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	<title>Luciana Antonioli, Autor em Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Luciana Antonioli, Autor em Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Adolescência e falha simbólica: uma leitura da violência na cultura contemporânea</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/adolescencia-e-falha-simbolica-uma-leitura-da-violencia-na-cultura-contemporanea/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciana Antonioli]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Jun 2026 13:57:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[asno de ouro]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[Lievegoed]]></category>
		<category><![CDATA[Marie-Louise von Franz]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[von franz]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este ensaio propõe uma leitura simbólica da violência masculina na adolescência a partir da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, das ampliações realizadas por Marie-Louise von Franz em O Asno de Ouro e da compreensão de Bernard Lievegoed acerca das fases da vida. Discute-se a adolescência como um momento crítico da constituição da consciência, marcado pela separação psíquica em relação ao mundo infantil, pela emergência da sexualidade e pela busca de pertencimento e identidade. Von Franz aprofunda essa reflexão ao descrever determinadas manifestações de brutalidade juvenil como expressões de uma masculinidade imatura e impulsiva, associada a formas degradadas de passagem para o mundo adulto. Em diálogo com essas formulações, Lievegoed compreende a adolescência como o grande despertar da realidade, período marcado pela busca de sentido e lugar no mundo. O ensaio propõe compreender determinadas formas contemporâneas de violência juvenil como expressões de falhas na elaboração simbólica da entrada na vida adulta. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Este ensaio propõe uma leitura simbólica da violência masculina na adolescência a partir da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, das ampliações realizadas por Marie-Louise von Franz em <em>O Asno de Ouro</em> e da compreensão de Bernard Lievegoed acerca das fases da vida. Discute-se a adolescência como um momento crítico da constituição da consciência, marcado pela separação psíquica em relação ao mundo infantil, pela emergência da sexualidade e pela busca de pertencimento e identidade. Von Franz aprofunda essa reflexão ao descrever determinadas manifestações de brutalidade juvenil como expressões de uma masculinidade imatura e impulsiva, associada a formas degradadas de passagem para o mundo adulto. Em diálogo com essas formulações, Lievegoed compreende a adolescência como o grande despertar da realidade, período marcado pela busca de sentido e lugar no mundo. O ensaio propõe compreender determinadas formas contemporâneas de violência juvenil como expressões de falhas na elaboração simbólica da entrada na vida adulta. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Uma leitura simbólica da violência masculina na adolescência a partir de Jung, von Franz e Lievegoed, refletindo sobre falhas simbólicas na passagem para a vida adulta.</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Na mesma época ocorreu outro acontecimento importante, enquanto eu percorria o longo trajeto entre Klein-Hüningen, lugar onde morávamos, e a escola em Basiléia.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Tive a sensação arrebatadora de emergir de uma névoa espessa, tomando consciência de que agora eu era eu.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Era como se atrás de mim houvesse um muro de névoa além do qual eu ainda não existia. Neste instante preciso eu me tornei eu por mim mesmo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Antes eu estivera lá mas tudo se produzia passivamente; dali em diante, eu o sabia: agora eu sou eu. Agora eu existo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Tal acontecimento pareceu-me extraordinariamente significativo e inusitado.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Havia autoridade em mim.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>MSR, p.63.</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-algumas-manifestacoes-contemporaneas-de-violencia-entre-adolescentes-e-jovens-adultos-voltaram-a-causar-inquietacao-nao-como-tema-abstrato-mas-como-realidade-tanto-na-ficcao-quanto-na-vida-cotidiana" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Algumas manifestações contemporâneas de violência entre adolescentes e jovens adultos voltaram a causar inquietação. Não como tema abstrato, mas como realidade, tanto na ficção quanto na vida cotidiana.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na ficção a minissérie britânica “<strong>Adolescência</strong>” (2025), amplamente premiada, recoloca o adolescente no centro da cena cultural não mais como uma etapa idealizada de passagem, mas como um território de risco psíquico no qual a violência irrompe quando os processos de simbolização falham. Essa ficção encontra reflexos na realidade contemporânea, como demonstra o Caso Orelha (2026), em Florianópolis, no qual um cão comunitário foi brutalmente agredido por adolescentes. Sob o olhar da Psicologia Analítica, o animal nesses episódios encarna o polo instintivo da própria psique juvenil que, por não ser reconhecido nem simbolizado internamente, é atacado externamente em uma tentativa desesperada de controle. Tal falta na mediação simbólica ecoa no estupro coletivo em Copacabana (2026), cujas imagens de celebração dos agressores revelam uma falha da sociedade em prover limites e alteridade. Esses eventos lembram o Caso Galdino Pataxó (1997), em que jovens de classe média reduziram um líder indígena à condição de objeto, queimando-o sob o pretexto de uma brincadeira. Em todos esses casos, o conflito com a dimensão instintiva deixa de ser elaborado internamente e passa a manifestar-se diretamente no comportamento, transformando o processo de desenvolvimento em um cenário de violência.</p>



<h2 id="h-a-luz-da-psicologia-analitica-a-adolescencia-configura-se-como-momento-critico-do-desenvolvimento-quando-essa-travessia-ocorre-sem-sustentacao-simbolica-suficiente-aquilo-que-nao-pode-ser-elaborado-tende-a-ser-atuado" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">À luz da Psicologia Analítica, a adolescência configura-se como momento crítico do desenvolvimento. Quando essa travessia ocorre sem sustentação simbólica suficiente, aquilo que não pode ser elaborado tende a ser atuado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Dessa forma, este ensaio propõe uma leitura simbólica da violência masculina na adolescência a partir da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, de sua compreensão do desenvolvimento psíquico e das transformações que acompanham a passagem da infância para a juventude. Em diálogo com Jung, serão utilizadas as ampliações realizadas por Marie-Louise von Franz em sua leitura de <em>O Asno de Ouro</em>, de Apuleio, sobretudo no que se refere à masculinidade imatura, à sombra e às explosões destrutivas presentes em determinados grupos juvenis. A reflexão será ainda complementada pela perspectiva do psiquiatra holandês Bernard Lievegoed, cuja compreensão da adolescência como crise de sentido e despertar da realidade permite ampliar a discussão para além da dimensão intrapsíquica, alcançando também o empobrecimento simbólico da cultura contemporânea. A articulação entre esses autores oferece um campo para pensar a violência não apenas como falha moral ou social, mas como expressão de uma dificuldade de elaboração psíquica em um momento da constituição da identidade.</p>



<h2 id="h-a-emergencia-da-consciencia-e-a-travessia-adolescente" class="wp-block-heading" style="font-size:22px"><strong>A emergência da consciência e a travessia adolescente</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Jung (2013a, §103), a consciência não está presente de forma organizada nos primeiros anos de vida. Embora existam processos psíquicos desde cedo, eles ainda não se articulam em torno de um eu capaz de produzir continuidade consciente. O desenvolvimento da consciência ocorre gradualmente, à medida que diferentes conteúdos psíquicos passam a organizar-se em torno do ego. Esse processo intensifica-se do nascimento até o final da puberdade psíquica, período em que se estabelece uma diferenciação progressiva entre consciência e inconsciente. Jung descreve esse movimento como a emergência da consciência a partir do inconsciente, “como uma nova ilha aflora sobre a superfície do mar” (2013a, §103). Nesse contexto, educação e cultura possuem papel fundamental, pois auxiliam a formação da consciência e a integração psíquica do indivíduo.</p>



