoriedade dentro de um mesmo ser, de um ser cuja natureza mais íntima é uma tensão entre opostos.<a> (JUNG, 2014b, p.71).</a></p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><a><strong>Assim, a dinâmica da adicção alcoólica encontra fundamentação no arquétipo de Dioniso, em seu estado de semelhança a Deus, até que Ele não mais se oponha, não mais lhe ofereça oposição e lhe conceda a experiência da alienação egóica, em uma “completa ausência de qualquer sentimento de apoio ou fundamento transpessoal para a existência do indivíduo se apoiar.” </strong></a></p><cite><a><strong>(EDINGER, 2020, P.68)</strong></a></cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-como-e-possivel-imaginar-uma-alma-abandonada-por-deus-completamente-entregue-a-sua-sombra" style="font-size:18px">Nesse sentido, como é possível imaginar uma alma abandonada por Deus? Completamente entregue à sua sombra?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como hipótese, tomemos a inflação como base no processo da adicção, estruturando-se e desenvolvendo-se pela vontade de poder, de modo que, como diz Jung, aí não haveria lugar para o amor. Considerando a máxima de João em sua primeira Epístola 4:8, de que &#8220;Deus é amor&#8221;, então, corroborando o que vimos anteriormente, Deus não estaria presente. Porém, temos que considerar que, “psicologicamente, a fixação ou encarnação de um conteúdo espiritual deve ser olhada como uma realização do arquétipo do si-mesmo” (JUNG, 1997, p.266), “por isso seria oportuno lembrar que não só as trevas se conhecem pela luz, como também, inversamente, a luz se conhece pelas trevas” (JUNG, 1982, p.74).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assim-sendo-a-ideia-que-se-apresenta-e-que-o-grande-plano-segundo-o-qual-e-construida-a-vida-inconsciente-da-alma-e-tao-inacessivel-a-nossa-compreensao-que-nunca-podemos-saber-que-mal-e-necessario-para-que-se-produza-um-bem-por-enantiodromia-jung-2016-p-308" style="font-size:18px"><strong>Assim sendo, a ideia que se apresenta é que “o grande Plano segundo o qual é construída a vida inconsciente da alma é tão inacessível à nossa compreensão que nunca podemos saber que mal é necessário para que se produza um bem por enantiodromia.” (JUNG, 2016, p.308).</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Baseado nesse princípio, ao mal é concedido atuar na já delicada situação do alcoólico até que, por si só, já não haja mais como aprofundar a experiência das trevas, de maneira que o único movimento possível é o retorno;</strong> momento descrito em Lucas 15:18-19: &#8220;levantar-me-ei, irei ter com meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O movimento de retorno é um despertar da consciência, uma superação do “nível inferior de sede espiritual”, representando a superação da unilateralidade dionisíaca. <a>O dionisíaco em si não é um mal e isso deve ser observado. Seu aspecto extremo, de fusão e indiferenciação, é que é potencialmente perigoso: <em>dosis sola facit venenum</em>, “a dose que faz o veneno”, como observa <strong>Paracelso</strong>, pois:</a></p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“assim como o indivíduo não é apenas um ser singular e separado, mas também um ser social, do mesmo modo o espírito humano não é algo de isolado e totalmente individual, mas um fenômeno coletivo. E tal como certas funções sociais ou instintos se opõem aos interesses dos indivíduos particulares, da mesma maneira o espírito humano é dotado de certas funções ou tendências que, devido à sua natureza coletiva, se opõem aos conteúdos individuais.” </p><cite>(JUNG, 2014a, p.143)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a>O embate proposto por Jung entre o bem e o mal, na “receita” <em>spiritus x spiritum</em>, carrega em si a ideia central sobre a qual está assente a questão da adicção e que, em última análise, diz respeito a toda e qualquer vida, adicta ou não: “o si-mesmo, que gostaria de realizar-se, estende-se para todos os lados, ultrapassando a personalidade do eu; de acordo com sua natureza abrangente ele é ora mais claro ora mais escuro.” (JUNG, 1990, p.503). No caso da adicção alcoólica, porém, é como se houvesse um esgarçamento desse processo, atuando o Si-mesmo praticamente sob a influência de somente uma polaridade.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Assim, a adicção, enquanto estado acentuado de unilateralização da psique junto ao lado sombrio do si-mesmo, do espírito do Diabo, demanda e apresenta a oportunidade para a “força numinosa do si-mesmo, que dificilmente poderia ser experimentada de outra maneira” (JUNG, 1990, p.503), manifestar-se em toda sua grandeza.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>No alcoolismo, como na vida, a dinâmica dos pares complementares se faz presente, <em>noles volens</em>, “querendo ou não”. Para o alcoólico, trata-se de uma questão de vida ou morte, onde a única força capaz de se opor é a face oposta do arquétipo do mal, que é Deus.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O alcoolismo nos ensina como consciente e inconsciente, matéria e espírito, são todas realidades de um mesmo ser que devem ser compreendidas na dinâmica da vida, da energia psíquica. Os estados de unilateralização significam o represamento dessa energia, que, em modo continuado e extremo, representa uma situação patológica e eventualmente perigosa; como a água parada que não permite a vida. <strong>A nada, nem ao espiritual, cabe a unilateralidade absoluta, posto que, “numa interiorização do si-mesmo de algum modo termina a oposição entre espiritual e físico, pois a psique é justamente o <em>vinculum</em> (vínculo) entre ambos.” (JUNG, 1997, p.256).</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, o mito de Jung (EDINGER, 1993) como resposta a nossa grande questão existencial, de que a ideia essencial do objetivo da vida seria a criação de consciência, parece corroborar tudo o que vimos, tanto no aspecto fenomenológico e psicológico, como também abre espaço para considerações que tangenciam o campo metafísico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Dessa maneira, o alcoolismo se presta como um bom exemplo, uma situação extrema, é verdade, mas ainda assim um bom exemplo, de como podemos nos perder na busca pela totalidade. Nos apresenta um desvio de rota tão severo quanto natural, se considerarmos que, no dilema da natureza paradoxal do indivíduo psicológico, situa-se a grande questão do sentido da vida</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que a Psicologia Junguiana nos ensina é que o caminho da individuação não é uma escolha, que pode haver, e é esperado que haja, resistência por parte do ego, mas que essa caminhada é uma condição inexorável da realidade do indivíduo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“É presunção nossa poder dizer sempre o que é bom ou mau para o paciente. Pode ser que algo seja realmente mau para ele, mas assim mesmo o faz, ficando então com a consciência pesada. Em sentido terapêutico, portanto, empírico, isto pode ser muito bom para aquela pessoa. Talvez tenha que experimentar e sofrer o mal em toda a sua força, pois só assim abrirá mão de seu farisaísmo com relação aos outros. Talvez o destino, o inconsciente ou Deus – deem o nome que quiserem –precisem dar-lhe uma lição e deixá-lo cair na lama, pois só uma experiência drástica vai “funcionar”, vai tirá-lo um pouco de seu infantilismo e vai torná-lo um pouco mais maduro. Como experimentará alguém a necessidade de redenção se acha, em sua presunção, que não precisa ser redimido de nada?” </p><cite>(JUNG, 2013b, p.224)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>O ser humano nasce da totalidade e sua vida consiste em retornar para ela, em um nível superior de consciência. Voltar à totalidade sem perder o significado do indivíduo que somos, pelo contrário, regressar ao si-mesmo como forma potencializada deste sentido pessoal é, portanto, uma estrada para a aparente não existência, o lugar ideal. É um caminho que conduz seu caminhante à compreensão do que não se pode explicar pelas veredas da razão, revelando a coexistência entre o consciente e o inconsciente através de um Deus que habita em nós, e de onde tudo o que há nos é ofertado, inclusive o direito de escolher a que face sua iremos seguir.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação é, nesse sentido, uma meta. Tudo que, porventura, exceder a essa ideia, buscando lhe materialidade ou o que quer que seja, escapará por entre nossas mãos tal qual tentássemos segurar o fluxo contínuo d´água na descida de um rio caudaloso.