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	<title>Arquivos Arteterapia e Expressões Criativas - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Mon, 23 Mar 2026 16:36:14 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Arteterapia e Expressões Criativas - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Nise da Silveira e a Psiquiatria Brasileira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Barbara Pessanha]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Mar 2026 14:23:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo analisa a contribuição de Nise da Silveira para a psiquiatria brasileira a partir do referencial da Psicologia Analítica, enfatizando o conceito de afeto catalisador como operador clínico, ético e político. A autora introduziu uma ruptura radical com práticas psiquiátricas coercitivas, ao reconhecer a expressão simbólica e imagética como linguagem legítima do inconsciente, especialmente em quadros psicóticos. O texto discute a centralidade do vínculo, do ambiente afetivo e da criatividade como fundamentos do cuidado em saúde mental, relacionando-os ao processo histórico da Reforma Psiquiátrica brasileira. Por fim, problematiza-se o atual cenário de reorientação e fragilização das políticas públicas de saúde mental, compreendido por diversos autores como um processo de desmonte do modelo psicossocial, apontando os riscos de uma retomada de práticas manicomiais incompatíveis com o legado de Nise da Silveira.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:24px"><strong>Reflexões sobre psicologia analítica, afeto catalisador e os desdobramentos da Reforma Psiquiátrica hoje</strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: O presente artigo analisa a contribuição de Nise da Silveira para a psiquiatria brasileira a partir do referencial da Psicologia Analítica, enfatizando o conceito de afeto catalisador como operador clínico, ético e político. A autora introduziu uma ruptura radical com práticas psiquiátricas coercitivas, ao reconhecer a expressão simbólica e imagética como linguagem legítima do inconsciente, especialmente em quadros psicóticos. O texto discute a centralidade do vínculo, do ambiente afetivo e da criatividade como fundamentos do cuidado em saúde mental, relacionando-os ao processo histórico da Reforma Psiquiátrica brasileira. Por fim, problematiza-se o atual cenário de reorientação e fragilização das políticas públicas de saúde mental, compreendido por diversos autores como um processo de desmonte do modelo psicossocial, apontando os riscos de uma retomada de práticas manicomiais incompatíveis com o legado de Nise da Silveira.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Palavras-chave</strong>: Nise da Silveira; Psicologia Analítica; Afeto catalisador; Reforma Psiquiátrica; Saúde mental.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-historia-da-psiquiatria-brasileira-e-marcada-por-longos-periodos-de-institucionalizacao-segregacao-e-praticas-terapeuticas-centradas-no-controle-dos-corpos-e-comportamentos-considerados-inadequados-ou-fora-do-considerado-normal-em-aspectos-psicossociais" style="font-size:18px">A história da psiquiatria brasileira é marcada por longos períodos de institucionalização, segregação e práticas terapêuticas centradas no controle dos corpos e comportamentos considerados inadequados ou fora do considerado “normal” em aspectos psicossociais.</h2>



<p style="font-size:18px">Nesse contexto, a trajetória de Nise da Silveira (1905-1999) constitui um desvio ético e epistemológico decisivo, não podemos deixar de citar a influência de Dona Ivone Lara (1921-1918) como um dos pilares desse movimento progressista no cuidado da saúde mental. Ao recusar procedimentos violentos como eletrochoque, lobotomia e contenções sistemáticas, Dra. Nise propôs uma clínica fundamentada no reconhecimento da subjetividade, da expressão simbólica e da relação afetiva como eixos do cuidado em saúde mental (Frayze-Pereira, 2003).</p>



<p style="font-size:18px">Nise da Silveira foi uma mulher alagoana, reconhecida por sua contribuição decisiva à humanização do cuidado em saúde mental no Brasil a partir da sua formação como médica psiquiatra.</p>



<p style="font-size:18px">Formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1926, sendo a única mulher de sua turma e ao longo de sua trajetória profissional, posicionou-se criticamente contra práticas psiquiátricas de caráter coercitivo, como eletrochoque, insulinoterapia e lobotomia, então hegemônicas no tratamento das psicoses mesmo sendo uma voz feminina dissonante em um universo extremamente dominado por homens.</p>



<p style="font-size:18px">Sua atuação no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no bairro do Engenho de Dentro (Rio de Janeiro), marcou uma ruptura paradigmática ao introduzir ateliês de pintura e modelagem como dispositivos clínicos além de permitir animais como coterapeutas dos pacientes internados e que estavam sob seus cuidados.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-influenciada-pela-psicologia-analitica-de-carl-gustav-jung-nise-compreendia-a-producao-imagetica-dos-pacientes-psicoticos-como-expressao-simbolica-do-inconsciente-dotada-de-sentido-e-potencial-organizador-da-vida-psiquica" style="font-size:18px">Influenciada pela Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, Nise compreendia a produção imagética dos pacientes psicóticos como expressão simbólica do inconsciente, dotada de sentido e potencial organizador da vida psíquica.</h2>



<p id="h-a-partir-dessas-experiencias-e-percepcoes-empiricas-do-cuidado-a-pacientes-no-hospital-pedro-ii-fundou-o-museu-de-imagens-do-inconsciente-instituicao-dedicada-a-preservacao-pesquisa-e-difusao-das-obras-produzidas-nos-atelies-terapeuticos-articulando-clinica-arte-e-ciencia" style="font-size:18px">A partir dessas experiências e percepções empíricas do cuidado a pacientes no Hospital Pedro II, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, instituição dedicada à preservação, pesquisa e difusão das obras produzidas nos ateliês terapêuticos, articulando clínica, arte e ciência.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Nise</strong> desenvolveu ainda o conceito de afeto catalisador, no qual o vínculo afetivo é entendido como condição essencial para o desencadeamento de processos psíquicos, sem coerção ou adestramento. Seu legado ultrapassa o campo clínico psiquiátrico, influenciando diretamente os princípios éticos da Reforma Psiquiátrica brasileira, especialmente no que se refere ao reconhecimento da subjetividade e à centralidade do cuidado humanizado.</p>



<p style="font-size:18px">Dona Ivone Lara foi profissional da área da saúde mental, e posteriormente: compositora, cantora e sambista. Carioca, nascida no Rio de Janeiro, formou-se em Enfermagem e, posteriormente, em Serviço Social, atuando por décadas no sistema público de saúde, com destaque para seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II.</p>



<p style="font-size:18px">No contexto institucional – ao lado da Dra. Nise e de outros profissionais da área da saúde &#8211; exerceu funções voltadas ao acompanhamento psicossocial de pacientes internados, desenvolvendo uma prática marcada pela escuta, pelo cuidado cotidiano e pela valorização das expressões culturais e afetivas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-paralelamente-a-carreira-na-saude-construiu-uma-trajetoria-singular-na-musica-popular-brasileira" style="font-size:18px">Paralelamente à carreira na saúde, construiu uma trajetória singular na música popular brasileira. </h2>



<p style="font-size:18px">Foi a primeira mulher a integrar a ala de compositores da escola de samba Império Serrano, rompendo barreiras de gênero em um campo tradicionalmente masculino. Suas composições, como <em>S</em><strong><em>onho Meu</em>, <em>Alguém Me Avisou</em> e <em>Acreditar</em>,</strong> são reconhecidas pela dimensão espiritual e pela percepção pessoal de uma experiência afetiva – conseguimos encontrar reverberações do seu cuidado aos pacientes psiquiátricos em sua expressão musical. Dona Ivone Lara ocupa um lugar extremamente importante e relevante na cultura brasileira por articular, em sua trajetória: cuidado, música e sensibilidade social. Sua obra pode ser compreendida como expressão simbólica de uma ética do afeto, em diálogo implícito com os princípios humanizadores que atravessam a história da Reforma Psiquiátrica e das práticas de cuidado em saúde mental.</p>



<p style="font-size:18px">Assim, inspirada pela Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, Nise defendeu que a psicose não representa a ausência de vida psíquica ou que as pessoas estavam descartadas de uma vida produtiva e com sentido, mas desorganização psíquica mostrava uma forma singular de organização do inconsciente, e que poderiam ser expressas por imagens, cores e símbolos. Essa compreensão desloca o tratamento da lógica da correção medicamentosa como sendo única e exclusiva para a lógica do acompanhamento integrativo, reconhecendo o sofrimento psíquico como processo e não como falha a ser eliminada (Catta-Preta, 2021).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-mesmo-tempo-discutir-o-legado-de-nise-da-silveira-no-brasil-contemporaneo-exige-situa-lo-no-interior-dos-debates-sobre-a-reforma-psiquiatrica-e-seus-impasses-atuais" style="font-size:18px">Ao mesmo tempo, discutir o legado de Nise da Silveira no Brasil contemporâneo exige situá-lo no interior dos debates sobre a Reforma Psiquiátrica e seus impasses atuais.</h2>



<p style="font-size:18px">Desde meados da década de 2010, diversos estudos apontam para uma reorientação das políticas de saúde mental, caracterizada pela fragilização do modelo psicossocial e pela revalorização de dispositivos asilares e segregadores (Cruz, 2020; Lima et al., 2023) que eram malvistos por uma perspectiva “mais social” que médica. Porém, tal cenário coloca em risco os fundamentos clínicos e éticos que sustentam a proposta “niseana”.</p>



<p style="font-size:18px">A aproximação de Nise da Silveira com a Psicologia Analítica não se deu apenas em nível teórico, mas sobretudo na prática clínica. Para Jung, o inconsciente se manifesta primordialmente por imagens simbólicas, que não podem ser reduzidas a significados fixos ou traduzidas de forma racionalizantes (Jung, 2012).</p>



<p style="font-size:18px">Nise incorpora esse princípio ao reconhecer nas produções plásticas de pacientes psicóticos uma linguagem legítima do inconsciente e absorve em sua epistemologia práticas expressivas como recurso para a homeostase psíquica desses pacientes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-atelies-terapeuticos-do-hospital-do-engenho-de-dentro-a-expressao-artistica-passou-a-ser-compreendida-como-via-de-comunicacao-e-reorganizacao-psiquica-e-nao-como-mera-atividade-ocupacional" style="font-size:18px">Nos ateliês terapêuticos do Hospital do Engenho de Dentro, a expressão artística passou a ser compreendida como via de comunicação e reorganização psíquica, e não como mera atividade ocupacional.</h2>



<p style="font-size:18px">A observação de séries de imagens permitia acompanhar processos simbólicos em curso, respeitando o ritmo próprio de cada sujeito (Frayze-Pereira, 2003) e isso é desenvolvido e demonstrado por dra. Nise em seus livros: <em>O mundo das Imagens</em> (2006) e <em>Imagens do Inconsciente</em> (2022). A reorganização de cada indivíduo era dentro de suas capacidades e com auxílio de funcionários capacitados para dar continuidade ao tratamento, e esse tipo de condução ia além da prática médica e medicamentosa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-perspectiva-rompe-com-o-paradigma-psiquiatrico-tradicional-ao-substituir-a-interpretacao-patologizante-medicamentosa-que-deixavam-corpos-e-mentes-inertes-sem-qualquer-possibilidade-de-escuta-simbolica" style="font-size:18px">Essa perspectiva rompe com o paradigma psiquiátrico tradicional ao substituir a interpretação patologizante, medicamentosa que deixavam corpos e mentes inertes sem qualquer possibilidade de escuta simbólica.</h2>



<p style="font-size:18px">O terapeuta deixa de ocupar o lugar de especialista que decifra e interpreta ao assumir a função de acompanhante do processo, sustentando o campo relacional necessário para que o símbolo possa emergir e se transformar (<strong>Melo</strong>, 2025).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-afeto-catalisador-inspirado-na-metafora-quimica-designa-a-qualidade-da-relacao-afetiva-capaz-de-favorecer-processos-psiquicos-sem-impor-direcoes-ou-consumir-o-sujeito-que-cuida-trata-se-de-uma-presenca-etica-atenta-e-nao-intrusiva-que-possibilita-a-expressao-e-a-reorganizacao-do-mundo-interno-magaldi-2020" style="font-size:18px">O afeto catalisador, inspirado na metáfora química, designa a qualidade da relação afetiva capaz de favorecer processos psíquicos sem impor direções ou consumir o sujeito que cuida. Trata-se de uma presença ética, atenta e não intrusiva, que possibilita a expressão e a reorganização do mundo interno (Magaldi, 2020).</h2>



<p style="font-size:18px">Devemos lembrar que o <em>afeto catalisador</em> não se confunde com uma postura assistencialista ou sentimental. Ao contrário, exige formação técnica, supervisão contínua e profunda consciência dos limites do terapeuta – exatamente a proposta teórica junguiana de estudo, supervisão e terapia – o profissional deve estar disponível, mas deve assumir a postura de curador ferido (Magaldi, 2026). Segundo <strong>Damião Júnior</strong> (2021), trata-se de uma atitude clínica que pressupõe paciência, respeito pela singularidade e recusa de qualquer forma de adestramento psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-concepcao-amplia-o-setting-terapeutico-deslocando-o-do-consultorio-individual-para-o-ambiente-institucional-e-coletivo" style="font-size:18px">Essa concepção amplia o <strong>setting terapêutico</strong>, deslocando-o do consultório individual para o ambiente institucional e coletivo.</h2>



<p style="font-size:18px"><strong>Ateliês, oficinas, museus e espaços de convivência tornam-se dispositivos clínicos na medida em que sustentam vínculos, continuidade e reconhecimento simbólico.</strong></p>



<p style="font-size:18px">A criação do Museu de Imagens do Inconsciente representa uma das mais importantes materializações do pensamento de Nise da Silveira. O museu não apenas preserva produções artísticas, mas constitui um arquivo clínico, científico e cultural que desafia a fronteira entre normalidade e loucura (Frayze-Pereira, 2003). E, ao expor as obras ao público, Nise rompe com o isolamento simbólico imposto aos pacientes psiquiátricos, reinscrevendo-os no campo da cultura. Essa dimensão política da clínica antecipa princípios centrais da Reforma Psiquiátrica, como a desinstitucionalização e o reconhecimento da cidadania das pessoas em sofrimento psíquico.</p>



<p style="font-size:18px">A Reforma Psiquiátrica brasileira consolidou-se como um movimento social, sanitário e jurídico que propôs a substituição progressiva do modelo manicomial por uma rede de atenção psicossocial territorializada, o que se apresentou como uma ideia de integração se tornou mais um fator de marginalizar e afastar pessoas de um tratamento acolhedor, cuidadoso e com perspectivas reais de integração psíquica (mesmo que estivessem restritas ao espaço do tratamento).</p>



<p style="font-size:18px">No entanto, estudos recentes apontam para um processo de reorientação das políticas públicas, marcado pelo fortalecimento de internações, comunidades terapêuticas e dispositivos “segregadores” (Cruz, 2020).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-nos-traz-crises-sociais-oriundas-de-incapacidade-dos-caps-e-estabelecimentos-que-deveriam-promover-tratamento-de-qualidade-a-um-lugar-que-e-apenas-enfermaria-com-diretrizes-de-colocar-pacientes-que-precisam-de-um-olhar-mais-diligente-fora-dos-espacos-que-previamente-seriam-destinados-a-uma-intervencao-integrativa-e-multidisciplinar" style="font-size:18px">Isso nos traz crises sociais oriundas de incapacidade dos CAPS e estabelecimentos que deveriam promover tratamento de qualidade a um lugar que é apenas enfermaria, com diretrizes de colocar pacientes que precisam de um olhar mais diligente fora dos espaços que previamente seriam destinados a uma intervenção integrativa e multidisciplinar.</h2>



<p style="font-size:18px">Segundo <strong>Lima </strong>et al. (2023), alterações normativas, como a Portaria nº 3.588/2017, contribuíram para a fragilização da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), comprometendo a continuidade do cuidado e a centralidade do território. Esse movimento é frequentemente descrito como um desmonte ou contrarreforma psiquiátrica.</p>



<p style="font-size:18px">Assim, do ponto de vista do legado de Nise da Silveira, tais mudanças afetam diretamente as condições de possibilidade do afeto catalisador. A precarização das equipes, a rotatividade de profissionais, a ênfase em dispositivos de contenção, a dispersão dos pacientes sem um acompanhamento mais longevo e humanizado inviabilizam a construção de vínculos duradouros, essenciais à clínica junguiana.</p>



<p style="font-size:18px">O impacto de <strong>Nise da Silveira</strong>, e da sua equipe como D. Ivone Lara,  na psiquiatria brasileira ultrapassa o campo da inovação terapêutica. Configurando-se como uma proposta ética de cuidado baseada no reconhecimento da alteridade, do símbolo e do vínculo com a finalidade de dar ao paciente e aos familiares – principalmente aos que não tem recursos financeiros &#8211; de um tratamento com qualidade e dignidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-obra-niseana-e-uma-obra-que-para-alem-do-teorico-demonstra-na-pratica-que-a-loucura-nao-e-ausencia-de-sentido-mas-uma-expressao-subjetiva-que-busca-reorganizacao" style="font-size:18px">A obra “niseana” é uma obra que para além do teórico, demonstra na prática que a “loucura” não é ausência de sentido, mas uma expressão subjetiva que busca reorganização.</h2>



<p style="font-size:18px">Diante dos impasses contemporâneos da Reforma Psiquiátrica, retomar Nise não significa apenas preservar uma memória histórica, mas reafirmar um projeto de saúde mental comprometido com a dignidade, a criatividade e a vida em comunidade.</p>



<p style="font-size:18px">O afeto catalisador, nesse sentido, permanece como critério clínico e político fundamental para avaliar práticas e políticas públicas em saúde mental, reavaliar e rever os impactos negativos do que estamos vivenciando hoje é urgente para podermos avançar como indivíduos e sociedade.</p>



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<iframe title="Artigo novo: &quot;Nise da Silveira e a Psiquiatria Brasileira&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/hs3nmAmeoDA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/barbara/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/barbara/">Bárbara Pessanha – Analista Didata em Formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px">Referências:</h2>



<p>CATTA-PRETA, Maria V. Diálogos entre Nise da Silveira e Jung: a obra expressiva e suas contribuições para a psicologia analítica. <em>Junguiana</em>, São Paulo, v. 39, n. 1, p. 111–128, 2021. Disponível em: <a href="https://junguiana.sbpa.org.br/revista/article/view/164?utm_source=chatgpt.com">https://junguiana.sbpa.org.br/revista/article/view/164</a>. Acesso em: 30 jan. 2026.</p>



<p>CRUZ, Nelson F. O. Retrocesso da reforma psiquiátrica: o desmonte da política nacional de saúde mental brasileira de 2016 a 2019. <em>Trabalho, Educação e Saúde</em>, Rio de Janeiro, v. 18, n. 3, e00285117, 2020. Disponível em: <a href="https://www.scielo.br/j/tes/a/j6rLVysBzMQYyFxZ6hgQqBH/?utm_source=chatgpt.com">https://www.scielo.br/j/tes/a/j6rLVysBzMQYyFxZ6hgQqBH/</a>. Acesso em: 30 jan. 2026.</p>



<p>DAMIÃO JUNIOR, Moacyr. Fundamentos do método de Nise da Silveira. <em>Junguiana</em>, São Paulo, v. 39, n. 1, p. 93–110, 2021. Disponível em: <a href="https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0103-08252021000100007&amp;script=sci_arttext&amp;utm_source=chatgpt.com">https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0103-08252021000100007&amp;script=sci_arttext</a>. Acesso em: 30 jan. 2026.</p>



<p>FRAYZE-PEREIRA, João A. Nise da Silveira: imagens do inconsciente entre psicologia, arte e política. <em>Estudos Avançados</em>, São Paulo, v. 17, n. 49, p. 55–70, 2003. Disponível em: <a href="https://www.scielo.br/j/ea/a/DXNtq8VnSpjxsh5YvgYX8qM/">https://www.scielo.br/j/ea/a/DXNtq8VnSpjxsh5YvgYX8qM/</a>. Acesso em: 30 jan. 2026.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-carl-gustav-a-natureza-da-psique-9-ed-petropolis-vozes-2012" style="font-size:16px">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</h2>



<p>LIMA, Fernando A. C. et al. Digressões da Reforma Psiquiátrica brasileira: a política de saúde mental entre rupturas e continuidades. <em>Physis: Revista de Saúde Coletiva</em>, Rio de Janeiro, v. 33, e33078, 2023. Disponível em: <a href="https://www.scielosp.org/article/physis/2023.v33/e33078/?utm_source=chatgpt.com">https://www.scielosp.org/article/physis/2023.v33/e33078/</a>. Acesso em: 30 jan. 2026.</p>



<p>MAGALDI, Felipe S. <em>Mania de liberdade: Nise da Silveira e a humanização da saúde mental no Brasil</em>. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2020. Disponível em: <a href="https://books.scielo.org/id/8vq58">https://books.scielo.org/id/8vq58</a>. Acesso em: 30 jan. 2026.</p>



<p>MAGALDI FILHO, Waldemar<em>. A relação de ajuda: reflexões sobre o curador e o ferido</em>. Disponível em: <a href="https://doceru.com/doc/x8v81xcv">https://doceru.com/doc/x8v81xcv</a>. Publicado em: 2026-02-26. Acesso em: 4 mar. 2026.</p>



<p>MELO, Walter. As imagens do inconsciente e a metáfora do escafandrista. <em>Psicologia USP</em>, São Paulo, 2025. Disponível em: <a href="https://revistas.usp.br/psicousp/article/view/238517?utm_source=chatgpt.com">https://revistas.usp.br/psicousp/article/view/238517</a>. Acesso em: 30 jan. 2026.</p>



