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	<title>Arquivos Solitude - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Wed, 11 Feb 2026 12:14:26 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Solitude - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Existe solitude?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/existe-solitude/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Feb 2026 12:06:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Solidão]]></category>
		<category><![CDATA[Solitude]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A solidão, longe de ser apenas um estado emocional, tornou-se um dos grandes desafios da saúde mental contemporânea, associada ao aumento de depressão, ansiedade, suicídio e declínio cognitivo. Diante desse cenário, ganha força a ideia de “solitude” como um estar só supostamente positivo e criativo. Questionamos o porquê e o significado dessa oposição gramatical. E com base em Jung, dados científicos, música e poesia, sugerimos uma reflexão: talvez a “solitude” não seja um contraponto à solidão, mas um parceiro necessário para que possa cumprir uma missão, permitir a integração das sombras, individuais e coletivas.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: A solidão, longe de ser apenas um estado emocional, tornou-se um dos grandes desafios da saúde mental contemporânea, associada ao aumento de depressão, ansiedade, suicídio e declínio cognitivo. Diante desse cenário, ganha força a ideia de “solitude” como um estar só supostamente positivo e criativo. Questionamos o porquê e o significado dessa oposição gramatical. E com base em Jung, dados científicos, música e poesia, sugerimos uma reflexão: talvez a “solitude” não seja um contraponto à solidão, mas um parceiro necessário para que possa cumprir uma missão, permitir a integração das sombras, individuais e coletivas.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-center" id="h-solid-a-o-que-nada-viver-e-bom" style="font-size:18px">“<em>Solid</em><em>ã</em><em>o que nada, viver é bom”.</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Estas são as palavras de Cazuza. E de imediato, percebemos que a vírgula introduz um contraponto. Se viver é bom, então o que vem antes, a solidão, é obrigatoriamente ruim. Ele parece nos dizer que tudo aquilo que ele relata da vida de artista nessa música que fez em parceria com George Israel e Nilo Romero, as partidas e as chegadas, as diárias de hotéis e os quartos, em princípio vazios, haveriam de parecer um sacrifício, mas que, em verdade, são oportunidades de encontros, crescimento e alegria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-mistura-de-estar-so-com-bem-estar-ha-quem-chame-de-solitude" style="font-size:18px">Essa mistura de estar só com bem-estar, há quem chame de <em>solitude</em>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A palavra solitude carrega consigo uma carga histórica, cultural e psicológica significativa. Tradicionalmente, é compreendida como a experiência de estar só ou, mais profundamente, de sentir-se isolado do convívio e do reconhecimento do outro. Não por acaso, é uma das condições humanas mais temidas e evitadas, pois remete ao vazio, à ausência e, muitas vezes, ao sofrimento psíquico. Em oposição, o termo <em>solitude</em> se popularizou nos últimos tempos para tentar diferenciar a solidão “sofrida” de uma suposta solidão “escolhida” ou “produtiva”. <em>Solitude</em> seria, então, o estado de estar só, mas em paz, desfrutando de si mesmo, enquanto solidão representaria o sofrimento pela ausência do outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este significado para a palavra <em>solitude</em> já consta em vários dicionários, o que lhe confere uma legitimidade; no entanto, se procurarmos analisar a essência e os conceitos por trás dela, ao comparar a etimologia das duas palavras, encontramos que:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:18px">Solitude vem do latim&nbsp;<em>solitū</em><em>do,</em><em>īnis</em>&nbsp;&#8216;solidão, retiro&#8217;;</li>



<li style="font-size:18px">Solidão vem do latim&nbsp;<em>solitū</em><em>do,</em><em>īnis</em>&nbsp;&#8216;solidão, retiro; desamparo, abandono&#8217;;</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Lemos no dicionário <em>Oxford</em> <em>Language</em> que ambas têm a mesma raiz latina, que significa “estado de estar só”. O termo <em>solitude</em>, incorporado ao português por influência de línguas estrangeiras (especialmente do inglês <em>solitude</em> e do francês <em>solitude,</em> que significa literalmente solidão), não traz, em sua origem, uma distinção positiva em relação à solidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas então, se não tem na base nenhuma diferença, se a distinção entre solidão e <em>solitude</em> não se sustenta etimologicamente, por que a língua brasileira sentiu necessidade de inventar uma nova palavra a partir da mesma raiz, mas derivando-a de maneira em aparência totalmente oposta?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Vamos desenvolver aqui uma reflexão a este respeito e procurar entender se a arte, especialmente a poesia e a música popular, e a psicologia analítica, conseguem nos ajudar a entender esse mistério da linguística moderna.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esta-reflexao-me-veio-apos-ouvir-novamente-a-frase-bem-conhecida-do-jung" style="font-size:18px">Esta reflexão me veio após ouvir novamente a frase bem conhecida do Jung:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>A solid</em><em>ã</em><em>o n</em><em>ão significa a aus</em><em>ê</em><em>ncia de pessoas </em><em>à </em><em>nossa volta, mas sim o fato de não podermos comunicar-lhes as coisas que julgamos importantes, ou mostrar-lhes o valor de pensamentos que lhes parecem improv</em><em>á</em><em>veis. (JUNG, 2016, p. 349)</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Pouco à frente ele acrescenta:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>A solid</em><em>ã</em><em>o n</em><em>ã</em><em>o significa necessariamente oposi</em><em>çã</em><em>o à </em><em>comunidade; ningu</em><em>é</em><em>m sente mais profundamente a comunidade do que o solit</em><em>á</em><em>rio, e esta s</em><em>ó </em><em>floresce quando cada um se lembra de sua pr</em><em>ó</em><em>pria natureza, sem identificar-se com os outros. (</em><em>JUNG, 2016, p. 349)</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung aqui não somente nos fala em conceitos e ideias intelectuais. Por “coisas” precisamos também entender sensações, sentimentos e dores de todas as naturezas. Esses pensamentos do Jung parecem trazer uma dupla perspectiva sobre a solidão. De um lado, a solidão nasce de não poder expressar algo que vem de dentro, quando o mundo interior se choca com o mundo exterior, mesmo quando cheio de gente. E, nesse caso, se sente só aquele que não encontra um ouvido competente, compassivo ou compreensivo. Mas ao mesmo tempo, o encontro com a própria natureza precisa de um afastamento do coletivo para acontecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É nesse recolhimento que certas verdades internas finalmente conseguem emergir, pois o silêncio e a ausência de estímulos externos abrem espaço para escutarmos a nós mesmos. Estar só permite que aspectos profundos da psique se tornem visíveis, revelando conteúdos que dificilmente afloram na presença constante do outro. Assim, a solidão, quando vivida conscientemente, pode transformar-se em um terreno fértil para reflexão e autoconhecimento. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E, quando o tema é solidão, algumas referências musicais vêm à minha mente, expressando também essas duas facetas da solidão. Isto parece corroborar a necessidade do uso de duas palavras. Aprofundemos mais um pouco. Imediatamente ouço na minha cabeça a voz de Marisa Monte cantando as palavras de Paulinho da Viola:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.4"><em>Solid</em><em>ã</em><em>o é </em><em>lava que cobre tudo;</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.4"><em>Amargura em minha boca, sorri seus dentes de chumbo</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.4"><em>Solid</em><em>ão, palavra cavada no coraçã</em><em>o;</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.4"><em>Resignado e mudo no compasso da desilusã</em><em>o.</em><em></em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esses-versos-dentro-dos-mais-bonitos-da-musica-popular-brasileira-ja-nos-dao-o-tom-para-muitos-a-solidao-doi-o-fato-de-estar-so-quando-imposto-pelo-outro-e-doloroso" style="font-size:18px">Esses versos, dentro dos mais bonitos da música popular brasileira, já nos dão o tom: Para muitos, a solidão dói. O fato de estar só, quando imposto pelo outro, é doloroso.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A solidão desponta como um fenômeno global e crescente que afeta pessoas de todas as idades, mas os dados recentes mostram que seu impacto precoce, especialmente na infância e adolescência, pode gerar efeitos duradouros sobre o desenvolvimento emocional, cognitivo e social. Jovens entre 13 e 29 anos já relatam níveis elevados de solidão, desmontando a ideia de que esse sofrimento pertence apenas à velhice e revelando vulnerabilidades intensas em fases de formação identitária. (Wang, J., Jiao, D., Zhao, X., et al., 2025).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-estudos-contemporaneos-indicam-que-experiencias-de-isolamento-na-infancia-aumentam-o-risco-de-depressao-ansiedade-e-ate-declinio-cognitivo-e-demencia-na-vida-adulta-reforcando-que-a-solidao-atua-de-forma-cumulativa-ao-longo-da-vida" style="font-size:18px">Estudos contemporâneos indicam que experiências de isolamento na infância aumentam o risco de depressão, ansiedade e até declínio cognitivo e demência na vida adulta, reforçando que a solidão atua de forma cumulativa ao longo da vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Somado a isso, a solidão está associada à mortalidade precoce em níveis comparáveis a fatores como tabagismo e sedentarismo, além de relacionar-se ao aumento de suicídios e sofrimento mental, especialmente em contextos de ruptura social e falta de apoio. Esses achados evidenciam que compreender e prevenir a solidão desde cedo é essencial para reduzir seus impactos profundos na saúde individual e coletiva. (Holt-Lunstad, J., Smith, T. B., Baker, M., Harris, T., &amp; Stephenson, D., 2015).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O <em>Harvard Study of Adult Development</em><em> </em>(WALDINGER, Robert J.; SCHULTZ, Marc, 2023), pesquisa realizada desde 1938, o mais longo estudo já realizado sobre vida adulta e felicidade, demonstra que pessoas com relacionamentos sociais fortes vivem mais, têm melhor saúde mental e física e apresentam menor risco de declínio cognitivo do que aquelas isoladas, colocando os vínculos afetivos acima de riqueza ou status como fator central de bem-estar.&nbsp; O estudo conclui que a ausência de conexões humanas profundas coloca indivíduos em clara desvantagem física e emocional ao longo da vida, reforçando que o oposto da solidão não é a presença de pessoas, mas a presença de relacionamentos significativos, comprovando o que C.G. Jung já nos havia dito.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo o diretor do estudo, Robert Waldinger, a solidão é tão prejudicial à saúde quanto tabagismo e abuso de álcool, contribuindo para maior mortalidade e sofrimento psicológico. Razão pela qual ele é categórico ao afirmar que “loneliness kills”: solidão mata.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-daquilo-que-nos-quer-matar-queremos-distancia" style="font-size:18px">E, daquilo que nos quer matar, queremos distância.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E se, estar só, como o disse Jung, é consequência do fato de não podermos compartilhar com os outros tudo aquilo que sentimos e pensamos, entendemos que a solidão vem sempre acompanhada, e também retroalimenta, o que ele chamou de Sombra.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-figura-da-sombra-personifica-tudo-o-que-o-sujeito-nao-reconhece-em-si-e-sempre-o-importuna-direta-ou-indiretamente-como-por-exemplo-tra-c-os-inferiores-de-car-a-ter-e-outras-tend-e-ncias-incompat-i-veis-jung-2016a-p-513" style="font-size:18px"><em>A figura da sombra personifica tudo o que o sujeito não reconhece em si e sempre o importuna, direta ou indiretamente, como por exemplo tra</em><em>ç</em><em>os inferiores de car</em><em>á</em><em>ter e outras tend</em><em>ê</em><em>ncias incompat</em><em>í</em><em>veis. (JUNG, 2016a , p.</em><em> 513)</em><em></em></h2>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando Carlos Drummond de Andrade diz poeticamente que “solidão gera inúmeros companheiros em nós”, poderíamos ouvir isso como se estivéssemos em uma aula sobre os fundamentos da psicologia analítica. A solidão gera o que Jung chamou de complexos, amalgamas autônomos de afetos agrupados em volta de um mesmo conceito e que para muitos tornam-se parceiros, infelizes cúmplices para a vida inteira.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas uma das características mais importantes da sombra e dos complexos, que formam o inconsciente pessoal, é que eles são partes constituintes do nosso ser. Como Jung disse singelamente em Prática da Psicoterapia (p. 146), “a sombra não existe sem a luz, o mal não existe sem o bem, e vice-versa”. Nós somos, portanto, feitos de tudo que gostamos em nós, das nossas qualidades, mas também daquilo que nos deixa desconfortáveis, dos desejos, vontades que temos dificuldade em aceitar, porque se chocam com a realidade e as necessidades dos outros e do mundo e que preferimos ignorar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E, o nosso processo de evolução, que alguns podem chamar de autoconhecimento e que em parte corresponde ao que Jung chamou de “processo de individuação”, que seria de forma resumida, o processo de “tornarmos nós quem nascemos para ser”, basicamente consiste em recuperar todos os conteúdos, todos os afetos, sentimentos, pensamentos, atitudes frustradas que jazem nas profundezas do inconsciente e trazê-los de volta para a luz da consciência para que a personalidade possa ser novamente unificada e completa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-isso-precisa-ser-feito-so-em-silencio" style="font-size:18px">E isso precisa ser feito só, em silêncio.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>O lado sombrio também pertence à minha totalidade, e ao tomar consciência da minha sombra, consigo lembrar-me de novo de que sou um ser humano como os demais. Em todo caso, com essa redescoberta da própria totalidade – que a princípio se faz em silêncio – fica restabelecido o estado anterior, o estado do qual derivou a neurose, isto é, o complexo isolado. (JUNG, 2014, p.143)</em><em></em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-se-a-psicologia-profunda-argumenta-cientificamente-a-poesia-e-a-musica-ciencias-populares-dos-que-sofrem-ja-o-dizia-ha-muito-tempo" style="font-size:18px">Se a psicologia profunda argumenta cientificamente, a poesia e a música, ciências populares dos que sofrem, já o dizia há muito tempo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Rolando Laserie o expressa perfeitamente na letra do bolero <em>Hola Soledad</em> que se tornou um clássico do novo flamenco na voz de Sandra Carrasco, aqui livremente traduzido para o português:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Olá, solid</em><em>ã</em><em>o,</em><em><br></em><em>N</em><em>ão me surpreende a tua presen</em><em>ça.</em><em><br></em><em>Quase sempre est</em><em>á</em><em>s comigo.