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	<title>Arquivos machismo - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos machismo - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Tapa de amor dói sim!</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/tapa-de-amor-doi-sim/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Dec 2025 23:21:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
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		<category><![CDATA[violência contra as mulheres no Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo, escrito em duas mãos, traz reflexões sobre a violência relacionada às mulheres no contexto brasileiro. O Brasil é considerado um dos países mais inseguros para as mulheres, ou seja, a violência doméstica, abusos físicos, psíquicos e sexuais, se traduz em medos, inseguranças e traumas. Normalmente, os abusadores são pessoas conhecidas e as violências ocorrem dentro de casa, no ambiente familiar. Relações disfuncionais se refletem no corpo e na alma de todas as mulheres, numa rede inconsciente coletivamente compartilhada, e os complexos e compensações nas relações abusivas impactam a todos. Mudanças legais e sociais estão em curso, com altos e baixos nos palcos sociopolíticos, portanto, o presente artigo é mais que pertinente, é necessário para ampliarmos as discussões atualmente vigentes.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O presente artigo, escrito em duas mãos, traz reflexões sobre a violência relacionada às mulheres no contexto brasileiro. O Brasil é considerado um dos países mais inseguros para as mulheres, ou seja, a violência doméstica, abusos físicos, psíquicos e sexuais, se traduz em medos, inseguranças e traumas. Normalmente, os abusadores são pessoas conhecidas e as violências ocorrem dentro de casa, no ambiente familiar. Relações disfuncionais se refletem no corpo e na alma de todas as mulheres, numa rede inconsciente coletivamente compartilhada, e os complexos e compensações nas relações abusivas impactam a todos. Mudanças legais e sociais estão em curso, com altos e baixos nos palcos sociopolíticos, portanto, o presente artigo é mais que pertinente, é necessário para ampliarmos as discussões atualmente vigentes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-violencia-e-noticiada-todos-os-dias-nas-midias-sociais-e-nos-canais-de-telecomunicacao" style="font-size:19px">A violência é noticiada todos os dias nas mídias sociais e nos canais de telecomunicação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">E parte nos comove e em outra medida nos mostra nossa insensibilidade ou normalização em relação à violência. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNS, 2019), no Brasil, um contingente de 29,1 milhões de pessoas sofreu violência física, psicológica ou sexual em 2019; a violência atingiu 19,4% das mulheres e 17,0% dos homens. Companheiros, ex-companheiros ou parentes são os principais agressores das mulheres que sofreram violência física (52,4%), psicológica (32,0%) e violência sexual (53,3%). O domicílio é o principal local da agressão das mulheres. A violência sexual gerou consequências psicológicas (60,2%), físicas (19,4%) e sexuais (5,0%) para as vítimas. A pesquisa mostra&nbsp;que a violência atinge mais as mulheres, os jovens, as pessoas pretas ou pardas e a população de menor rendimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O espírito da época contemporânea é atravessado por recursos tecnológicos e midiáticos que evoluíram sobremaneira nos últimos 50 anos. Isso não significa que os utilizamos de maneira adequada. No Brasil (IBGE, 2021), a sensação de vitimização média a alta para situações que envolvam fotos, vídeos ou conversas divulgadas na internet contra sua vontade foi maior para o grupo etário de 25 a 39 anos. Ou seja, a violência não se restringe a presença do agressor(a) no ambiente físico, virtualmente existem riscos que precisam ser mais bem estudados para aprendermos a nos proteger, criar regulamentações e políticas públicas necessárias. Tudo é novo e ao mesmo tempo velho, pois a violência não é algo novo, mas uma construção histórica e cultural.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-historicamente-a-violencia-contra-as-mulheres-foi-respaldada-pelos-contextos-religiosos-e-patriarcais-conforme-ensina-borges-2020" style="font-size:19px">Historicamente, a violência contra as mulheres foi respaldada pelos contextos religiosos e patriarcais, conforme ensina BORGES (2020):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>A Idade Média foi considerada por muitos historiadores como a Idade das Trevas, uma época de muita perseguição religiosa, várias doenças e ataques entre povos, porém foi nessa época que as mulheres conquistaram acesso a grande parte das profissões e também ao direito de propriedade, porém subjugadas como podemos destacar no trecho do livro MALLEUS MALEFICARUM:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>[..] convém observar que houve uma falha na formação da primeira mulher, por ter sido ela criada a partir de uma costela recurva, ou seja, uma costela do peito, cuja curvatura é, por assim dizer, contrária à retidão do homem. E como, em virtude dessa falha, a mulher é animal imperfeito, sempre decepciona e mente (KREMER, SPRENGER 1991, pag. 116).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>As mulheres deste período eram muito desvalorizadas, pois a sociedade era toda centralizada na figura do homem, porém com as guerras, doenças e perseguições a expectativa de vida desse período tornou-se muito baixa. Decorrente desses fatos as mulheres tornavam-se viúvas de forma precoce, assim tinham que assumir como chefe de família. Entretanto, a participação das mulheres durante a Idade Média foi ainda mais concisa por meio de mulheres de destaque que estudaram em universidades e que participaram da vida política da época, exemplos como de Hilda de Whitby que fundou vários mosteiros e conventos pela Europa, da Duquesa da Aquitânia que lecionou e governou o feudo junto ao seu marido, e um dos maiores exemplos da história Joana D’arc.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Joana D’arc é uma das mais ilustres figura da história francesa, nasceu no período da Idade Média, em uma época bastante conturbada e sem muito espaço para manifestação do pensamento feminino. Essa valente figura rompeu com os paradigmas impostos pela sociedade, vestia roupas masculinas e possuía uma forte personalidade.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Diante dos dados expostos, fica evidente que a violência contra as mulheres é muito mais que apenas um problema cultural e localizado, mas uma inferência de que o corpo feminino é menos valioso que o masculino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-patente-que-a-mulher-vem-sendo-diminuida-enquanto-ser-humano-por-ser-taxada-de-suja-fragil-emocional-esses-dados-remontam-como-visto-acima-uma-trajetoria-de-milhares-de-anos" style="font-size:19px">É patente que a mulher vem sendo diminuída enquanto ser humano, por ser taxada de “suja”, “frágil”, “emocional”. Esses dados remontam, como visto acima, uma trajetória de milhares de anos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A persistência da violência contra as mulheres no Brasil segue sendo uma das expressões mais alarmantes das desigualdades de gênero no país. Em mais um ano, os dados do sistema de saúde revelam números elevados de homicídios femininos e de agressões a mulheres, evidenciando a continuidade desse fenômeno estrutural. A despeito das políticas públicas implementadas nas últimas décadas e dos avanços normativos – como a atualização da Lei do Feminicídio (Lei nº 14.994), em 2024 –, a letalidade feminina, especialmente daquelas em situação de maior vulnerabilidade, segue como um problema público grave, e que, só em 2023, matou quase 4 mil mulheres (IPEA, 2025). Isso representa 4 mulheres mortas diariamente em consequência do feminicídio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-historia-de-conquista-feminina-no-pais-com-as-normativas-de-lei-do-feminicidio-e-lei-maria-da-penha-sao-muito-atuais-sendo-promulgadas-em-2006-e-2015-respectivamente" style="font-size:19px">A história de conquista feminina no país com as normativas de Lei do Feminicídio e Lei Maria da Penha são muito atuais, sendo promulgadas em 2006 e 2015, respectivamente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Isso significa que, anteriormente a 2006, essas violências não eram tratadas como uma violência direcionada à mulher pelo simples fato de ser mulher. Infelizmente, o Brasil ainda é um país com muitas subnotificações, tornando os dados aproximados com relação aos abusos sofridos e às marcas deixadas ao longo dos anos. Cabe ainda, relembrar que durante o período escravista no Brasil, a Lei do Ventre Livre, que estabelecia que os filhos nascidos de mães escravas seriam livres foi promulgada em 28 de setembro de 1871, apenas 17 anos antes do fim da escravidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-quando-falamos-de-uma-populacao-mais-vulneravel-falamos-especialmente-de-mulheres-pretas-ou-pardas-com-baixos-salarios-poucos-direitos-trabalhistas-acesso-a-bens-e-servicos-restritos-a-sua-condicao-economica-como-mulheres-nessas-condicoes-sao-assistidas-quando-em-condicoes-de-violencia-domestica-e-abusos-spivak-celebre-autora-argumenta-se-o-subalterno-pode-falar-se-ele-a-tem-voz-para-spivak-2010-p-13-14-o-termo-subalterno-refere-se-as-camadas-mais-baixas-da-sociedade-constituidas-pelos-modos-especificos-de-exclusao-de-mercados-da-representacao-politica-e-legal-e-da-possibilidade-de-se-tornarem-membros-plenos-no-estrato-social-dominante" style="font-size:19px">Quando falamos de uma população mais vulnerável, falamos especialmente de mulheres pretas ou pardas com baixos salários, poucos direitos trabalhistas, acesso a bens e serviços restritos a sua condição econômica. Como mulheres nessas condições são assistidas quando em condições de violência doméstica e abusos? Spivak, célebre autora, argumenta se o subalterno pode falar, se ele(a) tem voz? Para Spivak (2010, p. 13-14) o termo subalterno refere-se “às camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão de mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-atlas-da-violencia-2025-fornece-um-retrato-alarmante-e-preciso-da-violencia-de-genero-no-brasil-mulheres-continuam-sob-grave-ameaca-especialmente-dentro-de-casa-com-impacto-diferenciado-sobre-mulheres-negras-e-jovens" style="font-size:19px">O <em><strong>Atlas da Violência 2025</strong></em> fornece um retrato alarmante e preciso da violência de gênero no Brasil: mulheres continuam sob grave ameaça, especialmente dentro de casa, com impacto diferenciado sobre mulheres negras e jovens.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A combinação entre violência letal, formas não letais e subnotificação aponta para a urgência de ações políticas, legais e sociais mais eficazes, ampliando o alcance da proteção e atuando na prevenção desde o ambiente familiar até o contexto estrutural (IPEA, 2025).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Entre os mamíferos, os chimpanzés e humanos regularmente matam adultos de sua própria espécie. Também compartilham outros males, como assassinatos políticos, espancamentos e estupros. O estupro é um ato comum aos orangotangos machos e gorilas machos matam bebês com muita frequência, embora essa atitude não seja exclusiva dos primatas (Wrangham e Peterson, 1996).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pergunta-se-se-ha-algo-com-os-primatas-que-os-predispoe-a-violencia-e-aos-seres-humanos" style="font-size:19px">Pergunta-se se há algo com os primatas que os predispõe a violência? E aos seres humanos?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-wrangham-e-peterson-1996-p-181-no-livro-o-macho-demoniaco-mostram-que-os-ataques-violentos-dos-chimpanzes-machos-contra-as-femeas-e-um-aspecto-sistematico-e-comum-os-autores-comparam-o-comportamento-dos-humanos-e-dos-chimpanzes-da-seguinte-forma-1-ambos-sao-casos-de-violencia-de-machos-contra-femeas-ou-homens-contra-mulheres-no-caso-humano-2-ambos-sao-exemplos-de-violencia-no-relacionamento-os-machos-conhecem-as-femeas-a-muito-tempo-membros-da-sua-comunidade-e-nao-havia-um-contexto-como-falta-de-comida-ou-aliancas-a-outros-grupos-para-justificar-o-comportamento-3-fatores-superficiais-desencadeiam-a-reacao-mas-a-questao-subjacente-e-o-controle-ou-a-dominacao-da-femea-pelo-macho" style="font-size:19px">Wrangham e Peterson (1996, p. 181) no livro “<strong>O macho demoníaco</strong>” mostram que os ataques violentos dos chimpanzés machos contra as fêmeas é um aspecto sistemático e comum. Os autores comparam o comportamento dos humanos e dos chimpanzés da seguinte forma: <strong>1)</strong> ambos são casos de violência de machos contra fêmeas, ou homens contra mulheres no caso humano; <strong>2)</strong> ambos são exemplos de violência no relacionamento &#8211; os machos conhecem as fêmeas a muito tempo, membros da sua comunidade e não havia um contexto como falta de comida ou alianças a outros grupos para justificar o comportamento; <strong>3)</strong> fatores superficiais desencadeiam a reação, mas a questão subjacente é o controle ou a dominação da fêmea pelo macho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os autores, pautados nas pesquisas com primatas, buscaram a associação entre a violência do macho/homem como fator biológico, instintivo e social. Entretanto, os próprios autores admitem que a complexidade do tema é maior que uma herança geracional, genética ou modulação de comportamentos ao longo da história. Se temos a maldição de um temperamento masculino demoníaco e uma capacidade maquiavélica para expressá-lo, somos também abençoados com uma inteligência que é capaz, através da sabedoria, afastar-nos do passado de grande primata. Se a inteligência é capaz de enxergar, a sabedoria é capaz de ouvir e ver ao longe, ou seja, a sabedoria é a perspectiva futura (WRANGHAM e PETERSON, 1996, p. 315).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-machismo-estrutural-resultado-do-patriarcado-e-a-subordinacao-da-mulher-as-necessidades-dos-homens-ao-longo-de-milenios-e-uma-base-importante-para-atitudes-violentas-e-possessivas-em-relacao-aos-corpos-femininos" style="font-size:19px">O machismo estrutural, resultado do patriarcado, e a subordinação da mulher às necessidades dos homens ao longo de milênios, é uma base importante para atitudes violentas e possessivas em relação aos corpos femininos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa construção de força masculina está mais vinculada à força física. Através da força, homens e animais machos imprimem abusos físicos, psicológicos e sexuais ao sexo oposto. Pensando na imagem arquetípica do masculino, esse seria o lado demoníaco do arquétipo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-oc-7-2-245-254-menciona-em-sua-obra-a-persona-como-um-fragmento-da-psique-coletiva-comportamentos-ou-papeis-esperados-em-determinado-tempo-e-epoca-incluindo-os-papeis-de-homens-e-mulheres" style="font-size:19px"><strong>Jung</strong> (OC 7/2, § 245-254) menciona em sua obra a <strong>persona</strong>, como um fragmento da psique coletiva, comportamentos ou papéis esperados em determinado tempo e época, incluindo os papéis de homens e mulheres.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esses papéis são construções sociais, influenciados pela história humana e sua evolução ao longo dos séculos. À medida que aumenta a influência do inconsciente coletivo, a consciência perde seu poder de liderança, e passa a se mover como uma peça de xadrez, à mercê do inconsciente. Esse colapso da consciência e domínio do inconsciente é desastroso ao indivíduo, ele perde o chão, desenraiza. Essa inundação pode ser refletida em paranoia e esquizofrenia, em excentricidade e atitude infantil, apartando-o da sociedade, ou entrando em um processo de restauração regressiva da persona.