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	<title>Arquivos crimes sexuais - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos crimes sexuais - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>A Noiva do Barba Azul: O Animus negativo, o Complexo Paterno e a fidelidade à ferida no Vínculo da Mulher com o Agressor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alessandra Brizotti Mazzieri]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Sep 2026 17:14:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[anima/animus]]></category>
		<category><![CDATA[Contos de Fada]]></category>
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		<category><![CDATA[thiago brennand]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este texto investiga, à luz da psicologia analítica, porque mulheres permanecem em vínculos violentos, propondo que a resposta não está na fraqueza de caráter, mas na teoria dos complexos. Sendo o pai o primeiro portador da imagem do masculino interior, o complexo paterno negativo faz com que essa imagem se forme sob a ferida, e é então que o animus se constitui em sua face negativa, como a voz que primeiro condena internamente e depois se projeta sobre o agressor, de modo que a mulher reconhece nele não o perigo, mas a própria ferida. Amplificado pelo conto "Barba Azul", o argumento mostra que a sombra negada acrescenta o fascínio pela força não vivida e que a fidelidade à ferida explica a repetição. A responsabilidade pela agressão, contudo, é sempre do agressor, e o olhar analítico não procura culpad os, mas integração. Conclui que tornar consciente o que opera dentro é o que impede que retorne como destino, e que a individuação significa converter o animus de carrasco em aliado.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-noiva-do-barba-azul-o-animus-negativo-o-complexo-paterno-e-a-fidelidade-a-ferida-no-vinculo-da-mulher-com-o-agressor/">A Noiva do Barba Azul: O Animus negativo, o Complexo Paterno e a fidelidade à ferida no Vínculo da Mulher com o Agressor</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg" style="font-size:17px"><blockquote><p><em>“Há uniões que não começam no encontro com o outro,</em><br><em>mas no reencontro com uma ferida antiga.”</em></p><cite>Alessandra Mazzieri</cite></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg" style="font-size:17px"><blockquote><p><em>“Quando uma situação interna não é tornada consciente,</em><br><em>ela aparece fora como destino.”</em> </p><cite>Carl Gustav Jung</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Este texto investiga, à luz da psicologia analítica, porque mulheres permanecem em vínculos violentos, propondo que a resposta não está na fraqueza de caráter, mas na teoria dos complexos. Sendo o pai o primeiro portador da imagem do masculino interior, o complexo paterno negativo faz com que essa imagem se forme sob a ferida, e é então que o animus se constitui em sua face negativa, como a voz que primeiro condena internamente e depois se projeta sobre o agressor, de modo que a mulher reconhece nele não o perigo, mas a própria ferida. Amplificado pelo conto &#8220;Barba Azul&#8221;, o argumento mostra que a sombra negada acrescenta o fascínio pela força não vivida e que a fidelidade à ferida explica a repetição. A responsabilidade pela agressão, contudo, é sempre do agressor, e o olhar analítico não procura culpados, mas integração. Conclui que tornar consciente o que opera dentro é o que impede que retorne como destino, e que a individuação significa converter o animus de carrasco em aliado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em junho deste ano (2026), o noticiário brasileiro registrou um episódio que condensa, em um único gesto, a pergunta que aqui se quer enfrentar. Thiago Brennand, empresário condenado por estupro, com pena superior a dez anos em regime fechado, réu em processos por crimes sexuais, lesão corporal e cárcere privado, anunciou que se casaria, por procuração, com uma das advogadas de sua defesa. A profissional, que passara a integrar a equipe poucos meses antes, relatou que o vínculo nascera nos encontros do parlatório, declarou acreditar em sua inocência e afirmou que “as pessoas criaram a imagem de um monstro”, descrevendo-o, ao contrário, como alguém inteligente e interessante (BERGAMO, 2026).</p>



