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	<title>Arquivos morte simbólica - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos morte simbólica - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O Labirinto da Alma: Uma Jornada de Individuação em O Labirinto do Fauno</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-labirinto-da-alma-uma-jornada-de-individuacao-em-o-labirinto-do-fauno/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Nino Karvan]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 31 Jul 2026 18:37:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[guillermo del toro]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente coletivo]]></category>
		<category><![CDATA[labirinto do fauno]]></category>
		<category><![CDATA[morte simbólica]]></category>
		<category><![CDATA[ofélia]]></category>
		<category><![CDATA[processo de individuação]]></category>
		<category><![CDATA[self]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
		<category><![CDATA[traumas]]></category>
		<category><![CDATA[vida e morte]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No filme “O Labirinto do fauno” (2006), a trajetória de Ofélia, interpretada pela atriz Ivana Baquero, pode ser compreendida como um processo simbólico de individuação, onde o sofrimento é ressignificado por meio de uma escolha ética. Ofélia não foge do mundo, ela o atravessa por dentro, transformando a dor em uma escolha que dá sentido ao caos. Em vez de evasão da realidade, observa-se uma integração psíquica que a reconcilia com a brutalidade do mundo externo. No labirinto, não há fuga, mas um retorno à própria alma.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: No filme “O Labirinto do fauno” (2006), a trajetória de Ofélia, interpretada pela atriz Ivana Baquero, pode ser compreendida como um processo simbólico de individuação, onde o sofrimento é ressignificado por meio de uma escolha ética. Ofélia não foge do mundo, ela o atravessa por dentro, transformando a dor em uma escolha que dá sentido ao caos. Em vez de evasão da realidade, observa-se uma integração psíquica que a reconcilia com a brutalidade do mundo externo. No labirinto, não há fuga, mas um retorno à própria alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filme opera como um mito contemporâneo estruturado a partir do inconsciente coletivo, articulando imagem, narrativa e transformação interior. A confrontação com a sombra emerge como etapa decisiva na constituição da consciência e da totalidade do sujeito. O heroísmo desloca-se da dimensão da força para a da integridade moral diante do limite e da morte. A obra sugere, assim, que o caminho para o Self implica a travessia do labirinto psíquico e não sua negação.</p>



<h2 id="h-introducao-o-encontro-com-o-inconsciente-coletivo" class="wp-block-heading">Introdução: O Encontro com o Inconsciente Coletivo</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em O Labirinto do Fauno (2006), Guillermo Del Toro não cria apenas uma narrativa fantástica ambientada na brutalidade da Espanha franquista; ele constrói um profundo e comovente mapa da psique humana em busca de integração. O cineasta, que já afirmou ter influência de Jung, oferece uma obra-prima que transcende o gênero para se tornar um conto de fadas sobre o processo de individuação, o confronto com o inconsciente e a reconciliação com o trauma. Através da jornada da menina Ofélia, o filme personifica conceitos centrais da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, utilizando um rico imaginário simbólico que ressoa com o inconsciente coletivo através das influências arquetípicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4"><em>“O nosso problema é que dividimos as coisas que podem ser instintivas e coletivas, e compartimentalizamos a nossa percepção de tal forma que só as captamos em vislumbres, e penso que é aí que a ideia do arquétipo junguiano entra em ação…”</em><em> (Del Toro, 2025, p.01) </em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma possível análise de O Labirinto do Fauno à luz da psicologia junguiana revela a história de uma alma que, para se tornar completa, precisa enfrentar seu próprio labirinto interno. Para Jung, a individuação é o processo pelo qual uma pessoa se torna um &#8220;indivíduo&#8221; psicológico, uma unidade separada e indivisível, ou um &#8220;Si-mesmo&#8221; (Self) integrado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4"><em>&nbsp;&#8220;</em><em>Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por “individualidade” entendermos nossa singularidade mais intima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio sí-mesmo.” </em><em>(Jung, 20</em><em>15</em><em>, p. </em><em>63</em><em>).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Este ensaio propõe-se a explorar como os elementos fantásticos do filme, o Fauno, o Labirinto, o Homem Pálido e a jornada da própria Ofélia, atuam como arquétipos e símbolos que guiam a protagonista (e o espectador) através das sombras e do trauma histórico e pessoal, em direção a uma escolha moral e espiritual que redefine sua identidade.</p>



