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	<title>Arquivos Maternidade - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos Maternidade - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>A Herança Invisível na Educação dos Nossos Filhos</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-heranca-invisivel-na-educacao-dos-nossos-filhos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiza de Oliveira Burger]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Sep 2026 12:39:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Parentalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo discute a dificuldade de romper padrões familiares na parentalidade, mesmo quando existe o desejo consciente de educar os filhos de forma diferente daquela vivenciada na própria infância. As experiências emocionais não elaboradas, e até mesmo as elaboradas, podem influenciar reações automáticas e a repetição de comportamentos herdados. Utilizando o mito grego de Urano, Cronos e Zeus como metáfora da transmissão transgeracional de padrões, o texto reflete sobre os desafios de transformar a própria história familiar.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-heranca-invisivel-na-educacao-dos-nossos-filhos/">A Herança Invisível na Educação dos Nossos Filhos</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo:</strong> Este artigo discute a dificuldade de romper padrões familiares na parentalidade, mesmo quando existe o desejo consciente de educar os filhos de forma diferente daquela vivenciada na própria infância. As experiências emocionais não elaboradas, e até mesmo as elaboradas, podem influenciar reações automáticas e a repetição de comportamentos herdados. Utilizando o mito grego de Urano, Cronos e Zeus como metáfora da transmissão transgeracional de padrões, o texto reflete sobre os desafios de transformar a própria história familiar.</p>



<h2 id="h-voce-ja-se-pegou-reproduzindo-com-seus-filhos-a-mesma-dinamica-que-voce-tinha-com-os-seus-pais-mesmo-que-elas-tenham-te-trazido-algum-tipo-de-sofrimento-e-que-voce-tenha-jurado-aos-quatro-ventos-que-na-sua-vez-faria-diferente" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Você já se pegou reproduzindo com seus filhos a mesma dinâmica que você tinha com os seus pais, mesmo que elas tenham te trazido algum tipo de sofrimento e que você tenha jurado aos quatro ventos que na sua vez faria diferente?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A geração de pais das últimas décadas carrega um paradoxo: ao mesmo tempo em que deseja educar os filhos de forma diferente daquela que vivenciou, frequentemente se vê reproduzindo padrões que acreditava ter deixado para trás. Há um esforço genuíno para romper ciclos familiares, mas não é raro surgir a sensação de estar correndo atrás do próprio rabo. Quanto mais se tenta evitar determinados comportamentos, mais eles aparecem, revelando a força das marcas deixadas pela própria história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa mesma geração de pais que tem à disposição uma gama de informações sobre educação e parentalidade, muitas vezes à um clique, tem que conviver com a angústia da distância entre a teoria e prática.</p>



<h2 id="h-mas-por-que-sera-que-isso-acontece-a-tarefa-de-romper-com-nossos-padroes-familiares-e-ardua-principalmente-quando-elas-tocam-em-nossos-complexos" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Mas por que será que isso acontece? A tarefa de romper com nossos padrões familiares é árdua, principalmente quando elas tocam em nossos complexos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Para Jung os complexos são conteúdos carregados de afeto com um ou mais núcleos arquetípicos</strong>. Ou seja, a temática dos complexos é universal, mas a forma como experimentamos esses mesmos temas em nossas vidas faz com que nossa relação com eles seja positiva ou negativa;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Ao estudar os fenômenos da associação, indiquei que existem certos agrupamentos de elementos psíquicos em torno de conteúdos emocionais, que denominamos complexos. O conteúdo emocional, ou complexo, é constituído de um elemento nuclear e de uma grande quantidade de associações consteladas secundariamente. O elemento nuclear consta de dois componentes: em primeiro lugar, de uma condição, determinada pela experiência, portanto, de um fato vivido, causalmente vinculado ao ambiente e, em segundo lugar, de uma condição imanente de caráter individual de natureza disposicional (JUNG, 2013a, p.21).</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">É muito comum falarmos que uma determinada situação que vivenciamos nos gerou algum gatilho emocional. Isso quer dizer que um acontecimento atual nos remeteu à uma situação antiga, mas que ainda têm o poder de nos provocar, ainda que muito tempo depois, algum tipo de desconforto.</p>



<h2 id="h-para-jung-um-complexo-afetivo-e-uma-imagem-de-uma-determinada-situacao-psiquica-de-forte-carga-emocional-e-alem-disso-incompativel-com-as-disposicoes-ou-atitude-habitual-da-consciencia-jung-2013b-p-43" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Para Jung, “um complexo afetivo é uma imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência”. (JUNG, 2013b, p.43).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Todo esse processo ocorre de forma inconsciente e gera reações imediatas, quase que automáticas, que fogem do nosso padrão de comportamento e que temos dificuldade de justificar depois. Quando isso ocorre, dizemos que o indivíduo foi tomado pelo complexo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>O complexo é um fator psíquico que, em termos de energia, possui um valor que supera, às vezes, os de nossas intenções conscientes&#8230; De fato, um complexo ativo nos coloca por algum tempo num estado de não liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas para os quais, sob certas circunstâncias, o conceito jurídico de imputabilidade limitada seria o único válido. (JUNG, 2013b, p.43).</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Para ilustrar como um complexo paterno negativo pode atuar influenciando na reprodução de padrões familiares, nesse estado de “não liberdade” das nossas própria ações e pensamentos, podemos pegar um exemplo da mitologia grega que envolve a história de três pais: Urano, Cronos e Zeus.</p>



<h2 id="h-complexo-paterno-negativo" class="wp-block-heading"><strong>Complexo paterno negativo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo conta o mito, Urano, temendo que seus filhos fossem uma ameaça ao seu poder, mantinha-os aprisionados no ventre da mãe, Gaia. Um dia, descontente com essa situação, Gaia tenta convencer seus filhos a enfrentarem o pai. Apenas Cronos, o mais novo dos titãs, aceita. Ele ataca o pai com uma foice e o castra. Depois disso, Urano perde o poder, se afasta de Gaia e dos filhos, e Cronos passou a governar em seu lugar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cronos herda do pai&nbsp;o medo de ser destronado por um de seus filhos. Acreditando numa profecia, toda vez que sua esposa,&nbsp;Reia, dava à luz, Cronos engolia o bebê. Ele fez isso com&nbsp;Héstia,&nbsp;Deméter,&nbsp;Hera,&nbsp;Hades&nbsp;e&nbsp;Poseidon.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando nasce&nbsp;Zeus, Reia decide salvá-lo. Esconde o bebê e entrega à Cronos uma pedra enrolada em panos, que ele engole pensando ser o filho. Depois de adulto, Zeus obriga Cronos a vomitar os irmãos e lidera uma guerra contra ele, o derrotando e assumindo o poder do Olimpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Zeus, por sua vez, engole a primeira esposa, Métis, ainda grávida, também por causa de uma profecia que dizia que seu segundo filho seria mais poderoso que ele. Métis era considerada umas das divindades mais sábias que existiam e continuou viva dentro de Zeus mesmo depois de ser engolida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Zeus ainda age movido pelo medo de perder o poder, mas o mito sugere uma mudança importante, o padrão não é apenas repetido, é parcialmente transformado. Ao engolir Métis, ele incorpora a própria sabedoria. Dela, nasce Atena, que emerge de sua cabeça, símbolo de uma consciência que começa a integrar aquilo que antes era apenas reprimido.</p>



<h2 id="h-da-mitologia-a-parentalidade" class="wp-block-heading"><strong>Da mitologia à parentalidade</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse mito nos mostra como é difícil mudar o que está sendo sustentado há tantas gerações. Na realidade de muitas famílias, a repetição de padrões pode aparecer na forma de violência física e psicológica, autoritarismo, abandono, controle excessivo, dificuldade em expressar afeto, e por aí vai. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E quando esse mesmo padrão reacende nossas feridas, o desafio é ainda maior. E nessa hora não existe livro, educador, influencer, pedagogia ou educação positiva que dê conta disso. Porque a nossa história familiar impacta diretamente na forma como vamos educar nossos filhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando lidamos com nossos filhos estamos de alguma forma dando conta da criança que fomos um dia e revivendo, em muitos momentos, experiências pelas quais passamos na nossa infância. Pensando dessa forma, os filhos podem ser um gatilho e tanto para aqueles complexos que poderiam estar adormecidos, mas que irrompem tão logo alguém coloque o dedo naquela ferida ainda aberta. Muitas vezes não reagimos ao filho que está diante de nós, mas ao filho que fomos.</p>



<h2 id="h-talvez-o-primeiro-passo-seja-a-consciencia-ter-consciencia-dos-padroes-que-repetimos-e-que-vem-das-nossas-familias-de-origem" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Talvez o primeiro passo seja a consciência. Ter consciência dos padrões que repetimos e que vêm das nossas famílias de origem.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Ter consciência dos nossos complexos é saber onde o nosso calo aperta e que não vamos apagar a nossa história, mas podemos ressignificá-la de forma que, quem sabe, percam sua potência para não passarmos os mesmos padrões adiante.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>No entanto, o que acontece em grande parte dos casos é repetirmos a mesma dinâmica de forma inconsciente</strong>. Ou que a necessidade de fazer diferente dos nossos pais e negar nosso modelo familiar de origem nos leve para outro polo, o da idealização da paternidade e da maternidade. “Eu abomino tanto a dinâmica estabelecida na minha família que vou para o caminho oposto, em vez de tentar encontrar um caminho do meio”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem teve pais autoritários, por exemplo, pode se tornar igualmente autoritário, por repetição, mas também pode se tornar excessivamente permissivo, como compensação. À primeira vista parecem opostos, mas ambos continuam organizados em torno da mesma ferida.</p>



<h2 id="h-a-abordagem-conhecida-como-educacao-positiva-talvez-tenha-nascido-dessa-vontade-de-encontrar-uma-terceira-via" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A abordagem conhecida como “educação positiva”, talvez tenha nascido dessa vontade de encontrar uma terceira via.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ela prega a educação de crianças baseada em respeito mútuo, conexão emocional, limites firmes e desenvolvimento de habilidades socioemocionais, sem recorrer à violência física, humilhação ou punições excessivamente autoritárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora práticas associadas à educação positiva tenham raízes na Psicologia Individual de <strong>Alfred Adler</strong>, no início do século XX, o conceito ganhou maior difusão a partir das décadas de 1980/1990, especialmente com os trabalhos de Jane Nelsen e o avanço das pesquisas em desenvolvimento infantil e parentalidade responsiva. E mais ainda com a chegada das redes sociais, onde é muito comum encontrar profissionais e até mesmo influencers que se dedicam a falar sobre o tema.</p>



<h2 id="h-a-educacao-positiva-seria-um-bom-caminho-se-nao-tivesse-sendo-interpretada-muitas-vezes-a-partir-dos-nossos-complexos-talvez-tomados-por-eles-estejamos-sendo-levados-a-entender-a-educacao-positiva-como-um-modelo-de-nao-frustracao-as-criancas" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>A educação positiva seria um bom caminho, se não tivesse sendo interpretada muitas vezes a partir dos nossos complexos. Talvez, tomados por eles, estejamos sendo levados a entender a educação positiva como um modelo de não frustração às crianças.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O medo de que meu filho sofra como eu sofri faz com que eu evite ao máximo que ele se chateie, mesmo que isso signifique eliminar da vida dele todo e qualquer foco de sofrimento, inclusive aqueles que dizem respeito aos “nãos” que são necessários para a formação da sua personalidade. Com isso, vemos uma legião de crianças e adolescentes que não sabem lidar com suas frustrações e com a angústia de que nem tudo na vida acontece da forma como gostariam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos pais não estão apenas tentando educar os filhos. Estão tentando curar a própria infância, reparar a relação com seus pais, provar para si mesmos que são diferentes.&nbsp; O problema é que a criança real acaba ocupando o lugar de um projeto de reparação emocional. E que peso para essas crianças.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luiza-de-oliveira-burger/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/luiza-de-oliveira-burger/"><strong>Luiza de Oliveira Burger – Membro Analista em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/"><strong>Ana Paula Maluf – Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



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<iframe title="📃Artigo novo: &quot;A Herança Invisível na Educação dos Nossos Filhos&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/Ex0bLxDsLCs?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A Energia Psíquica. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ A Natureza da Psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega – volume I. Petrópolis: Vozes.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.ijep.com.br"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="369" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-1024x369.png" alt="" class="wp-image-13831" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-1024x369.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-300x108.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-150x54.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-450x162.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-1199x432.png 1199w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1.png 1280w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Da Maternidade Romantizada à Maternidade Real</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/da-maternidade-romantizada-a-maternidade-real/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laiana Nascimento Neves Soares]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Jul 2026 13:48:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[arquétipo materno]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[Mãe]]></category>
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		<category><![CDATA[romantização da maternidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo aborda a temática da maternidade na contemporaneidade, fazendo uma análise crítica e reflexiva do contexto sociocultural das imposições atribuídas às mulheres-mães, conforme a perspectiva da psicologia de Carl Gustav Jung. O intuito desse trabalho visa a desmistificar a romantização da maternidade, bem como a culpabilização da mulher e trazer à tona as muitas nuances que se abatem sobre a maternidade real.  </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><u><strong>RESUMO:</strong></u> Este artigo aborda a temática da maternidade na contemporaneidade, fazendo uma análise crítica e reflexiva do contexto sociocultural das imposições atribuídas às mulheres-mães, conforme a perspectiva da psicologia de Carl Gustav Jung. O intuito desse trabalho visa a desmistificar a romantização da maternidade, bem como a culpabilização da mulher e trazer à tona as muitas nuances que se abatem sobre a maternidade real.  </p>



<h2 id="h-vamos-falar-sobre-a-maternidade-real" class="wp-block-heading"><strong>Vamos falar sobre a maternidade real?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sim, é isso mesmo! Temos a maternidade real e a maternidade idealizada.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>E a que se deve essa diferença?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Pois é, vivemos em uma sociedade que romantiza a maternidade. Muitas mulheres se veem tentando a todo custo atingir e cumprir o que se espera de uma dita boa-mãe. Nesse contexto social, as mulheres são instruídas a acreditarem de fato nesse vislumbre do ser uma mãe ideal. Isso por consequência de nossa cultura que embutiu e perpetua por gerações um “modelo ideal” de maternidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O arquétipo da mãe é universal, em qualquer cultura, tempo ou lugar que se refira à figura materna, ele é ativado por imediato. Porém, cada um de nós tem uma imagem de mãe específica, mas em geral todos sabem o que é uma mãe.</p>



<h2 id="h-carl-gustav-jung-apos-suas-observacoes-empiricas-definiu-arquetipo-como-uma-forma-como-um-molde-onde-sao-assentadas-e-moldadas-as-experiencias-humanas" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Carl Gustav Jung, após suas observações empíricas, definiu arquétipo como uma fôrma, como um molde, onde são assentadas e moldadas as experiências humanas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Com efeito não temos acesso aos arquétipos diretamente, o que se torna consciente para nós é a imagem arquetípica; a forma resultante do molde e assim, segundo ele:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.3"><strong><em>&#8220;Mãe&#8221; é um arquétipo que indica origem, natureza, o procriador passivo (logo, matéria, substância) e, portanto, a natureza material, o ventre (útero) e as funções vegetativas e por conseguinte também o inconsciente, o instinto e o natural, a coisa fisiológica, o corpo no qual habitamos ou somos contidos. &#8220;Mãe&#8221;, enquanto vaso, continente oco (e também ventre), que gesta e nutre, exprime igualmente as bases da consciência. Ligado ao estar dentro ou contido, temos o escuro, o noturno, o angustioso (angusto = estreito). Com estes dados, estou reproduzindo uma parte essencial da versão mitológica e histórico linguística do conceito de mãe, ou do conceito do Yin da filosofia chinesa.</em></strong> <strong><em>(JUNG, OC 16/2, § 344)</em></strong></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Há que se lembrar também que os arquétipos são ambivalentes, e desse modo, potencialmente positivos e negativos, uma vez que existem no inconsciente coletivo não somente a imagem da boa mãe, como também a da mãe terrível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mulher sempre foi vista em nossa cultura como uma figura associada à procriação. Sua função essencial seria procriar; reproduzir a espécie, produzir mão de obra de trabalho nos tempos do Brasil agrário e hoje ainda, em alguma medida, a mão de obra urbana para os grandes meios de produção e prestações de serviços.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>No entanto, na sociedade contemporânea, a mulher não desempenha apenas a maternidade, a maioria das mulheres que são mães, também cumprem muitos outros papeis sociais, os quais, no que tange a estrutura psíquica, foi chamado por Jung de <em>persona</em> e que:</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><em>“designava originalmente a máscara usada pelo ator, significando o papel que ia desempenhar.” (JUNG, OC 7/2, § 245)</em></strong></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A maioria das mulheres na contemporaneidade faz parte do mercado de trabalho, são responsáveis pela maior parte dos afazeres domésticos (grande parte delas, de todos os afazeres) e a depender da configuração familiar, ainda cuidam dos pais idosos &#8211; a chamada geração sanduíche &#8211; que tem filhos pequenos e pais idosos por conta da expectativa de vida do brasileiro que aumentou e também por causa da maternidade mais tardia da mulher moderna.</p>



<h2 id="h-essa-maternidade-que-acontece-um-pouco-mais-tarde-atualmente-deve-se-a-alguns-fatores-como-o-acesso-a-metodos-contraceptivos-maior-escolarizacao-e-dedicacao-ao-estabelecimento-de-uma-carreira-profissional" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Essa maternidade, que acontece um pouco mais tarde atualmente, deve-se a alguns fatores como o acesso a métodos contraceptivos, maior escolarização e dedicação ao estabelecimento de uma carreira profissional.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um outro aspecto importante que precisamos mencionar, é a perspectiva de que atualmente os lares brasileiros constituídos e mantidos por mães solo vêm crescendo notoriamente. Além do mais, há que se observar que um outro tipo de dinâmica também existe, que são as mães-solo-casadas, quando todas ou a grande parte das demandas da criança se concentram sob a responsabilidade da mãe. Ou seja, há uma solidão materna, uma sobrecarga da mulher-mãe em nossa cultura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ademais as exigências se mantêm. Nota-se isso especificamente no mercado de trabalho, haja vista espera-se que a mulher trabalhe e produza como se não tivesse filhos e que seja mãe dedicada a maternidade como se não trabalhasse.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, são fortemente julgadas se acaso esse filho não se encaixar no modelo de filho ideal pré-concebido socialmente. A culpa é da mãe! Ouve-se, na maioria das vezes essa expressão no cotidiano. Menos vezes é dito a culpa é dos pais e menos vezes ainda se pergunta: onde estava o pai?</p>



<h2 id="h-e-uma-conta-que-nao-fecha" class="wp-block-heading"><strong>É uma conta que não fecha!</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">No trabalho, em geral, as equipes gestoras de liderança não quer saber se a mãe passou uma noite sem dormir por conta das demandas dos filhos, quer desempenho e resultados. Ao mesmo tempo, julga-se a maternidade destas mulheres, quando não performam o modelo idealizado da boa-mãe; que deve ser sempre dedicada, sempre disponível e sempre angelical. E deste modo, nossa sociedade segue tratando os indivíduos, e neste caso mais específico, mães, como se fossem máquinas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, embora seja óbvio, há que se dizer, que dada a sua humanidade, muitas vezes essa mãe moderna vai se exceder, vai errar, vai perder a paciência, vai deixar de cumprir algumas regras e demandas esperadas, devido à tamanha exaustão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso sem contar que além do papel de mãe, tantas outras exigências também são feitas em conjunto à mulher, como, por exemplo, a imposição em relação à estética e padrões de beleza pressupostos atualmente. Padrões que por sinal, mudam constantemente e que são inalcançáveis, diga-se de passagem.</p>



<h2 id="h-mas-a-quem-interessa-tudo-isso" class="wp-block-heading"><strong>Mas, a quem interessa tudo isso?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essa lógica atende aos interesses do capital e não passa de mais uma estratégia patriarcal e mercadológica para manter mulheres ocupadas, controladas e exaustas; pois assim, não sobra tempo para serem criativas e impede-se que sejam autênticas e livres. E a energia psíquica, em um <em>quantum</em> muito considerável, fica, deste modo, voltada para a adaptação e exigências externas, em um movimento que Jung chamou de progressão.</p>



<h2 id="h-e-em-que-momento-essa-mulher-podera-olhar-para-si-mesma" class="wp-block-heading"><strong>E em que momento essa mulher poderá olhar para si mesma?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">À mulher está atrelada a figura do cuidador. Ela cuida de todo mundo; cuida dos filhos, cuida da casa, cuida das relações em que se encontra, cuida dos doentes, mas e quem cuida dela? E será que ela mesma se cuida? Ou será que a noção de autocuidado, autoestima e autocompaixão feminina também não foram bem construídas na cultura brasileira?</p>



<h2 id="h-maternidade-e-ambiguidade" class="wp-block-heading"><strong>Maternidade é ambiguidade.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">É um constante “Credo! Que delícia!” Entretanto sustentar esse paradoxo não é ensinado e nem autorizado a ser expressado verbalmente. A mãe que ousar externar seus sentimentos de descontentamento, na maior parte das vezes, terá sua fala rechaçada. O julgamento é quase que imediato.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos em uma sociedade onde a persona aceita da mãe, é a persona da mãe encantada, que tece elogios e demonstra satisfação com a maternidade. Atualmente, começamos a ver pequenos movimentos se iniciando no sentido de debater a romantização da maternidade e a exaustação, sobrecarga e apagamento de partes da mulher ao desempenhar o papel materno.</p>



<h2 id="h-e-a-culpa-materna" class="wp-block-heading"><strong>E a culpa materna?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muito já se ouviu o ditado popular que diz: nasce uma mãe, nasce uma culpa. Mas essa expressão popular é dita muitas vezes no sentido de naturalizar, ainda que de forma inconsciente, o fato de que mães sentem culpa. A cobrança sobre as mães é tão grande e tão enraizada no imaginário coletivo que elas sentem culpa no automático. Sente culpa por tudo. Sentem culpa até de coisas que não estão no seu controle. Fazem muito pelos filhos, se esforçam tanto, muitas vezes se anulam e a sensação é de que ainda não foi o suficiente.</p>



<h2 id="h-a-romantizacao-da-maternidade-produz-a-culpa-materna-produz-a-culpabilizacao-da-mulher-o-sistema-patriarcal-e-neoliberal-foi-tao-eficiente-que-chegou-a-um-ponto-em-que-ninguem-precisa-cobra-las-elas-mesmo-se-cobram-e-de-certa-dificuldade-mensurar-o-quao-cruel-com-as-mulheres-isso-e" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A romantização da maternidade produz a culpa materna, produz a culpabilização da mulher. O sistema patriarcal e neoliberal foi tão “eficiente” que chegou a um ponto em que ninguém precisa cobrá-las, elas mesmo se cobram. É de certa dificuldade mensurar o quão cruel com as mulheres isso é!</h2>