<h2 id="h-jung-2012-1007-observa-que-a-formacao-psiquica-da-crianca-nao-e-determinada-principalmente-pelos-ensinamentos-conscientes-transmitidos-pelos-pais-mas-pela-atmosfera-emocional-inconsciente-na-qual-ela-cresce" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Jung (2012, §1007) observa que a formação psíquica da criança não é determinada principalmente pelos ensinamentos conscientes transmitidos pelos pais, mas pela atmosfera emocional inconsciente na qual ela cresce.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Tensões silenciosas, medos, conflitos reprimidos e formas de estar no mundo atravessam a vida familiar e imprimem-se na psique infantil de maneira profunda e duradoura. A criança não absorve apenas palavras ou regras morais, incorpora estados emocionais, modos de relação e atitudes afetivas que passam a constituir sua própria forma de sentir e perceber a realidade. Assim, aquilo que permanece inconsciente nos adultos frequentemente reaparece, na vida psíquica do filho.</p>



<h2 id="h-ao-discutir-o-desenvolvimento-da-consciencia-jung-2013a-107a-descreve-a-adolescencia-como-um-processo-gradual-de-diferenciacao-em-relacao-ao-ambiente-familiar" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Ao discutir o desenvolvimento da consciência, Jung (2013a, §107a) descreve a adolescência como um processo gradual de diferenciação em relação ao ambiente familiar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A criança inicia a vida em uma condição de identidade primitiva com os pais e necessita desprender-se progressivamente dessa fusão para constituir-se como sujeito. Nesse percurso, a escola representa o primeiro encontro mais amplo com o mundo para além da família, e o adulto deixa de ocupar apenas uma função pedagógica para assumir também uma função simbólica. Mais do que transmitir conteúdos, cabe aos pais e educadores sustentar referências humanas capazes de auxiliar o jovem em sua entrada na vida adulta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung alerta que tanto o excesso quanto a fragilidade da autoridade parental podem comprometer esse movimento, vínculos excessivamente fusionais dificultam a autonomia, enquanto a ausência de continência impede a construção de limites internos. “O adolescente está destinado para o mundo, e não para continuar a ser sempre apenas filho de seus pais” (2013a, §107a). Quando essa separação não ocorre de forma suficientemente elaborada, a busca de pertencimento tende a deslocar-se para identificações coletivas e formas precárias de afirmação da identidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em diferentes culturas, essa passagem para a vida adulta foi tradicionalmente sustentada por rituais de iniciação que tinham a função simbólica de romper a dependência infantil e introduzir o jovem em uma nova forma de pertencimento coletivo (2013b §725). Muitas dessas cerimônias possuíam caráter corporal e, por vezes, cruel, expressando simbolicamente a intensidade dessa transformação psíquica.</p>



<h2 id="h-no-periodo-da-puberdade-ocorre-aquilo-que-jung-2013b-756-denomina-um-verdadeiro-nascimento-psiquico-marcado-pela-emergencia-do-eu-diante-das-intensas-transformacoes-corporais-e-emocionais-da-adolescencia" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">No período da puberdade ocorre aquilo que Jung (2013b, §756) denomina um verdadeiro nascimento psíquico, marcado pela emergência do eu diante das intensas transformações corporais e emocionais da adolescência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A irrupção da sexualidade é acompanhada por conflitos, excessos e instabilidade emocional, aquilo que Jung chama de “os anos difíceis da adolescência” (2013b, §756). A travessia adolescente exige, assim, não apenas maturação biológica, mas também condições psíquicas e culturais capazes de sustentar a entrada no mundo adulto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao abordar a puberdade masculina, Jung (2013c, §217) descreve um momento de desorganização psíquica, no qual o jovem passa a experimentar impulsos e intensidades emocionais que excedem sua capacidade de elaboração consciente. Segundo ele, o adolescente terá a sexualidade do homem adulto, mas ainda tem a alma de criança, vivendo uma dissociação entre maturidade corporal e imaturidade psíquica. A emergência da sexualidade introduz conflitos morais, fantasias intensas, instabilidade emocional e dificuldades de julgamento, produzindo uma experiência frequentemente marcada por excessos, idealizações e oscilações abruptas de afeto.</p>



<h2 id="h-nesse-periodo-2013c-217-o-jovem-torna-se-particularmente-vulneravel-a-influencia-do-grupo-e-as-formas-coletivas-de-afirmacao-da-masculinidade" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Nesse período, (2013c, §217) o jovem torna-se particularmente vulnerável à influência do grupo e às formas coletivas de afirmação da masculinidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O linguajar obsceno, os desafios entre pares e determinadas manifestações de brutalidade podem surgir como tentativas precárias de elaboração dessa energia ainda não integrada. A adolescência masculina aparece, assim, como um campo de tensão entre impulsividade e construção da consciência, no qual a experiência do corpo e do desejo frequentemente antecede a capacidade simbólica de lhes atribuir sentido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essas formulações permitem compreender a adolescência não apenas como uma etapa biográfica marcada por transformações corporais e emocionais, mas como um momento de reorganização psíquica, no qual a entrada na vida adulta exige separação progressiva das identificações infantis, elaboração do instinto e construção de novas formas de pertencimento. É nesse ponto que Marie-Louise von Franz aprofunda a reflexão junguiana ao analisar, em <em>O Asno de Ouro</em>, formas de masculinidade imatura nas quais a violência, o desafio grupal e a brutalidade aparecem como tentativas precárias de afirmação viril e de entrada no mundo adulto.</p>



<h2 id="h-a-falha-da-iniciacao-masculina" class="wp-block-heading" style="font-size:22px"><strong>A falha da iniciação masculina</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao ampliar <em><strong>O Asno de Ouro</strong></em>, de Apuleio, Marie-Louise von Franz descreve determinadas manifestações de violência masculina como expressões de uma masculinidade ainda não integrada à consciência em uma passagem, os ladrões do romance aparecem como figuras impulsivas, movidas por espasmos de virilidade incapazes de sustentar verdadeira transformação interior (Von Franz, 2021, p.98). Há neles intensidade, desafio e brutalidade, mas não direção, responsabilidade ou capacidade de suportar tensão psíquica. Para von Franz, essa virilidade inconsciente permanece regressiva e ligada ao complexo materno, produzindo formas precárias de afirmação masculina que oscilam entre atuação impulsiva, pertencimento grupal e destruição. Nesse contexto, o ato violento pode surgir como tentativa desesperada de provar existência, coragem ou identidade diante de um eu ainda frágil e pouco diferenciado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Von Franz</strong> aproxima essa dinâmica de certos comportamentos adolescentes contemporâneos, nos quais desafios grupais, agressões cruéis e atos extremos aparecem como “pseudo-rituais” de passagem. Quando adolescentes se desafiam mutuamente a cometer brutalidades, inclusive contra corpos vulneráveis, a violência deixa de representar força amadurecida e passa a revelar justamente sua ausência. <em>“Esses espasmos de virilidade [&#8230;] são fadados a falhar” </em>(Von Franz, 2021, p.98).</p>



