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	<title>Arquivos música - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos música - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Do jeito que a vida quer, é, desse jeito!</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/do-jeito-que-a-vida-quer-e-desse-jeito/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Natalhe Vieni]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Nov 2025 15:50:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[alma]]></category>
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		<category><![CDATA[inconsciente coletivo]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[música]]></category>
		<category><![CDATA[padrões culturais]]></category>
		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[processo de individuação]]></category>
		<category><![CDATA[samba]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Ninguém sabe a mágoa que trago no peitoQuem me vê sorrir desse jeitoNem sequer sabe da minha solidãoÉ que meu samba me ajuda na vidaMinha dor vai passando esquecidaVou vivendo essa vida do jeito que ela me levarVamos falar de mulher, a morena e dinheiroDo batuque do surdo e até do pandeiroMas não fale da [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-f9ad04c8afa12fcf694e0e9bba725d46" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“Ninguém sabe a mágoa que trago no peito<br>Quem me vê sorrir desse jeito<br>Nem sequer sabe da minha solidão</em><br><em>É que meu samba me ajuda na vida<br>Minha dor vai passando esquecida<br>Vou vivendo essa vida do jeito que ela me levar</em><br><em>Vamos falar de mulher, a morena e dinheiro<br>Do batuque do surdo e até do pandeiro<br>Mas não fale da vida<br>Que você não sabe o que eu já passei</em><br><em>Aumente esse samba que o verso não para<br>Batuque mais forte e a tristeza se cala<br>Que eu levo essa vida do jeito que ela me levar</em><br><em>É do jeito que a vida quer<br>É desse jeito”</em></p><cite><em>Benito di Paula</em></cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-preambulo" style="font-size:20px"><em><strong>Preâmbulo</strong></em></h2>



<p style="font-size:19px"><em>Percebi que algumas canções a gente não &#8220;ouve&#8221;; a gente incorpora. O samba empurra o corpo pra frente, mesmo quando a alma quer ficar.</em></p>



<p style="font-size:19px"><em><strong>Em &#8220;do jeito que a vida quer&#8221;&nbsp;eu escuto um chamado antigo: tornar-se quem se é, não pelo controle, mas pela entrega lúcida</strong>. No batuque, a memória do corpo aparece: lembranças guardadas na pele, histórias que o Brasil tentou esquecer, afetos que pedem reconhecimento. É rito. É travessia.</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>Penso na encruzilhada como esse lugar simbólico onde destino e escolha se encaram. Ali, a vida pede posição: qual caminho eu sustento? o do medo repetido, ou o da consciência que abre passagem? Individuar é aceitar que toda luz carrega sombra, e que a sombra, quando acolhida, vira potência criadora. É trabalho de alma e, sim, dá dor. Mas é dor que organiza, como quem afina um tambor antes da roda começar. Também é educação do sensível: aprender com o mundo, com o outro, com a própria história.</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>A psique não nasce no vazio; ela dança no coletivo, no terreiro da cultura. Quando o corpo lembra, o país aparece dentro da gente: nossas veias abertas, nossa fome de justiça, nossas resistências miúdas que salvam o dia. e, pouco a pouco, a vida vai ensinando um compasso possível: menos perfeição, mais presença; menos culpa, mais cuidado; menos pressa, mais escuta. Se esse tema te atravessa, vem comigo nessa roda. Lê com calma, respira entre os parágrafos, deixa o samba trabalhar em você. Porque às vezes é isso: a alma aprende a caminhar&#8230; do jeito que a vida quer.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-cancoes-que-nao-se-ouvem-com-os-ouvidos-mas-com-o-corpo" style="font-size:21px"><strong>Há canções que não se ouvem com os ouvidos, mas com o corpo.</strong></h2>



<p style="font-size:19px">O samba de <strong>Benito di Paula</strong>, em <em>“<strong>Do jeito que a vida quer</strong>”</em>, é uma dessas. Ele pulsa na alma coletiva, atravessa a história do Brasil e ressoa no inconsciente como um chamado à entrega, àquilo que Jung chamaria de Processo de Individuação, o processo de se tornar quem se é, mesmo diante das feridas e da sombra.</p>



<p style="font-size:19px">Mas esse chamado não ecoa apenas no indivíduo isolado: ele vibra nas camadas mais profundas da psique coletiva, onde a dor pessoal encontra a dor do mundo. É ali que o ritmo se torna ritual e o corpo se faz memória, corpo que dança, mas também carrega.</p>



<p style="font-size:19px">Carrega as marcas do que o país tentou esquecer: o lamento dos navios negreiros, o silêncio das senzalas, o grito das favelas, a solidão dos exílios internos. O samba é, então, mais que música, é um corpo simbólico onde o sofrimento coletivo ganha forma e respiração.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-1959-440-dizia-que-o-inconsciente-coletivo-e-um-solo-comum-uma-base-psiquica-universal-onde-se-enraizam-os-simbolos-e-as-experiencias-humanas" style="font-size:19px"><strong>Jung </strong>(1959, §440) dizia que o inconsciente coletivo é um solo comum, uma base psíquica universal onde se enraízam os símbolos e as experiências humanas.</h2>



<p style="font-size:19px">Nesse solo, a <strong>sombra coletiva</strong> do Brasil se move: feita de desigualdades, culpas coloniais e dores transgeracionais que atravessam séculos. Quando Benito canta, ele não fala só de si, ele canta o sofrimento do outro, o de todos.</p>



<p style="font-size:19px">E, ao fazê-lo, realiza um ato de Individuação que é também comunitário: transforma o lamento em gesto de comunhão, o trauma em criação. Ouvir essa canção é se perceber parte desse grande corpo vivo, onde a dor é compartilhada e, por isso mesmo, humanizadora.&nbsp; Porque há dores que só se suportam quando dançadas juntas.<br>E há canções que nos lembram que o caminho da consciência não é solitário, é coral.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-coletiva-guarda-o-sofrimento-de-um-povo-a-sombra-pessoal-o-que-cada-um-faz-com-esse-sofrimento-entre-uma-e-outra-o-samba-se-torna-ponte-o-gesto-de-transformar-o-que-herdamos-em-criacao-propria" style="font-size:19px">A sombra coletiva guarda o sofrimento de um povo; a sombra pessoal, o que cada um faz com esse sofrimento. Entre uma e outra, o samba se torna ponte, o gesto de transformar o que herdamos em criação própria.</h2>



<p style="font-size:19px">Benito canta o que muitos não ousam dizer: a mágoa no peito, a solidão disfarçada de sorriso. E nesse gesto de cantar a dor, a música transforma em rito. O samba, aqui, é mais que música, é alquimia. É o corpo se movendo em direção ao Self, o Eu maior, que sabe que a vida, em sua sabedoria arquetípica, sempre nos leva aonde precisamos estar, mesmo quando resistimos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quem-me-ve-sorrir-desse-jeito-nem-sequer-sabe-a-minha-solidao" style="font-size:21px">“<strong><em>Quem me vê sorrir desse jeito / nem sequer sabe a minha solidão</em></strong>”.</h2>



<p style="font-size:19px">Esses versos expõem o que <strong>Jung</strong> (1954, §70) descreve como o <strong>conflito entre Persona e Sombra</strong>: a face que mostramos ao mundo e aquilo que escondemos até de nós mesmos. A Persona, socialmente aceita, sorri, enquanto a Sombra, reprimida, chora. Mas é justamente quando o sujeito dá voz à sombra — como Benito o faz — que inicia um movimento de cura simbólica.</p>



<p style="font-size:19px">A música, portanto, torna-se um canal entre inconsciente e consciência, um modo de expressar o indizível, de revelar a verdade escondida sob as máscaras. O silêncio entre dois batuques é também parte da música. É nele que a alma respira, e que o som se transforma em escuta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-cancao-devolve-dignidade-a-dor-e-como-lembra-neumann-1995-p-84-o-processo-criativo-e-a-tentativa-da-psique-de-se-tornar-consciente-de-si-mesma" style="font-size:19px">A canção devolve dignidade à dor. E, como lembra Neumann (1995, p. 84), “<strong><em>o processo criativo é a tentativa da psique de se tornar consciente de si mesma</em></strong>”.</h2>



<p style="font-size:19px">Assim, cada verso é uma confissão, mas também uma oferenda: transformar sofrimento em arte é uma das formas mais antigas de religar-se ao sagrado. O samba, enquanto expressão da alma brasileira, nasce do entre-lugar: da dor e da festa, da escravidão e da liberdade, do corpo ferido que ainda assim dança.</p>