<p>MUSEU DE IMAGENS DO INCONSCIENTE. <em>Nise da Silveira: vida e obra</em>. Rio de Janeiro, s.d. Disponível em: http://www.museudeimagensdoinconsciente.org.br. Acesso em: 30 jan. 2026.</p>



<p>SANDRONI, Carlos; LOPES, Nei. <em>Dona Ivone Lara</em>. Rio de Janeiro: IMS, 2015.</p>



<p>TINHORÃO, José Ramos. <em>História social da música popular brasileira</em>. São Paulo: Editora 34, 2010.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>Nise da Silveira – Uma mulher a frente de seu tempo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/nise-da-silveira-uma-mulher-a-frente-de-seu-tempo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Keller Alves Villela Ocaña Bruno]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Feb 2026 11:21:42 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[ser humano]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Presente artigo comemora o aniversário de Nise da Silveira, importante psiquiatra que revolucionou a psiquiatria no Brasil, recusando-se a aplicar os tratamentos da época, que eram bastante violentos. O artigo fala da trajetória desta mulher extraordinária, do seu encontro com Jung, da participação no II Congresso de psiquiatria de Zurique, dos primeiros anos no hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro e de seu trabalho com a terapêutica ocupacional. Fala ainda da fundação do Museu do Inconsciente e da Casa das Palmeiras, importante centro de acolhimento aos doentes mentais proporcionando contato com diversas expressões criativas visando a melhora dos doentes, principalmente os esquizofrênicos.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/nise-da-silveira-uma-mulher-a-frente-de-seu-tempo/">Nise da Silveira – Uma mulher a frente de seu tempo</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading has-text-align-center" id="h-estou-cada-vez-menos-doutora-cada-vez-mais-nise" style="font-size:20px"><em><strong>Estou cada vez menos doutora, cada vez mais Nise</strong></em>.</h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Resumo: </strong>O Presente artigo comemora o <strong>aniversário de Nise da Silveira</strong>, importante psiquiatra que revolucionou a psiquiatria no Brasil, recusando-se a aplicar os tratamentos da época, que eram bastante violentos. O artigo fala da trajetória desta mulher extraordinária, do seu encontro com Jung, da participação no II Congresso de psiquiatria de Zurique, dos primeiros anos no hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro e de seu trabalho com a terapêutica ocupacional. Fala ainda da fundação do <strong>Museu do Inconsciente</strong> e da <strong>Casa das Palmeiras</strong>, importante centro de acolhimento aos doentes mentais proporcionando contato com diversas expressões criativas visando a melhora dos doentes, principalmente os esquizofrênicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dia-15-de-fevereiro-de-2026-comemora-se-a-vida-de-uma-das-mulheres-mais-extraordinaria-de-nosso-tempo-nise-da-silveira-pequena-em-estatura-e-gigante-em-amor-afetividade-e-capacidade-de-enxergar-o-outro" style="font-size:19px"><strong>Dia 15 de fevereiro de 2026 comemora-se a vida de uma das mulheres mais extraordinária de nosso tempo – Nise da Silveira – pequena em estatura e gigante em amor, afetividade e capacidade de enxergar o outro.</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Nise nasceu em 1905 em Maceió, Alagoas. Filha de um professor de matemática e jornalista – Faustino Magalhães da Silveira – e da pianista Maria Lídia da Silveira.</p>



<p style="font-size:19px">Em uma entrevista realizada em 1996 e publicada no livro <em>Nise da Silveira</em>, de <strong>Ferreira Gullar</strong>, ela conta que seus pais queriam que ela fosse pianista como a mãe, que ela descreve como “<em>uma pessoa extraordinária na virtuose e interpretação</em>”, porém, em suas próprias palavras ela era “<em>desafinadíssima. Meu ouvido não percebia as dissonâncias. Eu me desesperava</em>”.</p>



<p style="font-size:19px">O que ela gostava mesmo era de acompanhar seu pai no jornal. Estudava num colégio de freiras francesas, só para moças, o Colégio do Santíssimo Sacramento. Aprendeu muito bem o francês. O pai frequentemente a levava também ao colégio particular onde dava aulas de matemática, para que Nise pudesse conviver com rapazes. Alguns desses rapazes também frequentavam sua casa para estudar. Seu interesse por medicina nasce do convívio com esses rapazes.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Na verdade, eu não tinha nenhuma vocação para a Medicina. Quando vejo sangue, fico tonta. Não podia nunca ser médica. Na verdade, a escolha se deu por influência desse grupo de rapazes, que estudavam com meu pai, e que iam todos cursar medicina, na Bahia. Assim fomos em bando para Salvador. </em>(SILVEIRA, Nise, 2009)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nise-cursa-a-faculdade-entre-os-anos-de-1921-e-1926-onde-era-a-unica-mulher-entre-157-homens-na-turma" style="font-size:19px">Nise cursa a faculdade entre os anos de 1921 e 1926, onde era a única mulher entre 157 homens na turma.</h2>



<p style="font-size:19px">Ela está entre as primeiras mulheres no Brasil a se formar em medicina. Ela se forma e um mês depois, em fevereiro de 1927 seu pai morre. Sua mãe vai morar com o pai e uma irmã mais nova e Nise se recusa a ir. Vendem tudo e ela se muda sozinha para o Rio de Janeiro. Mora a princípio numa pensão no Catete, começa a procurar trabalho e, como o dinheiro começava a ficar escasso muda-se para Santa Teresa, no Curvelo. Lá conheceu Manuel Bandeira, Ribeiro Couto, Otávio Brandão e sua esposa Laura. Discutiam sobre diversos assuntos, incluindo política.</p>



<p style="font-size:19px">Começou a estagiar na clínica de neurologia do professor Antônio Austregésilo. Nessa época ficou sabendo de um concurso que haveria para psiquiatria, mas achou que não deveria se inscrever porque não haveria tempo para se preparar. O professor Austregésilo a inscreve no concurso por conta própria e lhe diz: “<em>Você está inscrita e agora tem que fazer o concurso</em>”. Para se preparar para o concurso ela vai morar no hospício da Praia Vermelha.</p>



<p style="font-size:19px">Em 1933 ela presta o concurso e é aprovada. Vai trabalhar no hospital da Praia Vermelha. <strong>Nise lia de tudo</strong>. E em um dos dias uma enfermeira foi limpar seu quarto e viu sobre a escrivaninha livros socialistas e a denunciou na administração. Era 1936, Nise é presa, e segundo ela, tem a primeira revelação que o que a psiquiatria falava dos doentes mentais, sobretudo dos esquizofrênicos estava errado.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>E assim aprendi outra lição, que desmentia o que afirmavam os livros de psiquiatria sobre os doentes mentais. Esses livros diziam que os esquizofrênicos eram indiferentes, sem afeto. Mas a doente que me levava o café toda manhã em meu quarto, quando soube de minha prisão, não ficou indiferente. Eu não entendia nada do que ela falava, mas ela estava entendendo o que se passava. Pegou de murros a enfermeira que me havia denunciado. (SILVEIRA, Nise, 2009)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nessa-epoca-conhece-graciliano-ramos-que-escreve-sobre-nise-em-seu-livro-memorias-do-carcere-olga-benario-e-elisa-berger" style="font-size:19px">Nessa época conhece Graciliano Ramos – que escreve sobre Nise em seu livro <em>Memórias do Cárcere</em>, Olga Benário e Elisa Berger.</h2>



<p style="font-size:19px">Quando finalmente é solta, Nise é readmitida no serviço público, mas não volta a trabalhar imediatamente porque havia uma ordem que a proibia de voltar. Existiam também boatos de que poderia ser presa novamente. Vai para a Bahia, onde passa um tempo. Depois disso, em 1944, com a ajuda do diretor da Saúde Pública Barros Barreto, Nise retoma seu lugar de psiquiatra no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no <strong>Engenho de Dentro</strong>. E é aí que se inicia toda a sua briga com a psiquiatria da época, que, segundo ela “<em>a briga mais importante</em>”.</p>



<p style="font-size:19px">No período em que esteve afastada novos tratamentos e medicamentos passaram a ser utilizados. Alguns deles extremamente violentos como a eletroconvulsoterapia, também conhecida como eletrochoque; a lobotomia e o coma insulínico.</p>



<p style="font-size:19px">Viu um médico psiquiatra aplicar eletrochoque num doente e este entrou em convulsão. Ele pediu que trouxessem outro e disse a Nise: “aperte o botão”, e ela respondeu: “<strong>não aperto</strong>”. <strong>Aí nasceu a rebelde</strong>.</p>



<p style="font-size:19px">Outra experiência horrível foi aplicar choque de insulina numa mulher que depois não acordava por nada. Com muito custo Nise conseguiu trazê-la de volta. A partir daí deu um basta. Foi falar com o diretor do Centro Psiquiátrico e ele disse que não sabia onde colocá-la, pois todas as enfermarias seguiam a mesma linha de tratamento, menos a <strong>Terapêutica Ocupacional</strong> que segundo ele era para serventes. Sim – para serventes – isso porque ali não existiam médicos trabalhando. Ela concordou desde que pudesse trabalhar do seu jeito. <strong>Abriu a primeira sala, que era de costura. Logo vieram outras salas como a de encadernação, modelagem, pintura, jardinagem</strong>. Até quadra de vôlei ela construiu. E cada vez mais pessoas queriam vir trabalhar ao lado de Dra. Nise da Silveira. <strong>E assim ela começou a revolucionar a psiquiatria no Brasil</strong>.</p>



<p style="font-size:19px">Era 1946 e nasce assim a <strong>Seção de Terapêutica Ocupacional </strong>no antigo Centro Psiquiátrico Nacional de Engenho de Dentro no Rio de Janeiro, atualmente Instituto Municipal Nise da Silveira. Seu interesse era estimular a capacidade criativa com <strong>atividades expressivas</strong> para tentar compreender o que acontecia no mundo interno dessas pessoas que não conseguiam se comunicar verbalmente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>A comunicação com o esquizofrênico, nos casos graves, terá um mínimo de probabilidade de êxito se for iniciada no nível verbal de nossas relações interpessoais. Isso só ocorrerá quando o processo de cura já se achar bastante adiantado. Será preciso partir do nível não-verbal. É aí que particularmente se insere a terapia ocupacional, oferecendo atividades que permitam a expressão de vivências não verbalizáveis por aquele que se acha mergulhado na profundeza do inconsciente, isto é, no mundo arcaico de pensamentos, emoções e impulsos fora do alcance das elaborações da razão e da palavra. O exercício de atividades poderá adquirir importante significação. Em vez dos impulsos arcaicos exteriorizarem-se desabridamente, lhes oferecemos o declive que a espécie humana sulcou durante milênios para exprimi-los: dança, representações mímicas, pintura, modelagem, música. Será o mais simples e o mais eficaz. (SILVEIRA, Nise, 2015)</em></p></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Dentre todas as atividades se destacaram sobremaneira os ateliês de modelagem e pintura. Em 20 de maio de 1952 foi inaugurado o <strong>Museu de Imagens do Inconsciente, </strong>um centro de estudos e pesquisa onde estão as obras produzidas nos ateliês que tem um acervo com mais de <strong>350 mil obras</strong> e documentos históricos disponíveis para pesquisadores de várias áreas do conhecimento. O acervo, hoje é tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Em abril de 1955 forma o grupo de estudos C. G. Jung.</strong></p>



<p style="font-size:19px">Em 23 de dezembro de 1956 é inaugurada a <strong>Casa das Palmeiras</strong> que a princípio era destinada ao tratamento dos egressos de instituições psiquiátricas, no regime de externato, entrava-se as treze horas e saía as dezoito. Mais tarde passou a receber também pessoas que se encontravam na fronteira, que não tinham chegado ainda ao ponto de serem internadas, o que era visto por Nise da Silveira como uma coisa muito positiva, porque conseguiam dar assistência antes que a pessoa tivesse que passar pela experiência da internação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-afeto-catalisador" style="font-size:19px"><strong>O afeto catalisador</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Numa oficina ou num ateliê terapêutico é necessário que haja um ponto de apoio onde o doente possa investir afeto, este ponto de referência é um monitor ou monitora que funcionará como um catalisador. Ao confiar em alguém aos poucos essa confiança vai se expandindo para outras pessoas e lugares.</p>



<p style="font-size:19px">Um dos internos, Fernando Diniz, revendo sua série de pinturas que tratava do interior de uma casa, aponta para a última pintura da série dizendo que havia sido derramado ácido sobre ela. Nise da Silveira lhe pergunta o que tinha acontecido, ao que ele responde: “Porque depois desse dia, durante muito tempo, Dona Elza não foi me buscar para a pintura”.</p>



<p style="font-size:19px">O muito tempo a que Fernando se referia era o tempo de férias da monitora. Nise da Silveira ficou bastante impressionada e passou a ficar mais atenta ao relacionamento dos monitores com os doentes.</p>



<p style="font-size:19px">Um exemplo dessa função catalisadora dos monitores é o caso do próprio Fernando. Depois de ter se reaproximado do mundo real regrediu novamente em função do falecimento de sua mãe. Suas pinturas voltaram a ser garatujas caóticas. Impressionada por sua face de angústia Nise da Silveira decidiu colocar uma monitora para ficar ao lado dele no ateliê, sem nenhuma interferência, sem emitir nenhuma opinião sobre o que ele fazia.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Sua função era a de ficar ao lado dele em silêncio, mostrando interesse e simpatia pelas suas criações</strong>. Um mês depois Fernando mostra uma melhora significativa e seus desenhos começam a mostrar certa ordenação, a partir daí ele começa uma série de desenhos sobre “a japonesa”. A princípio a temática parece estranha, mas logo fica clara quando Fernando diz que a monitora parecia uma japonesa. <em>“<strong>O relacionamento com a monitora levou Fernando a um contato muito melhor com o ambiente</strong>”</em> (SILVEIRA, Nise, 2015).</p>



<p style="font-size:19px">Martha Pires, artista visual e ex-terapeuta do ateliê do Museu de Imagens do Inconsciente em entrevista para o Itaú Cultural fala sobre como era o trabalho com os doentes e de sua relação com Raphael Domingues. Ela funcionava como um catalisador. Raphael não se comunicava com ninguém e a partir da presença de Martha ele começa a falar e demonstrar afeto, sentimento, o que a psiquiatria achava impossível acontecer com esquizofrênicos.</p>



<p style="font-size:19px">A dra. Nise da Silveira conhece Martha através de um amigo artista plástico. As duas tinham um interesse em comum – <strong>Jung</strong>. Martha é então convidada para fazer parte do grupo de estudos C. G. Jung e para visitar o Engenho de Dentro. A princípio ela resiste, não queria ir de jeito nenhum, mas alguns colegas a convencem e ela então conhece Raphael Domingues. Nise pede que Martha vá trabalhar especificamente com Raphael, porque ele não falava, não se comunicava a 20 anos.</p>



<p style="font-size:19px">Raphael está desenhando, fazendo apenas uns “tracinhos” como relatou Martha, e ela diz: “Raphael você está desenhando o canto dos pássaros?” ele olha em direção a Martha e diz: “Canto dos pássaros”. Nesse momento uma monitora comenta com Martha que ela está lá a dez anos e que nunca viu Raphael falar com ninguém. Um dia Martha pede que ele assine um desenho que fez e ele escreve no meio da folha “AMIGO”. Fica claro que havia afeto ali. Raphael deu um apelido a Martha, ele a chamava de Martinica. Numa ocasião Martha viaja e fica um ano fora do Brasil, ao retornar Raphael imediatamente reconhece Martha, a chama de Martinica, faz um desenho de uma mulher com um sol na testa e escreve abaixo Martinica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dra-nise-da-silveira-diz-que-outros-excelentes-catalisadores-sao-os-animais-a-quem-ela-chama-de-coterapeutas-em-seu-livro-imagens-do-inconsciente-em-varias-entrevistas-e-varias-ocasioes-ela-narra-historias-de-animais-que-ajudaram-os-doentes-a-criar-vinculos-e-mesmo-apresentarem-melhoras-significativas" style="font-size:19px">Dra. Nise da Silveira diz que outros excelentes catalisadores são os <strong>animais</strong> a quem ela chama de <strong>coterapeutas</strong>. Em seu livro <em>Imagens do Inconsciente</em>, em várias entrevistas e várias ocasiões ela narra histórias de <strong>animais que ajudaram os doentes a criar vínculos e mesmo apresentarem melhoras significativas</strong>.</h2>



<p style="font-size:19px">A Primeira delas foi uma cachorrinha encontrada quando estavam cavando o terreno para a construção da quadra de vôlei – a cadelinha Caralâmpia que foi adotada por um dos doentes que frequentava uma das oficinas. A partir daí a Dra Nise passou a perceber as vantagens que a presença dos animais proporcionavam aos doentes no hospital psiquiátrico.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Sobretudo o cão reúne qualidades que o fazem muito apto a tornar-se um ponto de referência estável no mundo externo. Nunca provoca frustrações, dá incondicional afeto sem nada pedir em troca, traz calor e alegria ao frio ambiente hospitalar. Os gatos têm um modo de amar diferente. Discretos, esquivos, talvez sejam muito afins com os esquizofrênicos na sua maneira peculiar de querer bem. (SILVEIRA, Nise, 2015)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-encontro-com-jung-nbsp-nbsp" style="font-size:19px"><strong>Encontro com Jung &nbsp;&nbsp;</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Em 12 de novembro de 1954 Nise da Silveira resolve <strong>enviar uma carta diretamente a Jung</strong> mostrando algumas fotos dos desenhos dos doentes do Engenho de Dentro a fim de averiguar se se tratavam mesmo de mandalas, a essa altura ela já tinha centenas de desenhos assim, mas a dúvida permanecia. <strong>Seriam mesmo mandalas</strong>? A resposta veio rápida, em 15 de dezembro de 1954 Nise recebe uma carta de Aniela Jaffé com a confirmação de que se tratavam mesmo de mandalas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>O mais importante acontecimento ocorrido nas minhas buscas de curiosa dos dinamismos da psique foi o encontro com a psicologia junguiana. Jung oferecia novos instrumentos de trabalho, chaves, rotas para distantes circunavegações. Delírios, alucinações, gestos, estranhíssimas imagens pintadas ou modeladas por esquizofrênicos, tornavam-se menos herméticas se estudadas segundo o seu método de investigação. E também não lhe faltava o calor humano de ordinário ausente nos tratados de psiquiatria. (SILVEIRA, Nise)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Em abril de 1957 <strong>Nise viaja para Zurique</strong>, com o auxílio de uma bolsa do CNPq para fazer estudos no Instituto C.G. Jung e participar do II Congresso Internacional de Psiquiatria, que aconteceria entre os dias 1 a 7 de setembro do mesmo ano.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>A contribuição do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro teve por título geral A esquizofrenia em imagens. Distribuiu-se em cinco amplas salas do pavimento térreo da Eidgenössische Technische Hochschule, cedido para a sede do Congresso, e foi montada pelo artista brasileiro Almir Mavignier, meu antigo colaborador.</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>A exposição enviada pelo Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro foi aberta por C. G. Jung, na manhã de 2 de setembro. Ele visitou toda a exposição, detendo-se particularmente na sala onde se encontravam as mandalas pintadas por doentes brasileiros, fazendo sobre o assunto comentários e interpretações. </em>(SILVEIRA, Nise, 2015)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">No dia 14 de junho de 1957 <strong>Nise encontra-se pessoalmente com Jung</strong> em sua residência de Kusnacht. Conversam sobre as dificuldades que ela sente como autodidata, do desejo de aprofundar seu trabalho no hospital psiquiátrico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ele-a-ouve-atento-e-entao-pergunta" style="font-size:19px">Ele a ouve atento e então pergunta:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>&#8211; <strong>Você estuda mitologia</strong>?</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>&#8211; Não, respondeu Nise.</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>&#8211; Pois se você não conhecer mitologia nunca entenderá os delírios de seus doentes, nem penetrará na significação das imagens que eles desenhem ou pintem.</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px"><strong>De volta ao Brasil a Dra. Nise pode observar nos doentes a influência de vários mitos</strong>. A primeira experiência foi com Adelina Gomes que revive em várias de suas obras o mito de Dafne. Carlos Pertuis em seu último período de vida retrata o mito de Mithra, em algumas pinturas de Carlos é possível também observarmos o tema mítico de Dionísos. O tema do dragão-baleia, que é uma das mais antigas variações do mito do herói, aparece em algumas criações de Olívio Fidélis.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Dra. Nise da Silveira sem sombra de dúvidas foi uma mulher admirável, muito a frente de seu tempo. Uma lutadora</strong>. Não se calava diante das dificuldades, ia à luta, sempre acreditando que antes de existir um doente existia ali um ser humano, muitas vezes encarcerado em seu próprio sofrimento, mas que com carinho, paciência, cuidado e afeto poderia com ajuda sair de seu cárcere e ter uma vida digna.</p>



<p style="font-size:19px">Sem dúvida alguma ainda há muito a se falar sobre ela, sobre seu trabalho e sobre os “camafeus de dra. Nise” como dizia Martha. Talvez num outro momento.</p>



<p style="font-size:19px"><strong><em>O que melhora o atendimento é o contato afetivo de uma pessoa com outra. O que cura é a alegria, o que cura é a falta de preconceito. </em></strong><strong>(SILVEIRA, Nise)</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;Nise da Silveira – Uma mulher a frente de seu tempo&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/_CfKFRv2pgs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/keller/">Me. Keller Villela – Membro Analista do IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra E. Simone Magaldi – Didata responsável</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p>MELLO, Luiz Carlos (org.). Encontros – Nise da Silveira. Rio de Janeiro, RJ: Azouque, 2009)</p>