<h2 id="h-em-dialogo-com-jung-tais-manifestacoes-podem-ser-compreendidas-como-formas-degradadas-de-iniciacao-nas-quais-o-risco-o-sofrimento-e-a-crueldade-aparecem-dissociados-de-qualquer-elaboracao-simbolica-efetiva" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Em diálogo com Jung, tais manifestações podem ser compreendidas como formas degradadas de iniciação, nas quais o risco, o sofrimento e a crueldade aparecem dissociados de qualquer elaboração simbólica efetiva.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eles pertencem, tipicamente, a certas fases da luta do jovem contra o complexo materno. Podem ser vistos, por exemplo, nestas atitudes horríveis e explosões súbitas de brutalidade entre alguns adolescentes, como nos casos em que se desafiam mutuamente a jogar querosene numa pessoa e atear fogo, como se isso pudesse chancelar sua virilidade. (Von Franz, 2021, p.98)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As formulações de von Franz permitem compreender que determinadas manifestações de brutalidade adolescente não surgem apenas da impulsividade ou da agressividade em si mesmas, mas de uma tentativa fracassada de transformação psíquica. Por trás dos desafios grupais, das atuações violentas e das formas primitivas de afirmação viril, encontra-se frequentemente um jovem ainda incapaz de sustentar internamente a travessia entre o mundo infantil e a vida adulta. A violência aparece, então, não apenas como destruição, mas também como busca distorcida de pertencimento, identidade e reconhecimento. É justamente nesse ponto que Bernard Lievegoed amplia a discussão ao compreender a adolescência como o período do “grande despertar da realidade”, momento em que o jovem passa a confrontar-se não apenas com o corpo, o desejo e o grupo, mas também com as questões fundamentais de sentido, verdade e direção existencial.</p>



<h2 id="h-o-despertar-da-realidade-e-a-busca-de-sentido" class="wp-block-heading" style="font-size:22px"><strong>O despertar da realidade e a busca de sentido</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Bernard Lievegoed compreende a adolescência como o momento do grande despertar da realidade, no qual o mundo protegido da infância começa a se romper e o jovem passa a confrontar-se com a complexidade, a solidão e as exigências do mundo externo (Lievegoed, 1970). Se na infância a experiência fundamental deveria ser a de que “o mundo é bom”, e no período escolar a fantasia permitiria à criança construir criativamente sua interioridade, a adolescência introduz uma nova tarefa psíquica para encontrar uma posição própria diante da realidade e começar a assumir a si mesmo como indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse processo emergem as perguntas fundamentais da juventude: “Quem sou eu? O que eu quero? De que sou capaz?”. A adolescência aparece, assim, como um período marcado pela busca de verdade, pertencimento, direção existencial e reconhecimento. Entretanto, essa travessia ocorre em meio a uma profunda sensação de impermanência, insegurança e ausência de base fixa. O jovem encontra-se diante da necessidade de separar-se das identificações infantis antes que exista verdadeira estabilidade interior. Lievegoed observa que, nesse contexto, surgem formas intensas e incondicionais de julgamento e ação, frequentemente “tanto mais violentas quanto mais o eu pessoal estiver inseguro de si mesmo” (Lievegoed, 1970, p.42)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Lievegoed, a intensidade dos ideais, o fascínio pelos grupos, a idolatria de figuras heroicas e as experiências extremas podem então funcionar como tentativas de responder à pergunta central da adolescência: qual é o meu lugar no mundo? Quando essa busca não encontra mediações humanas, simbólicas e criativas suficientemente consistentes, a energia vital característica da juventude pode deslocar-se para formas imitativas de pertencimento e manifestações destrutivas que oferecem, ainda que precariamente, sensação de identidade e reconhecimento grupal.</p>



