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	<title>Arquivos meio da vida - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos meio da vida - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Anima-poesia: o homem e a escrita na metanoia do meio da vida</title>
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					<comments>https://blog.ijep.com.br/anima-poesia-o-homem-e-a-escrita-na-metanoia-do-meio-da-vida/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Wagner Borges]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Oct 2026 14:38:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[anima/animus]]></category>
		<category><![CDATA[Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Masculinidade]]></category>
		<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Simbolismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A expressão poética pode ser um caminho de autoencontro e autodescoberta para o homem na metanoia do meio da vida? A partir do pensamento de Carl Gustav Jung, procuro responder a essa e outras perguntas neste artigo. Recorro, para isso, a poemas e textos poéticos de diferentes autores, como o próprio Jung, Drummond e Leminski. Também falo da palavra enquanto símbolo e como, ao florescer do coração do homem em transformação, ela transcende seu caráter semiótico e revela o indivíduo numa dimensão muito mais ampla.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: A expressão poética pode ser um caminho de autoencontro e autodescoberta para o homem na metanoia do meio da vida? A partir do pensamento de Carl Gustav Jung, procuro responder a essa e outras perguntas neste artigo. Recorro, para isso, a poemas e textos poéticos de diferentes autores, como o próprio Jung, Drummond e Leminski. Também falo da palavra enquanto símbolo e como, ao florescer do coração do homem em transformação, ela transcende seu caráter semiótico e revela o indivíduo numa dimensão muito mais ampla.</p>



<h2 id="h-poesia-e-alma-e-alma-poesia-pergunte-a-qualquer-poeta-mas-o-que-e-alma" class="wp-block-heading" style="font-size:21px">Poesia é alma e alma, poesia; pergunte a qualquer poeta. Mas o que é alma?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há uma miríade de definições e todas, a meu ver, sempre serão indefinitivas: a essência, o imaterial, o imortal do ser que nos habita, enfim. Já a poesia parece ser mais facilmente definível, mas um olhar mais ampliado, porém, pode nos levar a compreender que, como pensam os poetas, poesia e alma são sinônimos. <em>Poiesis</em> é a origem grega da palavra e significava “criação”. E o que caracteriza mais a alma humana senão sua capacidade de criar mundos e significados? Tal capacidade parece animar o homem e o verbo animar vem do substantivo latino <em>anima</em>, que significa alma.</p>



<h2 id="h-na-psicologia-analitica-a-alma-daqueles-que-se-identificam-como-homens-e-chamada-de-anima-e-a-daquelas-que-se-identificam-como-mulheres-animus-logos-espirito-razao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na psicologia analítica, a alma daqueles que se identificam como homens é chamada de <em>anima</em> e a daquelas que se identificam como mulheres, <em>animus</em> (<em>logos</em>, espírito, razão).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Jung (2011a, p. 27), a <em>anima</em> seria a energia feminina pulsante no homem e o <em>animus</em> seria o lado masculino na mulher. Isso mesmo: a alma seria o “avesso” do “eu”. <em>Anima</em> e <em>animus</em>, no caso, não têm necessariamente caráter sexual. É <em>Yang</em> e <em>Yin</em>: um para fora, a outra, dentro; um de ação, a outra, contemplação; um de separação, a outra, integração; razão e sensibilidade. Todos nós, seres humanos, somos os dois, independentemente do gênero.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando me refiro à poesia, refiro-me às expressões poéticas, ou seja, não me limito ao verso. E a poesia, em parágrafos ou estrofes, tem sido essencial na minha vida desde a adolescência. Tem feito, de muitas das minhas feridas anímicas, pérolas intimamente preciosas. Foi essencial na minha juventude, quando me ajudou a tomar coragem para viver experiências amorosas e a traduzir o mundo numa perspectiva mais profunda e sensível. Seguiu me acompanhando e, já perto dos 40 anos, na metanoia da meia-idade — do grego <em>meta-</em> (mudança) &#8211;<em>noein</em> (mentalidade) —, voltou a me amparar de metáforas quando o mundo me parecia excessivamente monocolor e sem sentido.</p>



<h2 id="h-alguem-ha-de-perguntar-se-o-meio-da-vida-e-um-marcador-cronologico-preciso-para-todos-os-seres-humanos-a-resposta-e-nao-uso-os-40-como-referencia-e-por-aproximacao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Alguém há de perguntar se o meio da vida é um marcador cronológico preciso para todos os seres humanos. A resposta é não. Uso os 40 como referência e por aproximação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De volta à poesia, acho curioso como, no meu caso, ela se impôs de forma imperativa em momentos de crise: adolescência e meio da vida. Acredito ter encontrado, na psicologia analítica, uma possível explicação, que, todavia, passa longe de ser definitiva e única. Em alguma medida, essas crises sempre disseram respeito à necessidade que eu sentia (e sinto) de me encontrar com “minha” alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na adolescência, minha mais íntima natureza pedia que eu saísse do seio familiar, fosse além dos limites da vizinhança e me entregasse a ela fora, projetada, porque o mundo externo só tem sentido e é animado, para o indivíduo, quando é capaz de refletir a alma dele. Na metanoia do meio da vida, parecia impossível encontrar ânimo fora, simplesmente porque alguém, em mim, exigia que eu fosse capaz de reconhecê-la dentro, no mais íntimo, e, a partir de tal reconhecimento, pudesse suportar o mundo quando não me refletisse.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em ambos os casos, já disse, a poesia veio (e segue por aqui) em meu socorro na crise e talvez Barros (2015, p.55), ao escrever que “ninguém é pai de um poema sem morrer”, consiga explicar a razão. Afinal, nos momentos críticos da vida, o que se precisa, antes do renascer, é morrer.</p>



<h2 id="h-para-alem-de-mim" class="wp-block-heading"><strong>Para além de mim</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A compreensão sobre como a personalidade se desenvolve ao longo da vida na perspectiva junguiana, o valor da arte para a psicologia analítica, para a busca de autoconhecimento e até mesmo a forma poética com que, aos meus olhos, o próprio Jung escreveu, mesmo suas obras científicas, me levou a pensar que esse (re)encontro com a alma, por meio da poesia, perto do meio da vida, não era exclusividade minha.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Jung, o propósito do ser humano, num sentido psicológico, é estar sempre a serviço de sua singular integralidade, o que pressupõe encontrar maneiras de promover enlaces entre as polaridades das quais a psique se constitui: luz e sombra, consciente e inconsciente, masculino e feminino…</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Aquilo que o indivíduo jovem considera como regressão, isto é, a feminilidade do homem (identidade parcial com a mãe) e a masculinidade da mulher (identidade parcial com o pai), na segunda metade da vida adquire outro significado. A assimilação da tendência do sexo oposto torna-se uma tarefa que precisa ser resolvida para manter a libido em progressão. A tarefa consiste na integração do inconsciente, na combinação de “consciente” e “inconsciente”. Denominei este processo de individuação. (JUNG, 2013f, p. 359)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa integração não é perene nem definitiva e precisa ser sempre conquistada e reconquistada ao longo da existência. É um destino que está sempre mudando de lugar e, assim, vira passagem. A psicologia analítica vê, nas artes, pontes que contribuem para integrar as polaridades psíquicas (Cf. JUNG, 2011a, p. 215). Poesia é arte. Haveria, então, de ser ela, para o homem no meio da vida, uma ponte erigida pela <em>anima</em> para que possa integrar a si mesmo e provar, por uma efêmera eternidade, a sensação de inteireza?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para sustentar a hipótese de que a resposta à pergunta acima seja sim, não posso me limitar ao meu exemplo. Por isso, é importante trazer outros. Começo pelo próprio Jung que, n’<em>O livro vermelho</em>, obra de explícito caráter literário, fruto de um processo de imaginação ativa, por meio do qual “confrontou seu inconsciente”, descobriu poeticamente o que a metanoia da meia-idade queria que ele visse.</p>



<h2 id="h-o-livro-foi-alem-inspirou-e-deu-sentido-a-toda-sua-producao-cientifica-e-lhe-revelou-a-necessidade-do-encontro-com-a-anima-para-vislumbrar-a-propria-integralidade" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O livro foi além, inspirou e deu sentido a toda sua produção científica e lhe revelou a necessidade do encontro com a <em>anima</em> para vislumbrar a própria integralidade.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>[&#8230;] em minha viagem equivocada através das coisas descobri a humanidade e o mundo. Encontrei pessoas. E encontrei a ti, minha alma, primeiramente em imagem na pessoa e, depois, a ti mesma. Encontrei-te lá onde menos esperava. De lá subiste para mim de um poço escuro. (JUNG, 2015, p.119)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Primeiramente na pessoa e, depois, a ti mesma.” Interessante pensar “na pessoa”, como uma projeção, movimento natural no indivíduo em sua juventude, quando a alma o lança para fora, para a vida, e, “depois, a ti mesma”, como autoencontro, numa espécie de caminho de volta, necessário à maturidade. Em sua obra poética, Jung (2015, p. 119) traz outras passagens que, a meu ver, corroboram o papel da poesia como um caminho para o homem que busca integrar a <em>anima</em>: “Onde estavas tu neste tempo todo? Que além te abrigava e te dava guarida? Oh, que tu tenhas através de mim, que minha linguagem e eu sejamos para ti símbolo e expressão! Como devo decifrar-te?”</p>



<h2 id="h-a-palavra-como-simbolo" class="wp-block-heading"><strong>A palavra como símbolo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A palavra, ainda mais a palavra escrita, está associada à razão, a objetividade, a intelectualidade e a literalidade antes de se associar à literatura, o lirismo, a metáfora e o sentimento. Não por acaso os gregos antigos também se referiam à palavra pelo termo <em>logos</em>. Não por acaso os primeiros usos da palavra escrita, pelo homem, foram de caráter semiótico, textos contábeis, registros de controle e de natureza burocrática (Cf. HARARI, 2015, pp. 150-151).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No Evangelho, a tradução portuguesa traz o termo “Verbo” como substituto de <em>Logos</em>. No contexto bíblico, a palavra ou verbo, então, se torna sinônimo de luz, de Sol, do que ilumina, esclarece ao permitir discernir e ordenar. O “Verbo” se torna o princípio da consciência manifesta, da criação, que já existia, em potência, no mistério do universo, antes mesmo de se manifestar (Cf. JUNG, 2013f, p. 381).</p>