<p>SILVEIRA, Nise. Imagens do Inconsciente. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p>_____________Gatos, a emoção de lidar. Rio de Janeiro, RJ: Léo Christiano Editorial, 2016.</p>



<p>_____________O mundo das imagens. São Paulo, SP: Ática, 1992.</p>



<p>CCMS – Centro Cultural do Ministério da Saúde. <a href="http://www.ccms.saude.gov.br">www.ccms.saude.gov.br</a></p>



<p>Itaú Cultural. www.itaucultural.org.br/ocupacao/nise-da-silveira</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A Produção Artesanal da Cerâmica como Exercício Simbólico</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-producao-artesanal-da-ceramica-como-exercicio-simbolico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristiane Jageneski dos Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 11:25:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Tipos Psicológicos]]></category>
		<category><![CDATA[argila]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
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		<category><![CDATA[funções da consciência]]></category>
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		<category><![CDATA[pintura]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[símbolo]]></category>
		<category><![CDATA[tipos psicológicos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A proposta do presente artigo é refletir sobre o processo artesanal da cerâmica como exercício simbólico e recurso terapêutico na despotencialização da função pensamento unilateralizada. Enaltecida pelo espírito do tempo, que considera a razão e a lógica como premissas supremas, a função pensamento torna-se uma armadilha para aqueles que a possuem como função dominante. Como evidenciado na teoria de Carl Gustav Jung, o indivíduo só consegue caminhar rumo à sua totalidade quando passa a integrar os conteúdos inconscientes. Sendo assim, a produção da cerâmica como expressão criativa apresenta-se com potencial para expressar conteúdos inacessíveis através apenas da intelectualidade, comprovando que formas não-verbais de comunicação possuem força simbólica, facilitam a integração das outras funções da consciência e abrem caminho para o desenvolvimento psíquico</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong><em>Resumo: A proposta do presente artigo é refletir sobre o processo artesanal da cerâmica como exercício simbólico e recurso terapêutico na despotencialização da função pensamento unilateralizada.</em></strong></p>



<p style="font-size:18px">Enaltecida pelo espírito do tempo, que considera a razão e a lógica como premissas supremas, a função pensamento torna-se uma armadilha para aqueles que a possuem como função dominante. Como evidenciado na teoria de Carl Gustav Jung, o indivíduo só consegue caminhar rumo à sua totalidade quando passa a integrar os conteúdos inconscientes. Sendo assim, a produção da cerâmica como expressão criativa apresenta-se com potencial para expressar conteúdos inacessíveis através apenas da intelectualidade. Comprovando que formas não-verbais de comunicação possuem força simbólica, facilitam a integração das outras funções da consciência e abrem caminho para o desenvolvimento psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-obra-o-homem-e-seus-simbolos-carl-gustav-jung-disse-que-o-homem-gosta-de-acreditar-se-senhor-da-sua-alma-2016-p-104" style="font-size:18px">Na obra <em><strong>O homem e seus símbolos</strong></em>, Carl Gustav Jung disse que “o homem gosta de acreditar-se senhor da sua alma” (2016, p. 104).</h2>



<p style="font-size:18px">De certo modo, em todo ser humano há um certo prazer na sensação de estar no controle, ao analisar a vida sob a ótica da racionalidade e da lógica, ignorando as maneiras secretas pelas quais os fatores inconscientes atuam nos projetos e decisões a todo tempo.</p>



<p style="font-size:18px">Esse sentimento é maximizado pelo espírito do tempo, principalmente na cultura ocidental, que eleva a razão à posição de deusa, considerada fonte de sabedoria e verdade, que dá conta de processar informações, com conectividade e produtividade constantes e, acima de tudo, de operar com positividade e eficiência. Deixar transparecer uma persona dinâmica, engajada, fluente em ideias e ter uma mente ativa parece ser o sonho de consumo do homem contemporâneo e, mais do que isso, torna-se quase que uma obrigação.</p>



<p style="font-size:18px">Nesse contexto, a hipervalorização da função pensamento apresenta-se como uma armadilha fácil, principalmente para aqueles que a tem como função superior, tornando a pessoa excessivamente identificada. Entretanto, como enfatizado na psicologia junguiana, ao unilateralizar uma função e negligenciar as outras, o indivíduo fatalmente enfrentará um desequilíbrio psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-espirito-da-epoca-e-a-unilateralizacao-patologica" style="font-size:18px"><strong>O espírito da época e a unilateralização patológica</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>Nossa vida civilizada exige uma atividade concentrada e dirigida da consciência, acarretando, deste modo, o risco de um considerável distanciamento do inconsciente. Quanto mais capazes formos de nos afastar do inconsciente por um funcionamento dirigido, tanto maior é a possibilidade de surgir uma forte contraposição, a qual, quando irrompe, pode ter consequências desagradáveis (JUNG, 2013a, p. 16).</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">A consciência não abrange a totalidade da psique, constitui-se apenas como uma de suas estruturas, sendo organizada em torno do ego e de suas funções adaptativas. Porém, durante uma parte da vida, a consciência inevitavelmente assume um ponto de vista unilateral, isto é, privilegia alguns conteúdos, valores e modos de funcionamento em detrimento de outros, sendo uma fase importante para estruturação psíquica do indivíduo.</p>



<p style="font-size:18px">A <strong>unilateralidade </strong>passa a se tornar um fator preocupante quando o ego se identifica de forma rígida com determinados comportamentos &#8211; sejam eles racionais, morais, culturais ou mesmo instintivos &#8211; deixando de integrar outros elementos do inconsciente. Com isso, a consciência corre o risco de perder sua flexibilidade e de cristalizar-se em uma visão fragmentada do mundo e de si mesma.</p>



<p style="font-size:18px">Quando a unilateralidade se intensifica, a ponto de ignorar sistematicamente as mensagens do inconsciente, o indivíduo enfrenta crises existenciais e desenvolve sintomas, favorecendo, assim, a exacerbação da função pensamento, tendo em vista o quanto o espírito da época enaltece o modelo lógico temporal como dominante.</p>



<p style="font-size:18px">Esse quadro pode ser potencializado quando o indivíduo enfrenta a noite escura da alma, ocasionando um sofrimento psíquico intenso, que pode se manifestar na forma de sintomas dolorosos e persistentes. O ego, que já estava fixado em um polo, passa a funcionar através de uma identificação ainda mais proeminente, levando o indivíduo ao esgotamento de si. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-descreve-apenas-como-exemplo-um-sujeito-identificado-com-a-funcao-pensamento-que-se-apresenta-sob-a-influencia-da-rigidez-do-tipo" style="font-size:18px">Jung descreve, apenas como exemplo, um sujeito identificado com a função pensamento, que se apresenta sob a influência da rigidez do tipo:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>Com o fortalecimento de seu tipo, mais rígidas e inflexíveis se tornam suas convicções. Descarta influências estranhas; pessoalmente perde a simpatia dos distantes e fica mais dependente dos próximos. Seu linguajar torna-se mais pessoal e mais franco, suas ideias são mais profundas, mas já não conseguem exprimir-se com clareza em vista do material de que dispõem. A emotividade e sensibilidade substituem o que falta. A influência estranha, que externamente recusa com brutalidade, assalta-o de dentro, pelo lado do inconsciente, e precisa reunir provas que sejam contrárias, e as reúne, contra coisas que parecem totalmente supérfluas aos estranhos. Dado que sua consciência se subjetiva pela falta de relação com o objeto, parece-lhe o mais importante o que secretamente diz respeito à sua pessoa. Começa, então, a confundir sua verdade subjetiva com sua pessoa. Jamais tentará pressionar alguém em favor de suas convicções, mas partirá venenosa e pessoalmente contra qualquer crítica, por mais justa. Isola-se aos poucos em todos os sentidos. Suas ideias que a princípio eram produtivas tornam-se destrutivas, porque estão envenenadas pelo sedimento da amargura. Com o isolamento para fora cresce a luta com a influência inconsciente que, aos poucos, o vai paralisando. Um forte pendor para a solidão deve protegê-lo das influências externas, mas normalmente o leva ainda mais fundo ao conflito que o consome interiormente. </em><em>(JUNG, 2013b, p. 398- 399).</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Diante disso, propomos refletir sobre a produção artesanal da cerâmica como caminho criativo e ferramenta terapêutica, ao conduzir o indivíduo à <strong>expressão simbólica</strong>. Apaziguando, assim, o protagonismo da função pensamento &#8211; sendo um meio privilegiado para que imagens surjam e sejam integradas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>O símbolo é sempre um produto de natureza altamente complexa, pois se compõe de dados de todas as funções psíquicas. Portanto, não é de natureza racional e nem irracional. Possui um lado que fala à razão e outro inacessível à razão, pois não se constitui apenas de dados racionais, mas também de dados irracionais fornecidos pela simples percepção interna e externa. A carga de pressentimento e de significado contida no símbolo afeta tanto o pensamento quanto o sentimento, e a plasticidade que lhe é peculiar, quando apresentada de modo perceptível aos sentidos, mexe com a sensação e a intuição. O símbolo vivo não pode surgir num espírito obtuso e pouco desenvolvido, pois este se contentará com o símbolo já existente conforme lhe é oferecido pela tradição. (JUNG, 2013b, p. 491).</em><em></em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-percurso-simbolico-atraves-da-expressao-criativa" style="font-size:18px"><strong>O percurso simbólico através da expressão criativa</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Para Jung, a <strong>expressão criativa</strong> exerce uma função central no desenvolvimento psicológico humano, por tratar-se de um canal<strong>entre o consciente e o inconsciente.</strong> Ele não a entendia apenas como uma manifestação artística ligada à estética, mas sobretudo como uma fonte criadora, seja de imagens, escrita, música, movimento ou qualquer outra forma simbólica, que permite que conteúdos internos encontrem um caminho para se manifestar e, assim, possam ser integrados à vida consciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-o-ato-criativo-funciona-como-um-ritual-simbolico-que-cura-e-integra-permitindo-que-a-psique-encontre-novas-formas-de-expressao-e-de-equilibrio" style="font-size:18px">Segundo Jung, o ato criativo funciona como um ritual simbólico que cura e integra, permitindo que a psique encontre novas formas de expressão e de equilíbrio:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>A pintura de quadros pelo próprio paciente produz efeitos incontestáveis, embora esses efeitos sejam difíceis de descrever. Basta, por exemplo, que um paciente perceba que, por diversas vezes, o fato de pintar um quadro o liberta de um estado psíquico deplorável, para que ele lance mão desse recurso cada vez que seu estado piora. O valor dessa descoberta é inestimável, pois é o primeiro passo para a independência, a passagem para o estado psicológico adulto.<br>Usando esse método &#8211; se me for permitido usar este termo &#8211; o paciente pode tornar-se independente em sua criatividade. Já não depende dos sonhos, nem dos conhecimentos do médico, pois, ao pintar-se a si mesmo &#8211; digamos assim &#8211; ele está se plasmando. O que pinta são fantasias ativas &#8211; aquilo que está mobilizado dentro de si. <br>[&#8230;] E o que está mobilizado é ele mesmo, mas já não mais no sentido equivocado anterior, quando considerava que o seu &#8220;eu&#8221; pessoal e o seu &#8220;self&#8221; eram uma e a mesma coisa. Agora há um sentido novo, que antes lhe era desconhecido: seu eu aparece como objeto daquilo que está atuando dentro dele. Numa série interminável de quadros, o paciente esforça-se por representar, exaustivamente, o que sente mobilizado dentro de si, para descobrir, finalmente, que é o eterno desconhecido, o eternamente outro, o fundo mais fundo da nossa alma.</p><cite>JUNG, 2013c, p. 107</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">Sendo assim, torna-se evidente que o ato criativo não é um luxo ou uma habilidade restrita à artistas, mas uma <strong>necessidade psíquica fundamental, que favorece o</strong> autoconhecimento, a transformação e a conexão com o mistério da psique. Ao permitir que as imagens internas encontrem forma e vida no mundo externo, o indivíduo não apenas dá voz e organiza seus conteúdos internos, mas avança no caminho do próprio desenvolvimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ceramica-e-a-integracao-das-quatro-funcoes-da-consciencia" style="font-size:20px"><strong>A cerâmica e a integração das quatro funções da consciência</strong></h2>



<p style="font-size:18px"><em>A Terra é apenas a matéria, o sólido, o palpável. É com a intervenção dos outros elementos Água, Ar, Fogo, que ela ganha existência como cerâmica: vida, energia, beleza&#8230;. Com a água revitalizamos a matéria e com o calor do nosso corpo, através das nossas mãos, damos unidade e densidade, expulsamos o ar nela contido, transformando-a numa massa compacta e íntegra. Nesse contato vamos reconhecendo a matéria e ganhando intimidade. Esse trabalho de amassar o barro é um trabalho de centralização, os movimentos vão do exterior para o interior, das extremidades para o centro. E nesse movimento encontramos também o sentido da Totalidade: só estamos tocando na parte externa e afetando a sua totalidade. Assim, amassando o barro o ceramista caminha também em direção ao seu centro (NAKANO, 1988, p. 61).</em></p>



<p style="font-size:18px">O trabalho com a argila é uma prática essencialmente sensorial e não-verbal. A ceramista Katsuko Nakano deixa isso bem claro na citação acima, quando menciona o contato com os quatro elementos e a forma como corpo e matéria vão ganhando intimidade através do toque, numa espécie de movimento sinestésico. A modelagem é uma experiência que, além de despertar essa sensorialidade, permite a vivência de uma comunicação intrapessoal mais plena e integrada. Entretanto, de modo geral, há que se resgatar esse diálogo, inclusive, com outras formas de expressões criativas, pois o <em>modus operandi</em> em vigor na sociedade contemporânea, imposto pelo espírito da época, promove um descolamento das práticas que caminharam junto com a evolução da humanidade. Perdeu-se a intimidade com aquilo que é artesanal, com a manufatura.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>Felizmente, o que importa é que, embora haja uma pressão social pela racionalidade, nada abafa o chamado do corpo. Em algum momento, nós somos convocados para uma vivência criativa com a matéria, que irá nos proporcionar outra relação com o mundo e com o tempo através dos sentidos. O corpo humano é um feixe complexo de sentidos, e dar sentido é anterior a conceituar. (GIANNOTTI, 2024, p. 100).</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-producao-artesanal-da-ceramica-ao-mobilizar-o-corpo-a-imaginacao-e-a-experiencia-artistica-favorece-a-expressao-de-conteudos-inconscientes-e-possibilita-ao-individuo-reconectar-se-com-funcoes-menos-desenvolvidas-de-sua-psique" style="font-size:18px">A produção artesanal da cerâmica, ao mobilizar o corpo, a imaginação e a experiência artística, favorece a expressão de conteúdos inconscientes e possibilita ao indivíduo reconectar-se com funções menos desenvolvidas de sua psique.</h2>



<p style="font-size:18px">O contato com a argila, sua plasticidade e poder de transformação revela-se não apenas como atividade manual, mas também como caminho terapêutico. Ela promove um contrapeso à unilateralidade, possibilitando o acesso a vivências simbólicas que ampliam a consciência, favorecendo o deslocamento da energia psíquica antes concentrada na função pensamento. Ao integrar mente, corpo e coração, o fazer artesanal resgata dimensões da psique negligenciadas, constituindo-se como um espaço fértil de cura e de reconciliação do indivíduo com a totalidade de sua vida psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-contato-com-o-barro-favorece-a-reconexao-com-a-natureza-e-seus-ciclos-por-ser-uma-matriz-simbolica-carregada-de-vida-memoria-e-ancestralidade-lembrando-nos-que-a-materia-esta-em-nos-e-nos-estamos-na-materia" style="font-size:18px">O contato com o barro favorece a reconexão com a natureza e seus ciclos, por ser uma matriz simbólica carregada de vida, memória e ancestralidade. Lembrando-nos que a matéria está em nós e nós estamos na matéria.</h2>



<p style="font-size:18px">A mistura de terra, água, ar e fogo transforma não apenas o barro em peças cerâmicas únicas, mas, evidencia que tudo tem uma trajetória a ser cumprida, um exemplo daquilo que Jung chama de função teleológica da psique. Ao mesmo tempo, mostra que tudo está em constante mutação e desenvolvimento. Ao buscar a interação e o equilíbrio desses quatro elementos, o ceramista acaba por encontrar seu próprio equilíbrio no mundo, devolvendo ordem ao caos através de cada peça moldada e transformada pelo fogo.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-processo-da-ceramica-artesanal-nos-permite-varios-aprendizados" style="font-size:18px">O processo da cerâmica artesanal nos permite vários aprendizados.</h2>



<p style="font-size:18px">Nele, nunca é possível ter o controle sob o produto final, mesmo depois de dar forma à argila. Muita coisa pode acontecer no meio do caminho. É necessária uma dose bastante grande de paciência até que sua existência se concretize. Não há como, por exemplo, menosprezar uma das primeiras etapas da atividade com o barro, que é a sova da argila, pois é ela que minimiza fortemente o risco de uma peça estourar. A persistência na espera do processo de secagem é primordial para que a peça não sofra distorções. Lixar exige todo o cuidado e delicadeza, para que a peça não se quebre nas mãos do ceramista. Sem contar com as horas de passagem pelo calor, que proporcionarão uma mudança drástica na estrutura da peça, funcionando como um ritual de passagem.</p>



<p style="font-size:18px">A esmaltação será uma das últimas etapas em toda essa trajetória de construção, cuidado, intimidade e amor ao trabalho com a cerâmica. Com isso, ela nos deixa mais uma lição: depois de ter passado pela segunda vez pelo fogo, a peça adquire cor e brilho que durarão por todo o tempo de sua existência. Assim também pode ser conosco, ganhar um pouco mais de cor e brilho em cada uma das vezes que enfrentamos as passagens pelo fogo em nossas vidas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>O &#8220;fazer cerâmica&#8221;, para mim, foi um encontro. Encontro com a Terra e o Fogo. A Terra me absorve totalmente, é o repouso, o aconchego. E sobretudo é receptiva e acolhedora; me limpa por dentro. O Fogo me atrai. É amigo e inimigo, traz entusiasmo e decepção, é vida ou morte. Tem sempre os seus mistérios. Fazer cerâmica é promover a harmonia dos elementos que constituem o universo: Terra, Agua, Ar, Fogo. De maneira poética: colocando em contato, os semelhantes e os opostos, o ceramista faz a união e a fusão desses elementos, para gerar sua obra. Penso que toda experiência estética deve ser um encontro com o mundo e consigo mesmo. Da vivência desse encontro e da sua maturidade nasceria a obra. Minha verdadeira obra ainda não surgiu. Mas o que me faz apresentar estes trabalhos é a certeza do encontro. São ainda experiências estéticas. Mas elas me prometem &#8230; (NAKANO, 1988, p. 67).</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Ao analisar o trecho acima, é possível perceber, através da produção artesanal da cerâmica, o quanto os elementos naturais estão correlacionados, simbolicamente, às quatro funções psicológicas, ao expressarem qualidades energéticas que caracterizam formas de perceber, avaliar, relacionar-se e criar sentido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-relacao-entre-os-elementos-e-as-funcoes-psicologicas-foi-descrita-por-waldemar-magaldi-na-obra-fundamentos-da-psicologia-analitica-2025-p-379" style="font-size:18px">Essa relação, entre os elementos e as funções psicológicas, foi descrita por Waldemar Magaldi, na obra Fundamentos da Psicologia Analítica (2025, p. 379).</h2>



<p style="font-size:18px">A função sensação, responsável pela captação imediata do dado concreto, encontra sua expressão simbólica no elemento terra. A manipulação da argila constitui uma experiência primordial de enraizamento, que convoca a função sensação e reequilibra subjetividades excessivamente abstraídas ou racionalizadas.</p>



<p style="font-size:18px">A função sentimento, vinculada à avaliação de valor, relaciona-se simbolicamente ao elemento água, tradicionalmente associado à fluidez, ao vínculo e à profundidade emocional. No fazer cerâmico, esse elemento emerge de múltiplas formas, no uso da água para tornar a matéria moldável, nos estados afetivos que acompanham o processo de criação e na relação íntima entre mãos e matéria.</p>



<p style="font-size:18px">A função pensamento, caracterizada pela discriminação lógica e pela elaboração conceitual, encontra sua analogia no elemento ar, símbolo da clareza, da articulação e da razão estruturante. No processo cerâmico, essa função se manifesta não como uma hipertrofia da racionalização abstrata, mas como planejamento e estruturação, integrando-se organicamente às demais funções, servindo ao processo criativo e cedendo espaço à dimensão simbólica.</p>



<p style="font-size:18px">A função intuição, orientada à percepção de possibilidades, corresponde ao elemento fogo, símbolo da transformação, da iluminação súbita e do vir a ser. O fogo transcende o dado imediato e revela potencialidades ocultas, assim como a intuição apreende direções ainda não manifestas. A cerâmica incorpora esse elemento tanto metafórica quanto literalmente, pois é no forno que a obra encontra sua forma definitiva, revelando cores, texturas e qualidades inesperadas.</p>



<p style="font-size:18px">Ao integrar essas quatro dimensões, observa-se que a prática cerâmica opera como um campo simbólico privilegiado para a recomposição da totalidade psíquica.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: A Produção Artesanal da Cerâmica como Exercício Si" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/OVo4zDPmFd0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-jageneski-dos-reis/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-jageneski-dos-reis/"><strong>Cristiane Jageneski – Membro Analista em formação</strong> <strong>pelo IJEP</strong></a></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências: </strong></h2>