</em><em><br></em><em>Te saú</em><em>da um velho amigo.</em><em><br></em><em>Este encontro </em><em>é </em><em>apenas mais um.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Olá, solid</em><em>ã</em><em>o,</em><em><br></em><em>Esta noite eu te esperava.</em><em><br></em><em>Embora eu nã</em><em>o te diga nada.</em><em><br>É </em><em>t</em><em>ão grande a minha tristeza,</em><em><br></em><em>Tu j</em><em>á conheces a minha dor</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Eu sou um p</em><em>á</em><em>ssaro ferido</em><em><br></em><em>Que chora sozinho no seu ninho</em><em><br></em><em>Porque n</em><em>ão pode voar.</em><em><br></em><em>E por isso estou contigo.</em><em><br></em><em>Solid</em><em>ão, eu sou teu amigo</em><em><br></em><em>Vem, vamos conversar.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A música nos faz mergulhar profundamente nas nossas emoções, emoções que são somente nossas, e que têm algo a dizer, se as podemos ouvir, lá, no fundo da alma, mas somente se silenciarmos a algazarra incessante da vida moderna.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-solidao-nos-convida-a-ter-uma-conversa-intima-conosco-mesmos" style="font-size:18px">A solidão nos convida a ter uma conversa íntima conosco mesmos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Georges Moustaki, cantor e poeta francês de origem egípcia, autor de mais de 300 canções disse em uma delas:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Pour avoir si souvent dormi avec ma solitude,<br>Je m&#8217;en suis fait presque une amie, une douce habitude.<br>Elle ne me quitte pas d&#8217;un pas, fidèle comme une ombre.<br>Elle m&#8217;a suivi ça et là, aux quatres coins du monde.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Non, je ne suis jamais seul avec ma solitude</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ai-aparece-a-solitude" style="font-size:18px"><strong>Aí aparece a </strong><strong>“</strong><strong>solitude</strong><strong>’</strong><strong>&#8230;</strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Pois é, mas a tradução literal nos mostra que o estar só não sempre é a personificação de um monstro perigoso, mas também uma presença companheira:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Por ter tantas vezes dormido com a minha solidã</em><em>o,</em><em><br></em><em>Acabei fazendo dela quase uma amiga, um doce h</em><em>á</em><em>bito.</em><em><br></em><em>Ela n</em><em>ão me deixa um s</em><em>ó </em><em>instante, fiel como uma sombra.</em><em><br></em><em>Ela me seguiu por toda parte, pelos quatro cantos do mundo.</em><em><br></em><em>N</em><em>ão, eu nunca estou sozinho com a minha solidã</em><em>o.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E em meio a tudo isso surge essa palavra nova, em contraponto, em oposição à solidão, e com ela, o paradoxo. Se a <em>solitude</em> se nutre da paz e da luz para permitir o crescimento, o que fazemos com a poeira debaixo do tapete, os afetos recalcados que não conseguimos mais enxergar, mas que são partes integrantes da gente?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E se relembrarmos Cazuza, poeta exagerado, procurando a felicidade nas curvas de todas as estradas, pelo menos como o mostravam os filmes a seu respeito e recortes de jornais e televisão, ele não era feliz. E parece que essa busca constante pelo contato com o outro, nada mais era que uma forma de driblar uma solidão da qual não conseguia dar conta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-aprendemos-a-fugir-do-que-amedronta-e-doi-e-um-reflexo-herdado-dos-tempos-antigos-nos-quais-ainda-eramos-frageis-e-cacados-por-criaturas-reais-mais-fortes-de-que-nos" style="font-size:18px">Nós aprendemos a fugir do que amedronta e dói. É um reflexo herdado dos tempos antigos nos quais ainda éramos frágeis e caçados por criaturas reais, mais fortes de que nós.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Apesar da evolução, ainda vive dentro de todos os <em>Homo Sapiens</em>, um ser reptiliano que mantém essas atitudes de preservação, esquivando-se dos monstros simbólicos, até imaginários que vivem dentro da gente, escondidos em nossa sombra.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“<em>N</em><em>ã</em><em>o é </em><em>de admirar que seja este o caso, uma vez que o reconhecimento mais elementar da sombra provoca ainda as maiores resist</em><em>ê</em><em>ncias no homem europeu contempor</em><em>âneo</em>” disse Jung (JUNG, 2016a, 486) explicando por que, por mais que necessário e exigido pelo processo de individuação, o encontro com a sombra é um processo complexo e às vezes improvável.</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neste-contexto-podemos-comecar-a-indagar-um-motivo-para-a-aparicao-da-solid-a-o" style="font-size:18px">Neste contexto podemos começar a indagar um motivo para a aparição da <em>solid</em><em>ã</em><em>o</em>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na sociedade contemporânea, a hiperconexão digital cria a ilusão de que estamos sempre acompanhados, cercados de mensagens, notificações, “amigos” virtuais e fluxos incessantes de informação, mas raramente presentes de fato uns para os outros. As redes sociais nos oferecem a sensação reconfortante de pertencimento imediato, enquanto, na prática, muitas interações permanecem superficiais, performáticas e desprovidas de intimidade. Vivemos um paradoxo: quanto mais conectados tecnologicamente, mais isolados afetivamente. A lógica da exposição constante transforma vínculos em vitrines e conversas em likes, substituindo a profundidade do encontro pelo consumo de imagens.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-cenario-a-solidao-nao-desaparece-apenas-se-disfarca" style="font-size:18px">Nesse cenário, a solidão não desaparece, apenas se disfarça.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A ausência de diálogo autêntico e de relações que sustentem nossa interioridade amplia o vazio psíquico, fazendo com que a “conexão” digital funcione muitas vezes como ruído, distração e anestesia para o medo de estarmos realmente sós. Uma característica dos meios de comunicação digitais é que eles são assíncronos, ou seja, a resposta não sempre se dá exatamente em seguida da pergunta, não permitindo uma verdadeira conexão emocional. Os afetos se desencontram e o clássico modelo projeção / contra projeção muda de fugura, podendo até deixar de existir. Na conversa presencial, as reações do interlocutor, afetam direto e imediatamente a pessoa. No virtual, o impacto emocional dos assuntos discutidos pode se diluir no tempo, a medida que as respostas demoram para chegar. Assim, um sentimento, mesmo quando claramente expressado, pode não encontrar ouvido e fica inevitavelmente absorvido pela sombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma análise recente posiciona a solidão de forma explícita como um desafio de saúde pública, reunindo evidências robustas de que ela aumenta tanto a morbidade quanto a mortalidade, e destacando a necessidade de políticas e intervenções que abordem o problema em múltiplos níveis. O estudo propõe ainda um “modelo de espectro da solidão”, que reconhece suas diferentes intensidades e manifestações ao longo da vida, facilitando a criação de estratégias preventivas e terapêuticas mais precisas e efetivas (Zeas-Sigüenza, A., Voldstad, A., Ruisoto, P., et al. 2025).