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	<title>Arquivos Sofrimento - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Mon, 13 Jul 2026 21:01:17 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Sofrimento - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>A Tirania da Felicidade: quando o sofrimento perde seu valor simbólico</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-tirania-da-felicidade-quando-o-sofrimento-perde-seu-valor-simbolico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Clarisse Grand Court]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Jul 2026 20:58:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Felicidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>
		<category><![CDATA[Byung-Chul Han]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A cultura contemporânea transformou a felicidade em uma exigência normativa e a tristeza em sinônimo de fracasso. No entanto, ao negarmos a dor e o sofrimento, reduzimos o sentido da existência humana e favorecemos o anestesiamento e o surgimento de formas sutis de adoecimento. A partir da psicologia junguiana, o sofrimento é compreendido como expressão simbólica necessária ao processo de individuação e transformação. No entanto, a lógica da positividade e da medicalização tende a silenciar o sintoma antes que ele revele seu sentido. Sustentar a dor, nesse contexto, torna-se um gesto de resistência e condição para uma experiência mais autêntica e profunda da vida.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: A cultura contemporânea transformou a felicidade em uma exigência normativa e a tristeza em sinônimo de fracasso. No entanto, ao negarmos a dor e o sofrimento, reduzimos o sentido da existência humana e favorecemos o anestesiamento e o surgimento de formas sutis de adoecimento. A partir da psicologia junguiana, o sofrimento é compreendido como expressão simbólica necessária ao processo de individuação e transformação. No entanto, a lógica da positividade e da medicalização tende a silenciar o sintoma antes que ele revele seu sentido. Sustentar a dor, nesse contexto, torna-se um gesto de resistência e condição para uma experiência mais autêntica e profunda da vida.</p>



<h2 id="h-dize-tua-relacao-com-a-dor-e-te-direi-quem-es-a-nossa-relacao-com-a-dor-mostra-em-que-sociedade-vivemos-dores-sao-cifras-elas-contem-a-chave-para-o-entendimento-de-toda-sociedade-assim-cada-critica-da-sociedade-tem-de-levar-a-cabo-a-hermeneutica-da-dor-han-p-9-2025" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong><em>“Dize tua relação com a dor, e te direi quem és! [&#8230;] A nossa relação com a dor mostra em que sociedade vivemos. Dores são cifras. Elas contêm a chave para o entendimento de toda sociedade. Assim, cada crítica da sociedade tem de levar a cabo a hermenêutica da dor” (HAN, p. 9, 2025).</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A cultura contemporânea transforma a <strong>felicidade</strong> em performance moral. Ao negar o sofrimento como experiência humana legítima, empobrece o sentido da vida psíquica e favorece formas sutis de adoecimento emocional. Não se trata mais de um estado possível da alma, mas de uma exigência normativa. Ser feliz tornou-se evidência de competência emocional; sofrer passou a significar inadequação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos a era da positividade, onde todo o mal deve ser neutralizado e a tristeza é encarada como disfunção a ser corrigida. Precisamos ser felizes, otimistas e positivos, sempre. Como observa o filósofo Byung-Chul Han no livro Sociedade Paliativa: a dor de hoje, “pensamentos negativos devem ser substituídos imediatamente por pensamentos positivos e ser positivo também virou sinônimo de performance. A lógica do desempenho permanentemente feliz, o mais insensível à dor possível”. (Cf. HAN, 2025, p. 11-12).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Byung-Chul Han, vivemos em uma sociedade que não suporta a dor. A chamada sociedade paliativa não busca compreender ou integrar o sofrimento, mas neutralizá-lo. Em contraste com o que a Organização Mundial da Saúde denomina cuidados paliativos — ações voltadas ao alívio do sofrimento, sem, contudo, negá-lo —, essa sociedade investe em estratégias de anestesiamento que vão da curtição superficial à lógica dos likes e à medicalização das experiências desconfortáveis da vida cotidiana, convertendo a dor em algo intolerável e, portanto, algo que deve ser eliminado.</p>



<h2 id="h-mas-como-sabemos-se-somos-felizes-quem-determina-o-que-e-felicidade" class="wp-block-heading" style="font-size:22px"><strong>Mas como sabemos se somos felizes? Quem determina o que é felicidade?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">No contexto atual, responder a essas perguntas parece um grande desafio. Porém, acredito que mais importante do que apresentar respostas é refletir sobre a profundidade e complexidade dessas questões. Como observa Bruckner no livro A Euforia Perpétua: ensaio sobre o dever da felicidade, a <strong>felicidade</strong> é algo indefinido, vazio e que chega a conta-gotas. (Cf. 2002, p. 14-15).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos dias de hoje, a dor tornou-se sinônimo de fraqueza e fracasso. “A passividade do sofrer não tem lugar na sociedade ativa dominada pelo poder. Hoje se remove à dor qualquer possibilidade de expressão”, afirma HAN (2025, p.14). Remove-se da dor qualquer forma de simbolização.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aquilo que em outros tempos podia ser chamado de melancolia, nostalgia ou tristeza — experiências que encontravam elaboração na arte, na filosofia, e até na religião — hoje é rapidamente capturado pelo discurso da disfunção. A mesma dor que outrora ganhava cor nos pincéis, forma nos versos e profundidade nas reflexões sobre a condição humana, agora tende a ser medicalizada ou silenciada antes mesmo de encontrar linguagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na perspectiva Junguiana, o sofrimento – ou a tristeza – não é algo a ser negado ou recalcado, pois se trata da manifestação simbólica de uma tensão entre consciente e inconsciente. A dor pode ser o anúncio de que algo na personalidade precisa ser integrado. Ao suprimir a dor, suprime-se também a possibilidade de transformação e o contato com a alma. “A alma é o ponto de partida de todas as experiências humanas, e todos os conhecimentos que adquirimos acabam por levar a ela. A alma é o começo e o fim de qualquer conhecimento” (JUNG, 2020a, p. 71).</p>



<h2 id="h-o-conflito-entre-a-consciencia-e-o-inconsciente-e-o-que-nos-leva-a-funcao-transcendente-a-capacidade-de-sustentar-a-angustia-e-entrar-em-contato-com-algo-profundo-e-desconhecido-enquanto-a-consciencia-nos-leva-ao-processo-de-adaptacao-ao-mundo-o-inconsciente-envia-sinais-sobre-os-desejos-mais-intimos-da-nossa-alma" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O conflito entre a consciência e o inconsciente é o que nos leva à Função Transcendente – a capacidade de sustentar a angústia e entrar em contato com algo profundo e desconhecido. Enquanto a consciência nos leva ao processo de adaptação ao mundo, o inconsciente envia sinais sobre os desejos mais íntimos da nossa alma.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph">A tendência do inconsciente e da consciência são dois fatores que formam a função transcendente. <em>É chamada transcendente, porque torna possível organicamente a passagem de uma atitude para a outra, sem perda do inconsciente</em> (JUNG, 2020a, p. 18. Grifos do autor).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta sociedade paliativa, como denominou Han, fugimos sistematicamente do desconforto. Não somos mais capazes de suportar a tensão entre o bem e o mau, a <strong>felicidade </strong>e a tristeza, o saber e o não saber, o sucesso e o fracasso.</p>



<h2 id="h-dor-e-felicidade-irmaos-inseparaveis" class="wp-block-heading">Dor e felicidade: irmãos inseparáveis </h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph">Dor e felicidade são, segundo Nietzsche, dois irmãos e gêmeos, que crescem juntos ou […] juntos &#8211; <em>permanecem pequenos</em>”. Se se impede a dor, a felicidade se achata, assim em um conforto surdo. Quem não é receptível à dor se fecha à felicidade profunda (Nietzsche apud HAN, 2025, p. 31-32).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Essa dialética entre a pós-modernidade e a contemporaneidade, aponta para a base da perspectiva Junguiana sobre a condição humana: a intensidade da vida depende da capacidade de suportar sua ambivalência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao sentirmos medo da dor, deixamos de ir para vida, pois o sofrimento é parte desse jogo. Precisamos sentir a pulsação do coração que bate forte de alegria e que trêmula de tristeza. Quando evitamos a dor a qualquer custo, evitamos também a profundidade da alegria. A vida emocional se torna rasa. Portanto, quando apenas um polo é valorizado — a <strong>felicidade</strong>, a produtividade, a positividade — a sombra ganha ainda mais energia psíquica. E aquilo que não é simbolizado retorna como sintoma e como adoecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung alertava que toda unilateralidade gera compensação inconsciente. Quanto mais uma cultura exalta a ideia da <strong>Tirania da</strong> <strong>felicidade </strong>de formacompulsória, mais produz sintomas depressivos, ansiosos e estados de vazio. Ao temermos a dor, deixamos de nos lançar na experiência. No entanto, sofrer é parte constitutiva do processo de individuação, do autoconhecimento, do tornar-se um eu estruturante e consciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A cultura da positividade não elimina a dor; ela apenas a desloca para a sombra.</p>



<h2 id="h-a-positividade-toxica-da-vida-instagramavel" class="wp-block-heading"><strong>A Positividade Tóxica da vida Instagramável</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A vida “instagramável” não é apenas estética — é moral. A imagem feliz torna-se evidência de valor. A tristeza não fotografa bem e o fracasso não engaja. Como muito bem pontuou Han, “ser feliz é a nova fórmula de dominação” (Cf, 2025, p. 26).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Precisamos estar motivados, sermos positivos, felizes e realizados. Esses são os novos pré-requisitos de pertencimento no universo social digital. Assim, nos tornamos referência, seres que influenciam e ganhamos likes. Esse padrão fala de uma carência, um vazio da alma. Uma súplica por pertencer. “O contínuo curtir leva a um embotamento, a uma desconstrução da realidade. <em>A digitalização é anestesiação</em>” (HAN, 2025, p.65. Grifo do autor).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo uma pesquisa publicada pela revista Nature: “Críticas severas e expectativas irrazoáveis ​​pioram a saúde mental dos estudantes de doutorado”, a pressão social para ser feliz está diretamente ligada à queda significativa da sensação de bem-estar. O estudo que entrevistou estudantes de doutorado em quarenta países apontou que quanto mais as pessoas são impactadas por discursos superpositivos, maior o sentimento de tristeza, inadequação e solidão. A antítese do que a narrativa positiva se propõe.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph">Contrariamente a todo otimismo oficial, nada existe de mais intolerável do que a visão da felicidade do outro quando não estamos bem. O espetáculo dessa gente a desfilar, gratificadas ao máximo pelos dons da fortuna, da saúde e do amor, a maneira ostensiva com quem enchem o peito, pavoneiam-se, é odioso! (BRUCKNER, 2002, p. 121-122).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Sob esse aspecto, entendo o quanto a rede social e a vida espetacularizada, reforça um adoecimento coletivo que evidencia uma verdadeira apatia e anestesia da realidade.</p>



<h2 id="h-a-tirania-da-felicidade-e-a-medicalizacao-da-condicao-humana" class="wp-block-heading"><strong>A Tirania da Felicidade e a Medicalização da Condição Humana</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>“Só uma ideologia do bem-estar permanente pode levar a que medicamentos que eram originariamente usados na medicina paliativa sejam usados com grande pompa também nos saudáveis” (HAN, 2025, p. 12).</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A medicalização pode, em muitos casos, ser necessária e até urgente — mas, quando transformada em resposta automática à dor existencial, corre o risco de silenciar o sintoma antes que ele revele seu sentido. “A dor é, agora, um mal sem sentido, que deve ser combatido com analgésicos (HAN, 2025, p.41).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse contexto, a crítica de Juliana Diniz, em O que os psiquiatras não te contam, torna-se especialmente relevante. A autora chama atenção para o modo como experiências humanas fundamentais — como tristeza, angústia, frustração e vazio — vêm sendo progressivamente traduzidas em categorias diagnósticas e, consequentemente, tratadas de forma protocolar. Sem desconsiderar a importância e, muitas vezes, a necessidade do uso de medicação, Diniz alerta para o risco de uma prática clínica que, ao priorizar a eliminação rápida do sintoma, pode acabar desconsiderando sua dimensão existencial e subjetiva.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph">Muitas vezes, o tratamento psiquiátrico não vai ter nada a ver com remédios. Nem sempre eles serão essenciais. Quando o sofrimento for muito agudo, os remédios vão ser bons coadjuvantes, mas não são protagonistas. A grande maioria dos pacientes não tem um desvio significativo na atividade dos receptores (DINIZ, 2025, p. 31-35)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Diante do paradoxo entre sofrimento e bem-estar que a <strong>tirania da felicidade</strong> suscita, Bruckner faz a seguinte reflexão: “[&#8230;] hoje em dia, o homem sofre também por não querer sofrer, da mesma maneira como se pode adoecer de tanto procurar a saúde perfeita. [&#8230;] Infelicidade não é mais somente infelicidade: é pior ainda, o fracasso da <strong>felicidade</strong>”(BRUCKNER, 2002, p.16).</p>



<h2 id="h-na-perspectiva-da-psicologia-junguiana-o-sintoma-nao-e-apenas-disfuncao-e-tambem-uma-manifestacao-da-alma-que-pede-socorro" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Na perspectiva da psicologia Junguiana, o sintoma não é apenas disfunção; é também uma manifestação da alma que pede socorro.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se medicamos toda tristeza, toda angústia, toda frustração, podemos impedir que a psique realize o trabalho de transformação. A sociedade contemporânea não apenas elimina a dor física; ela elimina o espaço simbólico do sofrimento psíquico. E sem sofrimento simbolizado não há individuação — apenas adaptação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos identificados com a persona &#8211; a máscara social que melhor se adapta às expectativas externas. Uma versão formatada para o sucesso e a performance, capaz de silenciar as demandas do mundo interno, mesmo quando este grita por atenção. “A persona [&#8230;] não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva” (Cf. JUNG, 2020b, p. 46-47).</p>