<p><em>Imagem: foto de arquivo pessoal da autora</em></p>



<p>GIANNOTTI, Sirlene. <em>Vivenciar-se no fazer</em>. Caderno – Ensaio 1: Barro, p. 97-105. SP: Instituto Tomie Ohtake, 2024.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p>____, Carl Gustav.&nbsp; <em>Tipos psicológicos</em>. 7ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p>____, Carl Gustav.&nbsp; <em>A prática da psicoterapia</em>. 16ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p>____, Carl Gustav, <em>et al</em>. <em>O homem e seus símbolos. </em>3ª ed<em>.</em> RJ: Harper Collins, 2016.</p>



<p>MAGALDI, Waldemar. (Org.) Fundamentos da Psicologia Analítica. 2ª ed. São Paulo: Eleva Cultural, 2025.</p>



<p>NAKANO, Katsuko. <em>Terra, Fogo, Homem</em>. Tese de doutorado. Universidade de São Paulo, 1988.</p>



<p></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Verde Que Te Quero &#8211; Uma Análise da Abstração na Psicologia Analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/verde-que-te-quero-uma-analise-da-abstracao-na-psicologia-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Virginia Vilhena]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 10:07:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[expressões criativas]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sonhos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12121</guid>

					<description><![CDATA[<p>Abstração e Empatia são atitudes da consciência ao se expressar esteticamente, através de imagens que revelam o movimento das relações psíquicas entre nós, nossas clientes e o mundo.  Este texto convida a ampliar as formas de percepção sobre as imagens com um olhar mais desperto e analítico para as que emergem das experiências nem sempre agradáveis, mas potencialmente criativas.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Abstração e Empatia são atitudes da consciência ao se expressar esteticamente, através de imagens que revelam o movimento das relações psíquicas entre nós, nossas clientes e o mundo.&nbsp; Este texto convida a ampliar as formas de percepção sobre as imagens com um olhar mais desperto e analítico para as que emergem das experiências nem sempre agradáveis, mas potencialmente criativas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apresento-inicialmente-o-texto-parte-da-expressao-criativa" style="font-size:18px"><strong>Apresento inicialmente o texto, parte da expressão criativa:</strong></h2>



<p style="font-size:18px"><em>“O sonho com aquele monstro verde só poderia ser vermelho. Se o verde do inconsciente transmitia alguma coloração das associações à natureza e à esperança, é no vermelho do sangue que ele quase se satisfaz no papel.</em></p>



<p style="font-size:18px"><em>Ele flui, se liquefaz, alcança tonalidades, torna-se laranja de si-mesmo, diminui o cansaço do ontem e se torna no agora algo. São lâminas, onde em umas a densidade ainda quase grita, o azul da água daquela piscina cheia de cloro se faz presente, para dizer que a água estava ali. Não sei se a água acalmava ou alimentava aquela monstruosidade, se ela, a monstruosidade, estava dentro do cloro, limpador dos vermes aquáticos, higienizador ocidental e civilizatório ou se talvez a água continha e alimentava aquela cena onde o monstro verde estava, mas aqui, no papel, ela é só lembrada.</em></p>



<p style="font-size:18px"><em>O azul dela, a água da piscina iluminada, se faz presente, talvez o azul seja a esperança do outro verde, da antinomia do verde cor do monstro que também se faz verde esperança. Mas o monstro, que aqui não se vê, mas se sente vermelho, estava acorrentado. Acorrentado naquele mar higienizado do mais vil cloro ocidental. Por que nomeei, ideologizei ou “ubiquei” o cloro ao ocidente? Talvez porque os rios do Pará sejam mais esperançosos do que a piscina ocidental do clube civilizado de Can Baró. Ideação, porque no Pará os rios também se sujavam, não tanto quanto o Tietê. Amanhã é dia de Nossa Senhora de Nazaré.”</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-prefacio-de-1937-de-tipos-psicologicos-2013-o-medico-e-psicoterapeuta-carl-jung-confessa-que-e-da-experiencia-diaria-com-o-doente-que-surge-o-seu-livro" style="font-size:18px">No prefácio de 1937 de <em>Tipos Psicológicos</em> (2013), o médico e psicoterapeuta Carl Jung confessa que é da experiência diária com o doente que surge o seu livro.</h2>



<p style="font-size:18px">De certa forma, toda a sua psicologia é uma fenomenologia em movimento; assim, inspirada pela mesma cadência, o fio deste texto analítico é conduzido a partir de uma vivência.</p>



<p style="font-size:18px">Viver a experiência do arrebatamento de um complexo pode não ser agradável em um primeiro momento, atuando no corpo; a psique se movimenta enquanto surgem novos símbolos e sonhos em busca da consciência. É da relação com um desses sonhos que surgiram as expressões criativas que as convido a olhar: são as imagens 1, 2 e 3 e o texto poético-onírico (apresentados no início deste artigo).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-da-imagem-interior-que-surge-uma-necessidade-que-antecede-a-expressao-estetica-e-que-aqui-encontrou-sua-forma-atraves-da-atitude-abstrativa-sobre-a-qual-abordaremos-mais-adiante" style="font-size:18px">É da imagem interior que surge uma necessidade que antecede à expressão estética, e que aqui encontrou sua forma através da atitude abstrativa, sobre a qual abordaremos mais adiante.</h2>



<p id="h-e-pertinente-recordar-que-imagem-no-campo-da-psicologia-analitica-trata-se-de-uma-representacao-imediata-que-se-relaciona-com-a-percepcao-do-objeto-cf-jung-2013c-827" style="font-size:18px">É pertinente recordar que <em>imagem</em>, no campo da psicologia analítica, trata-se de uma representação imediata que se relaciona com a percepção do objeto (Cf. Jung, 2013c, §827). E para trazer para a contemporaneidade, apresento um texto do artista <strong>David Hockney</strong>, no qual se refere similarmente sobre a imagem no cubismo:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>“(&#8230;) uma questão de percepção e representação da realidade. Para mim, a maioria das distinções na arte, como abstrato oposto ao figurativo, me parece falsa. Existem muito poucos conflitos na arte que, na minha opinião parecem realmente tangíveis e valem a pena, exceto por apenas um: o desejo de representar”<a href="#_ftn1" id="_ftnref1"><sup><strong><sup>[1]</sup></strong></sup></a>&nbsp;&nbsp; (Hockney, 199,&nbsp; p. 22).</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Se no campo artístico esse conflito aparente eleva o olhar ao encontro da consciência e das relações com o espírito do tempo, no campo da Psique a experiência do mundo é atemporal. Ao voltar a observar as figuras 1, 2 e 3, revela-se uma imagem relacionada tanto ao inconsciente pessoal quanto à representação de uma imagem primordial, que diz respeito à expressão do Arquétipo (Cf. Jung, 2013c, §832).</p>



<p style="font-size:18px">É por isso que ao circumambular a imagem estamos em relação direta com a Psique (Abt, 2005, p. 15), movendo-nos com uma complexidade de materiais de diversas procedências, mas que têm um produto homogêneo, com um sentido constelado naquele momento, que é a imagem. (Cf. Jung, 2013c, §829).</p>



<p style="font-size:18px">Embora a imagem esteja em permanente diálogo, uma espécie de arte da interpretação delas, como escreve Theodor Abt, tornou-se algo importante para a formação da analista junguiana (Cf. Abt, 2005, p. 12), uma vez que para Jung, o inconsciente se manifesta em sonhos, fantasias, visões e imaginações ativas sempre na forma de imagens (Abt, 2005, p. 12).</p>



<p style="font-size:18px">Ainda que nesta pesquisa referentes do universo artístico sejam mencionados, em uma conferência de 1929, publicada no livro <em>A Prática da Psicoterapia</em> (2013), Jung expõe que à esse material criativo não se trata de valor artístico, e sim “da eficácia da vida sobre o próprio paciente” (2013b, §104). E então reflexiona sobre sua prática perguntando-se: “<em>Mas afinal, por que razão levo os pacientes a se exprimirem por meio de um pincel, de um lápis, de uma pena </em>(&#8230;)? </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-ele-mesmo-responde" style="font-size:18px">E ele mesmo responde:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p style="font-size:18px">“Antes de mais nada, o que interessa é que se produza um efeito. No estágio psicológico infantil acima descrito, o paciente permanece passivo. Nesta fase, passa a ser ativo. Passa a representar coisas que antes só via passivamente e dessa maneira elas se transformam em um ato seu. Não se limita a falar do assunto, também o executa. Psicologicamente isso faz uma diferença incalculável: uma conversa interessante com o terapeuta, algumas vezes por semana, mas com resultados que – de alguma forma – ficam no ar, é totalmente diferente do que ficar horas a fio, às voltas com obstinados pincéis e tintas, para produzir algo, que à primeira vista parece não ter o menor sentido. (&#8230;) Além disso, a execução material do quadro obriga-o a contemplar cuidadosa e constantemente todos os seus detalhes. Isso faz com que o efeito seja plenamente desenvolvido. Desse modo, introduz-se na fantasia, um momento de realidade, o que lhe confere um peso maior e, consequentemente, lhe aumenta o efeito” (Jung, 2013b, §105-106).</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">As pinturas acima (1, 2 e 3) e o texto inicial surgiram a partir de um sonho e da necessidade de pintar o sentimento atravessado. São imagens exógenas originárias do fluxo entre psique e objeto, uma ampliação plástica realizada em estágio de rebaixamento cognitivo e que vai criando consciência e desidentificando-se, pouco a pouco, do objeto que inicialmente está carregado de conteúdo mais inconsciente e emocional.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pintar-e-escrever-possuem-um-efeito-terapeutico-per-se-porem-jung-vai-relatar-que-ha-uma-necessidade-de-compreensao-intelectual-e-emocional-das-imagens-a-fim-de-integra-las-ao-consciente-nao-so-racional-mas-tambem-moralmente-jung-2013b-111" style="font-size:18px">Pintar e escrever possuem um efeito terapêutico <em>per-se</em>, porém, Jung vai relatar que há uma necessidade de compreensão intelectual e emocional das imagens, “<strong>a fim de integrá-las ao consciente, não só racional, mas também moralmente</strong>” (Jung, 2013b §111).</h2>



<p style="font-size:18px">Para compreender intelectualmente a atitude estética, é preciso revisitar o caminho que precedeu as imagens aquareladas: o corpo que primeiro sentiu — aqui uma expressão somática do complexo —; depois o sonho &#8211; em possíveis compensações, pedagogias e sentido teleológicos que podem revelar as relações entre o “eu” e os outros complexos; e por fim a pintura e o texto poético que nasceram do sonho. Nada se aproxima à consciência por salto: são movimentos vagarosos de percepção da simbologia da imagem: no corpo, nos sonhos, e como será apresentado, nas expressões poéticas (aqui visual e textual).</p>



<p style="font-size:18px">O diálogo com as imagens, no caso as três aquarelas e o texto, pode suscitar diversas ampliações, junto à elas Jung ressalta a importância de uma interpretação sintética e&nbsp; moral, que se relaciona com a procura do centro (Cf. Jung, 2013b §111). Por se tratar de um curto ensaio, proponho neste texto um olhar breve sobre apenas alguns aspectos da experiência. Aqui enfatizo a cor e a em seguida mais cuidados sobre a sua forma, especialmente a abstração.</p>



<p style="font-size:18px">Nas figuras (1, 2 e 3) a “vontade da arte” escorre em água e vermelho, mesmo na primeira imagem, que poderia dizer que é a mais próxima do inconsciente, por ter sido a primeira a ser realizada com mais carga emocional. O aguado vermelho contradiz o texto, que faz referência a um monstro verde:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>“O sonho com aquele monstro verde só poderia ser vermelho. Se o verde do inconsciente transmitia alguma coloração das associações à natureza e à esperança, é no vermelho do sangue que ele quase se satisfaz no papel.”</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Aqui a imagem se apresenta na sua própria contradição: vermelho no papel, verde no relato. Entre corpo, sonho, pintura e texto nasce um campo de transformação. Visualmente na figura 2, uma harmonia emerge. Na figura 3, o centro se faz em uma forma mandálica.</p>



<p style="font-size:18px">A valorização da cor, sugerida pela contradição entre texto e imagem, ajuda na criação de consciência sobre o sentimento e movimenta a compreensão simbólica ao revisitar o material. “Entre o ‘eu faço’ e o ‘eu estou consciente daquilo que faço’ há não só uma distância imensa, mas algumas vezes uma contradição aberta” (Jung, 2013a, § 385).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ainda-do-ponto-de-vista-arquetipico-jung-comenta-sobre-a-cor-vermelha-ao-tratar-da-relacao-que-se-da-no-limiar-entre-inconsciente-e-consciente-situacao-similar-na-qual-foram-elaboradas-as-aquarelas" style="font-size:18px">Ainda do ponto de vista arquetípico, Jung comenta sobre a cor vermelha ao tratar da relação que se dá no limiar entre inconsciente e consciente, situação similar na qual foram elaboradas as aquarelas:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">“Usando aqui a analogia do espectro, podemos comparar a baixa dos conteúdos inconscientes a um deslocamento para a extremidade vermelha da faixa das cores, comparação esta extremamente sugestiva, na medida em que o vermelho é a cor do sangue que sempre caracterizou a esfera das emoções e dos instintos” (Jung, 2013a, §384).</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">O texto poético-onírico foi escrito logo em seguida das aquarelas, e a oposição verde–vermelho tornou-se dança, tensão criativa, paradoxo cromático de cores também complementares que abre passagem para as possibilidades, qualidades prognósticas da função intuitiva. Dessa forma, a imagem (antes sensorial, de forma inferior, depois sentimental) segue em movimento simbólico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-que-a-energia-psiquica-siga-em-movimento-entre-imagem-e-objeto-agora-faz-se-uma-abertura-de-espaco-para-a-observacao-intelectual-direcionada-para-a-atitude-abstrativa-na-estetica-atraves-deste-texto" style="font-size:18px">Para que a energia psíquica siga em movimento entre imagem e objeto, agora faz-se uma abertura de espaço para a observação intelectual direcionada para a atitude abstrativa na estética, através deste texto.</h2>



<p style="font-size:18px">Compreende-se que para Jung a experiência do complexo mobiliza a energia psíquica que se direciona para uma harmonia. Porém, se essa dança carece de sentido para a totalidade do ser, é compreendida como sintoma de uma doença. No caso do sentido ser experienciado, esse complexo movimenta uma criação, uma expressão, por exemplo artística, e é ampliado diferentemente de uma doença. Essa vivência do sentido é estabelecida na relação com a personalidade do indivíduo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-certa-forma-ja-abordei-a-vontade-da-arte-sob-a-relatividade-da-experiencia-psiquica-pessoal" style="font-size:18px">De certa forma, já abordei a “vontade da arte” sob a relatividade da experiência psíquica pessoal. </h2>



<p style="font-size:18px">A partir deste ponto, volto-me para a psicologia que se manifesta através da atitude estética — no caso das figuras aqui apresentadas, pela via da abstração. Jung, ao ampliar seu conhecimento e realizar quase um estudo arqueológico das tipologias, observa — com base nos escritos de Wilhelm Worringer — que existem duas formas fundamentais de expressão estética: a empatia (<em>Einfühlung</em>) e a abstração (<em>Abstraktion</em>). A grande contribuição do historiador da arte, e que será recebida por Jung, é a demonstração de como ambas expressões não pertencem apenas ao nosso tempo. São movimentos antigos da alma humana, presentes desde sempre nas expressões da humanidade.</p>



<p style="font-size:18px">Para Jung, a atitude empática tem o direcionamento de transferência do conteúdo psíquico para o objeto. E é um conteúdo projetado, portanto mais vinculado ao sujeito que está inconsciente da relação, a impressão é de que o objeto fala por si. A empatia é uma extroversão, e para Worringer, referenciado por Jung, trata-se de um autoprazer objetivado, ou seja, só é bela a forma com a qual se tem empatia (Cf. 2013c § 554).</p>



<p style="font-size:18px">Inversamente à empatia há um movimento para dentro do sujeito que se afasta da identificação com o objeto, e que será chamado por Worringer de Abstração. Para Jung e para Worringer a exigência, ou a vontade de abstração, é a consequência de uma grande inquietação interna do homem devido aos fenômenos do mundo externo (Cf. 2013c, § 555-556 ).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-um-trecho-da-obra-de-worringer-citado-por-jung-que-e-essencial-para-a-compreensao-dos-pressupostos-psiquicos-do-anseio-pela-abstracao" style="font-size:18px">Há um trecho da obra de Worringer, citado por Jung que é essencial para a compreensão dos pressupostos psíquicos do anseio pela abstração:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">“Temos que procurá-los no sentimento universal daqueles povos, em sua atitude psíquica para com o cosmo. Enquanto a exigência de empatia tem como condição um relacionamento de confiança feliz e panteísta entre o homem e os fenômenos do mundo externo, a exigência de abstração é a consequência de uma grande inquietação interna do homem devido aos fenômenos do mundo externo e que corresponde, do ponto de vista religioso, a uma coloração transcendental muito forte de todas as representações.   Poderíamos chamar este estado de uma tremenda agorafobia espiritual. Quando Tibull diz que Deus criou neste mundo em primeiro lugar o medo<a href="#_ftn2" id="_ftnref2"><sup>[2]</sup></a>, então podemos admitir que este mesmo sentimento de medo seja também a raíz da criação artística” (Worringer p. 16 <em>apud</em> Jung, 2013c, § 556 ).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tal-fato-como-vai-demonstrar-a-obra-de-jung-e-um-paradoxo-psiquico" style="font-size:18px"><strong>Tal fato, como vai demonstrar a obra de Jung, é um paradoxo psíquico</strong>.</h2>



<p style="font-size:18px">Se na consciência se dá uma atitude abstrativa, no inconsciente há uma profunda identificação com o objeto. E o inverso também acontece, se a atitude estética é empática, de identificação com o objeto, no inconsciente há um afastamento do mesmo.</p>



<p style="font-size:18px">A expressão estética que acontece por uma necessidade de compreensão de um fenômeno, é o movimento da energia psíquica que não se enrijece em um lado, e estabelece sempre uma nova relação, ainda não determinada.</p>



<p style="font-size:18px">No campo da filosofia e estética da arte, a chilena Andrea Soto Calderón observa: “as imagens têm um potencial para escavar um ponto de vista e introduzir outros, para produzir uma inflexão de um conteúdo que se tem por absoluto<a href="#_ftn3" id="_ftnref3"><sup>[3]</sup></a>” (Calderón, 2023, p. 109). Acredito que é essa potencialidade da imagem o que nos permite na análise observar que empatia e abstração são atitudes paradoxais e complementares.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-portanto-ao-pintar-procurando-expressar-os-sentimentos-ha-um-afastamento-da-relacao-inconsciente-com-o-objeto-e-assim-torna-se-mais-consciente-a-relacao-com-o-mesmo" style="font-size:18px">Portanto, ao pintar, procurando expressar os sentimentos, há um afastamento da relação inconsciente com o objeto, e assim, torna-se mais consciente a relação com o mesmo.</h2>



<p style="font-size:18px">A atitude abstrativa, assim como a empática são conscientes, e o lado inconsciente que as precede é o oposto. É como se a atitude abstrativa fosse no inconsciente uma atitude empática, em relação ao objeto.</p>



<p style="font-size:18px">No caso da abstração, que é uma imagem viva, ela busca tornar o objeto inoperante (2013c § 558). Esse movimento psíquico pode ser intuído através da terceira imagem, na qual a forma mandálica se apresenta, e pequenas linhas de cor lilás (azul mais vermelho) surgem. Supõe-se que aqui há uma tendência tanto para o centro quanto para a harmonização e criação de consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-estas-formas-abstratas-e-de-acordo-com-a-lei-sao-pois-as-unicas-e-melhores-onde-o-homem-pode-descansar-em-fase-da-terrivel-confusao-dada-pela-imagem-do-mundo-worringer-apud-jung-2013c-562" style="font-size:18px">“<em>Estas formas abstratas e de acordo com a lei são, pois, as únicas e melhores onde o homem pode descansar em fase da terrível confusão dada pela imagem do mundo”</em> (Worringer apud Jung 2013c, § 562).</h2>



<p style="font-size:18px">Por tratar-se de expressões de origem arquetípicas, também se observaram essas diferenças de atitudes nas culturas do oriente e do ocidente. Referindo-se a essa identificação com o objeto, Jung vai utilizar o termo “<strong>participação mística</strong>” de <strong>Lévy Bruhl</strong> (2013c, § 564) . </p>



<p style="font-size:18px">Trata-se dessa carga de libido (energia psíquica) que o objeto recebe originalmente, e que é parte do inconsciente da pessoa tipicamente introvertida. Por isso, Jung vai escrever que “a abstração parece uma função que luta contra a “participação mística” primitiva. Ela o afasta do objeto para destruir os vínculos com ele. Leva, por um lado, à criação de formas artísticas e, por outro, ao conhecimento do objeto” (2013c, § 565).&nbsp; Por outro lado, na estética da empatia, o inconsciente é idêntico ao objeto, e o faz parecer sem vida, por isso a consciência é de atitude empática, necessária para que se possa conhecer a essência do objeto.</p>



