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	<title>Arquivos crises - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Mon, 20 Jul 2026 20:40:26 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos crises - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Conversas Difíceis: o Outro como Espelho e a ampliação da consciência</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/conversas-dificeis-o-outro-como-espelho-e-a-ampliacao-da-consciencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carolina Held dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Jul 2026 19:31:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo propõe uma reflexão, sobre as chamadas “conversas difíceis”, compreendidas aqui como diálogos que mobilizam conteúdos inconscientes e ameaçam a imagem consciente que o sujeito sustenta de si mesmo. A partir dos conceitos de complexo, sombra e ampliação da consciência de Carl Gustav Jung, discute-se a dificuldade contemporânea de sustentar conflitos, diferenças e tensões relacionais. O texto aborda ainda o papel do outro como espelho psíquico e a importância da reflexão como possibilidade de elaboração simbólica dos afetos mobilizados nas relações humanas. Conclui-se que as conversas difíceis, embora frequentemente evitadas, podem constituir importantes oportunidades de transformação psíquica e desenvolvimento da consciência.</p>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>RESUMO</strong>: Este artigo propõe uma reflexão, sobre as chamadas “conversas difíceis”, compreendidas aqui como diálogos que mobilizam conteúdos inconscientes e ameaçam a imagem consciente que o sujeito sustenta de si mesmo. A partir dos conceitos de complexo, sombra e ampliação da consciência de Carl Gustav Jung, discute-se a dificuldade contemporânea de sustentar conflitos, diferenças e tensões relacionais. O texto aborda ainda o papel do outro como espelho psíquico e a importância da reflexão como possibilidade de elaboração simbólica dos afetos mobilizados nas relações humanas. Conclui-se que as conversas difíceis, embora frequentemente evitadas, podem constituir importantes oportunidades de transformação psíquica e desenvolvimento da consciência.</p>



<h2 id="h-introducao" class="wp-block-heading">INTRODUÇÃO</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em um desses dias comuns, enquanto tomava banho e me encontrava distante do estado de presença, completamente atravessada pelo espírito da época da produtividade e constante sensação de não poder perder tempo, comecei a pensar sobre qual seria a temática do meu próximo artigo para o IJEP. Inspirada pelo último atendimento do dia, no qual conversei com o cliente sobre a importância das conversas difíceis, pensei imediatamente: “pronto, este será o tema do meu novo artigo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logo em seguida, porém, surgiu uma inquietação: será que todos compreendem a expressão “conversas difíceis” da mesma maneira que eu e o meu cliente? A partir dessa pergunta, procurei me desvencilhar, ainda que momentaneamente, da minha própria cosmovisão acerca do termo. Para isso, recorri a uma estratégia que aprendi em um livro infantil, no qual um extraterrestre recém-chegado à Terra tentava compreender o mundo humano a partir de seu olhar completamente novo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sob essa perspectiva, “conversas difíceis” poderia significar, por exemplo, uma conversa em um idioma que pouco domino; uma discussão sobre regras de futebol, tema sobre o qual nada entendo; ou até mesmo falar sobre comida em um momento de tentativa de dieta. Percebi, então, que a expressão pode assumir diferentes significados a depender da experiência subjetiva de cada indivíduo. Tornou-se necessário, portanto, delimitar o conceito que utilizarei neste artigo, a fim de tornar mais clara a abordagem que pretendo desenvolver ao longo desta reflexão.&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 id="h-conversas-dificeis" class="wp-block-heading">CONVERSAS DIFÍCEIS</h2>



<p class="wp-block-paragraph">As conversas difíceis às quais me refiro neste artigo não são aquelas que carecem de vocabulário ou de conhecimento técnico específico sobre determinado assunto. Refiro-me, às conversas que mobilizam conteúdos inconscientes; aquelas que evitamos porque ameaçam a imagem consciente que sustentamos de nós mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Trata-se daquele assunto que sabemos ser necessário, mas que, por algum motivo, evitamos e algo em nós resiste. Surge um incômodo difícil de nomear, uma tensão interna, uma vontade de adiar, silenciar ou fugir. E justamente por mobilizarem afetos mais profundos, essas conversas impactam conteúdos psíquicos pertencentes aos nossos complexos, definidos por Jung como:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph"><em>O que é, portanto, cientificamente falando, um “complexo afetivo”? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, comporta-se, na esfera do consciente, como um corpus alienum (corpo estranho), animado de vida própria. Com algum esforço de vontade pode-se, em geral, reprimir o complexo, mas é impossível negar sua existência, e na primeira ocasião favorável ele volta à tona com toda a sua força original [&#8230;]. (JUNG, 2014, § 201)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-neste-contexto-fugir-das-conversas-dificeis-e-de-certa-forma-fugir-de-aspectos-de-nos-mesmos-que-clamam-por-reconhecimento-e-espaco-na-consciencia" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Neste contexto, fugir das conversas difíceis é, de certa forma, fugir de aspectos de nós mesmos que clamam por reconhecimento e espaço na consciência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quanto mais evitamos determinados diálogos, mais os conteúdos psíquicos a eles relacionados tendem a permanecer relegados à sombra, fortalecendo-se no inconsciente e encontrando outras formas de manifestação. Aquilo que não é elaborado conscientemente frequentemente retorna, invadindo-nos por meio de reações desproporcionais, ressentimentos, sintomas ou conflitos recorrentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma, as conversas difíceis tornam-se extremamente necessárias, pois, sob a perspectiva da Psicologia Analítica, uma das principais tarefas do ser humano consiste no processo de autoconhecimento que requer a ampliação da consciência. Tal processo implica, inevitavelmente, no confronto e na integração dos aspectos sombrios da personalidade, ou seja, daqueles conteúdos que o ego tende a rejeitar, negar ou evitar reconhecer em si mesmo. Sobre essa questão, Carl Gustav Jung dispõe:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.4"><em>Infelizmente, não se pode negar que o homem como um todo é menos bom do que ele se imagina ou gostaria de ser. Todo indivíduo é acompanhado por uma sombra, e quanto menos ela estiver incorporada à sua vida consciente, tanto mais escura e espessa ela se tornará. Uma pessoa que toma consciência de sua inferioridade, sempre tem mais possibilidade de corrigi-la. Essa inferioridade se acha em contínuo contacto com outros interesses, de modo que está sempre sujeita a modificações. Mas quando é recalcada e isolada da consciência, nunca será corrigida. E além disso há o perigo de que, num momento de inadvertência, o elemento recalcado irrompa subitamente [&#8230;] (JUNG, 1978, § 131)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-o-outro-como-espelho" class="wp-block-heading">O OUTRO COMO ESPELHO</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em nossos relacionamentos diários, com o cônjuge, pais, filhos, amigos, gestor, subordinado ou em qualquer outra forma de relação, surgem constantemente oportunidades para as conversas difíceis. Isso ocorre porque, enquanto seres humanos, temos fragilidades, potencialidades, desejos, valores e singulares pontos de vista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada indivíduo constrói sua maneira de perceber a realidade a partir de múltiplos fatores: sua ancestralidade, a forma como foi criado, a cultura em que está inserido, o gênero, orientação sexual, raça, contexto social, e, sobretudo, suas experiências emocionais ao longo da vida. Todos esses elementos participam da constituição da subjetividade e moldam a maneira como cada sujeito interpreta os acontecimentos, os relacionamentos e a si mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, a conversa difícil com o outro nos convida a entender que nossa percepção de mundo não é absoluta nem universal. O relacionamento humano nos obriga, muitas vezes, a lidar com perspectivas diferentes das nossas, o que pode despertar frustrações, inseguranças, feridas narcísicas e reações emocionais intensas. Aceitar que o outro possui uma experiência de mundo distinta da nossa, e que tal diferença não representa necessariamente uma ameaça, não é uma tarefa simples.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A dificuldade em sustentar conversas difíceis não implica, necessariamente, ausência de conflitos, mas revela, muitas vezes, uma limitação na capacidade de elaboração consciente das tensões e diferenças. Assim, conteúdos emocionais que não encontram espaço simbólico de expressão tendem a emergir de forma polarizada, defensiva ou violenta, aspectos amplamente perceptíveis na sociedade brasileira contemporânea.</p>