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung, em seu livro “<strong>Aspectos do drama contemporâneo</strong>”, descreve as guerras europeias do século XX como uma onda de primitividade e violência, que seriam a manifestação de &#8220;poderes obscuros&#8221; que se intensificaram durante a Primeira Guerra e atingiram o auge na Segunda, em movimentos como o Nazismo e o Fascismo. Ele afirma que o &#8220;caos e a desordem do mundo&#8221; se refletem de forma semelhante na mente de cada pessoa, e que essa ausência de direção é equilibrada no inconsciente pelos &#8220;arquétipos da ordem&#8221;. A integração dos conteúdos inconscientes é apresentada como uma ação individual de concretização, compreensão e julgamento ético, que exige uma grande responsabilidade moral (§ 449-451).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diante-do-exposto-muitas-perguntas-ficam-em-suspenso" style="font-size:19px">Diante do exposto, muitas perguntas ficam em suspenso:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Quais complexos estão envolvidos nessa construção coletiva, que incide em diferentes tipos de violências? A violência e a necessidade de dominação podem ser atreladas a uma necessidade compensatória, busca-se dominar o outro na tentativa de se sentir superior? </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ousamos dizer que um estudo sobre o assunto seria muito rico e beneficiaria sobremaneira a humanidade. Entender essa necessidade de poder, especialmente em relação às mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Uma pesquisa sobre o perfil dos agressores presos em flagrante mostra que são homens adultos jovens em maior percentual, com baixa escolaridade, possuíam uma ocupação e havia relato de passagens pela polícia anteriormente em aproximadamente 30% dos casos, incluindo a própria violência doméstica. É interessante que o tipo de violência se caracteriza de forma distinta em relação ao consumo de substâncias: os agressores que consumiram somente álcool praticam mais violência física (39,7%); os que ingeriram álcool e drogas associados perpetraram mais violência psicológica (30%); e os usuários de drogas isoladas cometeram mais a psicológica (75%) &#8211; (MADUREIRA, et. al., 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Estudo feito no Maranhão observou que os atos violentos foram praticados majoritariamente por indivíduos que não têm mais relações afetivas com as vítimas e entre as motivações para a violência destacam-se o inconformismo com o fim da relação, ciúmes, dentre outros (BEZERRA e RODRIGUES, 2021). Em grande parte dos casos, as violências contra a mulher são cometidas no ambiente doméstico, na frente dos filhos, gerando impactos na saúde emocional e psíquica de toda a família (LEITE, et. al., 2015).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-existe-um-ditado-popular-que-diz-violencia-gera-mais-violencia" style="font-size:19px">Existe um ditado popular que diz “<strong>violência gera mais violência</strong>”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em ciclos repetitivos de vitimização e agressão, com trocas de papéis ao longo da vida e a reprodução de padrões de conduta, de forma sistêmica. Enquanto não ocorre uma quebra, um repensar, não há mudanças significativas. A relação entre vítima e agressores gera polaridades, e movimentos internos compensatórios se manifestam.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-conto-brilhante-que-trabalha-essa-questao-chama-se-barba-azul" style="font-size:19px">Um conto brilhante que trabalha essa questão chama-se Barba Azul. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O <strong>Barba Azul</strong> seduz mulheres, casa com elas e depois as mata, jogando seus restos mortais no porão.Sua tática de sedução, afinal ele não é tão atraente assim, é o poder e dinheiro. Ele conquista a moça e sua família mostrando suas propriedades, seu conforto e o padrão de vida que a moça terá sob sua tutela.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Até que um dia ele avisa que tem uma única sala que não pode ser aberta, senão a mataria. E não por acaso, ele entrega todas as chaves da casa para ela enquanto viaja (intencional? Perverso?). Quando volta e descobre que o porão foi aberto num arroubo de curiosidade da mulher, avisa que ela irá morrer. Ela, espertamente, usa de suas habilidades para enrolar o Barba Azul enquanto chama seus irmãos para ajudá-la.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No fim, Barba Azul é morto e despedaçado, e seus pedaços espalhados pelos cantos do mundo. Note que ele nunca é eliminado de vez, ele fica espalhado, com menos energia psíquica, mas está lá, em algum lugar internamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Estudos observam que o manejo do trauma ocorre de maneira mais eficiente para pessoas que usaram de suas habilidades para escapar, se salvar ou resolver a situação</strong>. Quando entram em estado mais passivo ou letárgico, o trauma se instala com uma profundidade maior (LEVINE, 2022). Essa é a ideia do conto do Barba Azul. A única esposa que sobreviveu foi a que teve uma atitude, que lutou para sobreviver com inteligência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Cabe observar ainda, que nesse conto, demonstra-se uma dinâmica psíquica de agressor-vítima, em que a vítima em determinado momento passa a se identificar com o agressor, de forma a permanecer no relacionamento ainda que seja abusivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-esse-assunto-kast-2022" style="font-size:19px">Sobre esse assunto, Kast (2022):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Tal &#8220;identificação com o agressor&#8221; é também um conhecido mecanismo de defesa ou de enfrentamento: quando temos medo de alguém, podemos assumir seu ponto de vista, traindo a nós mesmos no processo e assim estabilizando temporariamente nossa autoestima, pois fingimos estar de acordo com o mais forte – nós nos identificamos com o agressor.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-compele-se-dizer-que-as-razoes-que-mantem-as-vitimas-em-relacionamentos-sao-muitas-a-principal-delas-e-a-falta-de-independencia-financeira-contudo-o-agressor-se-nutre-do-medo-da-vitima-numa-tentativa-de-manter-o-controle-em-uma-relacao-desigual" style="font-size:19px">Compele-se dizer que as razões que mantém as vítimas em relacionamentos são muitas. A principal delas é a falta de independência financeira. Contudo, o agressor se nutre do medo da vítima, numa tentativa de manter o controle em uma relação desigual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-ponto-significativo-para-pensarmos-essa-questao-seria-a-relacao-de-codependencia-que-se-estabelece-entre-agressores-e-vitimas" style="font-size:19px">Outro ponto significativo para pensarmos essa questão seria a relação de codependência que se estabelece entre agressores e vítimas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Muitas pessoas incorporam uma entidade <strong>salvadora</strong>, capaz de redimir o outro(a) de seus desvios de conduta, como se o seu amor fosse suficiente para a mudança do outro(a). Na verdade, estamos em nossa jornada de autoconhecimento e precisamos nos ver com nossos aspectos sombrios, que nos atravessam para nos ensinar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-temos-em-jogo-sao-carencias-afetivas-e-complexos-constelados-que-nos-aprisionam-a-situacoes-que-nao-sao-saudaveis" style="font-size:19px">O que temos em jogo são carências afetivas e complexos constelados que nos aprisionam a situações que não são saudáveis.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em relação aos homens, o que não pertence à consciência masculina (o não “eu”) é sentido como se não pertencesse ao eu, por isso, a imagem da <em>anima</em> (contraparte feminina) é projetada nas mulheres. Os índices de divórcios cada vez maiores apontam que essa projeção no sexo oposto, ocasiona relacionamentos complicados (JUNG, 9/1, § 61).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A <strong><em>anima</em> </strong>é o arquétipo do significado ou sentido, o arquétipo da vida (JUNG, 9/1, § 66). Um homem que se priva de entrar em contato com seu aspecto psíquico feminino está desalmado e sem vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ideia-de-poder-esta-muito-vinculada-a-imagem-de-homem-em-uma-sociedade-patriarcal-que-estabeleceu-ha-milhares-de-anos-uma-relacao-de-subordinacao-do-corpo-feminino-e-sua-capacidade-reprodutiva" style="font-size:19px">A ideia de poder está muito vinculada à imagem de homem em uma sociedade patriarcal, que estabeleceu há milhares de anos uma relação de subordinação do corpo feminino e sua capacidade reprodutiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Construiu-se uma divisão sexual, social e do trabalho entre homens e mulheres, delegando às mulheres os trabalhos tido como inferiores e menos valorizados, simbolizando seu papel na hierarquia social (BOURDIEU, 2024). Esse complexo cultural que atravessa gerações permeia o inconsciente coletivo traçando relações injustas entre os dois sexos ainda nos dias de hoje. Em nossa sociedade o que faz um homem ser considerado forte? Ter dinheiro, poder e mulheres, ou seja, ele precisa “possuir”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por outro lado, os homens expõem sua vulnerabilidade e sentimentos com muito mais facilidade para as mulheres do que entre os amigos. É compreensível que a população mais vulnerável estude sobre os seus “opressores”, para entender melhor o fenômeno e traçar formas de resistência. Isso significa que as mulheres estavam muito mais atentas aos homens do que o inverso, por uma questão de necessidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ideia-de-submissao-das-mulheres-e-construida-ao-longo-de-todo-um-trabalho-de-socializacao-um-trabalho-que-tende-a-diminui-las-nega-las-fazem-parte-das-virtudes-negativas-da-abnegacao-resignacao-e-do-silencio-feminino" style="font-size:19px">A ideia de submissão das mulheres é construída ao longo de todo um trabalho de socialização. Um trabalho que tende a diminuí-las, negá-las, fazem parte das virtudes negativas da abnegação, resignação e do silêncio feminino.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao mesmo tempo, aprisionam os homens em uma <em>persona</em> de domínio e os obrigando a afirmar sua virilidade. A virilidade entendida como a capacidade reprodutiva, sexual e social, aptidão ao combate e ao exercício da violência são uma carga ou cilada. Às mulheres fica relegada a fragilidade, a astúcia diabólica e a magia. Como a honra e a vergonha estão ligadas a virilidade masculina, práticas sexuais violentas como visita coletiva a bordeis, estupros coletivos realizados por adolescentes são formas de provar sua condição de homem (BOURDIEU, 2024, p. 86-91).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Bourdieu explana que o que chamamos de coragem tem suas raízes na covardia ou medo de ser excluído do mundo dos homens tidos como fortes, e para comprová-lo, atos como matar, torturar e violentar, a vontade de dominação, de exploração ou de opressão estão relacionados. A virilidade é uma noção relacional, construída diante dos outros homens, para os homens e contra a feminilidade, em uma espécie de medo do feminino, construída dentro de si mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-violencia-contra-mulheres-e-feminicidio-provocados-pelos-homens-nos-dias-atuais-podem-ser-um-reflexo-dessa-persona-coletiva-de-um-masculino-toxico-e-ferido-em-sua-construcao-social-de-virilidade" style="font-size:19px">A violência contra mulheres e feminicídio provocados pelos homens nos dias atuais podem ser um reflexo dessa persona coletiva de um masculino tóxico e ferido em sua construção social de virilidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É comum esse tipo de ato ocorrer após o término de um relacionamento ou durante a tentativa de finalizar um ciclo de violência já estabelecido na família.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Atualmente, observamos uma crise do masculino, não coincidentemente após a legalização e aumento dos divórcios e o aumento de mulheres no mercado de trabalho, garantindo recursos financeiros e independência. Em consequência, ocorre um fenômeno sem precedentes: o aumento de mulheres chefiando os lares brasileiros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-grafico-01-numero-de-domicilios-pelo-sexo-do-responsavel-brasil" style="font-size:16px"><strong>Gráfico 01:</strong> Número de domicílios pelo sexo do responsável, Brasil.</h2>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="884" height="500" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1.png" alt="" class="wp-image-11518" style="aspect-ratio:1.768018416858509;width:552px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1.png 884w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-300x170.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-768x434.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-150x85.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-450x255.png 450w" sizes="(max-width: 884px) 100vw, 884px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: IBGE, <a href="https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6788">Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua</a>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-estrutura-patriarcal-aprisiona-mulheres-e-homens-criando-expectativas-personas-a-serem-alcancadas-gerando-empecilhos-para-um-crescimento-e-amadurecimento-mutuo-em-relacoes-mais-equitativas-e-menos-opressoras-para-ambos" style="font-size:20px">Essa estrutura patriarcal aprisiona mulheres e homens, criando expectativas (personas) a serem alcançadas, gerando empecilhos para um crescimento e amadurecimento mútuo, em relações mais equitativas e menos opressoras para ambos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Não se questiona os papéis se não houver um atravessamento ou incômodo por alguma das partes. Entretanto, mudanças não ocorrem de forma unilateral. Precisam envolver diversos atores, homens e mulheres em trabalho conjunto. O mundo está mudando porque as pessoas mudam e se transformam. As imagens de homens e mulheres estão sendo revistas, gerando conflitos entre os que querem conservar o que se entende por imagem de família, apegados a estruturas que não funcionam mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-arriscariamos-dizer-que-a-base-dos-conflitos-politicos-atuais-estao-calcados-nessa-polaridade-o-desejo-de-mudanca-e-conservacao-coexistindo-e-em-confronto-ao-mesmo-tempo-felizmente-os-movimentos-e-mudancas-sociais-estao-em-constante-fluxo-nao-conseguimos-impedir-o-curso-da-vida-e-da-alma" style="font-size:20px">Arriscaríamos dizer que a base dos conflitos políticos atuais estão calcados nessa polaridade: o desejo de mudança e conservação coexistindo e em confronto ao mesmo tempo. Felizmente, os movimentos e mudanças sociais estão em constante fluxo. Não conseguimos impedir o curso da vida e da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Como mulheres e como analistas junguianas, não podemos ignorar as questões sociais de nosso tempo. A violência não é um fenômeno isolado — ela é coletiva, sistêmica, e nos atravessa em múltiplos níveis. Quando uma mulher sofre abusos físicos, psicológicos ou patrimoniais, todo o sistema ao seu redor é afetado. Somos parte de uma grande psique coletiva, que se manifesta em nossas individualidades. Cada ferida aberta em uma mulher reverbera em todas nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-michella-cechinel-reis-analista-em-formacao-pelo-ijep" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/">Michella Cechinel Reis &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/"><strong>Paula de Azevedo Bernardi Peñas</strong> &#8211; <strong>Analista em formação pelo IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Dra. E. Simone Magaldi</strong> &#8211; <strong>Analista Didata do IJEP</strong></a></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Tapa de amor dói sim!" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/x36klunNvN0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BEZERRA, A.R.; RORIGUES, Z.M.R. Violência contra as mulheres: o perfil da vítima e do agressor em São Luís-MA. Revista do Departamento de Geografia, v. 41, e176806, 2021. Disponível em: [https://revistas.usp.br/rdg/article/view/176806]. Acesso em: [12/08/2025].</p>



