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	<title>Arquivos segredo da flor de ouro - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos segredo da flor de ouro - Blog IJEP</title>
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		<title>A Jornada do Pastor e do Boi</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-jornada-do-pastor-e-do-boi/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[José Luiz Balestrini Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Sep 2026 16:37:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[cultura oriental]]></category>
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		<category><![CDATA[processo de individuação]]></category>
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		<category><![CDATA[zen]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma leitura dos Dez Quadros do Pastoreio do Boi, do mestre Zen Kaku-an, como um mapa simbólico do processo de individuação. Através da gramática alquímica da nigredo, da albedo e da rubedo, e à luz de Jung e von Franz, acompanho o caminho do pastor rumo ao boi — do extravio inicial ao retorno transformado ao mundo —, reconhecendo entre o Zen e a alquimia ocidental a mesma trajetória arquetípica em direção ao si-mesmo.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo:</strong> Este ensaio propõe uma leitura dos Dez Quadros do Pastoreio do Boi — sequência atribuída ao mestre Zen Kaku-an Shi-en, da escola Rinzai do século XII — como um mapa simbólico do processo de individuação tal como o conceberam C. G. Jung e Marie-Louise von Franz. Tomando a gramática alquímica (nigredo, albedo, rubedo, a união dos opostos, a pedra filosofal) como chave interpretativa, o texto percorre os dez quadros em quatro movimentos: o despertar e o primeiro encontro com o inconsciente (I–III), o confronto com a sombra e a integração do instinto (IV–VI), a dissolução do símbolo e a experiência do si-mesmo no círculo vazio (VII–VIII) e o retorno ao mundo como individuação encarnada (IX–X). Ao reconhecer, entre o Zen e a alquimia ocidental, a mesma trajetória arquetípica expressa em linguagens simbólicas distintas, o ensaio sustenta que o boi jamais esteve perdido: é o pastor — o ego — que precisa percorrer o longo caminho de descobri-lo, domá-lo, deixá-lo ir e, enfim, regressar transformado ao convívio comum.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando Carl Gustav Jung tomou contato, principalmente através das traduções de Richard Wilhelm, com a literatura filosófica-espiritual chinesa, viu confirmada empiricamente uma intuição que amadurecia desde os primeiros anos das suas pesquisas e de seu trabalho clínico: a de que a psique possui uma estrutura objetiva e arquetípica, que se manifesta naturalmente em padrões reconhecíveis para além das fronteiras culturais. Jung deixa claro que esse foi um ponto de virada em sua vida no epílogo que escreveu para o Livro Vermelho em 1959:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“</em><em>Trabalhei neste livro por 16 anos. O conhecimento da alquimia, em 1930, afastou-me dele. O começ</em><em>o do fim veio em 1928, quando Wilhelm me enviou o texto da ‘Flor de Ouro’, um tratado alquimista. Então o conteú</em><em>do deste livro encontrou o caminho da realidade e eu não consegui mais continuar o trabalho. Ao observador superficial isto parecerá</em> <em>uma loucura. E teria se tornado isso mesmo, se eu não tivesse conseguido deter a forç</em><em>a dominadora das experiê</em><em>ncias originais. Com a ajuda da alquimia pude finalmente ordená</em><em>-las dentro de um todo” (Jung, Livro Vermelho, pág. 489).