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	<title>Arquivos alquimia - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos alquimia - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O Sol, a Lua e a Depressão</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-sol-a-lua-e-a-depressao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristina Lunardi Munaretti]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 28 Mar 2026 15:15:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Depressão]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
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		<category><![CDATA[depressão]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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		<category><![CDATA[sol]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este ensaio propõe, à luz da psicologia analítica e da alquimia, uma reflexão sobre os princípios solar e lunar em relação à psique feminina e masculina. No nível individual, a depressão pode ser compreendida simbolicamente como movimento de descida e possibilidade de coniunctio entre consciente e inconsciente. No nível coletivo, a regeneração da Terra pode ser pensada a partir de um reflexo do equilíbrio da psique individual, que surge a partir do símbolo – resultado da tensão criativa e da união dos opostos.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Este ensaio propõe, à luz da psicologia analítica e da alquimia, uma reflexão sobre os princípios solar e lunar em relação à psique feminina e masculina. No nível individual, a depressão pode ser compreendida simbolicamente como movimento de descida e possibilidade de coniunctio entre consciente e inconsciente. No nível coletivo, a regeneração da Terra pode ser pensada a partir de um reflexo do equilíbrio da psique individual, que surge a partir do símbolo – resultado da tensão criativa e da união dos opostos.</p>



<p style="font-size:18px">Este ensaio foi inicialmente escrito em outubro de 2025, quando ainda não sabíamos qual seria o tema do congresso do Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa (IJEP) de 2026; coincidentemente &#8211; ou não &#8211; este texto conversa com a proposta do congresso que é “<strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia" type="link" id="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia">Ecologia alquímica &#8211; transmutar a Consciência para Regenerar a Terra</a></strong>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-um-tanto-comum-as-pessoas-se-queixarem-da-falta-de-sol" style="font-size:18px">É um tanto comum as pessoas se queixarem da falta de sol.</h2>



<p style="font-size:18px">Moro na região Sul do Brasil e no inverno de 2025 tivemos muitos dias sem sol.  Quando a primavera se aproxima por aqui o que mais escuto em meu consultório é “<strong><em>Que bom que o sol voltou!</em></strong>” ou qualquer outra expressão que remeta a isso. Nunca tive até hoje sequer um cliente que chegasse e me dissesse: “<em><strong>Preciso de lua!</strong></em>” ou “<strong><em>Estou sentindo falta da lua</em></strong>”.</p>



<p style="font-size:18px">O sol, com toda sua luz e calor, enquanto símbolo, pode representar o yang, o <strong>masculino</strong>, a ação; a lua, com seu brilho noturno, por sua vez, pode representar o yin, o <strong>feminino</strong>, o receptivo. No LIVRO DOS SÍMBOLOS (2012, p.22) temos a seguinte descrição referente ao sol:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">Para os olhos dos adoradores do sol ao longo dos milênios, os raios solares parecem transferir propriedades mágicas de fertilidade, criatividade, profecia, cura e até (para os alquimistas) uma potencialidade viva para a completude que reside em cada indivíduo.</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">E com relação à lua:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">(&#8230;) a lua preside à concepção, gestação e nascimento, aos ciclos agrícolas da semeadura e da colheita, a toda a transformação do ser. É a dona da humidade; dos líquidos da vida incluindo a seiva, a saliva, o sémen, o sangue menstrual, o néctar e os venenos de plantas e animais. Rege os vapores húmidos que promovem o apodrecimento, a humidade que cai como chuva ou orvalho, o fluxo e refluxo de todas as massas de água; o resultado favorável ou desfavorável de toda navegação. (O LIVRO DOS SÍMBOLOS, 2012, p.26)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-estas-definicoes-nos-mostram-que-os-dois-astros-apresentam-qualidades-complementares-e-nao-e-possivel-viver-sem-nenhum-deles-embora-o-pequeno-satelite-terrestre-tenha-suas-funcoes-e-propriedades-minimizadas-e-desvalorizadas-por-alguns-ou-muitos-individuos" style="font-size:18px">Estas definições nos mostram que os dois astros apresentam qualidades complementares, e não é possível viver sem nenhum deles, embora o pequeno satélite terrestre tenha suas funções e propriedades minimizadas e desvalorizadas por alguns – ou muitos &#8211; indivíduos.</h2>



