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	<title>Arquivos individuação - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos individuação - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>A sede pela realização em tempos áridos de alienação</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jun 2026 14:06:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[anima/animus]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
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		<category><![CDATA[tornar-se quem se é]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Esse artigo levanta a questão da tão buscada realização, ser realizado. Como podemos entender o que é real, o que é concreto? Coloca-se a figura arquetípica do diabo, passando pelos conceitos de sombra, persona e individuação, bem como as falas e expressões socias na prática clínica sobre o alienar-se em prol de uma chancela social de ser realizado.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-sede-pela-realizacao-em-tempos-aridos-de-alienacao/">A sede pela realização em tempos áridos de alienação</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Esse artigo levanta a questão da tão buscada realização, ser realizado. Como podemos entender o que é real, o que é concreto? Coloca-se a figura arquetípica do diabo, passando pelos conceitos de sombra, persona e individuação, bem como as falas e expressões socias na prática clínica sobre o alienar-se em prol de uma chancela social de ser realizado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Atualmente, há uma pressão constante e visceral para que todos sejam completamente realizados em todos os campos possíveis da vida. Entretanto, esse ópio coletivo acaba drenando a vitalidade úmida da alma, bem como as oportunidades de auto revelação e expressão, sustentado na ignorância e superficialidade do terreno pessoal de conhecimento. Afinal, o que é realização, o que é ser realizado na vida?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao se pensar em algo realizado, a concepção do que é real aparece e se mostra. Ser real ou possuir qualidades que remetam a uma vivência real atravessa o reconhecimento da singularidade presente em cada um, como também a retirada da identificação com a persona e com os ditames coletivos e seus dogmas inquestionáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Viver em um coletivo preservando o subjetivo é uma combinação alquímica complexa e desafiadora, pois há o risco de ora sucumbir em uma mistura indiscriminada da expectativa gerada em nós, ora se excluir completamente da sociedade, levando a vida de um ermitão alicerçada no argumento de ser contra o sistema- gerando uma não adaptação necessária no mundo externo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“As possibilidades de desenvolvimento comentadas nos capítulos anteriores são, no fundo, alienações de si-mesmo, modos de despojar o si-mesmo de sua realidade, em benefício de um papel exterior ou de um significado imaginário. Em ambos os casos, verifica-se uma preponderância do coletivo.” (JUNG, OC.7/2, §267)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na psicologia Junguiana, o conceito de <strong>persona</strong> revela o modo como nos relacionamos com o mundo externos e seus objetos, a construção que elaboramos sustentada em imagem, qualidades e bases morais.</p>



<h2 id="h-muitas-vezes-o-peso-dessa-mascara-dessa-persona-solapa-quem-realmente-somos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Muitas vezes, o peso dessa máscara, dessa persona, solapa quem realmente somos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aquilo que tem o poder de realização, demonstrado ao longo dos mitos, contos e narrativas arquetípicas, muitas vezes não se encontra em um coletivo massificado que funciona como uma engrenagem perfeita e automática, mas sim em campos, em territórios, desconhecidos, distantes e contrastantes.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo.” (JUNG, OC.7/2, §246)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como ousarei ser um biólogo em uma família tradicional de médicos? A tradição dos meus ancestrais tem a força de trabalhar no campo da engenharia. Posso ingressar no campo da psicologia? Aprendi que a vida que realmente importa é aquela com um casamento firme e estável. Porém, a ideia de viver sendo solteiro/a me atrai, ou vice versa. Como lido com isso? A crença religiosa dos meus grupos de amigos é mais tradicional, mais ortodoxa. Entretanto me identifico com religiões ou cultos de origem africana ou oriental. Posso me permitir experienciar caminhos diferentes?</p>



<h2 id="h-se-permitir-questionar-o-proprio-caminho-e-um-ato-de-bravura" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Se permitir questionar o próprio caminho é um ato de bravura.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quem questiona ou reflete sobre seus passos e suas pegadas consegue ampliar suas marcas. A vida não é uma linha reta já definida impossível de ter curvas e reviravoltas. Todavia, se aventurar em outros caminhos contrários ou desconhecidos convoca os fantasmas da insegurança e das dúvidas sobre a própria competência e autorização interna de se reinventar. Essa postura é coibida pelo espirito da época vigente, pois o lema é: trabalhe, não pense; pague seus tributos e confie nos caminhos que todos já fizeram e foram “aprovados” pelo grupo. Ter uma atitude aquariana de ir ao oposto do já determinado e realizar um encontro com sua própria essência e individualidade leonina é rechaçado a todo instante, mas é o caminho que promove uma realização.</p>



<h2 id="h-o-conceito-do-se-individuar-do-tao-conhecido-processo-de-individuacao-passa-na-trilha-do-se-realizar-do-encontrar-aquilo-que-e-mais-genuino-e-autentico-em-si-devolvendo-e-compartilhando-com-o-coletivo-posteriormente-tudo-aquilo-que-conheceu-na-sua-propria-jornada" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O conceito do se individuar, do tão conhecido processo de individuação, passa na trilha do se realizar, do encontrar aquilo que é mais genuíno e autentico em si, devolvendo e compartilhando com o coletivo posteriormente tudo aquilo que conheceu na sua própria jornada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Logo, é um processo de desenvolvimento psíquico, uma elaboração da personalidade para um encontro com a totalidade, no qual há uma <strong>diferenciação da massa</strong> e uma <strong>integração em sua própria natureza</strong>, se tornando real.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“No processo de individuação antecipa uma figura proveniente da síntese dos elementos conscientes e inconscientes da personalidade. É, portanto, um símbolo de unificação dos opostos, um mediador, ou um portador da salvação, um propiciador de completude.”</em> <em>(JUNG, OC.9/1, § 278)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na lâmina 10 do tarô, a roda, há uma roda navegando em um mar; ou flutuando no ar. Esse tema arquétipo convida a não se apegar ao que foi construído e se lançar em uma reviravolta, em ficar balançando ou suspenso em um novo eixo. É uma porta, um portal, uma rachadura que se abre naquilo que é definitivo. Ser realizado abre inúmeras possibilidades de vivências. Afinal, qual a base da construção daquilo que nomeamos como válido? Quais pensamentos e orientações nos inspiram e para quais caminhos levam? O que fazemos com o que nos foi dado e estruturado?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Carregamos uma imagem tão bem formanda sobre nós, certezas tão arraigadas e consolidadas em um suposto saber. Assim como a terra rígida, seca, compactada, naturalmente raxa e abre vincos, a autodeterminação cega e alienada sobre o que há no profundo, formando uma carapaça de “intelectualidade” e bons costumes apoiadas em uma moral virtuosa, possui um prazo de validade. No primeiro impacto, se quebra. Nos primeiros ventos ou ondas do mar psíquico, não se sustenta. O fim de um casamento, a perda de um emprego, uma traição inesperada, uma quebra financeira, uma morte dolorida ou uma experiência anímica traumática. A roda gira, balança, revelando e forçando a realização da natureza interior.</p>



<h2 id="h-uma-figura-arquetipica-presente-nos-campos-ferteis-do-inconsciente-coletivo-e-o-diabo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Uma figura arquetípica presente nos campos férteis do inconsciente coletivo é o diabo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Anjo caído que governa a matéria e suas riquezas. Senhor do oculto e daquilo que não se vê. A asa dupla que estabelece encruzilhadas e dúvidas; que questiona até que ponto conhecemos a totalidade da nossa natureza, inclusive a parte sombria. Um detalhe vale a pena ser colocado: a sombra tem riquezas. Queremos ser realizados? Então teremos que conversar com essa grande figura alada! Não é se identificar com o mal puro, com o mal coletivo e destruidor &#8211; como já dizia Jung, esse mal é real, tem efeitos psicológicos e concretos; mas sim conciliar as potências internas que ficaram misturadas e alocadas no território sombrio da realidade psíquica.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“A autonomia da psique cheira ao primitivo como algo demoníaco e mágico. Consideramos esta atitude perfeitamente normal do primitivo. (&#8230;) havia uma crença generalizada e natural em seres sobre-humanos que, segundo nosso conhecimento atual, eram personificações de conteúdos inconscientes projetados” (JUNG, OC.10/3, §843)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A sombra não é somente um território de podridão e perversidade. Lá contém energia psíquica bruta, não elaborada, rica em força, que não teve a oportunidade de sequer ser reconhecida. O ouro se encontra no fundo e é resultado de um processo constante e longo de temperatura e pressão. Negociamos, conversamos, mediamos, resgatamos, através dessa figura de duas asas, aquilo que nos pertence por direito da vida.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“A sombra, embora seja uma figura negativa per definitionesm, deixa entrever muitas vezes traços ou associações positivas, os quais apontam para um cenário de outro tipo. É como se ela escondesse conteúdos significativos sob um invólucro inferior” (JUNG, OC 9/1, §485)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-realizacao-surge-quando-a-prima-materia-se-transmuta-em-lapis-em-ouro-alquimico-apos-um-processo-de-idas-e-vidas-de-subidas-e-descidas-de-altos-e-baixos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A realização surge quando a prima matéria se transmuta em lápis, em ouro alquímico após um processo de idas e vidas, de subidas e descidas, de altos e baixos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É quase um senso comum que a realização vem no final da vida, depois de uma caminhada árdua de encontros e desencontros. Estamos com paciência, tolerância, para vivenciar esse tempo? Conseguimos sustentar a angústia que esse processo estimula? Em uma época na qual o imediatismo é soberano, não há espaço para a inteligência e para os processos lunares, de autoconhecimento profundo. Uma postagem e uma curtida valem muito mais do que o silêncio de encontrar a si mesmo, mesmo que seus efeitos colaterais sejam um aumento da sensação de solidão, de viver uma vida falsa ou aquela insônia que perturba a nossa paz fraudulenta.</p>



<h2 id="h-lancemos-agora-a-pergunta-de-um-milhao-voce-venderia-sua-alma-em-troca-de-um-reconhecimento-coletivo-e-a-seguranca-de-um-pertencer-em-grupos-sinalizando-um-sucesso-uma-chancela-do-eu-me-realizei" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Lancemos agora a pergunta de um milhão. Você venderia sua alma em troca de um reconhecimento coletivo e a segurança de um pertencer em grupos, sinalizando um sucesso, uma chancela do “Eu me realizei”?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Somos inundados a todo momento por marcadores socias de uma realização: uma eficiência, uma produtividade no trabalho reconhecido por todos; promoções sucessivas e repletas de glória; carros importados e viagens anuais para Europa; graduação em Medicina; um casamento alegre, vivo, instagramável, com filhos, cachorros. A grande questão não é conseguir todos esses marcadores, mas sim ser definidos por eles. Negociar a alma, ou seja, aquilo que há de mais profundo, a água que umidifica a vida, o humus que conecta e aduba a consciência e o viver o aqui e agora, pode levar a derrocada de uma realização real e profunda.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Individuação significa tornar-se único, na medida em que por “individualidade” entendermos nossa singularidade mais intima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo. Podemos pois traduzir “individuação” como “tornar-se a si -mesmo” ou “realizar-se do si-mesmo””. ( JUNG, OC</em> <em>7/2, §266)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-na-pratica-clinica-nao-e-raro-ouvir-de-pessoas-a-queixa-de-se-sentir-falsificado-vivendo-de-uma-maneira-artificial-mesmo-obtendo-tudo-que-o-coletivo-exige-e-chancela" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na prática clínica, não é raro ouvir de pessoas a queixa de se sentir falsificado, vivendo de uma maneira artificial, mesmo obtendo tudo que o coletivo exige e chancela.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Eu me sinto como uma fraude para minha esposa”; “o meu trabalho é somente para pagar boleto”; “não consigo mais ter libido, nem ereção na hora do sexo”; “me sinto um grande impostor para mim mesmo”. </em>As águas internas, a ânima, o eros, precisam de um corpo, de uma terra adequada para poder se concretizar, se realizar, se manifestar. Compramos gato por lebre quando o assunto é autocuidado e expressão do nosso pleno potencial. A cegueira com sua enganação de si se tornou a nova referência do bom sucesso e do que é real.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A culpa é do masculino destruidor ou a culpa é das mulheres que querem ser bancadas. Até mesmo o encontro mais profundo dessas duas potências da realidade psíquica foi deturpado. A diferenciação e a união/agregação se tornaram brigas e rixas, aprofundando o abismo do encontro com o outro, ou seja, o encontro com nós mesmos, que leva ao caminho de se tonar real.</p>



<h2 id="h-por-fim-a-busca-insaciavel-para-sermos-realizados-com-sua-furia-enlouquecida-baseada-em-uma-corrida-de-vantagens-intoxica-quem-entra-nessa-ilusao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Por fim, a busca insaciável para sermos realizados com sua fúria enlouquecida baseada em uma corrida de vantagens intoxica quem entra nessa ilusão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ser real, não é andar pela vida de maneira inconsequente e irreflexiva achando que o meio ambiente e o meio que nos cerca é obrigado a aceitar aquilo que eu sou, meus comportamentos e minhas ideias e falas. É olhar para dentro e conseguir enxergar a multiplicidade com sua complexidade; é ir além de um sucesso profissional, de ter um relacionamento pleno; é encontrar aquilo que há de mais caro em nós mesmos, é nos encontrar e nos enfrentar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É não ser perfeito, é ser inteiro. É expressar a verdade que nos toca, é ampliar imagens e os afetos que nos atravessa; é olhar para as fraquezas e as potencialidades. É ter a abertura para o mundo, reconhecer que a realidade do outro e a minha realidade constroem verdades distintas, que precisam ser integradas e acolhidas para que um dia consigamos transformar a realidade coletiva com suas verdades preconceituosas ou discriminatórias. É ser concreto e íntegro conectado com a totalidade, criando e sendo criativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/pedro-rocha/">Pedro Pimentel Rocha &#8211; Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Vídeo convite:</p>



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</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>O eu e o inconsciente</strong>. OC.7/2. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</strong>. OC.9/1. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Civilização em transição</strong>. OC.10/3. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/introducao-a-teoria-de-carl-gustav-jung-curso-on-line-ao-vivo-32-horas"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="414" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-1024x414.png" alt="" class="wp-image-13090" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-1024x414.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-300x121.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-768x311.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-150x61.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-450x182.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-1200x486.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao.png 1500w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Inscrições abertas no <strong>Curso de Introdução à Teoria de C.G. Jung</strong> &#8211; Para Graduados em Geral &#8211; Vagas limitadas: <a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/introducao-a-teoria-de-carl-gustav-jung-curso-on-line-ao-vivo-32-horas" type="link" id="https://www.ijep.com.br/cursos/show/introducao-a-teoria-de-carl-gustav-jung-curso-on-line-ao-vivo-32-horas">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Anima e Animus: a Mãe como Matriz da Alteridade Psíquica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/anima-e-animus-a-mae-como-matriz-da-alteridade-psiquica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Apr 2026 21:44:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[anima/animus]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[alteridade psíquica]]></category>
		<category><![CDATA[anima e animus]]></category>
		<category><![CDATA[animus na mulher]]></category>
		<category><![CDATA[arquétipo materno]]></category>
		<category><![CDATA[individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Jung e Neumann]]></category>
		<category><![CDATA[Logos e alteridade]]></category>
		<category><![CDATA[mãe na psicologia junguiana. anima no homem]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psique feminina e masculina]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12808</guid>

					<description><![CDATA[<p>O artigo investiga, à luz de Jung e Neumann, o papel decisivo da mãe na formação da Anima no homem e do Animus na mulher. Mais do que figura afetiva, a mãe aparece como matriz simbólica da alteridade, mediando a construção do feminino e do masculino interiores. Ao articular herança transgeracional, função do Logos, dinâmica arquetípica e processo de individuação, o texto propõe uma leitura simbólica, clínica e não reducionista da psique, culminando na reflexão sobre alteridade e coniunctio como núcleos da transformação interior.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/anima-e-animus-a-mae-como-matriz-da-alteridade-psiquica/">Anima e Animus: a Mãe como Matriz da Alteridade Psíquica</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung, em 1949, ao escrever o prefácio do livro de Erich Neumann (1905–1960), <em>A História da Origem da Consciência</em>, deixa explícito o quanto estimulava e desejava que seus seguidores dessem continuidade ao seu legado, ampliando e complementando lacunas de sua teoria, que não pode ficar engessada na literalidade restrita dos seus escritos, promovendo a ampliação simbólica e a compreensão dinâmica e integral da manifestação humana:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Ao ler o manuscrito desse livro percebi como são grandes as desvantagens do trabalho pioneiro: andamos aos trambolhões por campos desconhecidos, somos enganados por analogias, perdemos sempre de novo o fio de Ariadne, somos dominados por novas impressões e possibilidades e – o que é o pior – sabemos sempre muito tarde o que deveríamos ter sabido antes. A segunda geração tem a vantagem de um quadro mais claro, ainda que incompleto; conhece certos marcos que estão localizados ao menos nas proximidades ou ao redor do essencial; sabe o que era preciso saber antes para pesquisar a fundo o território recém-descoberto. Assim aparelhado, pode um representante da segunda geração reunir o que está disperso, resolver um emaranhado de problemas e fazer uma descrição coerente da área toda cuja extensão o pioneiro só consegue ver ao final de sua vida de trabalho.” (Jung, OC 18/2, §234)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mais especificamente na referência da construção psíquica das imagens arquetípicas da Anima e do Animus, levando em consideração as explicações de Jung e as ampliações de Neumann, podemos afirmar que <strong>a formação da Anima recebe preponderantemente a influência materna e, por isso mesmo, no homem ela funciona como uma referência idealizada única, como a Musa Inspiradora</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por outro lado, <strong>a formação do Animus é referenciada preponderantemente do Animus da mãe</strong>, que por sua vez veio do Animus da avó, remontando à pluralidade de experiências das mulheres com o masculino. Por isso, Jung diz que <strong>o Animus é uma legião, sendo o pai biológico ou presente apenas mais uma referência</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Obviamente, essas afirmações são resultantes de mais de 40 anos estudando e ensinando a Psicologia Analítica e das minhas fantasias em poder ampliar e facilitar a compreensão deste magnífico legado. Em relação à fantasia, coloco a seguir mais uma contribuição de Jung:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Se a fantasia for tomada por aquilo que realmente é, ou seja, como expressão natural de vida que podemos, no máximo, entender mas não corrigir, então verificam-se possibilidades significativas de desenvolvimento psíquico, muito importantes para a cura de neuroses psicógenas e de distúrbios psicóticos mais brandos. As fantasias não devem ser avaliadas apenas negativamente, submetidas aos preconceitos racionais, mas elas são fenômenos criativos, tão naturais quanto qualquer outro processo biológico. A fantasia é a vida propriamente natural da psique que traz