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	<title>Arquivos sonhos - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos sonhos - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O que fazer com um sonho frustrado?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-que-fazer-com-um-sonho-frustrado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 May 2026 21:58:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[caetano veloso]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[devaneios]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
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		<category><![CDATA[o quereres]]></category>
		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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		<category><![CDATA[Psique]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste artigo, busco refletir sobre a frustração dos sonhos não realizados e convido você a fantasiar uma sociedade que sustentasse o fracasso, em vez do samba-exaltação ao ego contemporâneo, que acredita poder tudo o que quer.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Neste artigo, busco refletir sobre a frustração dos sonhos não realizados e convido você a fantasiar uma sociedade que sustentasse o fracasso, em vez do samba-exaltação ao ego contemporâneo, que acredita poder tudo o que quer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhadas com alguma doçura, as Neurociências nos contam que biologia é poesia. Os mesmos circuitos neuronais ativados quando sonhamos dormindo estão também ativos, idênticos, quando sonhamos acordados, no mais puro devaneio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No descanso da consciência, sono, tudo pode nos ocorrer. Símbolos surreais contam histórias aparentemente desconexas, frequentemente imorais e magicamente reveladoras, quando observadas com algum interesse, curiosidade e insistência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deixarei-hoje-os-sonhos-sonhados-na-escuridao-da-noite-livres-de-ampliacoes-para-me-render-aqueles-que-alimentamos-a-luz-de-uma-pretensa-consciencia-que-insiste-em-se-acreditar-capaz-de-realiza-los" style="font-size:16px">Deixarei hoje os sonhos sonhados na escuridão da noite livres de ampliações, para me render àqueles que alimentamos à luz de uma pretensa consciência que insiste em se acreditar capaz de realizá-los.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sonhamos. Desde pequenos podemos fantasiar vidas para nós mesmos. A profissão, a casa, os amigos, as viagens, o amor. Sonhamos uma família, o almoço de domingo, a noite de Natal. Inventamos nomes para os filhos, vestidos para o casamento, casas para a praia, malas para as viagens, escritório para a empresa, uniformes para o servir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tempo passa e nem sempre as invenções despudoradas se manifestam na vida entendida como real. Podem seguir nos ocorrendo todas as noites, entre a fronha do travesseiro e a cabeça pesada pelas tentativas incessantes de compreender os motivos das frustrações e, ainda, pelos esforços de esquecer o sonho, a fim de não fazê-lo doer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por muitas vezes ao longo da vida de muitas vidas não adiantou sonhar, imaginar, sentir no corpo a sensação de que aquelas ideias se realizariam. Para cada sonho também há, na vida, a contraparte perfeita de sua frustração.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-que-fazer-com-essa-parte-sombria-da-qual-tentamos-fugir-pesados-pela-vergonha-da-nao-realizacao-em-uma-epoca-em-que-se-acredita-tudo-poder" style="font-size:17px">E o que fazer com essa parte sombria, da qual tentamos fugir, pesados pela vergonha da não-realização, em uma época em que se acredita tudo poder?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez valha antes de mais nada aceitar que, diferente do que podemos acreditar, o sonho sonhado na vigília também é fruto do inconsciente. No texto <em>Criptomnésia, de Estudos Psiquiátricos, </em>Jung nos lembra que “O inconsciente premedita todos os novos pensamentos e combinações. E quando a consciência se aproxima do inconsciente com um desejo, foi o inconsciente que previamente lhe inspirou este desejo”. (<em>OC 1 </em><strong>§ </strong>172)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O verso do fracasso não entra no samba-exaltação do ego contemporâneo, que acredita que pode tudo o que quer, ritmado pela tríade “força, foco e fé”. A exclusão do verso triste da canção, talvez, faça a falta da realização doer ainda mais pois a torna pretensamente invisível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é raro ver que o sambista sente no corpo a dor do que não realizou, mesmo tentando calar sua batida ou buscando reinventá-la criativamente. Os sonhos, agora sim, os sonhados no mais profundo da noite, tendem a revelar compensatoriamente aquilo que a consciência não dá conta de sentir, pois frustrada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-onde-nao-queres-nada-nada-falta-diz-caetano-veloso-em-o-quereres-sera" style="font-size:17px">“E onde não queres nada, nada falta”, diz Caetano Veloso em <em>O Quereres</em>. Será?</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.6"><em>“Talvez a maioria dos histéricos que frui plenamente de seus sentidos seja doente porque possui grande massa de recordações, dotada de muita emoção e, por isso, profundamente arraigada no inconsciente; já não pode ser controlada e tiraniza a consciência e a vontade do doente. Em mulheres trata-se às vezes de esperança frustrada de amor ou de um casamento infeliz; em certos homens pode ser uma posição insatisfatória ou méritos não reconhecidos. Os doentes procuram excluir suas emoções da vida diária; por isso, de noite elas os atormentam com sonhos ruins, e de dia os importunam com repentinos ataques de ansiedade precordial, inibem as forças de ação, levam as pessoas a procurar as seitas, produzem dor de cabeça que desafia todos os curandeiros, todos os meios mágicos da eletricidade, banhos de sol e dietas alimentares. Também o gênio tem que carregar o peso da superioridade de um complexo psíquico; se o conseguir, ele o fará com prazer; se não o conseguir, ele o fará com sofrimento. Terá que executar as ‘ações sintomáticas’ que seu talento lhe inspira; colocará na poesia, na pintura, na composição musical o seu sofrimento”.&nbsp; (C.G. Jung, OC 1 §176)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez um gesto de rebeldia contemporânea seja assumir a si mesmo e depois ao mundo seus fracassos. Como complexos cheios de afeto, ao serem vividos com o sabor da frustração percam a potência, mas se manteriam vivos no potencial de realização. A não realização de um sonho não deveria matá-lo na tentativa de esquecê-lo. Se foi do inconsciente que surgiu, não caberia a consciência domesticá-lo, calá-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma sociedade que sustentasse a frustração poderia ler epitáfios assim: “Tentou, bravamente, mas não conseguiu dançar”. Num outro, poderia estar escrito: “Chamaria Luiza, a filha que não teve”. E ainda: “Morreu acreditando que amaria e seria amada”. Ou “Preparou todos os domingos o almoço para a família que não vinha”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-lapides-talhadas-a-partir-do-compromisso-com-a-honestidade-de-pessoas-que-ousaram-uma-vida-vivida-na-plenitude-sem-disfarces-sustentados-por-personas-bem-sucedidas-e-sombras-amarguradas" style="font-size:17px">Lápides talhadas a partir do compromisso com a honestidade de pessoas que ousaram uma vida vivida na plenitude, sem disfarces sustentados por Personas bem-sucedidas e Sombras amarguradas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não seriam lápides criadas na unilateralização do sucesso, da conquista, do amor e da alegria. Tais frases revelariam, com frustração, a insistência no sonho: o homem que queria dançar, a mulher que desejou ser mãe, a que queria um amor recíproco, a que perdoou a família todas as vezes que foram necessárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Eu queria querer-te e amar o amor<br>Construirmos dulcíssima prisão<br>E encontrar a mais justa adequação<br>Tudo métrica e rima, e nunca dor</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Mas a vida é real e de viés<br>E vê só que cilada o amor me armou<br>Eu te quero e não queres como sou<br>Não te quero e não queres como és”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung </strong>nos explica que a palavra <em>criptomnésia </em>provém da literatura científica francesa. “Criptomnésia significa <em>‘<strong>recordações não reconhecidas como tais</strong></em>’”. Assim como os sonhos que, frustrados, deixam de ser sonhados.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Uma parte da cura para uma sociedade tão adoecida poderia ser a sustentação do fracasso. “<em>Do querer que há e do que não há em mim</em>”, conclui o poeta.</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;O que fazer com um sonho frustrado?&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/4S114HfmbtU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/">Luciana Branco &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-jung-c-g-estudos-psiquiatricos-o-c-1-9ª-edicao-petropolis-editora-vozes-2012" style="font-size:16px">JUNG, C.G.<em> Estudos Psiquiátricos O/C 1.</em> 9ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VELOSO, Caetano. <em>O Quereres. </em>Salvador, Philips/PolyGram (atual Universal Music), 1984.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-12921" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1024x576.jpg 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-300x169.jpg 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-768x432.jpg 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1536x864.jpg 1536w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-150x84.jpg 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-450x253.jpg 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1200x675.jpg 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2.jpg 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Venha participar &#8211; Inscrição Comum R$ 120,00</strong> &#8211; Certificado de 30h: <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia ">https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia </a></p>



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			</item>
		<item>
