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	<title>Arquivos aisthesis - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos aisthesis - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Acordai-vos! A enantiodromia vem aí</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Jul 2026 23:36:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Enantiodromia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[aisthesis]]></category>
		<category><![CDATA[enantiodromia]]></category>
		<category><![CDATA[Han]]></category>
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		<category><![CDATA[pallasmaa]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade do Cansaço]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade do espetáculo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente trabalho percebe a cidade contemporânea como um espaço desanimado pelo racionalismo absoluto do "meio-dia de Apolo", que transformou a urbe em um cenário de espetáculo e desempenho. Diante do risco da enantiodromia — a irrupção caótica e violenta do irracional reprimido —, o ensaio defende a aisthesis como caminho para resgatar a anima mundi, devolvendo a alma ao mundo através da capacidade de notar e sentir a interioridade das coisas.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo: </strong>O presente trabalho percebe a cidade contemporânea como um espaço desanimado pelo racionalismo absoluto do &#8220;meio-dia de Apolo&#8221;, que transformou a urbe em um cenário de espetáculo e desempenho. Diante do risco da enantiodromia — a irrupção caótica e violenta do irracional reprimido —, o ensaio defende a <em>aisthesis</em> como caminho para resgatar a <em>anima mundi</em>, devolvendo a alma ao mundo através da capacidade de notar e sentir a interioridade das coisas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong>Este ensaio propõe um olhar para a cidade, para a <em>anima mundi</em>, nos lembrando que não há individuação somente pela individualidade.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Em nosso artigo anterior, <em>O caminho para a alma, o mergulho interior, é para fora</em>, apontamos para a importância do corpo, do encontro sensível, como forma necessária a uma vida com alma. O encontro, nesse sentido, pode ser compreendido como forma de resistência à alienação e à individualidade, compreendendo, portanto, um movimento em direção a totalidade e a individuação. Assim, neste ensaio, buscamos tensionar um pouco mais estas reflexões, direcionando o olhar para o palco primeiro dos encontros, a urbe, pois “eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo não me salvo eu” (GASSET, 2019, p.31).</p>



<h2 id="h-a-alma-nao-termina-na-pele-do-sujeito-ela-estende-se-a-textura-do-real-manifestando-se-no-encontro-com-a-alteridade-do-mundo" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>A alma não termina na pele do sujeito; ela estende-se à textura do real, manifestando-se no encontro com a alteridade do mundo.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como pontuou Jung, a realidade psíquica é um <em>esse in anima</em> &#8211; um ser na alma &#8211; e, portanto, nosso entorno &#8211; a cidade &#8211; não deve ser visto como um cenário inanimado, mas como uma imagem viva da própria alma. O que examinaremos a seguir é como a urbe contemporânea tornou-se o palco de uma visão diurna absoluta que, ao tentar extirpar o mistério e a escuridão, acabou por adoecer o próprio solo em que a vida psíquica deveria florescer.</p>



<h2 id="h-o-meio-dia-de-apolo-o-monoteismo-da-consciencia-e-o-mundo-sem-alma" class="wp-block-heading"><strong>O meio-dia de Apolo: o monoteísmo da consciência e o mundo sem alma</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A configuração das cidades contemporâneas não é um produto do acaso arquitetônico e urbanístico, mas a materialização de uma unilateralidade psíquica que não cessa de crescer. Vivemos sob o regime do meio-dia de Apolo, uma metáfora para o domínio absoluto da consciência solar que, em sua busca por clareza, medida e perfeição, extirpou as sombras e o mistério da pólis. Hillman (1993) observa que Apolo posiciona-se em oposição ao que a consciência rejeita como selvagem, estabelecendo um ideal de beleza que sequestra o sensível para museus e galerias, deixando o espaço público entregue a uma funcionalidade estéril.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este fenômeno encontra seu marco simbólico na transição histórica iniciada pelo Iluminismo, momento em que a Deusa Razão foi coroada, substituindo os antigos símbolos da alma por uma exigência de transparência e controle absoluto. Com o tempo &#8211; e as novas tecnologias de domínio do capital hegemônico &#8211; estabeleceu-se um monoteísmo da consciência que nos governa sob uma espécie de teocracia da razão, na qual a mente racionalista acredita ser a única detentora da verdade e o critério supremo da realidade. Sob esse domínio, erguemos &#8220;muralhas racionalistas contra a eternidade da natureza&#8221; (JUNG, 2014, §739), tentando domesticar o fluxo irracional da vida através de uma ordem técnica que nos isola de nossa própria história natural.</p>