<h2 id="h-este-artigo-nao-se-propoe-nem-teria-meios-a-analisar-a-psique-de-qualquer-mulher-nomeada-na-imprensa-a-vida-interior-de-uma-pessoa-concreta-nao-se-deixa-ler-por-noticias-e-a-clinica-nao-o-noticiario-e-o-unico-lugar-legitimo-de-uma-analise" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Este artigo não se propõe (nem teria meios) a analisar a psique de qualquer mulher nomeada na imprensa. A vida interior de uma pessoa concreta não se deixa ler por notícias, e a clínica, não o noticiário, é o único lugar legítimo de uma análise.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O caso interessa por outro motivo: porque torna visível, sob holofotes, um movimento que se repete na sombra de incontáveis histórias anônimas que é o da mulher que, diante de um homem reconhecidamente perigoso, encontra razões para não ver o perigo. É esse movimento, e não esta ou aquela pessoa, que se busca compreender.</p>



<h2 id="h-o-presente-estudo-investiga-o-movimento-psiquico-que-conduz-mulheres-a-se-ligarem-afetiva-e-conjugalmente-a-homens-agressores" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">O presente estudo investiga o movimento psíquico que conduz mulheres a se ligarem, afetiva e conjugalmente, a homens agressores.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não se trata, aqui, de descrever a violência em seus aspectos sociológicos ou jurídicos, tampouco de discutir os mecanismos de permanência no ciclo da agressão. O recorte é outro e anterior, qual seja, compreender, à luz da psicologia analítica de C. G. Jung, a dinâmica inconsciente que opera antes da escolha consciente, aquilo que, no escuro da alma, reconhece no agressor um rosto familiar e a ele se entrega como quem volta para casa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Convém, de início, uma distinção ética e clínica, sem a qual todo o restante se corrompe. Compreender o movimento inconsciente da mulher não é, em hipótese alguma, atribuir-lhe a culpa pela violência sofrida. A responsabilidade pela agressão é, sempre e integralmente, do agressor. O olhar analítico não procura culpados, mas procura integração e libertação. Ao tornar consciente o que opera no automatismo, devolve-se à mulher a possibilidade de escolha que o complexo lhe havia tomado. É nesse espírito, o de iluminar para libertar, jamais o de julgar, que este texto se constrói.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A pergunta que organiza a investigação é simples e desconcertante: por que, diante de tantos sinais, algo na mulher diz <em>sim</em>? A resposta junguiana não está na fraqueza de caráter nem na ingenuidade. Está na teoria dos complexos, no campo das projeções e na lógica secreta segundo a qual a consciência, quando não recorda, repete.</p>



<h2 id="h-a-casa-de-barba-azul-a-amplificacao-do-conto" class="wp-block-heading"><strong>A casa de Barba Azul: a amplificação do conto</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nenhuma imagem traduz essa ligação com tanta precisão quanto o conto de Barba Azul. Um homem rico, de barba estranhamente azul (marca de algo que destoa da natureza), corteja três irmãs. As mais velhas recuam diante do que nele há de inquietante. A mais nova, depois de uma festa em que o estranho se faz encantador, convence-se de que a barba, afinal, não é assim tão azul. Casa-se. Recebe as chaves do castelo e uma única interdição: pode abrir todas as portas, menos uma. Na ausência do marido, movida pela curiosidade, abre justamente essa. Encontra uma câmara ensanguentada onde jazem as esposas anteriores, todas mortas pelo mesmo homem. A chave, manchada de sangue, não se deixa limpar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O conto, porém, não termina na câmara. De volta antes do prazo anunciado, Barba Azul reconhece na chave o sangue que denuncia a desobediência e comunica à jovem que ela terá o mesmo destino das que a precederam. Ela pede um último tempo antes de morrer e, nesse intervalo arrancado à sentença, chama por seus irmãos. Eles chegam a galope, arrombam as portas do castelo e, de armas em punho, abatem o predador, cujo corpo é deixado às aves de rapina. À sobrevivente cabe, ao final, o castelo e os bens daquele que pretendia matá-la. É um desfecho que, lido às pressas, soa como um socorro vindo de fora, e é justamente aí que a leitura junguiana encontrará seu ponto de maior interesse, como adiante se verá.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Clarissa Pinkola Estés</strong> (2018) narra o <strong>Barba Azul</strong> como a figura do <em>predador natural da psique</em>, qual seja, uma força inata, contrária à vida, que habita o interior de toda mulher e, ao mesmo tempo, encontra encarnação no mundo externo.</p>



