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	<title>Arquivos análise - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Tue, 17 Mar 2026 18:27:09 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos análise - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>A literatura como cartografia da alma</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-literatura-como-cartografia-da-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Mar 2026 20:10:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[alma]]></category>
		<category><![CDATA[análise]]></category>
		<category><![CDATA[análise junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[simbologia]]></category>
		<category><![CDATA[terapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há livros que lemos e outros que nos leem. Neste ensaio, a literatura é pensada como uma cartografia da alma, um espaço onde psicologia, arte e experiência humana se entrelaçam, mostrando como mitos, romances e poemas evidenciam movimentos invisíveis da psique individual e coletiva. Um convite para pensar como a literatura revela os afetos por vezes ocultos nas prateleiras do nosso inconsciente.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: <strong>Ler é mágico</strong>&#8230; E quando nos permitimos adentrar no mundo fantástico dos livros, algo nos é atravessado. A literatura se revela como uma das formas mais ricas de exploração do existir e da existência, agindo como uma ponte que nos transporta em direção a um entendimento profundo da vida. <strong>Grandes pensadores como Jung, Freud, Lacan e Frankl encontraram na literatura chaves que abriram as portas e apontaram algumas inquietações da alma</strong>.</p>



<p style="font-size:18px">Há livros que lemos e outros que nos leem. Neste ensaio, a literatura é pensada como uma cartografia da alma, um espaço onde psicologia, arte e experiência humana se entrelaçam, mostrando como mitos, romances e poemas evidenciam movimentos invisíveis da psique individual e coletiva. <strong>Um convite para pensar como a literatura revela os afetos por vezes ocultos nas prateleiras do nosso inconsciente</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ler-e-magico">Ler é mágico&#8230;</h2>



<p style="font-size:18px">Ler é mágico&#8230; E quando nos permitimos adentrar no mundo fantástico dos livros, algo nos é atravessado. A literatura se revela como uma das formas mais ricas de exploração do existir e da existência, agindo como uma ponte que nos transporta em direção a um entendimento profundo da alma. Ao abrir as páginas de um livro, somos convidados a habitar novos mundos, a experimentar emoções e palpitações, um refúgio precioso contra o automatismo das rotinas, permitindo que a imaginação percorra caminhos antes inacessíveis e vivencie aventuras que ampliam os limites da realidade. Aprendemos a amar ou odiar os personagens, a nos aventurar em situações jamais sonhadas, a achar um jeito de nos livrar das culpas e punições, a penalizar os traidores, revelando projetivamente as densidades que nem sempre temos consciência.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Jung</strong> (OC 15, §133) reflete que “<strong>a alma é ao mesmo tempo mãe de toda ciência e vaso matricial da criação artística</strong>”. Por isso, é esperado que as ciências da alma possam ajudar no estudo da estrutura de um texto e explicar as circunstâncias psicológicas do seu autor e do Espírito da Época.</p>



<p style="font-size:18px">Por isso, percorrer a jornada nos livros literários é como olhar reflexivamente para o nosso próprio interior, onde a obra funciona como um espelho capaz de revelar nuances de nossos desejos, medos e motivações mais íntimas. Através do diálogo com o texto, somos incentivados a ponderar sobre dilemas éticos e escolhas morais, um processo que nutre o crescimento pessoal e emocional.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desde-muito-antes-de-sua-formalizacao-como-ciencia-a-psicologia-ja-encontrava-na-literatura-um-territorio-privilegiado-de-expressao-e-investigacao-da-experiencia-humana" style="font-size:18px">Desde muito antes de sua formalização como ciência, a psicologia já encontrava na literatura um território privilegiado de expressão e investigação da experiência humana.</h2>



<p style="font-size:18px">Mitos, tragédias, poemas, contos, crônicas, romances etc., constituem formas simbólicas por meio das quais a humanidade olhou para seus afetos, dando linguagem ao que por vezes nos escapa à consciência imediata. Ao narrar histórias, o escritor mobiliza imagens que pertencem simultaneamente à sua experiência singular e a um campo coletivo mais amplo, tornando a obra literária um espaço onde a psique se revela em sua dimensão individual e histórica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-entende-que-a-alma-se-apresenta-como-um-principio-gerador-que-atravessa-todas-as-expressoes-humanas-animando-acoes-pensamentos-criacoes-e-vinculos" style="font-size:18px">Jung entende que a alma se apresenta como um princípio gerador que atravessa todas as expressões humanas, animando ações, pensamentos, criações e vínculos.</h2>



<p style="font-size:18px">Ela se manifesta como origem dinâmica da experiência, sem jamais se oferecer como objeto isolável ou entidade apreensível em si mesma. O que se torna acessível ao olhar atento são suas formas de expressão: gestos, símbolos, narrativas, obras, escolhas, sofrimentos e buscas de sentido. A alma se deixa conhecer por meio de suas múltiplas aparições encarnadas em diversas linguagens, como se sua natureza pedisse movimento contínuo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-jung-provoca-ao-dizer-que-o-trabalho-do-psicologo-ou-de-profissionais-que-lidam-com-a-psique-assume-inevitavelmente-um-carater-transdisciplinar" style="font-size:18px">Por isso, Jung provoca ao dizer que o trabalho do psicólogo (ou de profissionais que lidam com a psique) assume inevitavelmente um caráter transdisciplinar.</h2>



<p style="font-size:18px">O estudo da psique convoca um deslocamento constante e um caminhar para além dos territórios metodológicos, pois a alma é ampla e circula pela arte, religião, filosofia, mitologia, literatura, música e práticas culturais que dão forma à experiência humana.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">É uma particularidade da alma ser não apenas mãe e origem de toda a ação humana, como também expressar-se em todas as formas e atividades do espírito; não podemos encontrar em parte alguma a essência da alma em si mesma, mas somente percebê-la e compreendê-la em suas múltiplas formas de manifestação. Por isso, o psicólogo é obrigado a adentrar em vários domínios, deixando o castelo seguro de sua especialidade; e isto, não como pretensão ou diletantismo, mas por amor ao conhecimento, em busca da verdade. Ele não conseguirá limitar a alma à estreiteza do laboratório e do consultório médico; deverá persegui-la em domínios talvez estranhos a ele, onde quer que ela atue de modo evidente. (JUNG, OC 15, p. 86, prefácio)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-seja-por-isso-que-diversos-pensadores-psicologos-e-psicanalistas-se-debrucaram-de-forma-tao-apaixonada-nas-leituras-dos-classicos" style="font-size:18px">Talvez seja por isso que diversos pensadores, psicólogos e psicanalistas se debruçaram de forma tão apaixonada nas leituras dos clássicos.</h2>