<h2 id="h-o-labirinto-como-simbolo-do-caminho-da-individuacao" class="wp-block-heading">O Labirinto Como Símbolo do Caminho da Individuação</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O labirinto, que dá título ao filme, seria o símbolo central da jornada psicológica. Mais do que um mero cenário, ele representa o caminho tortuoso e não-linear que Ofélia deve percorrer para encontrar seu centro, seu &#8220;Si-mesmo&#8221;. A estrutura labiríntica, com seus becos sem saída, encruzilhadas e centro oculto, é uma metáfora visual para a psique humana e o processo de individuação, que é uma &#8220;odisseia&#8221; através do inconsciente.&nbsp; O labirinto pode ser entendido, simbolicamente, como o local onde o mundo exterior da opressão franquista e o mundo interior da fantasia se encontram e se confrontam. O labirinto, espaço de teste e de provação iniciática, pode ser entendido como uma representação espacial do caminho para o centro da alma, onde ocorre a integração das forças opostas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4">“<em>é preciso, antes de tudo, trilhar a via da doença, o labirinto de erros, que agrava inicialmente ainda mais os conflitos e aumentam a solidão até torná-la insustentável. Mas há a esperança de que do fundo da alma, de onde provém todos os elementos destruidores, nasçam igualmente os fatores de salvação. (JUNG, 2020, p. 100)</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O centro do labirinto seria o ponto de encontro com o Self, o arquétipo da totalidade, que na mitologia é guardado por uma criatura temível. A jornada de Ofélia em direção ao centro não é apenas física, mas profundamente psicológica, um movimento em direção à sua própria verdade.</p>



<h2 id="h-o-fauno-o-arquetipo-do-guia-e-a-sombra-do-instinto" class="wp-block-heading">O Fauno: O Arquétipo do Guia e a Sombra do Instinto</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Fauno, a criatura híbrida que se apresenta como guia de Ofélia, é uma figura arquetípica complexa que desafia definições simplistas. Ele não é um anjo benevolente, nem um demônio malévolo; ele é uma personificação do princípio instintivo e da própria natureza, com toda a sua ambivalência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como um ser que habita a fronteira entre o mundo humano e o natural, ressoa com a figura do guia espiritual que, na mitologia e nos contos de fadas, conduz o herói ao desconhecido. Sua natureza ambígua aponta para a verdade de que a jornada para o Self não é uma estrada segura e confortável. Ela exige confrontar aspectos obscuros e assustadores. O Fauno testa Ofélia, colocando-a em situações de perigo moral e físico. Essa função de teste está em consonância com a ideia de que os arquétipos que emergem do inconsciente coletivo têm um poder numinoso, pois são fontes tanto de sabedoria quanto de terror.</p>



<h2 id="h-o-conhecimento-dos-arquetipos-significa-um-avanco-importante-o-efeito-magico-ou-demoniaco-sobre-a-pessoa-do-outro-desaparece-porque-a-sensacao-perturbadora-e-restituida-a-uma-dimensao-definitiva-do-inconsciente-coletivo-jung-2020-p-109" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>&#8220;O conhecimento dos arquétipos significa um avanço importante. O efeito mágico ou demoníaco sobre a pessoa do outro desaparece, porque a sensação perturbadora é restituída a uma dimensão definitiva do inconsciente coletivo.&#8221; (Jung, 2020, p. 109).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;A jornada de Ofélia para recuperar sua identidade como princesa, portanto, não é uma simples fuga da realidade, mas um engajamento ativo com as forças primordiais que moldam a psique. O Fauno, como guia, também encarna a figura do &#8220;velho sábio&#8221;, um arquétipo que normalmente aparece nos sonhos como uma figura que representa conhecimento, reflexão, sabedoria e também a intuição. Contudo, a sabedoria que ele oferece é enigmática e exige que Ofélia decifre por si mesma o significado de suas provações. O filme, pensado como uma fábula sobre escolhas e desobediência, &nbsp;nos fala sobre a forma como o indivíduo pode decidir viver ou morrer. Isso define como o indivíduo escolhe como quer comandar sua vida. Essa tensão entre obediência e escolha pessoal é o motor da jornada iniciática.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4"><em>“A desobediência é um dos sinais mais fortes da sua consciência sobre o que é certo e o que é errado. Quando você desobedece de forma inteligente, de forma natural, isso acaba sendo mais benéfico do que a obediência cega. A obediência&nbsp; cega, nega, esconde e destrói o que nos torna humanos. Por outro lado, o instinto e a desobediência sempre apontarão para uma direção que deveria ser natural, orgânica ao mundo. Então, eu acho que a desobediência é uma virtude e a obediência cega é um pecado.” (DEL TORO, 2006 p.2)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-primeira-prova-e-o-confronto-com-o-ctonico" class="wp-block-heading">A Primeira Prova e o Confronto com o Ctônico</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A jornada de Ofélia começa com uma