Resumo: A expressão poética pode ser um caminho de autoencontro e autodescoberta para o homem na metanoia do meio da vida? A partir do pensamento de Carl Gustav Jung, procuro responder a essa e outras perguntas neste artigo. Recorro, para isso, a poemas e textos poéticos de diferentes autores, como o próprio Jung, Drummond e Leminski. Também falo da palavra enquanto símbolo e como, ao florescer do coração do homem em transformação, ela transcende seu caráter semiótico e revela o indivíduo numa dimensão muito mais ampla.
Poesia é alma e alma, poesia; pergunte a qualquer poeta. Mas o que é alma?
Há uma miríade de definições e todas, a meu ver, sempre serão indefinitivas: a essência, o imaterial, o imortal do ser que nos habita, enfim. Já a poesia parece ser mais facilmente definível, mas um olhar mais ampliado, porém, pode nos levar a compreender que, como pensam os poetas, poesia e alma são sinônimos. Poiesis é a origem grega da palavra e significava “criação”. E o que caracteriza mais a alma humana senão sua capacidade de criar mundos e significados? Tal capacidade parece animar o homem e o verbo animar vem do substantivo latino anima, que significa alma.
Na psicologia analítica, a alma daqueles que se identificam como homens é chamada de anima e a daquelas que se identificam como mulheres, animus (logos, espírito, razão).
Para Jung (2011a, p. 27), a anima seria a energia feminina pulsante no homem e o animus seria o lado masculino na mulher. Isso mesmo: a alma seria o “avesso” do “eu”. Anima e animus, no caso, não têm necessariamente caráter sexual. É Yang e Yin: um para fora, a outra, dentro; um de ação, a outra, contemplação; um de separação, a outra, integração; razão e sensibilidade. Todos nós, seres humanos, somos os dois, independentemente do gênero.
Quando me refiro à poesia, refiro-me às expressões poéticas, ou seja, não me limito ao verso. E a poesia, em parágrafos ou estrofes, tem sido essencial na minha vida desde a adolescência. Tem feito, de muitas das minhas feridas anímicas, pérolas intimamente preciosas. Foi essencial na minha juventude, quando me ajudou a tomar coragem para viver experiências amorosas e a traduzir o mundo numa perspectiva mais profunda e sensível. Seguiu me acompanhando e, já perto dos 40 anos, na metanoia da meia-idade — do grego meta- (mudança) –noein (mentalidade) —, voltou a me amparar de metáforas quando o mundo me parecia excessivamente monocolor e sem sentido.
Alguém há de perguntar se o meio da vida é um marcador cronológico preciso para todos os seres humanos. A resposta é não. Uso os 40 como referência e por aproximação.
De volta à poesia, acho curioso como, no meu caso, ela se impôs de forma imperativa em momentos de crise: adolescência e meio da vida. Acredito ter encontrado, na psicologia analítica, uma possível explicação, que, todavia, passa longe de ser definitiva e única. Em alguma medida, essas crises sempre disseram respeito à necessidade que eu sentia (e sinto) de me encontrar com “minha” alma.
Na adolescência, minha mais íntima natureza pedia que eu saísse do seio familiar, fosse além dos limites da vizinhança e me entregasse a ela fora, projetada, porque o mundo externo só tem sentido e é animado, para o indivíduo, quando é capaz de refletir a alma dele. Na metanoia do meio da vida, parecia impossível encontrar ânimo fora, simplesmente porque alguém, em mim, exigia que eu fosse capaz de reconhecê-la dentro, no mais íntimo, e, a partir de tal reconhecimento, pudesse suportar o mundo quando não me refletisse.
Em ambos os casos, já disse, a poesia veio (e segue por aqui) em meu socorro na crise e talvez Barros (2015, p.55), ao escrever que “ninguém é pai de um poema sem morrer”, consiga explicar a razão. Afinal, nos momentos críticos da vida, o que se precisa, antes do renascer, é morrer.
Para além de mim
A compreensão sobre como a personalidade se desenvolve ao longo da vida na perspectiva junguiana, o valor da arte para a psicologia analítica, para a busca de autoconhecimento e até mesmo a forma poética com que, aos meus olhos, o próprio Jung escreveu, mesmo suas obras científicas, me levou a pensar que esse (re)encontro com a alma, por meio da poesia, perto do meio da vida, não era exclusividade minha.
Para Jung, o propósito do ser humano, num sentido psicológico, é estar sempre a serviço de sua singular integralidade, o que pressupõe encontrar maneiras de promover enlaces entre as polaridades das quais a psique se constitui: luz e sombra, consciente e inconsciente, masculino e feminino…
Aquilo que o indivíduo jovem considera como regressão, isto é, a feminilidade do homem (identidade parcial com a mãe) e a masculinidade da mulher (identidade parcial com o pai), na segunda metade da vida adquire outro significado. A assimilação da tendência do sexo oposto torna-se uma tarefa que precisa ser resolvida para manter a libido em progressão. A tarefa consiste na integração do inconsciente, na combinação de “consciente” e “inconsciente”. Denominei este processo de individuação. (JUNG, 2013f, p. 359)
Essa integração não é perene nem definitiva e precisa ser sempre conquistada e reconquistada ao longo da existência. É um destino que está sempre mudando de lugar e, assim, vira passagem. A psicologia analítica vê, nas artes, pontes que contribuem para integrar as polaridades psíquicas (Cf. JUNG, 2011a, p. 215). Poesia é arte. Haveria, então, de ser ela, para o homem no meio da vida, uma ponte erigida pela anima para que possa integrar a si mesmo e provar, por uma efêmera eternidade, a sensação de inteireza?
