Resumo: Este ensaio propõe uma leitura simbólica da violência masculina na adolescência a partir da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, das ampliações realizadas por Marie-Louise von Franz em O Asno de Ouro e da compreensão de Bernard Lievegoed acerca das fases da vida. Discute-se a adolescência como um momento crítico da constituição da consciência, marcado pela separação psíquica em relação ao mundo infantil, pela emergência da sexualidade e pela busca de pertencimento e identidade. Von Franz aprofunda essa reflexão ao descrever determinadas manifestações de brutalidade juvenil como expressões de uma masculinidade imatura e impulsiva, associada a formas degradadas de passagem para o mundo adulto. Em diálogo com essas formulações, Lievegoed compreende a adolescência como o grande despertar da realidade, período marcado pela busca de sentido e lugar no mundo. O ensaio propõe compreender determinadas formas contemporâneas de violência juvenil como expressões de falhas na elaboração simbólica da entrada na vida adulta.
Uma leitura simbólica da violência masculina na adolescência a partir de Jung, von Franz e Lievegoed, refletindo sobre falhas simbólicas na passagem para a vida adulta.
Na mesma época ocorreu outro acontecimento importante, enquanto eu percorria o longo trajeto entre Klein-Hüningen, lugar onde morávamos, e a escola em Basiléia.
Tive a sensação arrebatadora de emergir de uma névoa espessa, tomando consciência de que agora eu era eu.
Era como se atrás de mim houvesse um muro de névoa além do qual eu ainda não existia. Neste instante preciso eu me tornei eu por mim mesmo.
Antes eu estivera lá mas tudo se produzia passivamente; dali em diante, eu o sabia: agora eu sou eu. Agora eu existo.
Tal acontecimento pareceu-me extraordinariamente significativo e inusitado.
Havia autoridade em mim.
MSR, p.63.
Algumas manifestações contemporâneas de violência entre adolescentes e jovens adultos voltaram a causar inquietação. Não como tema abstrato, mas como realidade, tanto na ficção quanto na vida cotidiana.
Na ficção a minissérie britânica “Adolescência” (2025), amplamente premiada, recoloca o adolescente no centro da cena cultural não mais como uma etapa idealizada de passagem, mas como um território de risco psíquico no qual a violência irrompe quando os processos de simbolização falham. Essa ficção encontra reflexos na realidade contemporânea, como demonstra o Caso Orelha (2026), em Florianópolis, no qual um cão comunitário foi brutalmente agredido por adolescentes. Sob o olhar da Psicologia Analítica, o animal nesses episódios encarna o polo instintivo da própria psique juvenil que, por não ser reconhecido nem simbolizado internamente, é atacado externamente em uma tentativa desesperada de controle. Tal falta na mediação simbólica ecoa no estupro coletivo em Copacabana (2026), cujas imagens de celebração dos agressores revelam uma falha da sociedade em prover limites e alteridade. Esses eventos lembram o Caso Galdino Pataxó (1997), em que jovens de classe média reduziram um líder indígena à condição de objeto, queimando-o sob o pretexto de uma brincadeira. Em todos esses casos, o conflito com a dimensão instintiva deixa de ser elaborado internamente e passa a manifestar-se diretamente no comportamento, transformando o processo de desenvolvimento em um cenário de violência.
À luz da Psicologia Analítica, a adolescência configura-se como momento crítico do desenvolvimento. Quando essa travessia ocorre sem sustentação simbólica suficiente, aquilo que não pode ser elaborado tende a ser atuado.
Dessa forma, este ensaio propõe uma leitura simbólica da violência masculina na adolescência a partir da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, de sua compreensão do desenvolvimento psíquico e das transformações que acompanham a passagem da infância para a juventude. Em diálogo com Jung, serão utilizadas as ampliações realizadas por Marie-Louise von Franz em sua leitura de O Asno de Ouro, de Apuleio, sobretudo no que se refere à masculinidade imatura, à sombra e às explosões destrutivas presentes em determinados grupos juvenis. A reflexão será ainda complementada pela perspectiva do psiquiatra holandês Bernard Lievegoed, cuja compreensão da adolescência como crise de sentido e despertar da realidade permite ampliar a discussão para além da dimensão intrapsíquica, alcançando também o empobrecimento simbólico da cultura contemporânea. A articulação entre esses autores oferece um campo para pensar a violência não apenas como falha moral ou social, mas como expressão de uma dificuldade de elaboração psíquica em um momento da constituição da identidade.