ao mesmo tempo o fator criativo irracional em si mesma. A sub e supervalorização neurótica e involuntária da fantasia é tão prejudicial para a vida da psique como a condenação ou supressão racionalista, pois a fantasia em si não é uma doença mas uma atividade natural e vital que promove o crescimento do germe do desenvolvimento psíquico.” (Jung, OC 18/2, §1249)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-influencia-da-mae-na-formacao-da-anima-e-do-animus">A influência da mãe na formação da Anima e do Animus</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mãe não é apenas uma figura afetiva da infância, mas um eixo organizador da imaginação arquetípica. Ela participa da formação tanto da Anima no homem quanto do Animus na mulher, não como causa mecânica, mas como primeira mediação concreta do encontro com o feminino e com o masculino interior. Em Jung e em Neumann, a mãe é simultaneamente imagem pessoal, experiência relacional e porta de acesso ao arquétipo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No homem, a mãe imprime as primeiras tonalidades da Anima; na mulher, ela é o primeiro continente do Animus, isto é, da relação psíquica com o Logos, com a palavra que julga, ordena, interpreta, separa e também fecunda. Por isso, falar da mãe é falar de uma matriz de formação do psiquismo em ambos os sexos, embora com configurações distintas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mãe influencia a formação do Animus ao transmitir à filha um conjunto de experiências, afetos, valores e representações do masculino. Ela não “cria” o Animus sozinha, mas participa decisivamente de sua configuração, oferecendo a base psíquica sobre a qual essa imagem arquetípica se organiza. Por isso, o Animus deve ser entendido como uma construção materna, transgeracional, simbólica e coletiva, e não como simples reflexo do pai biológico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em outras palavras, a mãe não transmite apenas conteúdos; ela transmite também um modo de sentir, interpretar e simbolizar a diferença. Seu lugar é estrutural porque inaugura uma gramática afetiva da alteridade. Antes mesmo de a consciência formular conceitos sobre masculino e feminino, a psique já foi marcada por atmosferas, gestos, silêncios, juízos e intensidades relacionais. É nesse solo pré-reflexivo que Anima e Animus começam a adquirir forma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mae-como-primeira-imagem-do-outro-sexo">A mãe como primeira imagem do outro sexo</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung é muito claro ao afirmar que a relação mãe-filho e mãe-filha precede qualquer elaboração consciente da diferença sexual. A mãe é o primeiro ser do outro sexo com o qual a criança entra em contato, e esse contato deixa marcas profundas na organização do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando Jung escreve que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“A mãe é o primeiro ser feminino com o qual o futuro homem entra em contato e ela não pode deixar de aludir, direta ou indiretamente, grosseira ou delicadamente, consciente ou inconscientemente à masculinidade do filho (&#8230;)” (Jung, OC 9/1, §162)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">ele está apontando para algo decisivo: a mãe não transmite apenas cuidado, mas também uma interpretação psíquica da alteridade sexual. No filho, ela afeta a construção da Anima; na filha, ela participa da formação do Animus. Em ambos os casos, a mãe é o primeiro espelho do “outro” dentro do próprio sujeito.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa mediação é ainda mais profunda porque, como Jung observa:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Naturalmente a imagem da mãe individual é impressiva, mas sua impressividade toda particular é devida sobretudo ao fato de estar associada intimamente a uma disposição inconsciente, a um sistema ou imagem inata que é o resultado da relação simbiótica da mãe com o filho, existente desde todos os tempos.” (Jung, OC 8/2, §720)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ou seja, a mãe pessoal jamais é apenas pessoal. Ela toca uma camada arquetípica pré-existente, que organiza a recepção psíquica da criança.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Isso significa que a mãe concreta desperta, encarna e colore uma disposição arquetípica anterior, sem jamais esgotá-la. A experiência individual dá rosto ao que, em profundidade, já pertence à estrutura da alma. Por isso, toda relação com a mãe é simultaneamente biográfica e simbólica, singular e universal, íntima e transindividual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mae-na-formacao-da-anima-no-homem">A mãe na formação da Anima no homem</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No homem, a mãe participa da formação da Anima porque é através dela que o menino experimenta, pela primeira vez, a qualidade do feminino vivo: acolhimento, nutrição, envolvimento, ambivalência, desejo, presença, ausência, ternura, exigência. Esses elementos não se perdem no tempo; eles sedimentam uma imagem interior que depois passa a funcionar como ponte entre o ego e o inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-observa-que-no-homem-a-relacao-com-a-mae-e-profundamente-marcada-pela-ligacao-entre-corpo-atmosfera-psiquica-e-originalidade-da-vida-animica" style="font-size:18px">Jung observa que, no homem, a relação com a mãe é profundamente marcada pela ligação entre corpo, atmosfera psíquica e originalidade da vida anímica:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“A relação mãe-filho é, de qualquer modo, a mais profunda e a mais comovente que se conhece; de fato, por um certo tempo, a criança é, por assim dizer, parte do corpo da mãe. Mais tarde, faz parte da atmosfera psíquica da mãe por vários anos, e, deste modo, tudo o que há de original na criança acha-se indissoluvelmente ligado à imagem da mãe.” (Jung, OC 8/2, §723)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É precisamente essa marca originária que dá à Anima sua função de mediadora. Ela pode surgir como idealização, inspiração, sedução, nostalgia, ou como abertura para o sentido e para a profundidade simbólica. Por isso, a mãe não forma a Anima apenas por presença amorosa; ela a forma também por suas faltas, contradições, excessos e limites.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A Anima, no homem, tende a condensar-se numa figura mais unitária e pessoal. Jung a caracteriza como contraparte do feminino interior, mas sua gênese está profundamente vinculada à experiência da mãe e ao campo emocional no qual o menino aprendeu a amar, desejar e imaginar o feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É justamente por isso que a Anima não deve ser entendida de modo simplista como “imagem da mulher”, mas como forma psíquica da relação com interioridade, receptividade, imaginação, eros e profundidade simbólica. Quando bem relacionada, ela amplia a consciência; quando projetada sem elaboração, pode aprisionar o sujeito em fascínio, idealização ou ressentimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mae-na-formacao-do-animus-na-mulher">A mãe na formação do Animus na mulher</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mãe também é decisiva na formação do Animus da mulher. E isso ocorre porque a mãe não transmite apenas o feminino; ela transmite, consciente e inconscientemente, uma determinada relação com o masculino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-afirma-de-maneira-muito-precisa-que-o-animus-nao-se-apresenta-como-uma-figura-unica-mas-como-multiplicidade" style="font-size:18px">Jung afirma de maneira muito precisa que o Animus não se apresenta como uma figura única, mas como multiplicidade:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Poder-se-ia supor que o animus, à semelhança da anima, se personifica como um homem. A experiência, porém, mostra que tal suposição é só parcialmente verdadeira (&#8230;) O animus não se apresenta como uma pessoa, mas como uma pluralidade de pessoas.” (Jung, OC 7/2, §332)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa pluralidade não surge do nada. Ela é o sedimento de várias experiências femininas com o masculino, e a mãe é a primeira grande depositária dessas experiências. A filha recebe da mãe não apenas um modelo de feminilidade, mas uma constelação de julgamentos, afetos, representações e defesas em torno do masculino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-esclarece-ainda-que-a-atitude-consciente-da-mulher-e-mais-pessoal-e-isso-se-reflete-na-estrutura-do-animus" style="font-size:18px">Jung esclarece ainda que a atitude consciente da mulher é mais pessoal, e isso se reflete na estrutura do Animus:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“No tocante à pluralidade do animus, em contraposição à personalidade única da anima, tal fenômeno singular se me afigura um correlato da atitude consciente. A atitude consciente da mulher é geralmente muito mais pessoal do que a do homem. O mundo feminino é composto de pais e mães, irmãos e irmãs, maridos e filhos.” (Jung, OC 7/2, §338)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa observação é fundamental. A mulher não herda apenas uma ideia abstrata de masculino; ela herda uma teia relacional. A mãe, a avó, o pai, o irmão, o tio, o marido, os homens da linhagem e da cultura participam da fabricação do Animus. Mas a mãe tem posição inaugural, porque é por meio dela que o masculino entra na psique da filha como palavra, julgamento, expectativa, valor, crítica ou verdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse sentido, o Animus não nasce apenas do encontro com homens reais, mas da forma como esses homens já foram simbolizados, narrados, temidos, desejados, idealizados ou condenados pela linhagem materna. A filha recebe não apenas imagens, mas também entonações: o modo como a mãe fala do masculino, reage a ele, submete-se a ele ou o enfrenta entra silenciosamente na tessitura do Animus.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-animus-como-heranca-materna-e-transgeracional">O Animus como herança materna e transgeracional</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A intuição sobre a passagem do Animus pela mãe e pela avó é muito compatível com a ampliação de Neumann. O Animus não é só uma imagem masculina; ele é uma memória cultural encarnada. A mãe carrega em si a história do vínculo da mulher com o masculino e transmite isso à filha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neumann-ajuda-muito-aqui-quando-afirma" style="font-size:18px">Neumann ajuda muito aqui quando afirma:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“O coletivo masculino que, pela criação dos mitos, dá contorno à figura arquetípica do pai, dá, a partir da sua situação cultural, os acentos característicos e as nuances que determinam a forma visível do arquétipo (&#8230;) a diversidade cultural daquilo a que damos o nome de ‘céu’, isto é, as inúmeras imagens do pai-homem que a humanidade conhece, deixou um depósito na experiência inconsciente da mulher.” (Neumann, <em>História das origens da consciência</em>, p. 212)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Isso significa que o Animus é depositário não só da relação da filha com o pai real, mas de uma longa história simbólica do masculino na psique feminina. A mãe é a primeira transmissora dessa história.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neumann-tambem-formula-de-modo-muito-claro-que" style="font-size:18px">Neumann também formula de modo muito claro que:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“A Psicologia Analítica interpreta o homem como um ser duplo, no qual importantes elementos psíquicos do sexo oposto estão sempre presentes em ambos os sexos fisiológicos, a anima no homem, o animus na mulher.” (Neumann, <em>A criança</em>, p. 79)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E acrescenta que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Isto significa não apenas que a consciência culturalmente condicionada da mãe (&#8230;) é por sua vez modelada pelo cânon cultural no qual a mãe vive, mas também que a camada superior do seu inconsciente, com suas avaliações e julgamentos inconscientes, é determinada pelo cânon cultural, que em nosso caso é patriarcal.” (Neumann, <em>A criança</em>, p. 80)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aqui está a chave: a mãe não transmite apenas sua experiência individual; ela transmite também o cânon cultural do seu tempo. Em sociedades patriarcais, isso significa que o Animus da mulher é moldado por vozes masculinas introjetadas, mas também por julgamentos maternos impregnados por essa cultura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, o Animus pode ser compreendido como herança viva, não no sentido fatalista de um destino fechado, mas como uma tradição psíquica que pede elaboração. O transgeracional não é prisão inevitável; é matéria-prima simbólica. O trabalho analítico consiste, precisamente, em discernir o que nessa herança deve ser reconhecido, transformado, integrado ou ultrapassado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mae-como-matriz-do-logos-interior-na-mulher">A mãe como matriz do Logos interior na mulher</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung diz que o Animus, quando integrado, transforma-se em Logos:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Assim o animus é também um psychopompos, isto é, um intermediário entre a consciência e o inconsciente, e uma personificação do inconsciente. Da mesma forma que a anima se transforma em um Eros da consciência, mediante a integração, assim também o animus se transforma em um Logos; da mesma forma que a anima imprime uma relação e uma polaridade na consciência do homem, assim também o animus confere um caráter meditativo, uma capacidade de reflexão e conhecimento à consciência feminina.” (Jung, OC 9/2, §33)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa formulação é decisiva. A mãe, ao formar o Animus da filha, também participa da formação da sua capacidade de pensar, julgar e simbolizar. Se a mãe transmite um masculino interno rígido, dogmático ou agressivo, o Logos da filha tende a aparecer como voz crítica, opinião absoluta, oposição, debate estéril. Se transmite uma relação mais simbólica e viva com o masculino, o Animus pode tornar-se mediador de reflexão, discernimento e conhecimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-a-mae-nao-apenas-influencia-o-conteudo-do-animus-ela-influencia-a-qualidade-da-funcao-espiritual-do-logos-interior" style="font-size:18px">Por isso, a mãe não apenas influencia o conteúdo do Animus; ela influencia a qualidade da função espiritual do Logos interior.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aqui está um ponto decisivo: o Logos não deve ser confundido com mera racionalidade seca ou opinião endurecida. Em seu sentido mais elevado, ele é função de discriminação, inteligibilidade, nomeação e verdade interior. Quando o Animus é elaborado simbolicamente, deixa de ser apenas instância de crítica e passa a ser instrumento de consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mae-como-ponte-e-como-problema">A mãe como ponte e como problema</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A influência materna é ambivalente. Ela pode favorecer a diferenciação psíquica ou dificultá-la. Jung observa que, quando a relação mãe-filho ou mãe-filha é perturbada, surgem marcas duradouras:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Onde falta a figura da mãe individual sob este ou aquele aspecto, verifica-se uma perda ou uma exigência à imagem coletiva da mãe de se realizar. Malogrou-se, por assim dizer, um instinto. Isto, muitas vezes, provoca distúrbios neuróticos ou pelo menos singularidades de caráter.” (Jung, OC 8/2, §720)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neumann, de modo semelhante, mostra que a relação primal é decisiva para o desenvolvimento do eu e da abertura ao mundo. Quando essa relação é bem-sucedida, a criança conserva a capacidade passivo-receptiva e o vínculo com a totalidade; quando é mal-sucedida, o ego pode se organizar defensivamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Isso vale tanto para a Anima quanto para o Animus. Uma mãe excessivamente intrusiva, ausente, idealizada, deprimida ou hostil pode deformar o campo simbólico no qual esses arquétipos se organizam. Mas é importante não psicologizar em excesso nem reduzir o arquetípico ao biográfico. A mãe é sempre pessoal e arquetípica ao mesmo tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em termos clínicos, isso exige prudência. Nem todo sofrimento pode ser reduzido à mãe real, assim como tampouco se pode ignorar seu papel estruturante. O pensamento junguiano pede uma escuta capaz de sustentar simultaneamente o nível biográfico, o nível simbólico e o nível cultural. A simplificação causal empobrece aquilo que, na experiência psíquica, é essencialmente complexo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-animus-como-pluralidade-e-a-fala-materna">O Animus como pluralidade e a fala materna</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung é particularmente agudo ao descrever a presença do Animus nas discussões femininas:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Como o animus tem tendência a argumentar, é nas discussões obstinadas em que mais se faz notar a sua presença (&#8230;) o homem tem a impressão (&#8230;) de que só a sedução, o espancamento ou a violentação podem ainda con‘vencê-la’ (&#8230;) Quem, neste caso, possuísse o senso de humor para escutar a conversa, talvez ficasse espantadíssimo com a imensa quantidade de lugares comuns (&#8230;) É uma conversa que se repete milhares de vezes em todas as línguas da terra, sem nenhuma preocupação com os interlocutores, e que permanece substancialmente sempre a mesma.” (Jung, OC 9/2, §30)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse trecho revela algo muito importante: o Animus frequentemente aparece como uma fala herdada, impessoal, repetitiva. E isso tem muito a ver com a mãe, porque é nela que a filha escuta pela primeira vez a linguagem do valor, da norma, da condenação, da idealização e do sentido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>O Animus, nesse sentido, é muitas vezes a voz da mãe internalizada e transfigurada em Logos crítico.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas é justamente aí que se abre a possibilidade terapêutica e simbólica: distinguir a palavra própria da palavra herdada. Enquanto o Animus permanece inconsciente, ele fala “pela mulher”; quando começa a ser elaborado, a mulher passa a falar a partir de si. Essa passagem do automatismo à consciência é uma das grandes tarefas da individuação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-profundidade-arquetipica-da-mae-em-neumann">A profundidade arquetípica da mãe em Neumann</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neumann aprofunda essa perspectiva ao mostrar que o desenvolvimento vai da mãe para o pai, mas não de modo linear e simplista:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“O desenvolvimento vai da mãe para o pai. &#8230; O simbolismo arquetípico do masculino e do feminino não é biológico e sociológico, mas psicológico; em outras palavras, pessoas femininas também podem ser portadoras do aspecto masculino e vice-versa.” (Neumann, <em>História das origens da consciência</em>, p. 543)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Isso confirma sua formulação: a mãe não é apenas uma pessoa entre outras, mas um centro de passagem entre camadas psíquicas. Ela transmite à filha não só a feminilidade, mas também a presença do masculino interior sob a forma de Animus. E transmite ao filho o feminino interior sob a forma de Anima. Em ambos os casos, a mãe é a primeira grande organizadora da alteridade psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Neumann ainda reforça que:</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Esse fato fundamental (&#8230;) a presença de um princípio masculino, o animus, em sua psique — desempenha um papel crucial, não somente na relação primal mas também na fase durante a qual a criança cresce, separando-se dela.” (Neumann, <em>A criança</em>, p. 79)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ou seja, a mãe não atua apenas no início da vida; ela continua operando na separação, na individuação e na forma como a mulher passa a pensar, desejar e se posicionar no mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mãe, portanto, não é apenas início; é também transição. Ela não participa somente da fusão originária, mas também da possibilidade de separação. É por isso que sua função simbólica é tão paradoxal: ela acolhe e diferencia, contém e lança ao mundo, protege e convoca ao risco da autonomia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-consequencias-clinicas-e-simbolicas">Consequências clínicas e simbólicas</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Do ponto de vista clínico, compreender a influência da mãe na formação do Animus é essencial para não reduzir os conflitos psíquicos a causas imediatas ou biográficas. A questão não é apenas “que pai houve ou não houve”, mas que imagem do masculino foi internalizada na relação materna.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Isso ajuda a entender por que algumas mulheres desenvolvem um Animus excessivamente crítico, dogmático, competitivo ou desqualificador, enquanto outras acessam um Animus mais reflexivo, inspirador e criativo. Em ambos os casos, a mãe teve papel estruturante, mas não determinante de forma mecânica: ela foi o primeiro grande espelho da alteridade masculina.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se quisermos dizer isso de forma concentrada: a mãe é a primeira grande matriz simbólica da psique, e por isso participa decisivamente da formação da Anima no homem e do Animus na mulher.