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	<title>Arquivos sentido da vida - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Mon, 16 Mar 2026 19:59:05 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos sentido da vida - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Partejar a si mesmo: renascimento psíquico na maturidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/partejar-a-si-mesmo-renascimento-psiquico-na-maturidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paula Pessanha Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Mar 2026 18:08:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[transformação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando aquilo que sustenta a identidade do indivíduo já não faz mais sentido, talvez não seja fracasso — mas um chamado. A Psicologia Analítica compreende esse vazio da maturidade como uma exigência de renascimento psíquico: uma travessia em que o antigo eu precisa morrer para que algo mais verdadeiro possa emergir. “Partejar a si mesmo” é a imagem desse processo — doloroso, inevitável e profundamente transformador. Este artigo propõe olhar o envelhecimento não como declínio, mas como território iniciático, onde a pergunta decisiva finalmente se impõe: quem sou eu quando já não sou quem fui?</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/partejar-a-si-mesmo-renascimento-psiquico-na-maturidade/">Partejar a si mesmo: renascimento psíquico na maturidade</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>RESUMO: </strong><em>Quando aquilo que sustenta a identidade do indivíduo já não faz mais sentido, talvez não seja fracasso — mas um chamado. A Psicologia Analítica compreende esse vazio da maturidade como uma exigência de renascimento psíquico: uma travessia em que o antigo eu precisa morrer para que algo mais verdadeiro possa emergir. “Partejar a si mesmo” é a imagem desse processo — doloroso, inevitável e profundamente transformador. Este artigo propõe olhar o envelhecimento não como declínio, mas como território iniciático, onde a pergunta decisiva finalmente se impõe: quem sou eu quando já não sou quem fui?&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-momentos-da-vida-em-que-aquilo-que-antes-sustentava-o-sentido-trabalho-papeis-sociais-expectativas-reconhecimento-posicao-social-deixa-de-responder-as-perguntas-mais-profundas-da-alma-nbsp" style="font-size:18px">​​Há momentos da vida em que aquilo que antes sustentava o sentido — trabalho, papéis sociais, expectativas, reconhecimento, posição social — deixa de responder às perguntas mais profundas da alma.&nbsp;</h2>



<p id="h-a-vida-segue-mas-algo-essencial-se-perde" style="font-size:18px"><strong>A vida segue, mas algo essencial se perde</strong>. Aquilo que antes organizava a identidade já não oferece sustentação. Instala-se um sentimento de vazio, uma perda de vitalidade, um desânimo, que frequentemente é confundido com fracasso pessoal ou até mesmo uma patologia. Esse estado costuma ser vivido com angústia, no entanto, esse esvaziamento não é, em si, depressão nem sinal de adoecimento psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-trata-se-muitas-vezes-de-uma-crise-de-identidade-o-individuo-ja-nao-se-reconhece-naquilo-que-antes-lhe-dava-contorno" style="font-size:18px">Trata-se, muitas vezes, de uma <strong>crise de identidade</strong>: o indivíduo já não se reconhece naquilo que antes lhe dava contorno.</h2>



<p style="font-size:18px">O que agradava, já não satisfaz mais; valores que eram importantes perdem a força; surge a experiência de não saber mais quem se é. Esse desconhecimento de si pode ser profundamente desestabilizador — e exatamente por isso, carregado de <strong>potencial transformador</strong>. Perguntas antes irrelevantes tornam-se urgentes. “Por que eu gostava disso e agora não gosto mais?”, “O que, afinal, ainda faz sentido para mim?, “O que a vida quer de mim?”</p>



<p style="font-size:18px">Na Psicologia Analítica, esse momento pode indicar uma <strong>exigência psíquica de transformação</strong>, típica da segunda metade da vida. A busca que se impõe já não é externa. Não se trata de novos projetos, novos papéis ou novos reconhecimentos. Trata-se de uma busca <strong>interior</strong>, que não pode ser simplesmente decidida ou planejada. Ela precisa ser gestada, sustentada e, finalmente, parida. É nesse horizonte que emerge a imagem central deste artigo: <strong>“partejar a si mesmo”</strong>, como símbolo de um processo interno árduo, inevitável e criativo do amadurecimento psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-etapas-da-vida" style="font-size:22px"><strong>As etapas da vida</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Jung descreve a primeira metade da vida como orientada fundamentalmente pela <strong>adaptação ao mundo exterior</strong>. O desenvolvimento da psique, nesse período, está centrado no fortalecimento e na estruturação do ego, que precisa se diferenciar progressivamente do inconsciente (JUNG, <em>2013</em>).</p>



<p style="font-size:18px">Nessa etapa o indivíduo desenvolve a personalidade parcialmente consciente, constrói a persona, sua vida funcional e produtiva. Trabalho, família, vida social e conquistas materiais tornam-se eixos organizadores da identidade. Trata-se de uma fase necessária e legítima do desenvolvimento psíquico. Sem um ego suficientemente estruturado, não há base para desenvolvimento de processos mais complexos.</p>



<p style="font-size:18px">Contudo, Jung é enfático ao afirmar que essa lógica não pode reger toda a existência. Na <strong>segunda metade da vida</strong> surge uma relação diferente entre ego e Self. É o que Jung denomina <strong>metanoia</strong>: uma crise profunda de reorientação psíquica, na qual ocorre um questionamento radical dos valores até então vigentes. A libido (energia psíquica), antes predominantemente dirigida ao mundo externo, volta-se para o mundo interno. O ego passa a buscar o si-mesmo (centro regulador da psique) a procura de uma nova orientação para a vida. É chegado o momento do resgate da alma. A esse movimento Jung dá o nome de <strong>processo de individuação</strong>, entendida como o objetivo do desenvolvimento psíquico em direção à realização da totalidade da personalidade, ao tornar-se verdadeiramente quem se é.</p>



<p style="font-size:18px">Para ilustrar essa inversão de valores, Jung compara o desenvolvimento humano ao curso diário do sol:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:5px">
<p style="font-size:18px">“Suponhamos um Sol dotado de sentimentos humanos e de uma consciência humana relativa ao momento presente. De manhã, o Sol se eleva do mar noturno do inconsciente […] Precisamente ao meio-dia, o Sol começa a declinar e este declínio significa uma inversão de todos os valores e ideais cultivados durante a manhã” (JUNG, <em>A natureza da psique</em>, OC 8/2, §778).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-inversao-nao-e-patologica-nem-opcional-simplesmente-acontece-quando-o-ego-insiste-em-viver-a-maturidade-segundo-a-logica-da-juventude-expansao-produtividade-adaptacao-externa-o-sofrimento-e-inevitavel" style="font-size:18px">Essa inversão não é patológica nem opcional, simplesmente acontece. Quando o ego insiste em viver a maturidade segundo a lógica da juventude — expansão, produtividade, adaptação externa —, o sofrimento é inevitável.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">“Da mesma forma que o indivíduo preso à infância recua apavorado diante da incógnita do mundo e da existência humana, assim também o homem adulto recua assustado diante da segunda metade da vida, como se o aguardassem tarefas desconhecidas e perigosas, ou como se sentisse ameaçado por sacrifícios e perdas que ele não teria condições de assumir, ou ainda como se a existência que ele levara até agora lhe parecesse tão bela e tão preciosa, que ele já não seria capaz de passar sem ela.” (JUNG, <em>A natureza da psique</em>, OC 8/2, §777)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-sofrimento-nesse-contexto-surge-pela-resistencia-a-transformacao-psiquica" style="font-size:18px">O sofrimento, nesse contexto, surge pela <strong>resistência à transformação psíquica</strong>.</h2>



<p style="font-size:18px">Jung foi muito claro ao afirmar que é a recusa em aceitar a mudança, em atender ao chamado do Self, que traz sofrimento. Segundo ele, “para o homem que envelhece é um dever e uma necessidade dedicar atenção séria ao seu próprio si-mesmo. Depois de esbanjar luz e calor sobre o mundo, o Sol recolhe seus raios para iluminar a si-próprio.” (JUNG, 2013)</p>



<p style="font-size:18px">No entanto, é muito comum vermos essa recusa perdurar até depois da metanoia, que costuma acontecer por volta dos 40 anos. Importante deixar claro que o envelhecimento, não leva necessariamente ao amadurecimento psíquico. Para que isto ocorra, o indivíduo deve aceitar esse chamado com consciência e confiança. O processo de amadurecimento pode acontecer tardiamente, ou até mesmo, nunca acontecer.&nbsp; E se assim for, se vive uma velhice sem sentido, em profunda depressão, acompanhado somente das lembranças do passado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-renascimento-psiquico" style="font-size:22px"><strong>O renascimento psíquico</strong></h2>



<p style="font-size:18px">A recusa em viver o envelhecimento sem sentido pode levar as pessoas ao processo do <strong>renascimento psíquico</strong>. Jung se debruçou sobre esse tema, considerando-o como um arquétipo. Isso porque a ideia de renascimento está presente na história da humanidade e amplamente difundida por meio de mitos em diferentes culturas. O renascimento pode ser ocasionado por um evento externo, como por exemplo, uma doença ou a morte de um ente querido, ou interno, como o caso da metanoia.</p>



<p style="font-size:18px">Renascimento, portanto, <strong>não equivale a recomeçar a vida</strong> nem a buscar uma juventude tardia. Trata-se de uma <strong>morte simbólica</strong> de antigas identificações egóicas, acompanhada de desorganização do ego e da emergência de novas imagens orientadoras do Self. Jung descreve diferentes formas de renascimento: a <em>renovatio</em>, na qual funções psíquicas são fortalecidas sem alteração essencial da personalidade; a <strong>transformação no sentido de ampliação</strong>, a possibilidade de modificação da personalidade; e o <strong>renascimento indireto</strong>, pela participação em processos ou ritos de transformação (JUNG, <em>2014</em>). Na maturidade, é frequentemente a transformação que se impõe.</p>



<p style="font-size:18px">Esse processo não é confortável. Ele envolve perda de certezas, desorientação e espera. O ego perde centralidade, e o Self passa a orientar a vida psíquica. Novas imagens e valores emergem do inconsciente, exigindo elaboração simbólica e ética.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-partejar-a-si-mesmo" style="font-size:22px"><strong>Partejar a si mesmo</strong></h2>



<p style="font-size:18px">O renascimento desejado na maturidade é, portanto, um processo consciente, ou seja, de ampliação de consciência. E exige muito trabalho e dedicação. É nesse campo que se insere a imagem simbólica de <strong>“partejar a si mesmo”</strong>. Partejar a si mesmo não é um projeto de autoaperfeiçoamento; é responder ao <strong>chamado do Self</strong>. É uma experiência psíquica: o nascimento de algo novo.</p>



<p style="font-size:18px">Como todo parto, trata-se de um processo marcado por dor, tempo próprio e impossibilidade de controle. O novo não nasce por decisão racional; ele nasce <strong>apesar do ego</strong>. Partejar a si mesmo é suportar os lutos inerentes à maturidade: deixar morrer personas que garantiam pertencimento, abandonar ideais de onipotência, integrar aspectos sombrios da personalidade que permaneceram dissociados durante a vida produtiva. O que nasce não é um “novo eu” idealizado, mas uma <strong>nova relação entre ego e Self</strong>.</p>



<p style="font-size:18px">Para partejar a si mesmo, é necessário um ego suficientemente flexível, capaz de sustentar a tensão com o inconsciente, sem colapsar nem se defender rigidamente. Esse processo ocorre no tempo do <em>kairós</em>, o tempo da alma, e não no tempo cronológico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-transformacao-psiquica-exige-tomada-de-consciencia" style="font-size:18px">A transformação psíquica exige <strong>tomada de consciência.</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Esse processo só se torna possível por meio daquilo que Jung denominou <strong>função transcendente</strong> &#8211; um processo que emerge da tensão entre consciente e inconsciente:&nbsp; passado e futuro, vida externa esvaziada e exigência interna ainda informe. Quando o ego suporta essa tensão sem repressão ou identificação inflacionada, surgem símbolos vivos — sonhos, imagens, sintomas significativos — que mediam a transformação psíquica. Jung afirma que, nesse movimento, conteúdos inconscientes são assimilados pela consciência, ampliando-a e produzindo uma nova atitude diante da vida (JUNG, 2013).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Ninguém que haja passado pelo processo de assimilação do inconsciente poderá negar o fato de ter-se emocionado profundamente e de ter-se transformado.</p><cite>JUNG, <em>O eu e o inconsciente</em>, OC 7/2, §361</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">Nesse momento da vida, as perguntas que se impõem não dizem mais respeito ao que foi conquistado ou desempenhado externamente, mas à <strong>verdade psíquica</strong> que sustenta — ou não — essa trajetória.</p>



<p style="font-size:18px"><strong><em>“As personas (máscaras sociais) que desempenhei durante toda minha vida estão conectadas aos valores do Self?”</em></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><em>“Reconheço minhas partes reprimidas da personalidade (sombras), aqueles piores defeitos ou então aquela potencialidade que não tive coragem de assumir?”</em></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><em>“Quem eu sou para além da história e dos papeis que representei?”</em></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-recusa-da-espera-da-morte" style="font-size:22px"><strong>A recusa da espera da morte</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Sob essa perspectiva, o envelhecimento pode ser compreendido como um <strong>portal iniciático</strong>. A perda de valor da persona social não é um empobrecimento, mas uma convocação à interiorização. A recusa em “esperar a morte” — tão frequente em culturas que associam valor à produtividade — pode ser lida como resposta do Self à estagnação psíquica.</p>



<p style="font-size:18px">Como imagem contemporânea desse processo temos o filme <strong>Azul Profundo</strong>. O filme acompanha uma mulher idosa que, após a aposentadoria forçada, se vê retirada do mundo produtivo e confrontada com a expectativa social de recolhimento e espera passiva da morte. Em vez disso, a personagem recusa essa morte psíquica antecipada e inicia um movimento de reinvenção subjetiva, ainda que marcado por solidão, estranhamento e conflito. A crise vivida pela protagonista não se configura como depressão, mas como <strong>desorientação existencial</strong>: aquilo que antes estruturava o cotidiano já não existe, e nada ainda ocupou o lugar deixado por essa perda. A personagem não “se reinventa”; ela <strong>atravessa uma morte simbólica</strong>. A recusa em simplesmente “esperar a morte” não se expressa como rebeldia, mas como <strong>persistência em permanecer viva psiquicamente</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-observa-que-quando-o-desenvolvimento-psiquico-e-interrompido-a-vida-perde-sentido-e-o-individuo-adoece-nao-por-envelhecer-mas-por-deixar-de-se-transformar-jung-2013" style="font-size:18px">Jung observa que, quando o desenvolvimento psíquico é interrompido, a vida perde sentido e o indivíduo adoece não por envelhecer, mas por deixar de se transformar (JUNG, 2013).</h2>



<p style="font-size:18px">O filme encarna essa afirmação ao mostrar que a velhice, quando reduzida à inutilidade social, torna-se insuportável; mas quando vivida como território de escuta e transformação, pode adquirir outro estatus simbólico.</p>



<p style="font-size:18px">Nesse sentido, o filme ilustra com precisão a imagem de <strong>“partejar a si mesmo”</strong>: algo precisa morrer, algo ainda não tem forma, e o ego — despojado de seus antigos papéis — precisa suportar a dor, o tempo e a incerteza desse processo. O novo sentido, se surgir, não virá como conquista do ego, mas como resposta silenciosa do Self à coragem de não viver de forma falsa.</p>



<p style="font-size:18px">Como disse Jung: “a vida tem de ser conquistada sempre e de novo&#8221; (JUNG, 2013). Quando a vida externa já não oferece sentido, a psique não está falhando. Ela está exigindo transformação. Nem todo envelhecimento conduz à individuação; mas <strong>sem atravessar a crise</strong>, ela não ocorre.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Partejar a si mesmo</strong> não é escolha confortável, nem promessa de plenitude. É seguir o chamado da alma, quando já não é mais possível viver de outra forma. Em última instância, é responder à pergunta que inaugura a maturidade: <strong>quem sou eu quando já não sou quem fui?</strong></p>



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<iframe title="Artigo Novo: &quot;Partejar a si mesmo renascimento psíquico na maturidade&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/EC0BaGsVZ-Y?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ana-paula-pessanha-lima/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/ana-paula-pessanha-lima/"><strong>Ana Paula Pessanha Lima &#8211; Membro Analista em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências</strong>:</h3>



<p>JUNG, C. G. (2015). <em>O eu e o inconsciente</em> (OC 7/2). Petrópolis: Vozes.</p>



<p>JUNG, C. G. (2013). <em>A natureza da psique</em> (OC 8/2). Petrópolis: Vozes.<br>JUNG, C. G. (2014). <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em> (OC 9/1). Petrópolis: Vozes.</p>



<p>JUNG, C. G. (2013). <em>Desenvolvimento da Personalidade </em>(OC 17). Petrópolis: Vozes.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Entre o Vivido e o Não Vivido: A Sabedoria da Velhice</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/entre-o-vivido-e-o-nao-vivido-a-sabedoria-da-velhice/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rosana T W Hanada]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Mar 2026 15:20:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
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		<category><![CDATA[Velhice]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo apresenta reflexões sobre o envelhecimento à luz da Psicologia Analítica, destacando-o como um período simbólico de ampliação da consciência e integração dos conteúdos inconscientes. A partir de Jung e de autores contemporâneos, reflete-se sobre a vida não vivida, o movimento de interiorização e a busca por significado como aspectos fundamentais da jornada de individuação na segunda metade da vida. Envelhecer, sob essa perspectiva, deixa de ser apenas um declínio biológico e se torna um convite à integração, à reconciliação e à plenitude.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Este artigo apresenta reflexões sobre o envelhecimento à luz da Psicologia Analítica, destacando-o como um período simbólico de ampliação da consciência e integração dos conteúdos inconscientes. A partir de Jung e de autores contemporâneos, reflete-se sobre a vida não vivida, o movimento de interiorização e a busca por significado como aspectos fundamentais da jornada de individuação na segunda metade da vida. Envelhecer, sob essa perspectiva, deixa de ser apenas um declínio biológico e se torna um convite à integração, à reconciliação e à plenitude.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao"><strong>Introdução</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Envelhecer é, talvez, uma das experiências humanas mais universais e, paradoxalmente, menos compreendidas. Em uma sociedade que idolatra a produtividade, a juventude e o desempenho, o processo de envelhecimento costuma ser visto sob a ótica da perda: perda do corpo, do vigor, do espaço social, da autonomia. Entretanto, para a Psicologia Analítica, a velhice representa muito mais do que um declínio orgânico. Trata-se de um período decisivo para a alma, um momento em que os conteúdos esquecidos, negados ou não vividos ao longo da vida retornam, convidando a consciência para um diálogo profundo com o inconsciente.</p>



<p style="font-size:18px">A metáfora solar utilizada por Jung ilustra esse processo ao afirmar que “<strong>a vida desce agora montanha abaixo, com a mesma intensidade e irresistibilidade com que a subia antes da meia-idade</strong>” (JUNG, 2013a, §798). A consciência, antes dirigida ao mundo e às suas exigências, passa a se voltar para o íntimo, em que um pedido de reorganização e de sentido começa a emergir. É nesse ponto que a velhice revela sua dimensão simbólica: um tempo em que a vida nos devolve a nós mesmos. É um convite à interiorização, ao recolhimento e à pergunta essencial: <em>“O que foi feito da minha vida e o que ainda falta integrar?”</em> O envelhecimento é uma espécie de retorno ao próprio eixo, quando o ego, já cansado de manter as personas, encontra-se diante da tarefa inevitável de olhar para si mesmo.</p>



<p style="font-size:18px">Esta reflexão nasce de duas fontes: minha trajetória pessoal e o estudo desenvolvido em meu trabalho sobre envelhecimento na conclusão do curso de psicologia junguiana. A intenção desse artigo é oferecer um olhar cuidadoso e humano sobre uma etapa que, embora temida, pode ser rica e libertadora.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-envelhecimento-como-movimento-de-interiorizacao" style="font-size:22px"><strong>O Envelhecimento como Movimento de Interiorização</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Jung comparou a vida humana ao curso do sol: da aurora ao zênite, a energia progride para fora e para frente, expandindo-se em direção ao mundo (Cf. JUNG, 2014, §114). É o período da juventude e da maturidade inicial, dedicado à formação das personas, ao aprendizado social, ao trabalho, aos papéis familiares e à conquista de um lugar no mundo. Trata-se da fase em que a consciência se fortalece por meio da relação com o exterior.</p>



<p style="font-size:18px">Entretanto, ao atravessar o meio-dia simbólico da vida, algo começa a mudar internamente. A força que impulsionava o indivíduo para fora passa a demandar retorno, introspecção e simplificação. O olhar antes voltado para conquistas e estabilidade começa a buscar silêncio, significado e profundidade. Jung descreve esse fenômeno como uma mudança natural do eixo energético, um deslocamento do foco da adaptação externa para a integração interna, pois:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>O ser humano não chegaria aos setenta ou oitenta anos se esta longevidade não tivesse um significado para a sua espécie. Por isto, a tarde da vida humana deve ter também um significado e uma finalidade próprios, e não pode ser apenas um lastimoso apêndice da manhã da vida.</p><cite>JUNG, 2013a, § 787</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-segunda-metade-da-vida-a-alma-pede-um-outro-tipo-de-alimento-menos-material-mais-simbolico-menos-performatico-mais-essencial" style="font-size:18px">Na segunda metade da vida, a alma pede um outro tipo de alimento: menos material, mais simbólico; menos performático, mais essencial.</h2>