A emergência da consciência e a travessia adolescente
Para Jung (2013a, §103), a consciência não está presente de forma organizada nos primeiros anos de vida. Embora existam processos psíquicos desde cedo, eles ainda não se articulam em torno de um eu capaz de produzir continuidade consciente. O desenvolvimento da consciência ocorre gradualmente, à medida que diferentes conteúdos psíquicos passam a organizar-se em torno do ego. Esse processo intensifica-se do nascimento até o final da puberdade psíquica, período em que se estabelece uma diferenciação progressiva entre consciência e inconsciente. Jung descreve esse movimento como a emergência da consciência a partir do inconsciente, “como uma nova ilha aflora sobre a superfície do mar” (2013a, §103). Nesse contexto, educação e cultura possuem papel fundamental, pois auxiliam a formação da consciência e a integração psíquica do indivíduo.
Jung (2012, §1007) observa que a formação psíquica da criança não é determinada principalmente pelos ensinamentos conscientes transmitidos pelos pais, mas pela atmosfera emocional inconsciente na qual ela cresce.
Tensões silenciosas, medos, conflitos reprimidos e formas de estar no mundo atravessam a vida familiar e imprimem-se na psique infantil de maneira profunda e duradoura. A criança não absorve apenas palavras ou regras morais, incorpora estados emocionais, modos de relação e atitudes afetivas que passam a constituir sua própria forma de sentir e perceber a realidade. Assim, aquilo que permanece inconsciente nos adultos frequentemente reaparece, na vida psíquica do filho.
Ao discutir o desenvolvimento da consciência, Jung (2013a, §107a) descreve a adolescência como um processo gradual de diferenciação em relação ao ambiente familiar.
A criança inicia a vida em uma condição de identidade primitiva com os pais e necessita desprender-se progressivamente dessa fusão para constituir-se como sujeito. Nesse percurso, a escola representa o primeiro encontro mais amplo com o mundo para além da família, e o adulto deixa de ocupar apenas uma função pedagógica para assumir também uma função simbólica. Mais do que transmitir conteúdos, cabe aos pais e educadores sustentar referências humanas capazes de auxiliar o jovem em sua entrada na vida adulta.
Jung alerta que tanto o excesso quanto a fragilidade da autoridade parental podem comprometer esse movimento, vínculos excessivamente fusionais dificultam a autonomia, enquanto a ausência de continência impede a construção de limites internos. “O adolescente está destinado para o mundo, e não para continuar a ser sempre apenas filho de seus pais” (2013a, §107a). Quando essa separação não ocorre de forma suficientemente elaborada, a busca de pertencimento tende a deslocar-se para identificações coletivas e formas precárias de afirmação da identidade.
Em diferentes culturas, essa passagem para a vida adulta foi tradicionalmente sustentada por rituais de iniciação que tinham a função simbólica de romper a dependência infantil e introduzir o jovem em uma nova forma de pertencimento coletivo (2013b §725). Muitas dessas cerimônias possuíam caráter corporal e, por vezes, cruel, expressando simbolicamente a intensidade dessa transformação psíquica.
No período da puberdade ocorre aquilo que Jung (2013b, §756) denomina um verdadeiro nascimento psíquico, marcado pela emergência do eu diante das intensas transformações corporais e emocionais da adolescência.
A irrupção da sexualidade é acompanhada por conflitos, excessos e instabilidade emocional, aquilo que Jung chama de “os anos difíceis da adolescência” (2013b, §756). A travessia adolescente exige, assim, não apenas maturação biológica, mas também condições psíquicas e culturais capazes de sustentar a entrada no mundo adulto.
Ao abordar a puberdade masculina, Jung (2013c, §217) descreve um momento de desorganização psíquica, no qual o jovem passa a experimentar impulsos e intensidades emocionais que excedem sua capacidade de elaboração consciente. Segundo ele, o adolescente terá a sexualidade do homem adulto, mas ainda tem a alma de criança, vivendo uma dissociação entre maturidade corporal e imaturidade psíquica. A emergência da sexualidade introduz conflitos morais, fantasias intensas, instabilidade emocional e dificuldades de julgamento, produzindo uma experiência frequentemente marcada por excessos, idealizações e oscilações abruptas de afeto.