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma nota inicial sobre o Zen japonês se faz necessária, ele não é senão o budismo <em>Chán</em> chinês transplantado: a palavra “Zen” é a leitura japonesa do caractere 禪 (<em>chán</em>), que por sua vez transcreve o sânscrito <em>dhyāna</em>, que pode ser compreendido como “meditação” ou “absorção contemplativa”. A escola nasceu na China a partir do século VI, na confluência entre o budismo <em>Mahāyāna</em> trazido da Índia — sobretudo a tradição da vacuidade (<em>śūnyatā</em>) e a doutrina da natureza-búdica inata — e a sensibilidade autóctone do taoísmo, disciplina endêmica chinesa, cujo vocabulário do agir não-agir (w<em>ei</em> <em>wu wei</em>), da espontaneidade (<em>ziran</em>) e do vazio fecundou decisivamente a linguagem e o espírito do <em>Chán</em>. Dessa matriz chinesa vieram alguns dos elementos que hoje reconhecemos como marcas do Zen, como, por exemplo, o uso paradoxal da linguagem e, mais tarde, os <em>gō</em><em>ng&#8217;</em><em>àn</em> (os <em>kōan</em> japoneses). A diferença, portanto, é menos de doutrina que de geografia, época e ênfase cultural: o <em>Chán</em> é o tronco continental, formado no diálogo sino-índico; o Zen é o ramo japonês, que preservou o núcleo do <em>Chán</em> mas o reelaborou dentro da estética e das instituições do Japão medieval.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os Dez Quadros do Pastoreio do Boi, atribuídos ao mestre Zen Kaku-an Shi-en, monge da escola <em>Rinzai</em> do século XII, oferecem um dos mais lúcidos mapas simbólicos já produzidos por uma tradição espiritual daquilo que Jung viria a chamar de processo de individuação — o longo, sinuoso e espiralado percurso pelo qual a personalidade total emerge da indiferenciação inicial e se realiza como o si-mesmo <em>(</em><em>Selbstverwirklichung</em><em>)</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A presente análise lê a sequência dos quadros de Kaku-an, reproduzida por D. T. Suzuki, como um itinerário arquetípico, sob as lentes de Jung e de uma de suas mais fiéis discípulas, Marie-Louise von Franz. Recorreremos, em particular, a duas obras em que ambos tornaram explícita a estrutura simbólica desse percurso: <em>Psicologia e Alquimia</em>, de Jung, e <em>Alquimia</em><em>,</em> de von Franz. O paralelo não é completamente arbitrário, pois a alquimia forneceu a Jung a linguagem de imagens com que descrever as fases da transformação psíquica, e é justamente essa gramática metafórica — <em>nigredo</em><em>, albedo, rubedo</em>, a união dos opostos, a pedra filosofal como símbolo da meta, etc. — que ilumina, quadro a quadro, o pastoreio Zen do boi como uma narrativa que revela o processo de individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O boi, longe de ser mera figura pastoril, condensa um símbolo de extraordinária densidade: é, a um só tempo, a natureza instintiva, a energia psíquica autônoma e o próprio si-mesmo que se revela ao ego como algo aparentemente externo, embora — como o próprio pastor descobrirá ao final — ambos nunca tenham realmente se afastado completamente um do outro. Jung advertia que o caminho até a totalidade não é uma linha reta e escreveu em <em>Psicologia e Alquimia</em>:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“</em><em>No entanto, o caminho correto que leva</em> <em>à</em> <em>totalidade</em> <em>é</em> <em>infelizmente feito de desvios e extravios do destino. Trata-se da longissima via, que nã</em><em>o</em> <em>é</em> <em>uma reta, mas uma linha que serpenteia, unindo os opostos</em> <em>à</em> <em>maneira do caduceu, senda cujos</em> <em>meandros labir</em><em>í</em><em>nticos não nos poupam do terror. Nesta via ocorrem as</em> <em>experi</em><em>ê</em><em>ncias que se consideram de ‘</em><em>dif</em><em>í</em><em>cil acesso’</em><em>. Poder</em><em>í</em><em>amos dizer que elas sã</em><em>o</em> <em>inacess</em><em>í</em><em>veis por serem dispendiosas, uma vez que exigem de n</em><em>ó</em><em>s o que mais tememos, isto</em> <em>é</em><em>, a totalidade. Ali</em><em>á</em><em>s, falamos constantemente sobre ela</em> <em>–</em> <em>sua</em> <em>teorizaçã</em><em>o</em> <em>é</em> <em>interminá</em><em>vel</em> <em>–</em><em>, mas a evitamos na vida real. Prefere-se geralmente</em> <em>cultivar a</em> <em>‘psicologia de compartimentos’, onde uma gaveta nada sabe do que a outra cont</em><em>é</em><em>m</em><em>” (Jung, OC 12, §6).