<p class="wp-block-paragraph">As mulheres modernas tentam conciliar os vários pilares que compõem a vida na contemporaneidade, seguem exercendo as várias personas. Porém seguem sobrecarregadas, uma vez que a sociedade do desempenho, como diz Byung-Chul Han, nos vende uma imagem idealizada da mulher moderna e empoderada que “dá conta de tudo” e que tem que performar em todas as áreas da vida como; carreira profissional, relacionamento amoroso, interação social, maternidade, aparentar sempre jovem, ter o corpo magro e etc&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, caso haja alguma suposta imperfeição no resultado em comparação à idealização subjetivamente imposta, é porque houve alguma falha pessoal e daí o número crescente de adoecimento mental, que na verdade é oriundo de uma busca incessante de encaixe de padrões pré-estabelecidos, pois não há um questionamento em relação ao sistema que engendra tudo isso, de modo que o suposto problema não é visto como de ordem coletiva e sim atribuído ao indivíduo. E Carl Jung já dizia que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.4"><strong><em>“A vida em sua plenitude não precisa ser perfeita, e sim completa. Isto supõe os ‘espinhos na carne’, a aceitação dos defeitos, sem os quais não há progresso, nem ascensão.” (JUNG, OC12, § 208)</em></strong></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Além de tudo isso, as mulheres-mães ainda se perguntam como as suas antepassadas conseguiam dar conta de um número muito maior de filhos, cuidar dos afazeres domésticos, servir ao marido e algumas ainda cuidavam da agricultura familiar. Todavia a verdade é que essas mulheres não “davam conta”, essas mulheres não viviam suas escolhas e desejos, nem desenvolviam suas potencialidades, elas vivam a subjugação e o apagamento do feminino.&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 id="h-ha-mulheres-que-nao-querem-ser-maes" class="wp-block-heading"><strong>Há mulheres que não querem ser mães.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Observa-se também um movimento recente de mulheres declarando terem optado por não exercerem a maternidade, de não desejarem ser mães e novamente, há reações imediatas diversas. Tais mulheres ouvem críticas como: quando estiver velha irá se arrepender de não ter tido filho ou algo como: não será uma mulher totalmente realizada. Assim vinculam inteireza, integridade e realização feminina à função materna.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse movimento vem crescendo devido a uma maior conscientização da mulher moderna, observação da sobrecarga; atribuída em maior parte à mulher com a chegada de uma criança bem como a sensação de perda da liberdade e autonomia, ou também por um desejo, genuíno e legitimo, de maternar a própria vida, um projeto, uma missão e etc&#8230;</p>



<h2 id="h-e-as-maes-arrependidas" class="wp-block-heading"><strong>E as mães arrependidas?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se uma mulher que reclama da carga pesada da maternidade já sofre julgamentos, imagina dizer que se arrependem de ter tido filhos. Algumas mães seguem emudecidas por uma opressão invisível que atrela as mulheres a serem mães e, pior ainda, a gostarem de desempenhar a função materna. Muitas não conseguem sequer verbalizar o que sentem, tamanho o peso da reprovação que receberão. Muitas mulheres levam essa questão por toda a vida. Algumas delas utilizam como via para o alívio grupos de bate-papo na internet, onde podem falar sobre o arrependimento sem se identificarem, por medo de serem rotuladas como desumanas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há que se diferenciar o amor pelos filhos do gostar de desempenhar o papel destinado às mães, uma vez que são ações completamente diferentes, embora não soe bem e não seja bem recebido socialmente no momento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><strong>Ainda que seja um tema sensível, há sim mulheres que de fato se arrependem de terem se tornado mães, na medida em que a decisão foi tomada sob ótica da maternidade romantizada e por uma maternidade compulsória que opera de modo subentendido.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Tais mulheres sentiram que tiveram suas vidas roubadas, sua individualidade e liberdade perdidas com a chegada do filho, embora soubessem previamente de toda abdicação e exigências que a criação de uma criança requer. Contudo não se trata de egoísmo, tampouco de falta de amor e irresponsabilidade, mas esses tipos de sentimentos precisam ser acolhidos, pois eles existem, muito embora não sejam o desejado socialmente.</p>



<h2 id="h-e-quanto-aos-filhos" class="wp-block-heading"><strong>E quanto aos filhos?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Antes de qualquer coisa, é importante lembrar, que nos primórdios, a responsabilidade, cuidados e ensinamento das crianças; mesmo que tivessem suas mães, eram de toda a aldeia, de todo o clã, de toda uma tribo. Até bem pouco tempo, antes da entrada das mulheres no mercado de trabalho, elas ficavam por conta dos filhos e do lar, contando muitas vezes, com uma rede de apoio composta por outras mulheres cuidadoras que a auxiliavam, como suas mães, sogras, uma irmã, tias, vizinhas e outras. O que atualmente praticamente não acontece mais. A rede de apoio é cada vez mais reduzida, e isso quando ela existe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Observa-se também um movimento, ainda que a passos lentos, de apoio e presença do Pai na modernidade, mas ainda é a exceção e não a regra. E mesmo quando isso acontece, a maior carga ainda recai sobre a mulher. E estes pais costumam ser elogiados socialmente por fazerem o mínimo e geralmente, a maioria desses homens também acreditam estarem sendo diferenciados e incríveis.</p>



<h2 id="h-somado-a-isso-conforme-mencionado-anteriormente-as-atribuicoes-da-mulher-moderna-aumentaram-o-que-resulta-em-sobrecarga-exaustao-e-inviabilidade-de-algumas-perspectivas-da-vida" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Somado a isso, conforme mencionado anteriormente, as atribuições da mulher moderna aumentaram, o que resulta em sobrecarga, exaustão e inviabilidade de algumas perspectivas da vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E de fato, o que uma criança realmente precisa é de pais realizados; de pais felizes; uma vez que os filhos são receptáculos e estão inconscientemente captando tudo o que acontece na dinâmica familiar. Pois a melhor forma de educar é sendo um modelo de pessoa íntegra, inteira, realizada e humana. Não importando, inclusive, como se dá essa configuração familiar; seja mãe solo, pais casados, pais separados e etc&#8230; Desde que esses pais/cuidadores estejam vivendo suas vidas com significado e propósito, pois essa é a maior herança que pode ser deixada.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.4"><strong><em>“Nada exerce maior influência psíquica sobre o meio ambiente da pessoa, sobretudo das crianças, do que a vida não vivida dos pais.” (JUNG, OC 15, §4)</em></strong></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">E no final das contas, no que tange a temática da maternidade, o que um filho de fato necessita é de uma mãe real, de uma mãe possível, de uma mãe verdadeiramente humana, que carrega virtudes e imperfeições, luz e sombra e assim, de uma maneira ou de outra, aprenderá, perceberá, receberá e experimentará sua humanidade por meio da nutrição desta mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/laiana-graciela-nascimento-neves-soares/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/laiana-graciela-nascimento-neves-soares/">Laiana Neves – Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Vídeo apresentação:</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Da maternidade romantizada à maternidade real" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/eFuQrhHWnrA?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias-bibliograficas" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências Bibliográficas:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>O eu e o inconsciente</strong>. <strong>OC.7/2</strong>. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>Psicologia e alquimia</strong>. <strong>OC.12.</strong>&nbsp;Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>O espírito na arte e na ciência</strong>. <strong>OC.15</strong>&nbsp;Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>Ab-reação, análise dos sonhos e transferência</strong>.<strong>OC.16/2</strong>&nbsp;Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Um olhar para a maternidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/um-olhar-para-a-maternidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Apr 2026 14:22:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[Mãe]]></category>
		<category><![CDATA[mulher-esqueleto]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto propõe uma reflexão simbólica sobre a maternidade a partir do conto da Mulher-Esqueleto, narrado por Clarissa Pinkola Estés, interpretando-o à luz da psicologia do feminino.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: O texto propõe uma reflexão simbólica sobre a maternidade a partir do conto da Mulher-Esqueleto, narrado por Clarissa Pinkola Estés, interpretando-o à luz da psicologia do feminino</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A narrativa mítica, que apresenta o processo de morte e renascimento da <strong>mulher-esqueleto</strong> após ser acolhida e cuidada por um pescador, é utilizada como metáfora para compreender as transformações psíquicas mobilizadas pela gestação e pela experiência materna. Nesse contexto, discute-se como o complexo materno pode ocupar temporariamente o centro da vida psíquica da mulher, mas também como, ao longo do tempo, torna-se necessário um movimento de retorno à própria individualidade, permitindo que a maternidade seja integrada entre outras dimensões da identidade feminina.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O texto também alerta para o risco de uma unilateralização da consciência quando a maternidade passa a constituir o único sentido da vida, situação simbolicamente associada à figura de Deméter, podendo gerar efeitos sufocantes nas relações familiares. Assim, enfatiza-se a importância da autorreflexão e da busca de equilíbrio psíquico para que a maternidade seja vivida como uma experiência transformadora, mas não totalizante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ser-mae-e-inato-a-mulher" style="font-size:21px"><strong><em>Ser mãe é inato à mulher!</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Já iniciamos nosso texto refletindo sobre uma frase muito falada, entretanto, precisamos questionar o quanto de verdade existe nessa afirmação.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A ideia de maternidade como entendemos hoje vem sendo cunhada desde o século XVII, com a expansão da burguesia e a transformação socioeconômica decorrente do processo de industrialização. Para sustentar a sociedade capitalista, à mulher foi sendo delegada a função de maternidade e cuidados de casa. O capital precisa de trabalhadores e consumidores de seus produtos, e garantir essa rotatividade era necessária. Reforçada pela Igreja, de que o sexo era destinado à procriação, as mulheres praticamente passavam suas vidas inteiras grávidas, com altas taxas de mortalidade infantil e materna. Era comum os homens terem várias esposas e muitas filhos ao longo da vida. Olhando nessa perspectiva, a base social ficou a cargo dos corpos femininos, com múltiplas gravidezes, desgaste físico e da saúde, e sobrecarga de trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa divisão social do trabalho que impôs às mulheres a maternidade como trabalho a ser executado para que seja considerada uma mulher de sucesso perante os pares. Então, podemos concluir e desmistificar que a maternidade definitivamente não é inata às mulheres. Essa frase é fruto de um constructo social e projeto político.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Para além disso, com os avanços do capitalismo, e a conquista feminina no espaço de trabalho, a jornada dupla (às vezes tripla) se tornou uma realidade cruel.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-demandado-da-mulher-que-ela-seja-forte-independente-lider-autossuficiente-e-ainda-mae-esposa-donzela-bonita-esteticamente-impecavel-e-que-nunca-envelheca" style="font-size:18px">É demandado da mulher que ela seja “forte”, “independente”, “líder”, “autossuficiente” e ainda, mãe, esposa, donzela, bonita, esteticamente impecável e que nunca envelheça.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A realidade apresentada nos tempos modernos é esmagadora. Com o aumento da inflação, e a necessidade de lucros, o capitalismo requer que a mulher trabalhe com dedicação e integralidade. As empresas, cada vez mais requerem cargas horárias de trabalho grandes. No mundo capitalista, o capitalismo nunca perde. É nítido que quanto mais mulheres forem produtivas, mais consumidoras teremos. Isso não é um apelo para que as mulheres deixem de trabalhar, mas sim, que tenhamos a ciência que a jornada dupla exige um grau de saúde física e mental que beira um risco à saúde pública.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-existe-amor-maior-do-que-o-amor-de-mae" style="font-size:21px"><strong><em>Não existe amor maior do que o amor</em> de mãe!</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A maternidade, em sua origem, é arquetípica e nos remete ao início de tudo: da vida, da humanidade, do próprio ser. Quem teria sido a primeira mãe? Ou, ainda, qual foi a primeira mulher a reconhecer, em si, a consciência da maternidade?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo a tradição cristã,<strong> Eva </strong>seria a primeira mãe — aquela que, ao comer o fruto proibido da árvore do conhecimento, inaugura a consciência humana e abre esse limiar para toda a humanidade. No entanto, muito antes de Eva, diversas entidades sagradas femininas já habitavam o imaginário simbólico das culturas antigas. Estudos arqueológicos vêm revelando a existência de civilizações com mais de dez mil anos, nas quais o princípio feminino e materno ocupava lugar central.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O conceito de <strong>arquétipo </strong>é fundamental para a compreensão da Psicologia Analítica. O termo não foi cunhado por Carl Gustav Jung, mas foi utilizado por este para definir os moldes psíquicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-2013-280-em-oc-8-2-nbsp" style="font-size:18px">Para Jung (2013, § 280), em OC 8/2,:&nbsp;</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Os arquétipos são formas de apreensão, e todas as vezes que nos deparamos com formas de apreensão que se repetem de maneira uniforme e regular, temos diante de nós um arquétipo, quer reconheçamos ou não seu caráter mitológico.”</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em outras palavras, devemos reconhecer a importância do conceito de arquétipo no que tange à compreensão da natureza humana. O arquétipo é um molde vazio em que as experiências pessoais e coletivas são arquivadas. A imagem arquetípica é a única coisa que o indivíduo pode acessar, sendo nutrido por suas experiências individuais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-seja-eva-ou-nao-a-primeira-mae-o-que-importa-e-reconhecer-que-a-gestacao-e-condicao-essencial-para-a-existencia-humana" style="font-size:18px">Seja Eva ou não a primeira mãe, o que importa é reconhecer que a gestação é condição essencial para a existência humana.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ela se articula a outros arquétipos igualmente basilares, como os da vida e da morte, revelando a maternidade como um campo de profunda ambivalência. Um conto particularmente interessante, trata sobre o ciclo de morte-vida e morte do amor, é muito rico e mostra a ambivalência do amor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-conto-da-mulher-esqueleto-apresentado-pela-autora-clarissa-pinkola-estes-2014-narra-uma-antiga-historia-do-povo-esquimo-sobre-uma-jovem-que-e-lancada-ao-mar-pelo-proprio-pai" style="font-size:18px">O <strong>conto da mulher-esqueleto</strong>, apresentado pela autora Clarissa Pinkola Estés (2014), narra uma antiga história do povo esquimó sobre uma jovem que é lançada ao mar pelo próprio pai.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No oceano, seu corpo é devorado pelos peixes, restando apenas seu esqueleto. Ali ela permanece por muito tempo, até que um jovem pescador prende inadvertidamente seu anzol nas costelas da mulher-esqueleto e acaba içando-a para dentro de seu barco.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assustado com a aparição, o pescador não percebe que sua linha e sua rede de pesca se enroscam no esqueleto. No desespero de se livrar daquela visão aterradora, ele foge em direção ao seu iglu, arrastando-a consigo, sem perceber que ambos estão presos pela mesma rede. No caminho, a mulher-esqueleto consegue engolir alguns peixes que o homem havia colocado para secar e, após muito tempo, volta a se alimentar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando finalmente chegam ao iglu, o homem percebe que ela continua ali. Ao notar sua respiração tranquila, começa lentamente a desenredá-la da rede de pesca e a cobre com peles para aquecê-la. Aos poucos, ele se sente tomado pelo sono e, ao adormecer, deixa cair uma lágrima. A mulher-esqueleto sorri e sorve essa lágrima — que para ela é como um rio — saciando sua sede.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Então, ela retira o coração do homem, que bate como um grande tambor, e começa a batucar em suas duas faces enquanto entoa um canto. Canta para que seu corpo volte a ter carne, cabelos, olhos saudáveis, mãos fortes e macias, seios, ventre e todas as formas que constituem uma mulher. Depois, ainda cantando, deita-se ao lado do homem e devolve o grande tambor — o coração — ao seu corpo. Assim, ao amanhecer, os dois despertam abraçados, juntos de um modo bom e restaurado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-conto-da-mulher-esqueleto-sob-uma-leitura-simbolica-aproxima-se-da-experiencia-da-maternidade-e-da-gestacao" style="font-size:18px">O conto da <strong>Mulher Esqueleto</strong>, sob uma leitura simbólica, aproxima-se da experiência da maternidade e da gestação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Durante a gravidez, muitas mulheres entram em contato com aspectos profundos de si mesmas: memórias antigas, emoções esquecidas, histórias familiares e conteúdos psíquicos que estavam adormecidos. Assim como no conto, esse encontro nem sempre é imediato ou confortável. Muitas vezes, ele exige tempo, paciência e delicadeza para desatar nós internos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Diferentes mulheres relatam que, durante o período de gestação, sonham com as gerações anteriores e entram em contato com a ancestralidade feminina. Esse momento pode se tornar uma oportunidade de conexão com a própria criança interna, de revisitar memórias e de promover um movimento de maior aproximação com a mãe ou com outras figuras maternas presentes em sua vida. Nesse período, torna-se possível compreender melhor a miríade de sentimentos pelos quais diferentes mulheres passam. Trata-se de uma experiência profunda e poderosa para quem a vivência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A Mulher Esqueleto também fala sobre o ciclo vida–morte–vida. Na maternidade, algo semelhante acontece no plano psíquico: para que uma nova vida chegue, uma parte da identidade anterior da mulher precisa se transformar. A mulher que existia antes da gestação não desaparece totalmente, mas passa por uma reorganização profunda. Nesse sentido, a maternidade pode ser vista como um processo de <strong>renascimento simbólico</strong>, no qual uma nova identidade feminina começa a se formar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim como o pescador oferece seu próprio coração para que a Mulher Esqueleto recupere sua vida. Esse gesto simboliza entrega e abertura para a transformação. A maternidade, de maneira semelhante, envolve uma experiência intensa de doação psíquica e emocional, que frequentemente amplia a capacidade de cuidado, vínculo e sensibilidade. Também apresenta o medo do desconhecido, do que estar por vir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ser-mae-e-padecer-no-paraiso" style="font-size:21px"><strong><em>Ser mãe é padecer no paraíso!</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Gestar é um ato de profunda entrega, uma conexão entre almas mediada pelo corpo. Nesse período, a mulher pode entrar em contato mais direto com sua corporeidade, com os instintos, com o complexo materno que a habita e com conteúdos do inconsciente. É como se, durante a gestação, estivéssemos mais próximas de um limiar entre a consciência e o inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-corpo-feminino-vira-fonte-de-vida-e-nutricao-abrigo-e-protecao-e-muita-transferencia-inconsciente-da-mae-para-o-filho-ou-filha-que-chamamos-de-projecoes" style="font-size:18px">O corpo feminino vira fonte de vida e nutrição, abrigo e proteção, e muita transferência inconsciente da mãe para o filho ou filha, que chamamos de projeções.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As projeções são inconscientes, a mulher não tem domínio sobre, mas pode pressentir através de sonhos, intuições e sensações.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É importante também destacar que a vida vivida que os pais podiam ter vivido, é herdada pelos filhos, sob uma forma oposta. Isso significa que os filhos são forçados inconscientemente a tomar um rumo na vida projetado pelos pais (JUNG, 2013). Por isso, esse mergulho ao inconsciente que a gestante pode fazer durante todo esse período simbiótico com a criança é um movimento importante para ambos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung dedicou boa parte de suas obras completas debruçado sobre a importância do complexo materno na formação da psique do indivíduo. O complexo é um conjunto associativo de experiências do indivíduo com tonalidades afetivas, no qual reside um núcleo arquetípico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O complexo materno é de suma importância, por ser o primeiro complexo a ser constituído. Quando nascemos somos indiferenciados com a mãe, sendo que conhecemos o mundo a partir dessa figura que cuida, alimenta e protege, na maioria das vezes assim deveria ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A discussão acerca dessa frase passa pelo fato de que o padecimento é um tipo de sofrimento. Que sofrimento é esse que se dá num “paraíso”? Quando refletimos sobre a incongruência que é esperar que uma mulher sofra, enquanto sorri, percebe-se que não podemos exigir e outorgar esse poder ao corpo de outra mulher de forma incondicionada, como se ela fosse inatamente apegada à isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A maternidade, em sua ambivalência, carrega sinais luminosos e sombrios na mesma medida. Sentimentos de alegria e melancolia, medo e coragem, segurança e insegurança, entre muitos outros. Tudo concorrendo no mesmo espaço interno e externo, num corpo em mudança. É um período de grande caos hormonal, emocional e psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-hora-voce-esquece-toda-a-dor" style="font-size:21px"><strong><em>Na hora você esquece toda a dor!</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Após os nove meses de gestação, em média, outro momento crucial ocorre: o parto. No imaginário feminino, mesmo para mulheres muito racionalizadas, existe um temor ou preocupação de como será esse momento. O medo pode ser relacionado ao instinto de autopreservação. Gestar e parir provoca diferentes consequências ao corpo feminino.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo a Organização Mundial de Saúde, em 2023, <strong>aproximadamente 260 mil mulheres morreram em decorrência de causas relacionadas à gravidez ou ao parto</strong> — o que significa que <strong>mais de 700 mulheres morrem todos os dias por causas evitáveis</strong> ligadas à gestação e ao nascimento. Esses dados corroboram o medo ligado às altas taxas de mortalidade do passado, e ainda presente em países pobres e nas classes sociais mais baixas e com menos acesso a serviços de saúde e qualidade de vida.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Além disso, uma cesárea é a única cirurgia em que se espera que após 6 horas a paciente esteja andando e nutrindo outro ser humano. Lembrando que a cesárea é uma cirurgia de grande porte com todos os riscos envolvidos. É uma cirurgia que uma mulher faz acordada, sem anestesia geral. E espera-se, ainda hoje, que a mulher “não tema nada.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-nasce-um-filho-nasce-uma-mae" style="font-size:21px"><strong><em>Quando nasce um filho, nasce uma mãe!</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na nossa experiência, o nascimento dos filhos nos faz perceber, de forma concreta, o peso e a profundidade da responsabilidade que repousavam em nossos braços. Nutrir, cuidar e proteger tornaram-se necessidades vitais daquele ser totalmente indefeso, dependente por um longo período de sua vida. Diferentemente dos animais não humanos, o ser humano atravessa uma gestação prolongada, que não se limita ao útero, mas se estende para além do nascimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ainda-que-a-crianca-venha-a-andar-sozinha-ela-permanece-incapaz-de-garantir-a-propria-sobrevivencia-necessitando-de-cuidado-vinculo-e-sustentacao-por-muitos-anos" style="font-size:18px">Ainda que a criança venha a andar sozinha, ela permanece incapaz de garantir a própria sobrevivência, necessitando de cuidado, vínculo e sustentação por muitos anos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma mãe nasce quando um filho nasce? Sim e não. Embora o nascimento da criança convoque a mulher para a função materna, o ideal de mãe que a antecede já está dado no imaginário coletivo. O arquétipo materno, tal como é alimentado por cada sociedade, constrói imagens normativas da “boa mãe”: disponível, intuitiva, abnegada e naturalmente competente. Esse ideal, quando rigidamente incorporado, pode afastar a mulher de sua experiência real, produzindo sentimentos de inadequação e culpa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-winnicott-nos-lembra-que-nao-existe-a-mae-perfeita-mas-a-mae-suficientemente-boa-aquela-que-falha-repara-e-se-adapta-de-maneira-gradual-as-necessidades-do-bebe" style="font-size:18px">Winnicott nos lembra que não existe a mãe perfeita, mas a <em>mãe suficientemente boa</em>, aquela que falha, repara e se adapta de maneira gradual às necessidades do bebê.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O termo “<em>mãe suficientemente boa”</em> foi cunhado por Winnicott para <strong>evitar a idealização da maternidade e destacar que a mãe não precisa ser perfeita</strong> – ela começa por atender quase completamente às necessidades do bebê e vai gradualmente se adaptando menos à medida que ele cresce, permitindo que este tolere pequenas frustrações de modo saudável. Ou seja, a maternidade é construída por cada mulher, e difere entre as sociedades, não é inata ou imediata.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O amor é uma construção diária, que se dá nos pequenos gestos e na intimidade com o bebê. Se o amor de uma mãe fosse incondicionado, não existiriam mães que abandonam seus filhos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-mae-vive-para-seus-filhos" style="font-size:21px"><strong><em>Uma mãe vive para seus filhos!</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em uma leitura junguiana, o arquétipo da Grande Mãe carrega em si uma ambivalência fundamental: é fonte de vida, nutrição e proteção, mas também de angústia, ameaça e dissolução. Os choros noturnos, as dificuldades na amamentação e a insegurança inicial confrontam a mulher com essa polaridade, deslocando-a do ideal para a experiência viva. Assim, ser mãe não é a realização imediata de um modelo arquetípico, mas um processo relacional e simbólico, aprendido no encontro contínuo entre mãe e filho, onde ambos se transformam.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em <em>Símbolos da Transformação</em>, Jung formula as qualidades opostas da mãe: amorosa e terrível ao mesmo tempo. O paralelo histórico também expressa essa ambivalência do arquétipo materno &#8211; Maria (Imaculada), Kali associada à morte e destruição. O conceito Prakrti atribui três princípios fundamentais ao materno: bondade, paixão e escuridão. Embora a figura da mãe seja universal, ela varia na experiência prática de cada um, possuindo um caráter mais limitado para essa mãe individual. Com isso, Jung apresenta a ideia de que não é a mãe individual que influencia a psique infantil unicamente, o arquétipo projetado sobre essa mãe confere a ela um caráter numinoso e quase divino (JUNG, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A maternidade possui tamanha força, que no período paleolítico e neolítico, quando o homem ainda não associava a gestação à fecundação. Não se entendia a gravidez como fruto da sexualidade e sim como algo divino. As Deusas da antiguidade eram femininas, Deusas mães, ligadas à terra e à fertilidade (Stone, 2022).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa história que por muito tempo foi apagada pelos homens, vem sendo estudada e revisitada por diferentes estudiosos. É importante entender o passado e o presente, pois eles influenciam o arquétipo materno, base do complexo materno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tudo-e-incerto-neste-mundo-hediondo-mas-nao-o-amor-de-uma-mae-james-joyce" style="font-size:21px"><strong><em>Tudo é incerto neste mundo hediondo, mas não o amor de uma mãe (James Joyce)</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O complexo materno pode gerar impactos tanto em filhos quanto em filhas. Nos homens, quando ativado em excesso, pode resultar em comportamentos dom-juanistas ou homossexuais; já nas mulheres, pode manifestar-se na fixação na maternidade, em um eros exacerbado, em uma identificação excessiva e dependente em relação à mãe ou ainda em um antagonismo em relação a ela (JUNG, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos esperar que, durante a gestação — entendida aqui em sua dimensão mais ampla, que inclui também a chamada gestação “extraútero” —, a mulher seja profundamente mobilizada pelo complexo materno. Nesse período, é comum que a experiência psíquica se organize intensamente em torno da maternidade, envolvendo o corpo, os afetos e o imaginário.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com o passar do tempo, porém, tende a emergir novamente o movimento de retorno ao mundo. A mulher gradualmente retoma o vínculo com sua própria jornada individual, reconectando-se com outras dimensões de si mesma. Assim, a maternidade deixa de ocupar o centro absoluto da experiência psíquica e passa a constituir uma entre as muitas personas que podem se manifestar ao longo da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Entretanto, algumas mulheres encontram dificuldades para realizar esse movimento de retorno a si mesmas, podendo manifestar o que podemos chamar de sintomas demeterianos. Assim como a deusa Deméter, passam a investir na maternidade o sentido central — e, por vezes, exclusivo — da própria vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando isso ocorre, a experiência materna tende a tornar-se unilateral e excessivamente totalizante. Tal configuração pode gerar efeitos sufocantes nas relações ao redor: tensiona o vínculo com o(a) parceiro(a), dificulta a circulação afetiva na família e, sobretudo, pode restringir o espaço psíquico necessário para o desenvolvimento e a autonomia dos próprios filhos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-complexo-materno-assim-como-os-demais-complexos-necessita-receber-uma-quantidade-de-energia-psiquica-que-permita-a-circulacao-saudavel-da-vida-psiquica-e-das-relacoes" style="font-size:18px">O complexo materno, assim como os demais complexos, necessita receber uma quantidade de energia psíquica que permita a circulação saudável da vida psíquica e das relações.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando há uma unilateralização da consciência em torno de um único aspecto da vida — neste caso, a maternidade —, a própria mulher pode acabar sendo prejudicada por essa dinâmica. Em alguns casos, crises no relacionamento conjugal surgem como indícios dessa unilateralidade, sendo frequentemente percebidas ou nomeadas pelo(a) parceiro(a). Nesses momentos, a capacidade de autorreflexão, bem como a abertura para buscar apoio ou ajuda especializada, pode contribuir para a ampliação da consciência e para uma reorganização mais equilibrada da experiência psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A gestação e o nascimento de um filho frequentemente mobilizam camadas profundas da psique feminina, colocando a mulher em contato com dimensões arcaicas do feminino — com a vida, mas também com perdas, transformações e renascimentos. Assim como na narrativa apresentada por <strong>Clarissa Pinkola Estés</strong>, a vida só retorna quando há tempo, cuidado e disposição para desenredar os nós que prendem aquilo que foi lançado às profundezas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse sentido, a maternidade pode ser compreendida não como um destino que absorve toda a existência da mulher, mas como uma experiência transformadora que, quando integrada de forma consciente, permite que diferentes dimensões do feminino encontrem novamente seu lugar na vida psíquica e relacional.</p>