<p class="wp-block-paragraph">BORGES, José Carlos. A mulher e suas concepções históricas. 2020. RC:52704. Disponível em: <a href="https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/concepcoes-historicas">https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/concepcoes-historicas</a>. Acesso em: 10.nov.2025</p>



<p class="wp-block-paragraph">BOURDIEU, P. A dominação masculina: a condição feminina e a violência simbólica. 23 ed. Rio de Janeiro: Difel, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2019). Pesquisa Nacional de Saúde: acidentes, violências, doenças transmissíveis, atividade sexual, características do trabalho e apoio social. Brasil / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento, [Ministério da Saúde].</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2021). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: vitimização &#8211; sensação de segurança. Brasil / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CERQUEIRA, Daniel; BUENO, Samira (coord.). Atlas da Violência 2025. Brasília: Ipea; FBSP, 2025. Disponível em:<a href="https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025"> </a><a href="https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025">https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025</a>. Acesso em: 10 ago. 2025.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-c-g-o-eu-e-o-inconsciente-dois-escritos-sobre-psicologia-analitica-27-ed-rio-de-janeiro-vozes-2015" style="font-size:16px">JUNG, C.G. O eu e o inconsciente: dois escritos sobre psicologia analítica. 27 ed. Rio de Janeiro, Vozes, 2015.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Aspectos do drama contemporâneo: civilização em mudança. 5 ed. Rio de Janeiro, Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11 ed. Petropolis, RJ: Vozes, 2014, reimpressão 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena. Abandonar o papel de vítima: Viva sua própria vida. Ed. Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LEITE, F. M. C. et al. Violência contra a mulher: caracterizando a vítima, a agressão e o autor. Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental Online, v. 7, n. 1, p. 2181-2191, 2015. Disponível em: [https://www.redalyc.org/pdf/5057/505750945029.pdf]. Acesso em: [12/08/2025].</p>



<p class="wp-block-paragraph">LEVINE, P.A. O despertar do tigre: curando o trauma. 5 ed. São Paulo, Summus, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MADUREIRA, A.B.; et. al. Perfil de homens autores de violência contra mulheres detidos em flagrante: contribuições para o enfrentamento. Esc Anna Nery 2014;18(4):600-606. DOI: 10.5935/1414-8145.20140085.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">WRANGHAM, R.; PETERSON, D. O macho demoníaco: as origens da agressividade humana. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1996.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Mula sem cabeça: uma interdição ao feminino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/mula-sem-cabeca-uma-interdicao-ao-feminino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Ivanilde Ferreira Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Jun 2024 18:19:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[#feminino]]></category>
		<category><![CDATA[#genero]]></category>
		<category><![CDATA[#mulher]]></category>
		<category><![CDATA[machismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9141</guid>

					<description><![CDATA[<p>O presente artigo faz uso do conto da Mula-sem-cabeça, que trata sobre a maldição ou interdição da sexualidade feminina. O contexto da Mula é religioso, a concubina do padre católico, contudo, os aspectos simbólicos podem ser ampliados para todas as mulheres, que há milhares de anos tem sua vida controlada pela força do patriarcado, independente do credo religioso, idade, origem etc. A moralidade judaico-cristã carimba a vivência do prazer como algo vergonhoso e sombrio. A culpa, o medo, a repressão, os desejos não ditos vão se acumulando a muitas gerações. A transformação da mulher em mula é singular entre os contos femininos que versam essa temática ao redor do mundo e seu descontrole e agressividade, podem ser entendidos como respostas a opressão. Ressignificar a sexualidade e o prazer são chaves importantes para o desenvolvimento integral das mulheres. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O folclore brasileiro é rico de histórias sombrias. Segundo <strong>Cascudo </strong>(2023), os Tupis amavam gastar as primeiras horas da noite evocando e contando histórias para as crianças indígenas. O autor menciona que ao longo de seu levantamento dos mitos brasileiros, especialmente das Regiões Norte e Nordeste, observa-se o entroncamento cultural entre os indígenas, os brancos europeus e os negros africanos, e seus descendentes mestiços, tão comuns no Brasil.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-delas-me-chama-a-atencao-desde-crianca-e-a-mula-sem-cabeca" style="font-size:21px">Uma delas me chama a atenção desde criança é a <strong>mula sem cabeça</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Assistindo recentemente um seriado brasileiro chamado “Cidade Invisível”, que mostra as entidades folclóricas numa trama de suspense, a mula aparece pegando fogo. Era uma mulher maravilhosa que traiu o marido com um padre. Eles se apaixonaram e queriam ficar juntos, mas por ter se relacionado com um homem religioso e representante de Deus na Terra, foi amaldiçoada. O interessante é que o padre não sofre absolutamente nada, afinal, esse conto não é sobre a sexualidade masculina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Falando-se em sexualidade, é importante defini-la de forma mais ampla, em seus aspectos biopsicossociais e espirituais, onde temos no biológico, apenas um desses aspectos e não o mais importante para a completude e satisfação do indivíduo. Sempre cercada de muita dor e sofrimento em razão do seu ocultamento e negação pela sociedade, principalmente pela formação judaico-cristã, onde sempre pairou essa atmosfera de pecado e de preconceito em torno do assunto. Arrisco a afirmar que grande parte das lendas relacionados ao sexo e à sexualidade, estão relacionadas a todos os mitos, crendices e tabus sexuais relacionados à época, visto que até hoje, esse assunto é sempre dotado de muito preconceito.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-camara-cascudo-a-mula-sem-cabeca-e-o-castigo-da-concubina-do-padre-catolico" style="font-size:17px">Segundo Câmara Cascudo, a Mula-sem-cabeça é o castigo da concubina do padre católico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na noite de quinta para sexta-feira, ela muda seu corpo para mula, correndo com espantosa rapidez até o terceiro cantar do galo. Seus cascos afiados dão coices que ferem como navalhas, despedaça homens e animais em seu caminho. Para desencantá-la é preciso enfrentá-la e tirar o freio de ferro. Quando morre, a alma amaldiçoada fica a<ins> </ins>penar sobre a terra, apresentando-se como uma assombração horrível.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mula-sem-cabeca-e-uma-lenda-que-surgiu-na-peninsula-iberica-trazida-para-a-america-latina-durante-o-periodo-colonial-pelos-portugueses-e-espanhois" style="font-size:17px">A <strong>mula sem cabeça </strong>é uma lenda que surgiu na Península Ibérica, trazida para a América Latina durante o período colonial, pelos portugueses e espanhóis.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Corre toda a América, desde o México (malora) até a Argentina (mula anima). Na África, os mitos sobre transformação de mulheres em animais ocorre por fundamentos religiosos (culpa). Na Ásia e na Austrália há mitos de mulheres mais velhas que se transformam em lobas, tigres e panteras. Contudo, apenas a transformação da mulher em Mula está relacionada a sexualidade. Acredita-se atualmente que ela fazia parte de um esforço para reforçar os valores morais da época, com o objetivo de impedir que mulheres mantivessem relações sexuais antes do casamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As atitudes de silêncio sobre o sexo, apesar da febre de pesquisa científica que surgiu após os anos 50, segundo <strong>Costa Moacir</strong> (1986, p.44), resultam dos tabus e preconceitos herdados dos séculos passados, em que as religiões determinavam toda a linha de conduta humana e a moral sexual alienante, pautada pelo rigor de suas normas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os homens possuíam a “obrigação” de iniciar sexualmente as mulheres; por sua vez, essas mulheres deviam a &#8220;obrigação&#8221; de se casarem virgens para esses homens. Essa “norma” arcaica e milenar, paira até os dias atuais em determinadas religiões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim se passaram dois longos séculos, onde reprimia-se tudo relacionado ao sexo e à sexualidade. E, como nas sábias palavras de Foucault (2022), eram “<em>injunção ao silêncio, afirmação de inexistência</em>”. Essa sombra de preconceito e “falsa” moral cristã sobre o sexo, vivenciamos até hoje, inclusive sobre as pesquisas que ainda são incipientes sobre o tema.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-voltando-a-mula-resultante-de-um-cruzamento-entre-dois-animais-de-diferentes-especies-jumento-e-egua-em-geral-e-um-animal-esteril" style="font-size:19px">Voltando à mula, resultante de um cruzamento entre dois animais de diferentes espécies (jumento e égua), em geral, é um animal estéril.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Chevalier &amp; Gheerbrant (2020, p. 254), cavalos podem ser associados às trevas do mundo ctoniano, são filhos da noite e do mistério, sendo nesses casos ligados ao fogo e a água. O cavalo é montaria, veículo, nave e seu destino é, portanto, inseparável do destino do homem. O asno ou jumento é um símbolo da ignorância, obscuridade e até tendências satânicas. Em diferentes culturas, o cavalo pode ser usado como montaria de Deuses maléficos (Índia), de imortais (China), besta ou entidade maléfica (Egito), relacionados a Jesus em sua entrada em Jerusalém. Também pode simbolizar satã, sexo, libido, elemento instintivo no homem, sensualidade e materialidade (CHEVALIER &amp; GHEERBRANT, 2020, p. 140-141). Por sua vez, as <strong>mulas</strong> eram frequentemente utilizadas pelos padres para sua locomoção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mula era um animal muito utilizado para transporte de carga, devido sua força e resistência física, um animal usado para o trabalho. Em diversas regiões e períodos do Brasil, o transporte da produção interna ocorria no lombo de mulas, bois e vacas. Interessante que a mula, importante animal no período colonial, era considerada profana, por sua origem mestiça, um animal inferior. O preconceito em relação a miscigenação entre raças não se relaciona apenas aos animais, mas também em relação às pessoas. Ainda hoje existem barreiras étnicas importantes em todo mundo, mas vamos deixar esse assunto para outro momento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-interessante-e-que-a-mula-perde-sua-razao-torna-se-agressiva-e-desenfreada" style="font-size:20px">Interessante é que a mula perde sua razão, torna-se agressiva e desenfreada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quantas interdições aos seus instintos e percepções podem ser experimentadas? E as disfuncionalidades ligadas à vergonha, culpa, sentimento de inadequação, raiva, ressentimento e inferiorização? Ao falar do papel sexual da mulher na história, é  importante lembrar &#8211; trazendo as sábias palavras de Simone de Beavouir &#8211; que “as mulheres não nascem mulheres, elas são feitas mulheres”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E os homens não nascem homens, eles são feitos homens e são educados para se impor e conquistar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Gabeira (1986, P.11), é preciso fixar que existe uma política sexual e que as relações entre duas pessoas, ainda que envolvidas pelo manto das relações afetivas e do amor, ainda que chamadas de relações amorosas, são, na realidade, relações de poder, onde predomina o exercício do domínio de um sobre o outro, o que corrobora o pensamento de JUNG (2019, p. 65). Onde impera o amor, não existe vontade de poder, e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro. Quem se encontra do ponto de vista de Eros procura o contrário, que o compensa, na vontade do poder. Mas quem põe a tônica no poder, compensa-o com Eros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-qualls-corbett-1990-p-38-relata-que-em-matriarcados-antigos-natureza-e-fertilidade-consistiam-no-amago-da-existencia" style="font-size:19px"><strong>Qualls-Corbett</strong> (1990, p. 38) relata que em matriarcados antigos, natureza e fertilidade consistiam no âmago da existência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">As pessoas viviam próximas à natureza e suas divindades comandavam o destino, proporcionando ou negando a abundância à terra. Em seus louvores de agradecimento, eles ofereciam o ato sexual à deusa, reverenciada pelo amor e pela paixão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em registros históricos de mais de 7 mil anos, existiam as prostitutas sagradas, sacerdotisas dedicadas a deusa Vênus ou Afrodite. As mulheres eram iniciadas sexualmente antes de se casarem nesses templos. Assim, no ritual do casamento sagrado, elas tinham a oportunidade de explorar o desconhecido, sua feminilidade e sexualidade. As prostitutas sagradas, também chamadas de Virgens Vestais, tornavam-se noivas em rituais de matrimônio com o rei, representando um deus. Elas tinham privilégios econômicos, mais independência do masculino e seus filhos eram respeitados. O contrário das prostitutas chamadas de profanas, que eram consideradas e ainda o são até hoje, párias da sociedade (Cf QUALLS-CORBETT, 1990).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-estrutura-matriarcal-ou-matrilinear-evoluiu-para-o-sistema-patriarcal-ou-patrilinear" style="font-size:19px">Essa estrutura matriarcal ou matrilinear evoluiu para o sistema patriarcal ou patrilinear.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O comércio, as guerras e a expansão decorrente se tornaram o foco, os padrões predominantes fragmentaram-se e novas estruturas surgiram. Muitas linhas explicativas para esse fenômeno são discutidas, uma delas foi a percepção errônea dos homens em relação a reprodução. Acreditavam que eles eram os geradores e que o corpo feminino apenas nutria a criança em seu ventre, portanto, a autoridade e direito dos pais eram absolutos, substituindo a descendência matrilinear pela patrilinear. Essa mudança da perspectiva leva a desvalorização da mulher na sociedade e repactuação social, gerando novos costumes (Cf QUALLS-CORBETT, 1990).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com isso, a preocupação com a virgindade da mulher antes do casamento era crucial para o homem garantir sua linhagem e transferência de seus bens ou patrimônio a seus descendentes. Os homens dominaram as mulheres para garantir a suposta ordem das coisas. A mulher tornou-se Eva, aquela que cai em tentação e impõe à humanidade o pecado original. A religião e os valores morais impactaram sobremaneira as relações. O prazer era visto com maus olhos, afinal, sexo era destinado à procriação. E essa era a função social das mulheres, procriar os filhos dos homens (dentro do casamento, é claro!).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-harding-1985-p-27-e-31-as-ideias-como-o-mito-dos-primitivos-formam-a-base-dos-sentimentos-e-estado-de-espirito-do-homem-contemporaneo" style="font-size:19px">Segundo <strong>Harding</strong> (1985, p. 27 e 31), as ideias, como o mito dos primitivos, formam a base dos sentimentos e estado de espírito do homem contemporâneo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A vida de hoje é vazia e estéril, procuramos a renovação, queiramos ou não, na fonte do despertar espiritual que existe em nosso interior. E em especial, estamos insatisfeitos com o caráter e qualidade de nossos relacionamentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje em dia, o sucesso ou fracasso da vida de uma mulher não está mais atrelado ao casamento, outras nuances são levadas em consideração, como o trabalho e estudo, demandas do mundo objetivo exterior. Os impactos dessa nova realidade geram muitos conflitos e ansiedades. Agora não basta ser esposa e mãe, precisamos ser bem-sucedidas em todos os aspectos, recaindo muitas vezes em polarizações e uma carga de trabalho muito superior à dos homens. Para dar conta de tudo isso, as mulheres desenvolvem seu lado masculino (<em>animus</em>).