<h2 id="h-o-predador-nao-quer-apenas-dominar-mas-quer-extinguir-a-vida-instintiva-criativa-e-sabia-da-mulher-seu-metodo-e-a-seducao" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">O predador não quer apenas dominar, mas quer extinguir a vida instintiva, criativa e sábia da mulher. Seu método é a sedução.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ele não chega como monstro, mas sim como noivo encantador, e conta com um detalhe decisivo, qual seja, que a jovem desacredite dos próprios instintos. As irmãs que recuam representam a intuição que adverte. O ruído surdo que diz “há algo errado”. A mulher cativada silencia esse ruído e racionaliza, convencendo-se de que a barba não é tão azul assim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é preciso retroceder aos contos para ouvir esse silenciamento. Quando, diante de condenações por violência, se afirma publicamente que o monstro é uma invenção alheia, ressoa, no plano coletivo, o mesmo gesto da jovem que decide que a barba, afinal, não era assim tão azul. O conto não envelheceu, mas apenas trocou de cenário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A interpretação de Clarissa Pinkola Estés oferece o primeiro fio do enredo psíquico. O enlace com o agressor começa, muitas vezes, com a desautorização da própria percepção. O instinto avisa, mas a consciência, fascinada, recusa o aviso. E é aqui que o conto se torna mapa: a chave proibida é o desejo de saber, e a curiosidade (longe de ser o defeito que a interdição quer punir) é a função salvadora. Ver a câmara ensanguentada é doloroso, mas é o único caminho para fora. A chave que não se limpa simboliza a impossibilidade de desconhecer aquilo que finalmente se viu. Conhecer custa, e é irreversível e nisso reside tanto a ferida quanto a cura.</p>



<h2 id="h-a-raiz-o-complexo-paterno-e-a-primeira-imagem-do-masculino" class="wp-block-heading"><strong>A raiz: o complexo paterno e a primeira imagem do masculino</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se o conto descreve o movimento, a psicologia analítica explica sua origem. Para Jung, as figuras parentais não são apenas pessoas, são portadoras de imagos arquetípicas. O pai pessoal ativa, na filha, o arquétipo do pai, e dessa combinação entre o real e o arquetípico forma-se o complexo paterno, que é o núcleo afetivo, parcialmente autônomo, em torno do qual se organizará boa parte da vida relacional da mulher (JUNG, 2016).</p>



<h2 id="h-jung-observa-que-os-complexos-se-comportam-como-personalidades-parciais-cindidas-dotadas-de-vontade-propria" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Jung observa que os complexos se comportam como “personalidades parciais” cindidas, dotadas de vontade própria.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não os temos, mas eles nos têm. Quando o complexo paterno se constela em torno de um pai ausente, frio, idealizado ou tirânico, instala-se na filha um padrão: o masculino interno é vivido como aquilo que ora abandona, ora domina. Esse padrão então sai do campo teórico e atua na vida como escolha, mas quem escolhe, na realidade, é o complexo. Diante de um homem que reproduz a temperatura afetiva do pai ferido, a mulher experimenta não estranheza, mas reconhecimento. E o reconhecimento, na psique, costuma ser confundido com amor.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Susan E. Schwartz </strong>(2023), em investigação junguiana sobre <em>o efeito da ausência paterna nas filhas</em>, descreve como o pai emocionalmente ausente ou &#8220;morto&#8221; (ainda que fisicamente presente) deixa na filha uma insegurança de si, um esfacelamento do senso de identidade e, sobretudo, um silenciamento da voz. Da ferida paterna não elaborada nasce o complexo paterno negativo, e com ele uma personalidade adaptada, que a autora chama de &#8220;como se&#8221;, construída para agradar diante da falta de espelhamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Privada da voz que discrimina e protesta, e movida pelo desejo paterno nunca saciado, a filha tende a procurar no parceiro o reconhecimento que o pai não deu, o que a torna especialmente vulnerável a homens que ocupam esse lugar de autoridade paterna, mesmo quando esse lugar é ocupado pela dominação. A ferida, não elaborada, transforma-se então em bússola avariada que aponta, sistematicamente, para o lugar errado.</p>



