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	<title>Arquivos Natureza - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Thu, 09 Jul 2026 19:20:46 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Natureza - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O Veganismo e a Sombra Coletiva</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jul 2026 18:27:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[animais]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nem tudo que se esconde na sombra é negativo. O positivo também pode ser encontrado lá. A relação do ser humano com os outros animais é de grande exploração e demonstra uma unilateralidade extrema. A partir disso, surge o veganismo como uma alternativa de compaixão, revelando a dinâmica psíquica da sombra coletiva. Apesar de ser um movimento social, ele convida o indivíduo a olhar para si mesmo, se conscientizar e assumir a responsabilidade pelo bem-estar de todos os animais e o planeta como um todo.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-veganismo-e-a-sombra-coletiva/">O Veganismo e a Sombra Coletiva</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Imagem: A “sombra verde” aponta para a necessidade de uma ampliação de consciência que desenvolva a nível coletivo uma profunda compaixão pelas outras espécies animais, assim como pela humanidade.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo:</strong> Nem tudo que se esconde na sombra é negativo. O positivo também pode ser encontrado lá. A relação do ser humano com os outros animais é de grande exploração e demonstra uma unilateralidade extrema. A partir disso, surge o veganismo como uma alternativa de compaixão, revelando a dinâmica psíquica da sombra coletiva. Apesar de ser um movimento social, ele convida o indivíduo a olhar para si mesmo, se conscientizar e assumir a responsabilidade pelo bem-estar de todos os animais e o planeta como um todo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando falamos em sombra, pela ótica da psicologia analítica, estamos nos referindo a um aspecto da nossa psique inconsciente que detém conteúdos reprimidos ao longo de nossas vidas. Geralmente, ela é imaginada por um viés negativo, ruim ou até mesmo representando um lado perverso de nossa personalidade. Na realidade, a sombra contém, simplesmente, tudo aquilo que recusamos admitir em nós mesmos e isso pode incluir até sentimentos como compaixão e empatia. Apesar de considerados positivos, lidar com eles pode nos levar a mudanças e sofrimentos indesejáveis. Ou seja, por mais positivo que um conteúdo sombrio pareça ser, olhar para ele será sempre um desafio:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.4"><strong>O encontro consigo mesmo significa, antes de mais nada, o encontro com a própria sombra. A sombra é, no entanto, um desfiladeiro, um portal estreito cuja dolorosa exiguidade não poupa quem quer que desça ao poço profundo</strong>. (JUNG, 2016, p. 28)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Da mesma forma com que evitamos a nossa própria sombra, a humanidade também evita sua sombra coletiva. Isso fica evidente quando olhamos para a relação humana com os outros animais, que vem se tornando a cada dia mais violenta e exploratória, enquanto considerar o direito deles à vida e ao bem-estar ainda é motivo de grande resistência no mundo todo. Como diz C. G. Jung (2022, p. 161), “em nossa consciência estamos sentados num alto trono e olhamos com desprezo a natureza e os animais.”</p>



<h2 id="h-o-outro-lado-da-sombra" class="wp-block-heading"><strong>O outro lado da sombra</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando pensamos no outro lado da sombra, naturalmente lembramos da consciência e do ego, este que se identifica com os vários elementos da personalidade e ignora tudo aquilo que julga nela não caber. Essa relação com a sombra gera grande incômodo para o indivíduo que não a reconhece. Jung (2016, p. 322) explica que “a figura da sombra personifica tudo o que o sujeito não reconhece em si e sempre o importuna, direta ou indiretamente, como por exemplo traços inferiores de caráter e outras tendências incompatíveis.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém, aqui, falamos sobre um outro lado em relação ao que geralmente se associa aos conteúdos sombrios da psique. É comum que o indivíduo reprima sentimentos como inveja e raiva ou características perversas. Isso tudo costuma ser mal visto socialmente e no decorrer de seu crescimento, desde a infância até a fase adulta, ele aprende a moldar a si mesmo de maneira a corresponder da melhor forma possível aos anseios externos. É uma busca inconsciente por adaptação e aceitação. Contudo, a humanidade não é feita apenas de sentimentos e atitudes consideradas positivas. Se olharmos à nossa volta, não é difícil enxergar crueldade, injustiça e indiferença. Logo, há também repressão quanto à doçura, generosidade, empatia e outros sentimentos que são muitas vezes vistos como fraquezas ou tolices. Logo, o que se esconde na sombra não são apenas traços negativos:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.4"><strong>A sombra, embora seja uma figura negativa per definitionem, deixa entrever muitas vezes traços ou associações positivas, os quais apontam para um cenário de outro tipo. É como se ela escondesse conteúdos significativos sob um invólucro inferior. A experiência confirma a hipótese; aliás as coisas aparentemente ocultas consistem em geral de figuras cada vez mais numinosas.</strong> (JUNG, 2016, p. 307)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Se tomarmos como exemplo a relação humana com os outros animais, perceberemos a complexidade dessa questão. Nela, a exploração e a crueldade estão presentes desde a antiguidade, ao mesmo tempo que o carinho e o fascínio. Luz e sombra sempre se manifestaram, variando as características positivas e negativas a depender de cada cultura e o caráter de cada indivíduo. Nas últimas décadas, porém, essa exploração cresceu vertiginosamente e, não por acaso, também a luta pela proteção animal.</p>



<h2 id="h-a-sombra-verde" class="wp-block-heading"><strong>A sombra verde</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essa relação exploratória entre seres humanos e os outros animais se dá de diversas formas: na alimentação, na moda, na ciência, no labor e até no entretenimento. Sobre a indústria da carne, a situação chegou a níveis tão absurdos que passou a ser de grande preocupação global, tamanho o impacto ambiental negativo. Para dar uma dimensão do problema, em 2016, foram registradas, no Brasil, cerca de 215 milhões de cabeças de gado, ultrapassando a quantidade de habitantes no país, naquele ano. Esses animais demandam quantidades enormes de alimento, água e espaço para um dia sua carne chegar aos pratos. Eles produzem dejetos que poluem rios e oceanos, além de seus gases serem a principal fonte de gás metano na atmosfera, um dos agentes mais agravantes da crise climática, que a cada dia se torna mais preocupante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É curioso notar que até a preocupação com o meio ambiente é, muitas vezes, uma preocupação egoísta, um medo de que soframos as consequências da nossa falta de compaixão exacerbada. Onde está a preocupação com os animais indefesos que sofrem com a nossa insensatez? O avanço tecnológico serviu como uma lupa para aumentar e expor toda a capacidade humana de ser cruel e insensível. O planeta inteiro se tornou mero objeto ao dispor do capricho e da ambição sem limites, em nome de um progresso material que não leva em conta que também fazemos parte dessa Terra:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.4"><strong>Progresso e desenvolvimento são ideais inegáveis; mas perdem o sentido se o homem chegar a seu novo estado apenas como um fragmento de si mesmo, deixando para trás, na sombra do inconsciente, todo o essencial que constitui seu pano de fundo, a um estado de primitividade, ou até de barbárie</strong>. (JUNG, 2016, p. 195)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Se pensarmos em termos junguianos sobre toda essa situação, fica evidente uma unilateralidade extrema da psique coletiva. Quando isso acontece, a tendência é que surja um efeito enantiodrômico para restabelecer a harmonia perdida:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.4"><strong>No caso histórico-coletivo, tal como no individual, trata-se de um desenvolvimento da consciência, a qual se liberta gradualmente da prisão da ἀγνοία, ou seja, da inconsciência [&#8230;] Tal como na forma coletivo-mitológica, a sombra individual também traz em si o germe da enantiodromia, da conversão, em seu oposto.</strong> (JUNG, 2016, p. 308-9)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">É a partir desse movimento psíquico coletivo que surge o veganismo, vindo das profundezas sombrias da humanidade, que reprimiu a própria compaixão pelas outras espécies animais. Diferente do que muitos ainda acreditam, não se trata apenas de não consumir carnes e outros derivados animais, mas um movimento ético-político pelos direitos e libertação animal. Além disso, como se posiciona contra qualquer tipo de opressão, defende também os direitos humanos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como qualquer movimento de integração com a sombra gera intensa resistência no indivíduo, fato comum no processo analítico, também a humanidade resiste bravamente à adesão ao veganismo, utilizando-se dos argumentos mais estapafúrdios. A resistência, na realidade, se dá em relação à compaixão, à empatia, ao amor ao próximo, à simples capacidade de enxergar os animais de outras espécies como nossos próximos, ao desapego material, à conexão espiritual com a natureza e o planeta como um todo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há, porém, outro fator de resistência que se dá por questões externas da vivência humana: a pressão social. Aderir ao veganismo implica, muitas vezes, em ter que lidar com incompreensão, zombaria, críticas e uma sorte de desafios na relação com outras pessoas. O medo da rejeição e do isolamento social são experiências comuns de quem deseja aderir a essa causa. Por isso, o indivíduo precisa de uma forte convicção ao mesmo tempo em que desenvolve uma resiliência capaz de sustentar de forma tranquila as consequências dessa decisão, sem cair para o lado da raiva e do ressentimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar disso, a “sombra verde” já encontrou a luz e o movimento vegano se encontra em pleno crescimento mundial. De acordo com uma pesquisa de março de 2025, feita pelo Instituto Datafolha, 7% da população brasileira se considera totalmente ou parcialmente vegana. Isso significa que por volta de 15 milhões de brasileiros olham com seriedade para a questão. É muita gente! Em muitos outros países, essa tendência se mostra alinhada com o Brasil, o que demonstra ser um movimento global. Parece que quanto mais acirrada fica a relação exploratória entre a humanidade e as outras espécies de animais, mais atrativo o veganismo se torna, justamente o que se esperaria da dinâmica psíquica da sombra.</p>