<h2 id="h-o-custo-dessa-supremacia-apolinea-e-um-regime-de-percepcao-que-declara-o-mundo-exterior-como-meramente-res-extensa-uma-materia-inanimada-morta-e-destituida-de-interioridade" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O custo dessa supremacia apolínea é um regime de percepção que declara o mundo exterior como meramente <em>res extensa</em> – uma matéria inanimada, morta e destituída de interioridade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao negarmos que as coisas possuem uma vida anímica, rompemos a conexão com a <em>anima mundi</em>, transformando o mundo, sua natureza, cidades e objetos, em um inventário de recursos materiais e funções úteis. Como resultado, o sujeito caminha só por ruas que não enxerga e, assim, tampouco podem retribuir o seu olhar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse cenário, a urbe e suas arquiteturas deixam de ser um lugar do encontro e do viver para tornarem-se, nas palavras de <strong>Pallasmaa</strong> (2011), arquiteturas da retina. Reforçada pela hegemonia da visão, esse movimento produz ambientes narcisistas e niilistas, projetados para serem contemplados como espetáculos visuais, mas que ignoram a experiência corporificada do sujeito. Debord (2017) complementa essa análise ao afirmar que, na sociedade do espetáculo, a imagem artificial substitui a vivência pulsante, transformando a relação social em algo mediatizado por representações que apartam o indivíduo da realidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A cidade apolínea, com seus arranha-céus que apontam para cima, desviando o olhar da terra, reflete a vaidade de uma consciência que se recusa a olhar para o seu próprio porão arcaico. Um mundo patriarcal que mira o Deus Sol e se esquece de sua própria mãe terra, a Deusa Gaia.</p>



<h2 id="h-o-seculo-do-ego-bernays-e-a-engenharia-do-desejo-citadino" class="wp-block-heading"><strong>O século do ego: Bernays e a engenharia do desejo citadino</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A desanimação profunda da metrópole contemporânea não pode ser compreendida sem revisitarmos as transformações psicossociais ocorridas no século XX, orquestradas por <strong>Edward Bernays</strong>. Conforme documentado em <em>O Século do Ego</em> (2002), Bernays compreendeu que, se as forças irracionais e instintivas ocultas no inconsciente podiam ser desencadeadas para a guerra, elas também poderiam ser canalizadas para o consumo, transformando o cidadão em um consumidor passivo cujos desejos deveriam ofuscar suas necessidades reais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa transição reconfigurou o solo urbano. A cidade deixou de ser o vale de cultivo da psique para tornar-se o palco de uma espécie de engenharia do consentimento. Sob essa orientação, o habitante da cidade foi transformado em um sujeito-de-desempenho, uma peça funcional de uma engrenagem que prioriza o excesso de positividade e a produtividade ilimitada em detrimento da profundidade anímica. Esse imperativo de crescimento, que Hillman (1993) compara a uma dinâmica cancerígena, mantém o ego aprisionado, resultando no que Han (2015) diagnostica como um infarto da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Psicologicamente, esse fenômeno consolidou a primazia da persona em detrimento da individualidade. No mundo regido pelo mercado, o indivíduo é compelido a servir a uma fachada social que não lhe pertence, sacrificando sua singularidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Hillman</strong> (1993) nos lembra que essa preocupação excessiva com o lado de fora reflete a exteriorização de nossas angústias: habitamos cidades de vidro, concreto e aço que apagam as sombras e espelham humanos ocos e desprovidos de orientação superior. Muitos edifícios contemporâneos funcionam como monumentos a um ego autoconfinado e paranoico, enquanto a vida pública ao redor se desintegra em feiura, fome e morte.</p>