<h2 id="h-a-possessao-e-a-projecao-o-animus-negativo" class="wp-block-heading"><strong>A possessão e a projeção: o <em>animus</em> negativo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">É sobre o solo do complexo paterno que se ergue a figura central desta análise: o <em>animus</em>. Jung define o <em>animus</em> como a personificação do princípio masculino no inconsciente da mulher, contraparte da anima no homem. O pai é o primeiro portador da imagem do <em>animus</em> e é dele que a filha recebe o molde inicial do masculino interior (JUNG, 2014; 2015). Quando essa imagem se forma sob a ferida, o <em>animus</em> se constitui em sua face negativa.</p>



<h2 id="h-o-animus-negativo-manifesta-se-primeiro-como-voz-interna-nao-e-uma-emocao-difusa-mas-um-veredito-jung-condensou-essa-diferenca-em-uma-formula-precisa-assim-como-a-anima-produz-humores-o-animus-produz-opinioes-jung-2014" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O <em>animus</em> negativo manifesta-se, primeiro, como voz interna. Não é uma emoção difusa, mas um veredito. Jung condensou essa diferença em uma fórmula precisa: “Assim como a anima produz humores, o <em>animus</em> produz opiniões.” (JUNG, 2014)</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essas opiniões não dialogam, elas sentenciam. São juízos <em>a priori</em>, generalizações coletivas, um tribunal interior que repete à mulher que ela não presta, que não merece, que não conseguirá, que deve agradar para não ser abandonada. Emma Jung (2020), em estudo fundamental, descreve como esse <em>animus</em> inferior aparece muitas vezes na forma de uma pluralidade, uma assembleia de juízes anônimos, e como ele rouba à mulher a relação viva consigo mesma, substituindo-a por convicções rígidas e impessoais. A mulher possuída pelo <em>animus</em> negativo já carrega, dentro de si, um agressor antes de encontrar qualquer um lá fora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O segundo movimento é a projeção. Aquilo que permanece inconsciente não desaparece: é lançado para fora e revestido sobre uma pessoa real. O <em>animus</em> negativo, não reconhecido, projeta-se sobre o homem que oferece um “gancho” adequado, e o homem dominador, frio ou violento é o gancho perfeito, pois corresponde, traço a traço, à imagem interna. Jung adverte sobre o efeito isolador da projeção: “O efeito da projeção é isolar o sujeito de seu meio ambiente, na medida em que, em lugar de uma relação real com este, passa a existir apenas uma relação ilusória.” (JUNG, 2015)</p>