<h2 id="h-a-identificacao-exagerada-com-a-persona-nos-leva-a-falta-de-conexao-com-o-si-mesmo-e-a-um-desconhecimento-sobre-os-nossos-limites-sociais-e-psiquicos" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A identificação exagerada com a persona nos leva a falta de conexão com o si-mesmo e a um desconhecimento sobre os nossos limites sociais e psíquicos.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“Para sobreviver à angústia que acompanha as nossas limitações será preciso aprender a conviver com ela, porque uma coisa é certa: nossas angústias não vão desaparecer. Nós seres humanos, somos seres angustiados” (DINIZ, 2025, p.13).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Ao tentar eliminar o sofrimento, corremos o risco de esvaziar a própria experiência de estar vivo. A recusa da dor não nos protege — ela nos distancia de nós mesmos. Quando tudo precisa ser leve, positivo e funcional, perdemos a capacidade de sustentar aquilo que nos transforma. A dor, quando escutada, não nos reduz; ela nos aprofunda, nos desloca, nos confronta com limites e verdades que não cabem nas narrativas prontas de <strong>felicidade</strong>. “A dor marca os limites, destaca distinções. Sem a dor, tanto o corpo como o mundo se afundam em <strong>in-diferença</strong>” (HAN, 2025, p.63. Grifos do autor).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez o problema não esteja no sofrimento em si, mas na urgência em silenciá-lo. Nem toda dor precisa ser corrigida imediatamente; algumas precisam ser compreendidas. É nesse intervalo — entre sentir e tentar apagar o que se sente — que pode surgir um espaço de elaboração, de sentido e de contato mais autêntico com a própria experiência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em uma cultura que valoriza respostas rápidas, produtividade emocional e bem-estar constante, sustentar a dor pode ser um gesto de resistência. Não como exaltação do sofrimento, mas como reconhecimento de que há dimensões da vida que não se resolvem, apenas se atravessam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para finalizar este artigo, gostaria de citar mais uma vez Bruckner com uma frase que acredito expressar exatamente o que eu aprendi com a vida e com Jung e que refleti muitas vezes ao escrever esse texto: “Eu amo demais a vida para querer apenas ser feliz!” (2002, p.18).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/clarissegrand/">Clarisse Grand Court – Analista Junguiana em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Mariante Guarnieri – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp; DINIZ, Juliana.&nbsp; O que os psiquiatras não te contam. 1.ed. São Paulo: Fósforo, 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp; HAN, Byung-Chan.&nbsp; Sociedade paliativa: a dor de hoje. 1.ed. Petrópolis: Vozes, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;JUNG, Carl Gustav.&nbsp; Natureza da psique. 13.ed. Petrópolis: Vozes, 2020a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______, O eu e o Inconsciente. 27. Ed. Petrópolis: Vozes, 2020b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Revista Nature (2020): Críticas severas e expectativas irrazoáveis ​​pioram a saúde mental dos estudantes de doutorado. Disponível em</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.nature.com/articles/d41586-024-04187-3">https://www.nature.com/articles/d41586-024-04187-3</a> . Acesso em 23 de março de 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; The Conversation (2024). Críticas severas e expectativas irrazoáveis ​​pioram a saúde mental dos estudantes de doutorado. Disponível em</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://theconversation.com/a-saude-mental-dos-alunos-de-doutorado-e-ruim-e-a-pandemia-piorou-a-situacao-mas-ha-estrategias-para-enfrentar-o-problema-221915">https://theconversation.com/a-saude-mental-dos-alunos-de-doutorado-e-ruim-e-a-pandemia-piorou-a-situacao-mas-ha-estrategias-para-enfrentar-o-problema-221915</a> &nbsp;Acesso em 23 de março de 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp; Veja Rio.&nbsp; Sociedade paliativa: a dor de hoje. 1.ed. Petrópolis: Vozes, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Sofrimento, Jó e Eros</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sofrimento-jo-e-eros/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Jun 2026 16:29:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciências da Religião]]></category>
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		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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		<category><![CDATA[tensão dos opostos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O sofrimento é inerente à condição humana e neste ensaio nos questionamos o que, tendo como base a teoria junguiana, poderia amparar indivíduos que atravessam sofrimentos intensos. Partimos do livro bíblico de Jó para fazer essa análise, sobre o qual Carl Gustav Jung destacou a relação entre o humano e o divino, enfatizando a presença de aspectos sombrios na própria imagem de Deus. No presente artigo, procuraremos olhar a história a partir de outro ponto de vista do funcionamento da psique, buscando compreender o que pode ter dado sustentação para que o personagem não sucumbisse diante de tantas provações. Para tanto, recorremos ao princípio de Eros, concebido como amor primordial, enquanto fundamento deste amparo psíquico.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong>RESUMO: </strong>O sofrimento é inerente à condição humana e neste ensaio nos questionamos o que, tendo como base a teoria junguiana, poderia amparar indivíduos que atravessam sofrimentos intensos. Partimos do livro bíblico de Jó para fazer essa análise, sobre o qual Carl Gustav Jung destacou a relação entre o humano e o divino, enfatizando a presença de aspectos sombrios na própria imagem de Deus. No presente artigo, procuraremos olhar a história a partir de outro ponto de vista do funcionamento da psique, buscando compreender o que pode ter dado sustentação para que o personagem não sucumbisse diante de tantas provações. Para tanto, recorremos ao princípio de Eros, concebido como amor primordial, enquanto fundamento deste amparo psíquico.</p>



<h2 id="h-o-sofrimento-e-inerente-a-condicao-humana-e-neste-ensaio-nos-questionamos-o-que-faz-com-que-alguns-individuos-suportem-sofrimentos-considerados-por-alguns-como-extremo-enquanto-outros-sucumbem" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">O sofrimento é inerente à condição humana, e neste ensaio nos questionamos o que faz com que alguns indivíduos suportem sofrimentos considerados por alguns como extremo enquanto outros sucumbem.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">A palavra&nbsp;<strong>sofrimento (ODP, 2026)</strong>&nbsp;deriva do latim&nbsp; <em>sufferire</em>, uma variante de <em>sufferre</em> (ou&nbsp;<em>sufferentia</em>), composta por <em>sub-</em> (&#8220;sob&#8221;, &#8220;debaixo&#8221;) + <em>ferre</em> (&#8220;carregar&#8221;, “levar”, &#8220;suportar&#8221;), levando para o sentido de&nbsp;&#8220;suportar algo debaixo&#8221; ou &#8220;aguentar uma carga&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Carl Gustav Jung, em seu livro “<em>Resposta a Jó”</em> (JUNG, 2012c), realiza uma leitura psicológica da narrativa bíblica de Jó (BÍBLIA, 1989), a qual descreve as intensas provações sofridas por um homem justo. A partir desta análise, C. G. Jung problematiza a relação entre o humano e o divino, destacando a presença de aspectos sombrios na própria imagem de Deus. Nesse contexto, o autor introduz a necessidade de integração da sombra, entendida como o conjunto de conteúdos inconscientes, rejeitados ou não reconhecidos pela consciência. No presente artigo, tendo como base a teoria junguiana, procuraremos olhar a história a partir de outro do ponto de vista do funcionamento da psique, buscando compreender o que pode ter dado sustentação para que o personagem não sucumbisse diante de tantas provações.</p>



<h2 id="h-o-livro-de-jo-da-biblia-biblia-1989-relata-as-vivencias-de-um-homem-que-cai-em-desgraca-apos-uma-aposta-entre-deus-e-o-satanas-que-questiona-a-sinceridade-da-fe-de-jo" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">O livro de Jó da Bíblia (BÍBLIA, 1989) relata as vivências de um homem que cai em desgraça após uma aposta entre Deus e o Satanás, que questiona a sinceridade da fé de Jó.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Nesta aposta, Deus permite que Jó perca todos seus bens, seus amigos, seus filhos e sua saúde, numa “imagem ambivalente de Deus” (JUNG, 2012c, p.7). Jó zanga-se com o que lhe sucede e se recusa a aceitar as explicações convencionais propostas pelos amigos que o tentam consolar, até que Deus responde a Jó, obrigando-o a contemplar o projeto primordial que governa a criação (ARMSTRONG, 2007, p.41).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">O capítulo 1 do livro de Jó<a href="#_ftn1" id="_ftnref1">[1]</a> começa apresentando de uma só vez toda a derrocada. Ao ler os versículos, e nos colocando no lugar do protagonista, podemos sentir um imenso sofrimento e ficar imaginando como ele poderia suportar tudo aquilo e mesmo assim seguir em frente. Sabemos que a psique se constitui de um equilíbrio entre consciência e inconsciente (JUNG, 2013d, §454); podemos pensar, assim, no equilíbrio entre os princípios de Logos e Eros, ou no equilíbrio entre os princípios <em>Yang</em> e <em>Yin</em> da filosofia taoísta, entre masculino e feminino, entre solar e lunar, entre quente e frio, entre divisão e união.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Nos questionamos se Logos, por ser o princípio do masculino, do <em>Yang</em>, daquilo que divide, da produtividade, do ativo e do dinâmico teria condições de sustentar o sofrimento de Jó. Pensamos que Eros, por sua vez, o princípio do feminino, do <em>Yin</em>, do acolhimento, da relação, do descanso e do passivo, poderia exercer melhor esta função.</p>



<h2 id="h-jose-luiz-balestrini-discorre-sobre-o-movimento-deste-principio" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">José Luiz Balestrini discorre sobre o movimento deste princípio:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>(&#8230;) Yin expande, mas, como representante do princípio feminino. É o Eros primordial atingindo seu entorno, englobando e trabalhando pela unificação de todas as coisas. Pode ser considerado positivo, como a Grande Mãe que abraça a todos com sua abundância de recursos e energia; sabemos que ela também pode ser vista como negativa devorando e destruindo tudo que está ao seu alcance. É claro que positivo e negativo, nesse contexto, é uma classificação humana, com a qual a natureza provavelmente não se importa. O Yin em retração puxa absolutamente tudo para perto de si, transforma tudo em unidade mantendo os elementos indiferenciados. Vemos aqui que a devoração da Grande Mãe pode se dar pela expansão ou pela retração. Mas essa retração do Yin também pode ser positiva, mantendo a unidade do indivíduo, ou, por exemplo de uma célula familiar ou uma tribo intacta, enquanto o mundo em volta está se despedaçando. (BALESTRINI JUNIOR, 2025, p.45)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Eros é o princípio da união. E sobre a concepção alquímica da união dos opostos, C. G. Jung diz: “Pode tratar-se primeiro de mera <em>“unio mentalis”</em> (união mental) intrapsíquica do intelecto e da razão com o Eros, que representa o sentimento” (JUNG, 2012b, §329). Sabemos que na psique a união dos opostos terá como resultado um terceiro elemento, o símbolo. Sobre o símbolo temos:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Mas, para que se tome consciência do processo de individuação, é preciso que a consciência seja confrontada com o inconsciente e se chegue a um equilíbrio entre os opostos. Como isto é logicamente impossível, necessitam-se de símbolos que sirvam para tornar visível a união irracional dos contrários. Estes símbolos são produzidos espontaneamente pelo inconsciente e ampliados pela consciência. Os símbolos centrais deste processo descrevem o si-mesmo, isto é, a totalidade do homem, de um lado, por meio daquilo que lhe é consciente e, de outro, por meio do conteúdo inconsciente.</em><em> </em><em>(JUNG, 2012c, §755)</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">&nbsp;Continuando na a ideia de símbolo, J. L. Balestrini Junior elucida: “O símbolo vivo é aquele que mostra, sempre de maneira incompleta, mas o mais próximo possível da sua realidade, o incognoscível. É, portanto, a linguagem do inconsciente” (BALESTRINI JUNIOR, 2021, p.15). E ainda, explica Jolande Jacobi “A palavra símbolo (<em>symbolon</em>), deriva do grego “<em>symballo</em>” (jogar junto). O símbolo designa algo com um sentido objetivo, visível, por trás do qual ainda se oculta um sentido invisível e mais profundo” (JACOBI, 2016, p.95). É nesse horizonte que o símbolo se apresenta como mediador entre o inconsciente e a consciência, sobretudo nas vivências de crise e sofrimento, nas quais aquilo que não pode ser plenamente compreendido precisa ser simbolizado para não permanecer como mero padecimento psíquico.</p>



