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	<title>Arquivos Sexualidade - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos Sexualidade - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Vício em pornografia e o exílio da intimidade do masculino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/vicio-em-pornografia-e-o-exilio-da-intimidade-do-masculino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Mar 2026 16:43:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[anima/animus]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[amor e sexo]]></category>
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		<category><![CDATA[vício em pornografia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este ensaio nasce da reflexão do desencontro e do desenlace entre o erotismo, as projeções (tantas vezes sombrias) e da solidão humana, culminando no vício em pornografia do masculino. </p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/vicio-em-pornografia-e-o-exilio-da-intimidade-do-masculino/">Vício em pornografia e o exílio da intimidade do masculino</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Resumo:</em><strong><em> </em></strong><em>Vivemos numa época em que o sexo circula com facilidade, imagens se oferecem explicitamente e sem resistência, e o prazer parece ao alcance das mãos facilitado pela projeção das telas. Um excesso de auto estímulo e de facilidades faz com que algo nos encontros reais se perca. Há um esvaziamento de Eros. Este ensaio nasce da reflexão do desencontro e do desenlace entre o erotismo, as projeções (tantas vezes sombrias) e da solidão humana, culminando no vício em pornografia do masculino.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Num flerte entre a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e a filosofia contemporânea de Byung-Chul Han, o texto infere no vício em pornografia como fenômeno psíquico e cultural. Desnudamos Narciso, sombra, anima e projeção como cena imagética para revelar como a excitação compulsiva e compulsória pode coexistir com a dor e desconexão da alma, e o empobrecimento da intimidade (minha e do outro). Um convite para pensar o desejo desejante que se retroalimenta como sofrimento e a tela como extensão projetiva da dor psíquica que aponta o que está oculto no inconsciente.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sexo-e-bom-e-muita-gente-gosta" style="font-size:20px">Sexo é bom e muita gente gosta.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O erotismo faz parte da saúde sexual, emocional, mental e afetiva. “Transar”, fazer amor, “pegar alguém” faz parte do cotidiano e não deveria ser um tabu na contemporaneidade. Quando estamos num relacionamento, nos sentimos conectados e desejados, a sexualidade surge como uma linguagem natural da intimidade. Quando fluído e consensual, uma vida sexual ativa ajuda na melhora da autoestima, na reconexão com o prazer e afetos, alivia o estresse, melhora a criatividade e sensação de bem-estar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Rita Lee</strong>, em sua música <strong>Amor e Sexo</strong>, traz uma reflexão sobre este tema tão desejado, e ressalta com beleza poética a diferença complementar entres esses dois mundos: <strong>Amor é um livro / Sexo é esporte / Sexo é escolha / Amor é sorte</strong>. E se o sexo é esporte, a masturbação surge como braço integrante desta mesma sinfonia. É quando nos tornamos, ao mesmo tempo, amante e amado; em que descobrimos o ritmo do próprio desejo e a autonomia sobre o prazer. Neste autoerotismo saudável, aprendemos a habitar a nossa própria pele antes de nos entregar à pele do outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, é justamente na fronteira entre o conhecer-se e o perder-se que o cenário contemporâneo nos impõe um novo desafio. Quando o toque deixa de ser uma exploração dos sentidos para se tornar um refúgio mecânico diante de uma tela, o que era para ser descoberta pode se transformar em uma perda sombria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-dados-divulgados-pelo-site-pornhub-o-brasil-ocupa-o-4º-lugar-entre-os-paises-que-mais-acessam-conteudo-pornografico-no-mundo-a-frente-aparecem-estados-unidos-mexico-e-filipinas-que-compoem-o-top-tres-global-fonte-correio-brasiliense-2025" style="font-size:18px">Segundo dados divulgados pelo site Pornhub, o Brasil ocupa o 4º lugar entre os países que mais acessam conteúdo pornográfico no mundo. À frente aparecem Estados Unidos, México e Filipinas, que compõem o top três global (Fonte: Correio Brasiliense, 2025).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se a masturbação pode ser compreendida como ensaio do prazer, a pornografia assume o papel da projeção da fantasia. As imagens oferecem roteiros prontos, intensificam estímulos e prometem facilitar o acesso ao gozo, reorganizando o ritmo do desejo em torno da rapidez, da repetição e da escalada visual. A pornografia permite acessar o inconfessável, a experimentar o prazer indizível, revela aquilo que é mais obscuro e até incompreendido do ser. Estimular-se usando as fantasias pornográficas passa a ser problema quando o consumo se torna compulsivo e interfere na economia psíquica, ao deslocar o erotismo da vivência para uma relação predominantemente imagética e solitária.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A compulsão por pornografia é entendida como uma manifestação do Transtorno do Comportamento Sexual Compulsivo (TCSC), caracterizada pelo consumo repetitivo, excessivo e incontrolável de conteúdo pornográfico, resultando em prejuízos significativos para o funcionamento psicológico, social, profissional ou ocupacional da pessoa (WERY; BILLIEUX, 2017). </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Diferente do uso recreativo, o vício se revela quando o prazer dá lugar a um padrão persistente e fora de controle, onde a vontade de parar não encontra eco na ação, e as horas se perdem na solidão do quarto e no brilho da tela. Essa condição se distancia da ludicidade pelo seu caráter de prisão, e se manifesta na tentativa frustrada de silenciar o hábito, no tempo excessivo e na insistência em um caminho que o próprio indivíduo já reconhece como prejudicial, mas do qual não consegue mais se desviar sozinho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cada-vez-mais-cedo-criancas-e-adolescentes-entram-em-contato-com-pornografia-impulsionados-pela-facilidade-da-internet-e-ausencia-efetiva-de-barreiras-etarias-no-ambiente-digital" style="font-size:18px">Cada vez mais cedo, crianças e adolescentes entram em contato com pornografia impulsionados pela facilidade da internet e ausência efetiva de barreiras etárias no ambiente digital.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil indicam que uma significativa parcela das crianças iniciou o uso da internet aos 6 anos de idade ou antes (CETIC.br, 2023). Essa precocidade amplia a exposição a riscos digitais, entre eles experiências ofensivas ou perturbadoras, relatadas por uma proporção expressiva de usuários entre 9 e 17 anos, conforme apontam os indicadores da pesquisa (CETIC.br, 2023). Nesse contexto, o primeiro contato com a sexualidade tende a ser desassistida e incide com maior frequência sobre meninos. Aquilo que deveria ser sustentado pela família, escola e sociedade no campo da educação sexual é substituído por um acesso clandestino a encenações exageradas, de relações performáticas e esvaziadas de afeto, sem erotismo saudável.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-luz-da-psicologia-analitica-o-consumo-pornografico-adquire-densidade-simbolica-quando-entendido-como-meio-de-projecao-do-inconsciente" style="font-size:18px">À luz da Psicologia Analítica, o consumo pornográfico adquire densidade simbólica quando entendido como meio de projeção do inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung (OC 6, §554) define projeção como <em>“um fato inconsciente, não submetido a controle consciente</em>”, um mecanismo pelo qual conteúdos psíquicos são deslocados para objetos externos, passando a ser percebidos como qualidades do outro e não como pertencentes ao próprio sujeito (OC 6; §862). Também afirma que certas projeções “pertencem à esfera da sombra, isto é, o lado obscuro da própria personalidade” (OC 9/2, §19). Importante ressaltar que, para Jung (OC 9/2, §14), “a sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entao-ousamos-dizer-que-quando-a-pornografia-se-torna-a-unica-maneira-possivel-de-se-chegar-ao-orgasmo-dialogamos-com-um-comportamento-narcisista" style="font-size:18px">Então ousamos dizer que, quando a pornografia se torna a única maneira possível de se chegar ao orgasmo, dialogamos com um comportamento narcisista.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa provocação se ancora no mito de Narciso que, ao permanecer fixado na contemplação do seu reflexo na água, acaba se afogando em sua projeção. Nesse contexto, a pornografia funciona como uma muleta do autoerotismo, na qual o indivíduo só consegue alcançar o gozo por meio das imagens projetadas nas cenas, deslocando a experiência erótica da relação com o outro para um circuito autorreferenciado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-e-importante-entender-a-especificidade-da-busca-compulsiva-do-tema-pornografico-e-qual-a-simbologia-esta-contida-por-tras-da-cena-pois-ela-oferece-uma-superficie-imagetica-que-acolhe-os-conteudos-sombrios" style="font-size:18px">Por isso é importante entender a especificidade da busca compulsiva do tema pornográfico e qual a simbologia está contida por trás da cena, pois ela oferece uma superfície imagética que acolhe os conteúdos sombrios.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A objetificação do corpo, fantasias agressivas, impulsos de dominação, desejos dissociados do afeto, intensidades pulsionais e tantos outros fetiches encontram neste palco uma forma de expressão deslocada, ou seja, a pessoa é afetada pelas imagens porque algo de sua própria psique foi ali projetada. Entretanto, essa revelação ocorre de modo literal e empobrecido, sem elaboração simbólica, fixada em roteiros repetitivos e estereotipados, reforçando papéis de gênero, violências e ausência de afeto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para exemplificarmos, segundo dados divulgados pelo site Pornhub, as buscas que apresentam crescimento expressivo são termos como “sexo em grupo” (aumento de 544%), “punheta trans” (488%), “coroa gostosa transando” (442%) e “lésbicas tesoura” (231%) (Fonte: Correio Brasiliense, 2025). Chama atenção que “punheta trans” esteja no topo do campo de pesquisa pois, segundo o dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil liderou em 2024 pelo 16º ano consecutivo, os maiores índices globais de assassinatos contra essa população. Grande parte das vítimas são mulheres trans, jovens, negras e nordestinas, e os crimes são marcados por extrema violência (Fonte: CNN Brasil, 2025), ao mesmo tempo que os direitos sociais dessas pessoas estão sempre em fragilidade institucional. Também é interessante observar que o aumento do “conservadorismo” traz a reboque o aumento de buscas de sexo em grupo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-abordar-a-relacao-do-sujeito-com-sua-anima-a-dinamica-psiquica-revela-um-grau-ainda-mais-sensivel-de-complexidade" style="font-size:18px">Ao abordar a relação do sujeito com sua anima, a dinâmica psíquica revela um grau ainda mais sensível de complexidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung compreende a anima como o arquétipo da face feminina na psique masculina, cuja função consiste em mediar a relação entre consciência e inconsciente, atuando como ponte entre o mundo interior e a experiência relacional (JUNG, OC 9/2, §27). Ela personifica tendências psicológicas associadas à vida afetiva, à intuição e à sensibilidade, que frequentemente permanecem à margem da personalidade consciente. Quando essa função não encontra reconhecimento e elaboração, a anima tende a ser projetada em figuras externas. A pornografia oferece um campo imagético vasto e incessante, ao apresentar figuras femininas esvaziadas de subjetividade, reduzidas a corpos destinados a submissão da fantasia e do prazer unilateral do outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nessa configuração, a <strong>anima</strong> perde sua dimensão simbólica e passa a ser vivenciada como imagem disponível ao consumo, deslocando o erotismo à objetificação. Essa dinâmica encontra um paralelo mítico na ação de Nêmesis, deusa da justa retribuição e do equilíbrio moral, que pune Narciso fazendo com que o amor recusado ao outro retorne sob a forma de um fascínio autorreferido pela própria imagem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-adverte-que-a-projecao-da-anima-empobrece-gravemente-a-capacidade-de-vinculo-pois-substitui-o-encontro-com-a-alteridade-real-por-uma-relacao-distorcida-na-qual-o-outro-e-apenas-suporte-para-conteudos-inconscientes-nao-elaborados-jung-oc-7-2-339" style="font-size:18px">Jung adverte que a projeção da anima empobrece gravemente a capacidade de vínculo, pois substitui o encontro com a alteridade real por uma relação distorcida, na qual o outro é apenas suporte para conteúdos inconscientes não elaborados (JUNG, OC 7/2, §339).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O erotismo, que em sua dimensão simbólica convoca transformação, risco e reciprocidade, é reduzido a excitação visual controlável, onde tudo está sob o domínio das mãos. A experiência erótica deixa de ser um espaço de encontro e passa a operar como circuito fechado de autoestimulação, no qual o sujeito se relaciona consigo mesmo e com suas projeções.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse deslocamento convida a uma mudança de perspectiva clínica e teórica. O debate ganha profundidade quando se afasta de diálogos moralizantes e se aproxima do campo simbólico, pois a pornografia revela menos sobre desvios do desejo e mais sobre processos de dissociação entre imagem e corpo vivido, excitação e afeto, fantasia e relação, numa espécie de “afastamento da alma”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-cisao-tambem-se-inscreve-em-uma-ampla-logica-cultural-marcada-pela-hiperexposicao-aceleracao-do-consumo-e-pelo-esvaziamento-da-experiencia-do-outro-como-presenca" style="font-size:18px">Essa cisão também se inscreve em uma ampla lógica cultural, marcada pela hiperexposição, aceleração do consumo e pelo esvaziamento da experiência do outro como presença.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É nesse ponto que a reflexão de Byung-Chul Han ilumina o modo como a sociedade contemporânea transforma o erotismo em desempenho e a alteridade em superfície disponível, aprofundando a ruptura entre desejo, vínculo e experiência simbólica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No caso do vício em pornografia, viver imerso nas projeções leva o indivíduo a um autoerotismo de maneira quase literal. A energia erótica é direcionada a imagens projetadas de si e se enovela numa relação consigo mesmo de uma maneira compulsiva, levando ao esgarçamento das relações principalmente afetivo-sexuais pois, diante do outro, tem-se dificuldade da troca com aquele que sente, reage e exige uma dedicação libidinal.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por meio dos dados de buscas e temas em relevância, a pornografia pode evidenciar uma sombra moral, pois as procuras chamam a atenção pelo contraste com os temas destacados na vida pública das redes sociais. Este vício pode ser entendido como uma perseguição pela satisfação eterna de algo que não chega, pois existe o desejo desejante que jamais se sacia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa cisão também se inscreve em uma lógica cultural mais ampla, marcada pela hiperexposição, pela aceleração do consumo e a substituição progressiva da experiência do outro por superfícies disponíveis ao olhar e à apropriação imediata.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-agonia-do-eros-byung-chul-han-2017-p-56-faz-uma-provocacao-ao-dizer-que-a-pornografizacao-do-mundo-se-realiza-como-sua-profanacao-ela-profana-o-erotismo-e-a-profanacao-se-realiza-como-desritualizacao-e-dessacralizacao-han-2017-p-61" style="font-size:18px">Em <strong>Agonia do Eros</strong>, Byung-Chul Han (2017, p. 56) faz uma provocação ao dizer que “<em>a pornografização do mundo se realiza como sua profanação. Ela profana o erotismo”, e “a profanação se realiza como desritualização e dessacralização</em>” (HAN, 2017, p. 61).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Continua ao descrever a erosão contemporânea do Eros como consequência direta de uma cultura que transforma o desejo em desempenho, e o encontro em mera positividade. Han (2017) acredita que o Eros só se constitui plenamente quando a relação envolve diferença e imprevisibilidade, pois a experiência erótica exige que o outro não seja reduzido a objeto de satisfação porque o desejo se sustenta justamente naquilo que escapa e se mantém como alteridade. É essa assimetria entre o eu e o outro que introduz risco, tensão e abertura ao desconhecido, elementos indispensáveis à vitalidade do Eros. Quando essa alteridade é dissolvida, o erotismo perde sua força transformadora e se converte em estímulo previsível e consumível.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pornografia-se-insere-neste-escancaramento-descrito-por-han-no-qual-tudo-deve-estar-exposto-sem-zonas-de-misterio-ou-negatividade-para-ele-o-erotico-nao-esta-desprovido-de-misterio-han-2017-p-60" style="font-size:18px">A pornografia se insere neste “escancaramento” descrito por Han, no qual tudo deve estar exposto sem zonas de mistério ou negatividade. Para ele “o erótico não está desprovido de mistério” (HAN, 2017, p. 60).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O corpo pornográfico é um corpo sem segredos e interioridade, oferecido ao olhar como mercadoria erótica, cuja função é responder imediatamente ao desejo, sem frustração ou elaboração simbólica. Nesse cenário, o Eros passa a funcionar como excitabilidade técnica, organizada segundo a lógica da escalada sensorial, o que empobrece tanto a experiência do prazer quanto a capacidade de vínculo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Han</strong> observa que a sociedade contemporânea desloca o desejo para o campo do desempenho individual, transformando a sexualidade em um espaço de autoexploração, no qual o sujeito acredita exercer liberdade enquanto se submete a circuitos compulsivos de repetição. Essa leitura encontra ressonância direta na compreensão junguiana do narcisismo, pois a libido, impedida de se orientar em direção ao outro como alteridade viva, retorna ao próprio sujeito e se fixa em imagens que funcionam como espelhos ampliados de suas fantasias inconscientes. O resultado é uma economia libidinal autorreferida, na qual o prazer se intensifica ao mesmo tempo em que se esvazia de sentido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse ponto, a pornografia revela sua afinidade profunda com a lógica narcísica descrita tanto pelo mito quanto pela clínica. Assim como Narciso se apaixona por uma imagem que o reflete e o captura, o sujeito contemporâneo se vê enredado em imagens que prometem satisfação infinita e entregam repetição compulsiva, num movimento que conduz à saturação do desejo e ao empobrecimento do encontro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Byung-Chul Han descreve esse processo como a transformação do Eros em pornografia, entendida como um regime no qual a exposição total substitui a tensão erótica, e a proximidade excessiva elimina a distância necessária à experiência amorosa. O desaparecimento do outro é a agonia do Eros (HAN, 2017, p. 74).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-ponto-de-vista-junguiano-esse-cenario-pode-ser-compreendido-como-um-colapso-da-funcao-simbolica-da-anima-cuja-mediacao-entre-consciencia-e-inconsciente-se-fragiliza-quando-o-feminino-psiquico-e-reduzido-a-condicao-de-imagem-erotizada-e-consumivel" style="font-size:18px">Do ponto de vista junguiano, esse cenário pode ser compreendido como um colapso da função simbólica da anima, cuja mediação entre consciência e inconsciente se fragiliza quando o feminino psíquico é reduzido à condição de imagem erotizada e consumível.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung adverte que a anima, quando projetada de maneira não elaborada, aprisiona o sujeito em fantasias que impedem o amadurecimento da relação e a integração dos afetos (JUNG, OC 7/2, §339). A pornografia intensifica esse processo ao oferecer imagens prontas e roteiros estereotipados, pois cristaliza a projeção em cenas fixas, repetidas e empobrecidas, impedindo que o conteúdo inconsciente seja simbolizado e transformado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Han (2017) acrescenta que o desaparecimento da alteridade conduz a uma forma de gozo solitário, no qual o sujeito se relaciona apenas consigo mesmo, ainda que sob a ilusão de multiplicidade de parceiros e experiências. Essa dinâmica ilumina o paradoxo contemporâneo do vício em pornografia: quanto maior a oferta de imagens e estímulos, mais restrito se torna o campo do desejo, que passa a girar em torno dos mesmos temas, das mesmas cenas e das mesmas intensidades, produzindo um fechamento progressivo da vida erótica e afetiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assim-o-vicio-em-pornografia-pode-ser-compreendido-como-uma-busca-incessante-por-satisfacao-total-que-jamais-se-cumpre-pois-esta-fundada-na-eliminacao-da-alteridade-e-na-recusa-da-vulnerabilidade-inerente-ao-encontro-erotico" style="font-size:18px">Assim, o vício em pornografia pode ser compreendido como uma busca incessante por satisfação total que jamais se cumpre, pois está fundada na eliminação da alteridade e na recusa da vulnerabilidade inerente ao encontro erótico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Trata-se de um desejo que se intensifica ao mesmo tempo em que se esvazia, pois cada nova imagem promete preencher uma falta que se reinscreve imediatamente após o gozo, reproduzindo a lógica de todo comportamento compulsivo. Nesse sentido, a pornografia revela muito mais que conteúdos sombrios individuais, ela expressa uma sombra cultural marcada pela dificuldade coletiva de sustentar o Eros como experiência simbólica e transformadora.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Diante desse fenômeno, a clínica é convocada a oferecer um espaço onde o sujeito possa reencontrar a dimensão imagética do desejo, reconhecendo os fragmentos da sua anima, sombra e de conflitos não elaborados projetados nas telas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sustentar essa travessia implica recolocar o erotismo no campo da alteridade. Relacionar-se com o outro implica sustentar o risco das dores e amargores relativo ao encontro, condição que restitui ao Eros sua potência de transformação, pois é no reflexo do olhar deste outro onde existe a possibilidade da quebra da autorreferenciação e solidão.</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/">Me. Daniela Euzebio – Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/">Me. Mauro Soave – Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BRASIL é o país que mais mata pessoas trans e travestis, aponta dossiê. CNN Brasil, [s. l.], 29 jan. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-pessoas-trans-e-travestis-aponta-dossie/. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p class="wp-block-paragraph">COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL (CGI.br). Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). Disponível em: https://cetic.br/pt/pesquisas/. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p class="wp-block-paragraph">CORREIO BRAZILIENSE. Brasil é o 4º maior consumidor de pornografia no mundo. Correio Braziliense, Brasília, 30 dez. 2025. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2025/12/7316169-brasil-e-o-4-maior-consumidor-de-pornografia-no-mundo.html. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p class="wp-block-paragraph">HAN, Byung-Chul. A agonia de Eros. Petrópolis: Vozes, 2017;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Aion &#8211; Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 9/2);</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2016 (Obras completas v. 7/2);</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 6);</p>



