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	<title>Arquivos sintomas - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos sintomas - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Complexo de Cassandra: uma leitura sobre a endometriose</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/complexo-de-cassandra-uma-leitura-sobre-a-endometriose/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Aug 2026 18:02:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente ensaio é um convite à reflexão simbólica do Complexo de Cassandra e a endometriose. A narrativa mítica apresenta um contexto para pensar sobre os significados da histeria e fazer uma releitura desse diagnóstico de forma simbólica. Esse texto não se propõe a esgotar o tema, mas a aprofundar a reflexão acerca do descrédito do feminino e do enlouquecimento do feminino sob uma leitura arquetípica do complexo materno negativo.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: <strong>O presente ensaio é um convite à reflexão simbólica do Complexo de Cassandra e a endometriose</strong>. A narrativa mítica apresenta um contexto para pensar sobre os significados da histeria e fazer uma releitura desse diagnóstico de forma simbólica. Esse texto não se propõe a esgotar o tema, mas a aprofundar a reflexão acerca do descrédito do feminino e do enlouquecimento do feminino sob uma leitura arquetípica do complexo materno negativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante milhares de anos a condição chamada “histeria” foi documentada como uma condição médica. Muito embora tal condição tenha sido excluída dos manuais diagnósticos de doenças mentais, desde a criação do DSM III (Manual de Estatística e Diagnóstico das Doenças Mentais), sua importância continua se fazendo relevante nos dias de hoje.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há de se ter em mente que tal condição foi documentada sempre do ponto de vista médico na era patriarcal, sendo um diagnóstico com a intenção de diminuir as densidades emocionais femininas. Contudo, tal condição guarda em si um componente arquetípico que não deve ser ignorado. Esse ensaio se propõe a fazer uma leitura possível sobre a endometriose e o enlouquecimento do feminino a partir da análise do mito de Cassandra. A proposta é observar como o diagnóstico de histeria continua tendo valor no que tange a descrição sintomatológica e fazer uma releitura sobre suas características para a elaboração do feminino desacreditado.</p>



<h2 id="h-o-mito-de-cassandra-e-a-experiencia-do-descredito" class="wp-block-heading"><strong>O mito de Cassandra e a experiência do descrédito</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Inicialmente, analisaremos o mito de Cassandra, sob a perspectiva de Laurie Schapira:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Cassandra foi uma das filhas de Príamo e de Hécuba, reis de Tróia. Um dia em que se achava no tempo de Apolo, o deus surgiu à sua frente e prometeu conceder-lhe o dom da profecia se ela concordasse em se deitar com ele. Cassandra aceitou o presente que o deus lhe oferecia, mas recusou-se a cumprir a sua parte no acordo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Dizem que os favores divinos, uma vez concedidos, não podem ser tomados de volta. Apolo, então, implorou a Cassandra que lhe desse um beijo e, quando ela o fez, ele soprou-lhe a boca (segundo outras versões, cuspiu) condenando-a, desta forma, a que ninguém acreditasse em suas profecias.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Desde o início da guerra de Tróia, Cassandra vaticinou-lhe o triste fim – ninguém, porém, deu ouvidos às suas predições. Avisou que o cavalo de madeira servia de esconderijo para os gregos – os troianos não deram crédito às suas palavras. Era seu destino prever os desastres iminentes e nada poder fazer para evitá-los”.</em> SCHAPIRA (2018, p. 21, 22)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depreende-se do relato mitológico que Cassandra era uma mulher inocente, praticamente juvenil. Pode-se especular que inicialmente tenha se sentido honrada de ser cortejada pelo deus Apolo, com suas promessas de torná-la uma de suas Pítias. Contudo, recebendo o dom da profecia, pode ter sentido o peso da responsabilidade do que estava oferecendo em troca. No mundo antigo não era possível dizer não a um deus. Pode-se dizer que o simples fato de Cassandra apresentar algum grau de ambivalência sentimental ao acordo e não sustentar essa dualidade interna entre a luz e a sombra foi o que de fato a levou ao quadro de histeria.</p>



<h2 id="h-complexo-materno-negativo-e-a-constituicao-psiquica-de-cassandra" class="wp-block-heading"><strong>Complexo materno negativo e a constituição psíquica de Cassandra</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em realidade, a dualidade apresentada por Cassandra revela um complexo materno negativo, em que ela não é capaz de sustentar o peso da própria existência. Em algumas origens do mito, conta-se que Cassandra durante a festa foi dormir no templo de Apolo. Os pais, embriagados voltaram para casa sem ela, e posteriormente foi encontrada pelos pais com serpentes envoltas em si mesma. Tal relato, revela o descaso dos pais com relação à própria filha. Percebe-se na personalidade de Cassandra a dúvida em relação ao que ela mesma é capaz de suportar. Ela escolhe aceitar o dom da profecia, mas ao recebê-lo, não parece ser capaz de suportar as consequências de sua decisão. Falta-lhe o guia interno que é oferecido pelo materno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ensina Jung, que o complexo é um conjunto associativo de experiências do indivíduo com tonalidades afetivas, no qual reside um núcleo arquetípico. O complexo materno é de suma importância, por ser o primeiro complexo a ser constituído. Quando nascemos somos indiferenciados com a mãe, sendo que conhecemos o mundo a partir dessa figura que cuida, alimenta e protege, na maioria das vezes assim deveria ser. No caso de Cassandra, parece se apresentar uma forma de complexo materno negativo intermediário. Tal complexo é descrito por Jung da seguinte forma:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“</em><em>Trata-se, nesse tipo intermediário, menos de uma exacerbação ou bloqueio dos instintos femininos do que uma defesa contra a supremacia da mãe que prevalece sobre o resto. Este caso é o exemplo típico do complexo materno negativo. Seu lema é: qualquer coisa menos ser como a mãe! Trata-se, por um lado, de um fascínio que, no entanto, nunca se torna uma identificação, e, por outro, de uma exacerbação do eros que se esgota, porém numa resistência ciumenta contra a mãe. Tal filha sabe tudo o que não quer, mas em geral <strong>não tem clareza acerca do que imagina ser seu próprio destino</strong>. Seus instintos concentram-se na mãe, sob a forma de defesa, <strong>não se prestando, pois, à construção de sua própria vida</strong>.</em> <em>Todos os processos e necessidades instintivos encontram dificuldades inesperadas; a sexualidade não funciona ou os filhos não são bem-vindos, ou os deveres maternos lhe parecem insuportáveis, ou ainda as exigências da vida conjugal são recebidas com irritação e impaciência. De certa forma, tudo isso não pertence às realidades essenciais da vida, uma vez que seu fim último é constituído unicamente pela defesa persistente contra o poder materno. Em tais casos, podemos ver em todos os seus detalhes os atributos do arquétipo materno. Por exemplo, a mãe enquanto família, ou clã, produz uma violenta resistência ou falta de interesse por tudo o que representa família, comunidade, sociedade, convenção etc. <strong>A resistência contra a mãe, enquanto uterus, manifesta-se muitas vezes através de distúrbios da menstruação</strong>, dificuldade de engravidar, horror da gravidez, hemorragias e vômitos durante a gravidez, partos prematuros etc. A mãe enquanto matéria provoca impaciência em relação ao objeto, desajeitamento na manipulação de ferramentas e louças, bem como mau gosto no vestir</em><em>.</em> <em>A partir da defesa contra a mãe verifica-se ocasionalmente um desenvolvimento <strong>espontâneo da inteligência, com o intuito de criar uma esfera em que a mãe não exista. Esse desenvolvimento resulta das necessidades próprias da filha e não visa homenagear um homem que ela queira impressionar, simulando uma camaradagem espiritual</strong>. O propósito é quebrar o poder da mãe através da crítica intelectual e cultura superior, de modo a mostrar-lhe toda a sua estupidez, seus erros lógicos e formação deficiente. O desenvolvimento intelectual é acompanhado de uma emergência de traços masculinos em geral.</em>” (JUNG, 2014, §§ 170, 171) (Grifos nossos)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A partir das explicações de Jung, reflete-se que Cassandra, uma jovem que apresenta um complexo materno negativo, uma vez dotada do dom da profecia, manifesta uma desorientação diante das visões que a acometeram. Como Jung descreveu, ela não tem clareza acerca do próprio destino, e como não possui repertório afetivo, confunde a “camaradagem espiritual” e torna-se uma histérica neurótica.</p>



<h2 id="h-o-simbolo-do-vaso-o-feminino-ferido-e-a-histeria" class="wp-block-heading"><strong>O símbolo do vaso, o feminino ferido e a histeria</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Compreende-se que a figura do vaso, na alquimia é o recipiente no qual a experimentação aconteceria. O vaso, pode ser representação do feminino também. O útero, é o recipiente do qual emerge a vida. No complexo materno descrito por Jung, numa resistência contra a mãe, Cassandra apresentaria uma rachadura psíquica, em que seu útero seria ferido. Tal compreensão é consubstanciada pela sua recusa ao deitar-se simbolicamente com o masculino Apolo (deus da razão). Vê-se uma nítida desarticulação entre eros (a união) e o logos (a razão). Muito embora Cassandra apresente um desejo de tornar-se portadora da voz do deus (razão), ela não é capaz de articular a própria voz do feminino em si. Sendo assim, como descreve SCHAPIRA (2018, p. 22): “Era seu destino prever os desastres iminentes e nada poder fazer para evitá-los”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda sobre esse assunto, SCHAPIRA (2018, p. 23, 24), esclarece:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“No processo divinatório, sabia-se que a Pítia tornar-se-ia ‘entheos, plena deo’, o que significa que ‘o deus entraria dentro dela e usaria seus órgãos vocais como se a ele pertencessem’.</em> <em>Arquetipicamente, o “vaso” está associado ao feminino, a capacidade receptiva, ao útero. No aspecto pessoal, o vaso psicológico de uma mulher é o seu ego. Cassandra tinha um vaso frágil. Essa foi sua trágica falha. Ela não era virgem no sentido psicológico.</em></p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Cassandra, como as histéricas, faria qualquer coisa para ser amada. Disse não a Apolo, por ter sido essa a única forma que encontrou para sobreviver ante o esmagador poder do masculino. Infelizmente não foi capaz de repudiar Apolo de maneira mais consciente e direta, nem de enfrentar sua sombra voraz e misógina. Se o tivesse feito, teria reivindicado sua realidade feminina e defendido a virgindade que, eventualmente, lhe possibilitaria cumprir seu destino de vaso sagrado para o deus.”</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, sua não integridade psíquica foi o que a levou de fato à loucura. O fato de não integrar a sombra do feminino ferido, a tornou indisponível para ligar-se eroticamente com a figura do masculino. Não possuindo as características necessárias para se direcionar, aprovar-se e ser honesta a si mesmo, negou a capacidade da intuição profética. Ao não suportar a tensão dual entre o saber do destino e o acreditar, tornou-se descreditada perante todos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para SCHAPIRO (2018, p. 60):</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“Cassandra personifica o conflito arquetípico entre os valores matriarcais e patriarcais, ambos pugnando pela supremacia e sem vínculo de Eros para uni-los. A histeria tem sido através dos tempos uma manifestação dessa ruptura psíquica. [&#8230;] Como vimos, a tragédia de Cassandra consubstanciou-se em sua incapacidade para realizar seu destino de Pítia, vaso sagrado para a profecia divina. Sob um enfoque psicológico, seu complexo materno negativo subverteu o desenvolvimento de um ego ligado à matriz do Self feminino. Devido a isso, Cassandra carecia de uma limitação feminina para o ego – com efeito: ela não tinha útero.”</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-histeria-utero-e-adoecimento-psicossomatico" class="wp-block-heading"><strong>Histeria, útero e adoecimento psicossomático</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Diferentemente do que prega Schapira, e apoiado na teoria Junguiana, defendemos que Cassandra tinha sim um útero. Prova-se que tinha pois foi capaz de receptar o dom da profecia. Contudo, o útero demasiado ferido por seu complexo materno, apresentou um adoecimento físico e psíquico. O adoecimento físico, é resultado de um processo psicossomático, em que a loucura se manifestou no corpo como um desvio de função uterina.</p>



<h2 id="h-sobre-o-conceito-de-histeria-ensina-schapiro-p-60-61" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Sobre o conceito de histeria, ensina SCHAPIRO (p. 60, 61):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“Existe na verdade, uma tradição de quatro mil anos que considera a histeria como uma doença do útero. [&#8230;] Documentos médicos egípcios datam de 1900 a. C.; o mais antigo desses – o Papiro de Kahun – trata especificamente da histeria, que descreve como uma doença feminina, causada por “fome do útero ou por seu deslocamento ascendente, com a consequente compressão dos outros órgãos”.</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-os-gregos-aceitaram-essa-teoria-e-ate-batizaram-a-doenca-com-o-nome-de-hystera-que-significa-utero-eis-aqui-a-vivida-descricao-de-platao" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Os gregos aceitaram essa teoria e até batizaram a doença com o nome de <em>hystera,</em> que significa útero. Eis aqui a vívida descrição de Platão:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“No que denominamos útero ou matriz, existe uma criatura viva, dotada de grande desejo de procriar que, se não der frutos no seu tempo devido, irrita-se e sente-se lesada, passando a perambular por todo o corpo, impedindo a respiração por bloquear as vias respiratórias, causando à paciente extrema angústia e desencadeando um sem-número de distúrbios. ”</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A endometriose é uma doença inflamatória crônica e benigna em que células semelhantes ao endométrio (tecido que reveste o interior do útero) crescem fora dele. Diante disso, vê-se que o que Platão relata como histeria, muito se assemelha ao conhecido hoje por endometriose.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pode-se compreender que Cassandra foi incapaz de receber Apolo sexualmente, mas que quando ele cospe em sua boca, e a amaldiçoa, ele também toma para si a voz dela. A representação do útero aqui se manifesta também no poder de proclamar as tragédias, manifestando o trauma de não poder controlá-los ou evitá-los. A voz de Cassandra foi tomada de tal forma que impossibilita que ela tenha controle sobre sua autoimagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A endometriose, embora atualmente reconhecida como uma doença inflamatória crônica de elevada prevalência entre mulheres em idade reprodutiva, permanece marcada por longos períodos de subdiagnóstico, banalização da dor e descrédito das experiências narradas pelas pacientes. Esse fenômeno evidencia que o sofrimento decorrente da doença não se restringe aos seus aspectos orgânicos, mas é atravessado por construções históricas, sociais e culturais acerca do corpo feminino e de sua capacidade de expressar legitimamente o sofrimento. O adoecimento físico é resultado de um processo psicossomático, em que a loucura se manifestou no corpo como um desvio de função uterina.</p>