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No homem, ela imprime a qualidade da imagem interior do feminino, favorecendo ou dificultando a mediação com a alma. Na mulher, ela transmite a história do masculino interior, moldando a forma como o Logos, a palavra e o juízo se organizam psiquicamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mãe, portanto, não é apenas origem afetiva; é organização arquetípica da diferença. Por meio dela, o filho aprende a experiência da Anima e a filha recebe a constelação do Animus. E como Jung e Neumann insistem, isso não se reduz ao dado biológico: trata-se de uma dinâmica psíquica, histórica, simbólica e cultural, em que o pessoal e o coletivo se entrelaçam de modo inseparável.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A força clínica dessa formulação está em impedir leituras simplistas e moralizantes. Ela restitui complexidade ao sofrimento psíquico e devolve densidade simbólica à história do sujeito. Em vez de buscar culpados, a reflexão passa a buscar configurações, mediações e possibilidades de transformação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alteridade-e-coniunctio">Alteridade e Coniunctio</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A relação entre Anima e Animus, nesse quadro, pode ser compreendida como uma espécie de coreografia da alma. O homem, para tornar-se mais inteiro, precisa atravessar a imagem da Anima e aprender a escutar aquilo que nela é mais que projeção: a linguagem do inconsciente, o valor da sensibilidade, a potência do símbolo. A mulher, por sua vez, precisa atravessar o Animus e aprender a distinguir entre a voz herdada, a opinião automática e a palavra verdadeiramente interior. Em ambos os sexos, a individuação exige esse trabalho de diferenciação e integração. Não se trata de eliminar Anima e Animus, mas de reconhecer sua autonomia relativa e sua função de ponte.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-a-obra-de-jung-resiste-tao-bem-as-leituras-simplistas-se-lido-literalmente-ele-parece-por-vezes-preso-a-binarismos-de-epoca-mas-lido-simbolicamente-revela-uma-fenomenologia-da-psique-muito-mais-ampla-dinamica-e-plural" style="font-size:18px">Por isso, a obra de Jung resiste tão bem às leituras simplistas. Se lido literalmente, ele parece por vezes preso a binarismos de época. Mas, lido simbolicamente, revela uma fenomenologia da psique muito mais ampla, dinâmica e plural.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Anima e Animus são imagens da alteridade interior; são modos pelos quais o sujeito encontra, dentro de si, aquilo que o desestabiliza e o completa</strong>. Nesse ponto, a mãe ocupa posição inaugural, não porque determine mecanicamente o destino psíquico, mas porque inaugura a gramática profunda do encontro com o outro sexo, com o mundo e consigo mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, a relação entre Anima e Animus em Jung não deve ser entendida como mera teoria dos opostos, mas como uma poética da transformação psíquica. O que está em jogo é a passagem da unilateralidade à complexidade, da consciência rígida à escuta da alma, da identidade estreita à experiência simbólica da alteridade. E a mãe, nessa travessia, é frequentemente a primeira figura que ensina — por amor, por falta ou por excesso — que a alma humana nunca é simples, e que é justamente aí que reside sua grandeza.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É nesse horizonte que a noção de <em>coniunctio</em> adquire sua verdadeira densidade. Ela não designa fusão ingênua entre contrários, nem anulação das diferenças em uma unidade indiferenciada. A <em>coniunctio</em> é, antes, um trabalho simbólico de tensão, diferenciação e integração. Só há união verdadeira quando o outro não é devorado pelo mesmo, nem o mesmo se dissolve passivamente no outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-linguagem-junguiana-isso-significa-que-a-alteridade-nao-e-obstaculo-a-individuacao-ela-e-uma-de-suas-condicoes" style="font-size:18px">Em linguagem junguiana, isso significa que a alteridade não é obstáculo à individuação; ela é uma de suas condições.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O sujeito só se torna mais inteiro quando suporta encontrar, em si mesmo, aquilo que não coincide com sua autoimagem consciente. A Anima e o Animus são precisamente figuras desse “outro interior”: não apenas complementos psíquicos, mas instâncias que questionam a unilateralidade do ego e exigem dele maior amplitude de consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <em>coniunctio</em>, nesse sentido, não acontece como conforto, mas como elaboração. Ela requer confronto com projeções, dissolução de idealizações, crise das imagens fixas e renúncia ao narcisismo da identidade fechada. Não é casamento romântico dos opostos; é <em>opus</em> psíquico. Há algo de alquímico nessa travessia: o que antes estava separado de maneira defensiva precisa ser distinguido, suportado e, então, religado em outro nível.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por isso, alteridade e <em>coniunctio</em> pertencem uma à outra. Não há união simbólica sem diferença reconhecida; não há totalidade sem tensão; não há centro sem descentração prévia. A alma cresce quando o eu deixa de querer reinar sozinho e aceita escutar o estrangeiro que o habita. Nesse ponto, Jung encontra sua maior atualidade: a psique não amadurece pela pureza das identidades, mas pela capacidade de sustentar paradoxos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mãe ocupa um lugar inaugural também aqui, porque ela é, para a criança, a primeira experiência concreta de que o outro é ao mesmo tempo fonte de vida, mistério, limite e mediação. É a partir dessa experiência primordial que a alma aprende, ou fracassa em aprender, que o encontro com o outro não é apenas ameaça nem apenas consolo, mas condição de transformação. Em última instância, Anima e Animus são nomes dessa pedagogia profunda da alma: a aprendizagem de tornar-se si mesmo sem amputar a diferença.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi / Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>Obras completas</em>. v. 7/2.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>Obras completas</em>. v. 8/2.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>Obras completas</em>. v. 9/1.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>Obras completas</em>. v. 9/2.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>Obras completas</em>. v. 18/2.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich. <em>A criança</em>. São Paulo, Cultrix,2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich. <em>História das origens da consciência</em>. São Paulo, Cultrix,2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/anima-e-animus-a-mae-como-matriz-da-alteridade-psiquica/">Anima e Animus: a Mãe como Matriz da Alteridade Psíquica</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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		<title>Expressão de Gênero e Alma: Jung, Psique e Diversidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/expressao-de-genero-e-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Mar 2026 15:16:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[alma]]></category>
		<category><![CDATA[anima e animus]]></category>
		<category><![CDATA[diversidade de gênero]]></category>
		<category><![CDATA[expressão de gênero]]></category>
		<category><![CDATA[gênero e subjetividade]]></category>
		<category><![CDATA[identidade de gênero]]></category>
		<category><![CDATA[individuação]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQINAP+]]></category>
		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psique]]></category>
		<category><![CDATA[self]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma Análise Junguiana da Diversidade de Gênero e Sexualidade Este ensaio propõe uma releitura da obra de Carl Gustav Jung sobre expressão de gênero e alma, sexualidade e subjetividade, partindo de uma abordagem simbólica e histórica, e não literal. A partir disso, discute os conceitos de Anima, Animus, Persona e Processo de Individuação, mostrando como [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-analise-junguiana-da-diversidade-de-genero-e-sexualidade"><em>Uma Análise Junguiana da Diversidade de Gênero e Sexualidade</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este ensaio propõe uma releitura da obra de Carl Gustav Jung sobre expressão de gênero e alma, sexualidade e subjetividade, partindo de uma abordagem simbólica e histórica, e não literal. A partir disso, discute os conceitos de <strong>Anima</strong>, <strong>Animus</strong>, <strong>Persona</strong> e <strong>Processo de Individuação</strong>, mostrando como eles ajudam a pensar as experiências de pessoas LGBTQINAP+ e outras vivências fora da norma, sem reduzi-las a categorias rígidas. O texto defende que a psique é mais complexa do que qualquer binarismo e que a busca pela individuação envolve fidelidade à verdade interior, integração da <strong>Sombra</strong> e construção de uma vida mais autêntica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-contexto-historico-e-a-emergencia-da-diversidade-leitura-nao-anacronica-de-jung">Contexto Histórico e a Emergência da Diversidade: Leitura não Anacrônica de Jung</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A obra de Carl Gustav Jung, quando lida com rigor hermenêutico e sem reduções apressadas, continua a oferecer um campo notavelmente fértil para se pensar gênero, sexualidade e subjetividade em sua dimensão mais profunda, como experiência da alma, evitando a unilateralidade do monoteísmo da consciência e da razão que abduziu esta ciência baseada em evidências e, por estar viciada em resultados e certezas, nega toda peculiaridade e singularidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa fecundidade, porém, só se preserva à medida que recusamos dois movimentos igualmente empobrecedores: de um lado, a tentação de transformar Jung em um pensador inteiramente alinhado com as categorias contemporâneas de gênero; de outro, a caricatura que o reduz a um autor meramente binário e heteronormativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O caminho mais sólido é o da leitura em camadas, capaz de distinguir, em sua obra, o que é estrutural, o que é histórico e o que permanece aberto à compreensão simbólica. Embora a pluralidade das expressões de gênero e alma seja frequentemente tratada como um debate recente, ela constitui um fenômeno social e antropológico que atravessa milênios. Sua conceituação teórica e sua aceitação pública, contudo, ganharam força significativa a partir da segunda metade do século XX — sobretudo após a morte de Jung — com o avanço da segunda onda do feminismo nos anos 1970, o desenvolvimento da Teoria <em>Queer</em> por volta de 1990 e a luta crescente por direitos e visibilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse contexto, a individuação para sujeitos LGBTQINAP+ eleva-se para além da mera adaptação social, constituindo-se como a edificação ativa de uma existência em profunda fidelidade a uma verdade psíquica intrínseca, irredutível a uma escolha voluntária ou a uma simples opção identitária. Essa determinação anímica irrompe na mente e no corpo, impulsionando uma reorganização radical da economia psíquica, uma reconfiguração da <strong>Persona</strong> e um confronto essencial com a <strong>Sombra</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Tal processo não almeja uma identidade meramente obediente, mas sim a concretização de uma forma de vida autêntica e intrinsecamente congruente com o <strong>Self</strong>, um princípio que se estende a todas as orientações sexuais e identidades de gênero que divergem das expectativas normativas, as quais devem ser compreendidas como configurações legítimas e plenamente válidas da experiência humana — jamais como desvios patológicos da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não obstante, a projeção histórica da <strong>Sombra</strong> coletiva sobre esses indivíduos — que os estigmatiza com estereótipos de promiscuidade, malevolência ou patologia — evidencia o caráter profundamente cultural e, amiúde, estrutural do preconceito. A internalização dessas normas discriminatórias pode gerar um sofrimento psíquico considerável, tornando o apoio terapêutico não apenas relevante, mas indispensável. Esse suporte revela-se crucial para o reconhecimento e a integração da verdade psíquica autêntica, capacitando o indivíduo a avançar em seu processo de individuação com pleno respeito à sua singularidade, fomentando resiliência diante das adversidades e consolidando sua dignidade integral.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-anima-e-animus-para-alem-da-binaridade-biologica-na-dinamica-psiquica">Anima e Animus: Para Além da Binaridade Biológica na Dinâmica Psíquica</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em Jung, <strong>Anima</strong> e <strong>Animus</strong> não devem ser entendidos como equivalentes rígidos de feminino e masculino em sentido biológico, tampouco como categorias identitárias fechadas. São formas arquetípicas de alteridade psíquica, imagens mediadoras entre consciência e inconsciente, ego e <strong>Self</strong>, adaptação e profundidade, relação e transformação. Funcionam como pontes entre a <strong>Persona</strong> e a dimensão mais recôndita da psique, manifestando aquilo que no sujeito permanece latente, não dominado e ainda em formação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa compreensão é decisiva porque desloca o debate do plano normativo para o plano simbólico. Não se trata de perguntar se uma pessoa trans, lésbica, gay, bissexual, pansexual, <em>queer</em> ou não binária “corresponde” a uma estrutura fixa de <strong>Anima</strong> ou <strong>Animus</strong>, mas de reconhecer que a experiência da alma excede toda moldura identitária e não se deixa converter em mecanismo classificatório.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando Jung define a imagem da alma, afirma: “a alma, a atitude interna, é representada no inconsciente por certas pessoas que possuem as qualidades correspondentes à alma. Esta imagem chama-se imagem da alma. Às vezes, são personagens totalmente desconhecidos ou mitológicos&#8230;” (OC 6 §842).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se podem aparecer como desconhecidos ou mitológicos, não se submetem ao binarismo sexual. E continua: “Uma adaptação consciente ao objeto que representa a imagem da alma é impossível exatamente porque a alma é inconsciente para o sujeito.” (OC 6 §842)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora Jung tenha concebido a <strong>Anima</strong> e o <strong>Animus</strong> como arquétipos ligados à polaridade sexual entre homens e mulheres, é crucial reconhecer que em indivíduos transgênero e homossexuais esses arquétipos podem se vincular a imagens arquetípicas masculinas na <strong>Anima</strong> e femininas no <strong>Animus</strong>. Essa dinâmica complexifica a compreensão tradicional e tensiona leituras heteronormativas, revelando a fluidez e autonomia da psique diante das expectativas sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez o ponto essencial seja este: Jung trabalha com imagens, não com etiquetas. Sua psicologia nasce da convicção de que a alma se expressa por símbolos, sonhos, afetos, fantasias, projeções, sintomas, sincronicidades e tensões entre opostos. O uso literal dos pares simbólicos empobrece sua teoria e trai sua lógica interna. Quando <strong>Anima</strong> e <strong>Animus</strong> são tomados como essências fixas, o pensamento enrijece; quando são lidos como funções imaginais de mediação, abrem-se para uma hermenêutica capaz de acolher a pluralidade LGBTQINPA+ sem reduzi-la ao binário.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-persona-e-o-desafio-da-adaptacao-social-entre-a-mascara-e-a-realidade-animica">A Persona e o Desafio da Adaptação Social: Entre a Máscara e a Realidade Anímica</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A reflexão sobre expressão de gênero e alma, sexualidade em Jung ganha densidade quando articulada ao conceito de <strong>Persona</strong>. A <strong>Persona</strong> é a máscara necessária da vida social, que nos permite circular, assumir papéis e responder às demandas coletivas. Mas também pode tornar-se prisão quando exige uma fidelidade que afasta o sujeito de sua verdade interna.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para muitas pessoas LGBTQINPA+, essa tensão é intensa, pois a forma como a sociedade nomeia, regula e interpreta seus corpos e desejos se impõe como regime de legibilidade forçada. A individuação, nesse contexto, não consiste em adequar-se ao repertório normativo, mas em atravessar a <strong>Persona</strong> sem ser capturado por ela — atravessar a aparência social rumo ao chamado interior.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação não é mera adaptação social nem autoexpressão narcísica. É um processo de diferenciação em direção à totalidade, no qual o sujeito aprende a reconhecer forças inconscientes, integra a <strong>Sombra</strong>, suporta tensões e aproxima-se de uma forma mais inteira de ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung afirma no <em>MSR</em>:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Quando não puderdes distinguir entre vós próprios, de um lado, a sexualidade e a espiritualidade, de outro [&#8230;], sereis vitimados por eles [&#8230;] manifestações de deuses [&#8230;] muito superiores a vós.” (MSR, p.339–340)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para pessoas LGBTQINPA+, além do conflito universal entre consciência e inconsciente, há a experiência concreta da norma que exclui, da linguagem que delimita e da cultura que hierarquiza. A individuação torna-se travessia histórica, relacional e política.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma releitura emergente da psicologia analítica exige reinterpretações que preservem o valor simbólico sem ignorar limites históricos. Gênero, nesse horizonte, não é essência, mas processo simbólico em formação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ressignificando-normalidade-e-saude-na-psicologia-analitica">Ressignificando “Normalidade” e “Saúde” na Psicologia Analítica</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Butler, ao mostrar a performatividade do gênero, evidencia que a identidade é repetição regulada de atos. Preciado revela a produção técnica, farmacológica e política dos corpos e subjetividades nos regimes sexopolíticos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Butler, sempre há uma dimensão do vivo e do relacional que resiste a ser conhecida — e é justamente essa indeterminação que caracteriza a sexualidade (BUTLER, 2022). Jung, em sintonia, afirma: “A psique não é uma coisa dada, imutável, mas um produto de sua história em marcha.” (OC‑5, Prefácio da 3ª ed.)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ambos fazem uma releitura de Jung sem domesticá-lo. Lembram que a alma habita o corpo, sofre o poder, responde à linguagem e negocia com sistemas de significação. O simbólico não está apartado do político; atravessa as formas concretas da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na experiência trans, em especial, a individuação adquire espessura singular: a tensão entre imagem interna e nomeação externa é vivida de modo agudo, doloroso e criativo. A travessia não se reduz à adequação corporal ou social: envolve reorganizar a economia psíquica, reposicionar a <strong>Persona</strong> e confrontar a <strong>Sombra</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O mesmo vale para pessoas homossexuais, lésbicas, bissexuais e <em>queer</em>. A orientação sexual não é estrutura fixa de alma nem indicador de saúde ou desvio. Cada indivíduo é único, complexo e criativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O desejo, em Jung, pertence ao simbólico e não se reduz ao unidimensional. Há autores junguianos que trataram a homossexualidade de forma datada, mas isso não impede leituras mais amplas, nas quais a orientação sexual é forma legítima de configuração do <em>eros</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O risco dos modelos normativos é colonizar a subjetividade. Eles pretendem fixar o que deveria ser fluido, impor coerência onde há multiplicidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Somos atravessados por deuses que imaginamos ter deixado no passado. Eles se manifestam no desejo, na afetividade, na identidade. Paralelamente, normas socioculturais e algoritmos dos <em>Big Data</em> criam tensões entre adaptação interna e externa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não se trata de retorno ingênuo ao politeísmo grego, mas do reconhecimento de que a alma fala com múltiplas vozes — nem sempre conciliáveis. A Energia Psíquica flui para permitir que essas potências se realizem através de nós, criando aspectos que nem sempre coincidem com a imagem que fazemos de nós mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa dinâmica não é patológica; revela a riqueza da vida anímica. Cada força arquetípica reclama expressão e, quando recusada, opera de modo sombrio ou sintomático. A individuação consiste em tecer relações conscientes com essas figuras interiores, sem eleger uma única como regente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-individuacao-tem-por-meta-a-cooperacao-viva-de-todos-os-fatores-oc-11-4-268" style="font-size:18px"><em>“A individuação [&#8230;] tem por meta a cooperação viva de todos os fatores.” (OC 11/4, §268)</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Acolher essa polifonia é gesto de coragem e antídoto contra normalizações contemporâneas que reduzem a experiência a diagnósticos e identidades fixas. A singularidade não é dado bruto, mas conquista negociada entre múltiplas vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ignorar essa polifonia gera sofrimento. A individuação busca sustentá-la criativamente, não eliminá-la. Acolher desejo e identidade é o próprio caminho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A orientação sexual deixa de ser algo a justificar e se torna parte do caminho singular pelo qual cada um se torna quem é. Jung reconhece:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nem-toda-libido-se-fixa-numa-forma-regular-resta-sempre-um-quantum-excedente-oc-8-1-91" style="font-size:18px"><em>“Nem toda libido se fixa numa forma regular [&#8230;]. Resta sempre um quantum excedente.” (OC 8/1 §91)</em></h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pluralidade-da-alma-individuacao-e-o-imperativo-etico-da-escuta">A Pluralidade da Alma, Individuação e o Imperativo Ético da Escuta</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação, para sujeitos LGBTQINPA+, exige construir uma vida que não sacrifique a verdade psíquica no altar da conformidade. Implica diferenciar <strong>Persona</strong> e <strong>Self</strong>, reconhecer a <strong>Sombra</strong> produzida pela rejeição social, elaborar imagens internas sem transformá-las em essências aprisionadoras e encontrar pertencimento que não apague singularidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação não consiste em tornar-se adequado à norma, mas em tornar-se inteiro. Essa inteireza não é homogênea, linear ou binária: é dramática, paradoxal, processual e profundamente humana. A integralidade é sempre imperfeita — e justamente por isso vital.