<p class="wp-block-paragraph">WERY, A.; BILLIEUX, J. Problematic cybersex: Conceptualization, assessment, and treatment. Addictive Behaviors, v. 64, p. 238-246, 2017</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>Promiscuidade Sexual como Expressão Simbólica da Sombra Coletiva &#8211; Um ensaio sob a ótica do amor e da psicologia junguiana (Parte II)</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/promiscuidade-sexual-como-expressao-simbolica-da-sombra-coletiva-2/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Ivanilde Ferreira Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Feb 2026 13:02:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[aids]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
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		<category><![CDATA[epidemia]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nesse artigo trouxe alguns números novos, explorando o Boletim Epidemiológico de HIV/Aids, divulgado por ocasião do dia 1 de dezembro –Dia Mundial de Luta contra a Aids – do ano de 2025. Segundo Jung, “Faz parte do amor a profundidade e fidelidade do sentimento (...) o verdadeiro amor sempre pressupõe um vínculo duradouro e responsável”. (JUNG.2019, &#038; 231). Nesse sentido, em profundidade de “Alma”, como postula Jung, o termo “fazer amor” nos torna mais próximos dessa afetividade. (...)</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse artigo trouxe alguns números novos, explorando o Boletim Epidemiológico de HIV/Aids, divulgado por ocasião do dia 1 de dezembro –Dia Mundial de Luta contra a Aids – do ano de 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo Jung, “<em>Faz parte do amor a profundidade e fidelidade do sentimento (&#8230;) o verdadeiro amor sempre pressupõe um vínculo duradouro e responsável</em>”. (JUNG.2019, &amp; 231). Nesse sentido, em profundidade de “Alma”, como postula Jung, o termo “fazer amor” nos torna mais próximos dessa afetividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A sexualidade é um dos aspectos da dimensão humana, cercada ainda de muita dor e sofrimento, em razão do ocultamento e da aura do pecado, imposto principalmente pela formação judaico-cristã de nossa sociedade ocidental. A cultura do pecado manteve o véu da ignorância e do preconceito em torno do assunto e em razão disso, pouco se fala e se pesquisa sobre o tema, dado os parcos recursos bibliográficos disponíveis. Arrisco a dizer que apenas com o surgimento da AIDS e todas as suas particularidades, principalmente no início da infecção, onde denominada “câncer gay” é que se iniciou a falar sobre sexualidade e a defini-la em seu aspecto mais amplo (biopsicossocial). Foi quando as camadas sociais que se encontravam na sombra coletiva emergiram e a sociedade precisou integrá-las.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Falando-se em epidemia silenciosa, podemos defini-la como aquela epidemia em que existe a transmissão contínua de HIV e ISTs, sem chamar a atenção imediata das autoridades sanitárias, por serem muitos dos casos assintomáticos e subnotificados, prolongando assim o ciclo da infecção e da transmissão. Nesse caso específico, apenas os órgãos midiáticos (IP-imprensa pública.com.br) denominaram como Epidemia silenciosa, na ocasião de divulgação dos dados abaixo, na cidade de Porto Alegre:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De acordo com um estudo em Porto Alegre, Imprensa Pública, 2025, foi identificada uma prevalência de 1,64% de pessoas com HIV na população geral, acima do limite de 1% que a OMS classifica como epidemia generalizada.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, 2024, 4,5% a mais de casos foram diagnosticados que em 2022. Mortes por AIDS atingiram 3,9 de óbitos por 100 mil habitantes. Esse foi o menor índice demonstrado desde 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No perfil demográfico do mesmo estudo, foi identificado que 70,7% dos casos notificados são em homens, sendo 63,2% em pessoas pretas/pardas, 53,6% em homens que fazem sexo com homens (HSH), numa faixa etária de concentração entre 20 e 29 anos. Desses, foram encontrados 37,1% dos infectados. Prevalece aqui ainda, a juvenilização da infecção por HIV.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que é mais sério nesse estudo em minha opinião, é a estimativa de que 11% dos indivíduos com HIV desconhecem seu diagnóstico, motivo pelo qual favorece a contaminação em indivíduos promíscuos e que não fazem sexo com proteção.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os grupos mais vulneráveis identificados são: Homens que fazem sexo com homens, com até 18% de prevalência, população trans/travesti, em mais de 30% e jovens (15–24 anos), onde as novas infecções dobraram entre 2000 e 2015, provavelmente devido à queda no uso de preservativos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) são frequentemente assintomáticas e variam entre sífilis, gonorréia, HPV (papiloma vírus humano), hepatite B e mostram índices de crescimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não ignorando os dados acima, aqui apresento uma síntese atualizada da situação do HIV e da Aids no Brasil, com base no Boletim Epidemiológico de HIV e Aids 2025 do Ministério da Saúde. São abordados dados sociodemográficos, distribuição regional, faixa etária, sexo, formas de transmissão e tendências recentes da epidemia. Também se discute o impacto das estratégias de prevenção combinada, com destaque para a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), cada vez mais relevante no cenário nacional. Os achados indicam a persistência da epidemia entre homens jovens, particularmente homens que fazem sexo com homens (HSH) e ressaltam a importância de políticas públicas integradas para ampliação da testagem, tratamento e prevenção.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Até setembro de 2025, o Brasil registrou 683.930 casos de infecção pelo HIV desde o início da vigilância, em 1991. A distribuição por sexo demonstra predomínio masculino: 450.922 casos (65,9%) ocorreram em homens e 232.473 (34,1%) em mulheres. Para Aids, desde 1980 foram notificados 1.165.369 casos, dos quais 67,3% entre homens e 32,7% entre mulheres. A razão de sexos tem aumentado ao longo das últimas décadas, indicando maior concentração da epidemia entre homens adultos jovens, com uma faixa etária de 20 a 29 anos o que representa cerca de 37% dos novos diagnósticos, chegando a 41% entre homens, o que deixa clara ainda, a tendência da juvenilização nos casos novos. Em relação à Aids, observa-se que as maiores proporções estão entre pessoas de 25 a 34 anos, o que ainda reforça o impacto da infecção na população economicamente ativa e sexualmente mais ativa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Importante aqui chamar a atenção para um melhor entendimento, de que existe uma diferença entre “pessoas vivendo com HIV e doentes de Aids”. A primeira refere-se a pessoas contaminadas com HIV e que ainda não desenvolveram a doença e a segunda, refere-se a pessoas com infecções oportunistas e que já desenvolveram a doença.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A epidemia apresenta marcantes desigualdades regionais. Em 2023, a maior proporção de novos casos de HIV foi registrada no Sudeste (34,7%), seguido pelo Nordeste (26,9%), Sul (16,4%), Norte (12,8%) e Centro-Oeste (9,3%). Considerando o total de pessoas vivendo com HIV/Aids desde 1980, o Sudeste concentra quase metade dos casos (47,3%). Grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Fortaleza e Salvador permanecem como epicentros da epidemia devido à densidade populacional, desigualdades socioeconômicas e maior acesso à testagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A transmissão sexual continua sendo a principal via de infecção no Brasil. Entre os casos de Aids notificados em 2024, 43,9% ocorreram entre homens que fazem sexo com homens (HSH), categoria que historicamente concentra altas taxas de incidência e que infelizmente, a meu ver, denota uma falha na prevenção primária e a necessidade do desenvolvimento de maiores ações preventivas dessa categoria. Outro aspecto que&nbsp; &nbsp;&nbsp;chama a atenção é o motivo pelo qual essa categoria específica da população não está se prevenindo efetivamente e no caso, se existem falhas nesse processo de prevenção, quais seriam?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Outras modalidades de transmissão incluem relações heterossexuais, uso de drogas injetáveis e transmissão vertical, embora esta última tenha diminuído significativamente devido à eficácia das estratégias de prevenção da transmissão materno-infantil.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Apesar do aumento no número de diagnósticos de HIV influenciado pela ampliação da testagem, a mortalidade por Aids atingiu seu menor valor desde 2013 (3,9 óbitos por 100 mil habitantes em 2023). Esse avanço está diretamente relacionado ao acesso universal à terapia antirretroviral (TARV) e ao fortalecimento da rede de cuidados contínuos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A epidemia atual do HIV no Brasil é caracterizada por uma dinâmica complexa, marcada pela concentração crescente entre homens jovens e entre HSH. Esses dados reforçam a urgência de estratégias de prevenção mais direcionadas e efetivas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A prevenção combinada, preconizada pelo Ministério da Saúde, integra múltiplas estratégias, como a educação em saúde para a promoção da sexualidade segura, o uso consistente de preservativos (gratuitos no SUS), a testagem regular para a ampliação do diagnóstico, tratamento como prevenção (TASP), uma vez que pessoas em tratamento e com carga viral indetectável não transmitem o HIV, profilaxia pós-exposição (PEP), e a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), todas disponíveis no sistema público de saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Entretanto, a efetividade da PrEP depende de fatores que extrapolam a dimensão biomédica. Barreiras relacionadas ao estigma, à desinformação, à dificuldade de acesso a serviços, bem como desigualdades sociais e regionais, ainda limitam sua plena implementação. Além disso, a concentração da epidemia entre populações já historicamente vulnerabilizadas revela a necessidade de políticas intersetoriais que integrem saúde, educação, direitos humanos e combate às desigualdades.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que penso ser importante nesse sentido é que apesar dos desafios, a diminuição da mortalidade por Aids e o aumento da testagem são indicativos de melhorias na resposta brasileira à epidemia. O fortalecimento das estratégias de prevenção combinada, aliado à ampliação da PrEP e da TARV, constitui o eixo central para o controle da epidemia no país, segundo o Ministério da Saúde, por meio do Programa de Aids.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ainda falando-se em sexualidade e tentando linkar a transmissão sexual do HIV/Aids e as ISTS (infecções sexualmente transmissíveis) , podemos afirmar que é na dimensão psicossocial da sexualidade, onde inclui-se também os fatores psicológicos, como emoções, pensamentos e personalidade, combinados a elementos sociais, como por exemplo, o &nbsp;modo como as pessoas interagem, que&nbsp; compreendemos os vários distúrbios sexuais e seria também nessa dimensão onde poderemos compreender alguns dos aspectos importantes da exposição à transmissão do HIV e das ISTs. &nbsp;É aqui que introjetamos as informações recebidas por nossos pais, professores e companheiros, herdando também os mitos, crendices e tabus sexuais, que muito influenciam no desenvolvimento saudável ou não da sexualidade e assimilamos determinadas “normas de comportamento sexual”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No tocante ao comportamental, esse aspecto da sexualidade permite-nos não somente verificar o que as pessoas fazem, mas a forma com que o fazem e porque o fazem. Assim, é importante que evitemos “julgar” o comportamento sexual de outras pessoas a partir dos nossos próprios valores e experiências, por vezes baseado em normoses ou ainda por conceitos religiosos individuais. Ora, o que é normal para mim, muitas vezes não o é para o outro, pois esse julgamento é baseado por nossos próprios valores, crenças, mitos e tabus, herdados em toda a dimensão do aprendizado de vida do indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De acordo com Cavalcanti &amp; Cavalcanti, na dimensão clínica da sexualidade, podemos observar que embora o sexo seja uma função natural do ser humano, algumas coisas podem afetar essa espontaneidade das atividades sexuais, como as doenças físicas, violência e abusos sexuais, lesões e uso de drogas que podem comprometer esse padrão de resposta sexual. Entram aqui também, sentimentos como ansiedade, culpa, medo, depressão e conflitos interpessoais, que podem coibir ou mesmo alterar a vivência saudável da sexualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No tocante à contemporaneidade e em toda essa questão biológica da sexualidade, infelizmente a mais importante para os padrões sexuais atuais, pouco se aborda a importância emocional do contato humano. Percebemos que esse culto ao corpo, ao consumismo, à performance e à persona sexual, sem a preocupação com o outro, com a afetividade e com os aspectos da alma, como bem fala Jung, tem trazido inúmeros sintomas físicos e mentais, gerando patologias e disfunções sexuais, entre outros distúrbios.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A palavra Promiscuidade deriva do latim <em>promiscuus</em>, que significa “misturado” ou “comum a muitos”. No contexto sexual, refere-se à prática de manter relações sexuais, com vários indivíduos, comumente de forma casual, sem vínculo afetivo, compromisso ou exclusividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS.2003) e Manuais Epidemiológicos de Vigilância de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), a promiscuidade é considerada um fator de risco comportamental para a transmissão de infecções sexualmente transmissíveis e é frequentemente definida por : ter três ou mais parceiros sexuais em um período de 12 meses ou ter mais de um parceiro sexual no mesmo período sem proteção, o que pode denotar um comportamento sexual baseado em sexo casual, com muitas parcerias ao longo do tempo, sem se limitar a um único relacionamento ou parceria estável.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Importante salientar que a OMS tem um foco na promoção da saúde sexual e reprodutiva, enfatiza o sexo seguro e a prevenção das ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) e que a ideia de promiscuidade e número de parcerias sexuais podem variar de acordo com a cultura, o contexto social e as crenças individuais. Considera ainda, que a saúde sexual é um direito fundamental e que a prática e a orientação sexual da pessoa devem ser respeitadas, desde que não causem danos a si mesmo ou a outrens.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse sentido, a procura demasiada e inconsciente de satisfação emocional por meio de sexo sem envolvimento de Alma, pode denotar uma necessidade de suprir uma carência afetiva, uma negação rígida do desejo, ou ainda, a constelação de algum complexo. Ao mesmo tempo em que a sociedade condena tal comportamento, ela pode alimentá-lo por fenômenos como mídia hiper erótica, cultura de corpos disponíveis e sexo exclusivamente como via de fuga, o que pode ser considerado uma projeção da sombra coletiva.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Sombra é para mim a parte “negativa” da personalidade, isto é, a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal.</p><cite>JUNG.2019, p.77</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De acordo com Jung, do ponto de vista do indivíduo, a sombra é pessoal, formada pelos conteúdos do inconsciente pessoal, mas a sombra também é coletiva e pode compreender os aspectos reprimidos por uma cultura que não reconhece sua própria dimensão obscura. Isso inclui desejos e impulsos sexuais, que ao serem negados, podem retornar de forma distorcida e inconsciente, influenciando padrões de comportamento como a promiscuidade sexual que também pode ser vista como manifestação da sombra coletiva e dessa sexualidade reprimida e inconsciente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>A sombra age como um sistema imunológico psíquico, definindo o que é eu e o que é não eu (&#8230;). Por exemplo, alguns permitem a expressão da raiva ou da agressividade; a maioria, não. Alguns permitem a sexualidade, a vulnerabilidade ou as emoções fortes; muitos, não.</p><cite>ZWEIGA.2024, p.16</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo Jung, <strong><em>o amor é uma função da totalidade psíquica, e não se reduz ao desejo físico ou à paixão passageira</em></strong>. Para ele, o amor autêntico exige a integração da Anima ou do Animus, ou seja, das dimensões femininas e masculinas inconscientes que habitam cada ser. Sem essa integração, o sujeito se relaciona de forma projetiva e inconsciente, buscando no outro a completude que falta em si, o que pode gerar relações marcadas pela compulsividade, promiscuidade ou idealização perigosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, o comportamento sexual de risco pode ser visto como expressão da fuga da consciência de si, uma tentativa de resolver no outro um vazio interno, uma carência de sentido ou amor-próprio. O comportamento de risco, então, pode ser uma tentativa inconsciente de confronto com a sombra em que o indivíduo desafia a morte, a doença, a moral, porque precisa sentir algo autêntico, mesmo que destrutivo. Alguns relatos clínicos que ouvi, pessoas com HIV relataram que o momento do diagnóstico foi o primeiro encontro real consigo mesmas ou um “chamado à alma”, para o autoamor e o autocuidado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A sexualidade vivida de forma compulsiva e promíscua, sem proteção, pode estar ligada ao desejo inconsciente de morte (mesmo simbólica) de muitos aspectos sombrios. Muitos jovens hoje romantizam relações marcadas por riscos, com falas como “não gosto de camisinha” ou “sexo é bom com perigo”, mostrando uma fusão inconsciente entre prazer e morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa dinâmica é observável na ascensão de casos de HIV entre jovens homossexuais e bissexuais, que apesar de terem informação e acesso à PrEP (profilaxia pré-exposição) muitas vezes, optam por relações desprotegidas, fenômeno descrito como “bug chasing” (busca deliberada por infecção), que pode ser interpretado, à luz de Jung, como um desejo de iniciação arquetípica pela dor.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A saúde pública tradicionalmente atua sobre o comportamento e o corpo, mas ignora a subjetividade e o inconsciente. Uma abordagem mais integrativa exigiria reconhecer que a prevenção de HIV e ISTs não é só técnica, mas também simbólica, emocional e espiritual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-bem-diz" style="font-size:18px">Como bem diz:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Já não é possível hoje em dia passar por cima da importante realidade psicológica da sexualidade com ar de deboche ou com indignação moral. Começa-se a incluir a questão sexual no círculo dos grandes problemas e a discuti-la com a seriedade que sua importância merece.</p><cite>JUNG 2019, p. 112, &amp; 212</cite></blockquote></figure>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“O confronto com a nossa própria alma, com a anima e o animus, com o feminino e o masculino, pode ter uma forma sexual, O amor por si mesmo e o amor pelos outros são experimentados corporalmente na sexualidade, seja através de fantasias ou de atividades. Em nenhum outro lugar a união de todos os opostos, a unio mystica, o mysterium coniunctionis, expressa-se de modo mais impressionante que na linguagem do erotismo.” &nbsp;(Guggenbuhl-Craig.2024,p.119)</em></p>
</blockquote>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: PROMISCUIDADE SEXUAL COMO EXPRESSÃO SIMBÓLICA DA SOMBRA COLETIVA" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/Oev5mSGo8j0?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/mariaivanilde/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/mariaivanilde/">Maria Ivanilde Ferreira Alves Membro &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone D. Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas" style="font-size:18px">Referências Bibliográficas:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Direção-Geral da Saúde. 2022.</strong> Serviço Nacional de Saúde. <em>Site do Serviço Nacional de Saúde Português. </em>[Online] 25 de Novembro de 2022. https://www.sns24.gov.pt/tema/saude-sexual-e-reprodutiva/comportamentos-sexuais-de-risco/.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung, Carl Gustav. 2013.</strong><em>Obras Completas 10/3 &#8211; Civilização em Transição. </em>Petrópolis&nbsp;: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung, Carl Gustav</strong>. Obras Completas 8/2 &#8211; A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung, Carl Gustav</strong>.Obras completas 7/2 &#8211; O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>CAVALCANTI, R; CAVALCANTI, M</strong>. &#8211; Tratamento Clínico das Inadequações Sexuais. 5.ed. Payá, 2022</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Zweig, Connie et all</strong> &#8211; Ao Encontro da Sombra- O potencial oculto do lado escuro da natureza humana. Cultrix, 2024</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Boletim Epidemiológico HIV/AIDS 2023</strong>. Ministério da Saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Boletim Epidemiológico HIV e Aid</strong>s – Número Especial 2025. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Brasil registra menor mortalidade por Aids da série histórica.</strong> Brasília, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Promiscuidade Sexual como Expressão Simbólica da Sombra Coletiva &#8211; Um ensaio sob a ótica do Amor e da Psicologia Junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/promiscuidade-sexual-como-expressao-simbolica-da-sombra-coletiva/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Ivanilde Ferreira Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Jul 2025 17:58:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[promiscuidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este ensaio tem como objetivo, a reflexão sobre a Sexualidade e alguns de seus aspectos sombrios como a promiscuidade sexual e o comportamento de risco para a contaminação de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), SIDA (síndrome da imunodeficiência adquirida) e hepatites, refletindo por meio da psicologia junguiana, a expressão simbólica da sombra coletiva da sexualidade [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6"><strong>Resumo</strong>: Este ensaio tem como objetivo, a reflexão sobre a Sexualidade e alguns de seus aspectos sombrios como a promiscuidade sexual e o comportamento de risco para a contaminação de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), SIDA (síndrome da imunodeficiência adquirida) e hepatites, refletindo por meio da psicologia junguiana, a expressão simbólica da sombra coletiva da sexualidade e a “epidemia silenciosa” de AIDS, como tem retratado a mídia. Refletimos também sobre o pensamento de Jung em relação a esses comportamentos sombrios, o flerte com a morte e a própria essência do Amor!!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Importante salientar a parca bibliografia sobre o assunto, diante da necessidade e urgência na discussão da matéria, em um momento em que se fala na mídia sobre a “Epidemia silenciosa” de HIV e ISTs (IP-imprensa publica.com.br)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Segundo <strong>Jung</strong>, “<strong><em>Faz parte do amor a profundidade e fidelidade do sentimento (&#8230;) o verdadeiro amor sempre pressupõe um vínculo duradouro e responsável</em></strong>”. (JUNG.2019, &amp; 231). Nesse sentido, em profundidade de “Alma”, como postula Jung, o termo “fazer amor” nos torna mais próximos dessa afetividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">A sexualidade é um dos aspectos da dimensão humana, cercada ainda de muita dor e sofrimento, em razão do ocultamento e da aura do pecado, imposto principalmente pela formação judaico-cristã de nossa sociedade ocidental. A cultura do pecado manteve o véu da ignorância e do preconceito em torno do assunto e em razão disso, pouco se fala e se pesquisa sobre o tema, dado os parcos recursos bibliográficos disponíveis. Arrisco a dizer que apenas com o surgimento da AIDS e todas as suas particularidades, principalmente no início da infecção, onde denominada “câncer gay” é que se iniciou a falar sobre sexualidade e a defini-la em seu aspecto mais amplo (biopsicossocial). Foi quando as camadas sociais que se encontravam na sombra coletiva emergiram e a sociedade precisou integrá-las.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Falando-se em epidemia silenciosa, podemos defini-la como aquela epidemia em que existe a transmissão contínua de HIV e ISTs, sem chamar a atenção imediata das autoridades sanitárias, por serem muitos dos casos assintomáticos e subnotificados, prolongando assim o ciclo da infecção e da transmissão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">De acordo com um estudo em Porto Alegre, Imprensa Pública, 2025, foi identificada uma prevalência de 1,64% de pessoas com HIV na população geral, acima do limite de 1% que a OMS classifica como epidemia generalizada.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">No Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, 2024, 4,5% a mais de casos foram diagnosticados que em 2022. Mortes por AIDS atingiram 3,9 por cento de óbitos por 100 mil habitantes. Esse foi o menor índice demonstrado desde 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">No perfil demográfico do mesmo estudo, foi identificado que 70,7% dos casos notificados são em homens, sendo 63,2% em pessoas pretas/pardas, 53,6% em homens que fazem sexo com homens (HSH), numa faixa etária de concentração entre 20 a 29 anos. Desses, foram encontrados 37,1% dos infectados. Prevalece aqui ainda, a juvenilização da infecção por HIV.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">O que é mais sério nesse estudo em minha opinião, é a estimativa de que <strong>11% dos indivíduos com HIV desconhecem seu diagnóstico</strong>, motivo pelo qual favorece a contaminação em indivíduos promíscuos e que não fazem sexo com proteção.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Os grupos mais vulneráveis identificados são: Homens que fazem sexo com homens, com até 18% de prevalência, população trans/travesti, em mais de 30% e jovens (15–24 anos), onde as novas infecções dobraram entre 2000–2015, provavelmente devido à queda no uso de preservativos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">As ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) são frequentemente assintomáticas e variam entre sífilis, gonorréia, HPV (papiloma vírus humano), hepatite B e mostram índices de crescimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">É na dimensão psicossocial da sexualidade, onde inclui-se também os fatores psicológicos, como emoções, pensamentos e personalidade, combinados a elementos sociais, como por exemplo, o modo como as pessoas interagem, que compreendemos os vários distúrbios sexuais. É aqui que introjetamos as informações recebidas por nossos pais, professores e companheiros, herdando também os mitos, crendices e tabus sexuais, que muito influenciam no desenvolvimento saudável ou não da sexualidade e assimilamos determinadas “normas de comportamento sexual”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">No tocante ao comportamental, esse aspecto da sexualidade permite-nos não somente verificar o que as pessoas fazem, mas a forma com que o fazem e porque o fazem. Assim, é importante que evitemos “julgar” o comportamento sexual de outras pessoas a partir dos nossos próprios valores e experiências, por vezes baseado em normoses ou ainda por conceitos religiosos individuais. Ora, o que é normal para mim, muitas vezes não o é para o outro, pois esse julgamento é baseado por nossos próprios valores, crenças, mitos e tabus, herdados em toda a dimensão do aprendizado de vida do indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">De acordo com <strong>Cavalcanti &amp; Cavalcanti</strong>, na dimensão clínica da sexualidade, podemos observar que embora o sexo seja uma função natural do ser humano, algumas coisas podem afetar essa espontaneidade das atividades sexuais, como as doenças físicas, violência e abusos sexuais, lesões e uso de drogas que podem comprometer esse padrão de resposta sexual. Entram aqui também, sentimentos como ansiedade, culpa, medo, depressão e conflitos interpessoais, que podem coibir ou mesmo alterar a vivência saudável da sexualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">No tocante à contemporaneidade e em toda essa questão biológica da sexualidade, infelizmente a mais importante para os padrões sexuais atuais, pouco se aborda a importância emocional do contato humano. Percebemos que esse culto ao corpo, ao consumismo, à performance e à persona sexual, sem a preocupação com o outro, com a afetividade e com os aspectos da alma, como bem fala Jung, tem trazido inúmeros sintomas físicos e mentais, gerando patologias e disfunções sexuais, entre outros distúrbios.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">A palavra Promiscuidade deriva do latim <em>promiscuus</em>, que significa “misturado” ou “comum a muitos”. No contexto sexual, refere-se à prática de manter relações sexuais, com vários indivíduos, comumente de forma casual, sem vínculo afetivo, compromisso ou exclusividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS.2003) e Manuais Epidemiológicos de Vigilância de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), a promiscuidade é considerada um fator de risco comportamental para a transmissão de infecções sexualmente transmissíveis e é frequentemente definida por : ter três ou mais parceiros sexuais em um período de 12 meses ou ter mais de um parceiro sexual no mesmo período sem proteção, o que pode denotar um comportamento sexual baseado em sexo casual, com muitas parcerias ao longo do tempo, sem se limitar a um único relacionamento ou parceria estável.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Importante salientar que a OMS tem um foco na promoção da saúde sexual e reprodutiva, enfatiza o sexo seguro e a prevenção das ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) e que a ideia de promiscuidade e número de parcerias sexuais podem variar de acordo com a cultura, o contexto social e as crenças individuais. Considera ainda, que a saúde sexual é um direito fundamental e que a prática e a orientação sexual da pessoa devem ser respeitadas, desde que não causem danos a si mesmo ou a outrens.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-a-procura-demasiada-e-inconsciente-de-satisfacao-emocional-por-meio-de-sexo-sem-envolvimento-de-alma-pode-denotar-uma-necessidade-de-suprir-uma-nbsp-carencia-afetiva-uma-negacao-rigida-do-desejo-ou-ainda-a-constelacao-de-algum-complexo" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Nesse sentido, a procura demasiada e inconsciente de satisfação emocional por meio de sexo sem envolvimento de Alma, pode denotar uma necessidade de suprir uma&nbsp; carência afetiva, uma negação rígida do desejo, ou ainda, a constelação de algum complexo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Ao mesmo tempo em que a sociedade condena tal comportamento, ela pode alimentá-lo por fenômenos como mídia hiper erótica, cultura de corpos disponíveis e sexo exclusivamente como via de fuga, o que pode ser considerado uma projeção da sombra coletiva.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19.5px"><blockquote><p>Sombra é para mim a parte “negativa” da personalidade, isto é, a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal.</p><cite>(JUNG.2019, p.77) </cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">De acordo com Jung, do ponto de vista do indivíduo, a sombra é pessoal, formada pelos conteúdos do inconsciente pessoal, mas a sombra também é coletiva e pode compreender os aspectos reprimidos por uma cultura que não reconhece sua própria dimensão obscura. Isso inclui desejos e impulsos sexuais, que ao serem negados, podem retornar de forma distorcida e inconsciente, influenciando padrões de comportamento como a promiscuidade sexual que também pode ser vista como manifestação da sombra coletiva e dessa sexualidade reprimida e inconsciente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19.5px"><blockquote><p>A sombra age como um sistema imunológico psíquico, definindo o que é eu e o que é não eu (&#8230;). Por exemplo, alguns permitem a expressão da raiva ou da agressividade; a maioria, não. Alguns permitem a sexualidade, a vulnerabilidade ou as emoções fortes; muitos, não.</p><cite>(ZWEIG.2024, p.16) </cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-o-amor-e-uma-funcao-da-totalidade-psiquica-e-nao-se-reduz-ao-desejo-fisico-ou-a-paixao-passageira" style="font-size:19.5px">Segundo Jung, <strong>o amor é uma função da totalidade psíquica</strong>, e não se reduz ao desejo físico ou à paixão passageira.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Para ele, o amor autêntico exige a integração da <strong>Anima</strong> e do <strong>Animus</strong>, ou seja, das dimensões femininas e masculinas inconscientes que habitam cada ser. Sem essa integração, o sujeito se relaciona de forma projetiva e inconsciente, buscando no outro a completude que falta em si, o que pode gerar relações marcadas pela compulsividade, promiscuidade ou idealização perigosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Assim, o comportamento sexual de risco pode ser visto como expressão da fuga da consciência de si, uma tentativa de resolver no outro um vazio interno, uma carência de sentido ou amor-próprio. O comportamento de risco, então, pode ser uma tentativa inconsciente de confronto com a sombra em que o indivíduo desafia a morte, a doença, a moral, porque precisa sentir algo autêntico, mesmo que destrutivo. Alguns relatos clínicos que ouvi, pessoas com HIV relataram que o momento do diagnóstico foi o primeiro encontro real consigo mesmas ou um “chamado à alma”, para o autoamor e o autocuidado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">A sexualidade vivida de forma compulsiva e promíscua, sem proteção, pode estar ligada ao desejo inconsciente de morte (mesmo simbólica) de muitos aspectos sombrios. Muitos jovens hoje romantizam relações marcadas por riscos, com falas como “não gosto de camisinha” ou “sexo é bom com perigo”, mostrando uma fusão inconsciente entre prazer e morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Essa dinâmica é observável na ascensão de casos de HIV entre jovens homossexuais e bissexuais, que apesar de terem informação e acesso à PrEP (profilaxia pré-exposição) muitas vezes optam por relações desprotegidas, fenômeno descrito como “bug chasing” (busca deliberada por infecção), que pode ser interpretado, à luz de Jung, como um desejo de iniciação arquetípica pela dor.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">A saúde pública tradicionalmente atua sobre o comportamento e o corpo, mas ignora a subjetividade e o inconsciente. Uma abordagem mais integrativa exigiria reconhecer que a prevenção de HIV e ISTs não é só técnica, mas também simbólica, emocional e espiritual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-bem-diz-jung" style="font-size:19.5px">Como bem diz Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19.5px"><blockquote><p>Já não é possível hoje em dia passar por cima da importante realidade psicológica da sexualidade com ar de deboche ou com indignação moral. Começa-se a incluir a questão sexual no círculo dos grandes problemas e a discuti-la com a seriedade que sua importância merece. </p><cite>(JUNG 2019, p. 112, &amp; 212)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4">Para finalizar a brilhante reflexão:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19.5px"><blockquote><p>O confronto com a nossa própria alma, com a anima e o animus, com o feminino e o masculino, pode ter uma forma sexual. O amor por si mesmo e o amor pelos outros são experimentados corporalmente na sexualidade, seja através de fantasias ou de atividades. Em nenhum outro lugar a união de todos os opostos, a <em>unio mystica</em>, o <em>mysterium coniunctionis</em>, expressa-se de modo mais impressionante que na linguagem do erotismo.&nbsp;</p><cite> ( Guggenbuhl-Craig.2024, p.119)</cite></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: PROMISCUIDADE SEXUAL COMO EXPRESSÃO SIMBÓLICA DA SOMBRA COLETIVA" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Jow7v8pZnq8?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/mariaivanilde/">Maria Ivanilde Alves &#8211; Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Membro Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas" style="font-size:19.5px">REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Direção-Geral da Saúde. 2022.</strong> Serviço Nacional de Saúde. <em>Site do Serviço Nacional de Saúde Português. </em>[Online] 25 de Novembro de 2022. https://www.sns24.gov.pt/tema/saude-sexual-e-reprodutiva/comportamentos-sexuais-de-risco/.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Jung, Carl Gustav. 2013.</strong><em>Obras Completas 10/3 &#8211; Civilização em Transição. </em>Petrópolis&nbsp;: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Jung, Carl Gustav</strong>. Obras Completas 8/2 &#8211; A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Jung, Carl Gustav</strong>.Obras completas 7/2 &#8211; O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>CAVALCANTI, R; CAVALCANTI, M</strong>. &#8211; Tratamento Clínico das Inadequações Sexuais. 5.ed. Payá, 2022</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Zweig, Connie et all</strong> &#8211; Ao Encontro da Sombra- O potencial oculto do lado escuro da natureza humana. Cultrix, 2024</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Boletim Epidemiológico HIV/AIDS 2023</strong>. Ministério da Saúde.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-vivid-green-cyan-color has-text-color has-link-color wp-elements-2" id="h-canais-ijep" style="font-size:22px"><strong>Canais IJEP:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Pós-graduações </strong>&#8211; Certificado pelo MEC &#8211; 2 anos de duração- Psicologia Junguiana; Arteterapia e Expressões Criativas; Psicossomática; Matrículas abertas: <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>YouTube</strong>: <a href="https://www.youtube.com/@IJEPJung/videos">+700 vídeos de conteúdo junguiano</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10852" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-1200x675.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1.png 1280w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Acompanhe nossa próxima Live no Youtube</strong>: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Sif564zwnow">Homem com H &#8211; Desvendando o Complexo Paterno</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Sexo, Gênero, Comportamento de Gênero e Sexualidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sexo-genero-comportamento-de-genero-e-sexualidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriel Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Dec 2024 13:51:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[gênero]]></category>
		<category><![CDATA[junguiano]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O advento das redes sociais trouxe a público discussões que antes se restringiam à círculos profissionais e acadêmicos. Nas duas últimas décadas temos visto termos acadêmicos ganharem notoriedade em discussões populares. Um grupo temático que ganhou especial notoriedade nas discussões das redes sociais das últimas décadas é o da sexualidade, gênero e identidade sexual. Termos [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O advento das redes sociais trouxe a público discussões que antes se restringiam à círculos profissionais e acadêmicos. Nas duas últimas décadas temos visto termos acadêmicos ganharem notoriedade em discussões populares. Um grupo temático que ganhou especial notoriedade nas discussões das redes sociais das últimas décadas é o da <strong>sexualidade, gênero e identidade sexual</strong>. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-termos-como-transgenero-cisgenero-assexual-intersexual-dentre-outros-ganharam-notoriedade-antes-desconhecida-mas-na-maioria-das-vezes-de-modo-confuso" style="font-size:17px">Termos como transgênero, cisgênero, assexual, intersexual, dentre outros, ganharam notoriedade antes desconhecida, mas, na maioria das vezes, de modo confuso.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse artigo me proponho a uma tarefa dupla: a primeira é fazer uma explanação breve diferenciando quatro conceitos básicos nessa temática: sexo biológico, sexualidade, identidade de gênero e comportamento de gênero; a segunda é tentar <strong>associar essas diferentes dimensões da experiência humana à perspectiva da psicologia analítica</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até muito pouco tempo esses quatro conceitos estavam fusionados num só entendimento. Ou seja, se um sujeito possui o sexo biológico masculino, se entenderá homem, se sentirá atraído sexualmente por mulheres e se comportará de acordo com o que a sociedade espera de um homem (e o oposto para quem possui o sexo biológico feminino). Nesse entendimento não haveria espaço para flexibilizar a experiência do sujeito para além do binário macho-fêmea tradicional, padrão infelizmente ainda dominante, nomeado heteronormatividade. Entretanto, uma série de movimentos do século passado começaram a erodir esse entendimento. O feminismo, a entrada da mulher no mercado de trabalho e a ascensão da luta LGBTQIA+ desvelaram as muitas possibilidades de se viver essas dimensões que se encontravam ocultas sob o manto do suposto normal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-longo-do-seculo-passado-foi-se-formando-um-novo-entendimento-sobre-como-poderiamos-entender-essas-dimensoes" style="font-size:17px">Ao longo do século passado, foi se formando um novo entendimento sobre como poderíamos entender essas dimensões.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O crescente número de variações que surgiam tornava o entendimento binário cada vez menos útil. No final da década de 1940, Alfred Kinsey propôs uma escala para representar a sexualidade humana, de acordo com seus achados. A escala proposta por ele varia de zero a seis, o zero representando indivíduos totalmente heterossexuais e o seis indivíduos totalmente homossexuais, com os demais números representando gradações de bissexualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia da escala de Kinsey se popularizou e com o tempo foi sendo adaptada, eventualmente a noção de uma escala numérica foi sendo abandonada e começou se a usar o termo espectro para se falar desses temas, aludindo à ideia do espectro de ondas eletromagnéticas ou simplesmente ou espectro luminoso.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-interessante-perceber-que-jung-em-a-natureza-da-psique-vai-usar-metafora-similar-para-falar-sobre-os-elementos-do-inconsciente-instintos-e-arquetipos-e-suas-intrincadas-relacoes" style="font-size:17px">É interessante perceber que <strong>Jung</strong>, em <em>A Natureza da Psique</em>, vai usar metáfora similar para falar sobre os elementos do inconsciente, instintos e arquétipos, e suas intrincadas relações.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O uso dessas metáforas é interessante em ambos os casos pois dá conta de sistemas complexos de maneira mais adequada que um binarismo rígido que não consegue representar as nuances e variações entre um polo e outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira dimensão que precisamos definir nesse debate é a que, historicamente, tem sido usada para se reduzir todas as demais a uma suposta unidade, o sexo biológico. Sexo biológico (ou só sexo mesmo) diz respeito às características anatômicas e fisiológicas de um indivíduo, especialmente no que diz respeito aos caracteres sexuais primários (ou seja, quais órgãos reprodutivos aquela pessoa possui) mas também alguns caracteres sexuais secundários (distribuição de pelos, gordura, músculos, tom de voz, entre outros).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Inicialmente se entendia essa dimensão a partir de um binômio simples, ou o sexo biológico é macho ou é fêmea. Entretanto, o debate recente tem buscado incluir o entendimento de que a biologia humana é mais complexa que isso, é que há variações que precisam ser levadas em consideração, é o que chamamos de intersexo. </p>