Nesse período, (2013c, §217) o jovem torna-se particularmente vulnerável à influência do grupo e às formas coletivas de afirmação da masculinidade.
O linguajar obsceno, os desafios entre pares e determinadas manifestações de brutalidade podem surgir como tentativas precárias de elaboração dessa energia ainda não integrada. A adolescência masculina aparece, assim, como um campo de tensão entre impulsividade e construção da consciência, no qual a experiência do corpo e do desejo frequentemente antecede a capacidade simbólica de lhes atribuir sentido.
Essas formulações permitem compreender a adolescência não apenas como uma etapa biográfica marcada por transformações corporais e emocionais, mas como um momento de reorganização psíquica, no qual a entrada na vida adulta exige separação progressiva das identificações infantis, elaboração do instinto e construção de novas formas de pertencimento. É nesse ponto que Marie-Louise von Franz aprofunda a reflexão junguiana ao analisar, em O Asno de Ouro, formas de masculinidade imatura nas quais a violência, o desafio grupal e a brutalidade aparecem como tentativas precárias de afirmação viril e de entrada no mundo adulto.
A falha da iniciação masculina
Ao ampliar O Asno de Ouro, de Apuleio, Marie-Louise von Franz descreve determinadas manifestações de violência masculina como expressões de uma masculinidade ainda não integrada à consciência em uma passagem, os ladrões do romance aparecem como figuras impulsivas, movidas por espasmos de virilidade incapazes de sustentar verdadeira transformação interior (Von Franz, 2021, p.98). Há neles intensidade, desafio e brutalidade, mas não direção, responsabilidade ou capacidade de suportar tensão psíquica. Para von Franz, essa virilidade inconsciente permanece regressiva e ligada ao complexo materno, produzindo formas precárias de afirmação masculina que oscilam entre atuação impulsiva, pertencimento grupal e destruição. Nesse contexto, o ato violento pode surgir como tentativa desesperada de provar existência, coragem ou identidade diante de um eu ainda frágil e pouco diferenciado.
Von Franz aproxima essa dinâmica de certos comportamentos adolescentes contemporâneos, nos quais desafios grupais, agressões cruéis e atos extremos aparecem como “pseudo-rituais” de passagem. Quando adolescentes se desafiam mutuamente a cometer brutalidades, inclusive contra corpos vulneráveis, a violência deixa de representar força amadurecida e passa a revelar justamente sua ausência. “Esses espasmos de virilidade […] são fadados a falhar” (Von Franz, 2021, p.98).
Em diálogo com Jung, tais manifestações podem ser compreendidas como formas degradadas de iniciação, nas quais o risco, o sofrimento e a crueldade aparecem dissociados de qualquer elaboração simbólica efetiva.
Eles pertencem, tipicamente, a certas fases da luta do jovem contra o complexo materno. Podem ser vistos, por exemplo, nestas atitudes horríveis e explosões súbitas de brutalidade entre alguns adolescentes, como nos casos em que se desafiam mutuamente a jogar querosene numa pessoa e atear fogo, como se isso pudesse chancelar sua virilidade. (Von Franz, 2021, p.98)
As formulações de von Franz permitem compreender que determinadas manifestações de brutalidade adolescente não surgem apenas da impulsividade ou da agressividade em si mesmas, mas de uma tentativa fracassada de transformação psíquica. Por trás dos desafios grupais, das atuações violentas e das formas primitivas de afirmação viril, encontra-se frequentemente um jovem ainda incapaz de sustentar internamente a travessia entre o mundo infantil e a vida adulta. A violência aparece, então, não apenas como destruição, mas também como busca distorcida de pertencimento, identidade e reconhecimento. É justamente nesse ponto que Bernard Lievegoed amplia a discussão ao compreender a adolescência como o período do “grande despertar da realidade”, momento em que o jovem passa a confrontar-se não apenas com o corpo, o desejo e o grupo, mas também com as questões fundamentais de sentido, verdade e direção existencial.