<h2 id="h-sobre-isto-temos" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Sobre isto temos:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>O sofrimento do homem e o sofrimento de Deus formam uma complementaridade, da qual resulta um efeito compensador: graças ao símbolo, o homem pode conhecer o verdadeiro sentido de seu sofrimento: ele sabe que está a caminho de realizar sua totalidade, mediante a seu ego é introduzido na esfera do “divino” como consequência da integração do inconsciente na consciência. Ele toma então parte no “sofrimento de Deus”, cuja origem é a “Encarnação”, isto é, aquele acontecimento que do lado humano corresponde à individuação. (JUNG, 2013c, §233)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-assim-refletindo-sobre-o-sofrimento-de-jo-podemos-pensar-que-a-conexao-com-o-mundo-interno-pode-ter-sido-a-forma-que-o-permitiu-sustentar-e-lidar-com-o-sofrimento-externo-esta-conexao-talvez-possa-ter-se-dado-atraves-do-principio-de-eros" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Assim, refletindo sobre o sofrimento de Jó, podemos pensar que a conexão com o mundo interno pode ter sido a forma que o permitiu sustentar e lidar com o sofrimento externo. Esta conexão talvez possa ter se dado através do princípio de Eros.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Sobre as características desse princípio na psique, C. G. Jung concebe-o como “o colocar-em-relação (relacionar)” (JUNG, 2012a, §218), e ele nos mostrou na prática como isso se dá, por exemplo, ao desenvolver, experienciar e ensinar a técnica da imaginação ativa, a qual registrou com escritos e imagens em seu Livro Vermelho (JUNG, 2014), descrevendo sua relação com personagens da sua psique. Neste livro, o autor nos mostra que a saída é para dentro, através da relação com o mundo interno &#8211; ainda que esta técnica não seja isenta de sofrimento. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">O capítulo seguinte (Jó 2) expõe de forma crua e direta a dor física de Jó. O sofrimento aparece em Jó 2:7-8 “⁷Então saiu Satanás da presença do Senhor, e feriu a Jó de úlceras malignas, desde a planta do pé até ao alto da cabeça. ⁸E Jó tomou um caco para se raspar com ele; e estava assentado no meio da cinza”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Lembremos que o Satanás, uma das apresentações mais conhecidas do Diabo, também aparece sob outras formas na literatura, nas artes, nas religiões e no imaginário humano com várias outras denominações. Alguns são personificações dos pecados capitais (além do próprio Satanás, representante da ira): Lúcifer (orgulho), Asmodeus (luxúria), Mammon (ganância), Belzebu (gula), Leviatã (inveja), Belfegor (preguiça). E temos ainda outros demônios, como Azazel, o anjo caído associado às artes proibidas.</p>



<h2 id="h-sobre-a-figura-de-deus-versus-o-diabo-c-g-jung-discorre" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Sobre a figura de Deus versus o Diabo, C. G. Jung discorre:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>De qualquer modo, há uma opinião segundo a qual o demônio, embora tenha sido </em><em>criado</em><em>, é </em><em>autônomo e eterno</em><em>. Além disto, é o </em><em>adversário de Cristo</em><em>, que, com a infecção dos primeiros pais pelo pecado original, introduziu a corrupção na criação e tornou necessária a encarnação de Deus como obra de salvação da humanidade. Aqui, o diabo agiu livremente e a seu bel-prazer, como no caso de Jó, em que chegou inclusive a convencer Deus. Esta eficácia poderosa do diabo dificilmente se ajusta à sua existência de sombra, que lhe é atribuída como </em><em>privatio boni</em><em>, a qual, como já disse, parece um eufemismo. O diabo, como pessoa autônoma e eterna, corresponde mais ao seu papel de adversário de Cristo e à realidade psicológica do Mal. </em><em>(JUNG, 2013c, §248)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Podemos depreender desta afirmação de C. G. Jung que aquilo que consideramos como o bem e o mal, na maior parte do tempo, são apenas pontos de vista do ego&nbsp;&nbsp; baseados em preceitos morais; para a alma, parecem constituir aspectos antinômicos. O que convencionou-se chamar de sofrimento, podemos imaginar como sendo o sofrimento do ego.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Nos capítulos que se seguem, Jó amaldiçoa o dia do seu nascimento (Jó 3:11)<a href="#_ftn2" id="_ftnref2">[2]</a>, pede para morrer (Jó 6:8-9)<a href="#_ftn3" id="_ftnref3">[3]</a>, implora para que Deus lhe mostre onde errou (Jó 6:24)<a href="#_ftn4" id="_ftnref4">[4]</a>. Apesar de toda sua aflição, Jó fala sobre o poder supremo de Deus (Jó 9:9; Jó 9:19-20)<a href="#_ftn5" id="_ftnref5">[5]</a> e revela sua revolta com o Todo Poderoso (Jó 9:22-23)<a href="#_ftn6" id="_ftnref6">[6]</a>, questionando qual foi seu pecado (Jó 13:20-23)<a href="#_ftn7" id="_ftnref7">[7]</a>. Sente-se abandonado (Jó 19:7-9)<a href="#_ftn8" id="_ftnref8">[8]</a> e clama por um encontro com Deus (Jó 23:2-4, 8-9)<a href="#_ftn9" id="_ftnref9">[9]</a>, afirmando que manterá sua retidão (Jó 27:2-6)<a href="#_ftn10" id="_ftnref10">[10]</a>. Em Jó 31:35 ele suplica por uma resposta “³⁵Ah! Quem me dera um que me ouvisse! Eis que o meu desejo é que o Todo-Poderoso me responda, e que o meu adversário escreva um livro”. Assim, o que parece é que não há um abandono, mas uma intensificação da relação, uma necessidade de conexão, de ligação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Deus então lhe responde (Jó 38) na forma de questionamentos sobre o funcionamento do universo e sobre o gerenciamento dos processos da vida; e diante disso, Jó responde (Jó 40:4) “⁴ Eis que sou vil; que te responderia eu? A minha mão ponho à boca”, oferecendo sua submissão a Deus, considerando-se indigno. Ao final, arrepende-se por ter falado coisas sobre as quais não conhecia, e através do encontro a transformação se dá. Segue:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>¹ Então respondeu Jó ao Senhor, dizendo: ²Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido. ³Quem é este, que sem conhecimento encobre o conselho? Por isso relatei o que não entendia; coisas que para mim eram inescrutáveis, e que eu não entendia. ⁴Escuta-me, pois, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me ensinarás. ⁵Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te veem os meus olhos. ⁶Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza. (Jó 42:1-6)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Podemos nos questionar se o que fez com que Jó, diante de tanto sofrimento, mantivesse sua fé em Deus foi o amor a ele. Podemos ainda pensar numa estrutura psíquica interna sólida, o eu (ego) enquanto um “complexo fortemente estruturado” (JUNG, 2013a, §430), capaz de suportar as maiores adversidades, mesmo quando tudo à volta colapsa; para os alquimistas, seria a incorruptibilidade do <em>lápis philosophorum</em> – a pedra filosofal (JUNG, 2012b, §425).</p>



<h2 id="h-fazendo-uma-pequena-digressao-e-este-segundo-o-criador-da-psicologia-analitica-o-objetivo-da-psicoterapia-nao-colocar-o-paciente-num-estado-impossivel-de-felicidade-mas-sim-possibilitar-que-adquira-firmeza-e-paciencia-filosoficas-para-suportar-o-sofrimento-jung-2013b-185" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Fazendo uma pequena digressão, é este, segundo o criador da psicologia analítica, o objetivo da psicoterapia: não colocar o paciente “num estado impossível de felicidade, mas sim possibilitar que adquira firmeza e paciência filosóficas para suportar o sofrimento” (JUNG, 2013b, §185).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">&nbsp;Para além disto, podemos pensar também no Eros cósmico primordial, o Fanes-Eros (NEUMANN, 2021, p.312), Fanes como aquele “Amor Ciclônico” (OLDS, 2012, p.14) ou como Fanes protogonos (para diferenciar de Eros enquanto “Cupido”).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Na mitologia grega, especificamente na tradição órfica,&nbsp;<strong>Fanes&nbsp;</strong>(em grego: Φάνης, <em>Phánēs</em>) significa &#8220;o que revela&#8221;, &#8220;o que traz à luz&#8221; ou &#8220;o que aparece&#8221; (TAYLOR, 2026), aquele que ilumina o que antes estava oculto, o criador de tudo. Ele é frequentemente considerado o primeiro deus, o criador do universo que surgiu do ovo cósmico (OLDS, 2012, p.14; TAYLOR, 2026).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Este Eros cósmico primordial parece estar na história como a imagem do vínculo que suporta o paradoxo ao não abandonar Deus mesmo quando teria motivos para fazê-lo; ao invés disso, Jó não só chama, como clama por Deus. Mantém os opostos sem colapsar entre eles; é o vínculo que se mantém mesmo diante de tanto sofrimento e que propicia a transcendência para uma nova situação de vida.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Ao longo do texto bíblico, Jó suporta a tensão dos opostos, do paradoxo, como se apresenta no trecho de Jó 13:15: “Ainda que ele me mate, nele esperarei”. O texto deixa claro que Jó não suporta porque compreende, ele suporta porque permanece em relação com Deus, questionando Deus e a si mesmo &#8211; Jó sustentou a tensão, a angústia, não se afasta, busca o entendimento. Se observarmos com atenção, essa relação com Deus já aparece desde o início (Jó 1:21) “²¹(&#8230;) o Senhor o deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor”.</p>



<h2 id="h-a-fe-parece-ser-um-eixo-estruturante-do-ego-que-nao-permite-que-ele-se-fragmente" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A fé parece ser um eixo estruturante do ego, que não permite que ele se fragmente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Mesmo diante de um sofrimento extremo, Jó continua acreditando e confiando em Deus, e se recusa a amaldiçoá-lo, mas passa a questionar o sentido de sua dor e da justiça divina. E assim, depois de tanto suplicar uma resposta de Deus, suportando a dor e o sofrimento, Jó chega ao encontro com o divino e ao final ficamos sabendo que Jó recuperou seus bens, orou pelos seus amigos, teve outros 7 filhos e 3 filhas, viveu cento e quarenta anos, vendo seus descendentes até a quarta geração e tem sua vida abençoada pelo Senhor (Jó 42:7-17)<a href="#_ftn11" id="_ftnref11">[11]</a>.</p>



<h2 id="h-sobre-o-sentido-de-viver-de-se-obter-respostas-a-psicologia-analitica-nos-ensina" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Sobre o sentido de viver, de se obter respostas, a psicologia analítica nos ensina:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Se, porém, alguém não enxergar que a finalidade de sua vida consiste em que ela se realize, e também não acreditar que existe um eterno direito humano de liberdade para obter essa realização, então essa pessoa traiu e perdeu sua própria alma, e a substituiu por uma ilusão que leva à ruína, como nosso tempo mostra tão claramente. (JUNG, 2012a, §194)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Com a história bíblica de Jó podemos pensar que, ao invés de lutar contra os sofrimentos que nos acometem, das mais variadas e inesperadas formas, precisamos estar ao lado desses acontecimentos, procurando buscar seu sentido e significado para nossas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Pensamos que a história bíblica de Jó nos convida a deslocar a pergunta sobre o sofrimento: em vez de tentar eliminá-lo ou combatê-lo a qualquer custo, somos chamados a sustentar sua presença e a nos colocar em relação com ele. O sofrimento, nesse sentido, deixa de ser apenas algo a ser evitado e passa a constituir um campo de experiência no qual o sujeito pode se transformar. No relato, Deus não oferece a Jó uma explicação racional para sua dor; ao contrário, revela a complexidade e a vastidão da criação, diante da qual a razão humana encontra seus limites.</p>



<h2 id="h-e-justamente-nesse-confronto-com-o-incompreensivel-que-se-torna-possivel-uma-mudanca-de-posicao-psiquica-jo-nao-resolve-o-sofrimento-mas-se-transforma-em-sua-relacao-com-ele" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">É justamente nesse confronto com o incompreensível que se torna possível uma mudança de posição psíquica: Jó não resolve o sofrimento, mas se transforma em sua relação com ele.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Assim, a narrativa aponta para a possibilidade de que o sentido não esteja na superação do sofrimento e no seu entendimento racional, mas na capacidade de sustentá-lo simbolicamente, por meio da manutenção da tensão entre os opostos e da permanência em relação àquilo que escapa à compreensão imediata &#8211; seja consigo mesmo, com o outro ou com o mistério que excede o entendimento racional. E pensamos que essa capacidade pode ser uma função de Eros enquanto amor primordial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristina-lunardi-munaretti/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristina-lunardi-munaretti/">Cristina Lunardi Munaretti – Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;SOFRIMENTO, JÓ E EROS&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/ZY_TTraXGH4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><strong>REFERÊNCIAS:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Imagem: fotografia de autoria própria</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">ARMSTRONG, Karen. <em>A Bíblia: uma biografia</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BALESTRINI JUNIOR, José Luiz. <em>Filosofia Tradicional Chinesa e Psicologia Analítica</em>: o Pa Kua e a Tipologia Junguiana. Monografia. (Formação de Membro Analista). IJEP. São Paulo: 2021. <strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Diana, anima mundi. </em>Monografia. (Formação de Membro Analista Didata). IJEP. São Paulo: 2025. <strong>&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">BIBLIA SAGRADA. Nova Versão Internacional. São Paulo: Edições Loyola, 1989.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JACOBI, Jolande. <em>Complexo, arquétipo e símbolo na psicologia de C. G. Jung</em>. Petrópolis: Vozes, 2016.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Mysterium Coniunctionis: pesquisas sobre a separação e a composição dos opostos alquímicos na alquimia</em> (OC 14/1). 6.ed. Petrópolis: Vozes, 2012a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Mysterium Coniunctionis: pesquisas sobre a separação e a composição dos opostos alquímicos na alquimia</em> (OC 14/2). 3.ed. Petrópolis: Vozes, 2012b.</p>



<h2 id="h-resposta-a-jo-oc-11-4-10-ed-petropolis-vozes-2012c" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><em>______ Resposta a Jó</em> (OC 11/4). 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2012c.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>A natureza da psique</em> (OC 8/2). 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>A prática da psicoterapia: contribuições ao problema da psicoterapia e à psicologia da transferência.</em> (OC 16/1) 16.ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade</em> (OC 11/2). 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Psicogênese das doenças mentais</em> (OC 3). 6.ed. Petrópolis: Vozes, 2013d.</p>