<h2 id="h-a-mulher-entao-nao-se-relaciona-com-o-homem-que-ali-esta-mas-com-a-imagem-que-sobre-ele-depositou" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A mulher, então, não se relaciona com o homem que ali está, mas com a imagem que sobre ele depositou.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não vê o agressor, vê o pai a ser finalmente conquistado, o masculino a ser enfim domado, a ferida a ser por fim curada. O parceiro real torna-se tela. E quanto mais a projeção fascina, mais cega, porque o fascínio, em linguagem junguiana, é um sinal inconfundível de que um conteúdo inconsciente foi tocado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há, ainda, um terceiro elemento, a sombra, que é frequentemente esquecida. A mulher educada para a docilidade pode ter exilado a própria agressividade, a própria força, o próprio poder de dizer não. Esses conteúdos, recusados, não somem e projetam-se. O homem violento passa a “viver”, de modo brutal e externo, ou seja, com a potência que ela própria não se autorizou a habitar. Ligar-se a ele é uma forma distorcida de permanecer perto de uma força que lhe pertence, mas que ela não reconhece como sua.</p>



<h2 id="h-a-fidelidade-a-ferida-eros-e-pathos" class="wp-block-heading"><strong>A fidelidade à ferida: Eros e Pathos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Resta agora o mais difícil. Compreender o por que a mulher permanece, e por que, rompido um vínculo, ela tantas vezes reencontra outro idêntico. A leitura puramente defensiva, que seria: “ela não tem para onde ir”, “ela tem medo”&#8230; é verdadeira, mas insuficiente.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Aldo Carotenuto</strong> (2010) oferece o ângulo que falta. Em sua investigação sobre as relações entre amor e sofrimento, o autor sustenta que o pathos (o padecer) não é um acidente do amor, mas uma de suas dimensões constitutivas. Há, no sofrimento amoroso, uma intensidade que toca o fundo da alma e que pode ser secretamente buscada. Para quem só se sentiu vivo na dor, a paz soa como vazio, e o amor sem tormento parece não ser amor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Compreende-se assim a fidelidade à ferida. A repetição não é mero erro de avaliação, é uma tentativa (fracassada, mas tenaz) de elaborar aquilo que ficou em aberto. A psique reencena o trauma original na esperança de, desta vez, lhe dar outro desfecho. É a lógica da compulsão à repetição vista por dentro. Não se repete porque se quer sofrer, mas porque se busca, no mesmo enredo, a cura que da primeira vez não veio. Sem consciência, porém, a reencenação apenas aprofunda a rachadura.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Marion Woodman</strong> (1980) acrescenta a dimensão do feminino traído. A mulher cindida de seu próprio corpo e de seu instinto, identificada com os valores de um coletivo que a ensinou a se anular e a buscar a perfeição que agrada, perde o solo a partir do qual poderia discriminar o que nutre do que destrói. Sem enraizamento no feminino instintivo, naquela mesma sabedoria das irmãs de Barba Azul que dizem “recue”, ela fica entregue ao <em>animus</em> negativo e às uniões que repetem o abandono. O corpo sabe, mas ela foi ensinada a não o escutar.</p>



<h2 id="h-a-travessia-da-posse-a-consciencia" class="wp-block-heading"><strong>A travessia: da posse à consciência</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se o problema é a inconsciência, o caminho é o seu oposto. No conto, a salvação não vem de fora por acaso, uma vez que a mulher, tendo visto a câmara, chama por socorro, e os irmãos chegam para destroçar o predador. Em termos junguianos, esses irmãos não são apenas resgatadores externos, mas representam o despertar do <em>animus</em> saudável, ou seja, a força masculina interior que, agora a serviço da vida, é capaz de cortar o vínculo, de discriminar, de proteger. A mesma energia que, possuída e projetada a aprisionava, uma vez integrada, a liberta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A tarefa analítica é, portanto, dupla. Primeiro, retirar a projeção. Reconhecer que o pai a ser conquistado e a ferida a ser curada não estão no parceiro, mas dentro de si. Jung descreve a retirada da projeção como uma das realizações morais mais difíceis, justamente porque exige assumir como próprio aquilo que era tão mais cômodo ver no outro. Segundo transformar o <em>animus</em>, do tribunal que condena à função que Jung chama de <em>psicopompo</em> (o guia), a ponte entre a consciência e o Self, que confere à mulher firmeza de discernimento, palavra própria e capacidade de deliberação (JUNG, 2014).</p>