descida: ela deve entrar no interior de uma figueira centenária e enfrentar um sapo gigante. Este cenário é, em si, uma poderosa metáfora para o mergulho no inconsciente. Ofélia desce à terra, ao úmido e ao escuro, para encontrar o que há de mais primitivo, não apenas no mundo ao redor, mas dentro de si mesma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sapo, neste contexto, pode ser compreendido como uma representação do aspecto mais &#8220;ctônico&#8221; (da terra) e instintivo da psique. Não como um &#8220;monstro&#8221; a ser destruído, mas como uma energia estagnada e corrompida que precisa ser purificada. Poderímaos fazer uma analogia alquímica acerca do mergulho ao encontro com a &#8220;nigredo”, os alicerces obscuros da personalidade que precisam ser integrados para que o processo de individuação prossiga.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>“A obra alquímica começa justamente com a descida às trevas (nigredo) ou ao inconsciente.” (JUNG, 2020, p. 178)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Ofélia não vence pela força bruta, mas pela coragem e pela utilização de um elemento espiritual: as três pedras de âmbar, que representam um fio de consciência e conexão com o sagrado. Ao colocá-las na boca do sapo, ela não o destrói, mas o transforma, extraindo de seu corpo a chave que abrirá caminhos futuros. Este ato é a primeira vitória simbólica sobre a matéria bruta e o instinto desgovernado, um passo essencial de &#8220;purificação&#8221; para que a heroína possa continuar sua jornada, um o rito de passagem que inicia Ofélia em seu caminho de individuação.</p>



<h2 id="h-a-prova-do-homem-palido-enfrentando-a-sombra-e-o-trauma" class="wp-block-heading">A Prova do Homem Pálido: Enfrentando a Sombra e o Trauma</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A cena do Homem Pálido é uma das sequências mais aterrorizantes e ricas em simbolismo de todo o filme. O Homem Pálido, uma criatura com olhos nas mãos que se alimenta de crianças, é uma manifestação poderosa da Sombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O banquete com a mesa farta, sobre a qual a criatura se senta, representa a tentação de se entregar aos prazeres e desejos ilusórios do mundo material, uma fuga da realidade que Ofélia deve rejeitar. Ao desobedecer à ordem estrita do Fauno para não tocar em nada, Ofélia comete um erro que a coloca em perigo mortal, despertando a besta. Este ato simboliza o confronto inevitável com a Sombra. A criatura coloca os olhos nas mãos, um detalhe horripilante que pode ser interpretado como a incapacidade de ver com clareza, ou seja, a visão está nas ações. O Homem Pálido não é apenas um monstro externo; ele é o símbolo do horror que existe dentro do coração humano, o fascismo, a crueldade e o apetite insaciável pelo poder que assombram o mundo real do filme.</p>



<h2 id="h-lembremos-que-o-filme-se-passa-logo-apos-a-guerra-civil-espanhola-no-inicio-da-ditadura-fascista-de-franco-ambientado-numa-floresta-onde-a-resistencia-antifacista-realiza-ainda-a-sua-luta-poderiamos-interpretar-isso-como-sendo-uma-forma-do-cineasta-demonstrar-a-sombra-da-sociedade-catolica-e-limpa-a-luz-da-persona-social-fascista-mas-terrivelmente-sombria-em-suas-entranhas" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Lembremos que o filme se passa logo após a guerra civil espanhola no início da ditadura fascista de Franco, ambientado numa floresta onde a resistência antifacista realiza ainda a sua luta. Poderíamos interpretar isso como sendo uma forma do cineasta demonstrar a sombra da sociedade católica e “limpa”, à luz da persona social fascista, mas terrivelmente sombria em suas entranhas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O monstro representa a opressão e a crueldade do regime franquista espanhol, como sombra coletiva, tendo como sua contraparte a figura do capitão representando a persona coletiva. A cadeira do monstro lembra um trono e a sala se assemelha a uma catedral. Guillermo del Toro criticou a cumplicidade da Igreja com a ditadura. A mesa está cheia de comida abundante, enquanto isso, a população do lado de fora passa por racionamento e fome. A ganância institucional é representada através do &nbsp;monstro que consome vidas inocentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse contraponto de mesa farta e fome fica bem claro também no banquete servido pelo capitão, sentado à cabeceira, qual o Homem Pálido, recebendo autoridades políticas e eclesiásticas. &nbsp;Os sapatos infantis empilhados no canto da sala reforçam essa ideia. Devorar as fadas é citação direta à mitologia clássica retrata na famosa tela “Saturno Devorando um filho”, &nbsp;de Francisco Goya. Ou seja, o monstro do fascismo que devorou a criança interior da sociedade espanhola que sonhava em ser República democrática e socialmente justa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filme, por outro lado também demonstra que nessa sombra também reside o potencial incrível da sociedade que resiste, através do seu lado mais criativo simbolizado pela busca da criança protagonista e pela luta da resistência antifascista.</p>



