Resumo: Corpo e psique constituem aspectos inseparáveis da experiência humana e, nesse sentido, o funcionamento do intestino pode ser compreendido para além de suas funções fisiológicas. Absorver, assimilar, reter e eliminar são processos próprios do funcionamento intestinal que também podem nos oferecer possibilidades de reflexão sobre a maneira como nos relacionamos com nossas experiências. A partir da Psicologia Analítica, este artigo propõe uma ampliação simbólica dessas funções, pensando sobre aquilo que conseguimos incorporar, aquilo que permanece retido e aquilo que precisa ser elaborado e deixado seguir seu curso.
Corpo e psique são os dois aspectos do ser vivo, e isso é tudo o que sabemos. Assim, prefiro afirmar que os dois elementos agem simultaneamente, de forma milagrosa, e é melhor deixarmos as coisas assim, pois não podemos imaginá-las juntas.
JUNG, 2015, p.70
Se corpo e psique, como propõe Jung, são dois aspectos do ser vivo que atuam simultaneamente, aquilo que acontece no corpo não pode ser separado da experiência psíquica, assim como a experiência psíquica não acontece à margem do corpo.
E essa compreensão pode ampliar um olhar redutivo de uma relação de causa e efeito e possibilitar uma reflexão mais ampla sobre as diferentes maneiras pelas quais uma mesma experiência pode se expressar simultaneamente no corpo e na psique.
O intestino pode possibilitar um campo interessante para essa reflexão, não apenas pela reconhecida relação entre seu funcionamento e os estados emocionais, mas também pelas descobertas contemporâneas a respeito da comunicação bidirecional existente entre intestino e cérebro.
O intestino constitui a porção mais extensa do trato gastrointestinal e desempenha funções fundamentais nos processos de digestão, absorção de nutrientes, equilíbrio hídrico e eliminação de resíduos.
Anatomicamente, ele divide-se em intestino delgado e intestino grosso. De maneira simplificada, pode-se compreender o primeiro como predominantemente relacionado aos processos de digestão e absorção de nutrientes, enquanto o segundo participa principalmente da absorção de água e eletrólitos, da formação das fezes e de sua posterior eliminação (MORSCHITZKY, Hans; SATOR, Sigrid., 2013; MARTINS, B. et al, 2026).
O funcionamento intestinal é regulado pelo sistema nervoso entérico e modulado pelo sistema nervoso autônomo, por meio de seus ramos simpático e parassimpático, tendo o nervo vago importante participação nessa comunicação. Em situações de estresse percebidas como ameaça, ocorre uma maior ativação do ramo simpático, levando o organismo a priorizar funções relacionadas à sobrevivência, e essa resposta pode, dependendo do contexto e das características individuais, modificar a motilidade, a secreção e outros processos digestivos (MARTINS, B. et al, 2026).
A interação entre o sistema gastrointestinal e o sistema nervoso central tem sido amplamente investigada, especialmente devido ao seu impacto na saúde mental, trata-se do chamado “eixo intestino-cérebro”.
Um processo de comunicação entre esses dois sistemas que ocorre de forma bidirecional, ou seja, tanto o cérebro influencia o funcionamento intestinal quanto o sistema entérico exerce efeitos sobre o sistema nervoso central. Tal comunicação bidirecional do ponto de vista funcional, permite que o estresse e a ansiedade, influenciem diretamente o funcionamento intestinal, a permeabilidade da mucosa e a alteração da microbiota intestinal. (MARTINS, B. et al, 2026).
A microbiota intestinal corresponde ao conjunto de microrganismos presentes no trato gastrointestinal humano que além de atuarem na digestão também atuam na regulação e manutenção do sistema imunológico; além disso, a microbiota participa da produção e modulação de metabólitos e substâncias neuroativas relacionadas à comunicação intestino-cérebro, incluindo vias associadas à serotonina, dopamina e GABA que estão diretamente ligados ao humor, sono, comportamento e resposta ao estresse (MARTINS, B. et al, 2026).
Cérebro e intestino encontram-se, portanto, em permanente comunicação, de modo que alterações ocorridas em um desses sistemas podem repercutir sobre o outro.
Sob essa perspectiva, seria interessante compreender de que maneira experiências psíquicas e processos fisiológicos participam simultaneamente dessa comunicação.
Jung (2015, p.318) afirma que nossas emoções “são contagiosas e estão profundamente enraizadas no sistema simpático”, portanto, nossas experiencias psíquicas geram respostas fisiológicas por meio de uma variedade de neurotransmissores. Tal correlação é reforçada em diversos escritos de Jung (2015) na obra Vida Simbólica nos quais ele afirma:
§148 “tudo que é acentuadamente sentido torna-se difícil de ser abordado, porque esses conteúdos encontram-se, de uma forma ou outra, ligados com reações fisiológicas, com os processos cardíacos, com o tônus dos vasos sanguíneos, a condição dos intestinos, a inervação da pele, a respiração”.