<h2 id="h-o-logos-ja-vimos-esta-associado-ao-principio-masculino-o-animus-na-mulher" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O <em>logos</em>, já vimos, está associado ao princípio masculino, o <em>animus</em> na mulher</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E, não sem motivo, Emma Jung (2020, p.37) considerava a palavra um atributo do <em>animus</em>, por isso, segundo ela, “os homens que atuam pela palavra podem, no bom e no mau sentido, exercer grande poder [de sedução] sobre a mulher”. O homem que domina bem as palavras fala diretamente à alma da mulher, ou seja, ao <em>animus</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se as palavras tornam o homem sedutor para as mulheres, porque não o tornaria capaz de seduzir o feminino que habita e anima a ele próprio? Hoje, estou convencido do que já suspeitava desde antes: que escrevo para seduzir, para agradar e servir, assim como Jung, à minha alma. Mas, para que isso seja possível, preciso levar a palavra a uma dimensão mais literária que literal, mais metafórica e capaz de unir, bem mais do que discernir e separar. Na expressão poética, a palavra se erotiza, vincula e, assim, vira símbolo, reúne o que estava separado: consciente e inconsciente.</p>



<h2 id="h-rumo-as-coisas-mais-simples" class="wp-block-heading"><strong>Rumo às coisas mais simples</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Emma Jung (Cf. 2020, p.p. 118-119) me ajuda mais uma vez ao falar de William Sharp que, a partir de seus 38 anos de idade, criou o pseudônimo feminino Fiona McLeod, com o qual passou a assinar algumas de suas obras mais importantes. Segundo a crítica da época, os livros de Fiona se destacavam por uma “voz notavelmente misteriosa” e “uma identidade com a natureza”: <em>“Sua arte é daquele grande tipo que está baseada na revelação e que tem a ver com coisas invisíveis e inapreensíveis&#8221;.</em></p>



<h2 id="h-emma-traz-uma-entrevista-com-sharp-na-qual-ele-fala-do-papel-de-fiona" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Emma traz uma entrevista com Sharp, na qual ele fala do papel de Fiona:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Como mulher, posso usar da sinceridade que é impossível usar como William Sharp&#8230; Esse sentimento embriagante de ser um com a natureza, esse êxtase e elevação cósmicos, esse perambular pelas fronteiras mais externas do mundo usual, tudo isso está tão entrelaçado com o romantismo da vida que eu não poderia me expressar com meu Eu superior externo usual. (JUNG, 2020, p. 119)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É interessante observar como o eu lírico feminino de Sharp o devolve ao simples, misterioso e natural de seu próprio ser. Um dos atributos da energia masculina é a valorização do poder, o que, de forma unilateral, se dará em detrimento de Eros, o princípio do amor, da doação maternal. Algo parecido se pode verificar com Jung (2015, p. 107), n’<em>O livro vermelho</em>, quando escreve sobre o “espírito da profundeza”, o <em>Self</em>, ao qual só se chega depois da conexão com a alma. O espírito da profundeza lhe “fala” de uma vida “para além” de lucros e valor, para além do “espírito dessa época”: <em>&#8220;O espírito da profundeza submeteu toda [a minha] vaidade e todo [o meu] orgulho à força do juízo[&#8230;] Forçou-me a descer às coisas mais simples e que estão em último lugar.&#8221;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As palavras de Jung são reforçadas por estudos recentes que mostram que a crise da meia-idade não diz respeito apenas a pessoas cuja primeira metade da vida não é vista como bem-sucedida. Constata-se “evidências de extrema angústia” em pessoas com essa idade e consideradas prósperas. A necessidade de priorizar a alma à <em>persona</em>, do meio da vida em diante, ao que parece, não é exclusividade de quem sente que fracassou na juventude. Ao que tudo indica, perto dos 40, há uma natural revisão de valores, que aproxima mais o indivíduo de questões menos públicas e mais íntimas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <em>persona</em>, vale esclarecer, é, na teoria junguiana, a máscara psicológica que se usa para o convívio social, enquanto <em>anima</em> e <em>animus</em> são os guias necessários para a nossa interioridade (Cf. JUNG, 2011b, pp. 68-69). A partir da meia-idade, embora não se deva negligenciar a vida social, o que nos anima é o que está dentro e é para lá que nos leva a verdadeira poesia.</p>



<h2 id="h-para-alem-da-utilidade" class="wp-block-heading"><strong>Para além da utilidade</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Dentro de um mundo utilitarista e baseado no “valor e no lucro”, como o nosso, a jornada pela poesia é contraponto. Afinal, quanto vale o verso? O poeta Paulo Leminski (2012, p. 82), perto dos 42 anos, escreveu, no ensaio <em>Inutensílio</em>, que “a ditadura da utilidade é unha e carne com o lucrocentrismo de toda essa nossa civilização”. Dessa forma, completa o poeta, “corrompe todos os setores da vida, fazendo crer que a própria vida tem de dar lucro”. É nesse ponto, que, para Leminski, a poesia e sua essência anímica nos devolvem o sentido e o valor da vida:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Quem quer que a poesia sirva para alguma coisa não ama a poesia. Afinal, a arte só tem alcance prático em suas manifestações inferiores[&#8230;] O lucro da poesia, quando verdadeira, é o surgimento de novos objetos no mundo. Objetos que signifiquem a capacidade da gente de produzir mundos novos. Uma capacidade in-útil. Além da utilidade. (LEMINSKI, 2012, p. 83)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Carlos Drummond de Andrade, aos 42 anos, lançou a obra <em>Rosa do Povo</em>. Boa parte dos poemas de seu livro expressam seu momento de vida e me parece, talvez, querer encontrar sentido nas “coisas mais simples e que estão em último lugar”. Em <em>Consolo na praia</em>, Drummond produz versos ambíguos, que parecem fazer jus a Barros, para quem a paternidade de um poema pressupõe uma morte.</p>



<h2 id="h-numa-perspectiva-simbolica-e-longe-de-uma-interpretacao-definitiva-fala-alto-a-meu-ver-a-quem-vive-a-metanoia-do-meio-da-vida" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Numa perspectiva simbólica e longe de uma interpretação definitiva fala alto, a meu ver, a quem vive a metanoia do meio da vida:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Vamos, não chores…</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>A infância está perdida.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>A mocidade está perdida.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Mas a vida não se perdeu.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O primeiro amor passou.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O segundo amor passou.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O terceiro amor passou.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Mas o coração continua.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Perdeste o melhor amigo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Não tentaste qualquer viagem.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Não possuis casa, navio, terra.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Mas tens um cão.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Algumas palavras duras,</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>em voz mansa, te golpearam.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Nunca, nunca cicatrizam.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Mas, e o humour?</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>A injustiça não se resolve.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>À sombra do mundo errado</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>murmuraste um protesto tímido.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Mas virão outros.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Tudo somado, devias</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>precipitar-te, de vez, nas águas.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Estás nu na areia, no vento…</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Dorme, meu filho.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(ANDRADE, 2022, p. 111)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Precipitar-se nas águas para se refazer, deixar no mar o que precisa morrer e levar consigo, para a areia, só o que importa: corpo e alma. Depois, olhar para dentro, para os sonhos, e despertar para uma vida com menos ilusões.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/wagnerhilario/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/wagnerhilario/">Wagner H P Borges — Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi — Membro Didata pelo IJEP</a></strong></p>



