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	<title>Patricia Cordeiro, Autor em Blog IJEP</title>
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	<link>https://blog.ijep.com.br/author/patricia-cordeiro/</link>
	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Mon, 12 Oct 2026 15:52:50 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Patricia Cordeiro, Autor em Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Entre o absorver e o eliminar: as possíveis expressões simbólicas da função intestinal</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/entre-o-absorver-e-o-eliminar-as-possiveis-expressoes-simbolicas-da-funcao-intestinal/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Cordeiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Oct 2026 16:24:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
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		<category><![CDATA[Consciência]]></category>
		<category><![CDATA[corpo e psique]]></category>
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		<category><![CDATA[integração]]></category>
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		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[processo de individuação]]></category>
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		<category><![CDATA[sintomas]]></category>
		<category><![CDATA[valoração]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Corpo e psique constituem aspectos inseparáveis da experiência humana e, nesse sentido, o funcionamento do intestino pode ser compreendido para além de suas funções fisiológicas. Absorver, assimilar, reter e eliminar são processos próprios do funcionamento intestinal que também podem nos oferecer possibilidades de reflexão sobre a maneira como nos relacionamos com nossas experiências. A partir da Psicologia Analítica, este artigo propõe uma ampliação simbólica dessas funções, pensando sobre aquilo que conseguimos incorporar, aquilo que permanece retido e aquilo que precisa ser elaborado e deixado seguir seu curso.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/entre-o-absorver-e-o-eliminar-as-possiveis-expressoes-simbolicas-da-funcao-intestinal/">Entre o absorver e o eliminar: as possíveis expressões simbólicas da função intestinal</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Corpo e psique constituem aspectos inseparáveis da experiência humana e, nesse sentido, o funcionamento do intestino pode ser compreendido para além de suas funções fisiológicas. Absorver, assimilar, reter e eliminar são processos próprios do funcionamento intestinal que também podem nos oferecer possibilidades de reflexão sobre a maneira como nos relacionamos com nossas experiências. A partir da Psicologia Analítica, este artigo propõe uma ampliação simbólica dessas funções, pensando sobre aquilo que conseguimos incorporar, aquilo que permanece retido e aquilo que precisa ser elaborado e deixado seguir seu curso.</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-plain" style="font-size:17px"><blockquote><p>Corpo e psique são os dois aspectos do ser vivo, e isso é tudo o que sabemos. Assim, prefiro afirmar que os dois elementos agem simultaneamente, de forma milagrosa, e é melhor deixarmos as coisas assim, pois não podemos imaginá-las juntas.</p><cite>JUNG, 2015, p.70</cite></blockquote></figure>



<h2 id="h-se-corpo-e-psique-como-propoe-jung-sao-dois-aspectos-do-ser-vivo-que-atuam-simultaneamente-aquilo-que-acontece-no-corpo-nao-pode-ser-separado-da-experiencia-psiquica-assim-como-a-experiencia-psiquica-nao-acontece-a-margem-do-corpo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Se corpo e psique, como propõe Jung, são dois aspectos do ser vivo que atuam simultaneamente, aquilo que acontece no corpo não pode ser separado da experiência psíquica, assim como a experiência psíquica não acontece à margem do corpo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E essa compreensão pode ampliar um olhar redutivo de uma relação de causa e efeito e possibilitar uma reflexão mais ampla sobre as diferentes maneiras pelas quais uma mesma experiência pode se expressar simultaneamente no corpo e na psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O intestino pode possibilitar um campo interessante para essa reflexão, não apenas pela reconhecida relação entre seu funcionamento e os estados emocionais, mas também pelas descobertas contemporâneas a respeito da comunicação bidirecional existente entre intestino e cérebro.</p>



<h2 id="h-o-intestino-constitui-a-porcao-mais-extensa-do-trato-gastrointestinal-e-desempenha-funcoes-fundamentais-nos-processos-de-digestao-absorcao-de-nutrientes-equilibrio-hidrico-e-eliminacao-de-residuos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O intestino constitui a porção mais extensa do trato gastrointestinal e desempenha funções fundamentais nos processos de digestão, absorção de nutrientes, equilíbrio hídrico e eliminação de resíduos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Anatomicamente, ele divide-se em intestino delgado e intestino grosso. De maneira simplificada, pode-se compreender o primeiro como predominantemente relacionado aos processos de digestão e absorção de nutrientes, enquanto o segundo participa principalmente da absorção de água e eletrólitos, da formação das fezes e de sua posterior eliminação (MORSCHITZKY, Hans; SATOR, Sigrid., 2013; MARTINS, B. et al, 2026).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O funcionamento intestinal é regulado pelo sistema nervoso entérico e modulado pelo sistema nervoso autônomo, por meio de seus ramos simpático e parassimpático, tendo o nervo vago importante participação nessa comunicação. Em situações de estresse percebidas como ameaça, ocorre uma maior ativação do ramo simpático, levando o organismo a priorizar funções relacionadas à sobrevivência, e essa resposta pode, dependendo do contexto e das características individuais, modificar a motilidade, a secreção e outros processos digestivos (MARTINS, B. et al, 2026).</p>



<h2 id="h-a-interacao-entre-o-sistema-gastrointestinal-e-o-sistema-nervoso-central-tem-sido-amplamente-investigada-especialmente-devido-ao-seu-impacto-na-saude-mental-trata-se-do-chamado-eixo-intestino-cerebro" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A interação entre o sistema gastrointestinal e o sistema nervoso central tem sido amplamente investigada, especialmente devido ao seu impacto na saúde mental, trata-se do chamado “eixo intestino-cérebro”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Um processo de comunicação entre esses dois sistemas que ocorre de forma bidirecional, ou seja, tanto o cérebro influencia o funcionamento intestinal quanto o sistema entérico exerce efeitos sobre o sistema nervoso central. &nbsp;Tal comunicação bidirecional do ponto de vista funcional, permite que o estresse e a ansiedade, influenciem diretamente o funcionamento intestinal, a permeabilidade da mucosa e a alteração da microbiota intestinal. (MARTINS, B. et al, 2026).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A microbiota intestinal corresponde ao conjunto de microrganismos presentes no trato gastrointestinal humano que além de atuarem na digestão também atuam na regulação e manutenção do sistema imunológico; além disso, a microbiota participa da produção e modulação de metabólitos e substâncias neuroativas relacionadas à comunicação intestino-cérebro, incluindo vias associadas à serotonina, dopamina e GABA que estão diretamente ligados ao humor, sono, comportamento e resposta ao estresse (MARTINS, B. et al, 2026).</p>



<h2 id="h-cerebro-e-intestino-encontram-se-portanto-em-permanente-comunicacao-de-modo-que-alteracoes-ocorridas-em-um-desses-sistemas-podem-repercutir-sobre-o-outro" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Cérebro e intestino encontram-se, portanto, em permanente comunicação, de modo que alterações ocorridas em um desses sistemas podem repercutir sobre o outro.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sob essa perspectiva, seria interessante compreender de que maneira experiências psíquicas e processos fisiológicos participam simultaneamente dessa comunicação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung (2015, p.318) afirma que nossas emoções “<em>são contagiosas e estão profundamente enraizadas no sistema simpático</em>”, portanto, nossas experiencias psíquicas geram respostas fisiológicas por meio de uma variedade de neurotransmissores. Tal correlação é reforçada em diversos escritos de Jung (2015) na obra <strong>Vida Simbólica</strong> nos quais ele afirma:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">§148 “tudo que é acentuadamente sentido torna-se difícil de ser abordado, porque esses conteúdos encontram-se, de uma forma ou outra, ligados com reações fisiológicas, com os processos cardíacos, com o tônus dos vasos sanguíneos, a condição dos intestinos, a inervação da pele, a respiração”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">§317 “As emoções não são manejáveis, como as ideias ou os pensamentos, pois são idênticas a certas condições físicas, e, portanto, profundamente enraizadas na matéria do corpo&#8230;”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">§58 “&#8230;sentimentos, cujo caráter seja emocional, são acompanhados de efeitos fisiológicos&#8230;”</p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-partir-desses-apontamentos-podemos-compreender-que-experiencias-emocionais-apresentam-simultaneamente-dimensoes-psiquicas-e-fisiologicas-visto-que-corpo-e-psique-constituem-aspectos-inseparaveis-de-uma-mesma-experiencia" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A partir desses apontamentos, podemos compreender que experiências emocionais apresentam, simultaneamente, dimensões psíquicas e fisiológicas, visto que corpo e psique constituem aspectos inseparáveis de uma mesma experiência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aquilo que vivenciamos emocionalmente pode ser acompanhado por manifestações fisiológicas, ao mesmo tempo em que as condições corporais também participam da maneira como uma experiência é vivida e percebida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Algumas dessas experiências podem ser passageiras; outras, entretanto, quando repetidas e marcadas por forte tonalidade afetiva, tendem a se agrupar em torno de um núcleo de significado e afeto, constituindo aquilo que Jung denomina complexo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De acordo com Jung (2015, §148) “um complexo é um aglomerado de associações – espécie de quadro de natureza psicológica mais ou menos complicada – às vezes de caráter traumático, outras, apenas doloroso e altamente acentuado. Tudo o que se acentua demais é difícil de ser conduzido”. O autor na obra “A Natureza da Psique” (2014, §204) também afirma que uma das causas mais frequentes de um complexo seria na impossibilidade de aderir à totalidade da natureza humana, seria um conflito moral. E que o complexo, por ser dotado de tensão ou energia própria, apresenta uma espécie de corpo e uma fisiologia própria que pode perturbar o coração, o estômago, a pele; comportando-se como uma personalidade parcial (JUNG, 2015, §149).</p>