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung escreve:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-da-mesma-forma-que-a-integralidade-e-sempre-imperfeita-a-perfeicao-tambem-e-sempre-incompleta-e-por-isso-constitui-um-estado-final-terrivelmente-esteril-oc-11-4-620" style="font-size:18px"><em>“Da mesma forma que a integralidade é sempre imperfeita, a perfeição também é sempre incompleta e, por isso, constitui um estado final terrivelmente estéril.” (OC 11/4, §620)</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sua psicologia recorda que a alma é maior que os conceitos que tentamos usar. Os símbolos não encerram a experiência; a aprofundam. A <strong>Anima</strong> e o <strong>Animus</strong>, compreendidos como mediadores, não aprisionam identidades — revelam que a alteridade habita o interior de todo sujeito.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <strong>Persona</strong> não define o ser; apenas o apresenta. O <strong>Self</strong> aponta para totalidade em processo. As vidas LGBTQINPA+ não são exceção, mas expressão radical da complexidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação, então, não é ajuste à ordem, mas fidelidade a uma verdade mais profunda. Essa fidelidade pode custar caro — mas é nela que reside a possibilidade de vida simbolicamente plena.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung talvez não tenha dito isso com linguagem de hoje, mas sua psicologia aponta nessa direção: a alma não cabe no catálogo do mundo. Ela desloca, resiste, cria.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E é nessa criação de si, nessa travessia entre ferida e símbolo, que a individuação se torna, para sujeitos LGBTQINPA+, não apenas possível, mas eticamente necessária.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Agradeço ao amigo <a href="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/">Ajax Perez Salvador</a>, que gentilmente revisou este texto e ofereceu citações e sugestões para que ele fique mais inteiro em sua imperfeição.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-perguntas-frequentes"><strong>Perguntas frequentes</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>A alma tem gênero na visão de Jung?</strong> Na psicologia junguiana, a alma não é entendida como gênero fixo, mas como realidade psíquica simbólica. Anima e Animus são imagens arquetípicas de alteridade, não etiquetas biológicas rígidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Jung ajuda a pensar diversidade  expressão de gênero e alma?</strong> Sim. Quando lido de forma simbólica e crítica, Jung oferece ferramentas para refletir sobre subjetividade, identidade, conflito interno e individuação sem reduzir a experiência humana à norma binária.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Anima e Animus servem para pessoas não binárias?</strong> Podem servir como referências simbólicas, desde que não sejam usados como categorias fechadas. O importante é ler esses conceitos como funções psíquicas de mediação e transformação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>O que é individuação nesse contexto?</strong> É o processo de tornar-se inteiro, integrando tensões internas, reconhecendo a Sombra e vivendo com fidelidade à verdade psíquica, sem se submeter totalmente às expectativas sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>A psicologia analítica patologiza a diversidade sexual?</strong> Não quando é lida criticamente e em diálogo com a contemporaneidade. Uma abordagem madura reconhece a diversidade sexual e de gênero como expressão legítima da complexidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Conclusão</strong> A individuação, para sujeitos LGBTQINAP+, exige construir uma vida que não sacrifique a verdade psíquica no altar da conformidade. Implica diferenciar Persona e Self, reconhecer a Sombra produzida pela rejeição social, elaborar imagens internas sem transformá-las em essências aprisionadoras e encontrar pertencimento que não apague singularidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação não consiste em tornar-se adequado à norma, mas em tornar-se inteiro. Essa inteireza não é homogênea, linear ou binária: é dramática, paradoxal, processual e profundamente humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung talvez não tenha dito isso com linguagem de hoje, mas sua psicologia aponta nessa direção: a alma não cabe no catálogo do mundo. Ela desloca, resiste, cria.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E é nessa criação de si, nessa travessia entre ferida e símbolo, que a individuação se torna, para sujeitos LGBTQINAP+, não apenas possível, mas eticamente necessária.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Leia outros artigos do IJEP e conheça nossas formações em psicologia analítica, clínica e pensamento simbólico.</strong></p>



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		<title>Partejar a si mesmo: renascimento psíquico na maturidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/partejar-a-si-mesmo-renascimento-psiquico-na-maturidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paula Pessanha Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Mar 2026 18:08:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
		<category><![CDATA[crise da meia idade]]></category>
		<category><![CDATA[crises de vida]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento pessoal]]></category>
		<category><![CDATA[individuação]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[perda de identidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[segunda metade da vida]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<category><![CDATA[transformação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando aquilo que sustenta a identidade do indivíduo já não faz mais sentido, talvez não seja fracasso — mas um chamado. A Psicologia Analítica compreende esse vazio da maturidade como uma exigência de renascimento psíquico: uma travessia em que o antigo eu precisa morrer para que algo mais verdadeiro possa emergir. “Partejar a si mesmo” é a imagem desse processo — doloroso, inevitável e profundamente transformador. Este artigo propõe olhar o envelhecimento não como declínio, mas como território iniciático, onde a pergunta decisiva finalmente se impõe: quem sou eu quando já não sou quem fui?</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>RESUMO: </strong><em>Quando aquilo que sustenta a identidade do indivíduo já não faz mais sentido, talvez não seja fracasso — mas um chamado. A Psicologia Analítica compreende esse vazio da maturidade como uma exigência de renascimento psíquico: uma travessia em que o antigo eu precisa morrer para que algo mais verdadeiro possa emergir. “Partejar a si mesmo” é a imagem desse processo — doloroso, inevitável e profundamente transformador. Este artigo propõe olhar o envelhecimento não como declínio, mas como território iniciático, onde a pergunta decisiva finalmente se impõe: quem sou eu quando já não sou quem fui?&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-momentos-da-vida-em-que-aquilo-que-antes-sustentava-o-sentido-trabalho-papeis-sociais-expectativas-reconhecimento-posicao-social-deixa-de-responder-as-perguntas-mais-profundas-da-alma-nbsp" style="font-size:18px">​​Há momentos da vida em que aquilo que antes sustentava o sentido — trabalho, papéis sociais, expectativas, reconhecimento, posição social — deixa de responder às perguntas mais profundas da alma.&nbsp;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-a-vida-segue-mas-algo-essencial-se-perde" style="font-size:18px"><strong>A vida segue, mas algo essencial se perde</strong>. Aquilo que antes organizava a identidade já não oferece sustentação. Instala-se um sentimento de vazio, uma perda de vitalidade, um desânimo, que frequentemente é confundido com fracasso pessoal ou até mesmo uma patologia. Esse estado costuma ser vivido com angústia, no entanto, esse esvaziamento não é, em si, depressão nem sinal de adoecimento psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-trata-se-muitas-vezes-de-uma-crise-de-identidade-o-individuo-ja-nao-se-reconhece-naquilo-que-antes-lhe-dava-contorno" style="font-size:18px">Trata-se, muitas vezes, de uma <strong>crise de identidade</strong>: o indivíduo já não se reconhece naquilo que antes lhe dava contorno.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que agradava, já não satisfaz mais; valores que eram importantes perdem a força; surge a experiência de não saber mais quem se é. Esse desconhecimento de si pode ser profundamente desestabilizador — e exatamente por isso, carregado de <strong>potencial transformador</strong>. Perguntas antes irrelevantes tornam-se urgentes. “Por que eu gostava disso e agora não gosto mais?”, “O que, afinal, ainda faz sentido para mim?, “O que a vida quer de mim?”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na Psicologia Analítica, esse momento pode indicar uma <strong>exigência psíquica de transformação</strong>, típica da segunda metade da vida. A busca que se impõe já não é externa. Não se trata de novos projetos, novos papéis ou novos reconhecimentos. Trata-se de uma busca <strong>interior</strong>, que não pode ser simplesmente decidida ou planejada. Ela precisa ser gestada, sustentada e, finalmente, parida. É nesse horizonte que emerge a imagem central deste artigo: <strong>“partejar a si mesmo”</strong>, como símbolo de um processo interno árduo, inevitável e criativo do amadurecimento psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-etapas-da-vida" style="font-size:22px"><strong>As etapas da vida</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung descreve a primeira metade da vida como orientada fundamentalmente pela <strong>adaptação ao mundo exterior</strong>. O desenvolvimento da psique, nesse período, está centrado no fortalecimento e na estruturação do ego, que precisa se diferenciar progressivamente do inconsciente (JUNG, <em>2013</em>).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nessa etapa o indivíduo desenvolve a personalidade parcialmente consciente, constrói a persona, sua vida funcional e produtiva. Trabalho, família, vida social e conquistas materiais tornam-se eixos organizadores da identidade. Trata-se de uma fase necessária e legítima do desenvolvimento psíquico. Sem um ego suficientemente estruturado, não há base para desenvolvimento de processos mais complexos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Contudo, Jung é enfático ao afirmar que essa lógica não pode reger toda a existência. Na <strong>segunda metade da vida</strong> surge uma relação diferente entre ego e Self. É o que Jung denomina <strong>metanoia</strong>: uma crise profunda de reorientação psíquica, na qual ocorre um questionamento radical dos valores até então vigentes. A libido (energia psíquica), antes predominantemente dirigida ao mundo externo, volta-se para o mundo interno. O ego passa a buscar o si-mesmo (centro regulador da psique) a procura de uma nova orientação para a vida. É chegado o momento do resgate da alma. A esse movimento Jung dá o nome de <strong>processo de individuação</strong>, entendida como o objetivo do desenvolvimento psíquico em direção à realização da totalidade da personalidade, ao tornar-se verdadeiramente quem se é.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para ilustrar essa inversão de valores, Jung compara o desenvolvimento humano ao curso diário do sol:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:5px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Suponhamos um Sol dotado de sentimentos humanos e de uma consciência humana relativa ao momento presente. De manhã, o Sol se eleva do mar noturno do inconsciente […] Precisamente ao meio-dia, o Sol começa a declinar e este declínio significa uma inversão de todos os valores e ideais cultivados durante a manhã” (JUNG, <em>A natureza da psique</em>, OC 8/2, §778).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-inversao-nao-e-patologica-nem-opcional-simplesmente-acontece-quando-o-ego-insiste-em-viver-a-maturidade-segundo-a-logica-da-juventude-expansao-produtividade-adaptacao-externa-o-sofrimento-e-inevitavel" style="font-size:18px">Essa inversão não é patológica nem opcional, simplesmente acontece. Quando o ego insiste em viver a maturidade segundo a lógica da juventude — expansão, produtividade, adaptação externa —, o sofrimento é inevitável.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Da mesma forma que o indivíduo preso à infância recua apavorado diante da incógnita do mundo e da existência humana, assim também o homem adulto recua assustado diante da segunda metade da vida, como se o aguardassem tarefas desconhecidas e perigosas, ou como se sentisse ameaçado por sacrifícios e perdas que ele não teria condições de assumir, ou ainda como se a existência que ele levara até agora lhe parecesse tão bela e tão preciosa, que ele já não seria capaz de passar sem ela.” (JUNG, <em>A natureza da psique</em>, OC 8/2, §777)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-sofrimento-nesse-contexto-surge-pela-resistencia-a-transformacao-psiquica" style="font-size:18px">O sofrimento, nesse contexto, surge pela <strong>resistência à transformação psíquica</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung foi muito claro ao afirmar que é a recusa em aceitar a mudança, em atender ao chamado do Self, que traz sofrimento. Segundo ele, “para o homem que envelhece é um dever e uma necessidade dedicar atenção séria ao seu próprio si-mesmo. Depois de esbanjar luz e calor sobre o mundo, o Sol recolhe seus raios para iluminar a si-próprio.” (JUNG, 2013)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, é muito comum vermos essa recusa perdurar até depois da metanoia, que costuma acontecer por volta dos 40 anos. Importante deixar claro que o envelhecimento, não leva necessariamente ao amadurecimento psíquico. Para que isto ocorra, o indivíduo deve aceitar esse chamado com consciência e confiança. O processo de amadurecimento pode acontecer tardiamente, ou até mesmo, nunca acontecer.&nbsp; E se assim for, se vive uma velhice sem sentido, em profunda depressão, acompanhado somente das lembranças do passado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-renascimento-psiquico" style="font-size:22px"><strong>O renascimento psíquico</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A recusa em viver o envelhecimento sem sentido pode levar as pessoas ao processo do <strong>renascimento psíquico</strong>. Jung se debruçou sobre esse tema, considerando-o como um arquétipo. Isso porque a ideia de renascimento está presente na história da humanidade e amplamente difundida por meio de mitos em diferentes culturas. O renascimento pode ser ocasionado por um evento externo, como por exemplo, uma doença ou a morte de um ente querido, ou interno, como o caso da metanoia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Renascimento, portanto, <strong>não equivale a recomeçar a vida</strong> nem a buscar uma juventude tardia. Trata-se de uma <strong>morte simbólica</strong> de antigas identificações egóicas, acompanhada de desorganização do ego e da emergência de novas imagens orientadoras do Self. Jung descreve diferentes formas de renascimento: a <em>renovatio</em>, na qual funções psíquicas são fortalecidas sem alteração essencial da personalidade; a <strong>transformação no sentido de ampliação</strong>, a possibilidade de modificação da personalidade; e o <strong>renascimento indireto</strong>, pela participação em processos ou ritos de transformação (JUNG, <em>2014</em>). Na maturidade, é frequentemente a transformação que se impõe.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse processo não é confortável. Ele envolve perda de certezas, desorientação e espera. O ego perde centralidade, e o Self passa a orientar a vida psíquica. Novas imagens e valores emergem do inconsciente, exigindo elaboração simbólica e ética.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-partejar-a-si-mesmo" style="font-size:22px"><strong>Partejar a si mesmo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O renascimento desejado na maturidade é, portanto, um processo consciente, ou seja, de ampliação de consciência. E exige muito trabalho e dedicação. É nesse campo que se insere a imagem simbólica de <strong>“partejar a si mesmo”</strong>. Partejar a si mesmo não é um projeto de autoaperfeiçoamento; é responder ao <strong>chamado do Self</strong>. É uma experiência psíquica: o nascimento de algo novo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como todo parto, trata-se de um processo marcado por dor, tempo próprio e impossibilidade de controle. O novo não nasce por decisão racional; ele nasce <strong>apesar do ego</strong>. Partejar a si mesmo é suportar os lutos inerentes à maturidade: deixar morrer personas que garantiam pertencimento, abandonar ideais de onipotência, integrar aspectos sombrios da personalidade que permaneceram dissociados durante a vida produtiva. O que nasce não é um “novo eu” idealizado, mas uma <strong>nova relação entre ego e Self</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para partejar a si mesmo, é necessário um ego suficientemente flexível, capaz de sustentar a tensão com o inconsciente, sem colapsar nem se defender rigidamente. Esse processo ocorre no tempo do <em>kairós</em>, o tempo da alma, e não no tempo cronológico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-transformacao-psiquica-exige-tomada-de-consciencia" style="font-size:18px">A transformação psíquica exige <strong>tomada de consciência.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse processo só se torna possível por meio daquilo que Jung denominou <strong>função transcendente</strong> &#8211; um processo que emerge da tensão entre consciente e inconsciente:&nbsp; passado e futuro, vida externa esvaziada e exigência interna ainda informe. Quando o ego suporta essa tensão sem repressão ou identificação inflacionada, surgem símbolos vivos — sonhos, imagens, sintomas significativos — que mediam a transformação psíquica. Jung afirma que, nesse movimento, conteúdos inconscientes são assimilados pela consciência, ampliando-a e produzindo uma nova atitude diante da vida (JUNG, 2013).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Ninguém que haja passado pelo processo de assimilação do inconsciente poderá negar o fato de ter-se emocionado profundamente e de ter-se transformado.</p><cite>JUNG, <em>O eu e o inconsciente</em>, OC 7/2, §361</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse momento da vida, as perguntas que se impõem não dizem mais respeito ao que foi conquistado ou desempenhado externamente, mas à <strong>verdade psíquica</strong> que sustenta — ou não — essa trajetória.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><em>“As personas (máscaras sociais) que desempenhei durante toda minha vida estão conectadas aos valores do Self?”</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><em>“Reconheço minhas partes reprimidas da personalidade (sombras), aqueles piores defeitos ou então aquela potencialidade que não tive coragem de assumir?”</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><em>“Quem eu sou para além da história e dos papeis que representei?”</em></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-recusa-da-espera-da-morte" style="font-size:22px"><strong>A recusa da espera da morte</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sob essa perspectiva, o envelhecimento pode ser compreendido como um <strong>portal iniciático</strong>. A perda de valor da persona social não é um empobrecimento, mas uma convocação à interiorização. A recusa em “esperar a morte” — tão frequente em culturas que associam valor à produtividade — pode ser lida como resposta do Self à estagnação psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como imagem contemporânea desse processo temos o filme <strong>Azul Profundo</strong>. O filme acompanha uma mulher idosa que, após a aposentadoria forçada, se vê retirada do mundo produtivo e confrontada com a expectativa social de recolhimento e espera passiva da morte. Em vez disso, a personagem recusa essa morte psíquica antecipada e inicia um movimento de reinvenção subjetiva, ainda que marcado por solidão, estranhamento e conflito. A crise vivida pela protagonista não se configura como depressão, mas como <strong>desorientação existencial</strong>: aquilo que antes estruturava o cotidiano já não existe, e nada ainda ocupou o lugar deixado por essa perda. A personagem não “se reinventa”; ela <strong>atravessa uma morte simbólica</strong>. A recusa em simplesmente “esperar a morte” não se expressa como rebeldia, mas como <strong>persistência em permanecer viva psiquicamente</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-observa-que-quando-o-desenvolvimento-psiquico-e-interrompido-a-vida-perde-sentido-e-o-individuo-adoece-nao-por-envelhecer-mas-por-deixar-de-se-transformar-jung-2013" style="font-size:18px">Jung observa que, quando o desenvolvimento psíquico é interrompido, a vida perde sentido e o indivíduo adoece não por envelhecer, mas por deixar de se transformar (JUNG, 2013).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O filme encarna essa afirmação ao mostrar que a velhice, quando reduzida à inutilidade social, torna-se insuportável; mas quando vivida como território de escuta e transformação, pode adquirir outro estatus simbólico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse sentido, o filme ilustra com precisão a imagem de <strong>“partejar a si mesmo”</strong>: algo precisa morrer, algo ainda não tem forma, e o ego — despojado de seus antigos papéis — precisa suportar a dor, o tempo e a incerteza desse processo. O novo sentido, se surgir, não virá como conquista do ego, mas como resposta silenciosa do Self à coragem de não viver de forma falsa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como disse Jung: “a vida tem de ser conquistada sempre e de novo&#8221; (JUNG, 2013). Quando a vida externa já não oferece sentido, a psique não está falhando. Ela está exigindo transformação. Nem todo envelhecimento conduz à individuação; mas <strong>sem atravessar a crise</strong>, ela não ocorre.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Partejar a si mesmo</strong> não é escolha confortável, nem promessa de plenitude. É seguir o chamado da alma, quando já não é mais possível viver de outra forma. Em última instância, é responder à pergunta que inaugura a maturidade: <strong>quem sou eu quando já não sou quem fui?</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: &quot;Partejar a si mesmo renascimento psíquico na maturidade&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/EC0BaGsVZ-Y?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ana-paula-pessanha-lima/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/ana-paula-pessanha-lima/"><strong>Ana Paula Pessanha Lima &#8211; Membro Analista em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências</strong>:</h3>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. (2015). <em>O eu e o inconsciente</em> (OC 7/2). Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. (2013). <em>A natureza da psique</em> (OC 8/2). Petrópolis: Vozes.<br>JUNG, C. G. (2014). <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em> (OC 9/1). Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. (2013). <em>Desenvolvimento da Personalidade </em>(OC 17). Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