O despertar da realidade e a busca de sentido
Bernard Lievegoed compreende a adolescência como o momento do grande despertar da realidade, no qual o mundo protegido da infância começa a se romper e o jovem passa a confrontar-se com a complexidade, a solidão e as exigências do mundo externo (Lievegoed, 1970). Se na infância a experiência fundamental deveria ser a de que “o mundo é bom”, e no período escolar a fantasia permitiria à criança construir criativamente sua interioridade, a adolescência introduz uma nova tarefa psíquica para encontrar uma posição própria diante da realidade e começar a assumir a si mesmo como indivíduo.
Nesse processo emergem as perguntas fundamentais da juventude: “Quem sou eu? O que eu quero? De que sou capaz?”. A adolescência aparece, assim, como um período marcado pela busca de verdade, pertencimento, direção existencial e reconhecimento. Entretanto, essa travessia ocorre em meio a uma profunda sensação de impermanência, insegurança e ausência de base fixa. O jovem encontra-se diante da necessidade de separar-se das identificações infantis antes que exista verdadeira estabilidade interior. Lievegoed observa que, nesse contexto, surgem formas intensas e incondicionais de julgamento e ação, frequentemente “tanto mais violentas quanto mais o eu pessoal estiver inseguro de si mesmo” (Lievegoed, 1970, p.42)
Para Lievegoed, a intensidade dos ideais, o fascínio pelos grupos, a idolatria de figuras heroicas e as experiências extremas podem então funcionar como tentativas de responder à pergunta central da adolescência: qual é o meu lugar no mundo? Quando essa busca não encontra mediações humanas, simbólicas e criativas suficientemente consistentes, a energia vital característica da juventude pode deslocar-se para formas imitativas de pertencimento e manifestações destrutivas que oferecem, ainda que precariamente, sensação de identidade e reconhecimento grupal.
Considerações finais
A partir das contribuições de Jung, von Franz e Lievegoed, a adolescência pode ser compreendida como um momento crítico do desenvolvimento psíquico, no qual o jovem é convocado a separar-se das identificações infantis, confrontar o despertar do instinto e construir uma posição própria diante do mundo.
Essa travessia, porém, não ocorre de forma linear nem puramente individual, sendo atravessada pelas marcas emocionais inconscientes da família, pelas exigências culturais de pertencimento e pelas dificuldades contemporâneas de sustentação simbólica da entrada na vida adulta.
Nesse contexto, determinadas manifestações de brutalidade masculina podem ser entendidas não apenas como expressão de agressividade, mas como tentativas precárias e regressivas de afirmar identidade, virilidade e reconhecimento diante de um ego ainda inseguro e pouco estruturado.
A violência grupal, os desafios extremos, a crueldade contra corpos vulneráveis e a necessidade compulsiva de prova aparecem, assim, como formas degradadas de rituais de passagem, nas quais o ato substitui a elaboração simbólica e o pertencimento coletivo ocupa o lugar de uma identidade ainda frágil e em construção. Entre o instinto e o sentido, a tarefa é restituir um lugar simbólico para aquilo que hoje se expressa como destruição.
Luciana Antonioli – Analista Didata em formação IJEP
José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata IJEP
Referências:
Fonte da imagem – Acervo pessoal. Aquarela de Luciana Antonioli, 2026.
JUNG, C. G. Estudos experimentais. 3a ed. Petrópolis: Vozes, 2012. v. 02
JUNG, C. G. O desenvolvimento da personalidade. 9a ed. Petrópolis: Vozes, 2013a. v. 17
JUNG, C. G. A natureza da psique. 4a ed. Petrópolis: Vozes, 2013b. v. 8/2
JUNG, C. G. Civilização em transição. Petrópolis: Vozes, 2013c. v. 10/03
JUNG, Carl Gustav. Memórias, sonhos, reflexões. [S.l.]: Nova Fronteira, 2020.
LIEVEGOED, Bernard. Fases da vida – crises e desenvolvimento da individualidade. 3a ed. São Paulo, SP: Antroposófica, 1970. (p. 36 – 44)
VON FRANZ, Marie-Louise. O asno de ouro: o romance de Lúcio Apuleio na perspectiva da psicologia analítica junguiana. 1a ed. São Paulo, SP: Editora Vozes, 2021.