<p style="font-size:18px">Freud, foi um leitor erudito de tragédias gregas, teatro elisabetano, romances modernos e mitologia clássica, a literatura aparece em sua obra como confirmação empírica e histórica de estruturas psíquicas que sua clínica revelava. O complexo de Édipo, por exemplo, nasce da leitura atenta de Sófocles, cuja tragédia Freud compreende como expressão simbólica de desejos inconscientes universais (FREUD, 2012). Em 1914, Freud retoma o termo “narcisismo”, inspirado na figura mítica de Narciso, e o eleva a um estatuto <em>metapsicológico</em> ao integrá-lo à psicanálise. Em <em>Introdução ao narcisismo</em>, o conceito busca compreender o modo como a libido se recolhe, investe o próprio eu e participa da constituição da subjetividade. O narcisismo torna-se uma chave para pensar a economia profunda do psiquismo, onde se organizam as bases do vínculo entre o sujeito, o desejo e sua própria imagem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-autor-importante-para-freud-foi-shakespeare-que-ocupa-lugar-em-sua-reflexao-sobre-o-conflito-psiquico-a-ambivalencia-afetiva-e-a-culpa" style="font-size:18px">Outro autor importante para Freud foi Shakespeare, que ocupa lugar em sua reflexão sobre o conflito psíquico, a ambivalência afetiva e a culpa.</h2>



<p style="font-size:18px">Freud recorre sistematicamente à literatura para demonstrar que os poetas e escritores “sabem” da psique antes da ciência, pois acessam o inconsciente por vias intuitivas e estéticas. Em textos como <em>Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen (1996)</em>, realiza uma análise minuciosa de uma obra literária, tratando-a com o mesmo rigor aplicado ao material clínico. O romance, o mito e a tragédia tornam-se documentos psíquicos capazes de revelar os mecanismos do desejo, do recalque, da sublimação e da fantasia, participando da própria constituição da teoria freudiana.</p>



<p style="font-size:18px">Lacan, por hipótese, talvez seja o autor que mais radicalmente reinscreve a literatura no coração da teoria psicanalítica. Para ele, o inconsciente é estruturado como linguagem, o que torna a literatura um campo privilegiado de manifestação do desejo, da falta e do gozo. Lacan analisa Sófocles (Antígona), Shakespeare (Hamlet), Edgar Allan Poe (A carta roubada), James Joyce (Ulisses), entre outros, como verdadeiros operadores conceituais. Joyce, por exemplo, torna-se central para a formulação do seu conceito de <em>sinthoma</em>.</p>



<p style="font-size:18px">Viktor Frankl, fundador da Logoterapia, foi um humanista erudito que utilizou a literatura e a filosofia como provas vivas de sua teoria antropológica, apoiando-se em Dostoiévski, Nietzsche, Goethe e textos bíblicos para fundamentação de seu arcabouço teórico. Para ele, a literatura é testemunho existencial da busca de sentido, especialmente diante do sofrimento extremo</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-jung-a-literatura-integra-o-nucleo-do-pensamento-psicologico-uma-vez-que-poemas-mitos-contos-romances-e-producoes-artisticas-se-apresentam-como-expressoes-simbolicas-do-inconsciente-coletivo" style="font-size:18px">Em Jung, a literatura integra o núcleo do pensamento psicológico, uma vez que poemas, mitos, contos, romances e produções artísticas se apresentam como expressões simbólicas do inconsciente coletivo.</h2>



<p style="font-size:18px">A obra literária torna-se um campo privilegiado para a observação dos movimentos arquetípicos que atravessam a psique e se organizam em imagens, narrativas e formas estéticas. Nessa perspectiva, a arte se apresenta como um fenômeno autônomo, portador de uma coerência interna e de uma lógica simbólica própria, cuja compreensão demanda atenção à sua singularidade e à sua força expressiva, reconhecendo nela um campo de sentido que se sustenta para além de leituras redutivas ancoradas exclusivamente na biografia ou na patologia.</p>



<p style="font-size:18px">Assim, o exame psicológico de uma obra de arte revela-se como o resultado de processos anímicos elaborados, que solicitam uma abordagem capaz de sustentar simultaneamente a complexidade do objeto artístico e a dinâmica psíquica de quem a criou.</p>



<p style="font-size:18px">Embora autor e obra se encontrem entrelaçados por vínculos indissociáveis e exerçam influência recíproca, a psicologia junguiana sustenta a necessidade de reconhecer os limites dessa relação. A obra conserva uma dimensão de mistério que excede a biografia de seu autor, assim como a personalidade do artista abriga profundidades que nenhuma produção consegue esgotar plenamente.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:18px">
<p style="font-size:18px">O estudo da obra como entidade autônoma e a investigação do artista como personalidade singular se articulam em diálogo constante, preservando a dignidade do processo criativo. Desse modo, a psicologia se afasta de explicações deterministas e se aproxima de uma compreensão mais profunda da relação entre psique e expressão, reconhecendo que, na tensão viva entre o ser humano e suas criações, habita um enigma que a ciência da alma se empenha em iluminar, acompanhando o movimento pelo qual a experiência interior se transforma em forma, linguagem e sentido no mundo. O estudo de uma obra de arte é o fruto “intencional” de atividades anímicas complexas. Estudar as circunstâncias psicológicas do homem criador equivale a estudar o próprio aparelho psíquico. No primeiro caso, o objeto da análise e interpretação psicológicas é a obra de arte concreta; no segundo, trata-se da abordagem do ser humano criador, como personalidade única e singular. Ainda que a obra de arte e o homem criador estejam ligados entre si por uma profunda relação, numa interação recíproca, não é menos verdade que não se explicam mutuamente. Certamente é possível tirar de um deduções válidas no que concerne ao outro, mas tais deduções nunca são concludentes (JUNG, OC 15, §134)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-texto-psicologia-e-poesia-incluido-em-o-espirito-na-arte-e-na-ciencia-oc-15-jung-distingue-o-modo-psicologico-e-o-modo-visionario-da-criacao-literaria" style="font-size:18px">No texto “Psicologia e poesia”, incluído em <em>O espírito na arte e na ciência </em>(OC 15), Jung distingue o modo psicológico e o modo visionário da criação literária.</h2>