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“Essa mudança de caráter, que acompanha essa evolução, não existe só na parte profissional da vida de uma mulher, mas afeta a sua personalidade inteira, e tem causado mudanças profundas na sua relação consigo mesma e com os outros” (HARDING, 1985, p. 34-35).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A mulher da atualidade quando encontra a mula sem cabeça dentro de si mesma, estará em conflito com sua sexualidade e sua capacidade criativa, correndo e incendiando tudo em seu caminho. Sabemos que os complexos são afetos que ganham tanta energia, que nos tomam de assalto e nos deixam amarrados ao seu enredo. Quando uma mulher se sente inferiorizada pelo masculino, julgada pela família ou comunidade, sem poder sobre seu corpo, abre caminho para que essa energia ctônica e avassaladora surja e ganhe espaço em seus sentimentos e pensamentos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mudancas-importantes-ocorreram-no-seculo-xx-em-relacao-a-sexualidade-feminina-principalmente-apos-o-advento-da-pilula-anticoncepcional" style="font-size:18px">Mudanças importantes ocorreram no século XX em relação a sexualidade feminina, principalmente após o advento da pílula anticoncepcional.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Criada nos Estados Unidos na década de 1960, houve muitas controvérsias na época em relação ao uso indiscriminado pelas mulheres, seus efeitos colaterais e os impactos socioeconômicos, como o controle de natalidade. Desde então, o sexo não fica atrelado apenas a ideia de procriação, mas também ao prazer, abrindo caminhos novos para o feminino em sua luta por seus direitos, dentre eles, o direito de exercer sua feminilidade e sexualidade de forma livre e segura.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-corpo-e-os-instintos-fazem-parte-da-vida-cotidiana-assim-como-a-vida-psiquica" style="font-size:19px">O corpo e os instintos fazem parte da vida cotidiana, assim como a vida psíquica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando algo incomoda a psique haverá reflexos na vida diária do indivíduo, por sintomas ou situações repetidas, alertando que algo precisa ser ressignificado. Segundo Jung (2012, p. 26), certos complexos só estão destacados da consciência porque preferiram se destacar dela, mediante repressão. Outros complexos nunca estiveram na consciência, mas são capazes de brotar do inconsciente com suas convicções e impulsos estranhos e imutáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em relação ao processo de individuação, cerne da psicologia junguiana, podemos afirmar que a sexualidade constitui um dos palcos possíveis para essa experiência, devido à sua grande sombra na humanidade, onde ainda quaisquer aspectos do indivíduo relacionados ao tema, causa estranheza e críticas na esfera social, onde está contida toda essa “sombra’. De acordo com Craig (1998, p.129), claro que não estamos dizendo que a pessoa precisa deixar-se inundar por fantasias de um Marquês de Sade, nem que ela deva viver essas fantasias. Significa, antes, que as fantasias desse tipo podem ser entendidas como a expressão simbólica de um processo de individuação que está se desdobrando no território dos deuses sexuais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ficar-em-paz-com-essa-sombra-seria-a-oportunidade-de-vivenciar-situacoes-fantasiosas-que-so-existem-em-suas-memorias" style="font-size:18px">Ficar em paz com essa sombra seria a oportunidade de vivenciar situações fantasiosas que só existem em suas memórias.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia seria vivenciá-las com seus parceiros(as) e tirá-las do terreno mental das culpas e dos sofrimentos. Ora, fantasias sexuais não combinam com casamentos religiosos e pudicos, onde apenas predominam manifestações do sexo-reprodução. O sexo-prazer nesse contexto é vivenciado fora de casa, com profissionais do sexo. Onde uma parte dessa fantasia sexual seria a sensação de dominação no pagamento de uma mulher/homem, objeto de seus desejos para a satisfação de suas fantasias e vivenciar essa sombra sem culpa e sem dor, distante do “leito nupcial”, como bem cita Foucault (2022).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sexualidade infelizmente, ainda é &#8220;demonizada&#8221; nos nossos dias. Fracassaram todas as tentativas de torná-la totalmente inofensiva e de apresentá-la como algo &#8220;completamente natural&#8221;. Para o homem moderno, algumas formas de sexualidade continuam a ter aspecto mau, pecador e sinistro, todavia, continuamos a lutar por melhores dias quando paramos para escrever um artigo como esse ou mesmo quando ampliamos nossas visões e discussões sobre o assunto, apesar de todas as críticas e movimentos sombrios contrários que possam advir. Duelar com sombras ancestrais nunca foi fácil.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alguns-movimentos-de-liberacao-feminina-tentam-entender-a-sexualidade-como-uma-arma-politica-usada-pelos-homens-para-oprimir-as-mulheres" style="font-size:20px">Alguns movimentos de liberação feminina tentam entender a sexualidade como uma arma política usada pelos homens para oprimir as mulheres.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Com isso, essas mulheres &#8220;demonizam&#8221; a sexualidade e, ao mesmo tempo, deixam implícito que essa sexualidade poderia tornar-se inofensiva através da reversão dos papéis masculino e feminino, mas para isso ainda teríamos que galgar inúmeras outras esferas de revolução sexual e de preconceito social e nesse sentido, onde ficaria o processo de individuação?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O elemento demoníaco da sexualidade (CRAIG, 1998, p.121) talvez se mostre no fato de que é muito difícil experimentar e aceitar a atividade sexual apenas como “prazer” ou como uma experiência agradável. Poucas pessoas conseguem “simplesmente desfrutar” a sexualidade, como desfrutariam uma boa refeição. Essa negação da sombra e da energia sexual traz como elementos para aceitação pelo self, os sintomas e em consequência disso, temos na clínica, variados distúrbios de natureza sexual, frutos dessa não aceitação à vivência da sexualidade saudável (integração de aspectos de luz e sombra).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Craig (1998, p.122), a sexualidade oferece-nos símbolos para todos os aspectos da individuação. O confronto com a sombra leva aos destrutivos componentes sadomasoquistas do erotismo. O confronto com a nossa própria alma, com a <em>anima</em>/<em>animus</em>, com o feminino/masculino, pode ter uma forma sexual. O amor por si mesmo e o amor pelos outros são experimentados corporalmente na sexualidade, seja através de fantasias ou de atividades.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-nenhum-outro-lugar-a-uniao-de-todos-os-opostos-a-unio-mystica-o-mysterium-coniunctionis-expressa-se-de-modo-mais-impressionante-que-na-linguagem-do-erotismo" style="font-size:17px">Em nenhum outro lugar a união de todos os opostos, a <em>unio mystica</em>, o <em>mysterium coniunctionis</em>, expressa-se de modo mais impressionante que na linguagem do erotismo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, apesar de todas as mudanças em relação a vivência da sexualidade pelas mulheres da atualidade, as imagens arquetípicas podem ser acessadas pelas mulheres durante suas vidas, como a santa, a mãe, a prostituta, a mulher, a bruxa, a mula sem cabeça, entre outros. Os contos e mitos representam imagens arquetípicas importantes, presentes no inconsciente coletivo e em geral, provocam algum tipo de desconforto. Ressignificação da jornada do feminino, seu encontro com sua essência que foi afastada por maldições, preconceitos, costumes e regras morais, fazem parte do reencontro com essa energia fabulosa, divina, criativa e cheia de sabedoria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mula sem cabeça nos remete as interdições feitas ao feminino e às mulheres, ainda hoje presentes na sociedade. Não é um lugar distante! Conversar sobre o assunto nos abre caminhos, reflexões e saberes a serem construídos conjuntamente. Amar e respeitar a nós mesmas e validar nossa jornada, pode ajudar a mula sem cabeça aplacar seu descontentamento, rompendo a maldição. Com amorosidade somos capazes de tirar o freio que a aprisiona essa força, acolhendo-a em nós e encontrar nosso caminho rumo a nossa singularidade e individuação.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Mula sem cabeça: uma interdição ao feminino&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/-qdi1Vxz_Oo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/michellacechinel/">Me. Michella Paula Cechinel Reis &#8211; Membro analista em formação IJEP, Brasília</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Mula sem cabeça: uma interdição ao feminino" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/eHq_afFv9lc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/mariaivanilde/">Maria Ivanilde Ferreira Alves &#8211; Membro analista em formação IJEP, Brasília</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href=".https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Dra. E</strong>.<strong> Simone Magaldi &#8211; Analista didata IJEP, São Paulo</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">CASCUDO, Luís Câmara da. <em>Geografia dos mitos brasileiros</em>. São Paulo: Global Editora, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">CHEVALIER &amp; GHEERBRANT. <em>Dicionário dos símbolos</em>: mitos, sonhos, costumes, gestos, forma, figuras, cores e números. 34 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">COSTA, R.P., GAIARSA, J.A., COSTA, M., GABEIRA, F., et. al. <em>Macho, masculino, homem</em>. 3 ed. São Paulo, 1986.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">FOUCAULT, M. <em>História da sexualidade</em>: a vontade de saber. 13 ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">GUGGENBÜHL-CRAIG, ADOLF. <em>O lado demoníaco da sexualidade</em>. [A. do livro] C. Zweig e J. (orgs) Abrahms. Ao Encontro da Sombra. São Paulo: Cultrix 1998.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">HARDING, M.E. <em>Os mistérios da mulher antiga e contemporânea</em>: uma interpretação psicológica do princípio feminino, tal como é retratado nos mitos, na história e nos sonhos. São Paulo: Ed. Paulinas, 1985.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, C.G. <em>Psicologia e religião</em>: psicologia e religião ocidental e oriental. 11 ed. Petropolis, RJ: Ed. Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, C.G. <em>Psicologia do inconsciente</em>. 24 ed. Petrópolis, RJ: Ed. Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">QUALLS-CORBETT, N. <em>A prostituta sagrada</em>: a face eterna do feminino. São Paulo: Ed. Paulus, 1990.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e conheça nossos Cursos e pós-Graduações:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a>.</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/curso-fundamentos-jung"><img decoding="async" width="1024" height="533" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2024/06/Banner-site--1024x533.png" alt="" class="wp-image-9151" style="width:749px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/06/Banner-site--1024x533.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/06/Banner-site--300x156.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/06/Banner-site--768x399.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/06/Banner-site--1536x799.png 1536w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/06/Banner-site--150x78.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/06/Banner-site--450x234.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/06/Banner-site--1200x624.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/06/Banner-site-.png 1909w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Ismocracismo Patriarcal</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/ismocracismo-patriarcal/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 May 2023 02:47:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[femismo]]></category>
		<category><![CDATA[machismo]]></category>
		<category><![CDATA[masculinismo]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7583</guid>

					<description><![CDATA[<p>ISMOCRACISMO PATRIARCAL<br />
Nossa história diante dos “ismos”, e as agressões advindas do territorialismo e sectarismo dos pseudojunguianos incomodados, invejosos ou ressentidos que não conseguem compreender que esses ismos são as causas do machismo estrutural e do feminicídio</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-large-font-size wp-block-paragraph"><em><strong><kbd>Nossa história diante dos “ismos”, e as agressões advindas do territorialismo e sectarismo dos pseudojunguianos incomodados, invejosos ou ressentidos</kbd>.</strong></em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211;<strong> IJEP</strong>, desde a sua origem há mais de trinta anos, sempre assumiu posição questionadora e protagonista no campo junguiano, devido às nossas atitudes inovadoras e ousadas, como, por exemplo, a de oferecer a primeira pós-graduação em psicologia junguiana no Brasil e para qualquer interessado com curso superior. Com isso, fomos adquirindo experiência para lidar com os incomodados – aqueles que tiveram que sair das suas posições territorialistas, “seguras” e cômodas, aprisionados confortavelmente nas suas crenças limitantes e funcionais, confrontando o <strong><em>Ismocracismo</em> Patriarcal</strong>. Atualmente, essa experiência se intensificou com o advento das mídias sociais, tornando-se muito intensa, interessante, paradoxal e reveladora, quando, de novo como exemplo, detectamos “hatters” – postagens de ódio – com objetivo claro de tentar depreciar o <strong>IJEP</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar desse pioneirismo progressista e vanguardista, sempre mantivemos nossa absoluta fidelidade com a teoria e a prática da psicologia analítica clássica. Por esse motivo, continuamente criamos possibilidades para que as pessoas saiam da neurose, do automatismo e da falta de consciência de si-mesmas, fazendo-as confrontarem seus complexos, crenças e condicionamentos. Isso naturalmente nos deixa mais expostos, porque gera incômodos, principalmente quando trazemos temas contraditórios, questionamos conceitos “politicamente corretos” e, também, muitos “ismos” – que se tornaram instituições concretas ou abstratas deste <strong><em>Ismocracismo</em> Patriarcal</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estamos conscientes de que, inevitavelmente, ao expormos a sombra, individual ou coletiva, assim como a hipocrisia, o fanatismo, o literalismo e o unilateralismo das pessoas, provocamos afetos e emoções. Consequentemente, ativamos os mecanismos de defesa em indivíduos que se sentiram ou ficaram desconfortáveis e incomodados, motivando-os a produzirem as mais variadas reações, desde a profunda gratidão por se sentirem libertos da “escravidão” de algum “<strong>ismo</strong>” até a revolta agressiva e violenta devido ao desejo incontido de nele se manter.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para aquele que não tem conhecimento teórico e vivência psicoterapêutica com a psicologia analítica de <strong>Carl Gustav Jung,</strong> é importante esclarecer que essa proposta não é advinda de ideias que brotaram da nossa livre fantasia e intenção de obter seguidores, lacrando e lucrando nas mídias sociais – que até o momento nunca foram monetizadas. Nossa intenção é a de promover a consciência da consciência, para que um maior número possível de pessoas possa deixar de ser meros autômatos, reprodutores do padrão capitalista do escravagismo monetário desse dinamismo patriarcal que estimula competição, exclusão, sectarismo, desigualdade, massificação e muitas doenças psíquicas, físicas e ambientais, sem nenhuma capacidade de empatia ou alteridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Mesmo que seja um sonho impossível querer esgotar os mistérios da psique” – escreve Jung –, “parece-me uma das tarefas mais importantes da mente humana trabalhar incansavelmente por um conhecimento sempre mais profundo da natureza psíquica. Pois o maior enigma, e também o mais próximo de nós, é o próprio ser humano” (OC 18/2 &#8211; §1.729).