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<h2 id="h-bibliografia" class="wp-block-heading"><strong>Bibliografia:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">ANDRADE, Carlos Drummond de. <em>A rosa do povo</em>. Rio de Janeiro: Record, 2022. Edição Digital.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BARROS, Manoel de. <em>Meu quintal é maior do que o mundo</em>. São Paulo: Objetiva, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GIUNTELLA, Osea; MCMANUS, Sally; MUJCIC, Redzo; OSWALD, Andrew J.; POWDTHAVEE, Nattavudh; TOHAMY, Ahmed. <em>The Midlife Crisis</em>. NBER, 2022. Disponível em: <a href="https://www.nber.org/papers/w30442#fromrss">https://www.nber.org/papers/w30442#fromrss</a>. Acesso em: 17 de agosto de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HARARI, Yuval Noah. <em>Sapiens – uma breve história da humanidade</em>. Porto Alegre: L &amp; PM, 2015. Edição Digital.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. <em>A passagem do meio</em> <em>— da miséria ao significado da meia-idade</em>. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>Aion — estudo sobre o simbolismo do Si-mesmo</em>, 8ª ed. Petrópolis: Vozes, 2011a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 7ª ed. Petrópolis: Vozes, 2011b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. <em>A prática da psicoterapia</em>. 16ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. <em>Símbolos da transformação</em>. 9ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013f.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. <em>O Livro Vermelho — Liber Novus</em> (Edição sem ilustrações). 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Emma. <em>Animus e Anima</em>, 2ª ed. São Paulo: Pensamento Cultrix, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LEMINSKI, Paulo. <em>Ensaios e anseios crípticos</em>. Campinas: Editora da Unicamp, 2012. Edição Digital.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Entre o Vivido e o Não Vivido: A Sabedoria da Velhice</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/entre-o-vivido-e-o-nao-vivido-a-sabedoria-da-velhice/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rosana T W Hanada]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Mar 2026 15:20:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[crise da meia idade]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[meio da vida]]></category>
		<category><![CDATA[metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<category><![CDATA[Velhice]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo apresenta reflexões sobre o envelhecimento à luz da Psicologia Analítica, destacando-o como um período simbólico de ampliação da consciência e integração dos conteúdos inconscientes. A partir de Jung e de autores contemporâneos, reflete-se sobre a vida não vivida, o movimento de interiorização e a busca por significado como aspectos fundamentais da jornada de individuação na segunda metade da vida. Envelhecer, sob essa perspectiva, deixa de ser apenas um declínio biológico e se torna um convite à integração, à reconciliação e à plenitude.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Este artigo apresenta reflexões sobre o envelhecimento à luz da Psicologia Analítica, destacando-o como um período simbólico de ampliação da consciência e integração dos conteúdos inconscientes. A partir de Jung e de autores contemporâneos, reflete-se sobre a vida não vivida, o movimento de interiorização e a busca por significado como aspectos fundamentais da jornada de individuação na segunda metade da vida. Envelhecer, sob essa perspectiva, deixa de ser apenas um declínio biológico e se torna um convite à integração, à reconciliação e à plenitude.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao"><strong>Introdução</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Envelhecer é, talvez, uma das experiências humanas mais universais e, paradoxalmente, menos compreendidas. Em uma sociedade que idolatra a produtividade, a juventude e o desempenho, o processo de envelhecimento costuma ser visto sob a ótica da perda: perda do corpo, do vigor, do espaço social, da autonomia. Entretanto, para a Psicologia Analítica, a velhice representa muito mais do que um declínio orgânico. Trata-se de um período decisivo para a alma, um momento em que os conteúdos esquecidos, negados ou não vividos ao longo da vida retornam, convidando a consciência para um diálogo profundo com o inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A metáfora solar utilizada por Jung ilustra esse processo ao afirmar que “<strong>a vida desce agora montanha abaixo, com a mesma intensidade e irresistibilidade com que a subia antes da meia-idade</strong>” (JUNG, 2013a, §798). A consciência, antes dirigida ao mundo e às suas exigências, passa a se voltar para o íntimo, em que um pedido de reorganização e de sentido começa a emergir. É nesse ponto que a velhice revela sua dimensão simbólica: um tempo em que a vida nos devolve a nós mesmos. É um convite à interiorização, ao recolhimento e à pergunta essencial: <em>“O que foi feito da minha vida e o que ainda falta integrar?”</em> O envelhecimento é uma espécie de retorno ao próprio eixo, quando o ego, já cansado de manter as personas, encontra-se diante da tarefa inevitável de olhar para si mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esta reflexão nasce de duas fontes: minha trajetória pessoal e o estudo desenvolvido em meu trabalho sobre envelhecimento na conclusão do curso de psicologia junguiana. A intenção desse artigo é oferecer um olhar cuidadoso e humano sobre uma etapa que, embora temida, pode ser rica e libertadora.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-envelhecimento-como-movimento-de-interiorizacao" style="font-size:22px"><strong>O Envelhecimento como Movimento de Interiorização</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung comparou a vida humana ao curso do sol: da aurora ao zênite, a energia progride para fora e para frente, expandindo-se em direção ao mundo (Cf. JUNG, 2014, §114). É o período da juventude e da maturidade inicial, dedicado à formação das personas, ao aprendizado social, ao trabalho, aos papéis familiares e à conquista de um lugar no mundo. Trata-se da fase em que a consciência se fortalece por meio da relação com o exterior.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Entretanto, ao atravessar o meio-dia simbólico da vida, algo começa a mudar internamente. A força que impulsionava o indivíduo para fora passa a demandar retorno, introspecção e simplificação. O olhar antes voltado para conquistas e estabilidade começa a buscar silêncio, significado e profundidade. Jung descreve esse fenômeno como uma mudança natural do eixo energético, um deslocamento do foco da adaptação externa para a integração interna, pois:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>O ser humano não chegaria aos setenta ou oitenta anos se esta longevidade não tivesse um significado para a sua espécie. Por isto, a tarde da vida humana deve ter também um significado e uma finalidade próprios, e não pode ser apenas um lastimoso apêndice da manhã da vida.</p><cite>JUNG, 2013a, § 787</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-segunda-metade-da-vida-a-alma-pede-um-outro-tipo-de-alimento-menos-material-mais-simbolico-menos-performatico-mais-essencial" style="font-size:18px">Na segunda metade da vida, a alma pede um outro tipo de alimento: menos material, mais simbólico; menos performático, mais essencial.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É o período em que muitas pessoas começam a questionar seus valores, suas identidades e até mesmo a necessidade de manter certas máscaras sociais. A persona, tão necessária na adaptação ao mundo externo (Cf. JUNG, 2015, §246), começa a se mostrar estreita para conter o movimento da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse processo costuma ser acompanhado por sentimentos de estranhamento, inquietação ou certo vazio. O que antes parecia suficiente, como carreira, desempenho, reconhecimento, segurança, status, já não oferece o mesmo sentido. É o inconsciente que está chamando a atenção da consciência para a necessidade de reorganização interna (Cf. JUNG, 2013b, §331b).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A vida moderna reforça um padrão que prolonga artificialmente a lógica da juventude: produtividade contínua, culto ao corpo, aceleração, hiperconexão, negação da fragilidade e da vulnerabilidade. Essa força cultural empurra o indivíduo a permanecer na expansão, mesmo quando sua psique pede quietude. O conflito entre essas duas dinâmicas, a externa coletiva e a interna individual, gera sofrimento e angústia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, do ponto de vista junguiano, este é justamente o momento mais potente da existência. É quando a pessoa tem a oportunidade de questionar as narrativas que construiu sobre si mesma e de permitir que as partes esquecidas de sua alma, muitas vezes relegadas ao inconsciente por exigências da persona e do contexto social, venham à luz (Cf. HOLLIS, 1995, p. 58). É uma fase em que as perguntas se tornam mais importantes que as respostas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-meia-idade-a-pessoa-fica-mais-suscetivel-a-ocorrencia-da-metanoia-que-pode-significar-expansao-da-consciencia-ir-alem-da-razao-logica-transcender-converter-se-ter-mudanca-de-crencas-ou-visao-de-mundo-magaldi-2023" style="font-size:18px">Na meia-idade, a pessoa fica mais suscetível à ocorrência da metanoia, que pode significar “expansão da consciência, ir além da razão lógica, transcender, converter-se, ter mudança de crenças ou visão de mundo” (MAGALDI, 2023).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O envelhecimento, então, deixa de ser interpretado como perda e passa a ser compreendido como um convite para reorganizar a vida a partir da verdade interior, não mais das expectativas externas, mas um chamado para viver “melhor”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No caminho da individuação, esse movimento de interiorização representa maturação (Cf. JUNG, 2014, §91). Assim como o sol que se põe tingindo o céu de cores que só o entardecer pode produzir, o envelhecimento oferece tonalidades de sabedoria que não estão disponíveis em outras fases da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-vida-nao-vivida-e-o-retorno-dos-conteudos-esquecidos" style="font-size:22px"><strong>A Vida Não Vivida e o Retorno dos Conteúdos Esquecidos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao atravessar a metade da vida, muitas pessoas descobrem que o passado, antes acomodado em silêncios, retorna, muitas vezes, com surpreendente intensidade. Sensações de nostalgia, lembranças persistentes, perguntas sobre escolhas feitas ou evitadas, e um sentimento difuso de que “algo essencial ficou para trás” começam a ocupar a paisagem interior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-nesse-momento-que-nossa-vida-nao-vivida-se-ergue-dentro-de-nos-exigindo-nossa-atencao-johnson-2010-p-9" style="font-size:18px"><em>“É nesse momento que nossa vida não vivida se ergue dentro de nós, exigindo nossa atenção” (JOHNSON, 2010, p. 9).