<h2 id="h-um-caminho-de-progresso-e-compaixao" class="wp-block-heading"><strong>Um caminho de progresso e compaixão</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A sombra não deve ser evitada, pelo contrário, se faz necessário olhar para ela com respeito. Ela, geralmente, indica um caminho mais harmonioso a ser seguido, que se dá através da sua integração à consciência. A psicologia analítica esclarece que, em se tratando de inconsciente, a figura da sombra é a que está mais perto da consciência e, por isso, é a primeira a se manifestar no processo analítico. Ademais, marca o início da individuação. (Cf. JUNG, 2016, p. 308)</p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante destacar que essa integração é uma busca pela totalidade e não pelo outro extremo. No caso do veganismo, o indivíduo precisa ter cuidado para não adentrar um radicalismo que o faça trocar o desprezo pelos outros animais pelo desprezo pelo ser humano. Um dos perigos desse caminho é a inflação do ego, que pode fazê-lo sentir-se superior moral ou espiritualmente às outras pessoas, enquanto se sente igual aos animais de outras espécies, uma grande contradição. Outro perigo que precisa de atenção é a obsessão pela pureza alimentar, a ortorexia, que pode levá-lo a restrições severas, isolamento, ansiedade, culpa e outros efeitos desnecessários.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Integrar significa trazer para si, para perto, aceitar tudo aquilo faz parte de si mesmo e estava escondido. Isso requer compaixão com a própria individualidade. A “sombra verde” aponta para a necessidade de uma ampliação de consciência que desenvolva a nível coletivo uma profunda compaixão pelas outras espécies animais, assim como pela humanidade. A autocompaixão é o primeiro passo dessa jornada, pois nos aproxima da totalidade psíquica, o <em>Self</em>. Dessa forma, essa unilateralidade típica do ser humano atual pode ser desfeita e a vida de todos os animais suavizada:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.4"><strong>Esta consciência “deslizante” é inteiramente característica também do homem moderno. A unilateralidade, porém, que ela provoca é removida por aquilo que eu chamei de “percepção da realidade da sombra” [&#8230;] um processo de tomada de consciência da parte inferior da personalidade, processo este que não deve ser entendido falsamente no sentido de um fenômeno de natureza intelectual, porque se trata de uma vivência e de uma experiência que envolvem a pessoa toda</strong>. (JUNG, 2014, p. 167-8)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Essa experiência de conscientização é o que o movimento vegano busca levar às pessoas de todos os cantos do planeta. Infelizmente, só é possível informar e mostrar a questão pelo viés intelectual, mas vez ou outra alguns corações são tocados e, então, o amor pela causa animal é despertado. O que antes era ignorado, de repente parece óbvio e o indivíduo começa a enxergar as outras espécies como iguais e irmãs. Jung (2014, p. 105) cita “o inconsciente coletivo, que, como herança imemorial de possibilidades de representação, não é individual, mas comum a todos os homens e mesmo a todos os animais, e constitui a verdadeira base do psiquismo individual.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa herança em comum fala sobre uma conexão espiritual entre todos os seres vivos e o planeta. Uma ancestralidade que se revela a nível biológico e psíquico, mesmo que o ser humano, de modo geral, se sinta ilusoriamente separado da natureza e superior às outras espécies. Muita ampliação de consciência ainda se faz necessária para sair desse torpor, tanto através de trabalhos de educação das massas quanto do trabalho interno de autoconhecimento. O veganismo convida para ambos, no sentido em que o indivíduo passa a fazer parte de um movimento global ao mesmo tempo em que precisa se responsabilizar individualmente por suas ações. Em uma época em que o ser humano se sente impotente diante de tantas crises mundiais, uma transformação na relação de cada um de nós com os outros animais se mostra de grande impacto positivo:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.4"><strong>O homem comum, que é predominantemente o homem da massa, em princípio não toma consciência de nada nem precisa fazê-lo, porque, na sua opinião, o único que pode realmente cometer faltas é o grande anônimo, convencionalmente conhecido como “Estado” ou “Sociedade”. Mas aquele que tem consciência de que algo depende de sua pessoa, ou pelo menos deveria depender, sente-se responsável por sua própria constituição psíquica, e tanto mais fortemente, quanto mais claramente se dá conta de como deveria ser, para se tornar mais saudável, mais estável e mais eficiente</strong>. (JUNG, 2014, p. 169)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como a individuação, o veganismo é um chamado coletivo e também uma jornada individual. É um apelo para que nós, seres humanos, despertemos nossa compaixão e abramos os olhos para a extensão dos males que estamos causando em nossa própria casa, a Terra. Enxergar a própria sombra, esteja nela a compaixão ou a crueldade, é o caminho para o verdadeiro progresso e nos aproxima daquilo que nos faz semelhantes a todos os seres:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.4"><strong>As pessoas, quando educadas para enxergarem claramente o lado sombrio de sua própria natureza, aprendem ao mesmo tempo a compreender e amar seus semelhantes; pelo menos, assim se espera. Uma diminuição da hipocrisia e um aumento do autoconhecimento só podem resultar numa maior consideração para com o próximo, pois somos facilmente levados a transferir para nossos semelhantes a falta de respeito e a violência que praticamos contra nossa própria natureza</strong>. (JUNG, 2014, p. 35)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/leonardo-lopes-de-lima-salek/">Leonardo Salek &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 id="h-video-de-apresentacao" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Vídeo de apresentação:</strong></h2>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;O Veganismo e a Sombra Coletiva&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/RIOxa2Eh4tI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-video-referencias"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicologia do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2013. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2014. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2016. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ A psicologia da ioga kundalini. Petrópolis: Vozes, 2022. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sociedade Vegetariana Brasileira, 2025. Disponível em: &lt;<a href="https://svb.org.br/pesquisa-datafolha-revela-que-7-dos-brasileiros-se-consideram-veganos/">https://svb.org.br/pesquisa-datafolha-revela-que-7-dos-brasileiros-se-consideram-veganos/</a>&gt;. Acesso em: 17 de maio de 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Associação Brasileira de Veganismo, sem data. Disponível em: &lt;<a href="https://veganismo.org.br/bovinos/">https://veganismo.org.br/bovinos/</a>&gt;. Acesso em: 17 de maio de 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Nina Rosa, 2024. Disponível em: &lt;<a href="https://institutoninarosa.org.br/dia-mundial-do-veganismo/">https://institutoninarosa.org.br/dia-mundial-do-veganismo/</a>&gt;. Acesso em: 17 de maio de 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Nina Rosa, 2024. Disponível em: &lt;<a href="https://institutoninarosa.org.br/o-que-mudou-em-20-anos/">https://institutoninarosa.org.br/o-que-mudou-em-20-anos/</a>&gt;. Acesso em: 17 de maio de 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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			</item>
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		<title>Aspectos psicológicos da relação com a aridez em tempos de emergência climática</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/aspectos-psicologicos-da-relacao-com-a-aridez-em-tempos-de-emergencia-climatica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Jun 2026 18:59:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Natureza]]></category>
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					<description><![CDATA[<p> Este artigo busca analisar os elos entre os acontecimentos ligados à crise hídrica em tempos de emergência climática e a experiência tão humana e profunda de aridez e sede, aprofundando os paradigmas do combate à seca e da convivência com o Semiárido na psique individual e coletiva, à luz das reflexões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/aspectos-psicologicos-da-relacao-com-a-aridez-em-tempos-de-emergencia-climatica/">Aspectos psicológicos da relação com a aridez em tempos de emergência climática</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 id="h-resumo-este-artigo-busca-analisar-os-elos-entre-os-acontecimentos-ligados-a-crise-hidrica-em-tempos-de-emergencia-climatica-e-a-experiencia-tao-humana-e-profunda-de-aridez-e-sede-aprofundando-os-paradigmas-do-combate-a-seca-e-da-convivencia-com-o-semiarido-na-psique-individual-e-coletiva-a-luz-das-reflexoes-da-psicologia-analitica-de-carl-gustav-jung" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo busca analisar os elos entre os acontecimentos ligados à crise hídrica em tempos de emergência climática e a experiência tão humana e profunda de aridez e sede, aprofundando os paradigmas do combate à seca e da convivência com o Semiárido na psique individual e coletiva, à luz das reflexões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-a-aridez-e-um-dos-simbolos-fortes-que-atravessam-o-humano-em-varios-contextos-e-epocas-historicas-e-retorna-vivamente-hoje-diante-da-crise-climatica-em-que-a-propria-onu-declarou-este-ano-ter-o-mundo-entrado-em-uma-falencia-global-de-agua-imagens-de-uma-terra-rachada-sem-vegetacao-da-vida-ameacada-evocam-a-experiencia-da-sede-tao-desesperadora-quanto-profunda-pois-alem-da-literal-quanta-sede-se-vive-interiormente-voce-tem-sede-de-que-canta-o-titas" style="font-size:16px">A aridez é um dos símbolos fortes que atravessam o humano em vários contextos e épocas históricas e retorna vivamente hoje diante da crise climática, em que a própria ONU declarou este ano ter o mundo entrado em uma falência global de água. Imagens de uma terra rachada, sem vegetação, da vida ameaçada evocam a experiência da sede, tão desesperadora quanto profunda, pois, além da literal, quanta sede se vive interiormente. “<strong>Você tem sede de quê</strong>?”, canta o Titãs.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E tantos outros artistas da música, cinema, poesia e vários místicos ao longo da História falaram de formas diferentes da sede e da aridez ou do deserto. “Minha alma tem sede de ti; minha carne desfalece por ti, em uma terra ressequida, esgotada, sem água”, canta o salmista (Sl 63,1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 2009 e 2010, vivi em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, Semiárido mineiro, trabalhando como comunicadora popular em um projeto da Articulação no Semiárido (ASA-Brasil) de captação de água de chuva para a agricultura familiar, voltado para famílias rurais que já possuíam a primeira cisterna, de água de beber. </p>