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O alcoolismo, enquanto busca pela totalidade num nível inferior, conforme descreveu Jung, ilustra o desafio que a dádiva da consciência representa na dinâmica da psique. Uma vez mais, a questão psicológica e a religiosa tendem à não separação, pois o bem e o mal, Deus e o Diabo, enquanto polaridades, são imagens que pertencem e definem essa totalidade. Podemos perceber o Diabo como um mal relativo, presente nos conteúdos rejeitados e negados pelo ego, os quais, nesse sentido, poderiam ser dissipados pela aceitação consciente de sua existência. Algo dessa parte dividida e expulsa da psique consciente, realmente age de maneira diabólica, e se mantida longe da luz, tende a uma escuridão cada vez mais profunda, aproximando-se de seu núcleo arquetípico como a própria representação do maligno em nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É nessa direção, do aprofundamento da situação de inconsciência da realidade do si-mesmo e todos os movimentos que daí advém, que a relação de um indivíduo com o álcool pode escalonar das questões a nível da sombra pessoal até o aprofundamento em uma conexão, por assim dizer, direta com o nível arquetípico desta mesma sombra. Uma vez determinado tal grau de vinculação com a psique inconsciente, está estabelecido o vício, que, em uma compreensão psicológica, é definido pela camada espiritual da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung faz a distinção entre a alma e o espírito atribuindo uma maior imaterialidade ao espiritual, justamente comparando-o à proximidade que a alma guarda com o mundo fenomenológico pela conexão essencial de determinados processos psíquicos com fenômenos materiais paralelos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Assim, na adicção alcoólica, o espírito apresenta-se como os ventos a soprar nas velas de um experimentado barco, que quando estão contrários ao bom porto, nem mesmo o velho marinheiro, com sua precisa bússola, é capaz de ajustar a embarcação no rumo correto. Ainda que a alma conheça todas as rotas possíveis e domine a arte da navegação, somente uma mudança na direção dos ventos pode restabelecer a rota. O embate <em>spiritus</em> contra <em>spiritum</em> trata disso, da oposição entre forças equivalentes, entre o espírito do Diabo e de Deus. Forças que, como o vento, são uma só e que podem nos guiar pela popa, pela proa ou por través.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>O alcoolismo, portanto, pode ser compreendido como uma espécie de patologia resultante de uma unilateralização limite da psique, que ocorre devido à rígida condição de inflação de um ego inconsciente de si-mesmo. Trata-se de um estado que leva o si-mesmo a unilateralizar-se, ele próprio, em seu aspecto sombrio, como último recurso possível para o despertar da consciência, de maneira que a personalidade do eu possa abrir-se para uma personalidade maior, que sempre esteve presente, mas que era combatida em uma batalha invencível.</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="ARTIGO: Spiritus contra spiritum: uma possível compreensão para a questão do alcoolismo" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/e7rwRPHCYKU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/andre-orioli/">André Orioli – Membro Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">ALCOÓLICOS Anônimos:a história de como milhares de homens e mulheres se recuperaram do alcoolismo. 4° Edição. São Paulo: Junta de Serviços Gerais de Alcóolicos Anônimos do Brasil – JUNAAB, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BARCELLOS, Gustavo. <em>Mitologias Arquetípicas</em>: figurações divinas e configurações humanas. São Paulo: Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">EDINGER, Edward F. <em>A criação da consciência</em>: o mito de Jung para o homem moderno. 9° Edição. São Paulo: Cultrix, 1993.</p>



<p class="wp-block-paragraph">EDINGER, Edward F. <em>Ego e arquétipo</em>: uma síntese fascinante dos conceitos psicológicos fundamentais de Jung. 2° Edição. São Paulo: Cultrix, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a>JUNG, Carl Gustav. <em>Aion:</em> </a><a>estudo sobre o simbolismo do </a>si-mesmo(OC 9/2). Petrópolis: Vozes, 1982.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Mysterium Coniunctionis: </em>Rex e Regina; Adão e Eva; A conjunção (OC 14/2). Petrópolis: Vozes, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Mysterium Coniunctionis</em>: Epílogo; <em>Aurora Consurgens</em> (OC 14/3). Petrópolis: Vozes, 1997.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Psicologia e alquimia</em> (OC 12). Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Civilização em transição </em>(OC 10/3). Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Psicologia do inconsciente</em> (OC 7/1). Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O eu e o inconsciente</em> (OC 7/2). Petrópolis: Vozes, 2014a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>A energia psíquica</em> (OC 8/1). Petrópolis: Vozes, 2014b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>A natureza da psique</em> (OC 8/2). Petrópolis: Vozes, 2014c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Tipos psicológicos</em> (OC 6). Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em> (OC 9/1). Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PEACEFULNESS. MATTER OF HEART. You Tube, 1983. Disponível em:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&lt; https://www.youtube.com/watch?v=Ed3vPb9bmcw&gt;. Acesso em: 5 de abr. de 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PEDRAZA, Rafael López. <em>Dioniso no exílio</em>: sobre a repressão da emoção e do corpo. São Paulo: Paulus, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SANFORD, John A. <a><em>Mal</em>: o lado sombrio da realidade</a>. 1° edição, 6ª reimpressão, 2021. São Paulo: Paulus, 1988.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Recomendamos que ambas as cartas sejam lidas na íntegra nos anexos B e C. Além disso, há uma versão original da carta de Jung no anexo A.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> Neste ponto, na versão original da carta, é possível ler que Jung assinalou uma menção ao salmo 42:1: “como o cervo brama pelos riachos das águas, assim minha alma por ti, ó Deus”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref3" id="_ftn3">[3]</a> Nesta passagem, Jung (2016, p.301) comenta que “William James descreveu esse fenômeno primordial em suas <em>Varieties of Religious Experiences</em>.”</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref4" id="_ftn4">[4]</a> É oportuno fazer a ressalva de que nossa abordagem, assim como as citações escolhidas neste trabalho, partem de uma perspectiva do mundo ocidental e sua herança religiosa predominante judaico-cristã. Como ampliação, Jung (2011, p.27) cita que: “ninguém pode evitar a fé em aceitar como causa primeira Deus, Purusha, Atman ou Tao, eliminando assim a inquietude última do homem.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-anexos"><strong>ANEXOS</strong>:</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-anexo-a-carta-de-carl-jung-para-bill-w-original" style="font-size:22px"><strong>ANEXO A &#8211; Carta de Carl Jung para Bill W. (original)</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Disponível em: &lt;https://i0.wp.com/www.psicologiamsn.com/wpcontent/uploads/2015/05/jung_letter.jpg?ssl=1&gt;.Acesso em: 16 de ago. de 2023.</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="707" height="1024" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/01/image-707x1024.png" alt="" class="wp-image-10149" style="width:615px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/01/image-707x1024.png 707w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/01/image-207x300.png 207w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/01/image-768x1113.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/01/image-150x217.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/01/image-450x652.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/01/image.png 885w" sizes="(max-width: 707px) 100vw, 707px" /></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-anexo-b-traducao-da-carta-de-carl-jung-a-bill-w" style="font-size:22px"><strong>ANEXO B – Tradução da Carta de Carl Jung a Bill W.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Disponível em: &lt; https://passeamensagem.wordpress.com/2013/03/29/carta-de-bill-w-a-carl-jung/&gt;. Acesso em: 12 de ago. de 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Janeiro 30, 1961.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Caro Sr. Wilson,</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sua carta foi-me realmente bem-vinda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não tive mais notícias de Rowland H. e muitas vezes desejei conhecer o seu destino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O diálogo que mantivemos, ele e eu, e que ele muito fielmente lhe transmitiu teve um aspecto que ele mesmo desconheceu. A razão pela qual não pude dizer-lhe tudo foi que naquela época eu tinha que ser excessivamente cuidadoso com tudo o que dizia. Eu havia descoberto que estava sendo de todas as maneiras mal interpretado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, tive que ser muito cuidadoso ao conversar com Rowland H. Mas o que eu realmente concluí sobre o seu caso foi o resultado das minhas inúmeras experiências com casos semelhantes ao dele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seu desejo por álcool equivalia, em um nível inferior, à sede espiritual de nosso ser pela totalidade, expressa na linguagem medieval: a união com Deus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como poderia alguém expor tal pensamento sem ser mal interpretado em nossos dias?