<h2 id="h-a-escolha-final-morte-renascimento-e-a-totalidade-do-self" class="wp-block-heading">A Escolha Final: Morte, Renascimento e a Totalidade do Self</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O desfecho de O Labirinto do Fauno é paradigmático para uma leitura junguiana. Diante da escolha final de sacrificar seu irmão inocente para garantir seu próprio retorno ao reino onde seria uma princesa, Ofélia recusa. Ela coloca a vida de outro acima de seus próprios desejos, mesmo que isso signifique sua morte no mundo real. Este ato de abnegação não é uma derrota, mas a consumação de sua jornada de individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao escolher o amor e o sacrifício em vez da ambição e da auto-preservação, Ofélia integra as partes conflitantes de sua psique. Ela renuncia ao desejo egoísta de ser uma princesa para se tornar uma pessoa plena, capaz de escolher seu próprio destino. A sua morte física, pelo seu padrasto, é, psicologicamente, um renascimento. Essa morte simbólica é o preço necessário para a conquista da totalidade.</p>



<h2 id="h-o-ultimo-ato-da-biografia-do-heroi-e-a-morte-ou-partida-aqui-e-resumido-todo-o-sentido-da-vida-desnecessario-dizer-o-heroi-nao-seria-heroi-se-a-morte-lhe-suscitasse-algum-terror-a-primeira-condicao-do-heroismo-e-a-reconciliacao-com-o-tumulo-campbell-2007-p-339" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“O último ato da biografia do herói é a morte ou partida. Aqui é resumido todo o sentido da vida. Desnecessário dizer, o herói não seria herói se a morte lhe suscitasse algum terror; a primeira condição do heroísmo é a reconciliação com o túmulo”. (CAMPBELL, 2007, p.339)</em><em></em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A cena final, em que Ofélia retorna ao seu trono no reino subterrâneo, não deve ser vista como uma simples fuga da realidade, mas como a restauração da ordem psicológica. Ela encontrou seu lugar no mundo, não como uma princesa passiva, mas como uma heroína que agiu com coragem e integridade. O reino para onde ela vai é o reino do Self, a morada da alma que alcançou a totalidade. Von Franz explica que:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4"><em>&nbsp;&#8220;</em><em>Em linguagem psicológica, o corpo morto transforma-se numa imagem do inconsciente coletivo e, em seu aspecto de unidade, transforma-se no Self.”</em><em> (Von Franz, 19</em><em>84</em><em>, p. 1</em><em>16</em><em>).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A narrativa do conto de fadas, portanto, não é sobre a negação da realidade, mas sobre a sua transcendência através de uma escolha moral que ressignifica o sofrimento. Ofélia, ao final, não escapa da realidade; ela a transforma internamente, encontrando um significado que a reconcilia com a brutalidade do mundo exterior.</p>



<h2 id="h-conclusao-a-atualidade-do-mito-e-o-caminho-para-o-self" class="wp-block-heading">Conclusão: A Atualidade do Mito e o Caminho Para o Self</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Labirinto do Fauno se revela, à luz da psicologia junguiana, como um poderoso mito moderno sobre o processo de individuação. A jornada de Ofélia é a jornada de todos aqueles que se veem forçados a navegar por um mundo de opressão, violência e sofrimento, buscando encontrar um centro de integridade e significado. O filme demonstra que o verdadeiro heroísmo não está na força ou na fuga, mas na coragem de enfrentar o labirinto da própria alma, de confrontar a Sombra e de fazer escolhas que afirmem a vida, mesmo diante da morte.</p>



<h2 id="h-del-toro-ao-utilizar-um-imaginario-profundamente-enraizado-no-inconsciente-coletivo-cria-uma-obra-de-arte-que-nao-apenas-entretem-mas-que-tambem-cura" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Del Toro, ao utilizar um imaginário profundamente enraizado no inconsciente coletivo, cria uma obra de arte que não apenas entretém, mas que também cura.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao transformar a brutalidade da história em uma fábula/parábola sobre a escolha moral, o filme reafirma a crença junguiana de que o caminho para a totalidade é o caminho para uma vida autêntica, iluminada pela luz da consciência e selada pelo amor. O labirinto, no final, não é uma prisão, mas o caminho que nos leva de volta a nós mesmos.</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/nino-karvan/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/nino-karvan/">Nino Karvan &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 id="h-bibliografia" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">BIBLIOGRAFIA:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces.&nbsp; São Paulo: Cultrix, 2007.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DEL TORO. Guilhermo. Screenanarchy entrevista Guilhermo Del Toro, o diretor de O Labirinto do Fauno. Entrevista concedida a Michael Guillen. Nova York, 17 de dezembro de 2006. Disponível em: <a href="https://screenanarchy.com/2006/12/pans-labyrinthinterview-with-guillermo-del-toro.html">https://screenanarchy.com/2006/12/pans-labyrinthinterview-with-guillermo-del-toro.html</a> . 