<p style="font-size:18px">Essa distinção é decisiva para os estudos interdisciplinares entre psicologia e literatura, pois reconhece que há obras que emergem da experiência consciente e outras que irrompem de camadas profundas da psique, portadoras de imagens numinosas e arquetípicas. Nessas últimas, a literatura funciona como campo de reorganização simbólica do inconsciente coletivo, especialmente em períodos de crise cultural.</p>



<p style="font-size:18px">Jung dialoga extensivamente com Goethe, sobretudo com o <em>Fausto</em>, que considera uma obra arquetípica por excelência; com Nietzsche, cuja escrita visionária é analisada em <em>Assim falou Zaratustra</em>; com a mitologia greco-romana; os épicos orientais e a literatura medieval. Para Jung, o poeta é alguém que é “tomado” por imagens que precisam ser ditas.</p>



<p style="font-size:18px">Jung (OC 15, §148) afirma que, quando a atenção se afasta da psicologia pessoal do poeta, a obra de arte pode ser compreendida como o lugar onde emerge uma vivência originária, anterior ao eu consciente e às explicações racionalistas, expressando conteúdos psíquicos que se impõem por sua própria força simbólica. Essa vivência, denominada por Jung de visão, manifesta-se como um acontecimento psíquico pleno, dotado de sentido próprio e de força arquetípica.</p>



<p style="font-size:18px">A obra possui estatuto simbólico autêntico, seu conteúdo pode assumir formas físicas, anímicas ou metafísicas, mas essa distinção perde relevância diante de sua condição fundamental, onde a psique se afirma como campo legítimo de experiência, capaz de produzir acontecimentos tão decisivos quanto aqueles inscritos no mundo externo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sempre-que-o-inconsciente-coletivo-se-encarna-na-vivencia-e-se-casa-com-a-consciencia-da-epoca-ocorre-um-ato-criador-que-concerne-a-toda-a-epoca-a-obra-e-entao-no-sentindo-mais-profundo-uma-mensagem-dirigida-a-todos-os-contemporaneos-jung-oc-15-153" style="font-size:18px">“<em>Sempre que o inconsciente coletivo se encarna na vivência e se casa com a consciência da época, ocorre um ato criador que concerne a toda a época; a obra é, então, no sentindo mais profundo, uma mensagem dirigida a todos os contemporâneos</em>” (JUNG, OC 15, §153).</h2>



<p style="font-size:18px">Jung (OC 15, §153) reforça que “<em>todas as épocas têm sua unilateralidade, seus preconceitos e males psíquicos. Cada época pode ser comparada à alma de um indivíduo: apresenta uma situação consciente específica e restrita, necessitando por esse motivo de uma compensação</em>”. &nbsp;Ao dar forma ao que ainda precisa de linguagem, essas figuras trazem à superfície aquilo que a consciência cultural não conseguiu integrar. As obras tocam dimensões que estão na sombra coletiva, e revelam desejos, angústias e aspirações que se encontram difusos, mas intensamente ativos no fundo da vida social.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-expressao-dessas-imagens-compensatorias-exerce-um-impacto-ambivalente-sobre-a-epoca-que-as-acolhe" style="font-size:18px">A expressão dessas imagens compensatórias exerce um impacto ambivalente sobre a época que as acolhe.</h2>



<p style="font-size:18px">Quando encontram condições favoráveis, podem contribuir para processos de ampliação de consciência, renovação simbólica e transformação criativa da cultura. Em outras circunstâncias, as mesmas forças podem ser mobilizadas de modo destrutivo, intensificando rupturas, conflitos e movimentos regressivos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-exemplo-ilustrativo-publicado-em-1774-os-sofrimentos-do-jovem-werther-de-goethe-produziu-um-impacto-que-rapidamente-ultrapassou-o-ambito-literario-e-revelou-uma-ferida-psiquica-coletiva-na-europa" style="font-size:18px">Como exemplo ilustrativo, publicado em 1774, <strong><em>Os sofrimentos do jovem Werther</em> </strong>de Goethe, produziu um impacto que rapidamente ultrapassou o âmbito literário e revelou uma ferida psíquica coletiva na Europa.</h2>



<p style="font-size:18px">No momento de sua publicação, a obra encontrou uma juventude atravessada por tensões e disponibilizou uma linguagem capaz de dar forma a experiências afetivas intensas e sombrias que ainda não haviam alcançado elaboração consciente.</p>



<p style="font-size:18px">Werther é um jovem sensível, seu sofrimento nasce do amor idealizado por Charlotte e, do confronto com os limites sociais e morais de sua época, sente-se incapaz de integrar seu desejo, realizar o amor e lidar com a frustração. Desesperado, põe fim à sua existência.</p>



<p style="font-size:18px">Neste período, houve uma forte identificação coletiva e registros históricos associaram a leitura da obra a uma série de suicídios, fenômeno posteriormente denominado efeito Werther (contágio psíquico). Mais do que estabelecer uma relação direta entre texto e ato, esse impacto revela a fragilidade simbólica de uma geração que se via profundamente afetada pela idealização do sentimento e pela dificuldade de elaborar frustrações dentro dos limites sociais. O romance atuou como um catalisador, trazendo à tona afetos que estavam eclipsados no Espírito da Época. </p>