Para sustentar a hipótese de que a resposta à pergunta acima seja sim, não posso me limitar ao meu exemplo. Por isso, é importante trazer outros. Começo pelo próprio Jung que, n’O livro vermelho, obra de explícito caráter literário, fruto de um processo de imaginação ativa, por meio do qual “confrontou seu inconsciente”, descobriu poeticamente o que a metanoia da meia-idade queria que ele visse.
O livro foi além, inspirou e deu sentido a toda sua produção científica e lhe revelou a necessidade do encontro com a anima para vislumbrar a própria integralidade.
[…] em minha viagem equivocada através das coisas descobri a humanidade e o mundo. Encontrei pessoas. E encontrei a ti, minha alma, primeiramente em imagem na pessoa e, depois, a ti mesma. Encontrei-te lá onde menos esperava. De lá subiste para mim de um poço escuro. (JUNG, 2015, p.119)
“Primeiramente na pessoa e, depois, a ti mesma.” Interessante pensar “na pessoa”, como uma projeção, movimento natural no indivíduo em sua juventude, quando a alma o lança para fora, para a vida, e, “depois, a ti mesma”, como autoencontro, numa espécie de caminho de volta, necessário à maturidade. Em sua obra poética, Jung (2015, p. 119) traz outras passagens que, a meu ver, corroboram o papel da poesia como um caminho para o homem que busca integrar a anima: “Onde estavas tu neste tempo todo? Que além te abrigava e te dava guarida? Oh, que tu tenhas através de mim, que minha linguagem e eu sejamos para ti símbolo e expressão! Como devo decifrar-te?”
A palavra como símbolo
A palavra, ainda mais a palavra escrita, está associada à razão, a objetividade, a intelectualidade e a literalidade antes de se associar à literatura, o lirismo, a metáfora e o sentimento. Não por acaso os gregos antigos também se referiam à palavra pelo termo logos. Não por acaso os primeiros usos da palavra escrita, pelo homem, foram de caráter semiótico, textos contábeis, registros de controle e de natureza burocrática (Cf. HARARI, 2015, pp. 150-151).
No Evangelho, a tradução portuguesa traz o termo “Verbo” como substituto de Logos. No contexto bíblico, a palavra ou verbo, então, se torna sinônimo de luz, de Sol, do que ilumina, esclarece ao permitir discernir e ordenar. O “Verbo” se torna o princípio da consciência manifesta, da criação, que já existia, em potência, no mistério do universo, antes mesmo de se manifestar (Cf. JUNG, 2013f, p. 381).
O logos, já vimos, está associado ao princípio masculino, o animus na mulher
E, não sem motivo, Emma Jung (2020, p.37) considerava a palavra um atributo do animus, por isso, segundo ela, “os homens que atuam pela palavra podem, no bom e no mau sentido, exercer grande poder [de sedução] sobre a mulher”. O homem que domina bem as palavras fala diretamente à alma da mulher, ou seja, ao animus.
Se as palavras tornam o homem sedutor para as mulheres, porque não o tornaria capaz de seduzir o feminino que habita e anima a ele próprio? Hoje, estou convencido do que já suspeitava desde antes: que escrevo para seduzir, para agradar e servir, assim como Jung, à minha alma. Mas, para que isso seja possível, preciso levar a palavra a uma dimensão mais literária que literal, mais metafórica e capaz de unir, bem mais do que discernir e separar. Na expressão poética, a palavra se erotiza, vincula e, assim, vira símbolo, reúne o que estava separado: consciente e inconsciente.
Rumo às coisas mais simples
Emma Jung (Cf. 2020, p.p. 118-119) me ajuda mais uma vez ao falar de William Sharp que, a partir de seus 38 anos de idade, criou o pseudônimo feminino Fiona McLeod, com o qual passou a assinar algumas de suas obras mais importantes. Segundo a crítica da época, os livros de Fiona se destacavam por uma “voz notavelmente misteriosa” e “uma identidade com a natureza”: “Sua arte é daquele grande tipo que está baseada na revelação e que tem a ver com coisas invisíveis e inapreensíveis”.