<h2 id="h-jung-carl-gustav-shamdasani-sonu-o-livro-vermelho-liber-novus-nbsp-petropolis-vozes-2014" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">JUNG, Carl Gustav; SHAMDASANI, Sonu. <em>O Livro Vermelho: Liber Novus</em>.&nbsp; Petrópolis: Vozes, 2014.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich. <em>A Grande mãe: um estudo histórico sobre os arquétipos, os simbolismos e as manifestações femininas do inconsciente.</em> 2.ed. São Paulo: Editora Pensamento-Cultrix, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O LIVRO DOS SÍMBOLOS (OLDS) – Reflexões Sobre Imagens Arquetípicas. <em>Ovo</em>. Eslováquia: Taschen, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ORIGEM DA PALAVRA (ODP). Sofrimento Etimologia. Disponível em https://origemdapalavra.com.br/palavras/sofrimento/.&nbsp; Acesso em 16 abr 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">TAYLOR, Jota. <a href="https://www.reddit.com/r/EldenRingLoreTalk/comments/1buxel9/messmer_and_phanes_primordial_god_of_life_in/?solution=84ad1bdc5678a47984ad1bdc5678a479&amp;js_challenge=1&amp;token=7afd7253fec22262ff1c52b1703fe9ec6dd33c0114fc51ed09ab1f697e5eefe7&amp;jsc_orig_r=&amp;tl=pt-br" type="link" id="https://www.reddit.com/r/EldenRingLoreTalk/comments/1buxel9/messmer_and_phanes_primordial_god_of_life_in/?solution=84ad1bdc5678a47984ad1bdc5678a479&amp;js_challenge=1&amp;token=7afd7253fec22262ff1c52b1703fe9ec6dd33c0114fc51ed09ab1f697e5eefe7&amp;jsc_orig_r=&amp;tl=pt-br">Messmer e Phanes, Deus primordial da vida na cosmogonia órfica</a>. Acesso em: 07.04.2026</p>



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<details class="wp-block-details is-layout-flow wp-block-details-is-layout-flow"><summary>[1] Jó 1:1-22</summary>
<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> (Jó 1:1-22) <sup>1</sup>Havia, na terra de Hus, um homem chamado Jó, íntegro, reto, que temia a Deus e fugia do mal. <sup>2</sup>Nasceram-lhe sete filhos e três filhas. <sup>3</sup>Possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas jumentas e uma grande quantidade de escravos. Este homem era o mais considerado entre todos os homens do Oriente. <sup>4</sup>Seus filhos tinham o costume de ir à casa uns dos outros, alternadamente, para se banquetearem e convidavam suas três irmãs para comerem e beberem com eles. <sup>5</sup>Quando acabava a série dos dias de banquetes, Jó mandava chamar seus filhos para purificá-los e, na manhã do dia seguinte, oferecia um holocausto por intenção de cada um deles: porque, dizia ele, talvez meus filhos tenham pecado e amaldiçoado Deus nos seus corações. Assim fazia Jó cada vez. <sup>6</sup>Um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, veio também Satanás entre eles. <sup>7</sup>O Senhor disse-lhe: De onde vens tu? Andei dando volta pelo mundo, disse Satanás, e passeando por ele. <sup>8</sup>O Senhor disse-lhe: Notaste o meu servo Jó? Não há ninguém igual a ele na terra: íntegro, reto, temente a Deus, afastado do mal. <sup>9</sup>Mas Satanás respondeu ao Senhor: É a troco de nada que Jó teme a Deus? <sup>10</sup>Não cercaste como de uma muralha a sua pessoa, a sua casa e todos os seus bens? Abençoas tudo quanto ele faz e seus rebanhos cobrem toda a região. <sup>11</sup>Mas estende a tua mão e toca em tudo o que ele possui juro-te que te amaldiçoará na tua face. <sup>12</sup>Pois bem!, respondeu o Senhor. Tudo o que ele tem está em teu poder mas não estendas a tua mão contra a sua pessoa. E Satanás saiu da presença do Senhor. <sup>13</sup>Ora, um dia em que os filhos e filhas de Jó estavam à mesa e bebiam vinho em casa do seu irmão mais velho, <sup>14</sup>um mensageiro veio dizer a Jó: Os bois lavravam e as jumentas pastavam perto deles. <sup>15</sup>De repente, apareceram os sabeus e levaram tudo e passaram à espada os escravos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia. <sup>16</sup>Estando ele ainda a falar, veio outro e disse: O fogo de Deus caiu do céu queimou, consumiu as ovelhas e os escravos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia. <sup>17</sup>Ainda este falava, e eis que chegou outro e disse: Os caldeus, divididos em três bandos, lançaram-se sobre os camelos e os levaram. Passaram a fio de espada os escravos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia! <sup>18</sup>Ainda este estava falando e eis que entrou outro, e disse: Teus filhos e filhas estavam comendo e bebendo vinho em casa do irmão mais velho, <sup>19</sup>quando um furacão se levantou de repente do deserto, abalou os quatro cantos da casa e esta desabou sobre os jovens. Morreram todos. Só eu consegui escapar para te trazer a notícia. <sup>20</sup>Jó então se levantou, rasgou o manto e rapou a cabeça. Depois, caindo prosternado por terra, <sup>21</sup>disse: Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor! <sup>22</sup>Em tudo isso, Jó não cometeu pecado algum, nem proferiu contra Deus blasfêmia alguma</p>
</details>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> (Jó 3:11) ¹¹Por que não morri eu desde a madre? E em saindo do ventre, não expirei?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref3" id="_ftn3">[3]</a> (Jó 6:8,9) ⁸Quem dera que se cumprisse o meu desejo, e que Deus me desse o que espero! ⁹E que Deus quisesse quebrantar-me, e soltasse a sua mão, e me acabasse!</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref4" id="_ftn4">[4]</a> (Jó 6:24) ²⁴Ensinai-me, e eu me calarei; e fazei-me entender em que errei.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref5" id="_ftn5">[5]</a> (Jó 9:9) ⁹O que fez a Ursa, o Órion, e o Sete-Estrelo, e as recâmaras do sul. (Jó 9:19,20) ¹⁹Quanto às forças, eis que ele é o forte; e, quanto ao juízo, quem me citará com ele? ²⁰Se eu me justificar, a minha boca me condenará; se for perfeito, então ela me declarará perverso.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref6" id="_ftn6">[6]</a> (Jó 9:22,23) ²²A coisa é esta; por isso eu digo que ele consome ao perfeito e ao ímpio. ²³Quando o açoite mata de repente, então ele zomba da prova dos inocentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref7" id="_ftn7">[7]</a> (Jó 13:20-23) ²⁰Duas coisas somente não faças para comigo; então não me esconderei do teu rosto: ²¹Desvia a tua mão para longe, de mim, e não me espante o teu terror. ²²Chama, pois, e eu responderei; ou eu falarei, e tu me responderás. ²³Quantas culpas e pecados tenho eu? Notifica-me a minha transgressão e o meu pecado.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref8" id="_ftn8">[8]</a> (Jó 19:7-9) ⁷Eis que clamo: Violência! Porém não sou ouvido. Grito: Socorro! Porém não há justiça. ⁸O meu caminho ele entrincheirou, e já não posso passar, e nas minhas veredas pôs trevas. ⁹Da minha honra me despojou; e tirou-me a coroa da minha cabeça.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref9" id="_ftn9">[9]</a> (Jó 23:2-4) ²Ainda hoje a minha queixa está em amargura; a minha mão pesa sobre meu gemido. ³Ah, se eu soubesse onde o poderia achar! Então me chegaria ao seu tribunal. ⁴Exporia ante ele a minha causa, e a minha boca encheria de argumentos. (Jó 23:8,9) ⁸Eis que se me adianto, ali não está; se torno para trás, não o percebo. ⁹Se opera à esquerda, não o vejo; se se encobre à direita, não o diviso.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref10" id="_ftn10">[10]</a> (Jó 27:2-6) ² Vive Deus, que desviou a minha causa, e o Todo-Poderoso, que amargurou a minha alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">³Que, enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus nas minhas narinas, ⁴Não falarão os meus lábios iniquidade, nem a minha língua pronunciará engano. ⁵Longe de mim que eu vos justifique; até que eu expire, nunca apartarei de mim a minha integridade. ⁶À minha justiça me apegarei e não a largarei; não me reprovará o meu coração em toda a minha vida.</p>



<details class="wp-block-details is-layout-flow wp-block-details-is-layout-flow"><summary>[11] Jó 42:7-17</summary>
<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref11" id="_ftn11">[11]</a> (Jó 42:7-17) ⁷Sucedeu que, acabando o Senhor de falar a Jó aquelas palavras, o Senhor disse a Elifaz, o temanita: A minha ira se acendeu contra ti, e contra os teus dois amigos, porque não falastes de mim o que era reto, como o meu servo Jó. ⁸Tomai, pois, sete bezerros e sete carneiros, e ide ao meu servo Jó, e oferecei holocaustos por vós, e o meu servo Jó orará por vós; porque deveras a ele aceitarei, para que eu não vos trate conforme a vossa loucura; porque vós não falastes de mim o que era reto como o meu servo Jó. ⁹Então foram Elifaz, o temanita, e Bildade, o suíta, e Zofar, o naamatita, e fizeram como o Senhor lhes dissera; e o Senhor aceitou a face de Jó. ¹⁰E o Senhor virou o cativeiro de Jó, quando orava pelos seus amigos; e o Senhor acrescentou, em dobro, a tudo quanto Jó antes possuía. ¹¹Então vieram a ele todos os seus irmãos, e todas as suas irmãs, e todos quantos dantes o conheceram, e comeram com ele pão em sua casa, e se condoeram dele, e o consolaram acerca de todo o mal que o Senhor lhe havia enviado; e cada um deles lhe deu uma peça de dinheiro, e um pendente de ouro. ¹²E assim abençoou o Senhor o último estado de Jó, mais do que o primeiro; pois teve catorze mil ovelhas, e seis mil camelos, e mil juntas de bois, e mil jumentas. ¹³Também teve sete filhos e três filhas. ¹⁴E chamou o nome da primeira Jemima, e o nome da segunda Quezia, e o nome da terceira Quéren-Hapuque. ¹⁵E em toda a terra não se acharam mulheres tão formosas como as filhas de Jó; e seu pai lhes deu herança entre seus irmãos. ¹⁶E depois disto viveu Jó cento e quarenta anos; e viu a seus filhos, e aos filhos de seus filhos, até à quarta geração. ¹⁷Então morreu Jó, velho e farto de dias.</p>
</details>