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		<title>Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/muitos-sao-chamados-mas-poucos-sao-escolhidos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Mar 2026 21:12:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[culpa]]></category>
		<category><![CDATA[culpa existencial]]></category>
		<category><![CDATA[individuação]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Jornada da Consciência perante o Chamado da individuação onde Isolamento, Culpa, Expiação e Amor fazem parte desta dança alquímica! A intrigante e atemporal sentença bíblica que adverte que &#8220;Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos&#8221; (Mateus 22:14) transcende os limites do mero dogma religioso para se revelar como uma das mais profundas, cirúrgicas e [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-jornada-da-consciencia-perante-o-chamado-da-individuacao-onde-isolamento-culpa-expiacao-e-amor-fazem-parte-desta-danca-alquimica"><strong><em>A Jornada da Consciência perante o Chamado da individuação onde Isolamento, Culpa, Expiação e Amor fazem parte desta dança alquímica!</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A intrigante e atemporal sentença bíblica que adverte que &#8220;<strong>Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos</strong>&#8221; (Mateus 22:14) transcende os limites do mero dogma religioso para se revelar como uma das mais profundas, cirúrgicas e poéticas metáforas sobre a complexa jornada da consciência humana. Longe de representar um decreto elitista proferido por uma divindade excludente, ocupada em organizar listas VIP para um banquete celestial reservado a poucos predestinados, essa máxima se configura, antes, como um doloroso e preciso diagnóstico da nossa condição psicológica cotidiana. Ao traduzirmos esse enigma milenar para o léxico da psicologia analítica de <strong>Carl Gustav Jung</strong>, o chamado desponta como o apelo irrecusável e universal para o a expansão da consciência e a conexão com o <strong>Si-mesmo</strong>. Simultaneamente, a escolha deixa de ser concebida como um bilhete premiado concedido de forma passiva e arbitrária, para se tornar o árduo, perseverante e corajoso <strong>processo de individuação</strong> — essa jornada ao longo da vida que nos convida a integrar as sombras, reconhecer os complexos e tornar quem verdadeiramente somos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Revela-se, então, a eterna tragicomédia da nossa existência: o convite para a grande festa da totalidade psíquica é distribuído em massa a todos os seres humanos, o que por si só já desmonta qualquer fantasia de predestinação ou exclusivismo divino. No entanto, a esmagadora maioria dos convidados prefere deixar o <strong>chamado do Self</strong> permanentemente em espera, ignorado na caixa postal da alma. Entregamo-nos, assim, às ilusões confortáveis da rotina, aos prazeres efêmeros do mundo material e às exigências sedutoras do rebanho — essa voz coletiva que dita, agora potencializada pelos algoritmos da <strong><em>Big Data</em></strong>, o que devemos pensar, vestir e consumir. Muitos se alienam em religiões dogmáticas que prometem salvação em troca da obediência cega a códigos de conduta, enquanto outros, infelizmente em nossa triste realidade contemporânea, reduzem essa busca ancestral a um mero instrumento para acumular riqueza e status. Desse modo, o chamado ressoa incessantemente, mas apenas aqueles que enfrentam o deserto interior e acolhem o desconforto do autoconhecimento aceitam, de fato, o espinhoso mas libertador convite para serem escolhidos — não por um deus lá fora, mas pela totalidade que habita o centro mais profundo de nós mesmos, totalidade essa que a psicologia analítica nomeia como <strong>Self</strong> ou <strong>Si-mesmo</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O convite ao despertar é, por natureza, universal e de uma insistência quase indelicada. A vida, em sua infinita e muitas vezes irônica sabedoria, não nos chama apenas através de brisas suaves, meditações perfumadas ou epifanias iluminadas. Como bem sabemos pelos tortuosos caminhos da <strong>Psicossomática</strong> e das expressões criativas que a <strong>Arteterapia</strong> testemunha, quando o ego se faz de surdo, a alma pinta seus horrores em cores vivas e o corpo grita em alto e bom som. O <strong>chamado</strong> manifesta-se sem pedir licença nas noites insones, nas crises de pânico repentinas, nos adoecimentos físicos aparentemente órfãos de causa, nas sincronicidades nas quais tropeçamos desajeitadamente pelo caminho e naqueles sonhos perturbadores que desarrumam a nossa cama psíquica. Ter <strong>vocação</strong>, atender a esse chamado inexorável, é escutar uma voz interior que nos exige fidelidade à nossa própria lei. Muitos, no entanto, são chamados e fingem que não ouviram, pois o bilhete de passagem para essa travessia custa exatamente a nossa preciosa zona de conforto e o pertencimento cego, morno e anestesiante à multidão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-convite-indelicado-da-vida"><strong>O Convite Indelicado da Vida</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A narrativa da parábola ganha contornos de uma precisão clínica assustadora quando o rei encontra na festa um convidado que não trazia as &#8220;vestes nupciais&#8221;, lançando-o impiedosamente às trevas exteriores. Se muitos chegam ao banquete da vida — que na alquimia representa a sagrada união dos opostos, o matrimônio entre a luz do ego e os abismos do inconsciente — vestidos apenas com a sua <strong>Persona</strong>, acreditando que um verniz de civilidade, o sucesso mundano e algumas curtidas nas redes sociais bastam para dialogar com o sagrado, a psique fatalmente cobrará a conta com juros. A veste nupcial não é uma indumentária de grife tecida pela opinião alheia, mas a prontidão psíquica de quem desceu às próprias masmorras e integrou a sua <strong>Sombra</strong>. Apresentar-se perante a imensidão do <strong>Self</strong> usando apenas a máscara de papelão da aprovação social é um ato de inflação egóica intolerável. Essa expulsão para as trevas não é um castigo punitivo, mas a metáfora perfeita de um surto, de uma depressão profunda ou de um colapso nervoso: é o ego sendo esmagado por não ter construído o estofo moral e emocional necessário para suportar a energia numinosa da própria totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É exatamente neste ponto de ruptura que compreendemos por que tão poucos são escolhidos, porque a escolha consciente inaugura uma travessia marcada por um terrível <strong>isolamento</strong> e por uma <strong>culpa</strong> avassaladora. Ao analisarmos, à luz da <strong>Psicologia Analítica</strong>, a dinâmica entre adaptação, individuação e coletividade, percebemos que o processo de individuação retira o indivíduo da conformidade pessoal e o arranca do seio da massa. Ao deixar de ser uma engrenagem dócil que retroalimenta a neurose coletiva com sua <strong>Persona Normótica</strong>, o sujeito que se engaja nessa jornada comete uma espécie de deserção arquitetada, um gesto de rebeldia silenciosa que o sistema não pode ignorar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O poder social, que por sua própria natureza de sobrevivência opera através da normatividade e abomina indivíduos verdadeiramente pensantes, sente-se intimamente traído quando alguém ousa despertar. A massa anseia por peças de reposição previsíveis, engrenagens dóceis, e não por almas livres que tenham o desplante de pensar com a própria cabeça. É nesse limiar que a dinâmica sombria do coletivo entra em cena para cobrar o seu pedágio, inoculando no desertor a inevitável <strong>culpa trágica da individuação</strong>. Afinal, <strong>poder</strong> e <strong>culpa</strong> dançam irremediavelmente de mãos dadas num tango indissociável, numa coreografia onde os papéis se invertem sem que os dançarinos sequer percebam. O culpado, ao assumir publicamente sua falta, invariavelmente conquista o poder do palco, tornando-se protagonista, centro das atenções, dono de uma narrativa que agora lhe pertence. Paradoxalmente, aquele que aponta o dedo e acusa o outro com veemência acaba, num ato cego de projeção, transferindo silenciosamente o seu próprio poder para as mãos do acusado. Ao entregar sua energia psíquica à figura que condena, o acusador se coloca numa posição de dependência invertida, porque quanto mais violenta a acusação, mais refém se torna daquele que julga controlar. Nessa dança sombria, ambos perdem de vista que a única libertação possível não está em vencer a disputa, mas em reconhecer a si mesmo no espelho que o outro teimosamente insiste em segurar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, como a culpa é uma divindade severa, ela clama vorazmente pela <strong>expiação</strong>, pela reparação e pelo <strong>castigo</strong>, exigindo um ritual doloroso que visa, simbolicamente, tornar casto e inofensivo novamente aquele que, aos olhos do rebanho, não soube fazer o bom uso do poder que ousou empunhar. Desta forma, o caminhante que, para atender ao chamado interior do <strong>Self</strong>, se distancia e se isola do calor morno da massa e da sua <strong>Persona Normótica</strong>, acaba simultaneamente se tornando culpado perante o tribunal social e sentindo-se culpado nas masmorras de sua própria psique. É esse mecanismo perverso, com o seu chicote invisível, que pune com isolamento e ostracismo quem ousa subtrair a sua <strong>energia psíquica</strong> das ilusões coletivas, revelando em toda a sua crueza o preço altíssimo a ser pago por quem se atreve a rasgar a cartilha da normalidade e suportar o peso de ser, de fato, um escolhido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-deserto-intimo-da-provacao-e-a-solitude-libertadora"><strong>O Deserto Íntimo da Provação e a Solitude Libertadora</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para suportar a fúria dessa inquisição invisível e silenciosa, é necessário atravessar o próprio <strong>Getsêmani</strong>, o vale solitário da decisão, onde somos convidados a conviver hospitaleiramente com o caos perturbador da dúvida. <strong>Jung</strong> nos fere e nos liberta ao advertir que quem não suporta a <strong>dúvida</strong> não suporta a si mesmo. A escolha de atender ao <strong>chamado</strong> nos obriga a suspender temporariamente as certezas morais absolutas que dividem o mundo de forma cindida e infantil entre o bem inquestionável e o mal demoníaco. A dúvida é o precipício que devora os fracos, paralisados pela incerteza, e a fortaleza monumental que forja os fortes. O indivíduo realmente potente é aquele que tolera o caos aberto, mantendo-se quieto dentro da grande dúvida, permitindo com paciência botânica que a árvore do seu desenvolvimento trance raízes na lama obscura para, só então, tocar o céu. Tolerar essa ambiguidade moral vertiginosa significa abrir mão da sanha histérica de julgar os outros, suportando a tensão ardente dos opostos até que algo novo, criativo e <strong>transcendente</strong> germine do fundo desse desconforto civilizatório.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-preco-do-despertar"><strong>O Preço do Despertar</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, se a <strong>individuação</strong> não for apenas uma afetação narcísica de quem coleciona jargões psicológicos para impressionar em rodas de conversa, essa mesma culpa trágica exigirá uma <strong>expiação profunda e irrenunciável</strong>. A genialidade subversiva do pensamento junguiano revela que a redenção não ocorre pela humilhação ou pelo retorno genuflexo aos ditames do poder opressor, mas pela oferta contínua de valores equivalentes, traduzidos na práxis diária através de atitudes límpidas de servidão e de amor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não se trata, obviamente, do capachismo relacional exigido pelos tiranos que se julgam <strong>“cidadãos de bem”</strong> agindo como ditadores da moral e dos bons costumes, mas do mais alto grau de soberania da <strong>Alma</strong>. Aquele que teve a audácia de se isolar para amadurecer precisa pagar um resgate à sociedade, produzindo obras, pensamento crítico, arte e afetos que fertilizem a totalidade. Quando o indivíduo entrega seu <strong>amor</strong> à humanidade, ou ama profundamente o outro como mediador e representante do próprio inconsciente, ele estabelece uma nova e transformadora função coletiva. O <strong>amor</strong> desponta, assim, como o idioma incontestável da alma, capaz de desintegrar as correntes do autoritarismo e conferir ao sujeito uma inquebrantável autoridade ética.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É imperativo, contudo, implodir de uma vez por todas o mito pernicioso de que a i<strong>ndividuação</strong> seria um esporte de elite. Este processo monumental não faz qualquer distinção econômica, cultural, acadêmica ou etária. O <strong>Self</strong> é esplendidamente indiferente ao saldo bancário, aos diplomas pendurados na parede ou às rugas no rosto antes de enviar o seu <strong>chamado</strong>. De igual maneira, o <strong>“servir”</strong> que expia a nossa deserção coletiva não se restringe a sacro ofícios glamorosos, lideranças pomposas ou complexas produções intelectuais. A alquimia acontece no chão batido do mundo. O coletor de lixo que desobstrui as artérias da cidade com dignidade, o jardineiro que comunga silenciosamente com a terra, o vendedor de pipoca que estala alegria na praça pública, o servente de pedreiro que ergue a morada humana unindo tijolo e suor. Se estes atuam tomados de entusiasmo (que, em sua raiz grega, significa ter um deus dentro de si) e estão despertos para a nobreza de sua contribuição à teia invisível da humanidade, eles estão engajados em pleno e formidável processo de <strong>individuação</strong>. A veste nupcial é tecida na consciência das pequenas e grandes labutas cotidianas, não restrita aos salões da intelectualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando negamos o <strong>Si-mesmo</strong>, quando perdemos o contato visceral com nossa <strong>Alma</strong> e passamos a tratar a <strong>Psique</strong> apenas como um apêndice produtivo, focado no consumo e na performance irreal, adoecemos não apenas individualmente, mas coletivamente. Eis onde nossa reflexão exige um <strong>engajamento social</strong> urgente e um questionamento crítico da nossa civilização. O adoecimento do nosso tempo é, no fundo, uma fratura patológica na relação com o Self. Superar essa cisão e buscar essa inteireza reverbera perfeitamente com a urgência de uma Ecologia Alquímica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-curador-ferido"><strong>O Curador Ferido</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Regenerar a Terra e a nós mesmos passa, obrigatoriamente e sem atalhos, por transmutar essa consciência fragmentada e apartada de sua própria essência. Reconhecer e honrar o Self não é, portanto, um mero exercício de narcisismo contemplativo de quem foge do mundo, mas um ato revolucionário de rebelião contra a massificação, a superficialidade e o esvaziamento do sentido contemporâneo. Quem tem a coragem de se encontrar com o seu Si-mesmo e dialoga honestamente com sua Alma torna-se incômodo e imune às seduções dos totalitarismos de massa e das respostas pré-fabricadas, pois descobre que a verdadeira bússola moral e a autoridade residem internamente. Diferenciar Psique, Alma e Self, portanto, transcende o preciosismo acadêmico; é afiar e polir os nossos instrumentos de navegação ética, clínica e espiritual. Cuidamos da Psique compreendendo e respeitando a sua imensa vastidão; damos ouvidos compassivos à Alma para não perdermos a nossa delicada humanidade relacional; e, por fim, nos curvamos com coragem e humildade diante do Self para lembrarmos, a cada amanhecer, que a vida não é um problema lógico a ser resolvido, mas um mistério sagrado e alquímico que viemos aqui para transmutar e experienciar em toda a sua plenitude.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desse modo glorioso, o <strong>processo de individuação</strong> inverte completamente o tabuleiro relacional da nossa existência. A sociedade que, em um primeiro e assustado momento, fuzila o caminhante com o furor dedicado aos hereges, percebe-se paradoxalmente saciada pela sabedoria e pelos valores que esse transgressor agora transborda. O peregrino despede-se das nuvens do seu isolamento para transitar outra vez pela praça pública, já não como um guru insuportavelmente arrogante, mas na qualidade estética de um curador ferido, um sujeito integrado e um artífice orgânico do engajamento social. O processo impiedoso de buscar a si mesmo o extirpou do cardume unicamente para que pudesse desvendar as maneiras exatas de pertencer às marés profundas do cosmos. Ao aceitarmos que o palco imprevisível da vida nos exige as lágrimas construtoras de um <strong>Getsêmani</strong> íntimo, independentemente de quem sejamos ou do que façamos para ganhar o pão, desvelamos também que a sanidade não consiste na compulsão de dominar as vontades alheias. O auge da nossa saúde mental é quitar a nossa assustadora <strong>culpa</strong> existencial com a cintilante moeda da doação criativa e consciente. Prova-se, por fim, que o maior e mais belo desafio aos que almejam a genuína liberdade é, com um indelével toque de ironia poética, aprender que só é possível ser verdadeiramente livre quem compreendeu a refinada arte de pertencer através do <strong>amor</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Acesse a Trilogia Alquímica de Waldemar Magaldi no Blog do IJEP:</strong></p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/muitos-sao-chamados-mas-poucos-sao-escolhidos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos</a></strong></li>
</ul>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/mito-da-caverna-e-individuacao-jung/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O Retorno à Caverna: O Mito da Caverna e Individuação na Arte de Ser Vagalume no Escuro</a></strong></li>
</ul>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/a-alquimia-da-vontade-do-peso-do-ter-que-ao-voo-do-querer/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">A Alquimia da Vontade: Do Peso do “Ter que” ao Voo do “Querer”</a></strong></li>
</ul>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Chamados, Caverna e Vontade. Jornada em três atos: vocação, consciência e transformação interior." width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/KB8MQ1jhu00?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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			</item>
		<item>
		<title>Me conta seu conto</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/me-conta-seu-conto/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Barbara Pessanha]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Jun 2025 13:08:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Contos de Fada]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[contos de fadas]]></category>
		<category><![CDATA[Imaginação ativa]]></category>
