<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Arquivos amor - Blog IJEP</title>
	<atom:link href="https://blog.ijep.com.br/tag/amor/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://blog.ijep.com.br/tag/amor/</link>
	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Wed, 18 Feb 2026 21:18:18 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9.4</generator>

<image>
	<url>https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/03/cropped-logo-ijep-32x32.png</url>
	<title>Arquivos amor - Blog IJEP</title>
	<link>https://blog.ijep.com.br/tag/amor/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>Encontrar Alguém &#8211; A Busca da Projeção</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/encontrar-alguem-a-busca-da-projecao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dayse Raphael]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 00:32:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamento]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12112</guid>

					<description><![CDATA[<p>Encontrar alguém é a expressão do desejo de relacionar-se com aquela pessoa para a qual transferimos emocionalmente os sentimentos que alimentamos em nós. Isto ocorre graças ao fenômeno da projeção, em que conteúdos inconscientes são deslocados para um objeto externo, que pode ser o indivíduo que desperta um apaixonamento, mesmo ao primeiro encontro.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/encontrar-alguem-a-busca-da-projecao/">Encontrar Alguém &#8211; A Busca da Projeção</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Encontrar alguém é a expressão do desejo de relacionar-se com aquela pessoa para a qual transferimos emocionalmente os sentimentos que alimentamos em nós. Isto ocorre graças ao fenômeno da projeção, em que conteúdos inconscientes são deslocados para um objeto externo, que pode ser o indivíduo que desperta um apaixonamento, mesmo ao primeiro encontro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao" style="font-size:18px">INTRODUÇÃO</h2>



<p style="font-size:18px">Em atendimento a pessoas de ambos os sexos, é comum o questionamento sobre encontrar alguém. Não serve qualquer alguém. Este alguém precisa ter características que abrandem o sentimento de falta de completude, que atendam expectativas específicas como companheirismo, generosidade quanto a atenção, carinho, disponibilidade de tempo, e por aí vai. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">É preciso que seja um alguém que traduza os desejos mais diversos; não precisa ser alguém conhecido, que tenha encontrado e já conversado, ou mesmo que já viu e observou nas atividades sociais. Este alguém parece não pertencer ao mundo dos vivos, que apresentam qualidades e defeitos, brincam e se aborrecem, são cheirosos ou apresentam cheiros de origem duvidosa, têm interesse próprio e agenda repleta de atividades cotidianas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-musica-encontrar-alguem-de-jota-quest-ha-a-descricao-de-alguem-que-esta-no-mundo-das-ideias-e-por-quem-ha-a-expectativa-de-que-haja-a-satisfacao-de-estar-com-a-companhia-idealizada" style="font-size:18px">Na música <em>Encontrar Alguém</em> de Jota Quest, há a descrição de alguém que está no mundo das ideias, e por quem há a expectativa de que haja a satisfação de estar com a companhia idealizada:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:0.9">
<p style="font-size:18px">“Da esquina eu vi o brilho dos teus olhos/Tua vontade de morrer de rir/Teus cabelos tentaram esconder/Mas vi tua boca feliz</p>



<p style="font-size:18px">Tua alma leve como as fadas/Que bailavam no teu peito/Tua pele clara como a paz/Que existe em todo sonho bom</p>



<p style="font-size:18px">Quis matar os seus desejos/Ver a cor dos teus segredos, baby/ E contar pra todo mundo /O beijo que nunca esqueci</p>



<p style="font-size:18px">Encontrar alguém/Encontrar alguém/ Encontrar alguém que me dê amor”</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-projecao-e-sombra" style="font-size:18px">PROJEÇÃO E SOMBRA</h2>



<p style="font-size:18px">O alguém desejado se apresenta nas projeções de quem o busca, atendendo critérios muito específicos, nas pessoas que encontramos a todo minuto, nos ambientes mais exclusivos ou mesmo em público, nos templos religiosos, nas academias ou escolas.</p>



<p style="font-size:18px">Esses critérios são os mais díspares e incontáveis: o desejo de ter ao lado alguém protetor, alegre, com disposição e desejo de aventura, sempre pronto para ir a um <em>happy hour</em>, assim como alguém com gosto erudito que aprecie as salas de música clássica.</p>



<p style="font-size:18px">Conforme o desejo inconsciente, é possível projetar em um líder religioso a figura de um pai protetor, acolhedor, aquele que se fará sempre presente nos momentos das mais diversas adversidades, que não permitirá que nada de mal aconteça. Isto só pode ocorrer se a pessoa tiver um “gancho” com essas características para que haja o deslocamento afetivo.</p>



<p style="font-size:18px">E do que se trata esse gancho?&nbsp; É algo não físico percebido inconscientemente pelo emissor da projeção em alguém que tenha as qualidades que não são reconhecidas pelo emissor. Mas esse alguém receptor também não tem a consciência de estar recebendo uma projeção.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-von-franz-afirma-que" style="font-size:18px"><strong>Von Franz afirma que,</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>o inconsciente da pessoa faz a projeção, via de regra não escolhe simplesmente qualquer objeto ao acaso, e sim aquele que contém algumas, ou até muitas, das características da propriedade projetada. Jung fala de um “gancho” no objeto no qual a pessoa que faz a projeção a pendura como um casaco. (2011, p.280)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">O que nos leva ao encantamento por um alguém que representa tão bem tudo que desejamos está no transbordamento do nosso inconsciente sobre aquilo que supostamente encontramos no outro, o que Jung denomina objeto, conforme parágrafo acima.</p>



<p style="font-size:18px">Facilmente identificamos nos ambientes coletivos casais nos quais um dos parceiros tem aparência ou condição social muito beneficiada em relação ao outro, e ainda assim, este parece alimentar sentimentos intensos e profundos que são traduzidos no bem-estar daquela companhia.</p>



<p style="font-size:18px">Jung esclarece sobre a situação ilusória que a projeção carrega sobre o objeto de desejo, sendo algo que não transita pela realidade e que permeia o mundo das ideias de quem procura alguém. Mas que, ainda que ilusória, ao projetar sobre o objeto, ou a pessoa, suas fantasias sobre os mais diversos temas, esta ação faz do receptor dessa projeção, alguém ilusoriamente real. Portanto “<strong>as projeções criam uma relação ilusória; mas acontece que, num determinado momento, esta relação é da maior importância para o paciente</strong> [&#8230;]” (JUNG, 2022a, p.19). As projeções vêm sempre do inconsciente e se desvanecem após seu recolhimento, conforme explica Jung:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-vez-que-o-adepto-tem-consciencia-de-si-como-homem-sua-masculinidade-nao-pode-ser-projetada-desde-que-so-podem-ser-projetados-os-conteudos-inconscientes-2022a-p-104" style="font-size:18px"><em>“<strong>Uma vez que o adepto tem consciência de si como homem, sua masculinidade não pode ser projetada, desde que só podem ser projetados os conteúdos inconscientes</strong>.” (2022a, p.104)</em></h2>



<p style="font-size:18px">Quando buscamos encontrar alguém projetamos algo admirável, sedutor e socialmente aceito, porém há oportunidades em que projetamos algo totalmente oposto, ou seja, conteúdos que provocam repulsa por representar tudo aquilo que consideramos ruim, desagradável, ou politicamente incorreto.</p>



<p style="font-size:18px">No momento em que encontramos alguém que nos evoca repulsa, esta reação está enxarcada de projeção, que representa nossa própria sombra, aquele conteúdo que menos admiramos e que reprimimos. Segundo Jung, “<strong>estamos convencidos de que certas pessoas possuem todos os defeitos que não encontramos em nós mesmos [&#8230;] Devemos ter o máximo cuidado para não projetar despudoradamente nossa própria sombra</strong> [&#8230;] “ (2022c, p.105)</p>



<p style="font-size:18px">É difícil e muito doloroso reconhecer que em nós há conteúdos menos nobres, ou mesmo que somos capazes de abrigar os monstros mais terríveis, ainda que eles não estejam manifestos no nosso cotidiano. Fica muito mais fácil reconhecê-los nos outros, naqueles que estão fora de nós, e que, portanto, poderão ser receptores de todo nosso sentimento discriminatório e repulsivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-encontrar-alguem-e-o-outro-em-mim" style="font-size:18px">ENCONTRAR ALGUÉM E O OUTRO EM MIM</h2>



<p style="font-size:18px">Dione diz que projeção é uma forma de vida potencial repleta de energia psíquica que encontra expressão no objeto (Cf. 1990, p.166). Isto esclarece muito do que seja a busca de encontrar alguém com quem seja possível desenvolver um relacionamento satisfatório.</p>



<p style="font-size:18px">A energia psíquica de quem está buscando encontrar alguém estará voltada para fora, para o objeto que denominamos outra pessoa. Aquelas características sedutoras, atraentes e acolhedoras que identificamos naquele alguém especial e que procuramos por tanto tempo, estão dentro daquele que procura, mas que desconhece em si.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esta-atracao-que-o-outro-nos-provoca" style="font-size:18px"><strong>Esta atração que o outro nos provoca,</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>esta empatia, é uma espécie de processo de percepção que se caracteriza por transferir sentimentalmente um conteúdo psíquico para o objeto&#8230; e isto é possível se o conteúdo projetação estiver mais vinculado ao sujeito do que ao objeto&#8230;e não é submetido a controle consciente. (JUNG, 2022d, p.303)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Encontrar alguém que atenda as expectativas é uma jornada difícil, muitas vezes frustrante e sempre trilhada para fora de si. É responsabilizar o outro pelo atendimento ou não dos nossos desejos e fantasias, é transferir nossos melhores sentimentos para alguém que não tem, obrigatoriamente, como satisfazer nossas expectativas.</p>



<p style="font-size:18px">Encontrar alguém é buscar no outro o que não é possível, ainda, reconhecer em si, e caminhar a passos largos para alguém que não terá como manter as expectativas daquele que procura.</p>



<p style="font-size:18px">Jung nos esclarece que “com a retirada das projeções, desenvolveu-se lentamente um conhecimento consciente [&#8230;]” (JUNG, 2022, p.104), o que torna possível o “casamento interior”&nbsp; com as qualidades positivas e negativas inconscientes em nós. No processo de individuação a primeira tarefa é recolhermos as projeções sombrias, para caminharmos rumo ao desenvolvimento da nossa personalidade, ao potencial inerente que devemos nos tornar e que intrinsecamente já somos.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;Encontrar Alguém – A Busca da Projeção&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/JkwW-TTvzt0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/dayse-de-araujo-raphael/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/dayse-de-araujo-raphael/">Dayse Raphael – Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/">Lia Romano – Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p>DIONE, Arthut. <em>Jung e astrologia</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>Ab-reação, análise dos sonhos e transferência</em>. 9.ed. Petrópolis: Vozes, 2022.</p>



<p>______ <em>Mysterium Coniunctionis</em>. 6.ed. Petrópolis: Vozes, 2022.</p>



<p>______<em>Psicologia e Religião</em>. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2022.</p>



<p>______ <em>Tipos psicológicos</em>. 7.ed. Petrópolis: Vozes, 2022.</p>



<p>VON FRANZ, Marie&nbsp; Louise. <em>Psicoterapia</em>. São Paulo. Paulus, 2011.</p>



<p style="font-size:19px"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/encontrar-alguem-a-busca-da-projecao/">Encontrar Alguém &#8211; A Busca da Projeção</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O Banquete da Híbris e a Sombra dos &#8220;Homens de Bem&#8221;: Epstein, Jung e a Negação do Amor</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-banquete-da-hibris-e-a-sombra-dos-homens-de-bem-epstein-jung-e-a-negacao-do-amor/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Feb 2026 17:59:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[poder]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12011</guid>

					<description><![CDATA[<p>Os arquivos de Epstein não revelam apenas crimes, mas uma ferida psíquica coletiva que confirma a profecia de C.G. Jung: onde impera o poder, o amor desaparece. Mergulhe nesta análise corajosa sobre como a hipocrisia da elite e a monetarização do sagrado transformaram "cidadãos de bem" em reféns de suas próprias sombras. Descubra a conexão oculta entre as tentações do deserto e os escândalos contemporâneos, e entenda por que a queda dos poderosos é, psicologicamente, inevitável.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-banquete-da-hibris-e-a-sombra-dos-homens-de-bem-epstein-jung-e-a-negacao-do-amor/">O Banquete da Híbris e a Sombra dos &#8220;Homens de Bem&#8221;: Epstein, Jung e a Negação do Amor</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A abertura dos arquivos do caso Jeffrey Epstein não é apenas um evento forense ou um escândalo midiático; é, sob a ótica da psicologia analítica, a irrupção purulenta de uma ferida psíquica coletiva. O que vemos exposto nas listas de voos e nos depoimentos não é apenas a perversão de um indivíduo ou de um grupo isolado, mas a confirmação trágica de um axioma que Carl Gustav Jung repetiu à exaustão e que a nossa cultura insiste em ignorar: &#8220;Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro&#8221;. Neste caso, fica evidente a sombra do poder anulando o amor como tema recorrente na sociedade.</p>



<p>Vivemos tempos em que a sombra do poder se alastrou de tal forma que eclipsou a capacidade humana de relacionar-se, transformando o &#8220;outro&#8221; — seja ele uma criança, uma mulher, um fiel ou um eleitor — em mero objeto de consumo. A revelação dos nomes ligados a Epstein é o sintoma agudo de uma doença crônica: a monetarização da existência e, pior, a monetarização do sagrado.</p>



<p>Ao observarmos a galeria de figuras que frequentavam a ilha de Epstein — príncipes, ex-presidentes, cientistas renomados, bilionários —, notamos um padrão que transcende a mera criminalidade. Estamos diante da <em>híbris</em> (a desmedida) de uma elite que, embriagada pela onipotência, acreditou ter comprado o direito de suspender a ética. E, ironicamente, é essa mesma elite que, em palanques e púlpitos, prega a moralidade, os &#8220;bons costumes&#8221; e a teologia da prosperidade, sequestrando a cosmovisão de Jesus Cristo para justificar exatamente aquilo que Ele rejeitou no deserto.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Estou mais do que convencido de que o caminho da vida só continua onde está o fluxo natural. Mas nenhuma energia é produzida onde não houver tensão entre contrários; por isso, é preciso encontrar o oposto da atitude consciente. É interessante verificar como essa compensação dos opostos também teve sua função na história da teoria da neurose: a teoria de Freud representa Eros; a de Adler, o poder. Pela lógica, o contrário do amor é o ódio; o contrário de Eros, Phobos (o medo). Mas, psicologicamente, é a vontade de poder. Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro. Quem se encontra do ponto de vista de Eros procura o contrário, que o compensa, na vontade de poder. Mas quem põe a tônica no poder, compensa-o com Eros. Visto do ponto de vista unilateral da atitude consciente, a sombra é uma parte inferior da personalidade. Por isso, é reprimida, devido a uma intensa resistência. Mas o que é reprimido tem que se tornar consciente para que se produza a tensão entre os contrários, sem o que a continuação do movimento é impossível. A consciência está em cima, digamos assim, e a sombra embaixo, e como o que está em cima sempre tende para baixo, e o quente para o frio, assim todo consciente procura, talvez sem perceber, o seu oposto inconsciente, sem o qual está condenado à estagnação, à obstrução ou à petrificação. É no oposto que se acende a chama da vida. (C. G. Jung &#8211; CW 7/1 §78)</p>
</blockquote>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-deserto-esquecido-e-as-tentacoes-modernas"><strong>O Deserto Esquecido e as Tentações Modernas</strong></h2>



<p>Para compreendermos a profundidade do abismo moral revelado pelos arquivos Epstein, precisamos revisitar a simbologia do deserto. Na narrativa bíblica, Jesus é levado ao deserto para ser tentado pelo Diabo, capacitando-se para cumprir seu propósito, o calvário, exercitando e fazendo tanto a kenosis quanto a Nekia, respectivamente o esvaziamento e a descida às profundezas. Ali, em sua fragilidade humana, Ele confronta as três grandes pulsões que, se não integradas, destroem a alma: o Prazer (transformar pedras em pães para saciar a fome física e os desejos da carne/corpo), a Fama/Vaidade (atirar-se do templo para que os anjos o salvem espetacularmente ou fazer milgres) e o Poder/Riqueza Material (curvar-se ao mal para ganhar todos os reinos do mundo).</p>



<p>Cristo recusa as três ofertas. Ele escolhe o caminho da individuação, da integridade do Ser, em detrimento da inflação do Ego. No entanto, a nossa cultura contemporânea, especialmente aquela moldada pelo ethos do sucesso a qualquer custo, fez a escolha oposta. O que vemos hoje, na epidemia de religiões da teologia do poder e nos discursos de influenciadores digitais e coaches messiânicos, é a aceitação entusiástica da proposta do Diabo.</p>



<p>O &#8220;sucesso&#8221; tornou-se o novo sacramento. A riqueza material é vista não como um recurso, mas como um sinal de eleição divina ou de superioridade biológica. Nesse cenário, o prazer e a fama são mercadorias que se compram. Quando o sagrado é monetarizado, o divino é expulso e o templo se torna um mercado. E num mercado, tudo tem preço, inclusive a inocência.</p>



<p>A sociedade que aplaude o acúmulo desenfreado de capital e que mede o valor de um ser humano pelo seu engajamento nas redes sociais criou o terreno fértil para que figuras como Epstein prosperassem. Ele não era uma anomalia; ele era um fornecedor de serviços para uma demanda reprimida e sombria. Ele oferecia a concretização da fantasia de onipotência: o acesso irrestrito a corpos, a anulação das leis e a suspensão da realidade. Para o homem que escolheu o Poder em detrimento do Amor, o prazer nunca é relacional; é sempre predatório. É a tentativa desesperada de preencher, com a intensidade da sensação, o vazio deixado pela morte do afeto.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mascara-do-cidadao-de-bem-e-o-fenomeno-wasp"><strong>A Máscara do &#8220;Cidadão de Bem&#8221; e o Fenômeno WASP</strong></h2>



<p>A análise torna-se ainda mais cortante quando observamos o perfil predominante nos documentos revelados: o arquétipo do homem branco, anglo-saxão e protestante (WASP &#8211; <em>White, Anglo-Saxon, Protestant</em>), ou seus equivalentes culturais em outras geografias. Historicamente, essa figura representa o pilar da ordem, da lei e da moral ocidental. São os homens que constroem impérios, que legislam sobre o corpo alheio e que se autodenominam &#8220;cidadãos de bem&#8221;.</p>



<p>Jung nos ensinou que quanto mais luminosa e rígida é a <em>Persona</em> (a máscara social que usamos para nos adaptarmos ao mundo), mais escura e densa é a <em>Sombra</em> (tudo aquilo que rejeitamos, reprimimos e escondemos). O &#8220;falso moralista&#8221; não é apenas um hipócrita consciente; muitas vezes, ele é uma vítima de sua própria cisão psíquica. Ele precisa manter uma aparência de retidão imaculada publicamente — a família perfeita, a filantropia, a frequência aos cultos —, o que exige uma repressão brutal de seus instintos e fragilidades.</p>



<p>Essa energia reprimida não desaparece. Ela se acumula no inconsciente, ganhando autonomia e força, até se transformar em algo monstruoso. O conservadorismo rígido, que julga e condena o comportamento alheio com ferocidade, é frequentemente o mecanismo de defesa de quem luta contra seus próprios demônios inconfessáveis.</p>



<p>Os arquivos de Epstein são o esgoto a céu aberto dessa psique cindida. Eles mostram onde os &#8220;homens de bem&#8221; iam para despir suas personas pesadas. Longe dos olhos do público, na ilha privada, a sombra assumia o controle. A justificativa interna para tal comportamento é, invariavelmente, uma distorção cognitiva típica da <em>híbris</em>: &#8220;Eu sou especial. Eu faço tanto pelo mundo, gero tanta riqueza, carrego tanto poder, que mereço essa recompensa. As leis dos homens comuns não se aplicam a mim&#8221;.</p>



<p>Essa dissociação permite que o mesmo indivíduo que financia campanhas contra os direitos humanos ou que prega a santidade da família tradicional participe de orgias com menores de idade. Não há, na mente deles, contradição, pois o Ego inflado pelo poder perdeu a conexão com o <em>Self</em> — o centro regulador da psique. Eles se tornaram deuses de seus próprios pequenos universos, e deuses, na mitologia grega, frequentemente estupravam e destruíam por capricho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-hibris-o-self-e-a-inevitavel-enantiodromia"><strong>A Híbris, o Self e a Inevitável Enantiodromia</strong></h2>



<p>A tragédia grega e a psicologia analítica concordam em um ponto fundamental: a <em>híbris</em> (o orgulho desmedido que desafia os deuses) é sempre seguida pela <em>nêmesis</em> (a retribuição divina). Em termos psicológicos, quando a atitude consciente se torna unilateral demais — focada excessivamente no poder, na razão instrumental e na negação da sombra —, o inconsciente reage para restaurar o equilíbrio.</p>



<p>Jung chamou esse movimento pendular de <em>enantiodromia</em>: a tendência de todas as coisas se transformarem em seu oposto. A busca obsessiva pelo controle total (poder) leva, invariavelmente, à perda total de controle (o escândalo, a prisão, a ruína). A busca pela fama imaculada leva à infâmia eterna. A busca pelo prazer sem limites leva ao sofrimento atroz e ao vazio existencial.</p>



