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	<title>Arquivos afetos - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos afetos - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Precisamos conversar com as árvores: imaginação, afeto e cura</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/precisamos-conversar-com-as-arvores-imaginacao-afeto-e-cura/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniella Schmidt]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Sep 2026 14:14:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
		<category><![CDATA[imaginação]]></category>
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		<category><![CDATA[Simbolismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este ensaio propõe uma reflexão sobre a atitude simbólica na psicologia analítica, compreendendo a imagem como linguagem própria da psique e, o símbolo, como principal mediador da relação entre consciência e inconsciente. A partir das contribuições de Carl Gustav Jung, Nise da Silveira e outros autores da tradição junguiana, discute-se o potencial transformador da imaginação, dos símbolos e dos recursos expressivos no processo terapêutico.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Este ensaio propõe uma reflexão sobre a atitude simbólica na psicologia analítica, compreendendo a imagem como linguagem própria da psique e, o símbolo, como principal mediador da relação entre consciência e inconsciente. A partir das contribuições de <strong>Carl Gustav Jung</strong>, <strong>Nise da Silveira</strong> e outros autores da tradição junguiana, discute-se o potencial transformador da imaginação, dos símbolos e dos recursos expressivos no processo terapêutico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como fio condutor da reflexão, utiliza-se o filme <strong>Sete Minutos Depois da Meia-Noite</strong>, no qual a relação entre Conor O&#8217;Malley e o Teixo-Monstro oferece uma rica metáfora para compreender o diálogo com as imagens interiores, a lida com o sofrimento e a função transcendente da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O texto percorre o encontro entre o menino e a árvore como uma narrativa da transformação psíquica, mostrando como a imaginação, os sonhos, a arte e as histórias podem se tornar caminhos de elaboração, integração e cuidado com a alma. Defende-se que o desenvolvimento de uma atitude simbólica constitui uma via fundamental para a ampliação da consciência, a autorregulação psíquica e a construção de novos sentidos diante das experiências da vida.</p>



<h2 id="h-nao-encontrei-outra-forma-de-comecar-este-artigo-que-nao-fosse-por-esta-citacao-de-jung" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Não encontrei outra forma de começar este artigo que não fosse por esta citação de Jung:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“A psique cria a realidade todos os dias. A única expressão que me ocorre para designar esta atividade é fantasia. A fantasia é tanto sentimento quanto pensamento, é tanto intuição quanto sensação. Não há função psíquica que não esteja inseparavelmente ligada pela fantasia com as outras funções psíquicas.(&#8230;) Por isso, a fantasia me parece a expressão mais clara da atividade específica da psique. É sobretudo a atividade criativa donde provêm as respostas a todas as questões passíveis de resposta; é a mãe de todas as possibilidades onde o mundo interior e exterior formam uma unidade viva, como todos os opostos psicológicos. A fantasia foi e sempre será aquela que lança a ponte entre as exigências inconciliáveis do sujeito e objeto, da introversão e extroversão.” (Jung, 2013a, p.73)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A psique produz imagens, atua através delas, e a lida com o universo imagético da psique demanda a entrega da lógica do controle, previsibilidade e de qualquer possibilidade de conhecimento de antemão ou metodologização. Simplesmente não é possível nenhum esquema predefinido ou domínio racional sobre o que nos é apresentado se quisermos um contato honesto, profundo, criativo e germinativo com as forças da psique. Precisamos iniciar o contato com as imagens através da máxima socrática “só sei que nada sei”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A energia psíquica se move através das ações tomadas conscientemente e, também, pelas fantasias e produtos inconscientes. A postura do ego diante das imagens dará os contornos de como o consciente se relaciona com a totalidade psíquica, podendo se enrijecer na explicação excessivamente racional e na literalização dos fenômenos, ou se abrir para a troca e o diálogo com as antinomias e a aceitação que algo nos escapará e nunca será assimilado conscientemente, ou seja, a adoção do olhar simbólico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O pensamento simbólico abre mão da racionalidade que explica e se volta ao irracional criativo, fértil, que movimenta a energia psíquica e fomenta a relação e o encontro com novos sentidos e com a diversidade, auxiliando nas contínuas necessidades adaptativas frente aos mundos externo e interno. Sobre isso, José Luiz Balestrini Jr, membro didata do Ijep, destaca que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“(&#8230;) caso o indivíduo não dê atenção aos conteúdos do inconsciente através de experiências simbólicas criativas, este irá encontrar maneiras de se manifestar que, certamente, serão disfuncionais e carregadas de sofrimento. É nesse sentido que a imagem simbólica desponta como fundamental, já que, para Jung, a linguagem do inconsciente se constrói por meio dessas imagens”. (Balestrini Junior, 2023, pag. 32).</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-o-fazer-criativo-a-autonomia-e-a-forca-transformadora-da-imagem" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>O FAZER CRIATIVO, A AUTONOMIA E A FORÇA TRANSFORMADORA DA IMAGEM</strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Trabalhar com as imagens internas está longe de ser uma atividade passiva, é uma <em>opus</em> que convoca o indivíduo para uma atitude tanto espontânea quanto ativa diante de seu processo terapêutico. As imagens e seu potencial simbólico demandam do ego, ao mesmo tempo, asas e raízes. Através de voos alçados pela imaginação e pelo fazer livre criativo é possível dar expressão concreta e forma visível aos conteúdos afetivos conscientes e inconscientes, proporcionando ao sujeito o confronto, a reflexão, o discernimento e as ações necessárias para ampliar e lidar com o que lhe ocorre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A imaginação tem o poder de nos transformar, e a análise junguiana e as expressões criativas oferecem um vaso possível para acolher e explorar a força desse universo imaginal, como já nos contava a Dra. Nise da Silveira, psiquiatra brasileira e precursora da utilização da arteterapia para o tratamento de pessoas com esquizofrenia e em grave sofrimento psíquico:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“O processo psíquico desenvolve seu dinamismo por intermédio da criação de imagens simbólicas. “O