<h2 id="h-poder-corpo-e-descredito-do-sofrimento-feminino" class="wp-block-heading"><strong>Poder, corpo e descrédito do sofrimento feminino</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa perspectiva, a contribuição de Michel Foucault possibilita compreender que as categorias de normalidade, doença e desvio são produzidas por regimes de saber e poder que organizam a forma como determinados discursos são reconhecidos ou desautorizados socialmente (FOUCAULT, 1978; FOUCAULT, 2006).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em História da Loucura, Foucault (1978) demonstra que a constituição da racionalidade moderna implicou a produção de mecanismos de exclusão de sujeitos cujas experiências não se adequavam aos critérios socialmente estabelecidos de verdade. Embora sua análise tenha como foco a construção histórica da loucura, suas reflexões permitem compreender processos mais amplos de invalidação discursiva, nos quais determinadas narrativas deixam de ser reconhecidas como legítimas em razão das relações de poder que sustentam o saber científico. Posteriormente, ao analisar a emergência do poder psiquiátrico, o autor evidencia que a medicina não apenas descreve os fenômenos do adoecimento, mas também produz formas de subjetivação, definindo quais discursos possuem autoridade para nomear o sofrimento e quais permanecem relegados à suspeita ou ao silêncio (FOUCAULT, 2006).</p>



<h2 id="h-essa-perspectiva-mostra-se-particularmente-relevante-para-a-compreensao-da-experiencia-vivida-por-mulheres-com-endometriose" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Essa perspectiva mostra-se particularmente relevante para a compreensão da experiência vivida por mulheres com endometriose.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Diversos estudos apontam que a dor feminina, sobretudo quando relacionada à saúde reprodutiva, historicamente foi interpretada como exagero, fragilidade emocional ou consequência natural da condição de ser mulher, contribuindo para atrasos diagnósticos que frequentemente ultrapassam vários anos. A persistente necessidade de reafirmar a realidade da própria dor diante de profissionais, familiares e instituições revela que o sofrimento produzido pela endometriose é também relacional, uma vez que decorre da constante deslegitimação da experiência subjetiva.</p>



<h2 id="h-a-experiencia-vivida-por-mulheres-com-endometriose-ultrapassa-os-limites-da-dimensao-biomedica-e-evidencia-a-interseccao-entre-corpo-subjetividade-e-construcoes-socioculturais" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A experiência vivida por mulheres com endometriose ultrapassa os limites da dimensão biomédica e evidencia a intersecção entre corpo, subjetividade e construções socioculturais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Embora a doença possua etiologia orgânica reconhecida, seu percurso diagnóstico frequentemente é marcado pela banalização da dor, pela demora na investigação clínica e pela recorrente deslegitimação da narrativa das pacientes. Tal realidade permite compreender que o sofrimento associado à endometriose não decorre exclusivamente das lesões endometriais, mas também das relações históricas de poder que determinaram quais corpos, sintomas e discursos seriam considerados legítimos no campo da saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Michel Foucault (2011), ao analisar o surgimento da medicina moderna em <em>O nascimento da clínica</em>, demonstra que o saber médico não constitui apenas um instrumento de descrição objetiva da doença, mas um regime de produção da verdade sobre o corpo. O denominado &#8220;olhar clínico&#8221; reorganiza a experiência do adoecimento ao deslocar a autoridade interpretativa do sujeito para o especialista. Nesse processo, a narrativa da pessoa enferma tende a perder centralidade diante dos critérios objetivos estabelecidos pela racionalidade biomédica.</p>



<h2 id="h-essa-reflexao-mostra-se-particularmente-pertinente-para-compreender-a-experiencia-da-endometriose-uma-vez-que-inumeras-mulheres-relatam-anos-de-sofrimento-antes-que-sua-dor-seja-reconhecida-como-manifestacao-de-uma-condicao-clinica-legitima" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Essa reflexão mostra-se particularmente pertinente para compreender a experiência da endometriose, uma vez que inúmeras mulheres relatam anos de sofrimento antes que sua dor seja reconhecida como manifestação de uma condição clínica legítima.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse contexto, evidencia-se um paradoxo: enquanto os sintomas dolorosos são, muitas vezes, desacreditados ou negligenciados, a infertilidade tende a mobilizar a atenção da medicina reprodutiva, área que atualmente movimenta um mercado expressivo em torno do tratamento da infertilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa análise é aprofundada quando <strong>Foucault</strong> (2017) discute a constituição do biopoder e das tecnologias disciplinares que incidem sobre os corpos. O corpo feminino passa a ocupar posição estratégica nas práticas de normalização, sobretudo por sua vinculação histórica à reprodução, à sexualidade e à maternidade. A medicina, nesse contexto, deixa de exercer apenas uma função terapêutica e passa igualmente a normatizar comportamentos, definir padrões de saúde e produzir discursos acerca do que significa ser uma mulher considerada saudável ou normal. A dor menstrual intensa, por exemplo, frequentemente foi interpretada como parte inerente da feminilidade, contribuindo para que manifestações compatíveis com a endometriose permanecessem invisibilizadas durante longos períodos históricos.</p>



<h2 id="h-essa-perspectiva-dialoga-diretamente-com-simone-de-beauvoir-2019-para-quem-a-experiencia-feminina-nao-decorre-exclusivamente-da-biologia-mas-da-construcao-historica-e-cultural-das-relacoes-de-genero" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Essa perspectiva dialoga diretamente com Simone de Beauvoir (2019), para quem a experiência feminina não decorre exclusivamente da biologia, mas da construção histórica e cultural das relações de gênero.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao afirmar que &#8220;não se nasce mulher: torna-se mulher&#8221;, Beauvoir evidencia que as formas de perceber, interpretar e expressar o próprio corpo são socialmente aprendidas. Sob essa ótica, a naturalização do sofrimento ginecológico integra um processo mais amplo de socialização feminina, no qual suportar a dor frequentemente é apresentado como atributo esperado das mulheres. A consequência é a produção de subjetividades que tendem a relativizar ou silenciar seus próprios sintomas, dificultando o reconhecimento do adoecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Susan Bordo (1997), por sua vez, demonstra que o corpo feminino constitui um território privilegiado de inscrição das normas culturais. Em sua análise, as experiências corporais das mulheres são constantemente reguladas por expectativas sociais relacionadas ao controle, à produtividade, à aparência e à funcionalidade. A doença, especialmente quando produz dor crônica e limitações físicas, rompe esse ideal normativo e pode conduzir à desqualificação da experiência vivida. Assim, o sofrimento deixa de ser compreendido apenas como fenômeno biológico para tornar-se também uma experiência socialmente mediada, na qual o reconhecimento da dor depende das representações culturais acerca do corpo feminino.</p>



<h2 id="h-a-aproximacao-entre-cassandra-e-a-experiencia-da-endometriose-revela-significativa-potencia-simbolica" class="wp-block-heading" style="font-size:19px">A aproximação entre Cassandra e a experiência da endometriose revela significativa potência simbólica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas mulheres descrevem anos de peregrinação por diferentes serviços de saúde, repetindo narrativas sobre dores incapacitantes, infertilidade, fadiga ou alterações menstruais antes de receberem confirmação diagnóstica. Essa repetição produz uma experiência psíquica que ultrapassa a doença orgânica: instala-se a vivência de falar reiteradamente uma verdade corporal que permanece sem reconhecimento. Nessa perspectiva, o complexo de Cassandra deixa de representar apenas um fenômeno intrapsíquico para expressar também uma configuração relacional e cultural, na qual a invalidação sistemática da palavra feminina intensifica o sofrimento emocional.</p>



<h2 id="h-dessa-forma-o-complexo-de-cassandra-oferece-uma-importante-chave-interpretativa-sob-a-otica-da-psicologia-analitica" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Dessa forma, o complexo de Cassandra oferece uma importante chave interpretativa sob a ótica da Psicologia Analítica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Derivado da narrativa mítica da princesa troiana condenada a prever acontecimentos verdadeiros sem jamais ser acreditada, o complexo simboliza a experiência psíquica de possuir uma percepção autêntica que encontra repetidamente descrédito no outro. Transposto para o contexto da endometriose, esse arquétipo expressa o sofrimento de mulheres que reconhecem a gravidade de seus sintomas, mas encontram sucessivas respostas de minimização, patologização ou invisibilização de sua experiência corporal. O núcleo do sofrimento deixa, assim, de residir exclusivamente na doença orgânica, passando a incluir a ruptura do reconhecimento do feminino interno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A queda de Tróia, prevista por Cassandra, representa um momento histórico e mítico de profundas transformações nas relações entre povos e formas de organização social. Na tradição simbólica, Tróia pode ser compreendida como uma das últimas grandes referências de estruturas vinculadas ao imaginário matriarcal a sucumbir diante da consolidação das formas patriarcais de poder. Nesse contexto, é natural que Cassandra se torne um dos maiores arquétipos do descrédito do feminino, da mulher que sabe, vê e anuncia, mas cuja voz é sistematicamente desacreditada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa dinâmica alcança seu desdobramento mais emblemático no ciclo posterior da Casa de Atreu, culminando no julgamento de Orestes, filho de Clitemnestra e Agamenon. Ao matar a própria mãe para vingar o pai, Orestes torna-se protagonista de um dos episódios mais significativos da transição simbólica entre valores matriarcais e patriarcais na cultura grega. Contudo, essa é uma história que merece ser contada à parte. E será justamente ela o tema do próximo artigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/">Me. Michella Paula Cechinel Reis – Membro Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/">Paula de Azevedo Bernardi Peñas – Membro Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Dalvio Magaldi – Analista Didata e Diretora do IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;Complexo de Cassandra: uma leitura sobre a endometriose&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/4MLUlV2esw4?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BEAUVOIR, Simone de. <em>O segundo sexo: fatos e mitos</em>. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019. v. 1.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BEAUVOIR, Simone de. <em>O segundo sexo: a experiência vivida</em>. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019. v. 2.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BORDO, Susan. <em>O corpo e a reprodução da feminilidade: uma apropriação feminista de Foucault.</em> In: JAGGAR, Alison M.; BORDO, Susan R. (org.). Gênero, corpo, conhecimento. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FOUCAULT, Michel. <em>História da loucura na Idade Clássica</em>. Tradução de José Teixeira Coelho Netto. São Paulo: Perspectiva, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FOUCAULT, Michel. <em>O poder psiquiátrico: curso no Collège de France</em> (1973-1974). Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FOUCAULT, Michel. <em>O nascimento da clínica</em>. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FOUCAULT, Michel. <em>Microfísica do poder</em>. 30. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SCHAPIRA, Laurie Layton. <em>O complexo de Cassandra: Histeria, descrédito e o resgate da intuição feminina no mundo moderno.</em> 2ª ed. São Paulo: Cultrix<em>,</em> 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>SINTOMAS, SINTO, MAS&#8230;</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sintomas-sinto-mas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristiane dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 18 Aug 2026 18:09:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[emoções]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[medo de sentir]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[sentimento]]></category>
		<category><![CDATA[sentir]]></category>
		<category><![CDATA[sintomas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por que temos tanta dificuldade em sentir? Por que somos condicionados a ocultar nossas emoções e sentimentos? Se o sintoma é a expressão visível do complexo, se é tão benéfico para o nosso aperfeiçoamento, por que o evitamos de forma tão hercúlea? Por que temos tanto medo de nos entregarmos a ele? Se ele é o condutor para o nosso inconsciente, por que rejeitamos esse tesouro? O que em nós, ou quem em nós resiste a esse chamado e nos impede de seguirmos a estrada rumo à nossa transformação interior?</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><em>“Se é a razão que faz o homem, é o sentimento que o conduz.”</em> </p><cite>Jean-Jacques Rousseau</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Por que temos tanta dificuldade em sentir? Por que somos condicionados a ocultar nossas emoções e sentimentos? Se o sintoma é a expressão visível do complexo, se é tão benéfico para o nosso aperfeiçoamento, por que o evitamos de forma tão hercúlea? Por que temos tanto medo de nos entregarmos a ele? Se ele é o condutor para o nosso inconsciente, por que rejeitamos esse tesouro? O que em nós, ou quem em nós resiste a esse chamado e nos impede de seguirmos a estrada rumo à nossa transformação interior?</p>



<h2 id="h-por-que-temos-tanta-dificuldade-em-sentir-por-que-somos-condicionados-a-ocultar-nossas-emocoes-e-sentimentos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Por que temos tanta dificuldade em sentir? Por que somos condicionados a ocultar nossas emoções e sentimentos?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sintoma é uma palavra de origem grega <em>sýmptoma</em>, que significa &#8220;aquilo que cai junto&#8221; ou &#8220;o que ocorre junto com outra coisa, é uma sensação desagradável ou uma alteração no corpo físico ou na mente que gera desconforto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A Psicologia Analítica, de Carl Gustav Jung, nos convida a ampliar esse significado, pois o sintoma, apesar de ser um sinal de desordem, tem como objetivo principal equilibrar a tensão existente na psique entre os conteúdos inconscientes e os conscientes, buscando a integração e a homeostase do sistema, o sintoma é, portanto, um desejo de “cura” e de transformação.</p>



<h2 id="h-a-psicossomatica-afirma-que-o-individuo-e-um-ser-biopsicosocioespiritual-em-que-todas-as-partes-estao-integradas-e-conectadas" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A Psicossomática afirma que o indivíduo é um ser biopsicosocioespiritual, em que todas as partes estão integradas e conectadas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essas esferas não podem ser separadas e quando há um desequilíbrio entre a consciência e o inconsciente, surge o sintoma, que poderá se manifestar em qualquer uma das partes, pois não há separação entre energia e a matéria, o psíquico e o somático e o corpo e o espírito.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>A consciência se desequilibra e isso se torna visível e palpável na forma de sintomas corporais e, para tanto, torna-se necessário apurarmos a escuta desse sintoma. A partir disso, podemos pensar a doença e a cura como refletindo estados de consciência. A doença seria a perda da harmonia ou de uma ordem até então conquistada e, nesse caso, a cura não seria a vitória sobre o sintoma, mas ela teria como pressuposto uma expansão da consciência, isto é, nossa própria busca da totalidade. (GUARNIERI, 2024, p. 4)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Escutar o sintoma é dar o primeiro passo rumo à transformação, para descobrir as feridas da alma e realinhar nossa conduta aos desígnios do Self, dando sentido e significado às nossas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando negamos ou reprimimos o sintoma, nós fornecemos mais força a ele, que oportunamente nos visitará com uma intensidade muito maior e mais perturbadora.</p>



<h2 id="h-como-diz-jung-2013-aquilo-que-meu-eu-recusa-e-algo-que-ameaca-sinistramente-controlar-minha-vida" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Como diz Jung (2013) “Aquilo que meu eu recusa é algo que ameaça sinistramente controlar minha vida.”</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O sintoma é como um símbolo que precisa ser decifrado e como símbolo, ele jamais poderá ser conhecido em sua plenitude, pois transcende as dimensões e possibilidades humanas.</p>