<p>O que estamos testemunhando com a exposição desses arquivos é a ação do <em>Self</em>. O <em>Self</em>, na psicologia junguiana, é a totalidade da psique, a imagem de Deus dentro de nós. Ele busca a integridade, não a perfeição moralista. Quando o indivíduo ou a cultura se desviam radicalmente de sua verdade interior, o <em>Self</em> orquestra uma crise. Ele força o confronto.</p>



<p>Ainda bem que existe o <em>Self</em>. Sem essa força reguladora, a humanidade se perderia em seus delírios de grandeza. O <em>Self</em> leva essas pessoas ao confronto consigo mesmas, gerando sintomas de adoecimento psíquico, pânico, depressão e, finalmente, revelações catastróficas. Para o ego inflado, a exposição pública é uma catástrofe, uma morte social. Mas, simbolicamente, é a única chance de salvação. É o momento em que a máscara cai e o indivíduo é forçado a olhar para a sua própria feiura.</p>



<p>Essa dinâmica não se restringe aos frequentadores da ilha de Epstein. Ela se reproduz recorrentemente com lideranças religiosas que caem em desgraça sexual ou financeira, com políticos que são pegos em esquemas de corrupção grotescos, e com influenciadores que, vendendo uma vida de felicidade plástica, sucumbem ao suicídio ou ao vício. É a natureza cobrando o preço da artificialidade. É a alma gritando que não pode ser vendida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-retorno-ao-humano"><strong>O Retorno ao Humano</strong></h2>



<p>A lição dos arquivos Epstein é dura, mas necessária. Ela nos obriga a confrontar a ilusão de que o poder e o dinheiro conferem dignidade ou imunidade moral. Pelo contrário, o poder sem amor é, como disse Jung, demoníaco. Ele fragmenta, isola e destrói.</p>



<p>A cosmovisão de Cristo, tão deturpada pela teologia da prosperidade, propunha o oposto: o poder do serviço, a riqueza do espírito e a fama de ser conhecido por Deus, não pelos homens. Jesus venceu o deserto não porque era imune à tentação, mas porque sabia quem era. Ele não precisava transformar pedras em pães porque não era definido pela sua fome. Ele não precisava se jogar do templo porque não precisava de aplausos para validar sua existência.</p>



<p>Enquanto nossa cultura insistir na idolatria aos bezerros de ouro do sucesso financeiro e da visibilidade midiática, seguiremos produzindo Epsteins e alimentando a sombra de nossos líderes. A cura para essa patologia social não reside apenas no rigor da lei, mas em uma profunda reorientação de valores. É urgente questionarmos a salubridade de um sistema onde indivíduos acumulam fortunas inesgotáveis em uma única existência, enquanto a miséria se alastra — um cenário onde o 1% mais rico detém quase metade da riqueza global. Incapazes de dar um destino humano a esse acúmulo, essa energia estagnada busca refúgio na perversão, tornando palpáveis as distopias que antes víamos apenas na ficção, como em &#8216;O Conto da Aia&#8217; ou &#8216;Round 6&#8217;.</p>



<p>Precisamos resgatar o Eros — o princípio de conexão, de relacionamento e de amor. Precisamos entender que a verdadeira riqueza é a capacidade de olhar para o outro e ver um semelhante, não um objeto. Precisamos de menos &#8220;cidadãos de bem&#8221; e de mais seres humanos conscientes de suas sombras, capazes de integrar suas fragilidades em vez de projetá-las no mundo.</p>



<p>A enantiodromia já começou. O pêndulo está voltando. Que a queda dos falsos deuses nos sirva de alerta: o sagrado não está à venda, e o preço que se paga por tentar comprá-lo é, invariavelmente, a própria alma.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p>Referências Bibliográficas e Sugestões de Leitura:</p>



<ol start="1" class="wp-block-list">
<li>Jung, C. G. (2013). <em>Aion: Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo</em> (Vol. 9/2). Petrópolis: Vozes. (Para a discussão sobre o Self e a Sombra).</li>



<li>Jung, C. G. (2012). <em>Psicologia do Inconsciente</em> (Vol. 7/1). Petrópolis: Vozes. (Sobre a relação entre Poder e Amor).</li>



<li>Bíblia de Jerusalém. (2002). São Paulo: Paulus. (Evangelhos de Mateus 4:1-11 e Lucas 4:1-13 &#8211; As Tentações no Deserto).</li>



<li>Hillman, J. (1993). <em>O Código do Ser</em>. Rio de Janeiro: Objetiva. (Sobre a vocação e o desvio do caráter).</li>



<li>Guggenbühl-Craig, A. (2004). O Abuso do Poder na Psicoterapia e na Medicina, Serviço Social, Sacerdócio e Magistério. São Paulo: Paulus. (Análise fundamental sobre a sombra nas profissões de cuidado e liderança).</li>



<li>Zweig, C., &amp; Abrams, J. (Eds.). (1994). <em>Ao Encontro da Sombra: O Potencial Oculto do Lado Escuro da Natureza Humana</em>. São Paulo: Cultrix.</li>
</ol>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="O Banquete da Híbris e a Sombra dos “Homens de Bem”: Epstein, Jung e a Negação do Amor" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/BPKUZ22SYDs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-banquete-da-hibris-e-a-sombra-dos-homens-de-bem-epstein-jung-e-a-negacao-do-amor/">O Banquete da Híbris e a Sombra dos &#8220;Homens de Bem&#8221;: Epstein, Jung e a Negação do Amor</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O Princípio da Colaboração e a Ética Amorosa</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-principio-da-colaboracao-e-a-etica-amorosa/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carolina Diniz Bastos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Feb 2026 19:20:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[amorosidade]]></category>
		<category><![CDATA[blog ijep]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
		<category><![CDATA[complexos]]></category>
		<category><![CDATA[ética]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[Psique]]></category>
		<category><![CDATA[relações]]></category>
		<category><![CDATA[teoria junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=11919</guid>

					<description><![CDATA[<p>O presente artigo propõe uma aproximação entre o processo analítico e a construção de uma ética amorosa por meio do confronto com a sombra individual. A partir dos textos de Jung, hooks e Neumann, conclui-se que o envolvimento do indivíduo em seu processo de autoconhecimento favorece uma atitude de alteridade, promovendo uma prática relacional mais amorosa e justa.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-principio-da-colaboracao-e-a-etica-amorosa/">O Princípio da Colaboração e a Ética Amorosa</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O presente artigo propõe uma aproximação entre o processo analítico e a construção de uma ética amorosa por meio do confronto com a sombra individual. A partir dos textos de Jung, hooks e Neumann, conclui-se que o envolvimento do indivíduo em seu processo de autoconhecimento favorece uma atitude de alteridade, promovendo uma prática relacional mais amorosa e justa.</p>



<p style="font-size:19px">A busca por uma sociedade capaz de acolher a vida individual em harmonia com a coletividade atravessa a história da filosofia, da psicologia e da literatura. Carl Gustav Jung (1875–1961) e bell hooks (1952–2021), apesar de trajetórias históricas e intelectuais muito distintas, convergem ao propor que as dinâmicas sociais não podem ser reduzidas à racionalidade ou à normatividade externa. Ambos defendem que uma vida em comunidade exige um processo de transformação, o primeiro a partir do confronto com o inconsciente, de uma transformação que parte do indivíduo para o coletivo, e a segunda pela decisão consciente de amar como prática política e relacional.</p>



<p style="font-size:19px">Em seu memorando à UNESCO de 1948 (JUNG, 2012, § 1.391), Jung apontou que a mudança das atitudes humanas não poderiam vir apenas de fatores intelectuais ou normativos, mas de um processo dialético no qual se integram razão, sentimento e experiência relacional. O processo em questão é o que conhecemos como <strong>análise</strong>, concebida como prática colaborativa: analista e analisando se expõem juntos a conteúdos inconscientes e a partir de sua ampliação reconhecem tanto as potencialidades criativas quanto as fragilidades e aspectos sombrios da psique. Em outras palavras, a mudança de atitude parte da compreensão da existência do aspecto inconsciente da psique (e suas instâncias: pessoal e coletiva), e da colaboração entre indivíduos no <em>setting terapêutico</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-ambito-do-inconsciente-pessoal-se-da-dois-fenomenos-psiquicos-relevantes-para-a-discussao-a-sombra-e-os-complexos" style="font-size:19px">No âmbito do inconsciente pessoal se dá dois fenômenos psíquicos relevantes para a discussão; a sombra e os complexos.</h2>



<p style="font-size:19px">Em primeiro lugar, a <strong>sombra</strong> é caracterizada como as partes de uma personalidade que são rejeitadas pelo complexo do ego (eu) com o intuito de se adaptar socialmente. Deste modo, a sombra não necessariamente é definida como a “personificação” das partes negativas de um indivíduo, mas sim como um acúmulo de características que não são favoráveis à consolidação do eu enquanto complexo regente da consciência. No contexto dos sistemas éticos até então concebidos, ou seja, determinados exclusivamente pelo ponto de vista da consciência, aspectos da personalidade em desacordo com o <em>status quo</em> não são permitidos de existir à luz do dia, considerando ainda sua repressão uma prática esperada.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>A velha ética, falando psicologicamente, é uma “ética&nbsp; parcial”. Ela é uma ética da atitude consciente, deixando de considerar e avaliar as tendências e efeitos no inconsciente. [&#8230;] A velha ética exige supressão e sacrifício e, em princípio, permite também a repressão, isto é, ela não olha o estado da psique, a personalidade total, mas contenta-se com a atitude ética da consciência como um sistema parcial da personalidade. Isso favorece coletivamente uma forma ilusória de ética, que se refere unicamente ao agir do ego e da consciência. Esse ilusionismo é, porém, perigoso, porque, na vida em comum do grupo e do coletivo, leva a fenômenos negativos de compensação, nos quais o lado reprimido e recalcado da sombra irrompe no seio da vida comunitária, na forma da psicologia do bode expiatório, e, na vida em comum internacional, nas explosões epidêmicas de reações ativistas de massas, as guerras. (NEUMANN, 1991, p. 54)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">O segundo fenômeno psíquico do inconsciente pessoal, determinado como&nbsp;complexos, é um emaranhado de conteúdos inconscientes com grande carga afetiva que não são incorporados ao consciente por debilitar a autonomia do eu, prejudicando radicalmente sua vontade e atuação. Sendo assim, podemos compreender os complexos como entidades que apresentam uma característica coletiva, uma vez que são desenvolvidos a partir de temas universais, como o complexo materno, paterno, de inferioridade, de poder, entre outros. Sua formação se dá em volta deste núcleo arquetípico, ou seja, derivado do inconsciente coletivo, e dos conteúdos do inconsciente pessoal que se aproximam a essas características impessoais e as orbitam.</p>



<p style="font-size:19px">O confronto com o inconsciente, em especial com as duas instâncias citadas, longe de ser um percurso simples, é o caminho para a <strong>ampliação da consciência</strong>. Essa jornada de autoconhecimento implica reconhecer as próprias limitações, integrar polaridades internas e assumir responsabilidade por escolhas e renúncias que ultrapassam o nível individual, tocando o coletivo. Nesse sentido, o processo analítico leva a atitudes éticas que se iniciam no <strong>reconhecimento da própria sombra</strong> e se expandem em direção ao <strong>outro</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>A neurose está intimamente entrelaçada com o problema do próprio tempo e representa uma tentativa frustrada do indivíduo de resolver dentro de si um problema universal. A neurose é uma cisão interna. Na maioria das pessoas, essa cisão representa uma ruptura entre o consciente, que desejaria manter-se fiel a seu ideal moral, e o inconsciente, que é atraído por seu ideal imoral (no sentido atual da palavra) e que a consciência tudo faz para desmentir. (JUNG, 2014a, p. 31 § 18)</em><em></em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-durante-o-processo-de-analise-o-confronto-com-a-sombra-e-o-primeiro-grande-encontro-com-o-inconsciente" style="font-size:19px">Durante o processo de análise, o confronto com a sombra é o primeiro grande encontro com o inconsciente.</h2>



<p style="font-size:19px">Nesta situação é muito desafiador para o eu a compreensão de que suas afetações para com o ambiente externo muitas vezes se enquadram no que conhecemos como projeção. A projeção surge a partir de um alto grau de dissociação com uma característica inconsciente do indivíduo. Para conseguir reconhecê-la a pessoa precisa &#8211; inconscientemente &#8211; materializar seus aspectos no mundo exterior através da projeção, seja em outros indivíduos, seja em objetos inanimados. A partir deste encontro com algo que considera “estranho” à sua natureza consciente e sua disposição social, inicia-se uma relação distorcida com este objeto, ou seja, uma paixão com características negativas ou positivas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-fundamental-uma-reflexao-critica-sobre-a-projecao-uma-vez-que-os-afetos-mobilizados-por-estes-conteudos-sao-exatamente-promovedores-de-conflitos-com-o-outro-em-pequena-e-grande-escala" style="font-size:19px"><strong>É fundamental uma reflexão crítica sobre a projeção, uma vez que os afetos mobilizados por estes conteúdos são exatamente promovedores de conflitos com o outro em pequena e grande escala</strong>.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Os conteúdos inconscientes são de natureza pessoal quando podemos reconhecer em nosso passado seus efeitos, sua manifestação parcial, ou ainda sua origem específica. São partes integrantes da personalidade, pertencem a seu inventário e sua perda produziria na consciência, de um modo ou de outro, uma inferioridade. A natureza desta inferioridade não seria psicológica como no caso de uma mutilação orgânica ou de um defeito de nascença, mas o de uma omissão que geraria um ressentimento moral. O sentimento de uma inferioridade moral indica sempre que o elemento ausente é algo que não deveria faltar em relação ao sentimento ou, em outras palavras, representa algo que deveria ser conscientizado se nos déssemos a esse trabalho. O sentimento de inferioridade moral não provém de uma colisão com a lei moral geralmente aceita e de certo modo arbitrária, mas de um conflito com o próprio si-mesmo (Selbst) que, por razões de equilíbrio psíquico, exige que o déficit seja compensado. Sempre que se manifesta um sentimento de inferioridade moral, aparece a necessidade de assimilar uma parte inconsciente e também a possibilidade de fazê-lo. [&#8230;] Poderia acrescentar que esta “ampliação” se refere, em primeiro lugar, à consciência moral, ao autoconhecimento, pois os conteúdos do inconsciente liberados e conscientizados pela análise são em geral desagradáveis e por isso mesmo foram reprimidos. (JUNG, 2015a, p. 24&nbsp; §218)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-principio-da-colaboracao-surge-aqui-como-nucleo-etico-a-analise-e-o-dialogo-entre-duas-subjetividades-que-no-encontro-transformam-se-mutuamente" style="font-size:19px">O princípio da colaboração surge aqui como núcleo ético: a análise é o diálogo entre duas subjetividades que, no encontro, transformam-se mutuamente.</h2>



<p style="font-size:19px">Essa experiência de escuta e confronto possibilita um deslocamento de uma atitude egoísta &#8211; de inflação e unilateralidade &#8211; em direção à alteridade, pois o reconhecimento de aspectos inconscientes abre espaço para acolher aquilo que é estranho, tanto em si quanto no outro.</p>



<p style="font-size:19px">bell hooks, em <em>Tudo sobre amor </em>(2020), também propõe uma ética que não se restringe à normatividade ou ao dever imposto de fora. Para ela, o amor é uma prática consciente, que envolve cuidado, respeito, responsabilidade e compromisso. Amar é escolher a verdade e a justiça como princípios das relações interpessoais e sociais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-autora-denuncia-a-naturalizacao-da-dominacao-nas-culturas-patriarcais-e-recorda-em-dialogo-com-jung-que-onde-o-desejo-de-poder-e-imperioso-o-amor-estara-ausente" style="font-size:19px">A autora denuncia a naturalização da dominação nas culturas patriarcais e recorda, em diálogo com Jung, que onde o desejo de poder é imperioso, o amor estará ausente.</h2>



<p style="font-size:19px">Não há amor em relações baseadas na opressão. O amor, enquanto prática ética, rompe a lógica do poder e recoloca no centro da vida comunitária a colaboração, a solidariedade e o cuidado mútuo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:20px"><em>A dominação não pode existir em qualquer situação social em que prevaleça uma ética amorosa. É importante lembrar a percepção de Jung, de que, se o desejo de poder predomina, o amor estará ausente. Quando o amor está presente, o desejo de dominar e exercer poder não pode ser a ordem do dia. [&#8230;] A preocupação em relação ao bem coletivo de nosso país, de nossa cidade ou vizinhança, baseada em valores amorosos, faz com que todos busquemos nutrir e proteger esse bem. Se todas as políticas públicas fossem criadas no espírito do amor, não teríamos que nos preocupar com o desemprego, as pessoas em situação de rua, o fracasso de escolas em ensinar às crianças ou os vícios. (hooks, 2020, p. 117)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">hooks também descreve em seu texto sua própria experiência com processos de terapia e seu percurso de autoconhecimento como fundamentais para sustentar uma ética amorosa. Reconhecer a própria vulnerabilidade, confrontar a dor e a sombra, abrir-se para o inconsciente: todos esses movimentos, que se apresentam como árduo desafio para o ego, favorecem a vivência do amor de forma plena e transformadora.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-aproximacao-entre-jung-e-hooks-permite-vislumbrar-uma-concepcao-de-etica-enraizada-no-autoconhecimento-e-na-relacao-com-o-outro" style="font-size:19px">A aproximação entre Jung e hooks permite vislumbrar uma concepção de ética enraizada no autoconhecimento e na relação com o outro.</h2>



<p style="font-size:19px">O confronto com o inconsciente, com aquilo que é estranho a nós mesmos, torna-se condição para ampliar a consciência e, assim, reconhecer a humanidade do outro em suas dificuldades e resistências.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>A assunção da sombra é um amadurecimento rumo ao profundo da própria origem, e, com a perda da ilusão flutuante de um ideal do ego, logra-se novo aprofundamento, enraizamento e firmeza. (NEUMANN, 1991, p. 75)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">A alteridade parte justamente da aceitação das próprias contradições, favorecendo a capacidade de convivência com as contradições alheias. Assim, a ética deixa de ser uma obediência cega à normas externas, mas uma escolha consciente de integrar aspectos conflituosos e de reconhecer o processo de autoconhecimento do outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-e-hooks-apontam-para-um-horizonte-comum-sem-autoconhecimento-nao-ha-etica-e-sem-amor-nao-ha-convivencia-justa" style="font-size:19px">Jung e hooks apontam para um horizonte comum; sem autoconhecimento não há ética, e sem amor não há convivência justa.</h2>



<p style="font-size:19px"><strong>O princípio da colaboração, presente tanto na análise junguiana quanto na ética amorosa, constitui o eixo de uma vida que busca sentido</strong>. A ética, neste contexto, nasce do diálogo entre consciente e inconsciente, e se realiza na prática do cuidado e do amor como resposta ao outro que me é estranho.</p>



<p style="font-size:19px">A ética precisa ser compreendida como processo interno que parte do reconhecimento das próprias polaridades e contradições e que se concretiza na atitude consciente de se confrontar com aspectos inconscientes da própria psique. A realização plena da vida não se encontra na supremacia da razão, mas na abertura ao simbólico, ao afetivo e ao relacional, dimensões que Jung e hooks recolocam no centro do debate ético e da transformação social.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Carolina Diniz Bastos &#8211; Analista em Formação</strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini &#8211; Analista Didata</a></strong></p>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências:</strong></h1>



<p>HOOKS, bell. Tudo sobre amor: novas perspectivas. Tradução de Ana Ban. 1. ed. São Paulo: Elefante, 2020.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>A vida simbólica.</em> Escritos diversos. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p>______ <em>Tipos psicológicos</em>. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p>______ <em>A energia psíquica</em>. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p>______ <em>A natureza da psique</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p>______<em>Psicologia do inconsciente</em>. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014a.</p>



<p>______<em>O eu e o inconsciente</em>. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015a.</p>



<p>NEUMANN, Erich. Psicologia profunda e nova ética. São Paulo: Edições Paulinas, 1991.</p>



<p><strong>Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; IJEP</strong></p>



<p><strong>Matrículas abertas: <em>Psicologia Junguiana &#8211; Psicossomática &#8211; Arteterapia</em></strong>:</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="http://www.ijep.com.br"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-819x1024.png" alt="" class="wp-image-11931" style="width:415px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-819x1024.png 819w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-240x300.png 240w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-768x960.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-150x188.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-450x563.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1.png 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" /></a></figure>



<div class="wp-block-yoast-seo-ai-summarize yoast-ai-summarize"><h2>Resumo do Blog:</h2>
<ul class="wp-block-list yoast-ai-summarize-list">
<li>O artigo analisa a conexão entre o autoconhecimento e a construção de uma ética amorosa através do confronto com a sombra individual.</li>



<li>Baseando-se em Jung e hooks, conclui-se que a transformação pessoal promove relações mais justas e amorosas.</li>



<li>O processo analítico, ao integrar inconsciente e consciente, permite o reconhecimento da própria sombra e favorece a alteridade.</li>



<li>A ética proposta não é apenas uma obediência a normas, mas uma escolha consciente que envolve responsabilidade e cuidado.</li>