</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É essa via serpentina, feita de desvios e recomeços, que os dez quadros encenam. Esta análise resumida das imagens se organiza em quatro movimentos, onde traçamos correspondência com o que podemos entender aqui como “fases” da criação de consciência e do processo de individuação: o despertar e o primeiro encontro (I–III); o confronto sustentado com o inconsciente e a integração do instinto (IV–VI); a dissolução do símbolo e a experiência do si-mesmo (VII–VIII); e o retorno ao mundo como individuação encarnada (IX–X). Porém, queremos deixar claro, de início, que o estabelecimento de etapas para o processo de individuação é uma escolha tão arbitrária quanto qualquer tentativa de conceituar ou nomear expressões e experiências da alma; uma palavra nunca irá esgotar o fenômeno em si, que é sempre transcendente e mais do que podemos descrever a partir das limitações características da consciência.</p>



<h2 id="h-i-o-chamado-e-o-primeiro-encontro-quadros-i-iii" class="wp-block-heading"><strong>I. O Chamado e o Primeiro Encontro (Quadros I–III)</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O primeiro quadro, “Buscando o Boi”, mostra o pastor a vagar por um mato interminável, tendo perdido de vista o animal. Do ponto de vista junguiano, é a situação inaugural do processo de individuação: o ego perdeu, ou nunca teve, o contato consciente com o centro da personalidade total. O texto de Kaku-an descreve o extravio como fruto de um afastamento da própria natureza; a consciência, durante seu desenvolvimento, precisa desviar-se da dimensão arquetípica-instintiva do inconsciente coletivo. A busca pelo reencontro com esses conteúdos revela o estado de dispersão indiferenciada que a alquimia figurava na imagem da <em>prima</em> <em>materia</em>. Von Franz fala sobre esse ponto de partida usando como exemplo um texto chamado<em>“A Nuvem do Desconhecimento”,</em> que ela relata como sendo:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“</em> <em>(…) um texto m</em><em>í</em><em>stico medieval que descreve o fato de que, quanto mais perto a alma do m</em><em>í</em><em>stico estiver da Divindade, mais sombria e confusa ela fica. Esses textos dizem, com efeito, que Deus vive na nuvem do desconhecimento e que a pessoa tem de se despojar de toda ideia, de toda concepçã</em><em>o intelectual, antes de poder</em> <em>acercar-se da luz que est</em><em>á</em> <em>rodeada pelas trevas da mais profunda</em> <em>confus</em><em>ão. Aqui, a nuvem tem o mesmo duplo significado; descreve um estado de profunda confusão, de completa infelicidade, que</em> <em>é</em><em>, ao mesmo tempo, o in</em><em>í</em><em>cio do trabalho alqu</em><em>í</em><em>mico</em><em>”</em> <em>(von Franz, Alquimia</em><em>, pág 344</em><em>).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A confusão do pastor no matagal é, exatamente, esse estado de confusão da consciência: o material a ser trabalhado ainda não tem forma, e o próprio sujeito não sabe muito bem o que procura. O segundo quadro, “Vendo as Pegadas”, marca a primeira orientação enviada pelo&nbsp; próprio espírito do inconsciente. O pastor não vê o boi, mas descobre seus rastros — sinais de que o si-mesmo, embora desconhecido da consciência, deixou marcas visíveis. Em termos junguianos, podemos dizer que estes são os primeiros chamados simbólicos da alma para que o ego procure o caminho que o leve ao encontro do si-mesmo: sonhos, sincronicidades, sintomas, imagens que apontam para um centro ainda não experimentado. O texto que acompanha a imagem diz: <em>“(…) e</em><em>le</em> <em>é</em> <em>incapaz de distinguir o que</em> <em>é</em> <em>bom do que não o</em> <em>é</em><em>; sua mente ainda est</em><em>á</em> <em>confusa quanto</em> <em>à</em> <em>verdade e</em> <em>à</em> <em>falsidade” (Kaku-an,</em> <em>The Ten Oxherding Pictures</em><em>, cap. II, tradução nossa)</em>. O indivíduo, na verdade, ainda permanece dividido, tal como ocorre quando a sombra começa a ser percebida sem ainda ter sido reconhecida como própria, mas também, paradoxalmente, como uma personalidade diferente do ego e de suas identificações com a persona.