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Quando o amor acaba

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No começo dos relacionamentos amorosos há o encantamento. 

Descobrimos as afinidades, sentimos o desejo, a química do corpo e da alma, temos aquela vontade crescente de estar cada vez mais perto. A pupila dos olhos dilata para reter a imagem da presença de quem amamos. O romance inicia e o fluxo da vida se faz presente, com ele a intimidade, o casamento, os filhos. 

Quando o amor se faz vigente, fantasiamos ter o outro para sempre, traçamos planos de viver e de envelhecer ao lado de quem amamos. 

Mas com a dinâmica da vida há um estabelecimento da rotina e com ela surgem os mais diversos problemas. 

Os descuidos diários fazem com que o amor se desgaste, acarretando num possível afrouxamento das expectativas e consequente perda de admiração pelo parceiro. Com isso, não se esperam mais grandes feitos do outro, o futuro vira um acumulado de dias bolorentos e o desejo sexual escorre pelo ralo.

 Aquele defeito que achávamos graça torna-se irritante. Com o acumulado de silêncios, discussões, desconexões e intolerâncias geram inúmeros conflitos e, quando nos damos conta, o amor acaba. Um sentimento que julgávamos indestrutível, se foi. 

Às vezes nós deixamos de amar, às vezes o amor do outro é que nos deixa.

O término do amor nem sempre tem a ver com separação de corpos e sim com o afastamento das almas. Perde-se a intimidade, o companheirismo, a paciência, o tesão, as afinidades. Paira sobre o casal um silêncio gelado, onde existe mais interesse nas entranhas do celular e nas teias das redes sociais do que na vida do outro.

Para alguns casais o amor romântico se transmuta em amizade, onde uma espécie de irmandade ou até coleguismo prevalece na relação. Com a relação mais fraterna é comum que haja queda no desejo sexual pelo outro. 

Mesmo quando o amor esvai, alguns casais optam por ficarem juntos e os motivos podem ser diversos: co-dependência emocional, medo da solidão, dogmas religiosos, filhos, dinheiro, status social, etc. Seja por consenso, anestesiamento ou medo, optam por compartilhar a solidão a dois.

O final de uma relação é dolorido, e os sentimentos são diferentes e penosos para quem abandona ou é abandonado. 

O término é difícil… 

Sentimos que o desenvolvimento muitas vezes contraditório da vida, ora permeado por amizade, parceria, cumplicidade e tesão, ora por brigas, ciúmes, falta de troca e intimidade, esvaece.

Assim como as coisas, os amigos que antes eram do casal entram no inventário existencial. E lidar com a dor dos filhos deixa a dinâmica ainda mais dura e difícil. 

Algumas separações são mais simples, outras bastante dramáticas e complexas. Cada um com sua história sabe a dor e desespero quando o amor finda.

É natural que o término traga sensação de desorientação, pois a rotina foi dramaticamente alterada. Por vezes há a mudança de casa, de horários, não sabemos ao certo como lidar com o impacto da separação na vida das crianças, o orçamento aperta, a vida desorganiza. Uma espécie de vertigem emocional nos abarca…

Lidar com a dor é difícil. O processo de separação nos faz experimentar uma espécie de morte da vida conhecida, da perda de parte da nossa identidade e do modo que nos apresentamos socialmente, um sentimento de esfacelamento familiar, e às vezes uma sensação de fracasso. As perdas não são poucas e o sofrimento é intenso.  

Por isso é preciso ter paciência. A dor da morte do amor gera em nós um processo de luto. 

Apesar de penoso, viver o luto é importante pois permite uma reorganização da nova fase de vida. No luto, entramos em contato com sentimentos desconfortáveis, angústias, inquietações, numa incômoda retórica do que não deu certo. 

Como somos plurais, cada pessoa tem uma forma e intensidade para atravessar este campo minado. Jung diz que “não podemos afirmar se alguma coisa é errada ou certa. A vida humana e o destino humano são tão paradoxais que mal podemos estabelecer uma regra que correspondam a eles”. (Jung, 2005, p. 53). Contraditoriamente, passar por essa fase complicada do luto nos ajuda na reorganização psíquica.