<li>Sem autoconhecimento não existe ética, e sem amor não há convivência justa, enfatizando o papel da colaboração em relações saudáveis.</li>
</ul>
</div>



<p></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-principio-da-colaboracao-e-a-etica-amorosa/">O Princípio da Colaboração e a Ética Amorosa</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Iemanjá Não é Uma Só: as muitas faces da Grande Mãe que nos habita</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/iemanja-nao-e-uma-so-as-muitas-faces-da-grande-mae-que-nos-habita/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Natalhe Vieni]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Feb 2026 12:46:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Orixás]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[arquétipo]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
		<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[complexos]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
		<category><![CDATA[grande mãe]]></category>
		<category><![CDATA[iemanjá]]></category>
		<category><![CDATA[Iorubá]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[Mãe]]></category>
		<category><![CDATA[mães e filhos]]></category>
		<category><![CDATA[mitologia]]></category>
		<category><![CDATA[orixás]]></category>
		<category><![CDATA[religião]]></category>
		<category><![CDATA[Sabedoria]]></category>
		<category><![CDATA[yemanjá]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=11812</guid>

					<description><![CDATA[<p>O texto aborda Iemanjá como expressão plural do arquétipo da Grande Mãe, problematizando a idealização do materno como figura única, sempre acolhedora e previsível. Em diálogo com Jung, apresenta diferentes faces de Iemanjá - nutridora, firme, encantadora , profunda - como modos simbólicos que respondem a distintas necessidades psíquicas. </p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/iemanja-nao-e-uma-so-as-muitas-faces-da-grande-mae-que-nos-habita/">Iemanjá Não é Uma Só: as muitas faces da Grande Mãe que nos habita</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong><em>Resumo</em></strong>: <em>O texto aborda Iemanjá como expressão plural do arquétipo da Grande Mãe, problematizando a idealização do materno como figura única, sempre acolhedora e previsível. Em diálogo com Jung, apresenta diferentes faces de Iemanjá &#8211; nutridora, firme, encantadora , profunda &#8211; como modos simbólicos que respondem a distintas necessidades psíquicas. </em></p>



<p style="font-size:18px"><strong>Talvez um dos maiores equívocos quando falamos de Iemanjá, e da Grande Mãe de modo geral, seja tratá-la como uma figura única, estável, previsível</strong>. Como se houvesse uma só forma de maternar, um só jeito de cuidar, um único modelo de acolhimento possível. Mas o mito nunca foi simples, e o arquétipo muito menos. Quando a experiência humana tenta reduzir o materno a uma imagem só, algo se perde, e costuma doer.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-iemanja-nao-e-uma-nunca-foi-e-talvez-seja-justamente-por-isso-que-ela-atravesse-tantas-historias-culturas-e-experiencias-com-tanta-forca" style="font-size:18px">Iemanjá não é uma. Nunca foi. E talvez seja justamente por isso que ela atravesse tantas histórias, culturas e experiências com tanta força.</h2>



<p style="font-size:18px">O mar que a representa não se mantém igual de um dia para o outro. Há águas rasas e acolhedoras, há correntes traiçoeiras, há profundidades silenciosas que assustam quem se aproxima esperando apenas colo. O erro não está no mar. Está na expectativa de que ele se comporte como lago.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pensar-iemanja-como-uma-unica-mae-sempre-disponivel-sempre-nutridora-sempre-doce-empobrece-o-arquetipo-e-infantiliza-a-relacao-com-o-feminino-profundo" style="font-size:18px">Pensar Iemanjá como uma única mãe, sempre disponível, sempre nutridora, sempre doce, empobrece o arquétipo e infantiliza a relação com o feminino profundo.</h2>



<p style="font-size:18px">A Grande Mãe, em qualquer tradição simbólica, nunca foi apenas benéfica. Ela geral, sustenta e protege, mas também engole, confunde, exige separações dolorosas. A mesma força que dá vida pode dissolver o ego quando este se aproxima sem consciência. Talvez, por isso, seja mais honesto falar em <strong>tipos de Iemanjá</strong>, não como classificações rígidas, mas como <strong>imagens vivas do arquétipo materno em diferentes modos de funcionamento</strong>. Cada uma dessas imagens responde a uma necessidade psíquica específica, a um momento da vida, a uma ferida ainda aberta ou a uma maturidade em construção. E o problema costuma começar quando ficamos presos a apenas uma delas, como se ali estivesse toda a verdade do materno.</p>



<p style="font-size:18px">Há a Iemanjá do acolhimento, aquela mais conhecida, associada ao colo, à nutrição, ao cuidado que organiza o caos interno. Ela se aproxima da Deméter que alimenta, da Ísis que recompõe o corpo despedaçado, da Maria que ampara sem exigir nada em troca. Essa imagem é fundamental para a constituição psíquica. Sem alguma experiência de sustentação, o sujeito cresce inseguro, faminto de afeto, buscando no mundo um chão que nunca encontrou dentro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-o-que-acontece-quando-essa-imagem-se-torna-absoluta" style="font-size:18px">Mas o que acontece quando essa imagem se torna absoluta?</h2>



<p style="font-size:18px"><strong>Quando o cuidado vira promessa de proteção eterna?</strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong>Quando o vínculo se sustenta apenas pela dependência?</strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong>Em vez de segurança, surge a estagnação. Em vez de nutrição, excesso</strong>. O mar que só acolhe, sem correnteza, apodrece. E talvez seja por isso que tantas pessoas confundam amor com permanência forçada, presença com fusão, cuidado com controle, não porque a mãe falhou, mas porque uma única imagem do materno tentou ocupar tudo.</p>



<p style="font-size:18px">Há também a Iemanjá <strong>firme</strong>, menos romantizada, mas igualmente necessária. Aquela que impõe limite, que protege com contorno, que não negocia a própria integridade. Essa face dialoga com imagens da Grande Mãe guerreira, como Cibele, Durga ou mesmo certas manifestações de Sekhmet. Aqui, o materno não é apenas aconchego, é estrutura. É o “não” que sustenta a vida tanto quanto o “sim”. Sem essa dimensão, o sujeito cresce sem fronteiras internas, vulnerável à invasão, ao abuso, à confusão entre desejo próprio e desejo do outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-limite-demais-tambem-endurece" style="font-size:18px"><strong>Mas, limite demais também endurece</strong>.</h2>



<p style="font-size:18px">Quando essa Iemanjá ocupa tudo, o cuidado perde calor, a proteção vira rigidez, e a segurança se transforma em medo de errar. O arquétipo não adoece por existir, adoece por se tornar unilateral. Talvez seja por isso que a experiência do materno seja sempre ambígua: ela exige equilíbrio entre sustentar e soltar, proteger e permitir risco.</p>



<p style="font-size:18px">Existe ainda a Iemanjá<strong> encantadora</strong>, ligada à beleza, ao afeto sedutor, ao prazer de ser cuidado e desejado. Essa imagem se aproxima das deusas marinhas ligadas à sedução, à Anima que chama, que embala, que promete retorno ao conforto primordial. Quando essa dimensão falta, a vida perde cor, o corpo se endurece, o vínculo vira obrigação. Mas quando ela domina sozinha, captura. O encanto vira dependência, e o amor passa a exigir entrega total, sem espaço para diferenciação.</p>



<p style="font-size:18px">E há, talvez a menos falada, a Iemanjá <strong>profunda</strong>. Aquela que não se mostra na superfície. A que habita o fundo do mar, aonde a luz chega distorcida e o tempo não obedece à pressa humana. Essa imagem dialoga com as grandes mães primordiais, como Tiamat, Nammu, &nbsp;Gaia arcaica, Kali silenciosa. Aqui, o materno não consola, não explica, não responde. Ele sustenta o processo. Permite que algo se dissolva para que outra coisa nasça. Não é confortável, mas é transformador.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quantas-vezes-evitamos-essa-iemanja-porque-confundimos-profundidade-com-afogamento" style="font-size:18px">Quantas vezes evitamos essa Iemanjá porque confundimos profundidade com afogamento?</h2>



<p style="font-size:18px">Quantas vezes queremos apenas a mãe que resolve, que acolhe, que protege, sem nos darmos conta de que amadurecer exige atravessar zonas aonde o cuidado não vem em forma de resposta, mas de tempo?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-fundo-do-mar-nao-e-abandono-e-elaboracao-mas-nem-sempre-estamos-prontos-para-isso" style="font-size:18px"><strong>O fundo do mar não é abandono. É elaboração. Mas nem sempre estamos prontos para isso</strong>.</h2>



<p style="font-size:18px">Talvez a pergunta mais honesta não seja qual Iemanjá é a verdadeira, mas <strong>qual delas governa nossa vida hoje</strong>. A que acolhe demais? A que impõe limite demais? A que encanta para não ser deixada? A que se mantém distante para não se ferir? Ou aquela que permite silêncio, espera, transformação lenta?</p>



<p style="font-size:18px">A Grande Mãe nunca foi simples. Iemanjá tampouco. Reduzi-la a uma imagem só é um modo de fugir da complexidade do próprio materno interno. E talvez seja justamente essa multiplicidade que nos convide a algo mais maduro: aprender a reconhecer, em nós, as diferentes águas que nos habitam, sem idealização, sem culpa, sem pressa de resolver.</p>



<p style="font-size:18px">Talvez seja por isso que Jung tenha insistido tantas vezes que o arquétipo da mãe nunca se apresenta de forma unilateral. Ele escreve que a imagem materna contém “tudo o que é carinhoso, protetor, nutridor, mas também tudo o que é secreto, devorador e fatal” (JUNG, 2014, p. 87). A Grande Mãe não se organiza segundo critérios morais; ela é anterior a eles. Quando tentamos torná-la apenas boa, apenas acolhedora, apenas luminosa, não a purificamos, nós a empobrecemos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-iemanja-como-imagem-viva-desse-arquetipo-carrega-essa-ambivalencia-sem-pedir-licenca" style="font-size:18px">Iemanjá, como imagem viva desse arquétipo, carrega essa ambivalência sem pedir licença.</h2>



<p style="font-size:18px">É mãe dos peixes, ventre da vida, mas também senhora de correntes que arrastam. E talvez o desconforto que muitas pessoas sentem diante de certas imagens de Iemanjá diga mais sobre nossa dificuldade de sustentar ambivalência do que sobre o mito em si. Queremos uma mãe previsível, quando o arquétipo é, por natureza, paradoxal.</p>



<p style="font-size:18px">Jung lembra que o contato com os arquétipos “<em>provoca fascínio e temor, pois eles têm o poder de nos elevar ou de nos destruir</em>” (JUNG, 2014, p. 15). Não porque sejam perigosos em si, mas porque ativam zonas profundas da psique, onde o ego perde a ilusão de controle. O mar, como símbolo do inconsciente, nunca prometeu segurança absoluta. Ele promete travessia.</p>



<p style="font-size:18px">Quando olhamos para Iemanjá como expressão da Grande Mãe acolhedora, estamos lidando com uma necessidade psíquica básica: a de <strong>sustentação</strong>. Sem alguma experiência de cuidado, a psique se organiza em estado de alerta permanente. Jung aponta que “a falta da mãe pode levar a uma busca incessante de proteção no mundo exterior” (JUNG, 2014, p. 92). Mas o excesso de mãe produz outro efeito: impede a diferenciação, dificulta a separação, mantém o sujeito numa dependência silenciosa, muitas vezes disfarçada de amor.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Aqui a comparação com Deméter é inevitável</strong>. A mãe que perde a filha para o mundo e tenta congelar o tempo, recusando o ciclo natural de perda e retorno. E só depois de um acordo em que ela fica com a filha por 2/4, ou em algumas versões 2/3 do tempo, com sua filha é que ela aceita voltar a fertilizar a terra. Não é um bom acordo para um casamento, a filha fica numa relação de eterna filiação com dificuldade de se tornar mulher, esposa e mãe.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Mas a Grande Mãe não é só perda e luto</strong>. Ela também é <strong>potência que protege</strong>. A Iemanjá firme, associada em algumas tradições a Ogunté, traz à tona uma dimensão menos confortável do materno: a que impõe limite. Jung observa que o arquétipo da mãe “pode aparecer como autoridade que oprime e paralisa, mas também como força que dá estrutura e forma” (JUNG, 2014, p. 90). O limite, quando vivido como cuidado, organiza. Quando vivido como medo, adoece. A diferença nem sempre é visível de fora; ela se dá no campo interno.</p>



<p style="font-size:18px">Talvez por isso tantas pessoas tenham dificuldade em reconhecer essa face do materno sem culpa. Crescemos aprendendo que mãe boa é a que aguenta tudo, a que nunca falha, a que não frustra. Mas o arquétipo não sustenta essa fantasia por muito tempo. Quando o limite não é internalizado, ele retorna como sintoma, como relação abusiva, como dificuldade crônica de dizer não. O problema não é o limite; é a ausência dele no lugar certo.</p>



<p style="font-size:18px">A Iemanjá encantadora, por sua vez, toca outro ponto sensível. Ela fala da experiência de ser amado, desejado, acolhido com prazer. Jung descreve como a dimensão da Anima, quando integrada, devolve sensibilidade e vitalidade à vida psíquica, mas quando inflada “aprisiona o sujeito numa relação infantil com o feminino” (JUNG, 2017, p. 31). O encanto sem contorno captura. O cuidado que só seduz não sustenta.</p>



<p style="font-size:18px">Talvez seja aqui que muitas relações se confundam. Amor vira promessa de retorno ao paraíso perdido, e qualquer frustração é vivida como traição. O mar deixa de ser espaço de vida e vira promessa de fusão eterna. Mas o arquétipo não existe para nos poupar do processo de individuação. Ele existe para nos convocar a ele.</p>



<p style="font-size:18px">E então chegamos à Iemanjá profunda, aquela que menos aparece nas imagens idealizadas, mas que talvez seja a mais decisiva para o amadurecimento psíquico. A Grande Mãe primordial não explica, não consola, não responde rápido. Jung lembra que o inconsciente “não trabalha segundo a lógica do ego, mas segundo ritmos próprios, que exigem espera e elaboração” (JUNG, 2013, p. 67). O fundo do mar simboliza esse tempo outro, onde algo precisa morrer para que algo novo se organize.</p>



<p style="font-size:18px">Quantas vezes resistimos a essa imagem porque ela nos confronta com o vazio? Queremos respostas, quando o processo pede silêncio. Queremos solução, quando o que está em jogo é transformação. A Iemanjá profunda não abandona; ela sustenta sem intervir. E isso é difícil de suportar numa cultura que confunde cuidado com presença constante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-o-mais-perigoso-nao-seja-a-face-devoradora-da-grande-mae-mas-a-nossa-insistencia-em-nega-la" style="font-size:18px">Talvez o mais perigoso não seja a face devoradora da Grande Mãe, mas a nossa insistência em negá-la.</h2>



<p style="font-size:18px">Jung alerta que aquilo que não é reconhecido conscientemente retorna de forma destrutiva (JUNG, 2014). Quando não aceitamos que o materno também separa, dissolve e frustra, tendemos a repetir essas experiências de modo inconsciente, nas relações, no corpo, na forma como cuidamos e somos cuidados.</p>



<p style="font-size:18px">Por isso, pensar Iemanjá em diálogo com outras imagens da Grande Mãe não é exercício teórico. É uma forma de ampliar a consciência sobre o próprio materno interno. Deméter, Ísis, Maria, Kali, Nanã, Iemanjá, nenhuma delas cabe sozinha. Todas expressam algo de um mesmo campo arquetípico que sustenta e ameaça, acolhe e exige diferenciação.</p>



<p style="font-size:18px">Talvez a pergunta que fique não seja qual dessas imagens é a correta, mas qual delas estamos vivendo sem perceber. <strong>Em que ponto transformamos cuidado em fusão? Em que momento o limite virou dureza? Onde o encanto passou a capturar</strong>? E, sobretudo, onde evitamos a profundidade por medo de nos perder, quando talvez seja ali que algo em nós precise, finalmente, se reorganizar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-nao-seja-por-acaso-que-iemanja-seja-celebrada-no-dia-2-de-fevereiro-num-tempo-historico-em-que-o-cansaco-se-tornou-quase-um-modo-de-existir" style="font-size:18px">Talvez não seja por acaso que Iemanjá seja celebrada no dia 2 de fevereiro, num tempo histórico em que o cansaço se tornou quase um modo de existir.</h2>



<p style="font-size:18px">O <strong>Espírito desta época</strong>, tão voltado à produtividade, à exposição contínua, à exigência de disponibilidade permanente, parece pouco interessado em silêncio, recolhimento ou profundidade. <strong>Tudo precisa ser dito, mostrado, resolvido rápido. O cuidado vira desempenho. O afeto vira tarefa. O amor, muitas vezes, vira exaustão</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-cenario-o-arquetipo-de-iemanja-como-expressao-da-grande-mae-nao-nos-convoca-a-mais-esforco-mas-a-outra-qualidade-de-consciencia" style="font-size:18px">Nesse cenário, o arquétipo de Iemanjá como expressão da Grande Mãe não nos convoca a mais esforço, mas a <strong>outra qualidade de consciência</strong>.</h2>



<p style="font-size:18px">Jung lembrava que cada época histórica é dominada por certos valores e cegada por outros, e que “<em>o Espírito do Tempo tende a se impor como verdade absoluta, enquanto o Espírito das Profundezas fala baixo e é facilmente ignorado</em>” (JUNG, 2013, p. 45). Talvez o mar de Iemanjá pertença justamente a esse outro registro: o das profundezas que não competem com o ruído do mundo, mas o relativizam.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>O que Iemanjá nos pede, então, quando tudo em torno exige excesso?</strong></p>



<p style="font-size:18px">Talvez não seja mais cuidado, mas discernimento. Discernir quando acolher e quando não se oferecer além do possível. Discernir quando permanecer e quando respeitar o próprio limite. A Grande Mãe, nesse sentido, não aparece como solução mágica para o esgotamento contemporâneo, mas como espelho incômodo: até que ponto transformamos cuidado em autoabandono?</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Vivemos uma época que romantiza o materno como doação infinita</strong>. Espera-se que mães, terapeutas, professores, cuidadores, e, em alguma medida, todos nós, estejam sempre disponíveis, sempre compreensivos, sempre resilientes. O Espírito desta época cobra presença constante, mas oferece pouco espaço para elaboração. Jung já advertia que “quando a adaptação ao mundo externo se torna excessiva, a vida interior empobrece, e a psique começa a protestar” (JUNG, 2014, p. 64). Talvez muitos dos sintomas atuais: <strong>cansaço crônico, ansiedade difusa, irritabilidade, sensação de vazio</strong>, sejam formas desse protesto.</p>



<p style="font-size:18px">Iemanjá, como arquétipo, não responde a esse protesto com aceleração. Ela responde com ritmo. O mar não se move pela urgência humana. Ele obedece a ciclos, marés, forças que escapam ao controle do ego. Celebrar Iemanjá, nesse contexto, talvez seja perguntar se ainda somos capazes de respeitar ritmos que não sejam os da cobrança externa. Ou se já internalizamos tanto o Espírito do Tempo que passamos a nos explorar em nome do cuidado, do amor, da responsabilidade.</p>



<p style="font-size:18px">Há também algo a ser pensado sobre a relação entre o feminino e o esgotamento contemporâneo. Jung observou que, em épocas de unilateralidade racional e produtivista, o princípio feminino tende a ser reprimido ou distorcido, retornando de forma sintomática (JUNG, 2014). Não como acolhimento profundo, mas como exigência de performance emocional. O feminino vira obrigação de sentir, de cuidar, de sustentar o outro, mesmo quando isso custa a própria vitalidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-iemanja-nao-aparece-apenas-como-mae-mas-como-forca-arquetipica-que-questiona-a-forma-como-estamos-vivendo-o-cuidado" style="font-size:18px">Nesse sentido, Iemanjá não aparece apenas como mãe, mas como <strong>força arquetípica que questiona a forma como estamos vivendo o cuidado</strong>.</h2>



<p style="font-size:18px">O mar que ela representa não é uma superfície lisa pronta para receber tudo. Ele tem correntes, profundidades, zonas de perigo. Ignorar isso não o torna mais seguro; apenas nos torna mais ingênuos. Talvez o arquétipo esteja nos convidando a abandonar a fantasia de que amar é sempre estar disponível, e a reconhecer que há um cuidado que só existe quando há limite.</p>



<p style="font-size:18px">O Espírito desta época também nos empurra para relações cada vez mais imediatas, rápidas, descartáveis. Tudo precisa ser resolvido, respondido, superado. A lógica do “seguir em frente” raramente admite luto, ambivalência ou demora. Iemanjá, ao contrário, carrega o tempo da água. Jung dizia que o inconsciente “não se submete à pressa consciente; ele exige paciência, espera e disposição para suportar a incerteza” (JUNG, 2013, p. 72). Talvez essa seja uma das reflexões mais difíceis hoje: suportar não saber, não controlar, não resolver de imediato.</p>