<h2 id="h-na-perspectiva-psicossomatica-proposta-por-magaldi-2022-os-sintomas-podem-ser-compreendidos-como-possiveis-expressoes-dos-complexos-resultantes-de-conflitos-estabelecidos-entre-ego-e-inconsciente" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na perspectiva psicossomática proposta por Magaldi (2022), os sintomas podem ser compreendidos como possíveis expressões dos complexos, resultantes de conflitos estabelecidos entre ego e inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se nos propormos a ampliar simbolicamente, o intestino abarca diversas funções, ele precisa receber o conteúdo processado pelo estômago, transformar, selecionar, absorver, transportar e eliminar. De maneira que ele constitui uma interface entre aquilo que recebemos do meio externo, aquilo que compreendemos como importante de ser absorvido e aquilo que entendemos como desnecessário e que devemos eliminar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Considerando as funções intestinais e os verbos a elas associados, a presença de sintomas nesse sistema pode oferecer possibilidades de ampliação simbólica a respeito da maneira como recebemos e elaboramos nossas experiências psíquicas.</p>



<h2 id="h-diante-daquilo-que-a-vida-nos-apresenta-o-que-pode-ser-assimilado-e-integrado-pela-consciencia-o-que-permanece-retido-ainda-sem-possibilidade-de-elaboracao-e-o-que-tendo-cumprido-sua-funcao-necessita-ser-reconhecido-e-posteriormente-deixado-seguir-seu-curso" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Diante daquilo que a vida nos apresenta, o que pode ser assimilado e integrado pela consciência? O que permanece retido, ainda sem possibilidade de elaboração? E o que, tendo cumprido sua função, necessita ser reconhecido e posteriormente deixado seguir seu curso?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O papel da consciência é discriminar, separar, elaborar é importante que não sejamos tomados pelos conteúdos inconscientes, retendo, aprisionando, sem elaboração e eliminação. É essencial que possamos refletir sobre e o que precisa ser eliminado, aquilo do qual não precisamos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Gostaria de sintetizar essa reflexão em quatro verbos: absorver, assimilar, reter e eliminar. Absorver pode ser pensado como aquilo que entra; assimilar, como aquilo que, uma vez recebido, é transformado e passa a integrar; reter, como aquilo que permanece; e eliminar, como aquilo que pode ser liberado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essas correspondências, entretanto, não devem ser tomadas como significados psíquicos inerentes às funções intestinais nem como relações causais a sintomas intestinais. Podem ser possibilidades de investigação cujo valor simbólico dependerá das associações, da história e da experiência singular de cada indivíduo e o processo analítico pode ser um convite para transformar esses verbos em histórias pessoais, vivências ou experiências psíquicas que podem ser simbolizadas, ampliadas e elaboradas.</p>



<h2 id="h-a-ampliacao-dessas-experiencias-pode-tornar-conscientes-conteudos-que-ate-entao-nao-haviam-encontrado-possibilidade-de-representacao-ou-elaboracao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A ampliação dessas experiências pode tornar conscientes conteúdos que até então não haviam encontrado possibilidade de representação ou elaboração.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Entretanto, não se trata apenas de tornar consciente aquilo que era inconsciente. Ao entrar em contato com a atitude consciente, esses conteúdos podem revelar posições distintas ou mesmo contraditórias em relação à maneira como o indivíduo compreende e conduz sua vida. Evidenciando aí uma tensão de opostos, entre aquilo que estava inconsciente e a posição da consciência.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O processo natural dessa tensão de opostos serviu para Jung como modelo e fundamento para um método que consiste em provocar intencionalmente o que a natureza produz inconsciente e espontaneamente e integrá-lo à consciência e seus conceitos (JUNG, 2013, p.121).</p>
</blockquote>



<h2 id="h-na-obra-psicologia-do-inconsciente-jung-2013-p-121-define-a-funcao-transcendente-como-um-processo-natural-uma-manifestacao-de-energia-produzida-pela-tensao-entre-os-contrarios-que-estabelece-uma-ponte-entre-consciente-e-inconsciente" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na obra Psicologia do Inconsciente Jung (2013, p.121) define a função transcendente como um processo natural, uma manifestação de energia produzida pela tensão entre os contrários, que estabelece uma ponte entre consciente e inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A partir dessa energia produzida surge a função transcendente que corresponde a evolução progressiva para uma nova atitude, um terceiro elemento que surge a partir da tensão desses opostos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo Jung (2013, p.186) a função transcendente no início é um processo natural e não se desenvolve sem meta, mas conduz à revelação do essencial no homem; cujo sentido e a meta são a realização da personalidade originária e conduzir ao processo de individuação. </p>



<h2 id="h-ele-aprofunda-no-paragrafo-187-conforme-abaixo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Ele aprofunda no parágrafo 187 conforme abaixo:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“A compensação inconsciente de um estado neurótico da consciência contém todos os elementos que, quando conscientes, isto é, quando compreendidos e integrados como realidades na consciência, são capazes de corrigir eficaz e salutarmente a unilateralidade da consciência&#8230; Geralmente, os sonhos são fracos e incompreensíveis demais para exercerem uma influência radical sobre a consciência. Logo, a compensação passa-se no inconsciente, sem efeito imediato. Apesar disso, produz efeito, mas um efeito indireto: a oposição inconsciente, numa constante infração, vai arranjando sintomas e situações, que finalmente se contrapõem sem cessar às intenções conscientes. No tratamento esforçamo-nos, por conseguinte, por compreender e respeitar, na medida do possível, os sonhos e demais manifestações do inconsciente; por um lado, para evitar a formação de uma oposição inconsciente, que, com o passar do tempo, pode tornar-se perigosa, e por outro, para utilizar, na medida do possível, o fator curativo da compensação”</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O processo analítico não consistiria, portanto, apenas em tornar consciente aquilo que estava inconsciente, mas em reconhecer e sustentar a relação entre essas diferentes posições, possibilitando que dessa tensão possam emergir novos sentidos e uma transformação da atitude consciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Jung, a função transcendente decorre da relação entre conteúdos conscientes e inconscientes e da tensão estabelecida entre posições contrárias. Não se trata da eliminação de um dos polos em favor do outro, mas da possibilidade de que, a partir de sua confrontação, possa emergir uma nova posição capaz de reunir aspectos de ambos sem se reduzir a nenhum deles.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Acho importante apontar também que assimilar não significa aceitar tudo, o intestino discrimina o que deve e o que não deve ser absorvido. A função intestinal de absorção envolve os processos de seleção, transformação e discriminação.</p>



<h2 id="h-dessa-forma-no-plano-psiquico-a-assimilacao-de-uma-experiencia-psiquica-implica-poder-reconhece-la-diferencia-la-e-atribuir-lhe-significado-sem-que-isso-signifique-necessariamente-concordar-com-ela-ou-incorpora-la-integralmente-a-consciencia" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Dessa forma no plano psíquico, a assimilação de uma experiência psíquica implica poder reconhecê-la, diferenciá-la e atribuir-lhe significado, sem que isso signifique necessariamente concordar com ela ou incorporá-la integralmente à consciência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sob essa perspectiva, o funcionamento intestinal pode ser simbolizado para se pensar o processo de individuação. Assim como o organismo necessita selecionar aquilo que será incorporado e eliminar aquilo que não poderá ser utilizado, o processo psíquico exige diferenciação, assimilação e elaboração das experiências.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse caso o olhar da psicossomática contribuiria para auxiliar a ampliação da consciência sobre a relação que o indivíduo estabelece com seu corpo, suas experiências e aquilo que, em sua trajetória, necessita ser absorvido, assimilado, retirado ou incorporado e eliminado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/patricia-cordeiro/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/patricia-cordeiro/">Patricia Silva Cordeiro &#8211; Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/">Ajax Salvador &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>Psicologia do inconsciente</em>. edição eletrônica. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>A natureza da psique</em>. edição eletrônica. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>A vida simbólica</em>. vol.1. edição eletrônica. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI, W. <em>Artigo blog IJEP:</em> <a href="https://blog.ijep.com.br/psicossomatica-realidade-subjacente-de-toda-doenca/"><em>Psicossomática: Realidade Subjacente de Toda Doença &#8211; Blog IJEP</em></a><em>,</em> 2022.<em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph">MARTINS, B. D. <em>et al</em>. <em>Modulação da neuroinflamação pelo eixo intestino-cérebro: implicações fisiopatológicas na ansiedade e depressão</em>. <strong>Cadernos Cajuína</strong>, v. 11, n. 9, e3687, 2026. Disponível em: &lt;https://v3.cadernoscajuina.pro.br/index.php/revista/article/view/3687&gt;. Acesso em: 9 ago. 2026. DOI: https://doi.org/10.52641/cadcajv11i9.3687. [<a href="https://v3.cadernoscajuina.pro.br/index.php/revista/article/view/3687">1</a>]</p>



<p class="wp-block-paragraph">MORSCHITZKY Hans; SATOR Sigrid. <em>Quando a alma fala através do corpo</em>: compreender e curar distúrbios psicossomáticos. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="851" height="315" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/10/A-VIDA-QUER-VOCE-INTEIRO-Waldemar-Magaldi-1.png" alt="" class="wp-image-14023" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/10/A-VIDA-QUER-VOCE-INTEIRO-Waldemar-Magaldi-1.png 851w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/10/A-VIDA-QUER-VOCE-INTEIRO-Waldemar-Magaldi-1-300x111.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/10/A-VIDA-QUER-VOCE-INTEIRO-Waldemar-Magaldi-1-149x55.png 149w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/10/A-VIDA-QUER-VOCE-INTEIRO-Waldemar-Magaldi-1-767x284.png 767w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/10/A-VIDA-QUER-VOCE-INTEIRO-Waldemar-Magaldi-1-448x166.png 448w" sizes="(max-width: 851px) 100vw, 851px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">* <em>Pré-venda: até 10/11/2026; envio após o encerramento da pré-venda;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Quando a alma silencia, o corpo fala ou deixa de funcionar&#8230;</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/quando-a-alma-silencia-o-corpo-fala-ou-deixa-de-funcionar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Cordeiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Jun 2025 18:32:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10633</guid>