<h2 id="h-a-urbe-entre-o-reflexo-e-o-esgotamento-sociedade-do-espetaculo-e-do-cansaco" class="wp-block-heading"><strong>A urbe entre o reflexo e o esgotamento: sociedade do espetáculo e do cansaço</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A cidade manifesta-se hoje como o coração da irrealidade, onde a dinâmica urbana é capturada pelo que Debord (2017) define como a sociedade do espetáculo. Para o autor, vivemos em um tempo que “prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade&#8221; (p.37). Sob esse regime, a vida das sociedades modernas anuncia-se como uma imensa acumulação de espetáculos, na qual tudo o que era diretamente vivido se afastou em uma representação. A cidade deixa de ser o solo dos encontros fortuitos para se tornar uma relação social entre pessoas mediatizada por imagens, convertendo o habitante em um espectador passivo de sua própria existência:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.4">O espetáculo apresenta-se ao mesmo tempo como a própria sociedade, como uma parte da sociedade, e como instrumento de unificação. Enquanto parte da sociedade, ele é expressamente o setor que concentra todo o olhar e toda a consciência. <strong>Pelo próprio fato de este setor ser separado, ele é o lugar do olhar iludido e da falsa consciência; e a unificação que realiza não é outra coisa senão uma linguagem oficial da separação generalizada</strong>. (DEBORD, 2017, p.34, grifo nosso).</p>
</blockquote>



<h2 id="h-no-espetaculo-quanto-mais-ele-o-homem-contempla-menos-vive-quanto-mais-aceita-reconhecer-se-nas-imagens-dominantes-da-necessidade-menos-ele-compreende-a-sua-propria-existencia-e-o-seu-proprio-desejo-debord-2017-p-48" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">No espetáculo, “quanto mais ele [o homem] contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo.” (DEBORD, 2017, p.48).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Hillman, em consonância com essa crítica, observa que a mídia e o mercado converteram o espaço público em um cenário no qual edifícios e praças servem apenas como anteparos para o narcisismo de um ego que busca no brilho das fachadas o preenchimento de um vazio interior. Como resultado, o cidadão torna-se um consumidor de ilusões, operando em um estado de alucinação social onde o verdadeiro é apenas um momento do falso: “a exterioridade do espetáculo em relação ao homem que age aparece nisto, os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhes apresenta.” (p.48).</p>



<h2 id="h-se-em-debord-temos-a-perspectiva-do-espetaculo-em-byung-chul-han-e-a-vez-da-perspectiva-da-sociedade-do-cansaco" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Se em Debord temos a perspectiva do espetáculo, em Byung-Chul Han é a vez da perspectiva da sociedade do cansaço.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Han (2015) argumenta que o começo do século XXI não é mais definido por ataques virais ou bacteriológicos, mas por enfermidades neuronais provocadas pelo excesso de positividade. O habitante da cidade transformou-se no sujeito de desempenho, um indivíduo que, livre da instância externa de domínio que o obrigava a trabalhar, passou a explorar a si mesmo de forma voluntária e implacável. <strong>Nessa engrenagem, agressor e vítima coincidem na mesma pessoa, e a liberdade paradoxalmente se transmuta em uma violência sistêmica contra a própria alma.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Magaldi (2026) observa que essa patologia do “ter que” nos mantém presos, movidos por automatismos cotidianos em que a vida se resume a um inventário de obrigações sem sentido. O excesso de estímulos e a hiper atenção &#8211; uma atenção dispersa caracterizada pela rápida mudança de foco &#8211; destroem a capacidade de uma presença contemplativa, necessária para a cultura e para a filosofia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa aceleração frenética, o sujeito perde o acesso ao tédio profundo, que Benjamin (1994) chamava de o “pássaro onírico que choca o ovo da experiência”. Sem este tempo de pausa e hesitação, a vida psíquica é reduzida patologicamente à velocidade do <em>zeitgeist</em> contemporâneo e todas as suas perversas nuances que nos têm negado a oportunidade da alma.</p>