2006.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">EBY, Douglas. Artista que utilizam a Psicologia Junguiana para desenvolver a imaginação criativa. Matéria publicada em médio.com. Beverly Hils, 13 de outubro de 2025. Disponível em:&nbsp; <a href="https://medium.com/creative-mind-resources/artists-using-jungian-psychology-to-develop-creative-imagination-1c88aa8b129d.">https://medium.com/creative-mind-resources/artists-using-jungian-psychology-to-develop-creative-imagination-1c88aa8b129d.</a> 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Car Gustav. Aion &#8211; Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2020.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A Vida Simbólica. Petrópolis: Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie-Louise. Os sonhos e a morte. São Paulo: Cultrix, 1984.</p>



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		<title>No meio da vida, é preciso imaginar Sísifo infeliz</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/na-meio-da-vida-e-preciso-imaginar-sisifo-infeliz/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Wagner Borges]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Dec 2025 13:44:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[cgjung]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
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		<category><![CDATA[morte e renascimento]]></category>
		<category><![CDATA[morte simbólica]]></category>
		<category><![CDATA[sísifo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O mito de Sísifo, numa perspectiva junguiana, pode ilustrar a resistência humana a abrir mão de uma atitude psíquica obsoleta para a descoberta de uma nova e necessária atitude. O escritor franco-argelino, Albert Camus, defende que Sísifo representa o ideal heróico humano em face do absurdo da vida. Por isso, para ele, seria preciso [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O mito de Sísifo, numa perspectiva junguiana, pode ilustrar a resistência humana a abrir mão de uma atitude psíquica obsoleta para a descoberta de uma nova e necessária atitude. O escritor franco-argelino, Albert Camus, defende que Sísifo representa o ideal heróico humano em face do absurdo da vida. Por isso, para ele, seria preciso imaginar Sísifo feliz no Tártaro. A partir de dados de um estudo realizado com pessoas bem-sucedidas na meia-idade, mas paradoxal e perturbadoramente infelizes, este pequeno ensaio aborda Sísifo como um complexo afetivo, contrapõe a leitura clássica à de Camus e propõe uma rota de saída do nosso mais íntimo Tártaro, o qual costumamos visitar no meio da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-crise-da-meia-idade-e-assunto-antigo-no-meio-junguiano" style="font-size:20px">A crise da meia-idade é assunto antigo no meio junguiano.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Foi no meio da vida que Jung produziu o conteúdo d’<em>O Livro Vermelho</em>, lírica nascente do que viria a se tornar boa parte de suas obras completas. No entanto, por muito tempo, o tema parece ter sido negligenciado pelos meios acadêmicos científicos tradicionais. Com o envelhecimento da população mundial, porém, o assunto emerge na academia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Estudo publicado há três anos pelo National Bureau of Economic Research (NBER) dos Estados Unidos, intitulado The Midlife Crisis, confere um verniz materialista-científico à metanoia, palavra do grego que significa “mudança de mentalidade” e que, no meio junguiano, costuma designar também o drama que muitas pessoas vivem ao chegar ao meio-dia da vida. Realizado por um grupo de economistas, a pesquisa envolveu uma amostra de 500 mil pessoas de países ricos — Áustria, Canadá, Finlândia, França, Holanda, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos — e, na visão dos pesquisadores, revelou que a crise da meia-idade não é misticismo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-o-estudo-assinado-por-giuntella-et-al-2022-p-19-20-ha-evidencias-longitudinais-de-extrema-angustia-entre-adultos-de-meia-idade-entre-quarenta-e-cinquenta-anos-em-paises-ricos" style="font-size:19px">Segundo o estudo, assinado por <strong>Giuntella</strong> (et al., 2022, p. 19-20), há “<em>evidências longitudinais de extrema angústia entre adultos de meia-idade [entre quarenta e cinquenta anos] em países ricos</em>”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O que parece fugir inteiramente à razão dos pesquisadores, segundo os quais, “<em>esses indivíduos estão próximos de seus ganhos máximos ao longo da vida e, em geral, não passaram por nenhuma doença grave</em>”. Ou seja, com grana e, em tese, ainda com vitalidade de sobra, tais “evidências de extrema angústia”, o que inclui depressão extrema, ideações suicidas, suicídio, distúrbios do sono, entre outros, só podem ser, na palavra dos próprios pesquisadores, um “paradoxo pertubador” da “sociedade moderna”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>É possível afirmar que, sob a lente junguiana, não há, no sentido apontado pelo estudo, paradoxo na metanoia, embora haja perturbação de sobra</strong>. Mas como pode não ser paradoxal se os caras estão no ápice de suas carreiras, com segurança financeira e são, em grande medida, bem-sucedidos? Por que estariam infelizes, deprimidos e pensando ou cometendo suicídio?