<p style="font-size:18px">Werther permanece um exemplo da capacidade que a literatura tem de tornar visível o estado psíquico de um tempo, mesmo quando esse encontro se dá sob o signo da inquietação sombria: “<em>esses poetas falam por milhares e dezenas de milhares de seres humanos, proclamando de antemão as metamorfoses da consciência de sua época</em>” (JUNG, OC 15, §154).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-ler-uma-obra-que-nos-toca-nos-vemos-implicados-afetivamente-por-personagens-que-revelam-emocoes-conflitos-desejos-e-feridas-nos-permitindo-reconhecer-aspectos-de-nossa-vida-interior" style="font-size:18px">Ao ler uma obra que nos toca, nos vemos implicados afetivamente por personagens que revelam emoções, conflitos, desejos e feridas, nos permitindo reconhecer aspectos de nossa vida interior. </h2>



<p style="font-size:18px">A intensidade da identificação diante de determinadas figuras literárias revela muito mais sobre a dinâmica psíquica do leitor do que sobre o personagem em si, que atua como espelho simbólico de experiências subjetivas em busca de linguagem.</p>



<p style="font-size:18px">Nesse processo, o inconsciente pessoal projeta-se de modo seletivo, elegendo personagens que evidenciam os complexos ativos. Heróis, anti-heróis, vilões, mocinhas, figuras trágicas tornam-se representações das nossas próprias contradições, dilemas morais, fantasias e desejos. O personagem assume a função de mediador, possibilitando ao leitor experimentar emoções intensas, atravessar conflitos e ensaiar soluções simbólicas que permanecem, no cotidiano, suspensas ou reprimidas.</p>



<p style="font-size:18px">Quando a identificação se torna consciente, a narrativa atua como um campo de simbolização no qual o sujeito pode retirar gradualmente suas projeções, reintegrando-as à própria história psíquica com maior discernimento. Desse modo, os personagens emergem como imagens arquetípicas que acolhem projeções, condensam afetos e traduzem conflitos íntimos e, por vezes, sombrios. A obra literária se consolida como um espaço simbólico onde o inconsciente pessoal encontra expressão. Permitindo que o leitor se aproxime de si mesmo projetivamente por meio do outro fictício, reconhecendo na alteridade do personagem as múltiplas faces de sua alma em movimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-por-isso-que-a-literatura-pode-se-colocar-como-uma-verdadeira-cartografia-da-alma-um-territorio-onde-a-experiencia-humana-encontra-forma-densidade-emocoes-e-linguagem-e-cada-obra-abre-uma-passagem-entre-o-individual-e-o-coletivo-permitindo-que-afetos-se-organizem-simbolicamente" style="font-size:18px">É por isso que a literatura pode se colocar como uma verdadeira cartografia da alma&#8230; Um território onde a experiência humana encontra forma, densidade, emoções e linguagem, e cada obra abre uma passagem entre o individual e o coletivo, permitindo que afetos se organizem simbolicamente.</h2>



<p style="font-size:18px">Ler passa a ser um ato dialético do tempo, um modo de reconhecer na trama das palavras os movimentos invisíveis que atravessam uma época e se inscrevem na individualidade de cada um.</p>



<p style="font-size:18px">Psicologia e literatura se entrelaçam num diálogo vivo, no qual a psique se revela em sua vocação criadora, sustentando incômodos essenciais e acompanhando a humanidade em seu esforço contínuo de compreender a si mesma, de simbolizar o indizível e de manter aberta a travessia entre o mundo interior e a história que se escreve coletivamente.</p>



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<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/">Me. Daniela Euzebio – Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p>FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 1991;</p>



<p>FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Porto Alegre: L&amp;PM, 2012;</p>



<p>FREUD, Sigmund. Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen. Rio de Janeiro: Imago, 1996;</p>



<p>FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo (1914). In: ______. Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010;</p>



<p>GOETHE, Johann Wolfgang von. Os sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: L&amp;PM, 2017;</p>



<p>GOMES, José Carlos Vitor; HOLANDA, Adriano Furtado. Dostoiévski e Frankl: um diálogo sobre o sofrimento. Revista Logos &amp; Existência, v. 2, n. 1, p. 55-68, 2013. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org. Acesso em: 13 jan. 2026;</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. O espírito na arte e na ciência. Petrópolis: Vozes, 2013 (OC 15); LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. (Contém o &#8220;Seminário sobre &#8216;A Carta Roubada'&#8221;);</p>



<p>LACAN, Jacques. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. (Trata de James Joyce);</p>



<p>LACAN, Jacques. O seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro: Zahar, 2016. (Trata de Hamlet);</p>



<p>LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988. (Trata de Antígona);</p>



<p>PHILLIPS, David P. The Influence of Suggestion on Suicide: Substantive and Theoretical Implications of the Werther Effect. American Sociological Review, [s. l.], v. 39, n. 3, p. 340–354, 1974.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A atitude do alquimista e a clínica junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-atitude-do-alquimista-e-a-clinica-junguiana/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Raísa Barcellos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 12:05:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
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		<category><![CDATA[análise]]></category>
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		<category><![CDATA[junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Antigos manuscritos alquímicos ainda tem muito a nos ensinar, dentre as diferentes lições que eles nos deixam, podemos aprender com a atitude dos alquimistas frente ao seu trabalho, sua obra, o opus alchymicum. Aprendemos com os alquimistas como podemos olhar para nossos conteúdos e comportamentos com profunda curiosidade e dedicação, nos colocando, dessa forma, na posição de questionar, por exemplo, opiniões formadas e pouco flexíveis, nos abrindo a novas possibilidades e formas de viver, mantendo o fluxo vivo do “dissolve e coagula”.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-primeira-pergunta-que-pode-surgir-quando-se-fala-de-alquimia-e-para-que-estudar-textos-alquimicos" style="font-size:20px"><strong><em>A primeira pergunta que pode surgir quando se fala de alquimia é: para que estudar textos alquímicos?</em></strong></h2>



<p style="font-size:18px">Antigos manuscritos alquímicos ainda tem muito a nos ensinar, dentre as diferentes lições que eles nos deixam, podemos aprender com a atitude dos alquimistas frente ao seu trabalho, sua obra, o&nbsp;<em>opus alchymicum</em>. Aprendemos com os alquimistas como podemos olhar para nossos conteúdos e comportamentos com profunda curiosidade e dedicação, nos colocando, dessa forma, na posição de questionar, por exemplo, opiniões formadas e pouco flexíveis, nos abrindo a novas possibilidades e formas de viver, mantendo o fluxo vivo do “dissolve e coagula”.</p>