<p style="font-size:19px">Em “<strong><em>A Alma Brasileira</em></strong>”, <strong>Walter Boechat</strong> (2001), encontramos a noção de que o brasileiro se constrói na dialética entre o sofrimento e a criatividade, entre o trauma histórico e a potência simbólica de reexistir. Em “<strong><em>Desvelando a Alma Brasileira</em></strong>” Humbertho Oliveira, (2007), amplia-se essa visão, mostrando como o inconsciente coletivo nacional carrega as marcas de um povo que, ao transformar dor em ritmo, também cria um modo singular de Individuação coletiva.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>O samba, portanto, é uma psicologia em movimento, um modo de elaborar os complexos coloniais, as feridas da exclusão e as ambiguidades do amor</strong>. Ele cumpre o papel simbólico de ritualizar o sofrimento, devolvendo sentido à experiência humana. Como diria Jung (1964, §120), “<strong><em>o sofrimento precisa ser assumido; só o sofrimento assumido tem poder de transformação</em></strong>”. O batuque é, nesse sentido, uma forma de assumir o sofrimento dançando.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-do-jeito-qu-e-a-vida-quer-essa-frase-e-entrega-e-sabedoria-ancestral" style="font-size:21px">“<em>É do jeito qu</em>e a vida quer.” Essa frase é entrega e sabedoria ancestral.</h2>



<p style="font-size:19px">Em “<em><strong>As veias abertas da América Latina</strong></em>”, <strong>Eduardo Galeano</strong> (1971, p. 11) fala de uma terra sangrada, mas viva, de um continente que aprendeu a sobreviver e cantar, mesmo sob a dor. Viver &#8216;do jeito que a vida quer&#8217; é reconhecer que o destino não é punição, mas processo. É o diálogo entre o consciente e o inconsciente, entre a vontade pessoal e o movimento arquetípico que conduz a existência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-1958-828-dizia-que-o-destino-e-muitas-vezes-a-expressao-exterior-do-inconsciente" style="font-size:19px"><strong>Jung</strong> (1958, §828) dizia que o destino é, muitas vezes, a expressão exterior do inconsciente.</h2>



<p style="font-size:19px">Assim, quando Benito canta a entrega à vida, ele também nos convida à Individuação: confiar no ritmo que não controlamos, mas que, misteriosamente, sempre nos ensina algo sobre nós mesmos.</p>



<p style="font-size:19px">Talvez viver seja isso: aprender a ouvir o próprio samba interno. A música de Benito é um espelho do inconsciente coletivo latino-americano, um chamado à autenticidade num tempo em que tantos ainda vivem sob máscaras. Escutar &#8216;Do jeito que a vida quer&#8217; é lembrar que a vida não exige perfeição, exige presença. É permitir que a dor dance conosco, até que o riso e o pranto se tornem uma coisa só.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-ha-tambem-um-silencio-que-e-so-nosso-aquele-que-fica-depois-do-samba-quando-o-batuque-cessa-e-restamos-a-sos-com-o-que-nao-dissemos" style="font-size:19px">Mas há também um silêncio que é só nosso, aquele que fica depois do samba, quando o batuque cessa e restamos a sós com o que não dissemos.</h2>



<p style="font-size:19px">Talvez seja ali que se revele a parte mais difícil de viver “do jeito que a vida quer”: o encontro com a própria verdade. Entre o que mostramos e o que sentimos existe um intervalo, e nesse intervalo habita a persona, a máscara que criamos para sermos aceitos, para sermos amados, para caber no olhar do outro.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Jung (1954, §70) dizia que a persona é necessária à vida social, mas perigosa quando esquecemos que ela é apenas uma parte de nós</strong>. Quando nos identificamos demais com ela, perdemos o contato com a alma viva que pulsa por baixo. Sorrimos, mas o sorriso pesa. Vivemos cercados, mas raramente somos vistos. E as pessoas, presas em seus próprios espelhos, nos julgam a partir do reflexo que projetam, não da presença que somos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quantas-vezes-o-outro-acredita-nos-conhecer-quando-na-verdade-so-conhece-o-papel-que-desempenhamos-diante-dele" style="font-size:21px"><strong>Quantas vezes o outro acredita nos conhecer, quando na verdade só conhece o papel que desempenhamos diante dele?</strong></h2>



<p style="font-size:19px">É nesse desencontro que nasce a solidão profunda, não a solidão de estar só, mas a de não ser verdadeiramente percebido. E é também nesse ponto que o sofrimento se torna convite: o de retirar, aos poucos, as máscaras que nos impedem de sermos acolhidos. Porque o acolhimento só é possível quando há verdade, e a verdade, quando vem, costuma vir com lágrimas e muito, muito sofrimento, talvez por isso a escondemos tanto!</p>



<p style="font-size:19px">Benito canta com esse tipo de verdade: aquela que não busca aplauso, mas compreensão. Ao se mostrar ferido, ele nos ensina que vulnerabilidade não é fraqueza, é gesto de inteireza. Talvez a vida queira justamente isso: que deixemos de parecer fortes para, enfim, sermos humanos. Que aceitemos o olhar do outro não como espelho, mas como testemunha, alguém que vê e não julga, que escuta o que o corpo ainda não conseguiu dizer.</p>



<p style="font-size:19px">E é nesse momento, quando o samba silencia e resta apenas o coração batendo no mesmo compasso do mundo, que entendemos o que Benito sussurra por entre os versos: a vida quer verdade, não performance; presença, não perfeição.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-o-mundo-raramente-entende-o-que-e-verdade-vivemos-em-uma-epoca-em-que-ate-o-afeto-precisa-justificar-sua-utilidade" style="font-size:19px">Mas o mundo raramente entende o que é verdade. Vivemos em uma época em que até o afeto precisa justificar sua utilidade.</h2>



<p style="font-size:19px">Ser gentil virou estratégia, ser bom virou marketing, e até o sofrimento precisa se explicar para ser tolerado. A alma, cansada de ter que provar valor, se recolhe. E o sujeito, pressionado a ser produtivo, a ser “positivo”, acaba perdendo o direito de simplesmente ser. Essa exigência de utilidade é a sombra da modernidade racional, que perdeu a escuta do símbolo e o valor do inútil, aquilo que simplesmente é.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Jung</strong> (1934, §134) advertia que “<strong><em>quanto mais o indivíduo se identifica com o papel social, mais se afasta do Self</em></strong>”. E esse afastamento dói, porque o mundo aplaude o desempenho, mas ignora o cansaço. Queremos ser compreendidos, mas somos constantemente interpretados; queremos ser acolhidos, mas somos medidos pelo quanto servimos. A necessidade de ser útil é uma das feridas mais sutis da modernidade, um amor condicionado, uma forma de sobrevivência travestida de virtude.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quantas-vezes-o-amor-que-recebemos-vem-atrelado-a-funcao-que-exercemos-quantas-vezes-somos-lembrados-apenas-quando-fazemos-algo-que-os-outros-precisam" style="font-size:19px"><strong>Quantas vezes o amor que recebemos vem atrelado à função que exercemos? Quantas vezes somos lembrados apenas quando fazemos algo que os outros precisam?</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Essa incompreensão cotidiana, esse não ser visto pelo que se é, mas pelo que se oferece, fere silenciosamente o coração humano. A psique, nesse estado, adoece de invisibilidade. E, como diria <strong>Neumann</strong> (1995, p. 102), “<em>a perda da alma começa quando deixamos de sentir que temos um valor intrínseco</em>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-a-grande-cura-nao-esteja-em-sermos-uteis-mas-em-sermos-inteiros-mesmo-quando-a-inteireza-nos-torna-desconfortaveis-aos-olhos-do-mundo" style="font-size:19px">Talvez a grande cura não esteja em sermos úteis, mas em sermos inteiros, mesmo quando a inteireza nos torna desconfortáveis aos olhos do mundo.</h2>



<p style="font-size:19px">Benito, ao cantar sua solidão, recusa o papel de herói feliz e produtivo: ele devolve dignidade à vulnerabilidade. O samba, nesse sentido, é um ato de resistência contra a indiferença, um lembrete de que a alma não veio ao mundo para funcionar, mas para sentir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-momentos-em-que-o-abandono-e-uma-iniciacao-quando-ninguem-nos-entende-o-que-talvez-esteja-nascendo-e-a-escuta-da-alma" style="font-size:19px"><strong>Há momentos em que o abandono é uma iniciação. Quando ninguém nos entende, o que talvez esteja nascendo é a escuta da alma</strong>.</h2>