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nossos-quereres-sao-menos-nossos-do-que-supomos-e-mudam-ao-longo-da-existencia" style="font-size:19px">Nossos quereres são menos nossos do que supomos e mudam ao longo da existência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Como escreveu <strong>Jung</strong> (2013a, p. 354): “<em>Não podemos viver a tarde de nossas vidas segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã, será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã, será falso no entardecer</em>”. Contudo, numa sociedade que supervaloriza a hiperprodutividade, o vigor, a beleza sensual, o sucesso, a conquista material e a força, é difícil enxergar vida na poesia, na sabedoria, na intuição, é difícil fazer da dor pérola, do sofrimento significado, das rugas troféus, da velhice uma bênção e, da morte, ressurreição — talvez nunca tenha sido fácil. Tem-se assim, então, um mundo de Sísifos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sísifo, o mais astuto dos mortais e rei de Corinto, ficou famoso na Grécia Antiga por ultrapassar seus limites humanos ao meter-se num assunto dos deuses. Delatou Zeus em uma de suas luxuriosas incursões entre os humanos e extorquiu o deus-rio Asopo para conseguir uma fonte d’água para a sua cidade. O fim até era nobre, mas os meios eram questionáveis e Zeus, em seu divino orgulho ferido, pediu sua cabeça. Sísifo, porém, se negaria a morrer: primeiro, enganaria Tânatos; depois, Hades.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por tanta ousadia e desaforo aos deuses, foi condenado ao Tártaro, onde deveria rolar uma enorme e pesada pedra montanha acima, consciente de que jamais seria capaz de levá-la ao topo. A poucos centímetros do cume, inevitavelmente perderia suas forças, sendo obrigado a deixar que a pedra rolasse montanha abaixo. Era, assim, obrigado a voltar ao pé da montanha, pegar a pedra de novo para reiniciar o trabalho sem sentido a que estava eternamente condenado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-deuses-viraram-doencas" style="font-size:19px"><strong>Os deuses viraram doenças</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na perspectiva da moral clássica, Sísifo é mais um exemplo do desejo humano de não se curvar diante das forças misteriosas e impiedosas dos deuses — ou da natureza. Extrapolar a própria condição humana e se identificar com as intenções, que, para os gregos, não eram humanas, mas divinas, era o maior dos pecados que um homem poderia cometer: a <em>hýbris</em>. Sísifo não aceitou a sua humana mortalidade e fez “das tripas coração” para não morrer. Assim, acabou condenado a uma imortalidade sem vida no mundo dos mortos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O espírito dos novos tempos é diferente do da Grécia Antiga. Pensamentos, desejos, sentimentos, sonhos e imaginações, mesmo que não venham das nossas deliberações conscientes, mas a partir de fontes misteriosas que parecem ter autonomia, são tratadas sempre com pronomes possessivos. É tudo “meu” ou “minha”. Com essa mentalidade reinante, o que acontece quando a produção espontânea e inconsciente da psique não está de acordo com a minha vontade consciente? Se tudo em mim sou eu e não há espaço para outros em mim, então, essas imagens só podem ser a prova de que adoeci. Daí vem a famosa máxima de Jung segundo a qual os deuses viraram doenças.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-indicadores-de-extrema-angustia-na-meia-idade-aos-quais-alude-a-pesquisa-que-inspira-este-ensaio-sao-aos-olhos-contemporaneos-doencas" style="font-size:19px">“Os indicadores de extrema angústia” na meia-idade, aos quais alude a pesquisa que inspira este ensaio, são, aos olhos contemporâneos, doenças.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na visão junguiana, assim como os deuses, as doenças querem revelar algo. Mas o que? Seria a resistência inútil do homem de meia-idade a aceitar a morte de quem ele foi na primeira metade da vida adulta para encontrar a nova versão de si na segunda metade? A hipótese deste ensaio é a de que sim. É interessante, então, imaginar que, na meia-idade, a depressão, por exemplo, cujo significado etimológico é pressão para dentro, possa ser, no plano simbólico, um indesejável mergulho nas regiões mais profundas do Hades de si próprio. As entranhas da terra (ou da alma) são a cova e o útero ao mesmo tempo. É necessário realizar o sacrifício de uma parte de quem éramos para renascermos numa nova perspectiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Albert Camus em seu ensaio <em>O Mito de Sísifo</em>, escrito em 1942, quando os gritos da Segunda Grande Guerra soavam em alto e bom som, trouxe uma perspectiva diferente, redentora e heróica de Sísifo, lendo-o como um personagem da resistência humana ao absurdo da existência e da vontade dos deuses, vendo