<p style="font-size:18px">No dia 2 de fevereiro, muitas pessoas oferecem flores ao mar pedindo proteção, amor, cuidado. Mas talvez a pergunta mais radical seja outra: <strong>o que estamos dispostos a devolver?</strong> Quais excessos podemos entregar às águas? Quais expectativas irreais sobre o cuidado, sobre a mãe, sobre o outro, sobre nós mesmos, precisam ser dissolvidas? O arquétipo não pede devoção ingênua; ele pede consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-iemanja-como-imagem-da-grande-mae-nao-nos-convoca-a-regredir-mas-a-amadurecer" style="font-size:18px"><strong>Iemanjá, como imagem da Grande Mãe, não nos convoca a regredir, mas a amadurecer</strong>.</h2>



<p style="font-size:18px">Não nos chama de volta ao útero, mas à responsabilidade de construir um materno interno capaz de sustentar sem aprisionar. Jung lembrava que o Processo de Individuação exige diferenciação das imagens parentais, não para negá-las, mas para integrá-las de forma consciente (JUNG, 2014). Talvez celebrar Iemanjá hoje seja reconhecer que o cuidado que salva é aquele que não anula, e que a proteção verdadeira não impede o crescimento.</p>



<p style="font-size:18px">Em tempos de excesso de estímulo, de demandas infinitas e de vínculos frágeis, o mar de Iemanjá não oferece respostas prontas. Ele oferece perguntas. E talvez isso seja o mais fiel ao arquétipo: não aliviar o peso da existência, mas aprofundá-la. Convidar-nos a olhar para a forma como cuidamos, somos cuidados e nos abandonamos, tudo isso ao mesmo tempo, sem simplificação.</p>



<p style="font-size:18px">Talvez o Espírito desta época precise menos de soluções e mais de profundidade. E talvez seja isso que Iemanjá, silenciosamente, nos lembra todos os anos: sem fundo, o mar vira ruído. Sem consciência, o cuidado vira cansaço. Sem limite, até o amor pode afogar.</p>



<p style="font-size:18px">É importante lembrar que essa multiplicidade de Iemanjá não nasce de uma leitura psicológica moderna, mas está profundamente enraizada nas tradições de matriz africana. Diferentemente da tendência ocidental de reduzir o divino a figuras estáveis e moralizadas, os cultos aos orixás sempre reconheceram a complexidade e a ambivalência das forças da natureza e da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-lembra-reginaldo-prandi-os-orixas-nao-sao-modelos-eticos-ideais-mas-expressoes-das-contradicoes-humanas-com-virtudes-e-excessos-prandi-2001-p-24" style="font-size:18px">Como lembra <strong>Reginaldo Prandi</strong>, os orixás “<em>não são modelos éticos ideais, mas expressões das contradições humanas, com virtudes e excessos</em>” (PRANDI, 2001, p. 24).</h2>



<p id="h-nas-tradicoes-iorubas-e-afro-brasileiras-iemanja-aparece-sob-diferentes-qualidades-muitas-vezes-chamadas-de-caminhos-ou-qualidades-do-orixa-que-expressam-modos-distintos-de-manifestacao-do-mesmo-principio-pierre-verger-destaca-que-essas-variacoes-nao-indicam-deuses-diferentes-mas-aspectos-diversos-de-uma-mesma-divindade-relacionados-a-regioes-mitos-e-funcoes-especificas-verger-2019-p-143" style="font-size:18px">Nas tradições iorubás e afro-brasileiras, Iemanjá aparece sob diferentes qualidades, muitas vezes chamadas de caminhos ou qualidades do orixá, que expressam modos distintos de manifestação do mesmo princípio. <strong>Pierre Verger</strong> destaca que essas variações não indicam deuses diferentes, mas “<em>aspectos diversos de uma mesma divindade, relacionados a regiões, mitos e funções específicas</em>” (VERGER, 2019, p. 143).</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Iemanjá Ogunté</strong>, por exemplo, é descrita como uma Iemanjá mais firme, associada à proteção e à guerra, próxima a Ogum. Aqui o materno não é apenas acolhedor, mas defensivo, capaz de impor limites e proteger a vida quando ameaçada. Do ponto de vista junguiano, essa imagem dialoga com a face estruturante da Grande Mãe, aquela que organiza, delimita e sustenta o ego nascente. Sem essa dimensão, o cuidado se torna ingênuo; quando absolutizada, endurece.</p>



<p style="font-size:18px">Já <strong>Iemanjá Sabá</strong>, ligada às águas profundas e à ancestralidade, carrega uma tonalidade mais antiga e silenciosa. Segundo <strong>Prandi</strong>, Sabá é uma Iemanjá “<em>velha, grave e ligada à memória do mundo</em>” (PRANDI, 2001, p. 57). Essa imagem encontra ressonância direta com o que Jung descreve como o aspecto arcaico do arquétipo materno, aquele que sustenta os processos de luto, perda e transformação sem pressa de resolução. Aqui, o cuidado não consola rapidamente, mas permite que a dor seja elaborada no tempo próprio da psique.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-tambem-a-iemanja-jovem-e-encantadora-associada-a-fertilidade-a-beleza-e-ao-afeto-que-aproxima" style="font-size:18px">Há também a Iemanjá jovem e encantadora, associada à fertilidade, à beleza e ao afeto que aproxima.</h2>



<p style="font-size:18px">Verger descreve essa face como ligada às águas mais claras e à experiência da sedução e da vida que se renova (VERGER, 2019). Psicologicamente, essa imagem dialoga com a dimensão da Anima, que devolve sensibilidade e vitalidade à existência. Quando reprimida, a vida perde cor; quando inflada, pode capturar e infantilizar.</p>



<p style="font-size:18px">A Iemanjá do mar raso, frequentemente evocada como mãe dos peixes, expressa a função materna cotidiana: nutrir, sustentar, organizar. É a base emocional que permite ao sujeito existir no mundo com alguma segurança. Jung lembra que a mãe, enquanto arquétipo, oferece “o fundamento psíquico da confiança básica” (JUNG, 2014). Quando essa dimensão falha, o sujeito vive à deriva; quando domina sozinha, impede a diferenciação necessária ao Processo de Individuação.</p>



<p style="font-size:18px">Por fim, há a Iemanjá das grandes profundezas, menos nomeada, mas sempre presente nos mitos. Essa face se aproxima de Nanã, a mãe primordial ligada à lama, ao tempo e à morte, descrita por Juana Elbein dos Santos como expressão do princípio feminino mais antigo, anterior à forma e à palavra (SANTOS, 2002). Aqui, o materno não acolhe nem protege no sentido comum; ele dissolve para que algo novo possa emergir. Em termos junguianos, trata-se do inconsciente em sua potência transformadora, que exige entrega, espera e elaboração.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essas-qualidades-de-iemanja-nao-competem-entre-si-elas-coexistem" style="font-size:18px"><strong>Essas qualidades de Iemanjá não competem entre si. Elas coexistem.</strong></h2>



<p style="font-size:18px">As tradições de matriz africana sempre souberam disso, sem a necessidade de sistematizar em categorias rígidas. O problema surge quando o sujeito, ou a cultura, tenta viver apenas uma dessas faces, ignorando as demais. A Grande Mãe, quando reduzida, adoece. E com ela, adoece também nossa capacidade de amar, cuidar e sustentar a vida em sua complexidade.</p>



<p style="font-size:18px">Talvez, então, o dia 2 de fevereiro não seja apenas uma data devocional, nem um gesto repetido de lançar flores ao mar esperando proteção. Talvez seja um convite mais exigente, desses que não se resolvem em oferenda externa. Diante do Espírito desta época, marcado pela pressa, pela indiferença ao sofrimento do outro, pela dificuldade crescente de amar sem transformar o vínculo em consumo ou obrigação, Iemanjá nos convoca a olhar para algo que temos evitado: <strong>a qualidade do amor que estamos conseguindo sustentar</strong>.</p>



<p style="font-size:18px">A <strong>violência explícita</strong>, como no caso do <strong>cão Orelha</strong>, choca porque expõe de forma crua o que muitas vezes acontece de modo silencioso no cotidiano: a incapacidade de reconhecer a vulnerabilidade e de colocar limite no mal que há em nós, como algo que nos interpela eticamente. Mas essa mesma lógica aparece, de forma menos visível, quando o sujeito abandona o próprio corpo, quando se explora em nome do cuidado, quando se exige funcionar mesmo sem recursos internos, quando transforma o amor em desempenho. A falta de amor não começa no ato extremo; ela se instala antes, quando a função materna interna falha, quando não sabemos mais nos sustentar por dentro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-consultorio-isso-se-repete-de-forma-quase-cotidiana" style="font-size:18px"><strong>No consultório, isso se repete de forma quase cotidiana</strong>.</h2>



<p style="font-size:18px">Pessoas que nunca aprenderam a se maternar. Que não sabem descansar sem se punir. Que confundem limite com rejeição e cuidado com culpa. Outras que endureceram tanto para não sofrer que já não conseguem acolher nem a si mesmas. Jung observou que, quando o arquétipo da mãe não é suficientemente integrado, o sujeito oscila entre dependência e autoabandono, entre fusão e isolamento (JUNG, 2014). O amor, nesse contexto, vira algo sempre excessivo ou sempre insuficiente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-multiplas-imagens-de-iemanja-como-nos-ensinam-as-tradicoes-de-matriz-africana-talvez-existam-justamente-para-nos-lembrar-que-nao-ha-uma-unica-forma-saudavel-de-maternar" style="font-size:18px">As múltiplas imagens de Iemanjá, como nos ensinam as tradições de matriz africana, talvez existam justamente para nos lembrar que <strong>não há uma única forma saudável de maternar</strong>.</h2>



<p style="font-size:18px">Há tempos de acolher e tempos de impor limite. Tempos de encantar e tempos de silenciar. Tempos de sustentar e tempos de deixar que a vida siga sem o colo constante. Quando uma dessas faces domina sozinha, o cuidado adoece. Quando são reconhecidas em sua pluralidade, o amor ganha densidade.</p>



<p style="font-size:18px">Celebrar Iemanjá, nesse sentido, não é escolher uma imagem e negar as outras. É aceitar que o materno é ambivalente, paradoxal, vivo. É reconhecer que amar exige presença, mas também consciência. Que proteger não é impedir a travessia. Que cuidar não é se perder. Jung lembra que o Processo de Individuação passa, necessariamente, pela diferenciação das imagens parentais internas, para que o sujeito possa sustentar a própria vida com mais autonomia e menos repetição inconsciente (JUNG, 2014).</p>



<p style="font-size:18px">Talvez o que Iemanjá nos peça hoje seja menos promessa e mais honestidade. Honestidade para olhar onde transformamos cuidado em sacrifício. Onde chamamos controle de amor. Onde confundimos ausência de limite com bondade. Onde deixamos de reconhecer a alma do outro, humano ou não humano, porque estamos anestesiados, cansados ou excessivamente adaptados às exigências do mundo.</p>



<p id="h-o-mar-que-iemanja-representa-nao-e-so-acolhimento-ele-tambem-exige-respeito-ele-lembra-que-sem-fundo-nao-ha-sustentacao-apenas-ruido-e-que-sem-consciencia-ate-o-amor-pode-se-tornar-violento-mesmo-quando-bem-intencionado-o-arquetipo-nao-nos-absolve-ele-nos-amadurece" style="font-size:18px">O mar que Iemanjá representa não é só acolhimento. Ele também exige respeito. Ele lembra que sem fundo não há sustentação, apenas ruído. E que sem consciência, até o amor pode se tornar violento, mesmo quando bem-intencionado. O arquétipo não nos absolve; ele nos amadurece.</p>



<p style="font-size:18px">Talvez, ao lançar flores ao mar, possamos oferecer algo além do pedido de proteção. Oferecer a disposição de construir uma mãe interna mais integrada. Capaz de acolher sem se anular. De limitar sem endurecer. De amar sem capturar. Capaz, sobretudo, de reconhecer que o cuidado verdadeiro começa quando deixamos de exigir do outro aquilo que precisamos aprender a sustentar em nós.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>O dia 2 de fevereiro passa.<br>O Espírito desta época continua.</strong><br>Mas a pergunta permanece, trabalhando em silêncio, como as águas profundas:</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Que tipo de amor temos sido capazes de viver?</strong></p>



<p style="font-size:18px">E qual imagem da Grande Mãe governa, hoje, o modo como cuidamos, somos cuidados e, tantas vezes, nos abandonamos?</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Odoyá, Iemanjá.</strong></p>



<p style="font-size:18px"><em>Que o mar em nós encontre fundo.<br>E que o amor, finalmente, encontre forma.</em></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/natalhe/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/natalhe/">Natalhe Vieni – Membro Analista Didata em formação do IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">E. Simone D. Magaldi – Membro Didata e Fundadora do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p>JUNG, C. G. A vida simbólica: escritos diversos. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p>JUNG, C. G. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p>PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.</p>



<p>SANTOS, Juana Elbein dos. Os nagô e a morte: pàdé, àsèsè e o culto ẹ̀gẹ̀. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.</p>



<p>VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo. 7. ed. Salvador: Corrupio, 2019.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;Iemanjá Não é Uma Só: as muitas faces da Grande Mãe que nos habita&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/qrn02lFrNcg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p></p>



<p><strong>Matrículas abertas</strong>: <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/iemanja-nao-e-uma-so-as-muitas-faces-da-grande-mae-que-nos-habita/">Iemanjá Não é Uma Só: as muitas faces da Grande Mãe que nos habita</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Promiscuidade Sexual como Expressão Simbólica da Sombra Coletiva &#8211; Um ensaio sob a ótica do Amor e da Psicologia Junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/promiscuidade-sexual-como-expressao-simbolica-da-sombra-coletiva/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Ivanilde Ferreira Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Jul 2025 17:58:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[promiscuidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10844</guid>

					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este ensaio tem como objetivo, a reflexão sobre a Sexualidade e alguns de seus aspectos sombrios como a promiscuidade sexual e o comportamento de risco para a contaminação de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), SIDA (síndrome da imunodeficiência adquirida) e hepatites, refletindo por meio da psicologia junguiana, a expressão simbólica da sombra coletiva da sexualidade [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/promiscuidade-sexual-como-expressao-simbolica-da-sombra-coletiva/">Promiscuidade Sexual como Expressão Simbólica da Sombra Coletiva &#8211; Um ensaio sob a ótica do Amor e da Psicologia Junguiana</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p></p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6"><strong>Resumo</strong>: Este ensaio tem como objetivo, a reflexão sobre a Sexualidade e alguns de seus aspectos sombrios como a promiscuidade sexual e o comportamento de risco para a contaminação de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), SIDA (síndrome da imunodeficiência adquirida) e hepatites, refletindo por meio da psicologia junguiana, a expressão simbólica da sombra coletiva da sexualidade e a “epidemia silenciosa” de AIDS, como tem retratado a mídia. Refletimos também sobre o pensamento de Jung em relação a esses comportamentos sombrios, o flerte com a morte e a própria essência do Amor!!</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Importante salientar a parca bibliografia sobre o assunto, diante da necessidade e urgência na discussão da matéria, em um momento em que se fala na mídia sobre a “Epidemia silenciosa” de HIV e ISTs (IP-imprensa publica.com.br)</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Segundo <strong>Jung</strong>, “<strong><em>Faz parte do amor a profundidade e fidelidade do sentimento (&#8230;) o verdadeiro amor sempre pressupõe um vínculo duradouro e responsável</em></strong>”. (JUNG.2019, &amp; 231). Nesse sentido, em profundidade de “Alma”, como postula Jung, o termo “fazer amor” nos torna mais próximos dessa afetividade.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">A sexualidade é um dos aspectos da dimensão humana, cercada ainda de muita dor e sofrimento, em razão do ocultamento e da aura do pecado, imposto principalmente pela formação judaico-cristã de nossa sociedade ocidental. A cultura do pecado manteve o véu da ignorância e do preconceito em torno do assunto e em razão disso, pouco se fala e se pesquisa sobre o tema, dado os parcos recursos bibliográficos disponíveis. Arrisco a dizer que apenas com o surgimento da AIDS e todas as suas particularidades, principalmente no início da infecção, onde denominada “câncer gay” é que se iniciou a falar sobre sexualidade e a defini-la em seu aspecto mais amplo (biopsicossocial). Foi quando as camadas sociais que se encontravam na sombra coletiva emergiram e a sociedade precisou integrá-las.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Falando-se em epidemia silenciosa, podemos defini-la como aquela epidemia em que existe a transmissão contínua de HIV e ISTs, sem chamar a atenção imediata das autoridades sanitárias, por serem muitos dos casos assintomáticos e subnotificados, prolongando assim o ciclo da infecção e da transmissão.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">De acordo com um estudo em Porto Alegre, Imprensa Pública, 2025, foi identificada uma prevalência de 1,64% de pessoas com HIV na população geral, acima do limite de 1% que a OMS classifica como epidemia generalizada.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">No Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, 2024, 4,5% a mais de casos foram diagnosticados que em 2022. Mortes por AIDS atingiram 3,9 por cento de óbitos por 100 mil habitantes. Esse foi o menor índice demonstrado desde 2013.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">No perfil demográfico do mesmo estudo, foi identificado que 70,7% dos casos notificados são em homens, sendo 63,2% em pessoas pretas/pardas, 53,6% em homens que fazem sexo com homens (HSH), numa faixa etária de concentração entre 20 a 29 anos. Desses, foram encontrados 37,1% dos infectados. Prevalece aqui ainda, a juvenilização da infecção por HIV.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">O que é mais sério nesse estudo em minha opinião, é a estimativa de que <strong>11% dos indivíduos com HIV desconhecem seu diagnóstico</strong>, motivo pelo qual favorece a contaminação em indivíduos promíscuos e que não fazem sexo com proteção.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Os grupos mais vulneráveis identificados são: Homens que fazem sexo com homens, com até 18% de prevalência, população trans/travesti, em mais de 30% e jovens (15–24 anos), onde as novas infecções dobraram entre 2000–2015, provavelmente devido à queda no uso de preservativos.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">As ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) são frequentemente assintomáticas e variam entre sífilis, gonorréia, HPV (papiloma vírus humano), hepatite B e mostram índices de crescimento.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">É na dimensão psicossocial da sexualidade, onde inclui-se também os fatores psicológicos, como emoções, pensamentos e personalidade, combinados a elementos sociais, como por exemplo, o modo como as pessoas interagem, que compreendemos os vários distúrbios sexuais. É aqui que introjetamos as informações recebidas por nossos pais, professores e companheiros, herdando também os mitos, crendices e tabus sexuais, que muito influenciam no desenvolvimento saudável ou não da sexualidade e assimilamos determinadas “normas de comportamento sexual”.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">No tocante ao comportamental, esse aspecto da sexualidade permite-nos não somente verificar o que as pessoas fazem, mas a forma com que o fazem e porque o fazem. Assim, é importante que evitemos “julgar” o comportamento sexual de outras pessoas a partir dos nossos próprios valores e experiências, por vezes baseado em normoses ou ainda por conceitos religiosos individuais. Ora, o que é normal para mim, muitas vezes não o é para o outro, pois esse julgamento é baseado por nossos próprios valores, crenças, mitos e tabus, herdados em toda a dimensão do aprendizado de vida do indivíduo.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">De acordo com <strong>Cavalcanti &amp; Cavalcanti</strong>, na dimensão clínica da sexualidade, podemos observar que embora o sexo seja uma função natural do ser humano, algumas coisas podem afetar essa espontaneidade das atividades sexuais, como as doenças físicas, violência e abusos sexuais, lesões e uso de drogas que podem comprometer esse padrão de resposta sexual. Entram aqui também, sentimentos como ansiedade, culpa, medo, depressão e conflitos interpessoais, que podem coibir ou mesmo alterar a vivência saudável da sexualidade.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">No tocante à contemporaneidade e em toda essa questão biológica da sexualidade, infelizmente a mais importante para os padrões sexuais atuais, pouco se aborda a importância emocional do contato humano. Percebemos que esse culto ao corpo, ao consumismo, à performance e à persona sexual, sem a preocupação com o outro, com a afetividade e com os aspectos da alma, como bem fala Jung, tem trazido inúmeros sintomas físicos e mentais, gerando patologias e disfunções sexuais, entre outros distúrbios.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">A palavra Promiscuidade deriva do latim <em>promiscuus</em>, que significa “misturado” ou “comum a muitos”. No contexto sexual, refere-se à prática de manter relações sexuais, com vários indivíduos, comumente de forma casual, sem vínculo afetivo, compromisso ou exclusividade.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS.2003) e Manuais Epidemiológicos de Vigilância de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), a promiscuidade é considerada um fator de risco comportamental para a transmissão de infecções sexualmente transmissíveis e é frequentemente definida por : ter três ou mais parceiros sexuais em um período de 12 meses ou ter mais de um parceiro sexual no mesmo período sem proteção, o que pode denotar um comportamento sexual baseado em sexo casual, com muitas parcerias ao longo do tempo, sem se limitar a um único relacionamento ou parceria estável.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Importante salientar que a OMS tem um foco na promoção da saúde sexual e reprodutiva, enfatiza o sexo seguro e a prevenção das ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) e que a ideia de promiscuidade e número de parcerias sexuais podem variar de acordo com a cultura, o contexto social e as crenças individuais. Considera ainda, que a saúde sexual é um direito fundamental e que a prática e a orientação sexual da pessoa devem ser respeitadas, desde que não causem danos a si mesmo ou a outrens.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-a-procura-demasiada-e-inconsciente-de-satisfacao-emocional-por-meio-de-sexo-sem-envolvimento-de-alma-pode-denotar-uma-necessidade-de-suprir-uma-nbsp-carencia-afetiva-uma-negacao-rigida-do-desejo-ou-ainda-a-constelacao-de-algum-complexo" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Nesse sentido, a procura demasiada e inconsciente de satisfação emocional por meio de sexo sem envolvimento de Alma, pode denotar uma necessidade de suprir uma&nbsp; carência afetiva, uma negação rígida do desejo, ou ainda, a constelação de algum complexo.</h2>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Ao mesmo tempo em que a sociedade condena tal comportamento, ela pode alimentá-lo por fenômenos como mídia hiper erótica, cultura de corpos disponíveis e sexo exclusivamente como via de fuga, o que pode ser considerado uma projeção da sombra coletiva.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19.5px"><blockquote><p>Sombra é para mim a parte “negativa” da personalidade, isto é, a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal.</p><cite>(JUNG.2019, p.77) </cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">De acordo com Jung, do ponto de vista do indivíduo, a sombra é pessoal, formada pelos conteúdos do inconsciente pessoal, mas a sombra também é coletiva e pode compreender os aspectos reprimidos por uma cultura que não reconhece sua própria dimensão obscura. Isso inclui desejos e impulsos sexuais, que ao serem negados, podem retornar de forma distorcida e inconsciente, influenciando padrões de comportamento como a promiscuidade sexual que também pode ser vista como manifestação da sombra coletiva e dessa sexualidade reprimida e inconsciente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19.5px"><blockquote><p>A sombra age como um sistema imunológico psíquico, definindo o que é eu e o que é não eu (&#8230;). Por exemplo, alguns permitem a expressão da raiva ou da agressividade; a maioria, não. Alguns permitem a sexualidade, a vulnerabilidade ou as emoções fortes; muitos, não.</p><cite>(ZWEIG.2024, p.16) </cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-o-amor-e-uma-funcao-da-totalidade-psiquica-e-nao-se-reduz-ao-desejo-fisico-ou-a-paixao-passageira" style="font-size:19.5px">Segundo Jung, <strong>o amor é uma função da totalidade psíquica</strong>, e não se reduz ao desejo físico ou à paixão passageira.</h2>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Para ele, o amor autêntico exige a integração da <strong>Anima</strong> e do <strong>Animus</strong>, ou seja, das dimensões femininas e masculinas inconscientes que habitam cada ser. Sem essa integração, o sujeito se relaciona de forma projetiva e inconsciente, buscando no outro a completude que falta em si, o que pode gerar relações marcadas pela compulsividade, promiscuidade ou idealização perigosa.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Assim, o comportamento sexual de risco pode ser visto como expressão da fuga da consciência de si, uma tentativa de resolver no outro um vazio interno, uma carência de sentido ou amor-próprio. O comportamento de risco, então, pode ser uma tentativa inconsciente de confronto com a sombra em que o indivíduo desafia a morte, a doença, a moral, porque precisa sentir algo autêntico, mesmo que destrutivo. Alguns relatos clínicos que ouvi, pessoas com HIV relataram que o momento do diagnóstico foi o primeiro encontro real consigo mesmas ou um “chamado à alma”, para o autoamor e o autocuidado.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">A sexualidade vivida de forma compulsiva e promíscua, sem proteção, pode estar ligada ao desejo inconsciente de morte (mesmo simbólica) de muitos aspectos sombrios. Muitos jovens hoje romantizam relações marcadas por riscos, com falas como “não gosto de camisinha” ou “sexo é bom com perigo”, mostrando uma fusão inconsciente entre prazer e morte.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Essa dinâmica é observável na ascensão de casos de HIV entre jovens homossexuais e bissexuais, que apesar de terem informação e acesso à PrEP (profilaxia pré-exposição) muitas vezes optam por relações desprotegidas, fenômeno descrito como “bug chasing” (busca deliberada por infecção), que pode ser interpretado, à luz de Jung, como um desejo de iniciação arquetípica pela dor.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.6">A saúde pública tradicionalmente atua sobre o comportamento e o corpo, mas ignora a subjetividade e o inconsciente. Uma abordagem mais integrativa exigiria reconhecer que a prevenção de HIV e ISTs não é só técnica, mas também simbólica, emocional e espiritual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-bem-diz-jung" style="font-size:19.5px">Como bem diz Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19.5px"><blockquote><p>Já não é possível hoje em dia passar por cima da importante realidade psicológica da sexualidade com ar de deboche ou com indignação moral. Começa-se a incluir a questão sexual no círculo dos grandes problemas e a discuti-la com a seriedade que sua importância merece. </p><cite>(JUNG 2019, p. 112, &amp; 212)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.4">Para finalizar a brilhante reflexão:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19.5px"><blockquote><p>O confronto com a nossa própria alma, com a anima e o animus, com o feminino e o masculino, pode ter uma forma sexual. O amor por si mesmo e o amor pelos outros são experimentados corporalmente na sexualidade, seja através de fantasias ou de atividades. Em nenhum outro lugar a união de todos os opostos, a <em>unio mystica</em>, o <em>mysterium coniunctionis</em>, expressa-se de modo mais impressionante que na linguagem do erotismo.&nbsp;</p><cite> ( Guggenbuhl-Craig.2024, p.119)</cite></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: PROMISCUIDADE SEXUAL COMO EXPRESSÃO SIMBÓLICA DA SOMBRA COLETIVA" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Jow7v8pZnq8?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/mariaivanilde/">Maria Ivanilde Alves &#8211; Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Membro Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas" style="font-size:19.5px">REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:</h2>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Direção-Geral da Saúde. 2022.</strong> Serviço Nacional de Saúde. <em>Site do Serviço Nacional de Saúde Português. </em>[Online] 25 de Novembro de 2022. https://www.sns24.gov.pt/tema/saude-sexual-e-reprodutiva/comportamentos-sexuais-de-risco/.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Jung, Carl Gustav. 2013.</strong><em>Obras Completas 10/3 &#8211; Civilização em Transição. </em>Petrópolis&nbsp;: Vozes, 2013.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Jung, Carl Gustav</strong>. Obras Completas 8/2 &#8211; A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Jung, Carl Gustav</strong>.Obras completas 7/2 &#8211; O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>CAVALCANTI, R; CAVALCANTI, M</strong>. &#8211; Tratamento Clínico das Inadequações Sexuais. 5.ed. Payá, 2022</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Zweig, Connie et all</strong> &#8211; Ao Encontro da Sombra- O potencial oculto do lado escuro da natureza humana. Cultrix, 2024</p>