<p style="font-size:19px">Jung (1959, §446) dizia que o Self não surge na comodidade, mas no colapso das certezas. A incompreensão, então, é a sombra que prepara o encontro com o divino interior, um modo da vida dizer: “pare de representar e comece a existir”.</p>



<p style="font-size:19px">Podemos dar um passo além da crítica ao mundo e conduzir nossa consciência para dentro, descobrir que, por trás da dor de não ser compreendido, há um chamado do Self. Quando a persona se rompe, não é apenas sofrimento: é um início de renascimento psíquico. A solidão e o sentimento de inutilidade, vistos pelo olhar junguiano, são símbolos de uma travessia, o ego perdendo o controle para que o Self possa emergir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-linguagem-de-jung-esse-gesto-de-acolher-o-sentir-e-o-retorno-da-anima-o-principio-feminino-da-alma-que-quando-silenciado-empobrece-o-mundo-interno" style="font-size:19px">Na linguagem de Jung, esse gesto de acolher o sentir é o retorno da anima, o princípio feminino da alma que, quando silenciado, empobrece o mundo interno.</h2>



<p style="font-size:19px">Podemos ainda refletir que vivemos em uma cultura que idolatra a razão e despreza o sentir. Acolher-se é um gesto feminino no sentido mais sagrado da palavra: é permitir que o amor volte a ter voz. Quando negamos o sentir, negamos a própria alma.</p>



<p style="font-size:19px">Por isso a música é tão essencial, ela pode devolver à psique o direito de chorar, de tremer, de ser atravessada. É o corpo relembrando à mente que viver é verbo que se conjuga com o coração. A ferida da não-escuta é também a ferida do princípio feminino, do sentir, do cuidado, da amorosidade que a sociedade patriarcal rejeita.</p>



<p style="font-size:19px">Há um instante em que todos chegamos à encruzilhada, o ponto onde o caminho já não pode ser apenas racional. Ali, somos convidados a entregar o controle e ouvir o que a vida quer de nós. O samba nasce dessa escuta: do passo que se arrisca, do compasso que aceita o improviso. Viver, afinal, é isso: dançar entre o que se escolhe e o que é escolhido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-talvez-o-segredo-esteja-justamente-ai-no-consentimento-amoroso-diante-do-destino-e-voce-tem-vivido-do-jeito-que-a-vida-quer-ou-ainda-tenta-conduzir-o-ritmo" style="font-size:19px"><strong><em>E talvez o segredo esteja justamente aí, no consentimento amoroso diante do destino. </em></strong><strong>E você, tem vivido do jeito que a vida quer, ou ainda tenta conduzir o ritmo?</strong></h2>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/natalhe/">Ms. Natalhe Vieni &#8211; Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p style="font-size:15px">BENITO DI PAULA. <em>Do jeito que a vida quer</em>. In: <strong>Benito Di Paula</strong>. Rio de Janeiro: Copacabana Discos, 1974. Faixa 5.</p>



<p style="font-size:15px">FREIRE, Paulo. <em>Pedagogia do oprimido</em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2020.</p>



<p style="font-size:15px">GALEANO, Eduardo. <em>As veias abertas da América Latina</em>. Porto Alegre: L&amp;PM, 2013.</p>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. <em>O desenvolvimento da personalidade</em>. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. <em>Memórias, sonhos, reflexões</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.</p>



<p style="font-size:15px">NEUMANN, Erich. <em>A grande mãe: um estudo fenomenológico da constituição feminina do inconsciente</em>. São Paulo: Cultrix, 2008.</p>



<p style="font-size:15px">PIAGET, Jean. <em>A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação</em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.</p>



<p style="font-size:15px">BOECHAT, Walter (Org.). A alma brasileira: luzes e sombra. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p style="font-size:15px">OLIVEIRA, Humbertho (Org.). Desvelando a alma brasileira: psicologia junguiana e raízes culturais. Petrópolis: Vozes, 2018</p>



<p style="font-size:15px">PRANDI, Reginaldo. <em>Mitologia dos orixás</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.</p>