					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este artigo apresenta o relato de um caso clínico vivenciado no contexto terapêutico, que ilustra a indissociável relação entre corpo e psique sob a ótica da Psicologia Analítica. A partir da escuta sensível de uma paciente com diagnóstico de transtorno neurológico funcional, o texto explora como sintomas físicos podem se constituir como expressões simbólicas [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em><strong>Resumo</strong>:</em> <em>Este artigo apresenta o relato de um caso clínico vivenciado no contexto terapêutico, que ilustra a indissociável relação entre corpo e psique sob a ótica da Psicologia Analítica. A partir da escuta sensível de uma paciente com diagnóstico de transtorno neurológico funcional, o texto explora como sintomas físicos podem se constituir como expressões simbólicas de conteúdos psíquicos inconscientes. Além de mostrar o potencial transformador do diálogo entre corpo e alma, propõe uma reflexão sobre o caminho de autoconhecimento e “cura” que se torna possível quando há abertura para integrar as dores emocionais à consciência.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-sempre-destacou-o-quanto-na-relacao-terapeuta-x-cliente-somos-tocados-as-almas-sao-tocadas-em-diversos-aspectos-e-a-narrativa-desse-artigo-e-uma-especie-de-relato-onde-expresso-um-caso-que-me-tocou-significativamente" style="font-size:19px"><strong>Jung</strong> sempre destacou o quanto na relação<em> terapeuta x cliente</em> somos tocados, as almas são tocadas em diversos aspectos e a narrativa desse artigo é uma espécie de relato, onde expresso um caso que me tocou significativamente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Visando garantir o anonimato da cliente e assegurar a confidencialidade que é devida na relação terapêutica, algumas informações foram omitidas.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Aos 31 anos ela chega para a avaliação fazendo uso de um andador, no prontuário eletrônico que recebi com a indicação de seu caso vinha o diagnóstico de transtorno neurológico funcional. O quadro teve uma evolução que levou a uma paralisia que impactou braços, pernas e inclusive a deglutição, no momento de nosso primeiro encontro já andando com significativas limitações ela entra em minha sala olhando para baixo para visualizar os pés, uma forma de assegurar-se onde pisava e assim evitar cair.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ela chega acompanhada da mãe, trazia um olhar sereno que me atravessava, e em meio a um humor sarcástico parecia me contar sua história fazendo uso desse recurso para não chorar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em nosso primeiro encontro não fala muito, comenta que morou com os pais até os 25 anos. Filha de uma mãe bipolar e de um pai com sequelas de uma doença que lhe causou déficit motor e de memória, relata que cuidava da casa e do pai doente, quando se apaixona pelo marido que conheceu por aplicativo e então se muda para o interior de São Paulo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-primeiro-momento-suas-falas-permeiam-tinha-medo-de-uma-nova-vida-sem-ser-essencial-sei-que-toda-explicacao-esta-dentro-eu-deixei-de-funcionar" style="font-size:19px">Nesse primeiro momento suas falas permeiam “<em>tinha medo de uma nova vida, sem ser essencial&#8230;</em>”, “<em>sei que toda explicação está dentro, eu deixei de funcionar</em>”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Já é sabido e a grande maioria das pessoas aceita sem muitas ressalvas a interconexão corpo e psique. Percebemos o mundo através de nossos corpos, a percepção de nossa existência no tempo e no espaço se materializa através do corpo físico no qual aspectos fisiológicos e psicológicos se entrelaçam. &nbsp;Parecia que de alguma forma ela tinha conhecimento que o que estava passando tinha mais explicações do que a medicina lhe tinha dado até o momento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ela me conta que se casa em outubro de 2019, os sintomas iniciam em novembro, relata dores, formigamentos e perda da função motora que inicia nas pernas e pouco a pouco ao longo de 5 meses evolui em direção ao pescoço até ter dificuldades para deglutir. Inicia tratamento sem diagnóstico definido e em agosto de 2020 é internada por pneumonia, precisa ser entubada e o quadro se agrava pela infecção por Covid.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Frente à doença a relação com o marido estremece e ele a expulsa de casa, ela doente precisa do auxílio da mãe para retornar para São Paulo, separa-se em maio de 2021, foram 1 ano e 8 meses entre o casamento, o adoecimento e a separação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Com o retorno para São Paulo busca tratamento em diferentes serviços até chegar ao serviço de psiquiatria com déficits neurológicos reais, porém com uma ampliação da sintomatologia não compatível com os déficits evidenciados em exame. Ou seja, seus sintomas possuem características não compatíveis com o diagnóstico médico, há algo mais por trás do que ela apresenta, momento em que se observa como determinante a indissociável correlação corpo-mente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-para-a-compreensao-desse-processo-e-fundamental-recorrer-a-psicologia-analitica-que-nos-fornece-conceitos-chave-para-interpretar-a-dinamica-entre-sintomas-fisicos-e-conteudos-inconscientes" style="font-size:19px">E, para a compreensão desse processo é fundamental recorrer à <strong>Psicologia Analítica</strong>, que nos fornece conceitos-chave para interpretar a dinâmica entre sintomas físicos e conteúdos inconscientes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Segundo <strong>Romano</strong> (2022) a psique é um sistema dinâmico que atribui quantidades de energia às atividades psicológicas que varia a cada momento vivenciado, de forma que o valor que se atribui a um pensamento ou sentimento vai exercer uma força capaz de influenciar o comportamento das pessoas. A essa energia Jung denominou energia psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-conceito-de-complexos-baseado-na-psicologia-analitica-contribui-de-forma-significativa-para-a-compreensao-da-interface-corpo-psique-uma-vez-que-eles-possuem-uma-interacao-direta-com-nossas-reacoes-fisiologicas-corporais" style="font-size:19px">O conceito de complexos, baseado na Psicologia Analítica contribui de forma significativa para a compreensão da interface corpo-psique, uma vez que eles possuem uma interação direta com nossas reações fisiológicas corporais.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-vida-simbolica-jung-2013-p-87-cita" style="font-size:19px">Em &#8220;<em>Vida Simbólica</em>&#8221; Jung (2013, p. 87) cita:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Um complexo é um aglomerado de associações – espécie de quadro de natureza psicológica mais ou menos complicada – às vezes de caráter traumático, outras, apenas doloroso e altamente acentuado. Tudo o que se acentua demais é difícil de ser conduzido&#8230; Trata-se simplesmente de um assunto importante, tudo que é acentuadamente sentido torna-se difícil de ser abordado, porque esses conteúdos encontram-se, de uma forma ou outra, ligados com reações fisiológicas com os processos cardíacos, com o tônus dos vasos sanguíneos, a condição dos intestinos, a inervação da pele, a respiração. Quando houver um tônus alto, será como se esse complexo particular tivesse um corpo próprio e até certo ponto localizado em meu corpo, o que o tornará incontrolável por estar arraigado, acabando por irritar os meus nervos. Aquilo que é dotado de pouco tônus e pouco valor emocional pode ser facilmente posto de lado porque não tem raízes.</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-continua-na-mesma-obra-p-88" style="font-size:19px">Jung continua na mesma obra (p. 88):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">[&#8230;] comporta-se, enfim, como uma personalidade parcial. Quando se quer dizer ou fazer alguma coisa e, desgraçadamente, um complexo intervém na intenção inicial, acaba-se dizendo ou fazendo a coisa totalmente oposta ao que se queria de início&#8230; O que conhecemos é o nosso próprio complexo do eu, que supomos ter o domínio pleno do corpo. Não é bem isso, mas vamos considerar que ele seja um centro que está de posse do corpo, que exista um foco denominado eu, dotado de vontade e que possa fazer alguma coisa por meio de seus componentes. O eu, é um aglomerado de conteúdos altamente dotados de energia e, assim, quase não há diferença ao falarmos de complexos e do complexo do eu.</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No teste de associação de palavras, Jung identifica que frente a estímulos que acessam os complexos temos respostas emocionais que se dão de forma inconsciente. Tais respostas se exprimem através de alterações fisiológicas como sudorese, palidez, tremor, respiração rápida, palpitação, inquietude que evidenciam respostas tanto de nosso sistema neuroendócrino quanto do sistema nervoso simpático de forma que temos respostas hormonais e de luta ou fuga em resposta aos nossos afetos (ROMANO, 2022).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-complexo-se-alimentaria-de-nova-energia-psiquica-com-novos-traumas-que-se-associam-a-ele-e-o-enriquecem-com-a-mesma-carga-emocional-e-do-poder-magnetico-do-nucleo-arquetipico" style="font-size:19px"><strong>Um “complexo” se alimentaria de nova energia psíquica com novos traumas que se associam a ele e o enriquecem com a mesma carga emocional e do poder magnético do núcleo arquetípico</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando um complexo “constela” haveria um grande fluxo de energia para o ego (centro da consciência) que é invadido pela irrupção do conteúdo autônomo; sendo o ego afetado por respostas emocionais e fisiológicas (ROMANO, 2022).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em relação aos complexos podemos nos comportar com total inconsciência de sua existência, nos identificarmos com eles, projetá-los externamente ou confrontá-los o que seria segundo Romano (2022) a melhor maneira para sua reconfiguração, possibilitando dessa forma uma aproximação da parte inconsciente da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Voltando a paciente, conversamos profundamente sobre as interrelações corpo-mente o quanto esses dois aspectos são indissociáveis e o quanto eles poderiam de alguma forma estar contribuindo para o seu adoecimento. Ela se mostra aberta as reflexões, Jung destaca o quanto a atitude na consciência é um ponto fundamental para que o complexo do ego possa entrar em contato com as manifestações do inconsciente, no caso os sintomas; e com acolhimento começamos um trabalho que permeia a fala e o corpo, ora um, ora outro, ora ambos e assim o trabalho começa a se desenrolar, memórias são suscitadas a cada encontro, lembranças de afetos muito dolorosos veem à tona, ela se assusta, se fecha, se abre e pouco a pouco os complexos começam a se revelar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Para se estabelecer uma conversa franca com os complexos, faz-se necessário haver disposição do ego para tal e para reconhecer os aspectos sombrios e, assim, possibilitar o que poderíamos chamar de dissolução, ou melhor, redução de seu potencial autônomo</strong>. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-1985-em-a-pratica-da-psicoterapia-cita" style="font-size:19px">Jung (1985) em “A Prática da Psicoterapia” cita:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O médico só pode tentar observar e compreender como a natureza procede em suas tentativas de cura e restituição. A experiência já mostrou, há muito tempo, que entre a consciência e o inconsciente existe uma relação de compensação, e que o inconsciente sempre procura complementar a parte consciente da psique, acrescentando-lhe o que falta para a totalidade, e prevenindo perigosas perdas de equilíbrio. No nosso caso, como é de se esperar, o inconsciente gera símbolos compensatórios, que devem substituir as pontes que ruíram, mas só o conseguem de fato, mediante a ajuda da consciência. É que os símbolos gerados pelo inconsciente têm que ser &#8220;entendidos&#8221; pela consciência, isto é, têm que ser assimilados e integrados para se tornarem eficazes. Um sonho não compreendido não passa de um simples episódio, mas a sua compreensão faz dele uma vivência.</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-acordo-com-a-psicossomatica-nbsp-junguiana-todos-os-sintomas-de-adoecimento-expressos-no-corpo-possuem-etiologia-psicoafetiva-e-sao-compreendidos-como-simbolos-manifestacoes-do-inconsciente-que-tem-funcao-compensatoria" style="font-size:19px">De acordo com a <strong>Psicossomática</strong>&nbsp;Junguiana todos os sintomas de adoecimento expressos no corpo possuem etiologia psicoafetiva e são compreendidos como símbolos, manifestações do inconsciente que têm função compensatória.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa função só pode ser compreendida se for possível para o indivíduo estabelecer um diálogo consigo mesmo, para entender como se tornou vítima de suas próprias emoções e se desviou do caminho natural em busca do Si-mesmo e assim, deixou de contemplar o sentido e o significado de sua vida (MAGALDI, 2020).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-corpo-reage-a-emocao-antes-mesmo-da-consciencia-da-situacao-vivenciada-afirma-jung-2015-86-em-psicogenese-das-doencas-mentais" style="font-size:19px">O corpo reage a emoção antes mesmo da consciência da situação vivenciada, afirma Jung (2015, §86) em Psicogênese das Doenças Mentais:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Já vimos que o complexo do eu, devido à sua ligação direta com as sensações corporais, é o mais estável e rico em associações. A percepção da situação de ameaça e perigo gera medo: este é um afeto e por conseguinte é seguido de estados corporais, de uma complexa harmonia de tensões musculares e excitações do sistema nervoso simpático. Desse modo, a percepção encontra o caminho para a inervação corporal, permitindo que o complexo de associações se torne logo evidente.</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">E parece ser exatamente isso que acontece nesse caso. Frente a frente com seus complexos a dor e a limitação física parecem se tornar reconhecíveis através dos seus afetos e emoções e ela reconhece o autoabandono, a necessidade de ser reconhecida, o complexo materno e os abusos da infância.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Apesar da dor ela se mostra com prontidão de alma e seu curador interno parece se revelar</strong>. Num trabalho semanal de olhar para os seus complexos ela os vê a cada dia um pouco menores, menos dolorosos e em paralelo a isso o corpo parece mostrar nuances de se fortalecer, a sensibilidade das pernas se mostra um pouco mais presente e a estabilidade nas pernas começa a responder melhor, há ainda um longo caminho para sua recuperação funcional motora, entretanto, na funcionalidade psíquica se observa um olhar mais seguro de si, a postura corporal já mostra uma mulher que começa a se reconhecer e o mais importante há um desejo, um desejo real de viver e se fazer viva, não sem ignorar as dores da alma mas as utilizando para se conhecer melhor.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Como ela mesmo me disse em uma de nossas sessões “<strong>seus leões internos estão se tornando gatinhos</strong>”, e se o processo de cura implica na transformação de algo e não se trata da eliminação da doença, mas do encontro com a própria inteireza, acredito que ela já começa a enxergar esse caminho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-166-167-2014-cita-que-e-na-intensidade-do-disturbio-emocional-que-esta-o-seu-valor-isto-e-na-energia-que-o-individuo-deveria-ter-a-seu-dispor-para-sanar-o-seu-estado-de-adaptacao-reduzida" style="font-size:19px">Jung (§166-167, 2014) cita que é na intensidade do distúrbio emocional que está o seu valor, isto é, na energia que o indivíduo deveria ter a seu dispor para sanar o seu estado de adaptação reduzida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nada conseguimos, reprimindo este estado ou depreciando-o racionalmente. Ou seja, faz-se necessário estabelecer um diálogo com esse distúrbio, tomando-se o estado afetivo inicial como ponto de partida para que se possa fazer uso da energia que se acha no lugar errado. O indivíduo torna-se consciente do estado de ânimo em que se encontra, nele mergulhando sem reservas, de forma a melhor elaborá-lo com a colaboração da consciência. Isso representa o começo da função transcendente, vale dizer da colaboração de fatores inconscientes e conscientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O percurso terapêutico desta paciente ilustra, na prática, como corpo e psique estão intrinsecamente conectados. <strong>O sintoma físico revelou-se como um veículo para acessar conteúdos emocionais, permitindo a mobilização de aspectos inconscientes e a construção de um novo significado para sua experiência</strong>. Assim, esse caso reforça a importância de abordagens que considerem a totalidade do indivíduo, reconhecendo que o corpo também fala e que sua escuta é essencial para um possível processo de cura.</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/patricia-cordeiro/">Patricia Silva Cordeiro &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/ajaxsalvador/">Ajax Salvador &#8211; Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. <em>A Prática da Psicoterapia</em>. 6.ed. Petrópolis: Vozes, 1985</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. <em>Vida Simbólica</em>. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. <em>A Natureza da Psique</em>. Edição brasileira digital. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. <em>Psicogênese das Doenças Mentais</em>. Edição brasileira digital. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI, W. PSICOSSOMÁTICA E A DINÂMICA DO ADOECER – AFETOS, EMOÇÕES E COMPLEXOS. 2020. Artigo acessado em 03/01/2025 em<a href="https://blog.sudamar.com.br/psicossomatica-e-a-dinamica-do-adoecer-afetos-emocoes-e-complexos/"><strong>https://blog.sudamar.com.br/psicossomatica-e-a-dinamica-do-adoecer-afetos-emocoes-e-complexos/</strong></a><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">ROMANO, L.R.B. <em>Complexos e Sintomas de Adoecimento.</em> In Fundamentos da Psicologia Analítica. Org. Waldemar Magaldi. São Paulo: Eleva Cultural, 2022</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="www.ijep.com.br"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-4-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10642" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-4-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-4-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-4-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-4-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-4-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-4.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Matrículas abertas</strong>:&nbsp;<a href="http://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso Canal no&nbsp;<strong><a href="https://www.youtube.com/@IJEPJung/videos">YouTube</a></strong>:&nbsp;<strong>+700 vídeos de conteúdo Junguiano</strong>!</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Limitações Pessoais e Individuação</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/limitacoes-pessoais-e-individuacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Cordeiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Mar 2025 14:47:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nesse artigo busco explorar a complexa relação entre nossos limites internos, o confronto com o saber e o impacto da comparação com os outros, refletindo sobre como essas experiências podem desencadear sentimentos de angústia e insuficiência. Olhar para esses aspectos pode nos alertar para o perigo da inflação do ego e a importância de reconhecer [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4"><em>Nesse artigo busco explorar a complexa relação entre nossos limites internos, o confronto com o saber e o impacto da comparação com os outros, refletindo sobre como essas experiências podem desencadear sentimentos de angústia e insuficiência. Olhar para esses aspectos pode nos alertar para o perigo da inflação do ego e a importância de reconhecer nossas limitações como parte essencial do processo de individuação. Ao aceitar tanto nossas fraquezas quanto nossas potencialidades, podemos nos libertar do peso das expectativas coletivas e encontrar uma realização mais autêntica e alinhada com nosso Si-mesmo.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-vezes-somos-atravessados-por-afetos-que-levamos-um-tempo-para-que-possamos-compreende-los-e-e-sobre-isso-que-se-trata-esse-artigo" style="font-size:20px">Por vezes somos atravessados por afetos que levamos um tempo para que possamos compreendê-los e é sobre isso que se trata esse artigo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">A dificuldade para a compreensão das nossas limitações pode se tornar um grande obstáculo para vivermos nossas vidas com mais leveza. A angústia que se apresenta ao nos confrontarmos com o conhecimento, com o saber, com o infinito universo de conteúdo dos quais podemos nos apropriar pode facilmente nos levar a uma sensação de incapacidade. E esse sentimento pode contribuir para a erupção de um sabotador interno capaz de nos aprisionar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Comparar-se aos outros é algo natural e por vezes nessa comparação podemos almejar que aquilo que o outro é ou conquistou também possa ser por nós alcançado, bastando apenas empenho e dedicação para obter resultados semelhantes. No entanto, quando esses objetivos não são atingidos, é comum interpretarmos isso como uma falha pessoal, o que pode nos fazer sentir diminuídos e ver a nós mesmos como nossos próprios sabotadores.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Acredito que essa seja uma característica da psique, visto que temos uma tendência a nos identificarmos e nos dissolvermos na psique coletiva, conforme Jung afirma na obra o <em>Eu e o Inconscie</em>nte (2014, §235):</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Do mesmo modo que o indivíduo não é apenas um ser singular e separado, mas também um ser social, a psique humana também não é algo de isolado e totalmente individual, mas também um fenômeno coletivo. E assim como certas funções sociais ou instintos se opõem aos interesses dos indivíduos particulares, do mesmo modo a psique humana é dotada de certas funções ou tendências que, devido à sua natureza coletiva, se opõem às necessidades individuais.</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-porem-aqui-temos-o-grande-risco-da-inflacao-do-ego-que-pode-levar-a-uma-patologica-vontade-de-poder" style="font-size:20px">Porém, aqui temos o grande risco da inflação do ego que pode levar a uma patológica vontade de poder.