		<title>Verde Que Te Quero &#8211; Uma Análise da Abstração na Psicologia Analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/verde-que-te-quero-uma-analise-da-abstracao-na-psicologia-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Virginia Vilhena]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 10:07:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[expressões criativas]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sonhos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Abstração e Empatia são atitudes da consciência ao se expressar esteticamente, através de imagens que revelam o movimento das relações psíquicas entre nós, nossas clientes e o mundo.  Este texto convida a ampliar as formas de percepção sobre as imagens com um olhar mais desperto e analítico para as que emergem das experiências nem sempre agradáveis, mas potencialmente criativas.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Abstração e Empatia são atitudes da consciência ao se expressar esteticamente, através de imagens que revelam o movimento das relações psíquicas entre nós, nossas clientes e o mundo.&nbsp; Este texto convida a ampliar as formas de percepção sobre as imagens com um olhar mais desperto e analítico para as que emergem das experiências nem sempre agradáveis, mas potencialmente criativas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apresento-inicialmente-o-texto-parte-da-expressao-criativa" style="font-size:18px"><strong>Apresento inicialmente o texto, parte da expressão criativa:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“O sonho com aquele monstro verde só poderia ser vermelho. Se o verde do inconsciente transmitia alguma coloração das associações à natureza e à esperança, é no vermelho do sangue que ele quase se satisfaz no papel.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Ele flui, se liquefaz, alcança tonalidades, torna-se laranja de si-mesmo, diminui o cansaço do ontem e se torna no agora algo. São lâminas, onde em umas a densidade ainda quase grita, o azul da água daquela piscina cheia de cloro se faz presente, para dizer que a água estava ali. Não sei se a água acalmava ou alimentava aquela monstruosidade, se ela, a monstruosidade, estava dentro do cloro, limpador dos vermes aquáticos, higienizador ocidental e civilizatório ou se talvez a água continha e alimentava aquela cena onde o monstro verde estava, mas aqui, no papel, ela é só lembrada.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>O azul dela, a água da piscina iluminada, se faz presente, talvez o azul seja a esperança do outro verde, da antinomia do verde cor do monstro que também se faz verde esperança. Mas o monstro, que aqui não se vê, mas se sente vermelho, estava acorrentado. Acorrentado naquele mar higienizado do mais vil cloro ocidental. Por que nomeei, ideologizei ou “ubiquei” o cloro ao ocidente? Talvez porque os rios do Pará sejam mais esperançosos do que a piscina ocidental do clube civilizado de Can Baró. Ideação, porque no Pará os rios também se sujavam, não tanto quanto o Tietê. Amanhã é dia de Nossa Senhora de Nazaré.”</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-prefacio-de-1937-de-tipos-psicologicos-2013-o-medico-e-psicoterapeuta-carl-jung-confessa-que-e-da-experiencia-diaria-com-o-doente-que-surge-o-seu-livro" style="font-size:18px">No prefácio de 1937 de <em>Tipos Psicológicos</em> (2013), o médico e psicoterapeuta Carl Jung confessa que é da experiência diária com o doente que surge o seu livro.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De certa forma, toda a sua psicologia é uma fenomenologia em movimento; assim, inspirada pela mesma cadência, o fio deste texto analítico é conduzido a partir de uma vivência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Viver a experiência do arrebatamento de um complexo pode não ser agradável em um primeiro momento, atuando no corpo; a psique se movimenta enquanto surgem novos símbolos e sonhos em busca da consciência. É da relação com um desses sonhos que surgiram as expressões criativas que as convido a olhar: são as imagens 1, 2 e 3 e o texto poético-onírico (apresentados no início deste artigo).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-da-imagem-interior-que-surge-uma-necessidade-que-antecede-a-expressao-estetica-e-que-aqui-encontrou-sua-forma-atraves-da-atitude-abstrativa-sobre-a-qual-abordaremos-mais-adiante" style="font-size:18px">É da imagem interior que surge uma necessidade que antecede à expressão estética, e que aqui encontrou sua forma através da atitude abstrativa, sobre a qual abordaremos mais adiante.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-e-pertinente-recordar-que-imagem-no-campo-da-psicologia-analitica-trata-se-de-uma-representacao-imediata-que-se-relaciona-com-a-percepcao-do-objeto-cf-jung-2013c-827" style="font-size:18px">É pertinente recordar que <em>imagem</em>, no campo da psicologia analítica, trata-se de uma representação imediata que se relaciona com a percepção do objeto (Cf. Jung, 2013c, §827). E para trazer para a contemporaneidade, apresento um texto do artista <strong>David Hockney</strong>, no qual se refere similarmente sobre a imagem no cubismo:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“(&#8230;) uma questão de percepção e representação da realidade. Para mim, a maioria das distinções na arte, como abstrato oposto ao figurativo, me parece falsa. Existem muito poucos conflitos na arte que, na minha opinião parecem realmente tangíveis e valem a pena, exceto por apenas um: o desejo de representar”<a href="#_ftn1" id="_ftnref1"><sup><strong><sup>[1]</sup></strong></sup></a>&nbsp;&nbsp; (Hockney, 199,&nbsp; p. 22).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se no campo artístico esse conflito aparente eleva o olhar ao encontro da consciência e das relações com o espírito do tempo, no campo da Psique a experiência do mundo é atemporal. Ao voltar a observar as figuras 1, 2 e 3, revela-se uma imagem relacionada tanto ao inconsciente pessoal quanto à representação de uma imagem primordial, que diz respeito à expressão do Arquétipo (Cf. Jung, 2013c, §832).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É por isso que ao circumambular a imagem estamos em relação direta com a Psique (Abt, 2005, p. 15), movendo-nos com uma complexidade de materiais de diversas procedências, mas que têm um produto homogêneo, com um sentido constelado naquele momento, que é a imagem. (Cf. Jung, 2013c, §829).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora a imagem esteja em permanente diálogo, uma espécie de arte da interpretação delas, como escreve Theodor Abt, tornou-se algo importante para a formação da analista junguiana (Cf. Abt, 2005, p. 12), uma vez que para Jung, o inconsciente se manifesta em sonhos, fantasias, visões e imaginações ativas sempre na forma de imagens (Abt, 2005, p. 12).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ainda que nesta pesquisa referentes do universo artístico sejam mencionados, em uma conferência de 1929, publicada no livro <em>A Prática da Psicoterapia</em> (2013), Jung expõe que à esse material criativo não se trata de valor artístico, e sim “da eficácia da vida sobre o próprio paciente” (2013b, §104). E então reflexiona sobre sua prática perguntando-se: “<em>Mas afinal, por que razão levo os pacientes a se exprimirem por meio de um pincel, de um lápis, de uma pena </em>(&#8230;)? </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-ele-mesmo-responde" style="font-size:18px">E ele mesmo responde:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Antes de mais nada, o que interessa é que se produza um efeito. No estágio psicológico infantil acima descrito, o paciente permanece passivo. Nesta fase, passa a ser ativo. Passa a representar coisas que antes só via passivamente e dessa maneira elas se transformam em um ato seu. Não se limita a falar do assunto, também o executa. Psicologicamente isso faz uma diferença incalculável: uma conversa interessante com o terapeuta, algumas vezes por semana, mas com resultados que – de alguma forma – ficam no ar, é totalmente diferente do que ficar horas a fio, às voltas com obstinados pincéis e tintas, para produzir algo, que à primeira vista parece não ter o menor sentido. (&#8230;) Além disso, a execução material do quadro obriga-o a contemplar cuidadosa e constantemente todos os seus detalhes. Isso faz com que o efeito seja plenamente desenvolvido. Desse modo, introduz-se na fantasia, um momento de realidade, o que lhe confere um peso maior e, consequentemente, lhe aumenta o efeito” (Jung, 2013b, §105-106).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As pinturas acima (1, 2 e 3) e o texto inicial surgiram a partir de um sonho e da necessidade de pintar o sentimento atravessado. São imagens exógenas originárias do fluxo entre psique e objeto, uma ampliação plástica realizada em estágio de rebaixamento cognitivo e que vai criando consciência e desidentificando-se, pouco a pouco, do objeto que inicialmente está carregado de conteúdo mais inconsciente e emocional.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pintar-e-escrever-possuem-um-efeito-terapeutico-per-se-porem-jung-vai-relatar-que-ha-uma-necessidade-de-compreensao-intelectual-e-emocional-das-imagens-a-fim-de-integra-las-ao-consciente-nao-so-racional-mas-tambem-moralmente-jung-2013b-111" style="font-size:18px">Pintar e escrever possuem um efeito terapêutico <em>per-se</em>, porém, Jung vai relatar que há uma necessidade de compreensão intelectual e emocional das imagens, “<strong>a fim de integrá-las ao consciente, não só racional, mas também moralmente</strong>” (Jung, 2013b §111).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para compreender intelectualmente a atitude estética, é preciso revisitar o caminho que precedeu as imagens aquareladas: o corpo que primeiro sentiu — aqui uma expressão somática do complexo —; depois o sonho &#8211; em possíveis compensações, pedagogias e sentido teleológicos que podem revelar as relações entre o “eu” e os outros complexos; e por fim a pintura e o texto poético que nasceram do sonho. Nada se aproxima à consciência por salto: são movimentos vagarosos de percepção da simbologia da imagem: no corpo, nos sonhos, e como será apresentado, nas expressões poéticas (aqui visual e textual).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O diálogo com as imagens, no caso as três aquarelas e o texto, pode suscitar diversas ampliações, junto à elas Jung ressalta a importância de uma interpretação sintética e&nbsp; moral, que se relaciona com a procura do centro (Cf. Jung, 2013b §111). Por se tratar de um curto ensaio, proponho neste texto um olhar breve sobre apenas alguns aspectos da experiência. Aqui enfatizo a cor e a em seguida mais cuidados sobre a sua forma, especialmente a abstração.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nas figuras (1, 2 e 3) a “vontade da arte” escorre em água e vermelho, mesmo na primeira imagem, que poderia dizer que é a mais próxima do inconsciente, por ter sido a primeira a ser realizada com mais carga emocional. O aguado vermelho contradiz o texto, que faz referência a um monstro verde:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“O sonho com aquele monstro verde só poderia ser vermelho. Se o verde do inconsciente transmitia alguma coloração das associações à natureza e à esperança, é no vermelho do sangue que ele quase se satisfaz no papel.”</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aqui a imagem se apresenta na sua própria contradição: vermelho no papel, verde no relato. Entre corpo, sonho, pintura e texto nasce um campo de transformação. Visualmente na figura 2, uma harmonia emerge. Na figura 3, o centro se faz em uma forma mandálica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A valorização da cor, sugerida pela contradição entre texto e imagem, ajuda na criação de consciência sobre o sentimento e movimenta a compreensão simbólica ao revisitar o material. “Entre o ‘eu faço’ e o ‘eu estou consciente daquilo que faço’ há não só uma distância imensa, mas algumas vezes uma contradição aberta” (Jung, 2013a, § 385).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ainda-do-ponto-de-vista-arquetipico-jung-comenta-sobre-a-cor-vermelha-ao-tratar-da-relacao-que-se-da-no-limiar-entre-inconsciente-e-consciente-situacao-similar-na-qual-foram-elaboradas-as-aquarelas" style="font-size:18px">Ainda do ponto de vista arquetípico, Jung comenta sobre a cor vermelha ao tratar da relação que se dá no limiar entre inconsciente e consciente, situação similar na qual foram elaboradas as aquarelas:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Usando aqui a analogia do espectro, podemos comparar a baixa dos conteúdos inconscientes a um deslocamento para a extremidade vermelha da faixa das cores, comparação esta extremamente sugestiva, na medida em que o vermelho é a cor do sangue que sempre caracterizou a esfera das emoções e dos instintos” (Jung, 2013a, §384).