<p class="wp-block-paragraph">É impossível resumir toda a rica experiência de viver e trabalhar com famílias de vários municípios da região e participar desta articulação da sociedade civil que fazia tantas conquistas em muitos setores ao redor da água, como agroecologia, educação no campo, questões de gênero e outras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mais importante era a mudança de paradigma, do combate à seca, que tanto enriqueceu latifundiários a partir da manutenção e espetacularização da miséria, para a convivência com o Semiárido, que mostrava a possibilidade de vida digna e abundante na especificidade daquela região.</p>



<h2 id="h-hoje-como-psicoterapeuta-vejo-no-proprio-processo-e-em-tantos-que-ja-acompanhei-a-presenca-tambem-dos-dois-paradigmas" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Hoje, como <strong>psicoterapeuta</strong>, vejo no próprio processo e em tantos que já acompanhei a presença também dos dois paradigmas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A princípio, o combate a tudo o que não corresponde ao padrão dominante na consciência. Ao longo do processo, o convite — às vezes aceito — ao aprendizado da convivência entre os vários que nos habitam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante de tudo isso, o objetivo deste artigo é aprofundar os paradigmas do combate à seca e da convivência com o Semiárido na psique individual e coletiva, à luz das reflexões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Buscar-se-á perceber os elos entre os acontecimentos ligados à crise hídrica em tempos de emergência climática e as experiências de aridez, sede, provações, também com os caminhos de combate e convivência que se apresentam diante delas.</p>



<h2 id="h-do-combate-a-seca-a-convivencia-com-o-semiarido-territorial" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Do combate à seca à convivência com o Semiárido territorial</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">As terras áridas e semiáridas ocupam mais de um terço (41%) da superfície do planeta, presentes em todos os continentes. Sua principal característica é a baixa precipitação — chove entre 80 e 250 mm por ano —, com a forte presença dos desertos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Semiárido brasileiro, por sua vez, é o mais chuvoso do mundo, com um volume entre 200 e 800 mm anuais. Envolve cerca de 15% do território nacional, compreendendo a maior parte dos Estados do Nordeste, o Norte de Minas Gerais e Vale do Jequitinhonha e o norte do Espírito Santo. Tem dois biomas principais, o Cerrado e a Caatinga, que recebem influência e umidade de biomas vizinhos, daí sua peculiaridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o processo de desertização é natural e ocorre de forma lenta e gradativa, o que se discute cada vez mais é a questão da desertificação, uma das grandes ameaças nas mudanças climáticas e fruto da ação humana desordenada. Culmina com a degradação dos solos, dos recursos hídricos, da vegetação e da biodiversidade, reduzindo a qualidade de vida das populações afetadas.</p>



<h2 id="h-o-brasil-viveu-algumas-grandes-secas-ao-longo-de-sua-historia-incrivel-pensar-que-a-mais-severa-de-todas-foi-a-de-2024-sera-que-estamos-atentos-a-isso" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O Brasil viveu algumas grandes secas ao longo de sua história (incrível pensar que a mais severa de todas foi a de 2024! Será que estamos atentos a isso?).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No geral, sobretudo até o final do século XX, os governos se acostumaram a fazer grandes obras, como açudes e represas, muitas vezes superfaturadas, passando pelas terras de fazendeiros, enquanto a maioria da população dependia de caminhões-pipa e cestas básicas, mantenedores da dependência social e política e geradores de votos. Muitos migravam para as grandes cidades, gerando a ocupação desordenada que até hoje faz vítimas nos desabamentos e enchentes com as chuvas fortes e concentradas.</p>



<h2 id="h-lembro-me-de-crianca-das-imagens-no-noticiario-das-secas-no-nordeste-as-filas-para-conseguir-um-balde-de-agua-os-caminhoes-paus-de-arara-levando-as-familias-dos-migrantes" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Lembro-me de criança das imagens no noticiário das secas no Nordeste, as filas para conseguir um balde de água, os caminhões paus-de-arara levando as famílias dos migrantes&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E, no Ensino Fundamental, muito me impressionou um livrinho com o título <em>Indústria da seca</em>! Foi a primeira vez que tive contato com este termo cunhado na década de 1960 pelo jornalista Antônio Callado, que mostrou como a seca estava longe de ser mero fenômeno climático, mas era socialmente construída e manipulada para servir aos interesses da elite regional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No início da década de 1990, ocorreu um processo de mobilização e fortalecimento da sociedade civil, cujo marco foi a ocupação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Em 1993, com o objetivo de pautar a convivência com o Semiárido em contraposição à política governamental vigente na época. Em 1999, paralelamente à 3ª Conferência das Partes da Convenção de Combate à Desertificação e à Seca (COP3) da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada no Recife (PE), organizações da sociedade civil lançaram a Declaração do Semiárido Brasileiro, marco de fundação da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA).</p>



<h2 id="h-a-declaracao-afirma-a-viabilidade-do-semiarido-uma-regiao-com-grande-riqueza-natural-e-cultural-e-muitas-possibilidades-com-a-qual-familias-desenvolveram-maneiras-criativas-de-conviver-e-lidar" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A Declaração afirma a viabilidade do Semiárido, uma região com grande riqueza natural e cultural e muitas possibilidades, com a qual famílias desenvolveram maneiras criativas de conviver e lidar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A grande diversidade desse território precisa ser levada em consideração nos projetos; grandes soluções uniformes, além de onerosas e de alto risco ambiental e social, não funcionam para a maioria dispersa ao longo desse local.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As propostas da articulação, baseadas nas premissas de conservação, uso sustentável e recomposição ambiental dos recursos naturais e da quebra do monopólio de acesso à terra, água e outros meios de produção, envolvem, entre outros pontos, o fortalecimento da agricultura familiar; o uso de tecnologias e metodologias adaptadas à região e à população; à universalização do acesso à água para beber e cozinhar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como o eixo principal do meu trabalho era a compilação em boletins e programas de rádio das experiências de famílias agricultoras na convivência com o Semiárido, pude sentir o orgulho pelos bancos de sementes crioulas (nativas), as técnicas que empregavam para o manejo da água, como os canteiros econômicos, os intercâmbios de aprendizado visitando a terra uma da outra, a mudança gradativa de olhar para questões complexas como a das mulheres. Ouvi algumas histórias inclusive de retorno ao campo após migração para os grandes centros e conheci a riqueza do trabalho com o barro das artesãs e os vários corais da região.</p>