<p style="font-size:18px">É o período em que muitas pessoas começam a questionar seus valores, suas identidades e até mesmo a necessidade de manter certas máscaras sociais. A persona, tão necessária na adaptação ao mundo externo (Cf. JUNG, 2015, §246), começa a se mostrar estreita para conter o movimento da alma.</p>



<p style="font-size:18px">Esse processo costuma ser acompanhado por sentimentos de estranhamento, inquietação ou certo vazio. O que antes parecia suficiente, como carreira, desempenho, reconhecimento, segurança, status, já não oferece o mesmo sentido. É o inconsciente que está chamando a atenção da consciência para a necessidade de reorganização interna (Cf. JUNG, 2013b, §331b).</p>



<p style="font-size:18px">A vida moderna reforça um padrão que prolonga artificialmente a lógica da juventude: produtividade contínua, culto ao corpo, aceleração, hiperconexão, negação da fragilidade e da vulnerabilidade. Essa força cultural empurra o indivíduo a permanecer na expansão, mesmo quando sua psique pede quietude. O conflito entre essas duas dinâmicas, a externa coletiva e a interna individual, gera sofrimento e angústia.</p>



<p style="font-size:18px">No entanto, do ponto de vista junguiano, este é justamente o momento mais potente da existência. É quando a pessoa tem a oportunidade de questionar as narrativas que construiu sobre si mesma e de permitir que as partes esquecidas de sua alma, muitas vezes relegadas ao inconsciente por exigências da persona e do contexto social, venham à luz (Cf. HOLLIS, 1995, p. 58). É uma fase em que as perguntas se tornam mais importantes que as respostas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-meia-idade-a-pessoa-fica-mais-suscetivel-a-ocorrencia-da-metanoia-que-pode-significar-expansao-da-consciencia-ir-alem-da-razao-logica-transcender-converter-se-ter-mudanca-de-crencas-ou-visao-de-mundo-magaldi-2023" style="font-size:18px">Na meia-idade, a pessoa fica mais suscetível à ocorrência da metanoia, que pode significar “expansão da consciência, ir além da razão lógica, transcender, converter-se, ter mudança de crenças ou visão de mundo” (MAGALDI, 2023).</h2>



<p style="font-size:18px">O envelhecimento, então, deixa de ser interpretado como perda e passa a ser compreendido como um convite para reorganizar a vida a partir da verdade interior, não mais das expectativas externas, mas um chamado para viver “melhor”.</p>



<p style="font-size:18px">No caminho da individuação, esse movimento de interiorização representa maturação (Cf. JUNG, 2014, §91). Assim como o sol que se põe tingindo o céu de cores que só o entardecer pode produzir, o envelhecimento oferece tonalidades de sabedoria que não estão disponíveis em outras fases da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-vida-nao-vivida-e-o-retorno-dos-conteudos-esquecidos" style="font-size:22px"><strong>A Vida Não Vivida e o Retorno dos Conteúdos Esquecidos</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Ao atravessar a metade da vida, muitas pessoas descobrem que o passado, antes acomodado em silêncios, retorna, muitas vezes, com surpreendente intensidade. Sensações de nostalgia, lembranças persistentes, perguntas sobre escolhas feitas ou evitadas, e um sentimento difuso de que “algo essencial ficou para trás” começam a ocupar a paisagem interior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-nesse-momento-que-nossa-vida-nao-vivida-se-ergue-dentro-de-nos-exigindo-nossa-atencao-johnson-2010-p-9" style="font-size:18px"><em>“É nesse momento que nossa vida não vivida se ergue dentro de nós, exigindo nossa atenção” (JOHNSON, 2010, p. 9).</em></h2>



<p style="font-size:18px">Para Jung (Cf. 2013, §789), a vida vivida de forma expandida, útil, eficiente, com boa imagem social, emprego adequado e bom casamento são conquistas importantes e necessárias na primeira metade da vida, mas:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="is-style-large" style="font-size:19px">Infelizmente não são objetivos suficientes nem têm sentido para muitos que não veem na aproximação da velhice senão uma diminuição da vida e consideram seus ideais anteriores simplesmente como coisas desbotadas e puídas! Quantas coisas na vida não foram vividas por muitas pessoas – muitas vezes até mesmo potencialidades que elas não puderam satisfazer, apesar de toda a sua boa vontade – e assim se aproximam do limiar da velhice com aspirações e desejos irrealizados que automaticamente desviam o seu olhar para o passado (ibidem, p. 357).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nada-do-que-deixamos-de-viver-desaparece-tudo-e-preservado-no-inconsciente-a-espera-de-um-momento-propicio-para-emergir" style="font-size:18px">Nada do que deixamos de viver desaparece; tudo é preservado no inconsciente, à espera de um momento propício para emergir.</h2>



<p style="font-size:18px">A meia-idade é o momento propício para que isso ocorra, conteúdos antes reprimidos encontram passagem para a consciência, trazendo à tona aspectos esquecidos, negados ou simplesmente negligenciados (Cf. HOLLIS, 1995, p. 58). A psique tenta reparar e integrar aquilo que ficou sem lugar.</p>



<p style="font-size:18px">Essas imagens que emergem, os sentimentos que insistem, as memórias que reaparecem têm o propósito de ampliar a consciência, mesmo quando provocam desconforto. A nostalgia que muitos sentem é um sinal simbólico de que fragmentos da personalidade desejam ser reconhecidos. Ela aponta para partes legítimas de nós mesmos que, por circunstâncias diversas, não puderam se desenvolver.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-a-vida-nao-vivida-nao-e-apenas-sombra-dolorosa-contem-tambem-brilho-vocacao-e-vitalidade-que-nao-encontrou-expressao-cf-johnson-2010-p-147" style="font-size:18px">Por isso, a vida não vivida não é apenas sombra dolorosa: contém também brilho, vocação e vitalidade que não encontrou expressão (Cf. JOHNSON, 2010, p. 147).</h2>



<p style="font-size:18px">Muitas pessoas, ao envelhecer, se surpreendem ao reencontrar antigos desejos, gostos esquecidos, aspirações que adormeceram, sensibilidades que haviam sido abafadas pela necessidade de adaptação. Tudo isso ressurge, não para ser realizado literalmente, mas para ser integrado simbolicamente (<em>ibidem,</em> p. 239).</p>



<p style="font-size:18px">Quando esses aspectos retornam e não são reconhecidos, costumam produzir inquietação interna. A pessoa pode experimentar irritação frequente, rigidez, desânimo, ressentimentos difíceis de localizar, ou uma sensação persistente de inadequação. O sujeito percebe que viveu uma vida inteira respondendo às expectativas externas, familiares, sociais, culturais, e agora sente o peso de ter se afastado demais de si mesmo. Em alguns casos, esse processo pode manifestar-se em sintomas físicos, depressivos, sensação de fracasso ou medo de que o tempo restante não seja suficiente para viver de forma autêntica, conforme Stein (<em>apud </em>Pandini, 2014, p. 24).&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-fundamental-compreender-que-integrar-a-vida-nao-vivida-nao-significa-recuperar-literalmente-o-que-nao-foi-feito-algo-impossivel-e-muitas-vezes-fantasioso" style="font-size:18px">É fundamental compreender que integrar a vida não vivida não significa recuperar literalmente o que não foi feito – algo impossível e, muitas vezes, fantasioso.</h2>



<p style="font-size:18px">A integração ocorre quando se permite que o significado daquilo que não foi vivido encontre expressão de alguma forma. Isso pode acontecer por meio da criatividade, da arteterapia, de novos interesses, de diálogos profundos, de maior liberdade emocional, de transformações internas, ou simplesmente pela capacidade de olhar para a própria história com autoperdão, compaixão e compreensão. Ao reconhecer esses conteúdos, o indivíduo resgata energia psíquica que estava aprisionada e sente-se mais inteiro, mais coerente consigo mesmo.</p>



<p style="font-size:18px">Envelhecer, assim, revela-se como um processo de reencontro. Não se trata apenas de revisitar o que passou, mas de compreender quem se tornou e quem ainda pode ser. A vida não vivida, quando acolhida, torna-se ponte entre o que fomos e o que podemos integrar. Ela permite que a última etapa da vida seja vivida em totalidade, com a serenidade de quem reconhece, nas palavras de Caetano Veloso, “a dor e a delícia de ser o que é” da canção “Dom de Iludir”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-envelhecer-a-luz-da-psicologia-analitica" style="font-size:22px"><strong>Envelhecer à luz da psicologia analítica</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Portanto, envelhecer é muito mais do que atravessar a última etapa cronológica da vida. Se a primeira metade da vida se organiza em torno da formação das personas, da adaptação ao mundo e da consolidação do ego, a segunda metade inaugura um processo inverso: a alma pede profundidade, interiorização e plenitude.</p>



<p style="font-size:18px">A velhice nos convida a rever a biografia pela ótica da presença. Não mais perguntamos “o que conquistei?”, mas “quem me tornei?”. Nessa fase, a necessidade de manter imagens sociais se afrouxa, permitindo que a autenticidade ganhe espaço. A consciência volta-se para temas outrora evitados como a vida não vivida, sendo uma oportunidade tardia de reconciliação. A proximidade da finitude, longe de ser apenas fonte de insegurança, desperta a urgência de viver o que ainda pode ser vivido, de integrar o que ficou esquecido e de honrar aquilo que não se pôde realizar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-hillman-lembra-que-esses-fragmentos-da-biografia-nao-sao-descartaveis-eles-precisam-ser-transformados-pela-reflexao-tardia-em-substancia-capaz-de-fortalecer-o-carater" style="font-size:18px"><strong>Hillman</strong> lembra que esses fragmentos da biografia não são descartáveis, eles precisam ser transformados pela reflexão tardia em substância capaz de fortalecer o caráter.</h2>



<p style="font-size:18px">A revisão da vida, esse gesto de olhar para trás não apenas para recordar, mas para compreender, permite que erros e acontecimentos antes dispersos revelem padrões e significado. É como se a velhice nos oferecesse a oportunidade de organizar nossa narrativa interna, reconhecendo que cada experiência, mesmo as mais dolorosas, fazem parte de nossa alma (Cf. HILLMAN, 2001, p.24).</p>



<p style="font-size:18px">Quando vivido com consciência, o envelhecimento torna-se um processo alquímico. O supérfluo se dissolve, o essencial se intensifica, e aquilo que parecia fragmentado encontra coerência (Cf. MAGALDI, 2020). Revisar a vida não é apagar dores nem refazer escolhas, mas reconhecer seu propósito no desenvolvimento da psique.</p>



<p style="font-size:18px">O ser humano não envelhece para morrer, mas para se tornar inteiro. O envelhecimento é a fase em que o Self, essa instância que transcende o ego, orienta com mais clareza seu chamado (Cf. JUNG, 2013a, §787). É como se, no crepúsculo da vida, a alma adquirisse uma outra luminosidade, menos solar, mais interior; menos expansiva, mais verdadeira.</p>



<p style="font-size:18px">Assim, envelhecer torna-se um ato de coragem, a coragem de olhar para si, de acolher o que faltou, de reconciliar o vivido e o não vivido, de aceitar a própria história e de permitir que a vida siga seu curso natural. E é justamente nesse gesto de entrega, desapego e autenticidade que se revela a maior possibilidade dessa etapa: viver, finalmente, a vida como merece ser vivida – porque <strong>envelhecer é fazer da vida uma obra. E toda obra verdadeira, quando chega ao fim, não se encerra: se revela.</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Entre o Vivido e o Não Vivido: A Sabedoria da Velhice" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/LrYSraK8mqI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/beatriz-whitaker/">Rosana T W Hanada – Analista em formação IJEP</a></strong><strong></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/">Lia Romano – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p>HILLMAN, James<em>. </em><em>A força do caráter</em> <em>e a poética de uma vida longa</em>. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.</p>



<p>HOLLIS, James. <em>A passagem do meio. </em>Da miséria ao significado da meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p>JOHNSON, Robert. <em>A vida não vivida: </em>A arte de lidar com sonhos não realizados e cumprir o seu propósito na segunda metade da vida. São Paulo: Paulus, 2010.</p>



<p>JUNG, C. G. <em>A Natureza da Psique. </em>10.ed.Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p>______ O <em>Desenvolvimento da Personalidade</em>. 14.ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p>______ <em>Psicologia do Inconsciente</em>. 24.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p>______ <em>O Eu e o Inconsciente</em>. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p>MAGALDI FILHO, Waldemar (2020). <em>Alquimia e Psicologia Junguiana</em>. <em>&lt;https://www.youtube.com/watch?v=zxKBRbY2ENE&gt; </em>Acesso em 29 nov. 2025.</p>



<p>MAGALDI FILHO, Waldemar (2023). Metanoia na Psicologia Analítica.&nbsp; &lt;<em>https://blog.ijep.com.br/metanoia-na-psicologia-analitica&gt;/</em> Acesso em 25 nov. 2025.</p>



<p>PANDINI, Ana. <em>Metanoia:</em> caminho para o desenvolvimento no meio da vida.&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tese Doutorado USP. São Paulo, 2014. 176 f. Disponível em: &lt;<em>https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-19122014-110846/pt-br.php</em>&gt;&nbsp;</p>



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<p style="font-size:17px">Conheça o <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep" type="link" id="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep"><strong>X Congresso Junguiano do IJEP</strong></a>: &#8220;<strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep" type="link" id="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep">Crise da Meia Idade: O direito de envelhecer e de Morrer</a></strong>&#8221; &#8211; Online e Gravado &#8211; Certificado 30h: <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep ">https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep </a></p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O Banquete da Híbris e a Sombra dos &#8220;Homens de Bem&#8221;: Epstein, Jung e a Negação do Amor</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-banquete-da-hibris-e-a-sombra-dos-homens-de-bem-epstein-jung-e-a-negacao-do-amor/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Feb 2026 17:59:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[poder]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12011</guid>

					<description><![CDATA[<p>Os arquivos de Epstein não revelam apenas crimes, mas uma ferida psíquica coletiva que confirma a profecia de C.G. Jung: onde impera o poder, o amor desaparece. Mergulhe nesta análise corajosa sobre como a hipocrisia da elite e a monetarização do sagrado transformaram "cidadãos de bem" em reféns de suas próprias sombras. Descubra a conexão oculta entre as tentações do deserto e os escândalos contemporâneos, e entenda por que a queda dos poderosos é, psicologicamente, inevitável.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A abertura dos arquivos do caso Jeffrey Epstein não é apenas um evento forense ou um escândalo midiático; é, sob a ótica da psicologia analítica, a irrupção purulenta de uma ferida psíquica coletiva. O que vemos exposto nas listas de voos e nos depoimentos não é apenas a perversão de um indivíduo ou de um grupo isolado, mas a confirmação trágica de um axioma que Carl Gustav Jung repetiu à exaustão e que a nossa cultura insiste em ignorar: &#8220;Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro&#8221;. Neste caso, fica evidente a sombra do poder anulando o amor como tema recorrente na sociedade.</p>



<p>Vivemos tempos em que a sombra do poder se alastrou de tal forma que eclipsou a capacidade humana de relacionar-se, transformando o &#8220;outro&#8221; — seja ele uma criança, uma mulher, um fiel ou um eleitor — em mero objeto de consumo. A revelação dos nomes ligados a Epstein é o sintoma agudo de uma doença crônica: a monetarização da existência e, pior, a monetarização do sagrado.</p>



<p>Ao observarmos a galeria de figuras que frequentavam a ilha de Epstein — príncipes, ex-presidentes, cientistas renomados, bilionários —, notamos um padrão que transcende a mera criminalidade. Estamos diante da <em>híbris</em> (a desmedida) de uma elite que, embriagada pela onipotência, acreditou ter comprado o direito de suspender a ética. E, ironicamente, é essa mesma elite que, em palanques e púlpitos, prega a moralidade, os &#8220;bons costumes&#8221; e a teologia da prosperidade, sequestrando a cosmovisão de Jesus Cristo para justificar exatamente aquilo que Ele rejeitou no deserto.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Estou mais do que convencido de que o caminho da vida só continua onde está o fluxo natural. Mas nenhuma energia é produzida onde não houver tensão entre contrários; por isso, é preciso encontrar o oposto da atitude consciente. É interessante verificar como essa compensação dos opostos também teve sua função na história da teoria da neurose: a teoria de Freud representa Eros; a de Adler, o poder. Pela lógica, o contrário do amor é o ódio; o contrário de Eros, Phobos (o medo). Mas, psicologicamente, é a vontade de poder. Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro. Quem se encontra do ponto de vista de Eros procura o contrário, que o compensa, na vontade de poder. Mas quem põe a tônica no poder, compensa-o com Eros. Visto do ponto de vista unilateral da atitude consciente, a sombra é uma parte inferior da personalidade. Por isso, é reprimida, devido a uma intensa resistência. Mas o que é reprimido tem que se tornar consciente para que se produza a tensão entre os contrários, sem o que a continuação do movimento é impossível. A consciência está em cima, digamos assim, e a sombra embaixo, e como o que está em cima sempre tende para baixo, e o quente para o frio, assim todo consciente procura, talvez sem perceber, o seu oposto inconsciente, sem o qual está condenado à estagnação, à obstrução ou à petrificação. É no oposto que se acende a chama da vida. (C. G. Jung &#8211; CW 7/1 §78)</p>
</blockquote>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-deserto-esquecido-e-as-tentacoes-modernas"><strong>O Deserto Esquecido e as Tentações Modernas</strong></h2>



<p>Para compreendermos a profundidade do abismo moral revelado pelos arquivos Epstein, precisamos revisitar a simbologia do deserto. Na narrativa bíblica, Jesus é levado ao deserto para ser tentado pelo Diabo, capacitando-se para cumprir seu propósito, o calvário, exercitando e fazendo tanto a kenosis quanto a Nekia, respectivamente o esvaziamento e a descida às profundezas. Ali, em sua fragilidade humana, Ele confronta as três grandes pulsões que, se não integradas, destroem a alma: o Prazer (transformar pedras em pães para saciar a fome física e os desejos da carne/corpo), a Fama/Vaidade (atirar-se do templo para que os anjos o salvem espetacularmente ou fazer milgres) e o Poder/Riqueza Material (curvar-se ao mal para ganhar todos os reinos do mundo).</p>



<p>Cristo recusa as três ofertas. Ele escolhe o caminho da individuação, da integridade do Ser, em detrimento da inflação do Ego. No entanto, a nossa cultura contemporânea, especialmente aquela moldada pelo ethos do sucesso a qualquer custo, fez a escolha oposta. O que vemos hoje, na epidemia de religiões da teologia do poder e nos discursos de influenciadores digitais e coaches messiânicos, é a aceitação entusiástica da proposta do Diabo.</p>



<p>O &#8220;sucesso&#8221; tornou-se o novo sacramento. A riqueza material é vista não como um recurso, mas como um sinal de eleição divina ou de superioridade biológica. Nesse cenário, o prazer e a fama são mercadorias que se compram. Quando o sagrado é monetarizado, o divino é expulso e o templo se torna um mercado. E num mercado, tudo tem preço, inclusive a inocência.</p>



<p>A sociedade que aplaude o acúmulo desenfreado de capital e que mede o valor de um ser humano pelo seu engajamento nas redes sociais criou o terreno fértil para que figuras como Epstein prosperassem. Ele não era uma anomalia; ele era um fornecedor de serviços para uma demanda reprimida e sombria. Ele oferecia a concretização da fantasia de onipotência: o acesso irrestrito a corpos, a anulação das leis e a suspensão da realidade. Para o homem que escolheu o Poder em detrimento do Amor, o prazer nunca é relacional; é sempre predatório. É a tentativa desesperada de preencher, com a intensidade da sensação, o vazio deixado pela morte do afeto.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mascara-do-cidadao-de-bem-e-o-fenomeno-wasp"><strong>A Máscara do &#8220;Cidadão de Bem&#8221; e o Fenômeno WASP</strong></h2>



<p>A análise torna-se ainda mais cortante quando observamos o perfil predominante nos documentos revelados: o arquétipo do homem branco, anglo-saxão e protestante (WASP &#8211; <em>White, Anglo-Saxon, Protestant</em>), ou seus equivalentes culturais em outras geografias. Historicamente, essa figura representa o pilar da ordem, da lei e da moral ocidental. São os homens que constroem impérios, que legislam sobre o corpo alheio e que se autodenominam &#8220;cidadãos de bem&#8221;.</p>



<p>Jung nos ensinou que quanto mais luminosa e rígida é a <em>Persona</em> (a máscara social que usamos para nos adaptarmos ao mundo), mais escura e densa é a <em>Sombra</em> (tudo aquilo que rejeitamos, reprimimos e escondemos). O &#8220;falso moralista&#8221; não é apenas um hipócrita consciente; muitas vezes, ele é uma vítima de sua própria cisão psíquica. Ele precisa manter uma aparência de retidão imaculada publicamente — a família perfeita, a filantropia, a frequência aos cultos —, o que exige uma repressão brutal de seus instintos e fragilidades.</p>



<p>Essa energia reprimida não desaparece. Ela se acumula no inconsciente, ganhando autonomia e força, até se transformar em algo monstruoso. O conservadorismo rígido, que julga e condena o comportamento alheio com ferocidade, é frequentemente o mecanismo de defesa de quem luta contra seus próprios demônios inconfessáveis.</p>



<p>Os arquivos de Epstein são o esgoto a céu aberto dessa psique cindida. Eles mostram onde os &#8220;homens de bem&#8221; iam para despir suas personas pesadas. Longe dos olhos do público, na ilha privada, a sombra assumia o controle. A justificativa interna para tal comportamento é, invariavelmente, uma distorção cognitiva típica da <em>híbris</em>: &#8220;Eu sou especial. Eu faço tanto pelo mundo, gero tanta riqueza, carrego tanto poder, que mereço essa recompensa. As leis dos homens comuns não se aplicam a mim&#8221;.</p>