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O texto poético-onírico foi escrito logo em seguida das aquarelas, e a oposição verde–vermelho tornou-se dança, tensão criativa, paradoxo cromático de cores também complementares que abre passagem para as possibilidades, qualidades prognósticas da função intuitiva. Dessa forma, a imagem (antes sensorial, de forma inferior, depois sentimental) segue em movimento simbólico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-que-a-energia-psiquica-siga-em-movimento-entre-imagem-e-objeto-agora-faz-se-uma-abertura-de-espaco-para-a-observacao-intelectual-direcionada-para-a-atitude-abstrativa-na-estetica-atraves-deste-texto" style="font-size:18px">Para que a energia psíquica siga em movimento entre imagem e objeto, agora faz-se uma abertura de espaço para a observação intelectual direcionada para a atitude abstrativa na estética, através deste texto.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Compreende-se que para Jung a experiência do complexo mobiliza a energia psíquica que se direciona para uma harmonia. Porém, se essa dança carece de sentido para a totalidade do ser, é compreendida como sintoma de uma doença. No caso do sentido ser experienciado, esse complexo movimenta uma criação, uma expressão, por exemplo artística, e é ampliado diferentemente de uma doença. Essa vivência do sentido é estabelecida na relação com a personalidade do indivíduo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-certa-forma-ja-abordei-a-vontade-da-arte-sob-a-relatividade-da-experiencia-psiquica-pessoal" style="font-size:18px">De certa forma, já abordei a “vontade da arte” sob a relatividade da experiência psíquica pessoal. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A partir deste ponto, volto-me para a psicologia que se manifesta através da atitude estética — no caso das figuras aqui apresentadas, pela via da abstração. Jung, ao ampliar seu conhecimento e realizar quase um estudo arqueológico das tipologias, observa — com base nos escritos de Wilhelm Worringer — que existem duas formas fundamentais de expressão estética: a empatia (<em>Einfühlung</em>) e a abstração (<em>Abstraktion</em>). A grande contribuição do historiador da arte, e que será recebida por Jung, é a demonstração de como ambas expressões não pertencem apenas ao nosso tempo. São movimentos antigos da alma humana, presentes desde sempre nas expressões da humanidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Jung, a atitude empática tem o direcionamento de transferência do conteúdo psíquico para o objeto. E é um conteúdo projetado, portanto mais vinculado ao sujeito que está inconsciente da relação, a impressão é de que o objeto fala por si. A empatia é uma extroversão, e para Worringer, referenciado por Jung, trata-se de um autoprazer objetivado, ou seja, só é bela a forma com a qual se tem empatia (Cf. 2013c § 554).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Inversamente à empatia há um movimento para dentro do sujeito que se afasta da identificação com o objeto, e que será chamado por Worringer de Abstração. Para Jung e para Worringer a exigência, ou a vontade de abstração, é a consequência de uma grande inquietação interna do homem devido aos fenômenos do mundo externo (Cf. 2013c, § 555-556 ).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-um-trecho-da-obra-de-worringer-citado-por-jung-que-e-essencial-para-a-compreensao-dos-pressupostos-psiquicos-do-anseio-pela-abstracao" style="font-size:18px">Há um trecho da obra de Worringer, citado por Jung que é essencial para a compreensão dos pressupostos psíquicos do anseio pela abstração:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Temos que procurá-los no sentimento universal daqueles povos, em sua atitude psíquica para com o cosmo. Enquanto a exigência de empatia tem como condição um relacionamento de confiança feliz e panteísta entre o homem e os fenômenos do mundo externo, a exigência de abstração é a consequência de uma grande inquietação interna do homem devido aos fenômenos do mundo externo e que corresponde, do ponto de vista religioso, a uma coloração transcendental muito forte de todas as representações.   Poderíamos chamar este estado de uma tremenda agorafobia espiritual. Quando Tibull diz que Deus criou neste mundo em primeiro lugar o medo<a href="#_ftn2" id="_ftnref2"><sup>[2]</sup></a>, então podemos admitir que este mesmo sentimento de medo seja também a raíz da criação artística” (Worringer p. 16 <em>apud</em> Jung, 2013c, § 556 ).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tal-fato-como-vai-demonstrar-a-obra-de-jung-e-um-paradoxo-psiquico" style="font-size:18px"><strong>Tal fato, como vai demonstrar a obra de Jung, é um paradoxo psíquico</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se na consciência se dá uma atitude abstrativa, no inconsciente há uma profunda identificação com o objeto. E o inverso também acontece, se a atitude estética é empática, de identificação com o objeto, no inconsciente há um afastamento do mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A expressão estética que acontece por uma necessidade de compreensão de um fenômeno, é o movimento da energia psíquica que não se enrijece em um lado, e estabelece sempre uma nova relação, ainda não determinada.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No campo da filosofia e estética da arte, a chilena Andrea Soto Calderón observa: “as imagens têm um potencial para escavar um ponto de vista e introduzir outros, para produzir uma inflexão de um conteúdo que se tem por absoluto<a href="#_ftn3" id="_ftnref3"><sup>[3]</sup></a>” (Calderón, 2023, p. 109). Acredito que é essa potencialidade da imagem o que nos permite na análise observar que empatia e abstração são atitudes paradoxais e complementares.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-portanto-ao-pintar-procurando-expressar-os-sentimentos-ha-um-afastamento-da-relacao-inconsciente-com-o-objeto-e-assim-torna-se-mais-consciente-a-relacao-com-o-mesmo" style="font-size:18px">Portanto, ao pintar, procurando expressar os sentimentos, há um afastamento da relação inconsciente com o objeto, e assim, torna-se mais consciente a relação com o mesmo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A atitude abstrativa, assim como a empática são conscientes, e o lado inconsciente que as precede é o oposto. É como se a atitude abstrativa fosse no inconsciente uma atitude empática, em relação ao objeto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No caso da abstração, que é uma imagem viva, ela busca tornar o objeto inoperante (2013c § 558). Esse movimento psíquico pode ser intuído através da terceira imagem, na qual a forma mandálica se apresenta, e pequenas linhas de cor lilás (azul mais vermelho) surgem. Supõe-se que aqui há uma tendência tanto para o centro quanto para a harmonização e criação de consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-estas-formas-abstratas-e-de-acordo-com-a-lei-sao-pois-as-unicas-e-melhores-onde-o-homem-pode-descansar-em-fase-da-terrivel-confusao-dada-pela-imagem-do-mundo-worringer-apud-jung-2013c-562" style="font-size:18px">“<em>Estas formas abstratas e de acordo com a lei são, pois, as únicas e melhores onde o homem pode descansar em fase da terrível confusão dada pela imagem do mundo”</em> (Worringer apud Jung 2013c, § 562).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por tratar-se de expressões de origem arquetípicas, também se observaram essas diferenças de atitudes nas culturas do oriente e do ocidente. Referindo-se a essa identificação com o objeto, Jung vai utilizar o termo “<strong>participação mística</strong>” de <strong>Lévy Bruhl</strong> (2013c, § 564) . </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Trata-se dessa carga de libido (energia psíquica) que o objeto recebe originalmente, e que é parte do inconsciente da pessoa tipicamente introvertida. Por isso, Jung vai escrever que “a abstração parece uma função que luta contra a “participação mística” primitiva. Ela o afasta do objeto para destruir os vínculos com ele. Leva, por um lado, à criação de formas artísticas e, por outro, ao conhecimento do objeto” (2013c, § 565).&nbsp; Por outro lado, na estética da empatia, o inconsciente é idêntico ao objeto, e o faz parecer sem vida, por isso a consciência é de atitude empática, necessária para que se possa conhecer a essência do objeto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em suma, ao analisarmos as atitudes tipológicas na expressão estética, abre-se a possibilidade de uma dança de vazão às necessidades psíquicas que as originaram, tanto do ponto de vista pessoal quanto arquetípico. Há um movimento em direção ao centro e concomitantemente na criação de consciência. A ética e a responsabilidade moral podem ser reencontradas através da análise do material,&nbsp; do fluxo criativo das imagens, ou seja, das expressões próprias e naturais da Psique.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Verde Que Te Quero   Uma Análise da Abstração na Psicologia Analítica" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/JQtjPSZgqQo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/virginia-vilhena/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/virginia-vilhena/">Virgínia Vilhena &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">ABT, Theodor. <strong><em>Introduction to Picture Interpretation: According to C.G. Jung</em>.</strong> Zürich: Living Human Heritage Publications, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CALDERÓN, A. S. <strong><em>Imágenes que Resisten</em></strong><em>.</em> Barcelona: La Virreira Centre de La Imatge, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOCKNEY, D. <strong><em>Picasso</em></strong>. Paris: Daniel Lelong Editeur, 1999. ISBN 2- 86882-026-3</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong><em>A natureza da psique</em></strong>. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>A Prática da psicoterapia</strong>. 16 ed. Petrópolis: Vozes 2013b</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong><em>Tipos psicológicos</em></strong>. 7 ed. Petrópolis: Vozes, 2013c</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><em><sup>1</sup></em><em> Tradução livre “Le Cubisme est affaire de perception et de représentation du réel. Pour moi, la plupart des distinctions en art, comme l’abstrait oppose au figurative, me paraissent fausses. Il y a très peu de conflits en art qui selon moi paraissent vraiment tangibles et valent la peine, à l’exception d’un seul : le désir de représenter.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em><sup>2 </sup></em><em>Primum in mundo fecit deus timorem</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em><sup>3</sup></em><em> Tradução livre “Las imágenes tienen un potencial para horadar un punto de vista e introducir otros, para producir una inflexión en un contenido que se tiene por absoluto”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>FONTE DA IMAGEM: própria autora, 2025 &#8211; aquarela em tamanho postal</em></p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1"><sup>[1]</sup></a> Tradução livre “Le Cubisme est affaire de perception et de représentation du réel. Pour moi, la plupart des distinctions en art, comme l’abstrait opposé au figuratif, me paraissent fausses. Il y a très peu de conflits en art qui selon moi paraissent vraiment tangibles et valent la peine, à l’exception d’un seul : le désir de représenter.”</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2"><sup>[2]</sup></a> <em>Primum in mundo fecit deus timorem</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref3" id="_ftn3"><sup>[3]</sup></a> Tradução livre “Las imágenes tienen un potencial para horadar un punto de vista e introducir otros, para producir una inflexión en un contenido que se tiene por absoluto”</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Do Sinal ao Símbolo: Quando o rato conduz</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/do-sinal-ao-simbolo-quando-o-rato-conduz/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Jaqueline Aguiar Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Dec 2025 11:09:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[ampliação de sonho]]></category>