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa direção, é, sim, possível afirmar a importância, necessidade e validade histórica de muitos &#8220;<strong>ismos</strong>&#8220;, quando compreendidos como movimentos transitórios para produzir mudanças necessárias. Quando esses movimentos, porém, se enrijecem na forma de instituições concretas ou abstratas, começam a produzir, compensatória e enantiodromicamente, “<strong>ismos</strong>” opositores, porque esta é justamente a dinâmica patriarcal que está presente estruturalmente na psique de todos nós. Aqueles que não conseguem compreender isso não estão fundamentados na obra junguiana e, como é possível supor, também não vivenciaram o processo de análise, mesmo que tenham títulos e saibam repetir, como papagaios, trechos da obra junguiana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O que significam as terríveis regressões do nosso tempo?”, pergunta-se Jung (OC 9/1 &#8211; §617). Jung entende que “o ritmo de desenvolvimento da consciência na ciência e na técnica foi rápido demais, deixando para trás o inconsciente que não acompanhou seu passo, impelindo-o assim a uma posição de defesa, a qual se manifesta em uma vontade generalizada de destruição”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Os <strong>ismos</strong> políticos e sociais de nossa época pregam todo tipo de ideais imagináveis” – continua Jung, no mesmo parágrafo –, “mas por detrás dessa máscara perseguem o objetivo de rebaixar o nível da nossa cultura, na medida em que limitam as possibilidades individuais de desenvolvimento e até as impedem de modo total”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Expressando-se de forma enfática na crítica que tece aos <strong>ismos </strong>mais salientes do seu tempo – nazismo, comunismo, capitalismo, materialismo, cientificismo e outros –, Jung foca a sua atenção no indivíduo e em suas possibilidades de ação no mundo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Este problema não pode ser resolvido coletivamente, pois a massa não se modifica se o indivíduo não se modificar. Nem mesmo a melhor das soluções pode ser imposta ao indivíduo, uma vez que ela só será boa se estiver conectada a ele mediante um processo natural de desenvolvimento. Trata-se, pois, de um empreendimento sem esperança depositar essa expectativa em receitas e medidas coletivas. A melhoria de um mal generalizado começa pelo indivíduo, e isto só quando este se responsabiliza por si mesmo, sem culpar o outro. Naturalmente isto só é possível na liberdade, e não na tirania, seja esta exercida por um homem que se autopromoveu ou criada pela plebe” (OC 9/1 &#8211; §618).</p>



<p class="wp-block-paragraph">São os afetos que tiram do homem civilizado a máscara da adaptabilidade, como se sabe. Por isso, compreendemos muitos ataques agressivos que algumas pessoas vêm proferindo contra nós. Muitos desses ataques são desfechados por pessoas ou grupos que querem utilizar o <strong>IJEP</strong> como escada, enquanto outros podem ter se sentido afetados de fato. Ambos os casos, porém, demonstram o mais amplo desconhecimento da obra junguiana e, principalmente, da profundidade que conseguimos alcançar e da nossa trajetória.]</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-polemizar-para-polinizar">Polemizar para Polinizar</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quem conhece nossa história, lê nossos artigos, segue nossas postagens e vídeos sabe que somos sérios, profundos e comprometidos com as causas humanistas, democráticas e ambientais, estimulando o amor, que liberta, ao invés do poder, que aprisiona. Estamos firmemente empenhados em promover&nbsp; desconstrução e incômodos diante dos atuais códigos de conduta morais desse patriarcado que propaga destruição, hierarquias estáticas, exclusão, sectarismo, competição, vícios, abusos, compulsões, fanatismos, unilateralismos, literalismos, exagero de consumo de coisas e de substâncias lícitas ou ilícitas que servem para entorpecer e anestesiar, tanto quanto muitas atividades espetaculares e excesso de ocupação – tudo isso para produzir a distração de si-mesmo. Essa triste realidade acaba desembocando no atual mal-estar e infelicidade geral, associados aos sentimentos de vazio, falta de sentido e significado existencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso objetivo, alinhado com o campo junguiano, é despertar a ética que vem do confronto com a sombra, para que aconteça o reconhecimento e a servidão ao si-mesmo e ao nosso entorno relacional e ambiental, libertando as pessoas da escravidão dos “<strong>ismos</strong>” institucionais ou abstratos, contribuindo para que a condição de miserabilidade egoísta do patriarcado possa ser transformada em servidão amorosa e altruísta. Não custa lembrar que “bem-estar” significa estar bem no aqui e no agora, e que o termo “contente” tem a ver com a capacidade de preencher o vazio da falta de sentido e significado com conteúdo que alimenta a alma para servir com amor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, continuamos “causando”, apesar de estarmos conscientes do alerta de Jung, quado ele afirma que as novas ideias podem ter um vindouro nascer por meio da compreensão, ou serem oprimidas com preconceitos, estreiteza mental e ignorância, transformando o benefício do novo em veneno&nbsp;e&nbsp;degradação. Com isso, podemos diferenciar os <strong>proativos</strong> – aqueles indivíduos conectados com o si-mesmo, agindo autônoma e revolucionariamente com amor, visando nossa evolução, dos <strong>reativos</strong> – aqueles indivíduos autômatos, escravos muitas vezes de diferentes formas de &#8220;<strong>ismos</strong>&#8221; institucionais, concretos ou abstratos, ressentidos, raivosos e revoltados contra as criações evolutivas. Jung nos sugere “desconfiar em princípio de todos os <strong>ismos</strong> que prometem um novo mundo ‘melhor’” e, tendo em conta o fato inarredável da existência dos “males básicos, sejam externos ou internos” na vida de todos nós, considera que a pessoa “faria melhor conscientizando-se de que o mundo é um campo de batalha e apenas uma curta tensão entre nascimento e morte (OC 18/2 &#8211; §1.366 &#8211; Nota 2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Polemizar, produzir crises, incomodar e tirar as pessoas do senso comum é o objetivo da análise junguiana e, consequentemente, do <strong>IJEP</strong>. Isso ajuda polinizar e fertilizar a mente. Jung fazia isso o tempo todo, levando as pessoas a se confrontarem com a sombra. Sem crise não existe criatividade e nem a integração dos opostos. O problema é que a maioria das pessoas, para manterem suas convicções e fugirem da angústia, lateralizam e diabolizam nossas falas, ao invés de as simbolizarem metaforicamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Possuímos certas ideias sobre como deveria viver um homem civilizado, culto e moral, e de vez em quando fazemos tudo o que está ao nosso alcance para satisfazer essas expectativas ambiciosas”, diz Jung, para pontuar, linhas adiante, que “a fama de santidade pode ir muito longe, mas conviver com um santo pode desenvolver um complexo de inferioridade ou até mesmo uma violenta explosão de imoralidade entre indivíduos menos dotados de qualidades morais. A moral parece ser um dom equiparável à inteligência. Não é possível incuti-la, sem prejuízo, num sistema ao qual ela não é inata” (OC 11/1 &#8211; §130).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando indivíduos reagem afetivamente, geralmente com atitudes arbitrárias e unilaterais, a teoria junguiana possibilita compreendermos que complexos foram constelados e que o reativo está projetando seus conteúdos sombrios de forma passional nos “objetos” que provocaram seu incômodo afetivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Trazemos em nós o nosso passado, isto é, o homem primitivo e inferior com seus apetites e emoções, e só com um enorme esforço podemos libertar-nos desse peso”, escreve Jung. “Nos casos de neurose, deparamos sempre com uma sombra consideravelmente densa. E para curar-se tal caso, devemos encontrar um caminho através do qual a personalidade consciente e a sombra possam conviver” (OC 11/1 &#8211; §132).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos trazer como exemplo o debate em torno do feminismo, que tem suscitado críticas às vezes bem ferozes contra algumas de nossas posições. Historicamente, o feminismo – como apontamos para o caso de outros <strong>ismos</strong> – foi necessário e importante tanto para superar o dinamismo matriarcal e contribuir para o estabelecimento do patriarcado quanto para evitar seus excessos, num caso em algum sentido semelhante ao que aconteceu com o surgimento do cristianismo diante do Javismo e do imperialismo romano com seus muitos escravos. Nesse mesmo sentido, podemos considerar que o feminismo surgiu para tentar diminuir a onipotência patriarcal, que continua e continuará estrutural e que, enquanto não for superada pela alteridade, irá produzir sempre de novo hierarquias desiguais, polaridades, sectarismos e antagonismos. Como nos parece, nesse momento, o desafio é deixar todos os “<strong>ismos</strong>” nos degraus evolutivos da história e seguir adiante, virando a chave na direção da alteridade. A alteridade é o novo dinamismo que irá superar o patriarcado, estabelecendo um novo padrão humano na direção da sinarquia com relações amorosas, integrais, unitivas e de alteridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O movimento <strong>feminista</strong>, muito importante e necessário ontem como hoje, não pode ser reduzido a um &#8220;<strong>ismo</strong>&#8220;, concreto ou abstrato, retroalimentando o padrão patriarcal. Todos os humanos éticos, como é possível supor e propor, precisam juntar forças na luta por equidade, justiça e amor, recusando-se a&nbsp; fazer do pertencimento a qualquer grupo, associação ou denominação sociológica, religiosa, filosófica ou partidária o primeiro e mais importante objetivo, para não retroalimentar a mimese opositiva. Essa é a lógica da alteridade, que precisa suceder o patriarcado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais uma vez, não estamos questionando o valor histórico e atual do movimento <strong>feminista</strong>, tendo principalmente em conta o <strong>machismo estrutural</strong> que ainda impera. Porém, se quisermos promover uma mudança real desse contexto polarizante, convém superar os “<strong>ismos</strong>” institucionalizados, concretos ou abstratos, bem como as (hiper-)especializações, por meio dos caminhos da autocrítica e do autoconhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os “ismos”, podem ser muitos e diferentes entre si, uns mais e outros menos carregados ideologicamente, ainda que a dinâmica perversa que costuma frequentar o universo da produção dos “ismos” possa em um grau maior ou menor valer para todos eles. Machismo, Feminismo, Budismo, Protestantismo, Espiritismo, Femismo, Masculinismo, Junguianismo, Freudianismo, Bolsonarismo, Petismo, Fascismo, Capitalismo, Comunismo, Neoliberalismo… A lista pode ser longa. Quando se tornam instituições, concretas ou abstratas, são patológicos e perversos – mesmo aqueles que podem ter sido criados com as melhores das intenções –, porque deixaram de ser <strong>movimentos</strong> e passam a ser determinantes do espírito da época, obviamente, interditando o espírito da profundidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Homens e mulheres somos convocados, pelo que há de melhor no ser humano, a lutar para que a dinâmica patriarcal seja superada pela dinâmica da alteridade, anunciada no contexto da revolução aquariana. Muito além da defesa ou tolerância a qualquer &#8220;<strong>ismo</strong>&#8220;, há o fato fundamental e primeiro de que precisamos exigir direitos iguais e equidade, independentemente de qualquer tipo de diferença. Como nos ensinou Jung, o patriarcado é o tempo dos &#8220;<strong>ismos</strong>&#8221; e da massificação, com suas polaridades, territorialidades e hierarquias, estimulando os extremismos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Todo extremo psicológico contém secretamente o seu oposto ou está de alguma forma em estreita relação com ele”, adverte Jung. “Na verdade, é desta contradição que ele deriva a dinâmica que lhe é peculiar. [&#8230;] quanto mais extrema se tornar uma posição, tanto mais se pode esperar a sua enantiodromia, sua reversão para o contrário” (OC 7/1 &#8211; §581).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso maior desafio é o de conseguirmos estimular um maior número possível de pessoas a ficarem conectadas com o si-mesmo e desencaixadas – com respeito, onde cabe respeito – de todos os &#8220;<strong>ismos</strong>&#8220;, incluindo os padrões de conduta econômicos, políticos e religiosos, para que a função transcendente possa nos presentear, no tempo de kairós, com a boa nova da alteridade, alinhados com a ética da era&nbsp;aquariana. Porque, como afirma Jung, a era de Peixes é a da polarização:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Se o <em>éon</em> de Peixes foi governado, ao que tudo indica, principalmente pelo tema arquétipo dos ‘irmãos inimigos’, por coincidência, com a aproximação do mês platônico imediato, isto é, de Aquário, coloca-se o problema da união dos opostos. Já não se trata mais de volatilizar o mal como mera <em>privatio boni</em>, mas de reconhecer sua existência real. Mas este problema não será resolvido nem pela filosofia, nem pela economia de Estado, nem pela política ou pelas confissões históricas, mas unicamente a partir do indivíduo[&#8230;]” (OC 9/2 &#8211; §141/142).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, a evolução exige de nós a superação dessas especializações institucionalizadas que tanto valorizam o processo de massificação e impedem que o processo de individuação aconteça. Ora, “tais problemas nunca serão solucionados por meio de uma legislação ou por artifícios”, argumenta Jung. “Só podem ser resolvidos por uma mudança geral de atitude. E esta mudança não se inicia com a propaganda ou com reuniões de massa, e menos ainda com violência. Ela só pode começar com a transformação interior dos indivíduos. Ela produzirá efeitos mediante a mudança das inclinações e antipatias pessoais, da concepção de vida e dos valores, e somente a soma dessas metamorfoses individuais poderá trazer uma solução coletiva” (OC 11/1 &#8211; §135).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ora, o autoconhecimento e a autoconsciência produzem desconforto, por fazer com que o indivíduo se perceba absolutamente diferente dos outros, deixando de corresponder às expectativas comuns. Também, causa incômodo no seu entorno relacional, porque suas reações passam a ser imprevisíveis e, na maioria das vezes, conflituosas com as normas&nbsp;coletivas. Por isso, para fugir do desconforto e do incômodo e não saírem do padrão dominante do patriarcado ficam reativos. Gostam de divulgar “reatcs”, “cartas abertas” e outras bobagens para continuarem aprisionados nos seus “<strong>ismos</strong>”, ou na intenção perversa de ganharem seguidores e “consumidores” dos seus produtos ou serviços.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Quais são os grandes movimentos propulsores de nossa época?”, interroga Jung. “Justamente as tentativas de nos apoderarmos do dinheiro ou dos bens dos outros e de defendermos o que é nosso. A inteligência se ocupa principalmente em inventar ‘ismos’ adequados para ocultar os seus verdadeiros motivos ou para conquistar o maior número possível de presas” (OC 11/5 &#8211; §772).