símbolo é o mecanismo psicológico que transforma energia”. Assim, a objetivação de imagens simbólicas no desenho ou na pintura poderá promover transferências de energia de um nível para outro nível psíquico. A imagem não é algo estático. Ela é viva, atuante e possui mesmo eficácia curativa.” &nbsp;(Silveira, 2015, pag. 135)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo o que nos afeta é real, quer exista ou não na dimensão concreta e objetiva da experiência humana, e quando uma imagem nos alcança, vinda de uma vivência consciente ou pelas vias do inconsciente, somos atravessados por emoções, ideias, sensações, memórias, intuições. Os complexos afetivos, sombra, persona, arquétipos, instintos e tudo o mais que nos habita chegam como imagens carregadas de energia psíquica, sejam elas visuais, sensoriais, olfativas, auditivas, narrativas etc. O trabalho simbólico cria expressão e representação para os conteúdos afetivos, que ao serem ampliados e aprofundados, estimulam o intercâmbio da energia psíquica entre os diferentes aspectos autônomos para produzir a autorregulação do sistema.</p>



<h2 id="h-no-inicio-de-suas-pesquisas-atraves-do-teste-de-associacao-de-palavras-carl-gustav-jung-constatou-a-autonomia-do-inconsciente-e-a-existencia-de-aspectos-ocultos-que-constituem-a-totalidade-psiquica-e-interferem-na-vida-concreta-do-individuo-independente-da-vontade-do-eu" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">No início de suas pesquisas, através do teste de associação de palavras, Carl Gustav Jung constatou a autonomia do inconsciente e a existência de aspectos ocultos que constituem a totalidade psíquica e interferem na vida concreta do indivíduo, independente da vontade do eu.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo do desenvolvimento de sua teoria, que também foi construída a partir da relação criativa com suas imagens interiores, o psiquiatra suíço foi observando uma série de fatores que expressam essa autonomia, como, por exemplo, a precedência da dimensão coletiva instintiva e arquetípica, de onde a consciência nasce e se desenvolve, a dinâmica dos complexos afetivos e dos conteúdos sombrios, o mecanismo de projeção, a função transcendente e a manifestação dos sonhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os processos da vida são, apenas em parte, compreendidos conscientemente. Sempre existirá o mistério e o incognoscível, aquele lado que nenhuma teoria que seja baseada na conhecida lógica e racionalidade conseguirá descrever, como aponta Jung:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“A ciência até hoje não foi capaz de apreender o enigma da vida, nem através da matéria orgânica, nem através das misteriosas séries de imagens que brotam da psique. Consequentemente ainda estamos à procura daquele princípio vital cuja existência devemos postular para além dos limites da experiência. Quem conhece os abismos da fisiologia fica aturdido, diante das suas manifestações, da mesma maneira como aquele que tem noções sobre a psique humana, terá uma sensação de desespero, só de pensar que este estranho ser especular jamais atingirá qualquer “conhecimento” por mais aproximado que seja”. (Jung, 2013b, p. 620)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-totalidade-psiquica-e-transcendente-e-o-simbolo-e-a-melhor-expressao-possivel-de-algo-que-nao-se-pode-conhecer-completamente-unindo-aspectos-conscientes-e-inconscientes" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A totalidade psíquica é transcendente e o símbolo é a melhor expressão possível de algo que não se pode conhecer completamente, unindo aspectos conscientes e inconscientes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O símbolo designa “<em>algo que, por trás do sentido objetivo e visível, oculta um sentido invisível e mais profundo</em>” (Jacobi, 1990, pag. 75), comunica tanto uma presença quanto um vir a ser, aquele eterno mistério que faz com que a vida siga buscando. Segundo Goethe, &#8220;<em>o simbolismo transforma o fenômeno em ideia, a ideia em imagem, de tal modo que a ideia permanece sempre infinitamente ativa e inatingível na imagem e, mesmo expressa em todas as línguas, permaneceria indizível</em>” (apud Jacobi, 1990, pag. 75).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A fim de que a totalidade psíquica se expresse e encontre harmonia é, então, vital simbolizar e, para tal, é preciso uma escolha consciente de estabelecer relação com o mundo imaginal, a linguagem da alma. O diálogo com o que fala a partir do inconsciente requer que o ego, centro gestor da consciência, adote uma atitude simbólica diante do que lhe chega. A escuta e interação com as imagens e afetos precisa estar ancorada em um espaço que vai além da racionalidade e que abraça o olhar metafórico, o mistério. Para explorar o potencial imagético é necessário a rendição da razão em favor da intuição e do irracional criativo, diverso e fértil de sentidos e significados.</p>



<h2 id="h-o-teixo-monstro-e-a-emergencia-do-simbolo" class="wp-block-heading"><strong>O Teixo-Monstro e a emergência do símbolo</strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para nos ajudar a ver melhor, recorro, nesse momento, à colaboração de um personagem especial que atuará como uma espécie de coautor nesse texto, o Teixo-Monstro, a árvore fantástica que aparece no imaginário de Conor O’Malley para conduzi-lo em sua jornada ao longo do filme “7 minutos depois da meia-noite”, lançado em 2016 e baseado em um livro homônimo. O companheiro que habita a totalidade psíquica junto com o jovem Conor, logo de início, lhe aponta o portal de entrada para o caminho que trilharão juntos:</p>



<h2 id="h-conor-o-malley-nbsp-como-esta-historia-comeca" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><em>Conor O’Malley:&nbsp; Como esta história começa?</em></h2>



<h2 id="h-teixo-monstro-nbsp-ela-comeca-como-muitas-outras-historias-com-um-garoto-muito-velho-para-ser-uma-crianca-e-muito-jovem-para-ser-um-homem-e-um-pesadelo" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><em>Teixo-Monstro:&nbsp; Ela começa como muitas outras histórias. Com um garoto muito velho para ser uma criança e muito jovem para ser um homem. E um pesadelo.