<p>Essa dissociação permite que o mesmo indivíduo que financia campanhas contra os direitos humanos ou que prega a santidade da família tradicional participe de orgias com menores de idade. Não há, na mente deles, contradição, pois o Ego inflado pelo poder perdeu a conexão com o <em>Self</em> — o centro regulador da psique. Eles se tornaram deuses de seus próprios pequenos universos, e deuses, na mitologia grega, frequentemente estupravam e destruíam por capricho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-hibris-o-self-e-a-inevitavel-enantiodromia"><strong>A Híbris, o Self e a Inevitável Enantiodromia</strong></h2>



<p>A tragédia grega e a psicologia analítica concordam em um ponto fundamental: a <em>híbris</em> (o orgulho desmedido que desafia os deuses) é sempre seguida pela <em>nêmesis</em> (a retribuição divina). Em termos psicológicos, quando a atitude consciente se torna unilateral demais — focada excessivamente no poder, na razão instrumental e na negação da sombra —, o inconsciente reage para restaurar o equilíbrio.</p>



<p>Jung chamou esse movimento pendular de <em>enantiodromia</em>: a tendência de todas as coisas se transformarem em seu oposto. A busca obsessiva pelo controle total (poder) leva, invariavelmente, à perda total de controle (o escândalo, a prisão, a ruína). A busca pela fama imaculada leva à infâmia eterna. A busca pelo prazer sem limites leva ao sofrimento atroz e ao vazio existencial.</p>



<p>O que estamos testemunhando com a exposição desses arquivos é a ação do <em>Self</em>. O <em>Self</em>, na psicologia junguiana, é a totalidade da psique, a imagem de Deus dentro de nós. Ele busca a integridade, não a perfeição moralista. Quando o indivíduo ou a cultura se desviam radicalmente de sua verdade interior, o <em>Self</em> orquestra uma crise. Ele força o confronto.</p>



<p>Ainda bem que existe o <em>Self</em>. Sem essa força reguladora, a humanidade se perderia em seus delírios de grandeza. O <em>Self</em> leva essas pessoas ao confronto consigo mesmas, gerando sintomas de adoecimento psíquico, pânico, depressão e, finalmente, revelações catastróficas. Para o ego inflado, a exposição pública é uma catástrofe, uma morte social. Mas, simbolicamente, é a única chance de salvação. É o momento em que a máscara cai e o indivíduo é forçado a olhar para a sua própria feiura.</p>



<p>Essa dinâmica não se restringe aos frequentadores da ilha de Epstein. Ela se reproduz recorrentemente com lideranças religiosas que caem em desgraça sexual ou financeira, com políticos que são pegos em esquemas de corrupção grotescos, e com influenciadores que, vendendo uma vida de felicidade plástica, sucumbem ao suicídio ou ao vício. É a natureza cobrando o preço da artificialidade. É a alma gritando que não pode ser vendida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-retorno-ao-humano"><strong>O Retorno ao Humano</strong></h2>



<p>A lição dos arquivos Epstein é dura, mas necessária. Ela nos obriga a confrontar a ilusão de que o poder e o dinheiro conferem dignidade ou imunidade moral. Pelo contrário, o poder sem amor é, como disse Jung, demoníaco. Ele fragmenta, isola e destrói.</p>



<p>A cosmovisão de Cristo, tão deturpada pela teologia da prosperidade, propunha o oposto: o poder do serviço, a riqueza do espírito e a fama de ser conhecido por Deus, não pelos homens. Jesus venceu o deserto não porque era imune à tentação, mas porque sabia quem era. Ele não precisava transformar pedras em pães porque não era definido pela sua fome. Ele não precisava se jogar do templo porque não precisava de aplausos para validar sua existência.</p>



<p>Enquanto nossa cultura insistir na idolatria aos bezerros de ouro do sucesso financeiro e da visibilidade midiática, seguiremos produzindo Epsteins e alimentando a sombra de nossos líderes. A cura para essa patologia social não reside apenas no rigor da lei, mas em uma profunda reorientação de valores. É urgente questionarmos a salubridade de um sistema onde indivíduos acumulam fortunas inesgotáveis em uma única existência, enquanto a miséria se alastra — um cenário onde o 1% mais rico detém quase metade da riqueza global. Incapazes de dar um destino humano a esse acúmulo, essa energia estagnada busca refúgio na perversão, tornando palpáveis as distopias que antes víamos apenas na ficção, como em &#8216;O Conto da Aia&#8217; ou &#8216;Round 6&#8217;.</p>



<p>Precisamos resgatar o Eros — o princípio de conexão, de relacionamento e de amor. Precisamos entender que a verdadeira riqueza é a capacidade de olhar para o outro e ver um semelhante, não um objeto. Precisamos de menos &#8220;cidadãos de bem&#8221; e de mais seres humanos conscientes de suas sombras, capazes de integrar suas fragilidades em vez de projetá-las no mundo.</p>



<p>A enantiodromia já começou. O pêndulo está voltando. Que a queda dos falsos deuses nos sirva de alerta: o sagrado não está à venda, e o preço que se paga por tentar comprá-lo é, invariavelmente, a própria alma.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p>Referências Bibliográficas e Sugestões de Leitura:</p>



<ol start="1" class="wp-block-list">
<li>Jung, C. G. (2013). <em>Aion: Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo</em> (Vol. 9/2). Petrópolis: Vozes. (Para a discussão sobre o Self e a Sombra).</li>



<li>Jung, C. G. (2012). <em>Psicologia do Inconsciente</em> (Vol. 7/1). Petrópolis: Vozes. (Sobre a relação entre Poder e Amor).</li>



<li>Bíblia de Jerusalém. (2002). São Paulo: Paulus. (Evangelhos de Mateus 4:1-11 e Lucas 4:1-13 &#8211; As Tentações no Deserto).</li>



<li>Hillman, J. (1993). <em>O Código do Ser</em>. Rio de Janeiro: Objetiva. (Sobre a vocação e o desvio do caráter).</li>



<li>Guggenbühl-Craig, A. (2004). O Abuso do Poder na Psicoterapia e na Medicina, Serviço Social, Sacerdócio e Magistério. São Paulo: Paulus. (Análise fundamental sobre a sombra nas profissões de cuidado e liderança).</li>



<li>Zweig, C., &amp; Abrams, J. (Eds.). (1994). <em>Ao Encontro da Sombra: O Potencial Oculto do Lado Escuro da Natureza Humana</em>. São Paulo: Cultrix.</li>
</ol>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="O Banquete da Híbris e a Sombra dos “Homens de Bem”: Epstein, Jung e a Negação do Amor" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/BPKUZ22SYDs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Longevidade: Uma jornada transformadora ou assustadora?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/longevidade-uma-jornada-transformadora-ou-assustadora/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristiane dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 May 2025 11:49:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[crise da meia idade]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[segundametadedavida]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10442</guid>

					<description><![CDATA[<p>“A vida é uma pausa luminosa entre dois grandes mistérios que, contudo, são um.” C.G. Jung Resumo: Pessoas 50+: Esse público está crescendo de forma intensa no Brasil. Esse texto tem como objetivo analisar como essas pessoas estão se preparando para vivenciar essa etapa da vida. Como estão lidando com as mudanças que estão se [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“A vida é uma pausa luminosa entre dois grandes mistérios que, contudo, são um.”</em></p><cite>C.G. Jung</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px"><em><strong>Resumo</strong>: Pessoas 50+: Esse público está crescendo de forma intensa no Brasil. Esse texto tem como objetivo analisar como essas pessoas estão se preparando para vivenciar essa etapa da vida. Como estão lidando com as mudanças que estão se processando em seu corpo físico, em suas emoções, em seu meio social e principalmente em seu mundo interno. Onde estão buscando referências ou apoios para atravessarem essa etapa da jornada? Enfim, esse texto é um convite à reflexão de: “Quem sou eu além da minha história de vida e dos papéis que interpretei?”</em></p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>60.212.062 pessoas 50+ no Brasil</strong>, esse é o número informado pelo <a href="https://contador.longevidade.com.br">Contador de Longevidade</a>, atualizado em 21/04/2025, às 15h44, momento em que começo a escrever essas linhas.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Para o cálculo desse número, o Contador de Longevidade utiliza-se de dados do IBGE e uma interface que permite a contabilização em tempo real.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-se-a-tecnologia-e-capaz-de-mensurar-de-forma-tao-apurada-a-realidade-do-crescimento-da-populacao-que-se-encaminha-para-o-entardecer-da-vida-qual-e-o-cenario-legitimo-dessa-populacao" style="font-size:19px">Mas se a tecnologia é capaz de mensurar de forma tão apurada a realidade do crescimento da população que se encaminha para o entardecer da vida, qual é o cenário legítimo dessa população?</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Como ela está enfrentando as mudanças que advém nessa fase? As alterações físicas, as transformações hormonais, a falência das crenças e valores?</strong> A constatação de que se tem mais tempo vivido do que para se viver, além de sentimentos que começam a visitá-la de forma perturbadora, como por exemplo a solidão e o medo da morte?</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Jung</strong>, em seu livro <em><strong>Natureza da Psique</strong></em>, nos diz que os indivíduos entram totalmente despreparados na segunda metade de suas vidas, pois inexiste uma preparação para essa nova etapa, como por exemplo, as universidades que incluem e orientam os jovens para o início da fase adulta, ou pelo menos deveriam!</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><strong>Entramos totalmente despreparados na segunda metade da vida, e, pior do que isto, damos este passo, sob a falsa suposição de que nossas verdades e nossos ideais continuarão como dantes</strong>. Não podemos viver a tarde de nossa vida segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã, será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã, será falso no entardecer.  </p><cite>(JUNG, 2013, p. 355)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deparamos-aqui-com-mudancas-que-nao-sao-somente-fisicas-mas-de-principios-e-valores" style="font-size:19px">Deparamos aqui com mudanças que não são somente físicas, mas de princípios e valores. </h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Enquanto somos jovens e começamos a escalar a montanha de nossas vidas, nos orientamos por ideais e crenças que no entardecer da vida, muitas vezes, se tornam totalmente inadequados ou obsoletos.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Aquilo que nos guiou durante o início de nossa jornada não fornece mais satisfação e plenitude, é como se estivéssemos com um mapa e descobríssemos, quase no final do trajeto, que o destino estava errado.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>James Hollis</strong>, em seu livro <em><strong>Passagem do Meio</strong></em>, diz que esse momento ocorre quando a pessoa se vê obrigada a encarar a sua vida como algo além do que sucessão de anos.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Nessa fase o indivíduo tem a oportunidade de reexaminar a sua vida e se questionar: “<strong>Quem sou eu além da minha história de vida e dos papéis que interpretei?</strong>”</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Como durante toda vida fomos condicionados a assumir e representar papéis, como o de filhos, companheiros, arrimos de família, mãe, pai, amigos, profissional etc., nós projetamos e cristalizamos nossa identidade exclusivamente neles e muitas vezes, ficamos identificados com essa persona e paralisamos nosso processo de experimentação e crescimento.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Para <strong>Hollis</strong> (1995, p. 30), “podemos dizer que a pessoa se encontra na passagem do meio quando o pensamento mágico da infância e o pensamento heroico da adolescência não mais coincidem com a vida que ela vivenciou”. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-momento-da-vida-a-pessoa-necessita-enfrentar-questoes-ate-entao-evitadas-e-assumir-responsabilidades" style="font-size:19px">Nesse momento da vida a pessoa necessita enfrentar questões até então evitadas e assumir responsabilidades.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa fase é um verdadeiro chamado para a mudança e para a transformação, ela convoca o indivíduo a uma interiorização, o foco que durante a primeira metade da vida estava direcionado para fora de si, vai gradativamente invertendo-se.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">É muito comum o indivíduo dizer que perdeu o interesse por atividades, lugares, ou pessoas, que antigamente lhe eram atraentes e que um vazio existencial ou uma angústia pela busca de um propósito em sua vida começa a ser uma questão constante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-primavera-da-vida-o-individuo-projeta-e-busca-fora-de-si-o-sentido-de-sua-vida-por-esta-razao-e-habitual-que-suas-escolhas-estejam-desconectadas-de-sua-vocacao" style="font-size:19px">Na primavera da vida, o indivíduo projeta e busca fora de si o sentido de sua vida, por esta razão, é habitual que suas escolhas estejam desconectadas de sua vocação.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Sua graduação e sua carreira profissional, normalmente, são baseadas naquilo que é rentável, na sucessão familiar ou em <em>status</em>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O trabalho é aquilo a que nos dedicamos para ganhar dinheiro e satisfazer nossas necessidades econômicas. A vocação (do latim <em>vocatus</em>) é o que somos chamados a fazer com a energia da nossa vida. Sentir que somos produtivos é uma parte fundamental da nossa individuação, e deixar de responder à nossa vocação pode causar dano à alma. </p><cite>(HOLLIS, 1995, p. 101)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-individuo-nesta-fase-da-vida-direciona-sua-energia-na-conquista-de-dinheiro-poder-e-de-status-e-muitas-vezes-paga-um-preco-muito-alto-por-esse-objetivo" style="font-size:19px">O indivíduo nesta fase da vida direciona sua energia na conquista de dinheiro, poder e de <em>status</em> e muitas vezes paga um preço muito alto por esse objetivo.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Na sociedade atual, um exemplo clássico são os <em>workaholics, </em>que dedicam horas excessivas ao trabalho em busca de alto desempenho. Como forma de regular esse comportamento obsessivo, a psique leva o corpo à uma psicossomatização. Conduzindo o indivíduo a um quadro de exaustão física, emocional e mental &#8211; intitulado de Síndrome de <em>Burnout </em>ou Esgotamento Profissional<em>.</em></p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa desconexão com a vocação individual, ou as escolhas feitas priorizando os interesses materiais em detrimento dos interesses da alma, levam o indivíduo, no entardecer da vida, a constatar que algo está errado em sua trajetória.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Alguns se sentem perdidos, outros percebem que seu casamento está falido, alguns que sua vida profissional está desalinhada à sua vocação, ou que aquilo que disseram ser a receita para o sucesso e a felicidade não funcionou para eles, mesmo que tenham conquistado tudo aquilo que projetaram. Essa desconexão e desalinho com a realidade subjetiva faz com que esses indivíduos comecem a se deparar com alguns sintomas que podem ser físicos, emocionais ou espirituais.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Hollis</strong> diz que os sintomas são como presentes para o indivíduo reajustar a rota da vida. Seria como uma exigência do Si-Mesmo (Self), e que “<strong>O indivíduo é intimado, psicologicamente, a morrer para o velho eu para que o novo possa nascer</strong>.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-hollis-metaforiza-o-inicio-dessa-fase-como-sendo-uma-especie-de-pressao-tectonica-e-ondulacoes-sismicas-que-visam-abrir-espaco-para-que-o-si-mesmo-possa-realizar-se" style="font-size:19px">Hollis metaforiza o início dessa fase como sendo uma espécie de pressão tectônica e ondulações sísmicas, que visam abrir espaço para que o Si-mesmo possa realizar-se.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Invariavelmente, muito antes de a pessoa tornar-se consciente de uma crise os indícios e os sintomas já estão presentes: a depressão reprimida, o abuso do álcool, o uso de maconha para intensificar o ato sexual, casos amorosos, constantes mudanças de emprego, e assim por diante – esforços de anular, desprezar ou deixar para trás as pressões interiores. A partir do ponto de vista terapêutico, os sintomas devem ser bem recebidos, pois eles não apenas servem de flechas que apontam para a ferida, como também exibem uma psique saudável e autorreguladora em funcionamento.</p><cite>(HOLLIS, 1995, p.23)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>O Si-mesmo representa a unidade e a totalidade da personalidade</strong>. Devido a totalidade ser composta de conteúdos conscientes e inconscientes ela só pode ser descrita em parte, pois, outra parte continua irreconhecível e indimensionável (<em>cf. Jung,</em> <em>Tipos Psicológicos, §902</em>).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Enquanto permanecermos basicamente identificados com o mundo exterior, objetivo, estaremos separados da nossa realidade subjetiva. É claro que somos sempre seres sociais, mas somos também seres espirituais com um telos ou um misterioso propósito individual. </p><cite>(HOLLIS, 1995, p.135)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Desta maneira, constatamos que o indivíduo, ao chegar ao entardecer da vida, necessita fazer um mergulho em seu mundo interior. Confrontar sua realidade subjetiva e ouvir o chamado de sua alma, para ser capaz de realizar seu <strong>processo de individuação</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-2013a-dizia-que-era-um-dever-e-uma-necessidade-para-o-homem-que-envelhece-destinar-atencao-ao-seu-proprio-si-mesmo" style="font-size:19px">Jung (2013a) dizia que era um dever e uma necessidade para o homem que envelhece destinar atenção ao seu próprio si-mesmo.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Depois de haver esbanjado luz e calor sobre o mundo, o Sol recolhe os seus raios para iluminar-se a si mesmo. Em vez de fazer o mesmo, muitos indivíduos idosos preferem ser hipocondríacos, avarentos, dogmatistas <em>elad iores temporis acti</em> (louvadores do passado) e até mesmo eternos adolescentes, lastimosos sucedâneos da iluminação do si-mesmo, consequência inevitável da ilusão de que a segunda metade da vida deve ser regida pelos princípios da primeira. </p><cite>(JUNG, 2013a, p. 356)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">É muito comum encontrarmos indivíduos presos ao passado, petrificados na vida, sobrevivendo de forma nostálgica, temendo e afastando os conteúdos sombrios sobre a velhice que se aproxima e querendo negar o fluxo da vida.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Os indivíduos de hoje estão à deriva e sem orientação, sem modelos e sem ajuda para atravessar os diversos estágios da vida. Desse modo, o entardecer da vida, que exige a morte antes do renascimento, é frequentemente vivenciada de forma assustadora e separadora, pois quase não existem mais ritos de passagem e quase nenhuma ajuda dos companheiros que estão igualmente à deriva. </p><cite>(HOLLIS, 1995, p.32)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-realizar-essa-travessia-o-que-nos-auxiliara-nessa-transicao-onde-buscar-orientacao-ou-um-modelo-a-seguir" style="font-size:19px">Como realizar essa travessia? O que nos auxiliará nessa transição? Onde buscar orientação ou um modelo a seguir?</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">No entardecer da vida, entra em cena um quesito fundamental que nos auxiliará a minimizar o medo do desconhecido e realizar essa travessia de forma transformadora. Esse quesito é a <strong>Espiritualidade</strong>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A espiritualidade na meia-idade é um novo despertar &#8211; na metade de nossas vidas &#8211; para o Espírito que há dentro de nós, e para o Espírito que nos cerca, no qual vivemos, nos movemos e temos nossa existência. No final da juventude, ou despertamos para &#8220;o mais querido e profundo frescor das coisas&#8221;, o mistério da vida e da morte, a consciência de uma nova vida, frequentemente surgida de nossas maiores dores e sofrimentos, ou nos tornamos velhos cansados, cínicos e, consequentemente, &#8220;apagados&#8221;. A espiritualidade se torna, na meia-idade, a razão e o modo como vivemos nossas vidas. (BRENNAM, 2004, p.10)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-diz-que" style="font-size:19px">Jung diz que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Nossas religiões têm sido sempre, ou já foram, estas escolas; mas para quanto de nós elas o são ainda hoje? Quantos dos nossos mais velhos se prepararam realmente nessas escolas para o mistério da segunda metade da vida, para a velhice, para a morte e a eternidade?” </p><cite>(Jung, 2013a)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-com-base-nesses-questionamentos-de-jung-eu-finalizo-esse-texto-convidando-os-as-seguintes-reflexoes" style="font-size:19px">Com base nesses questionamentos de Jung, eu finalizo esse texto convidando-os às seguintes reflexões:</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Quantas dessas 60.286.428 pessoas 50+ no Brasil &#8211; número atualizado em 08/05/2025, às 20h54, horário que finalizo meu artigo &#8211; estão se preparando para vivenciar essa etapa da vida de forma saudável, transformadora e de maneira a seguir o fluxo para o anoitecer da vida e rumo ao grande mistério que é a morte?</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Quantos estão se libertando das crenças limitadoras e projeções idealizadas na primeira fase da vida, que tanto petrificam ou acorrentam essa caminhada?</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Quantos estão buscando a espiritualidade para se lançarem nesse processo de autoconhecimento, autoiluminação e integração do eu com o Si-mesmo?</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Apesar da vida ser essa pausa luminosa entre esses dois grandes mistérios, nós não podemos nos dar ao luxo de pausar nosso processo de individuação, pois poderemos decretar nosso óbito em vida, com medo do que acontecerá após a cortina se fechar.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><em>Apesar da vida, muitas vezes, parecer assustadora, desejo que você faça dela uma jornada transformadora.</em></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Longevidade: Uma jornada transformadora ou assustadora?" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/7y4a2i9bZuE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristiane-santos/">Cristiane dos Santos &#8211; Membro Analista em formação do IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone D. Magaldi &#8211; Membro Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p style="font-size:17px;line-height:1.2"><a href="https://contador.longevidade.com.br">https://contador.longevidade.com.br</a></p>



<p style="font-size:17px;line-height:1.2">BRENNAN, Anne; BREWI, Janice. <em>Arquétipos Junguianos</em> A Espiritualidade na meia idade. São Paulo: Madras, 2004.</p>