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O único caminho correto e legítimo para tal experiência é que ela aconteça para você na realidade e ela só pode acontecer se você procurar um caminho que o leve a uma compreensão mais alta. E você poderá ser conduzido a esta meta pela ação da graça, pela convivência pessoal honesta com os amigos ou através de uma educação superior da mente, para além dos limites do mero racionalismo. Vi pela sua carta que Rowland H. escolheu a segunda opção que, nas suas circunstâncias era, sem dúvida, a melhor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estou fortemente convencido de que o princípio do mal que prevalece neste mundo leva a necessidade espiritual não reconhecida à perdição, se não for neutralizada por uma visão religiosa real ou pela barreira protetora da comunidade humana. Um homem comum desligado dos planos superiores, isolado de sua comunidade, não pode resistir aos poderes do mal, muito propriamente chamados de Diabo. Mas o uso de tais palavras suscita tantos enganos que só podemos manter-nos afastados deles tanto quanto possível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eis as razões por que não pude dar a Rowland H. plena e suficiente explicação. Estou arriscando-me a dá-las a você por ter concluído pela sua carta decente e honesta, que você já adquiriu uma visão superior do problema do alcoolismo, bem acima dos lugares comuns que, via de regra, se ouvem sobre ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Veja você, “álcohol” em latim significa “espírito”, e você, no entanto, usa a mesma palavra tanto para designar a mais alta experiência religiosa como para designar o mais depravador dos venenos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a>A receita então é “spiritus” contra “spiritum”.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Agradecemos você novamente por sua amável carta, eu me reafirmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seu sinceramente,</p>



<p class="wp-block-paragraph">C. G. Jung.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-anexo-c-carta-de-bill-w-a-carl-jung-traduzida" style="font-size:22px"><strong>ANEXO C – Carta de Bill W. a Carl Jung. (traduzida)</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Disponível em: &lt; https://passeamensagem.wordpress.com/2013/03/29/carta-de-bill-w-a-carl-jung/&gt;. Acesso em: 12 de ago. de 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Janeiro 23, 1961. Meu Caro Dr. Jung,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta carta há muito lhe deveria ter sido enviada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Devo primeiramente apresentar-me ao Senhor como Bill W. um dos co-fundadores das sociedades dos Alcoólicos Anônimos. Embora seja provável que o Sr. Já tenha ouvido falar de nós, com certeza ignora que uma conversa que manteve com um de seus pacientes, Mr. Rowland, nos idos de 1930, tornou-se uma das regras fundamentais da nossa Sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora Mr. Rowland tenha nos deixados há muito tempo, o registro de sua inesquecível experiência, enquanto sob os seus cuidados, passou definitivamente para a nossa história e é a que passo a lhe relatar: Tendo Mr. Rowland esgotado todos os recursos para livrar-se do alcoolismo, tornou-se em 1931 seu paciente, permanecendo em tratamento, se não me engano durante mais ou menos um ano; após este tempo deixou-o cheio de confiança e com a mais irrestrita admiração pelo Senhor. Contudo para a sua enorme consternação, retornou ao velho hábito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Convencido de que o senhor era a sua “tábua de salvação”, voltou ao tratamento. O relato do diálogo entre ambos veio a tornar-se o primeiro elo de uma corrente de acontecimentos, que terminaram por induzir a fundação de nossa Sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A minha lembrança deste relato do encontro entre ambos é que se segue: primeiramente disse-lhe o Senhor francamente que não via esperanças para ele em novos tratamentos, fossem eles médicos ou psiquiátricos. Esta sua posição sincera e humilde foi, sem dúvida, a primeira pedra em que fundamentamos a nossa Sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tal afirmação, vinda de quem ele tanto confiava e admirava produziu sobre ele o mais violento impacto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quanto ele lhe perguntou se então não haveria para ele alguma esperança, o Senhor lhe respondeu que poderia haver sim e que esta seria a de tornar-se o sujeito de uma genuína experiência espiritual ou religiosa – em resumo, de uma autêntica conversão. Tal experiência poderia motivá-lo mais que outra qualquer, disse-lhe o Senhor. Mas preveniu-o de que conquanto tais experiências tivessem acontecido a alguns alcoólicos, elas eram comparativamente raras. E recomendou-lhe que se colocasse em uma atmosfera religiosa e que esperasse. Esta foi a substância do seu conselho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Prontamente Mr. Rowland juntou-se ao Oxford Group, um movimento evangélico de grande sucesso na Europa, movimento este que lhe deve ter sido familiar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Certamente o Senhor se lembrara da grande ênfase que davam aos princípios de autovigilância, da confissão, da reparação e da doação pessoal ao serviço dos outros. Eles também praticavam a meditação e a prece intensivamente. E foi nesta prática que Mr. Rowland encontrou a experiência de conversão, que o libertou, finalmente, da compulsão de beber.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltando à Nova York tornou-se membro ativo do Oxford Group, entidade então conduzida pelo Dr. Samuel Shoemaker. Dr. Shoemaker havia sido um dos fundadores daquele movimento e a sua poderosa personalidade era carregada de imensa sinceridade e convicção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste tempo (1932-34) o O. G. já havia recuperado um número de alcoólicos e Rowland, sentindo que poderia identificar-se com aqueles sofredores lançou-se, ele mesmo, no auxílio de outros. Um desses eram um velho companheiro de colégio meu, chamado Edwin T. (Ebby). Ele havia sido tratado por outra instituição, mas Mr. H. e um outro ex-alcoólico do O. G. contataram-se com ele e convenceram a retornar à sobriedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto isto, eu percorria os caminhos do alcoolismo, tentando curar-me por mim mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Felizmente, acabei sendo cliente do Dr. William D. Silkworth, que era maravilhosamente capaz de entender os problemas alcoólicos. E assim como o Sr. resgatou Rowland, assim também ele me resgatou do álcool.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sua teoria era a de que o alcoolismo tinha dois componentes: por um lado uma obsessão que compelia o sofredor a beber, contra seu desejo e, por outro lado, uma espécie de dificuldade metabólica que ele chamava de alergia. A compulsão ao álcool garantia que o hábito de beber prosseguiria e a alergia fazia com que o sofredor entrasse em decadência, enlouquecesse ou morresse. Embora eu fosse um dos que havia julgado ser possível ajudar, acabou sendo obrigado a me confessar que já não via mais esperança para o meu caso. Eu deveria considerar o meu tratamento encerrado. Para mim isto foi uma bofetada. Assim como Rowland foi preparado pelo Senhor para a sua experiência de conversão, meu maravilhoso amigo também me preparou para semelhante experiência ao dar-me tal terrível veredicto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ouvindo falar sobre a minha recaída, meu amigo Edwin T. veio ver-me em minha casa, onde eu estava bebendo. Era novembro de 1934 e já fazia muito tempo que eu registrara meu amigo Edwin como um caso incurável. No entanto, ali estava ele, no mais evidente estado de sobriedade. Este estado de sobriedade certamente estava relacionado ao curto período em que ele esteve ligado ao Oxford Group e era naquele momento tão evidente, tão distinto de sua usual depressão que me foi tremendamente convincente. Por ser ele um irmão-sofredor comunicou-se comigo em tal profundidade que eu imediatamente senti que deveria buscar uma experiência igual a sua ou então morrer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltei então aos cuidados do Dr. Silkworth; onde pude tornar-me novamente sóbrio, ganhando assim nova visão sobre a experiência da libertação do meu amigo e novo enfoque no caso de Howland H.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Livre mais uma vez do uso do álcool passei a me sentir terrivelmente deprimido, o que me pareceu ser devido a minha inabilidade de adquirir qualquer tipo de fé. Edwin T. visitou-me novamente nesse período, repetindo as mesmas fórmulas do tratamento do O. G. Quando ele me deixou, recaí na mais profunda depressão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desesperado, então gritei: – “Se existir um deus, que ele se mostre para mim”. Imediatamente, uma iluminação de enorme impacto e dimensão envolveu-me, uma coisa extraordinária que tentei descrever no meu livro Alcoholics Anonymous, bem como em “A.A. Come of Age”, textos básicos que lhe estou enviando agora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meu desligamento da obsessão pelo álcool foi imediato. Senti que me havia tornado um homem livre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logo em seguida a esta minha experiência recebi no hospital, das mãos de Edwin o livro de William James, “Varieties of Religious Experience”, livro este que veio me conscientizar que a maior parte das experiências religiosas, as mais variadas têm um denominador comum que é o colapso do ego, a sua queda no maior desespero. O indivíduo tem que se encontrar em uma situação extrema, frente a um dilema insolúvel. No meu caso esta situação, este dilema insolúvel nasceu da minha compulsão à bebida e um profundo sentimento de desespero mais ainda tomou conta de mim quando o meu amigo alcoólico comunicou–me o seu veredicto de incurável, dado a Rowland H.