<h2 id="h-consideracoes-finais" class="wp-block-heading" style="font-size:22px"><strong>Considerações finais</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A partir das contribuições de Jung, von Franz e Lievegoed, a adolescência pode ser compreendida como um momento crítico do desenvolvimento psíquico, no qual o jovem é convocado a separar-se das identificações infantis, confrontar o despertar do instinto e construir uma posição própria diante do mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa travessia, porém, não ocorre de forma linear nem puramente individual, sendo atravessada pelas marcas emocionais inconscientes da família, pelas exigências culturais de pertencimento e pelas dificuldades contemporâneas de sustentação simbólica da entrada na vida adulta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse contexto, determinadas manifestações de brutalidade masculina podem ser entendidas não apenas como expressão de agressividade, mas como tentativas precárias e regressivas de afirmar identidade, virilidade e reconhecimento diante de um ego ainda inseguro e pouco estruturado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A violência grupal, os desafios extremos, a crueldade contra corpos vulneráveis e a necessidade compulsiva de prova aparecem, assim, como formas degradadas de rituais de passagem, nas quais o ato substitui a elaboração simbólica e o pertencimento coletivo ocupa o lugar de uma identidade ainda frágil e em construção. Entre o instinto e o sentido, a tarefa é restituir um lugar simbólico para aquilo que hoje se expressa como destruição.</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/lucianaantonioli/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/lucianaantonioli/"><strong>Luciana Antonioli &#8211; Analista Didata em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Fonte da imagem – Acervo pessoal. Aquarela de Luciana Antonioli, 2026.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Estudos experimentais</strong>. 3<sup>a</sup> ed. Petrópolis: Vozes, 2012. v. 02</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>O desenvolvimento da personalidade</strong>. 9<sup>a</sup> ed. Petrópolis: Vozes, 2013a. v. 17</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>A natureza da psique</strong>. 4<sup>a</sup> ed. Petrópolis: Vozes, 2013b. v. 8/2</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Civilização em transição</strong>. Petrópolis: Vozes, 2013c. v. 10/03</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>Memórias, sonhos, reflexões</strong>. <em>[S.l.]</em>: Nova Fronteira, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LIEVEGOED, Bernard. <strong>Fases da vida &#8211; crises e desenvolvimento da individualidade</strong>. 3<sup>a</sup> ed. São Paulo, SP: Antroposófica, 1970. (p. 36 &#8211; 44)</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie-Louise. <strong>O asno de ouro: o romance de Lúcio Apuleio na perspectiva da psicologia analítica junguiana</strong>. 1<sup>a</sup> ed. São Paulo, SP: Editora Vozes, 2021.</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="https://www.ijep.com.br"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="488" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG--1024x488.png" alt="" class="wp-image-13218" style="aspect-ratio:2.098448862919837;width:739px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG--1024x488.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG--300x143.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG--768x366.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG--150x72.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG--450x215.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-.png 1080w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>Cosmovisão e Antroposofia: uma leitura da Psicologia Analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/cosmovisao-e-antroposofia-uma-leitura-da-psicologia-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciana Antonioli]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 10:49:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[antroposofia]]></category>
		<category><![CDATA[cosmovisão]]></category>
		<category><![CDATA[cosmovisão junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
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		<category><![CDATA[visão de mundo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este ensaio examina o conceito de cosmovisão em C. G. Jung e sua leitura da Antroposofia enquanto expressão contemporânea da busca humana por sentido. Parto de uma questão recorrente em minha prática docente e clínica: em que medida Psicologia Analítica e Antroposofia se aproximam ou divergem? Embora não sejam sistemas equivalentes, ambos compartilham o propósito de favorecer o desenvolvimento integral do ser humano, em Jung, pela individuação, em Steiner, pela iniciação e pelo cultivo das capacidades anímicas e espirituais. A partir do capítulo “Cosmosofia” (OC 8/2), discuto a cosmovisão como atitude consciente e hipótese orientadora da vida, destacando a importância de uma imagem de mundo viva e não dogmática. Analiso também as críticas e reconhecimentos feitos por Jung à Antroposofia, compreendida como resposta simbólica às necessidades psíquicas modernas. Concluo que a Psicologia Analítica possibilita o indivíduo a construir uma cosmovisão que integra experiência, consciência e responsabilidade, permitindo-lhe viver de forma mais plena e consciente.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote has-text-align-left" style="font-size:18px;line-height:1.3"><blockquote><p><strong><em>Se não formamos uma imagem global do mundo,</em></strong><br><strong><em>também não podemos ver-nos a nós próprios,</em></strong><br><strong><em>que somos cópias fiéis deste mundo.</em></strong></p><cite><strong><em>JUNG, OC 8/2, §696</em></strong></cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-este-ensaio-examina-o-conceito-de-cosmovisao-em-c-g-jung-e-sua-leitura-da-antroposofia-enquanto-expressao-contemporanea-da-busca-humana-por-sentido" style="font-size:18px"><strong><em>Este ensaio examina o conceito de cosmovisão em C. G. Jung e sua leitura da Antroposofia enquanto expressão contemporânea da busca humana por sentido.</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Parto de uma questão recorrente em minha prática docente e clínica: em que medida Psicologia Analítica e Antroposofia se aproximam ou divergem? Embora não sejam sistemas equivalentes, ambos compartilham o propósito de favorecer o desenvolvimento integral do ser humano, em Jung, pela individuação, em Steiner, pela iniciação e pelo cultivo das capacidades anímicas e espirituais. A partir do capítulo “Cosmosofia” (OC 8/2), discuto a cosmovisão como atitude consciente e hipótese orientadora da vida, destacando a importância de uma imagem de mundo viva e não dogmática. Analiso também as críticas e reconhecimentos feitos por Jung à Antroposofia, compreendida como resposta simbólica às necessidades psíquicas modernas. Concluo que a Psicologia Analítica possibilita o indivíduo a construir uma cosmovisão que integra experiência, consciência e responsabilidade, permitindo-lhe viver de forma mais plena e consciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Desde que me dedico ao estudo e à docência da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung (1875–1961), é frequente que eu seja questionada sobre a suposta semelhança entre essa abordagem e a Antroposofia de Rudolf Steiner (1861–1925). Sempre esclareço que não se trata de sistemas equivalentes, contudo, é possível traçar paralelos entre eles, desde que respeitadas suas diferenças metodológicas, epistemológicas e finalidades. Embora contemporâneos e residentes na Suíça, não há registros de um encontro entre Jung e <strong>Steiner</strong>, tampouco evidências de que Steiner tivesse conhecimento da Psicologia Analítica, ainda em elaboração. Sabe-se, entretanto, que acompanhava o desenvolvimento da Psicanálise<a href="#_ftn1" id="_ftnref1"><sup>[1]</sup></a>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-das-distincoes-entre-seus-sistemas-ambos-compartilhavam-uma-preocupacao-comum-a-realizacao-da-totalidade-humana" style="font-size:18px">Apesar das distinções entre seus sistemas, ambos compartilhavam uma preocupação comum: a realização da totalidade humana.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em Jung, essa totalidade se expressa na integração dos opostos e encontra seu percurso próprio no <em>processo de individuação</em>. Em Steiner, essa realização aparece como caminho de <em>iniciação</em>, no qual o ser humano desenvolve progressivamente suas capacidades anímicas e espirituais, tornando-se cada vez mais consciente, livre e responsável por sua própria biografia. Tanto individuação quanto iniciação descrevem, cada uma a seu modo, processos pelos quais o ser humano é convidado a atualizar suas potencialidades, ampliar a consciência e participar de forma mais plena da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O cenário histórico, situado no contexto pós-kantiano (Clarke, 1992; Wenceslau; Luz, 2014), que influenciou ambos, constitui o pano de fundo daquele momento. Trata-se de um período marcado pela transição entre o idealismo crítico e as novas ciências do espírito, no qual a questão dos limites e possibilidades do conhecimento humano, tema central da filosofia kantiana (1724-1804), orientou as discussões sobre subjetividade, experiência e mundo. A partir dessa herança, Jung e Steiner elaboraram caminhos distintos: um, clínico-psicológico, o outro, espiritual-científico, mas ambos respondendo ao mesmo desafio moderno inaugurado por <strong>Kant</strong>, como conhecer o mundo sem reduzir o sujeito, e como compreender o sujeito sem perder o mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este ensaio tem por objetivo dialogar com o conceito de cosmovisão em Jung e examinar como o autor compreendeu a Antroposofia enquanto cosmovisão moderna. A análise articula-se ao meu percurso clínico e formativo, minha atuação como médica pediatra com ampliação da Antroposofia desde 2002 e minha docência em Psicologia Analítica desde 2009, buscando integrar prática, teoria e reflexão crítica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cosmovisao-na-psicologia-analitica" style="font-size:20px"><strong>Cosmovisão na Psicologia Analítica</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Jung, a pergunta “<strong>Qual é a nossa atitude em relação ao mundo</strong>?” é o ponto de partida para compreender a formação de uma cosmovisão. O autor define atitude como “uma constelação especial de conteúdos psíquicos orientada para um fim ou dirigida por uma ideia-mestra” (Jung, 2013a, §690). Por isso, nossas ações jamais são simples respostas a estímulos imediatos, ao contrário, “cada uma de nossas reações e ações se processa sob a influência de fatores psíquicos complicados” (Jung, 2013a §691). Mesmo aquilo que parece um impulso espontâneo é, na verdade, o resultado de inúmeras determinações internas, conscientes e inconscientes, que configuram nossa posição diante da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung compara o funcionamento psíquico a um exército organizado, o ego seria o comandante, cujas reflexões, dúvidas, expectativas e decisões compõem seu estado-maior. Já os fatores que atuam “por trás dos bastidores” correspondem ao inconsciente, que influencia silenciosamente cada movimento da consciência (Jung, 2013a, §692). Essa metáfora evidencia que a atitude nunca é um ato isolado, mas a expressão momentânea de uma estrutura complexa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-nesse-contexto-que-jung-justifica-sua-preferencia-pelo-termo-atitude-em-vez-de-cosmovisao" style="font-size:18px">É nesse contexto que Jung justifica sua preferência pelo termo “atitude” em vez de “cosmovisão”. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A atitude pode ser consciente ou inconsciente, e um indivíduo pode conduzir-se de modo relativamente eficaz no mundo sem possuir uma cosmovisão formulada. Entretanto, ninguém age sem uma atitude. A cosmovisão surge apenas quando essa atitude é conceitualmente reconhecida e organizada, isto é, “quando alguém formular sua atitude de maneira conceitual ou concreta e verificar claramente por qual motivo e para que fim vive e age dessa ou daquela forma” (Jung, 2013a, §694).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por isso, Jung afirma que a cosmovisão é, em essência, “<strong>uma consciência ampliada ou aprofundada</strong>” (Jung, 2013a, §695). Toda tomada de consciência, dos próprios motivos, intenções, valores e escolhas, é o germe de uma cosmovisão. Ela se forma progressivamente, à medida que o indivíduo acumula experiências, elabora conhecimento e transforma sua relação com o mundo. Como afirma o autor, “Não formamos apenas uma imagem do mundo, ela nos transforma” (Jung, 2013a, §696).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa imagem do mundo torna-se então o eixo pelo qual orientamos nossa adaptação à realidade. Quando tal imagem é pobre, rígida ou inexistente, o indivíduo permanece sujeito a impulsos inconscientes, vulnerável às forças que desconhece (Jung, 2013a, §697). Por isso, Jung defende que a cosmovisão não é uma representação objetiva da realidade, pois isso seria impossível, mas sim “o melhor conhecimento possível” (Jung, 2013a, §698), uma hipótese de orientação vital.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Finalmente, Jung alerta para o risco das cosmovisões que se cristalizam como verdades absolutas. Toda cosmovisão deve ser compreendida como hipótese viva, jamais como doutrina: “<strong>uma cosmovisão é uma hipótese e não um artigo de fé</strong>” (Jung, 2013a, §700). Quando se petrifica, ela perde sua função simbólica e adaptativa, transformando-se em obstáculo para a individuação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-antroposofia-como-cosmovisao-um-olhar-da-psicologia-analitica" style="font-size:20px"><strong>Antroposofia como Cosmovisão: um olhar da Psicologia Analítica</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung reconhece que, na modernidade, há uma busca intensa por sistemas simbólicos que respondam ao colapso das antigas cosmovisões, e menciona explicitamente a Antroposofia como uma dessas tentativas. Com o atrofiamento da personalidade humana surge a necessidade de buscarmos as nossas origens. (Jung, 2013a, §737). Ele escreve: “<strong>Temos necessidade de uma cosmovisão [&#8230;] e muitas tentativas procuram restaurar uma cosmovisão de estilo antigo, como a Teosofia e a Antroposofia</strong>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, Jung distingue sua postura científica das afirmações metafísicas não demonstráveis como ele cita em uma carta. Na carta de 1935, afirma: “<em>Nada encontrei em Steiner que me fosse útil [&#8230;] Interesso-me apenas pelo que pode ser constatado pela experiência</em>” (Jung, 2025, p. 216).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Contudo, Jung reconhece que movimentos como a Antroposofia expressam conteúdos arquetípicos reativados, equivalentes aos sistemas gnósticos antigos (Jung, 2013b, §169-176). Ele considera que sua força deriva da energia psíquica que reflui das formas religiosas que perderam vitalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung (Jung, 2014, §118), afirma que compreende a adesão de muitas pessoas à Teosofia e à Antroposofia porque tais sistemas oferecem imagens e linguagens capazes de expressar acontecimentos interiores que a consciência moderna não consegue simbolizar. Essas imagens interiores nunca perderam totalmente sua energia vital e voltam novamente para compensar a unilateralidade da orientação da consciência moderna.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Quanto mais unilateral, rígida e incondicional for a defesa de um ponto de vista, tanto mais agressivo, hostil e incompatível se tornará o outro, de modo que a princípio a reconciliação, tem poucas perspectivas de sucesso. Mas, se o consciente pelo menos reconhecer a relativa validade de todas as opiniões humanas, o contrário também perde algo de sua incompatibilidade. Entretanto, esse contrário procura uma expressão adequada, por exemplo, nas religiões orientais, no budismo, no hinduísmo e no taoísmo. O sincretismo (mistura e combinação) da teosofia vem amplamente ao encontro dessa necessidade e explica o seu elevado número de adeptos”. (JUNG, 2014, </em><em>§ 118)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-questao-da-sujeicao-a-psique-coletiva-como-apresentada-por-jung-em-sua-obra-e-central-para-a-compreensao-do-processo-de-individuacao-e-do-perigo-da-identificacao-com-as-forcas-arquetipicas-que-moldam-a-psique-humana" style="font-size:18px">A questão da sujeição à psique coletiva, como apresentada por Jung em sua obra, é central para a compreensão do processo de individuação e do perigo da identificação com as forças arquetípicas que moldam a psique humana.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung (2015, p. 140-142) descreve o caminho da identificação com a psique coletiva como um processo de ilusão, no qual o indivíduo busca um conhecimento absoluto e revelador, mas perde a conexão com sua individualidade e com a própria capacidade de autotransformação. Nesse processo, o sujeito se perde nas imagens coletivas que o inconsciente coletivo oferece, confundindo-as com a verdade absoluta, o que pode levar à superficialidade e à dependência das estruturas externas, impedindo a verdadeira evolução da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa identificação, para Jung, resulta em um retrocesso, uma vez que o indivíduo deixa de buscar sua totalidade e, em vez disso, se submete aos modelos coletivos, dogmáticos e místicos, que podem se transformar em um &#8220;fetiche&#8221;, como se as ideias ou sistemas fossem a única verdade. Isso impede que o sujeito viva de forma autêntica, pois o processo de individuação exige que a pessoa confronte e integre seus próprios opostos internos, ao invés de se deixar levar por ideologias ou sistemas que oferecem respostas prontas. O perigo da sujeição à psique coletiva é, portanto, um obstáculo à liberdade psíquica e à conquista do verdadeiro autoconhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, <strong>Jung não se opõe a todos os movimentos coletivos, mas alerta para a necessidade de consciência crítica</strong>. A sujeição à psique coletiva é um dos riscos para a evolução individual e, por isso, é importante que o ser humano busque uma cosmovisão que não se perca em dogmas ou sistemas fechados, mas que seja um caminho vivo e dinâmico de autotransformação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, embora critique seus excessos dogmáticos, Jung reconhece que a Antroposofia responde a necessidades da alma contemporânea,&nbsp; necessidades que a Psicologia Analítica também busca compreender, porém com outra metodologia e outra ética da experiência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-moraes-2-moraes-2006-p-235-o-sujeito-que-se-aproxima-da-obra-de-steiner" style="font-size:19px">Para Moraes<a href="#_ftn2" id="_ftnref2"><sup>[2]</sup></a> (Moraes, 2006, p. 235), o sujeito que se aproxima da obra de Steiner:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.4"><em>“Encontra-se diante de um mythos que contém, implícito, uma ontologia do Anthropos, do Cosmos e uma Sophia. Diante dessa cosmologia e dessa ontologia de caráter místico, o sujeito é convidado a “viver o mythos”, percebendo-se como parte de um grande movimento cósmico vinculado a uma primordialidade intencional que se manifesta no cotidiano. Tal manifestação ocorre como possibilidade de atuação em campos diversos, medicina, educação, arte, todos reelaborados com recursos operacionais próprios desse amplo mythos. Assim, a Antroposofia, deixando de lado eventuais aspectos ideológicos, torna-se uma fonte de significabilidade, compreensibilidade e manuseabilidade. Cabe ao sujeito que se depara com esses instrumentos dispor deles de modo prático, reelaborá-los e, a partir disso, despertar recursos internos para sustentar sua própria existência. O grande desafio consiste em manter-se atento para que essa cosmosofia não se transforme em dogma e, consequentemente, se perca de vista o livre pensar crítico”.</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-consideracoes-finais" style="font-size:19px"><strong>Considerações Finais</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung propõe que a cosmovisão é indispensável ao ser humano, mas que ela deve permanecer viva, hipotética e não-dogmática. A Antroposofia aparece em suas obras como um movimento significativo, expressão de forças do inconsciente coletivo e resposta simbólica às carências espirituais modernas. No entanto, para Jung, a psicologia não pode substituir-se à metafísica, seu foco permanece no verificável, experiencial e simbolicamente transformador.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Cosmovisão e Antroposofia: uma leitura da Psicologia Analítica&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/T1xX_2xgF1E?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/lucianaantonioli/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/lucianaantonioli/">Luciana Antonioli &#8211; Analista Didata em Formação</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">CLARKE, J. J. Fundamentos filosóficos. <em>In</em>: <strong>Em busca de Jung &#8211; indagações históricas e filosóficas</strong>. Rio de Janeiro, RJ: Ediouro, 1992. p. 50–72.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>A natureza da psique</strong>. 4. ed ed. Petrópolis: Vozes, 2013a. v. 8/2</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Civilização em transição</strong>. Petrópolis: Vozes, 2013b. v. 10/03</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Psicologia do inconsciente</strong>. 24. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. v. 7/1</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>O eu e o inconsciente</strong>. 27. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015. v. 7/2</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>C. G. Jung &#8211; Cartas &#8211; Vol. 1, 1906 &#8211; 1945.</strong> 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2025. v. 1</p>