<h2 id="h-o-poder-da-reflexao" class="wp-block-heading">O PODER DA REFLEXÃO</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez, um dos aspectos mais importantes da psique humana seja o instinto de reflexão, ele &nbsp;permite ao sujeito interromper, ainda que momentaneamente, o fluxo imediato de suas emoções e impulsos, possibilitando maior elaboração psíquica diante de uma conversa difícil. Sobre isso, Carl Gustav Jung afirma:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph"><em>O instinto de reflexão talvez constitua a nota característica e a riqueza da psique humana. A reflexão retrata o processo de excitação e conduz o seu impulso para uma série de imagens que, se o estímulo for bastante forte, é reproduzida em nível externo. Esta reprodução concerne seja a todo o processo, seja ao resultado do que se passa interiormente, e tem lugar sob diferentes formas: ora diretamente, como expressão verbal, ora como expressão do pensamento abstrato, como representação dramática ou como comportamento ético, ou ainda como feito científico ou como obra de arte.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Graças ao instinto de reflexão, o processo de excitação se transforma mais ou menos completamente em conteúdos psíquicos, isto é, torna-se uma experiência; um processo natural transformado em um conteúdo consciente. A reflexão é o instinto cultural par excellence, e sua força se revela na maneira como a cultura se afirma em face da natureza. (JUNG, 2014, §§ 242-243)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A reflexão, portanto, possui um papel fundamental nas conversas difíceis, pois possibilita que conteúdos emocionais inicialmente vividos de forma impulsiva possam ser observados, nomeados e elaborados conscientemente. Sem reflexão, o sujeito tende apenas a reagir. Com reflexão, surge a possibilidade de compreender o que determinada situação despertou internamente, favorecendo uma relação menos automática e mais consciente consigo mesmo e com o outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, refletir exige pausa. Exige um movimento contrário ao ritmo acelerado da contemporaneidade, que frequentemente estimula respostas imediatas, posicionamentos rápidos e pouca tolerância ao desconforto emocional. Em uma sociedade marcada pelo excesso de estímulos, pela produtividade constante e pela necessidade de opiniões instantâneas, torna-se cada vez mais difícil sustentar e realizar as conversas difíceis.</p>



<h2 id="h-conclusao" class="wp-block-heading">CONCLUSÃO</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ordenar os conteúdos psíquicos e colocá-los em campo reflexivo torna-se, portanto, essencial para a prática das conversas difíceis. Não se trata apenas de falar, mas de desenvolver a capacidade de escutar simbolicamente aquilo que determinada situação desperta em nós. Muitas vezes, o sofrimento presente em um conflito não decorre exclusivamente do acontecimento atual, mas do fato de que ele toca experiências anteriores ainda não elaboradas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sob essa perspectiva, o processo terapêutico configura-se como um importante espaço para o exercício das conversas difíceis, justamente porque oferece um lugar seguro para que determinados conteúdos possam emergir à consciência e serem elaborados simbolicamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A reflexão transforma a experiência em aprendizado psíquico. Sem ela, o sujeito tende a repetir padrões de forma automática; com ela, surge a possibilidade de transformação. Talvez seja justamente aí que resida a potência das conversas difíceis: não apenas na resolução de conflitos externos, mas na oportunidade de produzir maior consciência sobre si mesmo e sobre a maneira como nos relacionamos com o mundo e com o outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/carolina-santos/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/carolina-santos/">Carolina Held dos Santos&nbsp;&#8211; Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/">Lia Romano &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>REFERÊNCIAS:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Psicologia e Religião. </em>Ed. Digital. Petrópolis: Editora Vozes,1978</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>A natureza da psique</em>. Ed. digital. Petrópolis: Editora Vozes, 2014</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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			</item>
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		<title>A Crise Contemporânea como Mudança de Paradigma</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-crise-contemporanea-como-mudanca-de-paradigma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Mar 2022 23:16:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[crises]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Estamos no final do primeiro quinto do século 21, cientes que habitamos um planeta minúsculo que gravita em torno de uma estrela anã e finita, das 100 bilhões de estrelas que formam a nossa galáxia, ocupando este universo com mais 200 milhões de galáxias. Essas informações nos deixam divididos entre sermos resultante de uma obra divina com propósito finalista ou mero fruto de um acaso evolutivo, mesmo acreditando que das mais de 30 milhões de espécies vivas em nosso planeta, apesar de apenas oito milhões catalogadas, somos a mais complexa e aprimorada, &#8220;partilhando&#8221; e consumindo esse espaço com mais oito bilhões de habitantes humanos. Estas informações geraram desconforto e angustia, porque nos remetem tanto para nossa finitude, quanto para nossa condição ínfima, mas também para o mistério da vida nesta atual sociedade materialista causal, que valoriza o acúmulo quantitativo para dar a sensação de poder e lucro cada vez mais rápido. E, obviamente, para manter a roda capitalista girando em torno do consumo da dívida e do trabalho, essa angústia não é bem vinda e tentamos negá-la de todas as formas!