</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O conto surge como uma porta de acesso, através da qual o Teixo-Monstro conduz ao reconhecimento e ampliações acerca da tensão dos opostos constelados, frutos do estiramento entre as polaridades encarnadas na situação consciente do menino: ele é só um garoto, precisando lidar com situações, emoções e afetos difíceis até para gente grande. A árvore convida a ver o que assusta e a reexaminar, por outros ângulos, as imagens narrativas experienciadas até ali. O filme “<strong>7 minutos depois da meia-noite</strong>” narra o drama vivido pelo garoto, que precisa lidar com a doença terminal de sua mãe, o <em>bullying</em> na escola, ausência paterna, mudanças estruturais inevitáveis que evidenciam a difícil relação com a avó materna e toda uma dinâmica que se impõe sobre uma psique infantil, obrigada a dar conta de um mundo de caos, medos e incertezas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filme vai revelando um mosaico de angústias que expressa os conflitos, os sismos e a desordem que se precipitam sobre o caminho do menino, como se uma grande sombra se impusesse como escuridão e opressão sobre o destino que Conor tenta negar. Entre rabiscos, silêncios e desenhos secretos, a totalidade do pré-adolescente vai buscando suas válvulas e refúgios, até que emerge à consciência o Teixo-Monstro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse personagem imaginário é um daqueles seres que habitam as profundezas da psique, uma imagem arquetípica que, como tal, possui autonomia, com sua coerência e vontade própria. Conor começa a aprender sobre a inescapabilidade de certas situações da vida, quando fatores do mundo externo e interno, simplesmente, se forçam a acontecer, escapando do controle e do querer do ego. Mas o drama que surge através da tensão de opostos também é o que torna possível o intercâmbio e o movimento da energia psíquica, capaz de levar a consciência a uma nova experiência.</p>



<h2 id="h-jung-afirma-que-o-inconsciente-se-comporta-de-maneira-compensatoria-ou-complementar-em-relacao-a-consciencia-jung-2013b-p-132-visando-o-equilibrio-dinamico-e-a-autorregulacao-natural-do-aparelho-psiquico" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Jung afirma que “o inconsciente se comporta de maneira compensatória ou complementar em relação à consciência” (Jung, 2013b, p. 132), visando o equilíbrio dinâmico e a autorregulação natural do aparelho psíquico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A presença do Teixo-Monstro nos lembra e alenta, assim como Jung, que as forças que atuam na natureza se compensam e se complementam todo o tempo, na tentativa de promover a harmonia possível. Do lado de fora, uma fenda inevitável estava à espreita de Conor. Do lado de dentro, uma força psíquica, tão instintiva quanto espiritual, capaz de ensinar sobre a vida e suas medicinas, começava a despertar o menino através de seu sonho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Teixo-Monstro se torna, então, a representação do confronto com a sombra, ao mesmo tempo que parece ser um velho sábio, o condutor curandeiro. Exemplo da vivacidade de uma imagem capaz de comunicar os símbolos necessários para a transformação energética dos conflitos vividos pelo pequeno herói, auxiliando-o a encontrar, ao longo do trajeto, novos sentidos para o que lhe ocorre e uma nova adaptação. O Teixo avisa ao garoto “eu vim para te convocar”, anunciando a seriedade da ação consciente necessária para a condução da relação com o imaginário e seus mistérios: é uma convocação.</p>



<h2 id="h-a-imaginacao-como-opus" class="wp-block-heading"><strong>A imaginação como <em>opus</em></strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto Jung nos ensina que é a colaboração entre fatores conscientes e inconscientes que torna possível o surgimento de uma nova atitude diante de si e da vida, o Teixo-Monstro emerge e atesta: “<em>eu vim para te curar, Conor. Para que você possa enfrentar a pior coisa de todas e sobreviver</em>”. Conor consente a escuta e se abre para o diálogo com a Árvore, estabelecendo a atitude simbólica necessária para que aquela colaboração aconteça. Em termos analíticos, o garoto cria condições para que a função transcendente da psique se ponha em ação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muito da elaboração simbólica de Conor é representada, no filme, através do trabalho com os sonhos e do que poderia ser compreendido como imaginação ativa, que são vias possíveis, na psicologia analítica, para dialogar e circumambular conteúdos inconscientes. Mas, no desenrolar do longa-metragem, é possível reconhecer uma série de outros recursos utilizados na clínica junguiana que auxiliam na amplificação e relacionamento com a imagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aparecem no filme ferramentas arteterapêuticas e técnicas expressivas como o desenho, pintura, fotografia, os próprios contos e narrativas. Permitindo que emoção, intuição e sensações espontaneamente se manifestem, desviando do controle e limitação impostos pelo excesso de lógica e racionalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, é possível exprimir afetos e criar consciência a partir dos símbolos que se apresentam, e, ao mesmo tempo refletir com a razão, buscando nomear e dar contornos às dinâmicas psíquicas em curso. O protagonista cria um espaço para representar suas imagens internas, acessar memórias e falar sobre elas, estar ativamente diante de insights e das forças criativas e vivas de sua imaginação.</p>



<h2 id="h-a-opus-ou-seja-o-trabalho-de-criacao-de-consciencia-requer-o-dialogo-da-expressao-das-emocoes-e-do-mundo-imaginal-com-a-compreensao-intelectual-como-destaca-nise-da-silveira" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A <em>opus</em>, ou seja, o trabalho de criação de consciência, requer o diálogo da expressão das emoções e do mundo imaginal com a compreensão intelectual. Como destaca Nise da Silveira:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“Certamente será muito válido interpretar e compreender as produções da imaginação – sonhos, fantasias – nos distúrbios emocionais. Mas o caminho da interpretação intelectual não é o único caminho. Há também, segundo Jung, o método que sugere ao indivíduo a tentativa de dar forma visível às imagens internas que surgem em meio dos tumultos das emoções. Exprimir as emoções pela pintura será excelente método para confrontá-las. Não importa que essas pinturas sejam de todo desprovidas de qualidades estéticas. O que importa é proporcionar à imaginação oportunidade para desenvolver livre jogo e que o indivíduo participe ativamente dos acontecimentos imaginados. Mas, frisa Jung, a atividade plástica em si é insuficiente. O processo evolutivo da personalidade, num trabalho analítico, exige compreensão intelectual e emocional das representações perturbadoras, a fim de que possam ser integradas à consciência”. (Silveira, 2015, pag. 144)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-sao-varios-os-recursos-expressivos-disponiveis-e-quando-o-ego-se-rende-a-postura-simbolica-e-metaforica-torna-se-possivel-vivenciar-o-potencial-gerador-de-significados-das-imagens" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">São vários os recursos expressivos disponíveis e, quando o ego se rende à postura simbólica e metafórica, torna-se possível vivenciar o potencial gerador de significados das imagens.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Teixo reaparece para nos lembrar que estamos diante da figura de um infante protagonista e que a imaginação infantil costuma ser mais fértil, menos condicionada por fatores culturais e mais estimulada, autorizada. Crianças imaginam coisas, certo? Ter amigos imaginários e conversar com coisas invisíveis é possível para a criança. Estão próximas dessa linguagem e são ricamente atravessadas por ela. Mas Jung nos diz que “não é o intelecto que realiza a criação de algo novo, mas o instinto lúdico agindo por necessidade interna. O espírito criador brinca com o objeto que ele ama” (Jung, 2013a, p. 185). Resgatar a ludicidade, a pureza e liberdade diante do imaginar é um caminho possível para aproximar o adulto da tão necessária atitude simbólica. “E por que não”? – nos pergunta o Teixo. Por que não podemos mais conversar com as árvores?</p>