<p class="wp-block-paragraph">O indivíduo intersexual é aquele que possui uma ou mais variações anatômicas, genéticas ou hormonais que não se encaixam plenamente no entendimento do que é macho ou fêmea. Por exemplo, indivíduos com cariótipos outros que XX e XY, ou com genitália ambígua podem se entender como intersexuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O debate de se esses indivíduos deveriam se adequar ao padrão binário macho-fêmea é antigo, mas o argumento de que fazer ou não essa adequação deve ser uma escolha do indivíduo tem ganhado cada vez mais força nas últimas décadas. Logo, podemos pensar mais num espectro do sexo biológico que fica entre o corpo de fêmea e o corpo de macho com suas variações entre eles.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-obra-de-jung-podemos-encontrar-a-questao-do-sexo-biologico-sendo-discutido-na-questao-do-corpo" style="font-size:18px">Na obra de <strong>Jung</strong> podemos encontrar a questão do sexo biológico sendo discutido na questão do corpo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O corpo ocupa um lugar de grande importância em psicologia analítica: é a partir da experiência do corpo que se forma o complexo de ego, o fulcro da vida consciente do indivíduo. Se o ego se forma a partir da experiência do corpo, é de se esperar que haja um certo grau de correspondência entre esse corpo e as imagens psíquicas que formam o ego, o que explicaria o entendimento dominante de que é necessário que haja concordância entre sexo biológico e gênero. Entretanto Jung afirma que os processos do corpo e os processos mentais são simultâneos, ou seja, andam, juntos. Não havendo precedência de um sobre o outro. Há de se imaginar, então, que não é só o elemento corporal exerce influência sobre as dimensões desse debate, e é a partir daqui que entramos na próxima dimensão, o gênero.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O gênero está, historicamente, atrelado à ideia de sexo biológico. Apesar de muitos vincularem gênero apenas à biologia do indivíduo, esse na realidade também está vinculado às distinções sociais e culturais que se faz entre o que é um homem e o que é uma mulher e quais papéis cada um ocupa na sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No pensamento ocidental, tradicionalmente, o gênero é subentendido a partir do sexo biológico, ou seja, quem nasce com genitália masculina é homem, e quem nasce com genitália feminina é mulher. Mas nem todas as sociedades possuíam esse mesmo entendimento. Na Índia, por exemplo, até hoje, a figura das hijiras desafia o entendimento de gênero binário. Nas américas pré-coloniais também há diversos registros de sociedades com mais de dois gêneros. Na nossa sociedade pessoas cujo gênero não se identifica com seu sexo biológico tem se entendido como pessoas trans. O termo trans vem do latim, e significa “do outro lado” ou “do lado oposto”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pessoas-trans-podem-ser-travestis-transexuais-ou-mesmo-pessoas-que-nao-se-identificam-com-nenhum-dos-dois-generos-conhecidos-como-nao-binarios-ageneros-ou-genero-fluidos" style="font-size:17px">Pessoas <strong>trans </strong>podem ser travestis, transexuais ou mesmo pessoas que não se identificam com nenhum dos dois gêneros, conhecidos como não-binários, agêneros ou gênero-fluidos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esses indivíduos não se sentem confortáveis com a identidade que seus sexos biológicos geralmente subentendem, o que pode ser motivo de forte desconforto psíquico. Por muitos anos essa condição foi entendida como disforia de gênero e era patologizada e classificada pela OMS como doença. Em 2018 a OMS anunciou a retirada dessa condição do CID (Código Internacional da Doença), o que foi considerado um avanço para essa população. Pessoas que se identificam com seus sexos biológicos, por outro lado, são chamados cisgêneros (o prefixo cis vem do latim e significa “do mesmo lado”). Essa expressão é usada simplesmente para definir alguém que não é trans. Aqui podemos pensar num espectro também, que compreende a cisgeneridade numa ponta, a transgeneridade na outra com indivíduos gênero-fluido ou não binários ocupando lugares no meio do caminho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-presenca-recorrente-de-padroes-simbolicos-ou-de-comportamento-em-diferentes-culturas-e-tempos-e-forte-indicativo-da-presenca-da-atuacao-de-elementos-arquetipicos" style="font-size:18px">A presença recorrente de padrões simbólicos ou de comportamento em diferentes culturas e tempos é forte indicativo da presença da atuação de elementos arquetípicos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como vimos anteriormente, o que hoje entendemos como transgeneridade não é novidade, sempre esteve presente em diferentes lugares do mundo. Há de se pensar também que a transgeneridade não é uma escolha: pessoas transgênero relatam que vivem sua condição porque assim se entendem, sem ter poder para escolher viver suas identidades de maneira distinta, o que evidencia ainda mais o papel do inconsciente em definir tais vivências. Por ser uma questão de identidade, o gênero está intimamente ligado ao ego. Num pensamento mais tradicional poderíamos imaginar que aqui também encontraríamos questões relativas à persona, mas essa parece estar mais intimamente ligada à próxima dimensão, o comportamento de gênero.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-comportamento-de-genero-diz-respeito-a-como-um-individuo-expressa-seu-genero" style="font-size:18px">Comportamento de gênero diz respeito a como um indivíduo expressa seu gênero.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, se a pessoa se comporta ou não de acordo com o que a sociedade espera dela de acordo com seu gênero. Como a pessoa se veste, como fala, como gesticula, que tipo de interesses possui, quais hobbies pratica e até mesmo qual profissão exerce, tudo isso pode ser entendido como adequado ou não a um gênero, dependendo das regras sociais locais. Por exemplo, um homem que veste roupas entendidas como femininas pode ser entendido como feminino, e, portanto, em discordância do que se espera dele como homem. Uma mulher numa profissão como mecânica de automóveis choca algumas pessoas, enquanto dificilmente alguém questionará uma enfermeira em sua feminilidade. Aqui o que está em jogo é se o comportamento do indivíduo se adequa ou não às normas sociais do que é masculino e feminino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-obviamente-os-elementos-que-compoe-essas-expressoes-sao-criacoes-coletivas-e-portanto-variam-muito-de-lugar-para-lugar-e-ao-longo-da-historia" style="font-size:18px">Obviamente os elementos que compõe essas expressões são criações coletivas e, portanto, variam muito de lugar para lugar e ao longo da história.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um exemplo clássico é que um homem da corte francesa do século XVIII, com sua peruca empoada e seu sapato de salto, dificilmente seria considerado masculino atualmente.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Aqui temos em jogo a questão das personas</strong>: da persona que a pessoa se sente confortável em expressar e a persona que se espera que ela possua por sua condição de sexo biológico e gênero. Mas, novamente, as coisas aqui estão melhor representadas num espectro do que num binário simples. Ou seja, um espectro que vai da maior adequação à menor adequação às expectativas de gênero.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A última dimensão a ser apresentada é a sexualidade. Sexualidade diz respeito a atração e desejo sexual de um indivíduo em relação a um determinado sexo. Aqui temos a tradicional distinção entre heterossexuais (pessoas que se sentem atraídas por pessoas do gênero oposto), homossexuais (pessoas atraídas por pessoas do mesmo gênero) e bissexuais (pessoas que se sentem atraídas por pessoas de ambos os gêneros). Entretanto, já há algum tempo se fala sobre indivíduos que não se encaixam em nenhuma dessas categorias pois não apresentam desejo sexual ou o apresentam muito raramente, essas pessoas são entendidas como assexuais (importante frisar que o termo assexuado é considerado inadequado).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais recentemente, a <strong>demissexualidade</strong> também passou a ser mais amplamente discutida &#8211; a condição do indivíduo que só sente atração sexual se no contexto de um vínculo afetivo <em>a priori.</em> Podemos pensar então em dois eixos do espectro: o primeiro compreendendo a hetero e homossexualidade como seus extremos com as várias nuances de bissexualidade entre eles; e um segundo eixo com a assexualidade num extremo, a alossexualidade (condição de quem sente desejo ou atração sexual regularmente) no outro e a demissexualidade no intervalo entre essas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-a-sexualidade-esta-intimamente-ligada-a-ideia-do-par-opositivo-mulher-e-homem-e-respectivamente-seu-animus-e-anima" style="font-size:18px">Para Jung, a sexualidade está intimamente ligada à ideia do par opositivo mulher e homem e respectivamente seu animus e anima.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como nota Hopcke, Jung pouco menciona a homossexualidade em suas obras (a bissexualidade idem). Mas, verdade seja dita, Jung não estava tão preocupado com os aspectos externos da sexualidade quanto com a realidade interna que essas evocam. Além do que, havia pouco foco no estudo na época de qualquer coisa que escapasse da lógica cis e heterossexual. No entanto, acho interessante ressaltar que um dos mais antigos textos sobre o amor no ocidente dá conta claramente de uma maior variedade possível de encontros entre gêneros do que o binário homem e mulher. Trata-se da fala creditada a Aristófanes no <em>Banquete de Platão</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-aristofanes" style="font-size:16px">Segundo Aristófanes:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>Eis por que eram três os gêneros, e tal a sua constituição, porque o masculino de início era descendente do sol, o feminino da terra, e o que tinha de ambos era da lua, pois também a lua tem de ambos; e eram assim circulares, tanto eles próprios como a sua locomoção, por terem semelhantes genitores. Eram, por conseguinte de uma força e de um vigor terríveis, e uma grande presunção eles tinham; mas voltaram-se contra os deuses, e o que diz Homero de Efialtes e de Otes é a eles que se refere, a tentativa de fazer uma escalada ao céu, para investir contra os deuses.</p><cite> O Banquete, Platão</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O texto segue descrevendo como Zeus, auxiliado por Apolo, divide os três tipos de humanos ao meio, gerando homens que gostavam de homens, homens que gostavam de mulheres e mulheres que gostavam de mulheres. De tal maneira a narrativa dá conta não só de diferentes sexualidades e afetividades como também propõe a ideia de um terceiro gênero, que como presença mitológica, possui natureza arquetípica tanto quando o masculino e o feminino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-proprio-jung-tece-comentarios-acerca-do-arquetipo-do-hermafrodita-em-relacao-a-homossexualidade" style="font-size:17px">O próprio Jung tece comentários acerca do arquétipo do hermafrodita em relação a homossexualidade:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>Em vista da conhecida frequência deste último fenômeno, concebê-lo como uma perversão patológica é extremamente questionável. Segundo as descobertas da psicologia, trata-se mais de um desligamento incompleto do arquétipo hermafrodita, unido a uma resistência expressa a identificar-se com o papel de um ser sexual unilateral. Uma tal disposição não deve ser julgada sempre como negativa, posto que conserva o tipo humano originário que, de certa maneira, se perde no ser sexualmente unilateral.</p><cite>JUNG, OC 9.1 §146</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Como dito anteriormente, o entendimento popular sobre as dimensões acima só se tornou mais amplo nas últimas décadas. Apenas a sexualidade como uma categoria à parte das demais era contemplada e, mesmo assim, a partir da noção de que seria normal e do que seria um desvio. Para muitos, a distinção de tais dimensões do que é sexo e gênero ainda é algo confuso, até considerado falso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Espero que esse texto ajude a esclarecer algumas dessas categorias que para alguns são familiares, mas para muitos são novidade no mundo dos relacionamentos humanos, lembrando que, evidentemente, há muito mais para falarmos a respeito desses temas.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/gabriel/">Gabriel Andrade &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia" style="font-size:18px">Bibliografia:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">CONNELL, R. PEARSE, R. <em>Gênero: uma Perspectiva global</em>. 3ª ed. São Paulo: nVersos, 2015</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">HOPCKE, R. H. <em>Jung, junguianos e a homossexualidade</em>. São Paulo. Siciliano, 1993</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG C. G. <em>A Natureza da Psique</em>. 10.ed. Petrópolis, Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG C. G. <em>A Vida Simbólica </em>Vol 1. 7. ed. Petrópolis, Vozes, 2015</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG C. G. <em>Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo</em>. 11.ed. Petrópolis, Vozes, 2014</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">PLATÃO. <em>O Banquete </em>– Versão digital do site Domínio Público, disponível em www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000048.pdf</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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		<title>O Armário como símbolo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-armario-como-simbolo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriel Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jul 2024 19:17:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[armário]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[lgbtgia+]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na visão junguiana, símbolo é a melhor representação possível de alguma coisa que jamais poderá ser conhecida plenamente. No entanto, isso não significa que não possamos estudar um símbolo, buscar entender como ele se relaciona com o mundo ao nosso redor e com nós mesmos, mesmo sabendo que nossa tarefa nunca será completa. Nesse ensaio busco exatamente isso, costurar fatos e visões sobre um símbolo, o armário, mas não qualquer armário, o armário LGBTQIA+, aquele que fala de uma certa vergonha e de um certo orgulho. Não espero aqui esgotar o que pode ser dito sobre o tema, nem contemplar todas as possibilidades e vivências possíveis nesse universo. Mas espero ampliar a visão sobre um símbolo que dá conta de uma vivência muito particular das minorias de gênero e sexualidade.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Na visão junguiana, símbolo é a melhor representação possível de alguma coisa que jamais poderá ser conhecida plenamente. No entanto, isso não significa que não possamos estudar um símbolo, buscar entender como ele se relaciona com o mundo ao nosso redor e com nós mesmos, mesmo sabendo que nossa tarefa nunca será completa. Nesse ensaio busco exatamente isso, costurar fatos e visões sobre um símbolo, o armário, mas não qualquer armário, o armário LGBTQIA+, aquele que fala de uma certa vergonha e de um certo orgulho. Não espero aqui esgotar o que pode ser dito sobre o tema, nem contemplar todas as possibilidades e vivências possíveis nesse universo. Mas espero ampliar a visão sobre um símbolo que dá conta de uma vivência muito particular das minorias de gênero e sexualidade.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos começar buscando a origem desse símbolo, de como começamos a usar o termo armário para nos referirmos à condição de uma sexualidade ou identidade de gênero que não tornamos pública, que é vivida de maneira escondida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos começar buscando a <strong>origem desse símbolo</strong>, de como começamos a usar o termo <strong>armário</strong> para nos referirmos à condição de uma sexualidade ou identidade de gênero que não tornamos pública, que é vivida de maneira escondida. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-termo-sair-do-armario-surge-nos-estados-unidos-e-parece-ter-se-popularizado-apenas-apos-a-decada-de-60" style="font-size:18px">O termo “sair do armário” surge nos Estados Unidos, e parece ter se popularizado apenas após a década de 60.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O termo original “to come out of the closet” foi formado a partir de duas outras expressões.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira, “<em><strong>to come out</strong></em>” diz respeito àquilo que no Brasil conhecemos por debutar: uma espécie de iniciação social de uma mulher jovem à vida adulta, a festa no qual uma moça jovem é apresentada à sociedade (e a candidatos a marido). Na década de 30 nos EUA, homossexuais começaram a usar o termo (<em>to come out</em>) como uma referência para entrar no mundo social gay. A princípio esse <em>debut</em> se dava com os pares, e por vezes numa festa. Era um marco de entrada num mundo social específico frequentado por pessoas homossexuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A segunda parte da expressão parece ter vindo de uma outra expressão idiomática da língua inglesa “<em>to have a skeleton in the closet</em>”. Literalmente &#8220;ter um esqueleto no armário&#8221; que significa ter um segredo embaraçoso ou um fato escondido sobre a própria vida, que pode ferir sua reputação caso revelado. Como para a maioria a homossexualidade era vivida como uma vergonha, essa era um “<em>skeleton in the closet</em>”, algo a ser escondido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-eventualmente-as-duas-expressoes-se-fundiram-no-termo-que-conhecemos-hoje-to-come-out-of-the-closet-que-pelo-capricho-da-traducao-no-brasil-tornou-se-sair-do-armario" style="font-size:17px">Eventualmente as duas expressões se fundiram no termo que conhecemos hoje “<em>to come out of the closet</em>”. Que, pelo capricho da tradução, no Brasil tornou-se sair do armário.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A força que o pensamento pró-direitos dos homossexuais ganhou nos EUA pós-<strong>Stonewall</strong> acabou por exportar a expressão que acabou se popularizando não só em português, mas também em espanhol e francês. <strong>Se olharmos para a origem dessa expressão percebemos algo que é muito comum em símbolos: a ambiguidade</strong>. A expressão surge de um elemento festivo, de aceitação, de orgulho (o debutar), e de um elemento de vergonha (o armário com seus esqueletos).&nbsp;E é exatamente entre esses polos que pendula a experiência de sair do armário da maioria das pessoas LGBTQIA+.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>No entanto, essa é uma análise de uma dimensão social do símbolo, coletiva</strong>. Precisamos entender melhor como é a vivência individual dos eventos que esse símbolo representa. E para a pessoa LGBTQIA+ o armário não surge dessa ambiguidade, mas sim do polo da vergonha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-armarios-nao-surgem-do-nada"><strong>Armários não surgem do nada</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para o filósofo francês <strong>Didier Eribon</strong>, a injúria é um elemento marcante da vivência dos homossexuais (e aqui estendo esse entendimento aos demais grupos LGBTQIA+). E é exatamente a injúria que costuma ser a razão pela qual o armário surge na vida de alguém. </p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O armário não é um evento natural.</strong> <strong>É a consequência de ser desviante numa sociedade que tem em si papéis de gênero e sexualidade muito bem estruturados</strong>. <strong>Normas que dizem o que pode e o que não pode ser vivido e expresso</strong>.<strong> E mais que isso, como tratar aqueles que violam tais normas.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desde-muito-cedo-todos-somos-ensinados-formas-corretas-de-ser-em-relacao-ao-nosso-genero-a-respeito-de-quem-somos-e-como-devemos-nos-portar" style="font-size:18px">Desde muito cedo, todos somos ensinados formas “corretas” de ser em relação ao nosso gênero, a respeito de quem somos e como devemos nos portar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E eventualmente também descobrimos que, quando pisamos fora da linha, há consequências, muitas vezes violentas. Frequentemente, é dentro de casa que primeiro a criança se entende “errada” no seu jeito de ser. É o menino que gosta de coisas de menina &#8211; que é afeminado &#8211; ou a menina que só quer brincar com os meninos &#8211; que não é uma <em>princesinha</em>. Na escola, a punição por sair da norma se repete: meninos devem se portar de um jeito, meninas de outro! Na igreja, entre os amigos da vizinhança, com a família extensa, em vários momentos somos lembrados que ser menino e ser menina tem norma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a maioria não haverá grandes problemas em se adequar a tais normas, excluir certos comportamentos, certos gostos, acontece quase sem custos, e a criança segue a diante. Mas para uma minoria, parece que há algo que as perturba. Abrir mão de seu jeito de ser “fora da norma” parece custar mais caro, o entendimento que há coisas de si que é necessário esconder desesperadamente do mundo surge cedo demais. Nas interações sociais aparece um lugar angustiado: é o armário nascendo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-medida-que-a-crianca-cresce-e-torna-se-adolescente-o-armario-cresce-e-se-transforma-com-ela" style="font-size:18px">À medida que a criança cresce e torna-se adolescente, o armário cresce e se transforma com ela.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Com a chegada da puberdade, surge o desejo sexual e o adolescente começa a ser confrontado com o fato de que as normas de gênero que ele vinha aprendendo desde a infância não diziam respeito apenas a como ele deveria se comportar, mas também a <em>com quem </em>e <em>como</em> ele deveria se relacionar. Mais uma vez, para a maioria, não haverá problemas em viver dentro da norma, o desejo fluirá facilmente rumo à heterossexualidade e a vida seguirá.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-para-uma-minoria-algo-de-perturbador-sera-vivido" style="font-size:18px">Mas para uma minoria, algo de perturbador será vivido.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns perceberão que seu desejo não está no sexo oposto, mas sim no mesmo sexo. Outros descobrirão que, apesar de desejarem pessoas do sexo oposto, também desejam pessoas do mesmo sexo. Outros descobrirão (ou talvez só percebam com mais clareza) que não se identificam com o gênero de nascimento. Outros se sentirão extremamente desconfortáveis em se colocar dentro das normas de gênero vigentes. Alguns até sentirão apatia em relação a qualquer dinâmica sexual. É para esses que o armário surgirá. Não como opção, mas como <strong>necessidade</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como já disse antes, fora das normas sociais de gênero e sexualidade há consequências claras (e violentas). Para evitar tais consequências o jovem se esconde no armário. E mais uma vez, fica clara como o armário é algo ambíguo. É um local que garante (ou ao menos tenta garantir) uma certa segurança nas relações sociais. Mas é também uma prisão em que não se pode habitar o mundo de maneira mais espontânea e alinhada com a própria interioridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Esconder-se no armário é uma maneira de garantir uma convivência tranquila na própria casa e com a família</strong>. <strong>É uma forma de não sofrer bullying na escola, de não ser perseguido no trabalho. Uma forma de ser aceito na igreja. Uma forma de ter um lugar entre os amigos, de viver sem lidar com uma série de coisas que não são fáceis de lidar, ainda mais na juventude.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-tal-seguranca-vem-a-um-custo-elevado-a-fidelidade-a-si-proprio" style="font-size:19px">Mas tal segurança vem a um custo elevado: a fidelidade a si próprio.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Dentro do armário uma pessoa não pode viver seus desejos, ou se os vive, o faz nas sombras, escondida dos outros. E aqui não falo apenas dos aspectos sexuais do desejo, mas também do desejo de se expressar. A possibilidade de se expressar livremente torna-se um risco. Assim, a pessoa passa a adotar comportamentos típicos da norma de gênero &#8211; não porque se identifica com eles, mas para evitar ser detectada em seu “desvio”. Quando menos se espera, a pessoa percebe que viver dentro do armário já é o seu normal. Que o habita cotidianamente e que já tem nele algo certo em sua vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-que-e-feito-um-armario">Do que é feito um armário?</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>É difícil dar conta de tudo que compõe um armário, todos serão feitos sob medida para o indivíduo e seu meio</strong>. No entanto alguns elementos são essenciais, a mentira a respeito de quem se é e o que se deseja é inegável. Talvez seja o que é mais elementar para que o armário possa exercer seu papel de esconderijo. Para ficar dentro do armário é necessário, para muitos, esconder seus interesses e gostos, opiniões, forma de falar, de andar, de gesticular. É necessário um amplo patrulhamento das formas de se expressar. Para alguns isso é mais fácil que para outros. Para uns é uma tarefa quase que impossível (a brincadeira maldosa a respeito desses últimos é que seu armário seria uma cristaleira – a pessoa pode estar escondida, mas todo mundo a vê, pois as portas são de vidro).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-quem-conhece-a-psicologia-analitica-e-facil-perceber-que-esses-elementos-que-compoe-o-armario-fazem-parte-de-um-complexo-especifico-a-persona" style="font-size:17px">Para quem conhece a psicologia analítica, é fácil perceber que esses elementos que compõe o armário fazem parte de um complexo específico, a persona.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>É interessante lembrar que a persona é o complexo que nos adapta ao mundo exterior</strong> e que não é constituída de aspectos de elementos individuais, mas sim de elementos da psique social que o indivíduo arranja de uma forma a se apresentar ao mundo. Para a maioria, esse arranjo da persona se dará seguindo facilmente os limites dados pelas normas sociais. Mas para pessoas LGBTQIA+ esse arranjo parece ser mais tenso.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Há um certo descompasso entre os elementos de persona disponíveis para cada gênero e aquilo que parece mais autêntico para o indivíduo</strong>. Um homem pode se ver forçado a abandonar certos gostos por serem femininos. Uma mulher se vê forçada a se comportar como uma princesinha para ser aceita. Uma pessoa trans vai performar seu gênero de nascimento, apesar de não se sentir de forma alguma identificada com ele. Uma pessoa assexual vai fingir desejo para não ser entendida como estranha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então podemos dizer que armário é feito, dentre outras coisas, de <strong>elementos da persona</strong> que, apesar de funcionais para sua função adaptativa em relação ao mundo exterior, encontram-se em profundo <strong>descompasso com a interioridade da pessoa</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-ha-consequencias-nesse-descompasso-fechada-dentro-de-um-armario-desencontrada-de-si-mesmo-a-pessoa-esta-na-escuridao" style="font-size:19px">E há consequências nesse descompasso: fechada dentro de um armário, desencontrada de si mesmo, a pessoa está na escuridão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez até aqui o texto possa ter passado a impressão de que a construção do armário é uma empreitada consciente do indivíduo, mas não é bem o caso. Há algo de consciente num armário, sem dúvida, mas há muita sombra também. Muito do que alguém esconde para estar no armário é escondido tão cedo na vida que é completamente esquecido. Certas atitudes escolhidas a dedo para mascarar um desejo se tornam tão habituais que se tornam automáticas e passa-se a acreditar que são espontâneas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Negar-se quem se é se torna tão cotidiano que vai se esquecendo de si. A persona do armário vai cobrando seu preço. O preço que qualquer um paga por investir em demasia numa persona: a desconexão com seu próprio mundo interior. A escuridão do armário vai se tornando uma escuridão interna, da própria alma</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-viver-no-escuro-do-armario">Viver no escuro do armário</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Viver dentro do armário tem uma série de consequências, e talvez uma das mais importantes seja a <strong>dificuldade de lidar consigo próprio</strong>. <strong>Ter de fazer um constante esforço para manter uma persona drena uma quantidade de energia significativa da vida. E se interiorizar-se pode ser uma tarefa demasiado dolorosa</strong>. Com o desejo nas sombras, projeções de toda natureza estão livres para acontecer e as relações da pessoa podem ficar prejudicadas, especialmente as relações com outras pessoas LGBTQIA+.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O constante patrulhamento de si pode virar um patrulhar dos outros</strong>. Ou até mesmo alimentar uma paranoia que apenas tomará mais espaço da vida do indivíduo. Paixões proibidas podem virar obsessões venenosas, desejos ocultos podem virar parafilias. <strong>A constante negação de si pode virar ódio e se voltar contra si na forma de comportamentos autodestrutivos</strong>. O cenário desenhado aqui certamente parece sombrio, mas a verdade é que cada um viverá seu armário de maneira muito peculiar e cada um terá maior e menor dificuldade com cada aspecto dele, mas dificilmente alguém sai impune de viver lá.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Infelizmente nem todos poderão sair do armário, muitos terão de viver lá por algum tempo (ou até indefinidamente). Seja porque dependem de uma família que não aceita sua sexualidade, seja porque é perigoso fazê-lo, física ou psicologicamente. Seja porque seu ganha pão depende disso. <strong>Sair do armário é uma decisão que cada um deve tomar por si</strong>. <strong>Não há nem momento nem forma certa de fazê-lo, há apenas tempos e formas possíveis</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-escuro-do-armario-para-a-luz-do-dia">Do escuro do armário para a luz do dia</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sair do armário não é uma tarefa fácil, tampouco é uma tarefa única. Para a maioria, esse evento se dará muitas vezes, talvez se repetindo de novo e de novo ao longo da vida. Mas há um momento de saída, um que todos tem de passar se quiserem se pacificar com sua condição LGBTQIA+: <strong>sair do armário para si mesmo</strong>. Esse primeiro momento de admitir para si mesmo quem se é e o que se deseja é fundamental para dar sequência a qualquer outro movimento em relação a sua própria sexualidade e/ou gênero. É só a partir do que será experimentado após esse movimento interno que se pode avaliar a possibilidade e como se lançar de fora do armário para o mundo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muitos-se-perguntam-sera-necessario-sair-do-armario-e-necessario-que-os-outros-fiquem-sabendo-da-sua-intimidade" style="font-size:20px">Muitos se perguntam: será necessário sair do armário? É necessário que os outros fiquem sabendo da sua intimidade?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E por um lado estão certos, ninguém precisa saber de detalhes da vida sexual dos outros ao se redor. Entretanto, <strong>ser LGBTQIA+ transcende o que acontece na intimidade do quarto</strong>. Para entendermos isso basta olhar para como vive um casal heterossexual: o casamento é uma cerimônia social e pública, todos esperam que um casal bem estabelecido viva junto, nas redes sociais postam fotos juntos e muitas vezes até fazem demonstrações públicas de afeto. Isso tudo faz parte de ser um casal, e se um casal LGBTQIA+ está no armário nada disso será possível.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Logo, assumir a própria sexualidade não é só uma questão de sexo. É uma questão que engloba todos os elementos da vida social que dizem respeito a uma vida a dois</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para pessoas trans a questão é de outra natureza: numa sociedade que a ideia de identidade está intimamente ligada à ideia de gênero, viver dentro do armário é uma impossibilidade de se viver de maneira minimamente espontânea no mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há muitas outras nuances dessa questão que não é possível cobrir aqui, mas creio que os exemplos anteriores bastam para deixar claro que sair do armário é maior do que só revelar um desejo ao mundo, é revelar uma identidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muitas-coisas-precisam-ser-consideradas-quando-se-pensa-em-sair-do-armario" style="font-size:19px">Muitas coisas precisam ser consideradas quando se pensa em sair do armário.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira provavelmente são as <strong>relações familiares</strong>: como meus pais vão reagir? Vou ser aceito? Posso sofrer alguma consequência dessa revelação? Essas são perguntas que frequentemente angustiam quem não se assumiu, e para muitos, o principal motivo de se manterem escondidos. A inclusão em seu meio social costuma ser outro motivo frequente de angústia. Especialmente quando se faz parte de algum <strong>grupo religioso</strong> que não é inclusivo com pessoas LGBTQIA+. O ambiente de trabalho também entra nessa contabilidade de motivos e, frequentemente, dentre pessoas em certas carreiras como militares, policiais ou entre pessoas que tem grande visibilidade pública (como artistas e políticos), muitos escolhem permanecer escondendo sua identidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-tambem-motivos-com-os-quais-simplesmente-nao-se-pode-negociar-sendo-o-principal-deles-a-violencia" style="font-size:20px"><strong>Há também motivos com os quais simplesmente não se pode negociar, sendo o principal deles a violência</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Pessoas LGBTQIA+ são vítimas frequentes de crimes de ódio, ou seja, são vitimizadas simplesmente por serem quem são</strong>. É importante lembrar que em alguns países essa violência é perpetrada pelo próprio estado que criminaliza os LGBTQIA+. Em alguns deles chegando a condenar à morte quem sai do armário ou é descoberto vivendo os desejos às escondidas. Para essas pessoas sair do armário só será possível se saírem do local onde vivem, o que implica em outras questões também complexas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Também é importante notar que muitas pessoas vivem parte de suas vidas dentro e parte fora do armário</strong>. Não é incomum que pessoas LGBTQIA+ mantenham <strong>vidas duplas</strong>, nunca assumindo sua condição para a família ou no trabalho, mas vivendo abertamente entre amigos e parceiros. Obviamente essa não é a melhor das situações, mas garante uma vida mais autêntica e saudável do que viver completamente no armário e é, por muitas vezes, a melhor saída possível.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-fora-do-armario">Fora do armário</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Sair do armário não soluciona a vida de ninguém, mas certamente torna muitas coisas mais simples e claras</strong>. Por outro lado, encontrar o mundo lá fora sem a proteção que o armário dava apresenta uma série de novos desafios. O primeiro será ter de lidar abertamente com as pequenas agressões do dia a dia, que por vezes ficarão mais intensas. Outro desafio é lidar com a vida familiar. Não é incomum pessoas LGBTQIA+ virarem o <strong>bode expiatório</strong> da família e muitas vezes haverá uma pressão (explícita ou não) de que a pessoa mude, “se torne normal”, ou volte para dentro do armário para garantir o bem e a respeitabilidade da família.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-comunidade-lgbtqia-e-outra-fonte-de-angustia-para-muitos-depois-de-se-assumir" style="font-size:18px">A comunidade LGBTQIA+ é outra fonte de angústia para muitos depois de se assumir.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos nutrem uma fantasia de encontrar um grupo especial de pessoas que os irá acolher de uma maneira que nunca foram antes, mas a realidade é diferente. <strong>Ser um grupo minoritário não significa não ter uma série de problemas, inclusive reproduzindo muitas das violências sofridas fora do grupo dentro dele</strong>. Para muitos, se deparar com essa realidade bem menos aprazível que o que imaginou é um choque e por vezes só reforça um sentimento de solidão já presente na fase do armário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao sair do armário, também é comum que a pessoa viva uma espécie de segunda adolescência, caso o faça já na vida adulta. É uma fase em que a pessoa tenta compensar a falta de uma série de experiências da juventude. Muitas vezes se envolvendo em situações que se espera de alguém muito mais jovem e com menos discernimento. No entanto, essa fase é importante para que a pessoa possa resgatar vivências que lhe foram interditadas anteriormente, só é necessário ter serenidade para fazê-lo evitando excessos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-desses-desafios-e-fora-do-armario-que-existe-uma-possibilidade-de-uma-vida-mais-completa" style="font-size:22px">Apesar desses desafios é fora do armário que existe uma possibilidade de uma vida mais completa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Poder se expressar e se relacionar autenticamente liberta muito da energia gasta na manutenção da persona do armário para outras atividades e facilita o processo de interiorização. Já que muitos desejos e medos deixam de ser fantasias e podem ser vividos e encarados na realidade de maneira mais madura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o indivíduo conseguir se voltar para seu inconsciente após sair do armário, poderá viver uma etapa mais avançada da saída do armário, <strong>a reconciliação com essa fase de sua vida</strong>. Poder revisitar o período que se sentiu impedido de se expressar e viver o que queria de maneira mais espontânea pode ser importante para permitir que a pessoa viva o momento presente menos atada às frustrações do passado. Facilitando, assim, o surgimento de novas atitudes na consciência, mais coerentes e funcionais com essa nova fase da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Há muito mais que se poderia falar sobre esse tema, há muitos mais meandros e especificidades que poderiam ser explorados, vivências e temporalidades específicas que merecem tanta atenção quanto os exemplos que foram dados aqui.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Espero que esse texto consiga trazer à luz um tanto da vergonha que viver dentro do armário impõe sobre uma vida, porque é essa vergonha que precisa ser trabalhada. É ela o motivo de falarmos Orgulho LGBTQIA+, não é um orgulho de simplesmente se ser LGBTQIA+, <strong>é o orgulho que precisamos encontrar para exorcizar a vergonha que encontramos quando o armário tomou conta de nossas vidas</strong>.</em></p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/gabriel/">Gabriel Andrade &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