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O terceiro quadro, “Vendo o Boi”, traz o primeiro encontro direto com o Outro psíquico. Significativamente, o pastor encontra o caminho pelo som que ouve, encontramos aqui a voz do <em>psicopompo</em> <em></em>que o conduz para além das defesas e espaços conhecidos pelo ego. Jung sublinhava que o primeiro contato consciente com o si-mesmo costuma dar-se por via de uma experiência numinosa, que escapa às categorias conceituais e produz fascínio e temor simultâneos. Von Franz descreve esse contato inaugural, quando o inconsciente é abordado pela primeira vez, como um encontro difícil, assustador, destrutivo e muitas vezes dissociativo. Isso se dá dessa maneira porque é preciso que as identificações unilaterais do ego sejam dissolvidas, o que faz com que a experiência seja compreendida pela consciência como obscura, confusa e dolorosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“</em><em>Fora est</em><em>á</em> <em>o nigredo, e esse seria o aspecto destrutivo do inconsciente, tal como o vivenciamos muito frequentemente, pelo menos no come</em><em>ç</em><em>o, quando o encontramos pela primeira vez. Todos os sonhos de uma pessoa</em> <em>s</em><em>ão cruciais no in</em><em>í</em><em>cio; o inconsciente est</em><em>á</em> <em>repleto de impulsos e fatores dissociativos, de fatores destrutivos; e depois, se penetramos mais profundamente, vemos algo muito leve e significativo. O esclarecimento pode vir desse lugar escuro; ou seja, se dirigimos o raio da consci</em><em>ê</em><em>ncia para ele, se o aquecemos mediante a nossa</em> <em>aten</em><em>çã</em><em>o consciente, algo branco surge, que ser</em><em>á a lua, o</em> <em>esclarecimento que prov</em><em>é</em><em>m do inconsciente”</em><em>(von Franz, Alquimia</em><em>, pág. 246</em><em>).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O boi que finalmente aparece não é ainda um aliado; é uma potência estranha e ameaçadora, cuja mera visão basta para desorganizar a atitude habitual do ego. Encontramos no texto junto à imagem:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“É como o sal na água e a cola na cor. [Está lá, embora não seja distinguível como uma entidade individual.] Quando o olho estiver devidamente direcionado, ele descobrirá que não é outro senão ele mesmo” (Kaku-an,</em> <em>The Ten Oxherding Pictures</em><em>, cap. III, tradução nossa).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A expressão poética de Kaku-an evoca aquilo que Jung entendia como um <em>continuum</em> psicofísico, apoiado no conceito alquímico do <em>Unus Mundus</em>: o si-mesmo não habita um lugar separado dos fenômenos e da percepção consciente dos mesmos, mas constitui a estrutura subjacente de toda experiência. Enxergar e compreender isso depende da capacidade simbólica que o ego precisa desenvolver durante o processo de criação de consciência.</p>



<h2 id="h-ii-a-luta-e-a-integracao-a-sombra-e-o-instinto-quadros-iv-vi" class="wp-block-heading"><strong>II. A Luta e a Integração: a Sombra e o Instinto (Quadros IV–VI)</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os quadros IV, V e VI — “Pegando o Boi”, “Pastoreando o Boi” e “Voltando para Casa nas Costas do Boi” — podem ser comparados, de forma resumida, com aquilo que Jung designou como o confronto sustentado com o inconsciente. A dinâmica muda radicalmente, pois já não se trata apenas de buscar, mas de agir e vincular; não somente de ver e reconhecer, mas de estabelecer relacionamento. O ato contemplativo dos primeiros quadros cede lugar à imagem do esforço, do chicote e da corda passada pelo nariz do animal. No quarto quadro, a natureza selvagem recusa-se a ser quebrada: a fera resiste com toda a força de uma natureza aparentemente ingovernável, e o boiadeiro não afrouxa a corda nem larga o chicote. Muitas vezes é o que precisamos fazer com a pulsão instintiva que invade a