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<iframe title="Artigo novo: &quot;Um olhar para a maternidade&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/7gJBv10KQOE?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<h2 class="wp-block-heading" id="h-autoras" style="font-size:18px">Autoras:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Ercília Simone Magaldi &#8211; Didata do Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/">Michella Cechinel Reis &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/">Paula de Azevedo Bernardi Peñas &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:16px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">ESTÉS, C.P. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. 1 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. O desenvolvimento da personalidade. 14 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. A natureza da psique. 10 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">STONE, M. Quando Deus era mulher. São Paulo: Goya, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Winnicott, D.W. O brincar e a realidade. São Paulo: Ubu Ed., 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">World Health Organization. Maternal mortality. Disponível em: <a href="https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/maternal-mortality">https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/maternal-mortality</a>?. Acesso em 23 de janeiro de 2026.</p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img decoding="async" width="960" height="540" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/Pos-graduacoes-IJEP-1-1.png" alt="" class="wp-image-12781" style="width:647px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/Pos-graduacoes-IJEP-1-1.png 960w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/Pos-graduacoes-IJEP-1-1-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/Pos-graduacoes-IJEP-1-1-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/Pos-graduacoes-IJEP-1-1-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/Pos-graduacoes-IJEP-1-1-450x253.png 450w" sizes="(max-width: 960px) 100vw, 960px" /></figure>



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<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Praga de mãe pega? Uma reflexão sobre o dito popular pelo olhar da Psicologia Analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/praga-de-mae-pega-uma-reflexao-sobre-o-dito-popular-pelo-olhar-da-psicologia-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Carolina B. Tostes]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Feb 2026 00:40:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Mãe]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo busca refletir o dito popular “praga de mãe pega” a partir da Psicologia Analítica. Parte-se da hipótese de que os ditados populares podem ser compreendidos como representações arquetípicas, por condensarem experiências psíquicas recorrentes vividas coletivamente. Nesse sentido, o texto analisa especificamente o referido ditado à luz da teoria dos complexos, buscando compreender de que modo a palavra materna, adquire força organizadora na vida psíquica do indivíduo. A reflexão articula contribuições de Jung, o folclore brasileiro e narrativas míticas e contemporâneas, sustentando que o ditado traduz uma dinâmica psíquica profunda relacionada ao vínculo primário e às repetições que dele derivam.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: O presente artigo busca refletir o dito popular “praga de mãe pega” a partir da Psicologia Analítica. Parte-se da hipótese de que os ditados populares podem ser compreendidos como representações arquetípicas, por condensarem experiências psíquicas recorrentes vividas coletivamente. Nesse sentido, o texto analisa especificamente o referido ditado à luz da teoria dos complexos, buscando compreender de que modo a palavra materna, adquire força organizadora na vida psíquica do indivíduo. A reflexão articula contribuições de Jung, o folclore brasileiro e narrativas míticas e contemporâneas, sustentando que o ditado traduz uma dinâmica psíquica profunda relacionada ao vínculo primário e às repetições que dele derivam.</p>



<h2 id="h-os-ditados-populares-ou-proverbios-ocupam-um-lugar-singular-na-cultura-brasileira" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Os ditados populares, ou provérbios, ocupam um lugar singular na cultura brasileira.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora sejam expressões breves e transmitidas sem autoria, propagam observações históricas, experiências comunitárias e formas de interpretar a vida cotidiana. São reconhecidos como verdades validadas pela coletividade e, desse modo, se tornam referência para ações e comportamentos. Segundo o Dicionário Michaelis (2025), provérbio é uma frase curta de caráter prático e popular, geralmente com ritmo e/ou rima, rica em imagens e sentidos figurados, que contém uma síntese a respeito de uma regra social ou moral.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Câmara Cascudo, um importante folclorista brasileiro, considerado um dos maiores intelectuais do Brasil, um ditado popular/provérbio tem como característica, ser breve, geral, de uso coletivo e de autoria anônima. Ele traz reflexões sobre entendimentos compartilhados e verdades percebidas pela comunidade. Assim como os mitos, contos de fadas, rituais religiosos etc., a linguagem é um veículo que expressa algumas regularidades da experiência humana.</p>



<h2 id="h-sobre-isso-ao-explicar-o-inconsciente-coletivo-jung-afirma" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Sobre isso, ao explicar o inconsciente coletivo, Jung afirma:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:13px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>O inconsciente coletivo é a formidável herança espiritual do desenvolvimento da humanidade que nasce de novo na estrutura cerebral de todo ser humano. O inconsciente, [&#8230;] é a fonte de todas as forças instintivas da psique e encerra as formas ou categorias que as regulam, quais sejam precisamente os arquétipos. Todas as ideias e representações mais poderosas da humanidade remontam aos arquétipos (Jung, vol. 8/2, §342).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">À luz dessa concepção, os provérbios podem ser compreendidos também como expressões de conteúdos que ultrapassam a experiência individual, ou seja, manifestações arquetípicas. Câmara Cascudo observou que muitos desses enunciados surgem de práticas muito antigas nas quais a voz do povo era entendida como um veículo de autoridade superior. Ao discutir a expressão&nbsp;<em>vox populi, vox Dei</em>, ele destaca que sua origem vem das consultas religiosas antigas, em que a multidão funcionava como oráculo. Nesses rituais, a resposta divina era escutada através das vozes dispersas dos transeuntes, que se tornavam instrumentos involuntários da mensagem procurada. A coletividade, portanto, aparecia como canal para o sagrado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Certamente esse processo de consultar a vontade divina através das vozes dispersas da multidão podia ter determinado a frase&nbsp;<em>Vox populi, vox Dei</em>, […] e não a indeterminada convergência intemporal da opinião pública. A voz do povo é a voz de Deus, o Deus dos cristãos, como o fora de Hermes ou Mercúrio, agora na intenção das fórmulas rogativas de Santa Rita dos Impossíveis, ou do profeta Zacarias, ou do apóstolo São Pedro. O oráculo de Acaia é a mais antiga forma dessa técnica. Consulta-se a Deus e o Povo responde, transmitindo a mensagem. Voz do povo, voz de Deus, evidentemente nessa acepção (Cascudo, 2012, p. 18).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa concepção histórica confere profundidade à ideia de que certas palavras do povo carregam um estatuto de verdade que expressam modos fundamentais de compreender a existência. No entanto, para a compreensão do fenômeno, é importante distinguir as diferenças entre o arquétipo em si e as formas pelas quais ele se torna visível na experiência humana.</p>



<h2 id="h-essa-distincao-e-explicitada-por-jung-ao-afirmar" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Essa distinção é explicitada por Jung ao afirmar:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não devemos confundir as representações arquetípicas que nos são transmitidas pelo inconsciente com o arquétipo em si. Essas representações são estruturas amplamente variadas que nos remetem para uma forma básica irrepresentável que se caracteriza por certos elementos formais e determinados significados fundamentais, os quais, entretanto, só podem ser apreendidos de maneira aproximativa. [&#8230;] É preciso dar-nos sempre conta de que aquilo que entendemos por arquétipos é, em si, irrepresentável, mas produz efeitos que tornam possíveis certas visualizações, isto é, as representações arquetípicas. (Jung, vol. 8/2, §417)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os ditos populares são concisos, possuem reconhecimento comunitário e são de origem desconhecida. Essas características nos conduzem à reflexão acerca de sua condição enquanto representações arquetípicas. Eles se mantêm porque capturam situações recorrentes da vida humana, funcionando como pontos de apoio para a interpretação dos acontecimentos do cotidiano.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Um ditado que sempre chamou a minha atenção desde a infância, talvez por tê-lo ouvido muitas vezes, ou por ter escutado histórias relacionadas a ele, é “Praga de mãe pega”. Não surpreendentemente, é comum, na prática clínica, ouvir de alguns pacientes relatos que sugerem que a experiência com a mãe influencia de modo significativo em suas escolhas e percursos de vida, até mesmo incidindo de maneira decisiva sobre os caminhos que essas pessoas constroem.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora, à primeira vista o ditado pareça apenas uma superstição, ele revela uma percepção sobre o impacto que a palavra da mãe exerce na formação psíquica, por exemplo, no desenvolvimento moral dos indivíduos. A figura materna com suas dimensões criadoras e destrutivas deixou na história inúmeras narrativas míticas e folclóricas, que tratam a voz da mãe como algo capaz de abençoar ou amaldiçoar, proteger ou ferir, orientar ou condenar. Essa recorrência sugere que estamos diante de um padrão que expressa uma dinâmica psíquica complexa, ligada ao vínculo entre mãe e filho. A Psicologia Analítica oferece um arcabouço teórico para compreender imagens e padrões que se repetem em diferentes contextos culturais. Sendo assim, o ditado “praga de mãe pega” pode ser refletido como expressão de um fenômeno compartilhado, que aparece tanto em narrativas primitivas, quanto em fenômenos contemporâneos.</p>



<h2 id="h-para-analisarmos-a-validade-geral-do-ditado-popular-e-necessario-pensarmos-na-teoria-dos-complexos-jung-define-da-seguinte-forma" class="wp-block-heading">Para analisarmos a validade geral do ditado popular, é necessário pensarmos na teoria dos complexos. Jung define da seguinte forma:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que é, portanto, cientificamente falando, um “complexo afetivo”? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, comporta-se, na esfera do consciente, como um&nbsp;<em>corpus alienum</em>&nbsp;(corpo estranho), animado de vida própria. (Jung, vol. 8/2, §201)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sabemos que a relação com a mãe é determinante na constituição das primeiras organizações afetivas da vida humana. Nesse contexto a palavra materna adquire um peso emocional de ser muitas vezes, vivida como lei, verdade, sentença. Mesmo fora do contexto individual, essa imagem aparece em mitos antigos, contos folclóricos e narrativas contemporâneas que retratam a mãe como uma figura cuja fala pode moldar o destino.&nbsp;</p>



<h3 id="h-a-psicologia-analitica-ensina-que-todo-complexo-tem-em-seu-nucleo-um-arquetipo" class="wp-block-heading">A Psicologia Analítica ensina que todo complexo tem em seu núcleo, um arquétipo. </h3>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como afirma Jung: “O arquétipo materno é a base do chamado complexo materno” (Jung, 2014, p. 90). Este, apresenta uma multiplicidade de formas e expressões que atravessam diferentes níveis da experiência humana, desde a figura concreta da mãe e da avó até imagens culturais mais amplas, que remetem tanto ao cuidado, à proteção, à nutrição e ao crescimento, mas também aspectos sombrios, associados ao devorador, ao sedutor, ao obscuro e ao ameaçador.<strong>&nbsp;</strong>(Cf. Jung, 2014, p. 87–90)</p>



<h2 id="h-trata-se-portanto-de-uma-configuracao-marcada-pela-ambivalencia-na-qual-convivem-a-mae-amorosa-e-a-mae-terrivel" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Trata-se, portanto, de uma configuração marcada pela ambivalência, na qual convivem a mãe amorosa e a mãe terrível.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, muitas das fantasias, medos e conflitos ligados à figura materna, ultrapassam o que poderia ser atribuído exclusivamente à mãe empírica, remetendo a imagens muito mais amplas e profundas, que pertencem ao inconsciente coletivo. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Isto significa que não é apenas da mãe pessoal que provêm todas as influências sobre a psique infantil descritas na literatura, mas é muito mais o arquétipo projetado na mãe que outorga à mesma um caráter mitológico e com isso lhe confere autoridade e até mesmo numinosidade. (Jung, vol. 9/1, §159)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ainda assim, não se pode perder de vista que a mãe empírica também modela a vida emocional da criança desde o início e marca o curso do seu desenvolvimento. Jung afirma que “a influência pessoal da mãe é um dos fatores mais decisivos na formação do destino psíquico da criança” (Jung, 2014, p. 90). Assim, a palavra da mãe tem influência direta na formação de um dos complexos primordiais da experiência afetiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A partir de uma leitura psicológica do fenômeno, podemos dizer que a palavra da mãe adquire uma força singular porque atinge um núcleo afetivo fundamental na estruturação da psique. A própria cultura reconhece essa potência, traduzindo-a em narrativas onde a figura materna além de educar e orientar, também pode determinar o curso dos acontecimentos. Essas histórias não descrevem fatos literais, mas, expressam como dramas coletivos, as tensões internas que podemos identificar na psique individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao examinarmos figuras míticas como <strong>Medeia</strong> ou <strong>Hera</strong>, percebemos que a ideia de uma &#8220;praga de mãe&#8221; é a expressão de uma experiência humana constante, e a desorganização do vínculo com a mãe parece, muitas vezes, desorganizar também a própria estrutura do destino. Muitas narrativas<strong>&nbsp;</strong>de fundo arquetípico constroem a figura da mãe cuja palavra funciona como uma sentença. É exatamente neste ponto que os mitos se transformam em aliados essenciais para a compreensão de um ditado popular. Eles ampliam, dramatizam e tornam visível aquilo que percebemos no cotidiano, na bronca, na exasperação ou na raiva de uma mãe humana.</p>



<h2 id="h-alguns-textos-de-folclore-e-mitologia-regional-tambem-mencionam-explicitamente-a-velha-crenca-praga-de-mae-pega-ligando-isso-ao-fato-de-a-mae-ser-a-maior-e-primeira-autoridade-de-nossas-vidas" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Alguns textos de folclore e mitologia regional também mencionam explicitamente a velha crença “praga de mãe pega”. Ligando isso ao fato de a mãe ser a maior e primeira autoridade de nossas vidas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para ilustrar, lembro da lenda de Romãozinho, originada no centro Oeste do Brasil. Segundo Câmara Cascudo, Romãozinho era um menino travesso e cruel. A mãe um dia pediu-lhe que levasse o almoço do pai na roça onde trabalhava.&nbsp;&nbsp;No caminho, o menino comeu toda a galinha e entregou apenas os ossos para o pai. Ao ser questionado, o menino mentiu que a mãe havia comido tudo com outro homem. Ao voltar para casa, o pai, tomado de raiva e acreditando na mentira, mata a mãe. No seu último sopro, ela lança uma maldição: que Romãozinho “nunca encontre descanso” e “ande para sempre como espírito danado”. A praga pega: a lenda o descreve como um menino eterno, que corre pelas matas, nunca cresce e atormenta quem cruza seu caminho. (Cascudo, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A figura de Romãozinho, condenado a permanecer numa errância sem fim, preso a uma infância que não se transforma, remete inevitavelmente ao motivo da criança eterna, o <em>puer aeternus</em>, imagem recorrente na psicologia e nos mitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A condição de um ser que não amadurece, que se mantém suspenso num tempo que não avança, guarda afinidade com aquilo que, em Jung, aparece como uma fantasia de autonomia do consciente que, na realidade, permanece atado às forças profundas do inconsciente materno. (Cf. Jung, 2013b, §393).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora essa associação seja extremamente fecunda do ponto de vista interpretativo, ela não será desenvolvida no presente trabalho. Aqui, o interesse é sobre o poder atribuído à palavra materna enquanto força que marca, determina e orienta os rumos da vida psíquica, tal como se manifesta, de modo contundente, na ideia de que a “praga de mãe pega”.</p>



<h2 id="h-como-jung-observou-a-figura-materna-adquire-proporcoes-simbolicas-tornando-se-maior-do-que-a-experiencia-real-jung-2014-p-93" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Como Jung observou, a figura materna “adquire proporções simbólicas, tornando-se maior do que a experiência real” (Jung, 2014, p.93).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No caso de Romãozinho, a mãe empírica é uma mulher pobre, trabalhadora, vítima de uma injustiça doméstica. Mas sua palavra final ultrapassa a esfera humana porque como já dito, reconhece-se no vínculo materno uma força que se estende. A maldição se apresenta no caráter compulsório do complexo, como Jung descreve quando afirma que a mágica autoridade do feminino é um dos traços essenciais do arquétipo materno (Cf. Jung, 2014, §158).&nbsp;</p>



<h2 id="h-entre-as-narrativas-contemporaneas-que-trabalham-a-maternidade-como-forca-psiquica-determinante-podemos-mencionar-a-historia-de-carrie-white-personagem-criada-por-stephen-king-1974-e-adaptada-tres-vezes-para-o-cinema" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Entre as narrativas contemporâneas que trabalham a maternidade como força psíquica determinante, podemos mencionar a história de <strong>Carrie White</strong>, personagem criada por Stephen King (1974) e adaptada três vezes para o cinema.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Carrie é uma adolescente tímida e isolada que cresce sob a opressão de uma mãe fanática, cuja religiosidade extrema transforma a casa em um ambiente de medo e culpa. Ridicularizada pelas colegas e silenciada dentro de casa, Carrie descobre na adolescência, poderes tele cinéticos que surgem justamente quando sua dignidade é ferida. A relação com a mãe, marcada por controle, ameaças e previsões de desgraça, molda profundamente sua percepção de si mesma e de seu destino. Quando uma humilhação pública ultrapassa o limite do suportável, um conteúdo irrompe de forma devastadora, transformando Carrie numa das figuras mais emblemáticas da literatura de horror psicológico, símbolo do impacto de vínculos familiares adoecidos e da violência emocional que se acumula.&nbsp;</p>



<h2 id="h-essa-sucessao-de-acontecimentos-cria-uma-configuracao-emocional-facilmente-reconhecivel-dentro-da-psicodinamica-do-complexo-materno" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Essa sucessão de acontecimentos cria uma configuração emocional facilmente reconhecível dentro da psicodinâmica do complexo materno.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mãe ocupa, desde o início, uma posição de magnitude afetiva que ultrapassa sua individualidade concreta. A história de Carrie mostra como a personagem vive o peso das palavras maternas de maneira desproporcional, ilustrando como forças internas atuam no desenvolvimento psíquico feminino (Cf. Jung, 2014, p. 88–89).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Pela posição originária que ocupa, a mãe pode exercer sua influência no sentido mais amplo e profundo sobre o destino psíquico do indivíduo, tanto de forma benéfica quanto destrutiva.</strong></p>