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um ponto comum em toda essa discussão deve ser o de não se tolerar qualquer tipo de discriminação. Dito isso, o que estou considerando é que, para seguirmos adiante rumo à equidade, igualdade, fraternidade e liberdade, precisamos afirmar a exigência do amor, da democracia e da superação do patriarcado e de todos os &#8220;<strong>ismos</strong>&#8221; institucionalizados, porque eles, inevitavelmente, projetam sombra, massificam seus adeptos e fortalecem seus opositores, mantendo a polaridade sem fim. E isso nos impede de atingirmos a consciência unitiva da revolução aquariana que precisa superar a era de Peixes, que é, mais uma vez, a da polaridade dos irmãos inimigos e do patriarcado territorialista e patrimonialista, com seus “<strong>ismos</strong>” como uma de suas marcas fundamentais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em <em>Aion: estudo sobre o simbolismo do si-mesmo</em>, Jung ocupa-se com o símbolo do Anticristo, que, na tradição cristã, aparece como personagem central do Fim dos Tempos, e que, aqui, pode ser entendido como esse tempo de transição entre as eras de Peixes e Aquário – e Jung o faz no contexto da crítica ao racional<strong>ismo</strong>, intelectual<strong>ismo</strong> e doutrinar<strong>ismo</strong>:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Infelizmente – poder-se-ia quase dizer – seu advento ameaçador já se acha predito no Novo Testamento. Ele é tanto mais perigoso quanto menos o conhecemos. Mas quem poderia adivinhá-lo sob a capa de seus nomes sonoros tais como ‘bem-estar’, ‘segurança de vida’, ‘paz mundial’ etc.? Ele se dissimula sob o manto dos <strong>ideal</strong>ismos e de todos os <strong>‘</strong>ismos’ em geral, entre os quais o pior é certamente o doutrina<strong>r</strong>ismo<strong>,</strong> a mais antiespiritual das atividades do espírito. A época de hoje deve se confrontar com o <em>sic et non</em> (sim e não), sob sua forma mais drástica, isto é, com a oposição absoluta que não somente dilacera politicamente o mundo, como divide interiormente o coração de cada homem. Precisamos voltar a um espírito originário, vivo, que, precisamente devido à sua ambivalência, também é um mediador e unificador dos opostos, ideia esta que ocupou a Alquimia (se bem que de maneira imprópria) durante muitos séculos” (OC 9/2 §141).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung deixa claro que todo esse monote<strong>ísmo</strong> da consciência e todo esse racional<strong>ismo</strong>, mesmo que amparado nas teorias do cientific<strong>ismo</strong> sociocultural, correm o risco muito sério de se tornarem vítimas do unilateral<strong>ismo, </strong>que é estimulador das polarizações. Com efeito, Jung aponta, linhas antes, no mesmo parágrafo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A era do Anticristo tem isto de inerente: o Espírito se transforma, dentro dela, em Espírito maléfico, e o arquétipo vivificante submerge pouco a pouco no racional<strong>ismo</strong>, no intelectual<strong>ismo</strong> e no doutrinar<strong>ismo</strong>, conduzindo à tragicidade do modernismo que pende, de modo assustador, qual espada de Dâmocles, sobre nossas cabeças. Na antiga fórmula trinitária, sobre a qual Joaquim [de Fiore] se baseia, falta a figura dogmática do diabo que leva uma existência ambígua, como <em>mysterium iniquitatis</em>, em qualquer parte, à margem da metafísica teológica” (OC 9/2 §141).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O patriarcado estimulou a especialização, mas também produziu a classificação e, consequentemente, o sectar<strong>ismo </strong>e toda forma de discriminação preconceituosa das minorias ou grupos humanos que fogem à média estatística que a ciência busca. Daí é que advém o rac<strong>ismo</strong> e todos os padrões preconceituosos. “Nossa identificação com a consciência contemporânea do momento é tão grande”, afirma Jung, “que nos esquecemos do ser ‘eterno’, dos fundamentos psíquicos.&nbsp; Tudo o que existiu e continuará existindo por mais tempo do que o vaivém das correntes contemporâneas é considerado como algo fantasioso, que deve ser cuidadosamente evitado”. O resultado pode ser considerado trágico:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Mas, desta forma, caímos no maior dos perigos psíquicos que hoje nos ameaça, que seria aquele dos ‘ismos’ intelectuais, separados de todas as suas raízes espirituais, e que sempre estabelecem conceitos, sem levar em conta o homem verdadeiro. Lamentavelmente, se presume que só aquilo que é consciente nos atinge, e que para cada assunto desconhecido já existe um especialista que há tempo fez disso uma ciência. Esta loucura se torna ainda mais convincente pelo fato de que realmente se tornou impossível a uma única pessoa ter a visão de tudo o que uma área especializada conhece e que esta pessoa não estudou. Já que as experiências de maior efeito subjetivo são, ao mesmo tempo, as mais individuais, e por isso as mais inverossímeis, o interrogante receberá, em muitos casos, justamente por parte da ciência, uma resposta insatisfatória” (OC 10/4 &#8211; §701).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os movimentos surgem para provocar mudanças, mas não podem virar instituições dos &#8220;<strong>ismos</strong>&#8220;, para não se tornarem instrumentos de doutrinação, dominação e poder. Quando isso acontece, o polo oposto fica igualmente estimulado e potencializado e, neste caso, mergulharemos num conflito sem fim. Como já mais de uma vez afirmamos, essa é a dinâmica do patriarcado. Essa dinâmica perversa precisa ser superada pela alteridade, que estimula equidade, respeito, cuidado,&nbsp;empatia&nbsp;e&nbsp;amor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-feminismo-x-machismo">Feminismo x Machismo</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de difícil de digerir, o feminismo, mesmo sem a intenção, pode potencializar o machismo, e este, por sua vez, potencializar o feminismo, reproduzindo a dinâmica do duplo monstruoso que René Girard evidencia na temática do desejo mimético: cada polo, inconscientemente, deseja conquistar aquilo que está projetado no outro. Por isso, como exemplo, o cientificismo exagerado acabou produzindo o negacionismo igualmente exagerado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ter tolerância com os reativos é uma aprendizagem necessária. Mas sem permitir que nos desrespeitem. E sem parar de trabalhar para que um maior número de pessoas possa sair da condição de autômatos funcionais e escravos&nbsp;financeiros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O interessante é que, com nosso protagonismo e antagonismo, esses ataques só servem para fortalecer e ampliar o nosso caminho evolutivo e nossa missão, sem precisarmos tentar escalar nas costas&nbsp;de&nbsp;outros, como algumas pessoas e pseudoescolas ou instituições junguianas estão tentando fazer, por meio desses ataques nas mídias sociais – vale dizer que esse fenômeno faz parte da nossa história e acaba nos fortalecendo ainda mais, porque somos treinados para ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Os <strong>‘</strong>ismos’ dominantes, que nada mais são do que perigosas identificações da consciência subjetiva com a consciência coletiva, constituem a mais séria ameaça a este respeito”, sugere Jung. “Semelhante identificação produz infalivelmente um homem massificado, com sua tendência irresistível à catástrofe. Para escapar desta terrível ameaça, a consciência subjetiva deve evitar a identificação com a consciência coletiva, e reconhecer tanto a sua própria sombra quanto a existência e a importância dos arquétipos. [&#8230;] Entretanto, nada sabemos, por assim dizer, com certeza acerca desta matéria, sobretudo ali onde florescem os ‘ismos’ que não passam de substitutivos sofisticados do elo perdido de ligação com a realidade psíquica. A massificação da psique daí resultante infalivelmente destrói o sentido do indivíduo e, consequentemente, também a cultura em geral” (OC 8/2 &#8211; §427).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nossa-trajetoria-de-confrontos">Nossa trajetória de confrontos</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando começamos com o <strong>IJEP</strong>, fomos atacados pela reserva de mercado dos psicólogos e das “igrejas” junguianas dependentes de instituições estrangeiras para se reconhecerem como tais, mas que na realidade não passavam de grupos sectários constituídos por pessoas muito ricas e muito brancas, como brincava o meu analista Leon Bonaventure. Depois também surgiram ataques de muitos médicos, quando questionamos essa medicina mercantilista que nega a psicossomática por não conseguir ver o homem de forma integral (Vejam esse artigo: <a href="https://blog.sudamar.com.br/psicossomatica-e-a-dinamica-do-adoecer-afetos-emocoes-e-complexos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://blog.sudamar.com.br/psicossomatica-e-a-dinamica-do-adoecer-afetos-emocoes-e-complexos/</a>). Também teve outro ataque por conta de termos associado o câncer de laringe que o Presidente Lula teve na época com a psicossomática, neste outro artigo: <a href="https://blog.sudamar.com.br/licoes-de-psicossomatica-cancer-de-laringe-do-lula-o-grito-do-nao-dito-ou-do-mal-dito/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://blog.sudamar.com.br/licoes-de-psicossomatica-cancer-de-laringe-do-lula-o-grito-do-nao-dito-ou-do-mal-dito/</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outro momento vieram os ataques dos neopentecostais fanáticos, porque deixamos clara a diferença entre a persona religiosa e a religiosidade, que, no sentido indicado, nem depende de o indivíduo estar encaixado num “<strong>ismo</strong>” institucional, doutrinário e dogmático (como mostram estes dois artigos: <a href="https://blog.sudamar.com.br/religiosidade-e-espiritualidade-na-obra-junguiana/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://blog.sudamar.com.br/religiosidade-e-espiritualidade-na-obra-junguiana/</a> e <a href="https://blog.sudamar.com.br/a-sombra-dos-religiosos/">https://blog.sudamar.com.br/a-sombra-dos-religiosos/</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando questionamos a chamada “Cura Gay” e os conflitos a respeito da identidade de gênero, recebemos uma saraivada de críticas e ataques dos homofóbicos e heteronormatvos. Estes dois artigos abordam esse tema: <a href="https://blog.sudamar.com.br/a-cura-gay-lgbtqia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://blog.sudamar.com.br/a-cura-gay-lgbtqia/</a> e <a href="https://blog.sudamar.com.br/identidade-de-genero-e-a-alma/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://blog.sudamar.com.br/identidade-de-genero-e-a-alma/</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No final de 2018, diante do risco de termos como presidente um indivíduo abjeto, obsceno, ignorante, incapaz e corrupto, fizemos um manifesto público, que está neste link: <a href="https://blog.sudamar.com.br/manifesto-publico-do-ijep-para-salvaguardar-a-democracia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://blog.sudamar.com.br/manifesto-publico-do-ijep-para-salvaguardar-a-democracia/</a>. Obviamente, como esse personagem acabou se elegendo, tendo votos de mais da metade da população brasileira, recebemos mais um monte de ataques, perdemos alunos e até professores. Na época, fiquei impressionado em ver “<strong>feministas</strong>”, negras e homossexuais apoiando esse sujeito – e sabemos como isso aconteceu e ainda acontece por conta do patriarcado, que alimenta o machismo estrutural e o sectarismo do <strong><em>Ismocracismo</em> Patriarcal.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais recentemente começamos a publicar temáticas a respeito da masculinidade tóxica: <a href="https://blog.sudamar.com.br/a-pratica-da-psicoterapia-o-sectarismo-e-a-masculinidade-toxica-na-abordagem-junguiana/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://blog.sudamar.com.br/a-pratica-da-psicoterapia-o-sectarismo-e-a,-masculinidade-toxica-na-abordagem-junguiana/</a>, e também recebemos muitas críticas por parte do público masculino. Claro que os pseudocríticos não se colocavam nem como <strong>machistas</strong> e muito menos como masculinistas, apesar de demonstrarem muita raiva contra as <strong>feministas</strong>. Nem imaginam o que é o femismo, como a maioria da população, e chegam a afirmar, em consonância com o senso comum, que “essas mulheres feministas odeiam os homens porque são mal-amadas, abandonadas (geralmente porque são feias – como disse o inominável: ‘não te estupro porque você é feia’), mal ‘comidas’ ou ‘sapatões’.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo muito triste, mas é nossa realidade sociocultural, como resultado desse machismo estrutural amparado pelo dinamismo patriarcal, que comanda o “espírito da época” e nos afasta do “espírito das profundezas”. Quem dita as regras do que é politicamente correto, fazendo a “manada” seguir irrefletidamente, ainda é o patriarcado. Isso nos faz ponderar que não podemos tapar o sol com a peneira, nem ficar ilhados e iludidos nos recônditos acadêmicos ou nos grupos identitários, que inevitavelmente produzem seus pares opositores e antagônicos, igualmente iludidos, interditando-nos do “espírito das profundezas” e, consequentemente, do processo de individuação e do advento do dinamismo da alteridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não se deve brincar com o espírito da época, porque ele é uma religião, ou melhor ainda, é uma crença ou um credo cuja irracionalidade nada deixa a desejar. Ainda por cima, possui a desagradável qualidade de querer que o considerem o critério supremo de toda a verdade, tendo&nbsp;a pretensão de ser o detentor único da racionalidade.&nbsp;Jung considera que “o espírito da época não se enquadra nas categorias da razão humana”:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“É uma propensão, uma tendência sentimental, que, por motivos inconscientes, age com soberana força de sugestão sobre todos os espíritos mais fracos de nossa época e os arrasta atrás de si. Pensar diferentemente do que, em geral, atualmente se pensa, tem sempre o ressaibo de ilegitimidade e de algo perturbador; é considerado mesmo como algo de indecente, doentio ou blasfemo e, por isso mesmo, socialmente perigoso para o indivíduo que deste modo nada estupidamente contra a corrente” (OC 8/2 &#8211; §652/653).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A saída evolutiva depende de encararmos nossa sombra para que possibilidades criativas e evolutivas possam surgir, como o terceiro elemento não dado – o <em>tertium non datur</em>, na expressão de Jung. Este transcende criativamente a atual polarização do espírito da época patriarcal, ajudando-nos a fugir do encastelamento nos “<strong>ismos</strong>”, que servem apenas para fortalecer a polaridade opositiva, conforme ampliaremos a seguir.