consciência, sustentar o sofrimento que a não literalização de um impulso causa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esta é, em linguagem alquímica, ainda a fase da <em>nigredo</em> — a escuridão da <em>prima materia</em> que, uma vez tocada, libera as forças contrárias, opositivas e complementares anteriormente negadas pela consciência. O paralelo não é apenas uma fraca metáfora, afinal é o próprio Jung quem estabelece essa correlação, ao identificar o primeiro estágio da obra alquímica com um dos momentos decisivos do trabalho psíquico:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“</em><em>Assim implorava um alquimista (e era um membro do clero!): ‘</em>Horridas nostrae mentis purga tenebras, accende lumen sensibus!’ <em>(Dissipa as trevas horr</em><em>í</em><em>veis de nosso esp</em><em>í</em><em>rito e acende a luz de nossos sentidos!) Esta frase exprimia provavelmente a experi</em><em>ê</em><em>ncia da</em> “ nigredo”<em>,</em> <em>primeiro est</em><em>á</em><em>gio da</em> <em>obra, sentido como ‘</em>melancholia’ <em>e que corresponde psicologicamente ao encontro com a sombra”</em> <em>(Jung,</em> <em>OC 12, §41</em><em>).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A luta do pastor com o boi indócil pode ser vista, então, como o encontro com os conteúdos sombrios do inconsciente e o retorno em massa daquilo que se encontrava projetado no mundo; há uma espécie de batalha, mas o objetivo aqui não é o afastamento, e sim a <em>coniunctio.</em> A corda passada pelo nariz do animal simboliza a vinculação consciente entre o ego e os conteúdos instintivos. Não é simplesmente uma repressão, que apenas sufocaria a manifestação do boi, mas um diálogo firme em que nem o ego abandona seu posto, nem o instinto é silenciado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O quinto quadro traz uma advertência importante de Kaku-an: “A<em>s coisas nos oprimem não por causa de um mundo objetivo, mas por causa de uma mente que se autoengana”</em> <em>(Kaku-an, The Ten Oxherding Pictures, cap.</em> <em>V</em><em>, tradu</em><em>ção nossa).</em> O texto parece definir com exatidão o que Jung formulou como o princípio da projeção: aquilo que sofremos como destino exterior é, em larga medida, o inconsciente projetado no mundo. Reintegrar essas projeções, reconhecendo como próprio o que se preferia atribuir aos outros, é a obra moral mais árdua que existe — e o caminho correto é, infelizmente, feito de desvios e extravios do destino, pois exige de nós justamente o que mais tememos, a totalidade que inclui aquilo que entendemos como negativo e/ou mal na nossa própria psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No sexto quadro a luta acabou, e o homem já não se preocupa com ganhos e perdas. A oposição que abria o ciclo — o fogo do desejo, o medo da esfera instintiva — parece ter arrefecido. Podemos ver aqui uma imagem daquilo que Jung denominou Função Transcendente: a tensão entre os opostos, mantida sem fuga e sem identificação com nenhum dos polos que gera espontaneamente um símbolo unificador, um terceiro termo que reconcilia o que parecia inconciliável. O pastor cavalga o boi enquanto toca a flauta — imagem de rara riqueza: a energia antes bruta agora carrega o ego de volta para casa. A consciência não venceu o instinto; ambos encontraram uma forma de cooperação, tal como o alquimista aprendia a seguir seus instintos naturais em vez de combatê-los.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se a luta, até agora, encenava a <em>nigredo</em>, podemos dizer que aqui começa a surgir a <em>albed</em><em>o,</em> o estado lunar em que é dissolvida a escuridão. A cooperação recém-alcançada entre ego e o arquétipo central marca essa transformação — a <em>albedo</em> que, como advertia Jung, ainda não é o pleno dia, mas apenas a prata que aguarda elevar-se ao ouro.</p>