<h2 id="h-as-manifestacoes-do-complexo-materno-nesse-sentido-nao-sao-uniformes-assumindo-configuracoes-distintas-na-experiencia-psiquica-de-homens-e-mulheres-cf-jung-2014-p-90-91" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">As manifestações do complexo materno, nesse sentido, não são uniformes, assumindo configurações distintas na experiência psíquica de homens e mulheres (Cf. Jung, 2014, p. 90–91).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-a-pergunta-que-move-este-artigo-praga-de-mae-pega-quando-compreendida-a-luz-da-teoria-dos-complexos-traz-como-resposta-a-hipotese-que-o-ditado-nao-se-refere-a-acontecimentos-objetivos-no-sentido-literal-mas-ao-modo-como-a-psique-reage-a-constelacao-de-um-complexo-afetivo" style="font-size:18px">A pergunta que move este artigo “<strong>Praga de mãe pega</strong>?” quando compreendida à luz da teoria dos complexos, traz como resposta a hipótese que o ditado não se refere a acontecimentos objetivos no sentido literal, mas ao modo como a psique reage à constelação de um complexo afetivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma vez ativado, o complexo passa a organizar as experiências do sujeito a partir de sua carga emocional específica, interferindo nas percepções, nas escolhas, nos vínculos e nas formas de agir no mundo. A força de atuação do complexo reside justamente em seu caráter autônomo e em sua capacidade de assimilar a consciência, levando o indivíduo a interpretar a realidade e a se conduzir segundo a lógica emocional que o complexo impõe (Cf. JUNG, 2013a, p. 43–45).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse sentido, podemos compreender algumas razões que acabam levando o indivíduo a literalizar o que é dito pela mãe, pois o afeto passa a orientar repetidamente as experiências, produzindo concretizações coerentes com essa organização interna. O ditado se mantém vivo porque corresponde a uma experiência humana recorrente.</p>



<h2 id="h-jung-descreve-esse-tipo-de-permanencia-ao-afirmar-que-o-complexo-se-forma-como-nucleo-carregado-de-sentido-apto-a-reorganizar-a-vida-sempre-que-ativado-cf-jung-2013a-p-45-48" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Jung descreve esse tipo de permanência ao afirmar que o complexo se forma como núcleo carregado de sentido, apto a reorganizar a vida sempre que ativado. (Cf. Jung, 2013a, p.45-48).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A partir das reflexões acima, vemos que o que a mãe diz, não deve ser encarado como uma condenação literal que determina diretamente os acontecimentos da vida. A palavra materna atua porque faz parte daquilo que organiza as primeiras referências de segurança, ameaça, valor e pertencimento, exercendo uma função estruturadora, orientando repetições, expectativas, escolhas e modos de relação.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>À luz da teoria dos complexos de Jung, não é a “praga” em si que concretiza, mas a dinâmica psíquica que, uma vez estruturada, tende a se atualizar na experiência concreta</strong>. Assim, o ditado “praga de mãe pega” traduz em linguagem popular, uma verdade psíquica recorrente: aquilo que se forma no vínculo originário, quando não elaborado, tende a retornar sob a forma de destino.</p>



<h2 id="h-um-frio-percorreu-o-coracao-de-todo-o-mundo-praga-de-mae-pega-porque-deus-ouve-o-diabo-concorda-e-os-anjos-dizem-amem-ajuricaba-o-rebelde-da-amazonia-1977" class="wp-block-heading is-style-large" style="font-size:18px"><em>“Um frio percorreu o coração de todo o mundo: praga de mãe pega, porque Deus ouve, o diabo concorda e os anjos dizem amém” (Ajuricaba, o Rebelde da Amazônia, 1977).</em></h2>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Praga de mãe pega? Uma reflexão sobre o dito popular pelo olhar da Psicologia Analítica" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/AV7PutA6fkM?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ana-carolina-brigido-tostes/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/ana-carolina-brigido-tostes/">Ana Carolina Brígido Tostes – Analista em formação</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini – Analista Didata</a></strong></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Imagem: Acervo pessoal</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>AJURICABA, o rebelde da Amazônia.</strong>&nbsp;Direção: Oswaldo Caldeira. Roteiro: Oswaldo Caldeira; Almir Muniz. Brasil, 1977. Filme (longa-metragem, drama).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>CASCUDO, L. da C.</strong>&nbsp;<em>Coisas que o povo diz</em>. 1. ed. digital. São Paulo: Global, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">—.&nbsp;<em>Lendas brasileiras para jovens</em>. São Paulo: Globo, 2014. Edição digital.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DICIONÁRIO MICHAELIS.</strong>&nbsp;<em>Michaelis dicionário brasileiro da língua portuguesa</em>. São Paulo: Melhoramentos, 2025. Disponível em:&nbsp;<a href="https://michaelis.uol.com.br/">https://michaelis.uol.com.br</a>. Consulta realizada em: 01 dez. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>JUNG, C. G.</strong>&nbsp;<em>A natureza da psique</em>. Tradução de Dora Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2013a. (Obras Completas, v. 8/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">—.&nbsp;<em>Símbolos da transformação</em>. Tradução de Dora Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2013b. (Obras Completas, v. 5).</p>



<p class="wp-block-paragraph">—.&nbsp;<em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. Tradução de Dora Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2014. (Obras Completas, v. 9/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>KING, S.</strong>&nbsp;<em>Carrie</em>. Tradução de Adriana Lisboa. Rio de Janeiro: Suma, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Ninho vazio: quando essa fase pode se tornar uma síndrome para a mulher</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/ninho-vazio-quando-essa-fase-pode-se-tornar-uma-sindrome-para-a-mulher/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Fabiana T. Cruz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Feb 2026 11:04:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[mães]]></category>
		<category><![CDATA[mães solo]]></category>
		<category><![CDATA[maternidade solo]]></category>
		<category><![CDATA[ninho vazio]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[síndrome do ninho vazio]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entender a mulher contemporânea ajuda a compreender suas relações com a sociedade, parceiro/a (quando possui), filhos e consigo mesma. As estatísticas mostram que o papel de mãe está mudando, mas a sociedade ainda a coloca num lugar de abnegação em prol dos filhos. Refletir e tomar consciência sobre como essa identificação com o papel de mãe poderá gerar solidão, tristeza, dentre outros sintomas no ninho vazio é uma possibilidade de prevenção ao aparecimento da síndrome.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Entender a mulher contemporânea ajuda a compreender suas relações com a sociedade, parceiro/a (quando possui), filhos e consigo mesma. As estatísticas mostram que o papel de mãe está mudando, mas a sociedade ainda a coloca num lugar de abnegação em prol dos filhos. Refletir e tomar consciência sobre como essa identificação com o papel de mãe poderá gerar solidão, tristeza, dentre outros sintomas no ninho vazio é uma possibilidade de prevenção ao aparecimento da síndrome.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-refletir-sobre-a-mulher-contemporanea-e-se-reconhecer-como-uma-e-fazer-um-movimento-simultaneo-para-fora-e-para-dentro-de-si-mesma" style="font-size:18px">Refletir sobre a mulher contemporânea e se reconhecer como uma é fazer um movimento simultâneo para fora e para dentro de si mesma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos dizer que a mulher contemporânea pertence ao contexto histórico atual, que inclui as complexidades sociais, econômicas e culturais do momento presente. Dados do IBGE de 2022, divulgados em junho de 2025, mostram uma mudança estrutural: as mulheres brasileiras estão tendo menos filhos e mais tarde. A taxa de fecundidade é de 1,55 filho por mulher e a idade média para ter filhos é de 28,1 anos. Acompanhando essa realidade, outro dado se apresenta: em 2024, mais de 91 mil crianças foram registradas no Brasil sem o nome do pai, de acordo com dados do Portal da Transparência da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen); desde o início do levantamento, em 2016, o número total de crianças registradas sem a paternidade reconhecida na certidão de nascimento já soma 1.283.751 em todo o país.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-dados-apresentados-nbsp-nos-levam-nbsp-as-seguintes-reflexoes-sera-que-as-mulheres-estao-tendo-menos-filhos-devido-nbsp-a-nbsp-falta-de-apoio-e-abandono-dos-pais-de-seus-filhos-ou-pela-possibilidade-de-se-sentirem-sozinhas-nessa-jornada-que-e-ter-um-filho" style="font-size:18px">Os dados apresentados&nbsp;<strong>nos levam</strong>&nbsp;às seguintes reflexões: será que as mulheres estão tendo menos filhos devido&nbsp;<strong>à</strong>&nbsp;falta de apoio e abandono dos pais de seus filhos? Ou, pela possibilidade de se sentirem sozinhas nessa jornada que é ter um filho?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Faz parte da realidade da mulher as exigências de um mundo capitalista/<strong>neoliberal</strong>, estruturado no patriarcado, em que elas precisam lutar por igualdade de direitos: no trabalho, para terem os mesmos salários dos homens que ocupam os mesmos cargos; na saúde, onde seu corpo é muitas vezes desconsiderado e não validado por apresentar uma forma diferente de cuidados em cada fase da vida; no existir, os índices alarmantes de feminicídio e estupro deixam as mulheres em estado de alerta constante.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">São tantos os desafios que a mulher contemporânea precisa enfrentar que, atualmente, não há espaço externo e nem interno para ela estar no mundo como mãe, mas existem mulheres que vivem nos dias de hoje e também estão como mães.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-podemos-dizer-que-para-a-psicologia-analitica-a-adaptacao-e-a-forma-que-nos-relacionamos-socialmente-devem-se-a-criacao-de-uma-persona-jung-escreve" style="font-size:18px">Podemos dizer que, para a Psicologia Analítica, a adaptação e a forma que nos relacionamos socialmente devem–se à criação de uma persona. Jung escreve:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><strong><em>“A persona é um complicado sistema de relação entre a consciência individual e a sociedade; é uma espécie de máscara destinada, por um lado, a produzir um determinado efeito sobre os outros e por outro lado a ocultar a verdadeira natureza do indivíduo” (JUNG, 2015, §305).</em></strong></p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-outra-citacao-ele-afirma-e-um-composto-do-comportamento-do-individuo-e-do-papel-a-ele-atribuido-pelo-publico-jung-2012-1-334" style="font-size:18px"><strong>Em outra citação, ele afirma, “é um composto do comportamento do indivíduo e do papel a ele atribuído pelo público” (JUNG, 2012, §1.334).</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Atrás da persona de mãe existe uma mulher que também pode estar com outras máscaras: a de profissional, de amiga, de filha, de noiva, de religiosa, de irmã, de namorada, de ex-esposa, de madrasta dentre inúmeras outras. Não há problema algum exercer tantos papéis, desde que haja uma consciência de qual papel exercer em determinadas situações; ou seja, não estar sempre com a mesma máscara para diferentes relações.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-nos-aproximarmos-das-mulheres-que-se-tornaram-maes-pudemos-observar-que-isso-ocorreu-de-diferentes-formas-e-para-elucidar-apresentaremos-a-seguir" style="font-size:18px">Ao nos aproximarmos das mulheres que se tornaram mães, pudemos observar que isso ocorreu de diferentes formas e, para elucidar, apresentaremos a seguir:</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:18px">mães biológicas: são mulheres que passam pela experiência da maternidade, mas não cuidam e nem criam o seu filho;</li>



<li style="font-size:18px">mães biológicas e que exercem a maternagem: são a maioria das mães que conhecemos. Entendemos maternagem como construção de vínculo afetivo por meio do acolhimento e da oferta de segurança, atendendo às necessidades físicas e psíquicas da criança para promover um desenvolvimento saudável;</li>



<li style="font-size:18px">mães que exercem a maternagem: são as mães adotivas;</li>