<h2 id="h-em-suma-o-combate-a-seca-esta-ligado-ao-paradigma-moderno-mecanicista-e-economicista-em-uma-visao-individualista-de-viver-melhor-cuja-busca-e-infinita-e-passa-por-cima-de-tudo-e-de-todos-pelos-proprios-interesses-trazendo-como-consequencia-ultima-a-extincao-do-planeta" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Em suma, o combate à seca está ligado ao paradigma moderno, mecanicista e economicista, em uma visão individualista de “viver melhor”, cuja busca é infinita e passa por cima de tudo e de todos pelos próprios interesses, trazendo como consequência última a extinção do planeta.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A convivência com o Semiárido representa um paradigma emergente baseado na sustentabilidade, segundo o qual a superação da insegurança alimentar não depende apenas de obras hídricas, mas de reforma estrutural, participação social, políticas públicas permanentes e mudança cultural. Sobretudo da transformação do olhar, do “viver melhor” para o “bem viver”, uma visão holística, indígena e coletiva, que busca harmonia permanente com o meio ambiente (Pacha Mama) e o bem comum, rejeitando o consumo desenfreado e o foco no indivíduo.</p>



<h2 id="h-do-combate-a-seca-a-convivencia-com-o-semi-arido-emocional" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Do combate à seca à convivência com o (semi)árido emocional</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Encontrar-se sedento em terra árida é uma experiência emocional profunda pela qual toda pessoa passa em momentos da vida. Difícil é assumir essa experiência, atravessá-la e aprender com ela, processo com o qual a psicoterapia contribui. Segundo Hollis (1999, p. 12), o objetivo da terapia “não é, portanto, remover o sofrimento, e sim passar através dele em direção a uma consciência ampliada capaz de sustentar a polaridade de opostos dolorosos” (grifos do autor).</p>



<h2 id="h-um-dos-principais-pares-de-opostos-e-limitacao-e-infinitude" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Um dos principais pares de opostos é limitação e infinitude.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Faz parte da angústia característica da condição humana, da porta estreita pela qual se tem que passar no dia a dia, o ter que fazer escolhas diante da infinidade de possibilidades. O que acontece é que cada vez mais recusamos ficar com a angústia, reconhecer a sede, conviver com a insatisfação, olhar simbolicamente para o vazio e a falta permanecendo tempo suficiente no atravessamento desta dor a ponto de perceber que ela se liga exatamente à sede de infinito que carregamos, que é, para Jung, critério decisivo da vida humana.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:1.3">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Para o homem a questão decisiva é esta: você se refere ou não ao infinito? Tal é o critério de sua vida. Se sei que o ilimitado é essencial então não me deixo prender a futilidades e a coisas que não são fundamentais. [&#8230;] Quanto mais o homem acentua uma falsa posse, menos pode sentir o essencial e tanto mais insatisfatória lhe parecerá a vida (JUNG, 2016, p. 387-388).</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-o-doloroso-mas-realizador-processo-mencionado-vai-da-consciencia-da-limitacao-para-a-abertura-ao-infinito-ao-transcendente" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O doloroso mas realizador processo mencionado vai da consciência da limitação para a abertura ao infinito, ao transcendente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Tomando consciência do que minha combinação pessoal comporta de unicidade, isto é, em definitivo, de limitação, abre-se para mim a possibilidade de conscientizar também o infinito” (Ibid., p. 388).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta ampliação leva ao reconhecimento do que realmente importa, com o que “os desejos e atitudes se modificam. Finalmente, só valemos pelo essencial e se não acedemos a ele a vida foi desperdiçada”. (Ibid., p. 388) Para Hollis (op. cit., p. 12), trata-se de um amadurecimento psicológico e espiritual, voltado à descoberta do sentido e significado da vida, a necessidade mais profunda do ser humano moderno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que geralmente ocorre, no entanto, são outras duas vias interligadas, oriundas da busca de segurança do ego infantil e dependente que foge para evitar a todo o custo o sofrimento, e o custo acaba sendo um sofrimento maior pela falta de sentido, pelo dispêndio de energia no combate constante aos “estados sombrios da alma”, ao fluxo e refluxo naturais da vida, na tensão constante por “nunca podermos abandonar o frenético desejo de sermos felizes e despreocupados” (Ibid., p. 14-15). Vejam aí o combate à seca!</p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira via é a identificação ilusória com o ilimitado, que se manifesta na busca do ter mais e poder mais, de posses e <em>status</em>, no consumismo desenfreado e ostentação, tão atuais. É a imagem do ser humano independente, autossuficiente, autodeterminado, cujo motor é “eu quero, eu posso, eu consigo”. Na segunda via, toca-se o vazio, a sede, mas não se suporta ficar um tempo aí até descobrir formas de conviver com a aridez. Foge-se buscando encher o buraco com coisas ou o tempo com afazeres.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas vias são típicas do espírito da nossa época. Sobre ele, disse o <strong>Papa Francisco</strong> em sua Encíclica <em>Laudato Sí</em>, na qual justamente abordou o “cuidado da casa comum”:</p>



<h2 id="h-muitas-pessoas-experimentam-um-desequilibrio-profundo-que-as-impele-a-fazer-as-coisas-a-toda-a-velocidade-para-se-sentirem-ocupadas-numa-pressa-constante-que-por-sua-vez-as-leva-a-atropelar-tudo-o-que-tem-ao-seu-redor-n-225" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><em>“Muitas pessoas experimentam um desequilíbrio profundo, que as impele a fazer as coisas a toda a velocidade para se sentirem ocupadas, numa pressa constante que, por sua vez, as leva a atropelar tudo o que têm ao seu redor” (n. 225).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aprofundando as consequências para o meio ambiente e os mais pobres, citou trecho de homilia de Bento XVI que conecta interno e externo: <em>“Os desertos exteriores multiplicam-se no mundo, porque os desertos interiores se tornaram tão amplos” (n. 217).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A desertificação, processo acelerado fruto da ação humana que visa apenas extrair a qualquer custo e de qualquer jeito, ocorre, portanto, tanto externa como internamente. Cada vez que se busca responder à própria inquietação lançando-se com a avidez gerada por ela apenas para fora, para coisas e afazeres, para o ter mais e (a)parecer mais, como se viu, aumenta-se a aridez, em uma sede infinita e destruidora. Ou, quando se foge do vazio buscando preenchê-lo, gera-se mais vazio. É um caminho de combate à seca que, do mesmo jeito que as grandes e onerosas represas, também busca o grande e custoso em apenas um lugar, nos valores dominantes da consciência, gerando ainda mais seca e vazio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na visão de Jung, além do espírito da época, porém, existe o espírito da profundeza, atemporal, que se manifesta no chamado da alma, que continua a gritar em tudo isso e apesar de tudo isso, nem que tenha que encontrar brechas apenas explodindo em sintomas nos indivíduos ou catástrofes no coletivo.</p>



<h2 id="h-jung-teve-a-coragem-de-trilhar-o-caminho-de-seguir-este-chamado-bem-elucidado-no-livro-vermelho-e-a-partir-da-propria-experiencia-gestou-a-psicologia-analitica" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Jung teve a coragem de trilhar o caminho de seguir este chamado, bem elucidado no <em>Livro Vermelho</em>, e a partir da própria experiência gestou a Psicologia Analítica.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:12px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Minha alma leva-me ao deserto, ao deserto de meu próprio si-mesmo. Não pensava que meu si-mesmo fosse um deserto, um deserto seco e quente, poeirento e sem bebida. [&#8230;] Isto é solidão, estar consigo mesmo? Solidão só quando o si-mesmo é um deserto. [&#8230;] Minha alma, o que devo fazer aqui? Mas a minha alma falou-me e disse: “Espera”. (JUNG, 2013, p. 128)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Neste processo dinâmico de espera ativa, “o papel adequado do ego é manter um relacionamento com o Eu e o mundo no qual existe o diálogo. O ego deve permanecer aberto, o mais consciente possível e disposto a negociar” (Hollis, <em>op. cit</em>., p. 15). Ele deve aprender a jornada da convivência com o deserto, o árido, ou com o semiárido — interno e externo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal, o que chamamos de “eu” é apenas uma pequena parte de uma estrutura psíquica muito maior, formada de consciência e inconsciente, com suas várias figuras que não caberia aprofundar aqui, mas que acessamos cotidianamente em experiências das quais afirmamos: “Não parecia eu!”; “eu estava fora de mim!”; “a bruxa estava solta!” etc. A meta da vida humana para a Psicologia Analítica é o processo de individuação, que leva a se ir descobrindo e tornando-se quem se é pela integração dos opostos na multiplicidade de figuras que se manifestam na psique. Figuras com as quais, quando estamos unilateralizados, normalmente combatemos como inimigas, não aprendendo a lidar com elas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para aprender o caminho da convivência, é preciso não correr para as coisas assim que se experimentar a sede, não fugir da aridez migrando para as luzes da cidade e suas promessas; mas descobrir do que se tem sede de fato e cavar exatamente na terra seca e rachada, buscando um poço mais profundo e interior.</p>