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Isso, porque a psique coletiva compreende as partes inferiores das funções psíquicas que abrigam todas as virtudes e os vícios da humanidade e todas as outras coisas; ela é herdada e funciona automaticamente. Já o consciente e o inconsciente pessoais constituem as partes superiores, adquiridas e desenvolvidas. E o indivíduo que incorpora inconscientemente e a priori a psique coletiva, como se essa fosse parte da psique pessoal, tenderá a estender de modo ilegítimo os limites de sua personalidade (JUNG, 2014, §235).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-destaca-que-se-cometemos-o-erro-de-incluir-a-psique-coletiva-no-inventario-das-funcoes-psiquicas-pessoais-ocorrera-inevitavelmente-uma-dissolucao-da-personalidade-em-seus-pares-antagonicos" style="font-size:19px">Jung destaca que se cometemos o erro de incluir a psique coletiva no inventário das funções psíquicas pessoais, ocorrerá inevitavelmente uma dissolução da personalidade em seus pares antagônicos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">A intenção é podermos assimilar o inconsciente, reconhecendo que somos parte da psique coletiva, mas há uma tarefa atrelada ao desenvolvimento da personalidade que é também nos diferenciarmos dela, caso contrário isso equivaleria a uma “perda da alma”. Isso se explicaria pelo fato de uma realização pessoal importante ser negligenciada, entretanto, para isso precisamos reconhecer a natureza irreconciliável dos opostos, aceitar o que há de bom e de mal em nós, assim como o que podemos alcançar e o que de fato não podemos alcançar (JUNG, 2014, §237-240).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Pensar em ter outra pessoa como referência para aquilo que almejamos pode ser algo motivador, como uma inspiração mas, por outro lado também corremos o risco de perdermos nossa autenticidade, cabendo aqui uma fala de Jung ele onde fala sobre nossa tendência à “macaquice” ao citar que “o homem possui uma faculdade muito valiosa para os propósitos coletivos, mas extremamente nociva para a individuação: sua tendência à imitação”, mas nos ajuda a refletir ao concluir dizendo que “para descobrirmos o que é autenticamente individual em nós mesmos, torna se necessária uma profunda reflexão; a primeira coisa a descobrirmos é quão difícil se mostra a descoberta da própria individualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Além do reconhecimento desse aspecto irreconciliável dos opostos, talvez seja importante também pensar que a não aceitação de nossas limitações pode nos cegar para enxergarmos os aspectos divinos em nós, aqueles que buscam realizar-se através de nós e dos quais podemos e devemos usufruir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-a-cegueira-para-esses-aspectos-pode-nos-fazer-mergulhar-em-um-grande-abismo-havendo-inclusive-o-risco-da-hybris-que-se-caracteriza-por-uma-identificacao-com-o-padrao-arquetipico-que-leva-inflacao-do-ego-que-assume-uma-posicao-de-superioridade-e-sem-conexao-com-o-self" style="font-size:19px">E a cegueira para esses aspectos pode nos fazer mergulhar em um grande abismo, havendo inclusive o risco da <em>hybris</em>, que se caracteriza por uma identificação com o padrão arquetípico que leva inflação do ego, que assume uma posição de superioridade e sem conexão com o Self.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Apenas aceitando nossas limitações é que poderemos cumprir nosso destino, não por nos tornarmos resignados frente a nossas limitações, mas potencializados pelos poderes divinos que nos foram atribuídos e aos quais devemos reconhecer e nos colocar a serviço, para que possamos ajudá-los a se realizar em todas as suas potencialidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">A inflação do ego é que pode nos levar a acreditar que tudo podemos, tudo alcançaremos, que podemos dar conta de tudo, sem olhar para nossas limitações até que aparece algo em nossas vidas que nos surpreende, mostrando nossas limitações sejam doenças, demissões, traições, situações diversas que nos mostram que não somos só poder e glória, somos também fraqueza e miséria. Eis os opostos ai!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Só poderemos deixar nosso nome escrito na pedra como assim buscava Gilgamesh quando vivermos nossa própria vida, alinhada ao Si-mesmo, reconhecendo que as potências que vejo no outro, podem existir em nós, porém, com nossas próprias roupagens e que fazendo uso delas é que poderemos ampliar pouco a pouco nossos limites.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">O conceito de individuação pode contribuir para uma melhor compreensão desse aspecto, visto que na busca de tornar-se um ser único, buscamos nossa singularidade mais íntima. Jung coloca a tradução de “individuação” como “tornar-se si-mesmo” (Verselbstung) ou “o realizar-se do si-mesmo” (Selbstverwirklichung) (2014, §266).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-de-um-ideal-coletivo-desvinculado-do-nosso-si-mesmo-pode-nos-levar-a-grandes-sofrimentos" style="font-size:20px">A busca de um ideal coletivo desvinculado do nosso Si-mesmo pode nos levar a grandes sofrimentos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Já a individuação, que significa a realização melhor e mais completa das qualidades coletivas do ser humano e que implica no não esquecimento das peculiaridades individuais é que de fato será fator determinante de um melhor rendimento social. A individuação é um processo de desenvolvimento psicológico que deve facultar a realização das qualidades individuais dadas, é um processo no qual o homem se torna o Ser único que de fato é. (JUNG, 2014, §267)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Nos permitimos nos iludir pelo mundo, pela sociedade, pelo entorno, por uma inflação do ego, pelo fato de sucumbirmos e acreditarmos que precisamos de mais e mais e que a vida nos exige mais e mais. Assim, a sensação de falta, insuficiência, incompletude permeia nossa existência trazendo angústia. E como lidar com tais sensações?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">A comparação vem de nós mesmos e é reforçada pela imagem que temos do outro, se nos permitirmos mergulhar nesse abismo, como profissionais corremos o risco de nos afogarmos envolvidos em textos, artigos, livros, vídeos, filmes, relatos de experiências nunca é o bastante, sempre falta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Lidar com o algoz que habita em cada um de nós é angustiante, especialmente quando o enxergamos refletido em nossos pares. O devaneio da completude poderia ser compreendido como uma <em>hybris</em>? Os deuses não se ofenderiam com nossa prepotência de poder e de saber?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">A meta da individuação implica em despojar o Si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais (JUNG, §269, 2014), sendo importante que o indivíduo aprenda a distinguir entre o que parece ser para si mesmo e o que é para os outros (JUNG, 2014, §310).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-podemos-pensar-que-a-busca-por-aquilo-que-percebemos-como-nossa-incompletude-pode-nos-impedir-de-enxergar-a-divindade-que-ja-nos-habita-e-que-poderia-nos-levar-ao-encontro-de-nossa-completude-o-processo-de-individuacao" style="font-size:19px">Podemos pensar que a busca por aquilo que percebemos como “nossa incompletude” pode nos impedir de enxergar a divindade que já nos habita, e que poderia nos levar ao encontro de nossa completude, o processo de individuação.</h2>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Limitações Pessoais e Individuação" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/8cpIFvV1q3Q?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/patricia-cordeiro/">Patricia Cordeiro &#8211; Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/ajaxsalvador/">Ajax Salvador &#8211; Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencia" style="font-size:19px">Referência:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">JUNG, C.G. <em>O Eu e o Inconsciente</em>. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Canais IJEP:</strong></p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep"><img decoding="async" width="1024" height="533" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-4-1024x533.png" alt="" class="wp-image-10321" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-4-1024x533.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-4-300x156.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-4-768x400.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-4-150x78.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-4-450x234.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-4-1200x624.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-4.png 1536w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<item>
		<title>Dor, Cura e Psicologia Analítica &#8211; Reflexões sobre o Sentido</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/dor-cura-e-psicologia-analitica-reflexoes-sobre-o-sentido/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Cordeiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 Aug 2024 15:15:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[#dor #cura #doença #dorescronicas #psicologiajunguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O dicionário Priberam define cura como “restabelecer ou recuperar a saúde; pôr fim a uma doença”. Segundo Guggenbuhl-Craig (2022) curar, em alemão heilen, tem sua origem em uma palavra raiz que aparece em muitas línguas: provém de heilag, total completo. Curiosamente a definição de saúde, segundo a OMS é “o estado de completo bem-estar físico, [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O dicionário Priberam define cura como “<strong>restabelecer ou recuperar a saúde; pôr fim a uma doença</strong>”. Segundo <strong>Guggenbuhl-Craig</strong> (2022) curar, em alemão <em>heilen</em>, tem sua origem em uma palavra raiz que aparece em muitas línguas: provém de <em>heilag</em>, total completo. Curiosamente a definição de saúde, segundo a OMS é “o estado de <em>completo</em> bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhando sob esse prisma a saúde foi absorvida pela completude, pela totalidade. E, nesse caso, a totalidade como sinônimo de um não comprometimento da função e pleno desempenho mental e físico onde não há lugar para a fantasia da invalidez. E assim, nossa fantasia de saúde se tornou tão total que deixou de ser verdadeiramente saudável (GUGGENBUHL-CRAIG, 2022).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-acordo-com-guggenbuhl-craig-2015-2022-ha-uma-fantasia-contemporanea-de-saude-na-qual-devemos-nos-tornar-saos-e-completos-sendo-a-totalidade-entendida-no-sentido-de-perfeicao-seja-perfeito" style="font-size:18px">De acordo com Guggenbuhl-Craig (2015, 2022), há uma fantasia contemporânea de saúde, na qual devemos nos tornar sãos e completos, sendo a totalidade entendida no sentido de perfeição: &#8220;Seja perfeito&#8230;&#8221;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O defeito mais insignificante, a menor disfunção deve ser curada, removida ou erradicada. Lutamos interminavelmente, insensatamente para manter a ilusão de totalidade ao tentar alcançar a saúde perfeita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vitaminas, suplementos, proteínas, academias, gadgtes de atividade física, personal trainer, nutricionista, vamos a cada dia tendo mais e mais opções para que possamos alcançar a saúde perfeita. Entretanto, com essa visão uni lateralizada, esquecemos de reconhecer o aspecto simbólico dos sintomas e das doenças, cuja manifestação é uma das linguagens mais expressivas do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em Aion, <strong>Jung</strong> (1998a, p.63, §122) traça um paralelo psicológico entre Cristo e o si-mesmo ao demonstrar como a imagem tradicional de Cristo engloba características do arquétipo do si-mesmo. Nesse paralelo ele nos recorda que há uma diferença entre perfeição e inteireza. Ele cita que se costuma ter uma imagem de Cristo como relativamente perfeita, ao passo que o arquétipo indica inteireza, mas está longe de ser perfeito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sendo o arquétipo um paradoxo e a realização do Si-mesmo implica no reconhecimento de sua supremacia, tal reconhecimento também leva a um conflito, a uma suspensão entre os opostos (o crucifixus) o que levaria a uma totalidade aproximada, a qual faltaria a perfeição.