<li style="font-size:18px">mães solo ou sozinhas: quando a mãe assume exclusivamente todas as responsabilidades na criação do filho, sejam elas tanto financeiras quanto afetivas, e que podem ter passado pela maternidade ou não.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma pesquisa realizada pelo Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas) mostrou que, até o final de 2022, havia mais de 11 milhões de mães solo no Brasil. Dados complementares do relatório indicam que 15% dos lares brasileiros são chefiados por mães solo. Além disso, 72,4% dessas mulheres vivem apenas com os filhos, sem contar com uma rede de apoio próxima. O estudo apontou a existência de 11,3 milhões de mães que criam seus filhos de forma independente, além de um aumento de 1,7 milhão nesse número entre 2012 e 2022 (TERRA, 2024).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Vale ressaltar que, nas pesquisas citadas acima, não apontamos qual era a situação econômica dessas mulheres no ano que foram realizadas, assim como desconhecemos informações sobre idade, cor, estado e cidade de residência, condições de moradia, de emprego e a idade dos filhos. Todos esses fatores são importantes, pois trazem recortes específicos que influenciam diretamente, de forma negativa e/ou positiva, a vida das mulheres.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mae-solo-contribui-para-a-desconstrucao-do-que-se-entende-por-familia-tradicional-aquela-formada-por-um-homem-uma-mulher-e-seus-filhos" style="font-size:18px">A mãe solo contribui para a desconstrução do que se entende por família tradicional, aquela formada por um homem, uma mulher e seus filhos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ela evidencia que não são poucas as mulheres que exercem a maternidade e a maternagem em um modelo muito mais amplo e complexo. Um movimento político de existir e se fazer presente na sociedade tem ganhado força. Podemos dizer que esta mulher está sobrecarregada e cansada fisicamente, em alguns casos até mais do que aquela mulher que exerce outras formas de estar como mãe, mas será que as outras mães também não se sentem sozinhas?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ser mãe no Brasil é estar sozinha para lidar com inúmeras atividades e demandas que uma casa, um lar ou, simbolicamente falando, um ninho exigem. Por mais que esta mulher seja casada com o pai ou não dos filhos dela, culturalmente as obrigações da casa e com os filhos são entendidas, normalmente, como pertencentes exclusivamente às mulheres. Somando isso à possibilidade de estar em um casamento insatisfatório, onde não há apoio, várias mulheres se isolam por não suportarem frustrações nos seus relacionamentos e, assim, acabam projetando nos filhos suas expectativas de sucesso, melhoria e salvação de suas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Apesar das mulheres reconhecerem que assumem inúmeras funções, elas ainda se cobram demais para darem conta de tudo. Talvez os homens precisem se aproximar mais para dividirem essas funções, que também lhes pertencem, ao mesmo tempo em que as mulheres possam dar espaço para que isso aconteça, possibilitando uma harmonia na relação e na organização das tarefas do dia a dia, e a sobrecarga deixará de existir.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Enquanto essa tomada de consciência vai acontecendo aos poucos, voltemos o nosso olhar novamente para a mulher que é absorvida pelo padrão de comportamento social imposto. Podemos perceber o quanto ela quase não tem tempo para mais nada além de ser, exclusivamente, mãe.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-descreve" style="font-size:18px">Jung descreve:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><strong><em>“A construção de uma persona coletivamente adequada significa uma considerável concessão ao mundo exterior, um verdadeiro autossacrifício, que força o eu a identificar-se com a persona. Isto leva certas pessoas a acreditarem que são o que imaginam ser. A “ausência de alma” que essa mentalidade parece acarretar é só aparente, pois o inconsciente não tolera de forma alguma tal desvio do centro de gravidade.” </em></strong></p><cite><strong><em>(JUNG, 2015, §306)</em></strong></cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mulher pode se identificar excessivamente com o papel de mãe, tentando encontrar felicidade apenas na felicidade do filho e anulando suas próprias necessidades. Como a sociedade valoriza a abnegação materna, fica difícil perceber o caráter patológico dessa relação. Se a mãe não desenvolver consciência de que seu papel é deixar o filho adquirir a autonomia, e não mantê-lo preso a ela, sofrerá demais quando a fase do ninho vazio chegar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Antes de falarmos sobre o conceito de ninho vazio, traremos o trecho de um texto escrito pelo teólogo e escritor, <strong>Rubem Alves</strong>. Apesar de ser um homem, ele nos revela suas emoções ao descrever, de forma muito sensível, como passou por essa fase:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px;line-height:1.4"><blockquote><p><strong><em>“Sei que é inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho. Eu mesmo sempre os empurrei para fora. Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas. Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira… Mas, o que eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo…&nbsp;“ (Quando os filhos voam… &#8211; Rubem Alves).</em></strong></p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ninho-vazio-e-o-termo-que-se-utiliza-para-nomear-o-momento-no-qual-o-ultimo-filho-deixa-a-casa-familiar-para-buscar-a-sua-independencia-e-faz-parte-da-etapa-evolutiva-familiar" style="font-size:18px">Ninho vazio é o termo que se utiliza, para nomear o momento no qual o último filho deixa a casa familiar para buscar a sua independência e faz parte da etapa evolutiva familiar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos dizer que, para os filhos que deixarão a casa da família, essa é uma fase repleta de novidades, aventuras, desafios, medos, sonhos, entre outras emoções e expectativas. Na maioria das vezes, eles buscam realização pessoal, independência e autonomia em suas decisões e escolhas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-enquanto-os-filhos-saem-para-viver-novas-experiencias-sera-que-as-maes-conseguem-enfrentar-essa-nova-fase-com-o-mesmo-entusiasmo" style="font-size:18px">Enquanto os filhos saem para viver novas experiências, será que as mães conseguem enfrentar essa nova fase com o mesmo entusiasmo?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O ninho vazio não indica o fim da maternagem, mas uma transição para nova etapa. Muitas mulheres vão se dando conta do esvaziamento do ninho e procuram alternativas para preencher essa lacuna, e, quando isso não acontece, a vida vem acompanhada de isolamento e solidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A nova etapa para a mulher chega junto com a menopausa, que, resumidamente, pode ser descrita como o fim da menstruação e da fertilidade feminina. Marca um período de mudanças físicas e emocionais que podem ser leves, intensas ou bastante desconfortáveis, interferindo significativamente na vida da mulher.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como se não bastassem as emoções despertadas pela saída do filho de casa e as alterações hormonais pelas quais seu corpo passa, a mulher precisa lidar também com seu mundo interno, com os complexos. Sendo eles, segundo Jung, <strong>“imagens de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as atitudes ou atitude habitual da consciência” (JUNG, 2012, §201).</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando o manejo de todos esses sintomas físicos e relacionais não é trabalhado, por exemplo, no processo terapêutico, ressignificando o papel de mãe e ampliando sua consciência, a mãe pode sentir como algo doloroso em sua vida, considerando seus cuidados dispensáveis e reagindo de forma resistente e angustiante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-permanencia-desses-sentimentos-pode-levar-aquilo-que-conhecemos-como-sindrome-do-ninho-vazio" style="font-size:18px">A permanência desses sentimentos pode levar àquilo que conhecemos como síndrome do ninho vazio.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ela é caracterizada pelo intenso estresse provocado pelo excessivo sentimento de perda que invade a mãe quando seus filhos saem de casa. Isso pode vir acompanhado de tristeza, preocupação, ansiedade, aflição, isolamento, solidão e/ou remorso exagerados e, pela duração e intensidade desses sintomas, provocar um quadro de depressão profunda, uma crise de identidade e crise conjugal, afetando o bem-estar físico, psicológico e social, diminuindo, assim, a qualidade de vida. A partir da psicologia junguiana podemos dizer que isso é a <strong>intervenção de uma ideia de forte tonalidade afetiva, ou seja, como sintomas da constelação do complexo (cf. JUNG, 2013, §204).</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-lidar-com-a-sindrome-do-ninho-vazio" style="font-size:18px"><strong>Como lidar com a síndrome do ninho vazio?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao ampliarmos simbolicamente a persona de mãe por meio do <strong>mito de Deméter</strong>, vemos que, quando ela se dá conta de que sua filha desapareceu, fica desorientada e sai à sua procura. Entra em um grande desespero, sem comer, beber ou se banhar. Enquanto Deméter está à procura de sua filha, a terra fica sem vegetação e sem fertilidade, situação que pode se relacionar aos sentimentos de depressão e tristeza.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Outros estados emocionais estão presentes no mito, como: ansiedade, preocupação, medo, raiva, reflexão, desejo, revolta, recolhimento, saudade, determinação, vingança. Por fim, quando Deméter consegue encontrar sua filha periodicamente, percebendo que não a perdeu para sempre, surgem a alegria, o alívio e a aceitação. Quando uma mãe vivencia a saída do filho de casa, esses sentimentos podem vir à tona. Ao aproximarmos esses estados emocionais de Deméter dos da mãe, há a possibilidade de ser esse o caminho para a criação de consciência e a transformação de que ela esteja precisando.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outra-maneira-de-lidar-com-essa-etapa-seria-a-mulher-se-preparar-para-enfrentar-a-fase-do-ninho-vazio" style="font-size:18px">Outra maneira de lidar com essa etapa seria a mulher se preparar para enfrentar a fase do ninho vazio.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Olhar antecipadamente para a relação existente entre mãe e filho poderá auxiliar no desapego em relação ao momento que o filho deixará o ninho. Possibilitará a compreensão dos possíveis desafios e emoções que ela poderá ter se escolher ressignificar seu papel de mãe de forma consciente, assim como outras formas de estar no mundo. O ideal seria que esse olhar fosse constante, caso contrário ela tende a se identificar novamente com a persona de mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ressaltamos que essas duas maneiras de lidar com a síndrome do ninho vazio são apenas hipóteses e sugestões. Não há receita de bolo ou alguma certeza de alcançar o que foi proposto, porque cada mulher é única e seu caminho é individual. <strong>O importante é olharmos para o fenômeno de maneira simbólica</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“(…) Muitas vezes confundimos amor com segurança. Por excesso de zelo ou proteção cortamos as asas de nossos filhos. Impedimos que eles busquem respostas próprias e vivam seus sonhos em vez dos nossos. Temos tanta certeza de que sabemos mais do que eles, que o porto seguro vira uma âncora que impede-os de navegar nas ondas de seu próprio destino. Muitas vezes confundimos amor com apego. Ansiamos por congelar o tempo que tudo transforma. Ficamos grudados no medo de perder, evitando assim o fluxo natural da vida. Respiramos menos, pois não cabem em nosso corpo os ventos da mudança. Aprendo que o amor nada tem a ver com apego, segurança ou dependência, embora tantas vezes eu me confunda. Não adianta querer que seja diferente: o amor é alado. Aprendo que a vida é feita de constantes mortes cotidianas, lambuzadas de sabor doce e amargo. Cada fim venta um começo. Cada ponto final abre espaço para uma nova frase. Aprendo que tudo passa menos o movimento. É nele que podemos pousar nosso descanso e nossa fé, porque ele é eterno. Aprendo que existe uma criança em mim que ao ver meus filhos crescidos, se assusta por não saber o que fazer. Mas é muito melhor ser livre do que imprescindível. Aprendo que é preciso ter coragem para voar e deixar voar. E não há estrada mais bela do que essa.” (Quando os filhos voam… &#8211; Rubem Alves)</em></p>
</blockquote>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;Ninho vazio: quando essa fase pode se tornar uma síndrome para a mulher&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/ryjxWD-bQWo?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/fabiana-t-cruz/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/fabiana-t-cruz/">Fabiana Theodoro Cruz – Membro Analista em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">Analista Didata – José Balestrini</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">ALVES, Rubem. <strong>Quando os filhos voam… </strong>Disponível em:https://viviancardoso.com.br/quando-os-filhos-voam-por-rubem-alves/ Acesso em: 02 dez. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>A vida simbólica</strong> <strong>v</strong><strong>ol. 18/2</strong><strong>. </strong>4.ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________&nbsp;<strong>A natureza da psique</strong><strong>vol. 8/2</strong><strong>. </strong><strong>9.ed. Petrópolis: Vozes, 2012</strong><strong>.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">__________&nbsp;<strong>Psicogênese das doenças mentais</strong> <strong>v</strong><strong>ol. 3</strong><strong>. </strong>6.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________&nbsp;<strong>O eu e o inconsciente v</strong><strong>ol. 7/2</strong><strong>. </strong>27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">TERRA. <strong>Brasil possui mais de 11 milhões de mães solo, aponta estudo</strong>. 2024. Disponível em: <a href="https://www.terra.com.br/nos/brasil-possui-mais-de-11-milhoes-de-maes-solo-aponta-estudo,67095da2f71938c73bca67a2b4a2862bnher8h3u.html?utm_source=clipboard">https://www.terra.com.br/nos/brasil-possui-mais-de-11-milhoes-de-maes-solo-aponta-estudo,67095da2f71938c73bca67a2b4a2862bnher8h3u.html?utm_source=clipboard</a> Acesso em: 02 dez. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Imagem: Produção da autora</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Iemanjá Não é Uma Só: as muitas faces da Grande Mãe que nos habita</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/iemanja-nao-e-uma-so-as-muitas-faces-da-grande-mae-que-nos-habita/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Natalhe Vieni]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Feb 2026 12:46:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O texto aborda Iemanjá como expressão plural do arquétipo da Grande Mãe, problematizando a idealização do materno como figura única, sempre acolhedora e previsível. Em diálogo com Jung, apresenta diferentes faces de Iemanjá - nutridora, firme, encantadora , profunda - como modos simbólicos que respondem a distintas necessidades psíquicas. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><em>Resumo</em></strong>: <em>O texto aborda Iemanjá como expressão plural do arquétipo da Grande Mãe, problematizando a idealização do materno como figura única, sempre acolhedora e previsível. Em diálogo com Jung, apresenta diferentes faces de Iemanjá &#8211; nutridora, firme, encantadora , profunda &#8211; como modos simbólicos que respondem a distintas necessidades psíquicas. </em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Talvez um dos maiores equívocos quando falamos de Iemanjá, e da Grande Mãe de modo geral, seja tratá-la como uma figura única, estável, previsível</strong>. Como se houvesse uma só forma de maternar, um só jeito de cuidar, um único modelo de acolhimento possível. Mas o mito nunca foi simples, e o arquétipo muito menos. Quando a experiência humana tenta reduzir o materno a uma imagem só, algo se perde, e costuma doer.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-iemanja-nao-e-uma-nunca-foi-e-talvez-seja-justamente-por-isso-que-ela-atravesse-tantas-historias-culturas-e-experiencias-com-tanta-forca" style="font-size:18px">Iemanjá não é uma. Nunca foi. E talvez seja justamente por isso que ela atravesse tantas histórias, culturas e experiências com tanta força.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O mar que a representa não se mantém igual de um dia para o outro. Há águas rasas e acolhedoras, há correntes traiçoeiras, há profundidades silenciosas que assustam quem se aproxima esperando apenas colo. O erro não está no mar. Está na expectativa de que ele se comporte como lago.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pensar-iemanja-como-uma-unica-mae-sempre-disponivel-sempre-nutridora-sempre-doce-empobrece-o-arquetipo-e-infantiliza-a-relacao-com-o-feminino-profundo" style="font-size:18px">Pensar Iemanjá como uma única mãe, sempre disponível, sempre nutridora, sempre doce, empobrece o arquétipo e infantiliza a relação com o feminino profundo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A Grande Mãe, em qualquer tradição simbólica, nunca foi apenas benéfica. Ela geral, sustenta e protege, mas também engole, confunde, exige separações dolorosas. A mesma força que dá vida pode dissolver o ego quando este se aproxima sem consciência. Talvez, por isso, seja mais honesto falar em <strong>tipos de Iemanjá</strong>, não como classificações rígidas, mas como <strong>imagens vivas do arquétipo materno em diferentes modos de funcionamento</strong>. Cada uma dessas imagens responde a uma necessidade psíquica específica, a um momento da vida, a uma ferida ainda aberta ou a uma maturidade em construção. E o problema costuma começar quando ficamos presos a apenas uma delas, como se ali estivesse toda a verdade do materno.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há a Iemanjá do acolhimento, aquela mais conhecida, associada ao colo, à nutrição, ao cuidado que organiza o caos interno. Ela se aproxima da Deméter que alimenta, da Ísis que recompõe o corpo despedaçado, da Maria que ampara sem exigir nada em troca. Essa imagem é fundamental para a constituição psíquica. Sem alguma experiência de sustentação, o sujeito cresce inseguro, faminto de afeto, buscando no mundo um chão que nunca encontrou dentro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-o-que-acontece-quando-essa-imagem-se-torna-absoluta" style="font-size:18px">Mas o que acontece quando essa imagem se torna absoluta?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Quando o cuidado vira promessa de proteção eterna?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Quando o vínculo se sustenta apenas pela dependência?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Em vez de segurança, surge a estagnação. Em vez de nutrição, excesso</strong>. O mar que só acolhe, sem correnteza, apodrece. E talvez seja por isso que tantas pessoas confundam amor com permanência forçada, presença com fusão, cuidado com controle, não porque a mãe falhou, mas porque uma única imagem do materno tentou ocupar tudo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há também a Iemanjá <strong>firme</strong>, menos romantizada, mas igualmente necessária. Aquela que impõe limite, que protege com contorno, que não negocia a própria integridade. Essa face dialoga com imagens da Grande Mãe guerreira, como Cibele, Durga ou mesmo certas manifestações de Sekhmet. Aqui, o materno não é apenas aconchego, é estrutura. É o “não” que sustenta a vida tanto quanto o “sim”. Sem essa dimensão, o sujeito cresce sem fronteiras internas, vulnerável à invasão, ao abuso, à confusão entre desejo próprio e desejo do outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-limite-demais-tambem-endurece" style="font-size:18px"><strong>Mas, limite demais também endurece</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando essa Iemanjá ocupa tudo, o cuidado perde calor, a proteção vira rigidez, e a segurança se transforma em medo de errar. O arquétipo não adoece por existir, adoece por se tornar unilateral. Talvez seja por isso que a experiência do materno seja sempre ambígua: ela exige equilíbrio entre sustentar e soltar, proteger e permitir risco.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Existe ainda a Iemanjá<strong> encantadora</strong>, ligada à beleza, ao afeto sedutor, ao prazer de ser cuidado e desejado. Essa imagem se aproxima das deusas marinhas ligadas à sedução, à Anima que chama, que embala, que promete retorno ao conforto primordial. Quando essa dimensão falta, a vida perde cor, o corpo se endurece, o vínculo vira obrigação. Mas quando ela domina sozinha, captura. O encanto vira dependência, e o amor passa a exigir entrega total, sem espaço para diferenciação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E há, talvez a menos falada, a Iemanjá <strong>profunda</strong>. Aquela que não se mostra na superfície. A que habita o fundo do mar, aonde a luz chega distorcida e o tempo não obedece à pressa humana. Essa imagem dialoga com as grandes mães primordiais, como Tiamat, Nammu, &nbsp;Gaia arcaica, Kali silenciosa. Aqui, o materno não consola, não explica, não responde. Ele sustenta o processo. Permite que algo se dissolva para que outra coisa nasça. Não é confortável, mas é transformador.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quantas-vezes-evitamos-essa-iemanja-porque-confundimos-profundidade-com-afogamento" style="font-size:18px">Quantas vezes evitamos essa Iemanjá porque confundimos profundidade com afogamento?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quantas vezes queremos apenas a mãe que resolve, que acolhe, que protege, sem nos darmos conta de que amadurecer exige atravessar zonas aonde o cuidado não vem em forma de resposta, mas de tempo?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-fundo-do-mar-nao-e-abandono-e-elaboracao-mas-nem-sempre-estamos-prontos-para-isso" style="font-size:18px"><strong>O fundo do mar não é abandono. É elaboração. Mas nem sempre estamos prontos para isso</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez a pergunta mais honesta não seja qual Iemanjá é a verdadeira, mas <strong>qual delas governa nossa vida hoje</strong>. A que acolhe demais? A que impõe limite demais? A que encanta para não ser deixada? A que se mantém distante para não se ferir? Ou aquela que permite silêncio, espera, transformação lenta?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A Grande Mãe nunca foi simples. Iemanjá tampouco. Reduzi-la a uma imagem só é um modo de fugir da complexidade do próprio materno interno. E talvez seja justamente essa multiplicidade que nos convide a algo mais maduro: aprender a reconhecer, em nós, as diferentes águas que nos habitam, sem idealização, sem culpa, sem pressa de resolver.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez seja por isso que Jung tenha insistido tantas vezes que o arquétipo da mãe nunca se apresenta de forma unilateral. Ele escreve que a imagem materna contém “tudo o que é carinhoso, protetor, nutridor, mas também tudo o que é secreto, devorador e fatal” (JUNG, 2014, p. 87). A Grande Mãe não se organiza segundo critérios morais; ela é anterior a eles. Quando tentamos torná-la apenas boa, apenas acolhedora, apenas luminosa, não a purificamos, nós a empobrecemos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-iemanja-como-imagem-viva-desse-arquetipo-carrega-essa-ambivalencia-sem-pedir-licenca" style="font-size:18px">Iemanjá, como imagem viva desse arquétipo, carrega essa ambivalência sem pedir licença.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É mãe dos peixes, ventre da vida, mas também senhora de correntes que arrastam. E talvez o desconforto que muitas pessoas sentem diante de certas imagens de Iemanjá diga mais sobre nossa dificuldade de sustentar ambivalência do que sobre o mito em si. Queremos uma mãe previsível, quando o arquétipo é, por natureza, paradoxal.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung lembra que o contato com os arquétipos “<em>provoca fascínio e temor, pois eles têm o poder de nos elevar ou de nos destruir</em>” (JUNG, 2014, p. 15). Não porque sejam perigosos em si, mas porque ativam zonas profundas da psique, onde o ego perde a ilusão de controle. O mar, como símbolo do inconsciente, nunca prometeu segurança absoluta. Ele promete travessia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando olhamos para Iemanjá como expressão da Grande Mãe acolhedora, estamos lidando com uma necessidade psíquica básica: a de <strong>sustentação</strong>. Sem alguma experiência de cuidado, a psique se organiza em estado de alerta permanente. Jung aponta que “a falta da mãe pode levar a uma busca incessante de proteção no mundo exterior” (JUNG, 2014, p. 92). Mas o excesso de mãe produz outro efeito: impede a diferenciação, dificulta a separação, mantém o sujeito numa dependência silenciosa, muitas vezes disfarçada de amor.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Aqui a comparação com Deméter é inevitável</strong>. A mãe que perde a filha para o mundo e tenta congelar o tempo, recusando o ciclo natural de perda e retorno. E só depois de um acordo em que ela fica com a filha por 2/4, ou em algumas versões 2/3 do tempo, com sua filha é que ela aceita voltar a fertilizar a terra. Não é um bom acordo para um casamento, a filha fica numa relação de eterna filiação com dificuldade de se tornar mulher, esposa e mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Mas a Grande Mãe não é só perda e luto</strong>. Ela também é <strong>potência que protege</strong>. A Iemanjá firme, associada em algumas tradições a Ogunté, traz à tona uma dimensão menos confortável do materno: a que impõe limite. Jung observa que o arquétipo da mãe “pode aparecer como autoridade que oprime e paralisa, mas também como força que dá estrutura e forma” (JUNG, 2014, p. 90). O limite, quando vivido como cuidado, organiza. Quando vivido como medo, adoece. A diferença nem sempre é visível de fora; ela se dá no campo interno.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez por isso tantas pessoas tenham dificuldade em reconhecer essa face do materno sem culpa. Crescemos aprendendo que mãe boa é a que aguenta tudo, a que nunca falha, a que não frustra. Mas o arquétipo não sustenta essa fantasia por muito tempo. Quando o limite não é internalizado, ele retorna como sintoma, como relação abusiva, como dificuldade crônica de dizer não. O problema não é o limite; é a ausência dele no lugar certo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A Iemanjá encantadora, por sua vez, toca outro ponto sensível. Ela fala da experiência de ser amado, desejado, acolhido com prazer. Jung descreve como a dimensão da Anima, quando integrada, devolve sensibilidade e vitalidade à vida psíquica, mas quando inflada “aprisiona o sujeito numa relação infantil com o feminino” (JUNG, 2017, p. 31). O encanto sem contorno captura. O cuidado que só seduz não sustenta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez seja aqui que muitas relações se confundam. Amor vira promessa de retorno ao paraíso perdido, e qualquer frustração é vivida como traição. O mar deixa de ser espaço de vida e vira promessa de fusão eterna. Mas o arquétipo não existe para nos poupar do processo de individuação. Ele existe para nos convocar a ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E então chegamos à Iemanjá profunda, aquela que menos aparece nas imagens idealizadas, mas que talvez seja a mais decisiva para o amadurecimento psíquico. A Grande Mãe primordial não explica, não consola, não responde rápido. Jung lembra que o inconsciente “não trabalha segundo a lógica do ego, mas segundo ritmos próprios, que exigem espera e elaboração” (JUNG, 2013, p. 67). O fundo do mar simboliza esse tempo outro, onde algo precisa morrer para que algo novo se organize.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quantas vezes resistimos a essa imagem porque ela nos confronta com o vazio? Queremos respostas, quando o processo pede silêncio. Queremos solução, quando o que está em jogo é transformação. A Iemanjá profunda não abandona; ela sustenta sem intervir. E isso é difícil de suportar numa cultura que confunde cuidado com presença constante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-o-mais-perigoso-nao-seja-a-face-devoradora-da-grande-mae-mas-a-nossa-insistencia-em-nega-la" style="font-size:18px">Talvez o mais perigoso não seja a face devoradora da Grande Mãe, mas a nossa insistência em negá-la.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung alerta que aquilo que não é reconhecido conscientemente retorna de forma destrutiva (JUNG, 2014). Quando não aceitamos que o materno também separa, dissolve e frustra, tendemos a repetir essas experiências de modo inconsciente, nas relações, no corpo, na forma como cuidamos e somos cuidados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por isso, pensar Iemanjá em diálogo com outras imagens da Grande Mãe não é exercício teórico. É uma forma de ampliar a consciência sobre o próprio materno interno. Deméter, Ísis, Maria, Kali, Nanã, Iemanjá, nenhuma delas cabe sozinha. Todas expressam algo de um mesmo campo arquetípico que sustenta e ameaça, acolhe e exige diferenciação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez a pergunta que fique não seja qual dessas imagens é a correta, mas qual delas estamos vivendo sem perceber. <strong>Em que ponto transformamos cuidado em fusão? Em que momento o limite virou dureza? Onde o encanto passou a capturar</strong>? E, sobretudo, onde evitamos a profundidade por medo de nos perder, quando talvez seja ali que algo em nós precise, finalmente, se reorganizar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-nao-seja-por-acaso-que-iemanja-seja-celebrada-no-dia-2-de-fevereiro-num-tempo-historico-em-que-o-cansaco-se-tornou-quase-um-modo-de-existir" style="font-size:18px">Talvez não seja por acaso que Iemanjá seja celebrada no dia 2 de fevereiro, num tempo histórico em que o cansaço se tornou quase um modo de existir.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O <strong>Espírito desta época</strong>, tão voltado à produtividade, à exposição contínua, à exigência de disponibilidade permanente, parece pouco interessado em silêncio, recolhimento ou profundidade. <strong>Tudo precisa ser dito, mostrado, resolvido rápido. O cuidado vira desempenho. O afeto vira tarefa. O amor, muitas vezes, vira exaustão</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-cenario-o-arquetipo-de-iemanja-como-expressao-da-grande-mae-nao-nos-convoca-a-mais-esforco-mas-a-outra-qualidade-de-consciencia" style="font-size:18px">Nesse cenário, o arquétipo de Iemanjá como expressão da Grande Mãe não nos convoca a mais esforço, mas a <strong>outra qualidade de consciência</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung lembrava que cada época histórica é dominada por certos valores e cegada por outros, e que “<em>o Espírito do Tempo tende a se impor como verdade absoluta, enquanto o Espírito das Profundezas fala baixo e é facilmente ignorado</em>” (JUNG, 2013, p. 45). Talvez o mar de Iemanjá pertença justamente a esse outro registro: o das profundezas que não competem com o ruído do mundo, mas o relativizam.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>O que Iemanjá nos pede, então, quando tudo em torno exige excesso?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez não seja mais cuidado, mas discernimento. Discernir quando acolher e quando não se oferecer além do possível. Discernir quando permanecer e quando respeitar o próprio limite. A Grande Mãe, nesse sentido, não aparece como solução mágica para o esgotamento contemporâneo, mas como espelho incômodo: até que ponto transformamos cuidado em autoabandono?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Vivemos uma época que romantiza o materno como doação infinita</strong>. Espera-se que mães, terapeutas, professores, cuidadores, e, em alguma medida, todos nós, estejam sempre disponíveis, sempre compreensivos, sempre resilientes. O Espírito desta época cobra presença constante, mas oferece pouco espaço para elaboração. Jung já advertia que “quando a adaptação ao mundo externo se torna excessiva, a vida interior empobrece, e a psique começa a protestar” (JUNG, 2014, p. 64). Talvez muitos dos sintomas atuais: <strong>cansaço crônico, ansiedade difusa, irritabilidade, sensação de vazio</strong>, sejam formas desse protesto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Iemanjá, como arquétipo, não responde a esse protesto com aceleração. Ela responde com ritmo. O mar não se move pela urgência humana. Ele obedece a ciclos, marés, forças que escapam ao controle do ego. Celebrar Iemanjá, nesse contexto, talvez seja perguntar se ainda somos capazes de respeitar ritmos que não sejam os da cobrança externa. Ou se já internalizamos tanto o Espírito do Tempo que passamos a nos explorar em nome do cuidado, do amor, da responsabilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há também algo a ser pensado sobre a relação entre o feminino e o esgotamento contemporâneo. Jung observou que, em épocas de unilateralidade racional e produtivista, o princípio feminino tende a ser reprimido ou distorcido, retornando de forma sintomática (JUNG, 2014). Não como acolhimento profundo, mas como exigência de performance emocional. O feminino vira obrigação de sentir, de cuidar, de sustentar o outro, mesmo quando isso custa a própria vitalidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-iemanja-nao-aparece-apenas-como-mae-mas-como-forca-arquetipica-que-questiona-a-forma-como-estamos-vivendo-o-cuidado" style="font-size:18px">Nesse sentido, Iemanjá não aparece apenas como mãe, mas como <strong>força arquetípica que questiona a forma como estamos vivendo o cuidado</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O mar que ela representa não é uma superfície lisa pronta para receber tudo. Ele tem correntes, profundidades, zonas de perigo. Ignorar isso não o torna mais seguro; apenas nos torna mais ingênuos. Talvez o arquétipo esteja nos convidando a abandonar a fantasia de que amar é sempre estar disponível, e a reconhecer que há um cuidado que só existe quando há limite.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O Espírito desta época também nos empurra para relações cada vez mais imediatas, rápidas, descartáveis. Tudo precisa ser resolvido, respondido, superado. A lógica do “seguir em frente” raramente admite luto, ambivalência ou demora. Iemanjá, ao contrário, carrega o tempo da água. Jung dizia que o inconsciente “não se submete à pressa consciente; ele exige paciência, espera e disposição para suportar a incerteza” (JUNG, 2013, p. 72). Talvez essa seja uma das reflexões mais difíceis hoje: suportar não saber, não controlar, não resolver de imediato.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No dia 2 de fevereiro, muitas pessoas oferecem flores ao mar pedindo proteção, amor, cuidado. Mas talvez a pergunta mais radical seja outra: <strong>o que estamos dispostos a devolver?</strong> Quais excessos podemos entregar às águas? Quais expectativas irreais sobre o cuidado, sobre a mãe, sobre o outro, sobre nós mesmos, precisam ser dissolvidas? O arquétipo não pede devoção ingênua; ele pede consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-iemanja-como-imagem-da-grande-mae-nao-nos-convoca-a-regredir-mas-a-amadurecer" style="font-size:18px"><strong>Iemanjá, como imagem da Grande Mãe, não nos convoca a regredir, mas a amadurecer</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não nos chama de volta ao útero, mas à responsabilidade de construir um materno interno capaz de sustentar sem aprisionar. Jung lembrava que o Processo de Individuação exige diferenciação das imagens parentais, não para negá-las, mas para integrá-las de forma consciente (JUNG, 2014). Talvez celebrar Iemanjá hoje seja reconhecer que o cuidado que salva é aquele que não anula, e que a proteção verdadeira não impede o crescimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em tempos de excesso de estímulo, de demandas infinitas e de vínculos frágeis, o mar de Iemanjá não oferece respostas prontas. Ele oferece perguntas. E talvez isso seja o mais fiel ao arquétipo: não aliviar o peso da existência, mas aprofundá-la. Convidar-nos a olhar para a forma como cuidamos, somos cuidados e nos abandonamos, tudo isso ao mesmo tempo, sem simplificação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez o Espírito desta época precise menos de soluções e mais de profundidade. E talvez seja isso que Iemanjá, silenciosamente, nos lembra todos os anos: sem fundo, o mar vira ruído. Sem consciência, o cuidado vira cansaço. Sem limite, até o amor pode afogar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É importante lembrar que essa multiplicidade de Iemanjá não nasce de uma leitura psicológica moderna, mas está profundamente enraizada nas tradições de matriz africana. Diferentemente da tendência ocidental de reduzir o divino a figuras estáveis e moralizadas, os cultos aos orixás sempre reconheceram a complexidade e a ambivalência das forças da natureza e da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-lembra-reginaldo-prandi-os-orixas-nao-sao-modelos-eticos-ideais-mas-expressoes-das-contradicoes-humanas-com-virtudes-e-excessos-prandi-2001-p-24" style="font-size:18px">Como lembra <strong>Reginaldo Prandi</strong>, os orixás “<em>não são modelos éticos ideais, mas expressões das contradições humanas, com virtudes e excessos</em>” (PRANDI, 2001, p. 24).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-nas-tradicoes-iorubas-e-afro-brasileiras-iemanja-aparece-sob-diferentes-qualidades-muitas-vezes-chamadas-de-caminhos-ou-qualidades-do-orixa-que-expressam-modos-distintos-de-manifestacao-do-mesmo-principio-pierre-verger-destaca-que-essas-variacoes-nao-indicam-deuses-diferentes-mas-aspectos-diversos-de-uma-mesma-divindade-relacionados-a-regioes-mitos-e-funcoes-especificas-verger-2019-p-143" style="font-size:18px">Nas tradições iorubás e afro-brasileiras, Iemanjá aparece sob diferentes qualidades, muitas vezes chamadas de caminhos ou qualidades do orixá, que expressam modos distintos de manifestação do mesmo princípio. <strong>Pierre Verger</strong> destaca que essas variações não indicam deuses diferentes, mas “<em>aspectos diversos de uma mesma divindade, relacionados a regiões, mitos e funções específicas</em>” (VERGER, 2019, p. 143).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Iemanjá Ogunté</strong>, por exemplo, é descrita como uma Iemanjá mais firme, associada à proteção e à guerra, próxima a Ogum. Aqui o materno não é apenas acolhedor, mas defensivo, capaz de impor limites e proteger a vida quando ameaçada. Do ponto de vista junguiano, essa imagem dialoga com a face estruturante da Grande Mãe, aquela que organiza, delimita e sustenta o ego nascente. Sem essa dimensão, o cuidado se torna ingênuo; quando absolutizada, endurece.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Já <strong>Iemanjá Sabá</strong>, ligada às águas profundas e à ancestralidade, carrega uma tonalidade mais antiga e silenciosa. Segundo <strong>Prandi</strong>, Sabá é uma Iemanjá “<em>velha, grave e ligada à memória do mundo</em>” (PRANDI, 2001, p. 57). Essa imagem encontra ressonância direta com o que Jung descreve como o aspecto arcaico do arquétipo materno, aquele que sustenta os processos de luto, perda e transformação sem pressa de resolução. Aqui, o cuidado não consola rapidamente, mas permite que a dor seja elaborada no tempo próprio da psique.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-tambem-a-iemanja-jovem-e-encantadora-associada-a-fertilidade-a-beleza-e-ao-afeto-que-aproxima" style="font-size:18px">Há também a Iemanjá jovem e encantadora, associada à fertilidade, à beleza e ao afeto que aproxima.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Verger descreve essa face como ligada às águas mais claras e à experiência da sedução e da vida que se renova (VERGER, 2019). Psicologicamente, essa imagem dialoga com a dimensão da Anima, que devolve sensibilidade e vitalidade à existência. Quando reprimida, a vida perde cor; quando inflada, pode capturar e infantilizar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A Iemanjá do mar raso, frequentemente evocada como mãe dos peixes, expressa a função materna cotidiana: nutrir, sustentar, organizar. É a base emocional que permite ao sujeito existir no mundo com alguma segurança. Jung lembra que a mãe, enquanto arquétipo, oferece “o fundamento psíquico da confiança básica” (JUNG, 2014). Quando essa dimensão falha, o sujeito vive à deriva; quando domina sozinha, impede a diferenciação necessária ao Processo de Individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por fim, há a Iemanjá das grandes profundezas, menos nomeada, mas sempre presente nos mitos. Essa face se aproxima de Nanã, a mãe primordial ligada à lama, ao tempo e à morte, descrita por Juana Elbein dos Santos como expressão do princípio feminino mais antigo, anterior à forma e à palavra (SANTOS, 2002). Aqui, o materno não acolhe nem protege no sentido comum; ele dissolve para que algo novo possa emergir. Em termos junguianos, trata-se do inconsciente em sua potência transformadora, que exige entrega, espera e elaboração.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essas-qualidades-de-iemanja-nao-competem-entre-si-elas-coexistem" style="font-size:18px"><strong>Essas qualidades de Iemanjá não competem entre si. Elas coexistem.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As tradições de matriz africana sempre souberam disso, sem a necessidade de sistematizar em categorias rígidas. O problema surge quando o sujeito, ou a cultura, tenta viver apenas uma dessas faces, ignorando as demais. A Grande Mãe, quando reduzida, adoece. E com ela, adoece também nossa capacidade de amar, cuidar e sustentar a vida em sua complexidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez, então, o dia 2 de fevereiro não seja apenas uma data devocional, nem um gesto repetido de lançar flores ao mar esperando proteção. Talvez seja um convite mais exigente, desses que não se resolvem em oferenda externa. Diante do Espírito desta época, marcado pela pressa, pela indiferença ao sofrimento do outro, pela dificuldade crescente de amar sem transformar o vínculo em consumo ou obrigação, Iemanjá nos convoca a olhar para algo que temos evitado: <strong>a qualidade do amor que estamos conseguindo sustentar</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <strong>violência explícita</strong>, como no caso do <strong>cão Orelha</strong>, choca porque expõe de forma crua o que muitas vezes acontece de modo silencioso no cotidiano: a incapacidade de reconhecer a vulnerabilidade e de colocar limite no mal que há em nós, como algo que nos interpela eticamente. Mas essa mesma lógica aparece, de forma menos visível, quando o sujeito abandona o próprio corpo, quando se explora em nome do cuidado, quando se exige funcionar mesmo sem recursos internos, quando transforma o amor em desempenho. A falta de amor não começa no ato extremo; ela se instala antes, quando a função materna interna falha, quando não sabemos mais nos sustentar por dentro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-consultorio-isso-se-repete-de-forma-quase-cotidiana" style="font-size:18px"><strong>No consultório, isso se repete de forma quase cotidiana</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Pessoas que nunca aprenderam a se maternar. Que não sabem descansar sem se punir. Que confundem limite com rejeição e cuidado com culpa. Outras que endureceram tanto para não sofrer que já não conseguem acolher nem a si mesmas. Jung observou que, quando o arquétipo da mãe não é suficientemente integrado, o sujeito oscila entre dependência e autoabandono, entre fusão e isolamento (JUNG, 2014). O amor, nesse contexto, vira algo sempre excessivo ou sempre insuficiente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-multiplas-imagens-de-iemanja-como-nos-ensinam-as-tradicoes-de-matriz-africana-talvez-existam-justamente-para-nos-lembrar-que-nao-ha-uma-unica-forma-saudavel-de-maternar" style="font-size:18px">As múltiplas imagens de Iemanjá, como nos ensinam as tradições de matriz africana, talvez existam justamente para nos lembrar que <strong>não há uma única forma saudável de maternar</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há tempos de acolher e tempos de impor limite. Tempos de encantar e tempos de silenciar. Tempos de sustentar e tempos de deixar que a vida siga sem o colo constante. Quando uma dessas faces domina sozinha, o cuidado adoece. Quando são reconhecidas em sua pluralidade, o amor ganha densidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Celebrar Iemanjá, nesse sentido, não é escolher uma imagem e negar as outras. É aceitar que o materno é ambivalente, paradoxal, vivo. É reconhecer que amar exige presença, mas também consciência. Que proteger não é impedir a travessia. Que cuidar não é se perder. Jung lembra que o Processo de Individuação passa, necessariamente, pela diferenciação das imagens parentais internas, para que o sujeito possa sustentar a própria vida com mais autonomia e menos repetição inconsciente (JUNG, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez o que Iemanjá nos peça hoje seja menos promessa e mais honestidade. Honestidade para olhar onde transformamos cuidado em sacrifício. Onde chamamos controle de amor. Onde confundimos ausência de limite com bondade. Onde deixamos de reconhecer a alma do outro, humano ou não humano, porque estamos anestesiados, cansados ou excessivamente adaptados às exigências do mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-o-mar-que-iemanja-representa-nao-e-so-acolhimento-ele-tambem-exige-respeito-ele-lembra-que-sem-fundo-nao-ha-sustentacao-apenas-ruido-e-que-sem-consciencia-ate-o-amor-pode-se-tornar-violento-mesmo-quando-bem-intencionado-o-arquetipo-nao-nos-absolve-ele-nos-amadurece" style="font-size:18px">O mar que Iemanjá representa não é só acolhimento. Ele também exige respeito. Ele lembra que sem fundo não há sustentação, apenas ruído. E que sem consciência, até o amor pode se tornar violento, mesmo quando bem-intencionado. O arquétipo não nos absolve; ele nos amadurece.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez, ao lançar flores ao mar, possamos oferecer algo além do pedido de proteção. Oferecer a disposição de construir uma mãe interna mais integrada. Capaz de acolher sem se anular. De limitar sem endurecer. De amar sem capturar. Capaz, sobretudo, de reconhecer que o cuidado verdadeiro começa quando deixamos de exigir do outro aquilo que precisamos aprender a sustentar em nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>O dia 2 de fevereiro passa.<br>O Espírito desta época continua.</strong><br>Mas a pergunta permanece, trabalhando em silêncio, como as águas profundas:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Que tipo de amor temos sido capazes de viver?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E qual imagem da Grande Mãe governa, hoje, o modo como cuidamos, somos cuidados e, tantas vezes, nos abandonamos?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Odoyá, Iemanjá.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Que o mar em nós encontre fundo.<br>E que o amor, finalmente, encontre forma.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/natalhe/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/natalhe/">Natalhe Vieni – Membro Analista Didata em formação do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">E. Simone D. Magaldi – Membro Didata e Fundadora do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. A vida simbólica: escritos diversos. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SANTOS, Juana Elbein dos. Os nagô e a morte: pàdé, àsèsè e o culto ẹ̀gẹ̀. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo. 7. ed. Salvador: Corrupio, 2019.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;Iemanjá Não é Uma Só: as muitas faces da Grande Mãe que nos habita&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/qrn02lFrNcg?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Matrículas abertas</strong>: <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>De Maria a Kali &#8211; A sombra materna e o adoecimento psíquico das mães</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/repressao-da-sombra-na-maternidade-e-o-sofrimento-psiquico-das-maes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiza de Oliveira Burger]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Dec 2025 13:31:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[integração de sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Mãe]]></category>
		<category><![CDATA[maternidade real]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicologiaanalitica]]></category>
		<category><![CDATA[simbologia]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: A proposta desse artigo é analisar como a repressão dos aspectos sombrios da maternidade tem contribuído para o adoecimento psíquico das mulheres. A partir da oposição simbólica entre Maria, representando o aspecto luminoso da maternidade (devoção, doçura, aceitação) e Kali, representando a dualidade, a força destrutiva e transformadora do feminino, vamos analisar como a [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/repressao-da-sombra-na-maternidade-e-o-sofrimento-psiquico-das-maes/">De Maria a Kali &#8211; A sombra materna e o adoecimento psíquico das mães</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: A proposta desse artigo é analisar como a repressão dos aspectos sombrios da maternidade tem contribuído para o adoecimento psíquico das mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A partir da oposição simbólica entre Maria, representando o aspecto luminoso da maternidade (devoção, doçura, aceitação) e Kali, representando a dualidade, a força destrutiva e transformadora do feminino, vamos analisar como a cultura ocidental estimula uma identificação unilateral das mulheres com o ideal da mãe perfeita, reforçada por fatores religiosos, culturais e históricos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tal-identificacao-exclui-os-aspectos-sombrios-da-maternidade-como-a-raiva-a-exaustao-o-desejo-de-autonomia-trazendo-muitas-vezes-sofrimento-psiquico-para-as-mulheres" style="font-size:19px">Tal identificação exclui os aspectos sombrios da maternidade, como a raiva, a exaustão, o desejo de autonomia, trazendo, muitas vezes, sofrimento psíquico para as mulheres.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O reconhecimento e a integração dos aspectos luminosos e sombrios da maternidade podem representar uma via de cura e reconciliação do feminino e permitir alcançar uma maternidade mais autêntica e libertadora.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-sabido-que-o-papel-da-mulher-na-sociedade-vem-mudando-ao-longo-do-tempo-mas-e-as-maes-sera-que-as-expectativas-em-relacao-a-maternidade-acompanharam-toda-essa-mudanca" style="font-size:19px">É sabido que o papel da mulher na sociedade vem mudando ao longo do tempo. Mas e as mães? Será que as expectativas em relação à maternidade acompanharam toda essa mudança?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Se fizermos uma breve pesquisa histórica vamos descobrir que esse modelo idealizado de maternidade, onde a mãe deve abrir mão de tudo em detrimento dos filhos (e sem ressentimentos!) nem sempre foi assim.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-num-passado-nem-tao-distante-por-volta-de-xviii-os-filhos-nao-eram-a-prioridade-da-familia-e-muito-menos-ocupavam-lugar-de-destaque" style="font-size:19px">Num passado nem tão distante, por volta de XVIII, os filhos não eram a prioridade da família e muito menos ocupavam lugar de destaque.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Era muito comum, por exemplo, nas famílias de melhor poder aquisitivo as crianças morarem com amas de leite durante os primeiros anos. Muitas delas nem eram visitadas pelos pais até que chegasse a hora de retornarem para suas casas, quando já tinham sobrevivido às dificuldades dos primeiros anos de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Já nas famílias mais pobres, os filhos eram vistos como mão de obra e eram colocados para trabalhar tão logo fosse possível, a fim de contribuir para o sustento da família.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Com a revolução industrial, a configuração das famílias passou por algumas mudanças. Se antes homens e mulheres ocupavam as lavouras ou comércios, agora eles ocupariam as fábricas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No entanto, com o pós-guerra, houve uma pressão social para que os homens retomassem os empregos nas fábricas e as mulheres ocupassem os lares, com a desculpa de que o serviço era pesado demais para elas e que sua &nbsp;natureza se adequava melhor aos serviços domésticos. Porém, de pano de fundo, o objetivo era resgatar o masculino tão sacrificado nas guerras.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Diante desse cenário, os pais foram se distanciando cada vez mais das tarefas relacionadas aos filhos. E as mulheres, por sua vez, foram abrindo mão de ocupar outros espaços na sociedade para se dedicarem ao lar e à educação da prole.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Alguns historiadores também atribuem a Rousseau o início da mudança do olhar sobre a maternidade com a publicação do livro Emilio ou Da Educação, em 1762. Apesar de ser um relato fictício sobre a educação de um menino, ele questionou as práticas familiares vigentes, ressaltando, por exemplo, a importância da amamentação pela mãe, e fazendo uma crítica às mães que não tinham os filhos como prioridade. As ideias de Rousseau se espalharam, atraíram a atenção popular e provocaram discussões na sociedade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-igreja-catolica-tambem-contribuiu-bastante-para-a-configuracao-do-papel-das-mulheres-na-sociedade" style="font-size:19px">A igreja católica também contribuiu bastante para a configuração do papel das mulheres na sociedade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Embora a proclamação da assunção de Maria tenha sido declarada apenas em 1950, a figura da mãe de Jesus sempre foi vendida pela igreja como digna de inspiração. Maria, a virgem sem pecados, a que doou a vida pelo filho, a que nunca questionou seu destino, nem mesmo quando no mito o anjo aparece anunciando que ela tinha sido escolhida para ser mãe de uma criança divina.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Maria sempre é retratada com o filho nos braços, olhar calmo e sereno, como num momento de felicidade plena</strong>. Um modelo bastante repressor para as mães, que devem ser devotadas, assim como Maria, e capaz de enormes sacrifícios.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O menino Jesus jamais foi pintado chorando ou com a cabeça caída para trás. Sua mãe nunca teve uma aparência irritada ou cansada. Ninguém jamais pintou Maria nos afazeres prosaicos da maternidade: dando banho, alimentando ou vestindo Jesus. Nossa Senhora e o menino Jesus estão congelados na eternidade de um momento relativamente raro da mãe com o bebê.</p><cite>FORNA, 1999, p.18</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-materna" style="font-size:22px"><strong>A sombra materna</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">As mães foram aos poucos moldando-se às expectativas da sociedade para a sua própria maternagem, ficando identificadas apenas com o lado luminoso, seja por imposição social ou por falta de conhecimento dos seus próprios sentimentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao longo das gerações, aprenderam que não podem expressar sentimentos ambivalentes. Amar e, ao mesmo tempo, desejar distância, cuidar e desejar tempo para si, sentir gratidão e raiva. Tudo isso é vivido em silêncio, sob o peso da culpa, criando um terreno fértil para o sofrimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">E para onde vão todos esses sentimentos reprimidos, tudo aquilo que as mães não são autorizadas a sentir e a manifestar para estarem de acordo com o papel que tem sido atribuído a elas?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esses conteúdos ficam na sombra que, para Jung, são os aspectos reprimidos ou desconhecidos da personalidade, onde também estão os conteúdos considerados impróprios socialmente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><a>A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade.</a></p><cite><a>JUNG, 2013, p.19</a></cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando Jung descreve os traços essenciais do arquétipo materno, fala dos aspectos luminosos e sombrios presentes em cada mãe: bondade nutritiva e dispensadora de cuidados, emocionalidade orgástica e sua obscuridade subterrânea (Cf. JUNG, 2014, p. 88). </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aspectos-presentes-em-todas-as-maes-e-que-a-rigor-nao-deveriam-ser-suprimidos" style="font-size:19px">Aspectos presentes em todas as mães e que, a rigor, não deveriam ser suprimidos.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Seus atributos são o “maternal”: simplesmente a mágica autoridade do feminino; a sabedoria e a elevação espiritual além da razão; o bondoso, o que cuida, o que sustenta, o que proporciona as condições de crescimento, fertilidade e alimento; o lugar de transformação mágica, do renascimento; o instinto e o impulso favoráveis; o secreto, oculto, o obscuro, o abissal, o mundo dos mortos, o devorador, sedutor e venenoso, o apavorante e fatal.</p><cite>JUNG, 2014, p.158</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa dualidade é essencial para a compreensão do arquétipo: a mãe é simultaneamente fonte de vida e de morte simbólica, acolhimento e ameaça, alimento e limite.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A idealização da maternidade representa uma identificação com a persona da mãe perfeita e uma repressão do aspecto sombrio do arquétipo. Ao negar os conteúdos que se contrapõem à imagem ideal, o cansaço, a raiva, a ambivalência, o desejo de ser mais do que somente mãe, a mulher rompe com a totalidade de sua psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O resultado disso é a manifestação de sintomas como culpa, exaustão, ansiedade, depressão e muitos outros. Para Jung, “aquilo que tiver sido reprimido, voltará a manifestar-se em outro lugar e sob uma forma modificada, mas dessa vez carregada de um ressentimento que transforma o impulso natural, em si inofensivo, em nosso inimigo” (JUNG, 2013 p.41.).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-maria-e-kali-o-drama-da-maternidade-contemporanea" style="font-size:22px"><strong>Maria e Kali – o drama da maternidade contemporânea</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nesse sentido, a deusa hindu Kali seria melhor representante dos aspectos duais da maternidade do que Maria. Kali é descrita como destruidora e sanguinária, mas também como força regeneradora e libertadora. Para muitas tradições tântricas, aproximar-se de Kali significa confrontar a própria sombra e, ao mesmo tempo, ser acolhido por uma dimensão radical de amor e liberdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Se Maria simboliza o amor incondicional e a doação, Kali representa a potência que corta o que precisa morrer para que o novo surja. Ambas podem ser consideradas expressões complementares do mesmo princípio materno.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Entre Maria e Kali se apresenta o drama psíquico da maternidade contemporânea. De um lado, a mãe santa, que tudo suporta e de outro, a mãe instintiva, que sente raiva, medo e desejo e que age muitas vezes de forma violenta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando a cultura valoriza apenas o aspecto luminoso, a psique reage projetando a sombra reprimida, seja nas outras mulheres, vistas como mães ruins, seja em sintomas físicos e emocionais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-lembra-que-a-meta-da-individuacao-nao-e-a-perfeicao-mas-a-totalidade-o-equilibrio-entre-luz-e-sombra" style="font-size:19px">Jung lembra que a meta da individuação não é a perfeição, mas a totalidade, o equilíbrio entre luz e sombra.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Significa reconhecer em si tanto Maria quanto Kali: a ternura e a fúria, o amor e a destruição, o cuidado e o limite.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O objetivo da individuação não é o homem perfeito, mas o homem completo com sua luz e sua escuridão. O mal, assim como o bem, é dado ao homem juntamente com o dom da vida. Não pode nunca ser completamente vencido, embora o homem tenha a chance de contê-lo, tornando-se cônscio dele e analisando-o. Quanto mais consciente for de suas predisposições para o mal, mais condições terá de resistir às forças destrutivas dentro de si. Em geral, a individuação tem início quando o homem se torna consciente da própria sombra, da escuridão e do mal inconscientes, que são, no entanto, parte integrante da sua totalidade. </p><cite>JAFFÉ, 2021, p. 81</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mulher-que-aceita-sua-sombra-materna-deixa-de-buscar-a-perfeicao-e-passa-a-viver-uma-maternidade-mais-autentica-e-livre-essa-aceitacao-nao-elimina-o-sofrimento-mas-o-ressignifica" style="font-size:19px">A mulher que aceita sua sombra materna deixa de buscar a perfeição e passa a viver uma maternidade mais autêntica e livre. Essa aceitação não elimina o sofrimento, mas o ressignifica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A negação dos aspectos sombrios aprisiona as mulheres em um ideal inatingível de perfeição. O reconhecimento da sombra não destrói o amor materno, o torna mais verdadeiro, porque permite amar sem negar o conflito. Acolher em si as forças ambivalentes tornam possível construir uma maternidade menos idealizada e mais real, uma maternidade viva, transformadora e inteira</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: De Maria a Kali – A sombra materna e o adoecimento psíquico das mães" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/tKf9m7h9sRY?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luiza-de-oliveira-burger/"><strong>Luiza de Oliveira Burger </strong>– <strong>Membro Analista em formação IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/"><strong>Ana Paula Maluf</strong> – <strong>Analista Didata IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">FORNA, Aminatta. <em>Mãe de todos os mitos. </em>Como a sociedade modela e reprime as mães. Rio<br>de Janeiro: Ediouro,1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JAFFÉ, Aniela.&nbsp;<em>O Mito do Significado na obra de C. G. Jung</em>. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Aion. </em>Estudo Sobre o Simbolismo do Si-mesmo.10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo</em>. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena. <em>A sombra em nós. </em>A força vital subversiva. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">ODIER, Daniel. <em>Kālī: mitologia, práticas secretas e rituais.</em> São Paulo: Presságio, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">CHAMUNDACHARYA DAKSINA KALI (Vazel Chamunda Merenzeine)<strong>.</strong> <em>Kālī, adoração e serviço – volume 1.</em> São Paulo: Clube de Autores, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Matrículas abertas: <a style="font-weight: bold;" href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img decoding="async" width="960" height="540" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-1-2.png" alt="" class="wp-image-11604" style="width:699px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-1-2.png 960w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-1-2-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-1-2-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-1-2-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-1-2-450x253.png 450w" sizes="(max-width: 960px) 100vw, 960px" /></figure>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>CANINA: metáfora da mulher-cadela</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/canina-metafora-da-mulher-cadela/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Jaqueline Aguiar Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Jul 2025 21:01:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[complexos]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[teoria junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>RESUMO: O presente artigo examina o filme de realismo fantástico Canina. No longa, uma mulher interrompe a própria carreira após o nascimento do filho para dedicar-se exclusivamente à criança. Ao longo da trama, a protagonista transforma-se em uma cadela. Neste estudo, essa metamorfose é analisada sob a ótica da psicologia junguiana e ultrapassa as questões [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>RESUMO: O presente artigo examina o filme de realismo fantástico <em>Canina</em>. No longa, uma mulher interrompe a própria carreira após o nascimento do filho para dedicar-se exclusivamente à criança. Ao longo da trama, a protagonista transforma-se em uma cadela. Neste estudo, essa metamorfose é analisada sob a ótica da psicologia junguiana e ultrapassa as questões mais aparentes abordadas no filme — maternidade, profissão e sexualidade. Verifica-se como a metáfora da transformação em um animal resgata a mulher identificada com a persona, e essa metamorfose se relaciona com o movimento <em>therian</em>.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Palavras-Chave</strong>: maternidade; persona; identificação com animais; <em>therian.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>CANINA</strong> é um filme de <strong>realismo fantástico</strong> sobre a maternidade, inspirado no romance <em>Nightbitch</em> (2021), de Rachel Yoder. Na trama, uma mulher interrompe a própria carreira após o nascimento do filho para cuidar da criança em tempo integral.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O filme, repleto de simbolismo, provoca certo desconforto ao mostrar a protagonista em processo literal de metamorfose canina. <strong>A obra retrata uma maternidade visceral, instintiva e selvagem</strong>. Como essa metamorfose pode ser compreendida à luz da narrativa junguiana?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para além das reflexões mais evidentes — maternidade, profissão e sexualidade —, a narrativa evidencia um ponto crucial: o grau de consciência da protagonista no momento da escolha em ser mãe em tempo integral.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-maternidade-revela-se-extremamente-potente-e-um-chamado-a-individuacao-que-permite-profundas-transformacoes-psiquicas-e-amplia-a-consciencia-feminina" style="font-size:19px">A maternidade revela-se extremamente potente: é um chamado à individuação que permite profundas transformações psíquicas e amplia a consciência feminina.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por seu caráter <strong>arquetípico</strong>, a mulher entra em contato com atributos de uma força primitiva, ambivalente e poderosa, conforme descrito por Jung:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Seus atributos são o “maternal”: simplesmente a mágica autoridade do feminino; a sabedoria e a elevação espiritual além da razão; o bondoso, o que cuida, o que sustenta, o que proporciona as condições de crescimento, fertilidade e alimento; o lugar da transformação mágica, do renascimento; o instinto e o impulso favoráveis; o secreto, o oculto, o obscuro, o abissal, o mundo dos mortos, o devorador, sedutor e venenoso, o apavorante e fatal. (JUNG, 2014a, p. 88)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-arquetipo-atua-como-um-potente-catalisador-gerando-afetos-que-desencadeiam-conflitos-e-sombras-e-exigindo-que-a-mulher-agora-mae-confronte-seus-aspectos-instintivos-e-criativos" style="font-size:19px">O arquétipo atua como um potente catalisador, gerando afetos que desencadeiam conflitos e sombras e exigindo que a mulher, agora mãe, confronte seus aspectos instintivos e criativos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung (2014a, p. 107) explica que “<strong><em>a portadora do arquétipo é, em primeiro lugar, a mãe pessoal, porque a criança vive inicialmente em um estado de participação exclusiva, isto é, em uma identificação inconsciente com ela. A mãe não é apenas a condição prévia física, mas também psíquica da criança</em></strong>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-contudo-o-ego-pode-sentir-o-peso-do-arquetipo-da-grande-mae" style="font-size:19px">Contudo, o ego pode sentir o peso do arquétipo da Grande Mãe.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse arquétipo materno constitui a base do complexo materno e, assim, a mulher pode, inconscientemente, desejar ser apenas mãe. Digo “apenas” porque ela renuncia a quaisquer outros aspectos de si mesma para corresponder a essa mãe perfeita e idealizada — aquela que parte da sociedade espera, mas que existe apenas em nível arquetípico, jamais humano.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung (2013b), em <em><strong>A natureza da psique</strong></em>, esclarece que os complexos possuem um grau relativamente elevado de autonomia: apenas até certo limite se submetem às disposições da consciência, podendo comportar-se como uma personalidade à parte.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa tendência pode gerar uma personalidade que funciona como uma entidade psíquica independente; desse modo, a mulher passa a conduzir a vida sob a regência do complexo e identifica-se quase exclusivamente com o papel materno, abdicando de outros aspectos — mulher, esposa, profissional, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Há mulheres que se dedicam integralmente aos filhos e ao lar e se sentem plenas; outras mantêm suas carreiras e os filhos se beneficiam disso, pois são criados por mães que não se sentem ressentidas nem frustradas. Jung considera patológico o caso das mulheres que se deixam capturar por esse complexo. (JUNG, 2014a, p.104).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O aspecto central, ao decidir como prosseguir após o nascimento da criança, para que a escolha esteja alinhada ao que a vida espera dessa mulher, é o nível de consciência envolvido na decisão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-estar-consciente-entretanto-nao-equivale-a-simplesmente-desejar" style="font-size:19px"><strong>Estar consciente, entretanto, não equivale a simplesmente desejar</strong>. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No filme, a protagonista desejou, optou, mas com base em quais pensamentos e sentimentos? A cena que ilustra essa ambiguidade mostra a personagem culpando o marido pela decisão—por ele ter apoiado a interrupção de sua carreira—; o marido, porém, recorda que ela chorava no trabalho enquanto ordenhava o leite, sofrendo por estar ausente da rotina do filho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nesse momento, o complexo também captura o marido (CANINA, 2024). Segundo Jung:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><strong><em>Tudo o que age a partir do inconsciente vai aparecer projetado no outro. Não que os outros sejam inteiramente inocentes, pois mesmo a pior das projeções sempre se ‘engancha num gancho’ que — por menor que seja — foi de fato fornecido pelo outro</em></strong>. (JUNG, 2013a, p.67)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O choro da protagonista, recordado pelo marido, evidencia a carga afetiva da situação. Naquele momento, ele apoiou a decisão de ela interromper o trabalho para cuidar exclusivamente da criança, pois a via triste e abatida. Contudo, quem realmente optou por abandonar a carreira: a mulher — em ato consciente — ou algum complexo constelado?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Por vezes, é o próprio complexo que “escolhe”, devido a sua autonomia</strong>. &nbsp;Ele se manifesta tanto na mãe que permanece em casa e se anula totalmente quanto naquela que retorna ao mercado de trabalho tentando manter a mesma disponibilidade de antes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No filme, a protagonista abdica de si mesma: ignora as próprias emoções, descuida da aparência, abandona a prática de atividade física, afasta-se da profissão e da sexualidade, reduzindo o cotidiano à função materna. Essa dedicação exclusiva visa unicamente ao bem-estar da criança, mas repercute negativamente no casamento e na relação que mantém consigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Escolhas tão relevantes, feitas em período intenso e exaustivo, quando o ego pode estar fragilizado, favorecem a <strong>identificação com a persona</strong>. Segundo Jung, <em>persona</em> “<strong><em>é uma expressão muito apropriada, pois designava originalmente a máscara usada pelo ator, indicando o papel que ele iria representar</em></strong>” (JUNG, 2015, p. 46).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>A identificação com a persona leva a protagonista a desempenhar somente esse pape</strong>l. É como se, na dança da vida, ela conseguisse dançar apenas um ritmo. Tal fenômeno — amplamente estudado por Jung — constitui uma fonte fecunda de neuroses (JUNG, 2015, p. 84).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Não há um movimento reflexivo: a protagonista identifica-se com a persona da mãe idealizada e tradicional — padrão socialmente chancelado como o da “boa mãe”, aquela que abdica de tudo pelos filhos. Esse é o padrão externo com o qual a personagem se identifica.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que &#8220;alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo. (JUNG, 2015, p. 47)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Contudo, conforme Jung trata na mesma obra, a escolha da Persona não é acidental, aleatória, pelo contrário, também há um padrão interno que se identifica com esses aspectos da psique coletiva.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Seria incorreto, porém, encerrar o assunto sem reconhecer que subjaz algo de individual na escolha e na definição da persona; embora a consciência do ego possa identificar-se com ela de modo exclusivo, o si-mesmo inconsciente, a verdadeira individualidade, não deixa de estar sempre presente, fazendo-se sentir de forma indireta. (JUNG, 2015, p. 47)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-contexto-compreende-se-que-a-persona-nao-se-limita-ao-que-o-meio-social-espera-do-individuo-ela-inclui-igualmente-aquilo-que-o-proprio-sujeito-passa-a-exigir-de-si-mesmo" style="font-size:19px">Nesse contexto, compreende-se que a <em>persona</em> não se limita ao que o meio social espera do indivíduo; ela inclui igualmente aquilo que o próprio sujeito passa a exigir de si mesmo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O aspecto central, ao decidir como prosseguir após o nascimento da criança e manter a escolha alinhada ao sentido de vida dessa mulher, é o grau de consciência envolvido no ato decisório. No caso da protagonista, que parte dela optou por se dedicar integralmente ao filho? Em que circunstâncias essa decisão foi tomada? Quem, dentro dela, frustrou-se?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O ideal seria que a mãe suportasse o desconforto — seja pela impossibilidade de dedicar-se exclusivamente à maternidade, seja pela impossibilidade de dedicar-se exclusivamente à carreira —, mantendo o conflito entre consciência e inconsciente até que um terceiro elemento emergisse para reconciliar os opostos; Jung denomina esse processo de <em><strong>função transcendente</strong></em> (JUNG, 2013a, p.13).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-manter-essa-tensao-favorece-a-criacao-de-alternativas-imaginativas" style="font-size:19px">Manter essa tensão favorece a criação de alternativas imaginativas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nesses casos, é necessário “dar espaço” ao complexo, reduzindo-lhe a carga afetiva; assim, a mãe — antes atravessada pela culpa de sua ausência temporária — passa a perceber as consequências de cada cenário e a conceber desfechos que eram impensáveis enquanto o complexo permanecia constelado. Jung descreve tal situação da seguinte forma:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" id="h-existem-e-verdade-atitudes-coletivas-extremamente-duradouras-que-possibilitam-a-solucao-de-conflitos-tipicos-a-atitude-coletiva-capacita-o-individuo-a-se-ajustar-sem-atritos-a-sociedade-desde-que-ela-age-sobre-ele-como-qualquer-outra-condicao-da-vida-mas-a-dificuldade-do-paciente-consiste-precisamente-no-fato-de-que-um-problema-pessoal-nao-pode-se-enquadrar-em-uma-norma-coletiva-requerendo-uma-solucao-individual-do-conflito-caso-a-totalidade-da-personalidade-deva-conservar-se-viavel-nenhuma-solucao-racional-pode-fazer-justica-a-esta-tarefa-e-nao-existe-absolutamente-nenhuma-norma-coletiva-que-possa-substituir-uma-solucao-individual-sem-perdas-jung-2013a-p-17" style="font-size:19px"><blockquote><p>Existem, é verdade, atitudes coletivas extremamente duradouras, que possibilitam a solução de conflitos típicos. A atitude coletiva capacita o indivíduo a se ajustar, sem atritos, à sociedade, desde que ela age sobre ele, como qualquer outra condição da vida. Mas a dificuldade do paciente consiste precisamente no fato de que um problema pessoal não pode se enquadrar em uma norma coletiva, requerendo uma solução individual do conflito, caso a totalidade da personalidade deva conservar-se viável. Nenhuma solução racional pode fazer justiça a esta tarefa, e não existe absolutamente nenhuma norma coletiva que possa substituir uma solução individual, sem perdas. (JUNG, 2013a, p. 17)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A protagonista, submetida simultaneamente às pressões sociais e às dinâmicas do próprio mundo interno — tomada pelo complexo materno e identificada com a <em>persona</em> —, recebe do inconsciente a figura animalesca.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A figura da cadela surge como um contraponto da maternidade idealizada, sendo uma maternagem estritamente instintiva, a mãe alimenta o filho, brinca com ele e o protege, mas sem o revestimento civilizatório, em determinadas cenas, a protagonista e a criança simulam latidos, alimentam-se em comedouros para animais e, à noite, ela sai à caça de presas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse realismo fantástico contrapõe-se à imagem da mãe idealizada. Todos aspectos negados por essa persona, são vivenciados quando a protagonista se transforma na cadela. A rigidez e apatia dão lugar a leveza e a espontaneidade, mas sem a devida adaptação ao social.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O filme retrata a mãe e filho se comportando como cachorros durante suas atividades com outras famílias. Ela, ao jantar com os amigos rechaça qualquer norma de etiqueta à mesa, latindo, devorando a refeição como um animal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tal-irrupcao-configura-uma-enantiodromia-ou-seja-um-movimento-compensatorio-que-visa-restabelecer-o-equilibrio-psiquico" style="font-size:19px">Tal irrupção configura uma <em>enantiodromia,</em> ou seja, um movimento compensatório que visa restabelecer o equilíbrio psíquico:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Quando a consciência subjetiva prefere as ideias e opiniões da consciência coletiva e se identifica com elas, os conteúdos do inconsciente coletivo são reprimidos. A repressão tem consequências típicas: a carga energética dos conteúdos se adiciona, até certo ponto, à carga do fator repressivo cuja importância efetiva aumenta em consequência disto. Quanto mais o nível da carga energética se eleva, tanto mais a atitude repressiva assume um caráter fanático e, por conseguinte, tanto mais se aproxima da conversão em seu oposto, isto é, da chamada <em>enantiodromia.</em> (JUNG, 2013a, p. 169)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nesse ponto do filme, é possível reconhecer a função dessa <em>enantiodromia., </em>a mãe, totalmente identificada com a persona da mãe idealizada não conseguia descolar dessa máscara, sem ser possuída pelo oposto de seu ideal de maternagem. O filme representa esse resgate do ego por meio da metáfora da transformação em animal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-atualmente-um-tema-que-se-popularizou-e-o-movimento-therian" style="font-size:19px">Atualmente, um tema que se popularizou é o movimento <em>therian</em>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O termo &#8220;teriantropia&#8221; vem do grego&nbsp;<em>theríon</em>, que se traduz como &#8220;fera&#8221;; e&nbsp;<em>anthrōpos</em>, que se traduz por &#8220;ser humano&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Por meio das redes sociais esse movimento tem ganhado visibilidade e refere-se à percepção que uma pessoa tem de si como um animal, não é apenas uma fantasia, essas pessoas sentem ligação com algum animal e se identificam como o bicho em questão.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em 2023, na estação ferroviária de Potsdamer Platz, em Berlim, aproximadamente mil pessoas que se identificam como cães realizaram um protesto em defesa dos chamados “direitos caninos”. No mesmo ano, o japonês conhecido como Toco — que utiliza uma fantasia canina hiper-realista — ultrapassou um milhão de visualizações no canal do YouTube <em>Eu Quero Ser um Animal</em>, onde publica vídeos em que se comporta como um cão, incluindo passeios e interações com outros animais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Fato incontroverso é que não há como generalizar que toda pessoa que se identifica com um animal tenha algum transtorno. Primeiramente, não há diagnóstico psiquiátrico específico para a therianthropia no DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nesse diapasão, é importante ressaltar que, desde a antiguidade, esse fenômeno é amplamente retratado na mitologia. Entre os xamãs, por exemplo, a prática de invocar espíritos animais é habitual; entretanto, a forma como isso se manifesta na contemporaneidade com o movimento <em>therian</em> — tal como no filme analisado — pode indicar um sintoma de uma sociedade excessivamente civilizada.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung estudou de maneira abrangente a identificação simbólica do homem arcaico com animais e, em certos aspectos dessa pesquisa, recorreu ao conceito de <em><strong>participation mystique</strong></em>, formulado por<strong> Lévy-Bruhl</strong><em>: &nbsp;</em></p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Lembremo-nos, porém, que a psicologia da consciência provém de um estado original de inconsciência e de indiferenciação. A este estado<em> Lévy-Bruhl </em>chama de<em> participation mystique. </em>Por conseguinte, a consciência da diferenciação constitui uma aquisição tardia da humanidade; provavelmente ela é um recorte relativamente pequeno no campo incomensurável da identidade original. (JUNG, 2015, p. 96).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por ser a <em><strong>participation mystique</strong></em> (LÉVY-BRUHL, 1910) um traço mais frequente entre povos originários — que, devido à sua absoluta objetividade e à ausência do viés moral civilizatório, percebem-se como parte intrínseca da natureza —, esses grupos jamais se sentem separados do mundo e identificam-se plenamente com os animais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-civilizacao-em-transicao-jung-ressalta-essa-diferenca-entre-o-homem-arcaico-e-o-contemporaneo" style="font-size:19px">Em <em><strong>Civilização em Transição</strong></em>, Jung ressalta essa diferença, entre o homem arcaico e o contemporâneo:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Achamos difícil entender a &#8220;alma silvestre&#8221; porque nos causa perplexidade a concepção concreta de uma alma absolutamente separada, vivendo num animal selvagem. Quando chamamos alguma pessoa de camelo, não queremos dizer que, sob todos os aspectos, seja um quadrúpede deste tipo, mas simplesmente que se parece de alguma forma com ele. Separamos uma parte de sua personalidade ou psique e é esta parte que personificamos como camelo. Também a mulher-leopardo é uma pessoa, só que sua &#8220;alma silvestre&#8221; é um leopardo. Como toda a vida psíquica inconsciente é concreta para o primitivo, o apelidado de leopardo possui uma alma de leopardo, ou, numa dissociação ainda mais profunda, a alma de leopardo vive soba forma de verdadeiro leopardo na selva. (JUNG, 2013c, p. 76).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung (2013c, p. 76) demonstra que, ao traduzirmos concretamente tais metáforas, alcançamos o ponto de vista dos “povos primitivos”<a id="_ftnref1" href="#_ftn1">[1]</a>. Na medida em que a sociedade contemporânea nega o aspecto primitivo, instintivo e selvagem inerente ao ser humano, é possível considerar que o fenômeno <strong><em>therian</em> </strong>configure uma resposta ao excesso de civilização.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Tal excesso impacta negativamente a condição humana e sua natureza primitiva: os <em>therians</em> emergem como um movimento de autorregulação da psique em busca de cura, nos moldes já identificados por Jung, segundo o qual “<strong><em>o excesso de animalidade deforma o homem cultural; o excesso de cultura cria animais doentes</em></strong>” (JUNG, 2014b, p. 39).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-desfecho-do-filme-reforca-essa-interpretacao-ao-final-a-mae-civilizada-e-a-mae-animalesca-sao-representadas-pela-protagonista-agora-artista-em-suas-obras-dessa-forma-ela-cria-um-espaco-simbolico-no-qual-os-aspectos-ate-entao-reprimidos-podem-ser-experienciados-por-meio-da-arte" style="font-size:19px">O desfecho do filme reforça essa interpretação: ao final, a mãe civilizada e a mãe animalesca são representadas pela protagonista, agora artista, em suas obras. Dessa forma, ela cria um espaço simbólico no qual os aspectos até então reprimidos podem ser experienciados por meio da arte.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por isso, na clínica, é fundamental compreender o contexto psicossocial em que o indivíduo se encontrava quando emergiu a identidade com o animal, pois tal fenômeno pode representar uma tentativa de afastá-lo de uma identificação patológica com a <em>persona.</em></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: CANINA: metáfora da mulher-cadela" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/v6AYHj3DilU?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Jaqueline Carvalho &#8211; Analista em formação IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/ajaxsalvador/">Ajax Salvador &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Referências</strong>:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">CANINA (Nightbitch). Direção: Marielle Heller. Produção: Anne Carey; Christina Oh; Amy Adams <em>et al.</em> EUA: Searchlight Pictures, 2024. Filme (98 min.).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">JUNG, Carl Gustav. <em>A energia psíquica</em>. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">JUNG, Carl Gustav. <em>Civilização em transição.</em> Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">JUNG, Carl Gustav. <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. Petrópolis: Vozes, 2014a.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">JUNG, Carl Gustav. <em>Psicologia do inconsciente</em>. Petrópolis: Vozes, 2014a.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">JUNG, Carl Gustav. <em>O eu e o inconsciente</em>. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10780" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Matrículas abertas</strong> &#8211; <strong>Novas turmas em Agosto</strong>:&nbsp;<a href="http://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/arteterapia">Arteterapia e Expressões Criativas</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/psicologia-junguiana">Psicossomática</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/psicologia-junguiana">Psicologia Junguiana</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Acesse nosso Canal no&nbsp;<strong><a href="https://www.youtube.com/@IJEPJung/videos">YouTube</a></strong>:&nbsp;<strong>+700 vídeos de conteúdo Junguiano</strong>!</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> A expressão “povos primitivos” é a terminologia empregada pelo autor no período. Atualmente o termo é considerado obsoleto. &nbsp;</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Depressão puerperal</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/depressao-puerperal/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ivone Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Jul 2022 12:20:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depressão]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[depressão puerperal]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Como entender que um momento de tanta felicidade após o nascimento de um bebê, geralmente comemorado por toda a família e considerado normal e tão comum ao ciclo vital de qualquer ser humano se transforme em um momento depressivo? Estranhamente a mãe se sente triste, angustiada, insegura, sensível demais e, muitas vezes, chorando desesperadamente. O [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Como entender que um momento de tanta felicidade após o nascimento de um bebê, geralmente comemorado por toda a família e considerado normal e tão comum ao ciclo vital de qualquer ser humano se transforme em um momento depressivo? Estranhamente a mãe se sente triste, angustiada, insegura, sensível demais e, muitas vezes, chorando desesperadamente. O que estaria acontecendo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde o nascimento de uma menina sabe-se que esta passara por três estágios críticos de vida: adolescência, a gravidez e o climatério. Provavelmente, nem todas as mulheres vivenciarão uma gravidez, mas a gestação e o puerpério são períodos da vida da mulher que  precisam ser vistos com especial atenção, pois envolvem inúmeras alterações físicas, hormonais, psíquicas e sociais, que podem refletir na saúde dessas mulheres. Essas alterações podem resultar em estados temporários de desequilíbrio e em significativas alterações na identidade da mulher devido as grandes expectativas quanto ao papel social esperado (Azevedo, Arrais, 2006). </p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde a infância as meninas treinam o papel de mãe. Qual a menina que nunca foi presenteada com uma boneca? E hoje em dia as bonecas estão sendo comercializadas das mais diferentes formas, assim como os demais brinquedos que imitam o cotidiano de uma dona de casa: pratinhos de comida, fogõezinhos, miniaturas de casas, entre outros. Será que a partir disso estamos ditando normas para essas meninas? Quais seriam a influência de todos esses brinquedos na vida dessas crianças? Quais os modelos que estamos apresentando? Qual seria a menina/mamãe que não vai cuidar da sua boneca? Quais as normas a serem seguidas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há no papel de mãe ideal a crença de que esta deve ser capaz de qualquer sacrifício, entre eles, ser amável, tranquila, compreensiva, terna, equilibrada, acolhedora, feminina em tempo integral. Há um padrão arquetípico envolvido na temática, mas elegemos a imagem da mãe ideal, um modelo de mãe perfeita, uma imagem romanceada da maternidade construída ao longo dos últimos séculos que está alicerçada sob um rígido padrão incapaz de admitir qualquer vestígio de sentimentos ambivalentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, na realidade observamos que após o nascimento do bebê, essa mãe experimenta sentimentos contraditórios e irreconciliáveis com a imagem idealizada de maternidade ditada pelos padrões coletivos. A partir dai, instaura-se um conflito entre o papel ideal e o vivido; aparece o sofrimento, a dor psíquica que pode configurar uma base para a depressão pós-parto.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas considerações devem ser apresentadas para entendermos o sofrimento das novas mamães em nossa sociedade. As crenças sobre a maternidade são passadas de mãe para filha como se fossem tradicionais e naturais e, por assim serem, geralmente são consideradas incontestáveis e difíceis de vivenciar de outra forma. Mas será que essa mãe que conhecemos tem sua propensão natural ao sacrifício? Seu amor universal é automático pelos filhos? E sua completa satisfação está nas tarefas da maternidade? Sempre foi assim?</p>