nisso um mérito. Com apenas 28 anos, o escritor franco-argelino, que ganharia o Nobel em 1957, talvez não pudesse aceitar a vontade dos deuses quando ela permitia que os nazistas controlassem Paris e boa parte da Europa. Camus (2021, p. 141) escreve: “D<em>eixo Sísifo na base da montanha! [&#8230;] Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e ergue as rochas [&#8230;] A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz</em>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-busca-da-resposta" style="font-size:19px"><strong>Em busca da resposta</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Independentemente do contexto histórico, todos trazemos, em si, um complexo de Sísifo, ou seja, uma personalidade autônoma sensível a gatilhos afetivos que nos dispõe a negar e resistir às mortes simbólicas que a vida exige de nós. Na meia-idade, esse complexo tende a se pronunciar, o que é natural, afinal, só desenvolvemos uma nova cosmovisão porque, antes, estivemos envolvidos em outra. Não há como ignorar Sísifo, tampouco se deve, mas ele precisa entender que tão importante quanto saber o que se quer da vida é saber o que a vida quer da gente. Por isso, na meia-idade, é preciso imaginar Sísifo infeliz, disposto a abrir mão da influência que tem sobre nós para nos deixar seguir em frente, o que significa aceitar a morte de uma velha maneira de enxergar o mundo para poder reencontrar a vida em uma nova perspectiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-interessante-observar-pelo-mito-que-a-resistencia-a-morte-costuma-estar-associada-a-dificuldade-de-deixar-para-tras-um-lugar-onde-se-e-rei" style="font-size:19px">É interessante observar, pelo mito, que a resistência à “morte” costuma estar associada à dificuldade de deixar para trás um lugar onde se é rei.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Fica mais difícil, como ocorreu com Sísifo, abrir mão da glória para descobrir uma nova jornada cujo destino é incerto. Pode ser o caso daquele empresário que fez de seu vigor intelectual, disposição física e ambição juvenil uma fonte de riqueza, mas, na virada do sol íntimo, começa a experimentar uma falta de significado existencial no mundo corporativo, o que se expressa, por exemplo, num <em>burnout</em>. Ele não quer deixar de ser quem se esforçou tanto para se tornar. Ao mesmo tempo, no fundo, não vê mais a sua alma se refletir em suas conquistas anteriores.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A primeira metade da vida, como escreveu Jung, segue imperativos bem distintos da segunda. Enquanto a juventude adulta costuma ser marcada pela conquista de um lugar no mundo, um caminhar extrovertido de demarcação de território e conquista de reconhecimento e segurança social, a segunda metade tende a nos levar para dentro, na busca por corresponder a demandas mais éticas que morais, na direção de honrar a nossa criança, a qual não quer outra coisa senão poder ser verdadeira sem deixar de ser amada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-segunda-metade-da-vida-seremos-obrigados-a-descobrir-que-somos-mais-do-que-qualquer-papel-social-que-cumprimos" style="font-size:19px">Na segunda metade da vida, seremos obrigados a descobrir que somos mais do que qualquer papel social que cumprimos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Que todo o poder e segurança alcançados são importantes, mas não conseguem mais conferir sentido à nossa existência. Mas qual então seria o sentido? Cada um haverá de encontrar a resposta em si. Não há mais espaço para reducionismos, é na amplitude da alma e na conciliação de desejos e aspirações conflitantes, o que pressupõe vencer e perder ao mesmo tempo, que nos encontramos individual e coletivamente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mais-tempo-acordados" style="font-size:19px"><strong>Mais tempo acordados</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A maior parte do que escrevo não é mera pesquisa acadêmica. Estou às vésperas de completar quarenta e cinco anos, mas já aos trinta e cinco algo em mim procurava me dizer que eu poderia acabar no Tártaro de mim mesmo, identificado com o meu astuto Sísifo e, como ele, carregando em vão uma pedra montanha acima. É difícil reconhecer que a pedra e a montanha não enchem meu coração, reconhecer que, às vezes, a desistência é a escolha mais nobre e recompensadora. Como jornalista, tive uma longa carreira, mas <strong>a partir de dado momento a profissão não mais me nutria a alma</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Pelos cinco primeiros anos dos últimos dez, tentei aplicar, na segunda metade da vida, receita parecida à aplicada na primeira. Minhas expectativas juvenis sempre me prometeram mais do que fui capaz de me dar. Não havia tantas glórias assim a abandonar, havia mais anseios de glórias não alcançadas. Por isso, tinha vontade de ficar e seguir tentando. Eis outra razão pela qual é difícil desistir da pedra e da montanha: a sensação de que, ao fazê-lo, fracassamos. Quanto mais corria na direção das velhas aspirações, porém, colocando-as como a cenoura motivadora, menos