		<category><![CDATA[análise de sonho]]></category>
		<category><![CDATA[cgjung]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[rato]]></category>
		<category><![CDATA[simbologia do rato]]></category>
		<category><![CDATA[sonhar com rato]]></category>
		<category><![CDATA[sonhos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo toma como ponto de partida um símbolo recorrente nos sonhos: o rato, que surge em diversas cenas psíquicas do sonhador. Dada a variedade de associações, o símbolo comporta uma leitura subjetiva — fundada na perspectiva, nas emoções e nas vivências do sonhador — e uma ampliação — sustentada por associações impessoais, universais e arquetípicas. Carl Gustav Jung dedicou-se à análise dos sonhos; sua abordagem consolidou-se na clínica e opera nesses dois caminhos, sem jamais esgotar o símbolo nem reduzi-lo a sinal. Diferenciam-se, assim, a leitura causal (freudiana) da finalista (junguiana), sustentando o papel transformador da experiência simbólica. Ao convocar o imaginário criativo, a análise onírica revela seu poder transformador.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo toma como ponto de partida um símbolo recorrente nos sonhos: o rato, que surge em diversas cenas psíquicas do sonhador. Dada a variedade de associações, o símbolo comporta uma leitura subjetiva — fundada na perspectiva, nas emoções e nas vivências do sonhador — e uma ampliação — sustentada por associações impessoais, universais e arquetípicas. Carl Gustav Jung dedicou-se à análise dos sonhos; sua abordagem consolidou-se na clínica e opera nesses dois caminhos, sem jamais esgotar o símbolo nem reduzi-lo a sinal. Diferenciam-se, assim, a leitura causal (freudiana) da finalista (junguiana), sustentando o papel transformador da experiência simbólica. Ao convocar o imaginário criativo, a análise onírica revela seu poder transformador.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Palavras-Chave</strong>: sonhos; símbolo; análise; rato.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-mundo-onirico-de-um-sonhador-um-personagem-insiste-em-manifestar-se-o-rato" style="font-size:19px">No mundo onírico de um sonhador, um personagem insiste em manifestar-se: o rato.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para além dessa manifestação individual, ele também comparece em imagens culturais, na literatura e nos contos de fadas. Como símbolo, revela ambivalência: para alguns, suscita horror, medo e repulsa; para outros, evoca abundância, prosperidade e fecundidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-dicionario-de-simbolos-aduz-que-o-rato-apresenta-um-simbolismo-ambivalente-podendo-representar-tanto-a-impureza-e-a-destruicao-quanto-a-fecundidade-e-a-astucia" style="font-size:19px">O <strong>Dicionário de Símbolos</strong> aduz que o rato apresenta um simbolismo ambivalente, podendo representar tanto a impureza e a destruição quanto a fecundidade e a astúcia:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Esfomeado, prolífico e noturno como o coelho, o rato poderia, a exemplo desse outro roedor, ser o tema de uma metáfora galante, se não aparecesse também como uma criatura temível, até infernal. É, pois, um símbolo ctônico, que desempenha um papel importante na civilização mediterrânea, desde os tempos pré-helênicos, associado com frequência à serpente* e à toupeira*</p><cite>CHEVALIER; GHEERBRANT, 2021, p. 847</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Neste sentido, Clarice Lispector, no conto ‘Perdoando Deus’, descreve um momento sublime em que a narradora, sentindo-se conectada a Deus, experimenta horror ao deparar-se com essa criatura morta. Após o choque, reflete sobre como o rato também pertence às coisas criadas por Deus, chegando à síntese de que ele faz parte do mundo — e que é impossível amar a Deus amando apenas as criaturas graciosas. (1998, p. 41-45)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O deus Ganesha utiliza como montaria o camundongo Mushika. Na arte maharashtriana, era tradicional representar Mushika como um rato de grandes proporções, enquanto Ganesha aparecia montado sobre ele, como se fosse um cavalo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nessa perspectiva, nos contos de fadas, os ratos desempenham um papel similar. No conto Cinderela, na adaptação francesa de Charles Perrault (PERRAULT, 2021) assumem papel significativo, sendo transformados em cocheiro e cavalos, responsáveis por conduzir a protagonista até o baile.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O rato, como símbolo, também foi objeto de estudo de Freud em O Homem dos Ratos (FREUD, 1909, apud JUNG, 2013b, p. 445). Freud privilegia uma leitura causal em que elementos oníricos remetem a desejos recalcados e conteúdos sexuais/fecais, articulando o rato a conotações fálicas e anais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para o psicanalista, o animal — considerado impuro e que escava as entranhas da terra — possui conotações fálicas e anais, associando-se simbolicamente a noções de riqueza e dinheiro. (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2021, p. 847).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dessa-breve-apresentacao-e-possivel-notar-que-a-imagem-do-rato-evoca-percepcoes-contrastantes-entre-oriente-e-ocidente" style="font-size:19px">Dessa breve apresentação, é possível notar que a imagem do rato evoca percepções contrastantes entre Oriente e Ocidente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Enquanto nas tradições orientais o rato está frequentemente associado à prosperidade, inteligência e abundância, como no simbolismo hindu de Ganesha, onde ele é o veículo do deus da sabedoria. No imaginário ocidental a mesma figura costuma remeter à astúcia, horror, furtividade e degradação, como na expressão popular “rato de praia” ou “rato de porão”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa dualidade revela como um mesmo símbolo pode se manifestar sob polaridades culturais distintas, expressando tanto o aspecto luminoso quanto o sombrio de uma mesma energia simbólica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A presente exposição não pretende transformar este artigo em um glossário da imagem do rato; ao contrário, busca evidenciar as inúmeras variações pelas quais o rato se apresenta como símbolo. Nas palavras de Jung, a assimilação nunca é isto ou aquilo, mas sempre um isto e aquilo (JUNG, 2012, p. 39).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa é a principal característica do símbolo: ser isto e aquilo; carregar um aspecto consciente (isto) e um aspecto inconsciente (aquilo). Há sempre algo a mais — sempre o mistério, o enigma. O símbolo não é feito para ser decifrado; ele mobiliza e impacta. É a partir dessas ampliações que o símbolo possibilita a transformação do sonhador.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No cerne deste artigo está a divergência entre Freud e Jung: o modo como cada um compreende a imagem no sonho. Jung (cf. 2013b, p. 445), em A Vida Simbólica, critica as interpretações reducionistas da psicanálise, que tratam os símbolos como meras expressões de repressões infantis. Apesar de Jung reconhecer o mérito de Freud em não empreender nenhuma interpretação de sonhos sem a participação do próprio sonhador, pois as palavras não tem um sentido, mas muitos (2013a, p. 239).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-o-simbolo-nao-se-esgota-em-significados-pessoais-antes-aponta-para-dimensoes-mais-amplas-da-psique-e-da-experiencia-humana" style="font-size:19px">Para Jung, o símbolo não se esgota em significados pessoais; antes, aponta para dimensões mais amplas da psique e da experiência humana.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Como demonstrado anteriormente, o símbolo do rato comporta várias leituras objetivas, sustentadas por associações impessoais, universais e arquetípicas, mas também possibilita inúmeras associações subjetivas, fundada na perspectiva, nas emoções e nas vivências do sonhador.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Aqui deparamos um fato extremamente importante para a tese de aplicação da análise dos sonhos: o sonho retrata a situação interna do sonhador, cuja verdade e realidade o consciente reluta em aceitar ou não aceita de todo. (…) Este representa a verdade e a realidade interiores exatamente como elas são. </p><cite>JUNG, 2012, p. 25</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Como no exemplo deste artigo, a partir do símbolo do rato é possível perguntar: temos pensamentos, sentimentos ou opiniões “ratos”? Há em nós algo pequeno que corrói? Há também algo ou alguém flexível? Alguém capaz de permanecer submerso sem se afogar, superar obstáculos, deslocar-se por túneis e passagens subterrâneas? Alguém que se torna um condutor?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-2013b-p-231-aduz-que-um-sinal-e-sempre-menos-do-que-a-coisa-que-quer-significar-e-um-simbolo-e-sempre-mais-do-que-podemos-entender-a-primeira-vista" style="font-size:19px">Jung (2013b, p. 231), aduz que um sinal é sempre menos do que a coisa que quer significar, e um símbolo é sempre mais do que podemos entender à primeira vista.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Além disso, é necessário considerar toda a cena psíquica e indagar: em que local ele está inserido? Quem são os outros personagens? Como o rato se apresenta e o que ele faz?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A cena é a imagem, não apenas o rato e não se esgota em significados. Ela é símbolo: expressa algo que não pode ser inteiramente apreendido pela razão — algo inconsciente, transcendente, misterioso. O símbolo não explica; ele sugere, revela e abre sentidos mais profundos.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Por símbolo não entendo uma alegoria ou um mero sinal, mas uma imagem que descreve da melhor maneira possível a natureza do espírito obscuramente pressentida. Um símbolo não define nem explica. Ele aponta para fora de si, para um significado obscuramente pressentido, que escapa ainda à nossa compreensão e não poderia ser expresso adequadamente nas palavras de nossa linguagem atual. </p><cite>JUNG, 2013a, p. 292</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung também ressalta a importância de manter-se fiel à imagem onírica para compreender o sentido de um sonho, sobretudo quando o sonhador encontra dificuldade em realizar as inúmeras associações possíveis. Em A prática da psicoterapia (2012) ele demonstra como trabalhar, na clínica, as imagens dos sonhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ele recomenda investigar com cuidado e pedir ao sonhador que descreva o objeto como se o analista jamais tivesse ouvido aquela palavra (por exemplo, “mesa de pinho”), a fim de estabelecer o contexto vivo da imagem onírica. Jung adverte contra interpretações apressadas: em vez disso, propõe aguardar e acompanhar as associações que emergem do próprio sonhador, explorando a história da imagem até que seu sentido psíquico se revele. (JUNG, 2012, p. 33).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-e-a-principal-distincao-entre-analisar-sonhos-e-interpreta-los-na-interpretacao-o-simbolo-se-reduz-a-sinal" style="font-size:19px">Essa é a principal distinção entre analisar sonhos e interpretá-los. Na interpretação o símbolo se reduz a sinal.