<p style="font-size:17px;line-height:1.2">HOLLIS, James. A Passagem do Meio. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p style="font-size:17px;line-height:1.2">JUNG, C.G. &nbsp;A Natureza da Psique. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p style="font-size:17px;line-height:1.2">_________&nbsp; &nbsp;Tipos Psicológicos. 7.ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p><strong>Canais IJEP:</strong></p>



<p><strong><em>Congressos Junguianos – Online e Gravados:&nbsp;</em></strong><em><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos</a></em></p>



<p><em><strong>X Congresso Junguiano IJEP&nbsp;(9, 10, 11 Junho/2025)</strong>&nbsp;–&nbsp;<strong>Online e Gravado – 30h Certificação</strong></em></p>



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		<title>A crise da meia-idade como chamado da alma</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-crise-da-meia-idade-como-chamado-da-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Caroline Santos Costa]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Feb 2025 13:35:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[crise da meia idade]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
		<category><![CDATA[insconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: A crise da meia-idade, embora frequentemente associada a um período negativo, pode ser reinterpretada como um chamado profundo da alma, um convite à introspecção e à transformação. Este artigo examina esse momento delicado da segunda metade da vida, sob a perspectiva da psicologia junguiana, ampliando o nosso olhar para a necessidade de reintegrar aspectos [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong>Resumo: </strong>A crise da meia-idade, embora frequentemente associada a um período negativo, pode ser reinterpretada como um chamado profundo da alma, um convite à introspecção e à transformação. Este artigo examina esse momento delicado da segunda metade da vida, sob a perspectiva da psicologia junguiana, ampliando o nosso olhar para a necessidade de reintegrar aspectos não vividos da vida &#8211; que são essenciais para o desenvolvimento da personalidade e para a sensação de significado existencial mais profundo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-historia-de-desenvolvimento-da-humanidade-e-marcada-por-ciclos-de-crise-revolucao-e-transformacao-tanto-em-nivel-coletivo-quanto-individual" style="font-size:20px">A história de desenvolvimento da humanidade é marcada por ciclos de crise, revolução e transformação, tanto em nível coletivo, quanto individual.</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">A contemporaneidade, em particular, se caracteriza por uma intensificação dessas crises, manifestando-se em instabilidade política, econômica e social, e reverberando profundamente na experiência individual.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">Momentos de <strong>crise</strong>, embora frequentemente associados a eventos puramente negativos, são, em sua essência, períodos que impulsionam mudança e transformação.&nbsp; </p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong>A própria etimologia da palavra &#8220;crise&#8221; remete a movimento, a um processo dinâmico que impulsiona a reflexão e a busca por novas possibilidades.</strong></p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">A profundidade das dúvidas e incertezas, inerentes aos momentos de <strong>crise</strong>, nos força a questionar padrões de comportamentos e paradigmas arraigados. Abrindo caminho para a (de)cisão – a ruptura com o conhecido e o surgimento de novas perspectivas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-visao-da-psicologia-analitica-longe-de-representar-um-desastre-a-crise-se-configura-como-uma-oportunidade-de-confrontar-a-psique-a-fim-de-reconhecer-e-integrar-aspectos-sombrios-da-personalidade" style="font-size:20px">Na visão da psicologia analítica, longe de representar um desastre, a crise se configura como uma oportunidade de confrontar a psique, a fim de reconhecer e integrar aspectos sombrios da personalidade.</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">Em momentos de crise, somos levados a refletir sobre nossas polaridades. Essa atitude de confrontação gera uma tensão psíquica que se manifesta como sofrimento, angústia e ansiedade. &nbsp;Embora desagradáveis, essas emoções podem ser impulsionadoras de mudança, levando à criatividade e à busca de novas soluções. No entanto, se reprimidas, podem resultar no desenvolvimento de patologias.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">A necessidade de olhar para o mundo interno pode surgir de maneira natural, quando passamos por momentos difíceis e precisamos superar perdas, desafios e problemas diversos – ou através do estímulo para ampliação da consciência que ocorre durante o processo de análise.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-embora-possivel-em-qualquer-fase-da-vida-a-meia-idade-se-apresenta-como-um-periodo-particularmente-propicio-a-essa-busca-interna" style="font-size:20px">Embora possível em qualquer fase da vida, <strong>a meia-idade</strong> se apresenta como um período particularmente propício a essa busca interna.</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">A inversão natural da energia psíquica, do mundo externo para o interno, combinada com a crescente consciência da finitude, impulsiona o anseio de reconciliação com as partes não vividas da personalidade. Levando à necessidade de <strong>integrar aspectos inconscientes</strong>, com o propósito de reunir nossos pedaços faltantes e nos tornamos inteiros.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">A dor da <strong>crise de meia-idade</strong> frequentemente resulta da dissonância entre o &#8220;eu&#8221; autêntico e a personalidade construída ao longo da vida.&nbsp;As escolhas inevitáveis que fazemos implicam na renúncia de outras possibilidades, gerando um conflito interno, especialmente quando essas renúncias, que não foram vivenciadas, representam aspectos essenciais da nossa identidade.&nbsp;</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">Assim, podemos observar que sempre teremos que lidar com nossas possibilidades não vividas. No entanto, a problemática surge quando essas partes não vividas são fundamentais para a nossa sensação de completude.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jonhson-e-ruhl-esclarecem-que" style="font-size:20px">Jonhson e Ruhl esclarecem que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>&nbsp;A vida não vivida inclui todos os aspectos essenciais do sujeito que não foram integrados à sua experiência. São talentos e capacidades que foram abandonados ao longo da primeira metade da vida e permaneceram inconscientes. Estes aspectos não vividos encontram lugar no subterrâneo da nossa psique e, à medida que vamos envelhecendo, podem tornar-se problemáticos se não forem resgatados.</p><cite>(JOHNSON; RUHL, 2010)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-periodos-de-crise-temos-a-sensacao-de-estar-desconectados-de-nossa-propria-vida-p-erdendo-a-capacidade-de-sentir-prazer-e-se-envolver-nas-relacoes-e-situacoes-do-dia-a-dia" style="font-size:20px"><strong>Nos períodos de crise temos a sensação de estar desconectados de nossa própria vida</strong>. P<strong>erdendo a capacidade de sentir prazer e se envolver nas relações e situações do dia</strong> <strong>a</strong> <strong>dia.</strong></h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">Nestes momentos, somos atravessados por questionamentos como:</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4"><em>Quem sou eu?</em></p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4"><em>O que estou fazendo da minha própria vida?</em></p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4"><em>Será que está é a profissão que realmente deveria estar seguindo?</em></p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4"><em>Será que está relação faz sentido para mim?</em></p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong>A crise de meia-idade</strong>, portanto, se apresenta como uma oportunidade de confrontar a personalidade moldada pela aculturação, com o &#8220;si-mesmo&#8221; autêntico. Caracteriza-se, assim, por um período de conflito interno intenso que geralmente é acompanhado pela redução da energia disponível para a realização das atividades cotidianas. Essa experiência nos leva a questionar crenças e paradigmas que nortearam a nossa vida até então.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">A resistência a essa confrontação, bem como a incapacidade de abandonar crenças ou relacionamentos que não fazem mais sentido, pode gerar sentimento de vazio existencial, angústia e falta de propósito, demonstrando que a vida está acontecendo desconectada das necessidades da alma. Já a conscientização e a integração dessas partes não vividas, por outro lado, abrem caminho para uma nova etapa de desenvolvimento pessoal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-johnson-e-ruhl-salientam-que" style="font-size:20px">Johnson e Ruhl salientam que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>&nbsp;A tarefa mais importante da meia-idade é <strong>viver a vida não vivida</strong> em busca de ser mais realizado e trazer sentido à existência. Ao explorarmos a vida não vivida, ultrapassamos os limites de nossos medos, anseios e decepções, adquirimos nova vitalidade e energia e aprendemos a expandir nossa visão para além da consciência comum, assumindo nossa forma plena de ser.</p><cite>(JOHNSON; RUHL, 2010)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">A vida nos oferece uma quantidade de energia suficiente para a nossa jornada, contudo, quando percebemos a redução progressiva dessa energia, é necessário nos questionar se as escolhas que estamos fazendo fazem sentido para a nossa alma.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong>Hollis</strong> salienta que “<em>somente observando a nossa perda de energia que podemos segui-la até o local da separação. A energia perdida é recuperável. Se escolhermos servir a alma a energia volta a nos servir.</em>”</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">Percebemos que o descontentamento e a falta de energia comum nos momentos de crise, podem servir como um portal que nos conduz à ressignificação das experiências vividas e a mudanças necessárias para nos expressar no mundo conectados com a alma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diante-do-exposto-podemos-nos-questionar-qual-a-melhor-maneira-para-lidar-com-momentos-de-crise" style="font-size:20px"><strong>Diante do exposto, podemos nos questionar: qual a melhor maneira para lidar com momentos de crise?</strong></h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong>Como já vimos, devemos lidar com a crise como uma oportunidade e não como um desastre</strong>. Buscando desenvolver um trabalho reflexivo para entender o propósito de estarmos passando por ela, qual o sentido desta situação em nossa vida e o que podemos aprender com essa experiência?</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">As possíveis respostas encontradas durante a reflexão, embora dolorosas, por revelar nossas contradições, podem ser profundamente libertadoras, permitindo o resgate e a integração de potencialidades reprimidas.&nbsp; Essa nova compreensão pode proporcionar um redirecionamento de vida mais consciente e a descoberta de novos caminhos, mais plenos de realização existencial.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">No entanto, para o Self ganhar espaço e energia na vida, e poder atuar como uma bússola interna que a direciona segundo os anseios da alma, torna-se necessário o “morrer” simbólico de velhas atitudes e pensamentos, considerados essenciais pelo ego.&nbsp; Vale salientar, que essa “morte” não é literal, mas uma transformação que permite um renascimento mais autêntico e alinhado com a verdadeira essência do ser.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-enfatiza-que-a-psique-e-um-sistema-dinamico-a-qual-possui-caracteristicas-autocorretivas-e-compensatorias-fato-que-a-permite-retornar-sempre-a-sua-trajetoria-ou-seja-torna-se-si-mesmo" style="font-size:20px">Jung enfatiza que a psique é um sistema dinâmico, a qual possui características autocorretivas e compensatórias. Fato que a permite retornar sempre a sua trajetória, ou seja, torna-se si-mesmo.</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">Corroborando com este ponto de vista, Jung traz a visão de <strong>metanóia</strong> como mudança radical vinda de um inconsciente que entra em conflito com a consciência sintônica e com o <em>status quo</em> adquirido com tanto esforço. Ela produz angústia, depressão, pensamento de morte, assim como perspectiva de liberdade, de novos planos e de um novo renovador que muda o rumo de uma vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-explica-que-a-palavra-metanoien-significa-justamente-mudar-de-mente-ou-mudar-a-maneira-de-pensar" style="font-size:20px">Jung explica que a palavra<em> metanoien</em> significa justamente “mudar de mente” ou “mudar a maneira de pensar.”</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">A<strong> metanóia</strong> remete ao corte que rompe o contínuo da história, estabelecendo uma nova ordem, podendo acontecer tanto em nível coletivo como individual. Fala sobre a necessidade de mudanças ao longo da vida e remete tanto a noção de morte, quanto de renascimento compatível com a demanda inconsciente.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">Desta forma, percebemos que os aspectos da vida não vivida, repletos de potencial criativo, merecem atenção, pois representam uma rica fonte de motivação e propósito.&nbsp; As escolhas feitas ao longo da vida inevitavelmente levaram à repressão de outras facetas da personalidade, que agora podem emergir como novas oportunidades de desenvolvimento e direcionamento existencial.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-trazida-a-consciencia-a-vida-nao-vivida-pode-torna-se-o-combustivel-para-nos-levar-alem-de-nossas-limitacoes-atuais-e-em-direcao-a-uma-vida-mais-profunda" style="font-size:20px"><strong>Quando trazida a consciência, a vida não vivida pode torna-se o combustível para nos levar além de nossas limitações atuais e em direção a uma vida mais profunda.</strong></h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4">Em última análise, a <strong>crise de meia-idade</strong>, apesar de seu caráter desafiador, apresenta-se como um catalisador fundamental para a introspecção e a subsequente reconexão com alma.&nbsp; Este processo permite a ressignificação de padrões comportamentais e ao direcionamento da energia vital para a realização do propósito da alma.</p>



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<iframe title="Artigo novo: A crise da meia-idade como chamado da alma" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/frPLThR08Jg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/caroline/">Caroline Costa &#8211; Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">JOHNSON, R. A.; RUHL, J. M. Viver a vida não vivida: A arte de lidar com sonhos não realizados e cumprir o seu propósito na segunda metade da vida. Petrópolis: Vozes, 2010.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">HOLLIS, James. A passagem do meio: da miséria ao significado na meia idade. São Paulo: Paulus, 1999.</p>



<p style="font-size:24px"><strong>Canais IJEP:</strong></p>



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<p></p>



<p style="font-size:20px"><strong>X Congresso Junguiano IJEP</strong>: Online e Gravado &#8211; 30h Certificação</p>



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		<title>A natureza psíquica e física e seus desafios: como harmonizar a rotina estressante e o sentido da vida?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/corpo-e-mente-natureza-e-autoconhecimento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 May 2024 19:05:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9091</guid>