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-portanto-uma-dimensao-coletiva-na-solidao" style="font-size:18px">Há, portanto, uma dimensão coletiva na solidão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Isso é meio subentendido. O fato de estar só pode ser percebido em contraponto a um grupo e, como os estudos mostram, a solidão de um único ser precisa tornar-se uma preocupação de todos. A solidão dói e amedronta, isto é um fato. Portanto precisamos da ideia, do conceito de <em>solitude</em> e do seu conforto desapegado para criar coragem de enfrentar momentos a sós, para esquecermos, durante um tempo, o medo de entrar em contato com os nossos lados sombrios, o que é necessário para evoluirmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas a leitura junguiana nos obriga a ficarmos atentos. A verdadeira superação da solidão não está em rebatizá-la, mas em aceitá-la com tudo o que ela traz à tona. A <em>solitude</em> que emergiu, na forma de uma palavra estrangeira, bonita, leve e descolada, não pode ser um meio de evitarmos a necessidade de enfrentar partes de nós mesmos para as quais não queremos olhar. A <em>solitude</em> não deve oferecer à sociedade brasileira um motivo politicamente correto de não encarar, sem ser taxada de covarde, a sombra coletiva contemporânea: A dificuldade de viver e de se relacionar no mundo moderno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deixo-os-com-o-poema-ausencia-de-carlos-drummond-de-andrade-2012" style="font-size:18px">Deixo-os com o poema Ausência de Carlos Drummond de Andrade (2012):</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>Por muito tempo achei que</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>a aus</em><em>ência é falta.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>E lastimava ignorante, a falta.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>Hoje n</em><em>ã</em><em>o a lastimo.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>N</em><em>ã</em><em>o h</em><em>á falta na aus</em><em>ência.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>A aus</em><em>ência é </em><em>um estar em mim.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>E sinto-a, branca, t</em><em>ã</em><em>o pegada,</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>Aconchegada nos meus bra</em><em>ç</em><em>os,</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>que rio e dan</em><em>ç</em><em>o e invento</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>exclama</em><em>çõ</em><em>es alegres,</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>porque a aus</em><em>ê</em><em>ncia assimilada,</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>ningué</em><em>m a rouba mais de mim.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>E pergunto-lhes: quantas solidões cabem nossas <em>solitudes</em>?</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Existe Solitude?" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/ku0WJeJUaFI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/sebastienbaudry/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/sebastienbaudry/">Sebastien Baudry &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Guarnieri &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px">REFERÊNCIAS:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Site agência brasil: <a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-07/oms-uma-em-cada-seis-pessoas-no-mundo-e-afetada-pela-solidao?utm_source=chatgpt.com">OMS: uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão | Agência Brasil</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Site CNN Brasil: <a href="https://www.cnnbrasil.com.br/saude/solidao-causa-quase-1-milhao-de-mortes-por-ano-diz-oms/?utm_source=chatgpt.com">Solidão causa quase 1 milhão de mortes por ano, diz OMS | CNN Brasil</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Site do Governo&nbsp; federal: <a href="https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/setembro/anualmente-mais-de-700-mil-pessoas-cometem-suicidio-segundo-oms?utm_source=chatgpt.com">Anualmente, mais de 700 mil pessoas cometem suicídio, segundo OMS — Ministério da Saúde</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Site do Tribunal de justiça do distrito federal: <a href="https://www.tjdft.jus.br/informacoes/programas-projetos-e-acoes/pro-vida/dicas-de-saude/pilulas-de-saude/setembro-amarelo-2025-se-precisar-peca-ajuda?utm_source=chatgpt.com">Setembro Amarelo 2025: se precisar, peça ajuda! — Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Holt-Lunstad, J., Smith, T. B., Baker, M., Harris, T., &amp; Stephenson, D. (2015). <em>Loneliness and social isolation as risk factors for mortality: A meta-analytic review.</em> Perspectives on Psychological Science, 10(2), 227–237.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hajek, A., &amp; König, H.-H. (2023). <em>Prevalence and correlates of loneliness and social isolation: A systematic review and meta-analysis.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Wang, J., Jiao, D., Zhao, X., et al. (2025). <em>Childhood Loneliness and Cognitive Decline and Dementia Risk in Middle-Aged and Older Adults.</em> JAMA Network Open, 8(9), e2531493.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Zeas-Sigüenza, A., Voldstad, A., Ruisoto, P., et al. (2025). <em>Loneliness as a Public Health Challenge: A Systematic Review and Meta-Analysis to Inform Policy and Practice.</em> European Journal of Investigation in Health, Psychology and Education, 15(7), 131.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. <em>Claro enigma</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2012</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav, <em>A prática da psicoterapia</em>. 16/1 Obra Completa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________,&nbsp;Memórias, sonhos, reflexões.&nbsp;31 ed.Rio de Janeiro, rj:&nbsp;Nova Fronteira,&nbsp;2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________, <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 9/1 Obra Completa. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________, <em>Tipos psicológicos</em>. 6 Obra Completa. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WALDINGER, Robert J.; SCHULTZ, Marc. <em>A boa vida: lições do estudo científico mais longo sobre a felicidade</em>. Rio de Janeiro: Sextante, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Videos:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Solidão que nada: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=yF13CeJsrFY">Solidão Que Nada</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Hola Soledad: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=AB5dlQUaSfo">https://www.youtube.com/watch?v=AB5dlQUaSfo</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Ma solitude: https://www.youtube.com/watch?v=h9-OzSzCDWo</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Solidão, Solitude e Plenitude</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/solidao-solitude-e-plenitude/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Nov 2022 10:41:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[plenitude]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Solidão]]></category>
		<category><![CDATA[Solitude]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Solidão, Solitude e Plenitude<br />