vontade de avançar o burro sentia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>James Hillman</strong> (2001, p. 12) escreve que a crise da meia-idade: “<em>refere-se menos ao fato de ser velho demais do que ser jovem demais [&#8230;] não se refere à falta de capacidade, mas à falta de ilusão [&#8230;] aos quarenta anos não temos oitenta, e temos muito mais ‘tempo acordados’ pela frente do que no nosso passado</em>”. O que eu precisava aceitar, então, era a morte, a morte das ilusões juvenis que tinham inspirado a minha jornada até ali. É difícil sepultar as ilusões quando ainda as vemos como sonhos. Eu precisava encontrar, no Hades do meu íntimo, um novo sentido, algo que me permitisse unir o ordinário e o extraordinário da vida. Assim, cheguei à clínica junguiana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-foi-um-movimento-racional-minha-alma-e-meu-corpo-exigiram-apesar-de-toda-a-minha-resistencia-egoica" style="font-size:19px">Não foi um movimento racional: minha alma e meu corpo exigiram, apesar de toda a minha resistência egóica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando falo em corpo, não é força de expressão, porque, até que se prove o contrário, nada nos permite supor que seja possível uma vida animada sem que haja um corpo. Por isso, toda mudança psíquica tem reverberações físicas e toda mudança física reverbera na psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Tanto é que estudo recente da Universidade Monash revela mudanças significativas no cérebro humano entre os quarenta e cinquenta anos, como atesta o texto de Valencia (BBC News Brasil, 2024): &#8220;’<em>É como se, antes dos 40, os circuitos passassem pelas unidades do cérebro conectados a redes muito sofisticadas’, indica a neurocientista [Sharna Jamadar]. ‘Depois dos 40, o que observamos é que os circuitos se conectam com todos os circuitos, quase sem discriminação’</em>&#8220;.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Neumann</strong> (Cf. 2024, p.340) defende que a integração de aspectos da totalidade psíquica, nessa etapa da vida, despertam crises existenciais marcadas por fortes emoções, as quais, a depender do caso, podem colocar o ego em risco, como atesta a angústia extrema que tende a marcar essa época da vida. Arrisco dizer, portanto, que as evidências fisiológicas trazidas pelos pesquisadores da Universidade Monash se somam às comportamentais quando se trata da metanoia da meia-idade, reforçando assim a maneira pela qual a psicologia analítica enxerga o desenvolvimento da personalidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Com tudo isso, é possível dizer que as transformações psicossomáticas da meia-idade teriam a finalidade de desvendar um novo horizonte, o qual talvez só sejamos capazes de enxergar quando dispostos a morrer para velhos padrões, para sonhos caducos e para expectativas de grandeza egóicas. Um novo horizonte, sem a ilusão das certezas, sisudas ou polianas, cheio de dúvidas e com a possibilidade de inúmeras respostas, todas certas e erradas, a depender do contexto e da finalidade. Um novo horizonte em que não é preciso erguer, em vão, a pedra ao topo da montanha, porque a imortalidade não é o propósito, o propósito é apenas viver quantas vidas forem necessárias neste mesmo sopro de existência.</p>



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<iframe title="Artigo novo: &quot;Na meio da vida, é preciso imaginar Sísifo infeliz&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/h1r8as2-yNw?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/wagnerhilario/">Wagner H P Borges — Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi — Membro Didata pelo IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia" style="font-size:19px"><strong>Bibliografia</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. 22ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">GIUNTELLA, Osea; MCMANUS, Sally; MUJCIC, Redzo; OSWALD, Andrew J.; POWDTHAVEE, Nattavudh; TOHAMY, Ahmed. The Midlife Crisis. NBER, 2022. Disponível em: https://www.nber.org/papers/w30442#fromrss. Acesso em: 17 de agosto de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">HILLMAN, James. A força do caráter: e a poética de uma vida longa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">HOLLIS, James. A passagem do meio — da miséria ao significado da meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">_________. A natureza da psique. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">_________. O desenvolvimento da personalidade. 14ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">NEUMANN, Erich. História das origens da consciência — Uma jornada arquetípica, mítica e psicológica sobre o desenvolvimento da personalidade humana. 2ª Ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">VALENCIA, Alejandro M. Como o cérebro humano se &#8216;reconfigura&#8217; a partir dos 40 anos (e o que fazer para mantê-lo saudável). BBC News Brasil, 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c51z402jjz4o. Acesso em: 24 de agosto de 2024.</p>



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