<p style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Boletim Epidemiológico HIV/AIDS 2023</strong>. Ministério da Saúde.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-vivid-green-cyan-color has-text-color has-link-color wp-elements-f678f614b66a65cb91459fc811795ba3" id="h-canais-ijep" style="font-size:22px"><strong>Canais IJEP:</strong></h2>



<p style="font-size:20px"><strong>Pós-graduações </strong>&#8211; Certificado pelo MEC &#8211; 2 anos de duração- Psicologia Junguiana; Arteterapia e Expressões Criativas; Psicossomática; Matrículas abertas: <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p style="font-size:20px"><strong>Congressos Junguianos</strong>: Gravados e Online &#8211; Estude Jung de casa! Aulas com os Professores do IJEP: <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos</a> </p>



<p style="font-size:20px"><strong>YouTube</strong>: <a href="https://www.youtube.com/@IJEPJung/videos">+700 vídeos de conteúdo junguiano</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10852" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-1200x675.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1.png 1280w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p style="font-size:18px"><strong>Acompanhe nossa próxima Live no Youtube</strong>: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Sif564zwnow">Homem com H &#8211; Desvendando o Complexo Paterno</a></p>



<p></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/promiscuidade-sexual-como-expressao-simbolica-da-sombra-coletiva/">Promiscuidade Sexual como Expressão Simbólica da Sombra Coletiva &#8211; Um ensaio sob a ótica do Amor e da Psicologia Junguiana</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Quando o amor “cabe” na palma da mão</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/quando-o-amor-cabe-na-palma-da-mao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Wagner Borges]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Jun 2025 22:00:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[eros]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10752</guid>

					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este artigo também pode ser lido como um breve ensaio pessoal sobre a experiência do amor, sobre os inevitáveis desafios que ele nos impõe e as descobertas que inspira. Nele, faço um paralelo entre a imagem poética da mão espalmada para o céu, em ato de entrega, e o amor. Reflito, à luz da [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/quando-o-amor-cabe-na-palma-da-mao/">Quando o amor “cabe” na palma da mão</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: <strong>Este artigo também pode ser lido como um breve ensaio pessoal sobre a experiência do amor, sobre os inevitáveis desafios que ele nos impõe e as descobertas que inspira. Nele, faço um paralelo entre a imagem poética da mão espalmada para o céu, em ato de entrega, e o amor. Reflito, à luz da psicologia analítica, sobre como o amor, mesmo sendo, nas palavras de Carl Gustav Jung, “uma grande força do destino que vai do céu até o inferno”, pode “caber” na palma da mão daquele que se encoraja a vivê-lo com devoção.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-foi-por-volta-dos-14-anos-que-tive-a-minha-primeira-experiencia-terapeutica-como-paciente" style="font-size:19px">Foi por volta dos 14 anos que tive a minha primeira experiência terapêutica como paciente. </h2>



<p style="font-size:19px">Diante do desafio de crescer e de me abrir a relações que iam além do convívio familiar, abrir-me a relações amorosas, sobretudo, senti-me inseguro. Não era o único a sentir-me assim — hoje eu sei —, mas acho que a maioria dos meus colegas era boa em seu disfarce de segurança. Aos meus olhos, meus colegas pareciam confiantes em suas <em>personas</em> de homenzinhos invulneráveis à paixão.</p>



<p style="font-size:19px">Por uma série de fatores, as meninas ganhavam, aos meus olhos, dimensões platônicas e, naturalmente, como ocorre nas idealizações, eu não seria capaz de alcançá-las, de estar à altura delas. O medo de não corresponder às suas expectativas era o combustível da minha inércia. Cogitava, sem nenhuma glória erótica, seguir jogando bola e correndo atrás de pipa. Mas não há caminho de volta quando se trata de amadurecer.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diante-da-angustia-que-me-cercava-por-todos-os-lados-pedi-socorro-a-minha-mae-que-me-levou-a-uma-terapeuta" style="font-size:19px">Diante da angústia que me cercava por todos os lados, pedi socorro à minha mãe que me levou a uma terapeuta.</h2>



<p style="font-size:19px">Uma senhora inesquecível, cuja partida desta vida, há poucos anos, relembrou-me a minha chegada à puberdade, recebeu-me muito bem. Com a ajuda dela, encorajei-me ao primeiro beijo, suportei o fim do primeiro e fugaz romance, colei os cacos espatifados do coração, surpreendi-me com sua capacidade de seguir pulsando ainda mais forte e tirei das costas o peso morto de aspirar à perfeição no amor.</p>



<p style="font-size:19px">Descobri também, numa confissão autobiográfica da minha própria terapeuta, que o amor não cabia em nenhuma cela, que, por ser doação, exige da gente que sejamos capazes de abrirmos a mão, afinal, ele só tem valor se for escolha e não obrigação. Disse-me isso porque a minha busca em ser perfeito era uma forma ilusória — é sempre ilusória nessa caso — de controle, de garantir que não vou ferir nem dar motivo nem oportunidade de ser ferido. Nada mais estéril e impossível.</p>



<p style="font-size:19px">Ela me explicou isso com jeito e poesia. Me perguntou se eu já tinha tentado segurar na mão uma boa quantidade de areia. Eu disse que sim, claro. Ela perguntou se eu havia tentado fechar a mão com a areia dentro. Disse que sim. “O que aconteceu?”, perguntou-me. Vazou entre os dedos, pelos lados, pelos vãos — eu respondi. “Segurou mais areia quando estava com a mão espalmada para cima, com a mão aberta, não? Como se estivesse entregando a areia a alguém, não foi?”. Foi. “O amor é como a areia”, disse ela.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-do-amor" style="font-size:20px"><strong>A sombra do amor</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Claro que esse ensinamento não me tornou imune ao desejo de controle e poder nas relações, mas me marcou profundamente a ponto de funcionar como uma válvula de segurança para os paradoxos do amor. Quando defende que, psicologicamente, a contraparte do amor não é o ódio, mas a vontade de poder, <strong>Jung </strong>(Cf. 1999, §78) diz muito sobre como acredito que a maioria de nós funciona. Afinal, se amor é doação, como simboliza o braço estendido à frente, com a mão espalmada para o céu, seu avesso é a posse, o desejo de poder, é o trazer para si e não o doar-se. Para <strong>Jung</strong> (1999, §78), então, “<strong><em>Quem se encontra do ponto de vista de Eros procura o contrário, que o compensa, na vontade de poder. Mas quem põe a tônica no poder, compensa-o com Eros</em></strong>”.</p>



<p style="font-size:19px">Aqui vale observar que Jung se refere a <strong>Eros primordial</strong>, e não ao filho de Ares com Afrodite, que recebe o mesmo nome e cujo amor que representa é parte dessa energia primordial e pode ser entendida, grosso modo, pelo que conhecemos como paixão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-eros-a-que-me-refiro-e-um-dos-deuses-fundantes-da-cosmogenese-do-mundo-grego-antigo" style="font-size:19px">Eros, a que me refiro, é um dos deuses fundantes da cosmogênese do mundo grego antigo.</h2>



<p style="font-size:19px">Concebido do <strong>Caos, a origem de tudo</strong>, <strong>Eros</strong> simboliza o desejo “incoercível dos sentidos”, a busca incontrolável pela união em suas mais diversas expressões — não apenas, mas também, a união romântica e sexual. Nas palavras de Junito Brandão (1986, p. 187), “<strong><em>Eros [&#8230;] permanecerá sempre a força fundamental do mundo. Garante não apenas a continuidade das espécies, mas a coesão interna do cosmo</em></strong>”.</p>



<p style="font-size:19px">Feita a digressão, voltemos ao fato de, na lógica junguiana, amor (Eros) e poder serem pares antinômicos, luz e sombra, sendo, portanto, impossível amar sem que, em alguma medida, se queira encerrar o amor nas mãos. Tal constatação não significa que devamos fechá-la. Afinal, há poder maior do que amar e ser amado? Tê-lo nas mãos, mesmo que espalmadas para o céu, não deveria bastar? Penso que sim, mas é mais fácil falar e escrever do que viver o amor, embora seja preciso vivê-lo para falar e escrever a respeito.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-o-empate-e-a-vitoria" style="font-size:20px"><strong>Quando o empate é a vitória</strong></h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Como se vê, a força unificadora de Eros traz consigo um inevitável conflito íntimo</strong>. Aquele que ama precisa aprender, como o surfista no mar, que não é o dono das ondas, que não as controla, que deve se adaptar a elas, entrar no <em>flow</em>. Em outras palavras, amar não é possuir, é se adaptar. A vitória, aqui, não é subjugar, tampouco ser subjugado. Em ambos os casos, estarão todos os envolvidos derrotados, pelo simples fato de amor e poder serem inexoravelmente interdependentes. Assim, o não reconhecimento da vontade de poder nas relações vai nos levar a confundi-la com o amor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-ironico-mas-no-jogo-do-amor-o-empate-e-a-vitoria" style="font-size:19px">É irônico, mas, no “jogo do amor”, o empate é a vitória.</h2>



<p style="font-size:19px">E, nesse caso, jogar pelo empate, exige que sejamos verdadeiramente responsáveis pelas nossas escolhas e ações; exige coragem para se posicionar e colocar limite aos que confundem amor com violação e abuso; exige sensibilidade para entender o momento de fragilidade do outro e, em vez de tirar proveitos mesquinhos, dar suporte, sustentar com consideração, na palma da mão, o coração de quem se ama. Exige ainda deixar ir ou poder partir — se for a escolha. Exige uma enorme dose de perdão, porque só não erra quem é perfeito e a perfeição é um deserto sem mãos para segurar a areia, sem almas capazes de suportar o amor.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Embora este artigo trate mais especificamente do amor romântico, Eros é como oxigênio e se respira em diversas áreas e fases da vida. Não sem motivo, Jung (2013, §198) escreve:</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px">“<strong><em>O amor é sempre um problema em qualquer idade. Na infância, o problema é o amor dos pais; para o ancião, o problema é saber o que fez de seu amor. O amor é uma das grandes forças do destino que vai do céu até o inferno</em></strong>.”</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-amor-proprio" style="font-size:20px"><strong>Amor próprio</strong></h2>



<p style="font-size:19px">É sempre em grande medida, nunca em pequena, que a clínica junguiana se ocupa de outra categoria de amor, sem a qual todas as formas de Eros se perdem no abismo da falta de sentido e significado: o amor próprio. Sem ele, não somos capazes de jogar pelo empate, de manter a mão espalmada, o coração aberto. Amar-se a si mesmo não é pouca coisa, nunca é consequência, é sempre fonte, origem; não demanda razão, causa, é a única opção. É a partir do autoamor que os demais amores florescem, mas — mais uma ironia — é o cuidar das flores desse jardim que prova o nosso amor próprio. Sem amor próprio não se pode amar o próximo e sem o próximo não se pode amar o próprio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-questao-e-que-sob-o-prisma-da-psicologia-analitica-somos-cada-um-de-nos-muitos" style="font-size:19px">A questão é que, sob o prisma da psicologia analítica, somos, cada um de nós, muitos.</h2>



<p style="font-size:19px">Por isso, quando falamos em autoamor, falamos de amar não só as próprias qualidades, a nossa versão digna de aplausos, mas também a que, muitas vezes, julgamos merecer vaias. </p>



<p style="font-size:19px">Se o amor se prova na máxima doação — no latim, <em>per</em>(máximo)-<em>donare</em>(doar) —, como doar-me ao máximo ao que julgo indigno em mim? Talvez realmente não seja possível. Mas, então, temos de viver divididos, crucificados, aceitando que somos também o que não amamos ser. Aceitando que não podemos ter, nem de si mesmos, que dirá do outro, tudo o que desejamos.</p>



<p style="font-size:19px">É por isso que acredito que a vida seja, acima de tudo, um exercício de autoaceitação em todas as nossas dimensões, inclusive nas mais sombrias, e que me convencer de que sou feito de pura bondade e moralmente indefectível vai me levar à alienação de mim mesmo e a inviabilizar-me para o amor. Em outras palavras — lá vem outra ironia —, tenho de aceitar que nem tudo em mim é amor, que nem tudo em mim é capaz de perdoar. Amar, então, é aceitar em si e também no outro aquilo que não se pode amar; é abrir mão de querer confinar o amor em qualquer lugar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-um-ato-de-fe" style="font-size:20px"><strong>Como um ato de fé</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Embora <strong>Eros</strong> seja a energia que une, suportar seu poder incoercível, no fim das contas, é uma tarefa solitária. Por isso, me encantou a frase que li, certa vez, no bilhete que veio dentro de um “biscoito da sorte chinês” acompanhando o <em>yakisoba</em> que havia pedido: “<strong><em>O amor são duas solidões protegendo-se uma à outra</em></strong>”.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>O amor é universal em seu princípio, mas individual em sua expressão</strong>, eis porque também, em medida nada desprezível, é uma experiência solitária, mesmo que estejamos acompanhados. Nesse sentido, se assemelha à fé. Não sem motivo, Jung aproxima essas duas experiências:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O amor tem mais do que um ponto em comum com a convicção religiosa: exige uma aceitação incondicional e uma entrega total. Assim como o fiel que se entrega todo a seu Deus participa da manifestação da graça divina, também o amor só revela seus mais altos segredos e maravilhas àquele que é capaz de entrega total e de fidelidade ao sentimento. (JUNG, 2013, §232)</p></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">O trecho acima me parece bem ilustrado pela metafórica imagem da mão com areia. E a entrega que aí se revela tem ainda mais valor quando consideramos que, tanto no amor, quanto na “convicção” religiosa, há sempre grãos de dúvidas, e a dúvida torna a entrega no amor ainda mais valiosa, ainda mais corajosa. Impossível não lembrar, aqui, do discurso do cardeal Lawrence, brilhantemente interpretado por Ralph Fiennes, no belíssimo filme, indicado ao Oscar, “Conclave”: “<strong><em>Nossa fé é uma coisa viva precisamente porque anda de mãos dadas com a dúvida. Se houvesse apenas certeza e nenhuma dúvida, não haveria mistério. E, portanto, nenhuma necessidade de fé</em></strong>”.</p>



<p style="font-size:19px">Amar é se entregar ao mistério com a fé de que, nessa jornada, descobriremos algo não apenas do outro e do mundo, mas de nós mesmos. Amar é abrir mão do controle, sem negar o desejo de controlar, é se abrir para a dúvida e ter a bravura de suportá-la. “<strong>O amor</strong>”, escreve Jung (2013, §232), “<strong>é como Deus”, pois só se revela aos mais corajosos</strong>.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Quando o amor “cabe” na palma da mão" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/ZY2GcX-hXR8?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/wagnerhilario/">Wagner H. P. Borges — Membro Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi — Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia" style="font-size:19px"><strong>Bibliografia</strong>:</h2>



<p style="font-size:19px">JUNG, C. G. <em>Psicologia do inconsciente</em>. 11ª ed. Petrópolis: Vozes, 1987.</p>