<h2 id="h-a-coragem-de-simbolizar" class="wp-block-heading"><strong>A coragem de simbolizar</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando olhamos para a psique infantil com sua facilidade de acesso ao imaginário, sua flexibilidade para novos aprendizados e abertura ao desconhecido, podemos imaginar que o mundo interno, talvez, não seja tão raso e estreito como muitos racionalizam que é. O território da consciência tem seus limites, mas a dimensão inconsciente não. Ela é origem da consciência e suas imagens pulsam inquietas para criar mais vida. Talvez precisemos desconstruir crenças e condutas tacanhas a respeito da natureza da psique a qual pertencemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro ensinamento que a nossa grande amiga Árvore nos fala é que “<em>há momentos em que a destruição é necessária, para abrir espaço para o que precisa ser construído</em>”. Ela ensina a Conor sobre ciclos e o lugar construtivo da destruição. Podemos pegar uma carona e refletir quais ideias, crenças ou fantasias de limitação temos alimentado e que nos afastam do bendito e redentor olhar simbólico, que tanto pode compensar e complementar o racionalismo exacerbado dos nossos tempos.</p>



<h2 id="h-os-processos-nao-sao-apenas-do-ego-sao-da-psique-enquanto-totalidade" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Os processos não são apenas do ego, são da psique enquanto totalidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O eu é o gestor do campo daquilo que é consciente e enxerga apenas o que já conhece. Para que se amplie consciência é preciso o encontro com o diferente, com a diversidade, e o confronto com a sombra e as próprias convicções. O exercício da imaginação dá chances ao ego de resgatar e reintegrar uma linguagem capaz de ampliar a relação consciente &#8211; mundo interno e criar espaço para o inconsciente nutrir com originalidade as nossas vidas. Quando o Teixo-Arquetípico inicia seu contato com Conor o avisa: “<em>eu vim buscar a verdade, a sua verdade</em>”. Ele não falava das certezas egoicas, mas daquela verdade que se escondia nas dimensões profundas e negadas do menino, e de onde o assombrou até ser vista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já no final do filme, diante de sua mais temível perda, o garoto reencontra o amigo de sonhos e imaginação nos cadernos de desenho de sua mãe, onde o querido Teixo se apresenta, então, como elo psíquico, que guiou a mãe e conduziu o filho. Conor apreende algo sobre a imortalidade do vínculo, do que sempre continuará a ser compartilhado, trazendo novos significados para seu luto através da experiência verdadeiramente simbólica, ou seja, unificadora de opostos. Nada que pudesse ser aprendido através dos livros, apenas vivido com a alma. A relação Conor-Teixo também nos mostra que precisamos da interlocução que ajuda a questionar, elaborar o pensamento, a emoção e encontrar outras perspectivas.</p>



<h2 id="h-a-imagem-e-o-interlocutor-do-mundo-psiquico-e-ela-nao-esta-apenas-no-desenho-nos-contos-nas-fotografias-esta-na-angustia" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A imagem é o interlocutor do mundo psíquico e ela não está apenas no desenho, nos contos, nas fotografias; está na angústia.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A angústia também é imagem, e a escuta também é olhar simbólico. O inconsciente, infindável, autônomo e dinâmico, buscará se expressar, de um jeito ou de outro. O ego estruturante será capaz de deixar o desconhecido se aproximar, criar relação e ser dialético.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Chegando ao fim desse artigo me dou conta de quanta história esse riquíssimo filme tem para contar, e o recorte que apresento, nesse momento, é apenas uma pequena centelha do tanto que ele ainda pode iluminar. Recomendo este filme fantástico para quem ainda não conhece, e, para aqueles que já assistiram, deixo o convite para revê-lo e, mais uma vez, imaginar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela-schmidt/">Daniella Schmidt &#8211; Membro Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior &#8211; Analista Didata Responsável</a></strong></p>



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<iframe title="📃 Artigo novo: &quot;Precisamos conversar com as árvores: imaginação, afeto e cura&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/FeGIW8rB3OU?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias-bibliograficas" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Referências Bibliográficas:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Balestrini Junior, José Luiz. Sonho, imagem, imaginação e o coração onírico. São Paulo: Eleva Cultural, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JACOBI, Jolande. Complexo, arquétipo, símbolo na psicologia de C.G.Jung. São Paulo: Cultrix, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SILVEIRA, Nise da. Imagens do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Imagem: Conor e o Teixo. Foto por Travis Topa &#8211; © 2016 &#8211; Focus Features.<br>Cena do filme Sete Minutos Depois da Meia-Noite (2016), com <a href="https://www.imdb.com/name/nm0000553/?ref_=mv_desc">Liam Neeson</a> and <a href="https://www.imdb.com/name/nm6484968/?ref_=mv_desc">Lewis MacDougall</a>.<br>Disponível em: <a href="https://www.imdb.com/pt/title/tt3416532/">https://www.imdb.com/pt/title/tt3416532/</a></em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>Afetos, Emoções, Arrependimento e Perdão</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/afetos-emocoes-arrependimento-e-perdao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Jul 2022 02:56:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[afetos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[complexos]]></category>