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-pela-totalidade-e-legitima-e-inata-ao-homem-uma-aspiracao-tao-forte-que-chega-ao-ponto-de-transformar-se-em-paixao-que-tudo-submete-a-seu-imperio" style="font-size:17px">A busca pela totalidade é legítima e inata ao homem, uma aspiração tão forte que chega ao ponto de “transformar-se em paixão, que tudo submete a seu império”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, nos será necessário reconhecer que o arquétipo se completa na sua inteireza, em correspondência com a sua natureza arcaica e em contraposição a qualquer aspiração consciente, o homem pode buscar a perfeição, mas em benefício de sua inteireza é obrigado a suportar a falta, a imperfeição e a incompletude. Nesse sentido, simbolicamente, a imagem de Cristo corresponderia a esse estado de coisas, como homem perfeito e crucificado (JUNG, 1998a, p.64, §123).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma, podemos concluir que o estado de totalidade, de inteireza só poderá ser alcançado quando aceitarmos a imperfeição. E Jung (1998a, p.59, §58) ressalta isso ao destacar que um pré-requisito indispensável para se chegar à totalidade é alcançar uma união superior, uma coniunctio oppositorum (unificação dos opostos), ele cita:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“&#8230;um conteúdo só pode ser integrado quando seu duplo aspecto se tornar consciente e o conteúdo tiver sido apreendido no plano intelectual, mas em correspondência com seu valor afetivo. É muito difícil, porém, combinar intelecto e sentimento, pois os dois, <em>per definitionem</em>, repelem-se. Quem se identificar com um ponto de vista intelectual, poderá eventualmente confrontar-se com o sentimento sob a forma da anima, numa situação de hostilidade; inversamente, um animus intelectual brutalizará o ponto de vista do sentimento”.</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Na busca da totalidade em um ideal arquetípico de saúde e perfeição, talvez não levemos em consideração o seu oposto, o arquétipo do inválido dentro de nós mesmos</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Guggenbuhl-Craig (2105)</strong> nossa falha em aceitar o inválido dentro de cada um de nós, nossa fantasia de que seres humanos devem ser tão saudáveis quanto aqueles deuses gregos idealizados, é que nos torna incapazes de lidar com o arquétipo do inválido. E quando ele surge em nós, o negamos, queremos eliminá-lo e assim ele se torna tirânico, exigente e exige mais e mais cuidados.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-pratica-clinica-esse-aspecto-e-fortemente-observado-em-portadores-de-dores-cronicas" style="font-size:17px">Na prática clínica esse aspecto é fortemente observado em portadores de dores crônicas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com o CID XI a dor crônica é “uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a dano tissular real ou potencial, ou semelhante à sensação associada ao dano. A dor crônica é aquela que persiste ou é recorrente por mais de 3 meses. A dor crônica é multifatorial: fatores biológicos, psicológicos e sociais contribuem para a síndrome dolorosa”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em nossa sociedade a dor não é tolerada, é vista como negativa, um sinal de fraqueza, que prejudica o desempenho, tira a atenção para aquilo que se quer realizar, o desejo imediato é que ela seja eliminada, calada, não há espaço para dor. Mas, para algumas pessoas ela se arrasta além da fase aguda, se estende por meses, anos e lidar com as limitações que ela impõe pode ser extremamente desafiador para aqueles que por ela atravessam.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-convite-nesse-texto-e-para-que-possamos-trazer-um-outro-olhar-para-a-dor-como-algo-que-pertence-a-natureza-humana" style="font-size:19px">O convite nesse texto é para que possamos trazer um outro olhar para a dor, como algo que pertence a natureza humana.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung (1998b, p.2, §1) considera corpo e psique como uma das principais antinomias e cita que “a psique depende do corpo e o corpo depende da psique” e completa citando “que um juízo objetivo não poderá decidir-se pela preponderância da tese sobre a antítese”, ou seja, a contradição entre quaisquer princípios está sempre presente, de forma que quando se tem premente um padrão coletivo no qual a dor e o sofrimento não deveriam existir, cabe-nos dar espaço a eles.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Byung-Chul Han em seu livro Sociedade Paliativa (2021) cita que a tolerância à dor atualmente é mínima em uma sociedade que busca uma anestesia permanente. O autor reflete que ao calarmos a dor, calamos a crítica, calamos relações sociais doentias, calamos a reflexão, calamos a verdade, calamos a alma que se expressa através da dor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-contexto-talvez-seja-valido-considerar-que-esse-calar-da-alma-seja-justificado-para-garantir-a-alta-performance-e-o-desempenho" style="font-size:18px">Nesse contexto talvez seja válido considerar que esse calar da alma, seja justificado para garantir a alta performance e o desempenho.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Han</strong> (2021) fala sobre a experiência da dor ser percebida como um mal sem sentido, que deve ser combatido com analgésicos e sendo compreendida como uma mera aflição corporal, tem seu aspecto simbólico excluído. Ele cita:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“<strong>a dor se coisificou, hoje, em uma aflição puramente corporal. A ausência de sentido da dor aponta, para o fato de que a nossa vida, reduzida a um processo biológico, é ela mesma esvaziada de sentido</strong>&#8230;”</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Acho interessante fazer um paralelo com a narrativa de Han onde ele cita que “se sofre cada vez mais com cada vez menos”, visto que nos casos de dor crônica em função de um estado de hiper vigilância e sensibilização do sistema nervoso central responsável pela memória de dor, as sensações dolorosas existem mesmo na ausência de doença ou estímulos nociceptivos. Como o autor ainda cita a dor não é nenhuma grandeza objetivamente constatável, mas uma sensação subjetiva. Talvez a ausência de sentido da dor faça com que ela seja percebida como insuportável. E a ausência de sentido dói e a dor é como um grito do corpo por atenção pela falta de sentido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung destaca o papel do inconsciente como responsável por provocar ou prolongar doenças físicas, ao afirmar que um funcionamento inadequado da psique pode causar tremendos prejuízos ao corpo, da mesma forma que, inversamente, um sofrimento corporal consegue afetar a alma, visto que só artificialmente é que se pode separar a psicologia da biologia, uma vez que a alma humana vive unida ao corpo, numa unidade indissolúvel.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alma-e-corpo-sao-animados-por-uma-mesma-vida-sendo-rara-a-doenca-do-corpo-que-nao-seja-de-origem-psiquica-e-que-nao-tenha-implicacoes-na-alma-jung-2013a-232-jung-2013b-194" style="font-size:18px">Alma e corpo são animados por uma mesma vida, sendo “<strong>rara a doença do corpo que não seja de origem psíquica e que não tenha implicações na alma</strong>”. (JUNG, 2013a, §232; JUNG, 2013b, §194).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Guggenbuhl-Craig (2022) em seu artigo cita que “Arquetipicamente nosso corpo, através do qual nossa psique se manifesta, é um organismo defeituoso, impreciso, sempre vivenciado como parcialmente funcionando e parcialmente não funcionando, sofremos continuamente de uma permanente imperfeição limitadora. É uma verdade de nossa condição existencial que somos parcialmente defeituosos sem reparo. Segundo o autor esta é uma vivência básica da vida que deveria definir nossa ideia de saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se, por um lado, devemos compreender a totalidade e a perfeição abarcando a incompletude e a imperfeição, isso poderá nos aproximar da numinosidade dos arquétipos e permitir que possamos compreender e aceitar os sintomas, imperfeições e doenças que nos apresentam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, ao compreender os sintomas como expressões simbólicas do inconsciente e a dor como uma dessas expressões, talvez a dor crônica e persistente possa ser compreendida como uma desunião consigo mesmo. Como sendo essa uma condição neurótica por excelência, que se torna insuportável para o indivíduo. Entretanto como “<strong>Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos</strong>”, se não há como negligenciar a psique e negarmos a influência do inconsciente em nossas vidas, não há possibilidade de cura ou de melhoria no mundo que não comece pelo próprio indivíduo (JUNG, 2014, § 258 e §373).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-atualmente-quando-se-fala-nas-abordagens-da-dor-cronica-e-persistente-fala-se-em-manejo-e-nao-em-cura" style="font-size:21px"><strong>Atualmente quando se fala nas abordagens da dor crônica e persistente, fala-se em manejo e não em cura</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, fala-se em abordagens para alívio da dor, mas especialmente em melhora da funcionalidade e da qualidade de vida. &nbsp;A partir disso, talvez possamos buscar em paralelo também qual seria o chamado da dor crônica e persistente, a aceitar esse arquétipo e tirar dele um para quê, um aprendizado e uma nova experiência de viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Refletir por que é tão difícil vivenciar uma experiência sensorial e emocional desagradável que pode ou não estar associada a dano? A recusa e a impossibilidade de viver com limitações e deficiências, fala o que sobre mim? Seria possível apesar da presença da dor crônica e persistente, se chegar à realização completa de si-mesmo, ou de seu Self, e a completude alcançada através da incompletude? Qual seria o embate na consciência que se apresenta em cada história para tornar tão difícil a aceitação dessa oposição?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O percurso é laborioso, mas tudo quanto começa, começa pequeno. E a meta do desenvolvimento e maturação da personalidade está ao alcance de todos. Um processo de análise poderá contribuir para que em cada indivíduo desabroche a vida na maior amplitude possível. Pois o sentido da vida só se cumpre no indivíduo vivendo plenamente a sua existência e o chamado da alma. (JUNG, 1998b, p.104, §229).</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Dor, Cura e Psicologia Analítica – Reflexões sobre o Sentido" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Ko_8QjpO7eI?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/patricia-cordeiro/">Patrícia Cordeiro &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Membro Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li>Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, <a href="https://dicionario.priberam.org/curam">https://dicionario.priberam.org/curam</a>.</li>