<p style="font-size:19px">_________. <em>Civilização em transição</em>. Petrópolis: Vozes, 2013. Edição digital.</p>



<p style="font-size:19px">BRANDÃO, Junito. <em>Mitologia Grega</em> — Volume I. Petrópolis: Vozes, 1986.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-9-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10756" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-9-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-9-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-9-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-9-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-9-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-9.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p style="font-size:19px"><strong>Matrículas abertas</strong>:&nbsp;<a href="http://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a></p>



<p><strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/arteterapia">Arteterapia e Expressões Criativas</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/psicologia-junguiana">Psicossomática</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/psicologia-junguiana">Psicologia Junguiana</a></strong></p>



<p style="font-size:19px">Acesse nosso Canal no&nbsp;<strong><a href="https://www.youtube.com/@IJEPJung/videos">YouTube</a></strong>:&nbsp;<strong>+700 vídeos de conteúdo Junguiano</strong>!</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/quando-o-amor-cabe-na-palma-da-mao/">Quando o amor “cabe” na palma da mão</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A Vida Conjugal (Casamento) e o Autoconhecimento</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-vida-conjugal-casamento-e-o-autoconhecimento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Aug 2022 18:58:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=4071</guid>

					<description><![CDATA[<p>Historicamente, o casamento é um arranjo cultural,&#160;visto como possibilidade de manutenção dos relacionamentos entre grupos sociais, associado ao cristianismo,&#160;que passou por diferentes adaptações no decorrer dos anos. Hoje ainda é movido por romantismo e algumas crenças nos induzem a pensar que&#160;sempre teremos alguém ao nosso lado. Em termos gerais, a visão conjugal do casamento é [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-vida-conjugal-casamento-e-o-autoconhecimento/">A Vida Conjugal (Casamento) e o Autoconhecimento</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Historicamente, <strong>o casamento é um arranjo cultural</strong>,&nbsp;visto como possibilidade de manutenção dos relacionamentos entre grupos sociais, associado ao cristianismo,&nbsp;que passou por diferentes adaptações no decorrer dos anos. Hoje ainda é movido por romantismo e algumas crenças nos induzem a pensar que&nbsp;sempre teremos alguém ao nosso lado. Em termos gerais, a visão conjugal do <strong>casamento</strong> é que ele envolve a união de dois seres por toda a vida, pelos atos de amor e pelos filhos que esse amor traz. Inicialmente, todos os melhores sonhos são projetados nele e&nbsp;os envolvidos têm como propósito uma vida em conjunto. Mas C. G. Jung nos alertou:&nbsp;“Como relacionamento psíquico o matrimônio é algo complicado, sendo constituído por uma série de dados subjetivos e objetivos que em parte são de natureza muito heterogênea” JUNG, O/C 17, par. 324). E complementou: “Não existe nenhum relacionamento psíquico entre dois seres humanos, se ambos se encontrarem em estado inconsciente” (JUNG, O/C 17, par. 325). Também não existem receitas prontas que resolvam questões relacionadas ao conteúdo psíquico que envolve a vida conjugal.&nbsp;Para tanto, o&nbsp;caminho mais assertivo é promover&nbsp;o autoconhecimento de cada cônjuge, que possibilita tornar conscientes os conteúdos inconscientes,&nbsp;favorecendo assim o encontro de indivíduos para viverem o enlace matrimonial.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Segundo diferentes estudos, existem muitos rituais e vários simbolismos para celebrarmos a cerimônia do <strong>casamento</strong>, com troca de votos e alianças:&nbsp;<strong>para os amantes da natureza a melhor opção é a&nbsp;</strong><em>Cerimônia das Areias</em>.&nbsp;O&nbsp;<em>Ritual da Árvore</em>, simboliza o&nbsp;cultivo do amor, da prosperidade e da fertilidade. Já a&nbsp;<em>Cerimônia dos Balões</em>, envolve mensagens em balões que&nbsp;<strong>são soltos&nbsp;e sobem aos céus com as intenções para o casal.&nbsp;</strong>O rito da&nbsp;<em>Caixa de Vinho</em>&nbsp;é interessante, pois representa uma melhor&nbsp;qualidade do <strong>casamento</strong> com o passar do tempo.&nbsp;&nbsp;A&nbsp;<em>Cerimônia Judaica da Quebra de Taças</em>, envolve o&nbsp;equilíbrio entre os momentos felizes e tristes que serão enfrentados pelo casal. Na cultura japonesa, a&nbsp;<em>Cerimônia do Darumá-san</em>&nbsp;incentiva a&nbsp;disciplina, a coragem, a dedicação e a paciência. Na tradição oriental,&nbsp;<em>San-san-kudo (três-nove</em>),&nbsp;<strong>o número três significa boa sorte e o número nove simboliza a aspiração à máxima boa sorte</strong>. Também existe o&nbsp;<em>Ritual da Lavagem dos Pés</em>, enfatizando&nbsp;<strong>respeito, humildade, carinho, serviço e amor ao próximo.&nbsp;Por fim, o&nbsp;</strong><em>Rito das Velas</em>, que r<strong>epresenta a união de duas famílias e a criação de uma nova.&nbsp;</strong></p>



<p>Mesmo com as diferentes possibilidades de cerimônias, ainda predomina o tradicional <strong>casamento</strong> na igreja e ele começa com a famosa&nbsp;<em>Marcha Nupcial</em>&nbsp;(Felix Mendelssohn) ou mesmo a&nbsp;<em>Ave Maria</em>&nbsp;(Franz Schubert), desperta emoções no casal e nos convidados, refletindo um mundo de promessas e de felicidade. A cerimônia idealizada por muitos envolve grandes investimentos, principalmente de tempo e de dinheiro. O processo criativo toma conta da concretização do evento, com diferentes formas de expressões artísticas:&nbsp;<a href="https://www.casamentos.com.br/artigos/o-registro-fotografico-do-casamento--t19">registro fotográfico</a><a href="https://www.casamentos.com.br/artigos/o-video-do-casamento--t20">, vídeo</a>,&nbsp;<a href="https://www.casamentos.com.br/artigos/a-musica-para-o-casamento--t21">músicas,&nbsp;</a><a href="https://www.casamentos.com.br/artigos/a-decoracao-para-o-casamento--t22">decoração,&nbsp;</a><a href="https://www.casamentos.com.br/artigos/os-convites-de-casamento--t23">convites,&nbsp;</a>transporte,&nbsp;<a href="https://www.casamentos.com.br/artigos/os-detalhes-do-casamento--t24"></a>costura do vestido de noiva, noivo, dama de honra, pajem, testemunhas/ padrinhos, preparo de alimentos para a recepção dos convidados, viagem da lua de mel e outros mais.</p>



<p>Vindo ao encontro, podemos perceber que até hoje recebemos influências de muitas gerações e também dos escritos da Bíblia Sagrada, que trazem a ideia de que Deus criou a mulher para ser a companheira do homem: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele (Gênesis 2:18). É transmitido pela igreja que o propósito de Deus para o <strong>casamento</strong> é gerar filhos. Da mesma forma, que o <strong>casamento</strong> deve durar para sempre, até que a morte separe o casal. E quantas mortes em vida ocorrem na vida conjugal? Morte da confiança, do respeito, do companheirismo, contrapondo as promessas matrimoniais: &#8220;Prometo ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe por todos os dias da minha vida.&#8221; Não é algo fácil de se cumprir, principalmente no mundo imediatista e descartável em que vivemos! Martha Medeiros, com a crônica Promessas Matrimoniais, traz valiosas reflexões, que são diferentes das promessas tradicionais: “Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar? […] Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda? […] Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que <strong>casamento</strong> algum elimina?”</p>



<p>Legalmente, para se efetivar um <strong>casamento</strong>, não basta a cerimônia religiosa. Segundo determinação do código civil, o <strong>casamento</strong> é a união entre duas pessoas, que estabelecem comunhão plena de vida, com base na igualdade de direitos e deveres.&nbsp;É realizado em Cartório de Registro Civil, por um juiz de paz, na presença de testemunhas. Tanto no <strong>casamento</strong> religioso, como no civil, é necessário um representante para oficializar a união. Isso nos remete à Himeneu, a divindade que preside <strong>casamentos</strong>.&nbsp;Na mitologia, a deusa&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Hera">Hera</a>&nbsp;rege casamentos, porém Himeneu,&nbsp;filho de Apolo com Afrodite,&nbsp;é o&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Pante%C3%A3o_grego">deus grego</a>&nbsp;do&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Casamento">casamento</a>. Segundo a revista&nbsp;<em>A Mente é Maravilhosa</em>, o mito de Himeneu apresenta um ato de bravura, reconhecido por todos. Ele foi capturado por piratas junto com um grupo de mulheres, que não perceberam que ele era um homem. Foram colocados em cativeiro num navio e Himeneu acalma as mulheres apavoradas e elas confiam na sua habilidade. Ao anoitecer, ele percebeu que os piratas haviam bebido demais, então escapa e aniquila todos os sequestradores, liberta as mulheres e as leva para suas famílias. A partir disso, ele passou a presidir muitos dos casamentos como eterno agradecimento pelo seu ato de bravura e sugeriu-se que havia uma conexão entre esta divindade e o&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/H%C3%ADmen">hímen</a>, até pouco tempo muito valorizado no ato do casamento por diferentes culturas com padrões machistas, pregando a dominação do gênero masculino sobre o feminino.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Muitos filmes traduzem luzes e sombras sobre casamento. Entre tantos que apresentam essa temática, podemos citar:&nbsp;<strong><em>O Casamento dos Meus Sonhos</em></strong><strong>, que envolve</strong>&nbsp;um evento romântico inesquecível.&nbsp;<strong><em>Cinco Anos de Noivado</em></strong><strong>, apresenta noivado longo</strong>, com cerimônia diurna. A despedida de solteiro comparece em&nbsp;<strong><em>Noivas em Guerra</em></strong><strong>&nbsp;e&nbsp;<em>Casamento Grego</em>&nbsp;ocorre em</strong>&nbsp;cerimônia gigantesca.&nbsp;&nbsp;<strong><em>Mamma Mia</em></strong><strong>, por sua vez, inspira noivos</strong>&nbsp;praianos. E para descontrair e rir muito,<strong>&nbsp;<em>Missão Madrinha de Casamento</em>.&nbsp;</strong>A crença que o amor envolve duas metades que se unem e se completam é um dos padrões enraizados e fonte de muitas inquietações e sofrimentos. Neste sentido, Jung nos deixou reflexões: “Para tornar-se consciente de mim mesmo, devo poder distinguir-me dos outros. Apenas onde existe essa distinção, pode aparecer um relacionamento” (JUNG, O/C 17, par. 326). Da mesma forma, orientou-nos sobre a importância de trazer conteúdos inconscientes para a luz da consciência: “Quanto maior for a extensão da inconsciência, tanto menor se tratará de uma escolha livre no casamento; de modo subjetivo isto se faz notar pela coação do destino, claramente perceptível em toda a pessoa apaixonada” (JUNG, O/C 17, par. 327). No começo do relacionamento projetamos e vivemos muitos sonhos, mas mesmo assim adaptar-se ao mundo do outro é algo desafiador.<strong>&nbsp;Guiados pela liberdade da escolha ou pelo destino, sempre temos tempo de ressignificarmos velhos padrões.</strong></p>



<p>Ainda se preserva o romantismo nos relacionamentos e as músicas revelam esse aspecto, como&nbsp;<em>Velha Infância</em>, canção de Tribalistas, traduzindo uma grande paixão que envolve a fase inicial do casamento: “Seus olhos, meu clarão, me guiam dentro da escuridão, seus pés me abrem o caminho, eu sigo e nunca me sinto só”.&nbsp;Da mesma forma, Roberto Carlos expressa pela voz o simbolismo do amor: “Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer, como é grande o meu amor por você”. Grandes nomes eternizam a música&nbsp;<em>Eu Sei Que Vou Te Amar</em>, enaltecendo o amor e projetando nele uma vida inteira: “Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar (&#8230;) Eu sei que vou sofrer, a eterna desventura de viver, à espera de viver ao lado teu, por toda a minha vida. E Roupa Nova, com&nbsp;<em>Linda Demais</em>, exalta as expectativas no outro: Vem fazer diferente, o que mais ninguém faz. Faz parte de mim, me inventa outra vez. Vem conquistar meu mundo, dividir o que é seu. Mil beijos de amor em muitos lençóis, só eu e você. O tempo passa, a paixão inicial também e a vida se encarrega de mostrar outros aspectos do relacionamento.</p>



<p>Nem sempre as adaptações ao casamento ocorrem como o esperado e os problemas comparecem. Jung já dizia: “O não-querer-ver e a projeção dos próprios erros estão no início da maioria das brigas e são a mais forte garantia de que a injustiça, a hostilidade e a perseguição não morrerão tão cedo. Ao nos mantermos inconscientes sobre nós mesmos, também não vemos nossos próprios conflitos” (JUNG, Sobre o amor, p.55). Simbolicamente complementou: “Percebemos o cisco no olho do outro e não vemos a viga de madeira em nosso próprio olho” (JUNG, O/C 18/2, par.1803s). Provérbios e ditados populares<strong>&nbsp;</strong>também apresentam essas questões sobre casamento, muitas vezes de forma divertida, ao mesmo tempo expressando projeções e frustrações:<strong>&nbsp;“</strong>O casamento é uma fortaleza sitiada; os que estão de fora querem entrar à viva força e os que estão dentro gostariam bastante de sair dela”;&nbsp;&#8220;Casamento de imposição é de curta duração&#8221;; &#8220;Casamento é loteria&#8221;; “O amor faz passar o tempo, e o tempo faz passar o amor”.&nbsp;“Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. Será? É preocupante o número crescente de violência que ocorre na convivência conjugal, muitas vezes expressada por&nbsp;agressão física, abuso sexual, controle, humilhação, intimidação, coerção ou manipulação, envolvendo violência psicológica, patrimonial e moral, resultando até em mortes, vitimizando muito mais as mulheres, conforme nos mostram as estatísticas e afetando a vida psíquica dos filhos.&nbsp;</p>



<p>Segundo Jung, depois de algum tempo, geralmente após anos de convívio, o relacionamento se transforma e as crises comparecem:&nbsp;“A paixão muda de aspecto e passa a ser dever, o querer transformar-se inexoravelmente em obrigação; as voltas da caminhada, que antes estavam cheias de surpresas e descobertas, agora nada mais são do que rotina. O vinho acabou de fermentar e começa a clarear. Desenvolvem-se tendências conservadoras, se tudo está em ordem. Em vez de se olhar para frente, muitas vezes, sem querer, se olha agora para o passado; principia-se a prestar contas sobre a maneira pela qual a vida se desenvolveu até o momento” (JUNG, O/C 17, par.331a). Outro aspecto importante que precisamos ressignificar é que, com o casamento não passamos a ser uma unidade, que pensa, sente e age da mesma forma. A relação se fortalece quando respeitamos as diferenças. As insatisfações comparecem quando vemos no outro todos os aspectos que não vemos em nós e não sabemos lidar com eles. O relacionamento conjugal requer que estejamos cada vez mais conscientes das nossas luzes e sombras, como orientou Jung: “Raras vezes, ou até mesmo nunca, um matrimônio se desenvolve tranquilo e sem crises, até atingir o relacionamento individual. Não é possível tornar-se consciente sem passar por sofrimentos” (JUNG, O/C 17, par. 331). E quando os cônjuges estão conscientes, analogicamente iluminam um ao outro, possibilitando transformações e integrações de conteúdos psíquicos.&nbsp;</p>



<p>Somos únicos, integrais e ao mesmo tempo sedentos de amor e de reconhecimento. E o casamento também envolve o amor e reconhecimento! Tamanha é a sua importância que o simbolismo do amor comparece em diferentes expressões escritas, como a de Fernando Pessoa, no poema<strong>&nbsp;</strong><em>O Amor</em>: “O amor, quando se revela, não se sabe revelar. Sabe bem olhar p’ra ela, mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente, não sabe o que há de dizer”. Igualmente, O&nbsp;<em>Poeminha Amoroso</em>, de Cora Coralina, traduz o amor: “Este é um poema de amor, tão meigo, tão terno, tão teu&#8230; É uma oferenda aos teus momentos de luta e de brisa e de céu&#8230;E eu, quero te servir a poesia, numa concha azul do mar ou numa cesta de flores do campo”. Do mesmo modo,&nbsp;<em>As Sem-Razões do Amor</em>, de Carlos Drummond de Andrade, expressam um estado de graça: “Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga”. E ainda, em&nbsp;<em>Amar é Mudar a Alma de Casa,&nbsp;</em>Mário Quintana enfatiza a confiança, tão necessária para viver o amor: “Amar, é aquilo que embasa, é ter comprometimento. Amar é voar sem asa, e porque amar é acolhimento, amar é mudar a alma de casa”.</p>



<p>O&nbsp;casamento envolve<strong>&nbsp;</strong>um exercício contínuo de confiança. De acordo com&nbsp;Waldemar Magaldi Filho, no seu artigo&nbsp;<em>Casamento e Psicologia Junguiana</em>: “[&#8230;] Confiança depende de um constante fiar com o outro, tecendo juntos a trama da vida, que é feita pelos fios da alegria, da tristeza, do prazer, da dor, do medo e da fé, fazendo laços e nós harmoniosos e desfazendo os patológicos”. Projetamos no nosso cônjuge alguns dos nossos aspectos sombrios, que muitas vezes são as causas das desavenças. Ao mesmo tempo, em função das influências externas, usamos máscaras &#8211; denominadas personas &#8211; para nos apresentarmos de forma mais favorável, porém muitas vezes envolvidas por medo das dificuldades e medo de nos entregarmos ao amor. O medo da intimidade e a perda da privacidade são fatores que assustam os indivíduos, dificultando a verdadeira entrega ao relacionamento. De forma similar, a falta de uma comunicação mais assertiva é causa de muitos embates. Somos tomados por inúmeras atividades, vivemos apressados e não temos mais tempo para estabelecermos um diálogo saudável.&nbsp;</p>



<p>Apesar dos padrões tradicionais, historicamente os relacionamentos conjugais mudaram de roupagem e novas formas de vivermos o amor comparecem. Nas esferas políticas o casamento homoafetivo já é amplamente discutido e a pluralidade deve ser contemplada e respeitada. Independente das escolhas, somos livres para optarmos pela vida conjugal, que envolve alegrias e desafios, principalmente no aprendizado e no&nbsp;exercício da paciência, do respeito, da compreensão e do amor. E quando a convivência se tornar inviável e todas as possibilidades de viver em harmonia conjugal forem esgotadas, a melhor saída é a separação. Não é saudável arrastar pela vida inteira uma escolha que não foi bem sucedida.</p>



<p>Para amar precisamos nos desarmar da possessividade, da desconfiança, dos preconceitos, do egoísmo e outros aspectos sombrios que dificultam os relacionamentos. Para tanto, o autoconhecimento é fundamental, pois possibilita tornarmos conscientes os conteúdos inconscientes que nos atravessam. A partir do momento que somos mais conscientes das nossas luzes e sombras e ressignificarmos os aspectos doentios, convivermos com o outro se torna mais fácil.&nbsp;&nbsp;Precisamos entender que nos unirmos ao outro não significa abrirmos mão do que somos. Como disse Jung: “Mesmo o melhor casamento não é capaz de apagar as diferenças individuais e tornar os estados dos esposos absolutamente idênticos” (JUNG, O/C 17, par. 331b).&nbsp;Assim, estaremos mais preparados para vivermos a união conjugal, que enlaça a integração de opostos, favorecendo&nbsp;o encontro de indivíduos conscientes que se abraçam e se entrelaçam na vivência do amor, ingrediente indispensável na vida conjugal.</p>



<p>Claci Maria Strieder – Membro Analista em Formação</p>



<p>Waldemar Magaldi Filho – Analista Didata</p>



<p>Fontes de Referência:</p>



<p>ANDRADE, C. D<em>. As sem-razões do amor.&nbsp;</em>Poema publicado na obra&nbsp;<em>Corpo,&nbsp;</em>1984.</p>



<p>BÍBLIA Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.</p>



<p>BRAGA, Roberto Carlos<em>. Como é grande o meu amor por você</em>. Álbum&nbsp;Roberto Carlos em Ritmo de Aventura. CBS,1967.</p>



<p>CORALINA, C. O Poeminha amoroso.&nbsp;</p>



<p>JUNG, C. G.&nbsp;<em>Civilização em transição</em>. Petrópolis. Vozes: 2013.</p>



<p>__________&nbsp;<em>O desenvolvimento da personalidade</em>. Petrópolis. Vozes: 2013.</p>



<p>__________&nbsp;<em>Sobre o amor</em>&nbsp;[tradução de Inês A. Lohbauer]. Aparecida, SP: Ideias &amp; Letras, 2005.</p>



<p>MAGALDI FILHO, Waldemar.: Artigo Casamento e Psicologia Junguiana</p>



<p>MEDEIROS,&nbsp;<a href="https://www.pensador.com/autor/martha_medeiros/">Martha</a>. Crônica promessas matrimoniais, 2003.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<a href="https://www.pensador.com/frase/MjA4Nzg/">https://www.pensador.com/frase/MjA4Nzg/</a>.</p>