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		<title>A urgência pelo sentido e o silêncio da dor: limites e perigos na escuta analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-urgencia-pelo-sentido-e-o-silencio-da-dor-limites-e-perigos-na-escuta-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leandro Scapellato]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Jun 2025 19:43:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[acolhimento]]></category>
		<category><![CDATA[análise junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[busca por sentido]]></category>
		<category><![CDATA[dor]]></category>
		<category><![CDATA[dor psíquica]]></category>
		<category><![CDATA[individuação]]></category>
		<category><![CDATA[lidar com as dores dos pacientes]]></category>
		<category><![CDATA[misticismo superficial]]></category>
		<category><![CDATA[narcisismo analítico]]></category>
		<category><![CDATA[Simbolismo]]></category>
		<category><![CDATA[Sofrimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este ensaio discute a tendência, presente tanto em pacientes quanto em analistas da clínica junguiana, de buscar apressadamente um sentido para os acontecimentos da vida, especialmente aqueles marcados pela desgraça e pela injustiça irredutível. Apoiado em uma perspectiva ética e clínica, o texto sustenta que essa corrida pelo significado — ainda que inspirada em [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong>Resumo</strong>: Este ensaio discute a tendência, presente tanto em pacientes quanto em analistas da clínica junguiana, de buscar apressadamente um sentido para os acontecimentos da vida, especialmente aqueles marcados pela desgraça e pela injustiça irredutível. Apoiado em uma perspectiva ética e clínica, o texto sustenta que essa corrida pelo significado — ainda que inspirada em princípios simbólicos ou espirituais — pode representar uma recusa inconsciente em acolher o sofrimento nu e cru do acontecimento. Em vez de aliviar o sofrimento, essa busca pode invalidar a dor e promover uma repressão emocional disfarçada de elaboração simbólica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">O autor argumenta que há um narcisismo velado na tentativa de encontrar imediatamente um &#8220;aprendizado&#8221; ou &#8220;propósito&#8221; para eventos como o suicídio, o estupro ou a perda brutal, ignorando a necessidade de sustentar o silêncio, o absurdo e a sombra da experiência. A análise profunda e ética exige a capacidade de suportar os opostos: reconhecer tanto a busca por sentido quanto o peso do sem sentido, sem se render ao conforto ilusório das explicações rápidas. O ensaio adverte contra o risco de transformar o trabalho analítico em romantismo místico e propõe uma postura mais humilde e corajosa diante do sofrimento humano, sustentando o real, o simbólico e o trágico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-palavras-chave-sofrimento-busca-por-sentido-narcisismo-analitico-simbolismo-dor-psiquica-analise-junguiana-individuacao-misticismo-superficial" style="font-size:19px"><strong>Palavras-chave: sofrimento, busca por sentido, narcisismo analítico, simbolismo, dor psíquica, análise junguiana, individuação, misticismo superficial.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Em tempos de inflação simbólica, há uma tendência cada vez mais comum — tanto entre pacientes quanto entre analistas — de interpretar todos os acontecimentos à luz de um possível sentido oculto, como se cada dor precisasse imediatamente de uma função, uma explicação ou um propósito. <strong><em>Tudo precisa significar algo. Tudo precisa ser integrado. Tudo precisa curar.</em></strong> E nessa busca apressada por significado, o acontecimento em si, cru, nu e desgraçado, é muitas vezes ignorado ou violentamente interpretado, como se a dor, para ser legitimada, precisasse logo tornar-se metáfora.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">É verdade que a psicologia analítica se baseia numa visão simbólica da psique, e que muitos sintomas, sonhos, atitudes e experiências podem, sim, carregar sentidos profundos. Mas também é verdade que nem tudo pode — nem deve — ser interpretado de imediato. Há acontecimentos que precisam ser simplesmente reconhecidos como desgraças. Como realidades psíquicas e existenciais que, por um tempo, não se deixam transformar, redimir ou simbolizar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Carl Gustav Jung nos alertou: &#8220;<strong>O objetivo mais nobre da psicoterapia não é colocar o paciente num estado impossível de felicidade, mas sim possibilitar que adquira firmeza e paciência filosóficas para suportar o sofrimento</strong>&#8221; (JUNG, A Prática da Psicoterapia, OC XVI/1, §185).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-firmeza-exige-do-analista-algo-que-talvez-seja-mais-dificil-do-que-oferecer-explicacoes-suportar-o-silencio-sustentar-o-nao-saber-tolerar-o-peso-do-acontecimento-sem-buscar-alivio-imediato-na-espiritualizacao-ou-na-sublimacao" style="font-size:19px">Essa firmeza exige do analista algo que talvez seja mais difícil do que oferecer explicações: <strong>suportar o silêncio</strong>. Sustentar o não saber. Tolerar o peso do acontecimento sem buscar alívio imediato na espiritualização ou na sublimação.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-preciso-lembrar-que-nem-toda-dor-e-transitoria-ou-transformavel" style="font-size:19px">É preciso lembrar que nem toda dor é transitória ou transformável.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Algumas dores, como as provenientes de acontecimentos graves, são como fissuras permanentes na alma, e o gesto mais humano diante delas é o acolhimento, não a decifração. Diante de questões severas — como um abuso sexual, um estupro coletivo, uma morte trágica de um filho, a devastação causada por uma doença incurável ou a dor silenciosa e crônica da ideação suicida —, qualquer tentativa apressada de simbolização pode se transformar em uma forma sutil de violência. Como se disséssemos àquela pessoa: “Entendo sua dor, veja como ela tem um propósito elevado”. Mas a verdade é que não entendemos. E tentar entender cedo demais, com boas intenções, pode nos colocar exatamente no lugar do analista inflado, tomado por uma onipotência simbólica que deseja aliviar mais a si mesmo do que ao outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-uma-arrogancia-disfarcada-de-espiritualidade-nesse-movimento-um-narcisismo-analitico-que-recorre-a-busca-por-sentido-como-um-modo-de-se-proteger-da-angustia" style="font-size:19px"><strong>Há uma arrogância disfarçada de espiritualidade nesse movimento</strong>. <strong>Um narcisismo analítico que recorre à busca por sentido como um modo de se proteger da angústia</strong>. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Porque sustentar o sofrimento injusto do outro sem resposta é insuportável para muitos psicoterapeutas. Jung escreveu que a plenitude da vida exige um equilíbrio entre sofrimento e alegria, e que “por trás da neurose se esconde todo o sofrimento natural e necessário que não se está disposto a suportar” (JUNG, A Prática da Psicoterapia, OC XVI/1, §185).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-poderiamos-dizer-que-por-tras-de-muitos-esforcos-interpretativos-esconde-se-a-recusa-do-analista-em-sustentar-a-propria-impotencia" style="font-size:19px">Poderíamos dizer que, por trás de muitos esforços interpretativos, esconde-se <strong>a recusa do analista em sustentar a própria impotência</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Mas a experiência clínica demonstra que há momentos em que nenhum símbolo redime, nenhum arquétipo consola e nenhuma função transcendente se manifesta. Há momentos em que o analista deve se despir de suas teorias e técnicas, para permanecer apenas como presença humana diante daquilo que não se compreende. Jung reconheceu esse perigo quando afirmou que há momentos em que mergulhamos numa profundidade onde “todas as muletas e arrimos são quebrados”, e é ali que talvez se manifeste o arquétipo do sentido, “até então oculto na significativa falta de sentido [&#8230;]” (JUNG, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, OC IX/1, §66). Mas a vivência desse arquétipo, antes de ser revelação, é colapso. É como “uma morte voluntária”, forçada por uma vida que não se explica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-morte-simbolica-exige-do-analista-nao-uma-resposta-mas-uma-travessia-compartilhada" style="font-size:19px">Essa morte simbólica exige do analista não uma resposta, mas uma travessia compartilhada. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Uma escuta que reconhece a brutalidade da vida e não a camufla com poesia. Uma escuta que não exige do paciente a performance do resiliente. Porque há dor que não edifica. Há sofrimento que não amadurece. Há feridas que não viram cicatriz, mas que se tornam abismos habitáveis — desde que alguém permaneça ali conosco.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">A escuta analítica, quando madura, não tenta suprimir essa ausência de sentido com respostas apressadas. Ela não busca anestesiar a dor do outro com beleza simbólica. Ao contrário, ela reconhece a necessidade paradoxal de sustentar os opostos: acolher tanto a busca por sentido quanto a total falta dele. Jung foi enfático: “a totalidade, a plenitude da vida exige um equilíbrio entre sofrimento e alegria” (JUNG, A Prática da Psicoterapia, OC XVI/1, §185). E mais ainda: “a paixão do ego, ou seja, do homem empírico implica sofrimento, sendo ele como que violentado pelo Si-mesmo” (JUNG, Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade, OC XI, §233).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-portanto-o-sofrimento-que-nao-faz-sentido-e-ainda-assim-parte-da-totalidade-e-o-analista-deve-ter-coragem-para-olhar-para-ele-com-humildade" style="font-size:19px">Portanto, o sofrimento que não faz sentido é, ainda assim, parte da totalidade. E o analista deve ter coragem para olhar para ele com humildade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Porque se não o fizer, corre o risco de transformar a análise num romantismo espiritual, num misticismo superficial que não resiste ao primeiro vento de inverno. E esse risco não é apenas teórico: ele é clínico, prático, cotidiano. Ele se manifesta quando um paciente começa a ocultar sua dor por perceber que sua verdade bruta não cabe mais na escuta do analista. Quando, mesmo sem querer, o analista estabelece a expectativa de que o sofrimento só será aceito se vier acompanhado de uma iluminação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-nos-ensinou-um-sofrimento-incompreensivel-e-dificil-de-suportar-ao-passo-que-e-espantoso-ver-com-frequencia-o-que-um-individuo-e-capaz-de-aguentar-quando-entende-a-razao-e-a-finalidade-do-seu-padecimento-jung-a-vida-simbolica-oc-xviii-2-1-578" style="font-size:19px">Jung nos ensinou: “<strong>Um sofrimento incompreensível é difícil de suportar, ao passo que é espantoso ver, com frequência, o que um indivíduo é capaz de aguentar quando entende a razão e a finalidade do seu padecimento</strong>” (JUNG, A Vida Simbólica, OC XVIII/2, §1.578).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">No entanto, isso só acontece quando a razão é vivida, não imposta. Quando o sentido emerge, e não é fabricado pelo desejo do analista. Quando ele vem como consequência da travessia, e não como forma de evitá-la.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">É preciso lembrar: nem todo acontecimento precisa ser simbolizado. Nem toda dor precisa ser metaforizada. Algumas dores precisam ser acolhidas apenas como dores, eventos do destino que nos quebram, e que não podem — e talvez não devam — ser interpretados imediatamente. E isso não significa cair no niilismo, mas sim honrar o mistério. Há uma força na escuridão não explicada. Jung chegou a dizer que a dor no coração de um paciente era a dor da alma que ele se recusava a sentir, e que o sintoma físico só desapareceu quando ele chorou (JUNG, A Natureza da Psique, OC VIII/2, § 303). Ou seja, às vezes não é a interpretação, mas a vivência direta da dor é que traz algo para o indivíduo. Porém nem todos estão preparados para sustentar essa vivência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muitos-analistas-especialmente-os-mais-jovens-ou-inseguros-buscam-em-suas-formacoes-um-abrigo-contra-a-angustia-do-real" style="font-size:19px">Muitos analistas, especialmente os mais jovens ou inseguros, buscam em suas formações um abrigo contra a angústia do real.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">E transformam a escuta em um campo de garantias, onde o símbolo precisa aparecer, onde a redenção precisa acontecer, onde a história do paciente precisa, de algum modo, terminar bem. Como se pudessem, amparados por uma metodologia infértil e um desejo infantil, aprisionar as Moiras e definir o destino a ser fiado — o que nem os deuses olímpicos se atreviam a tentar. Esse otimismo forçado — às vezes travestido de espiritualidade — é um desserviço à alma em dor. Porque a alma pede verdade. Mesmo que a verdade seja insuportável. Mesmo que a verdade seja que nada fez sentido. E essa é uma verdade que pode e deve ser sustentada.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Jung insistia que o inconsciente não era apenas o reservatório de conteúdos reprimidos, mas também o campo onde se gestam os futuros conteúdos da consciência. E, como tal, é um campo que inclui o trágico, o absurdo, o injustificável. A psique não é só luz, ela é também sombra; não é só sentido, é também <em>nonsense</em>. Não reconhecer essa ambivalência é trair a própria alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">É legítimo e até necessário que a análise busque sentido. Mas essa busca precisa ser atravessada pela humildade do não saber, pela capacidade de sustentar aquilo que ainda não se simbolizou, aquilo que talvez jamais se simbolize. Porque se a análise corre apressada para encontrar um “para quê?” em tudo, corre também o risco de abandonar o “isso aconteceu”, que é o ponto de partida — e muitas vezes também o ponto de chegada — de quem viveu um horror.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-fim-cabe-tambem-lembrar-uma-analise-que-ignora-a-dor-do-acontecimento-em-nome-do-simbolo-corre-o-risco-de-se-tornar-cumplice-da-repressao" style="font-size:19px">Por fim, cabe também lembrar: uma análise que ignora a dor do acontecimento em nome do símbolo corre o risco de se tornar cúmplice da repressão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">E como nos adverte Jung, os conteúdos que não são acolhidos pela consciência retornam como sintomas (JUNG, A Natureza da Psique, OC VIII/2, §702). Por exemplo, como rancor, revolta, desconfiança ou até mesmo desistência do processo analítico. A dor não acolhida se transforma em sombra — e, na clínica, pode se tornar silêncio. Um silêncio que se distancia. Um silêncio que desiste.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Dessa forma, o verdadeiro trabalho analítico exige uma coragem rara: <strong>a de escutar a dor sem explicá-la</strong>. <strong>De acompanhar o outro no abismo, sem a pressa de fechá-lo com uma ponte simbólica frágil</strong>. E, sobretudo, de reconhecer que, em certos momentos, o maior gesto de cuidado é simplesmente estar ali — presente, vivo, humano — ao lado de quem sofre, sem tentar aliviar a dor, mas apenas sustentá-la junto, com respeito, firmeza e, principalmente, amor. Afinal, a vida não é um problema, é um mistério. Os problemas, nós conseguimos resolver. Os mistérios, apenas viver.</p>



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<iframe title="Artigo: &quot;A urgência pelo sentido e o silêncio da dor: limites e perigos na escuta analítica&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/WFqGqPt1iqI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/leandroscapellato/">Leandro Scapellato – Membro Analista em formação/IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Membro Analista Didata/IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A prática da psicoterapia</em>. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A vida simbólica</em>. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Interpretação psicológica do dogma da Trindade</em>. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-2-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10540" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-2-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-2-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-2-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-2-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-2-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-2.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



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			</item>
		<item>
		<title>Algumas palavras sobre o sofrimento</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/algumas-palavras-sobre-o-sofrimento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Jun 2024 13:22:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[bem]]></category>
		<category><![CDATA[dor]]></category>
		<category><![CDATA[Mal]]></category>
		<category><![CDATA[Sofrimento]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9128</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este artigo tem o objetivo de trazer à reflexão uma visão do sofrimento à luz da psicologia analítica. Muito Jung falou a esse respeito, por toda a sua obra, quando discorre sobre o bem e o mal e sobre as unilateralidades que vivemos, quando trata dos opostos. Este artigo é mais provocativo do que profundo, pois este tema tem muito a ser discutido para que possa ser compreendido cada vez mais e melhor pelos leitores, estudantes e profissionais da psicologia analítica, bem como da psicologia em geral. Tema extenso, denso, profundo e muito atual, que permeia todas as esferas da vida humana e todas as camadas da nossa sociedade. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><em>Tudo é dor, e toda dor,</em><br><em>Vem do desejo de não sentirmos dor.</em></p><cite>Renato Russo</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O que significa a palavra <strong>sofrimento</strong>? Conforme a etimologia da palavra, vale destacar o que foi encontrado em pesquisa para este artigo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“<strong>Sofrimento</strong> é uma palavra formada dentro da língua portuguesa e registada desde o século XVI. [&#8230;] <strong>Sofrer</strong>, palavra registada desde o século XIII, provém de <em>&#8216;sufférere</em>&#8216;, forma evoluída (ou paralela) do latim clássico &#8216;<em>suferre</em>&#8216;, que significava:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>1 – Suportar; sofrer; resistir;</li>