Cada vez mais comuns são as queixas de solidão nos consultórios. Igualmente comuns são as constatações da utilização de antidepressivos e ansiolíticos para amenizar dores que não podem ser registradas em radiografias, que interferem na nossa harmonia e podem ser compreendidas como dores da alma. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Cada vez mais comuns são as queixas de solidão nos consultórios. Igualmente comuns são as constatações da utilização de antidepressivos e ansiolíticos para amenizar dores que não podem ser registradas em radiografias, que interferem na nossa harmonia e podem ser compreendidas como dores da alma.&nbsp; A solidão é uma delas e envolve um sentimento de desconexão com o meio que nos cerca, mesmo não estando sozinhos fisicamente. Em contrapartida, a solitude é um isolamento voluntário, que envolve a oportunidade de nos reconectarmos com a nossa essência. Ambas são consideradas importantes para a psicologia. Na obra de Carl Gustav Jung, a palavra solidão comparece várias vezes. Geralmente é associada ao isolamento e à angústia, como possibilidade de estabelecermos um diálogo com o nosso mundo interno, promovendo o autoconhecimento e a ressignificação de padrões doentios, para o alcance da plenitude.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De uma forma geral, a&nbsp;solidão&nbsp;é um sentimento de vazio, associada à dor e à tristeza. Ela não pode ser medida e também não escolhe idade para se manifestar. É comum sentirmos solidão em algum momento da vida, sobretudo em momentos de crises, perdas, encerramento de ciclos, porém ela está tão presente na vida das pessoas que algumas medidas foram adotadas em alguns países, principalmente com o evento pandemia. Segundo informações constantes no site do Jornal da USP<a href="#_edn1" id="_ednref1">[1]</a>, o &nbsp;governo japonês decidiu nomear um&nbsp; <em>Ministro da Solidão</em>, muito em função do aumento do número de suicídios e do risco do desenvolvimento de transtornos mentais, reforçando a importância com os cuidados da saúde mental. Jung nos alertou sobre os cuidados com a saúde psíquica: “Pouco tempo é dedicado ao principal instrumento da pessoa humana, isto é, sua psique, quando não é desprezada e considerada suspeita. “É apenas psicológico” significa: não é nada”.<a href="#_edn2" id="_ednref2">[2]</a> A simplificação do fator psicológico é a causa de muitas dores que poderiam ser evitadas. Alceu Valença traduziu essas dores com a música <em>Solidão</em>: A solidão é fera, a solidão devora. É amiga das horas, prima-irmã do tempo. E faz nossos relógios caminharem lentos. Causando um descompasso no meu coração [&#8230;] A solidão dos astros. A solidão da Lua. A solidão da noite. A solidão da rua<a href="#_edn3" id="_ednref3">[3]</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É possível percebermos que a solidão vem tomando muito espaço no decorrer dos anos. Com as mudanças e necessidade de adaptações que o isolamento da pandemia exigiu, o quadro se intensificou, muitos foram afetados, principalmente os adolescentes e idosos. No auge da autoafirmação perante o grupo social, os adolescentes foram privados do contato presencial, voltando-se para os quartos e o mundo virtual. Os idosos, por sua vez, intensificaram as vivências de solidão, que já são comuns no seu entorno relacional. No caso dos adolescentes, houve um aumento significativo de uso da automutilação, que envolve o ato de&nbsp;provocar dor em si mesmo, por meio de ferimentos físicos e também aumento de suicídios. Simbolicamente, entende-se que o ato não necessariamente representa a vontade de morrer, mas a necessidade de eliminar a dor emocional. Como disse Clarice Lispector: “Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer [&#8230;] Se no berço experimentei essa fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino.<a href="#_edn4" id="_ednref4">[4]</a> Em contrapartida, na pandemia muitas pessoas aprenderam ou reaprenderam a lidar com momentos de estarem sozinhos, dando espaço para a solitude. As perdas e limitações contribuíram para novos olhares e novas descobertas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro aspecto importante a considerarmos é a crescente dificuldade de nos relacionarmos com os outros. O excesso de postagens nas redes sociais de festas e momentos de felicidade evidenciam a necessidade do encontro, ao mesmo tempo para muitos ocasionam mais sensações de solidão com a exposição da sua intimidade. E todo excesso encobre uma falta, aumentando as nossas projeções, como dizia Jung: “É certo que gostaríamos de manter melhores relações com os nossos iguais, mas naturalmente com a condição de que correspondam às nossas expectativas, isto é, de que procedam como portadores submissos de nossas projeções.”<a href="#_edn5" id="_ednref5">[5]</a> Vindo ao encontro, deparamo-nos também com o crescimento de uma recente realidade digital, denominada de <em>Metaverso.</em> Em termos gerais, é um espaço em que o usuário pode criar seu próprio avatar 3D para representar a si mesmo, ou mesmo criar um personagem fictício e com a realidade aumentada. Assim como ocorre diante de qualquer inovação, quando utilizada em excesso, pode se tornar um espaço de projeções nem sempre saudáveis. Como exemplos, podemos citar a distorção e&nbsp; fuga da realidade, o uso contínuo do mundo virtual, a disseminação de discriminações e cancelamentos virtuais, que podem se tornar grandes problemas reais. Cada vez mais solitários e acelerados, seguimos padrões que a sociedade impõe em forma de digital influencers. Precisamos ser influenciados pelos outros ou precisamos nos influenciar? Sem tempo de fazermos paradas com escolhas mais saudáveis, comparecem as paradas obrigatórias em forma de doenças.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É muito comum permanecemos fixados no passado, no futuro ou no presente com estresse. Presos ao passado, alimentando-nos de lembranças, com tendências depressivas. Centrados no futuro, acelerando o tempo, gerando estados ansiosos. Voltados ao dia a dia na perspectiva de ter que fazer ou ter, estressados com tantos afazeres, esquecendo do essencial: estarmos inteiros e harmoniosos no presente. Tarefa difícil, mas possível. Neste sentido, enfatizo uma das seis grandes dimensões da vida – a vida social – que muitas vezes é suprimida por outras atividades e que contribui significativamente com o aumento dos casos de solidão. Há muito tempo Jessé expressou com sua voz a canção <em>Solidão de Amigo</em>s: “Lenha na fogueira, lua na lagoa. Vento na poeira, vai rolando à toa. A cantiga espera quem lhe dê ouvidos. A viola entoa, solidão de amigos. A saudade lembra de lembranças tantas. Que por si navegam nessas águas mansas [&#8230;]”<a href="#_edn6" id="_ednref6">[6]</a> Não podemos esquecer que somos seres individuais e também seres plurais. Precisamos conviver, influenciamos e somos influenciados o tempo todo, mesmo sem percebermos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da mesma forma, poetas expressam a solidão. Em pesquisa recente foi possível constatar que no decorrer da nossa história, o poema<a href="http://www.poetryfoundation.org/poem/173665"><em>Primavera e Outono</em></a><em>,</em> &nbsp;do livro<a href="http://www.amazon.com/exec/obidos/ASIN/0140420150/ref=nosim/themill0b-20"><em>Poemas e Prosa</em></a>, foi considerado um dos mais tristes.<a href="#_edn7" id="_ednref7">[7]</a> Gerard Manley Hopkins (1880), expressou-se assim: [&#8230;] Ah, mas o coração envelhece. E diante dessas visões arrefece [&#8230;] Primaveras de pesar seguem iguais. A boca não expressou, nem a mente. O que ouve o coração, o espírito pressente. Eis a ruína que com o homem nasce [&#8230;]. Muitos filmes também retratam a angústia do isolamento, como <em>Na Natureza Selvagem<a href="#_edn8" id="_ednref8"><strong>[8]</strong></a>, </em>história de um jovem que larga tudo para realizar uma viagem rumo ao mais fundo de si mesmo, promovendo o autoconhecimento. Ele experienciou a dor da solidão, igualmente a sensação agradável da solitude, com o objetivo de alcançar a perfeição. É o que também Jung propôs sobre as neuroses do homem: “Se ele fosse sozinho para o deserto e na solidão se pusesse a escutar a voz íntima, talvez pudesse perceber o que diz essa voz interior”<a href="#_edn9" id="_ednref9">[9]</a>. Ele argumentou que o ser humano é deformado pela cultura e muitas vezes incapaz de perceber essa voz e assim não desenvolve uma consciência mais ampla e abrangente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O nosso contexto social também registra aspectos relacionados à solidão em forma de ditados populares, aparentemente sem muita importância, porém recheados de conceitos universais de experienciar o mundo, transmitidos de geração em geração. Quem nunca ouviu a frase “antes só do que mal acompanhado”? “Gato escaldado tem medo de água fria”, evidencia as marcas das vivências negativas, assim como “pimenta nos olhos dos outros é refresco”. E diante de questionamentos sobre a angústia que comparece, as respostas são as mais diversas. “Cada um sabe onde lhe aperta o sapato” expressa bem que a dor não tem medida e que cada realidade é única. “Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe” mostra as diferentes realidades que comparecem e podem ser vistas como oportunidades. Do mesmo modo, “não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje” e “quem canta seus males espanta” pode ser visto como um movimento de solitude. Os mais otimistas dirão “depois da tempestade vem a bonança” e “a esperança é a última que morre”.