<h2 id="h-como-fez-jung-que-ensina" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Como fez Jung, que ensina:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Não te esqueças de esperar. Não viste como tua força criadora se voltou para o mundo [&#8230;]? Se tua força criadora se voltar agora para o lugar da alma, verás como tua alma vai reverdecer e como seu campo produzirá frutos maravilhosos. Ninguém pode furtar-se ao esperar, e a maioria não conseguirá suportar esse tormento, mas se lançarão outra vez com gula sobre as coisas, pessoas e pensamentos, cujos escravos se tornarão a partir desse momento. [&#8230;] Também aquele cuja alma é um jardim precisa das coisas, pessoas e pensamentos, mas ele é seu amigo e não seu escravo e bufão. (JUNG, 2013, p. 129)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Cavar o próprio poço até o manancial supõe abrir-se ao diálogo entre os vários que nos habitam, acolhendo as imagens do inconsciente que se manifestam em sonhos, sintomas e também nas relações, justamente naquelas situações das quais afirmamos: “Não parecia eu!” Perguntar que mensagem tudo isso traz, de onde quer me tirar, aonde me leva&#8230; É como valorizar as sementes nativas, cultivá-las, fazer canteiros econômicos, acolher um saber ancestral e descobrir formas criativas de conviver com o Semiárido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se interiormente é preciso diálogo, coletivamente parece que apenas o confronto das visões não leva a lugar algum além das polarizações da atualidade. Como é difícil sair do monoteísmo da consciência, parece utópico também pensar no diálogo entre os paradigmas, na busca de alguns consensos para a construção de caminhos possíveis.</p>