<li>2 – Incorrer num castigo, suportar um castigo, ser condenado a;</li>



<li>3 – Se <em>sufferre</em> – manter-se.”<a href="#_ftn1" id="_ftnref1">[1]</a></li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-logo-compreendemos-que-quem-sofre-esta-designado-a-passar-por-algo-suportar-e-resistir-manter-se" style="font-size:17px">Logo, compreendemos que, quem sofre está designado a passar por algo, suportar e resistir, manter-se.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quem sofre “de alguma coisa” ou “por alguma coisa”, se submete de algum modo à imposição de um processo. No mundo dos materiais, por exemplo, para que se produza um objeto qualquer, a matéria prima “sofre” um processo de transformação, de mutação para se chegar a um resultado. É claro que conosco, seres humanos, há uma diferença, tanto no que concerne ao processo, quando no que diz respeito ao resultado final, mas para chegarmos por exemplo à vida adulta, como pessoas atuantes em sociedade, com desígnios e trabalhos os mais diversos. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Sofremos também um processo de crescimento, de desenvolvimento que nos leva a uma série de transformações e de mudanças, tanto internas quanto externas, nas nossas relações, em nosso corpo em nossos valores. Não podemos escolher não passar por isso. É natural, se tentamos não passar por este processo, sofremos ainda mais, pois estamos sendo contrários a uma lei da vida. Mas isso todo mundo já sabe, não é?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o que tudo isso tem a ver com a psicologia analítica e como este sofrimento humano é compreendido neste contexto? A visão do sofrimento na psicologia analítica é um termo que pode suscitar diversos debates e conversas. Trata-se de algo muito complexo, que não pretendo esgotar neste artigo. A proposta aqui é reflexiva, para que futuras discussões e maiores aprofundamentos possam acontecer.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-que-sofremos"><strong>Por que sofremos?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao pensarmos em nossa cultura judaica cristã, encontramos nas histórias bíblicas que influenciam o nosso pensar ocidental, um conjunto de mitos e referências, como heranças arquetípicas que de algum modo, nos colocam desde nosso nascimento em uma posição de devedores. No livro do Gênesis, Adão e Eva, ao incorrerem no pecado original, deixaram para a humanidade o sofrimento e a vergonha, como castigos pelo erro cometido de querer “ser Deus”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O pecado original é a base cristã no ocidente, a partir da qual somos levados a confrontar uma questão que perpassa toda teoria junguiana, o bem e o mal, a dualidade do poder de Deus sobre os homens e a origem do sofrimento psíquico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mal existe em nós como a sombra de uma culpa, como já dito, proveniente do pecado original e depois, pela dívida gerada na compaixão do sacrifício e morte de Cristo – filho de Deus, feito homem &#8211; que morreu para salvar toda a humanidade. Já não bastava Adão e Eva!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este elemento dual que gera paradoxos, está presente nas narrativas religiosas, mitos e contos, sendo essa uma batalha à qual nosso sistema psíquico está submetido. Este sofrimento pode se manifestar de diversas formas, como doença física, dor emocional, perda, ou desafios difíceis. Como uma experiência humana universal, logo, arquetípica, pode afetar o indivíduo e o meio que o cerca.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-homem-sempre-buscou-formas-diversas-de-encarar-e-de-suportar-o-sofrimento" style="font-size:19px">O homem sempre buscou formas diversas de encarar e de suportar o sofrimento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos esquecer que atualmente há uma ode a situações que leve os seres humanos à alegria constante, por meio de uma ditadura da felicidade. Tudo que possa remeter o ser humano à dor, sofrimento e tristeza precisa ser banido, como se isso não fosse algo legítimo ou importante. Claro que não é agradável sentir-se triste, deprimido, inadequado, mas é inevitável. A busca de compreensão destes sentimentos são a base para que se possa compreender e suportar o sofrimento ao qual se está exposto. Encontrar significado nas adversidades pode trazer determinação e coragem para se passar pelo processo de sofrimento de uma maneira mais digna e, porque não dizer, natural. Segundo Jung (2013a):</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-lamentavelmente-e-verdade-que-nosso-mundo-e-vida-consistem-em-opostos-inexoraveis-dia-e-noite-bem-estar-e-sofrimento-nascimento-e-morte-bem-e-mal" style="font-size:18px">Lamentavelmente é verdade que nosso mundo e vida consistem em opostos inexoráveis: dia e noite, bem-estar e sofrimento, nascimento e morte, bem e mal.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E sequer temos certeza se um compensa o outro: se o bem compensa o mal, se a alegria compensa a dor. A vida e o mundo são um campo de batalha, sempre o foram e sempre o serão. E se assim não fosse, a existência logo teria um fim. Um estado de perfeito equilíbrio não existe em lugar nenhum. (JUNG, 2013a. §564)</p>



<p class="wp-block-paragraph">De qualquer forma, o sofrimento aponta que existe algo em nossa alma que está em conflito, em oposição. A dificuldade de enxergar o que está no lado oposto à dinâmica da consciência dispara uma série de consequências como: projeção do conteúdo sombrio em pessoas ou grupos, adoecimento físico, sintomas emocionais como depressão, angústia e ansiedade. É triste ver como este comportamento unilateral está tão dominante na nossa sociedade que na educação de nossos jovens a possibilidade de simbolização se perde a cada dia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As iniciativas de quebras de regras e de busca de uma identidade, viraram uma série de comportamentos de risco, sem uma compreensão de que este comportamento pode fazer parte de um importante ritual de passagem da vida adolescente para a adulta, o que sem dúvidas, traz dor e sofrimento – mas com sentido. Ou então esse jovem se isola e vive uma vida somente nas telas, o que traz consequências desastrosas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossos jovens estão expostos a uma mídia eletrônica viciante e entorpecente. Vinculados a imagens de relacionamentos falsos, validados por “<em>likes</em>”, ou invalidados por “cancelamentos” &#8211; o que já foi causa de mortes por suicídio inclusive.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-estas-jovens-almas-nao-sao-orientadas-e-educadas-para-enfrentar-as-diversidades" style="font-size:18px">Estas jovens almas não são orientadas e educadas para enfrentar as diversidades.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O mundo <em>fake</em> de <em>youtubers</em> e <em>influencers</em>, exerce sobre eles uma capacidade de influência que substitui por vezes a autoridade positiva dos pais, assim como o não contato e nem confronto com o mundo real. Quando compreendemos o sofrimento, como perdas, frustrações, e decepções como singular na vida de cada um e com sentido de evolução, passamos compreender que isto faz parte do humano e ajuda a amadurecer.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nbsp-o-cenario-portanto-e-o-seguinte">&nbsp;O cenário, portanto, é o seguinte:</h2>



<ol class="wp-block-list">
<li>Crianças que não podem ser repreendidas, pois há uma insegurança dos pais sobre qual é o limite da bronca. Têm medo de traumatizar e geram com isso possíveis jovens e adultos inseguros e incapazes de lidar com suas próprias dores e frustrações;</li>



<li>Jovens que fantasiam a partir de mídias sociais um mundo perfeito e absolutamente feliz. Rejeição, preconceito (de várias naturezas) e frustrações são resolvidos com <em>likes</em>, cancelamentos ou infelizmente, com catástrofes;</li>