<h2 id="h-iii-a-dissolu-cao-das-identificacoes-do-ego-e-a-experie-ncia-do-si-mesmo-quadros-vii-viii" class="wp-block-heading"><strong>III. A Dissolu</strong><strong>ção</strong> <strong>das identificações do Ego e a Experiê</strong><strong>ncia do Si-mesmo (Quadros VII–VIII)</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os quadros VII e VIII representam um momento delicado e potencialmente perigoso do processo. No sétimo quadro, “O Boi Esquecido, Restando o Homem Sozinho”, Kaku-an compara o boi à armadilha e à rede de que o pescador se serve: uma vez capturado o peixe, o instrumento pode ser deixado de lado, como o ouro que foi separado das impurezas. O símbolo que atuou como transformador da situação toda cumpriu sua função e pode ser abandonado. O boi, que durante todo o caminho mediou entre o ego e o si-mesmo, já não é necessário, pois o conteúdo que carregava foi assimilado. E a confirmação de que estamos presenciando a <em>albedo</em> vem com o texto: <em>“(…) é como a lua surgindo por entre as nuvens. O</em> <em>ú</em><em>nico raio de luz, sereno e penetrante, brilha mesmo antes dos dias da criaçã</em><em>o</em><em>”</em> <em>(Kaku-an, The Ten Oxherding Pictures, cap. V</em><em>II</em><em>, tradu</em><em>ção nossa).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Von Franz, assim como Jung, advertia repetidamente sobre o risco desta etapa. Ter dissolvido a mediação simbólica e experimentado a proximidade do centro pode conduzir à inflação — a identificação do ego com o si-mesmo, situação em que o sujeito se toma pela totalidade que apenas atravessa. É por isso que Jung insistia em que a meta não coincide com o ego, mas com um centro transcendente que o ultrapassa e o inclui.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O oitavo quadro, “O Boi e o Homem Ambos Fora de Vista”, é o célebre círculo vazio — um simples anel de tinta em torno do branco do papel. Do ponto de vista junguiano, podemos ver, talvez, um dos mais puros mandalas: a figura circular que, em torno de um centro vazio, expressa a totalidade psíquica para além de toda representação, o próprio <em>Tao</em>. Jung observava que o caminho da individuação, embora pareça cíclico, é na verdade uma espiral: os mesmos temas retornam em intervalos, mas cada vez mais próximos do centro para o qual apontam. É esse mesmo conteúdo que encontramos na imagem: o ego entra em harmonia com a totalidade e o si-mesmo age através dele; é o princípio taoísta, citado anteriormente, do <em>wei wu wei</em> (agir não agir): Ego e si-mesmo são, a um tempo, observadores e observados, sujeitos e objetos. O círculo vazio é o zero absoluto a partir do qual tudo pode renascer. O estado primordial <em>Wu Ji,</em> de onde todas as coisas surgem, de onde emergem e para onde retornam <em>Yin</em> e <em>Yang.</em></p>



<h2 id="h-iv-o-retorno-ao-mundo-a-individuacao-encarnada-quadros-ix-x" class="wp-block-heading"><strong>IV. O Retorno ao Mundo: a Individuação Encarnada (Quadros IX–X)</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se compreendermos o círculo vazio do oitavo quadro como o branco absoluto e o ápice da <em>albedo</em>, o regresso ao mercado é a <em>rubedo</em>: o nascer do sol que sucede à aurora, a ação que surge com o novo dia. A totalidade não permanece na alvura contemplativa da experiência mística; encarna-se no vermelho do sangue e da vida partilhada — as mãos que concedem felicidade, o toque sob o qual as árvores mortas florescem.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aqui reside uma das coisas mais notáveis que podemos encontrar nos Dez Quadros de Kaku-an: o processo de individuação, tal como Jung o concebia, não se encerra na experiência mística. Pelo contrário, a experiência do si-mesmo exige um retorno ao mundo concreto, sob pena da experiência numinosa tornar-se fuga, e portanto traição da totalidade que se buscava.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O nono quadro, “Retornando à Origem, de Volta à Fonte”, surpreende com um verso que declara ser um erro simplesmente retornar ao início:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Voltar à</em> <em>Origem, estar de volta à</em> <em>Fonte</em> <em>— j</em><em>á é um passo em falso! Muito melhor</em> <em>é</em> <em>ficar em casa, cego e surdo, e sem muita agitaçã</em><em>o;</em> <em>Sentado na cabana, ele não percebe as coisas lá</em> <em>fora, Eis os riachos correndo</em> <em>—</em> <em>para onde ningu</em><em>é</em><em>m sabe; e as flores de um vermelho vivo</em> <em>—</em> <em>para quem sã</em><em>o?