§317 “As emoções não são manejáveis, como as ideias ou os pensamentos, pois são idênticas a certas condições físicas, e, portanto, profundamente enraizadas na matéria do corpo…”
§58 “…sentimentos, cujo caráter seja emocional, são acompanhados de efeitos fisiológicos…”
A partir desses apontamentos, podemos compreender que experiências emocionais apresentam, simultaneamente, dimensões psíquicas e fisiológicas, visto que corpo e psique constituem aspectos inseparáveis de uma mesma experiência.
Aquilo que vivenciamos emocionalmente pode ser acompanhado por manifestações fisiológicas, ao mesmo tempo em que as condições corporais também participam da maneira como uma experiência é vivida e percebida.
Algumas dessas experiências podem ser passageiras; outras, entretanto, quando repetidas e marcadas por forte tonalidade afetiva, tendem a se agrupar em torno de um núcleo de significado e afeto, constituindo aquilo que Jung denomina complexo.
De acordo com Jung (2015, §148) “um complexo é um aglomerado de associações – espécie de quadro de natureza psicológica mais ou menos complicada – às vezes de caráter traumático, outras, apenas doloroso e altamente acentuado. Tudo o que se acentua demais é difícil de ser conduzido”. O autor na obra “A Natureza da Psique” (2014, §204) também afirma que uma das causas mais frequentes de um complexo seria na impossibilidade de aderir à totalidade da natureza humana, seria um conflito moral. E que o complexo, por ser dotado de tensão ou energia própria, apresenta uma espécie de corpo e uma fisiologia própria que pode perturbar o coração, o estômago, a pele; comportando-se como uma personalidade parcial (JUNG, 2015, §149).
Na perspectiva psicossomática proposta por Magaldi (2022), os sintomas podem ser compreendidos como possíveis expressões dos complexos, resultantes de conflitos estabelecidos entre ego e inconsciente.
Se nos propormos a ampliar simbolicamente, o intestino abarca diversas funções, ele precisa receber o conteúdo processado pelo estômago, transformar, selecionar, absorver, transportar e eliminar. De maneira que ele constitui uma interface entre aquilo que recebemos do meio externo, aquilo que compreendemos como importante de ser absorvido e aquilo que entendemos como desnecessário e que devemos eliminar.
Considerando as funções intestinais e os verbos a elas associados, a presença de sintomas nesse sistema pode oferecer possibilidades de ampliação simbólica a respeito da maneira como recebemos e elaboramos nossas experiências psíquicas.
Diante daquilo que a vida nos apresenta, o que pode ser assimilado e integrado pela consciência? O que permanece retido, ainda sem possibilidade de elaboração? E o que, tendo cumprido sua função, necessita ser reconhecido e posteriormente deixado seguir seu curso?
O papel da consciência é discriminar, separar, elaborar é importante que não sejamos tomados pelos conteúdos inconscientes, retendo, aprisionando, sem elaboração e eliminação. É essencial que possamos refletir sobre e o que precisa ser eliminado, aquilo do qual não precisamos.
Gostaria de sintetizar essa reflexão em quatro verbos: absorver, assimilar, reter e eliminar. Absorver pode ser pensado como aquilo que entra; assimilar, como aquilo que, uma vez recebido, é transformado e passa a integrar; reter, como aquilo que permanece; e eliminar, como aquilo que pode ser liberado.
Essas correspondências, entretanto, não devem ser tomadas como significados psíquicos inerentes às funções intestinais nem como relações causais a sintomas intestinais. Podem ser possibilidades de investigação cujo valor simbólico dependerá das associações, da história e da experiência singular de cada indivíduo e o processo analítico pode ser um convite para transformar esses verbos em histórias pessoais, vivências ou experiências psíquicas que podem ser simbolizadas, ampliadas e elaboradas.
A ampliação dessas experiências pode tornar conscientes conteúdos que até então não haviam encontrado possibilidade de representação ou elaboração.
Entretanto, não se trata apenas de tornar consciente aquilo que era inconsciente. Ao entrar em contato com a atitude consciente, esses conteúdos podem revelar posições distintas ou mesmo contraditórias em relação à maneira como o indivíduo compreende e conduz sua vida. Evidenciando aí uma tensão de opostos, entre aquilo que estava inconsciente e a posição da consciência.