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O método, com efeito, baseia-se em apreciar o símbolo, isto é, a imagem onírica ou a fantasia, não mais semioticamente, como sinal, por assim dizer, de processos instintivos elementares, mas simbolicamente, no verdadeiro sentido, entendendo-se &#8220;símbolo&#8221; como o termo que melhor traduz um fato complexo e ainda não claramente apreendido pela consciência. </p><cite>JUNG, 2013a, p. 20</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-analise-o-simbolo-nao-e-decifrado-e-vivido-aprofundado-escutado" style="font-size:19px">Na análise, o símbolo não é decifrado: é vivido, aprofundado, escutado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung foi explícito ao demonstrar sua resistência a reduzir símbolos na prática da análise dos sonhos, ainda que, em termos teóricos, existam símbolos relativamente fixos.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Pode parecer estranho que eu atribua ao conteúdo dos símbolos relativamente fixos um caráter por assim dizer indefinível. Se assim não fosse, não seriam símbolos, mas sim sinais ou sintomas. Como é sabido, a escola de Freud admite a existência de símbolos sexuais fixos &#8211; ou sinais neste caso &#8211; e lhes atribui o conteúdo aparentemente definitivo da sexualidade. (…) Por este motivo, prefiro que o símbolo represente uma grandeza desconhecida, difícil de reconhecer e, em última análise, impossível de definir. </p><cite>JUNG, 2012, p. 40</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-visoes-tao-distintas-quanto-a-essencia-da-analise-dos-sonhos-tornam-patente-as-diferentes-percepcoes-de-cada-um-sobre-o-material-onirico" style="font-size:19px">Visões tão distintas quanto à essência da análise dos sonhos tornam patente as diferentes percepções de cada um sobre o material onírico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung, em diversas passagens de sua obra, é explícito ao comparar como cada autor aborda os sonhos dos pacientes. A apreciação pode dar-se a partir de dois pontos de vista: causal ou finalista.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A concepção causal de Freud parte de um desejo, de uma aspiração recalcada, expressa no sonho. Esse desejo é sempre algo de relativamente simples e elementar, mas pode se dissimular sob múltiplos disfarces. (…) Por este caminho a escola freudiana chegou a ponto de interpretar &#8211; para citarmos um exemplo grosseiro &#8211; quase todos os objetos alongados vistos nos sonhos, como símbolos fálicos, e todos os objetos redondos e ocos, como símbolos femininos.</p><cite>JUNG, 2013a, p. 195</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-carl-gustav-jung-acreditava-que-os-sonhos-nao-manipulam-nem-dissimulam" style="font-size:19px">Carl Gustav Jung acreditava que os sonhos não manipulam nem dissimulam.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para ele, o sonho mostra o que precisa ser visto, contrapondo-se à visão de Freud. Na psicologia analítica, o símbolo onírico possui significado próprio; é pedagógico: ensina, orienta e amplia a consciência do sonhador:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Para este ponto de vista, a riqueza de sentidos reside na diversidade das expressões simbólicas, e não na sua uniformidade de significação. O ponto de vista causal tende, por sua própria natureza, para a uniformidade do sentido, isto é, para a fixação dos significados dos símbolos. O ponto de vista final, pelo contrário, vê nas variações das imagens oníricas a expressão de uma situação psicológica que se modificou. Não reconhece significados fixos dos símbolos, por isto considera as imagens oníricas importantes em si mesmas, tendo cada uma delas sua própria significação, em virtude da qual elas aparecem nos sonhos. Em nosso exemplo, o símbolo, considerado sob o ponto de vista final, possui mais propriamente o valor de uma parábola: não dissimula, ensina.</p><cite>JUNG, 2013a, p. 195</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Em análise, o saber do analista precisa ceder lugar à sabedoria do inconsciente</strong>. Só assim é possível descobrir o que cada imagem realmente quer dizer para o paciente e dar espaço para que o símbolo emerja.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-de-maneira-muito-didatica-discorre-acerca-do-tema" style="font-size:19px">Jung de maneira muito didática discorre acerca do tema:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Podemos formular a questão da seguinte maneira: Para que serve este sonho? Que significado tem e o que deve operar? Estas questões não são arbitrárias, porquanto podem ser aplicadas a qualquer atividade psíquica. Em qualquer circunstância, é possível perguntar-se &#8220;por quê? e &#8220;para quê?&#8221;, pois toda estrutura orgânica é constituída de um complexo sistema de funções com finalidade bem definida e cada uma delas pode decompor-se numa série de fatos individuais, orientados para uma finalidade precisa. </p><cite>JUNG, 2013a, p. 192</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung designou esse fenômeno inconsciente — que se exprime espontaneamente no simbolismo de longas séries de sonhos — como função transcendente (processo de individuação). Daí o aspecto finalista: os símbolos oníricos têm por escopo a evolução da personalidade, por meio da ampliação da consciência. (JUNG, 2013a, p. 244).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O paciente muitas vezes anseia por uma análise de sonhos “aplicável”, que forneça uma resposta imediata, um significado, e não apenas um sentido. O ego quer “fazer algo” com a imagem. Contudo, na psicologia analítica, o objetivo primeiro da análise onírica é a autorregulação da psique. Por isso, a compreensão não se restringe ao intelecto: o contato vivo com as imagens produz efeitos clínicos: transforma e amplia a consciência.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A este respeito, tenho a observar que a compreensão não é um processo exclusivamente intelectual, porque, como nos mostra a experiência, imensas coisas, mesmo incompreendidas, intelectualmente falando, podem influenciar e até mesmo convencer um homem, de modo sumamente eficaz. Basta lembrar, neste sentido, a eficácia dos símbolos religiosos. </p><cite>JUNG, 2013a, p. 194</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Portanto, é esse diálogo com o símbolo, essas vivências com as realidades interiores, que faz o olhar do paciente ampliar, os horizontes alargarem e se enriquecer. Colocando-o em contato com o verdadeiro autoconhecimento (cf. JUNG, 2013a, p. 244).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O trabalho analítico começa quando o analista abandona suas certezas e se dispõe a ouvir o sentido que as coisas têm na alma do paciente, não o que ele próprio acredita saber sobre elas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Do ponto de vista clínico, o rato funciona como parábola: não dissimula, ensina. Quando a escuta analítica se mantém fiel à imagem e à sua ampliação, o símbolo promove autorregulação psíquica, assimila conteúdos do inconsciente para a consciência e favorece mudanças de atitude — aquilo que Jung denominou processo de individuação.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Do Sinal ao Símbolo: Quando o rato conduz" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/GFSIDSWfAHg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/jaqueline-carvalho/">Jaqueline Carvalho – Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/">Ajax Salvador – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário dos símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formar, figuras, cores, números. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021.<br>JUNG, Carl Gustav. Ab-reação, análise dos sonhos e transferência. Petrópolis: Vozes, 2012.<br>JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2013a.<br>JUNG, Carl Gustav. A vida simbólica. Petrópolis: Vozes, 2013b.<br>LISPECTOR, Clarice. Perdoando Deus. In: Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.<br>PERRAULT, Charles. Cinderela / Cendrillon ou la petite pantoufle de verre. Tradução de Elisangela Maria de Souza. Organização de Regina Michelli, Flavio García e Maria Cristina Batalha. 1. ed. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8212;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:22px"><strong>Canais IJEP:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://www.youtube.com/@IJEPJung/videos">Conheça nosso Canal no YouTube: +800 vídeos junguianos!</a></strong></p>



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			</item>
		<item>
		<title>A Floresta: Uma Imagem do Inconsciente</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-floresta-uma-imagem-do-inconsciente/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Beatriz Proença Whitaker de Assumpção]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Apr 2025 21:49:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[floresta]]></category>
		<category><![CDATA[imagem]]></category>
		<category><![CDATA[imagem arquetípica]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente coletivo]]></category>
		<category><![CDATA[Psique]]></category>
		<category><![CDATA[símbolo]]></category>
		<category><![CDATA[sonhos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>RESUMO: Através da apresentação de uma imagem aflorada do inconsciente, o artigo traz uma reflexão sobre aquilo que Jung diz ser a base da estrutura psíquica: a imagem. Exploraremos sua ideia de que todo processo psíquico é uma imagem, uma fantasia. INTRODUÇÃO Existe uma floresta dentro de mim. Ela me habita desde muito cedo, povoa [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>RESUMO: Através da apresentação de uma imagem aflorada do inconsciente, o artigo traz uma reflexão sobre aquilo que Jung diz ser a base da estrutura psíquica: a imagem. Exploraremos sua ideia de que todo processo psíquico é uma imagem, uma fantasia.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao" style="font-size:19px"><strong>INTRODUÇÃO</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Existe uma floresta dentro de mim. Ela me habita desde muito cedo, povoa minha imaginação, me transborda: me atrai para dentro dela. Caminho por entre suas densas árvores. São pinheiros e cedros altos, muito antigos. O ar é úmido e o vento, frio. Apesar de ser uma floresta escura, um tanto misteriosa, os raios de sol conseguem penetrá-la, trazendo a luz dourada para dentro da mata. O chão é forrado por uma folhagem amarelada, recém-caída das árvores.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>O que sinto ao vivenciar essa floresta é perto do indizível: é como estar tomada pelo sagrado, por uma presença divina, pelo mistério da vida</strong>. Mas embora eu ande por ela, a sinta, a cheire, a veja, eu nunca estive realmente neste lugar. Pelo menos não conscientemente. Ela se apresenta como uma imagem nítida, real, mas que vem de uma parte em mim que é desconhecida, profunda e incontrolável.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Tantas vezes andei por aí tentando achá-la do lado de fora: em viagens e por todos os lugares que passei; procurei em parques, bosques, trilhas e matas. Mas nenhuma era semelhante àquela imagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Até que um dia, alguns anos atrás, em uma conversa com a minha mãe sobre talvez viajarmos para conhecer a região da Alemanha em que viveram nossos antepassados, resolvi pesquisar sobre a <strong>Floresta Negra</strong>. E para minha surpresa, lá estava ela, materializada naquelas fotos do Google! A floresta que sempre povoou minha imaginação, aquela que eu sempre via ao fechar os olhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Como é possível eu carregar dentro de mim a imagem de um lugar que eu não conheço, mas que um dia foi o lar dos meus antepassados? De que parte da minha psique essa imagem, tão real para mim, aflora e invade minha consciência?