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Jung (Cf. 2013, §789), a vida vivida de forma expandida, útil, eficiente, com boa imagem social, emprego adequado e bom casamento são conquistas importantes e necessárias na primeira metade da vida, mas:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="is-style-large wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Infelizmente não são objetivos suficientes nem têm sentido para muitos que não veem na aproximação da velhice senão uma diminuição da vida e consideram seus ideais anteriores simplesmente como coisas desbotadas e puídas! Quantas coisas na vida não foram vividas por muitas pessoas – muitas vezes até mesmo potencialidades que elas não puderam satisfazer, apesar de toda a sua boa vontade – e assim se aproximam do limiar da velhice com aspirações e desejos irrealizados que automaticamente desviam o seu olhar para o passado (ibidem, p. 357).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nada-do-que-deixamos-de-viver-desaparece-tudo-e-preservado-no-inconsciente-a-espera-de-um-momento-propicio-para-emergir" style="font-size:18px">Nada do que deixamos de viver desaparece; tudo é preservado no inconsciente, à espera de um momento propício para emergir.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A meia-idade é o momento propício para que isso ocorra, conteúdos antes reprimidos encontram passagem para a consciência, trazendo à tona aspectos esquecidos, negados ou simplesmente negligenciados (Cf. HOLLIS, 1995, p. 58). A psique tenta reparar e integrar aquilo que ficou sem lugar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essas imagens que emergem, os sentimentos que insistem, as memórias que reaparecem têm o propósito de ampliar a consciência, mesmo quando provocam desconforto. A nostalgia que muitos sentem é um sinal simbólico de que fragmentos da personalidade desejam ser reconhecidos. Ela aponta para partes legítimas de nós mesmos que, por circunstâncias diversas, não puderam se desenvolver.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-a-vida-nao-vivida-nao-e-apenas-sombra-dolorosa-contem-tambem-brilho-vocacao-e-vitalidade-que-nao-encontrou-expressao-cf-johnson-2010-p-147" style="font-size:18px">Por isso, a vida não vivida não é apenas sombra dolorosa: contém também brilho, vocação e vitalidade que não encontrou expressão (Cf. JOHNSON, 2010, p. 147).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Muitas pessoas, ao envelhecer, se surpreendem ao reencontrar antigos desejos, gostos esquecidos, aspirações que adormeceram, sensibilidades que haviam sido abafadas pela necessidade de adaptação. Tudo isso ressurge, não para ser realizado literalmente, mas para ser integrado simbolicamente (<em>ibidem,</em> p. 239).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando esses aspectos retornam e não são reconhecidos, costumam produzir inquietação interna. A pessoa pode experimentar irritação frequente, rigidez, desânimo, ressentimentos difíceis de localizar, ou uma sensação persistente de inadequação. O sujeito percebe que viveu uma vida inteira respondendo às expectativas externas, familiares, sociais, culturais, e agora sente o peso de ter se afastado demais de si mesmo. Em alguns casos, esse processo pode manifestar-se em sintomas físicos, depressivos, sensação de fracasso ou medo de que o tempo restante não seja suficiente para viver de forma autêntica, conforme Stein (<em>apud </em>Pandini, 2014, p. 24).&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-fundamental-compreender-que-integrar-a-vida-nao-vivida-nao-significa-recuperar-literalmente-o-que-nao-foi-feito-algo-impossivel-e-muitas-vezes-fantasioso" style="font-size:18px">É fundamental compreender que integrar a vida não vivida não significa recuperar literalmente o que não foi feito – algo impossível e, muitas vezes, fantasioso.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A integração ocorre quando se permite que o significado daquilo que não foi vivido encontre expressão de alguma forma. Isso pode acontecer por meio da criatividade, da arteterapia, de novos interesses, de diálogos profundos, de maior liberdade emocional, de transformações internas, ou simplesmente pela capacidade de olhar para a própria história com autoperdão, compaixão e compreensão. Ao reconhecer esses conteúdos, o indivíduo resgata energia psíquica que estava aprisionada e sente-se mais inteiro, mais coerente consigo mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Envelhecer, assim, revela-se como um processo de reencontro. Não se trata apenas de revisitar o que passou, mas de compreender quem se tornou e quem ainda pode ser. A vida não vivida, quando acolhida, torna-se ponte entre o que fomos e o que podemos integrar. Ela permite que a última etapa da vida seja vivida em totalidade, com a serenidade de quem reconhece, nas palavras de Caetano Veloso, “a dor e a delícia de ser o que é” da canção “Dom de Iludir”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-envelhecer-a-luz-da-psicologia-analitica" style="font-size:22px"><strong>Envelhecer à luz da psicologia analítica</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Portanto, envelhecer é muito mais do que atravessar a última etapa cronológica da vida. Se a primeira metade da vida se organiza em torno da formação das personas, da adaptação ao mundo e da consolidação do ego, a segunda metade inaugura um processo inverso: a alma pede profundidade, interiorização e plenitude.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A velhice nos convida a rever a biografia pela ótica da presença. Não mais perguntamos “o que conquistei?”, mas “quem me tornei?”. Nessa fase, a necessidade de manter imagens sociais se afrouxa, permitindo que a autenticidade ganhe espaço. A consciência volta-se para temas outrora evitados como a vida não vivida, sendo uma oportunidade tardia de reconciliação. A proximidade da finitude, longe de ser apenas fonte de insegurança, desperta a urgência de viver o que ainda pode ser vivido, de integrar o que ficou esquecido e de honrar aquilo que não se pôde realizar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-hillman-lembra-que-esses-fragmentos-da-biografia-nao-sao-descartaveis-eles-precisam-ser-transformados-pela-reflexao-tardia-em-substancia-capaz-de-fortalecer-o-carater" style="font-size:18px"><strong>Hillman</strong> lembra que esses fragmentos da biografia não são descartáveis, eles precisam ser transformados pela reflexão tardia em substância capaz de fortalecer o caráter.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A revisão da vida, esse gesto de olhar para trás não apenas para recordar, mas para compreender, permite que erros e acontecimentos antes dispersos revelem padrões e significado. É como se a velhice nos oferecesse a oportunidade de organizar nossa narrativa interna, reconhecendo que cada experiência, mesmo as mais dolorosas, fazem parte de nossa alma (Cf. HILLMAN, 2001, p.24).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando vivido com consciência, o envelhecimento torna-se um processo alquímico. O supérfluo se dissolve, o essencial se intensifica, e aquilo que parecia fragmentado encontra coerência (Cf. MAGALDI, 2020). Revisar a vida não é apagar dores nem refazer escolhas, mas reconhecer seu propósito no desenvolvimento da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O ser humano não envelhece para morrer, mas para se tornar inteiro. O envelhecimento é a fase em que o Self, essa instância que transcende o ego, orienta com mais clareza seu chamado (Cf. JUNG, 2013a, §787). É como se, no crepúsculo da vida, a alma adquirisse uma outra luminosidade, menos solar, mais interior; menos expansiva, mais verdadeira.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, envelhecer torna-se um ato de coragem, a coragem de olhar para si, de acolher o que faltou, de reconciliar o vivido e o não vivido, de aceitar a própria história e de permitir que a vida siga seu curso natural. E é justamente nesse gesto de entrega, desapego e autenticidade que se revela a maior possibilidade dessa etapa: viver, finalmente, a vida como merece ser vivida – porque <strong>envelhecer é fazer da vida uma obra. E toda obra verdadeira, quando chega ao fim, não se encerra: se revela.</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/beatriz-whitaker/">Rosana T W Hanada – Analista em formação IJEP</a></strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/">Lia Romano – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James<em>. </em><em>A força do caráter</em> <em>e a poética de uma vida longa</em>. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. <em>A passagem do meio. </em>Da miséria ao significado da meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JOHNSON, Robert. <em>A vida não vivida: </em>A arte de lidar com sonhos não realizados e cumprir o seu propósito na segunda metade da vida. São Paulo: Paulus, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>A Natureza da Psique. </em>10.ed.Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ O <em>Desenvolvimento da Personalidade</em>. 14.ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Psicologia do Inconsciente</em>. 24.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O Eu e o Inconsciente</em>. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI FILHO, Waldemar (2020). <em>Alquimia e Psicologia Junguiana</em>. <em>&lt;https://www.youtube.com/watch?v=zxKBRbY2ENE&gt; </em>Acesso em 29 nov. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI FILHO, Waldemar (2023). Metanoia na Psicologia Analítica.&nbsp; &lt;<em>https://blog.ijep.com.br/metanoia-na-psicologia-analitica&gt;/</em> Acesso em 25 nov. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PANDINI, Ana. <em>Metanoia:</em> caminho para o desenvolvimento no meio da vida.&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tese Doutorado USP. São Paulo, 2014. 176 f. Disponível em: &lt;<em>https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-19122014-110846/pt-br.php</em>&gt;&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<item>
		<title>No meio da vida, é preciso imaginar Sísifo infeliz</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/na-meio-da-vida-e-preciso-imaginar-sisifo-infeliz/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Wagner Borges]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Dec 2025 13:44:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[cgjung]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[meio da vida]]></category>
		<category><![CDATA[mitologia]]></category>
		<category><![CDATA[morte e renascimento]]></category>
		<category><![CDATA[morte simbólica]]></category>