<p>MORAES, V. de &amp; JOBIM, A. C. Eu sei que vou te amar, 1958.</p>



<p>QUINTANA, M. Amar é mudar a alma de casa.&nbsp;</p>



<p>PESSOA, F. Presságio. 1928.</p>



<p>REVISTA &#8211; A mente é maravilhosa. Mito de Himeneu.&nbsp;<a href="https://amenteemaravilhosa.com.br/o-mito-de-himeneu/">https://amenteemaravilhosa.com.br/o-mito-de-himeneu/</a></p>



<p>ROUPA NOVA.&nbsp;<em>Linda demais</em>. RCA, 1985.</p>



<p>TRIBALISTAS. Velha Infância. Rio de Janeiro.&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Phonomotor_Records">Phonomotor Records</a>,&nbsp;</p>



<p>EMI, 2002.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-vida-conjugal-casamento-e-o-autoconhecimento/">A Vida Conjugal (Casamento) e o Autoconhecimento</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>São Francisco de Assis, hoje</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sao-francisco-de-assis-hoje/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Simone Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Jul 2022 22:34:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[Assis]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[empatia]]></category>
		<category><![CDATA[individuação]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[São Francisco]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5850</guid>

					<description><![CDATA[<p>Refletir sobre o ensinamento de São Francisco de Assis frente ao momento atual, pandemia, dor, sofrimento, morte e incertezas. </p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/sao-francisco-de-assis-hoje/">São Francisco de Assis, hoje</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A antropologia franciscana nos traz uma visão de homem integral, não negligenciando sua pertença à Natureza, sua espiritualidade, sua condição de irmão de todos os seres, seu dever de cuidar de tudo que foi legado ao homem por sua condição de ser consciente, portanto, responsável por tudo que se apresenta sem condição de discernimento e de autocuidado.</p>



<p>No Renascimento o homem se colocou no centro do mundo, acima de toda natureza, acreditando poder tirar dela todo proveito porque ela lhe “foi dada”. Sem a consciência da limitação dos recursos terrenos, sem um olhar aos seres irracionais que partilham conosco o medo, a dor, o abandono e o sofrimento. Se colocou como “dono” da terra.</p>



<p>Até hoje se mata e morre pela terra. Usurpam as áreas protegidas, avançam sobre biossistemas frágeis, invadem reservas, e, em nenhum momento questionam as consequências. Cada um luta pelo que quer, por aquilo que acredita poder usurpar, tomar, arrancar. Esta condição tanto vale para o indivíduo como para os governos. Guerras e lutas se justificam pela tomada de terras.</p>



<p>Mas e Gaia? Esse ser tão poderoso e ao mesmo tempo tão frágil, que tanto nos proporciona e não é respeitado. Há um limite para que a Terra supra as necessidades humanas. De há muito já extrapolamos o número de humanos que os recursos possam dar conta. Perdemos a medida. Membros de crenças fundamentalistas acreditam, cada qual, que devem aumentar o número de descendentes para serem maioria e colocar toda humanidade sob sua doutrina, sua crença.</p>



<p>Século XXI e acreditamos em liberdade. Utopia. Somos manipulados todo o tempo, por um sem número de interesses que não os nossos. Viver o Mito do Significado fica cada vez mais distante. Querem-nos massa e na massa não há individuação.</p>



<p>Francisco de Assis foi um raro indivíduo que se entregou ao Self, contrariando toda expectativa familiar e social, até mesmo pessoal. Nasceu em 1182, em Assis, região da Úmbria, se tornara um “Jovem de “bem viver” , família abastada, mãe aristocrata, pai que projetava neste único filho sonhos inalcançáveis para ele mesmo que não nascera nem rico, nem aristocrata, fazia de tudo para que o filho alçasse voos dentro da sociedade burguesa que se estabelecia.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Francisco parte para a guerra como um príncipe, seu pai queria que sua armadura e seu cavalo resplandecessem e todos pudessem ver sua condição diferenciada, como se fora um príncipe. Francisco já experienciara a guerra e a prisão anteriormente, desta vez volta da guerra, fugido, doente, mais da alma de que do corpo. Sofre profundas depressões, tudo que vivera até então perdeu o brilho e sentido. Seus concidadãos o consideram um covarde.</p>



<p>Em Espoleto, Francisco tivera um sonho que o tocara profundamente. Sabia que já não era o mesmo, aquele sonho o transformara de maneira profunda, sua alma fora tocada pelo “Totalmente Outro” como dizia Jung. Sabia que o jovem leve, alegre e irresponsável já não existia mais. Ouvira o chamado, e mesmo sem saber exatamente o que dele era esperado, abandona a guerra e volta para casa. No sonho ele ouve:</p>



<p>“- Francisco, é melhor servir o Soberano ou o servo?</p>



<p>&#8211; Ó senhor, ao Soberano, é claro.</p>



<p>&#8211; Então por que você está tentando transformar seu soberano em um servo?</p>



<p>&#8211; Senhor, que queres que eu faça?</p>



<p>&#8211; Vá para casa, Francisco, e pense a respeito de sua primeira visão. Você viu somente as aparências e não o coração da glória e da fama. Você está tentando fazer sua visão servir a seu próprio e impaciente desejo por Nobreza.” (Murray Bodo;&nbsp;<em>Francisco A Caminhada e o sonho</em>&nbsp;)</p>



<p>Assim como ocorreu com Budha a dor, o sofrimento, as mortes, a prisão, as guerras dilaceraram o jovem Francisco. Mergulhou profundamente em seu inconsciente, assim como Jung pós infarto. E, assim como este, sofreu muito ao voltar à consciência.</p>



<p>Quando o indivíduo tem uma experiência com o Numinoso, um chamado do Self, a Imagem de Deus em nós, fica transformado, não há volta para o que fora antes, é chamado para algo que ao mesmo tempo que o significa, lhe transcende.</p>



<p>De volta a casa por muito tempo ficara calado, caminhando a ermo por Assis. Evitava todas as pessoas. Fora “chamado” a igrejinha de São Damião que estava abandonada, decrépita. Olhou para o crucifixo pendido no altar e falou:</p>



<p>“ – Senhor Jesus, que queres que eu faça? Todos os dias questiono meu sonho de Espoleto e me pergunto se realmente eras Tu quem falava comigo ou se era apenas minha excitação pelo meu vindouro batismo de fogo como Cavaleiro. Senhor, meus sonhos me afligem tanto! O que eles significam? Por que me ocorrem tais sonhos e vozes? Que tipo de homem sou eu, Senhor?” (idem).</p>



<p>Sua sinceridade provinha do mais profundo do Si-mesmo, os olhos do Cristo se tornaram vivo e do crucifico surge a voz:</p>



<p>“- Francisco, vá agora e restaure minha igreja que, como você vê, está ruindo.” (idem)</p>



<p>A humildade de Francisco toma ao pé da letra as ordens de Jesus e começa a ajuntar pedras e a reconstruir a pequena igrejinha. Seu ego não abarcara a profundidade da solicitação, mas o Self a compreendera perfeitamente e a mudança profunda ocorrida no&nbsp;<em>POVERELLO</em>&nbsp;arrasta muitos jovens ao seu encontro.</p>



<p>A transformação de Francesco, do jovem inconsequente para o&nbsp;<em>poverello</em>&nbsp;de Deus, atraia aqueles que viam ali uma manifestação do Sagrado. Como diz Leonardo Boff, a mística transforma e contagia. Atrai aqueles que percebem uma manifestação numinosa, porque o indivíduo que os atrai é possuidor do carisma.</p>



<p>Os jovens franciscanos trabalhavam duro nos campos atrás do sustento, restauravam igrejinhas pela região, cuidavam dos pobres, leprosos e deficientes. Viviam uma pobreza extrema, desapego total dos desejos humanos, quando apenas a vontade maior (do Self, da&nbsp;<em>imago dei</em>) dirigia seus passos e suas atitudes.</p>



<p>A cada dia, esta numinosidade de Francisco, atraia mais indivíduos “tomados” pelo seu carisma. Claro, não há luz sem sombra e os indivíduos de Assis reclamavam seus filhos abandonando a burguesia para seguir Francisco. A oposição foi muito forte, queimaram lhes a&nbsp;<em>Porciúncula</em>, mas esta violência só fortalecera o propósito da irmandade.</p>



<p>Francisco aceitara incondicionalmente seu chamado. Cantava e dançava pelas ruas de Assis, seus irmãos eram felizes. Servir tornara-lhes puros e felizes.</p>



<p>“Francisco gostava muito de cantar. Isto libertava seu espírito e transformava a voz humana, tantas vezes um órgão de egoísmo e pecado, em um instrumento de celebração.” (idem)</p>



<p>Francisco chamava a pobreza de Irmã, assim como todos os seres e situações. Até a morte era sua irmã, não a temia. Quando você vive o chamado do Self, a eternidade é uma certeza, pois o inconsciente vive no continuum espaço tempo relativos. O ego teme a finitude porque está preso a condição de espaço tempo absolutos.</p>



<p>Os franciscanos tinham amor por todos os seres, reverenciavam a Creação. Desapegados dos desejos podiam viver a leveza da plenitude da alma. Sim, servir para eles era uma alegria, servindo ao irmão, serviam a Deus. Aprenderam com os pobres o frio, a fome, a falta de um teto, certamente por isso sabiam o valor da partilha.</p>



<p>E nós? Neste mês de maio de 2020, com uma pandemia avassaladora impondo o medo, a insegurança, a fome, a dor, o sofrimento e a insegurança. O que virá?</p>



<p>Como e onde partilhamos o que temos? Qual o nosso chamado? O quê de Francisco há em nós que nos faz olhar o outro como irmão?</p>



<p>“Senhor, fazei-me um instrumento de vossa paz.</p>



<p>Onde houver ódio, que eu semeie o amor.</p>



<p>Onde houver ofensa, o perdão;</p>



<p>Onde houver dúvida, a fé;</p>



<p>Onde houver desespero, esperança;</p>



<p>Onde houver trevas, luz;</p>



<p>E onde houver tristeza, alegria.</p>



<p>Ó Divino Mestre,</p>



<p>Não me deixes tanto buscar ser consolado</p>



<p>Que consolar;</p>



<p>Ser compreendido que compreender;</p>



<p>Ser amado que amar.</p>



<p>Pois é dando que se recebe,</p>



<p>É perdoando que se é perdoado,</p>



<p>E é morrendo que se nasce para a vida eterna.”</p>



<p>Dra E. Simone D. Magaldi</p>



<p>Pedagoga, filósofa, mestre e doutora em CRE.</p>



<p>Diretora do IJEP</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Simone Magaldi &#8211; 21/05/2020</em></strong></h4>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/sao-francisco-de-assis-hoje/">São Francisco de Assis, hoje</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Medo de amar</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/medo-de-amar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Jul 2022 18:53:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[conjugalidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5206</guid>

					<description><![CDATA[<p>"Quem guarda com fome o diabo vem e come". A partir desta frase, Dr. Waldemar Magaldi Filho, analista didata do IJEP, reflete a respeito do medo de amar tão presente na contemporaneidade, onde os indivíduos até se despem para terem suas relações sexuais, mas não conseguem intimidade de alma! Por que será que isso está acontecendo? E como poderemos reverter essa triste realidade, onde o poder destrói o amor, conforme nos ensinou Carl Gustav Jung.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/medo-de-amar/">Medo de amar</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>&#8220;Quem guarda com fome o diabo vem e come&#8221;</strong>, essa frase nos faz refletir a respeito da dificuldade que muitas pessoas têm em serem generosas, doadoras, solidárias e cuidadoras, ficando interditadas, tanto de desfrutarem dos seus talentos, conquistas e riquezas com si mesmas, quanto de compartilharem suas capacidades e disponibilidades afetivas, materiais, intelectuais e até espirituais com os outros! É rotineiro vermos pessoas, mesmo com desejo e capacidade de serem mais generosas e carinhosas com o seu entorno relacional, por vários motivos, não conseguirem ser doadoras, ficando fixadas, unilateralmente, na persona de um indivíduo sério, insensível, lógico, racional, frio, hermético, infantil ou distante, apesar de estar, em seu íntimo, ressentido com sua vida de isolamento e solidão. Incapaz de compreender que a gentileza desperta, reciprocamente, a contrapartida por parte daqueles que não sofrem do mesmo mal e que, na realidade, só iremos colher os frutos das sementes que plantamos.</p>



<p>Por que será que isso acontece? Será que o atual condicionamento ideológico deste capitalismo patrimonialista e neoliberal agravou essa situação ao cultuar o medo, estimular a competição, o individualismo egoísta, o consumo e a descartabilidade? Minha hipótese, para justificar essa problematização, diante deste comportamento nefasto, é que sim! Porque, esse padrão de vida que prioriza o acúmulo quantitativo é antagônico com a qualidade das relações, intrapsíquicas e extra psíquicas, fazendo-as ficarem cada vez mais vazias, liquidas, efêmeras e superficiais. É triste constatarmos que as pessoas, cada vez mais, estão com <strong>medo de amar</strong>. Obvio que amar e fazer a caridade, que são as atitudes mais nobres e evolutivas da nossa espécie, não é tarefa fácil e, por mais paradoxal que pareça, geram muita dor. <em>Eros</em> e <em>Phatos</em> sempre andam juntos para que a alma possa evoluir ao sofrer a experiencia do amor. Essa afirmação me faz lembrar do saudoso Chico Xavier que dizia: <em>“Se você tem a coragem de fazer a caridade, deve ter a força para suportar a ingratidão”</em>, ressaltando que coragem significa: ação do coração.</p>



<p>Nesta direção, fica mais fácil compreendermos por que muitos indivíduos, principalmente aqueles que o Ego está identificado com o gênero masculino, ficam mais suscetíveis a esse padrão, por conta do patriarcalismo que está na base fundante da nossa sociedade capitalista, materialista, territorialista e patrimonialista. Nossa economia faz com que as pessoas economizem até a generosidade, tudo vira negócio, que é a negação do ócio, porque tempo é dinheiro e, por isso mesmo, necessitamos estar ocupados e negociando, <em>busy</em> e <em>busines</em> na língua inglesa. Precisamos sempre estar ocupados, sem tempo para o ócio que produz criatividade, intimidade e interioridade, porque essas experiencias assustam e produzem medo. Atualmente escuto inúmeros relatos de pessoas que não conseguem produzir, por estarem aprisionadas numa circularidade ordinária e cotidiana, queixando-se por estarem enredadas e abduzidas nas suas telas virtuais, numa espécie de autismo digital, obnubiladas com jogos eletrônicos, pornografia, séries televisivas, estalqueamento compulsivo nas redes sociais, entre outras distrações para fugirem de si mesmas e, consequentemente, dos outros.</p>



<p>Outro sintoma social, reflexo desta atual cultura capitalista, é esse comportamento de humanização dos animais, sombriamente correndo o risco de promover, ainda mais, a desumanização dos humanos. Parece que isso acontece com pessoas que, apesar de estarem economizando sua generosidade com o outro, como na sua essência existe o chamado para o amor, acabam deslocando para seus <em>Pets</em> todo carinho, atenção, cuidado, ludicidade, entrega, doação e intimidade que não conseguem dar a outro ser humano. Isso, de alguma forma, alivia, transitoriamente, a pulsão amorosa não vivenciada, mas, no futuro, acaba desembocando em sintomas depressivos e compulsivos. Lógico que aqui não estou depreciando o cuidado e a atenção que precisamos ter com os animais, aliás, com todo o ecossistema, mas parece que, de algum modo, sentimos inveja da liberdade que os animais domésticos têm em serem autênticos e espontâneos ao expressarem livremente seus sentimentos, recebendo e retribuindo incondicionalmente o amor. Pena que a maioria das “mães”, “pais” e “irmãos” de Pets não aprendem com eles e passam a fazer o mesmo com os humanos que estão no seu meio de convívio.</p>



<p>Também temos a questão cultural do sentimento de vergonha ao expressarmos nossas emoções, principalmente as mais ternas, por serem equivocada e maldosamente, associadas a fragilidade, inferioridade ou fraqueza. Esse é outro legado das épocas primitivas, do patriarcado das religiões abraâmicas do antigo testamento, que estão retornando nesse infeliz movimento retrógrado que estamos presenciando. A vinda de Cristo anunciou a revolução da nova era aquariana, mas parece que o patriarcado, ainda dominante neste sistema capitalista, defensivamente, criou a institucionalização monetarista das tradições religiosas, destruiu os conceitos revolucionários do evangelho cristão, a boa nova, por vaidade, poder e enriquecimento. Atualmente, a maioria dos templos viraram teatros à serviço do mercado, retroagindo ao velho testamento ou, com maior gravidade, ao neossionismo. Com isso, o patriarcado patrimonialista e retrógrado, que gera mais desigualdade, exclusão e destruição humana e ambiental, está cada vez mais evidente!</p>



<p>Aliás, comentando a respeito deste tema, uma aluna e analisanda me lembrou da questão da dinâmica do afeto e da fuga presentes na tragédia escrita por Ovídio (43a.C.-17d.C), onde constatamos as consequências nefastas pelo fato do Cupido ter ferido, simultaneamente, o deus Apolo com a flecha de ouro do Eros e a ninfa Dafne com a flecha de chumbo do Anteros, fazendo-a fugir desesperadamente do amor de Apolo, até transformar-se num loureiro, uma árvore, deixando-a apenas na sua condição vegetativa, assim como muitos humanos enredados em suas raízes de medo, vergonha e condicionamentos. Porque o oposto do amor não é o ódio, mas o medo e, infelizmente, somos condicionados na ilusão de que para conseguirmos aplacar o medo precisamos do poder. Porém, quanto mais poder, menos amor, menos autoridade e mais infelicidade e autoritarismo, arbitrário e invasivo. Conforme essa citação de C. G. Jung: <em>&#8220;Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro.&#8221;</em></p>



<p>Outra queixa que acolho nos meus atendimentos como analista junguiano&nbsp;é a sexualidade casual, efêmera e simplesmente mecânica, quando muito, performática. Muitos jovens relatam experiencias sexuais onde conseguem tirar a roupa e terem intimidade física, mas não vão além disso. Parece que a <em>extimidade</em>, onde a vida privada do corpo e da matéria idealizados, é possível de ser exposta nas mídias sociais, mas a intimidade da alma fica impossível de ser compartilhada na vida privada, numa relação a dois. Claro que isso reflete o atual simulacro da existência. De fato, deve ser muito difícil o diálogo quando não sabemos, de fato, o que somos. Nesta situação não temos nada a entregar e, consequentemente, nada a receber, porque se não nos conhecemos e amamos, jamais poderemos conhecer e a amar o outro.</p>



<p>A teoria da dádiva, representada pela trilogia: dar, receber e retribuir, que aprofundei no primeiro capítulo do livro Dinheiro, Saúde e Sagrado, de minha autoria publicado em 2004, nos permite refletir que sem troca a vida fica árida. De fato, é triste vermos pessoas com tanto potencial para serem doadoras não partilharem suas riquezas. Infelizmente, até no meio acadêmico vemos isso: o conhecimento é meu e não vou dá-lo de <strong>graça</strong>, eu sei quanto sofri, investi e lutei para conquistá-lo, agora não partilho com ninguém. Essas pessoas sempre hasteiam a bandeira da meritocracia, esquecendo-se de que não pode existir igualdade sem que antes aconteça a equidade! E é obvio que essa pessoa sabe, no seu íntimo, que ela é uma privilegiada em relação a maioria carente e excluída. No capítulo do livro citado concluo que: “a graça que não é de graça não tem graça”. E é por isso que, apesar de todo acúmulo, que possibilita sensação de riqueza e segurança para afugentar o medo, a vida dessas pessoas é sem graça.</p>



<p>Jesus, ao dizer: &#8220;quem nunca errou que atire a primeira pedra&#8221;, e pelo fato de não ter atirado pedra alguma, assume, naquele momento, sua dimensão humana, reconhecendo nossa condição errante! Porém, o mais importante da sua atitude foi se importar com quem estava numa situação de risco social, discriminação e exclusão, porque o “Reino dos Céus” está disponível para todos os humanos, e jamais para a minoria rica, poderosa, sectária e falso puritana, que não investe em ações de equidade, para sonharmos um dia com a liberdade, igualdade e fraternidade! Cristo anunciou a nova era, mas o dinamismo patriarcal, com medo da nova dinâmica evolutiva, apego ao materialismo e capacidade de transformar tudo em negócio economicamente rentável, destruiu os conceitos revolucionários do evangelho, a boa nova, que veio anunciar a revolução aquariana. Infelizmente, esse retrocesso defensivo ao patriarcado cria obstáculos para a evolução humana, a <strong>alteridade</strong>, o dinamismo do próximo estágio evolutivo. Confundem obscurantismo com conservadorismo usando, abusivamente, de justificativas advindas de “poderes superiores”, como o do Estado, ditatorialmente, e o da Religião, de forma fanática, ambos atrelados à teologia da prosperidade, que prostituiu tudo e todos para servirem o Mercado, que está falindo, devido seu atual modelo econômico insustentável, por estar destruindo a humanidade, visando apenas poder, lucro e acúmulo, gerando mais destruição, exclusão e desigualdades!</p>