&nbsp; “Não adianta tapar o sol com a peneira” nos convida para refletirmos sobre a necessidade de buscarmos ajuda diante dos problemas com profissionais da área. Na maioria das vezes, “uma andorinha sozinha não faz verão”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas vezes a solidão comparece nos relacionamentos amorosos. Crescemos ouvindo sobre a importância de vivermos um casamento. Na atualidade essa perspectiva apresenta mudanças, porém muitos ainda sofrem com relações destrutivas, que são mantidas por medo da solidão e medo trocar o certo pelo duvidoso, mesmo vivendo solidão a dois. Em alguns casos, as funções pensamento e sentimento são forças opositoras e não alcançam um processo integrativo.&nbsp; Para Jung, as relações humanas deveriam ocupar o centro das atenções: “Sendo assim, o mais alto interesse da sociedade livre deveria ser a questão das relações humanas, do ponto de vista da compreensão psicológica, uma vez que sua conexão própria e sua força nela repousam. Onde acaba o amor, têm início o poder, a violência e o terror”.<a href="#_edn10" id="_ednref10">[10]</a> Quem nunca se emocionou ao ouvir “Yesterday”<a href="#_edn11" id="_ednref11">[11]</a>? Quando a relação acaba, as dores são inevitáveis, como canta Maria Gadú: “E assim eu sigo, fico nessa solidão. Onde os caminhos percorreram e me trouxe até aqui. Se você não vem mais não sei, só sei que sinto os meus pés no chão. Traçando planos novas metas as que você não percebeu”<a href="#_edn12" id="_ednref12">[12]</a>. Na linguagem popular, essas dores são associadas as dores do coração.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sob o olhar da Psicossomática, o paciente cardíaco pode apresentar dificuldades de expressar emoções. Neste contexto, os “não ditos”, além de não ajudarem a fortalecerem os vínculos, contribuem para o surgimento de processos de adoecimento. Outro aspecto que merece atenção é o aumento significativo de doenças cardiovasculares com o coronavírus. Segundo o médico Drauzio Varella, bastante conhecido pelas falas que comparecem na mídia, o nosso maior inimigo é o interior, o componente subjetivo é maior do que a realidade objetivamente representa: “No nosso cérebro, é o sistema límbico o responsável por receber as informações externas e transformá-las em&nbsp;emoções. Desta forma, um complexo sistema nervoso e humoral é ativado e, através de reações físicas e químicas, controla o funcionamento de vários órgãos, incluindo o&nbsp;coração [&#8230;] A essência da qualidade de vida, da felicidade e, portanto, da saúde está na relação afetiva interpessoal que inclui não apenas o par amoroso, a família e os amigos próximos, mas todos aqueles com quem convivemos de uma maneira ou outra”.<a href="#_edn13" id="_ednref13">[13]</a> Isso vem ao encontro do que mais buscamos a vida inteira: amor e reconhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a>Independente de professarmos a nossa fé ou sermos incrédulos, é interessante percebermos como as diferentes religiões abordam a solidão e a tristeza nas suas pregações. Na <em>Bíblia Sagrada</em>, Paulo, Elias, Jeremias, Jonas, Jó e Jesus Cristo vivenciaram esses momentos. Em </a>Gênesis, 2:18, percebemos que o plano original de Deus era o da convivência: “Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”. Momentos de solidão também comparecem em Marcos, 1:35: “De madrugada, ainda bem escuro, levantou-se, saiu e foi a um lugar deserto, e ali orava”. Em João, 16:33, a solidão comparece como oportunidade de transformação de tristeza em grandes bençãos: “Tenho-vos dito essas coisas para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflição, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo”.<a href="#_edn14" id="_ednref14">[14]</a> Segundo os ensinamentos de Chico Xavier nos seus livros e filmes, em resumo podemos dizer que a solidão é um sentimento que envolve estarmos longe da nossa essência, geralmente voltados às regras da sociedade e aos excessos de afazeres. No <em>O Livro dos Espíritos de</em> Allan Kardec, a solidão comparece como algo contrário à lei natural.<a href="#_edn15" id="_ednref15">[15]</a> De acordo com falas do pastor Claudio Duarte nas redes sociais, orar nos conecta com Deus e nos auxilia nos momentos em que a sensação de solidão está aumentando. Com as diferentes falas, percebemos que a essência sobre a solidão é a mesma: momento oportuno para nos reconectarmos com a nossa alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto algumas pessoas querem fugir da solidão, outras a percebem como possibilidade de renovação. Isso nos faz lembrar dos monges budistas, seres solitários, que buscam o refúgio para se conectarem. De forma similar, no <em>Tarô&nbsp;de Marselha</em>, o arcano maior <em>Eremita</em> simboliza o recolhimento e nos convida a obtermos a iluminação e o autoconhecimento no silêncio e no isolamento. O&nbsp;Eremita&nbsp;representa bem essa realidade, vivendo em lugares isolados, buscando na solidão a sua iluminação.<a href="#_edn16" id="_ednref16">[16]</a> Ao mesmo tempo é um movimento de solitude, a partir de escolhas saudáveis, como ocorre com muitas pessoas que mantêm o contato com a natureza, principalmente nos finais de semana e em período de férias. O mesmo se estabelece com algumas tribos indígenas que vivem isoladas do mundo civilizado. Como disse, embora afastados da sociedade, não necessariamente vivem na solidão, pois também vivem em comunidade e estabelecem movimentos de solitude.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao refletirmos sobre solidão, logo fazemos associações com alguns filósofos, principalmente com Nietzsche, que percebia a solidão como um dos ensinamentos do espírito livre e consiste em afastar-nos para termos uma visão mais ampla, sem temermos a nossa própria companhia. E a sociedade de algum modo nos incentiva o contrário. Da mesma forma, é possível lembrarmos da mitologia com seus deuses, deusas e suas representações. Oizus, na&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Mitologia_grega">mitologia grega</a>, personifica a&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Ang%C3%BAstia">angústia</a>, a&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Mis%C3%A9ria">miséria</a>&nbsp;e a&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Tristeza">tristeza</a>, que são características da solidão. Pã, o protetor das florestas, é considerado deus dos rebanhos, dos pastores e dos bosques, que vive em grutas, vales e montanhas, caçando ou dançando com as ninfas. É temido por todos que atravessam as florestas à noite, momentos em que a solidão e as trevas se fazem presentes, causando pânico. Pã juntou caniços de diferentes tamanhos e os transformou em instrumento musical, conhecido como&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Flauta_de_p%C3%A3">flauta</a>, em honra ao próprio deus.<a href="#_edn17" id="_ednref17">[17]</a> Pã, com o seu afastamento, representa a solidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os contos de fadas, as lendas e as fábulas, são ótimos recursos para trabalharmos aspectos sombrios. <em>Rapunzel </em>é um conto de fadas clássico dos <em>Irmãos Grimm</em>.