<p class="wp-block-paragraph">MORAES, Aragão de Moraes. <strong>Salutogênese e autocultivo: uma abordagem interdisciplinar &#8211; sanidade, educação e qualidade de vida</strong>. Rio de Janeiro, RJ: Instituto Gaia, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WENCESLAU, Leandro David; LUZ, Madel T. O saber antroposófico e sua inserção sociocultural. <em>In</em>: <strong>A medicina antroposófica como racionalidade médica e prática integral de cuidado à saúde: estudo teórico-analítico e empírico</strong>. 1. ed. Juiz de Fora, MG: UFJF, 2014. p. 21–47.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Fonte da imagem – Acervo pessoal. Aquarela de Luciana Antonioli, 2025.</em></p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1"><sup>[1]</sup></a> Psicanálise: abordagem clínico-teórica fundada por Sigmund Freud (1856–1939), que introduziu o conceito moderno de inconsciente e inaugurou um método específico de investigação dos fenômenos psíquicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2"><sup>[2]</sup></a> Wesley Aragão de Moraes (1973– ), filósofo brasileiro, mestre em Educação e doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará, pesquisador do pensamento de Rudolf Steiner e das interfaces entre Antroposofia, ontologia e educação.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A Influência da Psique dos Pais na Psique dos Filhos</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-influencia-da-psique-dos-pais-na-psique-dos-filhos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciana Antonioli]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Mar 2019 19:20:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[maternagem]]></category>
		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>
		<category><![CDATA[paternagem]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Desde a concepção do ser humano, muitos fatores podem interferir no relacionamento pais e filhos, temos conhecimento do que ocorre na nossa consciência e desconhecemos como o inconsciente dos cuidadores influência o desenvolvimento da psique das crianças, impedindo que se desenvolvam verdadeiros laços afetivos entre a criança e os responsáveis, colocando toda a família na [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Desde a concepção do ser humano, muitos fatores podem interferir no relacionamento pais e filhos, temos conhecimento do que ocorre na nossa consciência e desconhecemos como o inconsciente dos cuidadores influência o desenvolvimento da psique das crianças, impedindo que se desenvolvam verdadeiros laços afetivos entre a criança e os responsáveis, colocando toda a família na faixa de risco para os diversos desvios de relacionamento, incluindo a negligencia, o desinteresse pelo bem estar do filho através de condutas que podem desencadear todos os tipos de doenças na criança, até os acidentes e a violência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta influência do inconsciente dos cuidadores sob a psique das crianças podem acontecer em qualquer idade, entre a criança ou adolescente e seus responsáveis, seja na gravidez e ao nascimento os períodos mais frágeis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As atuais pesquisas mostradas por <strong>Figueiró</strong> (2009, p.10), apontam ser o adulto resultado da sua natureza, das relações com a família e grupos sociais, da cultura, valores, crenças, normas e práticas. O argumento de que a primeira infância é decisiva na formação do adolescente e do adulto passou a sustentar-se em estudos e pesquisas científicas nos últimos cem anos. Recentemente, a neurociência evidencia que episódios precoces de natureza física, emocional, social e cultural permanecem inscritos por toda existência nas conexões sinápticas do ser humano. Este fenômeno é possível diante da neuroplasticidade e das atividades biomoleculares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os fatores de risco e proteção da violência, sua emergência e prevenção, são conhecidos da literatura médica, começa no período da pré concepção com fetos indesejados ou rejeitados e permanece nas gestações mal cuidadas, tensas e desamparadas. Estes fatores continuam atuando na primeira infância com a privação de nutrientes afetivos fundamentais ao saudável desenvolvimento psíquico, social e cultural. Oitenta por cento da violência é transgeracional, passa de uma geração a outra e é possível prevenir esta violência através do apego seguro com o desenvolvimento da empatia na formação do individuo. A prevenção depende de uma base segura, da sensibilidade e da resiliência, que é a capacidade deste indivíduo de lidar com problemas e superar obstáculos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ciência tem comprovado a importância da educação e dos cuidados de qualidade durante os primeiros anos de uma criança para o seu desempenho escolar satisfatório e para uma vida adulta plena. O período que vai da gestação até o sexto ano de vida, e particularmente de zero a três anos incluindo o período gestacional, são os mais importantes na preparação dos alicerces das competências, habilidades emocionais e cognitivas futuras. É neste período que a criança aprende, com mais intensidade, a agir, a sentir, a se relacionar, e a desenvolver importantes valores a partir de suas relações na família, na escola e na comunidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir destes conceitos da literatura médica acrescentamos os conceitos da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung&nbsp;e do Método Acesso Direto do Inconsciente / Terapia de Integração Pessoal da autora Renate Jost de Morais&nbsp;para entendermos o desenvolvimento da psique na infância e como ocorre a influência da psique dos pais sobre a psique dos filhos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-no-desenvolvimento-da-psique-da-crianca-existe-uma-relacao-de-identidade-entre-o-inconsciente-dos-pais-e-filhos" style="font-size:20px"><strong>Para Jung, no desenvolvimento da psique da criança existe uma relação de identidade entre o inconsciente dos pais e filhos</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E esta relação de identidade pode ser a causadora de futuras neuroses, doenças físicas, atos de criminalidade e acidentes destas crianças. Os profissionais da área da saúde, que se ocupam em cuidar de crianças recebem diariamente cuidadores que relatam sintomas orgânicos, ou psíquicos, que apesar dos estudos médicos avançados, constituem verdadeiros enigmas que desafiam diariamente as modalidades diagnósticas e terapêuticas. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Como disse <strong>Jung</strong> (1972, p. 129), “Procura-se às vezes uma causa orgânica para alguma perturbação e não sabe que deveria procurá-la em outro lugar”. Este “outro lugar” pode ser evidente para os psicólogos analistas que conhecem a possibilidade de que as dificuldades psíquicas no relacionamento entre pai e mãe possam ser responsabilizadas por alterações orgânicas e psicológicas dos seus filhos. Jung (1972, p.129) diz que “a criança faz de tal modo parte da atmosfera psíquica dos pais que as dificuldades ocultas aí existentes e não resolvidas podem influir consideravelmente na saúde dela”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com<strong> Jung</strong>, existe um <strong>estado de identidade </strong>do inconsciente entre pais e filhos através do desenvolvimento da psique desde o nascimento da criança ao primeiro ano de vida, continuando até a adolescência.  </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-psique-da-crianca-nao-nasce-tabula-rasa-ja-existe-nesta-crianca-um-inconsciente-e-um-germe-do-nucleo-da-consciencia-que-sera-o-ego" style="font-size:19px">A psique da criança não nasce “Tábula Rasa”, já existe nesta criança um inconsciente e um “germe” do núcleo da consciência, que será o ego. </h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Que vai proporcionar e promover a proteção da psique infantil e as escolhas de quais estímulos permanecerão na consciência e quais permanecerão no inconsciente. </em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando-se o fato que a criança se desenvolve lentamente do estado inconsciente para o estado consciente, compreende-se também que a maioria das influências do ambiente são inconscientes. As primeiras impressões recebidas da vida são as mais fortes e as mais ricas em consequências, mesmo sendo inconscientes, e talvez justamente porque jamais se tornaram conscientes, ficando assim inalteradas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E para <strong>Moraes</strong> (2008, p.213) “isto é possível graças a característica de comunicabilidade absoluta do inconsciente, que não é limitado pelo tempo, pelo espaço e pela matéria”. Este conceito referente ao inconsciente está presente também na Psicologia Analítica de C. G. Jung, Stein (2006, p. 179) relata em uma carta de Jung: “foi Einstein quem primeiro me levou a pensar sobre uma possível relatividade tanto do tempo quanto do espaço, a sua condicionalidade psíquica”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O período vital da criança, Moraes afirma que, a criança tem percepção ampla e profunda dos acontecimentos que a cercam, sendo esta percepção inconsciente. Moraes (2007, p.163) diz “a criança, quando nasce, já traz em si – e bem elaborada – toda a estrutura básica de seu psiquismo e a programação orgânica. E na infância, a criança continua mentalmente mais comandada pelo inconsciente que pelo consciente”. </p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> (1972, p.121) diria ainda que “<em>a maioria das impressões surgidas nos primeiros anos de vida se torna rapidamente inconsciente e forma a camada infantil do inconsciente pessoal</em>”. Para <strong>Moraes </strong>(2007, p. 96) as crianças “costumam expressar a sua dor através de comportamentos simbólicos, doenças, acidentes, bloqueios de aprendizagem, agressividade&#8230;”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-atraves-da-sua-pesquisa-moraes-consegue-quantificar-o-quanto-o-inconsciente-dos-pais-afeta-a-crianca-tracando-a-dinamica-pais-e-filhos" style="font-size:18px">Através da sua pesquisa, <strong>Moraes </strong>consegue quantificar o quanto o inconsciente dos pais afeta a criança, traçando a dinâmica pais e filhos</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A grande força de influência inconsciente que os pais têm sobre a criança diminui gradativamente à medida que esta cresce. Em proporção estimativa, não estatística, eu diria que a influencia dos pais na fase do útero materno é de 90%, restringindo-se gradativamente a 75% até cinco anos de idade, a 65% dos cinco aos dez anos, e a 50% na adolescência, sendo que após essa idade o jovem a censura e se defende dessa influencia conscientemente (MORAES, 2008, p. 96).