<p>Nossa salvação depende da educação reflexiva, crítica, humanista, amorosa e espiritual! Assim como a água não é molhada, mas pode molhar as coisas que não são ou estão impermeáveis ou hidrófugas, o símbolo não é estruturante, mas pode produzir esse efeito para quem não esteja na dimensão oposta ou defensiva a ele, que é a diabólica. Ou seja, quem não esteja polarizado e aprisionado em sua unilateralidade, distante da potencialidade integrativa, criativa e evolutiva da alma, estará aberto ao símbolo.</p>



<p>Para diminuirmos a impermeabilidade patriarcal deste momento, precisamos de muita amorosidade e diálogo reflexivo, apesar do medo e das resistências, que a ilusão do poder e do distanciamento amoroso produzem.</p>



<p>Qualquer diálogo que se aventure nesses domínios protegidos pelo medo e pela resistência, visa o essencial, e, impelindo um dos parceiros à integração de sua totalidade, obriga também o outro a uma tomada de posição mais total, ou seja, impele-o igualmente a uma totalidade, sem a qual ele não estaria em condição de conduzir o diálogo até aqueles desvãos da psique povoados de mil temores. (C. G. Jung &#8211; Natureza da Psique, par. 213)</p>



<p>O ser humano é o resultado do contínuo exercício evolutivo do contraditório e adversidades. Lidar com os vários atores intrapsíquicos já é um esforço enorme, somado aos extras psíquicos, a diversidade torna-se espetacular e assustadora. Por isso que a maioria, ignorante de si mesma, sucumbe para a unilateralidade, vivendo de forma miserável, territorialista e egoísta, mesmo dando esmolas, continua discriminando, apoiando os sectarismos e as exclusões! Somente com estímulo da capacidade crítica, reflexiva e inclusiva, visando a alteridade, que reverteremos essa situação deplorável em que nos encontramos, onde o patriarcado retrógrado está tentando imperar novamente.</p>



<p>Intimamente sabemos que a natureza não pode ser controlada por muito tempo. Ao nos tornarmos mais realistas e flexíveis, abrindo mão da ilusão do controle, diminuirão a frequência e a exuberância das crises, dos descontroles, das tragédias e desastres. Para isso, é preciso relativizar as normas, por meio do exercício da crítica reflexiva e inclusiva, objetivando, democraticamente: equidade, liberdade, igualdade, fraternidade, paz, amor e ética. Mas, quando surgem as crises e seus sintomas, é necessário fazermos uma boa anamnese, equivalente a recordar – relembrar ou rememorar as emoções, e seus respectivos afetos – que estão associadas a cada sintoma, incluindo a análise simbólica do órgão, do sistema, da função e do tecido familiar, social, laboral ou cultural que está doente, com seus sintomas e suas consequências, tanto no que o indivíduo ou o coletivo deixou de fazer, quanto no que ele passou a fazer devido seu surgimento, para encontrarmos os segredos do amor ferido que está no amago de cada sintoma.</p>



<p>Do que adiantou termos caído do paraíso, ao transgredirmos os limites impostos, para adquirirmos a consciência do bem e do mal e evoluirmos espiritualmente, se estamos cometendo o maior dos pecados que é a negação da consciência, crítica e reflexiva, para que a prática da alteridade e do amor universal, inclusivo e fraternal, devido a irracionalidade, ao egoísmo e ao medo, ainda serem nossa realidade presente? Parece termos esquecido que a consciência acontece graças a relação com o outro! É por meio do diálogo que conseguimos nos conhecer, principalmente quando esse diálogo apresenta o contraditório, caso contrário assumiremos a posição de déspota e ditador, sem refletir e compreender o ponto de vista do outro.</p>



<p>&#8220;É o sacrifício do homem puramente natural, do ser inconsciente e natural, cuja tragédia começou com o ato de comer a maçã no paraíso. A queda do homem segundo a Bíblia nos apresenta o despontar da consciência como uma maldição, e é assim que vemos qualquer problema que nos obriga a uma consciência maior e nos afasta mais ainda do paraíso de nossa infantilidade inconsciente. Cada um de nós, espontaneamente, evita encarar seus problemas, enquanto possível; não se deve mencioná-los, ou melhor ainda, nega-se sua existência. Queremos que nossa vida seja simples, segura e tranquila, e por isto os problemas são tabus. Queremos certezas e não dúvidas; queremos resultados e não experimentos, sem, entretanto, nos darmos conta de que as certezas só podem surgir através da dúvida, e os resultados através do experimento. Assim, a negação artificial dos problemas não gera a convicção; pelo contrário, para obtermos certeza e claridade, precisamos de uma consciência mais ampla e superior.” (C. G. Jung , A Natureza da Psique, par.751)</p>



<p>O segredo, quando fica hermeticamente guardado, sem ser secretado na forma de palavras, mesmo que para um único confidente, será expresso na forma de sintomas. Porque os sintomas de adoecimento, sejam eles quais forem, são as secreções simbólicas das feridas do amor próprio. Infelizmente, os médicos contemporâneos, sufocados pela pressão do mercado, raramente conseguem perceber o sofrimento psíquico do outro, vendo apenas a literalidade do sintoma. Mas, o que me deixa mais triste, é quando isso acontece no convívio familiar, porque cada um está olhando para seu próprio umbigo e para suas dores, morrendo de medo de ver o sofrimento do outro. Isso é uma pena, porque quando ajudamos o outro, na realidade, estamos nos ajudando</p>



<p>No fundo, o medo e a resistência que todo ser humano experimenta em relação a um mergulho demasiado profundo em si mesmo é o pavor da descida ao Hades. Se fosse resistência apenas, o caso não seria tão grave. Na realidade, porém emana desse substrato anímico, desse espaço obscuro e desconhecido uma atração fascinante, a qual ameaça tomar-se tanto mais avassaladora quanto mais nele se penetrar. (C. G. Jung – Psicologia e Alquimia, par. 439)</p>



<p>Com relação ao medo e a dificuldade que mutas pessoas tem para se entregar ao amor, temos a seguir essa maravilhosa contribuição de C. G. Jung, onde ele comenta que o amor é o rseultado de uma conquista evolutiva da humanidade, e que é um erro fugir dele.</p>



<p>&#8220;O amor tem mais do que um ponto em comum com a convicção religiosa: exige uma aceitação incondicional e uma entrega total. Assim como o fiel que se entrega a seu Deus participa da manifestação da graça divina, também o amor só revela seus mais altos segredos e maravilhas àquele que é capaz de entrega total e de fidelidade ao sentimento. Pelo fato de isto ser muito difícil, poucos mortais podem orgulhar-se de tê-lo conseguido. Mas, por ser o amor devotado e fiel o mais belo, nunca se deveria procurar o que pode torná-lo fácil. Alguém que se apavora e recua diante da dificuldade do amor é péssimo cavaleiro de sua amada. O amor é como Deus: ambos só se revelam aos seus mais bravos cavaleiros.&nbsp;Da mesma forma critico o casamento experimental. O simples fato de assumir um casamento experimental significa que existe de antemão uma reserva: a pessoa quer certificar-se, não quer queimar a mão, não quer arriscar nada. Mas com isto se impede a realização de uma verdadeira experiência. Não é possível sentir os terrores do gelo polar na simples leitura de um livro, nem se escala o Himalaia assistindo a um filme.&nbsp;</p>



<p>O amor custa caro e nunca deveríamos tentar torná-lo barato. Nossas más qualidades, nosso egoísmo, nossa covardia, nossa esperteza mundana, nossa ambição, tudo isso quer persuadir-nos a não levar a sério o amor. Mas o amor só nos recompensará se o levarmos a sério. Considero um desacerto falarmos nos dias de hoje da problemática sexual sem vinculá-la ao amor. As duas questões nunca deveriam ser separadas, pois se existe algo como problemática sexual esta só pode ser resolvida pelo amor. Qualquer outra solução seria um substituto prejudicial. A sexualidade simplesmente experimentada como sexualidade é animalesca. Mas como expressão do amor é santificada. Por isso não perguntamos o que alguém faz, mas como o faz. Se o faz por amor e no espírito do amor, então serve a um Deus; e o que quer que faça não cabe a nós julgá-lo pois está enobrecido. ( C. G. Jung CW X/3 parágrafos 232/233).</p>



<p>Amor é o fruto da atitude de amar! Para poder&nbsp;desfrutá-lo é necessário abrir mão do controle, libertando, respeitando e confiando em si-mesmo, para poder fazer o mesmo com o outro, sem racionalização, condicionamentos ou idealizações. Porque só podemos dar o que temos e só iremos receber aquilo que damos, se não nos amarmos, aceitando o que somos em contínuo relacionamento com o si-mesmo, não poderemos amar e aceitar o que o outro é, estimulando-o também a ser livre, se amar e&nbsp;se relacionar continuamente com si-mesmo!</p>



<p>Encerro este texto com um conto, de autoria desconhecida, que relata quando um jovem foi visitar um sábio conselheiro expondo suas dúvidas a respeito de seus sentimentos por sua jovem e bela esposa. O sábio escutou-o, olhou-o nos olhos e disse-lhe apenas uma coisa: Ame-a, e logo se calou. Disse o rapaz: mas, ainda tenho dúvidas, eu perdi o desejo e a atração. Disse-lhe novamente o sábio: ame-a. Diante do desconcerto do jovem, depois de um breve silêncio, o sábio diz: meu filho, amar é uma decisão, não um sentimento ou um desejo. <strong>Amar é dedicação, é atitude.&nbsp; Amar é um verbo e o fruto dessa ação é o próprio amor.</strong> O amor é um exercício de jardinagem. Arranque o que faz mal, prepare o terreno, semeie, seja paciente, regue e cuide. Esteja preparado porque haverá pragas, secas ou excessos de chuvas, mas nem por isso abandone o seu jardim. Ame, ou seja, aceite, valorize, respeite, dê afeto, ternura, admire e compreenda. Simplesmente: ame porque:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>A inteligência sem amor, te faz perverso.</li>



<li>A justiça sem amor, te faz implacável.</li>



<li>A diplomacia sem amor, te faz hipócrita.</li>



<li>O êxito sem amor, te faz arrogante.</li>



<li>A riqueza sem amor, te faz avarento.</li>



<li>A docilidade sem amor, te faz servil.</li>



<li>A pobreza sem amor, te faz orgulhoso.</li>



<li>A beleza sem amor, te faz ridículo.</li>



<li>A autoridade sem amor, te faz tirano.</li>



<li>O trabalho sem amor, te faz escravo.</li>



<li>A simplicidade sem amor, te deprecia.</li>



<li>A lei sem amor, te escraviza.</li>



<li>A política sem amor, te deixa egoísta.</li>



<li>A vida sem AMOR&#8230; não tem sentido.</li>
</ul>



<p>“Os jovens amantes procuram a perfeição, velhos amantes aprendem a arte de unir retalhos e descobrem a beleza na variedade das peças&#8230;”. Essa frase do filme Colcha de Retalhos, de 1995, nos dá a medida do que é uma relação amorosa de fato, onde os amantes aprofundam em suas relações, sem medo de se afogarem. Por saberem que o amor liberta, e só quem é livre é que terá acesso à felicidade de estabelecer, consciente e reflexivamente, suas relações de dependência e servidão!</p>



<p>07 de setembro de 2019</p>



<p>Paz e Bem, graças ao reconhecimento e aceitação consciente da Guerra e do Mal que habitam em nós!</p>



<p>WALDEMAR MAGALDI FILHO. Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;Dinheiro, Saúde e Sagrado&#8221;, Ed. Eleva Cultural, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP &#8211; Instituto junguiano de Ensino e Pesquisa (www.ijep.com.br), oferecidos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="União ou Fusão? Como é seu Casamento? Waldemar Magaldi" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/m516B6iyxN0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/medo-de-amar/">Medo de amar</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Quando o amor acaba</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/quando-o-amor-acaba/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Jul 2022 17:43:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[eros]]></category>
		<category><![CDATA[namoro]]></category>
		<category><![CDATA[paixão]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5199</guid>

					<description><![CDATA[<p>No começo dos relacionamentos amorosos há o encantamento.&#160; Descobrimos as afinidades, sentimos o desejo, a química do corpo e da alma, temos aquela vontade crescente de estar cada vez mais perto. A pupila dos olhos dilata para reter a imagem da presença de quem amamos. O romance inicia e o fluxo da vida se faz [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/quando-o-amor-acaba/">Quando o amor acaba</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>No começo dos <strong>relacionamentos amorosos</strong> há o encantamento.&nbsp;</p>



<p>Descobrimos as afinidades, sentimos o <strong>desejo</strong>, a química do corpo e da alma, temos aquela vontade crescente de estar cada vez mais perto. A pupila dos olhos dilata para reter a imagem da presença de quem amamos. O romance inicia e o fluxo da vida se faz presente, com ele a intimidade, o casamento, os filhos.&nbsp;</p>



<p>Quando o <strong>amor</strong> se faz vigente, fantasiamos ter o outro para sempre, traçamos planos de viver e de envelhecer ao lado de quem amamos.&nbsp;</p>



<p>Mas com a dinâmica da vida há um estabelecimento da rotina e com ela surgem os mais diversos problemas.&nbsp;</p>



<p>Os descuidos diários fazem com que o <strong>amor</strong> se desgaste, acarretando num possível afrouxamento das expectativas e consequente perda de admiração pelo parceiro. Com isso, não se esperam mais grandes feitos do outro, o futuro vira um acumulado de dias bolorentos e o desejo sexual escorre pelo ralo.</p>



<p>&nbsp;Aquele defeito que achávamos graça torna-se irritante. Com o acumulado de silêncios, discussões, desconexões e intolerâncias geram inúmeros conflitos e, quando nos damos conta, o <strong>amor</strong> acaba. Um sentimento que julgávamos indestrutível, se foi.&nbsp;</p>



<p>Às vezes nós deixamos de amar, às vezes o <strong>amor</strong> do outro é que nos deixa.</p>



<p>O término do <strong>amor</strong> nem sempre tem a ver com separação de corpos e sim com o afastamento das almas. Perde-se a intimidade, o companheirismo, a paciência, o tesão, as afinidades. Paira sobre o casal um silêncio gelado, onde existe mais interesse nas entranhas do celular e nas teias das redes sociais do que na vida do outro.</p>



<p>Para alguns casais o <strong>amor romântico</strong> se transmuta em amizade, onde uma espécie de irmandade ou até coleguismo prevalece na relação. Com a relação mais fraterna é comum que haja queda no desejo sexual pelo outro.&nbsp;</p>



<p>Mesmo quando o amor esvai, alguns casais optam por ficarem juntos e os motivos podem ser diversos: co-dependência emocional, medo da solidão, dogmas religiosos, filhos, dinheiro, status social, etc. Seja por consenso, anestesiamento ou medo, optam por compartilhar a solidão a dois.</p>



<p>O final de uma relação é dolorido, e os sentimentos são diferentes e penosos para quem abandona ou é abandonado.&nbsp;</p>



<p>O término é difícil&#8230;&nbsp;</p>



<p>Sentimos que o desenvolvimento muitas vezes contraditório da vida, ora permeado por amizade, parceria, cumplicidade e tesão, ora por brigas, ciúmes, falta de troca e intimidade, esvaece.</p>



<p>Assim como as coisas, os amigos que antes eram do casal entram no inventário existencial. E lidar com a dor dos filhos deixa a dinâmica ainda mais dura e difícil.&nbsp;</p>



<p>Algumas separações são mais simples, outras bastante dramáticas e complexas. Cada um com sua história sabe a dor e desespero quando o amor finda.</p>



<p>É natural que o término traga sensação de desorientação, pois a rotina foi dramaticamente alterada. Por vezes há a mudança de casa, de horários, não sabemos ao certo como lidar com o impacto da separação na vida das crianças, o orçamento aperta, a vida desorganiza. Uma espécie de vertigem emocional nos abarca&#8230;</p>



<p>Lidar com a dor é difícil. O processo de separação nos faz experimentar uma espécie de morte da vida conhecida, da perda de parte da nossa identidade e do modo que nos apresentamos socialmente, um sentimento de esfacelamento familiar, e às vezes uma sensação de fracasso. As perdas não são poucas e o sofrimento é intenso.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Por isso é preciso ter paciência. A dor da morte do amor gera em nós um processo de luto.&nbsp;</p>



<p>Apesar de penoso, viver o luto é importante pois permite uma reorganização da nova fase de vida. No luto, entramos em contato com sentimentos desconfortáveis, angústias, inquietações, numa incômoda retórica do que não deu certo.&nbsp;</p>



<p>Como somos plurais, cada pessoa tem uma forma e intensidade para atravessar este campo minado. Jung diz que “não podemos afirmar se alguma coisa é errada ou certa. A vida humana e o destino humano são tão paradoxais que mal podemos estabelecer uma regra que correspondam a eles”. (Jung, 2005, p. 53). Contraditoriamente, passar por essa fase complicada do luto nos ajuda na reorganização psíquica.</p>



<p>Por isso, é preciso ter paciência durante o processo. Nesta fase, é comum nos fechar para balanço e fazer uma espécie de inventário existencial. Neste momento, estamos tomados pelos complexos e ficamos muito sensibilizados.</p>



<p>Durante o processo do luto do amor, percebemos que por vezes nos desconectamos de nós mesmos.&nbsp;</p>



<p>Descobrimos uma espécie de autoabandono e vemos o quanto deixamos de nos cuidar, quanto não vivemos o que gostaríamos em prol de uma doação desmedia ao outro. Deixamos de fazer o que gostamos, descuidamos da nossa alimentação, da saúde, dos prazeres, e percebemos o quão desconexos estamos de nós mesmos.</p>



<p>Quando a dor excessiva ameniza, num movimento nem sempre consciente tendemos a buscar mudanças. Tentamos resgatar a autoestima ao melhorar o cuidado pessoal, mudar o cabelo, as roupas, o corpo.&nbsp;</p>



<p>O importante nesta fase é redescobrir-se e fazer com que este processo tenha sentido e aderência de quem somos, e não uma tentativa inócua de “voltar ao mercado do amor”.</p>



<p>Nesta nova fase surge o desejo (às vezes inconsciente) de uma nova persona.</p>



<p>Porém melhorar a autoestima não é apenas cuidar da aparência e do corpo, mas buscar uma reconexão de si. É descobrir, entender e respeitar seus limites; priorizar o sentimento de bem-estar; criar bons hábitos; realizar sonhos; adquirir leveza; olhar-se sem crítica destrutiva.&nbsp;</p>



<p>Como persona e sombra são pares de opostos na psique, também se faz importante o confronto com a sombra, pois nela constituem problemas de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo.&nbsp;</p>



<p>Na tomada de consciência da sombra, reconhecemos os aspectos obscuros da nossa personalidade, tais como são na realidade (Jung, O.C. 9/2, 2013, p.19 §14). E isso é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento, pois conseguimos criar consciência daquilo que possivelmente deu errado.&nbsp;</p>



<p>Entrar em contato com a sombra é uma forma de acessar e entender nossos complexos, traumas, baixa autoestima, autossabotagem, medos, ansiedades, inseguranças.</p>



<p>Caminhar pelo vale pantanoso da sombra não é tarefa fácil, mas pode ser libertador. Jogar luz àquilo que nos aflige traz consciência para tomadas de decisões um pouco mais cuidadosas e responsáveis.</p>



<p>Na fase de reconstrução de si, repensar a forma de viver é salutar. Nos ajuda a recuperar o sentido, a entender nossos valores, a fazer as pazes com quem somos, a preencher alguns vazios existenciais com um sopro de acalanto da alma.</p>



<p>Relembrar o que passamos na jornada amorosa também nos auxilia a perceber os ensinamentos vividos, pois toda troca traz uma importante experiência.&nbsp;</p>



<p>Por mais doloroso que seja um final de relação, houve momentos importantes que marcaram a vida. Sejam memórias boas ou não, refletir sobre o processo nos ajuda a assimilar seus aprendizados.</p>



<p>Cada um tem um ritmo, um tempo de recolhimento. Cada pessoa é um universo e, como tal, tem uma pulsação diferente de retomada da vida.</p>



<p>A vida floresce no momento certo e com ela uma nova versão de nós desabrocha. Nem sempre melhor ou pior, mas diferente.</p>



<p>Ao estarmos mais conectados aos nossos processos internos, nos sentiremos menos ameaçados e fragilizados na presença do outro, e baixamos a guarda para estabelecer relações mais íntimas.</p>



<p>As reflexões e aprofundamentos nos processos de ampliação da consciência nos ajudam a perceber que não temos que ser perfeitos, mas pessoas completas com nossa luz e escuridão.</p>



<p>Viver um dia de cada vez, apreciar os bons momentos e entender que as dificuldades são as pedras que sedimentam os caminhos da nossa jornada nos ajudam a aceitar aquilo que não podemos mudar, a ter coragem para mudar o que for preciso e sabedoria para discernir entre as duas coisas.</p>



<p>Daniela Aimar Euzebio – Membro Analista em formação do IJEP (SP)</p>



<p>E. Simone Magaldi – Membro didata do IJEP</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Quando o amor acaba | Daniela Euzebio" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/ay1M5jSFHEg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p>Referências</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Aion &#8211; Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas de C.G.Jung, v. 9/2).</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Sobre o amor. São Paulo: Ideias &amp; Letras, 2005.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/quando-o-amor-acaba/">Quando o amor acaba</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