		<category><![CDATA[sísifo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O mito de Sísifo, numa perspectiva junguiana, pode ilustrar a resistência humana a abrir mão de uma atitude psíquica obsoleta para a descoberta de uma nova e necessária atitude. O escritor franco-argelino, Albert Camus, defende que Sísifo representa o ideal heróico humano em face do absurdo da vida. Por isso, para ele, seria preciso [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O mito de Sísifo, numa perspectiva junguiana, pode ilustrar a resistência humana a abrir mão de uma atitude psíquica obsoleta para a descoberta de uma nova e necessária atitude. O escritor franco-argelino, Albert Camus, defende que Sísifo representa o ideal heróico humano em face do absurdo da vida. Por isso, para ele, seria preciso imaginar Sísifo feliz no Tártaro. A partir de dados de um estudo realizado com pessoas bem-sucedidas na meia-idade, mas paradoxal e perturbadoramente infelizes, este pequeno ensaio aborda Sísifo como um complexo afetivo, contrapõe a leitura clássica à de Camus e propõe uma rota de saída do nosso mais íntimo Tártaro, o qual costumamos visitar no meio da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-crise-da-meia-idade-e-assunto-antigo-no-meio-junguiano" style="font-size:20px">A crise da meia-idade é assunto antigo no meio junguiano.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Foi no meio da vida que Jung produziu o conteúdo d’<em>O Livro Vermelho</em>, lírica nascente do que viria a se tornar boa parte de suas obras completas. No entanto, por muito tempo, o tema parece ter sido negligenciado pelos meios acadêmicos científicos tradicionais. Com o envelhecimento da população mundial, porém, o assunto emerge na academia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Estudo publicado há três anos pelo National Bureau of Economic Research (NBER) dos Estados Unidos, intitulado The Midlife Crisis, confere um verniz materialista-científico à metanoia, palavra do grego que significa “mudança de mentalidade” e que, no meio junguiano, costuma designar também o drama que muitas pessoas vivem ao chegar ao meio-dia da vida. Realizado por um grupo de economistas, a pesquisa envolveu uma amostra de 500 mil pessoas de países ricos — Áustria, Canadá, Finlândia, França, Holanda, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos — e, na visão dos pesquisadores, revelou que a crise da meia-idade não é misticismo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-o-estudo-assinado-por-giuntella-et-al-2022-p-19-20-ha-evidencias-longitudinais-de-extrema-angustia-entre-adultos-de-meia-idade-entre-quarenta-e-cinquenta-anos-em-paises-ricos" style="font-size:19px">Segundo o estudo, assinado por <strong>Giuntella</strong> (et al., 2022, p. 19-20), há “<em>evidências longitudinais de extrema angústia entre adultos de meia-idade [entre quarenta e cinquenta anos] em países ricos</em>”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O que parece fugir inteiramente à razão dos pesquisadores, segundo os quais, “<em>esses indivíduos estão próximos de seus ganhos máximos ao longo da vida e, em geral, não passaram por nenhuma doença grave</em>”. Ou seja, com grana e, em tese, ainda com vitalidade de sobra, tais “evidências de extrema angústia”, o que inclui depressão extrema, ideações suicidas, suicídio, distúrbios do sono, entre outros, só podem ser, na palavra dos próprios pesquisadores, um “paradoxo pertubador” da “sociedade moderna”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>É possível afirmar que, sob a lente junguiana, não há, no sentido apontado pelo estudo, paradoxo na metanoia, embora haja perturbação de sobra</strong>. Mas como pode não ser paradoxal se os caras estão no ápice de suas carreiras, com segurança financeira e são, em grande medida, bem-sucedidos? Por que estariam infelizes, deprimidos e pensando ou cometendo suicídio?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nossos-quereres-sao-menos-nossos-do-que-supomos-e-mudam-ao-longo-da-existencia" style="font-size:19px">Nossos quereres são menos nossos do que supomos e mudam ao longo da existência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Como escreveu <strong>Jung</strong> (2013a, p. 354): “<em>Não podemos viver a tarde de nossas vidas segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã, será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã, será falso no entardecer</em>”. Contudo, numa sociedade que supervaloriza a hiperprodutividade, o vigor, a beleza sensual, o sucesso, a conquista material e a força, é difícil enxergar vida na poesia, na sabedoria, na intuição, é difícil fazer da dor pérola, do sofrimento significado, das rugas troféus, da velhice uma bênção e, da morte, ressurreição — talvez nunca tenha sido fácil. Tem-se assim, então, um mundo de Sísifos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sísifo, o mais astuto dos mortais e rei de Corinto, ficou famoso na Grécia Antiga por ultrapassar seus limites humanos ao meter-se num assunto dos deuses. Delatou Zeus em uma de suas luxuriosas incursões entre os humanos e extorquiu o deus-rio Asopo para conseguir uma fonte d’água para a sua cidade. O fim até era nobre, mas os meios eram questionáveis e Zeus, em seu divino orgulho ferido, pediu sua cabeça. Sísifo, porém, se negaria a morrer: primeiro, enganaria Tânatos; depois, Hades.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por tanta ousadia e desaforo aos deuses, foi condenado ao Tártaro, onde deveria rolar uma enorme e pesada pedra montanha acima, consciente de que jamais seria capaz de levá-la ao topo. A poucos centímetros do cume, inevitavelmente perderia suas forças, sendo obrigado a deixar que a pedra rolasse montanha abaixo. Era, assim, obrigado a voltar ao pé da montanha, pegar a pedra de novo para reiniciar o trabalho sem sentido a que estava eternamente condenado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-deuses-viraram-doencas" style="font-size:19px"><strong>Os deuses viraram doenças</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na perspectiva da moral clássica, Sísifo é mais um exemplo do desejo humano de não se curvar diante das forças misteriosas e impiedosas dos deuses — ou da natureza. Extrapolar a própria condição humana e se identificar com as intenções, que, para os gregos, não eram humanas, mas divinas, era o maior dos pecados que um homem poderia cometer: a <em>hýbris</em>. Sísifo não aceitou a sua humana mortalidade e fez “das tripas coração” para não morrer. Assim, acabou condenado a uma imortalidade sem vida no mundo dos mortos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O espírito dos novos tempos é diferente do da Grécia Antiga. Pensamentos, desejos, sentimentos, sonhos e imaginações, mesmo que não venham das nossas deliberações conscientes, mas a partir de fontes misteriosas que parecem ter autonomia, são tratadas sempre com pronomes possessivos. É tudo “meu” ou “minha”. Com essa mentalidade reinante, o que acontece quando a produção espontânea e inconsciente da psique não está de acordo com a minha vontade consciente? Se tudo em mim sou eu e não há espaço para outros em mim, então, essas imagens só podem ser a prova de que adoeci. Daí vem a famosa máxima de Jung segundo a qual os deuses viraram doenças.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-indicadores-de-extrema-angustia-na-meia-idade-aos-quais-alude-a-pesquisa-que-inspira-este-ensaio-sao-aos-olhos-contemporaneos-doencas" style="font-size:19px">“Os indicadores de extrema angústia” na meia-idade, aos quais alude a pesquisa que inspira este ensaio, são, aos olhos contemporâneos, doenças.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na visão junguiana, assim como os deuses, as doenças querem revelar algo. Mas o que? Seria a resistência inútil do homem de meia-idade a aceitar a morte de quem ele foi na primeira metade da vida adulta para encontrar a nova versão de si na segunda metade? A hipótese deste ensaio é a de que sim. É interessante, então, imaginar que, na meia-idade, a depressão, por exemplo, cujo significado etimológico é pressão para dentro, possa ser, no plano simbólico, um indesejável mergulho nas regiões mais profundas do Hades de si próprio. As entranhas da terra (ou da alma) são a cova e o útero ao mesmo tempo. É necessário realizar o sacrifício de uma parte de quem éramos para renascermos numa nova perspectiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Albert Camus em seu ensaio <em>O Mito de Sísifo</em>, escrito em 1942, quando os gritos da Segunda Grande Guerra soavam em alto e bom som, trouxe uma perspectiva diferente, redentora e heróica de Sísifo, lendo-o como um personagem da resistência humana ao absurdo da existência e da vontade dos deuses, vendo nisso um mérito. Com apenas 28 anos, o escritor franco-argelino, que ganharia o Nobel em 1957, talvez não pudesse aceitar a vontade dos deuses quando ela permitia que os nazistas controlassem Paris e boa parte da Europa. Camus (2021, p. 141) escreve: “D<em>eixo Sísifo na base da montanha! [&#8230;] Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e ergue as rochas [&#8230;] A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz</em>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-busca-da-resposta" style="font-size:19px"><strong>Em busca da resposta</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Independentemente do contexto histórico, todos trazemos, em si, um complexo de Sísifo, ou seja, uma personalidade autônoma sensível a gatilhos afetivos que nos dispõe a negar e resistir às mortes simbólicas que a vida exige de nós. Na meia-idade, esse complexo tende a se pronunciar, o que é natural, afinal, só desenvolvemos uma nova cosmovisão porque, antes, estivemos envolvidos em outra. Não há como ignorar Sísifo, tampouco se deve, mas ele precisa entender que tão importante quanto saber o que se quer da vida é saber o que a vida quer da gente. Por isso, na meia-idade, é preciso imaginar Sísifo infeliz, disposto a abrir mão da influência que tem sobre nós para nos deixar seguir em frente, o que significa aceitar a morte de uma velha maneira de enxergar o mundo para poder reencontrar a vida em uma nova perspectiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-interessante-observar-pelo-mito-que-a-resistencia-a-morte-costuma-estar-associada-a-dificuldade-de-deixar-para-tras-um-lugar-onde-se-e-rei" style="font-size:19px">É interessante observar, pelo mito, que a resistência à “morte” costuma estar associada à dificuldade de deixar para trás um lugar onde se é rei.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Fica mais difícil, como ocorreu com Sísifo, abrir mão da glória para descobrir uma nova jornada cujo destino é incerto. Pode ser o caso daquele empresário que fez de seu vigor intelectual, disposição física e ambição juvenil uma fonte de riqueza, mas, na virada do sol íntimo, começa a experimentar uma falta de significado existencial no mundo corporativo, o que se expressa, por exemplo, num <em>burnout</em>. Ele não quer deixar de ser quem se esforçou tanto para se tornar. Ao mesmo tempo, no fundo, não vê mais a sua alma se refletir em suas conquistas anteriores.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A primeira metade da vida, como escreveu Jung, segue imperativos bem distintos da segunda. Enquanto a juventude adulta costuma ser marcada pela conquista de um lugar no mundo, um caminhar extrovertido de demarcação de território e conquista de reconhecimento e segurança social, a segunda metade tende a nos levar para dentro, na busca por corresponder a demandas mais éticas que morais, na direção de honrar a nossa criança, a qual não quer outra coisa senão poder ser verdadeira sem deixar de ser amada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-segunda-metade-da-vida-seremos-obrigados-a-descobrir-que-somos-mais-do-que-qualquer-papel-social-que-cumprimos" style="font-size:19px">Na segunda metade da vida, seremos obrigados a descobrir que somos mais do que qualquer papel social que cumprimos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Que todo o poder e segurança alcançados são importantes, mas não conseguem mais conferir sentido à nossa existência. Mas qual então seria o sentido? Cada um haverá de encontrar a resposta em si. Não há mais espaço para reducionismos, é na amplitude da alma e na conciliação de desejos e aspirações conflitantes, o que pressupõe vencer e perder ao mesmo tempo, que nos encontramos individual e coletivamente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mais-tempo-acordados" style="font-size:19px"><strong>Mais tempo acordados</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A maior parte do que escrevo não é mera pesquisa acadêmica. Estou às vésperas de completar quarenta e cinco anos, mas já aos trinta e cinco algo em mim procurava me dizer que eu poderia acabar no Tártaro de mim mesmo, identificado com o meu astuto Sísifo e, como ele, carregando em vão uma pedra montanha acima. É difícil reconhecer que a pedra e a montanha não enchem meu coração, reconhecer que, às vezes, a desistência é a escolha mais nobre e recompensadora. Como jornalista, tive uma longa carreira, mas <strong>a partir de