<p style="font-size:18px">O sol é a luz que ilumina, mas que também ofusca o que está nas sombras. Excesso de luz solar pode cegar não somente os olhos físicos, mas também a psique, pode queimar a pele, tornar a terra infértil. A alternância entre luz solar e seu reflexo em meio à escuridão através da luz lunar, é uma das coisas que faz a vida existir da maneira como a conhecemos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-como-pensar-a-psique-em-termos-de-solar-e-lunar-carl-gustav-jung-fala-sobre-as-consciencias-feminina-e-masculina-relacionando-as-ao-sol-e-a-lua-da-seguinte-forma" style="font-size:18px">Mas como pensar a psique em termos de solar e lunar? Carl Gustav Jung fala sobre as consciências feminina e masculina, relacionando-as ao sol e à lua da seguinte forma:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">Declarações feitas por homens a respeito da psicologia feminina por princípio, são sempre prejudicadas pelo fato de que sempre se verifica a mais forte projeção da feminilidade inconsciente justamente onde mais necessário se faz o julgamento crítico, isto é, aí onde o homem está envolvido emocionalmente. Luna, tal qual a alquimia a descreve por meio de metáforas, é primeiramente uma imagem especular da feminilidade inconsciente do homem; entretanto, ela é o princípio da psique feminina, no mesmo sentido em que o Sol o é da psique masculina. Essa caracterização salta aos olhos principalmente na concepção astrológica do Sol e da Lua, para nem se falar da pressuposição mitológica, que é eterna. Não podemos certamente imaginar a alquimia sem a influência dessa sua irmã mais velha, a astrologia. Na avaliação psicológica das luminárias, é preciso considerar as declarações desses três domínios. Então, se Luna caracteriza a psique feminina do mesmo modo que o Sol a masculina, nesse caso o Sol como consciência seria unicamente um assunto masculino, o que evidentemente não é possível, pois a mulher também possui consciência. Como até agora na parte apresentada identificamos o Sol como consciência e a Luna como o inconsciente, seríamos agora forçados a concluir que a mulher não pode ter consciência.</p>



<p style="font-size:18px">O erro da nossa formulação consiste primeiro em termos colocada a Lua simplesmente em lugar do inconsciente, quando isso vale sobretudo para o inconsciente do homem; segundo, em termos deixado de considerar que a Lua não é apenas sombria, quando ela é também um corpo que fornece luz ou, em outras palavras, que ela também pode representar a consciência. Este último é então o caso das mulheres: a consciência da mulher em certo sentido tem mais caráter de Lua do que de Sol. Sua “luz” é a luz mais suave da Lua, que antes une do que distingue. Ela não faz, à maneira da luz forte e deslumbrante do Sol, com que os objetos deste mundo, os quais não devem ser confundidos entre si, apareçam naquela forma inexoravelmente distinta e separada, mas reúne muito mais o que está perto e o que está longe em uma aparência enganadora, transforma por suas artes mágicas o pequeno no grande e o elevado no baixo, dilui as cores em um azulado crepuscular e reúne a paisagem noturna em uma unidade jamais suspeita. (JUNG, 2012, §216-7)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-a-psique-feminina-c-g-jung-2012-223-ainda-nos-diz" style="font-size:18px">Sobre a psique feminina, C. G. Jung (2012, §223) ainda nos diz:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">O Sol, que personifica o inconsciente feminino, não é o Sol diurno, mas algo correspondente ao Sol niger. (&#8230;) O sol inconsciente da mulher, ainda que escuro não é ἀνθραϰώδης (preto como carvão), como se diz da Lua, mas é antes como que um eclipse solar permanente, que raríssimas vezes é total. A consciência feminina normalmente está provida tanto de escuridão como de luz, de modo a não poder ser inteiramente clara, como também seu inconsciente não pode ser completamente escuro. Entretanto, onde as fases lunares forem suprimidas por causa de uma influência solar demasiada forte, aí tanto assume a consciência feminina um caráter solar geralmente claro, como também, em oposição, o inconsciente se torna cada vez mais preto – niger nigrus nigro – e esses dois estados se tornam com o tempo insuportáveis para ambas as partes.</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cabe-assim-ressaltar-que-homens-e-mulheres-possuem-tanto-aspectos-solares-quanto-lunares-em-sua-psique-ainda-que-entendidos-em-termos-estruturais-de-forma-diferenciada" style="font-size:18px">Cabe assim, ressaltar que homens e mulheres possuem tanto aspectos solares quanto lunares em sua psique, ainda que entendidos em termos estruturais de forma diferenciada.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">Sobre isto a alquimia tem muita coisa para dizer, que será de tanto maior interesse para nós, por sabermos que a Lua é símbolo muito apreciado por certos aspectos do inconsciente – isso, contudo, vale apenas para o homem. Para a mulher a Lua corresponde à consciência, e o Sol ao inconsciente. Isto está relacionado com o tipo sexual oposto no inconsciente (anima para o homem, animus para a mulher!). (JUNG, 2012, §154)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Pode-se dizer que vivemos em uma sociedade que preza pelo valores solares e nega, negligencia ou reprime o inconsciente lunar no homem ou a consciência lunar na mulher, é excluir uma parte de quem somos. Não podemos esquecer que “no homem é a Anima lunar, na mulher é o Animus solar” (JUNG, 2012, §219).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-negar-uma-parte-de-nossa-psique-pode-nos-mutilar-e-trazer-serias-consequencias-tanto-a-nivel-individual-quanto-coletivo" style="font-size:18px">Negar uma parte de nossa psique pode nos mutilar e trazer sérias consequências tanto a nível individual quanto coletivo.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">Nossa vida civilizada exige uma atividade concentrada e dirigida da consciência, acarretando, deste modo, o risco de um considerável distanciamento do inconsciente. Quanto mais capazes formos de nos afastar do inconsciente por um funcionamento dirigido, tanto maior é a possibilidade de surgir uma forte contraposição, a qual, quando irrompe, pode ter consequências desagradáveis. (JUNG, 2013a, §139)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Como uma das consequências dessa repressão ou negação de aspectos da psique podemos ter aquilo que hoje a sociedade conhece como o diagnóstico patológico de depressão, que pode ser entendido como uma tentativa da totalidade psíquica (Self) de reconectar o indivíduo que vive afastado do que sua alma deseja e precisa. Muitos desses indivíduos aprenderam a valorizar apenas a sua consciência, e até certo momento da vida isto se faz necessário &#8211; construir, crescer, adquirir bens&#8230;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-partir-de-certo-momento-no-entanto-isto-pode-passar-a-perder-o-sentido-e-se-a-pessoa-nao-se-permitir-escutar-o-chamado-de-sua-alma-este-pode-se-impor-atraves-de-sintomas-fisicos-ou-psiquicos-dentre-os-quais-aquilo-que-foi-convencionado-chamar-de-depressao" style="font-size:18px">A partir de certo momento, no entanto, isto pode passar a perder o sentido. E se a pessoa não se permitir escutar o chamado de sua alma, este pode se impor, através de sintomas físicos ou psíquicos, dentre os quais aquilo que foi convencionado chamar de depressão.</h2>