O processo natural dessa tensão de opostos serviu para Jung como modelo e fundamento para um método que consiste em provocar intencionalmente o que a natureza produz inconsciente e espontaneamente e integrá-lo à consciência e seus conceitos (JUNG, 2013, p.121).
Na obra Psicologia do Inconsciente Jung (2013, p.121) define a função transcendente como um processo natural, uma manifestação de energia produzida pela tensão entre os contrários, que estabelece uma ponte entre consciente e inconsciente.
A partir dessa energia produzida surge a função transcendente que corresponde a evolução progressiva para uma nova atitude, um terceiro elemento que surge a partir da tensão desses opostos.
Segundo Jung (2013, p.186) a função transcendente no início é um processo natural e não se desenvolve sem meta, mas conduz à revelação do essencial no homem; cujo sentido e a meta são a realização da personalidade originária e conduzir ao processo de individuação.
Ele aprofunda no parágrafo 187 conforme abaixo:
“A compensação inconsciente de um estado neurótico da consciência contém todos os elementos que, quando conscientes, isto é, quando compreendidos e integrados como realidades na consciência, são capazes de corrigir eficaz e salutarmente a unilateralidade da consciência… Geralmente, os sonhos são fracos e incompreensíveis demais para exercerem uma influência radical sobre a consciência. Logo, a compensação passa-se no inconsciente, sem efeito imediato. Apesar disso, produz efeito, mas um efeito indireto: a oposição inconsciente, numa constante infração, vai arranjando sintomas e situações, que finalmente se contrapõem sem cessar às intenções conscientes. No tratamento esforçamo-nos, por conseguinte, por compreender e respeitar, na medida do possível, os sonhos e demais manifestações do inconsciente; por um lado, para evitar a formação de uma oposição inconsciente, que, com o passar do tempo, pode tornar-se perigosa, e por outro, para utilizar, na medida do possível, o fator curativo da compensação”
O processo analítico não consistiria, portanto, apenas em tornar consciente aquilo que estava inconsciente, mas em reconhecer e sustentar a relação entre essas diferentes posições, possibilitando que dessa tensão possam emergir novos sentidos e uma transformação da atitude consciente.
Para Jung, a função transcendente decorre da relação entre conteúdos conscientes e inconscientes e da tensão estabelecida entre posições contrárias. Não se trata da eliminação de um dos polos em favor do outro, mas da possibilidade de que, a partir de sua confrontação, possa emergir uma nova posição capaz de reunir aspectos de ambos sem se reduzir a nenhum deles.
Acho importante apontar também que assimilar não significa aceitar tudo, o intestino discrimina o que deve e o que não deve ser absorvido. A função intestinal de absorção envolve os processos de seleção, transformação e discriminação.
Dessa forma no plano psíquico, a assimilação de uma experiência psíquica implica poder reconhecê-la, diferenciá-la e atribuir-lhe significado, sem que isso signifique necessariamente concordar com ela ou incorporá-la integralmente à consciência.
Sob essa perspectiva, o funcionamento intestinal pode ser simbolizado para se pensar o processo de individuação. Assim como o organismo necessita selecionar aquilo que será incorporado e eliminar aquilo que não poderá ser utilizado, o processo psíquico exige diferenciação, assimilação e elaboração das experiências.
Nesse caso o olhar da psicossomática contribuiria para auxiliar a ampliação da consciência sobre a relação que o indivíduo estabelece com seu corpo, suas experiências e aquilo que, em sua trajetória, necessita ser absorvido, assimilado, retirado ou incorporado e eliminado.
Patricia Silva Cordeiro – Membro Analista em formação IJEP
Ajax Salvador – Analista Didata IJEP
Referências:
JUNG, C. G. Psicologia do inconsciente. edição eletrônica. Petrópolis: Vozes, 2013.
JUNG, C. G. A natureza da psique. edição eletrônica. Petrópolis: Vozes, 2014.
JUNG, C. G. A vida simbólica. vol.1. edição eletrônica. Petrópolis: Vozes, 2015.
MAGALDI, W. Artigo blog IJEP: Psicossomática: Realidade Subjacente de Toda Doença – Blog IJEP, 2022.
MARTINS, B. D. et al. Modulação da neuroinflamação pelo eixo intestino-cérebro: implicações fisiopatológicas na ansiedade e depressão. Cadernos Cajuína, v. 11, n. 9, e3687, 2026. Disponível em: <https://v3.cadernoscajuina.pro.br/index.php/revista/article/view/3687>. Acesso em: 9 ago. 2026. DOI: https://doi.org/10.52641/cadcajv11i9.3687. [1]
MORSCHITZKY Hans; SATOR Sigrid. Quando a alma fala através do corpo: compreender e curar distúrbios psicossomáticos. Petrópolis: Vozes, 2013.