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante a minha experiência religiosa tive a inspiração de uma sociedade de alcoólicos em que cada um se identificasse com o outro e lhe transmitisse a sua experiência, em uma espécie de cadeia. Se cada sofredor tinha que dar a notícia do veredicto de incurável que a ciência médica conferia ao ingresso no tratamento, deveria também lhe colocar a possibilidade de uma abertura a uma experiência de transformação espiritual. Este conceito provou ter sido a base de posteriores conquistas dos Alcoólicos Anônimos. Isto fez com que as experiências da conversão, quase tão múltiplas quanto as citadas por W. James se tornassem disponíveis em larga escala.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossos associados somavam no último quarto de século o número de 300.000. Na América e através de todo o mundo eles chegam a formar 8.000 grupos de A. A.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim sendo, nós do A. A. fomos extremamente beneficiados pelo Senhor, pelo Dr. Shoemaker do Oxford Group, por William James e pelo nosso amigo, o médico Dr. Silkworth.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como vê o Senhor claramente agora, esta espantosa cadeia de acontecimentos realmente começou há muitos anos, na sala do seu consultório e foi desencadeada pela sua humildade e profunda percepção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos elementos do A. A. são estudiosos de sua obra. O Senhor endereçou-se especialmente em sua direção devido a sua convicção de que o homem é mais que o intelecto, as emoções e dois dólares de medicamentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os panfletos e outros materiais que lhe envio mostrar-lhe-ão o quanto a nossa sociedade vem crescendo, desenvolvendo o seu espírito de unidade e como ela vem estruturando as suas bases.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Senhor gostará provavelmente de saber que além da experiência espiritual, muitos A. A. vêm ingressando em outras experiências psíquicas, com considerável força cumulativa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outros membros, depois de recuperados nos A. A. têm sido muito ajudados pelos seus assistentes e alguns são estudiosos do I Ching e do admirável prefácio que o senhor fez para este livro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esteja certo de que como ninguém mais o senhor ocupa destacada posição no afeto e na história de nossa sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muito grato ao Senhor,</p>



<p class="wp-block-paragraph">William G. W.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>A história de AA e seu entrelaçamento com Jung</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-historia-de-aa-e-seu-entrelacamento-com-jung/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[André Orioli]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 09 Nov 2024 18:34:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dependência Química]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[12 passos]]></category>
		<category><![CDATA[AA]]></category>
		<category><![CDATA[alcoólicos anônimos]]></category>
		<category><![CDATA[Alcoolismo]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Alguns de nós, interessados no pensamento e na história de Jung, já ouvimos falar na troca de cartas entre Jung e o cofundador dos Alcoólicos Anônimos, Bill. Este artigo se propõe a contar, sinteticamente, a história da criação de AA a fim de compreendermos o entrelaçamento entre esses dois grandes personagens e sua influência [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Resumo</strong>: Alguns de nós, interessados no pensamento e na história de Jung, já ouvimos falar na troca de cartas entre Jung e o cofundador dos Alcoólicos Anônimos, Bill. Este artigo se propõe a contar, sinteticamente, a história da criação de AA a fim de compreendermos o entrelaçamento entre esses dois grandes personagens e sua influência na criação do AA e seu programa de recuperação para alcoólicos, os 12 Passos.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Era final de novembro de 1934 quando William Griffith Wilson recebeu em sua casa, em Nova Iorque, Estados Unidos, seu velho amigo de bebedeira Edwin Thatcher, mais conhecido como Ebby. Naquele dia, seu companheiro de copo recusaria a bebida sob a justificativa de ter conhecido uma religião. Ainda que Ebby viesse a morrer três décadas depois, devido ao alcoolismo, para Wilson, esse dia representaria o início do fim de uma vida entregue ao álcool. Pouco tempo depois, Wilson cofundaria os Alcoólicos Anônimos onde, paradoxalmente, perderia para sempre seu anonimato, tornando-se o notório Bill de AA.<a href="#_ftn1" id="_ftnref1"><sup>[1]</sup></a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Os dias seguintes à visita de Ebby, considerado o mais incurável dos alcóolicos, levariam Wilson a buscar o Oxford Group, uma instituição de cunho evangélico responsável pela sobriedade de seu amigo. Esse evento culminaria com sua ida ao Towns Hospital para uma internação voluntária pelas mãos de seu médico e amigo<a id="_ftnref2" href="#_ftn2"><sup>[2]</sup></a>, o Dr. William Duncan Silkworth. Em seu segundo dia de internação, Ebby o visitaria, deixando-lhe a receita para a sobriedade, “a fórmula simples e perfeita”: “perceba que você está derrotado, admita isso e esteja disposto a entregar sua vida aos cuidados de Deus.” (KURTZ, p.19, 1991, tradução nossa).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-duas-decadas-depois-na-convencao-alcoolicos-anonimos-chegam-a-maioridade-de-1955-bill-relataria-o-que-aconteceu-apos-esta-visita" style="font-size:16px">Duas décadas depois, na convenção “Alcoólicos Anônimos Chegam à Maioridade”, de 1955, Bill relataria o que aconteceu após esta visita:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-default has-text-color has-link-color wp-elements-9" style="color:#3c8058;font-size:16px"><blockquote><p><a>“Minha depressão se aprofundou insuportavelmente e finalmente tive a impressão de estar no fundo do poço. Eu ainda me engasgava com a noção de um Poder maior do que eu, mas finalmente, só por um momento, o último vestígio da minha orgulhosa obstinação foi esmagado.</a><br><br>De repente, a sala se iluminou com uma grande luz branca. Fui levado a um êxtase que não há palavras para descrever. Parecia-me, mentalmente, que eu estava numa montanha e que soprava um vento não de ar, mas de espírito. E então me ocorreu que eu era um homem livre. Lentamente o êxtase diminuiu. Deitei-me na cama, mas agora, por algum tempo, estive em outro mundo, um novo mundo de consciência. </p><cite>KURTZ, p.19, 1991, grifo nosso, tradução nossa.</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-hospital-bill-viveu-uma-experiencia-espiritual-algo-como-uma-autentica-conversao" style="font-size:17px">No hospital, Bill viveu uma experiência espiritual, algo como uma autêntica conversão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Após sair da internação, começou a frequentar o Oxford Group, onde iniciou um trabalho pela recuperação de alcóolicos: o que Ebby havia feito por ele, ele deveria fazer por outros. Assim continuou até que um difícil sábado, em maio de 1935, o levou à beira de uma recaída. Percebendo o perigo eminente, Bill buscou, em caráter de urgência, um alcoólico na ativa para levar sua mensagem, pois essa era a forma encontrada para manter sua sobriedade. Por meio de seus contatos no Oxford Group, conseguiu um encontro, já no domingo, com Robert Holbrook Smith, o Dr. Bob, ou simplesmente Bob. Bill e Bob partilharam suas histórias por mais de cinco horas, numa reunião que viria a ser considerada a primeira dos Alcoólicos Anônimos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O trabalho de Bill com outros alcóolicos, junto ao Oxford Group, inicialmente não foi bem-sucedido. Os princípios morais rígidos praticados doutrinariamente no contexto do grupo, conhecidos como os 4 absolutos &#8211; honestidade absoluta, pureza absoluta, altruísmo absoluto e amor absoluto &#8211; tratados como exigências à conversão, eram por demais assustadores para a condição dos alcóolicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-buscando-auxilio-para-lidar-com-essa-situacao-bill-recorreu-ao-dr-silkworth-que-com-sua-experiencia-trouxe-lhe-a-orientacao-necessaria" style="font-size:17px">Buscando auxílio para lidar com essa situação, Bill recorreu ao Dr. Silkworth, que, com sua experiência, trouxe-lhe a orientação necessária:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-default has-text-color has-link-color wp-elements-10" style="color:#355c3a;font-size:17px"><blockquote><p>“Bill [ele me disse], você colocou a carroça na frente dos bois. Você tem que esvaziar essas pessoas primeiro. Portanto, dê-lhes a medicina primeiro e dê-lhes com força. Despeje-lhes diretamente sobre a obsessão que os condena a beber e sobre a sensibilidade física ou a alergia do corpo que os condena a enlouquecer ou morrer se continuarem a beber. Vindo de outro alcoólatra, um alcoólatra conversando com outro, talvez isso quebre profundamente esses egos duros. Só então você poderá começar a experimentar seu outro medicamento, os princípios éticos que você tem adquirido dos Grupos Oxford.” </p><cite>(KURTZ, p.26, 1991, grifo nosso, tradução nossa).