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<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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			</item>
		<item>
		<title>Aspectos da Sexualidade (Parte 2)</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sexualidade-masculina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ivone Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Jun 2023 20:08:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[disfunção erétil]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade masculina]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7832</guid>

					<description><![CDATA[<p>A sexualidade faz parte fundamental do polo estruturante da personalidade e ela pode ser uma fonte de prazer, quanto de frustação, afetando diferentes pontos na vida do indivíduo.<br />
O inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo estão envolvidos nas relações humanas, quer seja nos aspectos sociais, trabalho, lazer, educação sexual. Nesse segundo texto sobre o tema, tecemos algumas considerações sobre o que poderia afetar a dinâmica da sexualidade masculina.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>No presente artigo vamos dar continuidade ao assunto da <strong>disfunção erétil</strong> sob a perspectiva da psicologia analítica junguiana, relacionando a interação com as forças da cultura, do desenvolvimento individual, dos relacionamentos interpessoais e da biologia</em>. <em>O sexo se faz a dois e essas questões estão presentes o tempo todo. Para tratar do problema é necessário saber o contexto e os aspectos que contribuem para manutenção dessa disfunção.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-desempenho-sexual-e-um-dos-aspectos-com-importante-contribuicao-para-o-bem-estar-psicologico-do-ser-humano">O desempenho sexual é um dos aspectos com importante contribuição para o bem-estar psicológico do ser humano.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A sexualidade faz parte fundamental do polo estruturante da identidade e da personalidade. Ela pode ser tanto uma fonte de prazer, quanto de frustação, afetando diferentes pontos da vida dos indivíduos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Abdo</strong> (2000), 48,1% dos homens refeririam ter algum tipo de disfunção sexual, como disfunção erétil e ejaculação precoce. Em um número significativo de indivíduos observa-se que não há problemas orgânicos, ou seja, a disfunção sexual é de origem emocional ou psicológica (GRASSI, 2004).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Recordando que estamos chamando de <strong>disfunção erétil</strong>, ou impotência sexual (uma das múltiplas disfunções sexuais), a incapacidade de o indivíduo alcançar ou manter ereções firmes. O pênis não fica suficientemente rígido (ereto) para permitir a penetração e o desempenho sexual satisfatório, isto é, o sangue não se mantem nele durante o tempo necessário para a ereção. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-inconsciente-pessoal-e-coletivo">Inconsciente pessoal e coletivo</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Jung</strong> (2014a, p.77), o inconsciente pessoal e o coletivo estão envolvidos nas relações humanas, quer sejam nos aspectos sociais, trabalho, laser, educação e na sexualidade. Como sabemos a atividade sexual é vivida em relação com o outro, e nessas relações trazemos para dentro do relacionamento à história de vida, lembranças perdidas no tempo, e demais aspectos que por falta de energia não atingiram a consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É o que Jung chamou de sombra, aspectos presentes no inconsciente pessoal de cada um de nós. Mas há uma outra camada, mais profunda, que ele chamou de inconsciente coletivo, onde não há o caráter pessoal, porque essas lembranças são universais e originais, são imagens ou motivos denominados arquétipos. </p>