Emma traz uma entrevista com Sharp, na qual ele fala do papel de Fiona:
Como mulher, posso usar da sinceridade que é impossível usar como William Sharp… Esse sentimento embriagante de ser um com a natureza, esse êxtase e elevação cósmicos, esse perambular pelas fronteiras mais externas do mundo usual, tudo isso está tão entrelaçado com o romantismo da vida que eu não poderia me expressar com meu Eu superior externo usual. (JUNG, 2020, p. 119)
É interessante observar como o eu lírico feminino de Sharp o devolve ao simples, misterioso e natural de seu próprio ser. Um dos atributos da energia masculina é a valorização do poder, o que, de forma unilateral, se dará em detrimento de Eros, o princípio do amor, da doação maternal. Algo parecido se pode verificar com Jung (2015, p. 107), n’O livro vermelho, quando escreve sobre o “espírito da profundeza”, o Self, ao qual só se chega depois da conexão com a alma. O espírito da profundeza lhe “fala” de uma vida “para além” de lucros e valor, para além do “espírito dessa época”: “O espírito da profundeza submeteu toda [a minha] vaidade e todo [o meu] orgulho à força do juízo[…] Forçou-me a descer às coisas mais simples e que estão em último lugar.”
As palavras de Jung são reforçadas por estudos recentes que mostram que a crise da meia-idade não diz respeito apenas a pessoas cuja primeira metade da vida não é vista como bem-sucedida. Constata-se “evidências de extrema angústia” em pessoas com essa idade e consideradas prósperas. A necessidade de priorizar a alma à persona, do meio da vida em diante, ao que parece, não é exclusividade de quem sente que fracassou na juventude. Ao que tudo indica, perto dos 40, há uma natural revisão de valores, que aproxima mais o indivíduo de questões menos públicas e mais íntimas.
A persona, vale esclarecer, é, na teoria junguiana, a máscara psicológica que se usa para o convívio social, enquanto anima e animus são os guias necessários para a nossa interioridade (Cf. JUNG, 2011b, pp. 68-69). A partir da meia-idade, embora não se deva negligenciar a vida social, o que nos anima é o que está dentro e é para lá que nos leva a verdadeira poesia.
Para além da utilidade
Dentro de um mundo utilitarista e baseado no “valor e no lucro”, como o nosso, a jornada pela poesia é contraponto. Afinal, quanto vale o verso? O poeta Paulo Leminski (2012, p. 82), perto dos 42 anos, escreveu, no ensaio Inutensílio, que “a ditadura da utilidade é unha e carne com o lucrocentrismo de toda essa nossa civilização”. Dessa forma, completa o poeta, “corrompe todos os setores da vida, fazendo crer que a própria vida tem de dar lucro”. É nesse ponto, que, para Leminski, a poesia e sua essência anímica nos devolvem o sentido e o valor da vida:
Quem quer que a poesia sirva para alguma coisa não ama a poesia. Afinal, a arte só tem alcance prático em suas manifestações inferiores[…] O lucro da poesia, quando verdadeira, é o surgimento de novos objetos no mundo. Objetos que signifiquem a capacidade da gente de produzir mundos novos. Uma capacidade in-útil. Além da utilidade. (LEMINSKI, 2012, p. 83)
Carlos Drummond de Andrade, aos 42 anos, lançou a obra Rosa do Povo. Boa parte dos poemas de seu livro expressam seu momento de vida e me parece, talvez, querer encontrar sentido nas “coisas mais simples e que estão em último lugar”. Em Consolo na praia, Drummond produz versos ambíguos, que parecem fazer jus a Barros, para quem a paternidade de um poema pressupõe uma morte.
Numa perspectiva simbólica e longe de uma interpretação definitiva fala alto, a meu ver, a quem vive a metanoia do meio da vida:
Vamos, não chores…
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.
(ANDRADE, 2022, p. 111)
Precipitar-se nas águas para se refazer, deixar no mar o que precisa morrer e levar consigo, para a areia, só o que importa: corpo e alma. Depois, olhar para dentro, para os sonhos, e despertar para uma vida com menos ilusões.
Wagner H P Borges — Membro Analista em Formação pelo IJEP
Dra. E. Simone Magaldi — Membro Didata pelo IJEP
Bibliografia:
ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. Rio de Janeiro: Record, 2022. Edição Digital.
BARROS, Manoel de. Meu quintal é maior do que o mundo. São Paulo: Objetiva, 2015.
GIUNTELLA, Osea; MCMANUS, Sally; MUJCIC, Redzo; OSWALD, Andrew J.; POWDTHAVEE, Nattavudh; TOHAMY, Ahmed. The Midlife Crisis. NBER, 2022. Disponível em: https://www.nber.org/papers/w30442#fromrss. Acesso em: 17 de agosto de 2022.
HARARI, Yuval Noah. Sapiens – uma breve história da humanidade. Porto Alegre: L & PM, 2015. Edição Digital.
HOLLIS, James. A passagem do meio — da miséria ao significado da meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.
JUNG, C. G. Aion — estudo sobre o simbolismo do Si-mesmo, 8ª ed. Petrópolis: Vozes, 2011a.
______. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 7ª ed. Petrópolis: Vozes, 2011b.
______. A prática da psicoterapia. 16ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
______. Símbolos da transformação. 9ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013f.
______. O Livro Vermelho — Liber Novus (Edição sem ilustrações). 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 2015.
JUNG, Emma. Animus e Anima, 2ª ed. São Paulo: Pensamento Cultrix, 2020.
LEMINSKI, Paulo. Ensaios e anseios crípticos. Campinas: Editora da Unicamp, 2012. Edição Digital.