<p style="font-size:18px">O analista no seu ofício, poderá então, com a atitude de um verdadeiro alquimista, abrir-se para provar da amargura do seu próprio ser, buscando oferecer espaço para o não saber, permitindo a descoberta no tempo da alma e proporcionando dessa forma uma clínica, sem conceitos previamente construídos, crenças ou diagnósticos predeterminados, colocando-se na posição de quem quer descobrir junto, abrindo-se ao desconhecido, como quem ajoelha frente ao forno alquímico e está aberto a viver o mistério.</p>



<p style="font-size:18px">Alguns argumentariam que esses são textos defasados, provados cientificamente incorretos ou pseudociência. Nesse artigo, vamos discutir de forma introdutória, um dos muitos aspectos interessantes de textos alquímicos e como Jung os relacionou com a prática da clínica analítica.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">Para iniciarmos a compreensão do conteúdo de tais textos alquímicos, vamos primeiramente buscar em Jung o conceito de inconsciente coletivo; esse, faz referência a existência de uma parte inconsciente que não procede de natureza individual, mas sim universal e possui, portanto, “conteúdos e modos de comportamento, os quais são&nbsp;<em>cum</em>&nbsp;<em>granos salis</em>&nbsp;os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos.” (Jung, 2012, §3), esses conteúdos do inconsciente coletivo são chamados por Jung de arquétipos.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">Podemos encontrar representações de conteúdos arquetípicos em diferentes fontes, como por exemplo tradições de povos originários, mitos, contos de fadas, antigos textos religiosos e na alquimia. Através de uma leitura psicológica dessas imagens arquetípicas, entendemos que a esfera psíquica é comum a todos os seres humanos e independe de lugar, tempo ou espaço.&nbsp;&nbsp;Percebemos, porém, que essas imagens podem estar mais ou menos influenciadas pelo contexto histórico social do momento em que são relatadas, e é justamente por isso que essas manifestações e representações assumem formas diferentes.</p>



<p style="font-size:18px">Os textos alquímicos e os alquimistas, por sua vez, tinham uma atitude diferente frente à essas imagens inconscientes, nos explica Von Franz, “(&#8230;) em alquimia as projeções eram feitas de modo sumamente ingênuo e sem programação, e não passavam por qualquer forma de correção.” (Von Franz, 2022, p.35), dessa forma, entendemos uma importante diferença entre o material dos textos alquímicos e outros, isto é, os alquimistas não tinham em geral, uma intenção, crença ou tradição definida ao olhar para certo fenômeno ou imagem inconsciente. Portanto, há muito o que aprender com os alquimistas e a sua atitude frente ao seu trabalho, sua obra, o&nbsp;<em>opus alchymicum</em>.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading is-style-large" id="h-os-alquimistas-nos-convidam-a-olhar-para-nossos-conteudos-e-comportamentos-com-a-curiosidade-e-dedicacao-de-quem-olha-para-uma-barra-de-metal-e-se-pergunta-e-se-eu-colocar-isso-no-forno-o-que-sera-que-acontece" style="font-size:18px">Os alquimistas nos convidam a olhar para nossos conteúdos e comportamentos com a curiosidade e dedicação de quem olha para uma barra de metal e se pergunta: e se eu colocar isso no forno, o que será que acontece? </h2>



<p style="font-size:18px">Essa curiosidade frente aos nossos conteúdos internos, nos ajuda a questionar, por exemplo, opiniões formadas pouco flexíveis e ao olhar para nossos conteúdos com a curiosidade e a dedicação de um alquimista. Poderemos assim, abrir então&nbsp;novas possibilidades e formas de viver, o que está diretamente relacionado ao “dissolve e coagula”, duas operações que em muitos textos resumem a obra alquímica (Edinger, 2006, p.67).&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">O trabalho alquímico muitas vezes vai exigir paciência e lentidão, por exemplo, trabalhar com muito cuidado, para não queimar o conteúdo que está sendo aquecido. Às vezes, o fogo alto pode ser agressivo demais, buscamos portanto uma alternativa,&nbsp;seria&nbsp;possível então aquecer com de esterco de cavalo, por exemplo, diz o autor anônimo do<em>&nbsp;<strong>Rosarium Philosophorum</strong></em>, “<em>[segundo]</em>&nbsp;Aphidius: o cozimento com o fogo que eu te mostrarei consiste em fechar em esterco úmido de cavalo que é o fogo dos sábios, húmido e escuro. É quente em seu segundo grau, e húmido em primeiro.” (Anônimo, sem data. Tradução da autora.)</p>



<p style="font-size:18px">A paciência e a lentidão são parte do ofício, “<em>Eu, porém, descrevi a obra até o fim, apesar de nunca a ter visto. Sei que a obra chega necessariamente a essa natureza. E é impossível saber se não a aprende de Deus ou de um professor que a ensine. E deve saber que é um caminho muito longo. A paciência e a lentidão, são então, indispensáveis no nosso ofício</em>.”(Anônimo, sem data.&nbsp;Tradução da autora.).</p>



<p style="font-size:18px">Não se engane porém, já que, pode sim ser necessário, em dado momento, cozinhar rápido e com o fogo alto, mas a situação será analisada de antemão e a melhor forma de agir será eleita, de acordo com a situação individual e única que se apresentar. Entendemos dessa forma que não existe um só método ou uma forma padrão de trabalhar com esses conteúdos.</p>



<p style="font-size:18px">O espírito do nosso tempo, porém, pode nos pedir que façamos justamente o contrário, que sejamos padronizados, encaixados, embotados, produtivos e adaptados. O que, geralmente, não nos deixa espaço para essa atitude de curiosidade frente a si mesmo, ou seja, olhar para nossos complexos, nossa sombra. </p>