<p class="wp-block-paragraph">O inconsciente coletivo compreende toda a vida psíquica dos antepassados desde os primórdios. É o pressuposto e a matriz de todos os fatos psíquicos e por isto exerce também uma influência que compromete altamente a liberdade da consciência, visto que tende constantemente a recolocar todos os processos conscientes em seus antigos trilhos. (JUNG, 2013a, p. 58)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-consciencia-individual-esta-condicionada-a-fatores-hereditarios-e-as-influencias-do-meio" style="font-size:22px">A consciência individual está condicionada a fatores hereditários e as influências do meio.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em certas civilizações antigas, principalmente os povos que viviam da agricultura, a identificação do sexo com a reprodução era um fator de sobrevivência do grupo; a atividade sexual representava a possibilidade de novos membros no grupo, o que significa ajuda na lavoura e defesa das terras contra a agressão de tribos vizinhas. O sêmen era um bem precioso e não podia ser desperdiçado com a masturbação por exemplo. Havia condenações aos praticantes da masturbação e parece que tal crença sobrevive até os nossos dias. (CAVALCANTI &amp; CAVALCANTI, 2006, p. 183)</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Príapo</strong>, deus mitológico da fruticultura, com seu falo ereto e disforme, é um exemplo típico da importância simbólica do pênis. Quanto maior o falo, mais resplandecente de força e fecundidade a representação priápica. A crendice do pênis como símbolo de força e poder ainda acontecer no pensamento moderno (CAVALCANTI &amp; CAVALCANTI, 2006, p. 183).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em uma interpretação reduzida, esse mito ainda consiste em uma fonte de alimento para a crença pretensiosa da superioridade masculina. No homem ainda hoje em dia observa-se essa relação do pênis grande, com o tamanho dos pés e nariz, correlacionando esses segmentos com a máxima de que “quanto maior o pênis mais macho” é esse homem (CAVALCANTI &amp; CAVALCANTI, 2006, p. 183).</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essas-crencas-podem-aprisionar-diferentes-homens-independentemente-de-sua-intelectualidade-e-por-conta-disso-sentem-se-frustrados-e-derrotados-sexualmente" style="font-size:18px">Essas crenças podem aprisionar diferentes homens, independentemente de sua intelectualidade e, por conta disso, sentem-se frustrados e derrotados sexualmente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos homens têm dificuldade em compreender que o “importante não é aquilo que ele tem, mas o que ele faz com aquilo que ele tem”. (CAVALCANTI &amp; CAVALCANTI, 2006, p. 183)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas crenças aparecem ainda nos dias de hoje reforçando a ideia de que mulheres gravidas tem menos desejo sexual, que idosos não tem atividades sexuais ou desejo, que as mulheres têm menos desejo sexual do que os homens ou menos necessidades sexuais. O estudo de Masters e Johnson (1984) demonstrou que homens e mulheres possuem as mesmas potencialidades na resposta sexual humana e que as mulheres ainda têm a possibilidade de obter múltiplos orgasmos numa mesma relação. Aquele período refratário observado no homem, não existe na mulher e sua resposta é diferente, conferindo uma vantagem feminina.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-respostas-sexuais-sao-diversas">As respostas sexuais são diversas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Cada um de nós carrega uma bagagem de vivencias, desde seu nascimento até os dias atuais. Todas as experiências vividas, sua interação familiar, sua cultura, seu habitat, terão influência em seu comportamento. E, desse modo, a resposta sexual será sempre única e própria: uma situação que aparentemente seria estimulante pode inibir o comportamento e a resposta sexual. A ignorância sexual é ainda uma das causas mais frequentes das disfunções sexuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A falta de informação e as distorções dos ensinamentos, seja devido a crenças religiosas ou sociais, podem determinar os mais variados distúrbios na atividade sexual. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Na relação a dois, o ideal seria que não houvesse controle de ambas as partes, mas sim um ambiente de liberdade e aceitação. Nem sempre isso acontece porque o medo de ser dominado pelo parceiro é maior e inconsciente.  Nestes casos poderíamos pressupor que na verdade ocorre um medo de perder o controle. Na realidade, a liberdade da consciência é relativa, temos sempre a possibilidade de sucumbir ao automatismo da psique inconsciente (JUNG, 2013a, p. 58).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essas-crencas-e-mitos-podem-afetar-o-desejo" style="font-size:23px">Essas crenças e mitos podem afetar o desejo</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essas crenças e mitos podem afetar o desejo. E, muitas vezes, observamos que a própria pessoa tem dificuldade em compreender sua diminuição de desejo sexual. Há um conceito mundial de que os homens têm naturalmente mais desejo por sexo e que este sempre está presente. Mas alguns têm dificuldade em expressar os desejos e motivações para o sexo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eles acreditam que tem desejo, mas quando o terapeuta começa à investigação sobre o comportamento sexual, é possível perceber a dificuldade deste homem em verbalizar todos os comportamentos relacionados ao desejo sexual: existência e frequência do coito, das masturbações, fantasias sexuais, sonhos etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se os homens compreenderem que a ereção não se relaciona com a diminuição ou falta de desejo sexual, as queixas eréteis serão mais visíveis e a tomada da consciência sobre essa questão facilitará a compreensão desse fenômeno. A disfunção erétil pode causar danos psicológicos como comprometimento da autoestima, dos relacionamentos interpessoais, menos relações sexuais por semana, mais relações extraconjugais, queixa de falta de desejo sexual e ejaculação rápida.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muitos-sao-os-aspectos-que-escapam-do-controle-da-consciencia">Muitos são os aspectos que escapam do controle da consciência</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos são os aspectos que escapam do controle da consciência. Nesse contexto, uma escuta mais ampliada sobre a queixa sexual é de fundamental importância. Muitos sonhos podem ser representativos de situações relacionadas a dificuldade de se obter a ereção adequada numa relação sexual. </p>



<p class="wp-block-paragraph">As parafilias, por exemplo, onde observa-se interesse por práticas eróticas em situações diferentes da média, desejos e excitação por objetos diferenciados e menos comum (sapatos, cheiros, dores), podem estar relacionados com alguns aspectos inconscientes. Essas não são queixas comuns nos consultórios, porque esses indivíduos sentem-se satisfeitos com o que tem, mas quando aparecem, surgem por uma inadequação sexual do casal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sexualidade faz parte da natureza humana e suas diversas manifestações atendem a busca arquetípica presente em todos nós pela totalidade. Todas as ideias e representações mais poderosas da humanidade remontam aos arquétipos. (JUNG, 2013a, p.103)</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O arquétipo é natureza pura</strong>, não deturpada e é de natureza que faz com que o homem pronuncie palavras e execute ações de cujo sentido ele não tem consciência, e tanto não tem, que ele já nem pensa mais nelas (JUNG, 2013a, p.412).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-eros-anima-e-animus-na-sexualidade">Eros, Anima e Animus na Sexualidade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo o que está no inconsciente pessoal corresponde as vivências individuais desde o nascimento, mas os conteúdos do inconsciente coletivo são arquétipos que existem sempre desde o início da vida. Os arquétipos que mais frequentemente perturbam o eu, são: a sombra, a <em>anima</em> e o <em>animus</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Jung</strong> (2013b, p.26) a <em>Anima</em> é o próprio feminino que se apresenta nos sonhos, visões, fantasias (corresponde as características do feminino) e o <em>Animus </em>corresponde aos caracteres masculinos (o lógico, o que tem poder, carrega a espada).  Na relação a dois, vamos observar através das projeções, esse princípio feminino aparecendo nos homens e o princípio masculino aparecendo nas mulheres. Conscientemente a tendencia nas mulheres seria uma preocupação maior com os relacionamentos, com a criação de vínculos (Eros) e os homens com aquisição de conhecimentos (Logos).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos homens, o <strong>Eros</strong>, que seria a função de relacionamento, estaria menos desenvolvido do que o Logos. Espera-se do homem a função de organizar, ir para fora, se desenvolver enquanto homem, se atirar na vida.  <strong>Para que isso ocorra  o filho  precisa se desvincular da mãe</strong>, precisa ter um Eros desleal a ponto de esquecer a mãe e abandonar sua primeira amada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A imagem poderosa da mãe na psique masculina só acontece porque tem sua origem do arquétipo da <em>Anima</em> que se encarna de novo em cada criança do sexo masculino (JUNG, 2013b, p.26). <strong>Sempre que uma emoção nos domina é sinal de que algum complexo foi ativado</strong>. As figuras parentais são fundamentais para a criança. Apesar disso, há uma tensão entre o que parece ser figuras dos pais “reais”, por um lado, e as imagens construídas a partir da interação do arquétipo e da experiência, pelo outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-complexos">Complexos</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong>  define “<strong>complexo afetivo</strong>” como a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude da consciência (2013a, p. 43). Somos tomados pelo complexo quando constelado e estranhamos as atitudes tomadas, sem podermos controlar, apesar de estarmos acordados e vivenciando esse momento. </p>



<p class="wp-block-paragraph">São atitudes incompatíveis com as nossas crenças ou valores. Aqueles momentos que esquecemos o nome das pessoas que estamos apresentando, falamos palavras erradas, derrubamos cadeiras quando se quer passar despercebido, enfim, situações totalmente fora do contexto. São os complexos que nos toma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na vida sexual esses <strong>complexos</strong> também podem atuar em diferentes situações, diante de forte emoção pode aparecer uma dificuldade de manter a ereção, por uma autoestima baixa, um sentimento de inferioridade diante de uma mulher atraente, uma sensação de sentir-se incapaz de corresponder as necessidades daquela parceira etc. <strong>A ansiedade gerada por essas situações consiste em um dos principais componentes da disfunção erétil</strong> (RODRIGUES JR.  <em>et at</em>, 2001).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-devemos-lembrar-da-relacao-parental-e-sua-importancia-no-desenvolvimento-da-crianca">Devemos lembrar da relação parental e sua importância no desenvolvimento da criança.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A relação mãe filho é a mais profunda que se conhece. A criança e a mãe são uma única coisa no início da vida, a criança faz parte do corpo da mãe, conforme vai crescendo ainda faz parte da atmosfera psíquica da mãe, por muitos anos, isto quer dizer, tudo o que há de original na criança faz parte da mãe. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando essa criança cresce naturalmente se desligara da mãe, conforme for adquirindo consciência de si e da cultura que o cerca, mas não do arquétipo materno. Esse arquétipo coletivo da grande mãe vai estar presente no seu inconsciente e se manifestara por toda sua vida.  (JUNG, 2013a, p. 331)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa relação entre mãe e filho pode atrapalhar o desempenho sexual desse indivíduo. Dependendo do modo como se desenvolveu a relação entre mãe e filho, podemos ter um homem que permanece preso nessa condição de filho e, dessa forma, não amadurece para viver sua potencialidade sexual e nem mesmo sua autonomia psíquica no mundo. Na verdade, é bem possível que ele não consiga se libertar dessa figura, porque ela representa a mater natura, aquela que o criou, lhe deu a vida, se sacrificou por ele; e ele poderia desrespeitar essa mãe?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, essa mãe, de certa forma, mantém convenientemente essa relação por medo ou por não querer perder aquele filho que é tão amoroso. Essa atitude da mãe reforça o comportamento desse homem e ele não percebe que precisa crescer e romper essa relação materna para ter sucesso em seus relacionamentos e na própria vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-arquetipo-materno">Arquétipo materno</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Jung</strong> (2014b, p. 87), o arquétipo materno possui vários aspectos, formas diversas. A própria mãe e a avó, a madrasta e a sogra, qualquer mulher que nos relacionamos, a Virgem, principalmente a mãe de Deus, em sentido mais amplo, a igreja, a universidade, a cidade ou país, o céu, a Terra, a floresta, o mar e as águas inquietas, o jardim, a Lua, a gruta, a árvore, a pia batismal, a flor, a bruxa, dragões etc. Todos esses símbolos podem ter um sentido positivo ou negativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas figuras representativas do arquétipo materno indicam alguns de seus atributos considerados positivos, tais como a mágica autoridade do feminino, o que cuida, o que sustenta, o secreto, a sabedoria, a elevação espiritual e o que possibilita o crescimento saudável. Mas, também, indicam alguns aspectos considerados negativos, como o devorador, o venenoso o apavorante, entre outros. Essas imagens, correspondem, respectivamente, a mãe amorosa e a mãe terrível (JUNG, 2014b, p. 88).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os traumas relacionados à mãe podem corresponder as atitudes realmente existentes nas mães biológicas e outras vezes seria as projeções fantasiosas (arquetípicas) da criança (JUNG, 2014b, p. 89)</strong>. Portanto, quer o ser humano compreenda ou não o mundo dos arquétipos, ele será afetado por ele, pois nele o homem ainda é natureza e está conectado com suas raízes (JUNG, 2014b, p. 99).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todo indivíduo precisa crescer e estabelecer-se na vida, deixar seu mundo infantil, tomar consciência sobre sua existência, ser independente, tornar-se único, usar de toda sua libido para se desvincular dos laços maternos, isto é, romper com todas as ligações sentimentais com a infância, com pai e mãe e aí sim será  capaz de um relacionamento sexual saudável.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/ivoneferreira/">Ivone Ferreira &#8211; Analista em Formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Cristina Guarnieri &#8211; Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">ABDO, C.H.N. organizadora. <strong>Sexualidade humana e seus transtornos</strong>. 2.ed.- São Paulo, Lemos, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CAVALCANTI, R., CAVALCANTI, M.&nbsp; <strong>Tratamento clínico das inadequações sexuais</strong>. 3.ed &#8211; São Paulo, Roca, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GRASSI, M.V.F.C., <strong>Psicopatologia e disfunção erétil: a clínica psicanalítica do impotente</strong>. – São Paulo, Escuta, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.<strong> A natureza da psique v. 8/2</strong>. [Tradução de Mateus Ramalho Rocha]. 10.ed- Petrópolis, Vozes, 2013a.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.<strong> Aion – estudo sobre o simbolismo do si-mesmo v. 9/2</strong>. [Tradução de Dom Mateus Ramalho Rocha]. 10.ed- Petrópolis, Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.<strong> Os arquétipos e o inconsciente coletivo v. 9/1</strong>. [Tradução de Maria Luiza Appy, Dora Mariana R. Ferreira da Silva]. 11.ed- Petrópolis, Vozes, 2014b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.<strong> Psicologia do inconsciente v. 7/1</strong>. [Tradução de Maria Luiza Appy]. 24.ed- P<a href="https://youtube.com/shorts/yK-ch6QVhJ8">etrópolis, Vozes, 2014a.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">MASTERS, W.H., JOHNSONS, V.E. <strong>A Resposta Sexual Humana</strong>. – São Paulo, Roca,1984</p>