<p><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A Música na Psicologia Analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-musica-na-psicologia-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Nino Karvan]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Oct 2025 13:19:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Poderia a música, na prática da psicoterapia, favorecer o surgimento de conteúdos inconscientes passiveis de serem analisados simbolicamente? O impulso para a construção desse artigo vem do depoimento de Jung no encontro dele com Margaret Tilly, em 1956, descrito no livro Entrevistas e Encontros, onde ele é taxativo ao afirmar que “&#8230;doravante a música [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px;line-height:1.6"><strong>Resumo</strong>: <strong>Poderia a música, na prática da psicoterapia, favorecer o surgimento de conteúdos inconscientes passiveis de serem analisados simbolicamente</strong>? O impulso para a construção desse artigo vem do depoimento de Jung no encontro dele com Margaret Tilly, em 1956, descrito no livro Entrevistas e Encontros, onde ele é taxativo ao afirmar que “&#8230;doravante a música deve ser uma parte essencial de toda a análise.” Tenham uma excelente leitura.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-este-artigo-busca-entender-a-possivel-utilizacao-da-musica-na-pratica-da-psicologia-analitica" style="font-size:19px">Este artigo busca entender a possível utilização da música na prática da Psicologia Analítica. </h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6"><strong>Para tanto, lança uma pergunta basilar: a utilização da música no ambiente da prática da análise junguiana seria um fator capaz de reduzir as defesas egóicas, possibilitando o afloramento de conteúdos capazes de serem analisados simbolicamente</strong>? Com base em uma bibliografia que se debruça sobre o papel da música na evolução humana, a partir da neurociência, sob o olhar de Daniel Levitin, &nbsp;na obra do próprio Jung e de Joel Kroiker, traça-se um panorama para tentar entender tal questionamento. O presente artigo é um pequeno resumo da monografia apresentada como parte da conclusão da Especialização em Psicologia Analítica, concluída em 2023, disponível na biblioteca do IJEP.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-onde-teria-vindo-a-musica" style="font-size:19px"><strong>De onde teria vindo a música</strong>?</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">Os estudos de suas origens evolutivas têm um acervo diverso e bem rico. Segundo o neuro-cientista <strong>Daniel Levitin</strong>, para Darwin, a música surge e se desenvolve no processo de seleção natural, integrada aos rituais humanos ou páleo-humanos, de acasalamento (LEVITIN, 2010). Seria, portanto, uma seleção sexual, onde as habilidades musicais de produção sonora serviriam para atrair o sexo oposto.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><strong>Darwin</strong> considerava que a música antecedia a fala como ferramenta para fazer a corte, equiparando-a à cauda do pavão. Em sua teoria da seleção sexual, ele postulava a emergência de características que não serviam a qualquer finalidade diretamente ligada à sobrevivência, senão para tornar a pessoa (e, portanto, os seus genes) atraente. </p><cite>(LEVITIN, 2010, p. 284)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">A famosa flauta de osso com cerca de 50 mil anos, encontrada em uma caverna na Eslovênia nos anos 90, tão propagada na imprensa mundial, não seria a primeira forma de expressão musical, antes disso, a voz, como “primeiro instrumento”, e depois os tambores seriam veículos de expressão musical.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-existiriam-provas-tangiveis-de-que-a-musica-antecede-a-linguagem-e-faz-parte-intrinseca-do-desenvolvimento-humano" style="font-size:19px">Nesse sentido, existiriam provas tangíveis de que a música antecede a linguagem e faz parte intrínseca do desenvolvimento humano.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Os registros arqueológicos mostram um histórico ininterrupto de criação musical onde quer que houvesse seres humanos, em todas as eras. E além disso, é claro, o canto muito provavelmente é anterior às flautas. </p><cite>(LEVITIN, 2010, p. 289)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">Segundo o autor, todos os estudos arqueológicos e os estudos antropológicos nas comunidades de caçadores que se mantiveram afastadas da civilização apontam que a música é fator preponderante desses povos e que ela é inseparável da dança. Portanto, música e movimento sempre estiveram presentes como uma realidade de todos, e não somente de alguns portadores de talentos especiais. Somente nos últimos quinhentos anos é que teria surgido essa categoria de expectadores, diante dos quais os especialistas fazem um concerto onde a escuta é o objetivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-ritmo-seria-portanto-um-fator-crucial-no-desenvolvimento-da-musica-na-evolucao-humana" style="font-size:19px">O ritmo seria, portanto, um fator crucial no desenvolvimento da música na evolução humana.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">E isso está presente até hoje nas comunidades ancestrais, onde tambores e demais instrumentos rítmicos, principalmente percussivos, e mesmo que sejam melódico-percussivo, como marimbas, por exemplo, têm um papel preponderante do fazer musical, a exemplo das comunidades tradicionais africanas, e mesmo em suas manifestações afro-americanas, seja de caráter profano e religioso. Nas comunidades ancestrais ameríndias, o fenômeno não é diferente, e a base das manifestações musicais é feita com instrumentos percussivos, aos quais são juntadas flautas e o próprio canto.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>&#8230; segundo quase todos os relatos, a música de nossos antepassados distantes tinha um caráter acentuadamente rítmico. O ritmo incita nosso corpo. A tonalidade e a melodia incitam o cérebro. A convergência do ritmo com a melodia lança uma ponte entre o cerebelo (o pequeno cérebro primitivo, responsável pelo controle motor) e o córtex cerebral (a parte mais desenvolvida e humana do nosso cérebro). É assim que o “Bolero” de Ravel, “Koko”, de Chalie Parker, e “Honky Tonk Womem”, dos Rolling Stones, nos inspiram e comovem, tanto metaforicamente quanto fisicamente, formando requintadas uniões de tempo e espaço melódicos. </p><cite>(LEVITIN, 2010, p. 296)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">Em seus escritos sobre a questão da transformação da <strong>energia psíquica </strong>&#8211; que é mais abrangente do que a libido sexual de Freud -, Jung afirma que quando esta encontra barreiras e busca outras formas de “atividades substitutivas”, &nbsp;através de atividades ritualísticas, teria no ritmo essa forma repetitiva que exerceria o papel de registrar para a posteridade a transferência da energia psíquica para novas formas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-musica-e-danca-teriam-um-papel-fundamental-o-que-pode-ser-comprovado-nas-atividades-ritualisticas-de-comunidades-tradicionais" style="font-size:19px">Música e dança teriam um papel fundamental, o que pode ser comprovado nas atividades ritualísticas de comunidades tradicionais.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Se certas tribos dançam durante toda uma noite ao som monótono de três notas, isso não nos dá a sensação de divertimento; mais parece intenção e exercício. E de fato assim é, pois o ritmo é a maneira clássica de gravar certas ideias e outras atividades, e aquilo que deve ser gravado, isto é, firmemente organizado, é a transferência da libido para uma nova forma de atuação. Como depois da fase nutritiva do desenvolvimento a atividade rítmica não tem mais função no ato da alimentação, ela passa não só para a área da sexualidade sensu strictiori, mas também para o campo dos “mecanismos de atração”, música e dança, e finalmente para a área de trabalho propriamente dito. </p><cite>(JUNG, 2013i, p. 186)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-parece-claro-portanto-o-papel-que-a-musica-e-os-seus-elementos-tem-no-desenvolvimento-do-ser-humano-fazendo-parte-de-uma-especie-de-matriz-universal-comum-a-especie-e-parte-importante-de-um-manancial-arquetipico" style="font-size:19px">Parece claro, portanto, o papel que a música e os seus elementos têm no desenvolvimento do ser humano, fazendo parte de uma espécie de matriz universal, comum à espécie e parte importante de um manancial arquetípico.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">Estudando Jung, aprende-se que as imagens arquetípicas não são conceitos filosóficos, mas facetas da própria vida e que elas são conectadas ao indivíduo por meio dos complexos, os quais, por sua vez, são constelados por afetos e emoções. É preciso, portanto, no processo da psicoterapia, estimular o acesso a essas imagens, e os principais veículos são os sonhos, os sintomas e os estímulo às atividades criativas e artísticas, principalmente a imaginação ativa. As artes plásticas, a poesia, a modelagem e demais expressões das artes plástica vêm sendo utilizadas desde Jung. A música, porém, não vem tendo a mesma atenção, seja na produção científica do campo junguiano, seja na prática clínica.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">Um encontro entre Jung e a pianista e depois terapeuta-chefe da Clínica Langley-Porter, de São Francisco, <strong>Margaret Tilly</strong>, em 1956, narrado no livro <em>Entrevistas e Encontros</em>, no capítulo intitulado “A terapia da música”, deixa essa questão mais clara, com as palavras do próprio Jung. Depois de uma boa conversa, ele solicitou que Margaret lhe mostrasse como seria, na prática, uma sessão de “terapia musical”. Depois de duas horas, entremeadas de demonstrações de Margaret e de inúmeros questionamentos de Jung, ele exclamou:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Mas isto abre todo um novo campo de pesquisa com que eu nem mesmo sonhara! Por causa do que você me mostrou esta tarde&#8230; não só o que me disse, mas o que eu realmente senti ouvindo-a&#8230; acho que doravante a música deve ser uma parte essencial de toda a análise. Isso alcança o material arquetípico profundo que nós podemos atingir, por vezes, em nosso trabalho analítico. É extraordinário. </p><cite>(McGUIRE &amp; HULL, 1981, p. 248)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-joel-kroeker-analista-junguiano-e-pesquisador-canadense-que-utiliza-a-musica-em-seu-setting" style="font-size:19px">Para Joel Kroeker, analista junguiano e pesquisador canadense que utiliza a música em seu <em>setting</em>:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Matrizes musicais arquetípicas inerentes nos conectam como seres humanos a essa ponte de afetos e nos permite acessar sentimentos que não acessaríamos de outra maneira. Imagens musicais primordiais que existem na natureza como o tom musical ascendente ou descendente, como, o canto dos pássaros, a oposição de som versus silêncio, sons musicais crescendo, accelereando, tempo crescente, ou ritardando, tempo decrescente, causam um impacto psíquico em nós. A relação entre estes vários elementos sônicos primordiais e seu impacto no reino da música nos fornece uma matriz poderosa para viabilizar a comunicação, a inter-relação e a autocompreensão. </p><cite>(KROEKER, 2022, p. 46)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong>A música toca instâncias profundas e pode ser a trilha sonora de um sonhar acordado (KROEKER, 2022), cujas emoções são tocadas de forma, às vezes, arrebatadora</strong>. Esse arrebatamento (JUNG, 2006) seria um tipo de espírito que age nas aparições imagéticas estimuladas pela música.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A música, portanto, pode ser entendida como uma objetivação do espírito, que nem expressa conhecimento no sentido usual, lógico-intelectual, nem se realiza materialmente, mas significa uma representação manifesta dos contextos mais profundos e da mais inabalável regularidade. Neste sentido, a música é espírito, e espírito que leva a lugares escuros e remotos, não mais acessíveis à consciência, e cujos conteúdos praticamente não podem mais ser concebidos com palavras – mas sim através de números, por estranho que pareça – e também ao mesmo tempo e sobretudo através de sentimento e sensibilidade. Este fato aparentemente paradoxal mostra que a música tem condições de permitir o acesso a profundezas onde o espírito e a natureza são <em>ainda </em>ou <em>novamente </em>um [&#8230;]. </p><cite>( JUNG, 2006, p. 58)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">A música teria esse poder de trazer conteúdos desse lugar arquetípico, onde tudo é o um. O lugar onde a individualidade se dissolve nas águas profundas do inconsciente coletivo. É desse ambiente abissal que surgem as imagens carregadas de afetos e emoções. A música poderia ser, então, uma chave que ajudaria a abrir o portal de onde viriam as imagens do inconsciente coletivo. Isso descortinaria toda uma nova possibilidade de atuação no <em>setting</em> analítico, ampliando as possibilidades e as ferramentas de auxílio ao acesso a esses conteúdos. É justamente a capacidade de mobilização das emoções, tão presente na música, essa possível força motriz e geradora de imagens.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>É certo que a música, bem como o drama tem a ver com o inconsciente coletivo; [&#8230;] De certa forma, a música expressa o movimento dos sentimentos (ou valores emocionais) que acompanham os processos inconscientes. O que acontece no inconsciente coletivo é por sua natureza arquetípico e os arquétipos têm sempre uma qualidade numinosa que se manifesta na acentuação do emocional. A música expressa em sons o que as fantasias e visões exprimem em imagens visuais. </p><cite>(JUNG, 2002, p. 150)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-fora-demonstrado-anteriormente-haveria-um-potencial-da-musica-e-de-sua-utilizacao-no-setting-junguiano-no-sentido-de-sua-capacidade-de-induzir-o-surgimento-de-imagens-mentais" style="font-size:19px">Como fora demonstrado anteriormente, haveria um potencial da música e de sua utilização no <em>setting</em> junguiano, no sentido de sua capacidade de induzir o surgimento de imagens mentais.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">Jung, em Estudos alquímicos (JUNG, 2013f), afirma que os conteúdos que “tudo que se torna inconsciente é imagem e que imagem é alma”. Tais imagens seriam uma versão concentrada de toda situação da psique, não somente dos conteúdos inconscientes e diz respeito, também, ao recorte do momento dessa situação psíquica, e não necessariamente de sua totalidade atemporal, mas da interrelação entre conteúdos conscientes e inconscientes e, principalmente, do material constelado (JUNG, 2013l).</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">Pode-se concluir que a pergunta lançada no início desse artigo é respondida ao longo dele pelas citações do próprio Jung, em especial da declaração feita no encontro com Margaret Tilly, e que é deveras importante a utilização da música no <em>setting</em> terapêutico. Há, no entanto, um vasto campo ainda aberto ao aprofundamento dos estudos de cunho científico da utilização da música na Psicologia Analítica. <strong>Que a música é trilha sonora das histórias de vida pessoais, isso é fato. Torná-la a trilha sonora dos sonhos acordados vem sendo feito com êxito em diversas práticas terapêuticas, mas é tarefa ainda a ser aprofundada e desenvolvida</strong>.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: A Música na Psicologia Analítica" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/Pbnu3_z-y74?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/nino-karvan/">Nino Karvan &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p>JUNG, C. G. <em>A energia psíquica</em>. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p>JUNG, C.G. <em>Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo</em><strong>.</strong> 10. Ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p>JUNG, C. G. <em>A natureza da psique</em>. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p>__________. <em>A prática da psicoterapia</em>. Petrópolis: Vozes, 2013d.</p>