		<category><![CDATA[emoções]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A afetividade – para C. G. Jung expressa por meio de sentimentos, sensibilidades, emoções – seria o fundamento da personalidade. Esses centros de energia afetiva estariam, como sóis, no centro de galáxias de energia psíquica conhecidas em psicologia junguiana como complexos. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Toda tentativa de compreender e explicar a natureza psíquica deve ser encarada como um exercício subjetivo, do ponto de vista de quem está nesta empreitada, reconhecendo-o de forma simbólica e metafórica, fugindo das definições e da literalidade. Para chegarmos, epistemologicamente, à conclusão de que a realidade absoluta só pode existir na imaginação psíquica e que, apesar da dimensão universal nos apresentar o arquétipo humano e muitos outros, cada indivíduo é único, complexo, criativo e insubstituível, apesar de não ser imprescindível para a categoria universal, assim como sua realidade particular também não é imprescindível para o universal. Mesmo assim, elas se interdependem complementarmente. Essa é uma das razões que contribuíram para que a psicologia analítica, até hoje, fique apartada da academia científica, que ainda busca, iludidamente, categorias universais, baseadas em evidências passiveis de controles, dados estatísticos e comprovações experimentais, para definir a alma humana, que é indefinível, onde cada especialidade tenta reduzi-la e enquadrá-la a determinantes bioquímicas, traumáticas, genéticas, orgânicas, alimentares, culturais, sociais, patológicas, religiosas, ambientais, psiquiátricas, astrológicas, neurológicas, ancestrais, entre outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, todas as narrativas reducionistas que buscam explicar o incompreensível e o inexplicável, como os processos sintomáticos de automutilação ou suicídio na adolescência, na maioria das vezes, servem muito mais para aliviar nossa angústia, diante do mistério da vida, frente a essas questões que, de alguma forma, em função da dimensão psicóide do inconsciente coletivo e da consciência coletiva, estão presentes no íntimo de todos nós. Essa realidade psíquica produz, nas pessoas que estão desconectadas da dimensão simbólica, padrões unilaterais e absolutistas, que vão desde a identificação com aquilo que é aceito como o bem ou como o mal, sempre de forma unilateral, atuando num dos lados, e projetando a outra face da referência opositiva em algum depositário, que obviamente tem ganchos para receber essa projeção. Porém, quanto a angústia passa a ser aceita e trabalhada metafórica e simbolicamente, como eterna companheira existencial, ela passa a ser geradora tanto dos desconfortos reflexivos e afetivos, quanto de toda potencialidade criativa humana. Neste sentido que a psicologia analítica trabalha, contribuindo para que a<em>&nbsp;lise</em>, que significa quebra, separação e dicotomia, seja vivenciada imaginalmente, para que a&nbsp;<em>não lise</em>, a análise, que objetiva a integralidade entre luz e sombra, consciente e inconsciente, sirva para despertar o respeito e o amor próprio e, consequentemente, ao próximo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">À luz da psicologia analítica, os símbolos funcionam como transdutores da energia psíquica, como verdadeiros dínamos que tem a capacidade de transformar suas formas de expressão. Por isso, ao simbolizarmos um sintoma, ele pode deixar de se expressar de forma mórbida e passar a se expressar por meio de produções criativas. &nbsp;&nbsp;Os símbolos falam a língua da alma e, consequentemente, dos arquétipos. Eles estão presentes desde o nível mágico/arcaico da psique, com potencialidade curativa, apesar de também serem destrutivos. Acessamos, conscientemente, apenas as imagens simbólicas, invocando a totalidade do arquétipo que ela reflete. As imagens podem despertar os instintos e os atos da vontade, por meio da natureza psicóide do arquétipo, independentemente de serem compreendidas racionalmente. Neste sentido, a fantasia de se cortar, ou até de praticar o autoextermínio, poderá desencadear efeitos reais de ressignificação ou, se a estrutura do complexo dominante continuar imperativa, na literalização das fantasias. Por isso, meios expressivos como desenho, pintura, imaginação ativa, ampliação dos sonhos, entre outros, ajudam a expressão das imagens simbólicas, porque com o despertar da percepção estética e reflexiva da angústia, ela passa a ser incubadora da potencialidade criativa e curativa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Partindo destes pressupostos, os afetos podem ser vivenciados na concretude temporal e espacial do aqui e agora ou da realidade fantástica das produções mentais, reconhecidos conscientemente ou permanecerem imperceptíveis e inconscientes. Dependendo da intensidade e rede associativa que o afeto ativar em nós, incluindo todas as vivências registradas em nosso inconsciente pessoal, preservadas e presentes desde a nossa concepção, além dos instintos e arquétipos advindos do inconsciente coletivo, o afeto poderá se manifestar através de emoções que, por sua vez, produzem modificação na configuração da energia psíquica e na bioquímica emocional, interferindo na dinâmica endócrina e hormonal, alterando também a energia vital. Por isso, Psique e Soma (Zoé e Bios, Alma e Corpo) são inseparáveis, e são igualmente suscetíveis às influências afetivas advindas tanto das situações concretas, quanto das imaginárias, do ambiente físico e material ou do energético e imaterial. Aliás, na minha prática clínica, fica evidente que mais de 75% das queixas trazidas pelos clientes são por questões imaginárias, desatreladas das condições concretas do presente, mas que aparecem como afetos advindos de situações subjetivas do passado, conectados com as temáticas de culpa, raiva, ressentimento, vingança, vitimização, mágoa, arrependimento, luto, perdas, entre outras, ou para questões do futuro, como ansiedade, medo, pressa, conquista, sucesso, fama, riqueza, poder, finitude, envelhecimento, etc. Com isso, quando somos afetados, seja lá por que, como e de onde, o afeto passa a ser um fenômeno autêntico, temporal e espacialmente, produzindo efeito na nossa existência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Ego, que é o administrador da consciência, é arquetípico, enquanto potencialidade universal e, no construto teórico da psicologia analítica, é compreendido como o primeiro complexo constelado, para que aconteça o desenvolvimento da personalidade, depois do Self ou si mesmo, que equivale centelha divina, representada pela imagem arquetípica da&nbsp;<em>Imago-Dei</em>. Sua concepção surge simultaneamente ao advento da nossa capacidade proprioceptiva. Por isso, suas bases fundantes são corporais e instintivas, a despeito de emergir da dimensão arquetípica do inconsciente coletivo, o Ego fica muito mais apegado com Bios do que com Zoé. A consciência do Ego emerge devido a sua conexão com inúmeras ilhas, que armazenam o registro dos fragmentos afetivos desde nossa concepção, que é a base do nosso inconsciente pessoal, registrada na forma de memórias. O ego nos possibilita a ilusão de continuidade temporal e espacial, como acontece com as películas cinematográficas, devido a velocidade que as imagens são passadas. Porém, o Ego depende tanto da consciência coletiva, quanto dos arquétipos e os dominantes do inconsciente coletivo. Desta síntese é que surgem as Personas, outra potencialidade arquetípica, que são nossas máscaras sociais e relacionais, tão necessárias para salvaguardar nosso existir e interagir coletivo, social e interpessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O complexo do Ego necessita estar bem fortalecido, ancorado na consciência, emulando continuamente sua experiencia de continuidade diante das miríades de afetos, naquilo que imagina ser a realidade, para não ficar à mercê das perturbações psicopatológicas. Porque a todo instante existe o risco eminente de um outro complexo ganhar primazia sobre o Ego, modificando a configuração da energia psíquica e dominando a consciência, podendo ser tão absoluto a ponto de transformar o indivíduo num autômato, influenciando suas ideias, percepções, atitudes, mente, corpo e realidade. Isso acontece em função da capacidade do Ego em psiquificar os fenômenos, ativando a dimensão psicóide do inconsciente coletivo, com sua potencialidade arquetípica, transcendendo a matéria e os limites do tempo e espaço, porque os complexos são autônomos, influenciam corpo e mente, interditando a crítica reflexiva e ética.