<p class="wp-block-paragraph">RODRIGUES JR, O.M., <em>et at</em>, <strong>Disfunção Erétil- Esclarecimentos Sobre a Impotência Sexual </strong>– Expressão Arte, 2001.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Aspectos da sexualidade masculina na perspectiva da psicologia analítica II" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/yK-ch6QVhJ8?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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			</item>
		<item>
		<title>Comportamento de risco sexual como resposta à marginalização da sexualidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/comportamento-de-risco-sexual-como-resposta-a-marginalizacao-da-sexualidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Jun 2023 21:04:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo busca propor uma reflexão, tendo como base a psicologia analítica, sobre comportamentos sexuais de risco, identificando tais comportamentos e buscando entender símbolos, significados e complexos na sombra dessas atitudes.<br />
Para a elaboração deste artigo foi feita uma pesquisa a respeito do tema comportamento sexual de risco e, pelo que se pode constatar, não há grande quantidade de material sobre o tema. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>O presente artigo busca propor uma reflexão, tendo como base a psicologia analítica, sobre <strong>comportamentos sexuais de risco</strong>, identificando tais comportamentos e buscando entender símbolos, significados e complexos na sombra dessas atitudes.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Para a elaboração deste artigo realizamos uma pesquisa a respeito do tema comportamento sexual de risco. Contudo, pelo que se pode constatar, não há grande quantidade de material sobre o tema. A maioria do material encontrado tem como foco a população <strong>adolescente ou jovem </strong>(até 24 anos), na qual o comportamento de risco é prevalente.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ists">ISTs</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, há a recente tendência do aumento de diagnósticos de Infecções Sexualmente Transmissíveis (<strong>ISTs</strong>) na população adulta e idosa (Görgen, 2019). As formas de propagação do vírus da imunodeficiência humana (<strong>HIV</strong>), tais como o uso de drogas injetáveis e o engajamento em relações sexuais sem uso de preservativos, são, com frequência, associadas a comportamentos e atitudes discriminadas social e culturalmente bem como a concepções estereotipadas dos outrora chamados grupos de risco (Pinto, et al., 2007).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vale lembrar que o advento da Síndrome da Imunodeficiência Humana Adquirida (SIDA ou <strong>AIDS</strong>) <strong>estigmatizou por muitas décadas o comportamento homossexual masculino</strong>. A AIDS foi chamada, em seu início, de “<strong>câncer gay</strong>”, por ter sido essa a população mais afetada no início da epidemia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na atualidade, no entanto, predomina a transmissão pelo contato heterossexual. Além disso, houve aumento significativo no número de mulheres infectadas (SALES et al., 2016 apud Görgen, 2019).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dessa-forma-a-denominacao-grupos-de-risco-mostrou-se-equivocada">Dessa forma a denominação “<strong>grupos de risco</strong>” mostrou-se <strong>equivocada</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong> </strong>A denominação &#8220;grupos de risco&#8221; se revela equivocada, considerando que o risco de adquirir o HIV não é advindo somente de um grupo.<em> </em>Mas antes, de um comportamento de risco frente às práticas sexuais e ao uso e abuso de drogas, especialmente as drogas injetáveis e ao compartilhamento de seringas. Vale lembrar que o indivíduo sob o uso e/ou abuso de substâncias psicoativas e movido pelo desejo sexual, teoricamente não se lembrará do uso de proteção na prática sexual, seja ela qual for.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Importante chamar a atenção que o <strong>Ministério da Saúde </strong>preconiza o uso do preservativo em qualquer prática sexual, seja ela oral, vaginal ou anal, especificamente nessa última, por ser a mucosa anal muito vascularizada e de fácil atrito durante o ato sexual, o que leva a ocorrer microfissuras, facilitando assim, a transmissão sanguínea do vírus HIV. Além disso, o<strong> HIV </strong>não é o único risco envolvido numa relação sexual desprotegida. Outras ISTs como a <strong>sífilis, </strong>a<strong> clamídia </strong>e a <strong>gonorreia</strong>, dentre tantas, tem aumentado nos últimos anos. Inclusive em parcelas da população consideradas sexualmente inativas como os <strong>idosos</strong> (Görgen, 2019). </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-idosos-e-educacao-sexual">Idosos e educação sexual</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos citar em muitos <strong>idosos</strong> a dificuldade de uma ereção completa, dificultando no caso, o uso do preservativo masculino. Indicamos, então, como medida protetiva, o uso do preservativo feminino para facilitar a prática sexual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A outra dificuldade é que, como não foi estimulado precocemente nessas mulheres o toque íntimo e um maior e melhor conhecimento de sua biologia, temos problemas também nessa forma de prevenção. Isto ocorre porque o preservativo feminino é de inserção profunda na vagina, ficando os idosos completamente vulneráveis para o contágio de ISTs e HIV &#8211; uma vez que a prática sexual nesse grupo, na atualidade, é amplamente estimulada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dados inclusive, os inúmeros recursos medicamentosos existentes para melhorar o desejo e também, no caso, a ereção. Necessário se faz, a <strong>educação sexual </strong>desse grupo, estimulando um maior conhecimento de anatomia e fisiologia, juntamente com as práticas preventivas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse contexto, falando-se em infecções sexualmente transmissíveis e AIDS, torna-se também importante definir a sexualidade, de uma forma mais ampla, em seu aspecto biopsicossocial e espiritual, onde a sua dimensão biológica é apenas um dos seus aspectos. Talvez socialmente o seu aspecto principal, cujo viés para muitos seja o mais importante, negligenciando-se todos os outros aspectos de completude do indivíduo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sexualidade-e-moralidade">Sexualidade e moralidade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A sexualidade é um dos aspectos da dimensão humana. Cercada, ainda, de muita dor e sofrimento, em razão do ocultamento e da aura do pecado, imposto principalmente pela formação judaico-cristã de nossa sociedade ocidental. A cultura do pecado manteve o véu da ignorância e do preconceito em torno do assunto e em razão disso, pouco se fala e se pesquisa sobre o tema, dado os parcos recursos bibliográficos disponíveis. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Arriscamos dizer que apenas com o surgimento da AIDS e todas as suas particularidades, principalmente no início da infecção, onde denominada “câncer gay”, é que se começou a falar sobre sexualidade e a defini-la em seu aspecto mais amplo (biopsicossocial).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-e-o-normal">O que é o normal?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Outro aspecto perpassa sobre o conceito de <strong>normalidade</strong>, como se todos os indivíduos fossem iguais e subjugados a essa “normose” social. Ora, as sociedades são entidades dinâmicas, assim, o que é normal hoje pode ser anormal amanhã e vice-versa, uma vez que os padrões culturais mudam com o tempo e dentro do possível devemos também, acompanhar essas mudanças. De acordo com <strong>Cavalcanti &amp; Cavalcanti </strong>(2020), do ponto de vista psicológico “sexo normal” é aquele que assim é considerado dentro da visão particular de cada um. O que importa na verdade, é a satisfação pessoal ou a adequação sexual de cada indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Importante lembrar que “adequação” pressupõe um estado de satisfação intra e interpessoal, ou seja, se o indivíduo está satisfeito com o seu comportamento sexual e com o comportamento sexual do seu parceiro(a), ele/ela é uma pessoa normal ou adequada, do ponto de vista psicológico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Somado a isso, trazendo um pouco o olhar para esse histórico da sexualidade, lembre-se que a AIDS nos traz um novo olhar para a sexualidade. Especificamente no aspecto social, onde tornou evidente camadas sociais estigmatizadas e, até então, encobertas pelo preconceito, como os profissionais do sexo, os usuários de drogas injetáveis (UDI) e, principalmente, os homossexuais ou ainda, os HSH (homens que fazem sexo com homens), que não se consideram homossexuais, mas mantém ou mantiveram relações sexuais com homens. Esse tipo de comportamento e vários outros, dificultam até hoje a classificação dos dados epidemiológicos da doença segundo o sexo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-comportamentos-sexuais-de-risco-deus-e-o-diabo-na-cama-ou-alem-dela"><strong>Comportamentos sexuais de risco Deus e o Diabo na cama (ou além dela)</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Os <strong>comportamentos sexuais de risco</strong> são comportamentos que podem afetar o bem-estar físico, psicológico ou mesmo causar problemas de saúde graves. Muitas vezes associam-se a estes comportamentos, ou os causam, o consumo de substâncias como álcool e drogas e também podem decorrer de falta de esclarecimento e educação sexual, atividade sexual com múltiplos parceiros, utilização incorreta e inconsistente de métodos contraceptivos e de prevenção de ISTs, relações sexuais sob pressão e potencializam consequências como: infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), gravidez não desejada, violência sexual e psíquica (Direção-Geral da Saúde, 2022).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-coleman-2015">Para (Coleman, 2015):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Comportamentos sexuais são um produto da socialização e não da biologia. Por exemplo, aprendemos (explicitamente dos pais, professores, políticos, líderes religiosos, e outras figuras significativas nas nossas vidas, ou implicitamente de imagens, temas, ou mensagens na cultura popular) como fazer sexo, com quem fazer sexo, com que motivações fazer sexo. Aprendemos que existem certas regras, regulamentos sociais, e mesmo legislação que controla as nossas interpretações sobre a valorização dos nossos próprios comportamentos sexuais e de outros. Eles desenvolvem-se e progridem à medida que nos desenvolvemos e progredimos. Consequentemente, os comportamentos sexuais nem sempre estão em resposta ao desejo sexual devido a duas explicações centrais: (1) As motivações para o comportamento sexual variam; e (2) A atual construção social do comportamento sexual normativo é o reflexo de ideais ultraconservadores (pudico) e saturados com fundamentos religiosos &#8211; ou pelo menos os comportamentos culturalmente mais atuais são os mais valorizados (traduzido pelos autores).”</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Infelizmente, no desenrolar da cultura ocidental, a mente do homem tornou-se divorciada de seu corpo</strong>. A sexualidade, em especial, tem sido associada ao indesejável elemento animal, força demoníaca que corrompe a verdadeira natureza espiritual dos homens (Conger, 1993).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-acordo-com-aufranc-2018">De acordo com Aufranc (2018):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>“A partir do século XIX, a medicina passou a ocupar o espaço da religião na instrução de como deveria ser o relacionamento sexual. A nudez completa estava associada ao sexo no bordel, as relações deveriam ocorrer no escuro e com corpos cobertos. O prazer nessa época era também vivido na sombra social. Havia, no século XIX, no Rio de Janeiro, três categorias de prostitutas: as aristocráticas ou de sobrado, que eram em geral francesas, mantidas por políticos ou fazendeiros e estavam associadas ao luxo no morar e no vestir; as de sobradinho, que eram mais pobres e trabalhavam em hotéis, eram polacas ou mulatas; e as da escória, mulheres que atendiam em casebres ou em fundos de barbearias. Já as mulheres honestas não deveriam sentir prazer. A elas era reservado o papel de ser boa mãe, submissa e doce. O instinto materno deveria anular o instinto sexual.”</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sexo-por-prazer">Sexo por prazer?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse complexo cultural do sexo pudico, onde o prazer reside na <strong>sombra</strong> e deve ser punido, exclui toda e qualquer prática sexual que não seja a penetração vaginal realizada em uma cama dentro de um quarto, cujo único fim seja a reprodução. Tudo bem que, atualmente, com o advento dos métodos contraceptivos, principalmente, houve uma grande quebra de paradigma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, o sexo por prazer ainda tem grandes opositores, principalmente nos campos da religião, onde, veja só, até hoje o uso do preservativo, um dos melhores métodos de proteção contra e ISTs e contracepção, ainda é desaconselhado.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Mesmo com os avanços no ocidente, há ainda um grande tabu a respeito da vivência do sexo como uma atividade adulta humana de afeto, sociabilização ou recreação e não somente para reprodução e perpetuação da espécie.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-complexo-cultural">Complexo Cultural</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O c<strong>omplexo cultural</strong> do sexo pudico ainda é constelado de maneiras diversas, principalmente em relação às minorias (mulheres, profissionais do sexo e a população LGBTQIANP+ entre as principais). Neste sentido, as vivências sexuais que não se encaixam no padrão hétero-monogâmico-reprodutivo vão sendo colocadas à margem da consciência coletiva (sociedade) e, apesar de sempre terem sido praticadas, ainda assim são marginalizadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Na maioria das casas, o quarto é um dos lugares de maior intimidade</strong>. Um quarto de casal é o local no qual se espera que o casal compartilhe a sua intimidade e nele faça o sexo e produza filhos. Isso é uma imagem de como o sexo reprodutivo é, de certa forma ainda, aceito e incluso no dia a dia, considerado como uma parte natural da vida. No casamento, e aqui ressalto, no casamento heterossexual, o sexo para reprodução é de certa forma aceito, esperado, desejado, em detrimento do sexo por prazer e sendo o prazer em si, muitas vezes impuro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-pouco-de-foucault">Um pouco de Foucault</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Michel Foucault </strong>(2019) lembra e compara o início do século XVIII, onde ainda vigorava uma certa franqueza no que concernia à sexualidade. As práticas não procuravam segredos, as palavras eram ditas sem muitas reticências, as coisas eram feitas sem demasiado disfarce, eram mais frouxos os códigos da grosseria, da obscenidade e da decência, comparando-os aos do século XIX.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“Um rápido crepúsculo se teria seguido à luz meridiana, até as noites monótonas da burguesia vitoriana. A sexualidade é, então, cuidadosamente encerrada. Muda-se para dentro de casa. A família conjugal a confisca. E absorve-a, inteiramente, na seriedade da função de reproduzir.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Em torno do sexo, se cala. O casal, legítimo e procriador, dita a lei. Impõe-se como modelo, faz reinar a norma, detém a verdade, guarda o direito de falar, reservando-se o princípio do segredo. No espaço social, como no coração de cada moradia, um único lugar de sexualidade reconhecida, mas utilitário e fecundo: o quarto dos pais.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Ao que sobra só resta encobrir-se; o decoro das atitudes esconde os corpos, a decência das palavras limpa os discursos. E se o estéril insiste, e se mostra demasiadamente, vira anormal: receberá este status e deverá pagar as sanções”. </em></p>
<cite>Foucault, 2019</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diversidade-sexual">Diversidade sexual</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Passeando pela história da sexualidade percebemos a dificuldade não somente da literatura, por ser ela incipiente, como também da dificuldade pessoal na abordagem e da aceitação pela sociedade dessa diversidade sexual, fruto do fato de ter se mantido encoberto nas sombras, a sexualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph"> Falar de sexualidade requer conhecimento básico sobre o tema e sobre a sua própria sexualidade, no sentido de que, para falar da sexualidade do outro é necessário trabalhar a sua também. Ora, Jung bem fala que o analista só leva o analisando até onde ele próprio foi levado. Sendo assim, (JUNG, 2019) “Você tem que ser a pessoa com a qual você quer influir sobre o seu paciente. A palavra, sempre foi considerada vã.” </p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, sem se falar em sexo e sexualidade, passaram-se dois longos séculos em que tudo relacionado ao tema era reprimido e, como nas palavras de Foucault (2019), eram “injunção ao silêncio, afirmação de inexistência”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-as-outras-formas-de-viver-o-sexo-em-que-lugar-e-reservado-e-esperado-a-sua-existencia">E as outras formas de viver o sexo, em que lugar é reservado e esperado a sua existência?</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Nos prostíbulos, nas ruas desertas, nas pequenas matas, terrenos baldios, saunas, boates e no melhor dos casos, o motel. E deles muitas vezes vem a companhia da vergonha e da desinformação de mãos dadas com os desinibidores: álcool e drogas. O sexo por prazer ou por vocação é uma prática espúria.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Novamente, mesmo que desde sempre tenha sido praticado. Fora dali, os “rendez-vous” * e as casas de saúde seriam lugares de tolerância, onde reinavam a prostituta, o cliente, o rufião, o psiquiatra e sua histérica, numa alusão a esse último, às agruras da repressão sexual, como causa de distúrbios mentais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, pessoas que não têm a conformidade sexual de acordo com esse complexo pudico, são criadas em ambientes (casa, escola, igreja, sociedade) em que a vivência da sua sexualidade é algo feio e que deve ser feito às escondidas, pois a “norma” é que o sexo siga os padrões aprendidos. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui abro um parêntese para as<strong> práticas criminosas</strong> das parafilias como a pedofilia, zoofilia e necrofilia. Acrescento aqui o estupro e o abuso sexual que também são práticas criminosas e jamais deverão ser consideradas comportamento, somente como <strong>crime</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-culpa-pecado-e-vergonha">Culpa, pecado e vergonha</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Voltando, pessoas que não tem a vivência oficial, têm na sua prática <strong>uma</strong> <strong>vergonha, uma culpa, ou até algo marginalizado</strong>. Nesse sentido procuram locais marginalizados para vivenciar seu prazer e seu eros. Por bem, hoje em dia as práticas sexuais estão cada vez mais sendo discutidas e trazidas para esse local de intimidade. No entanto, é algo tão recente e podemos dizer que a grande maioria da população ainda tem em mente o <strong>modelo Doriana de família</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa vivência marginalizada, acompanhada dos seus desinibidores, é um convite ao comportamento de risco. Justamente pela dificuldade ou inexistência de informações claras, corretas e do sentimento de normalidade, muitas vezes, o sexo é vivenciado em locais simbólicos de abuso, fuga, vergonha, escuridão e aprendido dessa maneira, ou ainda, por meio da pornografia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com uma autopercepção da sexualidade e do desejo como algo espúrio, vergonhoso, <strong>pecaminoso</strong> e até doentio, a primeira opção quase sempre é a repressão do desejo e a tentativa de encaixe no modelo vigente, de acordo com o dito por (Coleman, 2015) anteriormente neste texto.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sexualidade-e-o-casamento">Sexualidade e o casamento</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo bem que hoje não se espera mais que ninguém se case virgem, mas há ainda muitos resquícios desse comportamento e há menos de 40 anos isso ainda era considerado como um bom costume. <strong>Quantos de nós não somos filhos de um casal que se casou por conta de uma gravidez indesejada?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Vejamos o caso da homossexualidade, por exemplo. Até pouco tempo foi considerada pecado, crime e doença. Isso quando falamos de Brasil, porque em alguns lugares do mundo ainda é punida da pior maneira possível. A vivência da homossexualidade apesar de mais aceita hoje em dia, ainda é alvo de investidas conservadoras e retrógradas. O famoso, você pode até ser gay, mas não pode fazer sexo com alguém do mesmo sexo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-educacao-como-caminho"><strong>A educação como caminho</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando se exclui um modo de vivenciar a sexualidade, ele se torna marginalizado. E muitas vezes para viver uma verdade, mesmo que diga respeito à sua individualidade, isso pode levar as pessoas aos comportamentos de risco. A nosso ver isso é o reflexo de um complexo de ego com muitas facetas negativas e muitos complexos ligados a esse lugar da marginalidade do sexo, do desejo e da vivência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma, muitas vezes constroem-se personas adaptadas à norma coletiva enquanto procuram viver sua verdade mesmo colocando em risco sua vida e a dos outros. É como se viver essa verdade do eros fosse tão terrível, que só pudesse ser vivida na sombra e de maneira sombria, nesse lado obscuro da sexualidade, onde a vivência do prazer evidencia o lado sombrio e obscuro da dor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ora, de acordo com <strong>GUGGENBÜHL-CRAIG</strong> (1998) a sexualidade ainda é &#8220;<strong>demonizada</strong>&#8221; nos nossos dias. Fracassaram todas as tentativas de tomá-la totalmente inofensiva e de apresentá-la como algo &#8220;completamente natural&#8221;. <strong>Para o homem moderno, algumas formas de sexualidade continuam a ter aspecto mau, pecador e sinistro</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-preconceitos-e-comportamentos-de-risco">Preconceitos e comportamentos de risco</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Como essa vivência é marginalizada e não há muitas informações, sobram preconceitos e julgamentos, internos e externos, e sua expressão na vida do indivíduo, pode levar aos comportamentos de risco, já que a relação sexual vira apenas um instinto a ser satisfeito e perde sua faceta sagrada e relacional.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Há uma tendência acentuada para a promiscuidade que se manifesta não só nos inúmeros divórcios, mas também na liberação da geração mais jovem quanto aos preconceitos sexuais.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A promiscuidade paralisa todos esses esforços (de desenvolvimento enquanto dentro de uma relação afetiva) porque oferece oportunidades fáceis de fuga. E o relacionamento individual se torna muito supérfluo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-liberdade-ou-irresponsabilidade">Liberdade ou irresponsabilidade?</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Quanto mais predominarem uma assim chamada liberdade sem preconceitos e a fácil promiscuidade, tanto mais o amor se tornará banal e degenerará em interlúdios sexuais transitórios.</strong>  Os desenvolvimentos mais recentes no campo da moralidade sexual tendem para o primitivismo sexual. A exemplo da instabilidade dos costumes morais dos povos primitivos onde, sob a influência da emoção coletiva, todos os tabus sexuais desapareciam na mesma hora (Cf. Jung, 2013).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>“Estaremos vivendo uma enorme indiferenciação? Ou então simplesmente, ao “saírem do armário” os esqueletos reprimidos, vem chegando à consciência coletiva a imensa riqueza das possibilidades humanas. Vem se expressando toda a potencialidade contida simbolicamente em uma relação erótica” </em></p>
<cite>Aufranc, 2018</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Para <strong>Coleman</strong> (2015), uma grande mudança seria a educação a respeito da sexualidade, sem a presença de valores religiosos ou morais, no sentido de uma melhor compreensão entre o impulso sexual, o desejo e os comportamentos. Permitindo, assim, uma compreensão mais profunda e tolerância para com os seus próprios comportamentos sexuais, bem como as preferências sexuais dos outros. Através da educação, aceitação e um âmbito empático, devemos assistir a uma re-humanização de nós próprios.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*gíria para prostibulo, zona de meretrício.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/maurosoave/">Mauro Soave Junior – Analista em Formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/mariaivanilde/">Maria Ivanilde Ferreira Alves – Analista em Formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aufranc, Ana Lia B. 2018. Expressões da sexualidade, um olhar junguiano. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analitica. 2018, pp. 37-48.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CAVALCANTI, R; CAVALCANTI, M. &#8211; Tratamento Clínico das Inadequações Sexuais. 5.ed. Payá, 2020</p>



<p class="wp-block-paragraph">Coleman, Kathryn. 2015. Alienation through Social Construction: A Call for the Re-humanization of Sexuality. Journal of Positive Sexuality. Junho de 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conger, John P. 1993.O corpo como sombra. [trad.] Maria Silvia Mourão Netto. São Paulo : Summus, 1993.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CPS, TASHRA, &amp; NCSF. 2017. Addiction to Sex and/or Pornography: A Position Statement from the Center for Positive Sexuality (CPS), The Alternative Sexualities Health Research Alliance (TASHRA), and the National Coalition for Sexual Freedom (NCSF). Journal of Positive Sexuality. 2017, Vol. 3.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Direção-Geral da Saúde. 2022. Serviço Nacional de Saúde. Site do Serviço Nacional de Saúde Português. [Online] 25 de novembro de 2022. https://www.sns24.gov.pt/tema/saude-sexual-e-reprodutiva/comportamentos-sexuais-de-risco/.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foucault, Michel, 2022, 13 edição, História da Sexualidade, volume 1, A Vontade do Saber, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, São Paulo</p>



<p class="wp-block-paragraph">Görgen, Ana Leticia Hartmann. 2019. COMPORTAMENTO SEXUAL DE RISCO E FATORES ASSOCIADOS EM ADULTOS E IDOSOS DA ATENÇÃO PRIMÁRIA DA CIDADE DE PASSO FUNDO. Passo Fundo, RS, Brasil: s.n., 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUGGENBÜHL-CRAIG, ADOLF. O lado demoníaco da sexualidade. [A. do livro] C. Zweig e J. (orgs) Abrahms. Ao Encontro da Sombra. São Paulo: Cultrix, 1998.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, Carl Gustav. 2013. Obras Completas 10/3 &#8211; Civilização em Transição. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, Carl Gustav. 2019. Obras Completas 16/1 &#8211; A Prática da Psicoterapia</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pinto, Diana de Souza, et al. 2007. Escala de Avaliação de Comportamento Sexual. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul – SPRS. 2007, Vol. 29, 2, pp. 205-211.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Comportamento de risco sexual como resposta à marginalização da sexualidade" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/PPXNPn8Bv2E?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Acesso nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">https://www.ijep.com.br/</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Adquira nossos Congressos Junguianos: <a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/congressos-junguianos-do-ijep">https://www.ijep.com.br/cursos/show/congressos-junguianos-do-ijep</a></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Sexo sem amor: liberdade sexual ou compensação adoecedora?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sexo-sem-amor-liberdade-sexual-ou-compensacao-adoecedora/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leandro Scapellato]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 May 2023 22:52:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7608</guid>

					<description><![CDATA[<p>este artigo tem a intenção de tecer provocações sobre alguns pontos da sexualidade praticada nos tempos atuais, mais precisamente sobre a possibilidade de parte do que é chamado de “liberdade” sexual vivenciada hoje ser somente um movimento de compensação extremada — enantiodromia —  das repressões sexuais dos séculos passados ou de gerações passadas, que pode ser tão adoecedora quanto a própria repressão que tenta combater — e, também, oferecer um breve direcionamento para a questão, sugerindo a reinserção do amor na sexualidade.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>O presente artigo provoca a reflexão sobre a liberdade sexual contemporânea como possível compensação extrema das repressões do passado, alertando para suas potenciais consequências negativas.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria — nome fictício — senta na poltrona mostrando-se ansiosa e dispara — Hoje eu sou apenas conflito! — e ri, sorrindo um sorriso que apenas a dor consegue expressar. Há um pouco mais de seis meses havia feito sua primeira sessão analítica e rapidamente deixou claro que o objetivo de vida dela era conseguir viver o que sua mãe, sua avó e sua bisavó não puderam por causa da repressão que sofreram dos homens da família e da sociedade no passado. Com esse objetivo guiando sua vida, conquistou tudo aquilo que, segundo ela, suas ancestrais não puderam: uma carreira profissional de sucesso, um estilo de vida invejável — com viagens para vários países e muitos amigos — e uma liberdade sexual que, segundo ela, “décadas atrás seria motivo de prisão”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas semanas depois da primeira sessão, era fácil perceber que, apesar de todo esse &#8220;sucesso&#8221;, algo parecia estar fora do lugar. O corpo de Maria gritava sintomas diversos, que envolviam principalmente o aparelho genital feminino como um todo. E após alguns meses se observando com a atenção sugerida, ela percebeu que esses sintomas pareciam aflorar quando ela atravessava vivências sexuais mais “liberais”, como festas sexuais em grupo ou quando tinha relações com homens que havia acabado de conhecer — e que depois não voltaria a contactar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pois bem… Seis meses se passaram, e muitos sonhos e imagens internas foram ampliadas até o dia em que ela se definiu e se reduziu como um “conflito”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Eu não desejo ser como minhas ancestrais foram. O que eu conquistei tem um valor enorme e jamais abriria mão disso… Mas, ao mesmo tempo, parece que virei refém dessa minha liberdade, a ponto de não conseguir mais me conectar de verdade com alguém. O sexo parece ter virado apenas um conjunto decorado de técnicas e movimentos robóticos. E isso tem me destruído tanto quanto a repressão patriarcal parece tê-las destruído no passado. Eu provavelmente fui a primeira mulher da minha família a experimentar um orgasmo sexual… Mas hoje esses orgasmos parecem não valer nada. São apenas mais um “check” de uma lista obrigatória que não me nutre em nada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não são novidade as marcas que muitos de nós carregamos individualmente pelas repressões sexuais de um passado pessoal, ou carregamos individualmente por sermos vítimas da compensação adoecida daqueles que foram reprimidos ou já foram vítimas da compensação adoecida de outros &#8211; abusos e outras violências sexuais. Todavia, falar sobre a possibilidade de compensação de repressão sexual levando em consideração apenas a carga psíquica individual é deixar de levar em consideração, em nossa opinião, toda a carga coletiva que nos parece tão predominante quanto a carga individual dessa repressão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo dos últimos anos, observamos e acompanhamos várias “Marias” e alguns “Joões” com esta mesma dinâmica. Pessoas adultas, de idades diversas, vivendo, muitas vezes com orgulho, uma tal liberdade sexual que mais parece uma prisão que uma libertação. E é com base nisso que tecemos as provocações de hoje: será que vivemos uma liberdade sexual verdadeira e saudável, ou isso que experimentamos — a intensidade, a liberdade, o exagero e a falta de regras como regra — é apenas um movimento compensatório após a repressão sexual das gerações e séculos anteriores, que nos leva ao outro polo também extremo e, portanto, também de unilateralização adoecedora? </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sera-que-este-e-realmente-o-objetivo-final-ou-estamos-apenas-perdidos-e-iludidos-aprisionados-em-nossas-conquistas-cada-vez-mais-extremadas-daquela-liberdade-que-nos-faltava-em-um-passado-relativamente-recente" style="font-size:16px">Será que este é realmente o objetivo final? Ou estamos apenas perdidos e iludidos, aprisionados em nossas conquistas cada vez mais extremadas daquela liberdade que nos faltava em um passado relativamente recente?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essa tal “liberdade” sexual não tem significado nem de longe uma felicidade ou uma boa saúde sexual. Pelo contrário, ao que é facilmente observado na clínica analítica, apesar de enormes e necessárias conquistas nessa área, principalmente por parte das mulheres e homossexuais, que sofreram por séculos os massacres de um patriarcado adoecido, o número de pessoas que chegam às sessões com demandas relacionadas à sexualidade continua alto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, por mais que haja uma busca, claro, que é consequência de uma sociedade que agora permite que os indivíduos não sofram calados como sofriam os das gerações passadas, ainda podemos concluir que a quantidade de indivíduos com sintomas e demandas direta ou indiretamente relacionados à sexualidade e que causam sofrimento é enorme, e que a vida sexual intensa e desregrada, sem as duras repressões do passado, não parece fazer isso melhorar — em vários casos o que vemos é o oposto, a desorganização sexual individual é um causador, senão potencializador, das mazelas do indivíduo, inclusive de sua incapacidade de se relacionar profundamente com o outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-propomos-hoje-para-nossa-reflexao-vale-salientar-e-ir-alem-das-compensacoes-pessoais-ou-familiares" style="font-size:17px">O que propomos hoje para nossa reflexão, vale salientar, é ir além das compensações pessoais ou familiares.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não pela sua falta de importância, mas porque nos atrevemos a afirmar que estamos compensando eras inteiras, como, por exemplo, a era vitoriana. Vejamos… O que conhecemos como “era vitoriana” foi um período situado entre os anos de 1837 e 1901. Para este trabalho, a característica que nos importa em relação a esse período é exatamente a forte repressão sexual que existia à época.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-proprio-jung-em-sua-obra-o-espirito-na-arte-e-na-ciencia-diz-que" style="font-size:17px">O próprio Jung, em sua obra <em>O espírito na arte e na ciência, </em>diz que:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:15px">
<p class="wp-block-paragraph"> “[45] A época vitoriana é a época da repressão, uma obstinada tentativa de conservar artificialmente vivos, através do moralismo, os ideais anêmicos que estavam de acordo com a compostura burguesa. Esses ‘ideais’ eram as últimas ramificações das representações religiosas comuns da Idade Média [&#8230;]” (JUNG, 2013b, p. 39).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Sobre as consequências diretas dessa repressão há vasto material, incluindo trabalhos do renomado psicanalista Sigmund <strong>Freud</strong>. Dentre estes estudiosos destaca-se o trabalho de <strong>Wilhelm Reich</strong> &#8211; com algumas ampliações ainda atuais, apesar de limitadas pelo espírito da época. Em sua poderosa e polêmica obra publicada em 1942, <em>A função do orgasmo</em>, Reich faz uma ligação direta e clara entre os sintomas psicológicos que ele observava em vários de seus pacientes e os impulsos sexuais reprimidos, afirmando que “<em>O homem é a única espécie biológica que destruiu sua própria função sexual natural e está doente em consequência disso</em>.” (REICH, 1990, p. 92).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para compreendermos melhor o que essa repressão significa na psique dos indivíduos, nós voltaremos à psicologia analítica de Jung. Mais precisamente, à obra <em>Símbolos da Transformação, </em>onde o autor defende que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:13px">
<p class="wp-block-paragraph">[581] Todo extremo psicológico contém secretamente o seu oposto ou está de alguma forma em estreita relação com ele. Na verdade, é desta contradição que ele deriva a dinâmica que lhe é peculiar. [&#8230;] quanto mais extrema se tornar uma posição, tanto mais se pode esperar a sua enantiodromia, sua reversão para o contrário. (JUNG, 2013c, p. 441).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-sobre-o-termo-enantiodromia-podemos-citar-outra-importante-obra-do-mesmo-autor-tipos-psicologicos" style="font-size:17px">E sobre o termo enantiodromia, podemos citar outra importante obra do mesmo autor, <em>Tipos Psicológicos</em>:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:13px">
<p class="wp-block-paragraph">[795] (798) Com o termo enantiodromia quero designar a oposição inconsciente no decorrer do tempo. Este fenômeno característico ocorre quase sempre onde uma direção extremamente unilateral domina a vida consciente de modo que se forma, com o tempo, uma contraposição inconsciente igualmente forte e que se manifesta, em primeiro lugar, na inibição do rendimento consciente e, depois, na interrupção da direção consciente. (JUNG, 2013d, p. 444)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Trazendo isso para a temática deste artigo, podemos compreender que a repressão sexual não acaba com os impulsos sexuais, mas apenas os varrem para o mundo sombrio do inconsciente, onde acumula energia até que se torne capaz de invadir e guiar o indivíduo perigosamente em sua direção.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-foi-exatamente-o-que-rajneesh-chandra-mohan-jain-conhecido-mundialmente-como-osho-afirmou-em-varios-de-seus-discursos-que-foram-transformados-em-livros" style="font-size:17px">Isso foi exatamente o que <strong>Rajneesh Chandra Mohan Jain</strong>, conhecido mundialmente como <strong>Osho</strong>, afirmou em vários de seus discursos que foram transformados em livros.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em sua obra tântrica <strong>Do sexo à supraconsciência</strong>, ele afirma que os ocidentais passaram séculos tentando inutilmente se livrar do sexo, que é algo inerente a eles, e que, por isso, foram dominados exatamente pela força que tentaram bloquear — citando a “Lei do Efeito Inverso”, do psicólogo francês Émile Coué, que afirma que acabamos por colidir com tudo aquilo que tentamos negar, pois o objeto do nosso medo torna-se o centro de nossa consciência. Para <strong>Osho</strong>, “A Lei do Efeito Inverso capturou a alma do homem” (OSHO, 1993, p. 50). Por isso o sexo está em todo lugar de forma distorcida e doente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para reforçar a ideia aqui demonstrada, podemos também citar outro profissional que, assim como Reich, dedicou boa parte de sua vida aos estudos da sexualidade: Alexander Lowen, médico psicanalista americano, que foi paciente e discípulo de Reich, antes de desenvolver e atualizar as teorias reichianas na chamada bioenergética &#8211; uma terapia que, assim como a reichiana, estrutura seu alicerce nos trabalhos diretos com o corpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Lowen</strong>, pegando como base exatamente a repressão da era vitoriana, diz que o que apresentamos de sexualidade décadas após o fim dessa época não é liberdade sexual, mas sim uma confusão sexual — apesar das experiências e liberdades experimentadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo ele, o moralismo da época vitoriana não foi resolvido, mas apenas moldado e limitado ao campo emocional. Assim, o sexo passou a ser permitido, mas de forma compensatória, completamente dissociada do amor, o que acabou por afastar os sentimentos do ato sexual em si, transformando-o em algo dominado por técnicas, posições variadas, teorias e desejos, mas sem emoção — os “checks” de Maria. E essa dinâmica, segundo ele e o próprio Reich, seria a causa de adoecimentos dos indivíduos, dentro dessa nova moralidade, quando os sentimentos naturais passam a ser confundidos com pornografia — fantasiada de liberdade sexual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em suma, durante séculos os homens reprimiram arduamente a sexualidade, mas essa repressão não destruiu a sexualidade em si, mas a transformou em sombra, fortalecendo sua expressão inconsciente dominante e distorcida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais à frente, a partir do fim da era vitoriana, em uma tentativa de compensação imatura desse passado de repressão — enantiodromia —, os indivíduos passaram a alimentar e a buscar de maneira extremada a tal “liberdade” sexual, que se apresentou distorcida, falha e adoecedora.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-nova-sexualidade-apresentou-se-desconectada-dos-sentimentos-e-da-conexao-entre-os-individuos" style="font-size:17px">Essa “nova” sexualidade apresentou-se desconectada dos sentimentos e da conexão entre os indivíduos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, o que deveria ser uma expressão natural de amor — em suas diversas formas —, tornou-se um ato superficial e compulsivo, incapaz de suprir as necessidades emocionais naturais. Ou seja, talvez toda essa “liberdade” sexual, com suas limitações emocionais, tenha transformado o sexo em apenas pornografia, alimentando as angústias humanas em vez de aliviá-las.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O próprio <strong>Jung</strong>, também dentro dos limites da época e de ser quem é e de onde fala, chega a mostrar o que ele acredita serem consequências dessa compensação sexual na vida das pessoas, mais precisamente quando ele está observando e analisando a vida dos americanos, na obra <em>Civilização em transição</em>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:12px">
<p class="wp-block-paragraph">[958] Pode-se observar isto sobretudo no problema sexual americano [&#8230;]. Há uma tendência acentuada para a promiscuidade que se manifesta não só nos inúmeros divórcios mas também na liberação da geração mais jovem quanto aos preconceitos sexuais. Consequência inevitável é a deterioração do relacionamento individual entre os sexos. Um acesso fácil não desafia os valores do caráter e por isso também não os desenvolve, dando origem a sérios obstáculos para um entendimento mútuo mais profundo. Este entendimento, sem o qual não existe verdadeiro amor, só é alcançado superando-se todas as dificuldades inerentes à diferença psicológica entre os sexos. A promiscuidade paralisa todos esses esforços porque oferece oportunidades fáceis de fuga. E o relacionamento individual se torna muito supérfluo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quanto mais predominarem uma assim chamada liberdade sem preconceitos e a fácil promiscuidade, tanto mais o amor se tornará banal e degenerará em interlúdios sexuais transitórios. Os desenvolvimentos mais recentes no campo da moralidade sexual tendem para o primitivismo sexual, a exemplo da instabilidade dos costumes morais dos povos primitivos onde, sob a influência da emoção coletiva, todos os tabus sexuais desapareciam na mesma hora. (JUNG, 2013a, p. 227)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-porem-se-o-lugar-onde-parecemos-estar-no-momento-nao-parece-ser-saudavel-o-que-devemos-fazer">Porém, se o lugar onde parecemos estar no momento não parece ser saudável, o que devemos fazer?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Parece-nos óbvio que a ideia conservadora retrógrada de retornar às eras das práticas de repressão, misoginia, homofobia, etc. — que ainda existem hoje em certo grau, de maneira diluída em alguns países e escancarada em outros — está fora de cogitação. Não pretendemos defender que as conquistas sejam queimadas como as mulheres consideradas bruxas, por pensarem diferente, o foram na idade média. Muitas dessas conquistas vieram exatamente porque eram necessárias. E outras ainda estão por vir. O que devemos, como profissionais de psicoterapia e análise, talvez seja ajudar nesse processo de conscientização do estado atual e confronto necessários para as transformações que ainda necessitam existir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como humanidade, precisamos enxergar que, dentro deste mundo hipermoderno de internet, aplicativos de encontros sexuais e acesso quase ilimitado a novas experiências, de tipos cada vez mais variados, a compensação da repressão de maneira tão extremada como o era a própria repressão não é o objetivo final. Como o próprio Jung afirma em a <em>Psicologia do inconsciente</em>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:14px">
<p class="wp-block-paragraph">“[&#8230;] A enantiodromia, ameaça inevitável de qualquer movimento que alcança uma indiscutível superioridade, não é a solução do problema, porque em sua desorganização é tão cega quanto em sua organização”. (JUNG, 2014, p. 84)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-entao-qual-seria-a-solucao-do-problema">Mas, então, qual seria a solução do problema?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Compensações extremadas, conscientes ou não, são apenas jogos de polarizações que contradizem o todo integral do processo de individuação que precisamos percorrer. E enquanto não trouxermos para a consciência a necessidade de integrarmos e agirmos conscientes dentro dessa esfera da sexualidade, pouco sairemos desse ciclo onde um extremo apenas trará o outro, em um imposto e inevitável movimento pendular eterno (assim como já víamos isso em um passado mais distante, por exemplo, com a Idade Média repressiva parecendo se contrapor às liberdades sexuais imaturas, por exemplo, da era romana da história, com seus bacanais públicos e práticas diversas). </p>