<p style="font-size:18px">Em suma, ao analisarmos as atitudes tipológicas na expressão estética, abre-se a possibilidade de uma dança de vazão às necessidades psíquicas que as originaram, tanto do ponto de vista pessoal quanto arquetípico. Há um movimento em direção ao centro e concomitantemente na criação de consciência. A ética e a responsabilidade moral podem ser reencontradas através da análise do material,&nbsp; do fluxo criativo das imagens, ou seja, das expressões próprias e naturais da Psique.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Verde Que Te Quero   Uma Análise da Abstração na Psicologia Analítica" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/JQtjPSZgqQo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/virginia-vilhena/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/virginia-vilhena/">Virgínia Vilhena &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p>ABT, Theodor. <strong><em>Introduction to Picture Interpretation: According to C.G. Jung</em>.</strong> Zürich: Living Human Heritage Publications, 2005.</p>



<p>CALDERÓN, A. S. <strong><em>Imágenes que Resisten</em></strong><em>.</em> Barcelona: La Virreira Centre de La Imatge, 2023.</p>



<p>HOCKNEY, D. <strong><em>Picasso</em></strong>. Paris: Daniel Lelong Editeur, 1999. ISBN 2- 86882-026-3</p>



<p>JUNG, C. G. <strong><em>A natureza da psique</em></strong>. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p>JUNG, C. G. <strong>A Prática da psicoterapia</strong>. 16 ed. Petrópolis: Vozes 2013b</p>



<p>JUNG, C. G. <strong><em>Tipos psicológicos</em></strong>. 7 ed. Petrópolis: Vozes, 2013c</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><em><sup>1</sup></em><em> Tradução livre “Le Cubisme est affaire de perception et de représentation du réel. Pour moi, la plupart des distinctions en art, comme l’abstrait oppose au figurative, me paraissent fausses. Il y a très peu de conflits en art qui selon moi paraissent vraiment tangibles et valent la peine, à l’exception d’un seul : le désir de représenter.</em></p>



<p><em><sup>2 </sup></em><em>Primum in mundo fecit deus timorem</em></p>



<p><em><sup>3</sup></em><em> Tradução livre “Las imágenes tienen un potencial para horadar un punto de vista e introducir otros, para producir una inflexión en un contenido que se tiene por absoluto”</em></p>



<p><em>FONTE DA IMAGEM: própria autora, 2025 &#8211; aquarela em tamanho postal</em></p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><a href="#_ftnref1" id="_ftn1"><sup>[1]</sup></a> Tradução livre “Le Cubisme est affaire de perception et de représentation du réel. Pour moi, la plupart des distinctions en art, comme l’abstrait opposé au figuratif, me paraissent fausses. Il y a très peu de conflits en art qui selon moi paraissent vraiment tangibles et valent la peine, à l’exception d’un seul : le désir de représenter.”</p>



<p><a href="#_ftnref2" id="_ftn2"><sup>[2]</sup></a> <em>Primum in mundo fecit deus timorem</em></p>



<p><a href="#_ftnref3" id="_ftn3"><sup>[3]</sup></a> Tradução livre “Las imágenes tienen un potencial para horadar un punto de vista e introducir otros, para producir una inflexión en un contenido que se tiene por absoluto”</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O Encontro com o Mestre: Uma jornada de transformação pela Arteterapia</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-encontro-com-o-mestre-uma-jornada-de-transformacao-pela-arteterapia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Elaine Cristina Bedin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Feb 2026 19:38:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[expressões criativas]]></category>
		<category><![CDATA[IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[integração]]></category>
		<category><![CDATA[nise da silveira]]></category>
		<category><![CDATA[processo de individuação]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12016</guid>

					<description><![CDATA[<p>Todos nós temos um mestre interior, sabe aquele que te acompanha ao longo de sua vida? O curso de Arteterapia não é tão simples e divertido como parece, é acima de tudo, uma entrega, uma verdadeira jornada de alma. Uma travessia profunda onde não estudei apenas técnicas, obras e embasamentos teóricos, mas um chamado, fui chamada — por meio das imagens, das cores e dos símbolos — a mergulhar nos porões da minha história. Ao encerrar a formação em Arteterapia, fecho também um ciclo de vida profundamente simbólico e transformador, uma verdadeira travessia. Um chamado da alma que me levou a tocar feridas antigas e integrar as partes esquecidas de mim mesma</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-encontro-com-o-mestre-uma-jornada-de-transformacao-pela-arteterapia/">O Encontro com o Mestre: Uma jornada de transformação pela Arteterapia</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>“Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece&#8230; ou desaparece.”<br>(Ditado antigo, citado por muitos mestres espirituais)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: Todos nós temos um mestre interior, sabe aquele que te acompanha ao longo de sua vida? O curso de Arteterapia não é tão simples e divertido como parece, é acima de tudo, uma entrega, uma verdadeira jornada de alma. Uma travessia profunda onde não estudei apenas técnicas, obras e embasamentos teóricos, mas um chamado, fui chamada — por meio das imagens, das cores e dos símbolos — a mergulhar nos porões da minha história. Ao encerrar a formação em Arteterapia, fecho também um ciclo de vida profundamente simbólico e transformador, uma verdadeira travessia. Um chamado da alma que me levou a tocar feridas antigas e integrar as partes esquecidas de mim mesma</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-i-o-chamado-da-alma-ferida" style="font-size:19px"><strong>I. O chamado da alma ferida</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Durante dois longos anos, tive a oportunidade de viver e reviver momentos únicos: &nbsp;um processo de mergulhos, reencontros e revelações, momentos que marcaram profundamente a minha vida. Conheci várias pessoas, algumas vivem em mim outras convivem comigo, mas com certeza, todas estão aqui, “ao lado esquerdo do peito”, como diz nosso querido Milton Nascimento.</p>



<p style="font-size:19px">&nbsp;Ao encerrar a formação em Arteterapia, fecho também um ciclo de vida profundamente simbólico e transformador, uma verdadeira travessia. Um chamado da alma que me levou a tocar feridas antigas e integrar as partes esquecidas de mim mesma.</p>



<p style="font-size:19px">O curso de Arteterapia não é tão simples e divertido como parece, é acima de tudo, uma entrega, uma verdadeira jornada de alma. Uma travessia profunda onde não estudei apenas técnicas, obras e embasamentos teóricos, mas um chamado, fui chamada — por meio das imagens, das cores e dos símbolos — a mergulhar nos porões da minha história.</p>



<p style="font-size:19px">Carrego no peito o eco de uma ferida primordial: a rejeição de uma filha não acolhida por sua mãe. Uma dor silenciosa, suavizada apenas pelo gesto amoroso dos tios que, não podendo gerar, me escolheram com o coração. Cresci entre afetos e silêncios, marcada por uma ferida invisível, que mais tarde encontraria eco. No entanto, como nos ensina Jung, &#8220;nós não nos tornamos iluminados imaginando figuras de luz, mas sim tornando consciente a escuridão&#8221; (JUNG, 1976, p. 265). E, mais uma vez, a sombra se fez presente novamente em experiências de abuso, repetições, silêncios e traumas que marcaram minha adolescência e vida adulta. Os complexos gritando e emergindo de uma dor sem fim!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-das-dores-algo-em-mim-permanecia-resistente-uma-centelha-viva-que-me-impulsionava-a-buscar-sentido" style="font-size:19px">Apesar das dores, algo em mim permanecia resistente &#8211; uma centelha viva que me impulsionava a buscar sentido.</h2>



<p style="font-size:19px">Foi nesse movimento que encontrei a Psicopedagogia, meu primeiro portal de sentido e, mais adiante, a Psicologia Analítica, onde pude compreender e acolher as dores de crianças e adolescentes. Atendendo a este público com dificuldades de aprendizagem, percebia que por trás das questões escolares havia dores emocionais profundas, afinal a cognição não funciona sem sua aliada, a psique. &nbsp;E foi movida por essa sede de compreender a psique humana, especialmente a infância ferida e as dores da alma, que encontrei Jung. Encontrei Jung ou fui encontrada por ele? &nbsp;Afinal, como diz o ditado, “<em>Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece.&#8221;</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ii-o-encontro-com-jung-o-velho-sabio" style="font-size:19px"><strong>II. O encontro com Jung: o Velho Sábio</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Meu caminho, porém, ainda ansiava por algo mais profundo. Foi nesse movimento de busca que nos encontramos, eu e Jung. Em seu arquétipo do Velho Sábio, reconheci uma figura que, simbolicamente, me parecia familiar — quase como Merlin, o mago que aparece nos momentos certos para guiar o herói. Este velho Sábio apareceu todas as vezes que finalizava um curso, além dos de especialização, os diversos cursos de extensão que cumpri. Em sonhos ou através de imaginação ativa, ele se manifestava com uma palavra de acolhimento ou alguma mensagem provocativa<strong>. </strong>Como descreve Silveira (1981, p.161): “No mistério do ato criador, o artista mergulha até as profundezas imensas do inconsciente. Ele dá forma e traduz na linguagem de seu tempo as intuições primordiais e, assim fazendo, torna acessíveis a todos as fontes profundas da vida”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-me-ofereceu-um-mapa-para-a-psique-onde-pude-entender-que-cada-imagem-cada-simbolo-cada-criacao-artistica-e-expressao-do-inconsciente-buscando-se-manifestar" style="font-size:19px">Jung me ofereceu um mapa para a psique, onde pude entender que cada imagem, cada símbolo, cada criação artística é expressão do inconsciente buscando se manifestar.</h2>



<p style="font-size:19px">As dores não elaboradas, emergem em busca de reconhecimento. E, foi através da Arteterapia que essas imagens ganharam corpo: em mandalas, colagens, esculturas, máscaras e sonhos, emergiram minhas personas, minhas sombras e, principalmente, meus potenciais esquecidos.</p>



<p style="font-size:19px">Neste ponto, a Arteterapia entrou em minha vida como um reencontro de almas, um despertar. Um despertar que trouxe à luz a criança silenciada, a mulher criativa e a filha esquecida. As imagens emergentes me conduziram, passo a passo, ao centro de mim mesma. Vivenciei cada encontro como uma oferenda simbólica, onde os materiais — argila, tinta, tecido, papel, lápis e o meu próprio corpo — ganharam vida e se tornaram linguagem da alma.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Duchastel</strong>, com sua profunda escuta simbólica, diz que “<em>Na terapia, toda intervenção colocada a serviço de uma ideia gera ideias originais; toda interpretação de uma imagem cria imagens. Assim, o processo de cura é perseguido sem cessar</em>.” (DUCHASTEL, 2010, p. 117)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-iii-a-bola-de-cristal-simbolo-de-integracao" style="font-size:19px"><strong>III. A bola de cristal: símbolo de integração</strong></h2>



<p style="font-size:19px">E como falar de imagem sem citar Nise da Silveira, a mestra brasileira que deu forma ao invisível. Ao trabalhar com pacientes psiquiátricos no Hospital Pedro II, através da sua sensibilidade, percebeu que o que a sociedade chamava de &#8220;loucura&#8221; era, muitas vezes, a linguagem simbólica da alma. Ela dizia que “As imagens não são apenas representações de sentimentos, mas manifestações do próprio inconsciente se expressando por símbolos.” (SILVEIRA, 1981)</p>



<p style="font-size:19px">No meu processo de formação, essa compreensão foi essencial. Ao criar imagens que vinham de dentro, comecei a ver que eu também carregava mundos internos inteiros: mandalas, casas, feridas, mães, meninas e anciãs. Parecia que a imagem não era apenas uma imagem e sim um pedaço de mim, um dentro do outro que desabrochava &nbsp;&nbsp;e aparecia.</p>



<p style="font-size:19px">Na última aula da formação, vivi uma experiência simbólica inesquecível. Durante um exercício profundo de imaginação ativa, reencontrei meu Mestre interior — uma figura arquetípica que sempre me acompanhou nos momentos decisivos. Parecia Merlin, com seu olhar amoroso e sua bola de cristal nas mãos.</p>



<p style="font-size:19px">Naquela esfera luminosa, vi surgir imagens da minha trajetória: desde a menina rejeitada até a mulher que hoje escreve este relato. Vi meus rostos de infância, juventude e maturidade emergirem e se fundirem num mesmo centro — um mosaico de mim mesma, costurado por vivências, dores, conquistas e resiliência.</p>



<p style="font-size:19px">Rimos, nos olhamos com ternura e, ao final, ele me disse:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-agora-ela-e-sua-siga-seu-caminho" style="font-size:19px">— Agora ela é sua. Siga seu caminho.</h2>



<p style="font-size:19px">Colocou a bola de cristal em minhas mãos e eu chorei. Chorei porque naquele gesto entendi que o mestre já não estava fora e sim dentro de mim. E esse símbolo, a esfera translúcida, passou a representar minha intuição, minha escuta sensível e meu dom criativo.</p>



<p style="font-size:19px">A entrega da bola de cristal simbolizou um retorno, parecia que estava retornando ao centro de mim mesma e renascendo, as lagrimas escorriam pela face. Não era mais o Mestre quem me mostrava os caminhos — ele me devolveu a responsabilidade e a liberdade de trilhar o meu. Agora sou eu quem carrego a bola da intuição, da visão e da criação.</p>



<p style="font-size:19px">E essas lágrimas são de reconhecimento, de libertação, de amor-próprio. Aquela menina rejeitada, silenciada, agora era vista, acolhida e conduzida por sua própria força interior.</p>



<p style="font-size:19px">Jung descreve o processo de individuação como o retorno ao Self — centro organizador da psique —, quando o ego se curva diante da totalidade interior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-iv-a-arteterapia-como-caminho-de-individuacao" style="font-size:19px"><strong>IV. A Arteterapia como caminho de individuação</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Esse processo, vivido profundamente na formação, é o que Jung chamou de caminho de individuação: um movimento de integração das polaridades internas, do ego com o self, da persona com o ego e do ego com a sombra. Cada produção artística foi uma ponte entre o consciente e o inconsciente, entre o passado e o presente, entre a dor e a cura.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px">“<em>Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por “individualidade” entendermos a nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si mesmo.” (JUNG,1987, p.49)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Nise nos lembra que “O arteterapeuta não é um artista, mas sim um testemunho do Sagrado que emerge da alma do cliente.” E o mais Sagrado de todos esses testemunhos é quando esse papel se volta para nós mesmos. Quando nos tornamos testemunhas da nossa própria travessia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-arte-e-a-expressao-do-ser-humano-e-a-expressao-do-que-ele-e-do-que-ele-sente-do-que-ele-pensa-silveira-1992" style="font-size:19px"><em>“A arte é a expressão do ser humano, é a expressão do que ele é, do que ele sente, do que ele pensa.” (SILVEIRA, 1992)</em></h2>



<p style="font-size:19px">A arte, nesse sentido, não cura por si só, mas nos permite acessar partes de nós que estavam adormecidas. E ao dar forma à dor, podemos ressignificá-la. Como Jung bem expressou: “aquilo que não enfrentamos em nós mesmos, encontraremos como destino” (JUNG, 1976, p. 169). A Arteterapia nos convida a enfrentar, elaborar e integrar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-v-o-retorno-do-feminino-criador" style="font-size:19px"><strong>V- O retorno do feminino criador</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Hoje, sinto que retornei ao centro. Carrego comigo a bola de cristal — metáfora do olhar simbólico, da escuta sensível, da criatividade que transcende a técnica. A menina rejeitada se tornou mulher criativa. A dor deu lugar à potência. E o Mestre, em seu gesto silencioso de despedida, não desapareceu: ele mora agora dentro de mim.</p>



<p style="font-size:19px">Nise nos diz que “<strong><em>Para navegar contra a corrente são necessárias condições raras: espírito de aventura, coragem, perseverança e paixão</em></strong>.”(SILVEIRA, 1990)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-formacao-em-arteterapia-nao-foi-um-curso-foi-um-rito-de-passagem-um-renascimento" style="font-size:19px">A formação em Arteterapia não foi um curso, foi um rito de passagem, um renascimento. </h2>



<p style="font-size:19px">Afinal, segundo minha analista Simone Magaldi: “<em>Fazer análise é para os fortes.</em>” E que alegria é poder dizer isso ao final dessa jornada.</p>



<p style="font-size:19px">Que outras mulheres, filhas, mães, meninas e mestras possam encontrar também seu caminho através da arte, da alma e do amor.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Hoje sigo com minha bola de cristal simbólica nas mãos</strong>. Sigo com Jung, Nise, Von Franz e tantos outros como guias internos. Mas, sobretudo, sigo comigo mesma e entendo que a verdadeira cura não está em apagar as cicatrizes, mas em honrá-las como parte da nossa história.</p>



<p style="font-size:19px"><em><strong>“Portanto, não se chega à claridade pela representação da luz, mas tornando consciente aquilo que é obscuro.” (JUNG, 2013, p.280)</strong></em></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: O Encontro com o Mestre Uma jornada de transforma" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/cNh96MLMTt4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/elaine-cristina-bedin/">Elaine Bedin dos Reis – Analista em formação do IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas" style="font-size:18px"><strong>Referências Bibliográficas</strong>:</h2>



<p>DUCHASTEL, Alexandra<em>. O caminho do imaginário.</em> São Paulo: Paulus, 2010.</p>



<p>JUNG, C. G. <em>Estudos Alquímicos.</em> Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p>JUNG, C. G. <em>Psicologia do Inconsciente.</em> Petrópolis: Vozes, 2014</p>



<p>JUNG, C. G. <em>O Eu e o Inconsciente.</em> Petrópolis: Vozes, 1987.</p>



<p>JUNG, C. G. <em>Memórias, Sonhos, Reflexões</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1976.</p>



<p>SILVEIRA, Nise da. <em>Imagens do Inconsciente</em>. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981.</p>



<p>SILVEIRA, Nise da. <em>Cartas a Spinoza</em>. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>O cantar como terapia</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-cantar-como-terapia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marta Beatriz Conceição Guedes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Feb 2026 19:45:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[análise junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[C G Jung]]></category>
		<category><![CDATA[cantar]]></category>
		<category><![CDATA[cura]]></category>
		<category><![CDATA[Diane Austin]]></category>
		<category><![CDATA[expressões criativas]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[terapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo discute como o canto e o cantar funcionam como via de expressão e integração psíquica. A voz é apresentada como mediadora entre consciente e inconsciente, revelando complexos e conteúdos emocionais profundos. A prática vocal no setting terapêutico ativa padrões afetivos ligados à transferência e mobiliza o terapeuta pela contratransferência, criando um campo sonoro relacional. A música e o canto permitem identificar e transformar complexos, favorecendo a diferenciação e reorganização psíquica. Assim, o cantar torna-se instrumento clínico e simbólico de cura e individuação.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O artigo discute como o canto e o cantar funcionam como via de expressão e integração psíquica. A voz é apresentada como mediadora entre consciente e inconsciente, revelando complexos e conteúdos emocionais profundos. A prática vocal no setting terapêutico ativa padrões afetivos ligados à transferência e mobiliza o terapeuta pela contratransferência, criando um campo sonoro relacional. A música e o canto permitem identificar e transformar complexos, favorecendo a diferenciação e reorganização psíquica. Assim, o cantar torna-se instrumento clínico e simbólico de cura e individuação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desde-minha-infancia-fui-profundamente-tocada-pela-experiencia-de-cantar-principalmente-pela-vivencia-com-a-minha-avo-que-adorava-nelson-goncalves" style="font-size:19px">Desde minha infância, fui profundamente tocada pela experiência de cantar, principalmente pela vivência com a minha avó, que adorava Nelson Gonçalves.</h2>



<p style="font-size:19px">O cantar não se limitava apenas a uma expressão estética, mas como um canal direto com as emoções mais profundas e com conteúdos psíquicos que, por vezes, escapam à linguagem racional. Este ano resgatei o canto como parte da minha rotina e, através dessa vivência pessoal, despertei a percepção de que minha voz — sua timidez, sua potência, suas variações — se manifestava como reflexo direto de meu estado psíquico.</p>



<p style="font-size:19px">A partir disso procurei livros que trouxessem uma abordagem junguiana sobre o canto e o cantar e encontrei, dentre outros o livro <em>The Theory and Practice of Vocal Psychotherapy</em>, de Diana Austin, que propõe que a voz humana é uma extensão da psique, que os registros vocais podem ser utilizados como mediadores entre consciente e inconsciente, além de poderem favorecer a integração de conteúdos psíquicos dissociados.</p>



<p style="font-size:19px">Nesse sentido, no presente artigo proponho que, sob a ótica da Psicologia Analítica, o uso terapêutico da voz pode se configurar como uma via simbólica de cura e integração psíquica. Para isso analisaremos brevemente, com base nos conceitos junguianos de complexos, self e individuação, articulados ao conceito de transferência e contratransferência, bem como à prática vocal como instrumento expressivo e transformador.</p>



<p style="font-size:19px">Inicialmente, observamos que a potência terapêutica do canto reside no fato de que, ao cantarmos, voz e corpo atuam como instrumentos intimamente conectados, vibrando em sintonia com os sons e a ressonância que a experiência proporciona.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tanto-fazemos-musica-como-somos-a-musica" style="font-size:19px"><em>Tanto fazemos música como somos a música</em>.</h2>



<p style="font-size:19px">Internamente, a voz acaba por nos ajudar a nos conectar com nossos corpos e expressar as nossas emoções, externamente ela nos ajuda a nos conectar com os outros.</p>