<h2 id="h-para-jung-2002-p-75-o-simbolo-e-a-expressao-sensoriamente-perceptivel-de-uma-vivencia-interior-e-a-expressao-do-enriquecimento-da-consciencia-atraves-da-vivencia" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Para Jung (2002, p.75), o “símbolo é a expressão sensoriamente perceptível de uma vivência interior” e a “expressão do enriquecimento da consciência através da vivência”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-e-por-meio-do-simbolo-que-a-psique-consegue-se-manifestar-no-corpo-somatizar-permitindo-que-a-pessoa-perceba-atraves-do-sintoma-a-desordem-que-esta-ocorrendo-internamente" style="font-size:18px">É por meio do símbolo que a psique consegue se manifestar no corpo, &#8216;somatizar&#8217;, permitindo que a pessoa perceba, através do sintoma, a desordem que está ocorrendo internamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A simbologia de uma fratura no pé expressa muito mais do que uma lesão ortopédica, ela pode representar a falta de direcionamento na vida, um problema em criar vínculos, ou a dificuldade da pessoa se sustentar financeiramente ou emocionalmente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A aterosclerose que cientificamente é o acúmulo de placas de gordura e inflamação nas artérias, simbolicamente pode querer demonstrar que a pessoa está muito rígida psicologicamente, ou que endureceu suas emoções ou que perdeu a flexibilidade na vida.</p>



<h2 id="h-uma-pessoa-que-so-se-relaciona-com-parceiros-agressivos-e-abusadores-pode-estar-repetindo-um-padrao-de-relacionamento-de-sua-familia-de-origem" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Uma pessoa que só se relaciona com parceiros agressivos e abusadores pode estar repetindo um padrão de relacionamento de sua família de origem.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Enquanto o símbolo for a resposta verdadeira e, portanto, capaz de solucionar uma situação que lhe corresponda, ele é verdadeiro, válido, “absoluto”. Mas se a situação mudar e o símbolo continuar simplesmente perpetuado, ele nada mais é do que um ídolo que atua de modo empobrecedor ou embrutecedor, pois só age inconscientemente e não dá nenhuma explicação ou esclarecimento. (JUNG, 2002, p. 76)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O símbolo só terá a potência que carrega se a pessoa o vivenciar e permitir que ele exista, caso contrário, será só um signo ou um sinal e não auxiliará a pessoa no enriquecimento da consciência.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O sintoma tem uma linguagem peculiar e individual, por essa razão é imprescindível a análise de todos os aspectos da vida do indivíduo, pois suas condições físicas, mentais, emocionais, culturais, sociais e espirituais, estão totalmente interligadas e vão interferir na doença e na cura, pois ambas são faces de uma mesma moeda.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A contemporaneidade exige uma atividade muito intensa da consciência; como consequência, existe um risco considerável do indivíduo se distanciar do inconsciente, com isso, ele evita entrar em contato com o sintoma e procura através da medicalização o anestesiamento e a fuga do confronto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Algumas pessoas buscam o refúgio no álcool, outras na comida ou no sexo, outras nas compras, no trabalho excessivo, ou nos jogos de azar, enfim, qualquer possibilidade que desvie o olhar do problema, sem perceberem que agindo desta maneira, estão aumentando cada vez mais o conflito e retardando o processo de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Hollis (1995) alega que os sintomas devem ser vistos como presentes, para que possamos reajustar a rota de nossas vidas e que devem ser bem recebidos, pois são um poderoso convite à renovação.</p>



<h2 id="h-jung-2013-afirma-que-os-complexos-possuem-energia-especifica-propria-e-sao-a-via-regia-que-nos-conduz-ao-inconsciente-atraves-dos-sonhos-e-dos-sintomas" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Jung (2013) afirma que os complexos possuem energia específica própria e são a <em>via regia</em> que nos conduz ao inconsciente, através dos sonhos e dos sintomas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se o sintoma é a expressão visível do complexo, se é tão benéfico para o nosso aperfeiçoamento, por que o evitamos de forma tão hercúlea? Por que temos tanto medo de nos entregarmos a ele? Se ele é o condutor para o nosso inconsciente, por que rejeitamos esse tesouro?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que em nós, ou quem em nós, resiste a esse chamado e nos impede de seguirmos a estrada rumo ao autoconhecimento e à transformação interior?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao negligenciarmos o sintoma, aumentamos a possibilidade das situações exteriores desencadearem processos psíquicos, afetando certos conteúdos e, desta forma, ativando complexos, e toda vez que um complexo está constelado, isso implica em um estado perturbado de consciência.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>O complexo afetado vai se constelar, ou seja, ganhará uma estrutura de disponibilidade, expectativa e prontidão à reação, que se dará a partir dos parâmetros definidos por experiências anteriores. Quando isso se dá, o complexo se revitaliza e se atualiza, aglutinando o resultado desta nova experiência em torno de si. A partir deste mecanismo, o complexo assume uma espécie de magnetismo para vivências semelhantes, que envolvam a mesma temática. &nbsp;A cada repetição, ele se cronifica: ganha mais vigor e, mais robusto, é capaz de atrair novas experiências que o confirmem e o atualizem. (ANTONIOLI, 2024, p. 10)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-as-seguintes-perguntas-nortearam-a-abertura-deste-texto-por-que-temos-tanta-dificuldade-em-sentir-por-que-somos-condicionados-a-ocultar-nossas-emocoes-e-sentimentos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">As seguintes perguntas nortearam a abertura deste texto: Por que temos tanta dificuldade em sentir? Por que somos condicionados a ocultar nossas emoções e sentimentos?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez o magnetismo do complexo seja uma das razões pelas quais lutamos tão arduamente para evitar encarar o sintoma e trilhar uma estrada diferente da habitual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez o <em>status quo</em>, caracterizado pela lei do mínimo esforço e pela busca do maior ganho com o menor investimento, ou simplesmente a estabilidade da zona de conforto façam com que o processo de autoconhecimento e autorrealização se torne tão moroso e desafiador.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez a certeza de que tenhamos que tomar decisões que afetarão, direta ou indiretamente, nossas vidas e a vida de outras pessoas nos paralise.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez o medo de nos depararmos com quem realmente somos seja o algoz dessa travessia, ou o medo de que os outros descubram a nossa real natureza, reconhecendo nossas fraquezas e tendências.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez seja um pouco de tudo isso, ou nada disso, o que realmente importa é que precisamos dar voz aos nossos sentimentos e emoções e escutá-los com acolhimento e empatia, pois só assim poderemos nos sentir mais conectados e em harmonia conosco, com o outro e com o universo em que vivemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>E você?</strong></p>



<h2 id="h-voce-tem-escutado-os-seus-sentimentos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Você tem escutado os seus sentimentos?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Boa reflexão!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-santos/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-santos/">Cristiane dos Santos &#8211; Analista Junguiana em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. Ercília Simone Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>REFERÊNCIAS:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">ANTONIOLI, Luciana. <em>Os Complexos e o Simbolismo do Adoecimento</em><em>. </em>Curso dePsicossomática, IJEP. São Paulo, 2024. Apostila de aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUARNIERI, Maria Cristina. <em>Introdução à Psicossomática</em>. Curso de Psicossomática, IJEP. São Paulo, 2024. Apostila de aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. <em>A Passagem do Meio:</em> da miséria ao significado na meia-idade. São Paulo: ed. Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A Natureza da Psique.</em> 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______<em>Cartas</em>; tradução Edgar Orth. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.google.com/search?q=sintoma+etimologia&amp;rlz=1C1GCEA_pt">https://www.google.com/search?q=sintoma+etimologia&amp;rlz=1C1GCEA_pt</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">ORIGEM DA PALAVRA. <em>Palavra sintoma</em>. 2012. Disponível em: &lt;https://origemdapalavra.com.br/palavras/sintoma/&gt;. Acesso em: 10 ago. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A Travessia que precisa ser reconhecida e validada: Perimenopausa e Menopausa sob a perspectiva da Psicologia Analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-travessia-que-precisa-ser-reconhecida-e-validada-perimenopausa-e-menopausa-sob-a-perspectiva-da-psicologia-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Danielle Chaves Gomes de Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Aug 2026 20:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[alma]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[Corpo]]></category>
		<category><![CDATA[corpo e psique]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[menopausa]]></category>
		<category><![CDATA[metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[perimenopausa]]></category>
		<category><![CDATA[processo de individuação]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sintomas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A perimenopausa e a menopausa constituem uma das transições mais significativas da vida física e psíquica da mulher e, paradoxalmente, uma das mais silenciadas culturalmente. Este artigo propõe uma leitura desta fase fundamentada na Psicologia Analítica, com o objetivo de sensibilizar analistas e profissionais de saúde sobre a complexidade deste momento e a importância de reconhecê-lo e validá-lo. Para tanto, articula dimensões biopsíquicas e socioculturais, situando a perimenopausa e a menopausa como um momento propulsor da individuação.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo: </strong>A perimenopausa e a menopausa constituem uma das transições mais significativas da vida física e psíquica da mulher e, paradoxalmente, uma das mais silenciadas culturalmente. Este artigo propõe uma leitura desta fase fundamentada na Psicologia Analítica, com o objetivo de sensibilizar analistas e profissionais de saúde sobre a complexidade deste momento e a importância de reconhecê-lo e validá-lo. Para tanto, articula dimensões biopsíquicas e socioculturais, situando a perimenopausa e a menopausa como um momento propulsor da individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Palavras-chave: </strong>menopausa; perimenopausa; individuação; metanóia; Psicologia Analítica.</p>



<h2 id="h-consideracoes-iniciais" class="wp-block-heading"><strong>CONSIDERAÇÕES INICIAIS</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Escrevo este artigo como mulher na perimenopausa e como analista junguiana que acompanha mulheres nesta travessia. É essa sobreposição de experiências &#8211; a vivida e a observada &#8211; que me permite perceber e sentir o silenciamento cultural em torno desta fase, o despreparo de muitos profissionais de saúde e a necessidade de trazer luz a um tema que ainda carece de atenção no campo da Psicologia Analítica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que observo com certa frequência é uma mulher que chega à terapia carregando um sofrimento que ela mesma não consegue nomear inteiramente. Ela sabe que algo mudou, mas não entende o porquê, especialmente quando está ainda na perimenopausa. Sabe que o corpo não responde como antes, que o sono está prejudicado, que a mente às vezes parece enevoada, que a irritabilidade surge de onde não se esperava, que a libido diminuiu, que há uma inquietação de alma que nenhum exame vai capturar.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O que ela não sabe, porque frequentemente ninguém lhe disse, é que tudo isso tem nome</strong>; que há perdas, mas também há ganhos; que é possível dar sentido ao que se vive; e que esta fase pode ser propulsora de um grande desenvolvimento pessoal. São raros os materiais técnicos na Psicologia Analítica que abordem essa fase com a profundidade que ela exige, e é essa lacuna que motiva escrever este artigo.</p>



<h2 id="h-com-o-objetivo-de-sensibilizar-analistas-junguianos-e-profissionais-de-saude-o-texto-traz-informacoes-sobre-este-momento-da-vida-bem-como-reflexoes-sob-a-perspectiva-da-psicologia-analitica" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Com o objetivo de sensibilizar analistas junguianos e profissionais de saúde, o texto traz informações sobre este momento da vida, bem como reflexões sob a perspectiva da Psicologia Analítica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Pretende-se abrir uma janela para que analistas possam olhar para esta fase e, ao fazê-lo, oferecer às mulheres o que a cultura lhes nega: acolhimento, reconhecimento, escuta e sentido. Isso não significa romantizar o que é vivido, já que há desafios reais para a maior parte das mulheres, e esses desafios merecem ser levados a sério. Mas significa reconhecer que essa travessia carrega, em si, uma convocação profunda para o processo de individuação.</p>



<h2 id="h-o-corpo-fala-a-dimensao-biopsiquica" class="wp-block-heading"><strong>O CORPO FALA: A DIMENSÃO BIOPSÍQUICA</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para que a o analista possa acolher adequadamente o que a analisanda traz na perimenopausa e menopausa, é importante que tenha familiaridade com as transformações que acontecem no corpo, nesse período, para não minimizá-los ou buscar compreendê-los apenas simbolicamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A perimenopausa é um período de transição entre a vida reprodutiva e a não reprodutiva da mulher, que pode durar de quatro a oito anos antes da menopausa &#8211; definida pela última menstruação &#8211; até um ano após esse marco, geralmente entre os 45 e 55 anos. Esse período envolve mudanças que vão muito além das alterações hormonais, abrangendo transformações físicas, fisiológicas e psíquicas que tornam esta fase bastante desafiadora para muitas mulheres (FEBRASGO, 2024, p. 102).</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-vale-sublinhar-este-dado-de-quatro-a-oito-anos-antes-da-menopausa-a-mulher-ja-pode-sentir-uma-serie-de-sintomas-com-impacto-significativo-em-sua-vida-cotidiana-trata-se-portanto-de-um-periodo-longo-repleto-de-transformacoes-e-sentires-que-afetam-a-maior-parte-das-mulheres" style="font-size:16px">Vale sublinhar este dado: de quatro a oito anos antes da menopausa, a mulher já pode sentir uma série de sintomas com impacto significativo em sua vida cotidiana. Trata-se, portanto, de um período longo, repleto de transformações e sentires que afetam a maior parte das mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os sintomas vasomotores &#8211; ondas de calor e suores noturnos &#8211; são os mais frequentes, afetando até 80% das mulheres, podendo persistir em média de três a dez anos (FEBRASGO, 2024, p. 69). A isso somam-se alterações do sono, mudanças metabólicas, síndrome geniturinária, impacto na sexualidade e &#8211; de especial relevância para a clínica &#8211; repercussões neurológicas e cognitivas.</p>



<h2 id="h-o-estrogenio-atua-como-neuromodulador-central-regulando-a-plasticidade-sinaptica-a-memoria-e-a-saude-cognitiva-a-progesterona-participa-da-neuroprotecao-e-da-modulacao-do-humor-alem-de-contribuir-para-a-qualidade-do-sono" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O estrogênio atua como neuromodulador central, regulando a plasticidade sináptica, a memória e a saúde cognitiva. A progesterona participa da neuroproteção e da modulação do humor, além de contribuir para a qualidade do sono.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, é natural que mudanças na produção desses hormônios gerem sintomas significativos (GUIMARÃES et al., 2025, p. 13-14). Mosconi (2024, p. 97) reforça que a menopausa desencadeia uma reorganização significativa do cérebro feminino, com impactos no metabolismo cerebral e em funções como memória, humor e concentração. Com o declínio hormonal, muitas mulheres relatam o fenômeno clinicamente denominado &#8220;névoa mental&#8221; (brain fog) que se trata de uma combinação de dificuldade de concentração, esquecimento e sensação de fadiga e confusão e que pode ser devastadora para a autoestima e para a relação com a própria identidade (GUIMARÃES et al., 2025).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma em cada três mulheres experimentará mudanças psicológicas significativas durante a transição menopausal, incluindo alterações de humor, ansiedade, labilidade emocional e maior propensão ao desenvolvimento de quadros depressivos (FEBRASGO, 2024, p. 39). Contudo, e este ponto é fundamental para o analista, reduzir o sofrimento psíquico desta fase exclusivamente à dimensão hormonal seria um equívoco: as transformações vividas pelas mulheres neste período são conjuntamente corporais, psíquicas e existenciais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mulher que chega relatando que &#8220;não se reconhece mais&#8221;, que &#8220;perdeu o fio da meada&#8221;, que &#8220;sente que está ficando louca&#8221;, que &#8220;tudo mudou&#8221; não está exagerando. Ela está descrevendo, com as palavras disponíveis, uma reorganização psíquica real que tem raízes biológicas. Acolher este sentir é fundamental, pois é um momento de grande angústia.</p>