dado momento a profissão não mais me nutria a alma</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Pelos cinco primeiros anos dos últimos dez, tentei aplicar, na segunda metade da vida, receita parecida à aplicada na primeira. Minhas expectativas juvenis sempre me prometeram mais do que fui capaz de me dar. Não havia tantas glórias assim a abandonar, havia mais anseios de glórias não alcançadas. Por isso, tinha vontade de ficar e seguir tentando. Eis outra razão pela qual é difícil desistir da pedra e da montanha: a sensação de que, ao fazê-lo, fracassamos. Quanto mais corria na direção das velhas aspirações, porém, colocando-as como a cenoura motivadora, menos vontade de avançar o burro sentia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>James Hillman</strong> (2001, p. 12) escreve que a crise da meia-idade: “<em>refere-se menos ao fato de ser velho demais do que ser jovem demais [&#8230;] não se refere à falta de capacidade, mas à falta de ilusão [&#8230;] aos quarenta anos não temos oitenta, e temos muito mais ‘tempo acordados’ pela frente do que no nosso passado</em>”. O que eu precisava aceitar, então, era a morte, a morte das ilusões juvenis que tinham inspirado a minha jornada até ali. É difícil sepultar as ilusões quando ainda as vemos como sonhos. Eu precisava encontrar, no Hades do meu íntimo, um novo sentido, algo que me permitisse unir o ordinário e o extraordinário da vida. Assim, cheguei à clínica junguiana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-foi-um-movimento-racional-minha-alma-e-meu-corpo-exigiram-apesar-de-toda-a-minha-resistencia-egoica" style="font-size:19px">Não foi um movimento racional: minha alma e meu corpo exigiram, apesar de toda a minha resistência egóica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando falo em corpo, não é força de expressão, porque, até que se prove o contrário, nada nos permite supor que seja possível uma vida animada sem que haja um corpo. Por isso, toda mudança psíquica tem reverberações físicas e toda mudança física reverbera na psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Tanto é que estudo recente da Universidade Monash revela mudanças significativas no cérebro humano entre os quarenta e cinquenta anos, como atesta o texto de Valencia (BBC News Brasil, 2024): &#8220;’<em>É como se, antes dos 40, os circuitos passassem pelas unidades do cérebro conectados a redes muito sofisticadas’, indica a neurocientista [Sharna Jamadar]. ‘Depois dos 40, o que observamos é que os circuitos se conectam com todos os circuitos, quase sem discriminação’</em>&#8220;.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Neumann</strong> (Cf. 2024, p.340) defende que a integração de aspectos da totalidade psíquica, nessa etapa da vida, despertam crises existenciais marcadas por fortes emoções, as quais, a depender do caso, podem colocar o ego em risco, como atesta a angústia extrema que tende a marcar essa época da vida. Arrisco dizer, portanto, que as evidências fisiológicas trazidas pelos pesquisadores da Universidade Monash se somam às comportamentais quando se trata da metanoia da meia-idade, reforçando assim a maneira pela qual a psicologia analítica enxerga o desenvolvimento da personalidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Com tudo isso, é possível dizer que as transformações psicossomáticas da meia-idade teriam a finalidade de desvendar um novo horizonte, o qual talvez só sejamos capazes de enxergar quando dispostos a morrer para velhos padrões, para sonhos caducos e para expectativas de grandeza egóicas. Um novo horizonte, sem a ilusão das certezas, sisudas ou polianas, cheio de dúvidas e com a possibilidade de inúmeras respostas, todas certas e erradas, a depender do contexto e da finalidade. Um novo horizonte em que não é preciso erguer, em vão, a pedra ao topo da montanha, porque a imortalidade não é o propósito, o propósito é apenas viver quantas vidas forem necessárias neste mesmo sopro de existência.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Na meio da vida, é preciso imaginar Sísifo infeliz&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/h1r8as2-yNw?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/wagnerhilario/">Wagner H P Borges — Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi — Membro Didata pelo IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia" style="font-size:19px"><strong>Bibliografia</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. 22ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">GIUNTELLA, Osea; MCMANUS, Sally; MUJCIC, Redzo; OSWALD, Andrew J.; POWDTHAVEE, Nattavudh; TOHAMY, Ahmed. The Midlife Crisis. NBER, 2022. Disponível em: https://www.nber.org/papers/w30442#fromrss. Acesso em: 17 de agosto de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">HILLMAN, James. A força do caráter: e a poética de uma vida longa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">HOLLIS, James. A passagem do meio — da miséria ao significado da meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">_________. A natureza da psique. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">_________. O desenvolvimento da personalidade. 14ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">NEUMANN, Erich. História das origens da consciência — Uma jornada arquetípica, mítica e psicológica sobre o desenvolvimento da personalidade humana. 2ª Ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">VALENCIA, Alejandro M. Como o cérebro humano se &#8216;reconfigura&#8217; a partir dos 40 anos (e o que fazer para mantê-lo saudável). BBC News Brasil, 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c51z402jjz4o. Acesso em: 24 de agosto de 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Velho é você! Um olhar junguiano sobre o envelhecimento</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/velho-e-voce-um-olhar-junguiano-sobre-o-envelhecimento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 May 2025 12:47:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
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		<category><![CDATA[invisibilidade do idoso]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[meio da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A velhice é um tema demasiado evitado por boa parte das pessoas. O medo do envelhecimento é uma sombra que paira sobre a sociedade contemporânea, profundamente enraizado em valores culturais que exaltam a juventude, a produtividade e a beleza como padrões quase inquestionáveis. Mais do que uma simples resistência às mudanças corporais ou à perda [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A velhice é um tema demasiado evitado por boa parte das pessoas. <strong>O medo do envelhecimento é uma sombra que paira sobre a sociedade contemporânea</strong>, profundamente enraizado em valores culturais que exaltam a juventude, a produtividade e a beleza como padrões quase inquestionáveis. Mais do que uma simples resistência às mudanças corporais ou à perda de vitalidade, esse temor revela a inquietação diante da finitude, do isolamento e da possível invisibilidade social que o avançar da idade pode trazer. <strong>Em um mundo que associa o envelhecer ao declínio, alimentamos uma espécie de negação coletiva e mergulhamos em uma busca incessante por prolongar a juventude que, como um reflexo, escapa das mãos</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Conforme o último censo do IBGE<a id="_ftnref1" href="#_ftn1">[1]</a> (2022), as pessoas com mais de 60 anos chegaram a 15,6% da população brasileira, um aumento de 56,0% em relação a 2010. Entre 2010 e 2022, a expectativa de vida aumentou, e passa a ser em média 75,5 anos<a id="_ftnref2" href="#_ftn2">[2]</a>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-afirma-jung-oc-8-2-802-que-nossa-longevidade-comprovada-pelas-estatisticas-atuais-e-um-produto-da-civilizacao" style="font-size:18px">Afirma Jung (OC 8/2, §802) que “<strong>nossa longevidade comprovada pelas estatísticas atuais é um produto da civilização</strong>”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Mais do que um fenômeno biológico, a extensão da vida humana é fruto de uma complexa teia de transformações culturais, científicas e sociais que moldaram nosso modo de existir. Desde a descoberta de vacinas até os avanços da medicina preventiva, passando pelas melhorias nas condições sanitárias e pelo acesso ampliado à informação, a civilização construiu os alicerces para que o ser humano pudesse viver mais. Contudo, esse ganho de anos não deve ser visto apenas como um triunfo técnico, mas também como um desafio existencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Envelhecer é um processo natural da existência humana, mas, ao mesmo tempo, carrega desafios complexos, há um diálogo inconsciente com a proximidade da finitude, com as limitações físicas, com a perda do viço e ganho da opacidade do corpo. E muitos idosos ficam um tanto aprisionados num aspecto nostálgico, com saudades de um passado que pode ter sido bom, diferente das angústias e dores da atualidade dos dias.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diz-jung-oc-8-2-800-que-a-vida-natural-e-o-solo-em-que-se-nutre-a-alma-quem-nao-consegue-acompanhar-essa-vida-permanece-enrijecido-e-parado-em-pleno-ar" style="font-size:19px">Diz Jung (OC 8/2, §800) que “a vida natural é o solo em que se nutre a alma. Quem não consegue acompanhar essa vida, permanece enrijecido e parado em pleno ar”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Talvez seja por este motivo que “muitas pessoas se petrificam na idade madura, olham para trás e se agarram ao passado, com um medo secreto da morte no coração” (JUNG, OC 8/2, §800). &nbsp;Há aqueles que, ao invés de se adaptarem ao curso natural da existência, estacionam psicologicamente no passado, como pilares nostálgicos de uma juventude que já não existe, mas cujas memórias permanecem vívidas. Essas pessoas, presas às lembranças de um tempo que não dialoga mais com o presente, perdem o vínculo com o fluxo vital. No entanto, a vida exige transformação. <strong>É como se nossa consciência tivesse deslizado um pouco de suas bases naturais e não soubesse mais como se orientar pelo tempo natural</strong> (JUNG, OC 8/2, §802).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aceitar-o-envelhecimento-nao-significa-negligenciar-o-cuidado-com-o-corpo-ou-abandonar-se-passivamente-ao-inevitavel" style="font-size:19px">Aceitar o envelhecimento não significa negligenciar o cuidado com o corpo ou abandonar-se passivamente ao inevitável.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Pelo contrário, trata-se de <strong>um convite à reconciliação com o tempo, uma oportunidade para cultivar a autoestima de maneira equilibrada e honesta</strong>. Cuidar de si é um gesto de amor-próprio, e isso pode incluir atividades físicas e procedimentos estéticos que tragam bem-estar, desde que não se tornem obsessão. O equilíbrio está em reconhecer que os sinais são marcas de uma vida vivida, carregadas de histórias, experiências e sabedoria. Cuidar do corpo é uma forma de honrar a própria jornada e a verdadeira beleza está em harmonizar-se com a vida, valorizando o que se é em cada fase. Afinal quando aceito com serenidade, o envelhecimento pode ser um ato de maturidade e um testemunho da riqueza que o tempo nos confere.