<p style="font-size:18px">Em tempos de inteligência artificial, onde as interações, os textos e as relações se tornam cada vez mais plásticas, estruturadas e padronizadas, resta pouco espaço para dúvidas, já que a inteligência artificial responde. <strong>Byung-Chul Han</strong>, por exemplo, descreve a atitude da nossa sociedade como a sociedade do desempenho, ele diz: “<em>A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho</em>.” (Han, 2015, p. 16).</p>



<p style="font-size:18px">A atitude dos alquimistas e, portanto, o que a análise junguiana tem a oferecer,&nbsp;acaba indo&nbsp;de encontro a esses preceitos padronizantes do nosso tempo; dentro da clínica buscamos oferecer espaço para o não saber, permitindo a descoberta no tempo da alma. A clínica junguiana é dissidente, vai no oposto do que é pregado no templo do instagram, e por isso o analista não promete resultados ou alega conhecer o caminho de antemão.&nbsp;</p>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-o-papel-do-analista-na-analise-nbsp" style="font-size:20px"><strong>O papel do analista na análise&nbsp;</strong></h1>



<p style="font-size:18px">Ao entender que cada processo é único e exige seu próprio tempo e metodologia, podemos pensar no papel do analista, que, portanto, vai precisar da curiosidade e dedicação de um alquimista dentro da sua prática clínica com cada paciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-nos-explica-jung" style="font-size:18px">Como nos explica Jung:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:15px">
<p style="font-size:19px"><em>“Se, na qualidade de psicoterapeuta, eu me sentir como autoridade diante do paciente e, como médico, tiver a pretensão de saber algo sobre a sua individualidade e fazer afirmações válidas a seu respeito, estarei demonstrando falta de espírito crítico, pois não estarei reconhecendo que não tenho condições de julgar a totalidade da personalidade que está lá à minha frente. Posso fazer declarações legítimas apenas a respeito do ser humano genérico, ou pelo menos relativamente genérico.” (Jung, 2011, §2)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Vamos descobrindo que é parte do ofício do analista entender que não é possível dizer ao outro,&nbsp;que sua forma de existir no mundo ou suas crenças não lhe servem ou que a individuação é por outro caminho, uma vez que entendemos não existir um só caminho ou forma de se portar no mundo, nas palavras de Guggenbühl-Craig: </p>



<h2 class="wp-block-heading is-style-default" id="h-o-verdadeiro-eros-nao-tem-nada-a-ver-com-a-vontade-de-impor-nosso-proprio-plano-e-nossas-proprias-ideias-sobre-os-outros-guggenbuhl-craig-2004-p-23" style="font-size:19px"><em>“O verdadeiro eros não tem nada a ver com a vontade de impor nosso próprio plano e nossas próprias ideias sobre os outros” (Guggenbühl-Craig, 2004, p. 23)</em></h2>



<p style="font-size:18px">Entendemos&nbsp;que ninguém busca tornar-se analista porque não gosta de ajudar as pessoas, o desejo de ajudar é verdadeiro, porém o desejo genuíno de ajudar precisa ser educado, não sabemos na posição de analista o que é benéfico ou maléfico para nossos clientes, ou seja, se um conteúdo precisa cozinhar no fogo alto e seco ou no esterco úmido, as regras e o ajuste sob os quais uma pessoa vive podem ser necessários a sua própria sobrevivência em um dado momento de sua vida.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">Dentro de um&nbsp;<em>vas bene clausum</em>&nbsp;(um vaso hermeticamente fechado)&nbsp;dentro do qual acontece o processo de análise, a clínica (os clientes) afetam o analista assim como o analista afeta a clínica, talvez essa seja a nossa forma de entender a transferência e contratransferência, ou como diz Guggenbühl-Craig “as psiques do terapeuta e do paciente começam a se afetar mutuamente.” (Guggenbühl-Craig, 2004, p. 46) e reconhecer que essa relação&nbsp;é imprescindível para o trabalho do analista.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">Dessa forma é parte do trabalho de análise conectar-se com o cliente profundamente, um encontro íntimo, que do latim,&nbsp;<em>intimus</em>, “interior, o que é de dentro”&nbsp;e&nbsp;para isso, o analista precisa estar disposto a provar da amargura do seu próprio ser, como coloca von Franz&nbsp;&nbsp;“O lampejo que se obtém ao olharmos para nós mesmos é geralmente muito amargo, sendo por isso que poucas pessoas o tentam; é pikros &#8211; azedo &#8211; porque corroí e porque é deveras desagradável para as ilusões da consciência.” (Von Franz, 2022, p.152).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ainda-sobre-a-relacao-entre-cliente-e-analista-jung-nos-alerta-nbsp" style="font-size:18px">Ainda sobre a relação entre cliente e analista, Jung nos alerta:&nbsp;</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>“Poderíamos dizer, sem grande exagero, que mais ou menos metade de cada tratamento em profundidade consiste no autoexame do médico, porque ele só consegue pôr em ordem no paciente aquilo que está resolvido dentro de si mesmo.” (Jung, 2011, §239).&nbsp;</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">É esperado, portanto, que o analista esteja profundamente comprometido com o seu próprio trabalho de análise pessoal, tornando-se cada vez mais capaz de reconhecer, ou seja, tornar-se consciente, de suas crenças pessoais e ideais morais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sanford-nos-diz-nbsp" style="font-size:18px"><strong>Sanford </strong>nos diz,&nbsp;</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>“[&#8230;] ao invés de se lutar pelos mais altos ideais morais (ainda que ideias morais também sejam importantes), enfatiza-se a luta por melhor autoconhecimento, na crença de que os ideais e os valores morais do homem só são efetivos no contexto de sua consciência.” (Sanford, 2021, p. 36)&nbsp;</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Sendo portanto, como analistas, capazes de reconhecer que dentro de uma vontade de liberar um paciente de suas tendências vistas como desfavoráveis e prejudiciais, corremos o risco&nbsp;de nos tornarmos&nbsp;ditadores da liberdade.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">Assim além de aprendermos com os antigos alquimistas como podemos nos transformar, também aprendemos como podemos construir uma prática clínica sem conceitos previamente construídos, crenças ou diagnósticos predeterminados, que transcende a persona, entendemos a importância de estar na posição de quem quer descobrir junto, abrindo-nos ao desconhecido, como quem ajoelha frente ao forno alquímico e está aberto a viver o mistério.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="A atitude do alquimista e a clínica junguiana" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/sDDIC1Y7Bps?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/raisa-barcellos/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/raisa-barcellos/">Raísa Barcellos Nepomuceno &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Balestrini &#8211;&nbsp;Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p><strong>Fonte da imagem</strong>: <em>Mutus Liber</em>&nbsp;(1702). Imagem colorida. Alchemy Website. Disponível em:<a href="https://www.alchemywebsite.com/prints_series_mutus.html"></a><a href="https://www.alchemywebsite.com/prints_series_mutus.html">https://www.alchemywebsite.com/prints_series_mutus.html</a></p>