					<description><![CDATA[<p>O artigo explora a conexão entre corpo e psique, destacando a importância do autoconhecimento e da harmonia com a natureza. Reflete sobre a rotina estressante, as mudanças climáticas e a necessidade de equilíbrio emocional e físico. Cita Jung e a alquimia como caminhos para conciliar mente e ambiente.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong>As rotinas entrelaçadas com atividades estressantes nos convidam para um diálogo interno. Geralmente em momentos de quietude, solidão ou solitude, podemos estabelecer uma conexão entre a natureza interna, compreendida como psique – alma, espírito, mente – traduzida por sentimentos, pensamentos e percepções e a natureza externa &#8211; o corpo físico &#8211; que permite interação e adaptação ao meio ambiente em contato com a água, o ar, a energia, o solo, a fauna, a flora e a cultura humana.</strong> <strong>Neste sentido, psique e corpo são vistos por alguns estudiosos como aspectos antagônicos, porém com as ampliações que seguem pretende-se evidenciá-los como complementaridade integrativa possibilitando a busca e o encontro do sentido de vida.&nbsp;</strong></p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">No período que antecede ou mesmo durante as festas do final de ano o clima é favorável para fazer uma retrospectiva do ano que está encerrando e organizar promessas de melhorias e adaptações necessárias, principalmente ao ouvir e cantar a música <em>Fim de Ano, </em>mais conhecida como <em>Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo, </em>composição de David Nasser e Francisco Alves, originalmente cantada por João Dias no ano de 1951: “Adeus ano velho, feliz ano novo. Que tudo se realize no ano que vai nascer {&#8230;}.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-musica-inspira-dias-melhores-em-todos-os-sentidos-convida-para-um-olhar-diferenciado-que-de-acordo-com-jung-envolve-o-autoconhecimento" style="font-size:18px">A música inspira dias melhores em todos os sentidos, convida para um olhar diferenciado, que de acordo com Jung envolve o autoconhecimento:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><a>“Minha experiência ensinou-me o quanto é salutar, do ponto de vista terapêutico tornar conscientes as imagens que residem por detrás das emoções.” (JUNG, 1987, p. 158).</a></p></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Ao mesmo tempo que a letra da música e o pensar de Jung contemplam aspectos da psique, da mesma forma podem alargar o repensar de atitudes coletivas, influenciando o ambiente físico em que vivemos.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">No calendário gregoriano o ano inicia em 1º de janeiro. Na&nbsp; astrologia o começo do ano é marcado pelo ingresso do Sol no signo de Áries, o que geralmente ocorre em&nbsp;20 de março. Independente das diferentes concepções, o verão passou, é tempo de outono e muitas promessas de mudanças ainda não fazem parte da rotina. Como cantam Sandy &amp; Júnior (2001) com <em>As Quatro Estações</em>, “No outono é sempre igual, as folhas caem no quintal {&#8230;}.”</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Analogicamente, as folhas podem representar vários aspectos do psiquismo humano.&nbsp; Antes de caírem, as folhas têm a função acolhedora de serem sombra e de melhorarem o ar do entorno relacional, depois cumprem outro papel, transformam-se em adubo para beneficiarem outros ciclos de vida. Muito parecido com os indivíduos que encontram e cumprem seu sentido de vida. Em contrapartida, outros passam seus dias, semanas, meses, anos, permanecem numa rotina estressante e não priorizam a essência da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-falarmos-de-natureza-psiquica-vale-lembrar-o-pensar-de-jung" style="font-size:19px">Ao falarmos de <strong>natureza psíquica,</strong> vale lembrar o pensar de Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-default" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Todas as expressões possíveis e imagináveis, quaisquer que sejam, são produtos da psique” (JUNG, 1987, p. 302).</p></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">As rotinas estressantes revelam o excesso de energia em determinada área, em detrimento de outras.&nbsp; No plano psicológico, o excesso pode se manifestar em forma de ansiedade e depressão, diminuindo a qualidade de vida. Muitos sintomas se estabelecem pelo excesso de trabalho, pela má alimentação, pelo sedentarismo, pela alteração do ciclo de sono, entre outros. Em termos gerais, a qualidade de vida envolve o bem estar físico, mental, espiritual, psicológico e emocional. É a forma que o indivíduo escolhe para viver bem consigo, com o entorno relacional e depende de muitos fatores: saúde, da renda, da segurança, da habitação, da educação, da convivência, do lazer, etc. Ou seja, é um ser individual e plural, que necessita também da sensação de significado e de sentido.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">E nesta busca é comum colocar em primeiro plano as metas e aquisições necessárias para o alcance de padrões desejáveis que a sociedade impõe. Ao mesmo tempo, busca-se a felicidade a qualquer custo. Na ilusão de encontrá-la na saciedade alimentar, no prazer sexual, no controle e outras satisfações momentâneas, que podem ser entendidas como emoção de alegria, diferente de felicidade que é construída e envolve a missão do ser humano. Surgem questões: Além das obrigações e escolhas diárias, o que dá sentido para a vida? De que forma o sentido da vida está interligado com o ambiente em que vivemos?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-investimentos-na-saude-ambiental-sao-necessarios-e-envolvem-aspectos-da-saude-humana-voltados-aos-fatores-fisicos-quimicos-biologicos-sociais-e-psicologicos" style="font-size:19px">Investimentos na saúde ambiental são necessários e envolvem aspectos da saúde humana, voltados aos fatores físicos, químicos, biológicos, sociais e psicológicos.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Entre os eventos que a natureza exalta, comparecem nos últimos tempos as mudanças climáticas, interferindo em diferentes dimensões. Cada vez mais visíveis são as alterações <strong>na natureza física</strong>, como recentemente a presença do sol e do calor aumentado em algumas regiões e o excesso de chuva e frio em outras. Observam-se evidências e mudanças climáticas significativas a partir das polaridades sol e chuva, calor e frio, que precisam de harmonização.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Clima é uma palavra bastante utilizada em diferentes contextos e, segundo o minidicionário da língua portuguesa (BUENO, 2000, p. 171), significa um conjunto de condições meteorológicas de uma dada região. Clima bom, clima ruim, clima favorável ou desfavorável, são expressões que indicam condições ambientais e, no conhecimento popular, podem ser compreendidas como conjunto de características favoráveis ou contrárias no ambiente que envolvem atitudes e sentimentos.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Ditados populares expressam se o clima não está bom e as condições não estão favoráveis, como “névoa baixa, sol que racha”, que envolve um fenômeno meteorológico conhecido como cerração, em que ocorrem mudanças bruscas no clima em determinado espaço e geram necessidades, ajustes ou transformações, assim como a vida rotineira requer harmonizações.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-trabalho-e-uma-das-dimensoes-importantes-da-vida-que-envolve-grande-parte-do-dia-com-possibilidades-de-realizacao-ou-insatisfacao" style="font-size:19px">O trabalho é uma das dimensões importantes da vida, que envolve grande parte do dia, com possibilidades de realização ou insatisfação.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Um olhar importante é o da psicologia organizacional &#8211; uma das abordagens da psicologia – que iniciou em 1930 e gradativamente foi aumentando os estudos no decorrer dos anos sobre o clima organizacional, tendo como missão a compreensão das necessidades, percepções e preocupações dos colaboradores de uma empresa.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Pode-se entender como clima quente neste contexto o desconforto, os sintomas de estresse, a depressão e a ansiedade, assim como a Síndrome de Burnout, um distúrbio psíquico que comparece nas empresas em forma de exaustão física e emocional, dores musculares e outros sintomas mais. O que parece algo pontual, interfere no todo e reflete em todas as áreas da vida, inclusive no plano psicológico.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Vive-se numa contradição: ao mesmo tempo que não se valoriza a natureza com atitudes de preservação, é junto à natureza que ocorre o desligamento da rotina e o relaxamento. Isso pode ser observado nas escolhas e definições que envolvem os finais de semana, os feriados e as férias. Indivíduos refugiam-se em pousadas, clubes, chácaras, lagos, cachoeiras, rios, praias, montanhas e em muitos ambientes naturais que permitem uma conexão com a alma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-meio-ambiente-e-essencial-no-entanto-age-se-como-se-os-elementos-que-hoje-fazem-tao-bem-fossem-eternos" style="font-size:19px">O meio ambiente é essencial, no entanto age-se como se os elementos que hoje fazem tão bem fossem eternos.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">O tema preservação da natureza não desperta o interesse de todos, por interferir em diversas produções e também em aspectos financeiros, porém é necessário um olhar para o que ocorre no entorno físico e relacional.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Neste sentido, existem inúmeros aspectos para serem contemplados e ampliados, como por exemplo a poluição do ar que causa doenças respiratórias, mentais e cardiovasculares. Chuva e seca em excesso também resultam em doenças transmitidas por mosquitos, insolação, alergias, pneumonia e problemas gastrointestinais. Um exemplo típico é o surto ou a epidemia de dengue nas diferentes regiões do país.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sociedade-culpa-o-governo-e-governo-culpa-a-sociedade" style="font-size:19px">A sociedade culpa o governo e governo culpa a sociedade.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Nestes casos, há uma tendência de achar um “bode expiatório” e continuar na posição de vítima. É um processo antagônico e cômodo, mas que não gera mudanças e apresenta tendências de agravamento.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">É interessante observar que, segundo as previsões da Organização Meteorológica Mundial, há tendência de as temperaturas globais ultrapassarem de 1,5 °C de aquecimento nos próximos 5 anos. São alterações silenciosas de muitos anos, cujo resultado envolve atitudes do excesso decorrentes das ações humanas: a derrubada de árvores de forma desenfreada, as produções das indústrias, ocupação urbana desordenada e o excesso de lixos.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Algumas providências foram tomadas como, por exemplo, em 16 de março de 2011 foi instituído o Dia Nacional de Conscientização sobre as mudanças climáticas, decretado pela Lei Nº 12.533, para promover debates, atos, mobilizações e eventos que promovam a proteção dos ecossistemas. É interessante lembrar que as atitudes externas refletem um psiquismo interno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desta-forma-percebe-se-movimento-e-investimento-de-energia-para-contemplar-o-lixo-fisico" style="font-size:19px">Desta forma, percebe-se movimento e investimento de energia para contemplar o lixo físico.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">E o que é feito com os lixos internos que alteram o ser humano e seu entorno relacional? Todo excesso encobre uma falta! Falta que é suprida com objetos, aquisições materiais, alimentos, sexo, redes sociais, etc. O que de fato está faltando? Há muitos anos Jung escreveu sobre os excessos:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Qualquer que seja a forma que revele o excesso que nos entregamos, como o álcool, a morfina ou o idealismo, é nociva” (JUNG, 1987, p. 284).</p></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">O excesso gera consequências! Muitas vezes o apego é centrado em regras e leis exteriores, ao invés de olhar para os aspectos internos que podem ser abarcados por um processo de análise, tendo em vista a melhoria no autoconhecimento, na autoestima e na autonomia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pequenas-atitudes-diarias-de-todos-podem-fazer-a-diferenca" style="font-size:19px">Pequenas atitudes diárias de todos podem fazer a diferença.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Nas escolas, desde a educação infantil, ensina-se sobre a importância da natureza, da coleta seletiva, da reciclagem e do cuidado com o meio ambiente. E onde isso se perde? É necessário passar por um calor excessivo e devastações causadas pela água para produzir saídas criativas? A pandemia do Covid-19 não foi suficiente para promover mudanças significativas! A forma de proteção e sobrevivência no período se promoveu pelo afastamento de um mundo acelerado e o recolhimento nos lares.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Afastar-se do excesso e recolher-se, não só pode ser uma saída criativa, como pode promover ressignificações individuais e coletivas. É preciso olhar adiante, para o mundo que será deixado para as próximas gerações. Todos podem contribuir e para isso algumas vezes é necessário abrir mão do conforto, do mais fácil, do mais acessível, do descartável e do imediatismo.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Furacões, ciclones, tempestades, ondas de calor, secas, inundações e enchentes internas prolongadas, o que elas dizem e como lidar com elas? Para responder as questões sobre a natureza física, psíquica e suas transformações, é interessante fazer conexões com a alquimia tão estudada por Jung.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Simbolicamente, o calor faz transmutar elementos que são colocados no cadinho, lugar onde os alquimistas colocavam elementos para serem transformados, que pode ser comparado com a realidade da vida, com elementos angustiantes e destrutivos, possíveis de serem ressignificados.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Para tanto, uma saída criativa é transitar entre Prometeu (introvertido) e Epimeteu (extrovertido), que evidenciam o arquétipo do renascimento, da circularidade e dos ciclos, com possibilidade de integrar os elementos internos e externos:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Trata-se, antes, neste conflito das duas figuras, a luta entre a linha evolutiva do introvertido e extrovertido num único e mesmo indivíduo, mas que a exposição poética materializou em duas figuras autônomas em seus destinos típicos” (JUNG, 2013, §262).</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-se-trata-de-eliminar-sintomas" style="font-size:19px">Não se trata de eliminar sintomas.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">É necessário integrar os conteúdos do inconsciente com a consciência. Quanto mais se compreende o funcionamento do psiquismo, mais possibilidades de adaptações e integrações com o meio ambiente, que se reverte em plenitude.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Percorrendo a obra completa de Jung, em <em>Estudos Alquímicos, </em>eletrouxe aspectos relevantes que contribuíram para o entendimento simbólico da alquimia, permeadas de experiências vivas, voltadas ao psiquismo e aos elementos da natureza:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“O elemento terra está relacionado à função sensação e é denominado de operação <em>coagulatio.</em> O elemento água está relacionado à função sentimento e é denominado de operação <em>solutio.</em> O elemento ar relaciona-se com a função pensamento e é chamado de operação <em>sublimatio.</em> Finalmente, o elemento fogo está relacionado com a função intuição e envolve a operação <em>calcionatio” </em>(STRIEDER, 2022, p. 37).</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ele-disse" style="font-size:18px">Ele disse:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“O sábio extrai dessas imagens as inspirações mais sublimes, tudo que é pleno de sentido e valor; ele o extrai mediante um processo de destilação” (JUNG 2013, p. 222). </p></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Ele apresentou as visões de Zózimo de Panópolis &#8211; alquimista e gnóstico do século III &#8211; que contribuíram para esclarecer inquietações sobre o psiquismo, abordando temas como a composição das águas, num movimento de contração e expansão, a subida de sete degraus e observação de sete castigos no salão do sofrimento. Igualmente, o altar divino no quarto degrau, com a visão de alguém vindo do oriente com espada na mão, seguido por outro com uma esfera giratória branca radiante, o meridiano do sol, incentivando-o para o sacrifício. Esses aspectos, simbolicamente em seus diferentes momentos resumem o que envolve um processo de individuação. Não há transformação sem dor!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">A experiência anímica de Zózimo vem ao encontro do campo junguiano e de acordo com a fala de Magaldi Filho, em <em>Método Junguiano e a Alquimia</em>, (vídeo no YouTube, 03 janeiro 2004), existem aspectos que envolvem o processo analítico para promover a ampliação da consciência e podem ser compreendidos simbolicamente pela alquimia.&nbsp; Nele ocorre o que denominamos de rebaixamento do nível mental no vaso alquímico, permeado por um ambiente seguro, um encontro com o inconsciente pela associação de palavras, análise de sonhos e imaginação ativa. Transformar o chumbo em ouro envolve a compreensão do simbolismo, que contribui para a transmutação e evolução. Ou seja, difere de um olhar redutivo causal e vai ao encontro do prospectivo sintético. Além do motivo da nossa angústia (por quê), existe um sentido para a dor estar presente (para quê).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-modo-semelhante-jung-apresentou-paracelso-como-um-fenomeno-espiritual-e-um-pioneiro-nao-so-da-medicina-quimica-mas-tambem-da-psicologia-empirica-e-da-psicologia-medica-jung-2013-p-204" style="font-size:19px">De modo semelhante, Jung apresentou Paracelso como um fenômeno espiritual e “um pioneiro não só da medicina química, mas também da psicologia empírica e da psicologia médica” (JUNG, 2013, p. 204).</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Ele viveu num período em que não havia a cisão entre conhecimento e fé, representando a consciência que se amplia com análise, dissolução, síntese, consolidação e elevação. Ainda, para a compreensão de expressões espontâneas do inconsciente, Jung ampliou o conceito Mercurius da alquimia e tentou mostrar como aspectos diabólicos, neuróticos e perversos podem ser transformados, pelo conto de Grimm <em>O Espírito da Garrafa </em>(CFE. JUNG, 2013, p. 239). O espírito Mercurius nos remete à ambiguidade: “ele é deus, gênio, pessoa, coisa e o que se oculta no mais íntimo do ser humano, tanto psiquicamente como somaticamente. Ele é fonte de todos os opostos” (JUNG, 2013, p. 373). Esses opostos sombrios e numinosos estão em todos os indivíduos e podem ser integrados.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Ainda, no mesmo livro, ao ampliar questões sobre a árvore filosófica da alquimia, Jung reflete sobre o si-mesmo &#8211; origem e meta do processo de individuação &#8211; e o fenômeno do crescimento, com imagens individuais e relações históricas, que auxiliam na compreensão do uso do desenho de árvore por psicólogos (como parte do teste HTP) na realização do psicodiagnóstico, avaliando a essência e a personalidade de quem a desenhou.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">A analogia poética da árvore filosófica permite observar o fenômeno natural do crescimento da psique, peculiar nas plantas, em que a semente ou muda de planta precisa de terreno fértil e cuidados para crescer, florescer e frutificar e cumprir toso os seus ciclos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-analogicamente-a-felicidade-da-arvore-frutifera-e-dar-frutos-mesmo-que-nao-se-alimente-deles-outros-o-farao" style="font-size:19px">Analogicamente, a felicidade da árvore frutífera é dar frutos, mesmo que não se alimente deles. Outros o farão.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">De forma idêntica, a psique vai se formando e transformando aos poucos, influenciando os outros, recebendo influências, cumprindo o seu processo cíclico, como os elementos da natureza.&nbsp;É importante observar o quanto o ser humano é influenciado por um vasto campo de informações disponíveis na internet, que atravessam a sua rotina pelas redes sociais. Que bom seria se todos pudessem filtrar essas informações e não se sentissem fora do contexto por não reproduzirem esses conteúdos!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-ja-dizia" style="font-size:18px">Jung já dizia:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Nós nos contentamos assim de adquirir certos conceitos verbais, mas passamos ao lado do seu verdadeiro conteúdo, que consiste na experiência viva e impressionante do processo feito sobre nós mesmos. (JUNG, 2013, p.374).</p></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Em outras palavras, Jung sugeriu um investimento no processo de individuação, trazendo os conteúdos inconscientes para a consciência, no alcance do si-mesmo (selbst).</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">A confrontação com o inconsciente tem como meta fazer cessar a dissociação, que geralmente inicia pelo inconsciente pessoal, de acordo com as sombras morais e posteriormente pelo inconsciente coletivo, com as representações arquetípicas. É um processo intenso e às vezes dolorido, que envolve a compreensão intelectual e também a experiência viva, considerada por Jung a verdadeira experiência que permite o encontro com a alma. O processo de desenvolvimento pode desencadear crises e dependendo da intensidade, causar sensações de enlouquecimento. Mas Jung alertou:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p><a>“Enlouquecer não é nenhuma arte, mas extrair a sabedoria da loucura, eis a arte. A loucura é a mãe dos sábios, jamais a inteligência” (JUNG, 2013, p. 195).</a></p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-transformar-a-dor-e-sabedoria" style="font-size:20px"><a>Transformar a dor é sabedoria!</a></h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Jung é um exemplo de quem buscou e encontrou o sentido de sua vida. Durante os anos em que elaborou o Livro Vermelho ele deixou de lado as responsabilidades intelectuais e as responsabilidades éticas. O espírito da época não comportava algumas das suas vivências, pois estava imerso num processo de entrega diante da necessidade, movido por angústias e conexões:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Senti urgência de tirar conclusões concretas dos acontecimentos que o inconsciente me havia transmitido, e isto se transformou na tarefa e conteúdo da minha vida” (JUNG, 1987, p. 167).</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-quantas-vezes-se-sentiu-imerso-na-solidao" style="font-size:18px">E quantas vezes se sentiu imerso na solidão.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“A solidão não significa a ausência de pessoas em nossa volta, mas sim o fato de não podermos comunicar-lhes as coisas que julgamos importantes, ou mostrar-lhes o valor de pensamentos que lhes parecem improváveis” (JUNG, 1987, p. 307).</p></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Essas reflexões vêm ao encontro do contexto atual e na música de Ana Carolina, <em>As Ruas de Outono, </em>a solidão comparece em forma de abandono e ao mesmo tempo enaltece a esperança de que tudo pode mudar:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Nas ruas de outono os meus passos vão ficar.<br>E todo abandono que eu sentia vai passar.<br>As folhas pelo chão que um dia o vento vai levar.<br>Meus olhos só verão que tudo poderá mudar.<br>(ANA CAROLINA, 2006)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vale-lembrar-que-as-estacoes-do-ano-metaforicamente-expressam-a-realidade-psiquica" style="font-size:18px">Vale lembrar que as estações do ano, metaforicamente expressam a realidade psíquica:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A primavera sugere época de crescer e expandir até florir. Envolve a força e renovação. O verão pode ser visto como momento de exteriorizar sentimentos, em que acontecem encontros com otimismo e leveza, guiados pela energia do sol. No outono as folhas caem, encerrando um ciclo, terminando com nostalgia e amadurecimento. Por fim, o inverno representa recolhimento e interiorização, tristeza, melancolia e depressão. (STRIEDER, 2022, p. 33).</p></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Existe tempo para tudo e a vida é uma expressão alquímica!Como harmonizar os elementos da natureza com a rotina estressante e o sentido da vida? É necessário promover conexões entre o mundo interno e externo, que pode resultar em necessidade de mudanças, envolvidas de angústia diante do novo. É uma experiência permeada de tensão opositiva causada pela abertura do inconsciente. Para tanto, precisa-se de total liberdade para lidar com a realidade que abrange a necessidade, o desejo, os limites e as dificuldades encontradas.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Assim, associando-as à novas realidades, pode-se chegar em algo que antes nem se imaginava e as mudanças ganham autonomia e refletem positivamente no mundo interno e no campo relacional. Da mesma forma, contribuem para o despertar de um olhar coletivo, tendo em vista a integração da <strong>natureza física e psíquica</strong>, que dialogam entre si pelos quatro elementos da natureza externa &#8211; ar, água, terra e fogo – e também pela natureza interna: pensamento, sentimento, sensação e intuição.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-e-outros-estudiosos-deixaram-valiosas-contribuicoes-para-o-entendimento-da-natureza-fisica-e-psiquica" style="font-size:19px">Jung e outros estudiosos deixaram valiosas contribuições para o entendimento da <strong>natureza física e psíquica</strong>.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">A angústia diante dos problemas auxilia no processo de ressignificação. Onde há sombra, há possibilidade de tornar algo melhor. No indivíduo preso ao passado, aspectos depressivos podem comparecer. Projetado no futuro, os aspectos ansiosos tomarão conta. <strong>Sobrecarregado no momento presente, a sensação de estresse toma conta.</strong></p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Torna-se necessário distribuir a energia psíquica nas seis dimensões importantes da vida (corpo, trabalho, relacionamento amoroso, relações sociais, espiritualidade e família) e harmonizar esses aspectos. Além do que é preciso fazer na rotina por escolha ou obrigação, também é necessário algo que estimule viver e envelhecer com sabedoria.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">O sentido da vida geralmente está associado à resposta sobre qual é a parcela de contribuição para deixar o mundo melhor, a missão ou meta a ser compartilhada, que é construído ao longo da vida e torna o indivíduo melhor. Não envolve coisas grandiosas, mas a necessidade de estar inteiro onde estiver inserido. E isso pode ser compreendido como a felicidade, construída aos poucos e frutífera, assim como a árvore que dá o seu melhor, confirmado pela teoria de Jung:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Assim como o corpo precisa ser nutrido, não com um alimento qualquer, mas só com aquele que lhe convém, assim a psique tem necessidade do <em>sentido</em> de sua vida; e, além disso, não de um sentido qualquer, mas de imagens e ideias que lhe correspondam naturalmente, a saber, aquelas que lhe são suscitadas pelo inconsciente. (JUNG, 2013, par. 476).</p></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">A saída criativa é intensificar a ampliação da consciência, que permite ver em todos os ciclos a beleza da natureza psíquica e física e encontrar nelas o sentido da vida.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">Encerro as minhas ampliações com a analogia poética da árvore filosófica, que vem ao encontro da poesia de Olavo Bilac, <em>Velhas Árvores</em> (Poesias, 2003, p. 138). Apesar do tempo decorrido, ela é atual e simboliza a natureza psíquica e física com um sentido de vida, envolvendo ciclos de aprendizados. Às vezes sombra, outras vezes inspiração!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-que-possamos-renascer-crescer-e-frutificar-em-cada-estacao-no-bom-no-belo-e-no-verdadeiro" style="font-size:18px">Que possamos renascer, crescer e frutificar em cada estação, no bom, no belo e no verdadeiro!</h2>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg" style="font-size:18px"><blockquote><p>Olha estas velhas árvores, mais belas&nbsp;<br>Do que as árvores novas, mais amigas:&nbsp;<br>Tanto mais belas quanto mais antigas,&nbsp;<br>Vencedoras da idade e das procelas…&nbsp;<br>O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas&nbsp;<br>Vivem, livres de fomes e fadigas;&nbsp;<br>E em seus galhos abrigam-se as cantigas&nbsp;<br>E os amores das aves tagarelas.&nbsp;<br>Não choremos, amigo, a mocidade!&nbsp;<br>Envelheçamos rindo! envelheçamos&nbsp;<br>Como as árvores fortes envelhecem:&nbsp;<br>Na glória da alegria e da bondade,&nbsp;<br>Agasalhando os pássaros nos ramos,&nbsp;<br>Dando sombra e consolo aos que padecem!<br>(BILAC, 2003) &nbsp;</p></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: A natureza psíquica e física e seus desafios" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/KNmnv5WukiA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/clacistrieder/">Claci Maria Strieder – Membro Analista</a></strong></p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/"><strong>Waldemar Magaldi Filho – Analista Didata&nbsp;&nbsp;</strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">BUENO, Silveira. Silveira Bueno: minidicionário da língua portuguesa. São Paulo: FTD, 2000.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">BILAC, Olavo. Velhas árvores. Volume “Poesias”. São Paulo: Editora Martin Claret, 2003.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">CAROLINA, Ana. <em>As ruas de outono. </em>Álbum&nbsp;<a href="https://www.google.com/search?sca_esv=89aebea85e99b1ba&amp;sca_upv=1&amp;sxsrf=ACQVn0-pQD4KRseWG0SEkfgCsTgrBWzHFA:1714352317703&amp;q=Ana+Carolina+Dois+Quartos&amp;si=AKbGX_qWtsfHufXsq_1jeDkJp50FstNngDxsch3EVTUjn7imcME8XUDM8ydV4Y05PCP_ZOTuI3ojJq7ibwofKW1nkW4xkVoWbbtXQYyDzsklci5IzsrcA2VXORPUA62SPmcHdsSSDtmyzAa2ad4CRb_ySGP4QULRyb-HxMjS70fPOEuOvGG8z-8sGwo5Yp9zyBqFrLDW8BwW6fyQgIi3Wl98ltH69ZdB5A%3D%3D&amp;sa=X&amp;sqi=2&amp;ved=2ahUKEwjEjqqHnOaFAxW5p5UCHaRtAXMQmxMoAHoECCQQAg">Dois Quartos</a>, Sony Music, 2006.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">DIAS, João. Adeus ano velho &#8211; Composição de David Nasser e Francisco Alves.&nbsp; São Paulo: Indústrias Elétricas e Músicais Fábrica Odeon S.A, 1951.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">JUNG, C.G. <em>Estudos</em><em> alquímicos. 4.</em> ed.Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5"><em>_________ Memórias, sonhos e reflexões</em> (Reunidas e editadas por Aniela Jaffé). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">_________ <em>Tipos psicológicos. </em>7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">MAGALDI FILHO, Waldemar. <em>Método Junguiano e a Alquimia. V</em>ídeo no YouTube, 03 janeiro 2004.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">SANDY &amp; JÚNIOR. As quatro estações. Universal Music Publishing Group, 2001.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">STRIEDER, Claci Maria. <em>Portais da Alma</em>: a psicologia analítica e as conexões criativas e integradoras da natureza psíquica. 1. ed. Curitiba: Appris, 2022.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">SILFOS &#8211; AR (Primavera)</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">SALAMANDRAS &#8211; FOGO (Verão)</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">ONDINAS &#8211; ÁGUA (Outono)</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.5">GNOMOS &#8211; TERRA (Inverno)</p>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p style="font-size:19px">Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



<p style="font-size:19px">Acesse nosso site e conheça nossos cursos e pós-Graduações:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