</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-fantasia-o-pensamento-subjetivo" style="font-size:19px"><strong>FANTASIA: O PENSAMENTO SUBJETIVO</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Jung (Cf. 2013b, p. 31-34) descreve, em <em>Símbolos da transformação</em>, os dois tipos diferentes que existem de pensamento: o dirigido e o subjetivo.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O dirigido, ou lógico, é aquele que usamos ao nos expressarmos para alguém; aquele que permite nos comunicarmos e adaptarmos à realidade. Podemos dizer que é a exteriorização de uma ideia formulada.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Por outro lado, possuímos um pensamento subjetivo, movido por razões interiores, que é a fantasia; o pensamento que é mais impulsionado pelo inconsciente que pela consciência. Segundo Jung, essa fantasia pode vir tanto da camada do inconsciente pessoal &#8211; em que estão as recordações infantis, os conflitos pessoais reprimidos e as evocações dolorosas &#8211; quanto pode vir da camada mais profunda da psique: o inconsciente coletivo. É lá que jazem as imagens humanas universais e originais mais antigas: os arquétipos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-jung-afirma-essas-imagens-do-inconsciente-coletivo-correspondem-a-estados-de-espirito-ancestrais" style="font-size:19px">Como Jung afirma, essas imagens do inconsciente coletivo correspondem a estados de espirito ancestrais:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Assim como nosso corpo em muitos órgãos conserva ainda resquícios de antigas funções e estados, também nosso espirito, que parece ter ultrapassado todos os instintos primitivos, traz ainda marcas do desenvolvimento por que passou e repete o arcaico ao menos em sonhos e fantasias. </p><cite>(JUNG, 2013b, p. 49)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">As imagens afloradas do inconsciente coletivo, como aponta Jung (Cf. 2014, p. 91), contêm o resto da vida dos antepassados. Elas carregam uma herança da vida ancestral, que despertam quadros mitológicos. São imagens não preenchidas, já que não foram vividas pessoalmente pelo indivíduo, mas que se formaram a partir da vida, do sofrimento e da alegria dos antepassados, e que agora querem voltar à vida, como experiência e como ação. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-experenciarmos-essas-imagens-arquetipicas-atraves-de-sonhos-fantasias-ou-na-vida-sentimos-uma-forca-numinosa-e-fascinante-abre-se-entao-um-mundo-espiritual-interior-de-cuja-existencia-nem-sequer-suspeitavamos-jung-2014-p-89" style="font-size:19px">Ao experenciarmos essas imagens arquetípicas, através de sonhos, fantasias ou na vida, sentimos uma força numinosa e fascinante, “abre-se então um mundo espiritual interior, de cuja existência nem sequer suspeitávamos” (JUNG, 2014, p. 89).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>AS IMAGENS DA PSIQUE</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Como escreveu Gustavo Barcellos, em <em>Psique e Imagem </em>(Cf. 2012, p. 87), para Jung, a psique do ser humano tem a capacidade espontânea e autônoma de criar imagens ou fantasias: capacidade a qual chamamos de imaginação. A psique é constituída essencialmente de imagens: todo o processo psíquico é uma imagem e um imaginar. A imagem não é algo que se vê com os olhos, mas é, antes de tudo, um modo de ver, uma perspectiva. É o único acesso direto que temos à psique, um meio pelo qual as experiências se tornam possíveis. Ela pode se apresentar através de sonhos, fantasias, na arte e nos mitos. Além disso, não é somente um dado visual: ela pode ser sonora, tátil, pode ser uma emoção ou até mesmo estar no corpo (Cf. BARCELLOS, 2012, p. 95).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Jung afirma que “<strong>a psique é feita de uma série de imagens, no sentido mais amplo do termo; não é, porém, uma justaposição ou uma sucessão, mas uma estrutura riquíssima de sentindo e uma objetivação das atividades vitais, expressa através de imagens</strong>” (JUNG, 2013a, p. 281).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Quanto mais a imagem nos afeta sensualmente, sensorialmente e sensitivamente, mais significado ela tem (Cf. HILLMAN, 2018, p. 121). A psique opera em analogias, ou metáforas, o tempo todo, transportando o significado de uma imagem à outra. Assim, em toda imagem que temos acesso existe uma múltipla relação de significados presentes simultaneamente (Cf. BARCELLOS, 2012, p. 91-97).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-elas-sao-carregadas-de-simbolos-para-alem-da-sua-aparencia-imediata" style="font-size:19px">Elas são carregadas de símbolos para além da sua aparência imediata.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O símbolo é uma expressão indeterminada, ambígua, que indica alguma coisa dificilmente definível, não reconhecida completamente. O “sinal” tem um significado determinado, porque é uma abreviação (convencional) de alguma coisa conhecida ou uma indicação correntemente usada da mesma. Por isso, o símbolo possui numerosas variantes análogas, e quanto mais possuir, tanto mais completa e correta é a imagem que traça de seu objeto. </p><cite>(JUNG, 2013b, p. 152)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isto-e-todo-simbolo-traz-algo-visivel-em-si-e-por-outro-lado-carrega-algo-invisivel-incompreensivel-como-um-significado-oculto" style="font-size:19px">Isto é, todo símbolo traz algo visível em si e, por outro lado, carrega algo invisível, incompreensível, como um significado oculto.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Desse modo, ao simbolizarmos, estamos vendo uma imagem simbolicamente, ou transformamos imagens em símbolos (Cf. HILLMAN, 2018, p. 20). Como disse Hillman, em <em>Uma investigação sobre a imagem</em>, “qualquer evento visto simbolicamente assume uma dimensão; torna-se universalizado, ganha transcendência para além da sua aparência imediata. Sentimo-nos em contato com um grande significado” (HILLMAN, 2018, p.22). Uma imagem sem símbolos é algo visual, que não nos afeta. Mas uma imagem simbólica é carregada de emoção, de energia psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Hillman propõe pensarmos em uma imagem não só como uma cena e um contexto, onde estamos inseridos, mas também como um estado de humor, em que a imagem é que está dentro de nós.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>(&#8230;) a imagem é também algo na qual entro e pela qual sou abraçado. As imagens nos sustentam, e podemos estar nas garras de uma imagem. De fato, elas podem vir de nossas profundezas mais viscerais. </p><cite>(HILLMAN, 2018, p. 68)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>A FLORESTA</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Jung (Cf. 2015, p.73) assume a ideia de que a psique cria a realidade todo dia, através da fantasia, ou seja, a fantasia é inerente à alma humana. Assim, ao lidar com imagens, estamos lidando com a alma. A alma vê e ouve por meio da imaginação. “<strong>Imaginar significa libertar os eventos de sua compreensão literal para uma apreciação mítica</strong>” (HILLMAN, 2022, p.64). </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>A alma é uma atividade imaginativa que, muitas vezes, nos é apresentada através dos sonhos.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Uma imagem arquetípica, como expôs Hillman, é o fundamento da fantasia, através da qual o mundo é imaginado. Ela parece conter um conhecimento anterior e uma direção instintiva a um destino, “como se profética, prognóstica” (HILLMAN, 2022, p.43). Ela não é somente aquilo que se vê, mas através do que se vê. Quando estamos diante de uma imagem, precisamos nos perguntar o que ela mobiliza em nossa alma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-retomando-entao-a-imagem-da-floresta-quais-simbolos-poderiamos-identificar-e-para-qual-caminho-ela-estaria-apontando" style="font-size:19px">Retomando, então, a imagem da floresta, quais símbolos poderíamos identificar e para qual caminho ela estaria apontando?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Em <em>Símbolos da Transformação</em>, Jung (Cf. 2013b, p. 328) afirma que a floresta, por ser composta por árvores, carrega o seu sentido. Árvores são o símbolo da vida, da regeneração, do ciclo da vida e do materno, sendo assim, a floresta simboliza o inconsciente e o instintivo. Caminhar pela floresta é ir para o outro lado, para o lado inconsciente, para o desconhecido. É conectar-se com o sagrado (Cf. CHEVALIER; GHEERBRANT, 2024, p.501-502).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Sigo, então, atenta ao chamado da alma, me aproximando do lado instintivo e arquetípico do desconhecido. Trilhando por essa floresta misteriosa do autoconhecimento, dos sonhos e das fantasias.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📝 Artigo novo: A Floresta: Uma Imagem do Inconsciente" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/gqzCRJ_61-w?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/beatriz-whitaker/"><strong>Beatriz Assumpção </strong>&#8211; Membro Analista em formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/liaromano/"><strong>Lia Romano</strong> &#8211; Membro Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.4">Imagem: <a href="https://br.pinterest.com/pin/43558321390688553/">https://br.pinterest.com/pin/43558321390688553/</a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.4">BARCELLOS, Gustavo. <em>Psique e imagem</em>. Estudos de psicologia. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.4">CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. <em>Dicionário de símbolos</em>. Mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. 39.ed. Rio de janeiro: José Olympio, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.4">HILLMAN, James. <em>Uma investigação sobre a imagem</em>. Petrópolis: Vozes, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.4">______ <em>Psicologia arquetípica</em>. Uma introdução concisa. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.4">JUNG, Carl Gustav. <em>Natureza da psique</em>. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.4">______ <em>Símbolos da transformação. </em>9.ed<em>. </em>Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.4">______ <em>Psicologia do inconsciente. </em>24.ed<em>. </em>Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.4">______ <em>Tipos psicológicos</em>. Edição digital. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.4">______ <em>O homem e seus símbolos</em>. 3.ed. especial. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2016.</p>



<p class="has-luminous-vivid-orange-color has-text-color has-link-color wp-elements-ddcb3d89bd30228e5a845ec0de97b1de wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><em><strong>X Congresso Junguiano IJEP&nbsp;(9, 10, 11 Junho/2025)</strong> &#8211; <strong>Online e Gravado &#8211; 30h Certificação</strong></em></p>