<p style="font-size:18px">Dentre os sintomas para Transtorno Depressivo Maior, de acordo com o DSM-5-TR (ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA, 2023, p.183) um dos seguintes sintomas deve estar necessariamente presente: humor deprimido ou anedonia – sendo este último o termo técnico para falta de interesse ou prazer.<a href="#_ftn1" id="_ftnref1">[1]</a></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">A unilateralidade é uma característica inevitável, porque necessária, do processo dirigido, pois direção implica unilateralidade. A unilateralidade é, ao mesmo tempo, uma vantagem e um inconveniente, mesmo quando parece não haver um inconveniente exteriormente reconhecível, existe, contudo, sempre uma contraposição igualmente pronunciada no inconsciente, a não ser que se trata absolutamente de um caso ideal em que todas as componentes psíquicas tendem, sem exceção, para uma só e mesma direção. É um caso cuja possibilidade não pode ser negada em teoria, mas na prática raramente acontecerá. A contraposição é inócua, enquanto não contiver um valor energético maior. Mas se a tensão dos opostos aumenta, em consequência de uma unilateralidade demasiado grande, a tendência oposta irrompe na consciência, e isto quase sempre precisamente no momento em que é mais importante manter uma direção consciente. (JUNG, 2013a, §138)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Indivíduos com sintomas depressivos podem ter, por exemplo, insônia ou hipersonia, este último seria o aumento da necessidade de sono. Nas duas situações podemos pensar simbolicamente que esta é uma tentativa de levar a pessoa ao inconsciente; seja diretamente através do aumento do sono levando o indivíduo ao mundo onírico; seja indiretamente, através da insônia, que muitas vezes faz com que o sujeito fique ruminando pensamentos &#8211; nesta situação não esperamos encontrar o indivíduo achando saídas alegres e entusiastas para suas questões, mas sim pensamentos de autocrítica, desvalor, culpa. Em casos mais graves pode haver pensamentos de morte, o que pode representar o retorno ao inconsciente. &nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-etimologicamente-a-palavra-depressao-vem-do-latim-deprimere-que-significa-pressionar-para-baixo" style="font-size:18px">Etimologicamente a palavra depressão vem do latim <em>deprimere</em>, que significa “pressionar para baixo”.</h2>