<p style="font-size:19px">Além disso, cantar é uma atividade neuromuscular, e padrões musculares são conectados aos padrões psicológicos e emocionais de resposta (Austin, 2008), o que possibilita que trabalhemos através do canto a integração de <strong>complexos</strong>, entendidos na psicologia analítica como conteúdos psíquicos autônomos de origem inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-complexos-sao-assim-definidos-por-jung" style="font-size:19px">Os complexos são assim definidos por <strong>Jung</strong>:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>O que é, portanto, cientificamente falando, um “complexo afetivo”? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, se comporta, na esfera do consciente, como um corpus alienum [corpo estranho], animado de vida própria. (2000, p.43)</em><em></em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Portanto, o cantar pode proporcionar aos clientes expressar o que estava oculto, dando voz aos sentimentos inconscientes, promovendo “<em>uma libertação emocional, devido ao efeito da música, da letra e das memórias e associações ligadas à canção</em>” (Austin, 2008, p. 20).</p>



<p style="font-size:19px">Além disso, a singularidade, o self pessoal, é revelado através do som e das características da voz. O processo do canto terapêutico possibilita que o cliente encontre sua própria voz, seu próprio som, dando mais passos para tornar-se cada vez mais completo, ou seja, caminhando para o processo de individuação. Contudo, Austin aponta que para que o canto seja utilizado como ferramenta terapêutica e que tenha força curativa é necessário que haja uma relação de afeto entre cliente e analista, manifestadas pela transferência e pela contratransferência.</p>



<p style="font-size:19px">A transferência é uma especialização do fenômeno inconsciente da projeção, se apresentando como o processo pelo qual o paciente projeta no analista conteúdos inconscientes – em especial os arquétipos parentais (imago) – impulsionado pelo princípio de Eros (ligação e relacionamento). É uma expressão do anseio interior pela totalidade psíquica (Self), tornando-se um palco vital para a reexperimentação e integração das polaridades, um passo essencial no processo de individuação.</p>



<p style="font-size:19px">É de se ressaltar que na relação entre analista e analisando a transferência toma um lugar de extrema relevância, pois para Jung (2012, p. 46), “<em>o êxito ou fracasso do tratamento tem, no fundo, muito a ver com ela</em>”, tratando-se de um laço e uma ligação que lhe dizem respeito e se criaram a partir de um inconsciente comum (2012, p. 61).</p>



<p style="font-size:19px">A projeção do paciente sobre o seu analista leva a uma perturbação, a uma afetação deste, nomeada de contratransferência, pela qual constata-se que da mesma forma que o analisando influencia o analista com seus conteúdos inconscientes, o analista influencia o analisando.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-palavras-de-jung" style="font-size:19px">Nas palavras de Jung:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:20px"><em>O fato de o paciente transmitir ao médico um conteúdo ativado do inconsciente também constela neste último o material inconsciente correspondente, através da ação indutiva regularmente exercida em maior ou menor grau pelas projeções. Médico e paciente encontram-se assim numa relação fundada na inconsciência mútua.&nbsp;(Jung, 2012 p. 59)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Assim, a contratransferência é uma reação inconsciente do analista aos conteúdos projetados pelo analisando na transferência, sendo um fenômeno mútuo; e para Austin, necessário ao sucesso da terapia do canto. Não é vista como um obstáculo a ser superado, mas como um instrumento de diagnóstico e uma fonte de informação valiosa sobre o material do paciente e o campo inconsciente compartilhado. A título de ilustração, trago um exemplo apontado por Austin no setting terapêutico em que ela e sua cliente Terry entraram num estado de ressonância psíquica e a partir daí construíram um terceiro elemento que a retirou da angústia que a levou procurar a terapia.</p>



<p style="font-size:19px">Terry sofria com uma autocrítica severa e sentimentos de vergonha e incapacidade, bem como não conseguia estabelecer limites para si e para os outros, sintomas que se somatizavam em sua voz, tornando-a aguda e estridente sempre que era afetada por uma circunstância relacionada à imagem internalizada de sua infância, quando conviveu com uma mãe hipercrítica, que a invalidava constantemente, e que tinha uma voz aguda, cortante e penetrante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-terapia-vocal-a-relacao-terapeutica-atuou-como-temenos-von-franz-1992" style="font-size:19px">Na terapia vocal, a relação terapêutica atuou como <em>temenos</em> (<strong>Von Franz</strong>, 1992)</h2>



<p style="font-size:19px">Isto é, <strong><em>um espaço de contenção e segurança</em></strong>, onde a transferência do complexo materno negativo de Terry se manifestou sonoramente. Através da improvisação vocal conjunta, a díade analítica constelou o complexo materno positivo em Austin, permitindo à terapeuta acolher e espelhar as dissonâncias afetivas (contratransferência). Essa sintonia no vínculo facilitou a desidentificação da paciente com a imago materna destrutiva, transformando a vergonha projetada em agressividade saudável integrada ao ego, validada pela escuta ativa e participativa da analista.</p>



<p style="font-size:19px">Além deste caso, Austin identificou de forma geral em seu estudo qualidades semelhantes na música de vários clientes quando eles estão presos em um aspecto traumatizante do complexo de poder. Ela relata que identificou em vários casos clientes que improvisaram em torno de questões envolvendo julgamento extremo ou abuso verbal ou físico, produzindo músicas com qualidades semelhantes. Eram músicas rápidas, com ritmo, melodia e harmonia repetitivos e um caráter compulsivo. &nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">A autora relata ainda que o complexo de poder se manifestava nos clientes de forma consistente através do efeito que a música lhes afetava, pois cada um experimentava sua música como &#8220;intensa&#8221; e &#8220;com vida própria&#8221;. Sentiam que poderiam continuar tocando por horas sem qualquer mudança nos padrões musicais.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Uma cliente descreveu a sensação de estar &#8220;possuída&#8221;. Outro disse que se sentiu “atacado pelo ódio a si mesmo”. Dois dos clientes, quando solicitados a desenhar o que vivenciaram durante a improvisação, desenharam padrões giratórios que pareciam ciclones. Esses desenhos lembram o padrão circular espiral que foi denominado “vórtice traumático” pelo Dr. Peter Levine (Austin, 2008, p.43, tradução nossa).</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-estar-preso-em-um-complexo-e-ser-metaforicamente-possuido" style="font-size:19px">Estar preso em um complexo é ser metaforicamente possuído.</h2>



<p style="font-size:19px">Por isso a autora afirma que a música pode ser útil para identificar os sons de alguém capturado. Ademais, a música também pode ser extremamente eficaz para ajudar os clientes a retornarem a si mesmo, ajudando-os a diferenciar suas próprias vozes do estado de identidade inconsciente com o complexo. A música pode permitir que os clientes se conectem a sentimentos autênticos (o sentimento por trás do julgamento), podendo então se diferenciar do complexo e encontrar seu próprio ponto de vista (Austin, 2008).</p>



<p style="font-size:19px">Por todo o exposto, a prática vocal no setting terapêutico revela-se um recurso singular para acessar e transformar conteúdos inconscientes que se expressam com mais precisão pelo corpo e pela vibração sonora do que pela linguagem conceitual. Como propõe <strong>Diane Austin</strong>, o canto cria um campo de ressonância emocional que favorece a emergência de complexos, memórias e afetos, permitindo que sejam elaborados por meio da experiência estética, corporal e simbólica.</p>



<p style="font-size:19px">A transferência torna esse processo possível, pois é na relação com o terapeuta que o canto se torna veículo vivo de padrões afetivos antigos, abrindo espaço para reorganização psíquica e reconfiguração de vínculos internos.</p>



<p style="font-size:19px">A <strong>contratransferência</strong>, integrada ao trabalho vocal, amplia esse campo de transformação ao revelar elementos do inconsciente compartilhado e ao permitir que a voz do terapeuta funcione como sustentação, espelho e presença simbólica.</p>



<p style="font-size:19px">Nesse encontro entre duas vozes — literal e metaforicamente — cria-se um espaço de individuação, onde o cliente pode diferenciar-se de seus complexos, reencontrar sua própria sonoridade e reafirmar sua singularidade psíquica ao integrar partes até então dissociadas. </p>



<p style="font-size:19px">Assim, o cantar, quando inserido na prática analítica, deixa de ser mero recurso expressivo e se torna caminho de cura profunda e de retorno à inteireza.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;O cantar como terapia&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/AsiTcM84Is4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/marta-guedes/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/marta-guedes/">Marta Beatriz Conceição Guedes &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Z. Maluf &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p>Austin, D. (2008). The Theory and Practice of Vocal Psychotherapy: Songs of the Self. London/Philadelphia: Jessica Kingsley Publishers.</p>



<p>Jung, C. G. (2000). A natureza da psique. Petrópolis: Vozes.</p>



<p>Jung, C. G. (2012). Ab-reação, anpalise dos sonhos e transferência. Petrópolis, RJ: Vozes.</p>



<p>Jung, C. G. (2014). Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Vozes.</p>



<p>Von Franz, M. (1992). Puer Aeternus: a Luta do Adulto Contra o Paraíso da Infância. São Paulo: Paulus.</p>



<p>Matrículas abertas &#8211; Psicologia Junguiana // Arteterapia e expressões criativas // Psicossomática &#8211; 2 anos &#8211; Certificação pelo MEC: <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A Música na Psicologia Analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-musica-na-psicologia-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Nino Karvan]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Oct 2025 13:19:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Poderia a música, na prática da psicoterapia, favorecer o surgimento de conteúdos inconscientes passiveis de serem analisados simbolicamente? O impulso para a construção desse artigo vem do depoimento de Jung no encontro dele com Margaret Tilly, em 1956, descrito no livro Entrevistas e Encontros, onde ele é taxativo ao afirmar que “&#8230;doravante a música [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px;line-height:1.6"><strong>Resumo</strong>: <strong>Poderia a música, na prática da psicoterapia, favorecer o surgimento de conteúdos inconscientes passiveis de serem analisados simbolicamente</strong>? O impulso para a construção desse artigo vem do depoimento de Jung no encontro dele com Margaret Tilly, em 1956, descrito no livro Entrevistas e Encontros, onde ele é taxativo ao afirmar que “&#8230;doravante a música deve ser uma parte essencial de toda a análise.” Tenham uma excelente leitura.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-este-artigo-busca-entender-a-possivel-utilizacao-da-musica-na-pratica-da-psicologia-analitica" style="font-size:19px">Este artigo busca entender a possível utilização da música na prática da Psicologia Analítica. </h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6"><strong>Para tanto, lança uma pergunta basilar: a utilização da música no ambiente da prática da análise junguiana seria um fator capaz de reduzir as defesas egóicas, possibilitando o afloramento de conteúdos capazes de serem analisados simbolicamente</strong>? Com base em uma bibliografia que se debruça sobre o papel da música na evolução humana, a partir da neurociência, sob o olhar de Daniel Levitin, &nbsp;na obra do próprio Jung e de Joel Kroiker, traça-se um panorama para tentar entender tal questionamento. O presente artigo é um pequeno resumo da monografia apresentada como parte da conclusão da Especialização em Psicologia Analítica, concluída em 2023, disponível na biblioteca do IJEP.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-onde-teria-vindo-a-musica" style="font-size:19px"><strong>De onde teria vindo a música</strong>?</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">Os estudos de suas origens evolutivas têm um acervo diverso e bem rico. Segundo o neuro-cientista <strong>Daniel Levitin</strong>, para Darwin, a música surge e se desenvolve no processo de seleção natural, integrada aos rituais humanos ou páleo-humanos, de acasalamento (LEVITIN, 2010). Seria, portanto, uma seleção sexual, onde as habilidades musicais de produção sonora serviriam para atrair o sexo oposto.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><strong>Darwin</strong> considerava que a música antecedia a fala como ferramenta para fazer a corte, equiparando-a à cauda do pavão. Em sua teoria da seleção sexual, ele postulava a emergência de características que não serviam a qualquer finalidade diretamente ligada à sobrevivência, senão para tornar a pessoa (e, portanto, os seus genes) atraente. </p><cite>(LEVITIN, 2010, p. 284)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">A famosa flauta de osso com cerca de 50 mil anos, encontrada em uma caverna na Eslovênia nos anos 90, tão propagada na imprensa mundial, não seria a primeira forma de expressão musical, antes disso, a voz, como “primeiro instrumento”, e depois os tambores seriam veículos de expressão musical.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-existiriam-provas-tangiveis-de-que-a-musica-antecede-a-linguagem-e-faz-parte-intrinseca-do-desenvolvimento-humano" style="font-size:19px">Nesse sentido, existiriam provas tangíveis de que a música antecede a linguagem e faz parte intrínseca do desenvolvimento humano.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Os registros arqueológicos mostram um histórico ininterrupto de criação musical onde quer que houvesse seres humanos, em todas as eras. E além disso, é claro, o canto muito provavelmente é anterior às flautas. </p><cite>(LEVITIN, 2010, p. 289)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">Segundo o autor, todos os estudos arqueológicos e os estudos antropológicos nas comunidades de caçadores que se mantiveram afastadas da civilização apontam que a música é fator preponderante desses povos e que ela é inseparável da dança. Portanto, música e movimento sempre estiveram presentes como uma realidade de todos, e não somente de alguns portadores de talentos especiais. Somente nos últimos quinhentos anos é que teria surgido essa categoria de expectadores, diante dos quais os especialistas fazem um concerto onde a escuta é o objetivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-ritmo-seria-portanto-um-fator-crucial-no-desenvolvimento-da-musica-na-evolucao-humana" style="font-size:19px">O ritmo seria, portanto, um fator crucial no desenvolvimento da música na evolução humana.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">E isso está presente até hoje nas comunidades ancestrais, onde tambores e demais instrumentos rítmicos, principalmente percussivos, e mesmo que sejam melódico-percussivo, como marimbas, por exemplo, têm um papel preponderante do fazer musical, a exemplo das comunidades tradicionais africanas, e mesmo em suas manifestações afro-americanas, seja de caráter profano e religioso. Nas comunidades ancestrais ameríndias, o fenômeno não é diferente, e a base das manifestações musicais é feita com instrumentos percussivos, aos quais são juntadas flautas e o próprio canto.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>&#8230; segundo quase todos os relatos, a música de nossos antepassados distantes tinha um caráter acentuadamente rítmico. O ritmo incita nosso corpo. A tonalidade e a melodia incitam o cérebro. A convergência do ritmo com a melodia lança uma ponte entre o cerebelo (o pequeno cérebro primitivo, responsável pelo controle motor) e o córtex cerebral (a parte mais desenvolvida e humana do nosso cérebro). É assim que o “Bolero” de Ravel, “Koko”, de Chalie Parker, e “Honky Tonk Womem”, dos Rolling Stones, nos inspiram e comovem, tanto metaforicamente quanto fisicamente, formando requintadas uniões de tempo e espaço melódicos. </p><cite>(LEVITIN, 2010, p. 296)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">Em seus escritos sobre a questão da transformação da <strong>energia psíquica </strong>&#8211; que é mais abrangente do que a libido sexual de Freud -, Jung afirma que quando esta encontra barreiras e busca outras formas de “atividades substitutivas”, &nbsp;através de atividades ritualísticas, teria no ritmo essa forma repetitiva que exerceria o papel de registrar para a posteridade a transferência da energia psíquica para novas formas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-musica-e-danca-teriam-um-papel-fundamental-o-que-pode-ser-comprovado-nas-atividades-ritualisticas-de-comunidades-tradicionais" style="font-size:19px">Música e dança teriam um papel fundamental, o que pode ser comprovado nas atividades ritualísticas de comunidades tradicionais.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Se certas tribos dançam durante toda uma noite ao som monótono de três notas, isso não nos dá a sensação de divertimento; mais parece intenção e exercício. E de fato assim é, pois o ritmo é a maneira clássica de gravar certas ideias e outras atividades, e aquilo que deve ser gravado, isto é, firmemente organizado, é a transferência da libido para uma nova forma de atuação. Como depois da fase nutritiva do desenvolvimento a atividade rítmica não tem mais função no ato da alimentação, ela passa não só para a área da sexualidade sensu strictiori, mas também para o campo dos “mecanismos de atração”, música e dança, e finalmente para a área de trabalho propriamente dito. </p><cite>(JUNG, 2013i, p. 186)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-parece-claro-portanto-o-papel-que-a-musica-e-os-seus-elementos-tem-no-desenvolvimento-do-ser-humano-fazendo-parte-de-uma-especie-de-matriz-universal-comum-a-especie-e-parte-importante-de-um-manancial-arquetipico" style="font-size:19px">Parece claro, portanto, o papel que a música e os seus elementos têm no desenvolvimento do ser humano, fazendo parte de uma espécie de matriz universal, comum à espécie e parte importante de um manancial arquetípico.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">Estudando Jung, aprende-se que as imagens arquetípicas não são conceitos filosóficos, mas facetas da própria vida e que elas são conectadas ao indivíduo por meio dos complexos, os quais, por sua vez, são constelados por afetos e emoções. É preciso, portanto, no processo da psicoterapia, estimular o acesso a essas imagens, e os principais veículos são os sonhos, os sintomas e os estímulo às atividades criativas e artísticas, principalmente a imaginação ativa. As artes plásticas, a poesia, a modelagem e demais expressões das artes plástica vêm sendo utilizadas desde Jung. A música, porém, não vem tendo a mesma atenção, seja na produção científica do campo junguiano, seja na prática clínica.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">Um encontro entre Jung e a pianista e depois terapeuta-chefe da Clínica Langley-Porter, de São Francisco, <strong>Margaret Tilly</strong>, em 1956, narrado no livro <em>Entrevistas e Encontros</em>, no capítulo intitulado “A terapia da música”, deixa essa questão mais clara, com as palavras do próprio Jung. Depois de uma boa conversa, ele solicitou que Margaret lhe mostrasse como seria, na prática, uma sessão de “terapia musical”. Depois de duas horas, entremeadas de demonstrações de Margaret e de inúmeros questionamentos de Jung, ele exclamou:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Mas isto abre todo um novo campo de pesquisa com que eu nem mesmo sonhara! Por causa do que você me mostrou esta tarde&#8230; não só o que me disse, mas o que eu realmente senti ouvindo-a&#8230; acho que doravante a música deve ser uma parte essencial de toda a análise. Isso alcança o material arquetípico profundo que nós podemos atingir, por vezes, em nosso trabalho analítico. É extraordinário. </p><cite>(McGUIRE &amp; HULL, 1981, p. 248)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-joel-kroeker-analista-junguiano-e-pesquisador-canadense-que-utiliza-a-musica-em-seu-setting" style="font-size:19px">Para Joel Kroeker, analista junguiano e pesquisador canadense que utiliza a música em seu <em>setting</em>:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Matrizes musicais arquetípicas inerentes nos conectam como seres humanos a essa ponte de afetos e nos permite acessar sentimentos que não acessaríamos de outra maneira. Imagens musicais primordiais que existem na natureza como o tom musical ascendente ou descendente, como, o canto dos pássaros, a oposição de som versus silêncio, sons musicais crescendo, accelereando, tempo crescente, ou ritardando, tempo decrescente, causam um impacto psíquico em nós. A relação entre estes vários elementos sônicos primordiais e seu impacto no reino da música nos fornece uma matriz poderosa para viabilizar a comunicação, a inter-relação e a autocompreensão. </p><cite>(KROEKER, 2022, p. 46)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong>A música toca instâncias profundas e pode ser a trilha sonora de um sonhar acordado (KROEKER, 2022), cujas emoções são tocadas de forma, às vezes, arrebatadora</strong>. Esse arrebatamento (JUNG, 2006) seria um tipo de espírito que age nas aparições imagéticas estimuladas pela música.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A música, portanto, pode ser entendida como uma objetivação do espírito, que nem expressa conhecimento no sentido usual, lógico-intelectual, nem se realiza materialmente, mas significa uma representação manifesta dos contextos mais profundos e da mais inabalável regularidade. Neste sentido, a música é espírito, e espírito que leva a lugares escuros e remotos, não mais acessíveis à consciência, e cujos conteúdos praticamente não podem mais ser concebidos com palavras – mas sim através de números, por estranho que pareça – e também ao mesmo tempo e sobretudo através de sentimento e sensibilidade. Este fato aparentemente paradoxal mostra que a música tem condições de permitir o acesso a profundezas onde o espírito e a natureza são <em>ainda </em>ou <em>novamente </em>um [&#8230;]. </p><cite>( JUNG, 2006, p. 58)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">A música teria esse poder de trazer conteúdos desse lugar arquetípico, onde tudo é o um. O lugar onde a individualidade se dissolve nas águas profundas do inconsciente coletivo. É desse ambiente abissal que surgem as imagens carregadas de afetos e emoções. A música poderia ser, então, uma chave que ajudaria a abrir o portal de onde viriam as imagens do inconsciente coletivo. Isso descortinaria toda uma nova possibilidade de atuação no <em>setting</em> analítico, ampliando as possibilidades e as ferramentas de auxílio ao acesso a esses conteúdos. É justamente a capacidade de mobilização das emoções, tão presente na música, essa possível força motriz e geradora de imagens.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>É certo que a música, bem como o drama tem a ver com o inconsciente coletivo; [&#8230;] De certa forma, a música expressa o movimento dos sentimentos (ou valores emocionais) que acompanham os processos inconscientes. O que acontece no inconsciente coletivo é por sua natureza arquetípico e os arquétipos têm sempre uma qualidade numinosa que se manifesta na acentuação do emocional. A música expressa em sons o que as fantasias e visões exprimem em imagens visuais. </p><cite>(JUNG, 2002, p. 150)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-fora-demonstrado-anteriormente-haveria-um-potencial-da-musica-e-de-sua-utilizacao-no-setting-junguiano-no-sentido-de-sua-capacidade-de-induzir-o-surgimento-de-imagens-mentais" style="font-size:19px">Como fora demonstrado anteriormente, haveria um potencial da música e de sua utilização no <em>setting</em> junguiano, no sentido de sua capacidade de induzir o surgimento de imagens mentais.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">Jung, em Estudos alquímicos (JUNG, 2013f), afirma que os conteúdos que “tudo que se torna inconsciente é imagem e que imagem é alma”. Tais imagens seriam uma versão concentrada de toda situação da psique, não somente dos conteúdos inconscientes e diz respeito, também, ao recorte do momento dessa situação psíquica, e não necessariamente de sua totalidade atemporal, mas da interrelação entre conteúdos conscientes e inconscientes e, principalmente, do material constelado (JUNG, 2013l).</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.6">Pode-se concluir que a pergunta lançada no início desse artigo é respondida ao longo dele pelas citações do próprio Jung, em especial da declaração feita no encontro com Margaret Tilly, e que é deveras importante a utilização da música no <em>setting</em> terapêutico. Há, no entanto, um vasto campo ainda aberto ao aprofundamento dos estudos de cunho científico da utilização da música na Psicologia Analítica. <strong>Que a música é trilha sonora das histórias de vida pessoais, isso é fato. Torná-la a trilha sonora dos sonhos acordados vem sendo feito com êxito em diversas práticas terapêuticas, mas é tarefa ainda a ser aprofundada e desenvolvida</strong>.</p>