<h2 id="h-certo-e-que-a-terra-nao-aguenta-mais" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Certo é que a Terra não aguenta mais!</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não é fácil sair dos “sambas de uma nota só”, das unilateralidades, mas o chamado do Self parece apontar nesta direção. Afinal, o Self é ao mesmo tempo centro e totalidade da vida psíquica. E o processo de individuação leva não a um fechamento em si, mas à abertura e comunhão cada vez maior com todos e com o Cosmos. E isso traz a verdadeira paz, o <em>shalom</em> hebraico, que significa harmonia das relações nas várias dimensões. Concluindo com o Papa Francisco:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:12px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>A paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuidado da ecologia e com o bem comum, porque, autenticamente vivida, reflete-se num equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade de admiração que leva à profundidade da vida. (FRANCISCO, 2015, n. 225)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/tania-pulier/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/tania-pulier/">Tania Pulier — Membro Analista /IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/lilian/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/lilian/">Lilian Wurzba — Analista Didata/IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Vídeo de apresentação:</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;Aspectos psicológicos da relação com a aridez em tempos de emergência climática&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/t133CTNRn-E?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A BÍBLIA. Tradução ecumênica. São Paulo: Loyola; Paulinas, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ASA – Articulação Semiárido Brasileiro. <em>Documentário Conviver</em>. Direção de Bruno Xavier, Roger Pires e Yargo Gurjão. 19 set. 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FnrHrCh4sJI. Acesso em: 26 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANCISCO. Carta Encíclica <em>Laudato Si</em>&#8216;: sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulus, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. <em>Os pantanais da alma</em>: Nova vida em lugares sombrios. São Paulo: Paulus, 1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>O Livro Vermelho (</em>Liber Novus<em>)</em>. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. <em>Memórias, sonhos e reflexões</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAIOR seca da história do Brasil afeta 1.400 cidades no país. <em>Fantástico</em>, G1, 8 set. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2024/09/08/maior-seca-da-historia-do-brasil-afeta-1400-cidades-no-pais.ghtml. Acesso em: 26 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NAÇÕES UNIDAS BRASIL. As terras áridas são importantes: por quê? <em>Notícia</em>, 16 ago. 2010. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/55696-terras-%C3%A1ridas-s%C3%A3o-importantes-por-que. Acesso em: 26 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">UNU-INWEH. World enters “Era of Global Water Bankruptcy”: scientists formally define new post-crisis reality for billions. <em>News</em>, 20 jan. 2026. Disponível em: https://unu.edu/inweh/news/world-enters-era-of-global-water-bankruptcy. Acesso em: 26 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O Bem-Viver, o Amor e a Consciência Contemporânea</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-bem-viver-o-amor-e-a-consciencia-contemporanea/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 May 2026 00:01:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Observando a situação em que Gaia se encontra atualmente, esse artigo propõe uma pequena reflexão sobre uma mudança de paradigma embasando-se em conceitos da Psicologia Junguiana (soberania da consciência, o rebaixamento do inconsciente, a antinomia poder – amor) e do Bem-Viver (filosofia ancestral dos povos originários). Esse artigo reflete sobre a soberania da consciência e o consequente rebaixamento inconsciente, a antinomia poder-amor, conforme C.G. Jung, e a filosofia do Bem-Viver.</p>
<p>Ao conhecer o conceito Tekoá-porã - termo guarani, que significa Bem-Viver - não pude deixar de pensar sobre o que estamos presenciando atualmente em relação ao mundo natural. Embaso-me na Psicologia Junguiana para fazer uma pequena reflexão sobre esse tema tão importante para o contexto atual da humanidade onde Gaia se encontra ameaçada.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo: </strong>Observando a situação em que Gaia se encontra atualmente, esse artigo propõe uma pequena reflexão sobre uma mudança de paradigma embasando-se em conceitos da Psicologia Junguiana (soberania da consciência, o rebaixamento do inconsciente, a antinomia poder – amor) e do Bem-Viver (filosofia ancestral dos povos originários). Esse artigo reflete sobre a soberania da consciência e o consequente rebaixamento inconsciente, a antinomia poder-amor, conforme C.G. Jung, e a filosofia do Bem-Viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao conhecer o conceito <em>Tekoá-porã</em> &#8211; termo guarani, que significa Bem-Viver &#8211; não pude deixar de pensar sobre o que estamos presenciando atualmente em relação ao mundo natural. Embaso-me na Psicologia Junguiana para fazer uma pequena reflexão sobre esse tema tão importante para o contexto atual da humanidade onde Gaia se encontra ameaçada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-bem-viver"><em>O Bem-Viver</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para os povos originários <em>tekoá-porã</em> (em guarani), <em>sumak kawsay</em> (em quéchua), <em>suma-qamana</em> (em <em>aymara</em>) e bem-viver (em português), significa um modo de viver em harmonia consigo próprio, com o mundo natural e com todos os seres humanos e não humanos, respeitando-se a ancestralidade &#8211; que, para os povos originários, inclui todos os seres humanos e mais-que-humanos. (WERÁ, 2024) <em>Tekoa-porã</em> é uma filosofia ancestral milenar que “encapsula a arte do bem-viver” (WERÁ, 2024, p.18). O bem-viver:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.4"><em>é alcançado pelo reconhecimento de nossa essência ancestral, que transcende nossa existência material e se desdobra no tempo e no espaço como experiência de vida, manifestando-se na maneira como nos conectamos com o lugar que habitamos.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.4"><em>O “tekoá” nos convida a viver em harmonia com nós mesmos, com a natureza e com a comunidade de seres (incluindo os humanos), respeitando nossas raízes e os ensinamentos de nossos antepassados. (WERÁ, 2024, p.15)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-luz-da-consciencia"><em>A luz da consciência</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Atualmente vivemos em um mundo de desigualdade social, econômica, espiritual, racial, onde observamos guerras, doenças, desequilíbrio e alterações no mundo natural (como as climáticas). Vivenciamos um paradigma onde é necessário ser feliz, produzir e não sofrer, no seu tempo integral. Vivemos sob a luz da consciência que, segundo Jung, tornou o homem o segundo criador do mundo e possibilitou ao ser humano “uma existência objetiva e do significado: foi assim que o homem encontrou seu lugar indispensável no grande processo do ser.” (JUNG; JAFFÉ, 2012, p.311) Mas, além desse ponto, Jung também realça que enaltecendo-se a consciência rebaixa-se a alma humana. Há uma tendência à objetificação de tudo e a alma não tem mais lugar, tudo se tornou coisa (objeto), a razão se sobrepôs ao irracional, os “deuses” não têm mais lugar na vida humana. A consciência passa a negar conteúdos inconscientes que não lhe cabem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-consequencia-dessa-hybris-cometida-pela-unilateralidade-da-consciencia-o-nosso-zeitgeist-espirito-da-epoca-tem-como-uma-das-caracteristicas-principais-segundo-balestrini-amp-torres-2022-p-256" style="font-size:16px">Em consequência dessa <em>hybris,</em> cometida pela unilateralidade da consciência, o nosso <em>Zeitgeist</em> (Espírito da Época) tem como uma das características principais, segundo Balestrini &amp; Torres (2022, p.256):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph"><em>[&#8230;] a busca puramente egóica pelo controle e pelo poder, e esse critério, tomado como supremo por uma parcela muito grande da humanidade, guarda uma dimensão irracional correspondente ao seu exagero racionalista; desse acúmulo energético no inconsciente surgem os mais diversos sintomas psicopatológicos individuais e coletivos o que podemos observar no mundo atual.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A consciência tem como essência excluir, escolher e diferenciar. (JUNG, 2014a, p.287). Ela tem como característica a unilateralização, pois seleciona o que lhe interessa e o direciona, excluindo o que não lhe é relevante. O que não é selecionado “cai” no inconsciente e cria um contrapeso, mas se a unilateralização consciente aumentar demais, a tensão cresce, o que pode inibir a consciência, mas também pode ser inibido por ela. (JUNG, 2013d, p.437)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse conteúdo inconsciente excluído pela consciência pode irromper na consciência, manifestando-se através de sonhos, sincronicidades, atos falhos, fantasias, visões, sintomas ou até dominar a consciência. Os sintomas podem ser observados tanto a nível individual como coletivo, no indivíduo como no mundo natural. A consciência parece ser a “boazinha” na relação com o inconsciente que se manifesta de forma, muitas vezes, assustadora, mas Jung coloca que a consciência pode ser mais maléfica que o inconsciente que é atribuído ao mundo natural:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph"><em>As histórias da carochinha sobre o terrível homem primitivo, aliadas aos ensinamentos sobre o inconsciente infantil perverso e criminoso, conseguiram fazer com que essa coisa natural que é o inconsciente aparecesse como um monstro perigoso. Como se tudo o que há de belo, bom e sensato, como se tudo aquilo que torna a vida digna de ser vivida, habitasse a consciência! Será que a guerra mundial e seus horrores ainda não nos abriram os olhos? Será que ainda não percebemos que a nossa consciência é mais diabólica e mais perversa do que esse ser da natureza que é o inconsciente? (JUNG,2012b, p.35-36)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-inconsciente-coletivo"><em>O Inconsciente Coletivo</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Os arquétipos e os instintos são parte estrutural do inconsciente coletivo. Os arquétipos, “são a parte <em>ctônica</em> da psique”, a parte que vincula a psique (consciência e inconsciente) à natureza &#8211; com a terra e o mundo. “<em>É nestes arquétipos ou imagens primordiais que a influência da terra e de suas leis sobre a psique se manifesta com maior nitidez</em>.” (JUNG, 2013c, p.40)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobre os instintos Jung aponta que: “na realidade, a natureza é portadora de um combate cruel e infindável entre o princípio do eu e o princípio do instinto: o eu, todo barreiras; o instinto, sem limites ambos os princípios com igual poder.