<h2 id="h-o-silencio-que-adoece-a-dimensao-sociocultural" class="wp-block-heading"><strong>O SILÊNCIO QUE ADOECE: A DIMENSÃO SOCIOCULTURAL</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se as dimensões fisiológica e psíquica da perimenopausa e da menopausa já impõem desafios consideráveis, o aspecto sociocultural os potencializa significativamente. Lisa Mosconi, neurocientista referência na pesquisa do impacto da menopausa no cérebro feminino, descreve esse cenário com precisão:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.5">
<p class="wp-block-paragraph">Na nossa cultura obcecada pela juventude, a menopausa, quando não é totalmente ignorada, é temida ou menosprezada. Além de não ser reconhecida como um marco importante na vida de uma mulher, a menopausa sempre foi vista de forma extremamente negativa, com estigmas associados ao preconceito da idade, ao esgotamento da vitalidade e até ao fim da nossa identidade como mulheres (MOSCONI, 2024, p. 19).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Esse silenciamento tem causas profundas. Whitmont (1991, p. 140) afirma que a desvalorização do feminino é algo intrínseco ao desenvolvimento do ego patriarcal e uma misoginia reforçada por quatro milênios de convicções religiosas e culturais que tornaram esse padrão socialmente aceito. A mulher madura, que não mais serve ao ideal de fertilidade e juventude que o patriarcado valoriza, torna-se progressivamente invisível. Bolen (2005, p. 14) é direta: &#8220;Em um patriarcado orientado especialmente para a juventude, tornar-se uma mulher mais velha é se tornar invisível; uma entidade sem existência.&#8221;</p>



<h2 id="h-mankowitz-1986-p-27-uma-das-poucas-autoras-junguianas-a-se-debrucar-sobre-este-tema-indagou" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Mankowitz (1986, p. 27), uma das poucas autoras junguianas a se debruçar sobre este tema, indagou:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph">Por que a menopausa, um acontecimento tão importante na vida da mulher, é tão negligenciada pela sociedade, pela história, pela mitologia e pela religião? Por que, por exemplo, não há ritos de passagem registrados em lugar algum para marcar a menopausa, se há para outros acontecimentos críticos como nascimento, puberdade, casamento, parto e morte?</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Essa lacuna tem consequências práticas. Grande parte dos profissionais de saúde está despreparada para atender essas mulheres, facilitando a experiência de &#8220;peregrinação&#8221;, ou seja, diante de sintomas cuja origem desconhecem, buscam respostas em diferentes especialidades sem encontrar acolhimento adequado. Mosconi (2024, p. 21) atribui isso ao fato de que a &#8220;medicina ocidental é caracterizada por adotar modelos isolados, e não holísticos, avaliando o corpo humano quanto a seus componentes individuais&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dados brasileiros confirmam esse despreparo: cerca de 88% das mulheres brasileiras relatam sintomas significativos na transição menopausal, e apenas 22,3% delas receberam orientação médica adequada (POMPEI et al., 2022, apud GUIMARÃES et al., 2025). Isso significa que a imensa maioria dessas mulheres está sozinha diante de algo que não entende, que não recebe nome e que não pode ser elaborado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, o contexto sociocultural tende a minimizar ou invisibilizar as vivências desta etapa. A falta de espaços seguros de fala, a incompreensão de parceiros e familiares e a ausência de narrativas culturais que acolham o que a mulher madura vivencia contribuem para que ela internalize a sensação de que o que sente é excessivo, inadequado ou simplesmente inexplicável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A clínica junguiana pode ser o espaço onde o silenciamento dará lugar à fala, à escuta e à validação. É a mudança do silêncio para a busca de sentido que a Psicologia Analítica tem condições de oferecer.</p>



<h2 id="h-a-metanoia-do-meio-da-vida-o-sentido-da-crise" class="wp-block-heading"><strong>A METANOIA DO MEIO DA VIDA: O SENTIDO DA CRISE</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung comparou a vida humana à trajetória do Sol e, ao fazê-lo, destacou também a diferença da tarefa do profissional em cada momento do percurso:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph">Nossa vida compara-se à trajetória do sol. De manhã o sol vai adquirindo cada vez mais força até atingir o brilho e o calor do apogeu do meio-dia. Depois vem a enantiodromia. Seu avançar constante não significa mais aumento e sim diminuição da força. Sendo assim, nosso papel junto ao jovem difere do que exercemos junto a uma pessoa mais amadurecida. No que se refere ao primeiro, basta afastar todos os obstáculos que dificultam sua expansão e ascensão. Quanto à última, porém, temos que incentivar tudo quanto sustente sua descida (JUNG, 2014a, p. 86).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Essa imagem descreve uma mudança de direção de energia psíquica e de sentido. A primeira metade da vida organiza-se em torno de questões como a formação do ego, a separação psíquica dos pais, a construção de vínculos afetivos e o estabelecimento profissional &#8211; tarefas de expansão e ascensão. Já a segunda metade da vida exige movimento contrário: não mais apenas a adaptação ao meio, mas o confronto com a sombra e a aproximação do ego do self (HOLLIS, 1995, p. 55). Trata-se de uma exigência da própria psique, não de uma escolha consciente do ego.</p>



<h2 id="h-e-nesse-contexto-que-jung-situa-a-menopausa-com-uma-clareza-que-chama-atencao-para-a-sua-epoca" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">É nesse contexto que Jung situa a menopausa com uma clareza que chama atenção para a sua época:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph">É enorme o engano de supor que o sentido da vida esteja esgotado depois da fase juvenil de expansão, que uma mulher esteja &#8216;liquidada&#8217; ao entrar na menopausa. O entardecer da vida humana é tão cheio de significação quanto o período da manhã. Só diferem quanto ao sentido e intenção (JUNG, 2014a, p. 86).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Quando a energia que antes estava investida na adaptação externa já não encontra no exterior o mesmo sentido que antes encontrava, ela se volta para dentro. É a metanoia, o movimento de grandes questionamentos e transformação profunda que acompanha a passagem da primeira para a segunda metade da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que torna a perimenopausa e a menopausa particularmente intensas é que elas se sobrepõem a esse movimento. As transformações corporais e hormonais desta fase entrelaçam-se com a metanoia de um modo que pode ser muito desafiador quando vivido sem acolhimento, validação e escuta, mas profundamente transformador quando vivido com consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sendo assim, é importante que o analista compreenda que nesta fase se sobrepõem questões que mexem com a mulher em múltiplas dimensões simultaneamente. Ter essa consciência é necessário para não se fixar em apenas uma delas. É nessa sobreposição que os sintomas físicos e emocionais se revelam como mensageiros da alma.</p>



<h2 id="h-os-sintomas-como-linguagem-do-corpo-e-da-alma" class="wp-block-heading"><strong>OS SINTOMAS COMO LINGUAGEM DO CORPO E DA ALMA</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung já apontava que &#8220;processos do corpo e processos mentais se desenrolam simultaneamente e de maneira totalmente misteriosa para nós&#8221; (JUNG, 2013a, p. 48). Portanto, os sintomas da perimenopausa não são apenas eventos fisiológicos, mas também expressões de uma psique em profunda reorganização. Diante disso, é importante acolher e validar o sofrimento real desses sintomas sem descartar uma avaliação e acompanhamento médico adequado, e ao mesmo tempo oferecer um tipo de escuta que a medicina, por sua natureza, não oferece.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os sintomas físicos conduzem a pensamentos e sentires. Um corpo que envelhece e que já não corresponde ao ideal de juventude de uma sociedade patriarcal pode gerar insegurança nos vínculos afetivos. A confusão mental e a dificuldade de concentração podem trazer o medo da perda de emprego ou de capacidade. <strong>Um corpo que parece não ser mais o seu &#8211; que não responde como antes &#8211; pode instalar uma estranha sensação de não habitar a si mesma.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A falta de libido pode despertar questionamentos sobre o amor pelo parceiro. A ausência de compreensão por parte desse parceiro pode colocar em questão a profundidade do próprio relacionamento. A irritabilidade, o choro fácil, a sensação de que as emoções estão &#8220;desreguladas&#8221; frequentemente vêm acompanhados de vergonha e confusão e é muito comum que a mulher se desculpe por tudo que sente e vive, como se seu sofrimento fosse fraqueza ou erro. São sintomas que a levam a questionar muitas camadas de si própria. <strong>No fundo, é um questionamento em relação à própria identidade; questiona-se quem foi, quem é e quem será</strong>.</p>



<h2 id="h-ha-portanto-uma-dimensao-simbolica-nesses-sintomas-que-a-escuta-analitica-esta-especialmente-preparada-para-acolher" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Há, portanto, uma dimensão simbólica nesses sintomas que a escuta analítica está especialmente preparada para acolher.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A Psicologia Analítica pode contribuir ao trabalhar os lugares para os quais as transformações psíquicas e físicas levam essa mulher a olhar e confrontar &#8211; lugares que são, frequentemente, propulsores da individuação. O analista que compreende a dinâmica do meio da vida pode oferecer uma perspectiva diferente: aspectos da&nbsp; sombra, comprimidos pelo esforço de adaptação, pode emergir com força justamente agora, quando a energia se volta para dentro. Trabalhar essas questões que emergem com tanta força pode ser um caminho propulsor da individuação.</p>



<h2 id="h-a-travessia-individuacao-na-segunda-metade-da-vida" class="wp-block-heading"><strong>A TRAVESSIA: INDIVIDUAÇÃO NA SEGUNDA METADE DA VIDA</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A questão central da segunda metade da vida é o processo de individuação, que Jung define como &#8220;tornar-se um ser único, na medida em que por &#8216;individualidade&#8217; entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo&#8221; (JUNG, 2015, p. 63). Esse processo implica o confronto com a sombra, com tudo aquilo que ficou de fora da imagem idealizada do ego ao longo da vida, a relativização da persona e o ego aproximando-se do self.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Johnson e Ruhl descrevem que nesse momento há o encontro com a &#8220;vida não vivida&#8221;: &#8220;todos aqueles nossos aspectos essenciais que não foram integrados de maneira adequada à nossa experiência&#8221; e que, quando resgatados, trazem propósito e significado à existência (JOHNSON; RUHL, 2011, p. 13). Para as mulheres na perimenopausa e menopausa, esse resgate pode assumir múltiplas formas, tais como o retorno a interesses artísticos abandonados, a busca de formação antes impossível, o desenvolvimento de uma espiritualidade mais profunda, a expressão de aspectos da personalidade antes reprimidos para atender às expectativas sociais ou às demandas relacionais.</p>



<h2 id="h-jung-resume-esse-movimento-com-uma-imagem-muito-bonita-depois-de-haver-esbanjado-luz-e-calor-sobre-o-mundo-o-sol-recolhe-os-seus-raios-para-iluminar-se-a-si-mesmo-jung-2013b-p-356" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Jung resume esse movimento com uma imagem muito bonita: &#8220;Depois de haver esbanjado luz e calor sobre o mundo, o Sol recolhe os seus raios para iluminar-se a si mesmo&#8221; (JUNG, 2013b, p. 356).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A perimenopausa e a menopausa são, nessa perspectiva, o momento em que a luz se volta para dentro. A mulher que tanto doou energia ao externo pode, finalmente, perguntar: Quem sou eu além dos papéis que desempenhei? Que parte de mim ficou não vivida? O que a minha alma realmente deseja? É um momento facilitador da apropriação de si mesma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como descreve Stein (2007, p. 41), a crise da meia-idade é &#8220;uma guinada crítica para o processo de individuação&#8221;; trata-se de uma convocação psíquica para a construção de uma identidade mais alinhada com as intenções do self. Neste sentido, a perimenopausa e a menopausa constituem terreno especialmente fértil para essa convocação. As transformações físicas e hormonais potencializam a transformação psíquica; desafiadora, sim, mas com potencialidades.</p>