</em> <em>(</em><em>Kaku-an, The Ten Oxherding Pictures, cap.</em> <em>IX</em><em>, tradu</em><em>ção nossa).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A frase funciona como <em>koan</em> e pode ser lida como advertência contra a regressão ao estado de indiferenciação, a uma identificação com os arquétipos e instintos. Voltar à Fonte é necessário; insistir em permanecer nela equivaleria à dissolução do ego no si-mesmo — a possessão arquetípica que Jung temia, em que o indivíduo perde a autonomia por identificar-se com o que o ultrapassa. Voltar ao início simplesmente, seria retornar ao estado de participação mística, onde não é possível se diferenciar do objeto e ficamos aprisionados nas projeções. As águas são azuis, as montanhas são verdes! Nesse estágio, o sábio também compreende que a realidade simplesmente é o que é, não é necessário tentar manifestar o si-mesmo como um espetáculo. É a serenidade da personalidade renovada que von Franz, comentando a iconografia alquímica, associa à fênix erguida sobre o sol e a lua na imagem da <em>Montanha dos Adeptos</em> — os opostos, agora reconciliados no símbolo do renascimento contínuo. Diz o ditado Zen:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Antes de estudar o Zen, as montanhas são montanhas e os rios são rios; enquanto se estuda o Zen, as montanhas não s</em><em>ão mais montanhas e os rios não s</em><em>ão mais rios; mas depois da iluminação, as montanhas são novamente montanhas e os rios são novamente rios (atribuí</em><em>do ao mestre Ch&#8217;an Qingyuan Weixin).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O décimo quadro, “Entrando na Cidade com Mãos que Concedem Felicidade”, culmina o processo. O homem realizado entra no mercado de peito e pés descalços, manchado de lama e cinzas, em companhia de bebedores de vinho e açougueiros. É a imagem mais antitética possível à do santo que se isola da vida comum. Para Jung, este era o teste decisivo da individuação genuína: quem se entregou ao si-mesmo não se distingue exteriormente do homem comum; sua transformação manifesta-se apenas na qualidade de sua presença — ele toca, e as árvores mortas florescem. É este o ser humano total que a alquimia buscava sob o barro da <em>prima</em> <em>materia:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“</em><em>Justamente</em> <em>é</em> <em>este</em> <em>‘</em>homo totus’ <em>que se procura. O esfor</em><em>ç</em><em>o do</em> <em>m</em><em>é</em><em>dico</em> <em>(analista), bem como a busca do paciente, perseguem esse ‘homem total’</em> <em>oculto e</em> <em>ainda não manifesto, que</em> <em>é</em> <em>tamb</em><em>é</em><em>m o homem mais amplo e futuro”</em> <em>(Jung,</em><em>OC 12, §6, parênteses nossos</em><em>).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A cabaça, símbolo do vazio potencial, uma espécie de vaso alquímico, e o bastão— única posse de quem compreendeu que o desejo de possuir é a maldição da vida humana (Suzuki aponta isso na nota 4) — indicam que o homem realizado leva consigo, no mundo concreto, aquilo que aprendeu na solitude, no solilóquio imaginal da <em>opus</em> alquímica. Não é por acaso que quem entra no mercado é agora um ancião: a figura do velho de ventre largo e riso franco, apoiada no bastão, evoca o que podemos reconhecer como uma imagem arquetípica do velho sábio — o portador do sentido, cujo cajado não é signo de fraqueza, mas o ponto de apoio de quem se firmou no eixo do si-mesmo. É o pastor do primeiro quadro, envelhecido pelo longo caminho, retornando para ensinar, não somente através de palavras, mas principalmente com suas ações, ele toca, e as árvores mortas florescem novamente. A meta não é abandonar a existência