<h2 id="h-pallasmaa-2011-ve-esse-momento-como-a-hegemonia-da-visao-materializada-em-cidades-projetadas-para-os-olhos-e-que-ignoram-a-corporeidade-do-ser" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Pallasmaa (2011) vê esse momento como a hegemonia da visão, materializada em cidades projetadas para os olhos e que ignoram a corporeidade do ser.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando a arquitetura prioriza o espetáculo visual e a velocidade, &#8220;o pé torna-se escravo do olho&#8221;, e o ato de caminhar transforma-se em uma tarefa chata de meramente cobrir distâncias. Esse entorpecimento estético, reforçado pelo regime de Apolo, exila os ambientes em que a alma respira – a noite, o corpo e o escuro. Temos, assim, uma subjetividade que opera mais como reflexo do que como presença, prisioneira de um universo estreito movido pelas telas do espetáculo e esgotada por um imperativo de poder-poder que nos afasta da totalidade e de qualquer possibilidade de alma.</p>



<h2 id="h-a-unilateralidade-os-perigos-da-enantiodromia-e-o-caminho-da-aisthesis" class="wp-block-heading"><strong>A unilateralidade, os perigos da enantiodromia e o caminho da <em>aisthesis</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O panorama da cidade contemporânea, percorrido anteriormente, revela uma consciência coletiva que se distanciou perigosamente de sua estrutura instintiva e anímica. Ao erguermos &#8220;as muralhas racionalistas”, criamos um sistema de vida pautado por uma transparência solar absoluta que não admite a sombra, o mistério ou a pausa. Entretanto, a psique é um sistema de autorregulação e, como tal, não tolera a unilateralidade indefinidamente. É neste cenário de tensão acumulada que tende a se manifestar a lei da enantiodromia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na urbe contemporânea, essa interrupção manifesta-se nos sintomas de desagregação que a técnica racionalista é incapaz de conter: a violência despersonalizada, as crises de pânico e o sentimento de desamparo que assola as massas.</p>



<h2 id="h-a-tentativa-de-extirpar-o-irracional-das-cidades-gera-um-acumulo-de-energia-no-inconsciente-que-ao-atingir-seu-apice-tende-a-explodir-como-uma-vinganca-dos-deuses-ofendidos" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>A tentativa de extirpar o irracional das cidades gera um acúmulo de energia no inconsciente que, ao atingir seu ápice, tende a explodir como uma vingança dos deuses ofendidos.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Hillman (1993) observa que a alma não cuidada na vida comunitária se transforma em uma criança zangada, que ataca a própria cidade que a despersonalizou, agredindo monumentos, fachadas e prédios públicos que representam a ausência uniforme de alma. Sob a ótica junguiana, a cultura racionalista dirige-se necessariamente para o seu contrário: o aniquilamento irracional da cultura. O homem massificado, vítima dos &#8220;ismos&#8221; e do desempenho, torna-se o solo onde essa virada brusca se prepara.</p>



<h2 id="h-nesse-ponto-de-ruptura-a-tendencia-e-que-o-dionisiaco-o-principio-da-desmedida-do-corpo-que-sente-e-da-dissolucao-das-fronteiras-retorne-nao-mais-como-uma-celebracao-da-vida-mas-como-uma-patologia-disruptiva-como-uma-necessidade-frente-a-um-mundo-radicalmente-apolineo" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><strong>Nesse ponto de ruptura, a tendência é que o dionisíaco – o princípio da desmedida, do corpo que sente e da dissolução das fronteiras – retorne não mais como uma celebração da vida, mas como uma patologia disruptiva, como uma necessidade frente a um mundo radicalmente apolíneo.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como Benjamin (2006) apontou em suas investigações sobre a fisionomia das cidades, a perda da capacidade de transformar a vivência em experiência – <em>erfahrung</em> – gera uma existência muda e selvagem. O desaparecimento do pássaro onírico que choca o ovo da experiência &#8211; o tédio profundo &#8211; retirou o ninho onde a alma poderia gestar novos sentidos para o habitar.</p>