<h2 id="h-consideracoes-finais" class="wp-block-heading"><strong>CONSIDERAÇÕES FINAIS</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O que este artigo se propôs, fundamentalmente, foi mostrar que uma mulher na perimenopausa e na menopausa está em travessia e, para muitas, uma travessia intensa de anos, ao longo da qual uma nova mulher vai se constituindo. Buscou-se demonstrar que haverá perdas reais, mas que este é também um momento propulsor da individuação; um momento no qual mudanças físicas, hormonais e psíquicas, sintomas e sentires podem ser trabalhados não como fim, mas como limiar para o novo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para tanto, o artigo articulou três dimensões que o analista precisa conhecer: a dimensão biopsíquica, que sustenta a legitimidade clínica dos sintomas e angústias; a dimensão sociocultural, que revela por que tantas dessas mulheres chegam ao consultório em silêncio, com vergonha e sem nome para o que vivem; e a dimensão psíquica aos olhos da Psicologia Analítica, que situa esta fase como convocação para a individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O analista que acolhe e valida as angústias, que oferece espaço seguro para os lutos, que escuta os sonhos com atenção especial, que compreende que este é um processo longo a ser atravessado, que conhece as especificidades biopsicossociais desta fase e que, acima de tudo, reconhece a potencialidade que há neste momento, oferece à analisanda o que a cultura sistematicamente lhe nega. E isso, por si só, já é transformador.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Perimenopausa e Menopausa sob a perspectiva da Psicologia Analítica" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/56CRcWSmS78?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/danielle-chaves-gomes-de-oliveira/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/danielle-chaves-gomes-de-oliveira/"><strong>Danielle Chaves Gomes de Oliveira – Analista em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/"><strong>Maria da Glória G. de Miranda – Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BOLEN, J. S. As deusas e a mulher madura: arquétipos nas mulheres com mais de 50. São Paulo: TRION, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FEBRASGO — Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Manual de orientação: climatério. São Paulo: FEBRASGO, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUIMARÃES, A. P. G. Menopausa e seus desafios após o câncer ginecológico. São Paulo: FEBRASGO, 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, J. A passagem do meio: da miséria ao significado na meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JOHNSON, R. A.; RUHL, J. M. Viver a vida não vivida. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Vida Simbólica. v. 1. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______Psicologia do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2014a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MANKOWITZ, A. Menopausa: tempo de renascimento. São Paulo: Paulinas, 1986.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MOSCONI, L. O cérebro da menopausa. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph">STEIN, M. No meio da vida. São Paulo: Paulus, 2007.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WHITMONT, E. C. O retorno da deusa. São Paulo: Summus, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-travessia-que-precisa-ser-reconhecida-e-validada-perimenopausa-e-menopausa-sob-a-perspectiva-da-psicologia-analitica/">A Travessia que precisa ser reconhecida e validada: Perimenopausa e Menopausa sob a perspectiva da Psicologia Analítica</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A psicossomática e a clínica junguiana: a doença como símbolo de autorregulação psíquica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-psicossomatica-e-a-clinica-junguiana-a-doenca-como-simbolo-de-autorregulacao-psiquica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Jun 2026 20:42:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[adoecimento]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[significado dos sintomas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo tem como objetivo provocar uma reflexão sobre os efeitos da atuação da sombra, como complexo, na vida do indivíduo e sua consequente influência em processos de adoecimento. O adoecimento surge como uma forma simbólica da psique manifestar aspectos inconscientes que pedem reconhecimento e integração. O quanto menos reconhecemos as mensagens do inconsciente, mais força e energia o complexo acumula e os sintomas e doenças surgem, como tentativa de uma autorregularão psíquica. O autoconhecimento para compreensão do indivíduo, de suas motivações inconscientes e de suas decisões de vida são um caminho para uma adaptação saudável a um mundo cada vez mais adoecido.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-right is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:0.3">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Reumatismo, raquitismo, cistite, disritmia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Hérnia, pediculose, tétano, hipocrisia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Brucelose, febre tifoide, arteriosclerose, miopia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Catapora, culpa, cárie, cãibra, lepra, afasia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O pulso ainda pulsa</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>E o corpo ainda é pouco</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Titãs)<a href="#_ftn1" id="_ftnref1"><strong>[1]</strong></a></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo tem como objetivo provocar uma reflexão sobre os efeitos da atuação da sombra, como complexo, na vida do indivíduo e sua consequente influência em processos de adoecimento. O adoecimento surge como uma forma simbólica da psique manifestar aspectos inconscientes que pedem reconhecimento e integração. O quanto menos reconhecemos as mensagens do inconsciente, mais força e energia o complexo acumula e os sintomas e doenças surgem, como tentativa de uma autorregularão psíquica. O autoconhecimento para compreensão do indivíduo, de suas motivações inconscientes e de suas decisões de vida são um caminho para uma adaptação saudável a um mundo cada vez mais adoecido.</p>



<h2 id="h-palavras-chave-psicossomatica-doenca-complexo-sombra-jung" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Palavras-chave: psicossomática, doença, complexo, sombra, Jung</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há uma lista infinita de sintomas de diversas origens e natureza. Pode-se destacar entre tantos: as questões com o peso (perda, aumento), fadiga, dores (cabeça, articulação, muscular), tontura / vertigem, sonolência ou insônia, náusea, taquicardia, impotência, tosse, prurido e muitos, muitos outros; às vezes isolados às vezes associados, por curto período ou recorrente. Os estudos da Psicossomática, a partir de uma abordagem analítica, contribuem para uma compreensão mais ampla e profunda sobre o sentido simbólico dos processos de adoecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A partir de um olhar retrospectivo para os estudos da Psicossomática, Ramos (2005, p. 22) comenta sobre as tribos primitivas. Elas lidavam com o processo do adoecer como “a consequência da violação de um tabu ou uma ofensa aos deuses”, os processos de cura dos xamãs e pajés incluíam chás de ervas, evocação de espíritos e palavras com poder de cura. Assim, a autoridade implícita na figura do xamã, com toda sabedoria que ele representava, tinha o poder de interferir no tratamento e no processo de cura dos indivíduos.</p>



<h2 id="h-no-pensamento-grego-cometer-a-hybris-que-era-uma-ofensa-a-um-deus-fazia-com-que-voce-ficasse-escravizado-por-ele-e-fosse-castigado" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">No pensamento grego, cometer a <em>hybris</em>, que era uma ofensa a um deus fazia com que você ficasse escravizado por ele e fosse castigado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Daí a geração de um “sintoma”, refletindo o processo de sofrimento. Aqui também o valor da palavra era bastante forte. Havia a visão do homem integral, onde corpo e alma eram entendidos como um todo inseparável, trazendo assim uma atitude holística para os tratamentos. Com o desenvolvimento da civilização ocidental, chegamos ao pensamento científico e temos como representante Descartes. Conforme Ramos (2005) as ideias dele, devido à sua complexidade, foram interpretadas de forma equivocada provocando a percepção de que havia uma separação entre as instancias corpo e mente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No início do século XIX, a chamada medicina romântica trouxe uma visão do homem global, com uma medicina que atuava de forma muito pessoal, tratando cada doente de forma única e integrada entre sociedade, arte, religião e a relação com outros. Uma visão que veio a contribuir depois com o conceito de<strong> Self</strong> da psicologia analítica. Surge então no final do século XIX o pensamento biomédico, onde, o olhar para a doença passa a ser reducionista, pois a base para a compreensão da mesma era a realização de análises biológicas: as pequenas partes de um todo entendidas separadamente. Tudo era mensurável, possível de ser classificado, e a simbologia das manifestações sintomáticas perde aqui seu lugar, fazendo com que a visão do homem, bem como do seu processo de adoecimento, fosse fragmentada.</p>



<h2 id="h-o-termo-psicossomatica-conforme-ramos-2005-surge-historicamente-pela-primeira-vez-em-1808-sendo-aceito-e-difundido-a-partir-do-seculo-passado-conforme-afirma-mello-fº" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O termo “Psicossomática” conforme Ramos (2005), surge historicamente pela primeira vez em 1808, sendo aceito e difundido a partir do século passado, conforme afirma Mello Fº:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O termo psicossomática surgiu a partir do século passado, depois de séculos de estruturação, quando Heinroth criou as expressões psicossomática (1918) e somatopsíquica (1928) distinguindo os dois tipos de influências e as duas diferentes direções. Contudo, o movimento só se consolidou em meados deste século com Alexander e a Escola de Chicago. Porém as incertezas sobre a relação mente-corpo se expressam na própria denominação psico-somático (com hífen) ainda utilizada entre estudiosos destes fenômenos e por médicos em geral. (Mello Fº, 2010, p. 29)                                                                                                                               </p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Ramos</strong> (2005) cita a importância de Helen Dunbar, médica americana e precursora dos estudos de psicossomática e psicobiologia, para o aprofundamento de estudos sistemáticos sobre o tema e para tornar o termo público. Dunbar foi influenciada em suas pesquisas pelos trabalhos de Jung. Isto ocorreu na época em que ele estuda os complexos por meio da análise das respostas do experimento de associação de palavras.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Desta época muitos estudos sobre a questão mente-corpo, como atores na formação das doenças evoluíram. Em 1936, <strong>Hans Selye</strong>, endocrinologista canadense, tem uma contribuição de grande valor para o entendimento do estresse, sendo este definido incialmente pelo autor, como doença de adaptação, o que contribuiu com a visão das transformações físicas a partir de processos de estresse.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No estudo da evolução do conceito de Psicossomática, Ramos (2005), destaca também a contribuição da teoria psicanalítica de Sigmund Freud, que buscava compreender como as emoções influenciavam na etiologia da formação das doenças. A visão aqui é de que, os conteúdos reprimidos no inconsciente eram os responsáveis pelos sintomas associados à histeria, porém com uma visão ainda limitada da extensão desta atuação, bem como das dimensões do inconsciente. Várias escolas então surgiram, com o objetivo de se ampliar as contribuições da psicanálise.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Franz Alexander </strong>e <strong>Thomaz French</strong> (1940) fundaram a Escola de Chicago baseados na crença de que mente e corpo funcionavam de modo complementar, mas ainda separadamente. Outra importante escola foi a Escola de Paris, representada por Marty, M’Uzmam e David (1963). Em 1970, foi desenvolvido o conceito de alexitimia por John C. Nemiah e Peter E. Sifneos, referindo-se as pessoas que não reconhecem sentimentos e são incapazes de expressar e nomear os mesmos. </p>



<h2 id="h-atualmente-a-definicao-de-psicossomatica-passa-pela-compreensao-de-uma-area-que" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Atualmente a definição de Psicossomática passa pela compreensão de uma área que</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8230; integre as três perspectivas: a doença com sua dimensão psicológica; a relação médico-paciente com seus múltiplos desdobramentos; a ação terapêutica voltada para a pessoa do doente, este entendido como um todo biopsicossocial. (Eksterman, A. in Mello Fº, 2010, p. 39.)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Porém, na visão de Ramos (2005), com toda evolução não houve uma teoria que pudesse apresentar o conceito de Psicossomática com uma coerência entre teoria e prática terapêutica “não há uma teoria e abrangente unificadora” (Ramos, 2005, p. 43). Baseada em sua atuação terapêutica e em seus estudos, a autora constrói uma visão da psicossomática pautada no pensamento analítico de Jung, tratando o processo de adoecimento físico como uma expressão simbólica da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Compreender os complexos é fundamental na teoria junguiana, para que se possa pensar a doença de sua perspectiva simbólica. Os complexos são núcleos carregados de grande carga afetiva presentes no inconsciente pessoal. &nbsp;Formam-se a partir das vivências doloridas e traumáticas. São carregados de energia e podem dominar a vontade consciente e manifestar-se de modo a dominar o próprio complexo do ego. Segundo Jung:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de <em><strong>autonomia</strong>, </em>vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, se comporta, na esfera do consciente, como um <em><strong>corpus</strong> <strong>alienum</strong> </em>corpo estranho, animado de vida própria. (Jung, OC 8/2 § 201, grifos do autor)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-o-inconsciente-se-comunica-com-o-a-consciencia-por-meio-do-corpo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O inconsciente se comunica com o a consciência por meio do corpo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É neste que as manifestações são percebidas e sentidas. Para Jung, o corpo e alma, são duas dimensões que coexistem numa mesma estrutura e afetam-se simultaneamente, dependendo uma da outra para que a vida aconteça. <strong>As funções vitais atuam independente da vontade consciente do ego</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“O eu sequer tem uma pálida ideia da função reguladora e incrivelmente importante dos processos orgânicos internos a serviço do qual está o sistema nervoso simpático”. (Jung, OC 8/2, § 613).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando as emoções guardadas são acionadas elas podem fazer com que o funcionamento orgânico, inconsciente e silencioso, traga para o universo consciente a percepção então de seu funcionamento, por meio de reações e sintomas desagradáveis e que afetam nosso bem-estar (suores, taquicardias, angústias, sufocamentos, irritações, dores, tremedeiras, etc.).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É nesta dialética – corpo e psique &#8211; que os conteúdos inconscientes e as suas imagens ganham vida e os complexos, até então afastados da consciência, se “materializam”.</p>



<h2 id="h-quando-um-complexo-se-constela-ou-se-manifesta-e-possivel-compreender-que-ficou-mais-energizado-do-que-o-proprio-complexo-do-ego-que-nao-consegue-segurar-o-seu-impulso-para-a-manifestacao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Quando um complexo se constela, ou se manifesta, é possível compreender que ficou mais energizado do que o próprio complexo do ego, que não consegue segurar o seu impulso para a manifestação. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-o-sintoma-entao-surge-porque-a-energia-do-complexo-e-capaz-de-afetar-o-organismo-e-gerar-respostas-fisiologicas-provocadas-pelas-emocoes" style="font-size:18px">O sintoma então surge porque a energia do complexo é capaz de afetar o organismo e gerar respostas fisiológicas provocadas pelas emoções.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8230; nossa consciência não está em condição de produzir um complexo autônomo a seu bel-prazer. [&#8230;] Quando eu disse, anteriormente, que a ideia deve necessariamente suscitar uma resposta das emoções, eu me referi a uma prontidão inconsciente que, por causa de sua natureza afetiva, atinge uma profundidade inteiramente inacessível à nossa consciência. Assim, nossa razão consciente não é capaz de destruir as raízes dos sintomas nervosos. Para isto seriam necessários processos emocionais que têm o poder de influenciar o sistema nervoso simpático. (Jung, OC 8/2, § 642)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-na-manifestacao-de-um-complexo-alem-do-sintoma-e-de-um-consequente-sofrimento-fisico-a-consciencia-tambem-e-afetada" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na manifestação de um complexo além do sintoma e de um consequente sofrimento físico, a consciência também é afetada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ela passa a receber as mensagens indecifráveis, criadas pela distância entre consciência e inconsciente. Se o indivíduo não for capaz de compreendê-las como um canal de comunicação do inconsciente, está criado o campo para manifestação de processos de adoecimento ainda mais graves e profundos, com a fragmentação da unidade mente-corpo. O complexo cria neste momento uma polaridade, forte opositora da consciência e do ego, e atua como se fosse a totalidade do indivíduo. Neste processo a importância do símbolo é fundamental. Ramos (2005) afirma que a expressão simbólica do complexo em nosso corpo nos dá um caminho e oportunidade para resgatar a relação ego self. Dawson (2002) confirma esta percepção conforme citado abaixo:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na prática junguiana, as fantasias, os sonhos, a sintomatologia, as defesas e a resistência são todos vistos em termos de sua função criativa e sua teleologia. Pressupõe-se que eles refletem as tentativas da psique de superar obstáculos, construir significado e oferecer opções potenciais para o futuro, em vez de existirem apenas como respostas de inadaptação à história passada. (Dawson, 2002, p. 68).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A doença surge então como uma consequência de algo que precisa ser atendido e integrado em nossa personalidade total. Caso esta condição seja ignorada, os sintomas podem voltar ou mesmo pode aparecer como novas formas de doenças. O universo inconsciente é extremamente vasto de imagens e de representações e procura a todo instante fazer-se presente, nem sempre de forma inteligível ou agradável. Há a necessidade de se fazer um esforço no sentido de compreender e transformar estas mensagens em elementos vitais.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A psique é feita de uma série de imagens, no sentido mais amplo do termo, não é, porém, uma justaposição ou uma sucessão, mas uma estrutura riquíssima de sentido e uma objetivação das atividades vitais, expressa através de imagens. E da mesma forma que a matéria corporal, que está pronta para a vida, precisa da psique para se tornar capaz de viver, assim também a psique pressupõe o corpo para que suas imagens possam viver. (Jung, OC 8/2, § 618)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-sombra-e-como-um-repositorio-da-psique-que-mantem-aspectos-reprimidos-no-inconsciente-pessoal" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A sombra, é como um repositório da psique, que mantém aspectos reprimidos no inconsciente pessoal.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">São aquelas qualidades não aceitas pelo indivíduo e por isso possuem um teor negativo ou inferior, que se virem à consciência podem adquirir um aspecto destrutivo.  Forma-se a partir de vivências pessoais e imagens primordiais deixadas de lado pela função do ego consciente, por representar algum tipo de ameaça à sua integridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na condição de conteúdos que querem ser esquecidos e não podem acessar a consciência, a sombra assume características equivalentes às do complexo, conforme afirma Stein (2015), “<em>A sombra, um complexo funcional complementar, é uma espécie de contra-pessoa. A sombra pode ser pensada como uma subpersonalidade que quer o que a persona não permitirá.</em>” (Stein, 2015, p. 101)</p>