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afetos são todas as intercorrências que, de alguma forma, interferem na dinâmica da configuração da nossa energia psíquica e energia vital. Quando esses&nbsp;<em>inputs</em>, expressão da língua inglesa muito usada na TI &#8211; tecnologia da informação, que significa entrada, nos acometem, eles irão disparar uma sequência de estímulos que ativam nossa dimensão neurofisiológica, mobilizando o cérebro, que é uma máquina eletro coloidal, responsável&nbsp; pela gestão biológica, além de processar todas as informações recebidas. Atualmente a neurociência trabalha com a hipótese de que as emoções estão intimamente ligadas ao sistema límbico, ativando mecanismos de recompensa (prazer, satisfação e pertencimento) ou de punição (desgosto, aversão e exclusão).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Simultaneamente ao estímulo neurocerebral, o sistema endocrinológico, por meio do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal,&nbsp; é ativado para que aconteçam as expressões emocionais do afeto, alterando toda a bioquímica hormonal, retroalimentando os neuroreceptores correspondentes as mais variadas expressões emocionais como medo, raiva, desejo de fuga, gratificação, atração, alegria, tristeza, prazer, dor, entre outras. Com isso, o sistema autoimune também fica alterado, consonante com a dinâmica do estresse, ao criar situações de alarme, que significa deixar a nossa complexidade biopsicossocial e espiritual armada para atacar, fugir, ficar paralisada ou aceitar passiva e resignadamente o agente afetivo. Infelizmente, algumas pessoas, diante do conflito, sem prontidão para a transcendência integrativa e criativa e de permanecerem nestas quatro atitudes estéreis, desistem dos seus sonhos, e desistir equivale a querer deixar de existir. Neste momento é que surgem as ideações suicidas e as doenças mais irreversíveis e mórbidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os afetos fazem nosso organismo oscilar entre os estados de simpaticotonia ou parassipaticotonia, produzindo ou inibindo um ou mais dos principais neurotransmissores como acetilcolina, adrenalina, noradrenalina, epinefrina, dopamina, endorfina, serotonina, entre outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desta forma, os afetos atuam como&nbsp;<em>inputs,&nbsp;</em>estímulos eliciadores, indutores psicofísicos ou, na sua forma nociva, como noxas, que acabam interferindo na nossa capacidade&nbsp;de julgamento sensorial, sentimental, mental e intuitiva, produzindo reações corporais e atitudinais, na forma de&nbsp;<em>outputs</em>&nbsp;ou reações, equivalente a saídas ou resultados, em decorrência dos afetos recebidos. As reações são as mais diversas, e dependem do estado de integridade egóica.&nbsp; Neste sentido, um Ego doente e neurótico, que pode apresentar-se na persona de um indivíduo muito frágil e suscetível ou muito rígido, afeito ao poder, unilateral e controlador, diante de um determinado afeto, pode sucumbir e fragmentar-se. Apenas quando o Ego está saudável, por ser flexível, dinâmico, plural e estruturante diante da diversidade e dos diferentes, mantendo sua capacidade integrativa de simbolizar e metaforizar, poderá ressignificar o afeto, por mais unilateral, literal, dramático ou traumático que seja, impedindo a constelação autônoma dos complexos patológicos.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="623" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2022/07/image-9-1024x623.png" alt="" class="wp-image-5428" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/07/image-9-1024x623.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/07/image-9-300x183.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/07/image-9-768x467.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/07/image-9-150x91.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/07/image-9-450x274.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/07/image-9-1200x730.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/07/image-9.png 1474w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O Ego saudável, é aquele que segue sua jornada heroica sacrificando-se pela coletividade, atendendo o chamado do Self, que é o processo de individuação, servindo para que acabem as desigualdades, e que floresçam o respeito da liberdade, o amor e a compaixão. Por outro lado, o Ego doente, está identificado com a jornada do herói equivocada, almejando, no seu término, riqueza, poder e prestígio, presente nos indivíduos egoístas e ególatras, que vivem a serviço do próprio Ego e não do Self. Muitos indivíduos tomados pela jornada equivocada do herói, quando conseguem posição de poder, atuam como o salteador ideológico, um sujeito obsessivo que age como um rato, sabotando, corroendo, roendo, infectando, destruindo e contaminando. Tudo em nome dos seus interesses instintivos e territoriais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung nos ensina que todo vaidoso, obcecado pelo poder e identificado pela Persona do ídolo, ou do mito, mais cedo ou mais tarde, será visitado por Ágon, o conflito trágico, que aparece com intuito de purificar a alma, ao expor o lado sombrio e a fragilidade do Ego inflado, que estava escondido pela hybris do excesso e da exorbitância das suas atitudes, enantiodromicamente reparada por Ananke, a deusa da necessidade e do destino. Essa é a lei do eterno retorno! Mesmo assim, ao surgir a crise, pode acontecer o advento de um terceiro elemento, o tertium non datur, que vem para que aconteça a superação evolutiva, para que a plenitude, ou estado de felicidade seja alcançado. Onde a&nbsp;felicidade depende do bem-estar, que é um parâmetro subjetivo, onde o indivíduo precisa estar satisfeito e contente com sua realidade física, psicoafetiva, familiar, laboral, social e espiritual, não permitindo que suas expectativas, diante da sua realidade existencial, produzam sentimentos de fracasso, inferioridade ou exclusão, mas de motivação para que as conquistas e produções continuem acontecendo. Lembrando que, bem-estar, significa estar bem no aqui e no agora, e que contente tem a ver com a capacidade de preencher o vazio da falta de sentido e significado com conteúdos que alimentam a alma. Gandhi disse: &#8220;Não existe um caminho para a felicidade.&nbsp; A felicidade é o caminho.&#8221; Obviamente, em sintonia com a narrativa de Carlos Castaneda:&nbsp;<strong>desde que este caminho tenha coração</strong>&nbsp;e, o mais importante, depois de escolher o caminho,&nbsp;<strong>jamais olhar para trás!