<p class="wp-block-paragraph">No século XVII, por volta de 1762, quem cuidava dos filhos eram as ama-de-leite e a maternagem não era exercida pela mãe; nessa época Rousseau criticava essas mães que não exerciam sua maternagem e enviavam seus filhos para as ama-de-leite. Criticou esse comportamento e recomendou que os filhos deveriam ser amamentados e criados pelas próprias mães, recriminando quem fizesse o contrário, pois essas estariam preferindo cuidar de seus interesses pessoais e não de seus filhos. A partir desse momento,&nbsp; iniciou-se a &#8220;ordem &#8220;do amor materno, isto é, a condenação a ser mãe e a ser boa mãe. Não havendo alternativa para a mulher: a vocação é natural, instintiva e obrigatória. (Azevedo, Arrais, 2006).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Culturalmente, as representações sociais da maternidade só admitem o mito de mãe perfeita. Se pensarmos sobre isso, veremos que esta concepção assume proporções insustentáveis, segundo as quais acredita-se que a maternidade é inata a mulher e parte do ciclo evolutivo desta. Como quem gera é a mulher, acredita-se que ocorra, automaticamente, o desenvolvimento de grande amor por este ser gerido e ela seria a melhor pessoa para cuidar desse pequeno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante de todas essas considerações, observamos que há dados de literatura sobre o tema que tendem a confirmar que a mãe deve ter um amor incondicional e inato, que a mãe ideal seria aquela que estaria disposta a largar tudo para vivenciar essa responsabilidade sobre o bem-estar psicológico e emocional da família. Com essas crenças, confrontamos o conflito que surge na experiencia dessas mães que sentem-se insatisfeitas, infelizes, tristes, impotentes. Cobranças e comparações são inevitáveis e as novas mamães não conseguem compreender porque não estão vivendo esse papel com alegria, como a sua amiga que está feliz ao amamentar; não entendem como conseguem enfrentar as noites mal dormidas, ser mãe 24h por dia,&nbsp; e não ter de volta a própria vida. Elas sentem-se feias, desajustadas e incapazes de cuidar desse ser que agora depende totalmente de sua dedicação. A maioria sente que não tem disponibilidade interna para cuidar do bebe, amamentar, acalentar, aconchegar, tranquilizar. Sentem-se uma má mãe, uma&nbsp; mãe desnaturada, e sofrem por isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os sentimentos observados vão desde uma pequena sensação de tristeza até um completo desespero, culminando com quadros depressivos e atitudes até então desconhecidas pela própria mãe. Ela entende que suas atitudes são inadequadas e estão fora do padrão conhecido para aquela situação, como, por exemplo, &nbsp;o desespero ao ver o bebe chorando e&nbsp; a vontade de fugir dali ao invés de ouvi-lo e tentar acalma-lo, ou a vontade de &#8220;jogar o bebe pela janela&#8221; quando esse não reage conforme o esperado depois de ser atendido em suas necessidades básicas. Um simples comportamento do bebe, contrário a expectativa da mãe, gera ansiedade, podendo causar um transtorno inaceitável e assustador para ela mesma: ela se sente insegura, sem paciência com o pequeno, desesperada e sem atitude, não sabe o que fazer, impotente. Nesses momentos essa tomada de consciência pode ser assustadora e provocar um choque para a auto-imagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No confronto com a realidade de ser mãe, a nova mãe que acaba de deixar de ser filha, entra em contato com a memória de sua própria maternagem. Somos tomados pelo complexo. Os complexos seriam representados por aquelas atitudes que não aceitamos e que nos tomam sem possibilidade de agir de forma contraria. Corresponde a energia psíquica, com vontade própria que supera nossa intenção consciente. Quando esse complexo esta ativado perdemos nossa liberdade de ação e somos tomados por pensamentos obsessivos, ou atitudes inapropriadas.&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung" style="font-size:23px">Segundo Jung:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"> A existência dos complexos põe seriamente em dúvida o postulado ingênuo da unidade da consciência que é identificada com a &#8220;psique&#8221;, e o da supremacia da vontade. Toda constelação de complexos implica um estado perturbado de consciência. Rompe-se a unidade da consciência e se dificultam mais ou menos as intenções da vontade, quando não se tornam de todo impossíveis. A própria memória, como vimos, é muitas vezes profundamente afetada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daí se deduz que o complexo é um fator psíquico que, em termos de energia, possui um valor que supera, às vezes, o de nossas intenções conscientes; do contrário, tais rupturas da ordem consciente não seriam de todo possíveis. De fato, um complexo ativo nos coloca por algum tempo num estado de não-liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas para os quais, sob certas circunstâncias, o conceito jurídico de imputabilidade limitada seria o único válido.  </p>
<cite>(2013, § 200)</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O complexo materno seria o representante da experiência de maternagem no inconsciente pessoal, e tem em seu núcleo a potencialidade arquetípica do feminino É um complexo fundamental para a estrutura psíquica, pois estrutura a capacidade do indivíduo de estabelecer ligações afetivas com os outros. E, segundo Jung, a mãe está ativamente presente na origem da perturbação, particularmente em neuroses infantis ou naquelas cuja etiologia recua até a primeira infância. Portanto, não podemos deixar de observar a importância da relação mãe- filha na experiência de toda mulher que se torna mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os dados de literatura sobre a depressão puerperal apontam que 20 a 40% das mães apresentam uma disfunção cognitiva no período pós-parto. Nesta perspectiva, essa experiência materna desse período deve ser levada a sério, estudada e ser compreendida para que se faça uma reflexão crítica do conhecimento oriundo do senso comum acerca da vivência da maternidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O estudo dessa depressão puerperal deve abordar desde a compreensão e a definição da intensidade dos sintomas humorais associados a essa fase e que podem variar desde a melancolia da maternidade (baby blues) até as psicoses puerperais, passando pela depressão pós-parto propriamente dita.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-melancolia-e-caracterizada-pela-tristeza-com-labilidade-transitoria-de-humor-sentimentos-de-melancolia-choro-frequentes-disforia-ansiedade-irritabilidade-e-dependencia" style="font-size:17px">A melancolia é caracterizada pela tristeza com labilidade transitória de humor, sentimentos de melancolia, choro frequentes, disforia, ansiedade, irritabilidade e dependência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Atinge cerca de 50% das novas mamães e aparecem entre o terceiro e quarto dia após o parto e tem geralmente remissão espontânea. Estes sentimentos podem durar vários dias e tem sido atribuído à rápida mudança nos níveis hormonais, ao estresse do parto e a consciência da responsabilidade aumentada, que a maternidade traz consigo. Em casos raros cerca de 1 a 2 em cada 1000 nascimentos, aparece a psicose pós-parto; nesse caso, a mãe apresenta ansiedade severa, alucinações e delírios que necessitam tratamento intensivo e por vezes, até hospitalização, ocorrendo entre as duas primeiras semanas após o parto. (Coutinho, Saraiva, 2008).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;O puerpério compreende o período até 6 meses após o parto. E a depressão puerperal estaria relacionada aqueles casos onde observa-se a persistência dos sentimentos de tristeza, insegurança, incapacidade de sentir prazer, cansaço, desesperança, etc. Esses sentimentos estão associados a fatores biológicos, obstétricos, sociais, psicológicos, que se inter-relacionam. Observa-se que a experiência da maternagem configura mudanças profundas na identidade da mulher e na posse de novos papeis, acarretando muitas vezes em conflitos que podem ser um fator de risco para a depressão. Essas mães tendem a perceber a própria experiencia de forma mais negativa do que aquelas sem depressão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após o nascimento das crianças, a mãe terá que enfrentar vários desafios: a dificuldade na amamentação, muitas vezes dolorosa, a dificuldade em lidar com o choro da criança, a falta de suporte do parceiro, problemas de saúde do bebê, dificuldades econômicas, e hoje, especificamente algo próprio da modernidade, a falta de rede de apoio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Poucas mães mencionam a crise psíquica que acompanha o nascimento de um filho, o despertar de sentimentos enterrados há muito tempo a respeito da própria mãe, a mistura de poder e impotência. E, muitas mulheres vão para o parto imersas em fantasias entendendo que após o nascimento do bebê estarão conectadas com esse novo ser e, como se esse fosse um robô, poderão ligá-lo e desligá-lo quando quiserem. Tiraram fotos da barriga grávida, arrumaram o quarto do bebê, providenciaram um lindo enxoval (por muitos, feito nos Estados Unidos), chá de bebê, chá para revelar o sexo e muito mais. E assim vão para a maternidade. Tudo arrumado para o bebê que está para chegar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após a experiência do parto, a realidade&#8230; O bebê, agora fora da barriga da mãe, começa a funcionar independentemente: respira, mama, chora, resmunga, faz caretas, mas está emocionalmente conectado a essa mãe. Concretamente houve uma separação física entre mãe e bebê, mas a fusão mãe-bebe não se desfez, porque tem outro sentido, agora é o emocional que se apresenta, pertence a outra ordem. Esse ser é totalmente dependente e não consegue sobreviver sem seus cuidados, e estão fundidos no mundo emocional. Ele vive como se fosse dele tudo o que a mãe sente e recorda, aquilo que a preocupa ou que rejeita (Gutman, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele reconhece todos os sentimentos maternos, e ela não consegue reconhecer seus mais profundos sentimentos, tudo aquilo que não reside na consciência, está relegado à sombra e ela não quer ter contato. Ou não consegue?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mãe se sente impotente. O recém-nascido está diante da mãe, totalmente indefeso, necessitando de seus cuidados. E ela diante desse bebê não sabe o que fazer, apesar de ter ouvido palestras e feito cursos sobre o assunto. O bebe chora muito, ela não consegue consola-lo, mesmo após ter sido atendido em todas as suas necessidades básicas, o que estaria acontecendo? Se esse bebe chora tanto, porque sua mãe chora tanto? Ela não consegue se conectar com esse bebe, não existe sintonia. Sente-se perdida, sem ação. O padrão imaginado não está correspondendo a realidade, falta uma conexão, isto é, &nbsp;as respostas existem dentro da mãe, mesmo que não sejam evidentes. Nossa ajuda deverá ser no sentido de buscar as respostas dentro dessa alma feminina, se ela realmente estiver disposta a encontrar a si mesma. (Gutman, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A gravidez tem a duração de nove meses e a natureza possibilita que, durante esse tempo, essa mãe se prepare para cuidar dessa nova criança que esta por vir. A preparação para o parto implica o verdadeiro encontro com um eu interior e o conhecimento das capacidades intrínsecas de cada nova mãe. Se essa mãe não se conectou durante esse tempo, o que acontecerá? Observa-se um comportamento infantilizado nas gestantes, que acreditam que todo o processo deve ser perfeito e sem problemas. Diante disso, esse bebê real não corresponde ao imaginado e sonhado. Esse bebê chora sem parar, suja as fraldas, é muito magro, ou é muito gordo, é muito comprido, ou é excessivamente inquieto, não permite que a mãe fique tranquila diante de visitas, queria o parto ‘normal, mas foi cesárea, ou seja tudo o que ela esperava não deu certo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E ainda aquele parto normal tão natural não aconteceu porque ela teve dores por horas e a analgesia só pode ter sido feita no momento certo. Mas e o parto sem dor?  Tudo era desconhecido. A fantasia de um parto normal, tornou-se uma ilusão, pois     acreditava-se que ‘normal implicava em um parto sem dor e rápido, sem complicações ou sem demora. Ela não tem consciência sobre o que é um trabalho de parto, está na ilusão de que teria algumas dores e pronto ali estava o bebê. Ou mesmo sente-se amedrontada pelo parto, sem saber qual seria a melhor decisão no seu caso. Essa é a fantasia atual sobre o parto, que revela o quão distante a mulher está de sua própria condição de parir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As dificuldades da mãe em relação ao bebê, revelam aspectos da sombra da própria mãe. Conectar-se a este novo ser é fundamental para vivenciar esse novo papel. Mas como? Os complexos começam a aparecer, os sentimentos sobre ser filha e ser mãe faz com que ocorram conflitos importantes: o modo como sua mãe exercia a maternagem implica que ela deverá fazer da mesma forma?? Sua experiência, positiva ou negativa, com sua própria mãe será significativamente importante para a vivência da maternagem. Seu papel de mãe está somente começando e ela se sente insegura (será que vai dar conta como a sua mãe ou fará melhor?). </p>