<h2 id="h-nao-seria-errado-portanto-afirmar-que-quando-o-sintoma-organico-vinculado-a-um-complexo-se-associa-a-uma-imagem-arquetipica-que-este-passa-a-ter-um-carater-simbolico" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Não seria errado, portanto, afirmar que quando o sintoma orgânico, vinculado a um complexo se associa a uma imagem arquetípica, que este passa a ter um caráter simbólico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A natureza arquetípica deste conteúdo dará forma, energia e sustentação ao complexo e se constelará quanto mais distante da consciência e menos possibilidade de simbolizar esta tiver. É nesta dimensão que o processo compensatório da psique atua, apontando par a necessidade de um reconhecimento e de uma posterior integração e psíquica. É o restabelecimento de uma ordem que foi desintegrada ou perdida. </p>



<h2 id="h-como-um-arquetipo-a-sombra-possui-forma-e-imagem-significativas-podendo-ser-nociva-a-vida-do-individuo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Como um <strong>arquétipo</strong>, a sombra possui forma e imagem significativas podendo ser nociva à vida do indivíduo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Estes conteúdos são expulsos, como afirma Jung (OC 7/2) por meio da <strong>projeção</strong>, sendo transferido para o objeto e fazendo com que o indivíduo se libere deles. Porém a projeção é um mecanismo neurótico de defesa que não contribui para a integração dos aspectos sombrios que pertencem na verdade ao próprio indivíduo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mesmo quando acontece de as qualidades projetadas serem qualidades reais da outra pessoa [&#8230;], a reação afetiva que marca a projeção sugere que o complexo afetivo em nós embaça a nossa visão e interfere com a nossa capacidade de ver com objetividade e estabelecer relações de um modo humano. (Whitmont in Zweig, 1998 p. 37)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesta dinâmica psíquica temo a persona como o arquétipo mais próximo da consciência. Conforme o indivíduo se desenvolve ele recebe do meio mensagens e informações de como dever ser e agir para adaptar-se e ser bem aceito. Estas informações são absorvidas pelo ego que vai dando forma à persona, que tem como função adaptar o indivíduo ao meio em que ele vive. Ao passo que a persona se forma e se solidifica os conteúdos que não foram aceitos por ela e consequentemente pelo complexo do ego, se mantém no inconsciente, na sombra. “<em>O desenvolvimento do ego baseia-se na repressão do &#8220;errado&#8221; ou do &#8220;mau&#8221; e na promoção do &#8220;bom&#8221;.</em> “ (Whitmont in Zweig, 1998 p. 38). Segundo Whitmont, esta é uma condição arquetípica da formação do ego e da estruturação da personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como a persona tem uma função social, ela nos dá a impressão de uma individualidade, porém é coletiva, uma vez que expressa qualidades arquetípicas do indivíduo no todo: profissão, títulos, posses, coisas que todas as pessoas além do indivíduo, também podem possuir.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <strong>identificação com a persona</strong>, assumindo-a como a própria individualidade, faz com que o ego deixe de lado outros aspectos importantes da personalidade total. Ocasionando, assim, uma inflação do ego,sendo dado a este um valor superdimensionado.</p>



<h2 id="h-sobre-a-persona-jung-afirma" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Sobre a persona, Jung afirma:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como seu nome revela, ela é uma simples máscara da psique coletiva, máscara que <em>aparenta uma individualidade, </em>procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade, não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva. Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de <em>real; </em>ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo”. De certo modo, tais dados são reais; mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário. (Jung, OC 7/2, § 245 e 246, grifos do autor)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esta forte valorização dos aspectos da persona pode estar relacionada ao fato de necessitarmos, até um determinado ponto de correspondermos àquilo que a sociedade espera, mostrando muitas vezes algo que não corresponde ao que realmente somos. Quando a sombra necessita vir à superfície, esta necessidade de se fazer presente e conhecida pode gerar inúmeros conflitos, pois a atuação da persona impede a realização da sombra e essa fica ainda mais densa, aumentado o jogo de projeções para se manter. Esta não é uma condição sustentável por muito tempo.</p>



<h2 id="h-afirma-sanford-a-sombra-sera-mais-perigosa-quao-mais-distante-estiver-do-ego-e-da-personalidade-consciente-sanford-1988-p-72" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Afirma Sanford “a sombra será mais perigosa, quão mais distante estiver do ego e da personalidade consciente.” (Sanford, 1988, p. 72)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Forma-se então o seguinte paradoxo: por meio da inflação do ego a unilateralidade fragiliza a possibilidade do acesso aos conteúdos arquetípicos e sombrios, que estão no centro do complexo afetivo. Este, por sua vez, detém uma forte carga energética e se faz presente por meio de sintomas que se não forem adequadamente simbolizados se configuram como doença, que podem caminhar na direção da destruição do organismo e de sua estrutura física, sede do complexo do ego e da consciência. Em resumo, o ego quando se coloca em uma condição de unidade e superioridade (inflação) se fragiliza, deixando espaço para ser “derrotado” pela sombra que esta mesma condição de inflação formou no inconsciente. O que parecia força vira fraqueza. Corpo e alma se separam e nesta tensão buscam se reencontrar, por meio da doença.</p>



<h2 id="h-na-tentativa-de-uma-autorregulacao-a-dinamica-psiquica-estabelece-uma-possibilidade-da-dinamica-entre-a-consciencia-e-o-inconsciente-elaborem-as-tensoes-existentes-por-meio-da-expressao-simbolica-do-sintoma" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na tentativa de uma autorregulação, a dinâmica psíquica estabelece uma possibilidade da dinâmica entre a consciência e o inconsciente elaborem as tensões existentes, por meio da expressão simbólica do sintoma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Devemos lembrar que para psicologia junguiana, a visão da psicossomática tem como premissa, o fato de que psique e soma são uma unidade. Logo, um desequilíbrio no processo de um aspecto ou de outro, gera consequentemente uma necessidade de equilíbrio para compensar a polarização criada. Sonhos, fantasias, sintomas e doenças podem ser compreendidos como uma busca do ser total ou do Self, de reorganizar uma harmonia perdida.</p>



<h2 id="h-e-por-meio-do-mecanismo-compensatorio-e-autorregulador-do-inconsciente-que-possiveis-caminhos-surgem" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">É por meio do mecanismo compensatório e autorregulador do inconsciente que possíveis caminhos surgem.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Atitudes muito rígidas, sob o ponto de vista de uma consciência que não está disposta a reconhecer e integrar conteúdos sombrios e ameaçadores dificulta a percepção destes sinais, que não começam grandes, mas que vão tomando vultos mais significativos, ao passo que a polarização vai tornando-se mais voluptuosa. Assim, devemos considerar que do inconsciente emana uma energia que lança luz sobre os aspectos do adoecimento, tendo este um caráter teleológico e se apresentando como mensageiro de sentido e do potencial de transformação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A autorregulação, não tem como caráter primordial a eliminação do sintoma simplesmente, mas indicação de possíveis saídas. É um convite para a interiorização. Por isso, o sintoma deve ser escutado. Esta é uma linguagem por meio da qual a psique nos conta o que devemos fazer, ou para onde devemos seguir no caminho infindável do processo de individuação.&nbsp;</p>



<h2 id="h-por-fim" class="wp-block-heading" style="font-size:21px"><strong>Por fim,</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O foco deste artigo é provocar uma reflexão sobre como a dinâmica psíquica, quando não compreendida, pode exprimir-se por meio de sintomas e doenças. Neste caso, o complexo e a sombra, funcionam como “aliados”, manifestando-se nas mais diversas situações da vida. Ambos representam traços inferiores, reprimidos e obscuros da personalidade, tem natureza emocional e autonomia. O que o complexo do ego rejeitou e reprimiu forma no inconsciente os complexos, estes se separam da personalidade total e vão compor a sombra individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Estes conteúdos são de relevante valor, pois é aí que está escrita a história de vida do indivíduo. </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Temos a tendência de considerar que esta biografia se faz por meio das realizações concretas no mundo, que são obras do universo consciente e pouco se dá conta do quanto esses feitos só foram possíveis e viáveis pela ativa participação do mundo inconsciente.</p>



<h2 id="h-o-inconsciente-e-vivo-e-ativo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O inconsciente é vivo e ativo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ele nos acompanhada por toda a vida, em seus aspectos positivos e negativos. Temos uma necessidade real de adaptação ao mundo e às questões cotidianas, mas essa adaptação não pode acontecer sem um pensamento crítico, sem um olhar sincero para nossos desejos, mas também para nossos medos e nossas vulnerabilidades. Por vezes, é esta pequena fresta que não deixamos entrar luz, que precisa ser iluminada para termos uma resposta mais lúcida às questões da vida.   </p>



<h2 id="h-e-honesto-conosco-buscar-reconhecer-quem-em-nos-decide-pelos-caminhos-que-tomamos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">É honesto conosco buscar reconhecer <strong>quem</strong>, em nós, decide pelos caminhos que tomamos. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Provavelmente, numa resposta objetiva dirá que o sujeito da escolha foi nossa consciência, poque ela sabe&#8230; sabe o que melhor, sabe o que agrada, sabe o que será sucesso!!  E tudo bem, se e apenas se, as nossas questões internas e mais prementes não estiverem subjugadas a uma sombra, reprimidas e desmerecidas. Muitas vezes neste lugar mais sombrio está o lampejo de criatividade e o potencial que tanto insistimos em buscar fora – no outro, no trabalho, na viagem&#8230;</p>



<h2 id="h-nao-podemos-esquecer-que-todo-sintoma-esta-a-servico-de-equilibrar-um-sistema-integrado" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Não podemos esquecer que todo sintoma está a serviço de equilibrar um sistema integrado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os sintomas servem para compensar desequilíbrios internos. Logo, escutar o ambiente externo e sufocar a voz interior na sombra pode ter consequências desastrosas para a real saúde do indivíduo nas esferas bio-psico-social-espiritual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Viver em meio à dualidade e à paradoxos, é uma condição humana e arquetípica. É somente em meio a polaridades e a busca de integração de forças contrarias, que temos a oportunidade de evoluir e aprender. Passar por desconforto, fatores estressores, manifestações incomodas do complexo e da sombra, são uma realidade e sempre existirão. Temos que aprender a dar para estes elementos o espaço que eles nos pedem para transformá-los em aliados e não em nossos detratores. Eles são parte de nós, querem ser reconhecidos, aceitos e integrados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/gilmaraalves/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/gilmaraalves/">Gilmara Marques Fadim Alves – Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina M. Guarnieri – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: A psicossomática e a clínica junguiana: a doença como símbolo de autorregulação psíquica" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/9di30oUrn_o?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<ol class="wp-block-list">
<li>DAWSON, Terence, YOUNG-EISENDRATH, Polly. <em>Manual de Cambridge para Estudos Junguianos</em>. São Paulo. 2002. Artmed</li>



<li>JUNG, Carl Gustav.<em> O eu e o inconsciente</em>. 27ª ed. OC 7/2. Petrópolis: Vozes, 2016.</li>



<li>JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 3ª ed. OC 8/2. Petrópolis: Vozes, 1991.</li>



<li>MELLO Fº, Julio de&#8230; [et al]. <em>Psicossomática hoje</em>. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2010.</li>



<li>RAMOS, Denise G. <em>A Psique do corpo: uma compreensão simbólica da doença</em>. São Paulo: Summus, 2005</li>



<li>SANFORD, J. A. <em>Mal: O lado sombrio da realidade</em>. &#8211; Coleção Amor e Psique. São Paulo: Paulus, 1998</li>