<p class="wp-block-paragraph">Não à toa, estamos observando o forte crescimento de movimentos repressivos, conservadores e retrógrados em vários países do ocidente, inclusive no Brasil, onde acabamos de sair de um governo declaradamente conservador que dizia lutar contra a “libertinagem e a degradação dos costumes das pessoas de bem”. Além de estarmos observando na clínica as gerações mais novas parecerem cada vez mais desconectadas da sexualidade, do corpo e do outro, para além daquela conexão virtual das redes sociais. O que seria isso, pelo menos em parte, se não uma tentativa de compensação dessa pseudo liberdade sexual que estamos vivendo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em suma, Reich, Lowen, Osho e Jung parecem concordar com a necessidade de se integrar a sexualidade e os impulsos sexuais, em vez de reprimi-los, já que essa repressão sempre nos transformará em escravos dessa sexualidade distorcida que sempre será consequência da repressão. Essa integração, porém, é uma transformação daquilo que conhecemos até hoje, e não um fortalecimento sem reflexão do que foi conquistado. Não está em nenhum dos extremos, nem da repressão, muito menos dessa tal “liberdade” sexual. O caminho, talvez, seja o que envolve a reinserção, agora de maneira consciente e madura, do amor — em suas diversas facetas saudáveis — na sexualidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-para-que-isso-aconteca-o-sexo-devera-deixar-de-ser-apenas-ferramenta-de-compensacao-coletiva-ou-individual" style="font-size:18px">E para que isso aconteça, o sexo deverá deixar de ser apenas ferramenta de compensação coletiva ou individual.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Deverá deixar de ser somente desempenho, vício, distração sem valor e expressão das mais densas sombras humanas. Lowen um dia escreveu que “<em>há uma grande necessidade de se compreender a sexualidade como uma expressão emocional</em>” (LOWEN, 1988, p. 10), e, talvez, esse seja o nosso grande desafio… Afinal, em boa parte do globo ocidental, conquistamos o direito de nos relacionar sexualmente com quem desejamos e, muitas vezes, quando desejamos, mas parece que, pelo meio do caminho, desaprendemos a amar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, como o <strong>Osho</strong> costumava afirmar: “<em>O sexo é a energia mais vibrante do homem, mas não deve ser um fim em si mesmo: o sexo deve levar o homem à sua alma. A meta é ir da luxúria à luz</em>” (OSHO, 1993, p. 66).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/leandroscapellato/">Leandro Scapellato – Membro analista em formação/IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Membro analista didata/IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">REFERÊNCIAS:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">ERA vitoriana. In: <em>WIKIPÉDIA</em>: a enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Era_vitoriana. Acesso em: 27 nov. 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Civilização em transição</em>. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>O espírito na arte e na ciência</em>. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Símbolos da transformação</em>. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Tipos psicológicos</em>. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013d.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A psicologia do inconsciente</em>. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LOWEN, Alexander. <em>Amor e Orgasmo</em>: guia revolucionário para a plena realização sexual. 4. ed. São Paulo: Summus Editorial, 1988.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RAJNEESH, Bhagwan Shree (Osho). <em>Do Sexo à Supraconsciência</em>. São Paulo: Cultrix, 1993.</p>



<p class="wp-block-paragraph">REICH, Wilhelm. <em>A Função do Orgasmo</em>. 5. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Sexo sem amor: liberdade sexual ou compensação adoecedora? | Leandro Scapellato" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/GWmm9px74hs?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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			</item>
		<item>
		<title>Os Complexos e o Distúrbio Sexual do Vaginismo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sexualidade-e-complexos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Ivanilde Ferreira Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Feb 2023 13:40:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7385</guid>

					<description><![CDATA[<p>Há muito a sexualidade feminina e seus meandres é objeto de curiosidade pela humanidade. Não por acaso, nos últimos tempos, a sétima arte tem explorado o tema das mais variadas maneiras. Se de um lado, visa remontar a relação das mulheres na criação das instituições familiares, de outro, coloca em perspectiva a objetificação da sexualidade feminina em seus inúmeros prismas. Em razão disso, procurando esclarecer o transtorno sexual do vaginismo, foi necessário revisitar muitos dos conceitos biopsicossociais da sexualidade humana, incluindo os mitos, crendices e tabus sexuais. Por consequência, verificou-se que tal transtorno tem como causa inúmeros fatores, dentre eles a violência sexual, resultado da influência do machismo estrutural proveniente das sociedades patriarcais. Este artigo passeia pela história da sexualidade desde seus primórdios até a modernidade.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>O presente artigo pretende uma leitura contemporânea da sexualidade. Para falarmos em disfunção sexual, é importante darmos uma atenção especial à sexualidade.</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Não de uma maneira simplista como tantos, mas de uma maneira multidimensional, como deve ser compreendida, citando aqui inclusive, o encanto que esse assunto desde os primórdios, sempre despertou em toda a sociedade, especificamente na religião, filosofia e quaisquer outros sistemas que se acham responsáveis em delinear as condutas do ser humano e que tentam estabelecer valores sociais e tabus sexuais. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Definimos sexualidade numa dimensão mais ampla, biopssicossocial, onde a dimensão fisiológica é apenas uma delas e infelizmente a mais preconizada na nossa sociedade, principalmente quando se tenta objetificar e subjugar o feminino, apenas à reprodução e ao domínio do “falo”, do macho, do masculino.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“Tendo em mente as fontes pessoais, coletivas e históricas de nossa herança sexual, é possível ampliar e aprofundar nossos conhecimentos da sexualidade estudando-a a partir de uma perspectiva biológica, psicossocial, comportamental, clínica ou cultural.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>No entanto, ao examinar a sexualidade sob esses vários enfoques, é preciso ter cuidado para não esquecer que aprender sobre ela, em todas as suas formas, significa, na verdade, adquirir conhecimentos sobre as pessoas e sobre a complexidade da natureza humana”. </em></p>
<cite>MASTERS, WILLIAM H, JONHSON, E. VIRGÍNIA, et al.1982</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"> “<strong>Fazer sexo</strong>” torna-se primordial numa sociedade patriarcal, onde o binômio “pênis x vagina”, traz um maior poder do masculino, sobre o feminino, numa relação heterossexual. A afetividade, nesse sentido, tornou-se fenômeno raro, nas relações e dificilmente a relação passa pelo caminho afetivo real, pela troca de amor entre duas pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Simbolicamente falando, nesse papel objetificado do feminino nas relações da sociedade contemporânea, no reino do “machismo estrutural”, a mulher é apresentada como um corpo a ser cavalgado, um sonho a povoar a cabeça do masculino e não uma pessoa, com sentimentos que a façam merecer ser amada e valorizada como a companheira de vida. Esse seria o papel do “sexo prazer”, ou seja, a sombra do “sexo amor”.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“São apenas episódios, experiências de valor bem limitado, O pernicioso desses relacionamentos para a formação da personalidade está no fato de que o homem consegue granjear a moça com muita facilidade, o que resulta numa depreciação do objeto. É cômodo ao homem resolver seu problema sexual dessa forma simples e sem responsabilidade. Fica mal acostumado.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Mais ainda: o fato de estar sexualmente satisfeito retira-lhe aquele arrojo que gostamos de encontrar em todo jovem. Torna-se presunçoso e pode até esperar; enquanto isso, passa em revista, todo o contingente feminino até descobrir a parte que mais o toca. (&#8230;) Este procedimento não é salutar ao caráter; também a forma inferior de relacionamento serve para manter a sexualidade numa forma de desenvolvimento inferior, o que pode facilmente levar a dificuldades no casamento.” </em></p>
<cite>JUNG, 2019, PAG. 117</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-faz-parte-do-amor-a-profundidade-e-fidelidade-do-sentimento-o-verdadeiro-amor-sempre-pressupoe-um-vinculo-duradouro-e-responsavel-jung-2019-amp-231" style="font-size:17px">Segundo <strong>Jung</strong>, “Faz parte do amor a profundidade e fidelidade do sentimento (&#8230;) o verdadeiro amor sempre pressupõe um vínculo duradouro e responsável”. (JUNG.2019, &amp; 231).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, em profundidade de “Alma”, como postula Jung, o termo “fazer amor” nos torna mais próximos dessa afetividade. </p>



<p class="wp-block-paragraph"> É na dimensão psicossocial da sexualidade, onde inclui-se também os fatores psicológicos, como emoções, pensamentos e personalidade, combinados a elementos sociais, como por exemplo, o modo como as pessoas interagem, que compreendemos os vários distúrbios sexuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É aqui que introjetamos as informações recebidas por nossos pais, professores e companheiros, herdando também os mitos, crendices e tabus sexuais, que muito influenciam no desenvolvimento saudável ou não da sexualidade e assimilamos determinadas “normas de comportamento sexual”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No tocante ao comportamental, esse aspecto da sexualidade permite-nos não somente verificar o que as pessoas fazem, mas a forma com que o fazem e porque o fazem. Assim, é importante que evitemos “julgar” o comportamento sexual de outras pessoas a partir dos nossos próprios valores e experiências, por vezes baseado em normoses. Ora, o que é normal para mim, muitas vezes não o é para o outro, pois esse julgamento é baseado por nossos próprios valores, crenças, mitos e tabus, herdados em toda a dimensão do aprendizado de vida do indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na dimensão clínica da sexualidade, podemos observar que embora o sexo seja uma função natural do ser humano, algumas coisas podem afetar essa espontaneidade das nossas atividades sexuais, como as doenças físicas, violência e abusos sexuais, lesões e uso de drogas que podem comprometer esse padrão de resposta sexual. Entram aqui também, sentimentos como ansiedade, culpa, medo, depressão e conflitos interpessoais, que podem coibir ou mesmo alterar a vivência saudável da sexualidade. Esses aspectos são examinados nessa perspectiva clínica e propostas soluções para esses problemas.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Falando-se em contemporaneidade e em toda essa questão biológica da sexualidade, infelizmente a mais importante para os padrões sexuais atuais, onde pouco se aborda a importância emocional do contato humano, percebemos que esse culto ao corpo, ao consumismo, à performance e à persona sexual, sem a preocupação com o outro, com a afetividade e com os aspectos da alma, como bem fala Jung, tem trazido inúmeros sintomas físicos e mentais, gerando doenças e disfunções sexuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Toda doença é um complexo! Complexo é um agrupamento de representações mentais, mantidas juntas por emoções, que se organizam a partir de experiências emocionais significativas do indivíduo, tendo como núcleo um arquétipo. Eles fazem parte do funcionamento da psique. O que determina a patologia ou a criatividade do complexo é seu grau de autonomia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo W. Magaldi, “<strong>Só se consegue ajudar o indivíduo a tirar a exuberância de um complexo, dando a ele a possibilidade de interagir com ele, de se aprofundar nele, de se entregar a ele. É um processo. Não somos nós que temos o complexo, o complexo é que nos tem</strong>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, para Jung, tanto nas neuroses e psicoses, os sintomas de natureza somática ou psíquica tem origem nos complexos. Quanto maiores a intensidade e autonomia do complexo, maior a sintomatologia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Ramos, Denize, 1994, quando se constela um complexo, não ocorre apenas uma alteração em nível fisiológico, mas também uma transformação na estrutura corpórea total, percebendo o indivíduo ou não. Isso pode ser sentido como um mal estar indefinido ou ainda expressar-se numa sintomatologia mais evidente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, podemos afirmar que toda e qualquer doença tem uma expressão no corpo e na psique simultaneamente. Nesse contexto, a somatização é o limite imposto pela natureza, diante de um excesso de energia canalizado unilateralmente. A natureza acaba por contrabalancear essa tendência utilizando o corpo, como se buscasse uma forma mais efetiva para realizar suas metas. É quando o self lança mão do sintoma, fazendo com que esse indivíduo retorne a sua energia psíquica para o si mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que pode levar um paciente a procurar um médico ou um profissional de saúde mental nos nossos dias, é o grau de sofrimento em uma polaridade. Arrisco aqui a dizer, que a grande maioria desses pacientes procuram um médico, já que muitas vezes, a dor física torna-se muito maior que a mental. Somente uma pequena parte da população (sem aqui generalizar) está familiarizada com a dor mental, conseguindo discernir nesse momento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Cavalcanti &amp; Cavalcanti</strong>, 2020, vaginismo é um distúrbio sexual da mulher, em que há um reflexo de defesa da musculatura do solo pélvico. Nele ocorre um espasmo dos músculos perineais, que impedem total ou parcialmente a penetração na vagina, o que impossibilita o coito e inclusive os exames ginecológicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-disturbio-sexual-do-vaginismo-pode-ser-classificado-como-primario-ou-secundario">O distúrbio sexual do vaginismo pode ser classificado como primário ou secundário.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">É primário quando se manifesta desde a primeira tentativa de penetração, sexual ou não. Essas pacientes vagínicas (como são designadas) costumam ser portadoras de hímen íntegro ou parcialmente roto e em sua maioria, são perfeitamente responsivas, com boa lubrificação vaginal e podem inclusive, considerar a atividade sexual não coital, até prazerosa. A dificuldade aqui, é com a penetração, que muitas vezes, dispara inclusive gatilhos de ansiedade, tamanho o temor que sentem da dor da contratura involuntária dos músculos pélvicos</p>



<p class="wp-block-paragraph">É um distúrbio sexual de vaginismo secundário, aquele em que aparece após um período de vida sexual ativa, determinado por uma motivação forte para estabelecer ou mesmo condicionar a resposta espasmódica da musculatura pélvica. Isso pode impedir parcialmente ou mesmo totalmente a penetração. Quando esta ocorre, a penetração, pode ser acompanhada por um reflexo de dor, ou seja, uma relação sexual (se for esse o caso), extremamente dolorosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A dor nesse sentido, pode ser um disparador da esquiva ou mesmo da aversão ao sexo, já que podemos associá-lo também a problemas psicossociais, como uma educação sexual castradora ou ainda a questões de rigidez religiosa. Isso pode continuar acontecendo, mesmo após a cura integral do processo orgânico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando essa mulher, portadora desse distúrbio é colocada numa situação da qual não consiga se esquivar, o medo da dor poderá apresentar-se de forma tão intensa, que se exterioriza fisicamente como uma contratura violenta da musculatura pélvica, acompanhada de fenômeno doloroso adicional que retroalimenta essa cadeia que leva ao reflexo contrátil.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vaginismo-e-medo">Vaginismo e medo</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A principal causa do vaginismo, está ligada diretamente ao <strong>medo</strong>, que em sua maioria podemos citar: medo da gravidez, fobia de câncer, partos difíceis ou mesmo ainda, algum abuso ou violência sexual. Embora os casos maiores de violência sexual estejam ligados mais diretamente ao vaginismo primário, aqui também, no vaginismo secundário, ainda vemos esses reflexos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Cavalcanti &amp; Cavalcanti</strong>, 2020, o vaginismo parece ser mais freqüente em mulheres com dois tipos de personalidade: o da mulher autoritária e o da mulher excessivamente frágil.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mulheres-autoritarias">Mulheres autoritárias</h2>