<h2 id="h-esse-e-o-movimento-da-individuacao-aplicado-ao-tema" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Esse é o movimento da individuação aplicado ao tema.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não se trata de a mulher “endurecer” ou de renunciar ao amor, mas de recuperar a relação com o próprio instinto, de escutar de novo o ruído surdo que adverte, de reaver a força exilada na sombra e de converter a voz interna que a diminui em voz que a orienta. Quando o masculino interior deixa de ser carrasco e passa a ser aliado, o homem externo perde a função de tela e, talvez pela primeira vez, pode ser visto como de fato é. Só então a escolha é, verdadeiramente, escolha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Percorrido esse caminho, o vínculo da mulher com o agressor deixa de se apresentar como enigma e revela-se antes como itinerário. Na raiz está o complexo paterno negativo, que molda a primeira imagem do masculino como aquilo que ora abandona, ora domina.</p>



<h2 id="h-sobre-essa-raiz-ergue-se-o-animus-negativo-que-primeiro-possui-a-mulher-na-forma-da-voz-que-a-condena-e-depois-se-projeta-sobre-o-homem-que-lhe-serve-de-gancho-de-modo-que-ela-nao-ve-o-agressor-mas-a-propria-ferida-revestida-sobre-ele" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Sobre essa raiz ergue-se o <em>animus</em> negativo, que primeiro possui a mulher na forma da voz que a condena e depois se projeta sobre o homem que lhe serve de gancho, de modo que ela não vê o agressor, mas a própria ferida revestida sobre ele.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A sombra negada acrescenta a esse quadro o fascínio pela força que ela não se autorizou a viver, e a fidelidade à ferida, esclarecida por Carotenuto e Woodman, explica tanto a permanência quanto a repetição, pois a psique reencena o trauma na esperança de finalmente curá-lo e, sem consciência, apenas o aprofunda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Compreende-se, assim, porque Barba Azul não é um conto sobre um monstro externo, mas sobre o instante em que a mulher abre a porta proibida e se recusa a desconhecer o que viu. A chave manchada que não se limpa é, a um só tempo, o preço e o dom do saber, e os irmãos que acorrem ao seu chamado são a força que ela enfim reconhece como sua. Tornar consciente a situação interna é o único modo de impedir que ela continue a aparecer fora, como destino.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>A individuação, aqui, tem um nome muito concreto, que é deixar de confundir reconhecimento com amor e reconhecer-se, por fim, como aquela que tem mãos para empunhar a própria chave.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/alessandra-brizotti-mazzieri/">Alessandra Mazzieri &#8211; Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Vídeo de apresentação do artigo:</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BERGAMO, Mônica. Thiago Brennand vai se casar com a própria advogada de dentro da prisão. Folha de S.Paulo, São Paulo, 22 jun. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2026/06/thiago-brennand-vai-se-casar-com-a-propria-advogada-de-dentro-da-prisao.shtml. Acesso em: 28 jul. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CAROTENUTO, Aldo. <strong>Eros e Pathos: amor e sofrimento</strong>. Edição Digital. São Paulo: Paulus, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ESTÉS, Clarissa Pinkola. <strong>Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem</strong>. Rio de Janeiro: Rocco, 2018</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>O eu e o inconsciente</strong>. Edição digital. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. <strong>Aion:</strong> estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. Edição digital. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. <strong>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</strong>. Edição digital. Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Emma. <strong>Animus e Anima</strong>. São Paulo: Cultrix. 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SCHWARTZ, Susan E. <strong>O efeito da ausência do pai nas filhas</strong>. Desejo paterno, ferida paterna. 4ª reimpressão, Petrópolis: Vozes, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WOODMAN, Marion. <strong>A coruja e a filha do padeiro</strong>. São Paulo, Cultrix. 1980.</p>



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