<p style="font-size:19px">Conheça também os&nbsp;<a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">Congressos Junguianos do IJEP</a>! Online e gravados, uma ótima maneira de estudar a Psicologia Junguiana.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://ijep.pages.net.br/ix-congresso-ijep-arteterapia"><img decoding="async" src="blob:https://blog.sudamar.com.br/8d53811f-178d-48c2-9093-7e210d7da680" alt=""/></a></figure>
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			</item>
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		<title>A Alquimia da Escrita</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-alquimia-da-escrita/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dimas Künsch]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 May 2024 12:22:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[escrever]]></category>
		<category><![CDATA[escrita criativa]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vale também para a escrita, eu imagino, o que se pode dizer de toda criação humana: há escrita com e sem alma. A boa escrita aciona uma conversa animada da consciência com o inconsciente, da ilha com o oceano. Criativa e compreensiva em seus propósitos e em suas estratégias, a boa escrita se deixa afagar pela arte. Institui um cosmos possível de sentidos em um lugar da vida onde, sem a alquimia do “laboratorium”, o que resta é o caos – como convite, como desafio. Mais do território da poética que da técnica, a escrita pode ser terapêutica. Arteterapêutica!</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-dark-gray-color">Vale também para a escrita, eu imagino, o que se pode dizer de toda criação humana: há escrita com e sem alma. A boa escrita aciona uma conversa animada da consciência com o inconsciente, da ilha com o oceano. Criativa e compreensiva em seus propósitos e em suas estratégias, a boa escrita se deixa afagar pela arte. Institui um cosmos possível de sentidos em um lugar da vida onde, sem a alquimia do “<em>laboratorium</em>”, o que resta é o caos – como convite, como desafio. Mais do território da poética que da técnica, a escrita pode ser terapêutica. Arteterapêutica!</mark></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-escrever-e-um-ato-decente-ou-indecente">Escrever é um ato decente ou indecente?</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Este foi o tema de uma conversa entre o Sócrates do “conhece-te a ti mesmo” e Fedro, um dos amigos dele, numa bela manhã de verão, à sombra de um plátano na beira do rio Ilissos, fora dos muros da cidade de Atenas.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>A escrita é indecente, responderia Sócrates, sem pestanejar.</strong></p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Melhor não escrever nada! Nunca.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Interrompendo por um momento a conversa, a pergunta que já desde este início nos interessa é a seguinte: sob o ponto de vista da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, o que poderia ser uma escrita decente… ou indecente?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Um ponto de vista, como se sabe, é a visão a partir de um ponto. Representa uma escolha.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Escolher o ponto de vista alquímico da alma humana não significa desprezar os lados técnico, estético e ético de toda escrita. Simbolicamente, no entanto, estamos convidando para compor essa trindade sagrada – técnica, ética e estética – um personagem da mais elevada beleza e relevância: a alma!</p>



<p style="font-size:18px">Quaternidade.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Melhor do que trindade, como ensina Jung.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Um símbolo mais completo da totalidade.</p>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-demonio-interior" style="font-size:20px">Um demônio interior</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Coerente com seu modo de pensar, Sócrates não deixou nada escrito ao longo de toda sua vida. Abominava simplesmente a ideia de escrever algo. Seria indecente fazê-lo, pensava.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Pelas ruas e praças de Atenas e também pelos corredores do movimentado mercado da cidade, Sócrates preferia provocar as pessoas a olharem para dentro de si mesmas, inspirado até a medula no lendário “conhece-te a ti mesmo”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E ele provocava de verdade as pessoas. Provocava uma cidade-estado inteira: “Sou uma mutuca”, ele dizia de si mesmo. A égua era Atenas… E tome picada!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O aforismo “conhece-te a ti mesmo” estava inscrito na entrada da nau do templo de Apolo, em Delfos.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E é aqui que a filosofia – o “amor à sabedoria” – abraça amorosamente o mito; a consciência, o inconsciente; o masculino, o feminino… <em>Mysterium coniunctionis</em>!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-belos-tempos-aqueles-em-que-o-logos-abracava-compreensivamente-o-mito-em-que-a-razao-nao-havia-sido-ainda-atacada-pela-doenca-do-racionalismo-moderno" style="font-size:20px">Belos tempos aqueles em que o logos abraçava compreensivamente o mito! Em que a razão não havia sido ainda atacada pela doença do racionalismo moderno.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-que-o-logos-nao-virava-a-cara-emburrado-para-o-dia-logos" style="font-size:20px">Em que o logos não virava a cara, emburrado, para o dia-logos!</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Quais irmãos que às vezes não se bicavam, <em>logos </em>e <em>mythos </em>coexistiam e, em tempos de vacas gordas do espírito, conseguiam sem muitos pudores e na maior alegria se abraçar.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O diálogo – sempre tenso, vamos combinar – entre logos e mito, como se pode imaginar, tornava mais fácil o comércio com os conteúdos do vasto mundo do inconsciente humano.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-tensao-faz-parte" style="font-size:20px">A tensão faz parte.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo como o grande universo – multiverso – frequentado por deuses e demônios os mais diversos, as mais diversas.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Divertidamente diversos.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O inconsciente como o mundo coletivamente humano de onde saltam para a vida os conteúdos de nossos sonhos e de nossas esperanças, representados por símbolos – também os mais diversos – que nos visitam por meio dos mitos, das artes, das religiões, tanto quanto das sabedorias cotidianas, algo assim como as artes do saber viver…</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Um mundo onde cabe também, com todo respeito – mas, ai, como às vezes é difícil! –, o bom convívio com as ciências e com as técnicas; com a razão, o método, a régua e o esquadro.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Compreensão!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O abraço dos sentidos!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Saber colocar um “e” em lugares nos quais a nossa vã filosofia ama, adora o tempo todo colocar um “ou”, violentamente, arrogantemente.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Voltando à história de Sócrates – da mutuca e da égua –, quem o tinha mandado ser como era, dizer o que dizia, fazer o que fazia?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Bem feito! Merecia morrer!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Foi o Deus, responderia Sócrates aos seus acusadores, no grande Tribunal da Mentira.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Sócrates era movido por um <em>daimon</em>, uma força transcendente que se apossa da gente, vamos dizer assim, se a gente abre espaço para essa força agir!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E, então, coisas do arco da velha podem acontecer.</p>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-escrita-como-pharmakon" style="font-size:20px">A escrita como ‘phármakon’</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A propósito, na conversa com Fedro, Sócrates recorre mais uma vez e com muita naturalidade ao mito, quando lembra o Egito antigo e cita “um dos velhos deuses daquele país” – o deus Toth.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Deus de múltiplas qualidades e portador de muitos títulos, um inventor de primeira, a tradição mítica atribui a Toth, entre tantas outras maravilhas, a invenção da escrita.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Todo feliz, nosso deus sempre muito criativo, como costumava fazer, vai ter com o poderoso Amon com o baú cheio de novas artes.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">– Artes que, veja bem, Grande Amon, com todo o respeito, precisam ser ensinadas aos egípcios!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Toth estava, de verdade, <em>entusiasmado</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tinha-um-deus-dentro-de-si" style="font-size:20px">Tinha um deus dentro de si!</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tinha-um-demonio" style="font-size:20px">Tinha um demônio!</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Foram muitas as perguntas que teve que escutar, dirigidas a ele pelo deus Sol, a respeito da utilidade de todas aquelas artes.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Na hora de falar da escrita e dos encantadores hieróglifos que inventou, Toth caprichou no argumento:</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">– Esta arte, meu caro rei, tornará os egípcios mais sábios e lhes fortalecerá a memória. Portanto, com a escrita, inventei um grande auxiliar para a memória e a sabedoria.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Toth falava da técnica da escrita!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Falava bem: uma bênção!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O deus-rei, no entanto, não apreciou o que ouviu.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Aliás, odiou.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A escrita – ele sentenciou – tornaria os egípcios esquecidos. Mais ainda do que isso, eles se tornariam uns preguiçosos, onde já se viu?!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Os egípcios, por meio da escrita, sempre na visão de Amon, deixariam de cultivar a memória. Eles passariam a confiar apenas nos livros escritos. Só se lembrariam de um assunto por terem visto algo escrito sobre ele, em algum lugar externo, e não a partir de si mesmos.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E não a partir de dentro, do mundo interior.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E não a partir da alma, poderíamos dizer.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Toth, ainda segundo o deus-rei, podia até ter inventado um auxiliar para a recordação. Mas não para a memória.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E Amon continuou, expressando-se no seu modo divino de falar:</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">– Transmites aos teus alunos uma aparência de sabedoria, e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber, embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em consequência, serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Aparência de sabedoria!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Sábios imaginários!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Ignorantes ignorantes, diria Sócrates: uns verdadeiros sofistas!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E não ignorantes sábios, ou filósofos!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-suma-amon-via-a-tecnica-como-ameaca-uma-possivel-maldicao" style="font-size:20px">Em suma, Amon via a técnica como ameaça, uma (possível?) maldição!</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Qual Martin Heidegger dos tempos antigos, Amon parecia antecipar o que o filósofo alemão deixaria registrado em seu ensaio sobre “A questão da técnica”, de 1952. “A essência da técnica não é técnica”, escreveu Heidegger, provocando à reflexão. Convocando as mentes críticas ao gesto sagrado da “devoção do pensamento”!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Aliás, no texto “<a href="https://blog.sudamar.com.br/pegaso-crisaor-jung-heidegger/">Toth e a Inteligência Artificial</a>”, de minha autoria, você encontra um pouco mais sobre o tema da técnica e a visão de Heidegger a respeito do assunto. O ponto de partida, lá como aqui, é a história de Toth e a crítica à técnica da escrita.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A história que estou contando sobre a decência ou a indecência da escrita encontra-se no diálogo <em>Fedro</em>, um dos mais famosos de Platão, uma espécie de prolongamento do <em>Banquete</em>. Em ambos, a conversa altamente filosófica gira em torno do amor.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Mas, nesse ponto, no <em>Fedro</em>, o assunto é a escrita.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Uma indecência, na opinião de Sócrates!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Um enorme risco para a inteligência humana, pontificou Amon.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Viva Amon e abaixo Toth?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Calma!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-toth-faz-e-ver-na-escrita-um-auxilio-um-remedio-uma-cura-e-o-lado-positivo-do-que-o-termo-grego-pharmakon-indica-o-lado-bendito" style="font-size:19px">O que Toth faz é ver na escrita um auxílio, um remédio, uma cura: é o lado positivo do que o termo grego <em>pharmakon </em>indica. O lado bendito!</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pode-fazer-viver" style="font-size:19px">Pode fazer viver.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-amon-por-sua-vez-enxerga-na-mesma-escrita-o-outro-lado-do-que-pharmakon-tambem-evoca-em-vez-de-auxilio-uma-droga-lixo-maldicao" style="font-size:19px">Amon, por sua vez, enxerga na mesma escrita o outro lado do que <em>pharmakon </em>também evoca: em vez de auxílio, uma droga. Lixo. Maldição.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pode-matar" style="font-size:19px">Pode matar.</h2>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alias-engracada-e-a-historia-de-platao" style="font-size:20px">Aliás, engraçada é a história de Platão…</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Discípulo de Sócrates e fundador da Academia, a primeira grande escola filosófica de Atenas, ele andava sempre dizendo a todo mundo que escrever era, sim, indecente! Como o mestre, aliás, havia ensinado.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Mas Platão desandou a escrever, e não parou mais.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Contraditório?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Não, responderia Platão, autor de tantos e tão famosos diálogos!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Ele se defendia, dizendo só ter escrito o que o grande Sócrates havia falado.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Kkkkk!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Conta-se que, certa vez, ele teria escrito uma carta a um amigo com uma anotação, no final: leia, e depois queime, por favor!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Vai saber.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Por essas e outras é que Jung, que tantos e tão férteis diálogos traçou com o pensamento platônico, achava o fundador da Academia um tanto “avoado”. Parecia às vezes viver meio que “no mundo da lua”.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Bendito Platão, no entanto, o autor dos diálogos socráticos!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Bendita escrita!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Ou maldita escrita?</p>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-symbolum-e-diabolus" style="font-size:20px">‘Symbolum’ e ‘diabolus’</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Bênção ou maldição. Simples assim?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Não, não é simples.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É mais movimentado, dinâmico e interessante do que simples.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É mais divertido, até.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Porque não pode haver de verdade nada de simples em tudo aquilo que nós humanos imaginamos, desenhamos, criamos, produzimos.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Atravessada da cabeça até a ponta dos pés pelas promessas iluminadas, tanto quanto pelo lado noturno de nossa natureza, a cultura humana é sempre assim: dual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-ha-outro-jeito-e-nao-e-bem-assim-que-se-possa-dizer-e-o-que-temos-para-hoje" style="font-size:20px">Não há outro jeito, e não é bem assim que se possa dizer: é o que temos para hoje.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Porque é o que tivemos para ontem, o que temos para hoje e o que teremos para amanhã. Há que se negociar o tempo todo com os opostos em nós e no mundo em que nos foi dado viver. Outra condição humana não há.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Assustador?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Sim, não é?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Mas humanamente maravilhoso, também, você não acha?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Ambivalente como o próprio Toth – que às vezes é deus da vida e outras é deus da morte –, o humano existir se deixa compor em muitos sentidos por diversos graus de promiscuidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desse-modo-a-pergunta-sobre-quem-tem-razao-se-amon-ou-toth-nao-e-boa" style="font-size:20px">Desse modo, a pergunta sobre quem tem razão, se Amon ou Toth, não é boa.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-pessima" style="font-size:20px">É péssima.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-pobre-porque-divide-separa-funcao-da-consciencia-o-que-precisa-ser-visto-em-sua-unidade-ainda-que-paradoxal" style="font-size:20px">É pobre, porque divide, separa – função da consciência! – o que precisa ser visto em sua unidade, ainda que paradoxal!</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Dividir e separar, no fundo e no raso, é coisa do diabo: <em>diabolus</em>!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O <em>symbolum</em>, por sua vez, une, junta, mesmo deixando vivos os cheiros e as cores – às vezes o fedor – do paradoxo!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Assim, entre Amon e Toth, você poderia dizer que ambos ou que nenhum deles tem razão. Precisa, aí, nesse caso, diria Jung, de um <em>tertium non datur</em>, uma função transcendente…</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Levante o olhar!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Integrar ou não integrar: <em>that’s the question</em>!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Necessitamos de um símbolo, ou de vários símbolos que nos permitam sair da enrascada.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Símbolos redentores.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Não se trata, portanto, de buscar solucionar o conflito pela via do recurso ao ato diabólico. Dá ruim. Coisa de gente doida, diria Jung!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Literalmente.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Uma ideia muito besta, essa de a gente imaginar-se num mundo encantado e paradisíaco de perfeição, sempre e em todo canto, divinamente maravilhoso.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Ai, como isso é doentio!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-viva-o-antidepressivo-o-ansiolitico-uma-dependencia-licita-ou-ilicita-qualquer-nossa-como-a-industria-da-medicacao-fica-feliz-demonicamente-feliz" style="font-size:21px">Viva o antidepressivo, o ansiolítico, uma dependência lícita ou ilícita qualquer! Nossa, como a indústria da medicação fica feliz. Demonicamente feliz!</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Falando nisso, vale muito a pena ver com carinho e bastante atenção o vídeo “<strong><a href="https://www.youtube.com/watch?v=9ozcHpOzn5M&amp;t=5s">Sociedade antidepressiva</a></strong>”, de Waldemar Magaldi, no canal do Youtube do IJEP. <strong>Mein Gott, diria a minha avó! A coisa está feia</strong>.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O humano existir, ao contrário disso, nos convoca a levarmos a vida para a frente, na arte e graça de ver e sentir complementaridades lá onde a pequena razão (Nietzsche) só enxerga a triste sina dos opostos que se opõem, nesse eterno jogo nojento de perde-e-ganha, de vencedores e vencidos, segundo a máxima de Hobbes, <em>bellum omnia omnes</em> (a guerra de todos contra todos).</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Ou do <em>homo hominis lupus</em> (o homem como lobo do próprio homem).</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É da guerra dos opostos que nasce a mais perfeita harmonia! – proclama Heráclito, filósofo pré-socrático.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Essa é a guerra boa de ser guerreada, na visão do mito, da filosofia e, também, da Psicologia Analítica.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><em>Enantiodromia</em>!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Uma guerra que se deixa traduzir pela expressão “busca de sentido de viver”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Individuação.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“Não vim trazer a paz, mas a guerra”, diz Jesus, o Cristo, símbolo maior do Si-mesmo na mandala do Ocidente, como entendia Jung.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">De novo é o mito que comparece: a deusa Harmonia é filha de Ares (Marte), o deus da guerra, e de Afrodite (Vênus), a deusa do amor.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Jung fez uma verdadeira festa com essa ideia, ao assumi-la como um dos eixos básicos de sua concepção de energia psíquica, de desenvolvimento da personalidade, de individuação: o tornar-se quem se é (de novo, Nietzsche).</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><em>Habentibus symbolum facilis est transitus</em>! Se você tem o símbolo, a travessia se torna fácil.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Uma deusa, um deus e outra deusa!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Harmonia, Ares e Afrodite.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E é assim, portanto – e de novo –, que o logos dialoga com o mito, o racional com o não-racional, o Ego com o inconsciente!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Transcender!</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“Traduzir uma parte na outra parte, que é questão de vida ou morte” – pergunta o poeta (Ferreira Gullar), em “Traduzir-se” – “será arte?”<br>O poeta pergunta, não responde.<br>Precisava responder?<br>Porque a resposta “é a desgraça da pergunta” </p><cite>Maurice Blanchot</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-compreender-e-diferente-de-explicar" style="font-size:20px">Compreender é diferente de explicar</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O <em>symbolum </em>abraça, no sentido latino de <em>comprehendere</em>, que é o que compreender originalmente de fato significa: juntar, integrar, colocar as coisas para conversarem entre si, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença…</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A meta: o casamento alquímico, que resulta mais da doidice (do inconsciente, do não-racional) que da farra do Ego!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Tão divino e maravilhoso, o Ego! Tão pequeno, porém. Ilha num imenso oceano.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Compreender não é o mesmo que explicar. É diferente.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Duas atitudes espirituais altamente nocivas se confrontam nesse duelo diabólico e infrutífero, que acontece quando um dos dois lados da equação maltrata, despreza, renega o outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dualismo" style="font-size:20px">Dualismo.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A unilateralidade, no campo onde o grito é pelo diálogo e pela integração, só pode ser do mal.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Filhos mal-aventurados da Explicação, com um Ego miseravelmente aferrado ao logos não-dialógico, temos uma dificuldade enorme de abraçar o mundo irreverente do inconsciente, com suas ameaças e suas promessas: o feminino, a mãe.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Não acolhemos, não damos colo, não nutrimos.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Porque a mãe é aquela que <em>compreende</em>, diz Jung, referindo-se justamente ao sentido etimológico de <em>comprehendere</em>.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Explicar. Explicar. Explicar.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><em>Ad nauseam</em>.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Uma indigestão explicativa!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Uma neurose das boas!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A morte do ato terapêutico da escrita!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Mais desordem ainda no caos!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A explicação torra a paciência do símbolo, o castra, afoga, mata.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Com a compreensão não é assim.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A compreensão – aquela que compreende – abraça a explicação, num “romance astral”, diria Raul Seixas, para lembrar “O trem das 7”, falando sobre o mal: “Ói, olhe o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Onde o casamento alquímico não é buscado – “o tesouro difícil de ser encontrado” – e muito menos acontece; onde o astro deixa de representar um delicado convite para olharmos para além da matéria, da coisa, do fenômeno, vem o <em>desastre</em>: do grego = má estrela. Do latim: <em>dis</em> + <em>aster</em>, <em>astrum </em>= “mau”, “contrário”, “inadequado” + “astro”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A escrita desastrosa?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Algumas notas interessantes sobre o método da compreensão aplicado à Psicologia Analítica, você encontra em “<strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/jung-e-a-heresia-do-metodo/">Jung e a heresia do método</a></strong>”, mais um texto de minha autoria.</p>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-imagem-da-cachoeira" style="font-size:20px">A imagem da cachoeira</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“A explicação adota geralmente uma visão unilateral, verticalizada, de cima para baixo, reducionista.”</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É o querido professor Edvaldo Pereira Lima quem diz isso, falando sobre escrita criativa. Ele busca em Jung a inspiração para tratar do tema. Um banho de imaginação ativa.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“A explicação” – ele continua – “mostra o mundo sob uma ótica única ou de pouca abertura.”</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A compreensão, por sua vez, “busca exibir o mundo sob perspectivas diversificadas. Mais do que isso, ilumina as conexões entre conteúdos aparentemente desconectados. Interliga dados, mostra sentidos, perspectivas”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A compreensão é mais divertida.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Lima dedicou desde sempre a vida ao estudo e à prática do jornalismo a que ele dá o nome de literário.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Deambulando com carinho e emoção pelo universo dos símbolos da compreensão, Lima gosta de pensar em namoro e casamento nessa área (entre jornalismo e literatura, entre ficção e não-ficção). Ele fala de simbioses; fala de arte, ética e estética, e também de técnica, por que não?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Coloca o racional para abraçar o não-racional.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Lima dedica páginas inteiras a temas como o da capacidade de simbolizar, de ser criativo, de assumir uma voz autoral, de cultivar um estilo próprio, de se lambuzar com a vida, de se deixar pautar pela ética…</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-contexto-lima-alerta-para-um-erro-que-nos-fazemos-demais-o-tempo-todo-alegremente-como-filhos-da-gulodice-da-explicacao-colocamos-o-carro-na-frente-dos-bois-na-hora-de-parir-um-texto" style="font-size:20px">Nesse contexto, Lima alerta para um erro que nós fazemos demais, o tempo todo, alegremente, como Filhos da Gulodice da Explicação: colocamos o carro na frente dos bois na hora de parir um texto.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-carro-no-caso-e-o-ego-o-racional-e-logico-o-metodo" style="font-size:20px">O carro, no caso, é o Ego, o racional e lógico, o método…</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muita-furia-explicativa" style="font-size:20px">Muita fúria explicativa.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A explicação, no entendimento de Jung, é de tipo redutivo-causal. Costuma se fixar nos porquês. Vive e morre querendo saber o porquê das coisas. Regride, em vez de avançar. Olha para trás – o que, aliás, pode ser muito importante –, mas erra redondamente quando fica presa nesse passado.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Com a compreensão não é assim, ainda na visão de Jung. A compreensão olha para a frente, ainda que muitas vezes com o olho no retrovisor. É de tipo prospectivo-sintético. Foca nos para-quês.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O signo da explicação tem demais a ver com essa mania de querer ter certeza e segurança o tempo todo, com essa compulsão pelo “by the book” da nossa cultura racionalista, doente porque unilateral, mutiladora das virtualidades da alma humana…&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É colocar o Ego na frente, no comando: “Marcha, soldado, cabeça de papel!”</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É editar, antes do jogo mágico da escrita…</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“Jorrar” é o verbo que Lima utiliza para o ato primeiro da escrita.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Primeiro deixar jorrar, e editar, e editar e editar, só depois!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A imagem é a da cachoeira: deixar jorrar “como água de cachoeira despencando do alto”, deixando fluir “suas emoções, suas impressões, suas sensações, suas informações”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-primum-vivere-deinde-philosophare-primeiro-viver-depois-filosofar" style="font-size:20px"><em>Primum vivere, deinde philosophare</em>. Primeiro viver, depois filosofar.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É possível aplicar também ao ato da escrita – qualquer escrita! – a sabedoria embutida nesse antigo adágio.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A Vida, em primeiro lugar, com inicial maiúscula!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><strong>O vigor</strong>.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><strong>O viço</strong>.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E não o vício do rigor – cruz-credo! –, que o rigor é importante, em alguns tipos de texto, mas não demais porque estraga!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E estraga bastante. Empobrece.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Nunca, mas nunca mesmo, o rigor pode vir à frente do vigor, do encanto, do embate difícil, mas necessário e promissor, com o mundo das loucuras do não-racional, loucuras loucas e loucas sabedorias!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><em>Habentibus symbolum!</em></p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E já que mencionei um pouco antes um método junguiano por excelência – o método da imaginação ativa –, não custa indicar mais um vídeo de Waldemar Magaldi sobre o assunto &#8220;<strong><a href="https://www.youtube.com/watch?v=zhl2CcY60VQ">Imaginação Ativa</a></strong>&#8220;, você vai gostar!</p>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-montaigne-prefere-ensaiar" style="font-size:20px">Montaigne prefere ensaiar</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Um dos gênios da boa escrita, Michel de Montaigne (1533-1592) preferia ensaiar: é o pai do ensaísmo moderno.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Montaigne criou o termo, e viu que era bom! E acabou despertando ao longo dos cinco últimos séculos a raiva dos Filhos das Luzes, esses pobres “sábios imaginários”, como a eles se referiu o deus egípcio Amon.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Cinco séculos antes de Edgar Morin, o pai do pensamento moderno da complexidade, o criador do gênero do ensaio dos tempos modernos atacava o <em>mainstream </em>intelectual de sua época, que, já antes de René Descartes (1596-1650), sabia fazer muita análise (dividir, separar) e pouca síntese (juntar, unir).</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Sábios imaginários que acabam produzindo aquilo&nbsp; que o francês do século 16, em diálogo com o francês do século 21, chamava de “picotamento do saber”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><em>Confusum est quidquid usque in pulverem sectum est</em>. Tudo o que é reduzido a pó torna-se confuso.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Hiperespecialização, como chama a atenção Morin.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Um desastre.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Saber sempre mais sobre cada vez menos – e sem conexão de umas coisas com as outras!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“As glosas aumentam as dúvidas e as ignorâncias”, escreve Montaigne. E, no entanto, era o que mais ele via acontecer já em seu tempo.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“Há mais trabalho em interpretar as interpretações do que em interpretar as coisas”, reclama Montaigne. “E mais livros sobre os livros do que sobre outro assunto: não fazemos mais do que glosar uns aos outros. Tudo fervilha de comentários, mas de autores há poucos.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ai-essa-doeu" style="font-size:20px">Ai, essa doeu!</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Onde foi que enterramos o estilo e a voz autoral, de que nos falou há pouco Lima?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Conversando amorosamente com os seus cálculos renais – quanto sofrimento! –, Montaigne ergue bem alta a bandeira da experiência, da vida que vem antes da filosofia, dos bois que é bom que fiquem à frente do carro, do vigor e do viço que pedem licença ao imperativo violento do rigor: “Eu sou a minha física, eu sou a minha metafísica”, ele dizia.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Experiência – nesse caso, não a do empirismo científico, mas a da vida, do <em>primum vivere</em>&nbsp; –, eis a palavra mágica, a palavra-chave do verdadeiro ensaio. Da boa escrita.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">De Montaigne aos mais importantes teóricos de nosso tempo que escreveram sobre o ensaio, todos são unânimes em reconhecer que o ensaio, esse Filho da Compreensão, haure sua força e encanto da experiência.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“No caso do ensaio” – afirma <strong>Vilém Flusser</strong> –, diferentemente do que esse autor chama de texto acadêmico ou de tratado, “viverei meu assunto e dialogarei com os meus outros. No primeiro caso [<em>o do tratado</em>], procurarei explicar meu assunto. No segundo, procurarei implicar-me nele”.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“No tratado o assunto interessa, no ensaio, <em>intersou </em>e <em>intersomos </em>no assunto. A decisão pelo tratado é desexistencializante.”</p></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O ensaio de Montaigne “Sobre a experiência” – de onde extraí as palavras dele que acabo de citar – é um dos mais lidos e apreciados de todos os que ele escreveu. Trata-se de uma espécie de manual – não de regras, mas de atitudes – de como se deixar atingir pelo “jorro da cachoeira” da boa, compreensiva e criativa escrita.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-segundo-mais-importante-ensaio-de-montaigne-e-sobre-os-canibais" style="font-size:20px">O segundo mais importante ensaio de Montaigne é “<strong>Sobre os canibais</strong>”.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Os “canibais” eram para todo mundo, lá na França de então, os índios brasileiros. Os franceses tinham levado alguns deles para o seu país, depois de haver fundado no Rio de Janeiro a sua França Antártica, pelos idos de 1555.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Montaigne, porém, em pleno século 16, ensaia uma compreensão diferente.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Montaigne não quer fazer a glosa da glosa. Ele quer fugir da bolha maldita da explicação violenta, associada sem exceção ao imperativo do poder.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Como uma voz quase completamente isolada frente ao coro das elites pensantes de então – incluindo a própria Igreja católica de Montaigne, na figura de seus papas, teólogos e canonistas –, o nosso ensaísta não nega que os indígenas possam ter lá os seus motivos para comer carne humana.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Mas canibais, de verdade mesmo, no pior sentido… eram os europeus!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-shakespeare-gostou-de-ler-o-ensaio" style="font-size:20px">Shakespeare gostou de ler o ensaio.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jean-jacques-rousseau-idem" style="font-size:20px">Jean Jacques Rousseau, idem.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Fundado sobre o princípio da liberdade do espírito, e livre, portanto, das amarras da escrita racionalizante e repleta de perversas certezas e violentas seguranças, o ensaio abre os olhos. Faz ver. Amplia a consciência.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E mudar o olhar – coisa difícil para todo mundo –, nessa linha de pensamento, “é tudibão”,diria um mineiro.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Sabem por que vocês odeiam tanto o ensaio?, pergunta Adorno às elites pensantes da Alemanha de seu tempo, menos de dez anos depois de acabada a Segunda Guerra Mundial.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É porque vocês se dão mal com uma coisa chamada “liberdade de espírito”, responde.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O autor de “O ensaio como forma”, um texto clássico sobre o ensaio como método de escrita, se levanta contra o cientificismo e o cartesianismo de seus contemporâneos alemães.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Adorno é lapidar em sua conclusão: a heresia é a lei maior do ensaio.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Ensaístico, o texto criativo é herético – porque herético é o mundo da alma humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ir-ao-laboratorium" style="font-size:20px">Ir ao ‘laboratorium’</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">No parto alquímico do ato da escrita, a dor faz parte, e essa percepção nos situa justamente na contramão da perversão contemporânea representada pela negação pura e simples de toda dor: é proibido sofrer!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Como não sofrer, não se angustiar, não sentir algo assim como um frio na barriga, uma ansiedade qualquer?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Como desejar um parto natural sem dor na hora da escrita?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A perversão do “é proibido sofrer” se deixa inevitavelmente acompanhar pela doença do mimimi, da irresponsabilidade, do regredir e se fixar na idade que um dia foi, a da criança criança…</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-eis-a-receita-do-eterno-puer" style="font-size:20px">Eis a receita do eterno <em>puer</em>.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Eis o homicídio de toda possibilidade humana de criação, de arte, mito, religião, filosofia e ciência.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O que aqui neste texto se está querendo afirmar, não é que escrever seja fácil e indolor, uma pura beleza, algo quase tão simples como descascar uma banana e comê-la!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Não é.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Ordinariamente, não!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Mas a coisa fica pior – impossível até –, se esquecemos a imagem da água que jorra da cachoeira (Lima).</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Se não damos crédito à ideia da experiência de si e do mundo (Montaigne).</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Se não prestarmos a atenção que merece o&nbsp; apelo à heresia (Adorno).</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Se insistimos em colocar o carro na frente dos bois e não deixamos que se manifeste em toda a sua exuberância o que há de mais pleno e amplo em nós: o não-racional, o inconsciente como território de nossos sonhos e de nossas ilusões! De nossa relação com o maravilhoso, com o <em>mysterium </em>– <em>tremendum et fascinans</em>, como ensina Rudolf Otto.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Vamos ao <em>laboratorium</em>!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É o convite dos alquimistas.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O <em>labor </em>criativo do<em> solve et coagula </em>se deixa inscrever no abençoado fascínio espiritual do <em>oratorium</em>: é coisa do espírito, como tão bem expressa Jung, em <em>O espírito na arte e na ciência</em>!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><em>Ora et labora</em>, diz a máxima dos monges beneditinos.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Nessa luta, vamos, como sugere o alquimista Ostanes, às correntezas do Nilo, em busca da <em>lapis&nbsp; philosophorum</em>, “o tesouro difícil de ser encontrado”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A pedra tem espírito (pneuma).</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“Toma-a, divide-a e enfia tua mão dentro dela para extrair-lhe o coração, pois sua alma (<em>psiqué</em>) reside em seu coração.”</p>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-meditatio-e-imaginatio" style="font-size:20px">‘Meditatio’ e ‘imaginatio’</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Filhos da Explicação como somos, apaixonamo-nos facilmente por um conceito ou uma definição.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-gostamos-demais-de-uma-regra-uma-tecnica-ou-uma-receita-qualquer-que-nos-prometa-a-va-seguranca-de-uma-cerca-ou-de-um-muro-em-lugares-onde-a-vida-esta-chamando-para-a-alegria-de-se-arriscar-se-jogar-se-entregar-ao-banho-nas-aguas-da-cachoeira" style="font-size:20px">Gostamos demais de uma regra, uma técnica ou uma receita qualquer que nos prometa a vã segurança de uma cerca ou de um muro, em lugares onde a vida está chamando para a alegria de se arriscar, se jogar, se entregar ao banho nas águas da cachoeira.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“<strong>Nós nos contentamos, assim, de adquirir certos conceitos verbais</strong>”, diz Jung, “mas passamos ao largo de seu verdadeiro conteúdo, que consiste na experiência viva e impressionante do processo feito sobre nós mesmos”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É nesse ponto que Jung dialoga com Montaigne: a experiência viva e impressionante de como a coisa se dá em nós mesmos, com nós mesmos. De como a coisa nos atravessa.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“Não devemos entregar-nos a nenhuma ilusão quanto a isto”, continua Jung: “nenhuma compreensão de palavras, nenhum artifício da sensibilidade podem substituir a experiência verdadeira”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">No meio de toda a sua doidice, a sabedoria alquímica nos aponta o caminho das pedras, ou da pedra filosofal.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“Meditatio.”</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“Imaginatio.”</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“Soliloquium.”</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Os caminhos da alma humana, de suas linguagens, de seus amores e dissabores, dos vapores e odores do vaso alquímico.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Escrever parece exigir bem mais do que aprender uma técnica: é abraçar compreensivamente o desafio de se confrontar consigo mesmo, com o Si-mesmo.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Mas, enfim, escrever é uma coisa decente ou indecente?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Depende.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Sabe-se lá o que a gente escreve e como o faz.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Mas será sempre indecente se não formos às correntezas do Nilo.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Se não nos banharmos nas águas da cachoeira.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Se não mergulharmos no vasto oceano do inconsciente, onde a vida pulsa em tom maior.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/dimaskunsch/">Dimas Künsch &#8211; Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">ADORNO, Theodor. O ensaio como forma. In: COHN, Gabriel. <strong>Theodor W. Adorno</strong>. São Paulo: Ática, 1986, p. 167-187.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">FLUSSER, Vilém. Ensaios. In: <strong>Ficções filosóficas</strong>. São Paulo: Edusp, 1998, p. 93-98.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">HEIDEGGER, Martin. A questão da técnica. <strong>Scientiæ Studia</strong>, São Paulo, v. 5, n. 3, p. 375-98, 2007. Disponível em: http://www.scientiaestudia.org.br/revista/PDF/05_03_05.pdf. Acesso em: 1 maio 2024.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">JUNG, Carl Gustav. <strong>Mysterium coniunctionis</strong>. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2012 [OC 14/1].</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">JUNG, Carl Gustav. <strong>O espírito na arte e na ciência</strong>. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2012 [OC 15].</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">KÜNSCH, Dimas A. <strong>Compreender:</strong> indagações sobre o método. São Bernardo do Campo, SP: Editora Metodista, 2020.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">KÜNSCH, Dimas A. Toth e a Inteligência Artificial. <strong>Portal do IJEP</strong>. Disponível em: <a href="https://blog.sudamar.com.br/pegaso-crisaor-jung-heidegger/">https://blog.sudamar.com.br/pegaso-crisaor-jung-heidegger/</a>. Acesso em: 1 maio 2024.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">KÜNSCH, Dimas A. Jung e a heresia do método. <strong>Portal do IJEP</strong>. Disponível em: <a href="https://blog.sudamar.com.br/jung-e-a-heresia-do-metodo/">https://blog.sudamar.com.br/jung-e-a-heresia-do-metodo/</a>. Acesso em: 1 maio 2024.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">LIMA, Edvaldo Pereira. Da escrita total à consciência planetária. In: BRANDÃO, Carlos Rodrigues; ALESSANDRINI, Cristina Dias; LIMA, Edvaldo Pereira. <strong>Criatividade e novas metodologias</strong>. São Paulo: Peirópolis, 1998. [Série Temas Transversais, v. 4].</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">MAGALDI, Waldemar. Sociedade antidepressiva. <strong>Youtube</strong>. Disponível em: <a href="https://youtu.be/9ozcHpOzn5M?si=5ErFktn73W9aUuWc">https://youtu.be/9ozcHpOzn5M?si=5ErFktn73W9aUuWc</a>. Acesso em: 1 maio 2024.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">MAGALDI, Waldemar. Imaginação ativa. Youtube. Disponível em: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=zhl2CcY60VQ">https://www.youtube.com/watch?v=zhl2CcY60VQ</a>. Acesso em: 12 maio 2024.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">MONTAIGNE, Michel. <strong>Os ensaios</strong>.São Paulo: Companhia das Letras, 2010.</p>