<li>ZWEIG,C &amp; ABRAMS, J. (orgs.). <em>Ao encontro da sombra</em>. São Paulo: Cultrix, 1999</li>
</ol>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> <em>https://www.letras.mus.br/titas/48989/</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-psicossomatica-e-a-clinica-junguiana-a-doenca-como-simbolo-de-autorregulacao-psiquica/">A psicossomática e a clínica junguiana: a doença como símbolo de autorregulação psíquica</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Afogando as mágoas no álcool e sendo tragado por ele</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/afogando-as-magoas-no-alcool-e-sendo-tragado-por-ele/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristiane dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Mar 2026 19:13:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dependência Química]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[adicção]]></category>
		<category><![CDATA[álcool]]></category>
		<category><![CDATA[Alcoolismo]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
		<category><![CDATA[corpo e alma]]></category>
		<category><![CDATA[dependência química]]></category>
		<category><![CDATA[IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[mental e emocional]]></category>
		<category><![CDATA[mente e corpo]]></category>
		<category><![CDATA[Milam]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psique]]></category>
		<category><![CDATA[sintomas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Psicossomática considera o indivíduo como um ser biopsicosocioespiritual, ou seja, sua parte psíquica, física e espiritual, interagem dentro de um ambiente socioeconômico-cultural e que o adoecimento é um desequilíbrio que acontece quando existe um conflito da consciência com o inconsciente. Com esse olhar holístico, ela vai em busca do sentido dos sintomas, que são um sinal de desordem.</p>
<p>Quais seriam essas desordens na psique do alcoolista?</p>
<p>Qual seria a razão desse desejo irresistível em beber?</p>
<p>O que leva uma pessoa a chegar ao fundo do poço e mesmo assim querer continuar a beber?</p>
<p>Podemos pensar simbolicamente que a alma que não se embriaga com a vida, necessita embriagar-se com o álcool? Boa leitura!</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><em>Beber começa como um ato de vontade, caminha para um hábito e finalmente afunda na necessidade. </em></p><cite>Benjamin Rush</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: A Psicossomática considera o indivíduo como um ser biopsicosocioespiritual, ou seja, sua parte psíquica, física e espiritual, interagem dentro de um ambiente socioeconômico-cultural e que o adoecimento é um desequilíbrio que acontece quando existe um conflito da consciência com o inconsciente. Com esse olhar holístico, ela vai em busca do sentido dos sintomas, que são um sinal de desordem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quais-seriam-essas-desordens-na-psique-do-alcoolista" style="font-size:18px"><a>Quais seriam essas desordens na psique do alcoolista?</a></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Qual seria a razão desse desejo irresistível em beber?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>O que leva uma pessoa a chegar ao fundo do poço e mesmo assim querer continuar a beber?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos pensar simbolicamente que a alma que não se embriaga com a vida, necessita embriagar-se com o álcool? Boa leitura!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Durante a minha vida, o alcoolismo foi uma sombra que me espreitava, às vezes, seguia silenciosamente os meus passos, em outras circunstâncias, lançava sua escuridão nos meus dias, tornando-os terríveis e desesperadores, como a mais densa, profunda e escura noite.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Inspirando-me em São João da Cruz posso dizer que esses momentos, apesar de avassaladores, foram extremamente benéficos e profícuos para que eu pudesse fortalecer a minha fé, unir-me a Deus e transformar todo aquele sofrimento em crescimento espiritual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando adulta, fui estudar para entender o conceito e a dinâmica do alcoolismo, que inicialmente, para mim, não passava de defeito de caráter, fraqueza e “falta de vergonha na cara”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eu via que algumas pessoas ingeriam uma quantidade de bebida alcóolica excessiva e só ficavam extremamente inconvenientes, enquanto outras, uma única dose comprometia totalmente seu organismo e sua vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Algumas pessoas apresentavam esse comportamento logo após vivenciarem uma situação muito estressante ou perda significativa, como a morte de um ente querido, uma separação conjugal, ou a saída dos filhos de casa, o que reforçava a intenção inconsciente da fuga ou alívio para sua dor, outros, entretanto, bebiam porque gostavam.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Após concluir a Pós-graduação de Psicologia Analítica e começar a atender, comecei a receber em minha clínica clientes que apresentavam questões com o álcool, alguns dependentes e outros como codependentes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-durante-os-atendimentos-eu-pude-perceber-que-existia-uma-dor-profunda-e-muitas-vezes-inacessivel" style="font-size:18px">Durante os atendimentos eu pude perceber que existia uma dor profunda e muitas vezes inacessível.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A pessoa até apresentava a intenção de parar de beber, mas, existia algo dentro dela que a dominava, que subjugava suas forças e na primeira oportunidade, ela simplesmente se rendia e afogava suas mágoas e suas dores na bebida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eu observava também que algumas dessas pessoas que ficavam com esse comprometimento que se iniciava no corpo físico, ampliava-se para o escopo emocional, afetava a vida familiar, profissional e espiritual, não abandonavam esse vício, mesmo sendo ele tão destrutivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eu me perguntava se era uma questão de personalidade, de falta de vontade, de caráter, ou se existia um componente biológico, mental ou psicológico que as aprisionavam nessa dinâmica, nessa compulsão obsessiva que prejudicava não só o alcoolista, mas a sua família, o seu ambiente profissional e a sociedade de forma geral.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eu também pude observar que esse movimento de sobriedade (consciência) e embriaguez (inconsciência) era rítmico e cada vez mais intenso. Com o passar do tempo era necessário uma dose maior e com isso, os sintomas se intensificavam, ficavam mais visíveis e muito mais perturbadores e inconvenientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que antigamente afetava só a mente e o corpo do indivíduo, começava a prejudicar sua vida familiar, profissional e social. Gota a gota, dose a dose, o problema vai pingando, transbordando e inundando tudo ao seu redor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-uso-abusivo-do-alcool-e-um-dos-principais-problemas-da-sociedade-atual" style="font-size:21px">O uso abusivo do álcool é um dos principais problemas da sociedade atual.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Apesar de ser uma droga psicotrópica, ou seja, provoca mudança no comportamento do usuário, o álcool é legalmente comercializado e seu consumo é amplamente aceito socialmente e estimulado por intensa propaganda.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O uso do álcool em excesso provoca o rebaixamento da consciência e como os seus efeitos iniciam-se no cérebro, com a alteração do Sistema Nervoso Central, o indivíduo entra num processo de deterioração que afeta a percepção, coordenação e funções motoras, perda de memória e progressivamente, intoxicação das células do corpo, comprometimento do sistema imunológico e em estágios mais avançados da doença, pode ocorrer a destruição de órgãos vitais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O Alcoolismo é conhecido cientificamente como a Síndrome de Dependência de Álcool (SDA), ele é um grave problema de saúde pública, pois acarreta o aumento nos índices de acidentes no trabalho e no trânsito, com a intensificação de sua gravidade, eleva a violência urbana, além de aumentar os atendimentos médicos realizados pelos CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial &#8211; Álcool e Drogas), sendo considerado um dos transtornos mentais mais prevalecentes na sociedade. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-de-ser-amplamente-estudado-e-ter-um-quadro-clinico-bem-estabelecido-muitas-vezes-a-sda-passa-despercebida-mesmo-em-avaliacoes-psiquiatricas-cf-gigliotti-2004" style="font-size:18px">Apesar de ser amplamente estudado e ter um quadro clínico bem estabelecido, muitas vezes, a SDA passa despercebida mesmo em avaliações psiquiátricas. (Cf. GIGLIOTTI, 2004)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A psicossomática nos auxilia a entender melhor a dinâmica do alcoolismo, pois ela vê o homem de forma holística e tem como objetivo, encontrar o sentido dos sintomas e não necessariamente suas causas. O sintoma é um sinal de desordem.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A consciência se desequilibra e isso se torna visível e palpável na forma de sintomas corporais e, para tanto, torna-se necessário apurarmos a escuta desse sintoma. A partir disso, podemos pensar a doença e a cura como refletindo estados de consciência. A doença seria a perda da harmonia ou de uma ordem até então conquistada e, nesse caso, a cura não seria a vitória sobre o sintoma, mas ela teria como pressuposto uma expansão da consciência, isto é, nossa própria busca da totalidade. (GUARNIERI, 2024, p. 4)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quais seriam as desordens na psique do alcoolista? O que esses sintomas querem mostrar? Qual seria a razão desse desejo irresistível em beber? O que leva uma pessoa a “chegar ao fundo do poço” e mesmo assim querer continuar a beber? Podemos pensar simbolicamente que a alma que não se embriaga com a vida, necessita embriagar-se com o álcool?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung (2013a, p. 281) afirma que o corpo e a alma são supostamente um par de opostos, constituindo uma só realidade e expressando uma só entidade, cuja natureza não é possível se conhecer.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-o-corpo-nada-significa-sem-a-psique-da-mesma-forma-que-a-psique-nada-significa-sem-o-corpo-in-spinelli-2010-p-77" style="font-size:18px">Para Jung “O Corpo nada significa sem a psique, da mesma forma que a psique nada significa sem o corpo” (In SPINELLI, 2010, p. 77).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O indivíduo é considerado um ser biopsicosocioespiritual, ou seja, sua parte psíquica, física e espiritual, interagem dentro de um ambiente socioeconômico-cultural.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&nbsp;O adoecimento é um desequilíbrio que acontece quando existe o conflito da consciência com o inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Milam</strong> (1986) elenca como fatores predisponentes para o alcoolismo: o metabolismo anormal, a preferência por álcool, a hereditariedade, a influência pré-natal e as suscetibilidades étnicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No tocante ao metabolismo anormal, os alcóolatras apresentam o mau funcionamento das enzimas do fígado, o que dificulta a eliminação do álcool pelo organismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em relação à preferência por álcool, cada pessoa reage de forma diferente ao gosto e aos efeitos da substância.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Outro fator predisponente que, apesar das provas, alguns profissionais e pesquisadores relutam em aceitar, é a hereditariedade, mas estudos do psiquiatra e pesquisador Donald Goodwin constatam que o alcoolismo é transmitido dos pais para os filhos através dos genes. <a href="#_ftn1" id="_ftnref1">[1]</a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Goodwin evidenciou que os filhos de alcóolatras tem um risco quatro vezes maior de contrair a doença do que os filhos dos não-alcóolatras, e mesmo, os filhos de pais não-alcóolatras, apresentaram taxas relativamente baixas, mesmo quando criados por pais adotivos alcóolatras. (Cf. MILAM, 1986, p. 46-47)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Outro fator predisponente é a Influência Pré-Natal. A grávida ao beber faz com que o feto beba junto, isso pode causar ao feto a Síndrome Alcóolica Fetal (SAF) e poderá tornar o bebê dependente ainda no ventre.</p>



<h2 class="wp-block-heading is-style-large" id="h-o-recem-nascido-e-de-fato-um-alcoolatra-anos-mais-tarde-quando-tomar-seu-primeiro-drinque-podera-sentir-uma-reativacao-instantanea-de-sua-dependencia-milam-1986-p-49" style="font-size:18px">“O recém-nascido é, de fato, um alcóolatra. Anos mais tarde, quando tomar seu “primeiro” drinque, poderá sentir uma reativação instantânea de sua dependência” (MILAM, 1986, p. 49).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Um fator que também aparece nas pesquisas é a suscetibilidade étnica ao álcool. Foram constatadas diferenças extremas nos índices de alcoolismo e reações fisiológicas ao álcool entre vários grupos étnicos. Outra descoberta recente é que “<em>existe um relacionamento direto entre a extensão do tempo que um grupo étnico esteve exposto ao álcool e a taxa de alcoolismo dentro desse grupo</em>” (MILAM, 1986, p. 50).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A evidência científica indica claramente um intercâmbio dos diversos fatores hereditários, fisiológicos &#8211; metabólicos, hormonais e neurológicos que atuam em conjunto e assim determinam a suscetibilidade do indivíduo ao alcoolismo. Seria um engano simplificar as interações no organismo, fazendo parecer que um gene específico, ou uma enzima, ou um hormônio é o único responsável por uma cadeia de eventos que conduzem em linha reta à dependência física e ao alcoolismo. (MILAM, 1986, p. 51)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-milam-corrobora-dessa-maneira-com-o-conceito-da-psicossomatica-que-afirma-ser-o-individuo-um-ser-biopsicosocioespiritual-em-que-todas-as-partes-estao-integradas-e-conectadas" style="font-size:18px">Milam corrobora dessa maneira com o conceito da Psicossomática, que afirma ser o indivíduo um ser biopsicosocioespiritual, em que todas as partes estão integradas e conectadas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essas esferas não podem ser separadas e quando há um desequilíbrio entre a consciência e a inconsciência, surge o sintoma, que poderá se manifestar em qualquer uma das partes, pois não há separação entre energia e a matéria, entre o psíquico e o somático e entre o corpo e o espírito. (Cf. ROMANO, 2025)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-independentemente-da-esfera-em-que-se-manifeste-todos-esses-sintomas-tem-como-fator-desencadeante-primordial-o-complexo-constelado" style="font-size:18px">Mas independentemente da esfera em que se manifeste, todos esses sintomas têm como fator desencadeante primordial o complexo constelado.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que é, portanto, cientificamente falando, um &#8220;complexo afetivo&#8221;? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua tonalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, comporta-se, na esfera do consciente, como um corpus alienum (corpo estranho), animado de vida própria. <strong>Com algum esforço de vontade, pode-se, em geral, reprimir o complexo, mas é impossível negar sua existência, e na primeira ocasião favorável ele volta à tona com toda a sua força original.</strong> (JUNG, 2013a, p. 43-44. Grifos meus).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esta é exatamente a dinâmica vivenciada pelo alcoolista, ele até pode negar sua impotência diante do álcool, pode reprimir seu desejo, mas a compulsão, ou seja, essa necessidade mórbida, essa incapacidade de resistir a esse impulso, o domina como uma obsessão, aumentando sua ansiedade e impelindo-o ao comportamento repetitivo, que é o ato de beber.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos associar essa perda de controle do alcoolista em relação a bebida, com a ação do complexo quando constelado, que afetado por uma forte emoção, apresenta vontade própria e um grau elevado de autonomia, atuando com vida própria e por conter forte carga emocional, perturba totalmente o funcionamento da consciência, sendo impossível negar sua existência.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O complexo afetado vai se constelar, ou seja, ganhará uma estrutura de disponibilidade, expectativa e prontidão à reação, que se dará a partir dos parâmetros definidos por experiências anteriores. Quando isso se dá, o complexo se revitaliza e se atualiza, aglutinando o resultado desta nova experiência em torno de si. A partir deste mecanismo, o complexo assume uma espécie de magnetismo para vivências semelhantes, que envolvam a mesma temática. A cada repetição, ele se cronifica: ganha mais vigor e, mais robusto, é capaz de atrair novas experiências que o confirmem e o atualizem. Essa autodeterminação e coerência interior conferirão ao complexo um grau de autonomia, como uma nova personalidade fragmentada e alheia às vontades do ego, que atuará a depender da carga de energia psíquica que conseguem deter no determinado momento. (ANTONIOLI, 2024, p. 10)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos fazer uma analogia dessa nova personalidade fragmentada, que é uma característica do complexo quando está ativo, com o comportamento de uma pessoa que está sob o efeito do álcool, pois ela age como se fosse outra entidade totalmente diferente, é como se ela realmente tivesse adquirido outra personalidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-irmandades-de-autoajuda-os-comportamentos-dos-adictos-sao-classificados-metaforicamente-da-seguinte-forma" style="font-size:18px">Nas Irmandades de autoajuda, os comportamentos dos adictos são classificados metaforicamente da seguinte forma:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>1ª fase</strong>: É a fase do Pavão, onde o indivíduo começa a beber para desinibir-se, para perder a vergonha, sentir-se charmoso e para chamar a atenção.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos associar essa fase à necessidade de superação do complexo de inferioridade, de timidez ou de insegurança.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <strong>2ª fase</strong> é conhecida como a do Macaco, onde a pessoa é o bobo da corte, é aquele indivíduo que faz todos os outros rirem devido ao seu comportamento ridículo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aqui podemos associar a necessidade do indivíduo em ser aceito, em pertencer ao grupo e de ofuscar o complexo de rejeição ou de abandono.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <strong>3ª fase</strong> é tida como a do Leão. O indivíduo se julga valente, quer agredir e brigar com todo mundo e arrumar confusão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos vincular esse comportamento ao desejo de poder e de autoridade do indivíduo, que quando sóbrio, normalmente é uma pessoa com dificuldade em expor suas vontades e opiniões, evita enfrentar conflitos e até apresenta aspectos de covardia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <strong>4ª fase</strong> é a o Porco. Nessa fase o indivíduo perde o autocuidado e não se importa mais com a aparência ou com a sua condição física.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aqui podemos dizer que a baixa autoestima se apoderou do indivíduo, nada, nem ninguém, (família, saúde, trabalho, estudo) importam para ele, o único foco de interesse é a bebida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <strong>5ª fase</strong> é reconhecida como a do Rato. O indivíduo perde sua dignidade e “chega ao fundo do poço”, mas ele está tão devastado pela doença que nem consegue perceber isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos dizer que esse momento da dependência é como se uma das personalidades fragmentadas estivesse conduzindo o indivíduo diretamente aos braços da morte.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assim-e-a-potencia-do-complexo-se-desejarmos-uma-comparacao-medica-nada-melhor-do-que-comparar-os-complexos-com-as-infeccoes-ou-com-tumores-malignos-que-nascem-sem-a-minima-participacao-da-consciencia-jung-2013a-p-48" style="font-size:18px">Assim é a potência do complexo: “Se desejarmos uma comparação médica, nada melhor do que comparar os complexos com as infecções ou com tumores malignos que nascem sem a mínima participação da consciência” (JUNG, 2013a, p. 48).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos traçar um paralelo do complexo com a vontade de beber do alcoolista, a parte consciente sabe que precisa parar de beber, que ele é impotente em relação ao álcool e que sua vida está se tornando incontrolável, mas a parte inconsciente o domina e o impele no sentido contrário, fazendo com que ele seja subjugado por essa compulsão patológica, que é o ato de beber.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como diz Jung (2013a), “<em>Não possuímos os complexos, eles que nos possuem”, e para concluir essa reflexão, podemos parafraseá-lo dizendo, “Não é o alcoolista que bebe, é a bebida que o traga</em>”.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Afogando as mágoas no álcool e sendo tragado por ele&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/UgaAO8Kfio0?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-santos/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-santos/">Cristiane dos Santos &#8211; Analista Junguiana em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">ANTONIOLI, Luciana. <em>Os Complexos e o Simbolismo do Adoecimento</em><em>.</em>Curso dePsicossomática, IJEP. São Paulo, 2024. Apostila de aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DIEHL, A. et al. <em>Dependência Química: </em>prevenção, tratamento e políticas públicas. Porto Alegre: Artmed, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GIGLIOTTI, A e BESSA, M. A. <em>Síndrome de dependência do álcool</em>: critérios e diagnósticos, Rev. Bras. Psiquiatr. 26 (1): 11-13, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://doi.org/10.1590/S1516-44462004000500004">https://doi.org/10.1590/S1516-44462004000500004</a> acessado em 16/07/2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUARNIERI, Maria Cristina. <em>Introdução à Psicossomática</em>. Curso de Psicossomática, IJEP. São Paulo, 2024.Apostila de aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A Natureza da Psique.</em> 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>MILAM, James Robert; KETCHAM, Katherine. Alcoolismo: Os mitos e a realidade. 2.ed. São Paulo</em>: Nobel, 1986.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RAMOS, Denise Gimenes. <em>A psique do corpo</em>: A dimensão simbólica da doença. 4.ed. São Paulo: Summus Editorial, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ROMANO, Lia Rachel B. <em>Psiconeuroendocrinoimunologia e adoecimento. </em>Curso dePsicossomática, IJEP. São Paulo, 2024. Apostila de aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______<em>Revisão de Psicossomática</em>. Curso de Psicossomática, IJEP. São Paulo, 2025.Apostila de aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SPINELLI, Maria Rosa (Org.). <em>Introdução à Psicossomática</em>. São Paulo: editora Atheneu, 2010.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Donald Goodwin, <em>Is Alcohism Hereditary? </em>(Nova York: Oxford University Press, 1976)</p>