		<category><![CDATA[individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Marie-Louise von Franz]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Os contos de fadas são assim.Uma manhã, a gente acordaE diz: &#8220;era só um conto de fadas&#8230;&#8221;E a gente sorri de si mesma.Mas, no fundo, não estamos sorrindo.Sabemos muito bem que os contos de fadasSão a única verdade da vida. Antoine de Saint-Exupéry Resumo: Este ensaio visa formular ideias e experiências a partir dos contos [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Os contos de fadas são assim.<br>Uma manhã, a gente acorda<br>E diz: &#8220;era só um conto de fadas&#8230;&#8221;<br>E a gente sorri de si mesma.<br>Mas, no fundo, não estamos sorrindo.<br>Sabemos muito bem que os contos de fadas<br>São a única verdade da vida.</p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><a href="https://www.pensador.com/autor/antoine_de_saint_exupery/">Antoine de Saint-Exupéry</a></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em><strong>Resumo</strong>: Este ensaio visa formular ideias e experiências a partir dos contos de fadas que surgem no processo terapêutico, além de aspirar impulsionar terapeutas, analistas e arteterapeutas a ampliar os contos, histórias ou &#8220;vestígios&#8221; mitológicos dos clientes trazidos a clínica. A busca pelos conteúdos sombrios que emergem a partir da associação com histórias e &#8216;estórias&#8217; podem nos auxiliar como condutor simbólico para revelar ao cliente mais de si mesmo.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-era-uma-vez-era-uma-vez-nao-respeita-chronos-o-grande-senhor-do-tempo-cronologico-pelo-menos-assim-me-parece" style="font-size:19px"><em>Era uma vez&#8230;</em> Era uma vez não respeita Chronos, o grande senhor do tempo cronológico &#8211; pelo menos assim me parece.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Os contos trazem o tempo do <em>não tempo</em>, eles trazem o efeito do agora e mesmo que a história tenha sido escutada, ouvida, assistida e elaborada uma vida inteira quando acessamos esse espaço do que <em>uma vez foi</em>, posso assegurar com alguma confiança de o tempo é agora.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Uma vez que, na prática, existem fenômenos da consciência e do inconsciente, o si mesmo como totalidade psíquica tem aspecto consciente e inconsciente. O si mesmo aparece empiricamente em sonhos, mitos e contos de fadas, na figura de “personalidades superiores” como reis, heróis, profetas, salvadores etc., ou na figura de símbolos de totalidade como o círculo, o quadrilátero, a quadratura circuli (quadratura do círculo), a cruz etc. Enquanto representa uma complexio oppositorum, uma união dos opostos, também pode manifestar-se como dualidade unificada, como, por exemplo, no tao, onde concorrem o yang e o yin, como irmãos em litígio, ou como o herói e seu rival (dragão, irmão inimigo, arqui-inimigo, Fausto e Mefisto etc.). Empiricamente, pois, o si mesmo aparece como um jogo de luz e sombra, ainda que seja entendido como totalidade e, por isso, como unidade em que se unem os opostos.</p><cite>JUNG, 2012. vol.6 §902</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-contos-de-fadas-estao-presentes-em-diversas-culturas-ao-redor-do-mundo-e-em-cada-lugar-ele-se-adapta-para-responder-e-reescrever-as-necessidades-de-coletivos-e-individuos-e-fazem-isso-pois-carregam-uma-riqueza-simbolica-que-transcende-fronteiras-e-epocas" style="font-size:19px">Os contos de fadas, estão presentes em diversas culturas ao redor do mundo e em cada lugar ele se adapta para responder e reescrever as necessidades de coletivos e indivíduos, e fazem isso pois carregam uma riqueza simbólica que transcende fronteiras e épocas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para Jung, esses contos representam manifestações do inconsciente coletivo, uma camada da psique compartilhada por toda a humanidade e composta por arquétipos que nos afetam de forma laboriosa, é inevitável o afeto, assim como é inevitável para de respirar para se viver. Esses contos, mitos e histórias reveladas de forma ancestral nos apresentam símbolos e contextos que aparecem de forma simbólica nas narrativas, oferecendo um espelho das experiências humanas mais profundas.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Do mesmo modo como as constelações foram projetadas no céu, assim também outras figuras semelhantes foram projetadas nas lendas e nos contos de fadas ou em personagens históricas. Por isso, podemos estudar o inconsciente coletivo de duas maneiras: na mitologia ou na análise do indivíduo. Como não posso colocar este último material ao alcance dos leitores, devo limitar-me à mitologia.</p><cite>JUNG, 2012. vol.6 §325</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">C. G. Jung tenta trazer na sua obra a importância do trabalho terapêutico feito a partir de elaborações e ampliações na clínica em cima de determinados temas trazidos pelos clientes pelo método de contação de estórias ou ampliação simbólica de mitos e contos de fadas. Essa condução atinge camadas da psique que não conseguimos acessar de forma livre ou espontânea, mas permite ao indivíduo elaborar questões de valor pessoal que muitas vezes não são perceptíveis pela consciência. Afinal, “<strong>todos os contos de fadas tentam descrever apenas um fato psíquico</strong>” (Von Franz, p.10) e muitas vezes nos negamos a conscientizar que nos apoiamos em fatores externos para não darmos conta desses fatos internamente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-maria-louise-von-franz-aprofundou-essa-compreensao-ao-analisar-os-contos-de-fadas-como-expressoes-simbolicas-do-processo-de-individuacao-o-caminho-de-integracao-do-self" style="font-size:19px"><strong>Maria Louise Von Franz</strong>, aprofundou essa compreensão ao analisar os contos de fadas como expressões simbólicas do processo de individuação &#8211; o caminho de integração do self. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Segundo ela, esses contos não são apenas histórias infantis, mas mapas simbólicos que orientam o indivíduo na jornada de autoconhecimento, confrontando aspectos internos como medos, desejos e potencialidades; e mais que isso a analista abre seu livro <em>A interpretação dos contos de fada </em>afirmando de forma objetiva que os contos de fada são “a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo” (Von Franz, p.9) e completa que o valor deles dentro de um processo analítico de investigação do inconsciente é tão importante, que ela considera o mais importante.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Nos mitos, lendas ou qualquer outro material mitológico mais elaborado, atingimos as estruturas básicas da psique humana através de uma exposição do material cultural. Mas nos contos de fada existe um material cultural consciente muito menos específico e, subsequentemente, eles espelham mais claramente as estruturas básicas da psique.</p><cite>VON FRANZ, PÁG.09</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Na prática terapêutica, tanto <strong>Jung </strong>quanto <strong>Von Franz </strong>utilizavam os contos de fadas como ferramentas de ampliação para a elaboração dos processos individuais dos clientes em seus respectivos processos. Através da análise dos símbolos presentes nas histórias, o cliente pode reconhecer padrões internos, conflitos e potencialidades. Essa abordagem arteterapêutica nos ajuda a acessar uma compreensão mais profunda do inconsciente, promovendo a integração de aspectos reprimidos ou desconhecidos.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“Nos mitos e contos de fada, como no sonho, a alma fala de si mesma e os arquétipos se revelam em sua combinação natural, como “formação, transformação, eterna recriação do sentido eterno””. </p><cite>(Jung, 2012. vol.9/1 §400)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Na arteterapia, os contos de fadas servem como fonte de inspiração para a criação de imagens que representam os processos internos do indivíduo, e quando falamos imagens, podemos ficar apenas na elaboração verbal, no caso. Imagens dentro do processo arteterapêutico junguiano fala de todo e qualquer aspecto que traga conteúdo para elaboração simbólica na clínica. Mas os contos de fada podem promover mais, pois ao ilustrar ou dramatizar esses contos, o paciente acessa emoções e símbolos que muitas vezes estão além da fala, facilitando a expressão de conteúdos inconscientes e promovendo algumas integrações e percepções que dirigidas pelos afetos das práticas e dos materiais rompem um padrão de controle, ao qual todos somos submetidos, quando nosso complexo do Ego tem a permissão para elaborar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A arteterapia nos possibilita usar todas as funções e olhar o objeto como um terceiro elemento promovendo uma percepção única e apurada dos elementos trazidos a consciência pelo Self. “<strong>Quanto mais diferenciadas e desenvolvidas são as funções do consciente, melhor e mais rica será a interpretação feita, pois, a história será circundada, tanto possível, pelas quatro funções</strong>&#8220;. (Von Franz, pág.24)</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Do mesmo modo como as constelações foram projetadas no céu, assim também outras figuras semelhantes foram projetadas nas lendas e nos contos de fadas ou em personagens históricas. Por isso, podemos estudar o inconsciente coletivo de duas maneiras: na mitologia ou na análise do indivíduo. Como não posso colocar este último material ao alcance dos leitores, devo limitar-me à mitologia.</p><cite> JUNG, 2012. vol.6 §325</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Assim sendo, podemos “contar” com os contos de fadas, sob a perspectiva da psicologia analítica como um recurso extremamente importante e funcional pois são instrumentos poderosos de conexão com o inconsciente coletivo, facilitando o processo de reconhecimento de conteúdos muitas vezes desconhecidos por nós mesmos. Sua virtude está nos acessos simbólico e universal os torna recurso valiosos tanto na prática clínica junguiana quanto na arteterapia com elaboração e aprofundamento da psicologia analítica sobre os conteúdos oriundos das práticas. <strong>Com isso, contribuímos para uma compreensão mais profunda de si mesmo e do mundo interior dos nossos clientes/criantes/analisandos</strong>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-large is-style-default" style="font-size:18px"><blockquote><p>Não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos.</p><cite><strong>Anais Nin</strong></cite></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Me conta seu conto&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/hL_X19zOwes?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/barbara/">Bárbara Pessanha &#8211; Membro Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">E. Simone Magaldi – Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>Tipos Psicológicos</strong>. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 6)</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</strong>. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 9/1)</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>Aion – Estudo sobre o simbolismo do si mesmo</strong>. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 9/2)</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie Louise.&nbsp;A Interpretação dos Contos de Fada. São Paulo. Paulus, 7ª edição, 2008.</p>
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		<item>
		<title>Superparentalidade: de crianças superprotegidas a adultos infantilizados</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/superparentalidade-de-criancas-superprotegidas-a-adultos-infantilizados/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Clarisse Grand Court]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Jun 2025 12:44:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
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		<category><![CDATA[superproteção]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Não é importante que os pais nunca cometam erros – isso seria impossível para os seres humanos –, mas que os reconheçam como erros. Não é a vida que deve ser detida, mas a nossa inconsciência; primeiramente, a do educador, isto é, a própria, pois cada um é educador de seu próximo tanto para o [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/superparentalidade-de-criancas-superprotegidas-a-adultos-infantilizados/">Superparentalidade: de crianças superprotegidas a adultos infantilizados</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote is-style-large" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>Não é importante que os pais nunca cometam erros – isso seria impossível para os seres humanos –, mas que os reconheçam como erros. Não é a vida que deve ser detida, mas a nossa inconsciência; primeiramente, a do educador, isto é, a própria, pois cada um é educador de seu próximo tanto para o bem como para o mal. </em></p><cite>(Jung, 2021, p.90)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><em><strong>Resumo</strong>: Na tentativa de proteger excessivamente seus filhos, muitos pais acabam impedindo que eles vivenciem experiências importantes e realizem tarefas simples do dia a dia. Aborda-se como esse excesso de “cuidado” pode formar adultos inseguros, dependentes e com dificuldades para enfrentar os desafios da vida.</em> <em>A superproteção compromete o desenvolvimento da criança, passando pela adolescência até a vida adulta, resultando em indivíduos emocionalmente presos à infância e marcados pela imaturidade. <strong>Mais do que nunca, precisamos refletir sobre nossa forma de educar: estaremos verdadeiramente preparando nossas crianças para a vida ou apenas protegendo a nós mesmos</strong>?</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-criancas-que-ganham-autonomia-no-autocuidado-e-nas-tarefas-domesticas-tornam-se-adultos-mais-afetuosos-regulados-emocional-e-cognitivamente" style="font-size:19px">Crianças que ganham autonomia no autocuidado e nas tarefas domésticas tornam-se adultos mais afetuosos, regulados emocional e cognitivamente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa é uma questão levantada no artigo realizado pela&nbsp;<em>La Trobe University</em>:&nbsp;<em>Executive functions and household chores: Does engagement in chores predict children’s cognition?</em>&nbsp;(Funções executivas e tarefas domésticas: o envolvimento nas tarefas prevê a cognição das crianças?&nbsp;– tradução livre).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Embora a tese apresentada acima pareça óbvia para muitos leitores, temos observado uma atitude contrária por parte de muitos pais nos dias de hoje. E é sobre essa <strong>superproteção parental</strong> que proponho refletirmos ao longo deste artigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O estudo australiano aponta que a&nbsp;<strong>superparentalidade</strong>&nbsp;tira das crianças a oportunidade de progresso por meio da realização de tarefas simples do dia a dia. O envolvimento excessivo dos pais prejudica o desenvolvimento emocional e comportamental desses indivíduos ao longo da vida, que crescem dependentes e incapazes de se autoafirmarem, tornando-se <strong>adultos infantilizados</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-observando-a-forma-como-a-sociedade-contemporanea-vivencia-a-parentalidade-entendo-que-estamos-em-crise" style="font-size:19px">Observando a forma como a sociedade contemporânea vivencia a parentalidade, entendo que estamos em crise.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-perdemo-nos-diante-da-ideia-do-que-e-amar-cuidar-e-ensinar" style="font-size:19px">Perdemo-nos diante da ideia do que é amar, cuidar e ensinar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Como elaborei no meu último artigo,&nbsp;<a href="https://blog.sudamar.com.br/a-parentalidade-positiva-e-a-sua-sombra-na-contemporaneidade/"><em>“A parentalidade positiva e a sua sombra na contemporaneidade”</em></a>, penso que assumimos novas demandas impostas por uma geração que acredita na fórmula certa para a construção da <strong>família perfeita</strong>. Nela, não cabem erros, fraquezas e vulnerabilidades – nem para os pais, nem para os filhos. Vivemos a era que teme o sofrimento e a insatisfação das crianças.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A rotina pesada do dia a dia, somada às ideias equivocadas de que&nbsp;amor nunca é demais&nbsp;e de que&nbsp;frustração desregula as crianças emocionalmente, tem invertido a lógica da dinâmica familiar. Fazer pelos filhos torna-se mais importante do que permitir que eles errem e se desenvolvam no tempo deles – essa é a cartilha da <strong>superparentalidade</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-assumir-as-pequenas-tarefas-e-desafios-dos-filhos-perdemos-a-chance-de-encoraja-los-e-de-oferecer-suporte-emocional-frente-as-adversidades-e-aprendizados-da-vida" style="font-size:19px">Ao assumir as pequenas tarefas e desafios dos filhos, perdemos a chance de encorajá-los e de oferecer suporte emocional frente às adversidades e aprendizados da vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Criamos tanta culpa e desconexão com nossas crianças e, por outro lado, assumimos o controle de tudo – inclusive das pequenas atividades cotidianas que elas já são capazes de desenvolver sozinhas, como vestir-se, comer, amarrar os tênis, tomar banho ou preparar seu lanche. Quando o amor e o cuidado tornam-se desmedidos, sufocamos e interditamos os indivíduos em seu processo de desenvolvimento natural e necessário.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Segundo <strong>Neumann</strong>, é preciso saber diferenciar o mimar “verdadeiro” do “falso”, da mãe-bruxa que atrai a criança para sua casa de chocolate. “<strong>Mimar [&#8230;] não produz distúrbios sérios, até tornar-se necessário para a criança afrouxar os laços com a mãe, e esse processo é impedido ou prevenido pelo fato de a mãe ter mimado o filho</strong>”&nbsp;(1995, p. 54, grifos meus). Nesse caso, o mimo não saudável gerará um processo de dependência e codependência, afetando diretamente o desenvolvimento da criança. Vale ressaltar que podemos ampliar tranquilamente esse conceito, designado por Neumann à mãe, para todos que exercem a <strong>parentalidade</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O mimo que ultrapassa a primeira infância priva as crianças de se desenvolverem a partir de inibições, contradições e frustrações. Dinâmicas fundamentais para que, no futuro, esses indivíduos sejam capazes de suportar a tensão psíquica entre o consciente e o inconsciente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“A capacidade de uma criança aceitar restrições com relativa facilidade depende de uma capacidade de se integrar, de formar um ego integral e um eixo ego-Self positivo”&nbsp;(NEUMANN, 1995, p. 57-58).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Na perspectiva junguiana, compreendemos que o receio que os pais têm de que seus filhos se frustrem fala mais sobre eles mesmos do que sobre as crianças. É uma dinâmica psíquica sutil que reforça ainda mais a dependência emocional – a princípio natural e necessária entre filhos e pais –, mas que se torna disfuncional quando não é superada ao longo do desenvolvimento infantil.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-a-psique-da-crianca-jung-diz" style="font-size:19px">Sobre a psique da criança, <strong>Jung</strong> diz:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><strong>A criança tem uma psicologia singular</strong>. Assim como o seu corpo, durante a vida embrionária, é uma parte do corpo materno, também sua mente, por muitos anos, constitui parte da atmosfera psíquica dos pais. Este fato esclarece de pronto porque muitas das neuroses infantis são muito mais sintomas das condições psíquicas reinantes entre os pais do que doença genuína da criança. <strong>Apenas em parte a criança tem psicologia própria; em relação à maior parte, ainda depende da vida psíquica dos pais&nbsp;</strong>(2021, p. 84).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para a psicologia analítica, o desenvolvimento da personalidade pressupõe a diferenciação entre a psique dos filhos e a de seus pais no caminho do adultecimento, permitindo o processo de individuação de cada um ao longo da vida.&nbsp;“[&#8230;] <strong>apegar-se demasiadamente aos pais é desnatural e doentio</strong> [&#8230;]”&nbsp;(JUNG, 2021, p. 85).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-a-individuacao-jung-afirma-que-e-um-processo-que-nunca-chega-ao-fim-mas-e-o-caminho-para-nos-tornarmos-seres-unicos-realizando-nossas-potencialidades" style="font-size:19px">Sobre a individuação, Jung afirma que é um processo que nunca chega ao fim, mas é o caminho para nos tornarmos seres únicos, realizando nossas potencialidades:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“</em>A individuação, portanto, só pode significar um processo de desenvolvimento psicológico que faculte a realização das qualidades individuais dadas; em outras palavras, é um processo mediante o qual um homem se torna o ser único que de fato é<em>”</em>&nbsp;(2020, p. 64).</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-limitarmos-nossas-criancas-em-seu-processo-de-amadurecimento-fisico-emocional-e-cognitivo-causamos-um-interdito-na-passagem-da-infancia-para-a-adolescencia-e-depois-para-a-vida-adulta" style="font-size:19px">Ao limitarmos nossas crianças em seu processo de amadurecimento físico, emocional e cognitivo, causamos um interdito na passagem da infância para a adolescência e, depois, para a vida adulta.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">“Aqueles que passam conscientemente pela transição trazem mais significado à sua vida. Os que não passam permanecem prisioneiros da infância, não importa o sucesso aparente que possam ter na vida”&nbsp;(HOLLIS, 2023, p. 9).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-superparentalidade-tornou-se-um-sintoma-que-evidencia-o-peso-e-as-expectativas-geradas-sobre-a-criacao-dos-filhos-trazendo-impactos-negativos-para-toda-uma-geracao-da-infancia-a-adultez" style="font-size:19px">A <strong>superparentalidade</strong> tornou-se um sintoma que evidencia o peso e as expectativas geradas sobre a criação dos filhos, trazendo impactos negativos para toda uma geração – da infância à adultez.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">À medida que nos desconectamos dos instintos maternos e paternos, perdemos a capacidade de observar, respeitar e favorecer o desenvolvimento das etapas da vida humana, que acontecem a partir de experiências boas e ruins. Privar crianças e adolescentes de frustrações e tristezas não os torna mais felizes ou amorosos – pelo contrário. No entanto, oferecer suporte emocional, acolhimento e segurança durante situações difíceis favorece a formação de indivíduos mais seguros e autônomos, além de fortalecer ainda mais o vínculo familiar.