(JUNG, 2014b, p.45) A vida instintiva se expressa através dos hábitos tradicionais com seus costumes e convicções que, se perdidos, separam-se do instinto, levando a uma separação da consciência dos instintos, que por sua vez, perde suas raízes. (JUNG, 2013b)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao se realçar a consciência em detrimento do inconsciente (com seus arquétipos e instintos), ocorre uma resistência da consciência pelos deuses antes projetados na natureza. A natureza se torna “des-deusada” e, na sequência “des-almada” e os mesmos deuses que antes estavam projetados fora foram deslocados para dentro da psique humana (JUNG, 2012a, p.177-179) e, a partir disso, Jung coloca que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Os deuses tornaram-se doenças. Zeus não governa mais o Olimpo, mas o plexo solar e produz espécimes curiosos que visitam o consultório médico; também perturba os miolos dos políticos e jornalistas, que desencadeiam pelo mundo verdadeiras epidemias psíquicas. </em><em>(JUNG; WILHELM, 2013, p.50-51)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mudanca-de-paradigma"><em>Mudança de Paradigma –</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>com a presença do coração, diminuição da tirania egóica e inspiração no Bem-Viver</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Atualmente os sintomas que acometem os indivíduos, o mundo natural e os seres que nele habitam são claros e visíveis. O inconsciente reclama o seu lugar. A natureza ou mundo natural quer aparecer novamente, pois com a existência apenas objetiva da consciência rebaixa-se “a vida e o ser, inclusive a alma humana”, onde não há mais lugar para “o drama do homem, do mundo e de Deus”. (JUNG, 2012c, p.311) Para isso evidencia-se a necessidade de uma mudança de paradigma onde a alma, a natureza, volte a ter o seu lugar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Roszac</strong> (1995), os relatos inquietantes sobre a situação que se encontra Gaia (o planeta Terra) trazendo em evidência a culpa, a raiva e a vergonha para as pessoas que se veem nessa situação, muitas vezes, as assustam e estas podem ter como reação a negação ou a inação perante a situação desesperadora que se apresenta. Ele afirma que mudanças na ação de ambientalistas e terapeutas já estão acontecendo e relata a presença do:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph"><em>trabalho de ambientalistas que demonstram curiosidades saudáveis sobre suas necessidades de encontrar uma psicologia mais sustentável, uma que irá clamar por motivações afirmativas e pelo amor à natureza. (ROSZAC,1995, p. 3, </em><em>tradução de Sônia Fernandes)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A reconexão dos humanos com o mundo natural (com os seres humanos e mais-que-humanos) é necessária, e será mais bem elaborada por todos se lhes forem mostradas a beleza, o amor (Eros), a grandiosidade e suas origens no mundo natural. Jung (2013a, p.367) considera que um “pensamento psicologicamente correto” mantém “sua vinculação com o coração, com as profundezas da alma, com a raiz mestra de nosso ser” e a separação da consciência dos fundamentos da psique (instintos e arquétipos) é um “pensamento dissimulado” que pode trazer consequências (como sintomas neuróticos e outros).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-roszac-1995-p-3-traducao-de-sonia-fernandes-coloca-que" style="font-size:16px">Roszac (1995, p.3, tradução de Sônia Fernandes) coloca que:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>em uma carta privada, um ativista australiano, John Seed, escreveu assim:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>É óbvio para mim que as florestas não podem ser todas salvas de uma vez, nem o planeta pode ser salvo de uma vez, uma questão de cada vez: sem uma profunda revolução na consciência humana, todas as florestas logo irão desaparecer. Psicólogos a serviço da Terra ajudam ecologistas a alcançar profundos entendimentos sobre como facilitar profundas mudanças no coração humano, e a mente parece ser a chave nesse ponto.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">No nosso <em>Zeitgeist, a</em> consciência com sua racionalidade assumiu o controle, está no poder, e o inconsciente, o irracional, que se identifica com a natureza, abarca a alma humana rebaixada. Para Jung o poder é a antinomia do amor que está relacionado com Eros. É de grande importância colocar que de modo algum Eros se restringe a uma terminologia sexual. Ele aponta que Eros é um dos principais aspectos da natureza nos humanos, pois “pertence à natureza primitiva e animal do homem e existirá enquanto o homem tiver um corpo animal.” Eros, por outro lado, se liga ao espírito. Apenas quando instinto e espírito estão em harmonia é que o erotismo floresce. (JUNG, 2014b, p.39). Hillman (2020, p.53) aponta que é “através da alma que recebemos o amor, alma não é amor.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-2014b-p-65-coloca-que" style="font-size:16px">Jung (2014b, p.65) coloca que:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro. Quem se encontra do ponto de vista de Eros procura o contrário, que o compensa, na vontade de poder. Mas quem põe a tônica no poder, compensa-o com Eros. [&#8230;] É no oposto que se acende a chama da vida.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Portanto, segundo a psicologia junguiana, o amor (Eros) é necessário para contrabalançar o poder estabelecido pela consciência e restabelecer a conexão entre os seres humanos e o mundo natural.</strong> Ele poderá trazer a beleza e o reencantamento para as pessoas poderem se reconectar ao mundo natural (como John Seeds propõe na citação de Roszac) e ajudar na promoção de uma mudança de paradigma que dê mais ênfase ao inconsciente, às raízes ancestrais. A consciência brota do inconsciente, tem suas raízes no inconsciente e, portanto, ao perder sua base nas raízes distanciou-se do inconsciente. Segundo Jung, “alienar-se do inconsciente e alienar-se do condicionamento histórico é sinal de falta de raízes” (JUNG,2013c, p.59) e complementa afirmando que “um dos mais graves males psíquicos” é “a perda das raízes que não só é perigosa para as tribos primitivas, mas também para o homem civilizado.” (JUNG,2013b, p. 114)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para reverter essa questão é em primeiro plano necessário identificá-la para poder se desidentificar dela. Faz-se necessário uma ampliação da consciência (“uma profunda revolução na consciência humana”, como citado acima), reduzindo a sua unilateralidade, para que o inconsciente possa se restabelecer: conscientizar a consciência da inconsciência do perigo de sua <em>hybris</em>. O poder precisa ser compensado por Eros, pelo amor. Assim o poder dividirá espaço com o amor à natureza, os deuses realojar-se-ão na natureza, e alma do mundo terá novamente o seu lugar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir disso compreende-se a importância de se olhar para o Bem-Viver que pressupõe uma relação harmoniosa com o próprio ser, o território e todos os seres, respeitando uma ancestralidade natural. Os seres humanos pertencem à teia da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-discursou-o-chefe-seattle-ao-presidente-franklin-pierce-em-1854-quando-este-quis-adquirir-a-terra-que-os-povos-originarios-habitavam" style="font-size:17px">Como discursou o chefe Seattle ao presidente Franklin Pierce, em 1854, quando este quis adquirir a terra que os povos originários habitavam:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra. Não foi o homem que teceu a trama da vida: ele é meramente um fio dela. Tudo que ele fizer à trama, a si próprio fará.” (Chefe Seattle apud WERÀ, 2024, p.167)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Somos internos à alma do mundo, à Natureza, ao inconsciente. Portanto sugiro que o Bem-Viver, que nesse ponto conversa com a psicologia junguiana, também poderá ajudar para a mudança de um paradigma onde o mundo foi objetificado, coisificado, para um paradigma de um mundo com alma. Concluo com as palavras de <strong>Kaká Werá</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>No bem-viver, a riqueza e a beleza estão nesse lugar interior representado pelo coração, que, por sua vez, com toda a certeza irá refletir, sim, em riqueza e beleza exterior, devido à ênfase na qualidade das relações e no cuidado com o espaço onde se vive.</strong> (WERÁ, 2024, p.21)</em></p>
</blockquote>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: O Bem-Viver, o Amor e a Consciência Contemporânea" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/yzhHKrPzlrs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/elfriede-cristina-seidel-walzberg/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/elfriede-cristina-seidel-walzberg/">Elfriede Walzberg – Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/"><strong>Ajax Perez Salvador – Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BALESTRINI JUNIOR, J. L.; TORRES, L., <em>A Consciência: </em>um campo interacional e dialético. In: MAGALDI, W. (Org.), Fundamentos da Psicologia Analítica. São Paulo: Empresa Editora e Livraria Virtual Eleva Cultural, 2022, p.&nbsp;231-271.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, J., <em>Anima</em>: a psicologia arquetípica do lado feminino da alma no homem e sua interioridade na mulher. 2.ed. São Paulo: Pensamento Cultrix, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>A Natureza da Psique</em>.10. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________<em>A prática da psicoterapia</em>: contribuições ao problema da psicoterapia e à psicologia da transferência. 16.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________A vida simbólica: escritos diversos. 4.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________<em>Ab-reação, análise dos sonhos e transferência</em>. 9.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________<em>Civilização em transição</em>. 6.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________<em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>.11. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________<em>Psicologia do Inconsciente</em>. 24.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________<em>Tipos psicológicos</em>. 7.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013d.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.; JAFFÉ, A. (Org.); <em>Memórias, sonhos e reflexões</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.; WILHELM, R., <em>O segredo da flor de ouro</em>: um livro de vida chinês. 15 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ROSZAK, T.; GOMES, M. E.; KANNER, A. D. <em>Ecopsychology: </em>Restoring the earth, healing the mind. San Francisco: Sierra Club Books, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WERÁ, K., <em>Tekoá</em>: uma arte milenar para o bem-viver. Rio de Janeiro: Best Seller, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Ética na vida e morte da natureza</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/natureza/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Lorena Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Oct 2023 12:26:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[Desconexão]]></category>
		<category><![CDATA[Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relação Humano-Natureza]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8195</guid>