</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Os conselhos do Dr. Silkworth foram de grande importância para o êxito do encontro entre Bill e Bob e, num sentido prospectivo, para percebermos o início da estrutura do que, futuramente, viria a se tornar os 12 Passos de AA. Nessa mesma ocasião em que aconselhara Bill, o Dr. Silkworth também o encorajaria a não abandonar a estrutura do trabalho que vinha desenvolvendo para a recuperação do indivíduo alcoólico, a qual, àquela altura, fundamentava-se em três principais fontes: o próprio Oxford Group, em William James e em C.G. Jung.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Bill encontrava-se muito influenciado pela história do tratamento que Rowland Hazard realizara junto a Jung entre 1933 e 1934. Rowland foi o responsável por trazer o Ebby para o Oxford Group em 1934, onde ele próprio encontrou sua recuperação para o alcoolismo. Seu processo remonta à história de sua análise junto a Jung, mais especificamente ao final de seu processo em que, após quase um ano de tratamento, voltaria aos EUA em estado de sobriedade alcoólica, permanecendo por pouco tempo até recair na bebida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse momento regressaria à Suíça, acreditando que Jung seria sua “tábua de salvação” sendo, porém, surpreendido por suas duras e honestas palavras, que afirmavam não ver “esperanças para ele em novos tratamentos, fossem eles médicos ou psiquiátricos”. Ao ser indagado se haveria ou não alguma esperança para seu caso, Jung respondeu “que poderia haver sim e que esta seria a de tornar-se o sujeito de uma genuína experiência espiritual ou religiosa – em resumo, de uma autêntica conversão”, recomendando, em seguida, “que se colocasse em uma atmosfera religiosa e que esperasse.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">O livro As Variedades da Experiencia Religiosa, de James (1991), que Bill havia lido no hospital em sua última internação, também o havia influenciado sensivelmente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-ideias-de-james-foram-similarmente-de-grande-importancia-para-jung-que-em-diferentes-momentos-de-sua-obra-assim-o-manifestou" style="font-size:17px">As ideias de James foram, similarmente, de grande importância para Jung que em diferentes momentos de sua obra assim o manifestou:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-default has-text-color has-link-color wp-elements-11" style="color:#356e35;font-size:16px"><blockquote><p>“Neste meu breve – quiçá demasiado breve – esboço, deixei de mencionar muitos nomes ilustres, mas há um nome venerável que não quero omitir: é o de William James, a cuja visão psicológica e a cuja filosofia pragmática devo os mais decisivos estímulos e sugestões em minhas pesquisas. Foi seu espírito largo e abrangente que me descerrou até o incomensurável os horizontes da psicologia humana.” </p><cite>JUNG, 2014b, p.71</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">No livro “Tipos psicológicos”, Jung (2015, p.429) elabora seu pensamento ressaltando que “James tem o grande mérito de ter apontado, pela vez primeira e com certa profundidade, para a extraordinária importância dos temperamentos na formação do pensamento filosófico”, e complementa relatando que “James vai mais fundo, abarca a oposição psicologicamente e tenta uma solução pragmática correspondente”. Nesse momento, ele indica a limitação desta, ou de qualquer outra abordagem, que só compreenda fontes intelectuais, invocando Nietzsche<a href="#_ftn3" id="_ftnref3"><sup>[3]</sup></a>, que usou “a fonte intuitiva, libertando-se do puro intelecto na formação de seu arcabouço filosófico.” (JUNG, 2015, p.430).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A questão dos tipos psicológicos, enquanto estruturas típicas e modalidades de função da psique, é de importância ímpar para a compreensão do ser humano em si, assim como o antagonismo dos tipos tem significativa influência nas abordagens científicas, no pensamento religioso, nas interpretações culturais, enfim, nas relações humanas em geral. Nesse sentido, ainda que Jung não tenha concordado que sua obra seja uma cosmovisão, é possível perceber como não há uma clara e definida separação entre sua abordagem &#8211; seu método, e seu objeto. Da mesma maneira que o indivíduo psicológico tem uma natureza paradoxal, “nem consciente nem inconsciente, ou melhor, ambas as coisas” (JUNG, 2014a, p.171), assim também deve ser a ciência que pretenda compreendê-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> nos traz, portanto, que “é possível enfocar os problemas de modo filosófico e não necessariamente de modo intelectual” (JUNG, 2015, p.430), sugerindo algo como um “método intuitivo”, ao nos descrever o que, se não estivermos avisados, provavelmente não saberíamos dizer se estamos diante de uma descrição metodológica ou diante de uma explanação do funcionamento da psique:</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-default has-text-color has-link-color wp-elements-12" style="color:#526357;font-size:16px"><blockquote><p>“A oposição das duas “verdades” exige uma atitude pragmática, se quisermos fazer alguma justiça ao outro ponto de vista. Por mais imprescindível que seja o método pragmático, pressupõe resignação demais e se liga quase inseparavelmente a uma falta de realização criadora. A solução do conflito dos opostos não se dá nem por compromisso lógico-intelectualista, como no conceptualismo, nem pela medição pragmática do valor prático de concepções logicamente inconciliáveis, mas exclusivamente por criação ou ação positiva que assume os opostos como elementos necessários de coordenação, assim como um movimento muscular coordenado implica sempre a inervação dos músculos antagônicos. Portanto, o pragmatismo não pode ser outra coisa do que atitude transitória que prepara o caminho do ato criador afastando os preconceitos.”</p><cite> JUNG, 2015, p.431</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">No mesmo sentido em que o pragmatismo foi de grande colaboração para Jung enquanto princípio de abordagem científica, a perspectiva de James acerca das temáticas religiosas também lhe foi de crescida contribuição, limitando-se, naturalmente<a>, pela questão metodológica</a>. Na passagem a seguir, é possível perceber a afinidade das ideias de James com Jung. Por outro lado, nota-se que a abordagem de James não se abre à possibilidade de uma saída criativa para o problema posto, permanecendo estritamente fixada na estrutura intelectual de seu pragmatismo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ainda-que-flerte-com-a-possibilidade-de-uma-saida-criativa-ao-final-retorna-ao-modelo-original-proposto-por-seu-pragmatismo-ao-sugerir-uma-abordagem-alternada-como-solucao-metodologica" style="font-size:17px">Ainda que flerte com a possibilidade de uma saída criativa, ao final retorna ao modelo original, proposto por seu pragmatismo, ao sugerir uma abordagem alternada como solução metodológica:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-default has-text-color has-link-color wp-elements-13" style="color:#5a7856;font-size:16px"><blockquote><p>“Na forma da cura psíquica, a religião nos dá a muitos de nós serenidade, equilíbrio moral e felicidade, e previne determinadas formas de doenças, como faz a ciência, ou até mais, com certa classe de pessoas. É evidente, portanto, que a ciência e a religião são ambas chaves genuínas destinadas a abrir a casa do tesouro do mundo àquele que for capaz de usar qualquer uma delas praticamente. Bem como, é claro, nenhuma das duas saberia tomar supérfluo o uso simultâneo da outra. E por quê, afinal de contas, não pode o mundo ser tão complexo que consista em muitas esferas entrepenetrantes de realidade, que podemos enfocar alternadamente, usando diferentes concepções e assumindo atitudes diferentes.”</p><cite> JAMES, 1991, p.110-111</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a>Voltando a Bill, que, naquele momento, somava em si os estudos de James, assim como a percepção do cruzamento destes com a posição de Jung &#8211; experenciado por meio de seu despertar espiritual, sua própria e “autêntica experiência de conversão”, e todo o ensino moral de sua prática junto ao próximo, desenvolvidos no Oxford Group,</a> o<a>u seja, um borbulhar de conhecimento e vivências que, agora, desenvolvidos no trabalho de recuperação do indivíduo alcóolico, levariam ao que viriam a ser os 12 Passos: o programa de recuperação que, mais tarde, em 1939 e já com algumas contribuições de Bob</a>, seria lançado na primeira edição do livro de AA (ALCOÓLICOS, 2001).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os 12 Passos são “um grupo de princípios espirituais em sua natureza que, se praticados como um modo de vida, podem expulsar a obsessão pela bebida e permitir que o sofredor se torne integro, feliz e útil.” (OS DOZE, 2018, p.13).