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-bom-o-belo-e-o-verdadeiro">O Bom, o Belo e o Verdadeiro</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como referência didática, utilizarei as três instâncias cerebrais que, em função da angústia diante dos desafios existenciais, produziram criativamente o que catalogamos como o <strong>bom</strong> (religião – cérebro neocortical), o <strong>belo</strong> (arte – cérebro límbico) e o <strong>verdadeiro</strong> (ciência – cérebro reptiliano). O bom, o belo e o verdadeiro são conceitos que têm sido discutidos há muito tempo na filosofia ocidental. Cada um deles pode ser associado a uma ideologia ou &#8220;<strong>ismo</strong>&#8220;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O bom refere-se à moralidade e à ética, isto é, o que é certo e errado. O &#8220;<strong>ismo</strong>&#8221; que se relaciona a esse conceito é o moralismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O belo é associado ao &#8220;esteticismo&#8221;, que se concentra na busca da beleza pela beleza nas artes e na natureza. O esteticismo entende que a arte e a beleza são importantes por si, e não como meio para se alcançar outras finalidades. Isso irá excluir as expressões que reproduzem o caos e a angústia, para que o belo possa ser ativado em nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O verdadeiro, por sua vez, é frequentemente associado ao &#8220;verdadeiro-realismo&#8221;. Essa corrente filosófica enfatiza a importância da verdade e da realidade objetiva na vida humana, de modo reducionista, causal, atrelada ao materialismo da verdade objetiva e verificável, desqualificando a subjetividade, as peculiaridades e a idiossincrasia natural de cada ser humano que é único, complexo e criativo, apesar de possuir um substrato objetivo e universal em seu inconsciente coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais uma vez, e já avançando para o final deste texto, os &#8220;<strong>ismos</strong>&#8221; de que estamos tratando referem-se a ideologias, crenças movimentos questionadores a sistemas de pensamento ou padrões socioculturais, artísticos ou religiosos que servem para questionar e transformar as relações humanas em todas essas instâncias. O problema acontece quando um “<strong>ismo</strong>” passa a moldar a maneira como as pessoas entendem e interagem com o mundo ao seu redor. Embora esses movimentos, originalmente, possam ter sido positivos, quando viram instituições, concretas e formais ou abstratas, podem, enantiodromicamente, justificar comportamentos discriminatórios e opressivos, uma vez que são criados por pessoas, e, como tais, refletem as crenças, preconceitos e atitudes conservadoras dessas pessoas. No fundo, são retrógrados diante da necessidade evolutiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como já afirmei inúmeras vezes neste texto, cada “<strong>ismo</strong>”, mesmo que não seja sua intenção e desejo – e sobretudo quando, como afirma Jung, se separa de “suas raízes espirituais”, irá produzir um movimento enantiodrômico opositivo. É nesse sentido que, como vimos, o cientificismo gerou o negacionismo, tão presente em nossa atualidade deste <strong><em>Ismocracismo</em> Patriarcal</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cientificismo-e-negacionismo">Cientificismo e Negacionismo</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O cientificismo e o negacionismo são duas direções opostas em relação à ciência e ao conhecimento científico. O cientificismo é a crença na capacidade da ciência de explicar e resolver todos os problemas da sociedade, levando à valorização excessiva do método científico e da tecnologia. Por outro lado, o negacionismo é a rejeição da ciência ou de evidências científicas, geralmente por motivos ideológicos ou políticos. O negacionismo pode se manifestar em várias áreas, como mudanças climáticas, vacinas, evolução, entre outros, e pode ser extremamente prejudicial à saúde e bem-estar das pessoas. Enquanto o cientificismo busca aplicar o método científico para compreender e resolver problemas, o negacionismo pode rejeitar informações válidas e estimular, impedindo o progresso científico e social.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Encerro esse texto remetendo os leitores a um outro artigo que fiz, intitulado: “Medo de Amar”, neste link: <a href="https://blog.sudamar.com.br/medo-de-amar/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://blog.sudamar.com.br/medo-de-amar/</a>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-amor-como-finalidade-existencial">Amor como finalidade existencial</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E para este vídeo – veja o link no final deste texto –, intitulado “O que é o AMOR?”&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que é o AMOR? Quem, de fato, tem prontidão para amar? Quem reflete a respeito do amor nesta nossa época, em que estamos tão carentes do verdadeiro amor, aquele que liberta e se dedica para a realização plena do amado, mesmo que ele vá numa direção oposta à nossa? Acredito que essa reflexão oferece uma contribuição muito importante neste momento em que estamos vivendo, com essa contínua falta de tempo, amedrontados com a vida, com o futuro, e aprisionados numa contínua competição, mesquinha e egoísta, que não sabe o que é amar o amor e amar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso que expresso no vídeo e que recupero neste texto está alinhado com o que defende minha parceira <strong>feminina</strong> há quase 50 anos, a Dra. Simone Magaldi. Ela acredita que o caminho para um mundo melhor depende da integração amorosa de todos os seres humanos identificados em diferentes formas de “<strong>ismo</strong>” institucional concreto ou abstrato, para que a união entre os princípios masculino e feminino possa fazer com que feministas, masculinistas, machistas ou femistas alcancem, simbolicamente, a experiência vivencial e prática do <em>Rebis</em>. Para que toda humanidade possa se perceber, animicamente, como a andrógina celestial, equivalente metafórica do hermafrodita <em>rotundum</em> da dimensão áurea alquímica.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse ideal utópico, que precisa acontecer primeiramente no íntimo de cada indivíduo, é a condição <em>sine qua non</em> para que possamos transmutar da dimensão <strong>patriarcal</strong> deste atual &#8220;<strong><em>ismocracismo</em></strong>&#8221; da era de Peixes para a da <strong>alteridade</strong> da era de Aquário.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung recorda, nesse contexto, o que diz o autor anônimo do Rosarium Philosophorum: “Faze do homem e da mulher um círculo redondo; extrai daí um quadrado, e um triângulo a partir deste último. Torna o círculo redondo, e obterás a pedra filosofal” (OC 11/1 &#8211; §92).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Waldemar Magaldi – Analista didata e diretor do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agradeço ao colega e analista em formação pelo IJEP, o Dr. Dimas Künsch, que fez sugestões e a revisão deste texto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vídeo que reflete a respeito do amor: <a href="https://youtu.be/jpnwsD7lm3k" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://youtu.be/jpnwsD7lm3k</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Amor   Waldemar Magaldi   IJEP" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/jpnwsD7lm3k?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A prática da psicoterapia, o sectarismo e a masculinidade tóxica na abordagem junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-pratica-da-psicoterapia-o-sectarismo-e-a-masculinidade-toxica-na-abordagem-junguiana/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Jul 2022 13:59:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[sectarismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5194</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este artigo contempla a experiencia clínica e didática do Dr. Waldemar Magaldi, sócio fundador do IJEP, integrando e ampliando algumas contribuições seminais do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, presentes em seu livro “A Prática da Psicoterapia”, integrando-as com o conflito contemporâneo em que o patriarcado, ainda dominante, está reagindo de todas as formas para se manter no poder, interditando que o dinamismo da alteridade seja a nova ética social. Para enfrentarmos isso é necessário que homens e mulheres reconheçam que, inconscientemente, retroalimentam o machismo hierarquizante, excludente, territorialista, patrimonialista, violento, sectário e abusivo, que só agrava as desigualdades.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-pratica-da-psicoterapia-o-sectarismo-e-a-masculinidade-toxica-na-abordagem-junguiana/">A prática da psicoterapia, o sectarismo e a masculinidade tóxica na abordagem junguiana</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Carl Gustav Jung nos deixou o legado da teoria e prática da Psicologia Analítica. Sua contribuição está sintonizada e até alicerça todo pensamento humanista, integrativo, holístico, ecológico, sustentável, transdisciplinar, transpessoal, espiritualista e transcendental. A análise junguiana, por conta destas características, objetiva o que Jung denominou como “processo de individuação”, um caminho de autoconhecimento que irá contribuir para que o indivíduo, além de conquistar autonomia corporal, familiar, amorosa, laboral, social e espiritual, vá ao encontro da busca de sentido e significado existencial, aceitando, respeitando e se fazendo ser respeitado, em sua condição única, complexa, criativa e insubstituível, apesar de não ser imprescindível para nada e possuir, em sua base fundante, padrões universais e coletivos. Por isso, paradoxalmente, somos simultaneamente singulares e plurais, com nossas peculiaridades e determinantes psicológicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outra questão é a ilusão que temos da realidade e, consequentemente, da verdade! O que é a realidade senão a projeção mental do nosso psiquismo, que faz nosso pequeno ego sofrer as contínuas influências do inconsciente coletivo, pessoal, arquétipos, complexos, sombra, anima ou animus e os padrões de condicionamentos familiares e culturais. Por isso, tanto a realidade quanto a verdade são produções subjetivas e peculiares, cada um tem a sua e todas são verdadeiras e reais por mais paradoxais e antagônicas que sejam. Trabalhamos com as imagens e não com os objetos concretos e essas imagens sofrem infinitas influências e acabam fazendo muitas confusões nas mais diversas formas de relacionamento. Além de termos que lidar com a perspectiva da morte, da solidão, do medo, da falta de sentido e com o desejo de liberdade no contexto da interdependência e da necessidade de adaptação cultural, produtora de vários conflitos éticos por estar rendida a esse padrão patriarcal, hierárquico, sectário, desigual, machista&nbsp;e preconceituoso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Entre o “eu faço” e o “eu estou consciente daquilo que faço” há não só uma distância imensa, mas algumas vezes até mesmo uma contradição aberta. Consequentemente existe uma consciência na qual o inconsciente predomina, como há uma consciência em que domina a autoconsciência. Este paradoxo se torna imediatamente compreensível quando nos damos conta de que não há nenhum conteúdo consciente a respeito do qual se possa afirmar com absoluta certeza que é em tudo e por tudo consciente, pois isto necessitaria uma totalidade inimaginável da consciência, e uma totalidade desta natureza pressuporia uma totalidade ou integralidade igualmente inimaginável da mente humana. Assim chegamos à conclusão paradoxal de que não há um conteúdo consciente que não seja também inconsciente sob outro aspecto.” (OC8/2 §385)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta abordagem, psique e alma praticamente são sinônimos e é inseparável do corpo. Por isso, é inadmissível um indivíduo se autonomear analista junguiano sem ter tido, de fato, vivenciado seus conteúdos sombrios, para que a verdadeira luz, aquela que vem das trevas, possa emergir, iluminando seu caminho existencial, aprendendo a fazer uso da centelha divina, que é nossa dimensão espiritual, responsável em manter, enquanto estamos aqui nesta experiencia terrena, a união entre corpo e alma, para que a consciência egóica possa se diferenciar do mar do inconsciente coletivo e servir a alma. Alegoricamente, a Psique é como uma gota d’agua, que apesar de parecer insignificante para o oceano, sem ela ele não teria toda a diversidade, exuberância e dimensão que tem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O processo do autoconhecimento não é tranquilo, prazeroso e alegre, mas conflituoso, doloroso e triste, porque exige confronto consigo mesmo e mudanças, e essas sempre são rechaçadas: “Não se chega à claridade pela representação da luz, mas tornando consciente aquilo que é obscuro. Mas isto é desagradável e, portanto, impopular” (OC13 §335). Essa é a razão de tanta resistência e tentativas de caminhos “terceirizados” com medicamentos, experiencias de estado alterado de consciência, fanatismo religioso, racionalização materialista, crença e apostas em gurus, coachings, líderes carismáticos, dietas, trabalhos corporais ou energéticos, entre outras ofertas midiáticas ou novidades do momento, que não conseguem compreender que a cura e a felicidade não podem estar fora do si-mesmo. Essas ofertas “mágicas”, rápidas e rasas, mesmo quando exigem sacrifícios físicos ou monetários, apesar de estarem alinhadas com o&nbsp;<em>mainstream</em>&nbsp;da lógica do mercado, que estimula o consumo impulsivo e, preferencialmente, sem profundidade da alma e descartável. Aliás, essa “entidade” que chamamos de mercado, para quem quer fugir do chamado da Alma, oferece inúmeros meios para manter e reforçar as atitudes defensivas, com suas crenças limitantes e o autoengano da conquista do poder, da riqueza, do sucesso, da fama, da ascensão hierárquica, do consumo, do prazer imediato e efêmero, entre outras que servem apenas para agravar o sentimento de vazio, a falta de sentido, as relações liquidas e a alienação espetacular, com uso abusivo dos artifícios estéreis desta cultura do medo e do espetáculo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Na realidade, não hesitamos em fazer as coisas mais absurdas a fim de escapar a própria alma. Pratica-se a ioga indiana de qualquer escola, seguem-se regimes alimentares, aprende-se de cor a teosofia, rezam-se mecanicamente os textos místicos da literatura universal – tudo isso porque não se consegue mais conviver consigo mesmo e porque falta fé em que algo de útil possa brotar de nossa própria alma. Pouco a pouco está última tornou-se aquela Nazaré da qual nada de bom se pode esperar; vai-se, portanto, procurá-la nos quatro cantos da terra: quanto mais distante e exótico, melhor.” (OC12 §126)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso justifica o porquê poucas pessoas tem prontidão para esse processo que exige, simultaneamente, entrega, humildade, perseverança, coragem e força para poder encarar a sombra, reconhecer os complexos, diferenciar, separar, superar e integrar aquilo que não faz mais parte da sua essência e, ao mesmo tempo, reconhecer, aceitar e servir aquilo que faz parte, também chamado de&nbsp;daimon: “A luz de cima escurecia ainda mais a escuridão, mas a&nbsp;<em>lumen naturae</em>&nbsp;é a luz da própria escuridão; ela clareia sua própria obscuridade, e o escuro compreende esta luz; por isso ela transforma o negro em claro, queima “tudo supérfluo” e deixa para trás nada mais do que “fezes e escória e a terra maldita”. (OC13 §197)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta perspectiva teórica&nbsp;estudamos categorias genéricas, mas cada indivíduo é um recorte e uma narrativa particular desta categoria. Desta forma, se um jovem nos traz a queixa de não ter personalidade, precisamos trabalhar com ele tanto na dimensão universal quanto na particularidade de sua queixa, ampliando o significado de personalidade na subjetividade do analisando e do analista e, da mesma forma, a objetividade das narrativas universais. Só assim poderemos reconhecer a dimensão arquetípica, que tem características compulsórias, por estar dominando a estrutura egóica deste indivíduo, produzindo sofrimento, por conta de o complexo dominante estar represando a energia psíquica, interditando-o de ir para a vida, ou seja, fazer trocas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Atendemos almas humanas e não sintomas, estereótipos, religiões, raças, cor da pele, gênero sexual, homossexuais, bipolares, esquizofrênicos, pretos&nbsp;entre outros rótulos culturais ou patologizantes. É evidente que, nesta sociedade sectarista, retrógrada, machista e racista estrutural, uma mulher preta, pobre e lésbica terá muito mais dificuldades do que um homem branco,&nbsp;rico e&nbsp;heterossexual, mas isso não pode ser determinante, porque acreditamos que todos os seres humanos possuem recursos para seguir seu caminho evolutivo e servir a alma, por serem complexos, criativos e, paradoxalmente, únicos, peculiares, singulares, plurais e universais. Nesta direção, até o ato suicida pode ser compreendido com uma atitude de coragem ou de covardia, de negação da vida ou celebração da vida, de falta de saída ou a melhor saída, de liberdade ou aprisionamento, porque ninguém pode atribuir qualquer significado às escolhas e atitudes de uma pessoa a não ser ela mesma, a não ser que tenhamos intimidade de alma com ela, para evitarmos sentenciá-la com as categorias binárias, que levam para a polaridade maniqueísta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Precisamos ampliar a queixa para poder atravessá-la, ou seja, contribuir para que ela seja superada, ressignificada, transcendida e integrada. Bem diferente do padrão dominante da primazia do ego controlador, que só serve para estimular a manutenção e até aumento da queixa, devido a dialética opositiva entre controle e contra-controle, presente entre o eu e o inconsciente. Esta é a diferença entre o revoltado e o revolucionário, que começou a transformação no seu íntimo. O revoltado projeta seu complexo no entorno relacional e acaba identificando tudo que possa reforçá-lo, muitas vezes distorcendo os fatos. Nesta dimensão antinômica, não existe absoluto. Este trabalho dialético irá possibilitar que esse jovem venha perceber que não ter personalidade passa a ser sua personalidade, é isso se aplica em ser excluído, minoria, preto, homossexual, bipolar. Iremos contribuir para que ele reflita as perdas e os ganhos desta personalidade nesta etapa da sua vida, que está causando sofrimento, disfunção, incapacidade e padrões monotemáticos e unilaterais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É necessário fazermos esse exercício com todas as queixas, independentemente de quais forem, porque o padrão vicioso sempre tem primazia quando o Ego está alinhado com o monoteísmo da consciência, ao confundir racionalidade com racionalização, que é um mecanismo de defesa diante da pluralidade, diversidade e mistério que habitam nosso íntimo. Com esse mecanismo, mesmo com uma queixa de inferioridade ou falta de personalidade, temos o domínio do Ego inflado, unilateralizado, atuando, reconhecendo, desejando e valorizando apenas o que é literal, redutivo e causal, negando a dimensão metafórica e simbólica, porque assim ele se retroalimenta da ilusão do controle, e aplaca o medo em busca das mais variadas formas de poder, apesar de, infelizmente, ficar incapaz de amar, ou seja, se entregar, simbolicamente, para as várias formas de morte do existir.