Por isso, é preciso ter paciência durante o processo. Nesta fase, é comum nos fechar para balanço e fazer uma espécie de inventário existencial. Neste momento, estamos tomados pelos complexos e ficamos muito sensibilizados.

Durante o processo do luto do amor, percebemos que por vezes nos desconectamos de nós mesmos. 

Descobrimos uma espécie de autoabandono e vemos o quanto deixamos de nos cuidar, quanto não vivemos o que gostaríamos em prol de uma doação desmedia ao outro. Deixamos de fazer o que gostamos, descuidamos da nossa alimentação, da saúde, dos prazeres, e percebemos o quão desconexos estamos de nós mesmos.

Quando a dor excessiva ameniza, num movimento nem sempre consciente tendemos a buscar mudanças. Tentamos resgatar a autoestima ao melhorar o cuidado pessoal, mudar o cabelo, as roupas, o corpo. 

O importante nesta fase é redescobrir-se e fazer com que este processo tenha sentido e aderência de quem somos, e não uma tentativa inócua de “voltar ao mercado do amor”.

Nesta nova fase surge o desejo (às vezes inconsciente) de uma nova persona.

Porém melhorar a autoestima não é apenas cuidar da aparência e do corpo, mas buscar uma reconexão de si. É descobrir, entender e respeitar seus limites; priorizar o sentimento de bem-estar; criar bons hábitos; realizar sonhos; adquirir leveza; olhar-se sem crítica destrutiva. 

Como persona e sombra são pares de opostos na psique, também se faz importante o confronto com a sombra, pois nela constituem problemas de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo. 

Na tomada de consciência da sombra, reconhecemos os aspectos obscuros da nossa personalidade, tais como são na realidade (Jung, O.C. 9/2, 2013, p.19 §14). E isso é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento, pois conseguimos criar consciência daquilo que possivelmente deu errado. 

Entrar em contato com a sombra é uma forma de acessar e entender nossos complexos, traumas, baixa autoestima, autossabotagem, medos, ansiedades, inseguranças.

Caminhar pelo vale pantanoso da sombra não é tarefa fácil, mas pode ser libertador. Jogar luz àquilo que nos aflige traz consciência para tomadas de decisões um pouco mais cuidadosas e responsáveis.

Na fase de reconstrução de si, repensar a forma de viver é salutar. Nos ajuda a recuperar o sentido, a entender nossos valores, a fazer as pazes com quem somos, a preencher alguns vazios existenciais com um sopro de acalanto da alma.

Relembrar o que passamos na jornada amorosa também nos auxilia a perceber os ensinamentos vividos, pois toda troca traz uma importante experiência. 

Por mais doloroso que seja um final de relação, houve momentos importantes que marcaram a vida. Sejam memórias boas ou não, refletir sobre o processo nos ajuda a assimilar seus aprendizados.

Cada um tem um ritmo, um tempo de recolhimento. Cada pessoa é um universo e, como tal, tem uma pulsação diferente de retomada da vida.

A vida floresce no momento certo e com ela uma nova versão de nós desabrocha. Nem sempre melhor ou pior, mas diferente.

Ao estarmos mais conectados aos nossos processos internos, nos sentiremos menos ameaçados e fragilizados na presença do outro, e baixamos a guarda para estabelecer relações mais íntimas.

As reflexões e aprofundamentos nos processos de ampliação da consciência nos ajudam a perceber que não temos que ser perfeitos, mas pessoas completas com nossa luz e escuridão.

Viver um dia de cada vez, apreciar os bons momentos e entender que as dificuldades são as pedras que sedimentam os caminhos da nossa jornada nos ajudam a aceitar aquilo que não podemos mudar, a ter coragem para mudar o que for preciso e sabedoria para discernir entre as duas coisas.

Daniela Aimar Euzebio – Membro Analista em formação do IJEP (SP)

E. Simone Magaldi – Membro didata do IJEP

Referências

JUNG, Carl Gustav. Aion – Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas de C.G.Jung, v. 9/2).

JUNG, Carl Gustav. Sobre o amor. São Paulo: Ideias & Letras, 2005.

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