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-12-passos-de-aa"><strong>Os 12 Passos de AA</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A criação do programa de 12 Passos de AA (ANEXO A), conforme podemos perceber, esteve bastante relacionada a Jung, ainda que indiretamente. Nesse sentido, é interessante notarmos que, não por coincidência, ao empreendermos uma breve análise do programa, é possível elaborarmos uma abordagem de seus passos fundamentada na psicologia junguiana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os três primeiros passos do programa de recuperação em AA são, respectivamente: 1º, “admitimos que éramos impotentes perante o álcool &#8211; que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”; 2º, “viemos a acreditar que um Poder superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade”; e 3º, “decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em alguns círculos das irmandades de 12 Passos, esses primeiros passos são tratados informalmente da seguinte maneira: 1º, eu não posso; 2º, alguém maior que eu pode; e 3º, se eu deixar. Essa forma, ainda mais direta e acessível às vicissitudes da vida de um alcoólico, ilustra seus objetivos, que são, segundo uma perspectiva junguiana: 1º, admissão e aceitação do ego quanto ao seu tamanho e poder, reconhecendo a limitação do alcance de sua razão e vontade; 2º, aceitação e submissão do ego à ideia da existência de um Si-mesmo supremo, este sim, dotado da capacidade para uma orientação superior da vida do Ser; e 3º, rendição ao Si-mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O início do processo não é algo simples. Nesse sentido, é importante atentarmos para a natureza processual desses passos, que consistem em etapas subsequentes que requerem tempo para serem percorridas. Assim, em um ambiente adequado e protegido, o indivíduo alcoólico tem acesso a reuniões onde escuta partilhas de encorajamento. Estudando a si mesmo pela identificação e desidentificação com as histórias alheias, encontra amparo e aprendizado não só por meio da literatura de AA, mas também pelas experiências daqueles que já conquistaram o que ele deseja: uma vida liberta da adicção pelo álcool.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tempo, condição do desenvolvimento de qualquer processo, nos remete àquela fala de Jung para Rowland, de que sua esperança seria ter uma experiência espiritual, de conversão, quando lhe recomendou “que se colocasse em uma atmosfera religiosa e que esperasse.” Analisando os dois primeiros passos, podemos perceber como há, inicialmente, um trabalho consciente, por parte do ego. Temos, sequencialmente, a admissão, a aceitação e a submissão. Admissão é ato de reconhecimento de uma verdade acerca do eu, seguido pelo ato de aceitação &#8211; a resignação perante tal verdade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-quando-o-ego-esta-preparado-para-aceitar-que-ha-algo-maior-que-ele-e-enfim-chegar-a-condicao-de-submeter-se-a-este-algo-essa-totalidade-que-o-abarca-o-seu-si-mesmo" style="font-size:17px">É quando o ego está preparado para aceitar que há algo maior que ele e, enfim, chegar à condição de submeter-se a este algo, essa totalidade que o abarca, o seu Si-mesmo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Somente após esse trabalho do ego, de submissão ao Si-mesmo, é que o indivíduo alcoólico terá construído um estado de prontidão capaz de levá-lo à rendição, onde a ilusão de controle poderá, finalmente, ceder lugar a um estado de entrega. Segundo o Dr. Tiebout<a id="_ftnref4" href="#_ftn4"><sup>[4]</sup></a> (1953, p.4, apud BURNS, 1995, p. 41), “o ato de rendição é uma ocorrência inconsciente, não provocada pelo paciente, mesmo que ele assim o deseje”, conformando assim, um ato da não ação, é algo que transcende o poder da razão e da vontade. Trata-se, portanto, de um momento, algo que chega para o ego e não o contrário.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-um-conhecido-bordao-nos-circulos-das-irmandades-de-12-passos-que-alude-a-esta-ocasiao-que-diz-com-algumas-variacoes-eu-nao-desisti-eu-me-rendi" style="font-size:17px">Há um conhecido bordão nos círculos das irmandades de 12 Passos que alude a esta ocasião, que diz, com algumas variações: “eu não desisti, eu me rendi”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A rendição é um processo que tem início pela conscientização do ego, mas que o transcende, conforme vimos com Tiebout, pois tem sua raiz no emocional e não no racional. Assim, a rendição tem um poder transformador, podendo, portanto, servir de abertura para uma nova forma de viver, para a realização do eu por meio do Si-mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O desenvolvimento da personalidade de qualquer indivíduo pode passar por momentos semelhantes aos descritos nos passos; sendo assim, qualquer pessoa está sujeita a processos desta ordem, algumas mais, outras menos. No entanto, para o adicto alcoólico, todo esse processo é mais desafiador, sendo a resistência que enfrentam incomparável. Como coloca Edinger (2020, p.57), “quando lidamos com qualquer problema psicológico sério, lidamos, com a questão do relacionamento entre o ego e o Si-mesmo”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-aa-isso-fica-evidente-logo-nos-tres-primeiros-passos-sendo-possivel-no-terceiro-reconhecermos-a-chave-para-a-ruptura-do-comportamento-adicto-em-direcao-a-sobriedade-alcoolica-a-rendicao" style="font-size:16px">Em AA, isso fica evidente logo nos três primeiros passos, sendo possível, no terceiro, reconhecermos a chave para a ruptura do comportamento adicto em direção à sobriedade alcoólica: <strong>a rendição</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando ela ocorre &#8211; e, como vimos, isto não depende da vontade do ego &#8211; é um momento de inflexão de um longo padrão de inflação, ou mesmo de alienação do ego. Seja como for, trata-se de um estado conhecido por nomes como “estar nas garras do álcool”, “ser escravo da bebida”, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Edinger (2020) utiliza o termo “alienação do ego” para se referir a um estado de desidentificação e não reconhecimento em relação ao Si-mesmo, que ocorre desde a primeira infância e se repete ao longo da vida. Esse processo é necessário para o crescimento do ego e a separação de sua identidade inconsciente com o Si-mesmo, sendo que “ao mesmo tempo, devemos experimentar uma reunião recorrente entre o ego e o Si-mesmo para que seja mantida a integridade de nossa personalidade total.” (EDINGER, 2020, p.29).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A alienação, para um ego estruturado em um padrão de inflação, é um estado imprescindível, de rompimento, para que se possa, então, estabelecer uma relação saudável com seu Si-mesmo, conectando o eu às experiências transpessoais e suas influências arquetípicas sem que haja, dessa vez, a identificação com seus conteúdos, ou seja, sem que volte a ocorrer a inflação, ou, ao menos, sem que se permaneça nesse estado, gerando adoecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O estado de alienação é algo difícil por natureza, pois “vemo-nos expostos aos encontros com a realidade das coisas que a vida nos oferece; encontros que contradizem, de forma constante, as suposições inconscientes do ego.” (EDINGER, 2020, p.29).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-um-estado-onde-perdemos-as-referencias-e-os-pontos-de-apoio-sendo-porem-uma-etapa-fundamental-podendo-servir-de-ponte-para-a-vivencia-do-si-mesmo-de-maneira-que" style="font-size:17px">É um estado onde perdemos as referências e os pontos de apoio, sendo, porém, uma etapa fundamental, podendo servir de ponte para a vivência do Si-mesmo, de maneira que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-default has-text-color has-link-color wp-elements-14" style="color:#4b705a;font-size:17px"><blockquote><p>“O símbolo clássico da alienação é a imagem do deserto. E é aqui, caracteristicamente, que encontramos alguma manifestação de Deus. Quando o peregrino perdido no deserto está prestes a perecer, eis que surge uma fonte divina de alimentação. [&#8230;] Isso significa, em termos psicológicos, que a experiência do aspecto de suporte da psique arquetípica tem mais probabilidade de ocorrer quando o ego exauriu seus recursos próprios e está consciente de que, por si mesmo, é essencialmente incapaz. “O limite do homem é a oportunidade de Deus”. </p><cite>EDINGER, 2020, p.68</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O momento que antecede à experiência espiritual de Bill (KURTZ, p.19, 1991, tradução nossa), no Towns Hospital, assemelha-se muito à descrição de Edinger do estado de alienação. Quando a “depressão se aprofundou insuportavelmente”, Bill teve “a impressão de estar no fundo do poço”, em seu deserto, onde, então, Deus teria sido manifestado pela oportunidade da situação. Após “um êxtase que não há palavras para descrever”, Bill relata: “então me ocorreu que eu era um homem livre”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A alienação, conforme colocado por Edinger (2020, p.68), que cita outros autores, é relacionada a diversas experiências religiosas que precedem o momento da rendição. São João da Cruz a denomina como “a noite escura do espírito”, Kierkegaard como o “desespero” e Jung, como a “derrota do ego”, pois, “a vivência do si-mesmo significa uma derrota do eu.” (JUNG, 1990, p.503). Em AA, este momento é conhecido como “o fundo do poço”, conforme observado no relato de Bill.