&nbsp;Neste sentido, sempre comento que o processo da análise é um convite para a morte, porque todo desenvolvimento implica em mudança das crenças, por meio de experiências iniciáticas de morte e renascimento simbólicos!</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Alma é um território em si, com leis que lhe são próprias. A essência da alma não pode ser derivada de princípios de outros campos da ciência, caso contrário violar-se-ia a natureza particular do psiquismo. Não se identifica com o cérebro, com os hormônios, nem com qualquer dos instintos conhecidos, mas tem que ser entendida como fenômeno “sui generis”.&nbsp; (OCXVI/1 § 22)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung percebeu, na prática, que o processo analítico, quando o analisando consegue enfrentar as resistências, os mecanismos de defesa, os condicionamentos, a sombra, os complexos autônomos e as sabotagens, além das próprias, a de todo entorno relacional, são percorridas quatro etapas: a&nbsp;confissão, o&nbsp;esclarecimento, a&nbsp;educação&nbsp;e a&nbsp;transformação. Além de também constatar que a alma não se identifica com nenhum tipo de rótulo, seja ele cultural, médico, religioso, racial, de gênero ou orientação sexual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na&nbsp;confissão&nbsp;acontece a catarse, onde o analisando “despeja” suas queixas, fantasias, ressentimentos, raivas, medos, culpas, mágoas, ansiedades, lembranças traumáticas, dramáticas ou alegres, incluindo seus segredos, que funcionam como venenos psíquicos, transformando seu portador estranho à comunidade, pois o segredo inconsciente prejudica muito mais, apesar de que a contenção de qualquer segredo, consciente ou inconsciente, produz doenças. Mas, como disse Jung (OCXVI §124), esse veneno, revelado em pequenas doses, pode ser um medicamento preciosíssimo, e até uma condição prévia indispensável a qualquer diferenciação individual. A catarse é uma espécie de confissão completa, onde os afetos contidos liberam emoções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Geralmente, após a catarse, na maioria das vezes, os sintomas neuróticos ficam invisíveis, apesar de que, em função do vínculo empático estabelecido, e a vivência&nbsp;<em>cotransferêncial</em>&nbsp;entre o analista e analisando, uma espécie de ligação psíquica, bilateral, que irá contribuir para que o processo siga adiante. Porque, na psicologia analítica, trabalhamos&nbsp;na&nbsp;transferência. Infelizmente, em muitos casos, a ligação do analisando permanece com os conteúdos do seu inconsciente, que podem ser projetados no analista, causando paralisia, tensão e desconforto, assim como quando o analisando não consegue metaforizar e simbolizar suas fantasias, sonhos e projeções, permanecendo na literalidade e unilateralidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o processo analítico permite a elucidação dos afetos, e suas respectivas emoções, que foram expostas na etapa confessional, muitas vezes produzindo ab-reações, adentramos na fase do&nbsp;esclarecimento, onde analista e analisando começam a compreender os fenômenos, o contexto histórico, a dimensão multifatorial e até transpessoal de tudo que aconteceu ou deixou de acontecer, integrando tanto as causas passadas quanto as potencialidades futuras, presentes em todas as intercorrências existenciais. Na terminologia da psicologia analítica, essa compreensão, que é teleológica, por integrar nossa dimensão ancestral e toda potencialidade anímica para nossa realização, presente no daimon ou chamado vocacional, buscamos tanto a&nbsp;compreensão integrativa das intercorrências redutivas causais&nbsp;– método psicanalítico que pode ser destrutivo e paralisante, quando fica unilateral, aprisionando a pessoa ao passado – quanto as&nbsp;ampliações prospectivas sintéticas, geradoras de insight, como força mobilizadora da vontade, para que a energia psíquica possa fluir na direção da autonomia e do ser social, em todas as seis direções: para frete e para trás, para cima e para baixo, para dentro e para fora, contemplando as quatro funções psíquicas do Ego: pensamento, sentimento, sensação e intuição e os dois tipos: extrovertido e introvertido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste momento, adentramos na terceira etapa do processo analítico, que é a pedagógica ou&nbsp;educação. Ela vem acompanhada do alargamento da consciência, o esclarecimento e aceitação dos seus conteúdos sombrios, até então negados ou projetados no entorno relacional. Nesta etapa o Ego sai da sua condição de miserabilidade egoísta, para começar a perceber a infelicidade comum da vida cotidiana, ordinária, individualista e desprovida do propósito do servir. A moral do politicamente correto, do falso puritanismo e dos códigos de conduta das instituições religiosas, familiares, sociais ou laborais será substituída pela necessidade da atuação integrativa entre a ética e a estética. A vontade de se educar impulsiona essa fase evolutiva que irá desembocar na&nbsp;transformação, última etapa do processo, levando-nos, alegoricamente, subir a escada espiralada de Jacó.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Por estranho que pareça, a cada fase da evolução da nossa psicologia pertence algo de definitivo. Na catarse, que faz despejar tudo até o fundo, somos levados a crer: pronto, agora tudo veio à tona, tudo saiu, tudo ficou conhecido, todo medo foi vivido, toda lágrima derramada, daqui para a frente tudo vai correr às mil maravilhas. Na fase do esclarecimento, diz-se com a mesma convicção: agora sabemos o que provocou a neurose as reminiscências mais remotas foram desenterradas, as últimas raízes extirpadas, e a transferência nada mais era do que uma fantasia para satisfazer um desejo paradisíaco infantil ou uma retomada do romance familiar; o caminho para uma vida sem ilusões está desimpedido, aberta a via da normalidade. A educação vem por fim, e mostra que uma árvore que cresceu torta não endireita com uma confissão, nem com o esclarecimento, mas que ela só pode ser aprumada pela arte e técnica de um jardineiro. Só agora é que se consegue a adaptação normal. Curiosamente, esse caráter definitivo, emocionalmente inerente a cada uma das etapas, fez com que hoje existam adeptos da catarse, que aparentemente nunca ouviram falar da interpretação de sonhos, seguidores de FREUD que nada entendem de ADLER, e ADLERianos que nada querem saber do inconsciente. Cada qual está preso ao valor definitivo do seu enfoque particular.” (OCXVI § 153;154)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso nos faz compreender a existência das inúmeras abordagens psicológicas, umas ficam exclusivamente na dimensão reptiliana, promovendo condicionamentos e adestramento, por meio de reforços positivos ou negativos, que está na base das terapias comportamentais. Outras priorizam nosso cérebro límbico, incentivando a libertação da criança interior, o grito primal, a negação do inconsciente. Também tem aquelas que valorizam o prazer e a conquista material, outras que acreditam no poder e sucesso como realização, além de inúmeras outras que promovem catarses espetaculares em&nbsp;workshops&nbsp;de final de semana, aconselhamentos técnicos, teatros para ressignificar a família ou os demais vínculos relacionais, sem falar das instituições religiosas, onde a maioria delas perdeu seu caráter esotérico, funcionando também como um rolo compressor para fazer as pessoas irem para fora, em busca da prosperidade material, apesar de estarem se “vendendo” como entidades voltadas para a espiritualidade. Todas elas em busca de transformar a pessoa em um indivíduo normal ou ajustado, apenas um autômato e escravo financeiro, nesta sociedade tão doente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Consequentemente, existem dois tipos de neuróticos: uns que adoecem porque são apenas normais e outros, que estão doentes porque não conseguem tornar-se normais. [&#8230;] As exigências e necessidades do homem não são iguais para todo mundo. O que para uns é salvação, para outros é prisão; O mesmo acontece com a normalidade e o ajustamento.” (OC XVI/1 § 161;162)</p>



<p class="wp-block-paragraph">No processo do autoconhecimento, depois que é socializada a história de vida, começamos perceber padrões de repetição, muitas vezes transgeracionais, onde o analisando reconhece que estava, inconscientemente, tentando reparar a vida não vivida ou mal vivida de seus antepassados. Além disso, temos a dinâmica psíquica da nossa mãe biológica, da concepção até nascimento, e de quem exerceu nossa maternagem, até os três anos de idade, com seus dramas e traumas, registrados, de forma indelével, em nosso inconsciente pessoal. Essas marcas são profundas e, se não forem trabalhadas, irão interferir por toda a vida. E como tanto a mãe quanto nós estamos imersos no inconsciente coletivo, com seu espírito da época e toda história de expressão da vida senciente, fica ainda mais difícil empreender mudanças e romper padrões, como o do patriarcado patrimonialista, hierárquico e excludente, que nos domina há mais de 6 mil anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No momento atual, em mais uma tentativa de anunciar a revolução aquariana, &nbsp;estão muito evidentes as temáticas de respeito e inclusão da mulher e a conscientização da masculinidade tóxica, apontando para que, num futuro próximo, possamos adentrar no dinamismo da alteridade, que irá superar a primazia patriarcal, que continua manter o machismo na forma mais grotesca, praticado, reproduzido e ensinado, subliminarmente, pela maioria da sociedade, retroalimentando o padrão eurocêntrico e hierarquizante (WASPR &#8211; Branco, Anglo-Saxão, Protestante e Rico), competitivo, territorialista e excludente, mantendo o sectarismo, a discriminação e a desigualdade. Porque o machismo está arraigado no inconsciente coletivo e pessoal, independentemente do gênero, e negar isso irá produzir mais resistência para a mudança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em uma aula comentei do machismo das mulheres, e uma aluna ficou muito incomodada com minha fala de que as mulheres são tão machistas quanto os homens, por ser este o padrão normótico e inconsciente dominante, como já foi comentado. Essa reação nos faz, mais uma vez, ressaltar que não podemos literalizar e unilateralizar os conteúdos, porque nossa meta é a simbolização, para não caímos na diabolização, que produz divisão, retroalimentando e, consequentemente, o próprio machismo. Conhecimento e cultura são diferentes, assim como razão e racionalização, e é devido a nossa cultura, ainda machista, que fez muitas mulheres, nas eleições dos USA, vestiram camisetas com os dizeres: “Trump can grab my pussy”, por aceitarem ser cultural, e até “normal”, um homem poderoso querer e poder tocar a genitália feminina que ele bem desejar. Da mesma forma, sua santidade Dalai Lama, quando foi questionado se ele poderia reencarnar como mulher, fez careta e disse que ela teria que ser mais atraente, deixando evidente sua contaminação machista, reforçando subliminarmente, mesmo sem intenção consciente, a manutenção da mulher como objeto de uso e abuso, incentivando-a a consumir moda e cosmética, para ficar cada vez mais bela e atraente, e continuar sendo consumida pelo capitalismo machista, de todas as formas e isso também se aplica aos preconceitos raciais, onde num passado recente, na África do Sul, existia a Leia da imoralidade que punia a união entre brancos e negros. Deixando evidente que moral e ética são dimensões diferentes, fazendo-nos compreender que a alma é ética, apesar de imoral!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de estar sendo repetitivo, ressalto que pior forma de masculinidade tóxica é aquela que, apesar do sujeito abusar da persona do bom moço, sensível, poético e profundo, sua sombra opressiva, obviamente negada e projetada, continua fazendo-o rejeitar qualquer tipo de expressão da superioridade feminina, tratando as mulheres apenas como objetos de uso e abuso, muitas vezes porque ficou preso na fantasia de ter tido uma mãe devoradora, abandónica ou abusiva. Lamentavelmente, muitas mulheres, dominadas pelos aspectos sombrios do animus, estruturado a partir do animus materno, reproduzem esse padrão, sentindo-se atraídas por essa forma de machismo “enrustida”, assim como continuam educando seus filhos, meninos ou meninas, nesta mesma dinâmica, reforçando aquilo que existe de mais grotesco e primitivo do patriarcado, muito presente nos textos sagrados, antes da vinda do Nazareno, apesar de que, com a institucionalização do cristianismo, o patriarcado machista e tóxico continuaram presentes. Neste sentido, somente o autoconhecimento, a crítica reflexiva, o reconhecimento da sombra, dos complexos, do quanto somos influenciados pelo inconsciente coletivo, visando a prática da alteridade, que nos libertará desta opressão geradora de exclusão e desigualdades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para evoluirmos, precisamos, inicialmente, reconhecer que o que nos incomoda nos outros está em nós mesmos. Isso é o que chamamos de irmos ao encontro da sombra. A alquimia nos ensina que somente após a descida ao mundo das trevas, ao&nbsp;nigredo, é que poderemos começar a encontrar a verdadeira luz, a que vem de dentro. Após o reconhecimento e discriminação destes conteúdos sombrios, em nós, é que empreenderemos o trabalho de nos diferenciar deles, para depois nos separar e, por fim, após superar o trauma da separação, e seguir adiante no processo de individuação, reintegrá-lo novamente, para podermos compreender, empaticamente, o outro e nossa jornada evolutiva, porque todo passado, seja ele qual for, é um degrau que sustenta os demais degraus da nossa escada espiral evolutiva, que agora precisa abrir mão de qualquer forma de poder e opressão, para que o amor incondicional anuncie a nova era da equidade!</p>



<p class="wp-block-paragraph">22 de setembro de 2019</p>



<p class="wp-block-paragraph">Paz e Bem, graças ao reconhecimento e aceitação consciente da Guerra e do Mal que habitam em nós!</p>



<p class="wp-block-paragraph">WALDEMAR MAGALDI FILHO. Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;Dinheiro, Saúde e Sagrado&#8221;, Ed. Eleva Cultural, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP &#8211; Instituto junguiano de Ensino e Pesquisa, oferecidos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&gt;&gt;&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/ijep_jung/">@ijep_jung</a>&nbsp;&lt;&lt;&lt;</p>
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