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Podemos até concluir que a personalidade adulta não examinada é um agregado de atitudes, comportamentos e reflexos psíquicos ocasionados pelos traumas da infância, cujo objetivo fundamental é controlar o nível de sofrimento experimentado pela memória orgânica da infância que conduzimos dentro de nós. Podemos chamar essa memória orgânica de criança interior, e nossas várias neuroses representam estratégias inconscientemente desenvolvidas para defender essa criança. (A palavra ‘neurose’ não é usada aqui no sentido clínico, e sim como termo genérico para a divisão entre a nossa natureza e a nossa aculturação)&nbsp;(HOLLIS, 2023, p. 13).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao adotarmos a <strong>superparentalidade</strong> como modelo, formamos uma geração de jovens adultos infantilizados e incapazes de fazerem por si mesmos o básico. De forma mais ampla, esse comportamento parental poda a possibilidade de desenvolvimento cognitivo e emocional. Criando indivíduos desconectados de suas emoções, sentimentos, necessidades básicas e sem condições de compreender o outro em suas vulnerabilidades e deficiências – ou seja, incapazes de praticar empatia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-afeto-desmedido-ou-a-falta-dele-esta-inexoravelmente-ligado-ao-desenvolvimento-emocional-de-criancas-e-adolescentes-e-a-sua-capacidade-de-no-futuro-tornarem-se-adultos-emocionalmente-regulados" style="font-size:19px"><strong>O afeto desmedido – ou a falta dele – está inexoravelmente ligado ao desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes e à sua capacidade de, no futuro, tornarem-se adultos emocionalmente regulados.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A autonomia que os indivíduos terão na fase adulta é desenvolvida ainda na infância, por meio da participação em tarefas domésticas, no cuidado de suas próprias coisas e de seu corpo. Essas habilidades são fundamentais para a autorregulação na vida madura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A presença afetiva dos pais na vida dos filhos é preponderante para o desenvolvimento psíquico da criança. No entanto, é fundamental que essa presença sofra modificações ao longo do tempo. A influência dos pais precisa diminuir para que os adolescentes conectem-se com outros pares, vivam novas relações, diferenciem-se do ambiente familiar e descubram sua identidade na vida adulta.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;Superparentalidade: de crianças superprotegidas a adultos infantilizados&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/lh4wrpvZpfo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/clarissegrand/">Clarisse Grand Court – Analista Junguiana em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Mariante Guarnieri – Analista didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-nbsp" style="font-size:19px"><strong>Referências:&nbsp;</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">HOLLIS, James. A passagem do Meio: da miséria ao significado da meia idade. 1 ed. São Paulo: Paulus, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">JUNG, Carl Gustav.&nbsp; O desenvolvimento da personalidade. 13.ed. Petrópolis: Vozes, 2021b.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">_____, Carl Gustav.&nbsp; O eu e o inconsciente. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">NEUMANN, Erich. A Criança: Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação. 10.ed. São Paulo: Cultrix, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Obradović, Jelena. Supporting Children’s School Readiness. IN: Stanford University. <a href="https://bingschool.stanford.edu/news/supporting-childrens-school-readiness-jelena-obradovic">https://bingschool.stanford.edu/news/supporting-childrens-school-readiness-jelena-obradovic</a> . Acesso em 28 de abril de 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">TEPPER, Deana L.; HOWELL,Tiffani; BENNETT, Pauleen.(2022). Executive functions and household chores: Does engagement in chores predict children&#8217;s cognition? In: Australian Occupational Therapy Journal. <a href="https://www.researchgate.net/publication/360998732_Executive_functions_and_household_chores_Does_engagement_in_chores_predict_children's_cognition">https://www.researchgate.net/publication/360998732_Executive_functions_and_household_chores_Does_engagement_in_chores_predict_children&#8217;s_cognition</a> . Acesso em 28 de abril de 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:21px"><strong>Conheça nossos cursos, congressos e pós-graduações</strong>: <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br </a></p>
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		<title>A urgência pelo sentido e o silêncio da dor: limites e perigos na escuta analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-urgencia-pelo-sentido-e-o-silencio-da-dor-limites-e-perigos-na-escuta-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leandro Scapellato]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Jun 2025 19:43:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[acolhimento]]></category>
		<category><![CDATA[análise junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[busca por sentido]]></category>
		<category><![CDATA[dor]]></category>
		<category><![CDATA[dor psíquica]]></category>
		<category><![CDATA[individuação]]></category>
		<category><![CDATA[lidar com as dores dos pacientes]]></category>
		<category><![CDATA[misticismo superficial]]></category>
		<category><![CDATA[narcisismo analítico]]></category>
		<category><![CDATA[Simbolismo]]></category>
		<category><![CDATA[Sofrimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este ensaio discute a tendência, presente tanto em pacientes quanto em analistas da clínica junguiana, de buscar apressadamente um sentido para os acontecimentos da vida, especialmente aqueles marcados pela desgraça e pela injustiça irredutível. Apoiado em uma perspectiva ética e clínica, o texto sustenta que essa corrida pelo significado — ainda que inspirada em [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong>Resumo</strong>: Este ensaio discute a tendência, presente tanto em pacientes quanto em analistas da clínica junguiana, de buscar apressadamente um sentido para os acontecimentos da vida, especialmente aqueles marcados pela desgraça e pela injustiça irredutível. Apoiado em uma perspectiva ética e clínica, o texto sustenta que essa corrida pelo significado — ainda que inspirada em princípios simbólicos ou espirituais — pode representar uma recusa inconsciente em acolher o sofrimento nu e cru do acontecimento. Em vez de aliviar o sofrimento, essa busca pode invalidar a dor e promover uma repressão emocional disfarçada de elaboração simbólica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">O autor argumenta que há um narcisismo velado na tentativa de encontrar imediatamente um &#8220;aprendizado&#8221; ou &#8220;propósito&#8221; para eventos como o suicídio, o estupro ou a perda brutal, ignorando a necessidade de sustentar o silêncio, o absurdo e a sombra da experiência. A análise profunda e ética exige a capacidade de suportar os opostos: reconhecer tanto a busca por sentido quanto o peso do sem sentido, sem se render ao conforto ilusório das explicações rápidas. O ensaio adverte contra o risco de transformar o trabalho analítico em romantismo místico e propõe uma postura mais humilde e corajosa diante do sofrimento humano, sustentando o real, o simbólico e o trágico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-palavras-chave-sofrimento-busca-por-sentido-narcisismo-analitico-simbolismo-dor-psiquica-analise-junguiana-individuacao-misticismo-superficial" style="font-size:19px"><strong>Palavras-chave: sofrimento, busca por sentido, narcisismo analítico, simbolismo, dor psíquica, análise junguiana, individuação, misticismo superficial.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Em tempos de inflação simbólica, há uma tendência cada vez mais comum — tanto entre pacientes quanto entre analistas — de interpretar todos os acontecimentos à luz de um possível sentido oculto, como se cada dor precisasse imediatamente de uma função, uma explicação ou um propósito. <strong><em>Tudo precisa significar algo. Tudo precisa ser integrado. Tudo precisa curar.</em></strong> E nessa busca apressada por significado, o acontecimento em si, cru, nu e desgraçado, é muitas vezes ignorado ou violentamente interpretado, como se a dor, para ser legitimada, precisasse logo tornar-se metáfora.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">É verdade que a psicologia analítica se baseia numa visão simbólica da psique, e que muitos sintomas, sonhos, atitudes e experiências podem, sim, carregar sentidos profundos. Mas também é verdade que nem tudo pode — nem deve — ser interpretado de imediato. Há acontecimentos que precisam ser simplesmente reconhecidos como desgraças. Como realidades psíquicas e existenciais que, por um tempo, não se deixam transformar, redimir ou simbolizar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Carl Gustav Jung nos alertou: &#8220;<strong>O objetivo mais nobre da psicoterapia não é colocar o paciente num estado impossível de felicidade, mas sim possibilitar que adquira firmeza e paciência filosóficas para suportar o sofrimento</strong>&#8221; (JUNG, A Prática da Psicoterapia, OC XVI/1, §185).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-firmeza-exige-do-analista-algo-que-talvez-seja-mais-dificil-do-que-oferecer-explicacoes-suportar-o-silencio-sustentar-o-nao-saber-tolerar-o-peso-do-acontecimento-sem-buscar-alivio-imediato-na-espiritualizacao-ou-na-sublimacao" style="font-size:19px">Essa firmeza exige do analista algo que talvez seja mais difícil do que oferecer explicações: <strong>suportar o silêncio</strong>. Sustentar o não saber. Tolerar o peso do acontecimento sem buscar alívio imediato na espiritualização ou na sublimação.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-preciso-lembrar-que-nem-toda-dor-e-transitoria-ou-transformavel" style="font-size:19px">É preciso lembrar que nem toda dor é transitória ou transformável.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Algumas dores, como as provenientes de acontecimentos graves, são como fissuras permanentes na alma, e o gesto mais humano diante delas é o acolhimento, não a decifração. Diante de questões severas — como um abuso sexual, um estupro coletivo, uma morte trágica de um filho, a devastação causada por uma doença incurável ou a dor silenciosa e crônica da ideação suicida —, qualquer tentativa apressada de simbolização pode se transformar em uma forma sutil de violência. Como se disséssemos àquela pessoa: “Entendo sua dor, veja como ela tem um propósito elevado”. Mas a verdade é que não entendemos. E tentar entender cedo demais, com boas intenções, pode nos colocar exatamente no lugar do analista inflado, tomado por uma onipotência simbólica que deseja aliviar mais a si mesmo do que ao outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-uma-arrogancia-disfarcada-de-espiritualidade-nesse-movimento-um-narcisismo-analitico-que-recorre-a-busca-por-sentido-como-um-modo-de-se-proteger-da-angustia" style="font-size:19px"><strong>Há uma arrogância disfarçada de espiritualidade nesse movimento</strong>. <strong>Um narcisismo analítico que recorre à busca por sentido como um modo de se proteger da angústia</strong>. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Porque sustentar o sofrimento injusto do outro sem resposta é insuportável para muitos psicoterapeutas. Jung escreveu que a plenitude da vida exige um equilíbrio entre sofrimento e alegria, e que “por trás da neurose se esconde todo o sofrimento natural e necessário que não se está disposto a suportar” (JUNG, A Prática da Psicoterapia, OC XVI/1, §185).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-poderiamos-dizer-que-por-tras-de-muitos-esforcos-interpretativos-esconde-se-a-recusa-do-analista-em-sustentar-a-propria-impotencia" style="font-size:19px">Poderíamos dizer que, por trás de muitos esforços interpretativos, esconde-se <strong>a recusa do analista em sustentar a própria impotência</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Mas a experiência clínica demonstra que há momentos em que nenhum símbolo redime, nenhum arquétipo consola e nenhuma função transcendente se manifesta. Há momentos em que o analista deve se despir de suas teorias e técnicas, para permanecer apenas como presença humana diante daquilo que não se compreende. Jung reconheceu esse perigo quando afirmou que há momentos em que mergulhamos numa profundidade onde “todas as muletas e arrimos são quebrados”, e é ali que talvez se manifeste o arquétipo do sentido, “até então oculto na significativa falta de sentido [&#8230;]” (JUNG, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, OC IX/1, §66). Mas a vivência desse arquétipo, antes de ser revelação, é colapso. É como “uma morte voluntária”, forçada por uma vida que não se explica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-morte-simbolica-exige-do-analista-nao-uma-resposta-mas-uma-travessia-compartilhada" style="font-size:19px">Essa morte simbólica exige do analista não uma resposta, mas uma travessia compartilhada. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Uma escuta que reconhece a brutalidade da vida e não a camufla com poesia. Uma escuta que não exige do paciente a performance do resiliente. Porque há dor que não edifica. Há sofrimento que não amadurece. Há feridas que não viram cicatriz, mas que se tornam abismos habitáveis — desde que alguém permaneça ali conosco.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">A escuta analítica, quando madura, não tenta suprimir essa ausência de sentido com respostas apressadas. Ela não busca anestesiar a dor do outro com beleza simbólica. Ao contrário, ela reconhece a necessidade paradoxal de sustentar os opostos: acolher tanto a busca por sentido quanto a total falta dele. Jung foi enfático: “a totalidade, a plenitude da vida exige um equilíbrio entre sofrimento e alegria” (JUNG, A Prática da Psicoterapia, OC XVI/1, §185). E mais ainda: “a paixão do ego, ou seja, do homem empírico implica sofrimento, sendo ele como que violentado pelo Si-mesmo” (JUNG, Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade, OC XI, §233).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-portanto-o-sofrimento-que-nao-faz-sentido-e-ainda-assim-parte-da-totalidade-e-o-analista-deve-ter-coragem-para-olhar-para-ele-com-humildade" style="font-size:19px">Portanto, o sofrimento que não faz sentido é, ainda assim, parte da totalidade. E o analista deve ter coragem para olhar para ele com humildade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Porque se não o fizer, corre o risco de transformar a análise num romantismo espiritual, num misticismo superficial que não resiste ao primeiro vento de inverno. E esse risco não é apenas teórico: ele é clínico, prático, cotidiano. Ele se manifesta quando um paciente começa a ocultar sua dor por perceber que sua verdade bruta não cabe mais na escuta do analista. Quando, mesmo sem querer, o analista estabelece a expectativa de que o sofrimento só será aceito se vier acompanhado de uma iluminação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-nos-ensinou-um-sofrimento-incompreensivel-e-dificil-de-suportar-ao-passo-que-e-espantoso-ver-com-frequencia-o-que-um-individuo-e-capaz-de-aguentar-quando-entende-a-razao-e-a-finalidade-do-seu-padecimento-jung-a-vida-simbolica-oc-xviii-2-1-578" style="font-size:19px">Jung nos ensinou: “<strong>Um sofrimento incompreensível é difícil de suportar, ao passo que é espantoso ver, com frequência, o que um indivíduo é capaz de aguentar quando entende a razão e a finalidade do seu padecimento</strong>” (JUNG, A Vida Simbólica, OC XVIII/2, §1.578).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">No entanto, isso só acontece quando a razão é vivida, não imposta. Quando o sentido emerge, e não é fabricado pelo desejo do analista. Quando ele vem como consequência da travessia, e não como forma de evitá-la.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">É preciso lembrar: nem todo acontecimento precisa ser simbolizado. Nem toda dor precisa ser metaforizada. Algumas dores precisam ser acolhidas apenas como dores, eventos do destino que nos quebram, e que não podem — e talvez não devam — ser interpretados imediatamente. E isso não significa cair no niilismo, mas sim honrar o mistério. Há uma força na escuridão não explicada. Jung chegou a dizer que a dor no coração de um paciente era a dor da alma que ele se recusava a sentir, e que o sintoma físico só desapareceu quando ele chorou (JUNG, A Natureza da Psique, OC VIII/2, § 303). Ou seja, às vezes não é a interpretação, mas a vivência direta da dor é que traz algo para o indivíduo. Porém nem todos estão preparados para sustentar essa vivência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muitos-analistas-especialmente-os-mais-jovens-ou-inseguros-buscam-em-suas-formacoes-um-abrigo-contra-a-angustia-do-real" style="font-size:19px">Muitos analistas, especialmente os mais jovens ou inseguros, buscam em suas formações um abrigo contra a angústia do real.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">E transformam a escuta em um campo de garantias, onde o símbolo precisa aparecer, onde a redenção precisa acontecer, onde a história do paciente precisa, de algum modo, terminar bem. Como se pudessem, amparados por uma metodologia infértil e um desejo infantil, aprisionar as Moiras e definir o destino a ser fiado — o que nem os deuses olímpicos se atreviam a tentar. Esse otimismo forçado — às vezes travestido de espiritualidade — é um desserviço à alma em dor. Porque a alma pede verdade. Mesmo que a verdade seja insuportável. Mesmo que a verdade seja que nada fez sentido. E essa é uma verdade que pode e deve ser sustentada.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Jung insistia que o inconsciente não era apenas o reservatório de conteúdos reprimidos, mas também o campo onde se gestam os futuros conteúdos da consciência. E, como tal, é um campo que inclui o trágico, o absurdo, o injustificável. A psique não é só luz, ela é também sombra; não é só sentido, é também <em>nonsense</em>. Não reconhecer essa ambivalência é trair a própria alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">É legítimo e até necessário que a análise busque sentido. Mas essa busca precisa ser atravessada pela humildade do não saber, pela capacidade de sustentar aquilo que ainda não se simbolizou, aquilo que talvez jamais se simbolize. Porque se a análise corre apressada para encontrar um “para quê?” em tudo, corre também o risco de abandonar o “isso aconteceu”, que é o ponto de partida — e muitas vezes também o ponto de chegada — de quem viveu um horror.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-fim-cabe-tambem-lembrar-uma-analise-que-ignora-a-dor-do-acontecimento-em-nome-do-simbolo-corre-o-risco-de-se-tornar-cumplice-da-repressao" style="font-size:19px">Por fim, cabe também lembrar: uma análise que ignora a dor do acontecimento em nome do símbolo corre o risco de se tornar cúmplice da repressão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">E como nos adverte Jung, os conteúdos que não são acolhidos pela consciência retornam como sintomas (JUNG, A Natureza da Psique, OC VIII/2, §702). Por exemplo, como rancor, revolta, desconfiança ou até mesmo desistência do processo analítico. A dor não acolhida se transforma em sombra — e, na clínica, pode se tornar silêncio. Um silêncio que se distancia. Um silêncio que desiste.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Dessa forma, o verdadeiro trabalho analítico exige uma coragem rara: <strong>a de escutar a dor sem explicá-la</strong>. <strong>De acompanhar o outro no abismo, sem a pressa de fechá-lo com uma ponte simbólica frágil</strong>. E, sobretudo, de reconhecer que, em certos momentos, o maior gesto de cuidado é simplesmente estar ali — presente, vivo, humano — ao lado de quem sofre, sem tentar aliviar a dor, mas apenas sustentá-la junto, com respeito, firmeza e, principalmente, amor. Afinal, a vida não é um problema, é um mistério. Os problemas, nós conseguimos resolver. Os mistérios, apenas viver.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;A urgência pelo sentido e o silêncio da dor: limites e perigos na escuta analítica&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/WFqGqPt1iqI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/leandroscapellato/">Leandro Scapellato – Membro Analista em formação/IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Membro Analista Didata/IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A prática da psicoterapia</em>. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A vida simbólica</em>. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Interpretação psicológica do dogma da Trindade</em>. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-2-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10540" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-2-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-2-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-2-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-2-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-2-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-2.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Matrículas abertas</strong>:&nbsp;<a href="http://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso Canal no&nbsp;<strong><a href="https://www.youtube.com/@IJEPJung/videos">YouTube</a></strong>:&nbsp;<strong>+700 vídeos de conteúdo Junguiano</strong>!</p>
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		<title>Quando a vida finalmente dá certo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/quando-a-vida-finalmente-da-certo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Moura Vernalha]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Aug 2024 21:25:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Consciência]]></category>
		<category><![CDATA[cosmovisão]]></category>
		<category><![CDATA[individuação]]></category>
		<category><![CDATA[intuição]]></category>