<p>__________. <em>Estudos alquímicos</em>. Petrópolis: Vozes, 2013f.</p>



<p>__________. <em>Estudos experimentais</em>. Petrópolis: Vozes, 2013g.</p>



<p>__________. <em>O espírito da arte e na ciência</em>. Petrópolis: Vozes, 2013h.</p>



<p>__________. <em>Símbolos da Transformação</em>. Petrópolis: Vozes, 2013i.</p>



<p>KROEKER, Joel. <em>Quando a Psique canta</em>: A música na psicoterapia junguiana. São Paulo: Paulus, 2022.</p>



<p>LEVITIN, Daniel J. <em>A Música no seu cérebro</em>. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.</p>



<p>McGUIRE, William e HULL, R.F.C. C. G. <em>Jung</em>: Entrevistas e Encontros. São Paulo: Cultrix, 1981.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Sobre a música na Arteterapia</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sobre-a-musica-na-arteterapia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Barbara Pessanha]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Sep 2024 14:19:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[música]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9472</guid>

					<description><![CDATA[<p>Esse ensaio visa refletir sobre a música na arteterapia de forma subjetiva e pessoal a partir de um conhecimento de condução clínica distinta da musicoterapia. Buscamos ponderar sobre áreas de conhecimento que vão além do nosso arcabouço dentro da arteterapia e entender como podemos nos suprir na clínica em cima de uma ferramenta ao qual não temos domínio</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg" style="font-size:18px"><blockquote><p>A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que<br>a razão não compreende.</p><cite> Arthur Schopenhauer</cite></blockquote></figure>



<p>Meu percurso como Arteterapeuta não é longo, mas posso considerar robusto dada minha iniciação tardia como terapeuta, minha precocidade em ter gosto por arte e alguma habilidade manual que sempre foi incentivada em casa, me colocaram em contato desde cedo com expressões criativas. Dado meu gosto e habilidade pelas artes plásticas de um modo geral e pela história da arte &#8211; e os bastidores desse meio -, sempre me vi pouquíssimo envolvida com a música. Talvez pensasse ser uma “inabilidade natural” (o que podemos falar de pronto, que talvez não exista nem em mim nem em ninguém isso). Ou mais provável uma falta de interesse por achar que não estava habilitada para lidar com sons, instrumentos e com a música.</p>



<p>Ao me deparar com a <strong>arteterapia</strong> vi a mim mesma com um “grande problema” quando entendi que teria que pelo menos “entender” como a música funciona na psique e no processo terapêutico. Não foi menor o pânico ao me relacionar com a dança, mas isso fica para outro momento mais oportuno. Eu gostaria de fazer um artigo científico sobre o tema, mas tenho “sido chamada a atenção” pela minha rigidez e falta de “alma” ao tentar desenvolver temas aos quais eu domino e tenho respaldo referencial para divagar (assertivamente) sobre o tema. Logo, a proposta aqui é diametralmente oposta. Vou expor meus sentimentos e conhecimentos em cima de um tema ao qual não domino, mas vibra em mim, assim como vibra em você.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-musica-esta-inserida-na-arteterapia-mas-o-arteterapeuta-nao-necessariamente-e-musicoterapeuta" style="font-size:19px">A música está inserida na arteterapia, mas o Arteterapeuta não necessariamente é musicoterapeuta.</h2>



<p>Este profissional normalmente é músico ou educador musical, ele trabalha com instrumentos, e sua música já é em sim parte do tratamento terapêutico e não apenas ferramenta. Entendo que o domínio de toda a construção musical para a clínica da musicoterapia seja fundamental, dada a importância do profissional na construção de uma dinâmica que muitas vezes dispensa palavras. </p>



<p>Por isso é uma terapia importantíssima para portadores de TEA (Transtorno de Espectro Autista) e outras pessoas atípicas, principalmente TDL (Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem) (BANDEIRA, 2022).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-existe-uma-aula-que-eu-tenha-dado-ate-hoje-e-que-nao-tenham-me-perguntado-e-a-musica-professora" style="font-size:20px">Não existe uma aula que eu tenha dado até hoje e que não tenham me perguntado “e, a música, professora?”</h2>



<p>A música demanda um cuidado especial na clínica, principalmente se trabalhamos com <strong>grupos</strong>. A música que eu gosto pode afetar ao outro de maneira completamente oposta ao bem-estar que me causa. Músicas com letras e/ou muito populares, se o facilitador não conhece bem o grupo ou não tem domínio do que está sendo feito ali naquele espaço com aquelas pessoas pode ter problemas, pessoas afetadas podem “sair de si”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-relata-uma-observacao-se-dando-como-exemplo-em-estudos-psiquiatricos-vol-1-nas-obras-completas" style="font-size:22px">Jung relata uma observação se dando como exemplo em <em>Estudos Psiquiátricos Vol.1</em>  nas obras Completas:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg" style="font-size:16px"><blockquote><p>Estou ocupado num trabalho qualquer e assobio alguma melodia; naquele momento não estou me lembrando da letra. Alguém me pergunta que música é essa que estou assobiando e então me lembro: é uma canção do tempo de estudante.<br>“Não tenho um centavo no bolso”. Não faço a menor ideia de como cheguei a esta canção que, no momento, nada tinha a ver com as associações que estavam ocupando minha consciência. Passei em revista retrospectivamente o curso do pensamento que percorri durante meu trabalho. De repente me lembrei que poucos minutos antes pensara, com certo acento emocional, numa grande conta que recebera no Ano-Novo. Daí o motivo da canção! Nem preciso dizer que dessa maneira é possível fazer todo tipo de belos diagnósticos psicológicos em nossos semelhantes. Quando um amigo meu teve a imprudência de assobiar, no espaço de dez minutos, três pequenas melodias, pude dizer-lhe que seu caso amoroso tivera um fim infeliz. As melodias eram <em>Im Aargau sind zwei Liebi</em> (“Em Aargau há dois amantes” – melodia popular suíça), <em>Verlassen, verlassen bin ich</em> (“Abandonado, abandonado estou eu”) e <em>Steh’ich in fínster Mitternacht</em> (“Estou na lúgubre meia-noite”). Já me aconteceu inclusive assobiar uma melodia cujo texto me era desconhecido.</p><cite>JUNG, 2012a §168</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-neste-pequeno-relato-da-duas-importantes-dicas-diretas-e-podemos-ampliar-mais-algumas-questoes-a-partir-de-uma-reflexao-do-saber-da-ferramenta-no-caso-a-musica" style="font-size:17px">Jung, neste pequeno relato, dá duas importantes dicas diretas e podemos ampliar mais algumas questões a partir de uma reflexão do “saber” da ferramenta, no caso: a música.</h2>