<p>Foto: THALES CARRARO</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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			</item>
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		<title>A morte e os sonhos compensatórios dos que ficam</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/morte-e-sonhos-compensatorios/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Mar 2024 23:02:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Morte]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8849</guid>

					<description><![CDATA[<p>No meu texto, exploro a capacidade compensatória da psique diante da morte, especialmente na abordagem terapêutica junguiana. Destaco a relevância da terapia nesses momentos críticos, revelando o caminho compensatório do inconsciente. Compartilho um caso clínico ao analisar uma sequencia de seus sonhos, percebo a busca do inconsciente por significados e a representação simbólica da morte. Destaco a necessidade de paciência na prática junguiana, respeitando os processos individuais. O último sonho revela um momento de aceitação e continuidade da vida após a perda, destacando a função compensatória e pedagógica dos sonhos. Concluo ressaltando a importância dessas experiências na reflexão dos caminhos futuros.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Resumo: </strong>No meu texto, exploro a capacidade compensatória da psique diante da morte, especialmente na abordagem terapêutica junguiana. Destaco a relevância da terapia nesses momentos críticos, revelando o caminho compensatório do inconsciente. Compartilho um caso clínico ao analisar uma sequencia de seus sonhos, percebo a busca do inconsciente por significados e a representação simbólica da morte.</p>



<p>Destaco a necessidade de paciência na prática junguiana, respeitando os processos individuais. O último sonho revela um momento de aceitação e continuidade da vida após a perda, destacando a função compensatória e pedagógica dos sonhos. Concluo ressaltando a importância dessas experiências na reflexão dos caminhos futuros.</p>



<p>Quero trazer uma reflexão sobre a capacidade compensatória e reparadora que existe em nossa psique, principalmente em momentos de grande tensão como a partida repentina de um ente querido. <strong>Em muitos momentos, a morte acontece de forma abrupta e inesperada, de tal forma que o acontecimento nos deixa sem chão</strong>. O trabalho no consultório nos oferece uma abertura não só para vivenciar o caminho compensatório que o inconsciente escolhe para ajudar a pessoa, como também testa o próprio analista em sua fé diante das incertezas com as quais precisamos lidar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-e-possivel-oferecer-uma-certeza-para-quem-procura-a-terapia-junguiana-mas-e-possivel-oferecer-um-caminhar-junto-e-torcer-para-que-o-melhor-possa-acontecer-durante-esse-caminhar" style="font-size:17px">Não é possível oferecer uma certeza para quem procura a terapia junguiana, mas é possível oferecer um caminhar junto e torcer para que o melhor possa acontecer durante esse caminhar. </h2>



<p>Von Franz, ao acompanhar alguém diante do final da vida, destaca que o inconsciente continua sua busca pelo desenvolvimento e explica que:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A única coisa que se podia notar era que o inconsciente insistia ainda mais implacavelmente do que antes sobre a verdade interior, como se então fosse realmente urgente desapegar-se de todas as ilusões e de todos os autoenganos neuróticos (VON FRANZ, 1995, p. 80).</p></blockquote></figure>



<p>A história que quero trazer para essa reflexão foi vivenciada no contexto analítico na minha prática clínica. Um jovem de 24 anos chegou ao consultório muito abalado por conta da morte da ex-namorada. Apesar de fazer algumas mudanças para preservar a identidade do cliente, também tenho sua permissão para trazer sua experiência na elaboração deste luto neste artigo.</p>



<p>Há trinta dias, tinha recebido a notícia da morte da ex-namorada após o término da relação. Ele não se sentia feliz e, por isso, resolveu terminar. Esse é o primeiro problema, pois um dos questionamentos era: e se eu não tivesse terminado, a morte poderia não ter acontecido? Eu lhe expliquei um pouco a forma como eu trabalho e, por isso, sugeri que passasse a anotar seus sonhos. Na semana seguinte, chegou com o seguinte sonho:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:14px">
<p>&#8220;Do alto de um morro eu vejo minha ex-namorada caminhando em direção a um campo de trigo, logo atrás um objeto incandescente ia queimando o campo até que ela desaparece junto com todo campo, me desespero e choro como uma criança.&#8221;</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aquele-sonho-mexeu-muito-com-ele-apenas-o-colocou-mais-ainda-intensamente-diante-daquela-dor">Aquele sonho mexeu muito com ele, apenas o colocou mais ainda intensamente diante daquela dor </h2>



<p>E as reflexões foram várias diante deste sonho, mas a pergunta que mais mexeu com ele era sobre <strong><em>qual parte dele estava sendo representada naquele sonho</em></strong>. Dentro de uma visão mais religiosa, ficaríamos apenas com o entendimento de que poderia ser uma possível mensagem de quem já partiu, o que até poderia ser de fato, se isso faz sentido para o indivíduo, mas dentro da visão junguiana precisamos considerar qual é a intenção do inconsciente. Por que a psique dele estava usando aquela imagem? Von franz analisa um sonho parecido e cita Jung para explicar algo que pode nos dar uma chave para entendermos o sentido destes sonhos:</p>



<p>Não foi nenhuma mera coincidência o fato de o inconsciente escolher a imagem de uma floresta para descrever a destruição do corpo mortal. Segundo Jung, a floresta simboliza aquela região da psique inconsciente onde essa derradeira instância se funde com os processos fisiológicos no corpo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>&#8220;Todavia, a vegetação também possui um indomável desejo de vida. Sua capacidade de regeneração na natureza é sempre surpreendente&#8221; (VON FRANZ, 1995, p. 84).</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-entendia-que-o-inconsciente-nao-se-importava-com-a-morte-pois-lidava-com-a-morte-como-se-nada-tivesse-acontecido"><strong>Jung entendia que o inconsciente não se importava com a morte, pois lidava com a morte como se nada tivesse acontecido</strong>.</h2>



<p>Ainda sobre o sonho, não podemos nos esquecer da explicação dada por Von Franz, que “Osíris, o deus egípcio da morte, com quem todos os mortos se fundem após o fim, chamava-se ‘trigo’” (VON FRANZ, 1995, p. 85).</p>



<p>Imediatamente em seguida foram muitos sonhos com a ex-namorada, sonhos que retratavam uma vida normal, como se nada tivesse acontecido, o que eu quero dizer é que para mim a ex ainda continuava viva, pelo menos dentro dele. De certa forma, isso lhe trouxe conforto e abriu espaço para se trabalhar outras coisas importantes, que diziam respeito exclusivamente à sua vida, à forma como ele estava se vendo diante do mundo. Foi preciso olharmos para a relação com os pais, com o irmão, sua relação com o trabalho e como ele iria viver a vida daqui para frente. Durante semanas, os sonhos se repetiam com o mesmo conteúdo onde ele continuava a namorar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sao-momentos-como-estes-que-aprendemos-a-ter-paciencia-a-confiar-que-existe-algo-acontecendo-que-esta-muito-alem-dos-nossos-olhos" style="font-size:21px">São momentos como estes que aprendemos a ter paciência, a confiar que existe algo acontecendo que está muito além dos nossos olhos.</h2>