<li>Adultos que, de algum modo, são os cuidares parentais destes dois grupos anteriores, buscando sucesso a qualquer preço e quando não alcançam sentem o fracasso como uma culpa gigante, pois seguem na contramão da imposição do padrão social vigente. Tem algo de muito errado com ele.</li>
</ol>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sofremos-pelo-bem-ou-sofremos-pelo-mal"><strong>Sofremos pelo bem ou sofremos pelo mal?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Este é o cenário em que temos um mundo absolutamente dividido. Com uma moral frágil e pautada em valores destorcidos gerando comportamentos intolerantes e de afastamento. O mal está no outro, que não é, pensa ou atua como eu. A salvação desta situação é projetada em líderes absolutamente autoritários (políticos, religiosos, empresariais) e que estão longe de serem uma referência positiva em termos de posicionamentos equilibrados e de alteridade.&nbsp; Cria-se um círculo vicioso e perigoso para a nossa consciência coletiva, o que gera em contrapartida uma sombra coletiva imensa e perigosa e destrutiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-questao-da-polarizacao-entre-o-bem-e-o-mal-foi-extensamente-discutida-na-obra-de-jung" style="font-size:17px">A questão da polarização entre o bem e o mal foi extensamente discutida na obra de Jung.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em <strong>Resposta a Jó</strong>, Jung (1990) diz que a dualidade ou o paradoxo de Deus vem da premissa de que bem e mal se contrapõe igualmente. Nesta obra, ele contesta a ideia de <em>privatio boni</em><a id="_ftnref2" href="#_ftn2">[2]</a> entendendo que o bem e o mal estão presentes na imagem que ele concebe de Deus.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><strong>Segundo o dogma, nem o “bem” nem o “mal” têm sua origem no homem, pois “o Maligno” existiu antes do homem, como um dos filhos de Deus</strong>. (JUNG, 1990, p. 115 &#8211; posfácio).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Jung continua dizendo que, sendo o Cristo religioso monoteísta, faz sentido que os opostos estejam então presentes em Deus. E daí vem a reflexão: se somos feitos à imagem e semelhança de Deus, poque negamos o mal? Por que negamos a capacidade de gerar sofrimento para nós e para outros? Seria Cristo a possibilidade de redenção de Javé? <strong>Há muito a se pensar</strong>&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fica difícil em mundo tão literal e polarizado, com o rigor de estados urgentes de felicidade, pensar que o sofrimento existe como parte do entendimento do sentido da vida e como oportunidade para crescimento e consequentemente para o processo de individuação. Pode-se entender como passar pelo sofrimento opera na pisque a partir da visão de uma jornada heroica. Nenhum herói, seja nos contos ou nos mitos, dos mais antigos aos mais modernos, atinge o seu objetivo, sem passar por uma boa dose de percalços e desafios, que o fazem sofrer. Não estou falando aqui de uma imagem pasteurizada de herói, mas sim do sentido arquetípico deste termo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-2016">Segundo Jung (2016):</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>O mais nobre de todos os símbolos da libido é a figura humana do demônio ou do herói. A simbólica abandona então o campo do neutro, próprio à imagem astral e meteórica, e assume forma humana: a imagem do ser que passa da tristeza para a alegria e da alegria para a tristeza, o ser que ora resplandece no zênite, como o Sol, ora imerge em noite profunda e desta mesma noite renasce para novo esplendor. Assim como o Sol, [&#8230;] também o homem, segundo leis imutáveis, segue seu caminho e desaparece na noite ao fim da jornada, para renascer de manhã em seus filhos, reiniciando nova trajetória. (JUNG, 2016, § 251)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conversando-com-as-imagens-do-sofrimento"><strong>Conversando com as imagens do sofrimento</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em nossos sonhos &#8211; que segundo Jung são um caminho para o inconsciente &#8211; várias imagens são desordenadamente apresentadas ao sonhador, com narrativas caóticas e com pouco sentido à luz da consciência, mas com um valor simbólico absolutamente necessário para que compreenda o sentido e as mensagens cifradas contidas nestas narrativas. Esta é a função compensatória dos sonhos, conforme diz Jung (2016): “<strong>O que acontece na fantasia portanto é compensação para o estado ou a disposição do consciente. Esta é a regra nos sonhos</strong>.” (JUNG, 2016, § 469).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-portanto-podemos-compreender-os-sonhos-como-oportunidades-para-uma-conversa-entre-os-universos-consciente-e-inconsciente" style="font-size:18px">Portanto, podemos compreender os sonhos como oportunidades para uma conversa entre os universos consciente e inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Desse modo, escutar e buscar o entendimento e a integração destas imagens são um caminho para se compreender o sentido da vida, bem como dos nossos sofrimentos. São as <strong>imagens simbólicas</strong> que, carregadas de sentido podem fazer esta ponte com a vida consciente do individuo e trazer sentido e compreensão para os males que o acometem. O processo terapêutico é um espaço de escuta e de contato com estes medos, receios, fantasmas e fantasias de forma segura. Para Jung o espaço psicoterapêutico acontece em um movimento dialético entre duas pisques – a do paciente e a do psicoterapeuta. Neste espaço, o objetivo da psicoterapia é identificar os complexos e suas consequências, pois, por sua qualidade autônoma, eles não se submetem à vontade e controle do ego e da consciência. Segundo <strong>Jung</strong> (2013b):</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O fato de ter complexos, ao invés, não implica uma neurose, pois normalmente são os complexos que deflagram o acontecimento psíquico, e seu estado dolorido não é sinal de distúrbio patológico. Sofrer não é doença, mas o polo oposto, normal da felicidade. Um complexo só se torna patológico, quando achamos que não o temos. (JUNG, 2013b, § 179).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Tomar consciência desta dualidade que é arquetípica na formação do ser humano, é ponto de partida para conseguir lidar com o significado e com as consequências do sofrimento. Há muitos recursos terapêuticos possíveis para esta conversa acontecer de modo que, o indivíduo possa se aproximar e se aprofundar nas suas imagens. Jung considerava de alto valor o desenho, a pintura a modelagem no processo terapêutico como formas de ampliação dos símbolos e das imagens associadas aos sonhos e às questões trazidas por seus clientes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sofrimento-tem-cura"><strong>Sofrimento tem cura?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">É muito difícil responder esta questão, à luz da psicologia analítica, uma vez que entendemos que a vida acontece por etapas e por ciclos. Não há condição estanque na vida. A energia está sempre em fluxo e condições adversas, acerca das quais nossa racionalidade e consciência não tem o menor controle, podem acontecer a qualquer momento. Compreendo que saber o significado de sua existência ajuda sem dúvida a suportar estas novas situações, de um lugar mais sereno, mas cura, é algo muito grande para uma questão humana e arquetípica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No processo analítico, a compreensão do sofrimento do indivíduo permite encontrar maneiras eficazes de compreendê-lo e superá-lo. O sofrimento pode ser uma oportunidade, um convite para uma reorientação desta energia retida na dor, para a transformação em uma nova atitude, mais consciente e por que não dizer, criativa. Ao enfrentar desafios, podemos descobrir novas perspectivas, e desenvolver uma maior compreensão de nós mesmos e do mundo ao nosso redor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-se-pode-esquecer-que-a-jornada-e-unica-para-cada-individuo">Não se pode esquecer que a jornada é única para cada indivíduo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A dialética que acontece no processo analítico, citada por Jung e já comentada anteriormente, é uma conversa que gera transformação e movimento nas duas psiques presentes no encontro. Ele ressalta que a personalidade do terapeuta, a forma como este cuida do seu próprio processo de desenvolvimento e de autoconhecimento, é de importância fundamental para o processo terapêutico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na obra <strong>A Prática da Psicoterapia</strong> (2013b), ao discutir sobre métodos e atitude profissional, ele ressalta &#8211; aliás em toda obra &#8211; a importância do fator humano neste processo. Técnicas, teorias e visões de mundo são auxiliares e não o objetivo do processo. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O grande fator de cura, na psicoterapia é a personalidade do médico – esta não é dada a priori; conquista-se com muito esforço, mas não é um esquema doutrinário. As teorias são inevitáveis, mas não passam de meios auxiliares. Assim que se transformam em dogmas, isso significa que uma dúvida interna está sendo abafada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-necessario-um-grande-numero-de-pontos-de-vista-teoricos-para-produzir-ainda-que-aproximadamente-uma-imagem-da-multiplicidade-da-alma" style="font-size:18px">É necessário um grande número de pontos de vista teóricos para produzir, ainda que aproximadamente, uma imagem da multiplicidade da alma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso é que se comete um grande erro quando se acusa a psicoterapia de não ser capaz de unificar suas próprias teorias. (JUNG, 2013b, § 198)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para concluir, como visão de cura para o sofrimento, entende-se que na prática da psicoterapia junguiana o caminho está na busca de ser quem de fato se é, o mais livre que se possa estar de projeções, de manifestações inconscientes sem sentido com sua vida, aceitando que determinadas questões às vezes não serão totalmente suprimidas ou retiradas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Teremos sempre complexos, sombras, paradoxos, mas estes não necessariamente precisam ser inimigos ou geradores de grandes sofrimentos para nós e para os demais. Jung nos diz que a felicidade está em nossa capacidade de suportar com firmeza e paciência filosóficas o sofrimento. Enquanto isso não acontece a realização da totalidade e da plenitude da vida estará comprometida. É disso que trata, entre tantas coisas mais, o processo de individuação. </p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: Algumas palavras sobre o sofrimento" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/d7xJWXk_XwY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/gilmaraalves/"><strong>Gilmara Marques Fadim Alves – Analista em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Guarnieri – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>JUNG, C. G.</strong> – <em>A prática da Psicoterapia</em>. Ed. Digital. Vol. XVI/1. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ &#8211; <em>A vida Simbólica</em>. 7ª ed. Vol. XVIII/1. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ &#8211; <em>Resposta a Jó</em>. 3ª ed. Vol. XI/4. Petrópolis: Vozes, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ &#8211; <em>Símbolos da Transformação</em>. Ed. Digital. Vol. V. Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/sofrimento&#8211;felicidade/15793 [consultado em 01-05-2024]</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a id="_ftn2" href="#_ftnref2">[2]</a> Doutrina cristã, onde o mal é entendido como ausência do bem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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		<title>Precisamos sofrer para despertar o sábio?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/precisamos-sofrer-para-despertar-o-sabio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 14 Jul 2022 11:05:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[angústia]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica. Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sabedoria]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<category><![CDATA[Sofrimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Será que existe vida sem sofrimento? Somos direcionados para ter segurança, certezas, conforto, alegrias e muito prazer, mas parece que isso acontece para bem poucas pessoas e, geralmente, não é perene. Além disso, só podemos conhecer o prazer porque existe a dor, e isso vale para os demais desejos. Refletir a respeito do sofrimento, suas causas e razões é o que pretende este ensaio.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Será que existe vida sem sofrimento? Somos direcionados para ter segurança, certezas, conforto, alegrias e muito prazer, mas parece que isso acontece para bem poucas pessoas e, geralmente, não é perene. Além disso, só podemos conhecer o prazer porque existe a dor, e isso vale para os demais desejos. Assim como, é graças a angústia, que é uma espécie de sofrimento advindo da alma, produzindo inquietude e mal estar, que a humanidade pode evoluir e produzir tudo que existe de ciência, tecnologia, arte, mitologia e religiões. Ou seja, para dores, até podemos usar anestésicos e analgesicos, mas para o sofrimento da alma, gerador daquele aperto no peito, que chamamos de angíustia, mesmo com o uso abusivo de psicotrópicos, como sntidepressivos, ansioliticos&nbsp;e estabilizantes do humor, raramente consequimos nos livrar dele. Porém, nossa cultura, que está fascinada pela razão, pelo materialismo,&nbsp;pelo&nbsp;consumo e pelo monoteismo da consciencia, tenta evitar, de todas as formas, qualquer tipo de sofrimento.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso me deixa muito incomodado, porque precisamos sofrer, na condição do sujeito que vivencia as experiências e os afetos, para evoluirmos, indo ao encontro da nossa dimensão sombria para acessarmos nossa alma e nosso daimon, a centelha divina que nos impulsiona para a salvação, iluminação ou, junguianamente falando, a individuação. Porém, como estamos condicionados a ir apenas às direções do que está na frente, acima e pra fora, cultuando as deusas razão e matéria, em busca do prazer quantitativo e efêmero, o sofrimento virou patologia e, na maioria das vezes, diagnosticado como depressão. Aprendemos a negar a angústia e, com isso, a criatividade genuína. Valorizamos as anestesias, os analgésicos, os ansiolíticos e os antidepressivos, assim não fazemos a descida aos infernos, imergindo na profundeza da alma, apesar do sofrimento do ego, para cumprir a verdadeira jornada do herói na direção do si mesmo. E, para cumprir essa jornada, tão temível na contemporaneidade, é necessário irmos para trás, para baixo e para dentro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aprender a sabedoria da alma, com o propósito de atingir nossa meta de união com o absoluto, é quase um crime. Porque neste estado teremos impulsos de amar e servir e isso é ruim para o sistema alienante de consumo, acúmulo, dívidas e trabalho sem sentido e significado. Aprendemos a conter as emoções e, com isso, a ficarmos cada vez mais neuróticos, consumindo toda sorte de substâncias psicoativas com intuito de aliviar a angústia e esperar a morte chegar. Para romper esse ciclo é necessária uma crise que produza a metanóia. A mudança de paradigmas, possibilitando o desapego e o cuidado, com resgate da intimidade e do amor, como instrumentos arquétipos em desuso na atualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mal está associado a escândalos &#8211; que em grego é skandalon, significando obstáculos e empecilhos &#8211; suscitando crimes, golpes, latrocínios, homicídios, suicídios, guerras, discórdias, prostituição, traições, invejas, enfim toda sorte de tragédia, angústia e caos que constituem a frágil e aflitiva condição humana. A pedra de tropeço, que significa manquejar, designa o obstáculo que repele para atrair, atrai para repelir. Não podemos topar com essa pedra uma primeira vez sem voltar sempre a topar com ela, pois o acidente inicial e depois os seguintes a tornam sempre mais fascinantes. Da mesma forma, o pecado &#8211; hamartia &#8211; também contextualiza a falta e a perda do alvo, representado pelo daimon ou chamado vocacional da existência. Por isso, o sofrimento do sacrificado pode representar um processo de lapidação ou de queda, que significa, simbolicamente, a tomada de consciência e o aperfeiçoamento, ele também pode permitir o restabelecimento da ordem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Crise é a base de toda a evolução humana. Apesar dela gerar sentimentos de violência e de violação, ela é a possibilidade de tomada de consciência e evolução criativa. Porque a crise, de maneira violenta, tira o indivíduo de sua rotina profana, onde a vida é vivida sem significado e sem sentido, podendo levá-lo, pela necessidade de superá-la, a uma dimensão sagrada e de sabedoria. É por meio da superação de situações de conflito que o sagrado imanente e inconsciente pode tornar-se transcendente e consciente. Mas, para isso, é necessário termos a consciência do caminho e do daimon, evitando assim o trágico, que equivale a trafegar sem destino, o pecado, a perda do alvo ou do propósito, o desastre, a desconexão com os astros e, consequentemente, o escândalo, ou tropêço. Apesar de que todas essas ocorrências traumáticas e dramáticas possibilitam a tomada de consciência e o realinhamento com o processo de individuação, proposto por C. G. Jung.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Compreendo que todas as manifestações mórbidas, incluindo o trágico e o desastroso, nas esferas psíquicas, físicas, familiares, laborais, sociais, espirituais ou ecológicas podem ser grandes possibilidades de tomada de consciência. Porque estamos vivendo numa época de dissociação, onde todos os sistemas estão ruindo. Mas isso, a meu ver, é o prenúncio da mudança de paradigma para este atual sistema egoísta, consumista e cumulativo. Por isso que&nbsp; fenômenos climáticos, biológicos e geológicos estão cada vez mais exuberantes e violentos e, como nada é por acaso, tudo isso pode ser compreendido como o estímulo para a queda e consequente tomada de consciência da humanidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É interessante refletirmos e ponderarmos que a atitude de não violência, a ahimsa, adotada por Mahatma Gandhi (1869-1948), na realidade foi muito violenta, porque violou o atual modelo da Lei de Talião, do olho por olho e dente por dente. Sua atitude foi de extrema violência contra a competição por meio da violência física e produziu enorme violência psíquica em seus oponentes, a ponto de possibilitar o surgimento da metanóia, ou seja, a mudança de atitude diante da brutalidade da invasão territorialista e do abuso de poder, eliminando os condicionamentos e automatismos alienantes, por dar oportunidade para a tomada de consciência, em busca de sentido e significado para as ações e para a vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste sentido, posso afirmar que o sábio é aquele indivíduo capacitado para produzir crises, no sentido de estimular tanto o autocentrismo quanto o altruísmo, possibilitando mortes simbólicas e mudanças de crenças na direção da expansão do autoconhecimento. Por isso, o sábio faz com que o tempo de Kronos inclua o tempo de Kairós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desta forma, o sábio não pode ser sempre tolerante, porque ao tolerar o intolerante ele pode retroalimentá-lo. Mas, ao invés de agir da mesma forma que o doentio, ele provoca a crise da enantiodromia, com serenidade para reconhecer que, em alguns momentos, o não agir é uma forma de agir, assim como o não falar também é uma espécie de fala, que pode dizer muito mais do que milhares de palavras ou ações. Utilizando esses instrumentos de forma consciente e consequente, sempre alinhados com sua intenção de produzir desconforto e transformação evolutiva do outro, valendo-se heroicamente de Areté e Timé, que lhe conferem honra, coragem e valor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para mim, o maior sentido da vida é o de servir, pois quem não vive para servir não serve para viver. Sendo que esse servir deve estar voltado para a humanidade, no dinamismo da teoria da dádiva que compreende o dar, o receber e o retribuir. Por que, neste sentido, dar é sinônimo de receber, ou seja, aquele que consegue se sentir recebendo quando está dando, além de estar numa atitude natural de liderança, terá autoridade e maturidade para servir a vida e, consequentemente, ao sagrado, ao invés de apenas se contentar, infelizmente como a maioria das pessoas, em fazer uso transitório da vida e do sagrado. Por isso, somente a troca de graça é que tem graça! Assim, por mais que a humanidade tente negar, parece que estamos na emergência de várias crises, da política ao meio ambiente, da ética aos valores espirituais, para que suas soluções possam produzir a superação e o advento de um novo paradigma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Reiterando que sofrer é inevitável, mas a dor pode, talvez, ser superada. Transformada. Mas o sofrimento? O padecimento? As paixões da alma? Esses são próprios da vida. Simplesmente, porque não controlamos os outros, e muito menos a nós mesmos! Na realidade, não temos muito o que fazer com o outro de nós mesmos, representado por nossa sombra e complexos, que possuem, na maioria das vezes, autonomia, independência e até ascensão sobre nosso Ego que, de forma defensiva, acaba projetando esses elementos internos nos objetos externos. Isso faz com que o outro externo também seja transformando em objeto, na mesma medida dê que vamos negando nossa subjetividade, desanimando e virando objetos inertes, solitários e finitos. E, muitas e inúmeras vezes, esses outros de nós mesmos projetados em nosso entorno relacional, nos atingem gerando dor, assim como nós mesmos criamos situações de autoflagelamento físico e ou psíquico, para alimentar o complexo vitimário ou simplesmente pelo prazer da autopunição em expiar o sentimento de culpa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como não controlamos os outros (internos e externos, reais ou projetados), e os riscos da convivência e dos envolvimentos inevitáveis, embora, cada vez mais nos enganemos que o envolvimento não só é possível de ser evitado, como deve sê-lo. Tentamos evitá-lo, justamente, para, assim, numa tentativa insana de manter os relacionamentos sob controle, sejamos capazes de manter, também sob controle, o sofrimento. Daí que surge a dimensão do simulacro e das relações sintéticas, eliminando qualquer resquício da sabedoria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Despeço-me com essas duas pérolas de escritores lusófonos:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Quem é capaz de sofrer intensamente, também pode ser capaz de intensa alegria&#8221; &#8211; Clarice Lispector</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Quem não quiser sofrer que se isole. Feche as portas da sua alma quanto possível à luz do convívio&#8221; &#8211; Fernando Pessoa</p>