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso somos condicionados a buscar mais informação para mantermos a ilusão de controlar o incontrolável, criando muito barulho interno e externo! Muita agitação, pouca intimidade e mais fogos de artifício, com exposição sem sentido e efêmera, produzindo mais turbulência mental, pressa, ansiedade, efemeridades e incapacidade de vínculos, valorizando apenas o aparecer fugaz para se imaginar ser. Neste contexto temos vários autores denominando nossa época como a do amor líquido (BAUMAN), da extimidade (TISSERON), da sociedade do espetáculo (DEBORD). Há pouco tempo utilizei o termo era do plástico, onde tudo e todos ficam impermeáveis e inertes, impossibilitados de realizar trocas e, consequentemente, cumprir com o sentido e o propósito da vida que, em minha opinião, deveria ser o de servir, amando amar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso ensino é voltado para o externo, deformando os alunos, interditando e até punindo a criatividade genuína (muitas vezes com prescrição de remédios psicoativos como a Ritalina), porque quem destoa da normose patológica incomoda e atrapalha o aparelho alienante. Recrimina a capacidade de duvidar, impede a ousadia e a produção artística, roubando a alegria e a diversão do aprender e transformar, evitando que a espontaneidade da nossa essência se manifeste. Somos treinados a usar nossa memória como depósito de informações e, para não perdê-las, não podemos refletir, perceber fora do quadrado, sentir, pensar ou intuir. Precisamos acumular diplomas para falar de assuntos lógicos, mas não sabemos nada de nós mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa escola forma essa legião de Puer Aeternus, seres egoístas que não toleram a frustração e vivem apenas para a sedução em busca do prazer imediato.&nbsp; No transcorrer da vida, muitos deles viram Trickster, vitimando e vitimados, por transgredirem o sistema legal. O pior é que o final estéril e enantiodrômico dessa massa de Puer/Trickster é a depressão e, na maioria das vezes, quando a loucura não se apresenta, acabam transformando-se em Senix, velhos decrépitos, ranzinzas e egoístas, totalmente apegados ao território e a manutenção do acúmulo. Intolerantes e radicais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Viver o mistério, o encanto, o lúdico do cotidiano transformando o ordinário em uma aventura extraordinária, com humor e alegria é a verdadeira arte, que só aqueles que estão a serviço da alma conseguem realizar. Os outros, infelizmente a maioria comum, perderam o romantismo do viver, ficam aprisionados na miserabilidade egoísta do ego, assumindo a condição de coitados desgraçados, brigando pelas certezas, pela normalidade e, obviamente, pela preservação do território, que é finito e ilusório. O unilateral, o literal, o controle e a segurança são ilusões do ego que produzem as verdadeiras patologias! Apesar disso não podemos abrir mão das utopias, sonhando com a realização dos nossos ideais de individuação e, consequentemente, com um mundo menos desigual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aprender a sabedoria da alma, com o propósito de atingir nossa meta de união com o absoluto, é quase um crime. Porque neste estado teremos impulsos de amar e servir e isso é ruim para o sistema alienante de consumo, acúmulo, dívidas e trabalho sem sentido e significado. Aprendemos a conter as emoções e, com isso, a ficarmos cada vez mais neuróticos, consumindo toda sorte de substâncias psicoativas com intuito de aliviar a angústia e esperar a morte chegar. Para romper esse ciclo é necessária uma crise que produza a metanóia. A mudança de paradigmas, possibilitando o desapego e o cuidado, com resgate da intimidade e do amor, como instrumentos arquétipos em desuso na atualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste sentido que as crises são à base de toda a evolução humana. Não existe a possibilidade de crescimento e de criatividade sem que uma situação de crise seja manifestada. Desta forma, a crise gera sentimentos de violência e de violação, mas também, a possibilidade de tomada de consciência e de evolução criativa. A crise, de maneira violenta, tira o indivíduo de sua rotina profana, onde a vida é vivida sem significado e sem sentido, podendo levá-lo, pela necessidade de superá-la, a uma dimensão sagrada. Com isso, o sagrado que estava imanente torna-se transcendente. Assim, por mais que a humanidade tente negar, parece que estamos na emergência de várias crises, da política ao meio ambiente, da ética aos valores espirituais, para que suas superações possam produzir a superação e o advento de um novo paradigma.</p>



<p class="has-text-align-right wp-block-paragraph"><strong>Autor: Waldemar Magaldi</strong></p>
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