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<iframe title="Artigo novo: A Música na Psicologia Analítica" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/Pbnu3_z-y74?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/nino-karvan/">Nino Karvan &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p>JUNG, C. G. <em>A energia psíquica</em>. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p>JUNG, C.G. <em>Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo</em><strong>.</strong> 10. Ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p>JUNG, C. G. <em>A natureza da psique</em>. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p>__________. <em>A prática da psicoterapia</em>. Petrópolis: Vozes, 2013d.</p>



<p>__________. <em>Estudos alquímicos</em>. Petrópolis: Vozes, 2013f.</p>



<p>__________. <em>Estudos experimentais</em>. Petrópolis: Vozes, 2013g.</p>



<p>__________. <em>O espírito da arte e na ciência</em>. Petrópolis: Vozes, 2013h.</p>



<p>__________. <em>Símbolos da Transformação</em>. Petrópolis: Vozes, 2013i.</p>



<p>KROEKER, Joel. <em>Quando a Psique canta</em>: A música na psicoterapia junguiana. São Paulo: Paulus, 2022.</p>



<p>LEVITIN, Daniel J. <em>A Música no seu cérebro</em>. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.</p>



<p>McGUIRE, William e HULL, R.F.C. C. G. <em>Jung</em>: Entrevistas e Encontros. São Paulo: Cultrix, 1981.</p>
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		<title>Mosaico como recurso de Ressignificação no Processo Terapêutico</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/mosaico-como-recurso-de-ressignificacao-no-processo-terapeutico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Beatriz Proença Whitaker de Assumpção]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Feb 2025 22:02:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[kintsugi]]></category>
		<category><![CDATA[mosaico]]></category>
		<category><![CDATA[processo terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[setting terapeutico]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>RESUMO: Esse artigo, de motivação pessoal, aborda a expressão criativa de se fazer um mosaico, no processo terapêutico, como uma oportunidade de se trabalhar os complexos e reintegrá-los à totalidade psíquica, facilitando a reorganização do mundo interno do indivíduo. INTRODUÇÃO Tenho em casa um jogador mirim de futebol, que sonha muito em um dia ser [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>RESUMO</strong>: Esse artigo, de motivação pessoal, aborda a expressão criativa de se fazer um mosaico, no processo terapêutico, como uma oportunidade de se trabalhar os complexos e reintegrá-los à totalidade psíquica, facilitando a reorganização do mundo interno do indivíduo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao" style="font-size:18px">INTRODUÇÃO</h2>



<p style="font-size:18px">Tenho em casa um jogador mirim de futebol, que sonha muito em um dia ser jogador profissional. Seu corpo, mesmo que ele se esforce, não consegue parar de chutar a bola o tempo todo, da hora que sai da cama, até a hora do boa noite. Pouco tempo atrás, ele acertou a bola em uma prateleira muito alta, onde eu acreditava que meus objetos favoritos estariam protegidos do seu talento futebolístico. Me equivoquei, pois um vaso, que tinha um valor emocional muito significativo para mim, despencou lá de cima e, sendo de cerâmica, partiu-se em diversos pedaços e muitos farelos.</p>



<p style="font-size:18px">Por saber do meu apreço pelo vaso, meu filho chorava e me abraçava, completamente decepcionado consigo mesmo. Logo que comecei a varrer os cacos, ele me pediu pra que não os jogasse fora, pois ele daria um jeito de colar. Apesar de estar totalmente descrente da eficácia de sua ideia, resolvi guardar os pedaços, para que houvesse uma chance dele se retratar, ainda que apenas em tentativa. Na mesma noite do ocorrido, quando meu marido chegou em casa, ao saber do “caso” do vaso partido, ele me contou que no dia seguinte filmaria uma cena de vaso se quebrando, com a presença no set de filmagem de um restaurador, que usaria uma técnica japonesa para colar os pedaços. Pôde então ser concretizado o desejo muito sincero de uma criança arrependida de sua “boa” pontaria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-tecnica-citada-e-chamada-de-kintsugi-que-significa-emendar-com-ouro" style="font-size:19px">A técnica citada é chamada de <strong>Kintsugi</strong>, que significa “emendar com ouro”.</h2>



<p style="font-size:18px">A técnica consiste em misturar cola com pó de ouro, prata ou platina para recuperar cerâmicas e porcelanas. Surgiu no Japão, no século XV, quando o xogum (mais alto título militar concedido pelo imperador) Ashikaga Yoshimasa enviou à China uma cerâmica quebrada para ser restaurada. Não satisfeito com o resultado, que utilizou grampos metálicos para juntar os pedaços, o xogum pediu para que artesãos japoneses desenvolvessem outra maneira de consertar a peça. Esses artesãos, ao invés de tentarem disfarçar as emendas entre os pedaços partidos, usaram ouro para colá-los e, assim, evidenciar as falhas. <strong>Com isso, os defeitos e imperfeições não foram mais escondidos, mas valorizados, trazendo uma nova beleza para a peça</strong>. Assim, a técnica Kintsugi permitiu que o objeto ganhasse novo uso após seu dano ou ruptura (Cf. HATANAKA, 2023, sp).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-gracas-ao-kintsugi-meu-filho-teve-a-possibilidade-de-reparar-algo-muito-importante-dentro-de-si" style="font-size:19px">Graças ao Kintsugi, meu filho teve a possibilidade de reparar algo muito importante dentro de si. </h2>



<p style="font-size:18px"><strong>Ele teve a chance de fazer algo novo surgir dos cacos e me presenteou com um objeto novo, diferente do antigo, mas com um significado muito mais importante para mim.</strong></p>



<p style="font-size:18px">Essa situação me fez pensar no uso do mosaico como recurso, dentro de um <em>setting</em> de arteterapia, de possibilidade de ressignificação de uma dor ou até mesmo de conteúdos psíquicos rompidos de nossos clientes. Antes de entrarmos nessa reflexão, vamos conhecer um pouco da sua história como expressão artística.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-breve-historia-do-mosaico" style="font-size:18px">UMA BREVE HISTÓRIA DO MOSAICO</h2>



<p style="font-size:18px">A palavra mosaico, de origem grega, significa “paciência digna das musas”. “Paciência porque requer concentração e muita atenção para executá-lo, e digna das musas por se tratar de um trabalho de uma beleza rara e magnífica” (MEDEIROS; BRANCO, 2012, p. 39). O mosaico é considerado, assim como a pintura e a escultura, uma das primeiras manifestações culturais do ser humano. Pesquisas indicam que a técnica tem origem nas civilizações antigas, como Egito e Mesopotâmia. Segundo historiadores, o primeiro mosaico produzido data de 3.500 a.C, na antiga cidade de Ur, sendo composto por dois painéis realizados em mármore, arenito vermelho e conchas, que eram carregados em procissões.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“A obra retrata a guerra e a paz, com cenas do cotidiano de uma sociedade que utilizava veículos de transporte e de combate com características bem rudimentares.” </p><cite>(MEDEIROS; BRANCO, 2012, p. 40)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">No Egito, os mosaicos eram usados para ornamentar as paredes e colunas dos templos com pedras preciosas e vidro. Já na Grécia, os mosaicos eram usados para pavimentar os pisos, retratando cenas com motivos mitológicos e recriando situações de lutas e caças de animais. Quando os romanos conquistaram a Grécia, assimilaram diversas formas de arte, incluindo o mosaico. Neste período, começou a ser usado em basílicas onde eram reproduzidas cenas bíblicas. O mosaico passou então a ser um elemento de difusão do Cristianismo, adquirindo um caráter majestoso de riqueza e poder (Cf. MEDEIROS; BRANCO, 2012, p. 40-43).</p>



<p style="font-size:18px">Bem mais tarde, no começo do século XX, o arquiteto catalão Antonio Gaudí, utilizou-se do mosaico para conciliar arquitetura e decoração, rompendo com a sua estrutura plana. A técnica chegou no Brasil, sendo utilizada em várias construções espalhadas pelo país, principalmente como revestimento externo. As primeiras cidades a adotarem a técnica, que foi trazida pelos franceses e italianos, foram São Paulo e Rio de Janeiro. Nesta ultima cidade, “as calçadas também ganharam graça e beleza com a iniciativa do prefeito Pereira Passos, quando, em 1905, pavimentou a Avenida Central &#8211; hoje Avenida Rio Branco” (MEDEIROS; BRANCO, 2012, p.43).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uso-do-mosaico-na-arteterapia" style="font-size:18px">USO DO MOSAICO NA ARTETERAPIA</h2>



<p style="font-size:18px">Assim como o vaso despedaçado e depois restaurado, o mosaico permite que peças inteiras de azulejos sejam quebradas para, então, criar e transformar seus múltiplos cacos em uma nova peça, uma nova unidade.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“A produção da peça depende de cada caco encaixado adequadamente na composição da imagem. Um caco que se encaixa em uma determinada parte não cabe na outra.” </p><cite>(MARQUES, 2024, p. 9)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-mesmo-modo-que-o-mosaico-tambem-somos-feitos-de-pedacos-de-diversos-fragmentos-psiquicos-que-nos-compoe" style="font-size:18px">Do mesmo modo que o mosaico, também somos feitos de pedaços; de diversos fragmentos psíquicos que nos compõe.</h2>



<p style="font-size:18px">Apesar de nos reconhecermos como uma unidade, o inconsciente é habitado por inúmeros <strong>complexos</strong>, isto é, imagens de situações psíquicas de forte carga emocional, que geralmente são incompatíveis com a atitude da consciência. Como explica Jung, “<strong>esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de <em>autonomia</em></strong>” (2013, p. 43).</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Os complexos são como pedaços que foram arrancados da psique por um choque emocional ou moral, no embate com o mundo exterior</strong>. Por nascerem dessa incompatibilidade com a atitude da consciência, os complexos são reprimidos e se tornam inconscientes. Eles são, então, sentidos em nós como personagens internos autônomos, ou externos (quando projetados), e que têm influência na nossa maneira de pensar, de agir e de sentir. Esse processo de cisão entre consciência e conteúdos do inconsciente tem efeito no indivíduo como uma sensação de perda, “e quando um complexo perdido se torna, de novo, consciente, por exemplo, através do tratamento psicoterapêutico, o indivíduo sente que houve um aumento de força” (JUNG, 2013, p.265).</p>



<p style="font-size:18px">Verena Kast (2013, p.42), em <em><strong>A dinâmica dos símbolos</strong></em>, identifica no trabalho terapêutico com os complexos, uma chance de desenvolvimento do indivíduo. A autora explica que os complexos podem ter tanto caráter inibidor, quanto promotor. Para ela, ao trabalhar os complexos em um processo analítico, identificando-os e conscientizando-se de sua dinâmica, sempre há a chance de liberar a energia contida nele para que haja sua integração à consciência e, assim, favorecendo o desenvolvimento do indivíduo.</p>



<p style="font-size:18px">Há complexos que inibem, outros que promovem. Esse é um lado da realidade. O outro é que, em todo complexo, ainda que inicialmente se trate de um complexo inibidor sempre será também, se nos envolvermos com ele, um tema de desenvolvimento, um estimulo para o desenvolvimento. (KAST, 2013, p. 72)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-trabalhamos-os-complexos-na-clinica-atraves-da-fantasia-sonhos-e-expressoes-artisticas-ativamos-a-formacao-de-simbolos" style="font-size:18px">Quando trabalhamos os complexos na clínica, através da fantasia, sonhos e expressões artísticas, ativamos a formação de símbolos.</h2>



<p style="font-size:18px">Os símbolos têm uma função de mediar a relação conflituosa entre a consciência e o inconsciente. Ao simbolizarmos, conseguimos lidar criativamente com a vida, com os conflitos, e, acima de tudo, transformamos as forças inibidoras dos complexos em forças promotoras de desenvolvimento.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“Os complexos se tornam visíveis nos símbolos, por meio de fantasias. Pois onde há emoções, também há imagens. Os complexos se fantasiam, por assim dizer, nos símbolos.” </p><cite>(KAST, 2013, p. 48)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">A função simbólica do fazer artístico confere uma manifestação visível ao afeto do complexo. Jung percebeu a importância do uso de técnicas expressivas como meio de acesso ao inconsciente. </p>



<p style="font-size:18px">Como descreve Lígia Diniz (2018, p.35), em <em><strong>Arte: a linguagem da alma</strong></em>, “<strong>a Arteterapia, sob a ótica junguiana, parte do princípio que a vida psíquica tem uma tendência inata à organização e que o processo terapêutico por meio da arte poderá dinamizar esta tendência</strong>”.</p>



<p style="font-size:18px">Segundo Diniz (2018, p.35), o símbolo, trazido pela expressão artística, tem a capacidade de tocar o afeto, de compreender, refazer e reparar estruturas. Embora seu sentido oculto nunca seja totalmente esgotado, o símbolo traz a chance de trabalharmos o mundo interno do cliente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pratica-da-arteterapia-facilita-a-decifracao-do-mundo-interno-o-conflito-com-as-imagens-e-a-energia-psiquica-que-ai-se-configuram" style="font-size:18px">A prática da Arteterapia facilita a decifração do mundo interno, o conflito com as imagens e a energia psíquica que aí se configuram.</h2>



<p style="font-size:18px">A compreensão destas formas simbólicas possibilita o confronto com o inconsciente e a tomada de consciência de seus conteúdos, pois o mundo das emoções e o mundo das coisas concretas não estão separados por fronteiras intransponíveis. Ambos permeiam-se no dia a dia, o que é particularmente manifesto nas obras de artes plásticas e literárias, e a Arteterapia pode aperfeiçoar estes intercâmbios. (DINIZ, 2018, p.33)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conclusao" style="font-size:18px">CONCLUSÃO</h2>



<p style="font-size:18px">Trabalhar com mosaico no processo terapêutico é propor para o indivíduo que ele revisite seus fragmentos, os complexos, assim como sua memória e experiências, e possa reorganizá-los em uma nova versão. Através dos símbolos que surgem do inconsciente, o mosaico, como recurso terapêutico, traz uma possibilidade de reintegração dos aspectos que estavam cindidos à totalidade psíquica. A expressão do inconsciente através da arte permite que a carga emocional da imagem simbólica seja despotencializada, facilitando essa reorganização do mundo interno.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>O indivíduo pode ressignificar então seus conflitos, juntando os cacos, reorganizando e colando</strong>. Desse modo, um novo sentido para a experiência vivida surge, assim como aconteceu com meu filho e o vaso restaurado.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Mosaico como recurso de Ressignificação no Processo Terapêutico" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/lgpLdFT0k3Q?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><strong>Beatriz Assumpção &#8211; Analista em formação IJEP</strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/liaromano/">Lia Romano &#8211; Analista Didata IJEP</a> </strong></p>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">REFERÊNCIAS:</h2>



<p style="font-size:17px">DINIZ, Lígia. <em>Arte: linguagem da alma</em>. Arteterapia e psicologia junguiana. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2018.</p>



<p style="font-size:17px">HATANAKA, Paulo (2023). <em>Kintsugi</em>: <em>aceitar e valorizar as imperfeições</em>. <a href="https://www.japanhousesp.com.br/artigo/kintsugi/">https://www.japanhousesp.com.br/artigo/kintsugi/</a> Acesso em: 18 nov. 2024.</p>



<p style="font-size:17px">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10ed. Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p style="font-size:17px">KAST, Verena. <em>A dinâmica dos símbolos</em>. Fundamentos da psicoterapia junguiana. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p style="font-size:17px">MARQUES, Gilmara. <em>O mosaico e a expressão da totalidade da alma</em>. Curso de Arteterapia e expressões criativas, IJEP. São Paulo, 2024. Apostila de aula.</p>



<p style="font-size:17px">MEDEIROS, Adriana; BRANCO, Sonia. <em>Conto de fada</em>. Vivências e técnicas em arteterapia. 2ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2012.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p style="font-size:19px">Conheça nossas&nbsp;<strong>Pós-graduações</strong>&nbsp;com matrículas abertas:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a>&nbsp;–&nbsp;<strong><em>Arteterapia e Expressões Criativas; Psicossomática; Psicologia Junguian</em></strong><em><strong>a</strong></em></p>



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		<title>O Poder Simbólico da Argila: da Matéria à Psique</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-poder-simbolico-da-argila/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carolina Held dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Feb 2025 19:36:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>RESUMO: O artigo explora o uso da argila na arteterapia como meio de acessar o inconsciente, fundamentado na função transcendente de Jung, que integra consciente e inconsciente. A argila, com sua ligação simbólica à terra e maleabilidade, permite expressar emoções e conteúdos internos. O processo terapêutico não foca no resultado estético, mas na integração psíquica [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>RESUMO</strong>: O artigo explora o uso da argila na arteterapia como meio de acessar o inconsciente, fundamentado na função transcendente de Jung, que integra consciente e inconsciente. A argila, com sua ligação simbólica à terra e maleabilidade, permite expressar emoções e conteúdos internos. O processo terapêutico não foca no resultado estético, mas na integração psíquica e transformação pessoal. Através de exemplo prático mostra como a modelagem pode revelar amarras internas e potenciais de libertação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao" style="font-size:18px">INTRODUÇÃO</h2>



<p style="font-size:18px">Neste artigo, vamos abordar a utilização da argila como ferramenta de acesso a conteúdos do inconsciente, com o intuito de promover a integração de elementos desconhecidos à nossa consciência, assim favorecendo o autoconhecimento.</p>



<p style="font-size:18px">A argila é um material muito interessante por diversos motivos, tais como: origina-se diretamente da terra; incorpora uma rica e complexa combinação de compostos minerais; pode simbolizar a &#8220;Mãe Terra&#8221;, pois representa não apenas a essência primordial da vida, mas também o ponto de retorno, evocando a ideia de origem e destino unificados em um ciclo eterno.</p>



<p style="font-size:18px">A argila pode se formar a partir da decomposição de rochas ao longo de milhares ou até milhões de anos, carregando consigo uma poderosa carga ancestral. Esse longo processo natural confere à argila uma conexão profunda com a história da Terra e os ciclos de transformação que moldam a vida.</p>



<p style="font-size:18px">Assim, pela sua própria natureza e composição, ela se conecta com o primordial e a possibilidade de ser moldada e remoldada. Remete-nos ao fluxo contínuo da vida, onde ciclos de criação e destruição convergem, tornando-se um elo tangível entre o ser humano e as forças da natureza.</p>



<p style="font-size:18px">Segundo <strong>Gouvêa </strong>(2019 p. 56) “<strong>O cosmo do barro, da argila, oferece um universo imediato e se vincula às quatro raízes, províncias matrizes de nosso universo o ar, a água, a terra, e o fogo</strong>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-entrar-em-contato-com-a-agua-a-argila-torna-se-maleavel-permitindo-que-seja-moldada-em-diversas-formas" style="font-size:18px">Ao entrar em contato com a água, a argila torna-se maleável, permitindo que seja moldada em diversas formas.</h2>



<p style="font-size:18px">Essa característica facilita a transformação ao simples toque das mãos, criando um canal para que os conteúdos do inconsciente venham à tona. Nesse processo, <strong>emoções, angústias, sonhos, ideias, sentimentos e fantasias podem ser simbolicamente modelados, ganhando forma e expressão no material</strong>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Não é suficiente explicar, em todos os casos, apenas o contexto conceitual do conteúdo de um sonho. Muitas vezes impõe-se a necessidade de esclarecer conteúdos obscuros, imprimindo-lhes uma forma visível. Pode -se fazer isto desenhando-os, pintando-os ou modelando-os. Muitas vezes as mãos sabem resolver enigmas que o intelecto em vão lutou por compreender<em>. </em></p><cite>(JUNG, 2014, §180)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-importancia-da-funcao-transcendente" style="font-size:18px">A IMPORTÂNCIA DA FUNÇÃO TRANSCENDENTE</h2>