<p class="wp-block-paragraph">WALDEMAR MAGALDI FILHO, Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e Doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: Dinheiro, saúde e sagrado &#8211; Ed. Eleva Cultural. Coordenador e professor dos cursos de especialização lato sensu em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Arteterapia e Expressões Criativas, oferecidos pelo IJEP &#8211; Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa. </p>
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		<title>O não reconhecimento do sofrimento psíquico</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-nao-reconhecimento-do-sofrimento-psiquico-2/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tania Pulier Garrido]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Mar 2022 11:40:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Burnout]]></category>
		<category><![CDATA[Depressão]]></category>
		<category><![CDATA[Diagnóstico Psicológico]]></category>
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		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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		<category><![CDATA[Sofrimento]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Apesar de o debate sobre a importância da saúde mental ter aumentado nos últimos dois anos, com o confinamento provocado pela pandemia de Covid-19, o sofrimento psíquico continua sendo pouco reconhecido e legitimado não apenas no senso comum, mas também nos ambientes de trabalho e políticas públicas. O objetivo deste artigo é, mostrando vários ângulos deste não reconhecimento, dar relevo ao papel da psique na saúde integral, a partir da visão da Psicossomática que dialoga com a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo o relatório mundial da Saúde de 2001 da Organização Mundial da Saúde, que trouxe como tema a saúde mental (cf. WHO, 2001), já no início do século XXI uma em cada quatro pessoas sofreria com alguma doença mental em determinada fase de sua vida, e até 2030 a depressão se tornaria a doença mais comum do mundo e a maior causa de perdas para a população em termos de saúde pública. Entre outras ações, o relatório pede programas de acompanhamento e cuidado nas comunidades, mais profissionais preparados, apoio à pesquisa e sensibilização da população quanto à importância do cuidado com a saúde mental.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não obstante, o novo Atlas da Saúde Mental da própria OMS, que reuniu dados de 171 países durante o ano de 2020, revelou que, apesar de ter havido um aumento de programas de promoção e prevenção na área da saúde mental (de 41% dos Estados-membros em 2014 para 52% em 2020), sua eficácia é questionável, por falta de investimentos humanos e financeiros. As metas propostas não foram alcançadas e há um déficit de financiamento, mesmo com a necessidade crescente dele devido à pandemia da Covid-19 (cf. Opas, 2021).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com a pandemia, de fato, vários alertas têm sido feitos a respeito dos abalos para a saúde mental gerados por toda a situação de insegurança sanitária, social e econômica, confinamento prolongado e perdas. No Brasil, o Ministério da Saúde (2021) alertou sobre o agravamento dos transtornos que já afetavam a população (mais de 18 milhões de brasileiros sofriam de ansiedade mesmo antes da pandemia e mais de um terço dos fatores de incapacitação de pessoas nas Américas devia-se a transtornos mentais). Retomou os termos “fadiga pandêmica” e “definhamento”, usados pela OMS para trazer relevância aos sintomas de cansaço, esgotamento físico e mental, falta de propósito, desesperança, desmotivação que antecedem a pandemia, mas foram agravados e muito por ela. Soma-se a isso o luto em grandes proporções de pessoas que sofreram várias perdas e sequer puderam vivenciar os rituais fúnebres como gostariam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que o tema da saúde mental tem sido mais tratado é indiscutível. Isso significa, porém, que o sofrimento psíquico já seja reconhecido? Nas Olimpíadas de Tóquio (2021), assistimos com perplexidade à desistência da ginasta estadunidense Simone Biles de disputar a final de solo e outras provas, alegando questões de saúde mental diante da pressão. No início de 2022, foi a vez do brasileiro Gabriel Medina desistir da Liga Mundial de Surfe para cuidar da saúde mental. Se sobre os famosos as opiniões já se dividem, e há quem considere a decisão luxo ou frescura, jogada midiática ou covardia, para os simples mortais, então, os “veredictos” costumam ser mais duros, e continua-se a ouvir com frequência expressões como “isso é só psicológico” ou “é coisa da sua cabeça”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Real, legítimo e com potencial transformador</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No texto “Da formação da personalidade”, da conferência intitulada “A voz do íntimo”, de 1934, Jung fala dos que têm a coragem de trilhar seu próprio caminho e assim desenvolver a personalidade, para além da coação e proteção do grupo, a partir da necessidade (por acontecimentos internos ou externos), da decisão moral e da escuta e confiança na voz do íntimo que os impele a emancipar-se das convenções sociais. Neste contexto, utiliza a expressão “Isso nada mais é do que psicologia”, da parte dos que se opõem com preconceitos a este caminho (JUNG, 2020, §302). É interessante a semelhança com o julgamento do senso comum, mesmo na atualidade, sobre o sofrimento psíquico, sobretudo quando compreendemos, a partir do olhar da Psicologia Analítica, que os sintomas são manifestação do inconsciente e mesmo chamado da alma que aponta na direção do processo de individuação, do tornar-se si mesmo, neste caso como oportunidade de rever o que pode estar unilateralizado e por isso levando ao adoecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A essas reflexões caberiam todas as expressões citadas por Jung no mesmo texto, que dizem respeito ao julgamento de quem ousa afastar-se da voz do grupo social para ouvir a voz do íntimo que designa a tomar outro rumo na vida: “tal coisa nem existe”; “se existir, será naturalmente algo ‘doentio’ e, além disso, sem finalidade”; “é ‘uma pretensão descabida pensar que uma coisa dessas tenha importância’”. Lembro-me de uma vizinha que precisou ser afastada do trabalho para tratar de uma depressão. Para melhorar e mesmo como primeiros sinais de melhora, ia tomar sol, mas evitava que os colegas soubessem, pois dizia: “Vir aqui é um esforço que faço para ficar bem, mas qualquer um que me visse assim julgaria minha licença como folga enganosa. Seria tão mais fácil ter quebrado a perna! De um gesso não se duvidaria.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Reconheço angústia semelhante nos relatos que leio no livro de Psicossomática que não por acaso tem o título “Isso é coisa da sua cabeça” (cf. O’SULLIVAN, 2016). Neles, as pessoas afetadas por sintomas ou transtornos graves sem causa orgânica passam de especialista em especialista, desejando que alguém descubra uma doença clínica para explicar seu sofrimento, pois a eles a origem psíquica parece uma humilhação que não legitima a sua dor. É como se lhes dissessem “Você inventou na imaginação o seu mal e pode pará-lo a qualquer momento”, o que não é bem assim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A psique é muito mais ampla do que a consciência que, quando inflada, acredita ter o controle de todas as coisas, bem na linha dos parâmetros sociais atuais, que nos apontam o ideal da pessoa independente, autodeterminada, influenciadora, conectada, com o corpo perfeito segundo padrões bem estabelecidos, a “saúde de ferro” e o “pensamento positivo que tudo alcança”. Parece que somos todos “desviados”; a maioria, porém, lutando quixotescamente para aproximar-se o máximo possível desse estabelecido e ignorar ou combater o seu oposto. Que atualidade têm os seguintes apontamentos de Jung feitos há quase um século!</p>



<p class="wp-block-paragraph">A gente quase se sente um mágico que por suas artes manipula o que é psíquico e lhe dá a forma caprichosa que deseja. Nega-se o que é incômodo, sublima-se o que é indesejável, afasta-se com explicações o que é angustiante, corrige-se o que se julga um erro; e tem-se por fim a impressão de ter colocado tudo na mais perfeita ordem. (JUNG, 2020, §302)</p>



<p class="wp-block-paragraph">É na base da negligência de tantos outros elementos que eles mais cedo ou mais tarde cobram a conta, seja por um infarto, uma falência, uma síndrome do pânico ou uma crise de ansiedade. Enquanto vemos os limites dos outros — mais porque projetamos, sem reconhecer os nossos, do que por não os ter —, nos indignamos com o que parece “bobagem”, “frescura” ou “moleza” e nossos conselhos vão nesta linha: “levante-se!”; “tenha força de vontade!”; “dê a volta por cima!”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando ocorrem conosco, sofremos e queremos ser compreendidos, mas muitas vezes nós mesmos continuamos a não nos compreender, uma vez que não acolhemos nossos outros lados e seguimos com a visão unilateral, achando que deveríamos estar na linha reta estabelecida e buscando de curandeiros a remédios mirabolantes ou entorpecentes para tentar a todo custo retomá-la. Julgamos os outros ou nós mesmos como se tudo dependesse apenas do “eu”. “Mas nisso tudo foi esquecido o mais importante: que o psíquico não se identifica nem de longe com a consciência [&#8230;]. A maior parte do psíquico consta de fatos inconscientes que [&#8230;] podem desabar sobre nós a qualquer momento”. (JUNG, 2020, §302)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O sintoma acontece exatamente como um sinal de alerta de que algo em nós entrou em cisão e oposição com o padrão dominante da consciência. Um complexo foi constelado, ou seja, uma imagem de forte carga afetiva que toma a vontade da pessoa quase como uma personalidade autônoma, em torno de um conteúdo que une uma imagem arquetípica (imagens formadas pelo inconsciente coletivo ao longo da vivência da humanidade, como mãe, pai, criança, bruxa, bem, mal etc.) a experiências pessoais cuja memória ativa emoções (Cf. JUNG, 2018, §198). Esse conflito chama à ampliação da consciência para um novo jeito de viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Chama, convida, mas também pode obrigar. Isso porque o adoecimento não é um evento pontual que surge de repente, mas um processo, que começa com algo que incomoda, uma tensão que podemos escolher ignorar. Podem ocorrer disfunções, como insônia, dor de cabeça, alergias; distúrbios, quando estes se tornam mais fortes e recorrentes; alterações, que começam a aparecer nos exames; até chegar à doença, manifestada mais no físico (uma destruição celular) ou no emocional, mas nunca num único nível. Geralmente, há um fator desencadeante, que se liga com a memória do coração, ou seja, com eventos de vida que se aglomeraram a partir de um princípio difícil de precisar, e que num dado momento eclode, sobretudo se as fases silenciosas foram ignoradas. E apenas neste sentido somos responsáveis — podemos dar ouvidos ou não aos vários chamados que nos são feitos pelos fatos de vida ou pelos primeiros sintomas ou incômodos; não no sentido de se tratar de “coisas da nossa cabeça” que da forma como criamos podemos eliminar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Percebe-se nessa leitura uma visão integral do humano, biopsicosocioespiritual. Como explica Jung (2018, §418), “há não só a possibilidade, mas até mesmo uma certa probabilidade de que a matéria e a psique sejam dois aspectos diferentes de uma só e mesma coisa”. Sendo assim, o sofrimento psíquico é tão legítimo como o físico, até porque estão ligados e nenhum acontece isoladamente, apenas com formas diferentes de manifestação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ele nos ensina que precisamos rever nossa imagem de mundo limitada e unilateralizada que reduz o real ao material, aos objetos percebidos pelos sentidos, como se o imaterial fosse irreal (até o pensamento o seria, dessa forma). Ora, “aquilo que age, que atua, é real.” (JUNG, 2018, §742) Se nos afeta, se produz efeito em nós, é real. Aliás, à própria realidade material, só temos acesso indiretamente, pelas imagens formadas em nossa consciência por processos complexos do sistema nervoso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Longe, portanto, de ser um mundo material, esta realidade é um mundo psíquico que só nos permite tirar conclusões indiretas e hipotéticas acerca da verdadeira natureza da matéria. Só o psíquico possui uma realidade imediata, que abrange todas as formas do psíquico, inclusive as ideias e os pensamentos ‘irreais’, que não se referem a nada de ‘exterior’. Podemos chamá-las de imaginação ou ilusão; isto não lhes tira nada de sua realidade. [&#8230;] A realidade do psíquico, isto é, a realidade psíquica, aquela única realidade que podemos experimentar diretamente, acha-se entre as essências desconhecidas do espírito e da matéria. (JUNG, 2018, §747)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Apenas com o reconhecimento da realidade, legitimidade e mesmo importância do sofrimento psíquico — o seu potencial criativo e transformador como chamado da alma — é que se poderá tratá-lo como é devido, com atenção, interesse, respeito e tempo, e com os investimentos humanos, profissionais e financeiros previstos nos projetos públicos, que geralmente ficam nos papéis. Se insistirmos, porém, em nossa miopia de enxergar apenas o material, talvez os números, já alarmantes, precisem ficar catastróficos para percebermos que algo real e sério está acontecendo quanto à saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tania Pulier — Analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lilian Wurzba — Analista didata/IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:</p>



<p class="wp-block-paragraph">BRASIL. Ministério da Saúde. Realidade imposta pela pandemia pode gerar transtornos mentais e agravar quadros existentes, 10 out. 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2021-1/outubro/realidade-imposta-pela-pandemia-pode-gerar-transtornos-mentais-e-agravar-quadros-existentes. Acesso em: 17 fev. 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG.&nbsp;<em>A natureza da psique</em>. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____.&nbsp;<em>O desenvolvimento da personalidade</em>. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O’SULLIVAN, Suzanne.&nbsp;<em>Isso é coisa da sua cabeça</em>: histórias verdadeiras sobre doenças imaginárias. Rio de Janeiro: Best Seller, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (Opas). Relatório da OMS destaca déficit global de investimentos em saúde mental, 8 out. 2021. Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/8-10-2021-relatorio-da-oms-destaca-deficit-global-investimentos-em-saude-mental. Acesso em: 17 fev. 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Saúde mental: nova concepção, nova esperança, 2001. Disponível em: https://www.who.int/whr/2001/en/whr01_po.pdf. Acesso em: 17 fev. 2022.</p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-tania-pulier"><strong><em>Tania Pulier</em></strong></h4>
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