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Além disso, é importante atentar para a <strong>sombra coletiva acerca do envelhecer</strong>, pois a cultura contemporânea, com sua obsessão por performances e aparências, projeta a velhice como um lugar de ausência de produtividade, relevância, vigor e sexualidade, eclipsando os idosos numa sociedade que idolatra o novo e despreza o que é velho. Mas a sombra não se contenta em ficar oculta; ela se infiltra nas atitudes, nas escolhas e nos exageros que vemos ao nosso redor. Exageros esses que apontam para a terrível capa de invisibilidade que recaem nos idosos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Há um apagamento silencioso e insidioso que permeia o convívio familiar com os mais velhos, muitas vezes operando de forma inconsciente, como uma teia que lentamente os retira do protagonismo de suas próprias vidas. Essa invisibilidade os coloca nos bastidores, onde deixam de ser atores principais de sua história para se tornarem espectadores da dinâmica familiar que, gradualmente, os desconsidera. Esse movimento, que talvez não seja intencional, resulta em uma intensificação de sua dependência, roubando-lhes a autonomia e reduzindo sua capacidade de decidir sobre sua própria existência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-cotidiano-familiar-por-vezes-de-forma-inconsciente-os-idosos-sao-tratados-como-seres-altamente-frageis-que-devem-ser-protegidos-a-qualquer-custo" style="font-size:19px">No cotidiano familiar, por vezes de forma inconsciente, os idosos são tratados como seres altamente frágeis, que devem ser protegidos a qualquer custo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Esse zelo excessivo, talvez motivado pelo amor e preocupação, frequentemente resvala em práticas que acabam retirando a autonomia daqueles que envelhecem</strong>. O ato de assumir as decisões ou impor limites sem considerar suas capacidades pode ser entendido mais do que um gesto desatento; é uma forma sutil de apagamento e, nesse processo, perde-se de vista a rica e complexa história que cada idoso carrega consigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Esquecem-se do caminho longo e árduo que percorreram, da vida social e profissional que construíram, da base emocional e material que ofereceram àqueles que hoje os cercam, ignoram-se os papéis que desempenharam como pilares de referência e exemplo, como construtores de alicerces que sustentaram tantas vidas e histórias.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao tratá-los apenas pelo prisma da fragilidade, os familiares negligenciam a importância de reconhecer e valorizar a trajetória de quem, um dia, foi o protagonista de tantas conquistas e desafios. É fundamental lembrar que o envelhecimento não apaga as realizações, não invalida a sabedoria acumulada nem diminui o valor intrínseco do ser humano.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-respeitar-a-autonomia-dos-idosos-e-tambem-respeitar-a-sua-historia-reconhecer-que-o-envelhecer-nao-a-diminui" style="font-size:19px"><strong>Respeitar a autonomia dos idosos é também respeitar a sua história, reconhecer que o envelhecer não a diminui</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Um outro aspecto importante a ser olhado é que a sociedade contemporânea é regida pela pressa e pelo ritmo acelerado que exalta a produtividade, a eficiência e o imediatismo, e por isso os idosos podem se tornar vítimas de uma silenciosa exclusão. A falta de paciência para lidar com seu tempo mais lento é um reflexo de uma sociedade do descarte, que se esqueceu daqueles que pavimentaram os caminhos por onde outros agora correm.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa impaciência é um sintoma da desvalorização do envelhecer pois, em um sistema capitalista que reduz o indivíduo à sua capacidade de produzir e consumir, o idoso, ao deixar de ocupar o lugar de engrenagem ativa, é muitas vezes relegado à margem e sua idade avançada tende a ser percebida como um fardo e não uma conquista de sobrevivência e sabedoria. Ou então, para aqueles que possuem melhor poder aquisitivo, viram “nicho de mercado”, num processo de objetificação do ser.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-voracidade-do-capitalismo-identifica-nesse-grupo-uma-nova-oportunidade-de-obtencao-de-lucro-onde-produtos-e-servicos-sao-oferecidos-talvez-com-o-intuito-de-atender-a-uma-demanda-artificialmente-criada" style="font-size:19px"><strong>A voracidade do capitalismo identifica nesse grupo uma nova oportunidade de obtenção de lucro, onde produtos e serviços são oferecidos talvez com o intuito de atender a uma demanda artificialmente criada</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Os idosos são, assim, transformados em consumidores compulsórios de uma infinidade de soluções que prometem juventude eterna, conforto e <em>status</em>, mas que, em sua essência, podem reforçar estereótipos e desumanizar o processo de envelhecer. Por trás da publicidade sedutora e dos <em>slogans </em>otimistas, existe a insidiosa mensagem de que a velhice é algo a ser combatido, escondido ou domesticado, e não uma etapa digna de celebração. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esse-processo-vai-alem-do-campo-material-infiltrando-se-nas-relacoes-sociais-e-culturais" style="font-size:19px"><strong>Esse processo vai além do campo material, infiltrando-se nas relações sociais e culturais</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A figura do idoso é constantemente remodelada para se encaixar em padrões de mercado que ditam como ele deve viver, parecer e até sentir. A liberdade de ser é substituída pela imposição de um modelo idealizado de envelhecimento, onde o consumo se torna a régua pela qual medimos a validade da vida. Essa abordagem, ao mesmo tempo que explora a capacidade de compra dos idosos, ignora suas necessidades mais fundamentais: respeito, inclusão e pertencimento. No lugar de acolher suas singularidades e reconhecer suas trajetórias, o mercado os transforma em alvos comerciais acima da dignidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para lidar com a ampliação da consciência e das reflexões acerca do envelhecimento, além de tantos outros processos do viver, Jung (OC 7/1, §113) reflete que a pessoa “precisa aprender a distinguir o eu do não-eu, isto é, da psique coletiva”. Ressalta que para diferenciar o eu do não-eu “é indispensável que o homem – na função de eu – se conserve em terra firme, isto é, cumpra seu dever em relação à vida e, em todos os sentidos, manifeste sua vitalidade como membro ativo da sociedade humana” (JUNG, OC 7/1, §113).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-com-o-avancar-da-idade-ha-um-convite-para-a-busca-de-significacao-de-sentido-da-propria-vida" style="font-size:19px">Com o avançar da idade, há um convite para a busca de significação de sentido da própria vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O envelhecimento, muitas vezes percebido como um declínio inevitável, pode ser, na verdade, um processo profundamente transformador, um convite silencioso à metanóia – essa mudança de perspectiva que nos impulsiona a olhar para dentro, rever nossas crenças, e reorientar o sentido da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-oc-7-1-113-reflete-que-estamos-diante-do-problema-de-encontrar-o-sentido-que-possibilite-o-prosseguimento-da-vida-entendendo-se-por-vida-algo-mais-do-que-simples-resignacao-e-saudosismo" style="font-size:19px">Jung (OC 7/1, §113) reflete que “estamos diante do problema de encontrar o sentido que possibilite o prosseguimento da vida (entendendo-se por vida algo mais do que simples resignação e saudosismo)”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para ele, com o avançar da idade, o “<strong>papel junto ao jovem difere do que exercemos junto a uma pessoa mais amadurecida. No que se refere ao primeiro, basta afastar todos os obstáculos que dificultam sua expansão e ascensão. Quanto à última, porém, temos que incentivar tudo quanto sustente sua descida”</strong> (JUNG, OC 7/1, §114). É contundente ao afirmar o quão errônea é a ideia de que “os velhos podem ser abandonados, pois já não prestam para nada, uma vez que sua vida ficou para trás e só servem como escoras petrificadas do passado. É enorme o engano de supor que o sentido da vida esteja esgotado depois da fase juvenil de expansão”. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">E lindamente aponta que “<strong>o entardecer da vida humana é tão cheio de significação quanto o período da manhã. Só diferem quanto ao sentido e intenção</strong>” (JUNG, OC 7/1, §114).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao mergulharmos nas reflexões de Jung, somos confrontados com uma verdade inevitável: a existência humana é tecida por ciclos que demandam sentidos distintos em cada fase da vida. Na juventude, a energia vital pulsa em direção à expansão, à conquista de horizontes e ao desbravamento de possibilidades. Contudo, à medida que avançamos para o entardecer da existência, emerge a necessidade de encontrar um significado mais profundo, uma direção que transcenda a simples resignação ou nostalgia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-perspectiva-junguiana-nos-convida-a-reconhecer-que-o-envelhecimento-nao-e-um-declinio-mas-uma-transicao-um-convite-a-introspeccao-e-a-aceitacao-das-verdades-mais-essenciais" style="font-size:19px">A perspectiva junguiana nos convida a reconhecer que o envelhecimento não é um declínio, mas uma transição, um convite à introspecção e à aceitação das verdades mais essenciais. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Nesse período, o desafio é sustentar a jornada para dentro, o mergulho no próprio ser porque é na descida simbólica que encontramos a riqueza das nossas raízes, o legado de experiências e sabedorias acumuladas ao longo do caminho, pois “<strong>o que a juventude encontrou e precisa encontrar fora, o homem no entardecer da vida tem que encontrar dentro de si</strong>” (JUNG, 7/1, §114).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Infelizmente, vivemos em uma sociedade que tende a negar o valor desse entardecer, relegando os idosos à invisibilidade ou reduzindo sua importância à funcionalidade prática de outrora. Contudo, como aponta Jung, é um grave engano supor que a vida perde seu sentido ao fim da fase de expansão. Pelo contrário, <strong>o crepúsculo da existência traz consigo um convite para um novo tipo de significado, mais interiorizado e contemplativo, mas igualmente pleno e necessário, mais consonante com o Self</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Assim, a maturidade deve ser vivida como uma oportunidade para completar o ciclo da vida com profundidade e inteireza. Envelhecer é reconhecer que a descida também é parte do caminho, que a plenitude também está no recolher, é a possibilidade de ser inteiro, não apesar da idade, mas justamente por causa dela. Nas dobras do tempo, o corpo e a alma nos conduzem a uma nova travessia, um tempo em que a espiritualidade se renova, e a vida, em sua sabedoria silenciosa, floresce de formas mais profundas.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Velho é você! Um olhar junguiano sobre o envelhecimento&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Z2utAC-dnqA?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/daniela/"><strong>Daniela A. Euzebio – Membro Analista</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>E. Simone Magaldi – Membro Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:16px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">IBGE. Disponível em: <em>https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38186-censo-2022-numero-de-pessoas-com-65-anos-ou-mais-de-idade-cresceu-57-4-em-12-anos</em>. Acesso em 13 jan. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">IBGE. Disponível em: <em>https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/38455-em-2022-expectativa-de-vida-era-de-75-5-anos</em>. Acesso em 13 jan. 2025</p>