					<description><![CDATA[<p>Já parou para pensar o quanto de natureza existe de você e o quanto de você está na natureza? Nesse artigo fazemos uma reflexão sobre o atual estado de desconexão da humanidade com a natureza interna e externa, por meio da sempre presente urgência e desrespeitos aos ritmos, ciclos e processos.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>No presente artigo buscamos aprofundar a reflexão sobre nossa relação ética com a natureza, exploração dos recursos e falta de respeito para com a vida em geral.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>A relação entre o</em> <em>humano e o</em> <em>meio ambiente se deteriorou ainda mais com o advento da indústria e do poderio tecnológico</em>, <em>ao mesmo tempo que o aumento da população urbana distanciou grande parte da população da proximidade e observação do meio ambiente.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">      *<em>Este artigo foi inspirado na palestra que apresentamos no VIII Congresso Junguiano do IJEP. </em> <em>Conheça nossos Congressos Junguianos:</em> <a href="https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep"><em>https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep</em></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-homens-primitivos-viam-na-natureza-a-morada-de-seus-deuses" style="font-size:18px">Os homens primitivos viam na natureza a morada de seus deuses.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Os homens primitivos viam na natureza a morada de seus deuses. Os indígenas tratam a floresta e o local de onde tiram seu alimento, como espaço sagrado. As primeiras divindades foram fruto da observação e temor das forças da natureza. A falta de compreensão racional dos humanos a respeito do funcionamento da natureza fez com que projetassem nela seus primeiros conteúdos inconscientes e, a partir daí, criassem-se os <strong>deuses e mitos</strong>. Obviamente essa é uma redução drástica de uma linha do tempo que data de milênios atrás.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa reverência à natureza e aos deuses manifestados por seus fenômenos resultava em uma relação de cautela e precaução em relação à superexploração, poluição e degradação. Ao serem muito mais dependentes do seu ambiente próximo, nossos ancestrais aprenderam, provavelmente ao custo de vidas e sofrimento de algumas gerações, que certas práticas poderiam colocar em risco os alimentos e a saúde de todo um povo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-vida-na-terra-e-fruto-de-inumeras-transformacoes-e-condicoes-muito-peculiares" style="font-size:18px">A vida na Terra é fruto de inúmeras transformações e condições muito peculiares</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A vida na Terra é fruto de inúmeras transformações e condições muito peculiares, desde a localização do planeta no sistema solar, até a temperatura e composição da atmosfera &#8211; perfeitas para possibilitar a existência e evolução da vida ao ponto de gerar seres autoconscientes como nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A consciência e a racionalidade humanas tornaram possível que a nossa espécie fosse uma das poucas capazes de se adaptar, por meio de tecnologias, a todos os ambientes do planeta, desde as florestas quentes e úmidas dos trópicos até o inverno congelante do Ártico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tal capacidade criativa também fez com que a humanidade fosse capaz de entender o funcionamento de boa parte da natureza e passar então a usá-la a seu favor. Isso não é, de maneira alguma, um demérito, pelo contrário, é um ponto de inflexão na nossa capacidade de se adaptar, pois, a partir de então fomos capazes de produzir alimentos e alimentar um número cada vez maior de pessoas, um tanto menos dependentes da caça e coleta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Curiosamente, quanto mais conhecimento e controle o homem foi tendo da natureza, menor foi sua conexão com seus ciclos, sua reverência e temor das consequências. Jung baseou boa parte de seus achados teóricos na observação da natureza e era um grande crítico da desconexão entre homem e natureza alegando inclusive que a natureza é o alimento da alma (Duarte, 2017).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-advento-da-industria-e-sua-capacidade-de-processamento-transformou-a-natureza-em-uma-simples-fonte-de-insumos-e-tirou-dela-o-lugar-sagrado" style="font-size:18px">O advento da indústria e sua capacidade de processamento, transformou a natureza em uma simples fonte de insumos e tirou dela o lugar sagrado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A desconexão do humano com a natureza fez com que nos esquecêssemos de que dela dependemos. O que observamos, então, é uma formação societária de valorização da conquista, do poder e do domínio. Ao longo de toda uma diversa formação cultural e histórica, o meio natural foi visto como terra a ser conquistada, oportunidade de negócios, gerador insumos, fonte de riqueza. O local sagrado da natureza, e a troca harmônica com este meio, foram colocados em segundo plano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltando o nosso olhar de cinco a seis mil anos no passado, encontraremos o começo da estrutura patriarcal vivida hoje. Nesse ponto da história, grandes transformações ocorreram nos mais diversos níveis. Nas movimentações entre as dimensões internas e coletivas, a progressiva instalação do patriarcado influenciou a preponderância do poder e do controle sobre a natureza interna do feminino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-paralelamente-a-dominacao-se-estende-a-natureza" style="font-size:18px">Paralelamente, a dominação se estende à natureza.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Paralelamente, a dominação se estende à natureza. Quando o homem percebe que pode controlar o ciclo reprodutivo dos animais e das plantas inicia-se o controle mais ostensivo, juntamente com a imposição de sua vontade sobre os ciclos naturais. <strong>Inicia-se o rompimento da ordem natural de vida-morte</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A natureza foi, pouco a pouco, colocada como externa ao homem. Algo que pode ser controlado, medido, aproveitado e modificado. Passou a ser algo a parte de nós. Está distante, fora. Restrita a parques, reservas ambientais e paisagens. O ser humano já não se vê como parte da natureza e a natureza como ele próprio. O meio natural está agora longe, fora e separado de nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa perda de percepção do meio ambiente como algo do qual fazemos parte – e não apartado de nós – gerou um distanciamento do nosso próprio corpo e de tudo que se refere aos instintos naturais que nos cabem. Desde o processo natural de envelhecimento, até a autopercepção corporal de cansaço, fome e adoecimento. Estamos desconectados com o natural mais próximo a nós, que é o nosso corpo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-o-c-8-2-p-363-afirma-que-a-vida-natural-e-o-solo-em-que-se-nutre-a-alma" style="font-size:18px"><strong>Jung</strong> (O.C 8/2, p.363) afirma que “a vida natural é o solo em que se nutre a alma”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta citação, Jung refere-se ao curso da vida, que se compõe de etapas de ascensão e crescimento, envelhecimento e preparação para a morte. Mesmo sendo evidente as fases naturais da nossa vida, que nos encaminham para o envelhecimento e a morte, o entorno cultural direciona as vontades para a juventude e a preservação de uma beleza padronizada insustentável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na esfera psíquica, em alguns casos, fica-se atrelado a um passado infantil e pueril, que, nas palavras de Jung geram “verdadeiras monstruosidades psicológicas”. Utilizando-se das imagens do meio natural, como frequentemente o faz, ele afirma que “<strong><em>um velho que não sabe escutar os segredos dos riachos que descem dos cumes das montanhas para os vales não tem sentido, é uma múmia espiritual e não passa de uma relíquia petrificada do passado</em></strong>” (JUNG, O.C 8/2, p.364).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-notavel-ainda-que-o-tempo-natural-tem-sido-rompido-por-uma-urgencia-controladora" style="font-size:17px">É notável, ainda, que o tempo natural tem sido rompido por uma urgência controladora.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Desde o momento mais elementar do nascimento, a imposição do tempo urgente se faz. Muitas vezes o parto cirúrgico é escolhido pela possibilidade da intervenção médica para se acelerar o processo de nascimento. Projetando os valores de produtividade até mesmo no ato de nascer, em que o ritmo natural do parto é quebrado. Marca-se um horário conveniente e confortável para todos. Em uma sala estéril, asséptica e gelada, um corte é feito e o pequeno ser humano é puxado para o começo de sua vida. O primeiro contato com o mundo externo, muitas vezes não respeita o tempo, a pausa, o ritmo, a cadência das demandas instintivas e intrínsecas à nossa natureza mais elementar e visceral.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Vê-se uma paulatina deterioração da integração do homem com a natureza, o que conflui a um distanciamento do homem com seu mundo interno e uma falta de autopercepção mais profunda.</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta sensação de impotência e de alienação, a ausência de significado pessoal e de uma ligação viva com um campo orgânico &#8211; seja ele um grupo social, a natureza ou o <em>cosmo </em>-, é, sem dúvida, a característica psicológica peculiar de nosso tempo. Característica essa fomentada pela religião predominante nos últimos duzentos anos, mais conhecida como ciência. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Somado a isso, a impotência e a alienação são acentuadas pelos efeitos da cultura urbana, da coletivização abarrotante e da tecnologia. Todos estes fatores levaram a sociedade a um estado de entorpecimento e reduziram-na a uma manada. (WHITMONT, 1991, p. 262)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-retorno-da-deusa" style="font-size:18px">O retorno da Deusa</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Neste recorte do livro “Retorno da Deusa”, Whitmont evidencia o adoecimento compartilhado, que permeia várias esferas da nossa vida. Nessa dinâmica ocorre igualmente uma via de mão dupla.&nbsp; Ao mesmo tempo em que o homem em desconexão com sua natureza mais elementar agride e destrói, a natureza adoecida corrobora para uma saúde mental e física deteriorada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-mais-que-joguemos-fora-a-natureza-por-meio-da-forca-ela-sempre-retorna-jung-10-1-514" style="font-size:16px"><strong>Por mais que joguemos fora a natureza por meio da força, ela sempre retorna</strong> (JUNG, 10/1, §514)</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nos encontramos de diante de um planeta em urgente necessidade de regeneração e avançado estado de degradação. Acreditamos saber os riscos aos quais estamos nos expondo, como espécie, às mudanças climáticas, esse evento abstrato que simbolicamente pode representar a transformação da atmosfera do planeta em algo mais hostil e agressivo. Não sabemos ao certo quanto a atividade humana tem afetado o delicado e profundo equilíbrio que foi construído durante milênios e que possibilitou nossa existência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-esperanca-pois-a-natureza-e-um-continuo-e-muito-provavelmente-a-nossa-psique-tambem-o-e-jung-18-1-181" style="font-size:16px">Há esperança, pois a natureza é um contínuo, e muito provavelmente a nossa psique também o é (JUNG, 18/1, §181)</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em outras linhas, a criatividade que nos colocou nesse lugar pode justamente nos tirar dele. Ao compreender a natureza, mas sem desejar controlá-la, a humanidade atua em cooperação com seus ciclos e processos. Essa é uma bela metáfora ao processo de individuação, que pode estar se desenrolando na consciência coletiva. Jung também diz que <strong>a natureza não é um guia por si</strong>, pois ela não foi feita para o ser, mas que com a consciência e a inteligência aprendemos a colaborar com ela. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa relação com o meio ambiente talvez reflita parte da nossa relação com a nossa natureza interior. O quanto estamos dando ouvidos às nossas necessidades, à fome da alma? O quanto essa deterioração não tem afetado nosso inconsciente? Quantas doenças não surgiram como resultado da destruição ambiental e do contato com a natureza degradada? O quanto não estamos desrespeitando nossos ciclos, estações e sacralidades interiores?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-se-tivermos-a-natureza-como-guia-nunca-trilharemos-caminhos-errados-jung-10-3-34" style="font-size:17px">Se tivermos a natureza como guia, nunca trilharemos caminhos errados (JUNG, 10/3, § 34)</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não se faz necessário um retorno aos tempos primitivos, porém, podemos aprender muito com esse tempo em que a natureza era local do divino e sagrado &#8211; merecendo, pois, a devida reverência. As atitudes de cada um contam na construção de uma consciência mais ecologicamente amigável.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-natureza-externa-e-interna-estao-ligadas-e-se-retroalimentam" style="font-size:18px">A natureza externa e interna estão ligadas e se retroalimentam</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O alimento que nos alimenta volta para a natureza, da mesma forma que a degradação do meio ambiente é a degradação da nossa natureza interna. A cada ano, o dia de sobrecarga da Terra<a id="_ftnref1" href="#_ftn1">[1]</a>, uma data simbólica instituída pela Global Footprint Network com base em cálculos do uso dos recursos naturais pelos humanos, acontece mais cedo no ano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada vez mais cedo o ser humano é acometido de doenças relacionadas ao meio ambiente (problemas respiratórios, obesidade, intoxicações) e/ou à superexploração da sua natureza interna (esgotamento, ansiedade, depressão).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-reconexao-com-os-ritmos-da-vida-e-da-morte-se-faz-urgente-e-sao-o-desafio-do-presente-para-a-garantia-do-futuro" style="font-size:18px"><strong><em>A reconexão com os ritmos da vida e da morte se faz urgente e são o desafio do presente, para a garantia do futuro.</em></strong></h2>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Autoria:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/lorenaoliveira/">Lorena de S. Oliveira – Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/maurosoave/">MsC. Mauro Angelo Soave Junior – Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Fundadora e Membro Didata do IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>, 10ª edição, Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O. C 10/1 <em>Presente e futuro</em> – Petrópolis, RJ ; Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O. C 10/3 <em>Civilização em transição</em> – Petrópolis, RJ ; Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O.C 18/1 <em>A vida simbólica: escritos diversos</em> –Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DUARTE, Alisson J. O. Ecologia da alma: a natureza na obra científica de Carl Gustav Jung. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, v. 35, p. 5-19, 2017</p>



<p class="wp-block-paragraph">WHITHMONT, Edward. <em>Retorno da deusa, </em>2ª ed., São Paulo: Summus, 1991.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a id="_ftn1" href="#_ftnref1">[1]</a> <em>O dia de sobrecarga da Terra aponta a data em que teoricamente os recursos naturais que deveriam durar 365 dias se esgotam, e dessa forma, estamos consumindo recursos futuros do planeta no presente.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



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