</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, de acordo com a mesma autora, um dos “mecanismos de defesa” da criança no período da infância, principalmente no primeiro ano de vida, é a doença física e a provocação de acidentes. Para Moraes (2007, p.169) “a criança adoece sem medir muito as consequências e percebe, com astúcia, que em torno das doenças dela os pais se unem quando não estão bem em seu relacionamento”. A criança se expõe com facilidade a perigos, riscos de vida e morte quando não se sente amada, ou melhor, quando não se sentiu amada na fase do útero materno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-a-psicologia-analitica-de-c-g-jung-e-importante-promover-a-autoeducacao-dos-adultos" style="font-size:21px">Para a Psicologia Analítica de C. G. Jung é importante promover a autoeducação dos adultos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como disse Jung sobre a educação do adulto (1972, p. 63) “<strong>sua cultura não deve jamais estacionar, pois de outro modo começará a corrigir nas crianças os defeitos que não corrigiu em si mesmo</strong>”. É muito importante a atitude sincera dos pais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quanto mais impressionantes forem os pais e quanto menos quiserem assumir seus próprios problemas (muitas vezes pensando diretamente no bem dos filhos!), por um tempo mais longo e de modo mais intenso terão os filhos de carregar o peso da vida que seus pais não viveram, como que forçados a realizar aquilo que eles recalcaram e mantiveram inconsciente (JUNG, 1972, p. 84).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entendemos que para Jung <strong>o erro dos pais estaria em fugir das dificuldades da vida levando tudo para o inconscient</strong>e, acarretando com esta atitude, indeléveis consequências na psique da criança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os conceitos apresentados nestes estudos colaboram com a medicina acadêmica que diz ser o&nbsp;cérebro construído dentro de um modelo homeostático (auto ajustado, buscando o equilíbrio) dentro de uma tríade: mãe, pai e sociedade. Suas influências, e por consequência as melhores medidas de prevenção de patologias, tanto orgânicas e como vimos neste estudo, patologias psíquicas, são da genética, da vida intrauterina, experiências durante o nascimento, amamentação no pós-parto exclusiva e depreferência até seis meses (a amamentação é a melhor medida de prevenção neuronal, afetiva e social), dos primeiros dias de vida extrauterina e do tipo de amparo (acolhimento e recepção na família e sociedade). De acordo com experiências vividas no período pós-natal (físicas e afetivas, positivas ou negativas) é que se formarão os novos caminhos neuronais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-ser-humano-como-visto-nestes-estudos-encontra-se-ao-nascer-imaturo-prematuro-e-totalmente-dependente-dos-seus-cuidadores" style="font-size:18px">O ser humano como visto nestes estudos encontra-se ao nascer imaturo, prematuro e totalmente dependente dos seus cuidadores.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Os mecanismos do desenvolvimento da psique e relação primal também auxiliam promover a construção e constituição do sujeito e seu ingresso normal ou patológico na sociedade. Ressalta-se neste processo o fundamental papel parental, de seus substitutos e da sociedade na apresentação do mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste estudo os conceitos trazidos por Jung e Moraes colaboram com o argumento de que a primeira infância é decisiva na formação do adolescente e do adulto. A prevenção depende de uma base segura, da sensibilidade e da resiliência, que é a capacidade deste indivíduo de lidar com problemas e superar obstáculos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de tudo, para Jung não convém exagerar em demasia a importância desse fato das atuações inconscientes, este fenômeno como relatado neste estudo, pertence ao desenvolvimento da psique da criança. Também aqui, como em outros pontos da prática psicológica, se constata o fato de que numa família de vários filhos apenas um ou outro deles reage no sentido de uma identidade marcante em relação ao inconsciente dos pais, enquanto os demais nada manifestam. A disposição específica de cada indivíduo é que desempenha o papel quase decisivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Para pais e educadores seria uma omissão deixar de considerar a causalidade psíquica, mas seria erro atribuir a essa instância a culpa de tudo</strong>. Em cada caso influem os dois fatores, a influência dos cuidadores e a disposição de cada indivíduo, sem que um deles precise excluir o outro. Muitas vezes, para Jung e Moraes, a influência da psique dos pais sobre a psique da criança, atua mais como simples ca­talisador a desencadear reações que podem ser explica­das de modo melhor a partir da massa hereditária.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acrescentamos aos conceitos de Jung a precocidade da influência da psique dos pais sobre a psique dos filhos, através da experiência clínica do Método ADI / TIP, que verificou a existência de uma instância humanística, a pessoalidade do ser humano, denominada no Método ADI / TIP, de Eu-Pessoal. Este visualizará o gameta feminino, o óvulo, o gameta masculino, a espermatozoide que formarão o futuro embrião; este fenômeno acontece três dias antes da concepção. Para Moraes a pessoalidade, ou Eu-Pessoal, estará presente nos fatos marcantes da vida do ser humano e será responsável pelas reações no desenvolvimento do corpo físico e do desenvolvimento da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A influência da psique dos pais sobre a psique dos filhos trazido por Jung e Moraes, desde o período pré concepção e principalmente no primeiro ano de vida, abre novas possibilidades e responsabilidades, aos cuidadores, profissionais da área da saúde e profissionais da área da educação preocupados com a promoção da saúde integral do ser humano, assim é que além da hereditariedade, dos agentes infecciosos, é de suma importância levar em consideração o desenvolvimento da psique da criança. Para estes autores os pais, ou cuidadores, deveriam promover uma relação saudável em suas uniões e criar um ambiente saudável para conviverem com a criança. Para tanto é fundamental que a própria psique dos adultos que convivem diariamente com a criança estejam em contínuo processo de educação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entendemos finalmente que o desenvolvimento da psique saudável da criança está diretamente relacionado à psique saudável dos adultos. Concluímos que psiques saudáveis geram ambientes saudáveis, sendo redundante afirmar ser necessário um processo consciente de autoeducação deflagrado por adultos responsáveis e conscientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/lucianaantonioli/">Autora: Luciana Antonioli</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">FIGUEIRÓ, João Augusto.&nbsp;<em>A primeira infância e a inviabilização do possível</em>. São Paulo:&nbsp;Publicações Cremesp:&nbsp;Revista Ser Médico, pg. 10, edição 48 – Julho/Agosto/Setembro de 2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FORDHAM, Michael.&nbsp;<em>A criança e o indivíduo.</em>&nbsp;São Paulo: Ed. Pensamento &#8211; Cultrix, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HALL, Calvin Springer.<em>&nbsp;Introdução à psicologia junguiana.</em>&nbsp;São Paulo: Ed. Cultrix, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JACOBY, Mario.&nbsp;<em>Psicoterapia junguiana e a pesquisa contemporânea com crianças; padrões básicos de intercâmbio emocional.</em>São Paulo: Ed. Paulus, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Obras Completas de C. G. Jung.&nbsp;</em>Petrópolis:Vozes. Os seguintes volumes são mencionados no texto:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Vol. VII / 1 –&nbsp;<em>Psicologia do inconsciente,&nbsp;</em>1971.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Vol. VII / 2 –&nbsp;<em>O eu e o inconsciente,</em>&nbsp;1971.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Vol.VIII / 2 –&nbsp;<em>A natureza da psique,&nbsp;</em>1971.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Vol. IX / 2 –&nbsp;<em>AION estudo sobre o simbolismo do si &#8211; mesmo</em>, 1976.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Vol. XVII &#8211;&nbsp;<em>O desenvolvimento da personalidade,&nbsp;</em>1972.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Vol. XVIII / 1 –&nbsp;<em>Fundamentos da psicologia analítica,</em>&nbsp;1981.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ &#8211;&nbsp;&nbsp;<em>Memórias, sonhos e reflexões.</em>&nbsp;Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LIPTON, Bruce H.<em>&nbsp;A biologia da crença;&nbsp;</em>ciência e espiritualidade na mesma sintonia: o poder da consciência sobre a matéria e os milagres. São Paulo: Butterfly Editora, 2007</p>