<p style="font-size:18px">Jung, em sua teoria e vida, nos ensina que <strong>as expressões criativas são uma das vias para acessar o inconsciente</strong>. Nesse sentido, o papel do analista é fundamental, pois uma de suas principais incumbências é acompanhar e auxiliar o cliente a olhar e dialogar com os conteúdos do inconsciente para realizar o que Jung designou como função transcendente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Lidar com o inconsciente é um processo (ou, conforme o caso, um sofrimento ou um trabalho) cujo nome é função transcendente, porque representa uma função que, fundada em dados reais e imaginários ou racionais e irracionais, lança uma ponte sobre a brecha existente entre o consciente e o inconsciente. </p><cite>(JUNG, 2013, §121)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px"><strong>A função transcendente consiste no confronto entre o consciente e o inconsciente para que haja a integração dos opostos, podendo ser alcançada por meio das expressões criativas.</strong> Assim, a arteterapia se torna uma ferramenta valiosa para o terapeuta, oferecendo uma abordagem eficaz e profunda no trabalho psicoterápico.</p>



<p style="font-size:18px">Importante salientar que no processo terapêutico, pouco importa o resultado estético final da obra, o mais importante são os conteúdos que serão integrados a consciência e o trabalho interno que é realizado durante a elaboração da escultura.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-da-teoria-para-a-pratica" style="font-size:18px">DA TEORIA PARA A PRÁTICA</h2>



<p style="font-size:18px">Na imagem feita de argila, que acompanha este artigo, podemos observar um pé envolto com correntes e, ao seu lado uma espada. Essas esculturas foram feitas por mim durante realização de uma aula no curso de especialização de Arteterapia do IJEP.</p>



<p style="font-size:18px">O processo de elaboração teve impacto profundo em mim, pois, inicialmente, não tinha ideia do que iria produzir. Contudo, de forma espontânea, as expressões foram surgindo através das minhas mãos, como se fossem guiadas por algo além da consciência.</p>



<p style="font-size:18px">Ao refletir sobre as imagens, durante minha análise, percebi que ela expressa algumas “amarras” sociais que muitas mulheres, como eu, carregam arduamente: a maternidade, o casamento, o mercado de trabalho, as tarefas da casa, dentre outras.</p>



<p style="font-size:18px">Podemos nos perguntar se o andar está pesado, se o caminhar está se tornando mais difícil e se a vida, de alguma maneira, está travada por essas correntes. Por outro lado, com a presença da espada, outras questões podem surgir, revelando potenciais de transformação e de desenvolvimento ao se proceder com esse processo dialógico com as imagens. Estaria o inconsciente indicando novo caminho para a superação dessas limitações?</p>



<p style="font-size:18px">O símbolo, para Jung, está descrito como:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Todo produto psíquico que tiver sido por algum momento a melhor expressão possível de um fato até então desconhecido ou apenas relativamente conhecido pode ser considerado um símbolo se aceitarmos que a expressão pretende designar o que é apenas pressentido e não está ainda claramente consciente. &nbsp;</p><cite>(JUNG, 2013, §897)&nbsp;&nbsp;</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">Neste sentido, o pé, segundo o dicionário de símbolos seria, dentre outros, um símbolo da força da alma, no sentido de ser ele o suporte da posição vertical, característica do homem. Sendo que toda deformação do pé revelaria uma fraqueza da alma (Cf. CHEVALIER; GHEERBRANT, 2001, p. 696).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ja-a-corrente-nbsp" style="font-size:18px">Já a corrente:&nbsp;</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>De um modo geral, é o símbolo dos elos de comunicação, de coordenação, de união, consequentemente do casamento, da família, da cidade, da nação, de toda a coletividade de toda ação comunitária. Faz-se a corrente com as próprias mãos. Em um sentido sociopsicológico, a corrente simboliza a necessidade de uma adaptação a vida coletiva e a capacidade de integração do grupo. Marca uma fase da evolução ou da involução pessoais, e não há nada de mais difícil, talvez, do ponto de vista psíquico, do que sentir o indispensável elo de ligação social, não mais como uma corrente pesada e imposta do exterior, mas numa forma de adesão espontânea. &nbsp;</p><cite>(CHEVALIER; GHEERBRANT, 2001, pp. 292-3)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">&nbsp;A <strong>espada</strong> “é o símbolo de combate pela conquista do conhecimento e a liberação dos desejos; a espada corta a obscuridade da ignorância ou o nó dos emaranhamentos [&#8230;]” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2001, p. 392)</p>



<p style="font-size:18px">Assim, o confronto do símbolo que emerge durante a elaboração e posterior análise da escultura, com a realidade dos fatos vivenciados, nos evoca para uma cadeia de emoções, nunca experimentadas, que podem nos guiar para uma gama de novas possibilidades/caminhos, nunca imaginados.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conclusao" style="font-size:18px">CONCLUSÃO</h2>



<p style="font-size:18px">Trabalhar com a argila pode ajudar a suavizar a rigidez emocional do cliente, promovendo um espaço de aceitação e exploração de conteúdos psíquicos. Através desse processo, o cliente tem a oportunidade de vivenciar uma forma de autoexpressão que transcende a verbalização, possibilitando novas formas de compreensão e transformação interior.</p>



<p style="font-size:18px">Na experiência de <strong>Jung</strong> (2014,§ 171) “<strong>Há pessoas, porém, que nada veem ou escutam dentro de si, mas suas mãos são capazes de dar expressão concreta aos conteúdos do inconsciente. Esses pacientes podem utilizar-se vantajosamente de materiais plásticos</strong>”.</p>



<p style="font-size:18px">Trabalhar com a argila não é apenas uma atividade criativa; é um convite para mergulhar no próprio inconsciente, moldando e remoldando não apenas o material, mas também a psique. Nesse processo, a função transcendente pode atuar de maneira profunda, integrando os opostos e revelando soluções que o consciente não tinha condições de alcançar sozinho.</p>



<p style="font-size:18px">A prática da arteterapia com argila nos mostra que, assim como transformamos o barro, também somos capazes de transformar nossas vidas, superando limitações e encontrando novas formas de expressão e liberdade interior.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: O PODER SIMBÓLICO DA ARGILA: DA MATÉRIA À PSIQUE" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/YeICjqdhj_E?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><strong>Carolina Held dos Santos</strong>&nbsp; &#8211; Membro Analista em Formação IJEP</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Lia Romano</strong> &#8211; Analista Didata IJEP</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p style="font-size:17px">GOUVÊA, Álvaro de Pinheiro. <em>Sol da Terra</em>. São Paulo: Summus Editorial. 2019.</p>



<p style="font-size:17px">CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. <em>Dicionário de símbolos</em>. Mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. 16º Ed. Rio de Janeiro: Editora José Olympio Ltda., 2001.</p>



<p style="font-size:17px">JUNG, C. G. <em>Psicologia do inconsciente</em>. Ed. digital. Petrópolis: Editora Vozes, 2013.</p>



<p style="font-size:17px">______ <em>A natureza da psique</em>. Ed. digital. Petrópolis: Editora Vozes, 2014.</p>



<p style="font-size:17px">______ <em>Tipos psicológicos</em>. 7ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2013.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p>Conheça nossas&nbsp;<strong>Pós-graduações</strong>&nbsp;com matrículas abertas:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a>&nbsp;–&nbsp;<strong><em>Arteterapia e Expressões Criativas; Psicossomática; Psicologia Junguian</em></strong><em><strong>a</strong></em></p>



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		<item>
		<title>Leonardo da Vinci</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/leonardo-da-vinci/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Barbara Pessanha]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Dec 2024 11:41:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10017</guid>

					<description><![CDATA[<p>Resumo: Neste artigo vamos abordar Leonardo da Vinci e sua genialidade pelo viés junguiano com dinâmicas de luz e sombra tendo com base a Obra de Walter Isaacson e as anotações de Da Vinci nos seus caderninhos, além das próprias observações de C. G. Jung sobre esse personagem tão peculiar que foi Leonardo di Ser [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>Resumo: Neste artigo vamos abordar Leonardo da Vinci e sua genialidade pelo viés junguiano com dinâmicas de luz e sombra tendo com base a Obra de Walter Isaacson e as anotações de Da Vinci nos seus caderninhos, além das próprias observações de C. G. Jung sobre esse personagem tão peculiar que foi Leonardo di Ser Piero da Vinci.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-titulo-desse-artigo-pode-ter-chamado-a-sua-atencao-so-pelo-nome-do-nosso-personagem-mas-a-minha-expectativa-e-trazer-o-que-esta-para-alem-da-genialidade-de-da-vinci" style="font-size:17px">O título desse artigo pode ter chamado a sua atenção só pelo nome do nosso personagem, mas a minha expectativa é trazer o que está para além da genialidade de Da Vinci.</h2>



<p>Leonardo, talvez seja um homem em si mais interessante do que as suas obras em si. Ao me deparar com o livro “Leonardo da Vinci” do autor Walter Isaacson, pude adentrar em um lugar que não pensei ser possível mesmo estudando sobre a arte de Leonardo da Vinci ao longo de tantos anos. E isso, pelo viés da psicologia analítica se tornou ainda mais profundo para mim, e quis compartilhar com vocês.</p>



<p>Talvez seja um “artigo” um tanto informal, algo mais solto, menos preso ao tipo de retórica que costumo ter, mas peço paciência, e que vocês tentem me acompanhar nesse fluxo de pensamentos, ideias e percepções que a psicologia de C. G. Jung pode nos trazer ao ler sobre algo que gostamos e achávamos já “conhecer”. Sempre podemos nos deparar com o “RE &#8211; conhecimento” de algo fora ou dentro de nós. E estudar sobre Da Vinci me proporcionou isso.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-historiografias-de-leonardo-da-vinci-tem-perspectivas-diferentes-quando-vamos-ver-qual-espectro-ela-esta-sendo-abordada" style="font-size:17px">As historiografias de Leonardo da Vinci têm perspectivas diferentes quando vamos ver qual espectro ela está sendo abordada.</h2>



<p>Na arte, que talvez seja o principal (ou mais comum), vemos muito as 12 obras completas sendo consideradas verdadeiras obras-primas. Suas técnicas de <em>chiaroscuro</em> e <em>sfumato</em> sendo enaltecidas como criações que mudaram a História da Arte ou seus esboços de anatomia que até pouquíssimo tempo eram utilizados em livros médicos de anatomia dada sua perícia e competência técnica na reprodução daquilo que ele havia estudado secretamente nos idos 1480 (ISAACSON, 2017).</p>



<p>Mas da Vinci se apresentava como engenheiro de tudo o que fosse preciso numa “carta ao governador de Milão listando os motivos pelos quais deveria lhe dar um emprego [&#8230;] só no décimo primeiro parágrafo ele mencionou que também era artista” (ISAACSON, p.19, 2017). O curioso dessa apresentação é pensar se ele realmente se via como tudo isso e &#8211; <em>também</em> &#8211; pintor como algo extra, ou se ele sabia se vender a época dadas as necessidades daquele tempo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-genialidade-de-leonardo-da-vinci-veio-ao-logo-da-historia-trazendo-questoes-e-impressoes-de-grandes-nomes" style="font-size:17px">A genialidade de Leonardo da Vinci veio ao logo da história trazendo questões e impressões de grandes nomes. </h2>



<p>O próprio <strong>Freud</strong> se ocupou em escrever sobre o artista no seu livro <em>Uma Recordação De Infância De Leonardo Da Vinci</em>, e no prefácio de seu livro os psicanalistas Kon e Majolo falam da “provável identificação” de Freud com Da Vinci não só pela genialidade mas pela capacidade de fazer perguntas sem respostas – o que encontramos em demasia nos seus cadernos, como se ele pensasse e anotasse para não esquecer suas perguntas, assim como uma criança curiosa. Mas <strong>Sigmund Freud</strong>, segue sua reflexão no contorno da infância com “duas mães” de Leonardo Da Vinci, e isso é pontuado por Jung (algumas vezes) ao longo de Obras Completas.</p>



<p>Fazendo um breve resumo da vida de Da Vinci, ele foi filho ilegítimo e sua mãe, Catarina, sendo uma simples campesina, renunciou a sua criação e o entregou ao seu pai Piero da Vinci que era tabelião e vinha de uma família que tinha alguns bens e ascensão social. Os avós, pais de Ser Piero da Vinci, criaram Leonardo até o casamento do pai com sua primeira madrasta, que nunca teve filhos com seu pai, mas o amava e faleceu quando ele tinha 12 anos no seu primeiro parto de uma criança natimorta. Leonardo só foi ter irmãos quando ele já tinha 24 anos e seu pai estava no terceiro casamento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isaacson-relata-no-seu-livro-que-leonardo-nasceu-na-epoca-de-ouro-dos-bastardos-isaacson-2017-pois-mesmo-sem-seu-pai-ter-lhe-possibilitado-uma-educacao-formal-a-epoca-leonardo-foi-criado-como-filho" style="font-size:17px">Isaacson relata no seu livro que Leonardo nasceu “na época de ouro dos bastardos” (ISAACSON, 2017) pois mesmo sem seu pai ter lhe possibilitado uma educação formal a época, Leonardo foi criado como filho.</h2>



<p>O não reconhecimento de registro deu ao artista a liberdade de ser quem se era, o que seria uma impossibilidade se ele fosse tutelado com legitimidade, pois os filhos homens mais velhos herdavam a profissão do pai. Leonardo não só pode trilhar seu caminho como um autodidata multidisciplinar como era incentivado por seu pai.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-questao-trabalhada-pela-psicanalise-de-freud-e-repensada-pela-psicologia-profunda-de-jung-se-da-em-cima-do-complexo-materno-dessa-questao-das-duas-maes-e-suas-representacoes-na-arte-de-da-vinci" style="font-size:17px">A questão trabalhada pela psicanalise de Freud e repensada pela psicologia profunda de Jung se da em cima do complexo materno, dessa questão das duas mães e suas representações na arte de da Vinci.</h2>



<p>E a obra em questão é <em>A Virgem e o Menino com Santa Ana (1508-1513) </em>uma das muitas obras não finalizadas pelo da Vinci. De qualquer forma, Jung contesta Freud sobre a consciência de Leonardo Da Vinci sobre essa questão da renúncia da mãe e as consequências disso.</p>



<p><strong>Jung</strong> acredita que o tema trazido é um tema mítico e vivenciado não só no âmbito pessoal do artista.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“supor que ele mesmo se identificava com o menino Jesus, provavelmente representava a dupla maternidade mítica e de modo alguma sua própria história pessoal. E o que dizer de todos os demais artistas que representaram o mesmo tema? Será que todos eles tinham duas mães?” </p><cite>JUNG, 2012 §95</cite></blockquote></figure>



<p><strong>Freud</strong> foi muito criticado por esse ensaio sobre Leonardo, e bastante contestado por Jung.</p>



<p>Leonardo era livre, ou pelo menos se sentia assim. Os relatos sobre a sua beleza, graça, educação e inteligência estão disponíveis em todos os documentos de contemporâneos da época. Inclusive existem muitos gênios renascentistas da época com quem Leonardo se encontrou e podemos hoje fazer paralelos entre suas personas e obras. Michelangelo foi um que como Leonardo era homoafetivo, mas tinha questões extremamente repressivas sobre sua condição (o que era considerado pecado, na época) mas isso nunca foi “uma questão” para Da Vinci, ele se permitiu viver suas histórias amorosas de forma espontânea e natural. (ISAACSON, 2017)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ele-ja-estava-ganhando-fama-como-alguem-que-se-vestia-de-forma-muito-colorida-apaixonado-por-gibao-de-brocado-e-tunica-cor-de-rosa-e-tambem-para-ser-um-artista-com-talento-para-montagens-teatrais-muito-imaginativas-isaacson-2017-p-64" style="font-size:17px">“Ele já estava ganhando fama como alguém que se vestia de forma muito colorida, apaixonado por gibão de brocado e túnica cor de rosa, e também para ser um artista com talento para montagens teatrais muito imaginativas.” (ISAACSON, 2017, p. 64)</h2>



<p>Leonardo era bonito, inteligente, criativo, delicado, tocava, desenhava, escrevia ideias e tentava fundamentá-las, mas seus aspectos sombrios permeavam tudo isso, entramos pouco em contato com a sombra de Da Vinci pois como seres humanos olhamos a superfície com mais clareza, aprofundar é tentar compreender.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-mesmo-tempo-de-tantas-qualidades-positivas-leonardo-era-um-homem-que-abandonava-seus-projetos-com-muita-facilidade-no-meio-nao-se-sabe-se-por-um-perfeccionismo-exacerbado-ou-se-por-desinteresse-puro-por-ja-ter-realizado-na-sua-mente-criativa-aquilo-que-estava-porvir" style="font-size:17px">Ao mesmo tempo de tantas qualidades positivas, Leonardo era um homem que abandonava seus projetos com muita facilidade no meio. Não se sabe se por um perfeccionismo exacerbado ou se por desinteresse puro por já ter “realizado” na sua mente criativa aquilo que estava porvir.</h2>



<p>Como já relatado neste texto, só existem 12 obras acabadas e delegadas a Da Vinci. Muitas obras são inacabadas ou tem especialistas que contestam a veracidade da origem ser dele ou alegam que foram acabadas por outros artistas anônimos pela falta de “alma” em algumas minucias que não seriam permitidas por Leonardo. Ele era relapso, obsessivo, procrastinador, desinteressado, crítico. Sua observação era de certa forma compulsiva a ponto dele conseguir detalhar no seu caderninho como eram o bater de asas de uma libélula. (ISAACSON, 2017, p.205)</p>



<p>Leonardo se relacionou aos 38 anos com um rapaz de 13 chamado Giacomo, apelidado Salai, esse relacionamento foi duradouro, mas trouxe muitas questões pois Salai era iluminação de ideias, mas ao mesmo tempo o próprio Leonardo chamava o rapaz de “diabinho” (ISAACSON, 2017).</p>



<p>De inspiração a imagem do <em><strong>Homem Vitruviano</strong> (1490) </em>ele também roubava, mentia e manipulava Leonardo. Leonardo sabia dada algumas anotações nos seus cadernos sobre situações inusitadas as quais era colocado pelo seu “pupilo”. “Ladrão, mentiroso, teimoso, ganancioso.” “Salai, eu quero paz, não guerra. Chega de Guerra, eu desisto.” (ISAACSON, 2017, p.157)</p>



<p>Leonardo podia escrever com a mão esquerda e desenhar com a mão direita ao mesmo tempo. Mas ao envelhecer temos relatos de envelhecimento “precoce”, ele aparentava mais idoso do que realmente era com 60, 65 anos. <strong>Walter Isaacson</strong> escreve: “Quando chegou aos sessenta anos, seus demônios e tormentos podem ter cobrado o preço” (Ibdem. p.534). E problemas físicos, que poderiam ter sidos causados por um derrame, também foram descritos por Antonio De Beatis, artista contemporâneo de Da Vinci; ele relata uma paralisia na mão direita de Leonardo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-embarcar-nos-cadernos-de-leonardo-da-vinci-sendo-guiados-por-walter-isaacson-temos-a-oportunidade-de-construir-uma-a-figura-mais-honesta-de-uma-personalidade-genial-com-integridade" style="font-size:17px">Ao embarcar nos cadernos de Leonardo da Vinci, sendo guiados por Walter Isaacson, temos a oportunidade de construir uma a figura mais honesta de uma personalidade genial com integridade.</h2>



<p>A inteireza da luz e da sombra estão presentes nas perguntas irrespondíveis, nos esboços feitos ao jantar com estranhos a convite do próprio Leonardo apenas para saber como aperfeiçoar facetas humanas, suas intenções de criar e passar realidade através de fantasias fantásticas. Ele era a junção de imaginação e execução. Mas acabava se comprometendo quando SE realizava, suas perguntas respondidas eram soluções internas, mas motivadoras de angústia como as dissecações de cadáveres feitas secretamente; tal foi o caso que ele sentiu necessidade de se confessar no leito de morte para dar conta de tamanha inquietude.</p>



<p>Leonardo da Vinci é um dos maiores gênios do Renascentismo, e talvez da humanidade, mas sua história nos mostra um ser humano cheio de perguntas que quis se responder. E esse tipo de atuação no mundo e respeito consigo mesmo, me faz refletir sobre nossos propósitos e a questão que Jung nos põe em toda sua obra que é explicita em <em>Sonhos, Memórias e Reflexões</em>: “<strong><em>Sou eu próprio uma questão colocada ao mund</em></strong>o e devo fornecer minha resposta; caso contrário, estarei reduzido à resposta que o mundo me der.” (JUNG, 2019, p.314)</p>



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<iframe title="Artigo novo: &quot;Leonardo da Vinci&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/d3C1rzTvEBA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/barbara/">Bárbara Pessanha – Membro Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p>JUNG, Carl Gustav. <strong>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</strong>. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 9/2).</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <strong>Sonhos, memórias e reflexões</strong>. ed. Especial e Limitada. Coleção Clássicos de Ouro. Nova Fronteira, 2019.</p>



<p>Isaacson, Walter. Leonardo da Vinci. Editora Intrínseca Ltda., capa mole, edição livro brochura em português, 2017.</p>



<p>Equipe Editorial. Leonardo da Vinci: 15 fatos que talvez você não saiba. Disponível em:https://arteref.com/arte-no-mundo/15-fatos-sobre-leonardo-da-vinci-voce-talvez-nao-saiba/, Acesso em: nov.2024.</p>



<p>AIDAR, Laura. Vida e Obra de Leonardo da Vinci. Disponível em:https://www.todamateria.com.br/vida-e-obra-de-leonardo-da-vinci/, Acesso em: nov.2024.</p>



<p>Arte Para Você. Leonardo da Vinci: fatos e curiosidades. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=2u19pPKraVI, Acesso em: nov.2024.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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