</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das mais significativas noxas, que na homeopatia equivale ao afeto desencadeador de sintomas, é o sentimento de arrependimento, gerador de culpa, devido ao sofrimento psíquico pelo pesar de ter feito ou não ter feito algo, muitas vezes desencadeando comportamentos de autopunição ou interdições paralisantes, que a atual medicina patologizante e medicalizante rotula com síndrome do sabotador, do vitimismo ou do impostor. O interessante é que este afeto é produzido pelo sistema de crenças que o indivíduo carrega, tornando-o responsável absoluto pelo passado, tirando-lhe a possibilidade do auto perdão, devido seu desconhecimento, ignorância ou tomada de atitude impulsiva e reativa, diante de algum afeto eliciador de algum complexo e do medo. É interessante ressaltar que todo sentimento de culpa está atrelado a uma fantasia de poder absoluto, como se toda responsabilidade do que foi feito ou deixado de ser feito, é dele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vingança, do outro ou de si mesmo, pelo que foi feito ou deixado de ter ser sido feito, diferenciando e polarizando culpa e vitimização, é um impulso não refreado que exige represália, nutrindo rancor, ódio, mágoa e ressentimento. Ela funciona como se os relógios tivessem parado na hora da ofensa, impedindo que o futuro ofereça outra perspectiva além da ruminação neurótica do crime, com desejo de reparação. Na mitologia grega, as Erínias tinham por função despertar o ódio e a sideração. A politização das Erínias transformam-nas em Eumênides, amenizando seus impulsos, pelo diálogo e pela fala da expressão dos segredos, tornando-as em seres benevolentes, que deixam de gritar e passaram a conversar, contribuindo para a elaboração poética do discurso trágico, onde a palavra expressa pode transformar, subjetivamente, a culpa e o ódio em compreensão amorosa e criativa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro problema gerador de sintomas, psíquicos e físicos, advém da fantasia de perfeição associado com a compulsão e obsessão de se estabelecer comparações hierárquicas em relação aos &#8220;outros&#8221; &#8211; na maioria das vezes são meras projeções inconscientes do nosso conteúdo sombrio. Toda vez que começamos a comparar, por estarmos condicionados nesse atual padrão, patriarcal e patrimonialista, que é competitivo e excludente, corremos o risco de cair em profundo sofrimento improdutivo, devido a constatação de estarmos muito distantes do ideal imaginado. Mesmo que, transitoriamente, a comparação desencadeie emoções de sucesso e superioridade em relação ao &#8220;outro&#8221; que está em desvantagem, na polaridade do fracasso e inferioridade, diante daquilo que está idealizado como meta para ser alcançada para a conquista da &#8220;felicidade&#8221;, sempre terá alguém numa situação melhor. É difícil compreender que quanto mais buscamos a perfeição, a saúde e a bondade, mas encontraremos a imperfeição, a doença e o mal. Quanto mais buscamos a perfeição, mais vamos ao encontro da imperfeição, devido ao princípio da polaridade. A citação de Jung, no livro A Natureza da Psique, par. 831, corrobora com essa afirmativa: &#8220;A psique não é um fenômeno da vontade, mas natureza que se deixa modificar com arte, ciência e paciência em alguns pontos, mas não se deixa transformar num artifício, sem profundo dano ao ser humano.&nbsp;O homem pode transformar-se num animal doente, mas não em um ser ideal imaginado.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso passado não deveria causar danos no presente. A maturidade adquirida pelas experiencias vivenciadas não poderiam ser usadas como forma de punição, arrependimento e culpa. Essa atitude é cruel e gera muita dor e sofrimento.&nbsp; O perdão é uma vivência de foro íntimo. Leon Tolstoi afirmou que &#8220;<em>Aquele que realmente conhece Deus não achará necessário perdoar a seu irmão; só precisará perdoar a si mesmo, por não haver perdoado bem antes</em>&#8220;. Na mesma direção, James Hollis, no livro: A passagem do meio p. 27, afirma que &#8220;<em>Se não tivéssemos avançado e cometido esses erros e colidido contra aquelas paredes, teríamos certamente permanecido crianças. Rever a vida a partir da posição privilegiada da segunda metade dela requer a compreensão e o perdão do inevitável crime da inconsciência. Mas deixar de ficar consciente na segunda metade da vida significa cometer um crime imperdoável</em>.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com isso, o perdão deve acontecer, em primeiro lugar, no nosso íntimo. Este deve ser o sentido da metáfora cristã sugerindo que ofereçamos a outra face quando nos sentirmos agredidos pela vida. Esta parábola nos faz refletir que devemos deixar de ofertar sempre o mesmo lado da face, que nos faz ver e sermos vistos continuamente da mesma forma. A metáfora de oferecermos a outra face nos estimula a sairmos das repetições masoquistas, autopunitivas, derrotistas, culposas, vitimarias, ressentidas, medrosas, inferiorizantes, arrogantes, unilaterais ou infantis e reativas, rumo a atitudes mais plenas, plurais, inclusivas e integrais, reconhecendo que o cotidiano ordinário pode ser extraordinário, sem a necessidade de shows dramáticos e espetaculares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A peça teatral produzida por Nelson Rodrigues intitulada: &#8220;perdoa-me por me traíres&#8221;, assim como sua dimensão opositiva: &#8220;perdoo-te por te traíres&#8221;, são complementares, porque sempre existe uma cumplicidade bilateral nas questões de traição, que surge para denunciar que a confiança, que deveria significar um contínuo fiar com o outro, deixou de existir e, neste caso, para superar a culpa do arrependimento, só nos resta nossa auto indulgencia, perdoando-nos para possibilitar que o outro, traído ou traidor, possa também se perdoar, haja vista que, nesta perspectiva, o perdão é de foro íntimo e ninguém pode ter a supremacia ou o poder de oferecer ao outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Paz e Bem, graças ao reconhecimento e aceitação consciente da Guerra e do Mal que habitam em nós!</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">04 de julho de 2019</p>



<p class="wp-block-paragraph">WALDEMAR MAGALDI FILHO. Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;Dinheiro, Saúde e Sagrado&#8221;, Ed. Eleva Cultural, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP &#8211; Instituto junguiano de Ensino e Pesquisa (www.ijep.com.br), oferecidos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.</p>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-waldemar-magaldi-filho-17-07-2019"><strong><em>Waldemar Magaldi Filho &#8211; 17/07/2019</em></strong></h4>
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			</item>
		<item>
		<title>Afetos, complexos e símbolos</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/afetos-complexos-e-simbolos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Monica Martinez]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Apr 2020 12:33:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[afetos]]></category>