<li>GUGGENBUHL-CRAIG, Adolf. <em>O arquétipo do inválido e os limites da cura</em>.<strong>&nbsp;Junguiana</strong>,&nbsp; São Paulo ,&nbsp; v. 40,&nbsp;n. 2,&nbsp;p. 55-64,&nbsp; dez.&nbsp; 2022 . &nbsp; Disponível em &lt;http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0103-08252022000200003&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. Acesso em&nbsp; 18&nbsp; jun.&nbsp; 2024.</li>



<li>GUGGENBUHL-CRAIG, Adolf. <em>O arquétipo do inválido e a clínica psicológica</em>. Disponível em &lt;https://unusmunduspsicologia.blogspot.com/2015/02/o-arquetipo-do-invalido-e-clinica.html&gt;. Acesso em 18 jun. 2024</li>



<li>HAN, BYUNG-CHUL. <em>Sociedade paliativa: a dor hoje</em>. 1. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2021</li>



<li>JUNG, C.G. <em>AION. Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo</em>. 5ª ed. Petrópolis: Vozes, 1998a</li>



<li>______. <em>A Prática da Psicoterapia</em>. 6ed. Petrópolis: Vozes, 1998b</li>



<li>______. G. <em>A Natureza da Psique</em>. Edição Digital. Petrópolis: Vozes, 2013a</li>



<li>______. G. Psicologia do Inconsciente. Edição Digital. Petrópolis: Vozes, 2013b</li>



<li>______. <em>O Eu e o Inconsciente</em>. Edição Digital. Petrópolis: Vozes, 2014.</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicossomática</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicologia Analítica</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Arteterapia e Expressões Criativas</em></p>



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		<title>João de Ferro e a Sombra do Controle na Maternagem </title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/joao-de-ferro-e-a-sombra-do-controle-na-maternagem/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Cordeiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Apr 2024 20:30:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[filhos]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8946</guid>

					<description><![CDATA[<p>O presente artigo amplia o estudo do conto João de Ferro a partir de reflexões pessoais para um aspecto coletivo, que é a sombra do controle que pode capturar as mulheres na vivência da maternagem e o confronto com ela quando o filho se torna adolescente. Reconhecer que a sombra do controle pode represar e limitar a vida e que seu reconhecimento pode trazer mais leveza e favorecer ao encontro do Si-mesmo é o meu convite nessa leitura. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: O presente artigo amplia o estudo do conto <strong>João de Ferro</strong> a partir de reflexões pessoais para um aspecto coletivo, que é a sombra do controle que pode capturar as mulheres na vivência da maternagem e o confronto com ela quando o filho se torna adolescente. Reconhecer que a sombra do controle pode represar e limitar a vida e que seu reconhecimento pode trazer mais leveza e favorecer ao encontro do Si-mesmo é o meu convite nessa leitura.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-conto-joao-de-ferro-narra-a-historia-de-um-jovem-principe-que-na-busca-de-si-precisa-se-separar-da-mae"><strong>O Conto João de Ferro narra a história de um jovem príncipe que na busca de si precisa se separar da mãe</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No conto o jovem brinca de bola próximo à jaula de um prisioneiro do castelo, o João de Ferro, e sua bola cai dentro da jaula. Para ter sua bola de volta o prisioneiro exige que o rapaz consiga a chave da jaula e que o liberte, mas sabendo que a chave se encontra embaixo do travesseiro da mãe e que ele não poderá pedir a ela, ele precisa roubar a chave para libertar o prisioneiro e assim ter a sua bola de volta.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao libertar o prisioneiro o jovem príncipe entende que não poderá mais ficar no castelo, afinal, traiu a confiança de sua mãe e então segue com João de Ferro para a floresta onde passa por diversas aventuras simbólicas e transformadoras, até que o jovem em um determinado momento passa a seguir sua jornada sem o João de Ferro, uma vez que interiorizou a força necessária e que agora se sente forte o suficiente para seguir sua jornada pessoal sozinho.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O conto tem aspectos simbólicos extremamente tocantes, o livro de <strong>Robert Bly</strong> “<strong>João de Ferro – um livro sobre homens</strong>” amplia o conto falando sobre todos os aspectos relacionados a psique do homem, a necessidade de se afastar da mãe na busca de sua própria jornada, a importância das referências de força e iniciação do masculino para que possa ser arrastado para fora do complexo materno e assim vencer a força regressiva da psique que busca o aconchego e a proteção tão arquetípica desse complexo e, mais ainda mostra o quão importante é a assimilação do referencial masculino para que o jovem possa ter a coragem necessária para viver a vida com integridade.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-como-mae-eu-fui-tocada-pelo-conto-de-outra-forma-e-e-sobre-isso-que-quero-falar-nesse-artigo">Mas, como mãe eu fui tocada pelo conto de outra forma e é sobre isso que quero falar nesse artigo</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E foi interessante como esse processo se desenrolou em mim&#8230; li a primeira vez e emocionalmente ele me passou batido, participei da aula sobre ele e as ampliações propostas começaram a se conectar comigo e a fazer sentido, mas ainda estavam fora de mim&#8230; achei interessante e importantíssimas todas as correlações sobre a psique masculina que, inclusive no livro de Bly citado anteriormente e no de <strong>James Hollis</strong> (<strong>Sob a Sombra de Saturno</strong>) são maravilhosamente também expostas.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E eis que o terceiro momento foi crucial, levo meu filho ao caratê e carrego comigo lápis de cor e folhas sulfite e enquanto o aguardo no carro resolvo desenhar minhas impressões sobre o conto e o que me invade é a dor da mãe. A princípio compreendo essa dor como a dor da mãe que acha que precisa entregar a chave, mas que sofre e que não o quer fazer. Concluo o desenho que ilustra esse artigo em meio a lágrimas e resolvo me aprofundar nessa dor através de reflexões, do processo de escrita e de meu processo analítico.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muito se fala sobre o <strong>poder do complexo materno</strong> (HOLLIS, 2008, p.52), sobre seu aspecto dual, a força arquetípica que ao mesmo tempo em que dá a vida procura tomá-la de volta. Sobre o papel da mãe como mediadora da experiência do feminino dos homens e de seu relacionamento com sua própria anima (HOLLIS, 2008, p.56). E que uma das maiores tarefas evolutivas do homem é alcançar a separação saudável do vínculo com sua mãe pessoal (HOLLIS, 2008, p.64). </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-hollis-2008-p-68-ainda-cita-que-para-se-tornar-um-adulto-consciente-o-homem-precisa-lutar-com-vigor-contra-seu-complexo-materno-reconhecendo-que-a-batalha-e-interior" style="font-size:17px"><strong>Hollis</strong> (2008, p.68) ainda cita que “<strong>para se tornar um adulto consciente o homem precisa lutar com vigor contra seu complexo materno, reconhecendo que a batalha é interior</strong>”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Isso tudo para que não o projete em outras mulheres. O autor cita que o poder do complexo materno é observado nas projeções quando o homem sucumbe às orientações das mulheres ou quando procura dominá-las e que o medo e ao mesmo tempo anseio mais profundo é o da aniquilação mãe.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> (2020, p.64) cita que o adolescente está destinado para o mundo e que pais que persistem em considerar os filhos sempre como crianças. Assim o fazem por não quererem envelhecer ou por não quererem renunciar à autoridade e ao poder de pais. Exercem sobre os filhos uma influência que pode tirar-lhes a responsabilidade individual, produzir pessoas sem independência própria ou indivíduos que forçam a conquista da própria independência por caminhos escusos. </p>