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<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Sonhos: reais ou imaginários?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sonhos-reais-ou-imaginarios/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 May 2021 19:18:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[o que significam os sonhos]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Os&nbsp;sonhos&nbsp;são processos psíquicos estudados por diferentes áreas e principalmente pela psicologia. O ciclo do sono e dos sonhos é interligado. Todos nós sonhamos, porém muitas vezes não conseguimos lembrar do seu conteúdo. De um modo geral, também relacionamos o sonho&nbsp;com a imaginação, o devaneio, o encantamento, a ficção, a utopia e, para muitos sonhar é render-se à ilusão por querer muito alguma coisa. Diante dessas possibilidades, surgem questionamentos se os sonhos são reais ou imaginários.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A vida onírica de Carl Gustav Jung era intensa. Desde cedo, seus sonhos o tocavam muito. Da mesma forma, ampliava os sonhos de seus clientes, que faziam muito sentido para compreensão do psiquismo humano. Em toda obra de Jung, não existe um único livro sobre sonhos, no entanto ele evidencia os sonhos no decorrer da sua teoria. Vale lembrar que pelos sonhos ele se aproximou de Freud e depois foi um dos motivos que gerou desencontro e ruptura com ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Segundo Jung, os sonhos podem ser uma reação inconsciente frente a uma&nbsp;situação consciente, que pode surgir a partir de um&nbsp;conflito, contribuindo para modificar uma atitude: “Os sonhos, afirmo eu, comportam-se como compensações da situação da consciência em determinado momento” (O/C 8/2, 2013, §487).&nbsp;Também pode ser algo que em princípio não tenha&nbsp;uma relação&nbsp;com a situação consciente, porém com o trabalho de ampliação poderá fazer sentido. O sonho tem diferentes funções e as principais são: compensatória, pedagógica e premonitória. Tanto os sonhos que acontecem no período do sono, quanto aqueles que nos atravessam em vigília, também chamados de devaneios ou fantasias, apontam para nossos desejos mais íntimos e, por isso mesmo, precisamos levá-los a sério.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; É importante lembrar que Jung viu o sonho como qualquer outro conteúdo psíquico e fez severas críticas à sua interpretação causal: “Quando se trata de explicar um fato psicológico, é preciso não esquecer que todo fenômeno psicológico deve ser abordado sob um duplo ponto de vista, ou seja, do ponto de vista da causalidade e do ponto de vista da finalidade” (O/C 8/2, 2013, §456). &nbsp;De modo idêntico, ele nos orienta para serem levadas em consideração as recordações do sonhador, pela evidente relação associativa com o conteúdo do sonho: “Para explicar psicologicamente os sonhos, devemos, portanto, primeiramente investigar as experiências precedentes, de que se compõem. Assim, no que diz respeito a cada uma das partes da imagem onírica, devemos remontar até seus antecedentes (O/C 8/2, 2013, §451). É uma forma de entendermos o simbolismo do inconsciente pessoal e coletivo, em forma de arquétipos, por meio dos contos de fadas, da religião, dos mitos, da arte e de todas as manifestações culturais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A mitologia grega contribui no entendimento dos sonhos. Hipnos é considerado o deus do sono, que vivia sempre em paz e silêncio. Ele e sua esposa tiveram quatro filhos: Morfeu, deus dos sonhos bons ou abstratos, Ícelo, deus dos pesadelos, Fântaso, criador dos objetos inanimados, monstros, quimeras e devaneios e Fantasia, deusa do delírio e da fantasia. O mais conhecido é&nbsp;Morfeu, um deus alado, que tem a habilidade de assumir qualquer forma humana e aparecer nos sonhos das pessoas.&nbsp; A frase “vá para os braços de Morfeu”, sugere ter um sono tranquilo, com bons sonhos. Ao mesmo tempo, a história registra que o pai Hipnos e o filho Morfeu, simbolizam avanços para o campo da saúde. Vindo ao encontro, em 1806, o farmacêutico alemão Friedrich Sertüner desenvolveu a alcaloide de ópio, conhecida por morfina, inspirado em Morfeu. Mais tarde, o médico James Braid, em 1843, batizou como hypnotism (hipnotismo) sua técnica de indução de um transe semelhante ao sono.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A nossa cultura reproduz no seu contexto conhecimentos em forma de ditos populares ou provérbios, acerca do ato de sonhar, retratando diferentes realidades. Algumas pessoas são otimistas e afirmam que precisamos “sonhar acordados” ou “sonhar de olhos abertos” para mantermos acesa a chama da esperança diante das dificuldades, até porque “sonhar não custa nada”. Outras, são mais ponderadas, afirmando que “visão sem ação é&nbsp;sonho” e “uma ideia não executada, transforma-se em&nbsp;sonho”. Há aquelas que alertam sobre as melancolias da vida: “homem só envelhece quando os lamentos substituem seus&nbsp;sonhos”. De forma idêntica, algumas pessoas ironizam situações, talvez com a intenção de tornar a vida mais leve: “o ladrão tem trabalho leve e&nbsp;sonhos&nbsp;ruins” e “o amor é um&nbsp;sonho, e o casamento um despertador”. Isso nos leva a pensar no contexto atual: roubos e sonhos desfeitos estão tão naturalizados!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os poetas, por sua vez, afirmam em seus versos que “vivemos enquanto tivermos sonhos”. Isso se confirma com Clarice Lispector, que não tinha medida para dizer o que pensava: “Sonhe com o que você quiser. Vá para onde você queira ir. Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos”. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. Enquanto isso, Fernando Pessoa nos convida para refletirmos com seus diferentes olhares: “Dorme, dorme. Dorme, vaga em teu sorrir. Sonho-te tão atento que o sonho é encantamento e eu sonho sem sentir”. Segundo o poeta, sonhar é uma forma de nos tornarmos mais leves: “De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos”. Ele também nos incentiva para sonharmos: “Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso”. E Carlos Drummond de Andrade nos deixou falas que exaltam o sonhar e amar: “Que nunca te arrependas pelo amor dado, faz parte da vida arriscar-se por um sonho&#8230; Porque se não fosse assim, nunca teríamos sonhado”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os sonhos nos acompanham há muito tempo. Independente de credo, eles também envolvem o campo da espiritualidade. Na Bíblia, por exemplo, os sonhos comparecem com o sentido de Deus se manifestar e conversar com seu povo. Existem relatos que naquela época várias pessoas tiveram sonhos de Deus, com planos para o futuro, como podemos constatar em Mateus 1:20-21, ao aparecer em sonho para José um anjo do Senhor, que disse: &#8220;José, filho de Davi, não tema receber Maria como sua esposa, pois o que nela foi gerado procede do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e você deverá dar-lhe o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados.&#8221;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Algumas vozes divinas, como a de Maria Bethânia, cantam o que denominamos de sonhar: “Sonho meu, sonho meu, vá buscar quem mora longe, sonho meu. Vá mostrar essa saudade, sonho meu, com a sua liberdade, sonho meu (&#8230;) Sinto o canto da noite na boca do vento, fazer a dança das flores no meu pensamento”. Em Sonho Impossível, ela nos fala de persistência: “Sonhar mais um sonho impossível, lutar quando é fácil ceder. Vencer o inimigo invencível, negar quando a regra é vender. Sofrer a tortura implacável, romper a incabível prisão (&#8230;) E assim, seja lá como for, vai ter fim a infinita aflição. E o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão”. Sonhar nos faz dançar, flutuar e imaginar&#8230; Agora Eu Vou Sonhar, com Titãs, convida-nos a mergulhar no sonho: “Agora eu vou sonhar, eu vou sonhar mais alto. E cada sonho meu, há de tornar mais leve o salto. Agora eu vou sonhar, eu vou sonhar mais livre. E vou pedir a Deus que o sonho não me escravize (&#8230;) Agora eu vou sonhar, eu vou sonhar maior. E cada sonho meu, há de criar-se ao meu redor.” Raul Seixas, em Prelúdio, convoca-nos para sonharmos juntos: “Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade”. O que será que ele, com seu espírito de profundeza, estava sonhando de olhos abertos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;As teorias e as experiências de consultório nos mostram o quanto é importante prestarmos atenção nos sonhos, tanto os sonhados ao dormirmos, quanto os sonhados acordados. Ampliar esses sonhos que ocorrem durante o sono não é tarefa fácil, pois envolve trazer o inconsciente à luz da consciência, pela associação, ampliação e contextualização, que nos possibilita ressignificar velhos padrões. Sonhar de olhos abertos faz parte da vida, mas não podemos perder o foco no tempo presente. Viver de forma harmoniosa o presente é o que temos de mais precioso. Gonzaguinha, deixa-nos a lição, com a canção Nunca Pare de Sonhar: “Não se desespere, nem pare de sonhar. Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs, deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar. Fé na vida, fé no homem, fé no que virá. Nós podemos tudo, nós podemos mais, vamos lá fazer o que será”!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Claci Maria Strieder, Analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem:&nbsp;Morfeu e&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Dris_(mitologia)">Íris</a>&nbsp;&#8211;&nbsp;Por&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre-Narcisse_Gu%C3%A9rin">Pierre-Narcisse Guérin</a>, 1811.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leituras de apoio:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ANDRADE, Carlos Drummond.&nbsp;<em>Amar se aprende amando</em>. São Paulo:&nbsp;<a href="https://www.companhiadasletras.com.br/">Companhia das Letras</a>, 2018.GRIMAL, Pierre. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.&nbsp; &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>JUNG, C. G. &nbsp;</em><em>A Natureza da Psique</em>. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>___________ Seminário sobre Sonhos de Criança</em>. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PESSOA, Fernando<em>. Livro do desassossego</em>. São Paulo: Brasiliense, 1989.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">https://www.letras.mus.br&nbsp;› MPB › Gonzaguinha&nbsp;https://www.pensador.com › sonho_poema_de_clarice_lispector</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Claci Maria Strieder&nbsp;</em></strong></h4>
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		<title>Sonhos projetivos: uma ponte para o futuro</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sonhos-projetivos-uma-ponte-para-o-futuro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Monica Martinez]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 19 Jun 2019 12:38:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sonhos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Para o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), o objetivo do tratamento de neuroses seria o de estalecer a harmonia possível entre o consciente e o inconsciente. O estudo dos sonhos e a consequente proposição de um método para emprego na prática terapêutica foi uma tarefa à qual Jung se dedicou ativamente ao longo da [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Para o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), o objetivo do tratamento de neuroses seria o de estalecer a harmonia possível entre o consciente e o inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O estudo dos sonhos e a consequente proposição de um método para emprego na prática terapêutica foi uma tarefa à qual Jung se dedicou ativamente ao longo da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é uma prática simples, nem a ser feita de forma leviana. Em um texto publicado na revista&nbsp;Ciba&nbsp;em 1945 &#8211; portanto quando ele tinha já tinha 70 anos &#8211; Jung dizia:</p>