comum, mas habitá-la transformado, servindo à coletividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Lidos à luz de Jung e de von Franz, os Dez Quadros do Pastoreio deixam de ser uma peculiaridade da espiritualidade Zen para revelar-se como uma imagem arquetípica do processo de individuação — reconhecível em muitas das narrativas que a alquimia ocidental produziu de modo independente. A confusão inicial da <em>prima</em> <em>materia</em>, a escuridão da <em>nigredo</em> como encontro com a sombra, a domesticação do instinto na <em>albedo</em>, a união dos opostos com a função transcendente na <em>rubedo</em>, o mandala do círculo vazio e a pedra filosofal como meta encontram, quadro a quadro, correspondências metafóricas com o processo de individuação. Essa convergência entre tradições distantes é, para Jung, uma das provas mais fortes da objetividade dos arquétipos: o mesmo processo psíquico se expressa, em latitudes distintas, numa linguagem simbólica similar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A pergunta final proposta por Suzuki na sua interpretação do texto — <em>“se a natureza-Buda já é perfeita, por que buscar a iluminaçã</em><em>o?</em><em>”</em> — encontra na teoria junguiana uma resposta psicológica. O si-mesmo existe a <em>priori</em>, mas precisa ser reconhecido pela consciência para existir de fato, para ser realizado na concretude. Porém, a totalidade da psique não equivale (e nunca equivalerá) àquilo que pode ser vivido pelo ego. Ao mesmo tempo, é somente o ego que pode reconhecer o si-mesmo como totalidade transcendente. O ego vive apenas uma história do que é a potencialidade infinita do si-mesmo. Como diz Jung no começo de <em>Memórias, sonhos e reflexões: “Minha vida</em> <em>é</em> <em>a</em> <em>hist</em><em>ó</em><em>ria d</em><em>e</em> <strong><em>uma</em></strong> <em>autorrealização do inconsciente” (Jung,</em> <em>Erinnerungen, Traume, Gedanken von C. G. Jung</em><em>, pág. 1 tradução e negrito nossos).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O boi sempre esteve em sua própria casa. É o pastor que precisa percorrer um longo caminho para descobri-lo, lutar com ele, estabelecer uma relação harmoniosa, deixá-lo ir e, por fim, voltar para o mercado. Como sintetiza von Franz, esse é o percurso capaz de dar à vida individual um sentido que não se esgota em fórmulas coletivas, mas se enraíza no encontro pessoal, irrepetível e silencioso com o si-mesmo. Esta, e nenhuma outra, é a obra real de uma vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Encerramos este ensaio com uma frase de Jung que poderia muito bem ser atribuída a um mestre Zen:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Talvez quando não tenhamos mais nada a criar, criemos-nos as nós mesmos” (Jung, 11/5, §906)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior &#8211; Professor e Membro Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Vídeo de apresentação:</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. O Livro Vermelho: Liber Novus. Edição de Sonu Shamdasani. Petrópolis: Vozes, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Psicologia e Alquimia. Obras Completas, vol. 12. Petrópolis: Vozes, 2016a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Psicologia e Religião Oriental. Obras Completas, vol. 11/5. Petrópolis: Vozes, 2016b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Erinnerungen, Träume, Gedanken von C. G. Jung. Herausgegeben von Aniela Jaffé. Zürich: Rascher Verlag, 1962.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie-Louise. Alquimia: Uma Introdução ao Simbolismo e à Psicologia. São Paulo: Cultrix, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SUZUKI, D. T. Manual of Zen Buddhism. Nova York: Grove Press, 1956.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAKU-AN Shi-en. The Ten Oxherding Pictures. In: SUZUKI, D. T., op. cit. Manual of Zen Buddhism. Nova York: Grove Press, 1956.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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