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-a-toa-e-condicao-essencial-para-que-o-individuo-possa-iniciar-os-passos-sendo-nesse-sentido-entendido-como-uma-especie-de-passo-zero-do-programa" style="font-size:17px"><strong>Não à toa, é condição essencial para que o indivíduo possa iniciar os passos, sendo, nesse sentido, entendido como uma espécie de Passo Zero do programa</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Os três primeiros passos compreendem o início e a base de todo o processo de recuperação em AA. Trata-se do rompimento de um padrão de comportamento adicto que, como vimos, assenta-se na relação do ego como o Si-mesmo. É um enfrentamento a nível arquetípico e, portanto, de dimensões bastante desafiadoras. Compreendido como momento chave do processo, naturalmente relaciona-se com o âmago da questão do alcoolismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma vez completados esses passos e alcançado um estado de rendição, com o ego em uma disposição consciente de seu Si-mesmo, é chegado o momento de estabelecer uma rota de desenvolvimento para a nova vida que se apresenta, ainda como possibilidade. A partir do quarto passo, o programa de recuperação busca orientar acerca de como construir essa nova condição, assim como torná-la sustentável. O quarto passo marca, então, não apenas a sequência do processo, mas também o início de uma nova fase.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa etapa, o indivíduo deverá buscar construir sua vida fora do vício da bebida. Isso significa que deverá abandonar o isolamento em que vivia, que lhe serviu para que pudesse seguir utilizando o álcool. Em isolamento, foi perdido o contato com a realidade, que agora deve dar-se pela reconexão, que parte do conhecimento de si em relação ao outro, até o estabelecimento de uma dinâmica psíquica saudável do viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, o 4º Passo diz: “fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos”: uma profunda e honesta investigação moral de si mesmo, das coisas positivas e negativas, portanto, um trabalho de enfrentamento da sombra que é complementado pelo 5º Passo, que traz: “admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas.” <strong>Assim, “a finalidade do quinto passo é colocar nossos pensamentos e percepções do momento dentro da realidade</strong>.” (BURNS, 1995, p.82).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partilha permite que o movimento aconteça, pois, em isolamento isso não é possível. A outra pessoa é quem marcará o “fim” do quarto passo, servindo como ponte de retorno ao mundo material, à “realidade das coisas”, ao fim do isolamento. Todo o percurso é marcado pela admissão perante Deus como forma a manter o contato consciente com o Si-mesmo, guardando, portanto, o ego mais distante de uma recaída no antigo padrão de inflação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até o final, os passos seguem esses mesmos princípios de autoconhecimento, enfrentamento da sombra e busca por um estado relacional harmônico entre o ego e o Si-mesmo. Se examinados em profundidade, revelam diversas camadas de grande conhecimento na lida da vida sob a perspectiva de um alcoólico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No <strong>6º Passo </strong>é dito: “prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter”, seguido pelo 7º Passo onde lemos que: “humildemente, rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições”. Esses passos podem ser compreendidos, psicologicamente, como um apelo à força transformadora subjacente no arquétipo do Si-mesmo, em que os ““defeitos de caráter” podem ser vistos, analiticamente, como o resíduo não transformado de falhas iniciais de desenvolvimento que agora exigem uma força arquetípica para mantê-los sob controle ou transformá-los.” (NAIFEH, 1995, p. 144).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Temos o <strong>8º Passo</strong>, que dá sequência ao processo: “fizemos uma relação de todas as pessoas a quem tínhamos prejudicado e dispusemo-nos a reparar os danos a elas causados”, seguido pelo <strong>9º Passo</strong>: “fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem”. Esses passos representam mais um movimento na direção ao não isolamento, onde fazer as pazes pode ter um efeito curativo nas relações materiais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>10º Passo</strong> é um apelo à constância: “continuamos fazendo o inventário pessoal e quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente”.&nbsp; Como diz Naifeh (1995, p. 144), a leitura psicológica desse passo pode ser: &#8220;nunca se esqueça da sombra&#8221;, indicando, portanto, a importância de se conservar no processo, ou seja, praticando os Passos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim também é o 11º Passo, que alude ao caráter de permanência nos princípios do programa: “procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se no 10º passo mantemos a atenção à realidade da sombra, no <strong>11º</strong> nos é indicado um meio para permanecermos em contato com o Si-mesmo, nosso guia interior, o “Poder superior a nós mesmos”, o “Deus, na forma em que O concebíamos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, o movimento em direção ao outro, ao mundo relacional, dos 8º e 9º passos, vem desaguar aqui no 11º passo, pois, “se quero saber qual é meu contato com Deus, pergunto-me qual é meu contato com as pessoas e coisas em volta de mim.” (BURNS, 1995, p.121).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>12º Passo</strong> é: “tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades”. Dessa maneira, o alcoólico em recuperação pode manter-se distante do isolamento, desenvolvendo-se individualmente pelo ato de servir; fortalecendo, assim, os passos por uma vida em sobriedade alcoólica. Isso significa sedimentar “só por hoje”, dia após dia, o que lhe foi concedido no início do processo, nos passos um, dois e três. Esta mesma condição, agora também lhe abre a possibilidade do movimento em direção ao seu Si-mesmo, ao processo de individuação, pois este “não exclui o mundo; pelo contrário, o engloba.” (JUNG, 2014b, p.187).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na redação dos passos podemos notar a palavra “Deus” em 4 deles, enquanto “Poder superior” é mencionado uma vez. No último passo, temos a palavra espiritual, utilizada para descrever o “despertar” esperado como consequência exitosa desta programação. Apesar destes números, a irmandade busca afirmar que “o programa de AA não é religioso, mas espiritual” (PEQUENA, 2014, p.238), tanto em sua aplicação prática quanto em sua projeção pública. Nas palavras de Bill, “a teologia de cada um é um assunto totalmente pessoal e cabe a cada indivíduo fazer sua busca.” (PEQUENA, 2014, p.240).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa diferenciação foi de muita importância na época da criação de AA para que o programa pudesse congregar religiosos e não religiosos, e também para responder ao contexto histórico-cultural local, de forte religiosidade, vinda inclusive pelo Oxford Group. Dessa maneira, AA buscava uma postura de neutralidade e autonomia, a fim de desenvolver seu trabalho com foco exclusivamente no alcoólico em busca de recuperação, procurando, portanto, não se envolver em nada que o desviasse desse propósito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, ainda que AA se autodeclare um programa espiritual e não religioso (ALCOÓLICOS, 2001), isso não o torna, por força de decreto, isso ou aquilo outro. Do ponto de vista institucional, pode até ser assim, mas não é preciso muito esforço, tampouco frequentar as reuniões da irmandade, para perceber que os 12 Passos podem até ser um programa espiritual, mas não deixam de ser a expressão de uma visão religiosa. Este aparente conflito é respondido pelo contexto da criação de AA, conforme explicitado no parágrafo anterior, assim como pela compreensão de uma perspectiva psicológica para a problemática religiosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> defende em sua obra que a religiosidade habita o mais profundo de nossa psique, fato evidenciado quando afirma que, “se conseguíssemos cortar de uma vez todas as tradições do mundo, toda a mitologia e toda a história das religiões recomeçariam com a geração seguinte.” (JUNG, 2016, p.41).