<p>A prática junguiana é um processo colaborativo. <strong>O analista e o paciente trabalham juntos para entender a psique do paciente</strong>. O analista fornece orientação e apoio, mas o paciente é o responsável pelo seu próprio processo de desenvolvimento. O que nos cabe é ser um espelho menos deformado possível. O analista precisa ser capaz de suportar as suas incertezas e incapacidades, pois não se trata de ser um indivíduo super capacitado e perfeito, trata-se de ser um ser humano com as mesmas dores que qualquer outro. Precisamos confiar e nos esforçar para respeitar os sonhos, Jung explica que:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>A compensação inconsciente de um estado neurótico da consciente contém todos os elementos que quando conscientes, isto é, quando compreendidos e integrados como realidades na consciência[&#8230;] No tratamento esforçamo-nos, por conseguinte, por compreender e respeitar, na medida do possível, os sonhos e demais manifestações do inconsciente; por um lado, para evitar a formação de uma posição inconsciente, que com o passar do tempo, pode tornar-se perigosa, e por outro, paralisar, na medida do possível, o fator curativo da compensação.(JUNG,2012,p.123)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-ponto-alto-deste-processo-todo-foi-o-ultimo-sonho-desta-serie-que-eu-passo-a-reproduzir-aqui-na-integra" style="font-size:19px">O ponto alto deste processo todo foi o último sonho desta série que eu passo a reproduzir aqui na íntegra:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>&#8220;Eu me encontrava com minha ex-namorada, ela pega em minha mão e me leva por uma viagem, passamos em todos os lugares que havíamos planejado, mas não tivemos tempo de realizar, nesta viagem fizemos coisas que deixamos de fazer, passamos pelos lugares mais belos, de repente começamos a voltar até que em um determinado momento da viagem ela diz: Agora eu posso seguir. Neste momento ela larga minha mão e automaticamente me vejo junto com a minha família, feliz. Imediatamente fui tomado por uma grande emoção e entendo que a minha vida tinha que continuar.&#8221;</p></blockquote></figure>



<p>Quando ele termina de contar esse sonho, ficamos parados em silêncio por um longo período, durante um tempo ninguém tinha coragem de pronunciar uma palavra sequer, mas dentro, pelo menos, dentro de mim, um turbilhão de emoções me tomava. Não conseguia deixar de pensar no belo trabalho que o inconsciente produziu. <strong>O que fica claro para mim é que precisamos permitir e dar espaço para que o inconsciente faça sua parte, porque é ele que irá possibilitar a nossa verdadeira realização</strong>.</p>



<p>Talvez essa seja uma metáfora que podemos usar da alquimia, nós precisamos ser o mestre de obra que constrói o laboratório para que este grande mestre alquimista chamado self possa fazer suas operações.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-este-e-um-exemplo-de-como-a-psique-humana-em-momentos-de-profunda-dor-e-perda-busca-meios-simbolicos-para-lidar-com-a-complexidade-da-existencia-e-da-morte" style="font-size:18px">Este é um exemplo de como a psique humana, em momentos de profunda dor e perda, busca meios simbólicos para lidar com a complexidade da existência e da morte.</h2>



<p>Cada sonho, cada imagem, torna-se uma tela onde o inconsciente pinta seus próprios quadros, tecendo significados e ressignificando a vida daquele que fica. Essa vivencia serve para confirmar o quanto que os sonhos, além de compensatórios, possuem características pedagógicas e de possibilitar a reflexão dos caminhos futuros.</p>



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</div></figure>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/daniel/">Daniel Gomes – Analista em formação pelo IJEP</a></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p>JUNG, C. G. (2012). Psicologia do inconsciente. Petrópolis: Vozes.</p>



<p>VON FRANZ, M. L. (1995). A morte a luz da psicologia. São Paulo: cultrix</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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		<title>A Transformação do Homem através da Anima: Reflexões a partir do Mito de Percival e a Psicologia de Jung e Johnson</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/transformacao-do-homem/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 28 Feb 2024 19:31:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[aspectos do masculino]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[homens]]></category>
		<category><![CDATA[johnson]]></category>
		<category><![CDATA[jornada do herói]]></category>
		<category><![CDATA[parsifal]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia masculina]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8841</guid>

					<description><![CDATA[<p>O artigo explora a transformação masculina através da anima, com base no Mito de Percival e nas teorias de Jung e Johnson. Destaca-se a importância da anima como uma força primitiva que desafia abstrações, enfatizando sua natureza complexa. A dualidade, confronto com obstáculos externos, e a necessidade de cura interna são abordados, assim como o papel do mito na busca pela totalidade. A influência duradoura da figura materna é analisada através do mito do dragão. Em conclusão, destaca-se o processo de integração como essencial para a realização pessoal. O artigo oferece uma exploração profunda da jornada do homem em busca de autenticidade através da transformação da anima.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>Explore a jornada de transformação do homem através da anima, analisando o Mito de Percival e as teorias psicológicas de Jung e Johnson. Descubra como a dualidade interna, confrontos externos e a cura interna são fundamentais para a consolidação da masculinidade e realização pessoal.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-uma-camada-primitiva-na-psicologia-do-homem-que-segundo-jung-e-representada-pela-anima"><strong>Há uma camada primitiva na psicologia do homem que, segundo Jung, é representada pela anima</strong>.</h2>



<p>Em sua essência, a psicologia primitiva rejeita abstrações, e as línguas primitivas têm poucos conceitos. Nesse contexto, <strong>a anima emerge como uma força primitiva</strong>, resistindo à mera noção abstrata. Jung destaca que o entendimento da anima como um complexo que se comporta quase como uma pessoa é crucial. A anima não é apenas uma abstração científica, para <strong>Jung</strong>:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>O termo científico nada transmite e a mera noção abstrata da anima também não transmite nada, quando você pressupõe que a anima é quase pessoal, mas um complexo que se comporta exatamente como se ela fosse simples pessoa, ou as vezes como se fosse uma pessoa uma muito importante, logo você entende isso quase que corretamente. (JUNG, 2019, p.221)</p></blockquote></figure>



<p><strong>Robert A. Johnson</strong>, em seu livro &#8220;He&#8221;, explora a dualidade do universo e destaca que para compreender a unicidade é necessário a percepção da dualidade e sua respetiva diferenciação. Johnson ressalta a importância de diferenciar o mundo interior do exterior, e a verdadeira atuação na unidade só é possível quando essa distinção é clara. É possível ter uma percepção clara desta dualidade nas projeções da vida cotidiana Jhonson capta bem esse problema ao apontar que o problema deste sofrimento e desta que:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>O homem é muitas vezes levado a fazer coisas estúpidas na tentativa de curar a ferida e suavir o desespero que sente. É como se buscasse uma solução inconsciente, fora de si próprio, queixando-se do seu trabalho, do casamento ou do lugar que tem no mundo. Pode até nessa fase, tentar encontrar uma outra mulher (JOHNSON, 1992, p. 21).</p></blockquote></figure>



<p>Para<strong> Johnson</strong>, &#8220;Nenhum esforço exterior é possível se nossa capacidade interior está ferida&#8221; (JOHNSON, 1992, p. 25), destaca a necessidade de cura interna antes de qualquer empreendimento externo eficaz. Esta perspectiva ecoa a jornada de Parsifal, onde a busca por algo no interior, que corresponda à idade e mentalidade do momento da ferida, é essencial para a cura.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-mito-de-persifal-johnson-destaca-a-necessidade-de-despertar-o-parsifal-no-homem">No mito de Persifal, Johnson destaca a necessidade de despertar o &#8220;Parsifal&#8221; no homem.</h2>



<p>O despertar não apenas traz alegria à parte anteriormente incapaz de felicidade, mas também infunde vida. A dualidade presente no homem, representada pelo lado violento que precisa ser dominado, é uma jornada em direção à integração consciente.</p>



<p>O confronto com obstáculos externos é fundamental para consolidar a masculinidade, desafiando a vontade e identidade do homem. Isto porque desde a infância precisa aprender a dominar o instinto violento de sua natureza, que sem a conscientização pode vir a se tornar dominado por essa sombra.</p>



<p>Johnson também ressalta a importância do papel paterno na vida do <strong>adolescente</strong>, sugerindo que, nos dias de hoje, a intimidade entre pai e filho muitas vezes é perdida, tornando-se necessário um mentor, um guia masculino, para continuar o processo de treinamento.</p>



<p>Quando esse processo de desenvolvimento não acontece de forma satisfatório o homem pode cair no encantamento do dragão &#8211; que contém representação de uma variação da imago da mãe-, Johnson descreve a dinâmica psicológica não resolvida que os homens mantêm com o complexo materno desde a infância. Esse &#8220;dragão&#8221; é uma representação da relação complexa e ao permanecer não resolvida, tal figura acaba influenciando suas vidas.</p>



<p><strong>Concluindo, Johnson destaca que o verdadeiro trabalho do homem na fase final da vida é o processo de trazer elementos do inconsciente e integrá-los ao consciente</strong>. Essa integração, segundo ele, é essencial para a totalidade e realização do indivíduo (cf JOHNSON, 1992, p. 82).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aprofundando-a-jornada-interior-explorando-as-fases-da-transformacao-masculina"><strong>Aprofundando a Jornada Interior: Explorando as fases da Transformação Masculina</strong></h2>



<p>Ao nos aprofundarmos na jornada de transformação delineada por Jung e Johnson, é imperativo explorar as várias fases dessa busca interior. Ao sofrer, o homem muitas vezes procura soluções externas para aliviar seu desespero, manifestando-se em reclamações sobre vários aspectos de sua vida. Essa busca inconsciente por soluções fora de si mesmo destaca a necessidade premente de cura interna antes de qualquer empreendimento externo. <strong>A jornada de Parcifal nos mitos aponta para a necessidade de se realizar uma colaboração entre o mundo interno e externo</strong> (cf. Johnson).</p>



<p><strong>A dualidade inerente ao homem, simbolizada pelo lado violento que requer domínio, revela-se como um caminho em direção à integração consciente.</strong></p>



<p>A consolidação da masculinidade, requer o enfrentamento de obstáculos externos. Esse confronto desafia a vontade e a identidade do homem, sendo fundamental para seu desenvolvimento. O mito do dragão, que encanta as pessoas, assume uma nova dimensão ao ser interpretado como a dinâmica psicológica não resolvida que os homens mantêm com o complexo materno.</p>



<p>O <strong>acesso de mau humor</strong>, frequentemente manifestado como uma resposta inconsciente a essa dinâmica não resolvida, destaca a influência duradoura da figura materna nas vidas dos homens (cf. JOHNSON, 1992, p. 29).</p>



<p>Ao final da jornada, Johnson aponta que o verdadeiro trabalho do homem na fase final da vida é o processo de <strong>trazer elementos do inconsciente e integrá-los ao consciente</strong>. Essa integração é uma etapa essencial para alcançar a totalidade e a realização pessoal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-consideracoes-finais"><strong>Considerações finais</strong></h2>



<p>À luz das reflexões proporcionadas por Jung e Johnson, a jornada do homem em direção à transformação é uma exploração multifacetada da psique.</p>



<p>A <strong>anima</strong>, como uma força primitiva, desafia as noções convencionais e exige uma compreensão profunda. A <strong>dualidade</strong>, representada nos mitos e nas obras de Johnson, é uma realidade que requer diferenciação e consciência para a busca efetiva da unicidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-por-solucoes-externas-em-momentos-de-desespero-ressalta-a-urgencia-da-cura-interna">A busca por soluções externas em momentos de desespero ressalta a urgência da cura interna.</h2>



<p>O mito de Parsifal, com seu chamado para despertar esta imagem interior, revela-se como um caminho em direção à integração consciente, exigindo a superação do lado violento inerente. A consolidação da masculinidade, através do confronto com obstáculos externos, destaca a importância do papel de um guia na jornada do homem. Tais dinâmicas não resolvidas com a imago materno, personificada pelo mito do dragão, continua a exercer uma influência significativa, moldando as respostas inconscientes dos homens.</p>



<p>No final, o processo de trazer elementos do inconsciente para o consciente, é vital para a busca contínua pela totalidade e realização pessoal. A transformação do homem através da anima é uma jornada que transcende o tempo, uma exploração constante das profundezas da psique masculina em busca de autenticidade e totalidade.</p>



<p>Segundo Jung, o confronto com a sombra é obra de amador diante do confronto com a anima, porém, enquanto a sombra não tiver sido integrada, a expressão da anima será absolutamente tingida por ela. Ao invés dela funcionar como um psicopompo que vai levar ele para relação com o si-mesmo que é a sua centelha divina ela o levará para as profundezas mais tenebrosas e assustadoras.</p>



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</div></figure>



<p><strong>Daniel Gomes – Analista em formação pelo IJEP</strong></p>



<p><strong>Waldemar Magaldi – Analista Didata</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia">Bibliografia:</h2>



<p>JUNG, C. G. (2019). Aspectos do masculino. Petrópolis: Vozes.</p>



<p>JOHNSON, R. A. (2013). He: Compreendendo a Psicologia Masculina. São Paulo: Mercuryo</p>



<p>JOHNSON, R. A. (1994). Homem: A chave do entendimento dos três níveis da consciência masculina. São Paulo: Mercuryo</p>



<p><em>Imagem por por Pixabay</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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		<title>Inteiro mesmo é quem descobriu o &#8220;Servir&#8221;</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/servir-para-ser-inteiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Moura Vernalha]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Feb 2024 18:09:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[consciencia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<category><![CDATA[servir]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A temática desse artigo diz respeito ao servir. Vivemos a contemporaneidade que preza e direciona a homogeneidade, que aos poucos nos isola e afasta de uma identidade individual. O servir fala da ampliação e do genuíno desenvolvimento da consciência e com isso alcançar o homem inteiro. Assim, o desejo de encontrar o propósito da vida estará na disposição honesta do sacrifício da jornada.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Resumo: A temática desse artigo diz respeito ao servir. Vivemos a contemporaneidade que preza e direciona a homogeneidade, que aos poucos nos isola e afasta de uma identidade individual. O servir fala da ampliação e do genuíno desenvolvimento da consciência e com isso alcançar o homem inteiro. Assim, o desejo de encontrar o propósito da vida estará na disposição honesta do sacrifício da jornada.</strong></p>



<p>Vivemos na busca incessante na tentativa de alcançar um estado de equilíbrio e plenitude nas diversas áreas da vida, desde a física e social até a emocional, intelectual e espiritual.  </p>



<p>Poderíamos falar aqui, de modo redutivo que bastaria o nosso envolvimento integral com a harmonia das virtudes, aceitação das limitações e desenvolvimento contínuo das potencialidades, para que fosse dada a largada em direção a jornada única de cada um de nós. </p>



<p>E ainda, que cultivando hábitos saudáveis de autocuidado, bem como atenção as diversas formas de relacionamento, em algum momento seríamos arrebatados por um significado maior e dessa forma estaríamos falando de propósito de vida e evolução. </p>



<p>Mas, na prática, essa transparência e linearidade nem sempre estão presentes e a contento, onde o desafio de protagonizar e sustentar uma estória genuína, produtiva e assertiva pode ser muito maior do que se imagina.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vivemos-a-contemporaneidade-de-intensa-pressao-e-com-isso-lancados-para-fora-para-o-externo-constantemente" style="font-size:18px">Vivemos a contemporaneidade de intensa pressão, e com isso lançados para fora, para o externo, constantemente.</h2>



<p>Corremos sem direção, a fim de dar conta de tudo aquilo que possa anestesiar nossos anseios. Consumimos por diversas vezes o que não precisamos e até o que não conhecemos. Também podemos replicar ideias sem crítica e reflexão para que possamos nos manter na famosa “<strong>zona de conforto</strong>&#8220;, nas massas. </p>



<p>A Psicologia analítica – prospectiva por natureza provoca a reflexão do ser humano<strong> INTEIRO</strong>, do ser humano que busca o seu caminho e nele encontra o seu propósito de vida. Dessa forma, a motivação para este artigo coaduna com a hipótese de que só encontrará o seu propósito de vida quem estiver disposto a <strong>SERVIR</strong>. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-entrelinhas-somos-convocados-a-perfeicao-ao-mesmo-tempo-que-sabemos-ser-esse-estado-algo-impossivel-de-ser-alcancado" style="font-size:18px">Nas entrelinhas somos convocados a perfeição, ao mesmo tempo que sabemos ser esse estado algo impossível de ser alcançado.</h2>



<p>Muitos de nós, de maneira destemida, partem desenfreadamente rumo a essa conquista ilusória do ego que envolve prazer, poder e controle, e uma outra parcela se acomoda em padrões condicionados intermináveis. </p>



<p>Como bem diz <strong>Stein</strong> (2020), quem somos como indivíduos, faz parte de uma complexa rede de diversos componentes, reunidos em um “objeto” psicológico que se chama <em><strong>self </strong></em>e o <em><strong>opus</strong></em> humano, ou seja, a obra que podemos realizar, diz respeito a tomar consciência sobre tudo aquilo que nos é ofertado, para de forma criativa ampliar e só depois devolver à vida. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-do-que-se-trata-este-servir">Mas do que se trata este SERVIR?</h2>



<p>Bem, primeiramente podemos falar do despertar e do desenvolvimento da consciência, que tem sua sustentação no processo de uma vida inteira &#8211; <strong>o processo de individuação</strong>. </p>



<p>As conquistas desse processo fazem referência ao alcance de autonomia e liberdade acerca das identidades que foram criadas na infância e adolescência e que se consolidaram através de apegos e até mesmo necessidades de pertencimento (Stein 2020).</p>



<p>E ainda, um perigo a que <strong>Jung </strong>se referia com frequência diz respeito a<strong> força dos movimentos coletivos que pode arruinar com facilidade os indivíduos</strong>. Testemunhamos constantemente o prejuízo da alma por consequência do predomínio da homogeneidade, que acaba por engolir a identidade individual.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>O movimento para a individuação é um axioma, não é opcional e sua exigência imperativa é uma tarefa contínua (Stein, 2020).</p></blockquote></figure>



<p>Uma escolha também implica deixar algo para trás e as vezes, de forma dolorosa, um movimento de crescimento ao desconhecido.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-suportando-a-solidao-de-nossa-jornada-e-confrontando-o-sofrimento-estaremos-proximos-de-quem-devemos-ser-de-verdade" style="font-size:17px">Suportando a solidão de nossa jornada e confrontando o sofrimento, estaremos próximos de quem devemos ser de verdade.</h2>



<p>Para <strong>von Franz</strong> (2020) é preciso encontrar o<strong> mito de cada pessoa</strong> e com isso, o sentido ou lugar em que se possa ser criativo na sociedade, levando-se em conta que um mito é coletivo e não pessoal e por isso deve-se dividi-lo com os outros. </p>



<p>Só assim podemos falar sobre o <em>servir</em> em seu significado mais amplo e profundo. <strong>Servir a vida envolve a busca por autenticidade e significado, alinhado com valores e propósitos únicos</strong>. Implica na sintonia com os princípios universais que regem a existência humana, reconhecendo e integrando o bem e mal em nós. </p>



<p><strong>Jaffé</strong> (2021) analisa que <strong>não há comunidade sem o indivíduo e que sem comunidade</strong>, mesmo o indivíduo mais livre e seguro de si, ao longo do tempo não poderá prosperar. Reforça ainda, que o processo de individuação exige uma confrontação implacavelmente honesta com os conteúdos do inconsciente. </p>



<p>E quais seriam as consequências de se evitar todo esse risco? No mínimo a falta de desejo pela vida e certa ambição, para desembocar na estagnação do processo de desenvolvimento e prejuízo para a alma.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-consciencia-racional-quando-supervalorizada-de-forma-unilateral-e-a-raiz-das-doencas-psiquicas-do-homem-moderno-de-um-mundo-dominado-pelo-eu-nbsp" style="font-size:20px">A consciência racional, quando supervalorizada de forma unilateral, é a raiz das doenças psíquicas do homem moderno, de um mundo dominado pelo eu.&nbsp;</h2>



<p><strong>Deixar de ser servo, para servir, é um risco e também um sacrifício</strong>. É abandonar proteção e benefícios em prol da liberdade criativa. Um indivíduo pronto para servir é aquele que se esforça para superar as restrições da sociedade, do meio familiar e de todas as expectativas externas e assim, de modo autêntico, expressa seu potencial interior, contribuindo para o bem-estar e crescimento individual e coletivo. </p>



<p><strong>Este ser humano passa agora a servir ao criativo e não mais ao Ego</strong>. </p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/pmoura/">Patrícia Moura Vernalha – Membro Analista em Formação do IJEP</a></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Analista Didata do IJEP &#8211; Waldemar Magaldi </a></p>



<p><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</p>



<p>STEIN, M. Jung e o caminho da Individuação. São Paulo – Cultrix, 2020&nbsp;</p>



<p>JAFFÉ, A. O mito do significado na obra de Carl G. Jung. São Paulo – Cultrix, 2021&nbsp;</p>



<p>VON FRANZ, M. A busca do sentido- Paulus,2020&nbsp;</p>



<p>HOLLIS, J. A passagem do meio- Paulus,1995 </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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