<p>Quando o próprio Jung assovia, ele entende que aquilo queria dizer algo, mas de forma afetiva e inconsciente lhe vem uma música sem letras a cabeça que ele vai entrar em um processo autorreflexivo para compreender aquilo ter ocorrido. Ele consegue e percebe a questão do afeto e chega à conclusão de que ele <em>nem precisa</em> “dizer que dessa maneira é possível fazer todo tipo de belos diagnósticos psicológicos em nossos semelhantes” (JUNG, 2012a) e faz isso com um amigo. E, sim, música vibra. Somos de água e a água vibra junto com o som. O som faz a água se mobilizar no seu ritmo e mesmo que eu não queira, não há som que nos deixe indiferente. Somos manipulados em nossas <em>águas internas</em> mesmo que não consigamos perceber e nos atentar no momento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-perceber-que-a-experiencia-musical-acontece-antes-mesmo-do-nascimento-nbsp-a-partir-das-percepcoes-ainda-no-utero-materno-paula-2022-nos-faz-ter-um-infimo-entendimento-o-quao-importante-os-sons-sao-na-nossa-constituicao-psiquica" style="font-size:17px">Perceber que “<strong>a experiência musical acontece antes mesmo do nascimento,&nbsp;a partir das percepções ainda no útero materno</strong>” (PAULA, 2022) nos faz ter um ínfimo entendimento o quão importante os sons são na nossa constituição psíquica. </h2>



<p>A música ser um meio tão eficaz de tratar transtornos e problemas de comunicação faz com que seja uma ferramenta dentro do processo terapêutico muito importante, mas também muito delicada. <strong>A responsabilidade do arteterapeuta é entender que usar uma música sem conhecimento prévio pode não ser uma boa ideia, não sabemos como aquilo pode mobilizar o indivíduo</strong>. Mas, trabalhar algo que tenha sido trazida pelo próprio cliente pode ser muito rico e ajudar a condução clínica assim como um sonho, um desenho, um filme &#8211; a música se torna uma imagem com vibração que toca afetivamente com consciência.</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg" style="font-size:17px"><blockquote><p>O desenvolvimento da musicalidade humana, ou seja, do comportamento musical, engloba as reações musicais hereditárias, somadas à experiência pessoal, às experiências musicais de caráter histórico e às experiências musicais de caráter social. Em outras palavras, à medida que a criança se desenvolve na sociedade humana, os reflexos musicais incondicionados (genéticos) se tornam condicionados e se forjam através do outro, do social, enfim, da cultura.<br>Isso nos habilita a dizer, pelo olhar da teoria que nos alicerça, que toda função psicológica musical superior (escuta voluntária ou atenta, memória e imaginação, musical etc.) historicamente, origina-se de uma relação social entre pessoas antes de a internalizarmos intrapsicologicamente.<br>Neste momento, queremos explicitar que conceber uma didática específica da educação musical calcada na Teoria Histórico-Cultural é primar pela ética no sentido mais estrito do termo, a saber: defender a conduta e o sentimento de alteridade para com as experiências musicais do outro que nos constitui musicalmente.</p><cite>PEDERIVA &amp; GONÇALVES, 2018, pp. 316-317</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pensar-a-musica-pela-psicologia-analitica-e-encaixar-uma-imagem-dentro-de-um-processo-construtivo-que-afeta-a-todos-e-quando-falo-todos-sao-todos-mesmo" style="font-size:17px">Pensar a música pela psicologia analítica é encaixar uma imagem dentro de um processo construtivo que afeta a todos (e quando falo todos, são todos mesmo!)</h2>



<p>Pessoas com deficiências ou atípicas dão respostas positivas a esse tipo de terapia, além de TEA, TDL, deficientes visuais, pacientes psiquiátricos diversos e até mesmo surdos e surdos oralizados; a música vibra e mesmo sem o ouvir, eles podem sentir. E, sendo uma sociedade apegada a rótulos e pré-conceitos, nos distanciamos da questão simbólica da linguagem. <strong>A música é uma linguagem sonora e vibracional ao mesmo tempo</strong> e quando possui letra ela também entra na metalinguística de todo o conjunto da obra.</p>



<p>Pessoalmente, é um lugar bem difícil para eu habitar, talvez pela falta de controle que a vibração promove; mesmo tendo a consciência de que isso vai acontecer pode me passar despercebido e eu ser “afetada”. E, a respeito disso, eu simplesmente sei que não temos controle.</p>



<p>Afinal, Jung já explicou que “<strong>todas as neuroses contêm complexos autônomos</strong>” (JUNG, 2012b §1353). E para um analista ser afetado de forma incontrolável e autônoma por um complexo basta estar vivo.</p>



<p><strong>Entrar em contato com aquilo que eu não sei, me leva a lugares surpreendentes, e na clínica sempre busco sutilezas além do ouvir</strong>.</p>



<p>Busco sentir como os relatos vibram em mim e percebi que a minha pouca competência com a música, com a musicalidade, com os sons que vibram dos instrumentos musicais são incompatíveis com o que eu vivencio diariamente. Eu entendo não de forma conceitual, acadêmica e prática de um musicista, mas de um outro lugar.</p>



<p>E esse lugar me ajuda a caminhar com meus clientes para um outro lugar além da fala e do que se fala. Como disse o multifacetado romancista alemão E. &nbsp;T. &nbsp;A. <strong>Hoffmann</strong>: “<strong>A música começa onde acaba a fala</strong>.” </p>



<p><strong>Na clínica junguiana ouvimos música todos os dias!</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Sobre a música na arteterapia&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Ttfk6REOKZQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p><strong>Bárbara Pessanha &#8211; Membro Analista IJEP</strong></p>



<p><strong>Simone Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. Estudos Psiquiátricos. 1. ed. Petrópolis: Vozes, 2012a. Obras Completas de C. G. Jung, v.1.</p>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. Estudos Experimentais. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2012b. Obras Completas de C. G. Jung, v.2.</p>



<p style="font-size:15px">BARCELLOS, L. R. M. ., &amp; SANTOS, M. A. C. . (2022). A musicoterapia no Brasil.&nbsp;<em>Brazilian Journal of Music Therapy</em>, (32), 4–35. Disponível: <a href="https://doi.org/10.51914/brjmt.32.2021.378">https://doi.org/10.51914/brjmt.32.2021.378</a> Acesso em: 30. ago. 2024</p>



<p style="font-size:15px">PAULA, Tatiane Ribeiro Morais de. &amp; PEDERIVA, Patrícia Lima Martins A musicalidade das pessoas surdas: um olhar a partir da teoria histórico-cultural Artigos • DELTA 38 (1) • <a>Disponível:&nbsp; &nbsp;2022. </a><a href="https://doi.org/10.1590/1678-460X202257176">https://doi.org/10.1590/1678-460X202257176</a>&nbsp; Acesso em: 30. ago. 2024</p>



<p style="font-size:15px">BANDEIRA, Gabriela. Práticas baseadas em evidências: a musicoterapia como estratégia de intervenção. Disponível:&nbsp; 27. mai. 2022 <a href="https://genialcare.com.br/blog/musicoterapia/">https://genialcare.com.br/blog/musicoterapia/</a> Acesso em: 30. ago. 2024</p>



<p style="font-size:15px">PEDERIVA, P. L. M., &amp; GONÇALVES, A. C. A. B. (2018). Educação musical na perspectiva histórico-cultural: uma didática para o desenvolvimento. Disponível:&nbsp; 2022. <a href="https://www.academia.edu/38830356/Educa%C3%A7%C3%A3o_musical_na_perspectiva_hist%C3%B3rico_cultural_uma_did%C3%A1tica_para_o_desenvolvimento_da_musicalidade_Music_education_in_the_historical_cultural_perspective_a_didactic_for_the_development_of_musicality">https://www.academia.edu/38830356/Educa%C3%A7%C3%A3o_musical_na_perspectiva_hist%C3%B3rico_cultural_uma_did%C3%A1tica_para_o_desenvolvimento_da_musicalidade_Music_education_in_the_historical_cultural_perspective_a_didactic_for_the_development_of_musicality</a> .&nbsp;Acesso em: 30. ago. 2024</p>



<p></p>
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		<title>Música e psicologia analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/musica-e-psicologia-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rafael Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Jun 2024 19:09:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[música]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Poucas são as menções que Jung faz diretamente em sua obra sobre música, contudo, o pouco legado deixado por ele de maneira objetiva abre um espaço subjetivo e profícuo para tecermos algumas reflexões importantes, e também nos leva à pergunta: e se pudéssemos “brincar” mais com os sentidos, fazendo atividades olfativas, táteis, gustativas e/ou auditivas, sensibilizando outros campos imagéticos? Este artigo intenciona apresentar um breve ensaio teórico de como fazer isso a partir da música.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Resumo:</strong> Poucas são as menções que Jung faz diretamente em sua obra sobre música, contudo, o pouco legado deixado por ele de maneira objetiva abre um espaço subjetivo e profícuo para tecermos algumas reflexões importantes, e também nos leva à pergunta: e se pudéssemos “brincar” mais com os sentidos, fazendo atividades olfativas, táteis, gustativas e/ou auditivas, sensibilizando outros campos imagéticos? Este artigo intenciona apresentar um breve ensaio teórico de como fazer isso a partir da música.</p>