<h2 id="h-sem-este-intervalo-esse-lugar-a-tensao-enantiodromica-tende-a-manifestar-se-de-maneira-caotica-fragmentando-a-personalidade-e-o-tecido-social" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Sem este intervalo, esse lugar, a tensão enantiodrômica tende a manifestar-se de maneira caótica, fragmentando a personalidade e o tecido social:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph">“se o homem se afasta de suas raízes, se não mantém contato consciente com elas, se a sociedade onde vive também as renega, poderão de súbito ocorrer reativações violentas. Imagens arquetípicas irromperão do inconsciente, inundando o consciente. Ver-se-á então quanto tais imagens são atuantes e mesmo capazes de produzir efeitos devastadores pela carga energética que irradiam, tais como fenômenos destrutivos de massa.” (DA SILVEIRA, 2001).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa maneira, para que o peso do pêndulo enantiodrômico não se abata implacavelmente sobre nós, devemos buscar meios de abrir as portas para os conteúdos internos: da sombra ao dionisíaco, de conteúdos pessoais não iluminados às profundezas da alma. Reconhecer, aceitar e se relacionar com esses conteúdos, viver a tensão entre eles e nossas determinações conscientes é como podemos nos diferenciar destes mesmos conteúdos &#8211; no desenvolvimento de nossa personalidade &#8211; na busca por uma existência mais integral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa diferenciação exige que interrompamos o entorpecimento psíquico e passemos a tratar o mundo não mais como matéria morta ou <em>res extensa</em>, mas como psique objetiva que nos olha e nos interpela. Hillman nos propõe um novo sentido de realidade psíquica, fundamentado numa “resposta estética ao mundo” &#8211; resposta que vincula a alma individual à alma do mundo. Sentir e imaginar o mundo não se separam nessa reação do coração: &#8220;para sentir penetrantemente devemos imaginar e, para imaginar com precisão, devemos sentir.&#8221; (HILLMAN, 1993, p.17).</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Devolver a alma ao mundo significa conhecer as coisas naquele sentido adicional de <em>notitia</em>: relações íntimas, conhecimento carnal.” (p.22). Significa o retorno do ato de notar como uma atividade primária da alma:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Notitia</em> refere-se àquela capacidade de formar noções verdadeiras das coisas a partir da observação atenta &#8211; notar. É desse notar que depende o conhecimento. Na psicologia profunda, <em>notitia</em> foi limitada por nossa visão subjetiva da realidade psíquica, de modo que a atenção é aprimorada principalmente em relação aos estados subjetivos. (HILLMAN, 1993, p.21).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">“Perceber o valor das coisas e as virtudes nelas presentes requer uma linguagem de valores e virtudes, um retorno das qualidades secundárias das coisas – cores, texturas, sabores.” (p.22). A <em>notitia</em> requer uma linguagem poética: “o movimento para o coração já é um movimento de <em>poesis</em>: metafórico, psicológico.” (p.18).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez a saída esteja em reaprender a habitar o mundo poeticamente. Entre Apolo e Dioniso, a <em>aisthesis</em> surge como possibilidade de reconciliação: um retorno sensível e criativo à existência, onde a cidade deixa de ser apenas estrutura e volta a tornar-se morada da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/andre-orioli/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/andre-orioli/">André Orioli – Membro Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BENJAMIN, Walter. <em>Obras Escolhidas I</em>: Magia e técnica, arte e política. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BENJAMIN, Walter. <em>Passagens</em>. Organização de Willi Bolle. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DA SILVEIRA, Nise. <em>O mundo das imagens</em>.São Paulo: Atica, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GASSET, José Ortega y; Meditações do Quixote. Campinas: Vide Editorial, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James. Cidade &amp; Alma. São Paulo: Studio Nobel, 1993.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em> (OC 8/2). Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI, Waldemar. <em>A alquimia da vontade</em>: Do Peso do “Ter que” ao Voo do “Querer”. (Artigo IJEP). 2026. &lt; <a href="https://blog.ijep.com.br/a-alquimia-da-vontade-do-peso-do-ter-que-ao-voo-do-querer/">https://blog.ijep.com.br/a-alquimia-da-vontade-do-peso-do-ter-que-ao-voo-do-querer/</a>&gt;. Acesso em: 7 de mar. de 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O SÉCULO DO EGO. Documentário. Direção de Adam Curtis. Londres: BBC, 2002. &lt; <a href="https://www.youtube.com/watch?v=sYlzJO2jd9k">https://passeamensagem.wordpress.com/2013/03/29/carta-de-bill-w-a-carl-jung/</a>&gt;. Acesso em: 7 de mar. de 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PALLASMAA, Juhani. Os olhos da pele: a arquitetura e os sentidos. São Paulo: Bookman, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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