<p><strong>ANÔNIMO.</strong>&nbsp;<em>Rosarium Philosophorum &#8211;&nbsp;</em>El rosario de los filósofos: segunda parte de la alquimia. De la verdadera forma de preparar la piedra filosofal. [sem local], [sem editora], [sem data]. PDF.&nbsp;</p>



<p>EDINGER, Edward F. Anatomia da psique: o simbolismo alquímico na psicoterapia. São Paulo: Cultrix, 2006.</p>



<p>GUGGENBÜHL-CRAIG, Adolf.&nbsp;<em>O abuso do poder na psicoterapia.</em>&nbsp;São Paulo: Paulus, 2004.</p>



<p>HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.&nbsp;</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Prática da psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p>VON FRANZ, Marie-Louise. Alquimia. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2022.</p>



<p>SANFORD, John A. O mal: o lado sombrio da realidade. São Paulo: Paulus, 2021</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Ensaio sobre a escrita, vida e autoanalise</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/ensaio-sobre-a-escrita-vida-e-autoanalise/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Barbara Pessanha]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 10 Oct 2025 14:00:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[análise]]></category>
		<category><![CDATA[autoanalise]]></category>
		<category><![CDATA[cgjung]]></category>
		<category><![CDATA[clínica]]></category>
		<category><![CDATA[criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[escrever]]></category>
		<category><![CDATA[escrita]]></category>
		<category><![CDATA[expressões criativas]]></category>
		<category><![CDATA[leitura]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O ensaio reflete sobre a dificuldade da escrita e a inveja da fluidez de autores que parecem escrever com naturalidade. Como analista junguiana, relaciono essa experiência ao processo criativo e à clínica, percebendo a escrita como esforço, enfrentamento e também como forma de redenção psíquica. A criatividade é entendida menos como dom e mais [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px;line-height:1.6"><strong>Resumo</strong>: O ensaio reflete sobre a dificuldade da escrita e a inveja da fluidez de autores que parecem escrever com naturalidade. Como analista junguiana, relaciono essa experiência ao processo criativo e à clínica, percebendo a escrita como esforço, enfrentamento e também como forma de redenção psíquica. A criatividade é entendida menos como dom e mais como trabalho, crise e solução. A escrita, antes vista como inacessível, surge como exercício terapêutico e organizador, permitindo contato com funções internas desprezadas. Ao citar <strong>Jung</strong> e <strong>Suassuna</strong>, destaca a escrita como conexão íntima com o outro e como possibilidade de viver com autenticidade. Mesmo difícil, torna-se prática de exposição de alma e de comunhão atemporal entre escritor e leitor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-palavras-chave-clinica-escrita-suassuna-vida-autoanalise" style="font-size:19px"><strong>Palavras-chave</strong>: <strong>Clínica; escrita; Suassuna; vida; autoanálise</strong>.</h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Ao dedicar tempo a escrita sempre me falta tempo, sou daquelas que demora para sentar e desenvolver um texto ou artigo</strong>. Fico mais tempo refletindo sobre a inveja que tenho da facilidade dos bem habilitados a escrever. Tem gente que simplesmente consegue desenvolver em uma sentada aqueles textos incríveis, engraçados e elaborados que nos prendem no seu desenvolver e saímos ao final com aquela sensação que foi tão bom o que li que poderia durar mais. Mas infelizmente sou do outro tipo de gente, que um bom texto é um texto feito e sempre se consola com o famoso ditado: “<em>antes o feito que o perfeito</em>”.</p>



<p style="font-size:19px">A minha reflexão vem conjunta com a minha profissão de analista junguiana e paralela a minha insistência (ou teimosia, não sei) de me colocar sempre em posições de “desconforto” nesse lugar. Fugir da Academia me empurrou diretamente para ela e, com isso, me vejo escrevendo. A maioria sempre sai a fórceps, mas me vejo algumas vezes conduzida por um eu “que não sou eu” a elaborar “coisas” interessantes, e sempre me surpreendo com isso.</p>



<p style="font-size:19px">Tudo bem que sempre me vi como uma pessoa criativa, talvez isso tenha sido tão verbalizado no meu seio familiar quando eu era criança que eu acredito nisso até hoje, pode ser crença, porém vejo como uma habilidade que pode ter me conduzido até onde estou hoje. Mas a criatividade é mais trabalho do que propriamente um dom inato e impermeável aos pouco criativos, tenho estudado isso há algum tempo. Criatividade exige esforço, crise e tentativa de solução. Sempre usei essa fórmula para as técnicas expressivas e essa foi uma boa saída para meus processos internos, já a escrita não.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-escrita-estava-naquele-lugar-imaginal-de-uma-bencao-concedida-a-poucos" style="font-size:19px"><strong>A escrita estava naquele lugar imaginal de uma benção concedida a poucos</strong>.</h2>