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		<title>Psicossomática: O Sentido de Adoecer</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/psicossomatica-o-sentido-de-adoecer/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 02 Apr 2022 13:12:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Psicossomática</strong> não deveria ser usada como um adjetivo para qualificar alguns tipos de doenças. Porque, para os estudiosos que abordam o ser humano de forma integral, <strong>psicossomática</strong> é um substantivo presente em toda forma de adoecimento, incluindo todos os tipos de sintomas físicos, mentais, relacionais, familiares, profissionais, sociais e espirituais. Por isso, pode-se afirmar com total segurança de que qualquer sintoma é uma espécie de secreção simbólica que, de forma violenta, viola o aparente equilíbrio do indivíduo para poder revelar, à sua consciência, os segredos secretos do seu amor ferido. Ou seja, <strong>o sintoma é um dos meios que a natureza psíquica utiliza para denunciar à consciência egóica de que o indivíduo está cindido, desintegrado, separado ou dividido neuroticamente.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa premissa, quando surge qualquer tipo de sintoma, ates de eliminá-lo, devemos transformá-lo em um guia para o autoconhecimento, para evitarmos seu reaparecimento recorrente ou o surgimento de novos sintomas mais graves e mórbidos. Porém, em função da nossa sociedade estar cada vez mais fascinada e, consequentemente, dominada pelo racionalismo científico, que pretende normatizar tudo para manter a normalidade estática de tudo, e pelo capitalismo neoliberal, que transforma tudo em negócio, objetivando lucro, acúmulo e poder excludente, compreender psicossomaticamente os sintomas acaba sendo muito ruim, pois irá expor toda doença nossa contemporânea, denunciando o quanto que o normal está distante do natural, que é dinâmico e evolutivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Intimamente sabemos que a natureza não pode ser controlada por muito tempo, e ao nos <strong>tornarmos mais flexíveis, abrindo mão da ilusão do controle, diminuirão a exuberância das crises e do descontrole e, com isso, relativizaremos as normas. </strong>Portanto, os sintomas e as crises. Mas, quando surgem as crises e seus sintomas, é necessário fazermos uma boa anamnese, equivalente a recordar &#8211; relembrar ou rememorar as emoções &#8211; que estão associadas a cada sintoma, incluindo a análise simbólica do órgão, do sistema, da função ou do tecido doente, e as consequências deste sintoma, tanto no que o indivíduo deixou de fazer, quanto no que ele passou a fazer, além de uma enorme gama de análises que podem surgir, contribuindo para que a ferida secreta venha à tona.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com isso, nossas mágoas podem ser choradas para evitarmos que outros olhos ou pessoas as chorem por nós. Assim como os ressentimentos, os sentimen-tos de culpa, inferioridade, abandono, desejos de vingança, ansiedade ou medo, podem ser reconhecidos, ressignificados e superados. Só assim a pessoa poderá envelhecer com bom humor, condição essencial para que o sistema imunológico atue eficientemente, pois está comprovado que ele reage imediatamente a qualquer tipo de situação onde esses <strong>aspectos negativos estão atuantes no psiquismo do indivíduo</strong>, deixando de ser funcional, chegando até a se voltar contra o próprio orga-nismo, como é o caso das doenças autoimunes.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Nossa imunovigilancia é absolutamente capaz de nos deixar protegidos de qualquer agende antigênico</strong> &#8211; de genética diferente da nossa &#8211; eliminando eficazmente qualquer tipo de vírus, bactéria, fungo e até vermes nocivos. Além disso, o sistema imunológico também tem competência de localizar e eliminar toda célula aberrante que surge em decorrência do contínuo e natural processo de renovação celular, onde a cada dia morre (por apoptose ou necrose) e nasce (por repasse mitótico) cerca de um 1trilhão (principalmente, em tecidos epiteliais e conjuntivos, responsáveis pelos revestimentos e pela sustentação do corpo), das 100 trilhões de células que possuímos.&nbsp; Sem esquecermos que temos dez vezes mais microrganismos do que células, pertencentes a centenas de espécies, vivendo simbioticamente em nosso organismo, também regulados pelo sistema imunológico que, por sua vez, é absolutamente sensível às influencias negativas do humor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas considerações servem para mostrar a magnitude e a importância do conhecimento e da prática da <strong>psicossomática</strong> no âmbito da saúde. Por tudo isto o profissional de saúde, independente da sua área de atuação, especialização ou formação, deveria estar consciente dessas implicações para poder atuar, o melhor possível, diante de todas as queixas trazidas por seus clientes, evitando a simples supressão sem o bônus do autoconhecimento, advindo da ampliação simbólica do mesmo. Além de adquirir a flexibilidade do relacionamento humano e a capacidade de doação, onde os critérios técnicos são substituídos pela força da ligação afetiva em busca da cura, que equivale à integração dos opostos por meio do autoconhecimento, onde o natural pode se expressar livremente no normal ou, infelizmente, na atual normose coletiva.</p>



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		<title>Psicossomática: Realidade Subjacente de Toda Doença</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/psicossomatica-realidade-subjacente-de-toda-doenca/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 02 Apr 2022 12:49:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
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		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Muitos profissionais das áreas da saúde, equivocadamente, continuam fazendo distinção entre doença&#160;psicossomática&#160;e somatopsíquica. Isso é um absurdo, porque o ser humano tem que ser compreendido de forma integral. Não existe nenhuma expressão de adoecimento sem uma correspondência psíquica, consciente ou inconsciente. Mente e corpo estão presentes e inseparáveis nos contextos sociais, familiares, profissionais, relacionais e [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Muitos profissionais das áreas da saúde, equivocadamente, continuam fazendo distinção entre doença&nbsp;<strong>psicossomática</strong>&nbsp;e somatopsíquica. Isso é um absurdo, porque o ser humano tem que ser compreendido de forma integral. Não existe nenhuma expressão de adoecimento sem uma correspondência psíquica, consciente ou inconsciente. <strong>Mente e corpo estão presentes e inseparáveis nos contextos sociais, familiares, profissionais, relacionais e espirituais, podendo adoecer e sofrer de sintomas em todas estas instancias, assim como curando-se juntas.</strong> Por isso, sempre afirmo que os sintomas, sejam eles quais forem e em de que forma se presentificam, no corpo, na mente ou nas relações interpessoais, devem ser compreendidos como expressões simbólicas que denunciam que a pessoa está num caminho equivocado, em dissonância com o sentido e o significado de sua existência, produzindo feridas no amor próprio!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a <strong>psicologia analítica</strong> de<strong> Carl Gustav Jung</strong>,<strong> os sintomas, sejam quais forem, são expressões dos complexos.</strong> São resultantes dos conflitos entre o ego e o inconsciente, com características universais, no que tange o âmbito do coletivo, e totalmente idiossincrásicos, por conta do inconsciente pessoal. Esse é o paradoxo humano: ser totalmente diferente e absolutamente igual! Por isso, apesar do mesmo nome do sintoma ou doença, cada doente é único, complexo e indivisível, devendo ser tratado como tal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha experiência clinica com seres humanos feridos, me deixa seguro para afirmar essa premissa. Da mesma forma, também posso assegurar que depois de iniciarmos o processo de análise, simbolizando os sintomas de adoecimento e compreendendo porque determinados afetos desencadeiam emoções capazes de ativar a manifestação dos sintomas, o complexo desencadeador das doenças começa a perder sua força e autonomia. É interessante percebermos que por trás de cada sintoma de adoecimento existe um conflito, aquilo que os psicopatologistas chamam de egodistônia. Ou seja, existe uma incongruência entre a natureza do ser, seus pensamentos, impulsos, atitudes, comportamentos e sentimentos, que estão contrariando, indignando e perturbando a própria pessoa. Neste momento quero deixar explicito que estar absolutamente egosintônico pode ser tão patológico quanto estar exageradamente egodistônico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante de conflitos existênciais, por conta da falta de autoconhecimento e sua respectiva autoconsciência, de forma reativa, defensiva e estéril, as pessoas acabam ficando alienadas de si mesmas e enredadas nos conflitos improdutivos e seus respectivos complexos, entorpecidas e identificadas em uma das quatro tendências reativas: ataque, fuga, paralisia ou submissão. Em minha opinião, cada uma delas é geradora de um alvo de adoecimento. É obvio que não pretendo criar um modelo reducionista nem um manual ou tabela de causa e efeito, mas essas tendências, associadas com a ampliação simbólica do sintoma, podem ser muito benéficas para o processo de cura. Reiterando que compreendo a cura não como sinônimo de supressão dos sintomas, perfeição, pureza ou saúde plena e inabalável, porque a cura representa a integralidade, a plenitude consciente do ser, que sabe e aceita sua sombra e complexos e aprendeu a viver de forma consciente e consistente para si mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analiticamente, podemos refletir que o conflito entre a natureza íntima com o impulso de ataque, diante de uma crise, onde o indivíduo está interditado dessa atitude, pode produzir hipertrofias. Porque para atacar é necessário adquirir massa. Por sua vez, o conflito de submissão pode desencadear inflamações, para &#8220;drenar&#8221; tudo que está sendo absorvido contraditoriamente. Fugir, pode causar disfunções, porque para fugir é necessários esvaziar, liberar os esfíncteres. Se o conflito for o de ficar paralisado, na famosa atitude do &#8220;deixa quieto para vermos o que vai acontecer&#8221; ou &#8220;fingindo-se de morto&#8221;, provavelmente surgirão escleroses, atrofias e cálculos, metaforicamente, pedras. Aliás, tudo deve ser compreendido metaforicamente. Com essa análise estamos simbolizando tanto o corpo quanto suas funções e sintomas de adoecimento. Essa é a tônica da<strong>&nbsp;Psicologia Junguiana</strong>, lançar o olhar e a escuta simbólica, imaginal e metafórica. Com isso vamos ampliando a consciência, aproximando o ego do self.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada órgão ou sistema tem sua especificidade, sua função e responsabilidade com a totalidade biológica. Ao compreendermos simbolicamente que o estomago tem que digerir, o intestino delgado absorver, o intestino grosso eliminar, a boca ingerir, o pulmão trocar o ar, os rins filtrar, os ossos sustentar e assim por diante. Com isso, poderemos começar fazer a ampliação simbólica do sintoma, associando-o com a forma inicial da manifestação do adoecimento, que varia entre disfunção, hipertrofia, esclerose ou inflamação. Nesta dinâmica estaremos nos aproximando do núcleo conflituoso gerador do complexo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, podemos reafirmar o aforisma de Hipócrates, que afirma: <strong>&#8220;O que te fere é o que te cura&#8221;. </strong>Nessa premissa, quando surge qualquer tipo de sintoma, antes de eliminá-lo, devemos transformá-lo em um guia para o autoconhecimento, para evitarmos seu reaparecimento recorrente ou o surgimento de novos sintomas mais graves e mórbidos. Porém, em função da nossa sociedade estar cada vez mais fascinada e, consequentemente, dominada pelo racionalismo científico, que pretende normatizar tudo para manter a normalidade estática de tudo, e pelo capitalismo neoliberal, que transforma tudo em negócio, objetivando lucro, acúmulo e poder excludente, compreender psicossomaticamente os sintomas acaba sendo muito ruim, pois irá expor a doença contemporânea, denunciando o quanto que o normal está distante do natural, que é dinâmico e evolutivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas considerações servem para mostrar a magnitude e a importância do conhecimento e da prática da&nbsp;<strong>psicossomática</strong>&nbsp;no âmbito da saúde. Por tudo isto o profissional de saúde, independente da sua área de atuação, especialização ou formação, deveria estar consciente dessas implicações para poder atuar, o melhor possível, diante de todas as queixas trazidas por seus clientes, evitando a simples supressão do sintoma, sem o bônus do autoconhecimento, advindo da ampliação simbólica do mesmo.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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