<p class="wp-block-paragraph">A compreensão do sonho, de fato, é um trabalho tão difícil, que há muito tempo eu estabeleci como regra, quando alguém me conta um sonho e pede minha opinião, dizer, antes do mais, a mim mesmo: `Não tenho a mínima ideia do que este sonho quer significar. Após esta constatação, posso me entregar ao trabalho da análise propriamente dita do sonho&nbsp;(JUNG, 2012a, § 533).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung propunha quatro funções para os sonhos, dividindo-as nas seguintes categorias: compensadores, redutores ou retrospectivos, reativos e prospectivos&nbsp;(JUNG, 2012a, § 499).</p>



<p class="wp-block-paragraph">1)&nbsp;&nbsp;Sonhos compensadores:&nbsp;o psiquiatra suíço dizia que os sonhos &#8220;comportam-se como compensações da situação da consciência em determinado momento&#8221;&nbsp;(JUNG, 2012a, § 487). Pois isso, para analisá-los &nbsp;corretamente, é preciso &#8220;possuir um conhecimento acurado da consciência neste preciso momento, porque o sonho encerra o seu complemento inconsciente, ou seja, o material constelado com o estado momentâneo da consciência&#8221;&nbsp;(JUNG, 2012a, § 477).</p>



<p class="wp-block-paragraph">2)&nbsp;&nbsp;Sonhos redutivos ou retrospectivos:&nbsp;&nbsp;Jung entendia que certos sonhos tentam autorregular a psique de indivíduos &#8220;cuja atitude consciente e esforço de adaptação ultrapassam as capacidades individuais, ou seja, parecem melhores e mais valiosos do que são na realidade&#8221;&nbsp;(JUNG, 2012a, § 496). Ele tenderia &#8220;a desintegrar, a dissolver, depreciar, e mesmo destruir e demolir&#8221;&nbsp;(JUNG, 2012a, § 496). A função negativamente compensadora, também chamada de função redutora do inconsciente, teria um efeito salutar, pois afetaria positivamente apenas a atitude, não a personalidade do sonhador. Em outras palavras, &#8220;baixaria sua bola&#8221;, desinflando o ego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">3)&nbsp;&nbsp;Sonhos reativos:&nbsp;Jung alerta que esse tipo de sonho, que parece ser apenas a reprodução de uma experiência consciente carregada de afeto, demanda a investigação do &#8220;aspecto simbólico que escapou ao sujeito e que é o único fator que provoca a reprodução onírica desta experiência&#8221;&nbsp;(JUNG, 2012a, § 499). Ele os diferencia dos sonhos de vítimas de guerras, por exemplo, que&nbsp; desencadeiam &#8220;muitos sonhos reativos puros nos quais o trauma é o fator mais ou menos determinante&#8221;&nbsp;(JUNG, 2012a, § 499). &#8220;A análise (&#8230;) pode resolver a questão porque, nesse caso, a reprodução da cena dramática se interrompe se a interpretação é correta, ao passo que a reprodução reativa não é afetada pela análise do sonho&#8221;&nbsp;(JUNG, 2012a, § 501).</p>



<p class="wp-block-paragraph">4)&nbsp;&nbsp;Sonhos prospetivos:&nbsp;segundo Jung, a função prospectiva sugere uma antecipação, oriunda do inconsciente, de atividades conscientes futuras. Não raro, constitui um esboço de solução de um conflito. &#8220;Seria injustificado qualificá-los como proféticos, pois, no fundo, não são mais proféticos do que um prognóstico médico ou metereológico&#8221;, aponta Jung&nbsp;(JUNG, 2012a, § 493). Seriam uma combinação de possibilidades que podem ou não concordar, parcial ou integralmente, com o curso real que os acontecimentos tomarão. Como teriam o potencial de combinar percepções, pensamentos e sentimentos, bem como vestígios subliminares da memória que não se encontram mais na consciência, do ponto de vista de prognóstico &#8220;o sonho se encontra muitas vezes em situação mais favorável do que a consciência&nbsp;(JUNG, 2012a, § 493).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apresentado este sistema analítico, vamos agora comentar três sonhos que focam na função prospectiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro deles, que usaremos aqui como exemplo, foi relatado pelo próprio psiquiatra no artigo de 1945&nbsp;(JUNG, 2012b § 542):</p>



<p class="wp-block-paragraph">Certa vez tratei um jovem que me contou, na anamnese, que estava noivo, e de uma maneira muito feliz, de uma jovem de &#8220;boa família&#8221;. Nos sonhos, a personagem desta jovem assumia muitas vezes um aspecto pouco recomendável. Do exame do contexto deduziu-se que o inconsciente do paciente associava à figura da noiva toda espécie de histórias escandalosas, provenientes de outra fonte, o que lhe parecia absolutamente incompreensível e a mim naturalmente não menos também. A repetição constante destas combinações me levou, contudo, a concluir que existia no rapaz, apesar de sua resistência consciente, uma tendência inconsciente em fazer sua noiva aparecer &nbsp;sob essa luz equívoca. Ele me disse que, se tal coisa fosse verdadeira, isto representaria para ele um autêntico desastre. Sua neurose se manifestara algum tempo depois da festa do noivado. Embora me parecessem inconcebíveis e sem sentido, as suspeitas a respeito da sua noiva me pareciam constituir um ponto de importância tão capital, que eu lhe aconselhei a fazer algumas investigações a respeito. As pesquisas mostraram que as suspeitas eram fundadas e o &#8220;choque&#8221; causado pela descoberta desagradável não só não abateu o paciente, mas o curou de sua neurose e também de sua noiva.&nbsp;(JUNG, 2012b § 542).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung, os sonhos podem apresentar três possibilidades. A primeira é a compensatória: &#8220;Se a atitude consciente a respeito de uma situação dada da vida é fortemente unilateral, o sonho adota um partido oposto&#8221;&nbsp;(JUNG, 2012b § 546), o que parece ter sido o caso da noiva de &#8220;boa família&#8221;, como se dizia na época. A segunda possibilidade é a complementar, quando &#8220;a consciência guarda uma posição que se aproxima mais ou menos do centro, o sonho se contenta em exprimir variantes&nbsp;(JUNG, 2012b § 546). Já se a atitude consciente é adequada,&#8221;o sonho coincide com esta atitude e lhe sublinha assim as tendências, sem perder a autonomia que lhe é própria&#8221;&nbsp;(JUNG, 2012b § 546).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um segundo exemplo aponta a natureza de alerta dos sonhos prospectivos. Certa vez um médico amigo de Jung, fã do alpinismo, caçoou dele, questionando se podia ajudá-lo a analisar um &#8220;sonho idiota&#8221;:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu estava escalando uma montanha muito alta, por um lado íngreme, coberto de neve. Vou subindo cada vez mais alto. O tempo está maravilhoso. Quanto mais subo, mais me sinto bem. Tenho a sensação de que seria bom se eu pudesse continuar subindo assim, eternamente. Chegando ao pico, uma sensação de felicidade e arrebatamento me invade; esta sensação é tão forte, que tenho a impressão de que poderia subir ainda mais e entrar no espaço cósmico. E é o que faço. Subo no ar. Acordo em estado de êxtase&nbsp;(JUNG, 2012b § 323).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como sabia que nada faria o amigo abandonar o alpinismo, Jung pediu-lhe que ao menos deixasse de escalar sozinho. O amigo riu do conselho. &#8220;Nunca mais o vi. Dois meses depois, sofreu o primeiro acidente&#8221;&nbsp;(JUNG, 2012b, § 324). Estava desacompanhado, foi soterrado por uma avalanche e salvo no último minuto por uma patrulha militar, que casualmente se encontrava por perto. Três meses depois, o acidente foi fatal. Acompanhado apenas de um amigo mais jovem, o médico alpinista estava já descendo da montanha quando pisou em falso, caiu sobre a cabeça do amigo que o esperava abaixo e ambos rolaram juntos para o precipício. &#8220;A cena foi presenciada por um guia que se encontrava mais embaixo. Foi este o êxtase em sua plenitude&#8221;&nbsp;(JUNG, 2012b, § 325).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O terceiro exemplo vem de um sonho do próprio Jung. Foi descrito em artigo escrito pela Profa. Dra. Lilian Wurzba, docente do Ijep, a partir de relatos na introducão feita por Jung ao&nbsp;Livro Vermelho&nbsp;(JUNG, 2010), bem como em&nbsp;Memórias, Sonhos e Reflexões&nbsp;(JUNG; JAFÉ, 1989). &#8220;Depois das visões que tivera no final de 1913 e dos sonhos no início de 1914, sem qualquer sucesso em interpretá-los, Jung chegou a pensar que estivesse com o `espírito doente`&#8221; (WURZBA, 2018). &#8220;Como psiquiatra que era, pensou estar `a caminho de ‘fazer uma esquizofrenia`, como revelou a Mircea Eliade em uma entrevista para a revista&nbsp;Combat, em 1952&#8221;:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu estava justamente nesta época preparando uma conferência sobre esquizofrenia, para ser lida num congresso em Aberdeen, e não me cansava de repetir para mim mesmo: &#8220;estarei falando de mim mesmo! Muito provavelmente, enlouquecerei depois de ler a conferência&#8221;. O congresso teria lugar em julho de 1914 &#8211; exatamente no período em que, nos meus três sonhos, via-me viajando pelos mares do sul. A 31 de julho, imediatamente após a minha conferência, soube pelos jornais que eclodira a guerra. Finalmente, entendi tudo. E quando desembarquei na Holanda, no dia seguinte, ninguém era mais feliz do que eu. Agora tinha a certeza de que nenhuma esquizofrenia me ameaçava. Compreendi que os meus sonhos e as minhas visões me chegavam do subsolo do inconsciente coletivo. O que me restava agora fazer era aprofundar e validar essa descoberta. E isso é o que estou tentando fazer há 40 anos (McGuirre; Hull apud WURZBA, 2018, p. 213-214).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O interessante neste sonho registrado na entrevista&nbsp;(MCGUIRRE; HULL, 1982, p. 213-214)&nbsp;é que ele traz a tentativa de explanação que Jung da função prospectiva dos sonhos ligada à noção de inconsciente pessoal e coletivo. Nos dois primeiros casos, podemos deduzir que se tratavam de sonhos ligados à esfera pessoal, que está mais próxima da consciência. Já o sonho de Jung certamente estava mais ligado ao inconsciente coletivo, visto que provêm de uma camada mais profunda. Daí a dificuldade para compreendê-los, visto que apenas o material associativo do sonhador, baseado em relações pessoais ou experiências de vida, são escassos para prognosticar um conflito como a Primeira Guerra Mundial, que ceifaria vinte milhões de vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seja qual for a possibilidade que pareça mais sensata, nunca é demais lembrar o alerta de Jung, de que &#8220;toda interpretação é uma mera hipótese, apenas uma tentativa de ler um texto desconhecido&#8221;&nbsp;(JUNG, 2012b § 322). Ainda assim, também de acordo com Jung, convém lembrar que toda tentativa é válida. &#8220;Por isso é raro que um indivíduo que tenha se submetido ao fatigoso trabalho de análise de sonhos com a competente assistência de um especialista (&#8230;) não veja seu horizonte se alargar e enriquecer&#8221;&nbsp;(JUNG, 2012a § 549).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;O livro vermelho: Liber Novus. 1. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Da essência dos sonhos. In:&nbsp;A natureza da psique. 9. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012a. p. 235-253.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. A aplicação prática da análise dos sonhos. In:&nbsp;Ab-reação, análise dos sonhos e transferência (OC 16/2). 9. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012b. p. § 294-352.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.; JAFÉ, A.&nbsp;Memórias, sonhos e reflexões. 11. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MCGUIRRE, W.; HULL, R. F. C.&nbsp;C.G.Jung: entrevistas e encontros. São Paulo: Cultrix, 1982.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dra. Monica Martinez, analista em formação do IJEP &#8211; Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa, especialista em Psicologia Junguiana, jornalista, Atende na Vila Madalena, zona Oeste de São Paulo. E-mail:&nbsp;<a href="mailto:analisejunguianasp@gmail.com">analisejunguianasp@gmail.com</a></p>



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