<p class="wp-block-paragraph">As mulheres autoritárias e vagínicas, dificilmente se submetem ao parceiro masculino. Elas jamais se deixariam conquistar pelo amor, o que as deixaria inferiorizadas. A relação entre os sexos perderia sua real característica de junção de almas, para se converter em luta pelo poder conjugal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Elas quase sempre escolhem para companheiros homens frágeis, gentis e resignados, fáceis de serem manipulados e muitas vezes, podem ter algum distúrbio erétil ou mesmo, com o comportamento tirânico da companheira, termina por castrá-los psiquicamente, estabelecendo uma disfunção erétil reativa. <strong>Na clínica junguiana, poderíamos aqui dizer, que essa mulher teria um animus enorme e castrador.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mulheres-frageis">Mulheres frágeis</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nas mulheres “frágeis”, a aparente delicadeza, poderia encobrir uma vida cheia de mimos e chantagens emocionais, aliada inclusive, a uma educação sexual castrativa. São pessoas que tem medo de tudo: do escuro, da solidão, encarando o ato sexual como algo tenebroso e animalesco, em que o parceiro estaria, simbolicamente falando, disposto a “rasgá-las” com um pênis “grosseiro e bestial”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Poderíamos aqui usar, na psicologia junguiana, um conto de fadas para descrever esse tipo de mulher, já que ela estaria esperando um príncipe encantado, para despertá-la para o amor. Essa trama estaria em a “Bela Adormecida”. O triste dessa história, desse tipo de vagínica, é que esse príncipe encantado (o marido ou companheiro), não consegue despertá-la.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conflito-de-papeis-e-a-sexualidade">Conflito de papéis e a sexualidade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Posso acrescentar aqui também, a mulher que vive em conflito de papéis, entre ser “mulher e mãe”, ligada a uma persona muitas vezes, voltada apenas a ser mãe e em volta de todo esse complexo materno ativado, não consegue sair do papel de mãe dos seus filhos e do próprio companheiro, num jogo projetivo enorme. Outras vagínicas, podem encarar os homens apenas como meros reprodutores, onde o importante aqui seria, apenas a gravidez, não o ato sexual em si.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Simbolicamente falando, podemos lançar mão de alguns questionamentos essenciais, da clínica junguiana. <strong>Qual o complexo ligado ao sintoma? Qual o “medo” relacionado? Como está esse relacionamento afetivo? </strong>Porque e para que negar-se ao prazer e submeter o parceiro a essa negação? Podemos assim, “passear” por esses em questionamentos em torno dos sintomas e dos complexos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com <strong>Rüdiger Dahlke</strong>, 2021, a vagina está ligada à entrega e ao prazer e essa dificuldade de penetração, poderia estar relacionada com um desejo inconfessado de segurar o parceiro sexual, simbolizando as tendências da alma para enganchar, reter, prender. O medo aqui, estaria ligado à perda de coisas desejadas e amadas, associado a um medo inconfesso de separação. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-com-certeza-cada-caso-e-um-caso">Com certeza, cada caso é um caso.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Observar o entorno relacional de cada mulher, o tipo de educação sexual e religiosa que ela teve, os mitos, crendices e tabus sexuais, avaliando cuidadosamente é extremamente importante, não para formular um diagnóstico, já que o próprio Jung nos diz que “não tratamos doenças e sim pessoas”, mas para melhor condução do caso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O distúrbio sexual do vaginismo exige uma equipe multiprofissional para o tratamento, composta de médico, psicoterapeuta/analista e fisioterapeuta pélvico, onde o médico realiza o diagnóstico, o psicoterapeuta conduz os aspectos da psique e o fisioterapeuta realiza por meio de exercícios da musculatura pélvica, o relaxamento dessa área, conduzindo a cliente a um melhor conhecimento da sua anatomia e fisiologia íntima.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-dificil-viver-uma-sexualidade-simples-e-feliz">É difícil viver uma sexualidade simples e feliz?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na verdade, cada ser tem a sua própria definição de felicidade e daquilo que o faz feliz, todavia, é necessário verificar qual o tipo de atração e repulsão que temos em relação à sexualidade e as conseqüências que verificamos, nesse sentido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Observar, por exemplo, se temos algum problema relacionado a algum distúrbio sexual e principalmente observar igualmente, que não somos impotentes com “todas” as mulheres ou frígidas com “todos” os homens e do contexto em que isso ocorreu. Observar, igualmente, a qualidade e a quantidade de nossos orgasmos ou ainda, a dificuldade em atingi-los e verificar do ponto de vista médico ou psicológico, para sermos mais felizes. </p>



<p class="wp-block-paragraph">A inobservância desses aspectos pessoais, nos deixa alheios à nossa realidade pessoal, num momento em que isso não nos foi ensinado na infância e em um momento social contemporâneo, onde aquilo que é importante está apenas no prazer físico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-alma-e-a-sexualidade">A alma e a sexualidade</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>A “alma”, nesse contexto de transcendência, não é citada e por vezes (na maioria delas), ignorada.</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A sexualidade poderia e deveria ser abordada como nosso caminho de transcendência, por ser esse um tema que encontramos em certas tradições e que alguns de nós o conheceu de forma inesperada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ora, o sexo é um momento de passagem para além do ego ou além do eu, pois é por meio do abandono do corpo, que alguns podem ter e vivenciar simbolicamente, uma abertura para a luz, para a alma, lembrando que o orgasmo é uma forma de renúncia ao poder e ao controle. É uma pseudo morte da consciência e é através dessa “morte” do ego, que tocamos a alma. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-bem-nos-diz-jung">Como bem nos diz <strong>Jung</strong>:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">“<strong>Já não é possível hoje em dia passar por cima da importante realidade psicológica da sexualidade com ar de deboche ou com indignação moral. Começa-se a incluir a questão sexual no círculo dos grandes problemas e a discutí-la com a seriedade que sua importância merece</strong>” </p>
<cite>2019, p. 112, &amp; 212</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/mariaivanilde/">Maria Ivanilde Ferreira Alves  &#8211; Membro analista em formação</a> </p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">E. Simone Dálvio Magaldi &#8211; Didata responsável</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliografica-s"><strong>Referências bibliográfica</strong>s:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Freud e a Psicanálise. Obras Completas.</em>&nbsp;v 4. 1971a.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">______&nbsp;<em>Civilização em transição. Obras Completas.</em>&nbsp;v 10/3. 1974.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">______&nbsp;<em>Estudos Experimentais. Obras Completas.</em>&nbsp;v 2. 1979&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">MASTERS, W. H.; JOHNSON, V. E.; KOLODNY, R. C.&nbsp;<em>Relacionamento Amoroso.</em>&nbsp;1982/1985.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">CAVALCANTI, Ricardo e Mabel.&nbsp;<em>Tratamento Clínico das inadequações sexuais.</em>&nbsp;5 ed. (2020).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">DAHLKE, Rudiger. A doença como símbolo – Pequena enciclopédia de psicossomática (2000).</p>



<p class="wp-block-paragraph">RAMOS, Denise Ramos. A psique do corpo: a dimensão simbólica da doença (2006).</p>



<p class="wp-block-paragraph">YVES-LEOUP, Jean. O corpo e seus símbolos. 4 ed. (1999).</p>



<p class="wp-block-paragraph">PAMPLONA, Ronaldo et al. Macho masculino homem. (1986).</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena, Filhas de pai, filhos de mãe. 5 ed (2012).</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



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		<item>
		<title>Psique e Matéria como Unidade sob a ótica junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/psique-e-materia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dulce Kurauti]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Feb 2023 12:46:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7376</guid>

					<description><![CDATA[<p>Neste artigo trago a possibilidade de compreender psique e matéria como uma unidade a partir do caminho vislumbrado por Jung e explorado mais a fundo por von Franz, em que o mundo arquetípico dos números naturais seriam a chave para esse entendimento.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>O presente artigo abordará a Psique e a Matéria como Unidade, a partir da perspectiva da Psicologia Junguiana. A relação entre psique e matéria é um dos grandes desafios da área do conhecimento da humanidade nos tempos atuais.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao terminar sua obra sobre sincronicidade, Jung começou a tatear sobre a possibilidade de um avanço no entendimento desta relação através dos arquétipos dos números naturais. Poucos anos antes de falecer, por se sentir sem condições de continuar nessa empreitada, ele deixou essa missão para Marie Louise von Franz, uma das mais importantes sucessoras de seu trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de ter tido dúvidas sobre se deveria realizar essa missão ou delegá-la para alguém mais capacitado do que ela, após a morte de Jung, o tema não a deixou em paz, fazendo com que ela tomasse para si esse empreendimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-presente-artigo-foi-escrito-tendo-como-base-dois-livros-de-von-franz-em-que-ela-discorre-sobre-o-assunto-psyche-and-matter-2014-e-number-and-time-1974" style="font-size:18px">O presente artigo foi escrito tendo como base dois livros de von Franz em que ela discorre sobre o assunto: “Psyche and matter” (2014) e “Number and time” (1974).</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Busca-se trazer uma perspectiva inicial sobre o tema, que será aprofundado na monografia de formação de membro analista do IJEP.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A descoberta da existência do inconsciente por Sigmund Freud e Carl Gustav Jung foi de fundamental importância para o entendimento da psique humana. Apesar de terem tomado caminhos bem diferentes, ambos foram responsáveis pelo trabalho empírico que permitiu ter algum tipo de conhecimento dos conteúdos inconscientes da psique. Sonhos, fantasias, atos falhos, sintomas, gestos involuntários, nos dão alguma noção do que se passa no infinito reino do inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-partir-da-descoberta-do-inconsciente-jung-seguiu-um-caminho-diferente-de-freud-e-dos-materialistas-de-sua-epoca-no-estudo-e-entendimento-da-psique" style="font-size:19px">A partir da descoberta do inconsciente, Jung seguiu um caminho diferente de Freud e dos materialistas de sua época no estudo e entendimento da psique.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para <strong>Freud</strong>, o inconsciente era um local onde eram despejados impulsos sexuais reprimidos e ele buscou conectá-los, através dos seus conhecimentos médicos, direcionando sua busca de entendimento em processos biológicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> preferiu outra abordagem, antes de assumir qualquer tipo de relação entre o inconsciente e o corpo, ele quis observar os fenômenos psíquicos em si, não por acreditar que essa relação não fosse válida, mas sim porque ele achava que naquele momento, esse caminho seria precipitado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da mesma forma, ele foi em oposição aos seus contemporâneos materialistas, que assumiram apressadamente que a psique seria apenas um aspecto secundário da personalidade, sujeito totalmente aos processos fisiológicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-seguir-seu-caminho-jung-chegou-a-descoberta-do-conteudo-mais-importante-da-psique-os-complexos" style="font-size:18px">Ao seguir seu caminho, <strong>Jung</strong> chegou à descoberta do conteúdo mais importante da psique, os <strong>complexos</strong>.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“A via regia que nos leva ao inconsciente, entretanto, não são os sonhos, como ele (Freud) pensava, mas os complexos, responsáveis pelos sonhos e sintomas”</em> </p>
<cite>JUNG, 2000, §210</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Através do uso do teste de associação de palavras, Jung descobriu a existência dos complexos. Complexos seriam um agrupamento de vivências semelhantes carregadas de forte carga emocional, que agem como uma personalidade com certa autonomia e que toda vez que são acionados provocam reações tanto emocionais quanto corporais fora do alcance da vontade do ego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse grau de autonomia pode ser tão grande, que nós não temos complexos, são eles que podem “nos ter”. A partir do teste de associação de palavras, Jung percebeu que seus pacientes levavam um tempo ligeiramente maior para responder quando eram citadas palavras associadas a alguma vivência traumática.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Posteriormente, quando esse teste foi feito junto com psico galvanômetro, foi possível perceber que sempre que acontecia esse atraso na resposta, ocorria também um desvio na curva respiratória ou na permeabilidade elétrica da pele. Ou seja, obteve-se indicações de que os complexos tinham também efeitos fisiológicos nos indivíduos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-com-o-conhecimento-de-psicossomatica-que-se-tem-hoje-sabe-se-que-os-complexos-afetam-o-corpo-de-varias-formas" style="font-size:21px">Com o conhecimento de psicossomática que se tem hoje, sabe-se que os complexos afetam o corpo de várias formas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Os complexos impactam, por exemplo, o batimento cardíaco, a digestão, o aparelho respiratório, o urinário etc. Ou seja, o mundo inconsciente da psique não estaria relacionado apenas aos processos mentais. Mas sim do corpo como um todo, sendo que o cérebro teria a função específica de organizar nosso entendimento do mundo exterior.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Para Jung, os complexos têm forte relação com a personalidade e ele direcionou seus esforços no entendimento dessa relação</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É imprescindível trazer o conceito de psique segundo <strong>Jung</strong>. Começando com a <strong>consciência</strong>, temos que seu conteúdo é tudo aquilo que conhecemos, que temos consciência, que está no domínio do complexo do ego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ademais, além da consciência existe o imenso mundo do <strong>inconsciente</strong>. Em uma primeira camada encontra-se o <strong>inconsciente pessoal</strong> &#8211; no qual estão os conteúdos da vivência pessoal de um indivíduo.Já em camada mais profunda encontra-se o <strong>inconsciente coletivo</strong> &#8211; no qual estão abrigados conteúdos comuns à toda humanidade, a exemplo de sua capacidade criativa, tanto consciente quanto inconsciente, sendo a base da estrutura da psique.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-conceito-importante-relacionado-ao-inconsciente-coletivo-e-o-de-arquetipos" style="font-size:18px">Outro conceito importante, relacionado ao inconsciente coletivo, é o <strong>de arquétipos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Arquétipos são estruturas psíquicas existentes<em> a priori</em>, não observáveis, uma vez que são estimulados por vivências similares. Sejam elas externas, um perigo que represente uma ameaça de morte, ou internas, levam às mesmas reações, sentimentos, emoções, fantasias, sensações em todas as pessoas, como acontece com os instintos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-associacao-desses-efeitos-com-emocoes-como-amor-medo-entusiasmo-etc-leva-a-efeitos-fisicos-como-aceleracao-do-coracao-ondas-de-suor-tremores-e-varias-outras-situacoes" style="font-size:18px">A associação desses efeitos com emoções, como amor, medo, entusiasmo, etc., leva a efeitos físicos como aceleração do coração, ondas de suor, tremores e várias outras situações.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A partir dessa ideia, <strong>Jung</strong> fez um diagrama (Figura 1) para representar a psique, atribuindo a ele um espectro de cores, de forma que em um extremo está a parte puramente instintiva, que ele nomeou de infravermelho e no outro extremo está a parte puramente arquetípica, nomeada de ultravioleta. Entre eles existe um espaço em que o ego transita, e no meio desse caminho está a consciência, onde ele pode usufruir de uma certa autonomia de decisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fora deste campo, a polarização em qualquer um dos lados pode levar o ego a ser tomado por um complexo como, por exemplo, a ninfomania ou a compulsão alimentar no extremo infravermelho, ou, ainda,  a pessoa pode ser tomada pela ideia de que é um deus salvador no extremo ultravioleta.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2023/02/Imagem1.gif" alt="" class="wp-image-7378" style="width:552px;height:161px" width="552" height="161"/></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando este modelo, vivemos cotidianamente situações em que o mundo da matéria, percebido por nosso corpo, afeta nosso mundo psíquico. Reciprocamente temos também o mundo psíquico se manifestando no corpo. A existência dessa relação de mão dupla pode ser demonstrada de forma estatística e vem sendo objeto de estudo da medicina psicossomática. Mas como podemos descrever e entender a conexão entre psique e matéria? </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung">Para <strong>Jung</strong>:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>&#8220;os dois polos (infravermelho e ultravioleta) fazem parte de uma única e desconhecida realidade viva, e são vistas como dois fatores diferentes somente na consciência, Se nós somos afetados pelo físico ou o assim chamado eventos </em>&#8216;<em>materiais&#8217; do mundo externo nós os chamamos matéria, se nós somos mobilizados por fantasias, ideias ou sentimento internos, nós chamamos isso de psique objetiva ou inconsciente coletivo.&#8221; </em></p>
<cite>von Franz, Number and time, 1974, p. 5 <a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftn1"><sup>[1]</sup></a></cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Ao se aprofundar no estudo dos arquétipos (que não são acessados diretamente) Jung identificou as imagens arquetípicas nas religiões, mitos e contos de fadas. Mesmo com pontos de diferenciação, os arquétipos mantinham um padrão que se repetia. Além de estarem na base dessas imagens recorrentes, os arquétipos &#8211; que constituem a matriz criativa da inconsciência e do funcionamento da consciência, também estão na base da ciência e de suas premissas intelectuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No excelente livro, Die physikalische Weltbild in der Antike (“A imagem do mundo físico na antiguidade), S. Sambursky, demonstra de forma detalhada que todos os temas da física do Ocidente são derivados de imagens simbólicas primitivas intuitivas da filosofia natural grega.”<a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftn2">[2]</a>&nbsp;(S. Sambursky, apud von Franz, Matter and Psique, 2014, p.15)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-os-pitagoricos-os-numeros-sao-o-alfabeto-com-que-os-deuses-escreveram-o-universo" style="font-size:23px"><strong>Para os pitagóricos “os números são o alfabeto com que os deuses escreveram o universo”.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na física moderna, uma das ideias mais importantes da filosofia que guia é a de que, no fim das contas, tudo o que se está lidando é com uma estrutura matemática. Os pitagóricos já tinham trazido isso para o mundo quando trouxeram que números naturais, e algumas relações entre eles são constantes da natureza, em até 95% (para guardar uma certa margem de segurança). Pois fazem parte da base da ciência natural moderna, são imagens do divino, o que provoca tanto interesse sobre elas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos exemplos mais conhecidos de uma constante da natureza que representa uma imagem divina é a <strong>proporção áurea</strong>, 1,6180. A <strong>proporção áurea</strong> pode ser obtida de forma aproximada na <strong>sequência de Fibonacci</strong>. Esta última, por sua vez, é uma <strong>sequência infinita </strong>construída, em que um termo é a soma dos dois anteriores: (1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, &#8230;).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de alguns matemáticos afirmarem que os números são apenas uma questão de nomenclatura, eles foram nomeados como um, dois, três e assim por diante e da mesma forma poderiam se chamar X, Y, Z &#8230;  E essa troca não teria nenhum efeito, para este grupo a forma como nos referimos aos números seria uma mera convenção inventada pela consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esse-grupo-certamente-pode-ser-considerado-dentre-aqueles-que-acreditam-que-somente-a-consciencia-e-o-ego-compoem-a-psique" style="font-size:22px">Esse grupo certamente pode ser considerado dentre aqueles que acreditam que somente a consciência e o ego compõem a psique</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se imaginarmos um processo em que “inventamos” os números a partir de uma  contagem de algum elemento, como ervilhas por exemplo, vamos fazendo o levantamento e vamos nomeando o agrupamento de ervilhas de “um”, “dois”, “três”, e assim por diante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este é um processo totalmente criado pela nossa mente e, como fizeram os pitagóricos, várias características desses números foram descobertas. Números pares, ímpares, primos, e mais do que isso, foram descobertas também relações entre eles que ainda hoje não foi possível desvendar a explicação totalmente. Se essas características tivessem sido criadas da mesma forma que os nomes que nós atribuímos aos números, certamente seríamos capazes de falar tudo sobre eles.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ocidente-e-oriente">Ocidente e oriente</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Comparando as visões ocidentais e orientais sobre os números, temos vivências significativamente diferentes entre os dois, enquanto no ocidente temos uma visão predominantemente quantitativa, no oriente temos uma perspectiva qualitativa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No seu livro “<strong>Adivinhação e sincronicidade </strong>&#8211;<strong> A psicologia da probabilidade significativa</strong>”, von Franz cita uma história que muito bem ilustra a perspectiva qualitativa dos números para os chineses. Em uma certa batalha, onze generais tinham que decidir se prosseguiriam com a guerra ou se bateriam em retirada. Não houve unanimidade entre eles. A decisão foi votada, sendo que oito deles votaram pela retirada e três votaram por continuar e atacar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diferentemente do que uma mente ocidental acharia. Justamente porque <strong>três </strong>é o número que representa a unanimidade eles partiram para o ataque e foram vitoriosos (von Franz, Adivinhação e sincronicidade &#8211; A psicologia da probabilidade significativa, 1980, pp. 99, 100).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ampliando essa diferença de percepção para a visão sobre psique e matéria temos que: “Enquanto muitos no Ocidente gostariam de derivar tudo da matéria, ao contrário, no Oriente, por exemplo, os tântricos dizem que a matéria nada mais é do que a definição do pensamento de Deus.”<a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftn3"><sup>[3]</sup></a>&nbsp;(von Franz, Matter and Psique, 2014, p. 17)</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> focou seus esforços em explorar como o mundo do inconsciente pessoal e coletivo afetavam a pessoa. Nesse sentido, ele se deparou com um desafio, pois, até então, o mundo psíquico só podia ser percebido em seu próprio meio. Diferentemente dos físicos que levavam a vivência da matéria para o mundo mental, psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sincronicidade">Sincronicidade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao formular o conceito de sincronicidade, que Jung sabia que enfrentaria muita resistência do racionalismo ocidental, o autor nos trouxe uma nova perspectiva de entendimento da relação entre psique e matéria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um<strong> evento sincrônístico </strong>é uma imagem simbólica constelada no mundo psíquico interior, um sonho, uma imaginação ativa, ou um palpite repentino originado no inconsciente, que coincide de uma forma “milagrosa”, não explicável de forma causal ou racional, com um evento similar do mundo exterior (von Franz, Number and time, 1974, p. 6)<a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftn4">.<sup>[4]</sup></a></p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>I Ching</strong><em>, </em>um livro chinês de adivinhação e sabedoria, é totalmente baseado na sincronicidade. Deixarei a análise mais profunda desta relação para a monografia de formação de membro analista do IJEP.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, acho interessante deixar registrado aqui um fato que nos chama a atenção: quando pensamos na relação entre a psique e matéria, que a quantidade de hexagramas do <em>I Ching</em>, 64, é exatamente a mesma de combinações possíveis do código genético dos seres humanos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com o conceito de <strong>sincronicidade</strong>, em que um evento psíquico se espelha no mundo exterior da matéria, foi possível pensar na existência de uma unidade que está na base da dualidade entre psique e matéria de forma mais compreensível. A partir disso, Jung utilizou o termo <em>unus mundus</em> para designar essa unidade de existência. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-psique-e-materia">Psique e matéria</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> reconhecia que ele próprio não tinha mergulhado nas profundezas desse abismo do entendimento da unidade de existência entre psique e matéria.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-disso-ele-nos-deixou-a-seguinte-pista">Apesar disso, ele nos deixou a seguinte pista:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">“<em>Nessa conexão eu sempre me deparo com o enigma dos números naturais. Eu tenho um sentimento distinto de que eles são a chave para o mistério, desde que eles são ao mesmo tempo descobertos e inventados, quantidade e significado</em>&#8221; </p>
<cite>von Franz, Number and time, 1974, p. 9 <a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftn5"><sup>[5]</sup></a></cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/dulce/">Dulce Ayako Kurauti </a>&#8211; Membro analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">E. Simone Magaldi</a> &#8211; Membro Didata do IJEP</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Psique e matéria como unidade a partir da perspectiva da Psicologia Junguiana" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/GQT1XG3HS5o?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Bibliografia</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">von Franz, M.-L. (1974).&nbsp;<em>Number and time.</em>&nbsp;Northwestern University Press: Evanston.</p>



<p class="wp-block-paragraph">von Franz, M.-L. (1980).&nbsp;<em>Adivinhação e sincronicidade &#8211; A psicologia da probabilidade significativa.</em>&nbsp;São Paulo: Cultrix.</p>



<p class="wp-block-paragraph">von Franz, M.-L. (2014).&nbsp;<em>Matter and Psique.</em>&nbsp;Boston &amp; London: Shambhala.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftnref1"><sup>[1]</sup></a>&nbsp;(&#8230;)&nbsp;the tvvo poles partake of one and the same unknown living reality, and are registered only as two different factors in consciousness. If we are afTected by the physical or so-called “material” events of the outer world, we call it matter; if we are moved by fantasies, ideas, or feelings from within, we call it the objective psyche or the collective un- conscious.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftnref2"><sup>[2]</sup></a><sup>&nbsp;S</sup>. Sambursky, in his outstanding book Die physikalische Weltbild in der Antike (“The Image of the Physical World in Antiquity”), demonstrates in a detailed fashion that all the basic themes of modern Western physics are derived from the intuitive primal symbolic images of Greek natural philosophy.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftnref3"><sup>[3]</sup></a>&nbsp;Whereas many in the West would like to derive everything from matter, conversely, in the East, for instance, the Tantrics say that matter is nothing other than the definiteness of God’s thought.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftnref4"><sup>[4]</sup></a>&nbsp;(&#8230;)&nbsp;a symbolic image constellated in the psychic inner world, a dream, for instance, or a waking vision, or a sudden hunch originating in the unconscious, which coincides in a “miraculous” man- ner, not causally or rationally explicable, with an event of similar meaning in the outer world.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftnref5"><sup>[5]</sup></a>&nbsp;n this connection I always come upon the enigma of the natural number. 1 have a distinct feeling that number is a key to the mystery, since it is just as much discovered as it is invented. It is quantity as well as meaning.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/psique-e-materia/">Psique e Matéria como Unidade sob a ótica junguiana</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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