<p class="wp-block-paragraph">As suas certezas agora são dúvidas, suas teorias sobre a criação dos bebes e o que é ser boa mãe tornaram-se incógnitas no seu imaginário, tudo é obscuro, não existe uma receita pronta e até mesmo aquele padrão que deveria ser seguido não está dando certo. A mãe encontra-se tão preocupada que não consegue ter a atitude de ampliar seus sentidos e se conectar com esse bebe que está chorando, procurando assim pelo motivo de tal reclamação. Motivo esse que o simples acalento não foi suficiente para tranquiliza-lo. Seu sentimento de ter sido filha e ter tido uma mãe positiva, ( carinhosa, afetiva, calma, que supriu suas necessidades básicas nos momentos esperados), não estão sendo satisfatórios. O padrão conhecido não esta dando certo. Essa unilateralidade de atitudes cega seus olhos e ela não consegue perceber que pode haver outra forma de agir diante das necessidades desse bebe. Ampliar sua consciência para o que esta acontecendo é fundamental nesse momento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, se sua experiencia como filha foi negativa, por ter tido uma mãe mais desprendida, mais independente, menos carinhosa, faz com que seja mais preocupada e muito exigente consigo mesmo, achando que o correto é estar ali grudada no bebe 24hs, sem tempo para nada, sem comer ou dormir ou ate cuidar de si mesma. E mesmo assim o bebe também não corresponde positivamente, chora por qualquer coisa, é inquieto, não dorme, enfim, um bebe com comportamentos os mais diversos sem padrões definidos, uma criança que chegou ao mundo para viver sem comportamentos determinados.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-existe-dificuldade-na-conexao-com-esse-bebe-ser-mae-eis-a-questao-como-fazer" style="font-size:19px">Existe dificuldade na conexão com esse bebê. Ser mãe, eis a questão. Como fazer?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Criar um bebê real é também reviver o bebê que fomos, a filha que vivenciamos e confrontar-nos com a nossa mãe interna. Quando essas mães não atendem às necessidades próprias, simplesmente a sombra aparece, na forma de doenças, sensações incomodas, choro, entre outras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse novo ser que chega ao mundo, requer uma sintonia profunda da mãe com seu interior e com o próprio bebê, esquecer os padrões aprendidos e os palpites externos, a mãe é convidada sair da unilateralidade e deixar-se levar pela sua intuição materna. Esses sintomas de humor deprimido, fraqueza, tristeza, energia reduzida dependem das autoridades que julgam. Há uma avaliadora interna que compara padrões e considera que havia mais prazer antes do que agora e que isto é ruim. Há outra que julga seus pensamentos diante dessa comparação. Há outra que olha seu bebe e fica feliz com sua presença. Não existe somente a comparações, há também a valoração negativa para o sofrimento, a fadiga, auto estima, autoconfiança reduzida, enquanto as tarefas de mãe apenas aumentaram levando a uma maior fatigabilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Gutman (2014), quando as mulheres assumem sua existência natural, isto é, sem controles, adquirem conhecimento, visão, inspiração, intuição e a própria vida vibra dentro e fora delas. O conhecimento e essa vivencia do feminino; de se sentir&nbsp; mulher sem padrões definidos, é o que possibilita perceber os sons dos ritmos internos e externos, e viver ao som destes para não perder o equilíbrio espiritual. Quando as mulheres se afastam de sua natureza, por estarem envolvidas com os padrões culturais ou intelectuais, perdem seus instintos e os ciclos vitais naturais ficam submetidos à cultura, ao ego, seja o próprio ou o dos demais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Gutman</strong> (2014) , o parto e a amamentação são situações apropriadas para as mulheres se conectarem com os aspectos mais naturais e selvagens de seu ser essencial. A amamentação ainda facilita o aflorar desses sentimentos. Amamentar é se deixar levar pelo encantamento da vida, é estar livre para mimar, cantar, contar estórias, ouvir o bebe e sentir seu coração pulsando junto e em sintonia. Sem métodos, horários ou conselhos. É puramente sensação, uma experiencia mística, se permitirmos que isso aconteça. Isto somente é possível quando se compreende que existe um profundo vinculo com a mãe terra e que faz parte da psicologia feminina. A união com a natureza é própria do feminino e, quando esse aspecto não se manifesta na amamentação, as dificuldades são maiores e dificultam a vivencia da maternagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Ivone Ferreira</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/ivoneferreira/">Ivone Ferreira</a> &#8211;  médica, ginecologista, Analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Atendimento:&nbsp;Rua Barão do Triunfo n. 427- conj. 1002</p>