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-mesmo-sentido-busca-desenvolver-por-meio-da-abordagem-psicologica-o-conceito-de-religiao-estabelecido-pelas-igrejas-explicando-que" style="font-size:17px">Nesse mesmo sentido busca desenvolver, por meio da abordagem psicológica, o conceito de religião estabelecido pelas igrejas, explicando que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-default has-text-color has-link-color wp-elements-15" style="color:#315031;font-size:17px"><blockquote><p>“[&#8230;] a libido que constrói imagens religiosas em última análise regride para a mãe, e assim representa aquele laço por meio do qual estamos ligados à nossa origem. Se os Santos Padres deduzem a palavra <em>“religio”</em> de <em>“religare”</em>, podem ao menos referir-se a este fato psicológico para apoiar sua teoria.” </p><cite>JUNG, 2016, p.555</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa maneira, é interessante observarmos como Jung teria dito a Rowland que sua esperança de recuperação seria “tornar-se o sujeito de uma genuína experiência espiritual ou religiosa”, não fazendo, portanto, distinção entre estes termos, pois:</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-default has-text-color has-link-color wp-elements-16" style="color:#2b4f2b;font-size:17px"><blockquote><p>“Religião é &#8211; como diz o vocábulo latino <em>religere</em> &#8211; uma acurada e conscienciosa observação daquilo que Rudolf Otto acertadamente chamou de &#8220;numinoso&#8221;, isto é, uma existência ou um efeito dinâmico não causados por um ato arbitrário. Pelo contrário, o efeito se apodera e domina o sujeito humano, mais sua vítima do que seu criador. Qualquer que seja a sua causa, o numinoso constitui uma condição do sujeito, e é independente de sua vontade. De qualquer modo, tal como o consensus gentium, a doutrina religiosa mostra-nos invariavelmente e em toda a parte que esta condição deve estar ligada a uma causa externa ao indivíduo. O numinoso pode ser a propriedade de um objeto visível, ou o influxo de uma presença invisível, que produzem uma modificação especial na consciência. Tal é, pelo menos, a regra universal.” </p><cite>JUNG, 1978, p.11</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">É contra o perigo de um estado tal de inflação e posterior alienação, que as tradições religiosas sempre atuaram para proteger o indivíduo, mantendo-o vinculado à divindade, ou seja, ao Si-mesmo. Jung aborda isso em sua carta a Bill, incluindo os relacionamentos, em nível de comunidade, como forma de proteção à inflação e alienação. <strong>Nesse mesmo sentido, atuam o AA e seu programa de 12 Passos, servindo como compartimento de proteção ao indivíduo</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A questão é que, assim como os métodos coletivos protegem o homem dos perigos das profundezas psíquicas, também o privam do desenvolvimento que pode ocorrer pela experiência individual dessas mesmas profundezas. Por isso, a compreensão do alcoolismo e sua relação com o AA e os 12 Passos pode contribuir para a abordagem da questão em setting terapêutico junguiano, servindo, inclusive, de apoio a uma condução responsável na ampliação dos limites eventualmente estabelecidos em um programa para a recuperação da adicção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Trata-se, em outras palavras, de contribuir com o indivíduo no sentido da construção de sua autonomia pela incorporação consciente da meta de desenvolver-se, também, no sentido de sua individualidade. Um processo que deve guardar todos os cuidados imagináveis para que a fina linha que nos separa da ilusão de poder não volte a ser cruzada. Para um adicto, psicologicamente, é assim que uma recaída tem início.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: A história de AA e seu entrelaçamento com Jung" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/nJZuC9QKEAU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/andre-orioli/">André Orioli &#8211; Membro Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi- Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-r-eferencias" style="font-size:17px"><strong>R</strong>eferências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">ALCOÓLICOS Anônimos:a história de como milhares de homens e mulheres se recuperaram do alcoolismo. 4° Edição. São Paulo: Junta de Serviços Gerais de Alcóolicos Anônimos do Brasil – JUNAAB, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">BURNS, John E. <em>O caminho dos doze Passos</em>: tratamento de dependência de álcool e outras drogas. 2° Edição. São Paulo: Edições Loyola, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">EDINGER, Edward F. <em>Ego e arquétipo</em>: uma síntese fascinante dos conceitos psicológicos fundamentais de Jung. 2° Edição. São Paulo: Cultrix, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JAMES, William. <em>Variedades da Experiência Religiosa</em>: Um Estudo Sobre a Natureza Humana. São Paulo: Editora Cultrix, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><a>JUNG, Carl Gustav. <em>Psicologia e religião </em>(OC 11/1). Petrópolis: Vozes, 1978.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">______ <em>Mysterium Coniunctionis: </em>Rex e Regina; Adão e Eva; A conjunção (OC 14/2). Petrópolis: Vozes, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">______ <em>O eu e o inconsciente</em> (OC 7/2). Petrópolis: Vozes, 2014a.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">______ <em>A natureza da psique</em> (OC 8/2). Petrópolis: Vozes, 2014b.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">______ <em>Tipos psicológicos</em> (OC 6). Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">______ <em>Símbolos da transformação</em> (OC 5). Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">KURTZ Ernest. <em>Not-God</em>: A History of Alcoholics Anonymous. Center City: Hazelden, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">NAIFEH, Sam. <em>Archetypal foundations </em><em>of </em><em>addiction and recovery</em>. Journal of Analytical Psychology, 1995, 40, p.133-159.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">OS DOZE Passos e as Doze Tradições. São Paulo: Junta de Serviços Gerais de Alcóolicos Anônimos do Brasil – JUNAAB, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">PEQUENA Viagem ao Mundo de AA através dos Artigos do Box 4-5-9 desde maio de 1956. São Paulo: Junta de Serviços Gerais de Alcóolicos Anônimos do Brasil – JUNAAB, 2014. Disponível em: &lt;https://passeamensagem.files.wordpress.com/2015/06/pequena-viagem-pelo-mundo-de-a-a-2-4.pdf&gt;. Acesso em 18 de mar. De 2024.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-anexo-a-os-12-passos-de-aa" style="font-size:15px"><strong>ANEXO A &#8211; Os 12 Passos de AA</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">Disponível em: &lt;<a href="https://www.aa.org.br/informacao-publica/principios-de-a-a/os-doze-passos">https://www.aa.org.br/informacao-publica/principios-de-a-a/os-doze-Passos</a>&gt;. Acesso em: 16 de ago. de 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><strong>1º</strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Admitimos que éramos impotentes perante o álcool &#8211; que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><strong>2º</strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Viemos a acreditar que um Poder superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><strong>3º</strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><strong>4º</strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">5º&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><strong>6º</strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><strong>7º</strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Humildemente, rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><strong>8º</strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Fizemos uma relação de todas as pessoas a quem tínhamos prejudicado e dispusemo-nos a reparar os danos a elas causados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><strong>9º</strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><strong>10º</strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Continuamos fazendo o inventário pessoal e quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><strong>11º</strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><strong>12º</strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> O contexto histórico apresentado no presente capítulo está referenciado em: ALCOÓLICOS, 2011; KURTZ, 1991 e PEQUENA, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> Bill havia sido internado outras 4 vezes entre 1933 e 1934 sob os cuidados do Dr. Silkworth que sempre “incluía sua participação nos esforços de seus pacientes, e a deles, nos seus [&#8230;]”. (KURTZ, p.15, 1991).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">Renomado médico, especializado no tratamento de alcoolismo, Dr. Silkworth foi diretor do Hospital Charles Barnes Towns em Nova York e também um grande incentivador de AA, tendo contribuído com seu depoimento, escrito, de que o alcoolismo compreende uma doença do corpo e da mente, que abrange algo equivalente a uma alergia física, assim como um estado de obsessão e de compulsão pelo álcool. Futuramente, publicaria essa perspectiva nas prestigiadas revistas <em>The Lancet</em> e<em> The Medical Journal. </em>(ALCÓOLICOS, p.23-30, 2001).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><a href="#_ftnref3" id="_ftn3">[3]</a> Antes de chegar a Nietzsche, porém, Jung (2015, p.430), declara: “como precursores do intuicionismo de Nietzsche considero Schopenhauer e Hegel” complementando que, “nesses dois precursores, a intuição estava – se me for permitida a expressão – submetida ao intelecto, em Nietzsche, porém, ela estava acima dele.”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><a href="#_ftnref4" id="_ftn4">[4]</a> Dr. Harry M. Tiebout foi professor da Escola de Medicina da Universidade de Cornell; presidente da Associação Psiquiátrica Americana, onde apresentou diversos estudos acerca do alcoolismo; tratou Bill para depressão entre 1945 e1955; e foi, também, grande colaborador junto ao AA.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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