<a href="#_edn18" id="_ednref18">[18]</a>&nbsp; Ele conta a história de uma menina isolada em uma alta torre sem portas e escadas, criada por uma bruxa. É uma história dramática, com final feliz, por conseguir transformar a sua realidade a partir de recursos internos, cantando para si mesma com sua doce voz em momentos de solilóquio. Simbolicamente, pode ser considerado um exemplo de transformação de solidão em plenitude.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como os seres humanos, os animais também vivem em bandos ou solitários, ao nosso redor ou como imagens dentro de nós em forma de arquétipos, com imagens primordiais. Geralmente comparecem em forma de sonhos e quando ampliados em processo de análise, criam sentido e significado pessoal.<a href="#_edn19" id="_ednref19">[19]</a> Vários animais podem ser associados ao arquétipo de solidão. O lobo é um exemplo típico. Entre os lobos, o lobo-guará é o mais solitário, prefere andar e caçar&nbsp;sozinho&nbsp;e só procura companhia para a reprodução. Quanto de lobo temos dentro de nós? Talvez precisamos buscar mais a força do leão, o arquétipo do poder pessoal e da autoconfiança. Ou quem sabe a serpente, que simboliza a transformação com a troca da sua pele, porém indo além, transformando também o interior.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A solutide, por sua vez, comparece quando conseguimos ficar sozinhos e nos sentimos bem com a escolha. Ela é importante, porém não podemos esquecer que é viciante pela sensação de bem estar que nos proporciona. Jung se isolou algumas vezes na sua torre &#8211; casa de campo em Bollinger – e ali escreveu maior parte da sua obra. Uma delas é <em>Resposta a Jó</em>, que ele escreveu seguidamente sem parar.<a href="#_edn20" id="_ednref20">[20]</a> E ele mesmo nos alertou: “A vida também é amanhã; só compreendemos o hoje se pudermos acrescentá-lo àquilo que foi ontem e ao começo daquilo que será amanhã”.<a href="#_edn21" id="_ednref21">[21]</a>&nbsp; Podemos olhar diferente para a solidão, que tem seu lado positivo, traz a angústia, que é uma preciosa oportunidade de mudar para melhor o que nos afeta. Com sua voz encantadora, Sandra de Sá passa essa mensagem: “Solidão, dá um tempo e vá saindo, de repente eu tô sentindo, que você vai se dar mal [&#8230;] A solidão é nada, você vem na hora errada em que eu não te quero aqui”.<a href="#_edn22" id="_ednref22">[22]</a> Transformar a solidão em solitude é o que Djavan também expressa com a música <em>Solitude: “</em>Quem é que sabe o quanto lhe cabe dessa solitude? Por isso a hora de fazer é agora. Tome uma atitude”.<a href="#_edn23" id="_ednref23">[23]</a> Fernando Pessoa sabiamente nos orientou para a integração de conteúdos: “Não tenho pressa: não a têm o sol e a lua. Ninguém anda mais depressa do que as pernas que tem. Se onde quero estar é longe, não estou lá num momento”.<a href="#_edn24" id="_ednref24">[24]</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas vezes, olharmos para dentro envolve o ato de falarmos oralmente conosco, também denominado de solilóquio. De um modo geral, solilóquio pode ser compreendido como um monólogo dirigido a nós mesmos ou ao ato de falarmos sozinhos.&nbsp; É uma técnica que comparece no teatro ou romances, que permite estabelecer um diálogo do personagem consigo mesmo ou com sua alma. Na visão Junguiana, o processo que envolve a habilidade de conversar consigo mesmo, em pensamento ou pela voz, é uma oportunidade de confrontarmos o nosso inconsciente, trazendo para consciência conteúdos desconhecidos. Na obra de Jung, esse aspecto comparece inúmeras vezes e ficou mais evidente nos&nbsp;<em>Livros Negros</em>, com registros de uma autoexperimentação singular, que Jung vivenciou solitariamente antes de passá-la para os outros. De forma similar, o <em>Livro Vermelho</em> que pode ser considerado um condensado dos&nbsp;<em>Livros Negros</em>, apresenta ilustrações dessas vivências e nos mostra o valor da sua expressão para a compreensão do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante do exposto sobre solidão e solitude, podemos considerar que os dois aspectos fazem parte em diferentes momentos da nossa vida, assumindo um papel de muita importância para transformarmos aquilo que não está bom e acolhermos o que faz bem para nossa alma. Dizia Clarice Lispector, diante da solidão, no seu poema <em>Meu Deus, me dê coragem</em>: “Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo”.<a href="#_edn25" id="_ednref25">[25]</a> Jung vai além, com afirmações sobre a ressignificação de padrões: “O paciente deve ser capaz não só de reconhecer a causa e a origem de sua neurose, mas também de enxergar a meta a ser atingida”.<a href="#_edn26" id="_ednref26">[26]</a> De forma similar, Raul Seixas nos deixou grandes lições com seu espírito das profundezas: “Eu perdi o meu medo, o meu medo, o meu medo da chuva. Pois a chuva voltando pra terra traz coisas do ar. Aprendi o segredo, o segredo, o segredo da vida. Vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar”.<a href="#_edn27" id="_ednref27">[27]</a> Perder o medo da chuva simbolicamente pode representar o enfrentamento da solidão com o autoconhecimento. A ressignificação da angústia pode comparecer em forma de solitude, que é mesclada de autoestima e de autonomia, com escolhas mais saudáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Para finalizar, podemos afirmar que para vivermos de forma mais harmoniosa é necessário estabelecermos um diálogo com o nosso mundo interno, semelhante ao que foi escrito por Jung em inúmeras frases, como a que segue: “Para educar um indivíduo para a autonomia e para uma vida plena, é preciso levá-lo à assimilação de todas as funções que bem pouco ou mesmo nenhum desenvolvimento consciente alcançaram”<a href="#_edn28" id="_ednref28">[28]</a>. Essas funções envolvem analogicamente a refrigeração da alma com mergulhos em águas conhecidas e desconhecidas. É olharmos para o mar e além de vermos a sua imensidão, imaginarmos para onde estamos navegando e percebermos novas possibilidades. A solidão e a solitude podem ser esse diálogo com o nosso mundo interno para alcançarmos a plenitude.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Claci Maria Strieder <strong>– Membro analista em formação do IJEP</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Waldemar Magaldi Filho – Analista Didata</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Fontes de apoio:</p>



<p class="wp-block-paragraph">BACHMANN, H.I. <em>O animal como símbolo nos sonhos, mitos e contos de fadas</em>. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016, p.7-12.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BEATLES. <em>Yesterday</em>. Álbum Help. <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Capitol_Records">Capitol Records</a>&nbsp;(<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/EUA">EUA</a>), 1965.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BÍBLIA Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BONS FLUIDOS<em>.&nbsp; Especial os mitos e você</em>, nº 65. São Paulo: Editora Abril, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DJAVAN. <em>Solitude</em>. Álbum Final feliz (Jorge Vercilo e&nbsp;<em>Djavan</em>). Compacto,&nbsp;2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GADÚ, M. <em>Solidão</em>. Som Livre, 2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GRIMM, I.&nbsp;<em>Contos de Fada</em>. São Paulo: Iluminuras, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.jornaldepoesia.jor.br/cli1.html">http://www.jornaldepoesia.jor.br/cli1.html</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://drauziovarella.uol.com.br/entrevistas-2/as-emocoes-e-o-coracao-entrevista/">https://drauziovarella.uol.com.br/entrevistas-2/as-emocoes-e-o-coracao-entrevista/</a></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-jornal-da-usp wp-block-embed-jornal-da-usp"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<blockquote class="wp-embedded-content" data-secret="58YICjg8sc"><a href="https://jornal.usp.br/atualidades/japao-cria-ministerio-da-solidao-para-lidar-com-aumento-de-taxas-de-sucidio-na-pandemia/">Japão cria &#8220;Ministério da Solidão&#8221; para lidar com aumento de taxas de suicídio na pandemia</a></blockquote><iframe class="wp-embedded-content" sandbox="allow-scripts" security="restricted"  title="&#8220;Japão cria &#8220;Ministério da Solidão&#8221; para lidar com aumento de taxas de suicídio na pandemia&#8221; &#8212; Jornal da USP" src="https://jornal.usp.br/atualidades/japao-cria-ministerio-da-solidao-para-lidar-com-aumento-de-taxas-de-sucidio-na-pandemia/embed/#?secret=xSXOgi63Of#?secret=58YICjg8sc" data-secret="58YICjg8sc" width="600" height="338" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"></iframe>