<p class="wp-block-paragraph">Brooklin &#8211; SP &#8211;&nbsp; Fone (11) 5031 6203 &#8211; secretária Cristina&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="mailto:Contato@nucleoivoneferreira.com.br">Contato@nucleoivoneferreira.com.br</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">AZEVEDO, K.R.; ARRAIS, A.R. O mito da mãe exclusiva e seu impacto na depressão pós-parto. Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, v. 19, n.2, p.269-276,2006</p>



<p class="wp-block-paragraph">COUTINHO, M.P.L.; SARAIVA, E.R.A. Depressão pós-parto: considerações teóricas. Estudo e Pesquisas em Psicologia, Rio de Janeiro, ano 8, n.3, p. 759-773, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUTMAN, l. A maternidade: e o encontro com a própria sombra, Rio de Janeiro, tradução: Luís Carlos Cabral. -7ª.ed.,2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. A natureza da psique. Tradução de Mateus Ramalho Rocha. &#8211; 10. ed. &#8211; Petrópolis: Vozes, 2013. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>
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		<title>(Re)pensar a maternidade tardia sob a perspectiva da psicologia analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/re-pensar-a-maternidade-tardia-sob-a-perspectiva-da-psicologia-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Simone Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Mar 2022 18:18:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5061</guid>

					<description><![CDATA[<p>Reflexão sobre o amadurecimento feminino e a maternidade tardia.  A metanoia e processo de ser mãe.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Débora Moraes Campos</p>



<p class="wp-block-paragraph">O referencial teórico científico a respeito das possíveis alterações psíquicas das mulheres na gestação e pós-parto é extenso. Muitos pesquisadores se debruçaram sobre o tema. No entanto, ainda existe uma lacuna acadêmica que aproxime os conteúdos relacionados à maternidade vivida mais tardiamente com a Metanoia tão falada por Jung. Para realizar essa aproximação também é necessário relacionar o tema da maternidade com outros conceitos junguianos, como, por exemplo, o da sombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A gravidez é uma fase transitória do ciclo vital, no entanto, a maternidade não finda com o nascimento do bebê, pele contrário, ela se torna um estado perene e por isso todo esse contexto induz a mulher a reorganizar sua identidade. O continuum gestação, parto e puerpério apresenta variáveis psicológicas e biológicas intrínsecas. Há ainda, a alteração do status social e profissional que podem contribuir para a instalação de uma crise psíquica (TRAVASSOS-RODRIGUEZ, 2013).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não raro, algumas mulheres ludibriadas por encantamentos egóicos parecem passar pela gestação como se estivessem em um estado de embriaguez, vivendo a chamada “doce espera”. A sociedade também reforça culturalmente esse processo de congelar a gestante nessa “fantasia” de que nos meses vindouros elas poderão brincar de boneca na vida real, como outrora brincaram na infância (GUTMAN, 2019).</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Quando temem entrar no mundo adulto e dão à luz em estado infantil, o bebê real tem pouco a ver com o bebê imaginado, sonhado e fantasiado a partir do conto de fadas que vem contando a si mesmas desde pequenas. É um bebê que chora sem parar, suja as fraldas, não adere ao peito, é muito magro, muito comprido ou muito largo, não se conecta, é excessivamente inquieto, não permite que a mãe fique bem diante das visitas ou não a deixa em paz, ou ainda, não se parece com ninguém. É menino, quando se queria uma menina, ou vice-versa, nasceu antes ou depois do previsto, foi cesariana quando o esperado era um parto normal, não engorda, ou não se acalma, ou não dorme, ou é nervoso. Seja como for, é diferente do que se esperava. É profundamente desconhecido. Um recém nascido é isso: a manifestação organizada da sombra da própria mãe, ou seja, tudo o que ela rejeita, desconhece ou dói em seu profundíssimo ser essencial” (GUTMAN, 2019, pag. 94).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Além da aparição da sombra ocorrida durante a maternidade, as mulheres se veem de fora do mundo concreto durante o puerpério. Mesmo com a instalação dos estopins de crise psíquica, elas seguem com a obrigação de continuarem funcionando de acordo com as regras da sociedade. A recém empossada mãe perde seus espaços de identificação (trabalho, círculo de amigos, espaços de lazer) para ficar à disposição do bebê de forma integral. Nasce o sentimento de estarem “fora do mundo” caracterizado por tanto pela sensação de estarem enclausuradas como pela sensação de desconexão. Esses estados não foram escolhidos de forma consciente pelas mães e nunca foram imaginados por elas até a chegada do bebê (GUTMAN, 2019).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao transferir esse mesmo contexto para o cenário da mulher que vive a maternidade no meio da vida é comum nos deparamos com uma dupla crise psíquica: àquela advinda da maternidade a outra desencadeada pela Metanoia. É muito comum, na cultura social vigente, que as mulheres posterguem a maternidade para além dos 36 anos. Um estudo realizado pela Universidade de Kent na Alemanha, considera que a meia-idade das pessoas corresponde ao período entre 36 e 57 anos. Jung utiliza o termo Metanoia para designar o processo ocorrido a partir da segunda metade da vida. Nesse processo ocorre uma mudança na direção da libido que não estará mais direcionada para o mundo externo e sim para o mundo interno da pessoa. Ocorre um diálogo com o inconsciente (JUNG, 2013). Portanto, se a maternidade abre um diálogo com o inconsciente através do confronto com a sombra e a meia idade também o faz, pode-se, dessa forma encontrar uma sobreposição de crises, ou por outra análise, um aprofundamento da crise instalada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estudos recentes trazem à tona, a questão que o alto nível de expectativa das mães com idade mais avançada em relação ao seu próprio desempenho como mães pode ser uma armadilha na adaptação à maternidade. Esses mesmos estudos destacam que as experiências anteriores de grande autonomia sobre os variados aspectos da própria vida podem ser uma grande fonte de estresse para as mulheres que se deparam com a nova e imprevisível tarefa de cuidar de um bebê.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outra reflexão que pode ser levantada é que mulheres que vivem a maternidade mais tardiamente podem estar vivenciando de forma prolongada a jornada do herói do Ego. Hollis (1995) afirma que quanto mais tempo o indivíduo permanece inconsciente (o que é fácil acontecer na nossa cultura), maior é probabilidade dessa pessoa estar encarando a vida como uma sucessão de momentos que conduzem a um vago objetivo. Nesse contexto, muitas mulheres que vivenciam a maternidade tardiamente podem vive-la como mais um acontecimento sucessivo em sua vida (a velha história do relógio biológico), sem imaginarem que ser mãe pode precipitar além do encontro com a sombra a instauração da Metanoia. Para Hollis (1995) a Metanoia é uma experiência psicológica e não um evento cronológico. Ela ocorre quando o indivíduo se vê obrigado a encarar sua vida como algo mais do que mera sucessão linear de anos.&nbsp; Ele relata que o indivíduo encontra o caminho do meio quando abandona o pensamento mágico da infância, bem como o pensamento heroico da adolescência e percebe que ambos não coincidem mais com a sua vida atual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A maternidade vivida no outono da vida das mulheres, ou seja, na segunda metade da vida, poderá precipitar em um estado de “inconsciente a céu aberto”, tanto pelo efluxo de conteúdos sombrios quanto por ser também um bilhete apenas de ida rumo à Metanoia. Cabe à mulher, ao nutrir o desejo e a intenção de ser mãe, entender que não só um pré-natal biológico terá que ser realizado, mas também um pré-natal psíquico visando que o Ego se prepare para ser permeável e flexível diante da crise de identidade que irremediavelmente virá. A vivência da maternidade deve ser realizada com prontidão emocional e psíquica. Caso a mulher o viva em puro estado de inconsciência e de forma infantil, ela poderá se sentir desfacelada e não conseguir reestruturar o seu ego. Isso pode trazer consequências desastrosas para a vida da mulher, do bebê que nasceu e do núcleo familiar a que ela pertence.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Débora Moraes Campos, Membro Analista em Formação do IJEP &#8211; Brasília</p>



<p class="wp-block-paragraph">Didata responsável: E. Simone D. Magaldi</p>



<p class="wp-block-paragraph">REFERÊNCIAS</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUTMAN, L. <em>A maternidade e o encontro com a própria sombra</em>. 17ed. Rio de Janeiro: Best Seller, 2019.</p>



<h1 class="wp-block-heading"><strong>HOLLIS, J. A Passagem do Meio: da Miséria do Significado da Meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.</strong></h1>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp; <em>Aion</em> – estudo sobre o simbolismo de si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">TRAVASSOS-RODRIGUEZ, Fernanda; FERES-CARNEIRO, Terezinha. <em>Maternidade tardia e ambivalência:</em> algumas reflexões.<strong>&nbsp;Tempo psicanal.</strong>,&nbsp; Rio de Janeiro ,&nbsp; v. 45,&nbsp;n. 1,&nbsp;p. 111-121,&nbsp;jun.&nbsp; 2013 . Disponível em &lt;http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0101-48382013000100008&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. acessos em&nbsp; 29&nbsp; set.&nbsp; 2020.</p>
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