		<category><![CDATA[complexos]]></category>
		<category><![CDATA[Símbolos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A afetividade – para C. G. Jung expressa por meio de sentimentos, sensibilidades, emoções – seria o fundamento da personalidade. Esses centros de energia afetiva estariam, como sóis, no centro de galáxias de energia psíquica conhecidas em psicologia junguiana como complexos.&#160; Todos temos complexos, uma vez que eles seriam “manifestações normais da vida”&#160;(JUNG, 2012a, § [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A afetividade – para C. G. Jung expressa por meio de sentimentos, sensibilidades, emoções – seria o fundamento da personalidade. Esses centros de energia afetiva estariam, como sóis, no centro de galáxias de energia psíquica conhecidas em psicologia junguiana como complexos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todos temos complexos, uma vez que eles seriam “manifestações normais da vida”&nbsp;(JUNG, 2012a, § 211). Aliás, em psicologia junguiana, o próprio eu é entendido como um deles. “O Complexo do Ego seria um entre os múltiplos – o Eu como um dos outros na psique em cada um”&nbsp;(SALVADOR, [s.d.]). Segundo Ajax Salvador, “Jung destaca que o complexo do Ego seria formado pela percepção geral do corpo, existência e pelos registros da memória”&nbsp;(SALVADOR, [s.d.]).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A batalha entre ego e complexo, obviamente, não é das mais fáceis. Até porque o ego tem interesse em manter a situação como está, uma vez que, de uma forma mais ou menos efetiva, está fazendo o indivíduo seguir pela vida. Mas com que qualidade? Quando recalcados ou cindidos, os complexos podem ser altamente prejudiciais a uma vida plena. Nos seus trabalhos iniciais, feito com os testes de associação, Jung já estabelecia a relação entre “complexo e neurose”&nbsp;(JUNG, 2012, § 1352), “cujo efeito perturbador faz com que as pessoas adoeçam”&nbsp;(JUNG, 2012, § 1353).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como os complexos foram forjados pelas percepções que o indivíduo teve dos acontecimentos, com as quais construiu sua realidade, é justamente por meio da narração de seu cotidiano, sonhos e memórias, bem como relatos de fantasias e imaginações, que é possível ressignificar estes eventos ao longo do processo analítico.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, o complexo vai sendo despotencializado, isto é, conscientizado e elaborado ao longo das sessões. Como, à semelhança do corpo, a psique é entendida como um sistema autorregulatório, é por meio da compreensão destes conteúdos simbólicos que “os complexos tornam-se visíveis”&nbsp;(KAST, 2019, p. 23).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse processo libera a energia psíquica do analisando. É como se houvesse um nó de energia estagnada ou congelada que, ao ser reintegrado, volte a seguir seu curso. Não é que o complexo suma como num passe de mágica, evidentemente, mas o fluxo interrompido do desenvolvimento pode ser retomado, em alguma medida, o que permite que a pessoa apresente um ajuste mais satisfatório em seus relacionamentos com outros e com o meio em que vive. Em outras palavras, a vida volta a fluir. Por isso que Jung dizia que os complexos, “com efeito, constituem as&nbsp;<em>verdadeiras unidades vivas da psique inconsciente,&nbsp;</em>cuja existência e constituição só podemos deduzir através deles<em>”&nbsp;</em>(JUNG, 2012a, § 210).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O problema é que estes núcleos possuem um grau alto de autonomia em relação à consciência. O que levou Nise da Silveira a dizer que a “verdade é que não somos nós que temos o complexo, o complexo é que nos tem, que nos possui”&nbsp;(SILVEIRA, 2007, p. 30). “O complexo obriga-nos a perder a ilusão de que somos senhores absolutos em nossa própria casa”&nbsp;(SILVEIRA, 2007, p. 30). Os complexos estariam, portanto, por trás de lapsos e gafes, situações contraditórias e perturbações da memória.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta interferência é comum inclusive na relação analítica entre analisando e analista. Não por acaso, a análise teria justamente com alvo principal possibilitar que o ego, o centro da consciência, se estruture e, assim, administre os diferentes tipos de complexo (materno, paterno, de poder, de inferioridade, entre outros).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Waldemar Magaldi lembra que dentre “todas as possibilidades de transferência, a do complexo materno negativo é a mais perversa, porque mantem o analisando na condição de&nbsp;<em>puer</em>, a eterna criança ou adolescente que não quer contrariar a mãe”&nbsp;(MAGALDI, [s.d.]).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para ele, o analisando precisa compreender que o processo analítico é mais importante do que seu embate inconsciente com o analista, e que ambos precisam se unir para enfrentar o complexo dominante. Caso contrário, “mais uma vez acontecerá a frustação e, como no mito de Sísifo, [o analisando] partirá para um novo recomeço, por um novo caminho, mas com a mesma pedra, que é o complexo materno negativo e o dinamismo do puer constelado na personalidade”&nbsp;(MAGALDI, [s.d.]).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que há no núcleo do simbolismo de um complexo? Em geral, uma imagem arquetípica. Mas isto fica para o próximo artigo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>A natureza da psique (OC 8/2)</strong>. 9. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012a.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>Estudos experimentais</strong>. 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012b.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, V.&nbsp;<strong>Jung e a Psicologia Profunda</strong>. São Paulo: Cultrix, 2019.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI, W.&nbsp;<strong>Complexo materno, relação transferencial e o puer/puela aeternus</strong>. Disponível em: &lt;https://www.ijep.com.br/index.php?sec=artigos&amp;id=243&amp;ref=complexo-materno-relacao-transferencial-e-o-puer/puela-aeternus#conteudo&gt;. Acesso em: 5 ago. 2019.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">SALVADOR, A. P.&nbsp;<strong>Complexo do eu sujeito como posiçao de indeterminação</strong>. Disponível em: &lt;https://www.ijep.com.br/index.php?sec=artigos&amp;id=238&amp;ref=complexo-do-eu&#8212;sujeito-como-posicao-de-indeterminacao#conteudo&gt;. Acesso em: 5 ago. 2019.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">SILVEIRA, N. DA.&nbsp;<strong>Jung: vida e obra</strong>. 21. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Monica Martinez</strong>, analista em formação do IJEP &#8211; Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211;&nbsp;&nbsp;E-mail:&nbsp;<a href="mailto:analisejunguianasp@gmail.com">analisejunguianasp@gmail.com</a>.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Monica Martinez&nbsp;</em></strong></h4>
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