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<blockquote class="wp-embedded-content" data-secret="XghX9RakgO"><a href="https://www.observatoriodaimprensa.com.br/armazem-literario/_ed810_o_poema_mais_triste_ja_escrito/">O poema mais triste j&aacute; escrito</a></blockquote><iframe class="wp-embedded-content" sandbox="allow-scripts" security="restricted"  title="&#8220;O poema mais triste j&aacute; escrito&#8221; &#8212; Observatório da Imprensa" src="https://www.observatoriodaimprensa.com.br/armazem-literario/_ed810_o_poema_mais_triste_ja_escrito/embed/#?secret=TajrNJRFwr#?secret=XghX9RakgO" data-secret="XghX9RakgO" width="600" height="338" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph">JESSÉ. <em>Solidão de Amigos</em>.&nbsp;Gravadora: RGE,&nbsp;1982.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>Ab-reação, análise de sonhos e transferência. </em>Petrópolis, Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>A natureza da psique</em>. Petrópolis, Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>A vida simbólica.</em> Petrópolis, Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>Presente e futuro.</em> Petrópolis, Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp; <em>O desenvolvimento da Personalida</em>de. Petrópolis, Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG. C. G.&nbsp; <em>Psicologia do inconsciente</em>. Petrópolis, Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG. C. G<em>. Resposta a Jó. </em>Petrópolis, Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KARDEC,&nbsp;Allan.&nbsp;O Livro dos espíritos. Trad. de Salvador Gentile; rev. Elias Barbosa. Araras: IDE, 2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MARTEAU, P. <em>O Tarô de Marselha</em>. São Paulo, Ed. Objetiva, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref1" id="_edn1">[1]</a> <a href="https://jornal.usp.br/atualidades/japao-cria-ministerio-da-solidao-para-lidar-com-aumento-de-taxas-de-sucidio-na-pandemia/">https://jornal.usp.br/atualidades/japao-cria-ministerio-da-solidao-para-lidar-com-aumento-de-taxas-de-sucidio-na-pandemia/</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref2" id="_edn2">[2]</a> JUNG, C. G. <em>A vida simbólica.</em> Petrópolis, Vozes, 2013, par. 605.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref3" id="_edn3">[3]</a> <em>VALENÇA, A.</em>&nbsp;<em>Solidão.</em>&nbsp;LP Mágico.&nbsp;Barclay / Ariola, 1984.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref4" id="_edn4">[4]</a> LISPECTOR, C. <em>Pertence</em>r. In A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 110.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref5" id="_edn5">[5]</a> JUNG, C. G. <em>A natureza da psique</em>. Petrópolis, Vozes, 2013, par. 517.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref6" id="_edn6">[6]</a> JESSÉ. <em>Solidão de Amigos</em>.&nbsp;Gravadora: RGE,&nbsp;1982.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref7" id="_edn7">[7]</a> <a href="https://www.observatoriodaimprensa.com.br/armazem-literario/_ed810_o_poema_mais_triste_ja_escrito/">https://www.observatoriodaimprensa.com.br/armazem-literario/_ed810_o_poema_mais_triste_ja_escrito/</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref8" id="_edn8">[8]</a> PENN, S. <em>Na Natureza Selvagem</em>. EUA, 2007.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref9" id="_edn9">[9]</a> JUNG, C. G.&nbsp; <em>O desenvolvimento da Personalida</em>de. Petrópolis, Vozes, 2013, par. 315.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref10" id="_edn10">[10]</a> JUNG, C. G. <em>Presente e futuro.</em> Petrópolis, Vozes, 2013, par. 580.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref11" id="_edn11">[11]</a> BEATLES. <em>Yesterday</em>. Álbum Help. <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Capitol_Records">Capitol Records</a>&nbsp;(<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/EUA">EUA</a>), 1965.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref12" id="_edn12">[12]</a> GADÚ, M. <em>Solidão</em>. Som Livre, 2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref13" id="_edn13">[13]</a> <a href="https://drauziovarella.uol.com.br/entrevistas-2/as-emocoes-e-o-coracao-entrevista/">https://drauziovarella.uol.com.br/entrevistas-2/as-emocoes-e-o-coracao-entrevista/</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref14" id="_edn14">[14]</a> Passim. BÍBLIA Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref15" id="_edn15">[15]</a> <em>Passim.</em> KARDEC,&nbsp;Allan.&nbsp;<em>O Livro dos espíritos</em>. Trad. de Salvador Gentile; rev. Elias Barbosa. Araras: IDE, 2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref16" id="_edn16">[16]</a> MARTEAU, P. <em>O Tarô de Marselha</em>. São Paulo, Ed. Objetiva, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref17" id="_edn17">[17]</a> BONS FLUIDOS<em>.&nbsp; Especial os mitos e você</em>, nº 65. São Paulo: Editora Abril, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref18" id="_edn18">[18]</a> GRIMM, I.&nbsp;<em>Contos de Fada</em>. São Paulo: Iluminuras, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref19" id="_edn19">[19]</a> BACHMANN, H.I. <em>O animal como símbolo nos sonhos, mitos e contos de fadas</em>. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016, p.7-12.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref20" id="_edn20">[20]</a> JUNG. C. G<em>. Resposta a Jó. </em>Petrópolis, Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref21" id="_edn21">[21]</a> <em>Idem</em>. <em>Psicologia do inconsciente</em>. Petrópolis, Vozes, 2013, par. 67.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref22" id="_edn22">[22]</a> SÁ, <em>S. </em>&nbsp;<em>Solidão</em>. &nbsp;<em>Sandra de Sá Gravadora</em>:&nbsp;2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref23" id="_edn23">[23]</a> DJAVAN. <em>Solitude</em>. Álbum Final feliz (Jorge Vercilo e&nbsp;<em>Djavan</em>). Compacto,&nbsp;2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref24" id="_edn24">[24]</a> PESSOA, F.&nbsp; <em>Vida e obras de Alberto Caeiro</em>. 1. ed. São Paulo: Global, 2017.&nbsp; p. 181</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref25" id="_edn25">[25]</a> <a href="http://www.jornaldepoesia.jor.br/cli1.html">http://www.jornaldepoesia.jor.br/cli1.html</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref26" id="_edn26">[26]</a> JUNG, C. G. <em>Ab-reação, análise de sonhos e transferência. </em>Petrópolis, Vozes, 2013, par.293.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ednref27" id="_edn27">[27]</a> SEIXAS, R. <em>Medo da chuva</em>. LP Gita. Philips, 1974.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a id="_edn28" href="#_ednref28">[28]</a> JUNG, C.G. <em>A natureza da psique</em>. Petrópolis, Vozes, 2013, par. 472.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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