<p class="wp-block-paragraph">MORAES, Renate Jost.&nbsp;<em>O inconsciente sem fronteiras</em>. Petrópolis: Ed. Idéias &amp; letras, 2007.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ .<em>&nbsp;As chaves do inconsciente.&nbsp;</em>&nbsp;Petrópolis: Ed. Vozes, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich.<em>&nbsp;A criança.</em>&nbsp;São Paulo: Cultrix, 1980</p>



<p class="wp-block-paragraph">STEIN, Murray.&nbsp;<em>Jung, o mapa da alma: uma introdução</em>. São Paulo: Ed. Cultrix, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CENTRO BRASILEIRO DE PSICOLOGIA JUNGUIANA.&nbsp;<em>Jung e o Ocultismo</em>&nbsp;&#8211; Millenium Vídeos Produção &#8211;&nbsp;psifer@vento.com.br</p>



<hr class="wp-block-separator has-css-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Figueiró,&nbsp;</em>João Augusto – Médico clínico e psicoterapeuta. Membro fundador, vice-presidente e diretor cientifico do Instituto Zero a Seis – Primeira Infância e Cultura de Paz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<em>Moraes</em>, Renate Jost de. Brasileira, gaúcha, residente em Belo Horizonte desde 1979. É criadora do Método ADI/TIP – Abordagem Direta do Inconsciente/Terapia de Integração Pessoal. É psicóloga graduada e pós-graduada (Latu Sensu) em Psicologia pela PUC-MG, tendo formação em Serviço Social&nbsp;e&nbsp;em Enfermagem. Defendeu tese sobre “O Problema Social do Hanseniano”. Foi Conselheira Nacional do Serviço Social.</p>



<p class="wp-block-paragraph"> <em>Jung, </em>Letters, Vol.2. pp. 108-9.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>
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