<p class="wp-block-paragraph">A princípio transitei pela certeza de que como mãe caberia a mim não apenas compreender a importância desse processo, mas, para além disso, promovê-lo e facilitá-lo. E eis que então uma outra compreensão se estabelece: Comecei a compreender que talvez a dor venha do aspecto apontado por Jung no parágrafo logo acima, que fala sobre <strong>não querer renunciar à autoridade e ao poder que se exerce sobre os filhos</strong>. Afinal, a mãe gesta, cuida, nutre e na ilusão materna controla o tempo, a comida, a roupa que vai vestir, o entorno, o medo, as incertezas&#8230;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-forma-que-a-transgressao-do-filho-soa-como-uma-traicao-um-abandono-e-o-fim-da-ilusao-das-certezas-de-controle-nbsp" style="font-size:18px">De forma que a<strong> transgressão do filho soa como uma traição, um abandono e o fim da ilusão das certezas de controle</strong>.&nbsp;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Acredito que caiba aqui a reflexão de que o papel da mãe não seja favorecer ou realizar esse processo de separação. Afinal, arquetipicamente, é tarefa do filho frente ao aprisionamento trair a mãe. Separar-se, roubar a chave para que efetivamente seu processo de amadurecimento possa se concretizar. Porque caso isso seja feito pela própria mãe não terá valor e estruturação do ponto de vista psíquico. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, cabe a mãe frente à dor dessa traição. Ao invés de favorecer o processo do filho, <strong>compreender por qual razão é tão difícil renunciar à autoridade e ao poder materno</strong>. E o que me atravessa é a <strong>necessidade de controle</strong>. E, ao ampliar essa dor pessoal, percebo que ela tem um significativo aspecto coletivo. Uma vez que a sombra do controle é uma vivência extremamente comum dentro dos consultórios que traz angústia e sofrimento para muitas mulheres e a presente ampliação pode trazer algumas reflexões. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-se-tornar-mae-uma-mulher-pode-ser-facilmente-capturada-pela-sombra-do-controle">Ao se tornar mãe uma mulher pode ser facilmente capturada pela sombra do controle.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal, ao dar a vida a uma criança ela se dá por conta de que depende dela aquela vida que acaba de nascer, em alguns casos às vezes até mesmo deixando o pai à mercê de meus caprichos, a mãe decide e controla como, quando, de que forma, estabelece os limites, os horários, a escola, a rotina e, assim, talvez seus medos e suas angústias fiquem da mesma forma controlados. Mas, um filho precisa de muito mais do que esses aspectos. Ele precisa crescer, se desenvolver, sentir e experienciar a vida. Descobrir seus limites e aquilo que ele precisa controlar, e isso já começa no controle dos esfíncteres ainda em tenra idade.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O controle como sombra, através da autoridade e do poder materno, quando os filhos entram na adolescência precisa ser olhado e ressignificado. Afinal, é nesse momento que a mãe se percebe totalmente desnecessária e sem controle. E então, talvez seja necessário se questionar a serviço de que a sombra do controle, poder e autoridade estiveram presentes? Para cumprir um papel arquetípico materno, mas ao que mais? Afinal, viver uma vida na crença de que se pode controlar tudo é uma absoluta ilusão do ego.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez a perda do controle represente uma ameaça à vida. E como mecanismo de defesa tentamos controlar o ambiente, eventos futuros, nossas reações e emoções e até mesmo a dos outros!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-sera-que-na-verdade-nao-estamos-tentando-controlar-o-medo-e-a-inseguranca-que-sao-projetados-em-diferentes-situacoes-nbsp" style="font-size:21px">Mas, será que na verdade não estamos tentando controlar o medo e a insegurança que são projetados em diferentes situações?&nbsp;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos considerar que o controle alivia a ansiedade, aprisiona o medo e assim ele também tenha o poder de limitar e represar a vida. Afinal talvez ela pudesse seguir caminhos diferentes daqueles que o controle represou e estabeleceu. Se a vida está em constante movimento e transformação, querer controlá-la talvez seja neurótico e desgastante.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É possível que haja a crença de que o controle possa permitir organizar e prever. “<em>Pré ver</em>”, ver antes e assim, nos proteger das emoções e afetos que a vida poderia nos apresentar e assim sofrer menos. Mas, em verdade, essa crença pode tornar a vida infértil, artificial e sem espontaneidade, onde a criatividade fica sem espaço. Com a intenção de ter os imprevistos sempre antecipados, a vida fica sem mistérios e sem surpresas.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-se-a-vida-e-fluxo-movimento-e-transformacao-lutar-contra-isso-talvez-seja-uma-falta-de-reconhecimento-de-quem-somos-e-o-distanciamento-de-nossos-prazeres-e-necessidades-pode-tornar-o-fluxo-da-vida-assustador-e-o-controle-acalma-em-uma-falsa-ilusao-nbsp-nbsp" style="font-size:19px">Se a vida é fluxo, movimento e transformação lutar contra isso talvez seja uma falta de reconhecimento de quem somos. E o distanciamento de nossos prazeres e necessidades pode tornar o fluxo da vida assustador e o controle acalma, em uma falsa ilusão.&nbsp;&nbsp;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">É certo de que há um lado em todos nós que se apavora com a possibilidade de as coisas serem diferentes do que planejamos porque a incerteza nos parece assustadora. Entretanto, a vida é incerta. E, se você parar para pensar um pouco, possivelmente as dores que você viveu, em verdade, nunca puderam ser controladas. Nossas dores estão sempre dentro de nós guardadas em algum lugar, mesmo que não as acessemos. E, se pararmos para pensar de forma mais aprofundada daremos conta de que apenas fizemos um esforço enorme para controlar o incontrolável, a vida.  </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-1998-p-43-44-afirmou-acerca-da-pratica-da-psicoterapia-nbsp" style="font-size:19px"><strong>Jung</strong> (1998, p.43-44) afirmou acerca da prática da psicoterapia:&nbsp;</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:21px"><blockquote><p>O que viso é produzir algo de eficaz, é um produzir um estado psíquico, em que meu paciente comece a fazer experiências com seu ser, um ser em que nada mais é definitivo nem irremediavelmente petrificado; é produzir um estado de fluidez, de transformação e de vir a ser&#8230; uma realidade encontrada na prática que causa inúmeras neuroses está principalmente no fato de as necessidades religiosas da alma não serem mais levadas a sério, devido à paixão infantil do entendimento racional.&nbsp;</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Fazer experiências com meu ser e assim produzir um estado de fluidez é o que tem tido o poder de me transformar e contribuir para o meu processo de vir a ser. Ao nos expor a impermanência da vida e a sua fluidez e mudanças, poderemos perceber que temos a capacidade de nos adaptar e pouco a pouco mergulhar de corpo e alma às flutuações da vida. Que assim como o mar (o inconsciente) não pode ser controlado, mas podemos nos ajustar a ele, respeitando sua força (a vida) e os nossos limites.  </p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa analogia podemos pensar em outra citação de Jung em A Prática da Psicoterapia (1998, p.10) “<strong>mar significa invariavelmente um lugar de concentração e origem de toda vida psíquica, portanto, o chamado &#8220;inconsciente coletivo</strong>. A água em movimento pode significar o fluir da vida ou o fluir da energia”.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-se-o-controle-advem-do-medo-reconhecer-o-que-e-tao-assustador-em-nos-mergulhar-nesse-desconhecido-fantasiado-de-controle-talvez-possa-ser-uma-alternativa-e-um-possivel-caminho-para-uma-aproximacao-do-si-mesmo-nbsp-nbsp" style="font-size:18px">Se o controle advém do medo, reconhecer o que é tão assustador em nós, mergulhar nesse desconhecido fantasiado de controle talvez possa ser uma alternativa e um possível caminho para uma aproximação do Si-mesmo.&nbsp;&nbsp;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Gosto da ideia de ampliar a reflexão de<strong> Jung </strong>(1998, p. 15) quando ele fala sobre a razão por que a maneira de ver as coisas tem um papel decisivo para certas situações da vida serem patogênicas ou possibilitarem transformação e, como ele também cita cura significa transformação. Talvez possamos transformar a angústia ao reconhecer a neurose do controle como algo devastador e limitador da vida. Mas enxergar a possibilidade de reconhecê-la como uma parte de todos nós que uma vez trazida da sombra pode ser ressignificada e transformada através de uma atitude consciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“<strong>Afinal, a maioria das coisas depende muito mais da maneira como as encaramos, e não de como são em si</strong>” (JUNG, 1998, p.43).&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg"><blockquote><p><strong>Encarar a maternagem como um processo de transformação e cura da mulher pode ser a redenção frente ao controle e a uma vida mais leve e com experiências com mais significado</strong>.  </p></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Patricia Cordeiro &#8211; Membro Analista em Formação IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/ajaxsalvador/">Ajax Salvador &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li>BLY R. <em>João de Ferro – um livro sobre homens</em>&nbsp;</li>



<li>HOLLIS, J. <em>Sob a Sombra de Saturno – a ferida e a cura dos homens</em>. 3ed. São Paulo: Paulus, 2008&nbsp;</li>



<li>JUNG, C.G. <em>A Prática da Psicoterapia</em>. 6ed. Petrópolis: Vozes, 1998&nbsp;</li>



<li>JUNG, C.G. <em>O Desenvolvimento da Personalidade</em>. 14ed. Petrópolis: Vozes, 2020 </li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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