<p>Antes de iniciar este artigo, cabe dizer que, mesmo longe de ser um grande músico, o autor que vos escreve é um musicista/baixista amador, tendo tocado uma dezena de vezes na noite de São Paulo com sua banda, fazendo um bom e divertido rock’n’roll! Em razão disto, era uma vontade antiga fazer um estudo sobre psicologia analítica e música, e este estudo e aprofundamento teórico será (ou foi, a depender de quando você estiver lendo este artigo) apresentado em palestra intitulada “Aumenta o som! Um ensaio sobre as experiências afetivas com a música” em conjunto com o Prof. Dr. Waldemar Magaldi no IX Congresso Junguiano do IJEP, que você pode acessar e adquirir <a href="https://sun.eduzz.com/2175616">c</a><a href="https://ijep.pages.net.br/ix-congresso-ijep-arteterapia">licando aqui</a>.</p>



<p>Poucas são as menções que Jung faz diretamente em sua obra sobre música, contudo, o pouco legado deixado por ele de maneira objetiva abre um espaço subjetivo e profícuo para tecermos algumas reflexões importantes. Até onde sabemos, o único livro de psicologia analítica que trabalha a música é o <strong><em>Quando a psique canta</em> </strong>de Joel Kroeker (2022), publicado pela Editora Paulus. Pessoalmente, o autor também teve uma experiência em 2019 em Zurique, quando assistiu no CG Jung Institut uma aula aberta do renomado analista junguiano Mark Winborn, na qual ele fazia aproximações do blues estadunidense com ritmos africanos ancestrais, intercalando sua fala com uma apresentação de riffs do jazz e do blues empunhando sua guitarra (Winborn é bastante citado por Kroeker em sua obra).</p>



<p>As afirmações mais contundentes de Jung sobre música são as que colocamos abaixo (na palestra, Waldemar e eu apresentamos outras perspectivas menos diretas do próprio Jung que inclui a música). Na primeira ele está respondendo oralmente a uma pergunta, provavelmente da Jolande Jacobi, sobre quais seriam as formas de se acessar expressões oriundas do inconsciente e se os sonhos tinham lugar preferencial, ao passo que ele diz:</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>“<em>Ainda que seja o sonho que nos dê o quadro mais exato do inconsciente, também podemos seguir o seu rastro <strong>em todas as atividades criativas como a música, a poesia e em todas as formas artísticas</strong>” </em>(OC 18/1, §1.810).</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-outra-afirmacao-ao-ser-convidado-por-um-editor-para-escrever-um-artigo-sobre-musica-responde-o-seguinte" style="font-size:18px">Na outra afirmação, ao ser convidado por um editor para escrever um artigo sobre música, responde o seguinte:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>“<em>É certo que a música, bem como o drama, tem a ver com o inconsciente coletivo […]. De certa forma, a música expressa o movimento dos sentimentos (ou valores emocionais) que acompanham os processos inconscientes. O que acontece no inconsciente coletivo é por sua natureza arquetípico, e os arquétipos têm sempre uma qualidade numinosa que se manifesta na acentuação do emocional. A música expressa em sons o que as fantasias e visões exprimem em imagens visuais. Não sou músico e não seria capaz de desenvolver essas ideias em detalhe para o senhor. Só posso chamar a sua atenção para o fato de que a música representa o movimento, o desenvolvimento e a transformação de motivos do inconsciente&nbsp;coletivo” </em>(JUNG, 2018, p. 150).</p></blockquote></figure>



<p>Isto posto, fica claro que para Jung a música também é uma expressão do inconsciente, contudo, isso leva à seguinte crítica: os recursos expressivos utilizados em análise quase sempre – para não dizer sempre – são voltados exclusivamente ao sentido da visão. Técnicas de argila, desenhos, sandplay podem até sensibilizar o sentido tátil de quem o faz, mas ao analista restam, predominantemente, as impressões visuais daquilo que foi produzido. Contudo, e se pudéssemos “brincar” mais com os sentidos, fazendo atividades olfativas, táteis, gustativas e/ou auditivas?</p>



<p>Lembramos-lhes que nada disso é rigorosamente uma novidade, haja visto as técnicas de calatonia, que são essencialmente táteis, a aromaterapia, que sensibiliza/dessensibiliza emoções a partir de estímulos olfativos, o uso da música na imaginação dirigida, variação da técnica de imaginação ativa de Jung, e a musicoterapia, que há muito é reconhecida e com ganhos significativos em várias áreas da saúde, especialmente no tratamento de pessoas neuroatípicas e, como relata Sacks (2022), na redução dos sintomas do mal de Parkinson. Entretanto, são técnicas que não levam rigorosamente em conta a produção do analisando, tal e qual um desenho produzido por ele.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-outras-palavras-em-vez-de-um-desenho-por-que-nao-compor-uma-musica" style="font-size:20px">Em outras palavras, em vez de um desenho, por que não compor uma música?</h2>



<p>É exatamente esta a proposta de Kroeker (2022), com a técnica desenvolvida por ele chamada de <em>A<strong> música na psicologia arquetípica – AMP</strong></em>, na qual os analisandos fazem música no setting terapêutico, tal e qual qualquer outra expressão artística que analistas junguianos utilizam, mas que resultam em estímulos visuais e não auditivos.</p>



<p>Porém, o problema da técnica de Kroeker é básico: é preciso que o analisando, e até mesmo o analista, tenham conhecimento musical para conseguir compor algo, pois a única “música” que está à disposição de todos nós de maneira mais acessível são os ritmos/percussões, o que é totalmente diferente de uma composição que leve em conta também aspectos harmônicos e melódicos da canção. Desta forma, a fim de ampliar a ideia de Kroeker e fugir deste problema básico, e talvez “imitando” a aromaterapia, na qual os aromas são capazes de “provocar” determinadas emoções, sugerimos algo semelhante, que é o uso da música como um recurso de mobilização de imagens psíquicas nos analisandos. Em vez de produzir música, o analisando escuta música, para daí imaginar&#8230;</p>



<p>Sabemos que alguns analisandos apresentam resistência de trazer conteúdos oníricos ou de tecer reflexões simbólicas sobre acontecimentos triviais da vida, muitas vezes ficando presos na concretude do fato – apesar de uma certa percepção indireta por parte do analista do que isto quer dizer! Logo, perguntamos: seria a apresentação de músicas no setting terapêutico um meio de mobilização de imagens, retirando a necessidade estabelecida na técnica de Kroeker, que exige conhecimento de instrumentos musicais por parte do analista e dos analisandos?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-recordemos-que-a-musica-nao-e-inedita-no-setting-terapeutico-junguiano" style="font-size:20px">Recordemos que a música não é inédita no setting terapêutico junguiano.</h2>



<p>Seja em trabalhos individuais, imaginação dirigida, como já mencionamos, e grupos vivenciais, a exemplo da música como um recurso de relaxamento e/ou rebaixamento de consciência, ou até mesmo o uso da música como pano de fundo para expressões corporais e/ou dança. Mas o caminho que estamos sugerindo, difere sutilmente destes. Assim como Jung, no início do século, fez uma longa pesquisa com a técnica de associações de palavras (OC 2), na qual por meio do estímulo da palavra, seja pelo seu significado ou pela sua sonoridade, despertava núcleos afetivos-emocionais, em seguida nomeados complexos, sugerimos uma espécie de técnica de associação musical. <em>A priori</em>, não temos registro empírico de tal experiência no estrito sentido junguiano, entretanto, não nos falta razões para acreditar de que poderia ser uma técnica legítima, a partir dos argumentos que apresentamos a seguir. Segundo Jung:</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><em>“Toda emoção, em qualquer fase da vida, tende a manifestações rítmicas, a repetições constantes. O mesmo se verifica na experiência de associação com palavras de reação destacadas dentro de um complexo, sob a forma de repetição, assonância e aliteração” </em>(OC 5, §219). </p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-frase-e-suficientemente-solida-ajudar-na-construcao-de-nossa-proposta-adicionalmente-como-destaca-sacks-2022-p-11" style="font-size:17px">Essa frase é suficientemente sólida ajudar na construção de nossa proposta. Adicionalmente, como destaca Sacks (2022, p.11):</h2>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><em>“Nós, humanos, somos uma espécie musical além de linguística. Isso assume muitas formas. Todos nós (com pouquíssimas exceções) somos capazes de perceber música, tons, timbre, intervalos entre notas, contornos melódicos, harmonia e, talvez no nível mais fundamental,&nbsp;ritmo”.</em></p></blockquote></figure>