<p style="font-size:19px">Ariano Suassuna que fala: &#8220;<em><strong>O sonho é que leva a gente para a frente. Se a gente for seguir a razão, fica aquietado, acomodado</strong></em>&#8220;, não basta a criatividade, precisa de <em>borogodó</em> para traçar o roteiro e contar a história sem se perder, sem enrolar, sem ficar chato ou enfadonho. Uma espécie de condução direta ao leitor, tão intima e precisa que quando te leem vocês estão conectados de forma direta pelo inconsciente coletivo. Você – escritor &#8211; conduz o outro &#8211; o leitor &#8211; direto a SUA imaginação e assim a história se desenvolve DENTRO de uma outra pessoa que pode nunca te ver, nunca te encontrar e nesses tempos de rede social encontrar um pedaço do que você produziu e nem saber quem você é ou foi.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Na minha clínica me sinto muito uma leitora de livros muito bem escritos pelos meus clientes</strong>. Ler, sempre foi uma posição mais confortável para mim, por isso talvez ter feito terapia antes de me tornar terapeuta me deu uma percepção interna e profunda da importância e dedicação do trabalho do terapeuta, ajudar o outro a ampliar a própria história ajuda a boas narrações para “finais felizes”, ou reviravoltas emocionantes a quais podemos chamar de “plot twist” (guinadas surpreendentes e incríveis!). Escrever é sempre mais difícil na minha visão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-escrever-pode-estar-associado-a-viver" style="font-size:19px"><strong>Escrever pode estar associado a viver</strong>.</h2>



<p style="font-size:19px">Viver é difícil! E como Jung expressa em <em>Símbolos da Transformação Vol.5 de OC</em>: “<strong><em>O reverso da santidade são as tentações, sem as quais nenhum santo pode viver</em></strong>”. (§436) Somos chamados o tempo todo a saber viver, experimentar, realizar e o que diferencia a disponibilidade a “santidade” de servir ao Self é saber que sempre estaremos expostos a tentação da acomodação e nos colocarmos protegidos em “templos”. A verdadeira santidade, o verdadeiro servir ao Self, é nos relacionarmos com o mundo, nos aventurarmos em possibilidades de continuar firmes na caminhada com proposito ao lado das tentações, e negando ao medo de viver a possibilidade de viver “de verdade”. Vejo isso quando me permito escrever, mesmo não considerando uma área a qual tenho talento ou dom inato, tenho me negado cada vez menos a essa exposição; e esse texto vem falar sobre isso.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>No ato da redenção revive o que estava sem vida, morto; isto significa psicologicamente: aquelas funções que jaziam incultas e estéreis, inativas, reprimidas, desprezadas, subestimadas etc. irrompem e começam a viver. É exatamente a função menos valorizada que leva avante a vida, ameaçada de extinguir-se na função diferenciada. &nbsp;</p><cite>Jung, 2012 vol.6, §496</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-concordo-que-e-muito-dificil-a-gente-se-expor-a-experiencias-que-nao-nos-sao-agradaveis-ou-consideramos-enfadonhas-nao-vejo-a-escrita-nesse-lugar" style="font-size:19px">Concordo que é muito difícil a gente se expor a experiências que não nos são agradáveis ou consideramos enfadonhas, não vejo a escrita nesse lugar.</h2>



<p style="font-size:19px">A realidade é que gosto tanto de ler livros, ouvir histórias bem contadas e ver desenvolvimento de enredos surpreendentes em filmes, series e afins que meu senso crítico me reprime. Quem conta melhor uma história do que alguém que viveu ou vivenciou aquilo? Talvez por isso fico tão atenta nos relatos em setting terapêutico. Mas voltando a repressão crítica quando Jung fala: “<strong><em>se alguém se voltar só para fora, tem que viver seu mito; se for para dentro, tem que sonhar sua vida exterior, a vida real</em></strong>” (Jung, 2012 vol.6 §268) ficou fácil entender que a escrita vinha como um processo terapêutico ordenador e organizador para mim, e acaba sendo uma necessidade para alguém introvertido (como eu).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-existem-muitos-tipos-de-introvertidos-talvez-seja-bom-lembrar-consegue-se-achar-por-essa-consideracao-de-jung" style="font-size:19px">Existem muitos tipos de introvertidos, talvez seja bom lembrar. Consegue se achar por essa consideração de Jung?</h2>



<p style="font-size:19px">Talvez o que me aprisiona nesse movimento da escrita é a sinceridade, como esse texto explora, o medo de ser expor já que pela palavra é mais difícil eu sair fora da persona. Um pensamento rápido e uma língua afiada são ferramentas disponíveis, escrever exige elaborar e conduzir. E para ser interessante, precisa de alma, colocar alma na escrita nos expõe a muitos, relações reais são mais reduzidas e nos revelarmos a elas é escolha. Algumas nos conhecem muito, outras nem tanto. Podemos manter um ar distante e formal. Mas a escrita sendo uma organização pode nos colocar visíveis numa humanidade que um introvertido (como eu, lembrando) se sinta tremendamente <em>vulnerável</em>.</p>



<p style="font-size:19px">Escrever hoje ocupa outros espaços para mim, não fica mais fácil, mas com certeza é mais leve e prazeroso. Menos acadêmico também. Tenho me permitido a exposição de alma e vejo a escrita como um a troca que vai além do conteúdo partilhado, mas também uma permissão e acesso a imaginação daquele que comunga suas percepções, talvez as que julga mais interessante, com todos aqueles que vão acessar, ler e compartilhar.</p>



<p style="font-size:19px"><strong><em>Poderia ser um acesso indireto a gente mesmo que isso seja em outro tempo? Não sei. Mas gosto da ideia dessa conexão atemporal permitida, e fico pensando que Suassuna talvez tenha razão quando falou que &#8220;quem gosta de ler não morre só&#8221;.</em></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Ensaio sobre a escrita, vida e autoanalise&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/NIRiKYtiXTE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/barbara/">Bárbara Pessanha – Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p style="font-size:16px">JUNG, C. G. <strong>Símbolos da Transformação 5</strong>. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. [OC 5]</p>



<p style="font-size:16px">JUNG, C. G. <strong>Tipos Psicológicos 6</strong>. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. [OC 6]</p>



<p style="font-size:16px">FERNANDES, Márcia. <strong>Ariano Suassuna. </strong>Disponível em: <a href="https://www.todamateria.com.br/ariano-suassuna/">https://www.todamateria.com.br/ariano-suassuna/</a> Acesso: 20. set. 25.</p>



<p style="font-size:16px">MONTAIGNE, Michel de. <strong>Os ensaios</strong>: uma seleção. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.</p>



<p>&#8212;</p>



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