		<category><![CDATA[propósito]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
		<category><![CDATA[zona de conforto]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9357</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este artigo fala sobre o desejo de alcançar a plenitude da vida em todos os seus segmentos, destacando porém, que responsabilidade, racionalidade e trabalho com afinco podem não ser suficientes, se as expectativas não estiverem alinhadas a um significado interior maior. E ainda, que este processo estaria altamente vinculado ao conhecimento cada vez mais crescente e aprofundado de si mesmo.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em algum tempo de nossa jornada, é quase inevitável o surgimento de pensamentos ou questionamentos sobre o momento em que seremos surpreendidos por grandes mudanças em nossas vidas, mudanças estas que nos conduzirão positivamente a novos patamares, novas frentes e fases.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Estas expectativas são diferentes pra cada pessoa, pois encontram-se apoiadas nas experiências passadas, crenças e valores de cada um. Porém, saliento um modo peculiar na forma de pensar &#8211; que não me atreveria a chamar de mágica -, uma forma de pensamento muitas vezes relacionado à busca por controle sobre os eventos, mas no mínimo de uma projeção ingênua sobre a forma de pensar e viver a vida, caracterizada, por vezes, por expectativas irreais, simplistas e também reducionistas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As habilidades latentes que nos acompanham desde o nascimento, e que podem ser desenvolvidas ao longo do tempo, são influenciadas direta ou indiretamente pelo ambiente, educação, estímulos recebidos, oportunidades e vivências pessoais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É importante lembrar que a vida nem sempre segue o curso que esperamos e que desafios surgem no meio do caminho. Exigindo flexibilidade e resiliência no enfrentamento das adversidades.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-acreditava-na-importancia-do-autoconhecimento" style="font-size:19px">Jung acreditava na importância do autoconhecimento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neste ponto, o fio que conduz à elevação de níveis mais sutis de desenvolvimento, envolve o equilíbrio entre os aspectos do inconsciente e da consciência, na busca por integração e individuação como caminhos para a realização e o desenvolvimento pessoal, a fim de se alcançar um estado de totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A partir do autoconhecimento, uma consciência livre de um mundo mesquinho e aberta à participação de um mundo mais amplo de interesses vai emergindo, e esta consciência ampliada já não é aquela pertencente ao novelo egoísta das ambições, temores e desejos de caráter pessoal, compensados inconscientemente por contratendências ( Jung, 2014)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-seguimos-na-ilusao-de-ja-nos-conhecer-e-nao-entendemos-a-importancia-da-cosmovisao-que-se-refere-ao-modo-como-o-individuo-enxerga-e-interpreta-a-realidade-ao-seu-redor" style="font-size:19px"><strong>Seguimos na ilusão de já nos conhecer</strong> e não entendemos a importância da cosmovisão, que se refere ao modo como o indivíduo enxerga e interpreta a realidade ao seu redor.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A reflexão sobre si mesmo nos leva a entender que esta cosmovisão não é para o mundo e sim para nós próprios. E que ao formarmos uma imagem global do mundo seremos capazes de ver a nós mesmos, que somos cópias fiéis deste mundo. Não existe um momento exato em que a vida começa a dar certo, mas sim um processo contínuo de evolução.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não é fácil manter foco e disciplina; a motivação muitas vezes faz falta e com isso, um planejamento que exige clareza, direcionamento e objetivos concretos pode gerar falsas expectativas. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Seria correto então afirmar que o sucesso de uma vida bem vivida, em todos os seus aspectos, não depende somente das virtudes do indivíduo. tais como responsabilidade, caráter e desejo de desenvolvimento e, ainda, de estrutura familiar com ambiente favorável e oportunidades do meio externo?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Tudo nos leva a crer que sim, pois estas características, isoladas da integração das diferentes partes da personalidade e aceitação de seus aspectos tanto positivos quanto negativos pode revelar uma vida &#8221; segura&#8221;, &#8221; funcional&#8221; e aparentemente &#8220;aprazível &#8220;, porém à margem do <strong>propósito </strong>e sem conexão com algo maior que a própria individualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando olhamos para nossa realidade com plena consciência, somos capazes de enxergar oportunidades de aprendizado e transformação em tudo que nos acontece. Sejam estas toda sorte de bênçãos ou mesmo os indesejados reveses. Através das funções da consciência, o estudo determinante de Jung no contexto do funcionamento da psique enfatiza a intuição- descrita muitas vezes como uma compreensão profunda e instantânea sobre algo sem a necessidade da razão, desempenhando um papel importante em nos avisar sobre algo novo que está prestes a entrar em nossa consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-estamos-abertos-e-receptivos-aumentamos-a-chance-de-perceber-sinais-sutis-de-que-algo-novo-se-aproxima" style="font-size:19px">Quando estamos abertos e receptivos aumentamos a chance de perceber sinais sutis de que algo novo se aproxima.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Buscando lugar em nossa consciência, nos preparando, ou até mesmo encorajando na exploração daquilo que esta se apresentando. Porém, é comum o estranhamento frente ao novo. Muito mais fácil seria se pudéssemos nos entregar a sensação interna e, imediatamente estarmos preparados para grandes mudanças e decisões.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Muitos, frente à angústia, podem viver esse cenário interno com paralisia e retrocesso, ou até mesmo uma tentativa de adaptação ao que se apresenta externamente, sem a paciência, que pode trazer o tempo necessário para descobrir o que devemos levar adiante ou deixar no caminho, com leveza e acima de tudo com muita responsabilidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-falemos-entao-da-famosa-zona-de-conforto" style="font-size:19px">Falemos então da famosa &#8220;zona de conforto &#8220;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse estado mental, familiar onde o risco de estresse é mínimo, pois as situações são previsíveis, permitindo um estado constante de segurança e confiança. Sair dessa zona implica exposição e desafios, que podem ser intimidantes, mas também podem levar ao desenvolvimento e crescimento pessoal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dessa-maneira-comecamos-a-nos-aproximar-da-ideia-do-que-pode-ser-uma-vida-que-se-realiza-e-que-atrelada-ao-autoconhecimento-pode-revelar-a-chave-que-abre-todas-as-portas" style="font-size:19px">Dessa maneira, começamos a nos aproximar da ideia do que pode ser uma vida que se realiza e que, atrelada ao autoconhecimento, pode revelar a chave que abre todas as portas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo <strong>Jung</strong>, (2013 p. 86) o processo de tornar-se homem acontece através da tomada de consciência das pretensões egoísticas. Onde o indivíduo percebe os seus motivos e procura formar uma ideia mais completa possível de sua própria natureza.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma reflexão e confronto consigo mesmo que, embora muito desconfortável para aquele que se encontra predominantemente inconsciente, é uma operação necessária, que reúne partes dispersas do eu, levando a um aflorar espontâneo do si-mesmo que já existia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A sombra é uma parte viva da personalidade e por isso quer comparecer de alguma forma, não sendo possível anula-la argumentando ou torná-la inofensiva através da racionalização.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Temos, porém que reconhecê-la afim de nos tornarmos verdadeiramente honestos e autênticos ( Jung, 2016). Assim, para Jung (2011) o homem se mostra tal como é, revelando o que antes estava oculto sob a máscara da adaptação convencional: a sombra, que ao se tornar consciente pode ser integrada ao eu, fazendo que se opere uma aproximação da totalidade, totalidade esta que não é a perfeição, mas o ser completo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-agora-entendemos-que-a-vida-finalmente-da-certo-quando-vivenciamos-cada-experiencia-sem-queimar-as-etapas-necessarias" style="font-size:19px">Agora entendemos, que a vida finalmente dá certo quando vivenciamos cada experiência sem queimar as etapas necessárias:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“Onde há uma lacuna,</em><br><em>onde falta o verdadeiro saber,</em><br><em>ainda hoje o espaço é preenchido</em><br><em>com projeções.”</em><br></p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-existe-o-certo-pra-vida-dar-certo" style="font-size:19px">Não existe o &#8220;CERTO&#8221; pra vida dar certo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma rotina simples de viver pode ser o ápice da felicidade, desde que o manancial das potencialidades tenha sido esgotado, para que se possa lidar de forma assertiva e funcional com os conflitos que vem e vão pela vida, nos levando a viver o melhor das coisas e aproveitando cada momento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os sinais externos não poderão jamais definir o valor humano de cada indivíduo, mas para que isso não nos paralise, é necessário enfrentar o medo de uma batalha competitiva, que por vezes, nós mesmos criamos dentro de nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando nos deparamos com a motivação que orienta nossas escolhas e ações, entendemos que estamos no caminho que escolhemos cautelosa e respeitosamente, e nesta estrada quem nos faz companhia é o PROPÓSITO, que revela nossa missão nessa viagem, e que finalmente podemos dizer que deu certo.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Quando a vida finalmente dá certo&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/h4TeA3pmtms?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/pmoura/">Patrícia Moura Vernalha &#8211; Membro Analista em formação pelo Ijep</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata Ijep</a></strong></p>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h1>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. <em>O eu e o inconsciente</em>. Vol. 7/2 &#8211; Editora Vozes, 2014</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG,C.G. <em>O símbolo da transformação na missa.</em> Vol. 11/3 &#8211; Editora Vozes, 2013 JUNG,C.G. OS arquétipos e o inconsciente coletivo. vol.9/1 &#8211; Editora Vozes, 2016</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG,C.G. <em>Ab-reação- análise doa sonhos e transferência</em>. Vol. 16/2 &#8211; Editora Vozes, 2011 JUNG, C.G. Psicologia e Religião. vol. 11/1 &#8211; Editora Vozes, 2013.</p>
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		<item>
		<title>São Francisco de Assis, hoje</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sao-francisco-de-assis-hoje/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Simone Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Jul 2022 22:34:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[São Francisco]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5850</guid>

					<description><![CDATA[<p>Refletir sobre o ensinamento de São Francisco de Assis frente ao momento atual, pandemia, dor, sofrimento, morte e incertezas. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A antropologia franciscana nos traz uma visão de homem integral, não negligenciando sua pertença à Natureza, sua espiritualidade, sua condição de irmão de todos os seres, seu dever de cuidar de tudo que foi legado ao homem por sua condição de ser consciente, portanto, responsável por tudo que se apresenta sem condição de discernimento e de autocuidado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No Renascimento o homem se colocou no centro do mundo, acima de toda natureza, acreditando poder tirar dela todo proveito porque ela lhe “foi dada”. Sem a consciência da limitação dos recursos terrenos, sem um olhar aos seres irracionais que partilham conosco o medo, a dor, o abandono e o sofrimento. Se colocou como “dono” da terra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até hoje se mata e morre pela terra. Usurpam as áreas protegidas, avançam sobre biossistemas frágeis, invadem reservas, e, em nenhum momento questionam as consequências. Cada um luta pelo que quer, por aquilo que acredita poder usurpar, tomar, arrancar. Esta condição tanto vale para o indivíduo como para os governos. Guerras e lutas se justificam pela tomada de terras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas e Gaia? Esse ser tão poderoso e ao mesmo tempo tão frágil, que tanto nos proporciona e não é respeitado. Há um limite para que a Terra supra as necessidades humanas. De há muito já extrapolamos o número de humanos que os recursos possam dar conta. Perdemos a medida. Membros de crenças fundamentalistas acreditam, cada qual, que devem aumentar o número de descendentes para serem maioria e colocar toda humanidade sob sua doutrina, sua crença.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Século XXI e acreditamos em liberdade. Utopia. Somos manipulados todo o tempo, por um sem número de interesses que não os nossos. Viver o Mito do Significado fica cada vez mais distante. Querem-nos massa e na massa não há individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Francisco de Assis foi um raro indivíduo que se entregou ao Self, contrariando toda expectativa familiar e social, até mesmo pessoal. Nasceu em 1182, em Assis, região da Úmbria, se tornara um “Jovem de “bem viver” , família abastada, mãe aristocrata, pai que projetava neste único filho sonhos inalcançáveis para ele mesmo que não nascera nem rico, nem aristocrata, fazia de tudo para que o filho alçasse voos dentro da sociedade burguesa que se estabelecia.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Francisco parte para a guerra como um príncipe, seu pai queria que sua armadura e seu cavalo resplandecessem e todos pudessem ver sua condição diferenciada, como se fora um príncipe. Francisco já experienciara a guerra e a prisão anteriormente, desta vez volta da guerra, fugido, doente, mais da alma de que do corpo. Sofre profundas depressões, tudo que vivera até então perdeu o brilho e sentido. Seus concidadãos o consideram um covarde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em Espoleto, Francisco tivera um sonho que o tocara profundamente. Sabia que já não era o mesmo, aquele sonho o transformara de maneira profunda, sua alma fora tocada pelo “Totalmente Outro” como dizia Jung. Sabia que o jovem leve, alegre e irresponsável já não existia mais. Ouvira o chamado, e mesmo sem saber exatamente o que dele era esperado, abandona a guerra e volta para casa. No sonho ele ouve:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“- Francisco, é melhor servir o Soberano ou o servo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Ó senhor, ao Soberano, é claro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Então por que você está tentando transformar seu soberano em um servo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Senhor, que queres que eu faça?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; Vá para casa, Francisco, e pense a respeito de sua primeira visão. Você viu somente as aparências e não o coração da glória e da fama. Você está tentando fazer sua visão servir a seu próprio e impaciente desejo por Nobreza.” (Murray Bodo;&nbsp;<em>Francisco A Caminhada e o sonho</em>&nbsp;)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como ocorreu com Budha a dor, o sofrimento, as mortes, a prisão, as guerras dilaceraram o jovem Francisco. Mergulhou profundamente em seu inconsciente, assim como Jung pós infarto. E, assim como este, sofreu muito ao voltar à consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o indivíduo tem uma experiência com o Numinoso, um chamado do Self, a Imagem de Deus em nós, fica transformado, não há volta para o que fora antes, é chamado para algo que ao mesmo tempo que o significa, lhe transcende.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De volta a casa por muito tempo ficara calado, caminhando a ermo por Assis. Evitava todas as pessoas. Fora “chamado” a igrejinha de São Damião que estava abandonada, decrépita. Olhou para o crucifixo pendido no altar e falou:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“ – Senhor Jesus, que queres que eu faça? Todos os dias questiono meu sonho de Espoleto e me pergunto se realmente eras Tu quem falava comigo ou se era apenas minha excitação pelo meu vindouro batismo de fogo como Cavaleiro. Senhor, meus sonhos me afligem tanto! O que eles significam? Por que me ocorrem tais sonhos e vozes? Que tipo de homem sou eu, Senhor?” (idem).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sua sinceridade provinha do mais profundo do Si-mesmo, os olhos do Cristo se tornaram vivo e do crucifico surge a voz:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“- Francisco, vá agora e restaure minha igreja que, como você vê, está ruindo.” (idem)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A humildade de Francisco toma ao pé da letra as ordens de Jesus e começa a ajuntar pedras e a reconstruir a pequena igrejinha. Seu ego não abarcara a profundidade da solicitação, mas o Self a compreendera perfeitamente e a mudança profunda ocorrida no&nbsp;<em>POVERELLO</em>&nbsp;arrasta muitos jovens ao seu encontro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A transformação de Francesco, do jovem inconsequente para o&nbsp;<em>poverello</em>&nbsp;de Deus, atraia aqueles que viam ali uma manifestação do Sagrado. Como diz Leonardo Boff, a mística transforma e contagia. Atrai aqueles que percebem uma manifestação numinosa, porque o indivíduo que os atrai é possuidor do carisma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os jovens franciscanos trabalhavam duro nos campos atrás do sustento, restauravam igrejinhas pela região, cuidavam dos pobres, leprosos e deficientes. Viviam uma pobreza extrema, desapego total dos desejos humanos, quando apenas a vontade maior (do Self, da&nbsp;<em>imago dei</em>) dirigia seus passos e suas atitudes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A cada dia, esta numinosidade de Francisco, atraia mais indivíduos “tomados” pelo seu carisma. Claro, não há luz sem sombra e os indivíduos de Assis reclamavam seus filhos abandonando a burguesia para seguir Francisco. A oposição foi muito forte, queimaram lhes a&nbsp;<em>Porciúncula</em>, mas esta violência só fortalecera o propósito da irmandade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Francisco aceitara incondicionalmente seu chamado. Cantava e dançava pelas ruas de Assis, seus irmãos eram felizes. Servir tornara-lhes puros e felizes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Francisco gostava muito de cantar. Isto libertava seu espírito e transformava a voz humana, tantas vezes um órgão de egoísmo e pecado, em um instrumento de celebração.” (idem)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Francisco chamava a pobreza de Irmã, assim como todos os seres e situações. Até a morte era sua irmã, não a temia. Quando você vive o chamado do Self, a eternidade é uma certeza, pois o inconsciente vive no continuum espaço tempo relativos. O ego teme a finitude porque está preso a condição de espaço tempo absolutos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os franciscanos tinham amor por todos os seres, reverenciavam a Creação. Desapegados dos desejos podiam viver a leveza da plenitude da alma. Sim, servir para eles era uma alegria, servindo ao irmão, serviam a Deus. Aprenderam com os pobres o frio, a fome, a falta de um teto, certamente por isso sabiam o valor da partilha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E nós? Neste mês de maio de 2020, com uma pandemia avassaladora impondo o medo, a insegurança, a fome, a dor, o sofrimento e a insegurança. O que virá?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como e onde partilhamos o que temos? Qual o nosso chamado? O quê de Francisco há em nós que nos faz olhar o outro como irmão?</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Senhor, fazei-me um instrumento de vossa paz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Onde houver ódio, que eu semeie o amor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Onde houver ofensa, o perdão;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Onde houver dúvida, a fé;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Onde houver desespero, esperança;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Onde houver trevas, luz;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E onde houver tristeza, alegria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ó Divino Mestre,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não me deixes tanto buscar ser consolado</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que consolar;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ser compreendido que compreender;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ser amado que amar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pois é dando que se recebe,</p>



<p class="wp-block-paragraph">É perdoando que se é perdoado,</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é morrendo que se nasce para a vida eterna.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dra E. Simone D. Magaldi</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pedagoga, filósofa, mestre e doutora em CRE.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diretora do IJEP</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Simone Magaldi &#8211; 21/05/2020</em></strong></h4>
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