<p>Então, independentemente do conhecimento técnico da música, pressupomos que qualquer pessoa poderia tecer associações e construir imagens a partir da música sugerida pelo analista. Corrobora com essa visão o psicanalista Theodor Reik, ao afirmar que <em>“Melodias que nos passam pela cabeça [&#8230;] podem dar ao analista uma pista para a vida secreta de emoções que cada um de nós vivencia&nbsp;[&#8230;]</em>&nbsp;(Reik apud Sacks, 2022, p. 49).</p>



<p>Além do mais, mesmo que uma pessoa afirme “não gostar” de música – será que existe alguém? – as músicas dão contornos emocionais para algumas imagens cênicas, a exemplo de séries, novelas, peças publicitárias e filmes – o que seria de Titanic sem <em><strong>My heart will go on?</strong> </em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-afirma-levitin-2021-p-15" style="font-size:17px">Como afirma Levitin (2021, p. 15):</h2>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>“<em>O poder que a música tem de evocar emoções se manifesta em executivos de publicidade, cineastas, comandantes militares e mães. Os publicitários usam a música para fazer com que um refrigerante, uma cerveja, um tênis ou um carro pareçam mais interessantes que os produtos concorrentes. Os cineastas a utilizam para dizer como devemos nos sentir diante de cenas que de outra maneira talvez ficassem ambíguas, ou então para intensificar nossos sentimentos num momento particularmente&nbsp;dramático”.</em></p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-significa-que-a-musica-por-si-so-independentemente-do-que-ela-significa-no-campo-sentimental-ou-imagetico-ja-despertaria-algo-em-qualquer-pessoa-mesmo-que-fosse-repulsa-ahhh-le-lek-lek-lek" style="font-size:18px">Isso significa que a música por si só, independentemente do que ela significa no campo sentimental ou imagético, já despertaria algo em qualquer pessoa, mesmo que fosse repulsa – <em><strong>Ahhh, le lek, lek, lek&#8230;</strong></em>!</h2>



<p>Mas esta técnica que estamos propondo encontra uma barreira inicial, que é justamente a seleção das músicas. Em outros termos, como saber qual música apresentar aos nossos analisandos no processo de análise a fim de sensibilizar certos núcleos afetivos? Não existe qualquer garantia de que a mesma música despertará sentimentos, emoções ou imagens semelhantes em duas pessoas ou mais, e isso limita a premissa acima de que a música seria um condutor da imagem que não vem à tona num sonho ou associação livre por parte do analisando.</p>



<p>Nesse sentido, consideramos que existe a necessidade de uma pesquisa empírica robusta, a exemplo da feita por Jung no teste de associações de palavras, selecionando uma lista de músicas, apresentando-as a centenas de pessoas, para que, por amostragem e estatística, consigamos aproximativamente estabelecer quais imagens predominantes uma música pode evocar. Sabemos que este método se aproxima de uma ciência mais concreta, mas não nos ocorre nada de diferente no momento.</p>



<p>De qualquer forma, se partíssemos de um repertório puramente intuitivo por parte do analista, apresentando músicas livremente, segundo um critério pessoal, objetivo ou não, a chance dessa técnica dar errado, imaginamos, seria pequena. A música é uma combinação de ritmo, tempo, harmonia (que é um conjunto de sons não definíveis, mas que “sustentam” a música, com diversos instrumentos misturados fazendo um som, evidentemente, harmônico) e a melodia (que é aquela linha que conseguimos cantarolar, seja a letra de qualquer música ou um tema típico, a exemplo da música que marca <em>O poderoso chefão</em> ou a música que introduz o filme <em>Forest Gump</em>).</p>



<p>Não conseguimos mensurar o que pode emergir, porém, tal como afirma Sacks, ao defender o uso da música como recurso terapêutico em pacientes neurológicos, <em>“A música pode nos acalmar, animar, consolar, emocionar. Pode nos ajudar a obter organização ou sincronia quando estamos trabalhando ou nos divertindo. Mas para pacientes com várias doenças neurológicas ela pode ser ainda mais poderosa e ter imenso potencial terapêutico. Essas pessoas podem responder intensamente e de maneira específica à música (e, às vezes, a&nbsp;mais&nbsp;nada)</em>&nbsp;(Sacks, 2022, p. 13).</p>



<p>Fica ainda a questão de como abordar as associações, sentimentos e/ou imagens que os analisandos trarão a partir de determinado estímulo musical. A esta questão, Kroeker tem uma resposta prévia: </p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><em>“Música e sonhos têm muito em comum, ambos abrem caminho para além das instâncias despertas, afloradas da consciência do ego. Cada um à sua maneira pode nos levar a reinos regeneradores e compensatórios do afeto, psique e soma aos quais não podemos chegar através apenas de puro&nbsp;esforço”</em> (Kroeker, 2022,&nbsp;p. 23) </p></blockquote></figure>



<p>E continua ainda o autor, propondo que a <em>“música é um sonho desperto que carrega conteúdos simbólicos. Assim como o ego onírico, o ego musical, bem sintonizado, pode ouvir sentir e ter sensações que o complexo de ego unilateralizado&nbsp;não&nbsp;pode</em>” (Kroeker, 2022, p. 129).</p>



<p>Trocando em miúdos, a abordagem das associações e imagens que a pessoa faz a partir das músicas que lhe foram apresentadas é a mesma que o analista teria diante de um sonho. Sobre o trabalho com música na análise, Kroeker diz que:</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><em>“A música, na sessão analítica, pode ser o lugar, tanto interno quanto externo, onde esse desenvolvimento acontece. Quando escutamos, tocamos, compomos ou improvisamos música podemos entrar em contato com conteúdos que permaneciam fora da visão do ego, eles existiam apenas como uma combinação de sentimentos e imagens aparentemente indefinidas e contrastantes. Quando exploramos musicalmente esses estados internos e vivenciamos seu persistente retorno, podemos começar a estabelecer uma nova atitude simbólica que percebe que esses aspectos continuam a existir, de algum modo, mesmo sem estarem constantemente acessíveis à perspectiva&nbsp;do&nbsp;ego”</em> (Kroeker, 2022, p. 90-91).</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-fim-jung-aproxima-a-musica-da-experiencia-arquetipica-da-alquimia-mencionando-que" style="font-size:17px">Por fim, Jung aproxima a música da experiência arquetípica da alquimia, mencionando que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><em>“A alquimia sempre foi uma grande busca humana do inatingível. Assim pelo menos seria descrita pelo pressuposto racionalista. A experiência religiosa da graça é porém um fenômeno irracional, tão indiscutível como o ‘belo’ e o ‘bom’. Assim sendo, nenhuma busca séria é sem esperança. É um dado instintivo, que não é passível de redução a uma etiologia pessoal, assim como a inteligência, <strong>musicalidade</strong> <strong>ou qualquer disposição inata</strong>”</em> (OC 13, §143).</p></blockquote></figure>



<p>Tais argumentos nos parecem suficientemente fortes para aplicar experimentalmente esta técnica da escuta da música seguida de associações de sentimentos, emoções e imagens. Seria mais um recurso analítico que contribui para a ampliação das imagens, que é nosso desejo último em termos de processo analítico.</p>



<p>Como um pontapé inicial nesta ideia, no IX Congresso do IJEP apresentamos breves experiências musicais que fizemos com analisandos em consultório. Apesar de estar longe de representar uma pesquisa significativa, seguramente ela serve como uma ação ensaística de novas pesquisas que poderão ser desenvolvidas por analistas junguianos que, assim como o autor, aprecia e reverencia a música.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: &quot;Música e psicologia analítica&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/woq2zwWlpKY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/rafaelrodrigues/">Rafael Rodrigues de Souza – Analista Didata em Formação</a>.</strong></p>



<p><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Dr. Waldemar Magaldi Filho – Analista Didata responsável.</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p>JUNG, Carl Gustav. Símbolos da transformação (OC 5). 9 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Estudos Alquímicos (OC 13). 4 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Vida simbólica: escritos diversos (OC 18/1). 7 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Cartas de C. G. Jung, volume 2, 1946-1955. Petrópolis: Vozes, 2018.</p>



<p>KROEKER, Joel. Quando a psique canta: a música na psicoterapia junguiana. São Paulo: Paulus, 2022.</p>



<p>LEVITIN, Daniel J. A música no seu cérebro: a ciência de uma obsessão humana. Rio de Janeiro: Objetiva, 2021.</p>



<p>SACKS, Oliver. Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p>Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



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