<p class="wp-block-paragraph">JACOBI, Jolande. Complexo, Arquétipo e Símbolo na Psicologia de C.G. Jung. Petrópolis: Vozes, 2017</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2014 (Obras completas v. 8/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2015 (Obras completas v. 7/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2016 (Obras completas v. 7/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><em>Se interessa pelo tema do envelhecimento? Confira o <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep">X Congresso Junguiano do IJEP</a>:</em></strong></p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep"><img decoding="async" width="1024" height="532" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-1024x532.png" alt="" class="wp-image-10410" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-1024x532.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-300x156.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-768x399.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-150x78.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-450x234.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Inscrição e programação</strong>: <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep ">https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep </a></p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Fonte: IBGE. Disponível em: <a href="https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38186-censo-2022-numero-de-pessoas-com-65-anos-ou-mais-de-idade-cresceu-57-4-em-12-anos">https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38186-censo-2022-numero-de-pessoas-com-65-anos-ou-mais-de-idade-cresceu-57-4-em-12-anos</a>. Acesso em 13 jan. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> Fonte: IBGE. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/38455-em-2022-expectativa-de-vida-era-de-75-5-anos. Acesso em 13 jan. 2025</p>



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			</item>
		<item>
		<title>Maturidade feminina: preste atenção, você está sendo testada</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/maturidade-feminina-e-a-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Euflausina Goes dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 May 2024 20:21:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[maturidade feminina]]></category>
		<category><![CDATA[meio da vida]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9056</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este texto explora os desafios enfrentados na maturidade feminina e a importância de abrir-se para novas possibilidades no entardecer da vida, conectando-se com o que ressoa em sua alma. Essa jornada envolve reconhecer demandas externas que já não têm relevância nesta fase da vida e as grandes descobertas podem ser fascinantes.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando  queremos  falar  sobre  a  maturidade  feminina,  prepare-se,  uma  onda  com a força de um maremoto se aproxima.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De  um  lado,  a  alma  clama  por  significado,  por  uma  maior  espontaneidade  e  sentido.  Por  outro,  há  uma  sensação  social  de  que  o  melhor  já  passou,  restando  apenas resignação e lamentação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No  entanto,  esta  reflexão  presente  busca  interromper  esse  ciclo.  É  crucial  respeitar a história que nos trouxe até aqui.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-analisando-o-desenvolvimento-da-vida-humana-percebemos-uma-semelhanca-com-o-caminho-do-sol-em-relacao-a-terra" style="font-size:20px">Analisando  o  desenvolvimento  da  vida  humana,  percebemos  uma  semelhança  com  o  caminho  do  Sol  em  relação  à  Terra. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nas  primeiras  horas  do  dia,  o  Sol  emerge,  irradiando  seu  brilho  e  intensificando  sua  força  até  alcançar  o  auge  ao  meio-dia.  Em  seguida,  sua  energia  diminui  conforme  avança,  num  processo  chamado enantiodromia, culminando no entardecer (Jung, 2013).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na  manhã  da  vida,  o  homem  é  como  um  jovem,  focado  em  suas  buscas  externas:  construir  uma  família,  trabalhar,  estudar,  alcançar  objetivos  materiais.  À  tarde,  naturalmente,  ele  começa  a  buscar  sentido  em  tudo  ao  seu  redor,  voltando-se  para  dentro. Numa  jornada  de  autoconhecimento  e  entendimento  do  Ser,  um  objetivo cultural (Jung, 2013).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p> “É  enorme  o  engano  de  supor  que  o  sentido  da  vida  esteja  esgotado  depois  da  fase  juvenil  de  expansão,  que  uma  mulher  esteja  “liquidada”  ao  entrar  na  menopausa.  O  entardecer  da  vida  humana  é  tão  cheio  de  significação  quanto  o  período  da  manhã.  Só  diferem  quanto  ao  sentido  e  intenção.”  (Jung, 2013, p. 86)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"> Essa  passagem  se  assemelha  à  adolescência,  sendo  uma  transição,  uma  segunda  puberdade.  No  entanto,  as  antigas  formas  de  resolver  conflitos  não  funcionam  mais  nesta  nova  fase,  que  é  um  processo  de  maturação  interna.  De  acordo com Jung (2013, p.87 ):</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p> “O  que  a  juventude  encontrou  e  precisa  encontrar  fora,  o  homem  no  entardecer da vida tem que encontrar dentro de si”.</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-contrariamente-ao-que-a-cultura-prega-na-maturidade-feminina-existe-um-campo-de-expansao-onde-a-psique-e-criativa" style="font-size:20px">Contrariamente  ao  que  a  cultura  prega,  na  maturidade  feminina,  existe  um  campo  de  expansão,  onde  a  psique  é  criativa. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A  proposta  deste  artigo  é  ampliar  o  campo  da  consciência  e  perceber  a  movimentação  que  pode  ser  criativa  para  as  formas  de  buscar  uma  maior  interiorização,  para  se  empoderar  com  o  que  faz  sentido e significado neste período da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por  meio  do  autoconhecimento,  é  importante  estar  ciente  de  como  vão  as  relações  com  as  áreas  da  vida,  como  o  trabalho,  a  expressão  do  amor  e  da  sexualidade  em  suas  relações,  a  interação  social  e  o  cuidado  com  a  saúde. De fato, o  lidar  com  essas  áreas  até  então  pode  ter  sofrido  uma  influência  gigantesca  do  externo,  com  o  que  os  outros  queriam  de  mim,  ou  o  que  é  considerado  adequado.  Mas  nesta  fase, o convite é: o que pode ter mais sentido para a minha alma?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-questao-nao-e-simples-de-responder-e-pode-surpreender-pode-ser-assustador-perceber-que-ate-o-momento-existe-uma-distancia-descomunal-de-si-mesmo" style="font-size:19px">Essa  questão  não  é  simples  de  responder,  e  pode  surpreender,  pode  ser  assustador  perceber  que  até  o  momento,  existe  uma  distância  descomunal  de  Si  Mesmo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"> A  meia  idade,  o  entardecer  para  Carl  G.  Jung,  é  um  período  fértil  na  vida  humana  trazendo  a  possibilidade  de  um  grande  encontro  com  o  Si-Mesmo.  Uma  nova  forma  de  ser  no  mundo  surge  pedindo  para  reconhecer  o  pedido  de  mudanças  e a morte de muitas maneiras existentes, é um não resistir, seguir o fluxo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, por  meio  de  uma  linguagem  simbólica,  a  mulher  pode  se  conectar  com  sua  essência  do  prazer  genuíno,  encontrando  assim  uma  conexão  com  sua  energia  vital. Ao  trazer  essa  singularidade  para  o  universo  feminino,  torna-se  importante  a  abertura  para  o  universo  simbólico,  bem  como  as  forças  arquetípicas. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-capacidade-de-simbolizar-e-atribuir-sentido-e-significado-a-propria-existencia-e-fundamental" style="font-size:20px">A  capacidade  de simbolizar e atribuir sentido e significado à própria existência é fundamental.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Muitas  vezes,  as  mulheres  não  reconhecem  as  forças  internas  que  clamam  por  um  sentido  maior  em  suas  vidas,  um  chamado  para  se  tornarem  protagonistas  de  suas  próprias  histórias.  A  conscientização  das  forças  estereotipadas  da  cultura  que  exercem  poder  sobre  elas  contrasta  com  as  energias  internas  necessárias  para  as  mudanças  no  entardecer  da  vida,  influenciando  suas  ações  e  emoções  no  mundo, segundo a autora Bolen, 2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As  mudanças  corporais  revelam  que  a  pausa  para  a  interiorização  e  a  tomada  de  decisões  conscientes  são  primordiais  nessa  jornada.  É  essencial  permitir-se  sentir  o  luto  pela  juventude. Abrir  espaços  para  as  emoções  que  emergem  e  buscar  intensamente  a  intuição  para  discernir  o  que  é  real  do  que  é  apenas um preconceito.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung  nos  alerta  para  o  período  do  entardecer  da  vida,  onde  as  conquistas  externas  perdem  parte  de  seu  valor,  e  buscar  a  consciência  de  que  nos  preparamos  para  a  finitude  se  torna  essencial,  dando  espaço  para  nos  conectarmos  com  nosso  universo interno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-passado-se-faz-presente-com-suas-repressoes-trazendo-mudancas-biologicas-que-anunciam-a-transicao-de-uma-fase-para-outra-e-o-futuro-permanece-como-uma-incognita" style="font-size:19px">O  passado  se  faz  presente  com  suas  repressões,  trazendo  mudanças  biológicas  que  anunciam  a  transição  de  uma  fase  para  outra,  e  o  futuro  permanece  como  uma  incógnita. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse  período  de  transição,  Jung  nos  mostra  que  é  repleto  de  significado,  e  as  reflexões  nos  conduzem  a  vislumbrar  um  futuro  mais  pleno  de  sentido e espontaneidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A  sabedoria  adquirida  no  convívio  com  outras  mulheres  maduras,  o  riso  compartilhado,  a  descoberta  de  novas  paixões  como  a  dança,  a  expressão  artística  ou  até  mesmo  uma  nova  profissão,  o  enfrentamento  e  elaboração  das  dores,  assim  como  o  processo  de  estar  em  sintonia  com  sensações  diferentes  em  nosso  próprio  corpo,  podem  servir  como  trampolins  para  uma  nova  vivência;  os  caminhos  são  infinitos. Porém,  o  mais  crucial  é  acreditar  que  novas  possibilidades  nesta  etapa  da  vida são viáveis e que as auto descobertas podem ser fascinantes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em  uma  era  de  mídias  sociais  que  idolatram  a  juventude  eterna,  que  promovem  a  constante  exibição  de  felicidade  e  alegria,  que  glorificam  um  corpo  sem  rugas  ou  marcas  do  tempo,  além  de  uma  cultura  patriarcal  que  valoriza  exacerbadamente  o  masculino  e  evidencia  um  flagrante  etarismo, é  possível  perceber  os  desafios  que  as  mulheres  enfrentam  para  encontrar  sua  própria  espontaneidade, sentido e significado pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os  riscos  de  prosseguir  na  trajetória  sem  reflexão, e  simplesmente  seguir  o  fluxo  imposto  pela  sociedade,  podem  resultar  em  um  vazio  existencial  que  se  intensifica  com  o  passar  dos  anos.  Junto  a  esse  vazio,  surgem  sintomas  diversos,  como um aviso do Self para mudar a rota.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"> O  desafio  reside  em  retornar  ao  que  verdadeiramente  ressoa  com  a  alma  fazendo  escolhas  conscientes  e  significativas, por  meio  do  autoconhecimento  das  transformações  do  corpo,  mente  e  espírito. É  não  permitir  ser  arrastada  pelas  demandas sociais, mas sim alcançar a plenitude durante o entardecer da vida.</p>



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<iframe title="Artigo Novo: Maturidade Feminina: preste atenção, você está sendo testada" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/YqnM6b8IoMc?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/euflausina-goes-dos-santos/"> Euflausina Goes dos Santos – Membro Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong> <a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong> Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&nbsp;Jung CG. Psicologia do inconsciente, 23ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&nbsp;BOLEN JS. As deusas e a mulher: nova psicologia das mulheres. 8ª ed São</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"> Paulo: Paulus Editora, 2009</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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<p class="wp-block-paragraph"></p>
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