<p style="font-size:18px">O prefixo “de” pode ter o significado de separação/negação ou de movimento descendente. E realmente, os sintomas relativos a este quadro são caracterizados por uma descida, a necessidade de uma descida – a <em>katábasis</em>. C. G. Jung nos diz que a “depressão é sempre uma condição introvertida” (JUNG, 2013b, §63). E é assim, muitas vezes, quando estamos no fundo, mergulhados em nós mesmos, que surge o criativo. Se estamos sempre felizes, sem pressão nenhuma, mudar para quê? A tensão, em doses moderadas, nos move. Suportar a tensão, a angústia, é que pode fazer expressões criativas da alma surgirem. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">Estou mais do que convencido de que o caminho da vida só continua onde está o fluxo natural. Mas nenhuma energia é produzida onde não houver tensão entre os contrários; por isso, é preciso encontrar o oposto na atitude consciente. (&#8230;) Visto do ponto de vista unilateral da atitude consciente, a sombra é uma parte inferior da personalidade.&nbsp; Por isso, é reprimida, devido a uma intensa resistência. Mas o que é reprimido tem que se tornar consciente para que se produza a tensão entre os contrários, sem o que a continuação do movimento é impossível. (&#8230;) É no oposto que se acende a chama da vida. (JUNG, 2014, §78)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-depressao-nos-leva-para-aqueles-lugares-da-psique-que-nao-queremos-ou-tememos-enquanto-ego-olhar-ela-faz-com-que-visitemos-nossos-proprios-demonios-para-que-quem-sabe-se-tornem-daimons-guias-espirituais" style="font-size:18px">A depressão nos leva para aqueles lugares da psique que não queremos ou tememos &#8211; enquanto ego &#8211; olhar. Ela faz com que visitemos nossos próprios demônios, para que, quem sabe, se tornem daimons &#8211; guias espirituais.</h2>



<p style="font-size:18px">As antigas civilizações há muito tempo já cultuavam todo tipo de deuses: a sociedade egípcia &#8211;  berço da alquimia – dispunha de representações tanto do sol quanto da lua como deuses; para eles, por exemplo, o deus sol era Rá; e a deusa lua, Ísis.  Para os romanos, o sol era representado pelo Sol Invictus; para os gregos, Hélio ou Apolo; para os japoneses, Amaterasu; Sunna para os nórdicos. Já a lua, era, por exemplo, Diana para os romanos; Selene, Ártemis e Hécate para os gregos. Nichols (2007, p.308) nos lembra que Ártemis, deusa da lua, é prima e companheira de Hécate, a negra feiticeira das encruzilhadas; e enfrentá-la significava a morte espiritual ou pressagiava um renascimento, talvez os dois. A lua era vista em seu lado positivo e também negativo.</p>



<p style="font-size:18px">Nos dias atuais, podemos dizer que os deuses são cultuados de forma diferente. Embora diariamente seja noticiada a previsão do tempo nas mais variadas mídias acerca de que se teremos dias inundados com luz solar ou não, a lua ganha destaque apenas em situações pontuais, por exemplo quando ocorrem eclipses &#8211; ou seja, quando há uma relação dela com o astro rei.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-eclipses-solares-ocorrem-quando-a-lua-se-interpoe-entre-o-sol-e-a-terra-ocultando-parcial-ou-totalmente-a-luz-solar-e-uma-noite-subita-em-pleno-dia" style="font-size:18px">Eclipses solares ocorrem quando a lua se interpõe entre o sol e a Terra, ocultando parcial ou totalmente a luz solar. É uma noite súbita em pleno dia.</h2>



<p style="font-size:18px">Simbolicamente podemos pensar, no homem, como a consciência solar estar sendo obscurecida pelo próprio inconsciente; ou a mulher dominada por seu animus (o sol niger), ou ainda os instintos emergindo suspendendo a clareza racional do ego (a consciência sendo eclipsada pelo inconsciente).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ja-os-eclipses-lunares-ocorrem-quando-a-lua-e-ocultada-total-ou-parcialmente-pela-sombra-da-terra-ou-seja-a-terra-fica-interposta-entre-o-sol-e-a-lua-ocasionando-sombra-nessa-ultima" style="font-size:18px">Já os eclipses lunares ocorrem quando a lua é ocultada total ou parcialmente pela sombra da Terra; ou seja, a Terra fica interposta entre o sol e a lua, ocasionando sombra nessa última.</h2>



<p style="font-size:18px">No eclipse lunar total temos a conhecida lua de sangue, pelo aspecto vermelho que a lua toma. Simbolicamente, neste momento, a lua mergulha na sombra da Terra, há um apagamento temporário da luz solar refletida, uma descida mais profunda ao inconsciente. O tom avermelhado que a lua toma nesse momento nos lembra a fase alquímica da rubedo, um tempo de iniciação e transmutação, um tempo glorioso, mas que logo se esvanece. É nestas ocasiões que podemos ver uma relação mais direta entre estes dois corpos celestes, a alquimicamente chamada <em>coniunctio</em>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">A <em>conjunctio</em> ocorre no mundo inferior, acontece no escuro, quando já não existe luz alguma brilhando. Quando estamos completamente inconscientes, quando a consciência nos abandona, então algo nasce ou é gerado; na mais profunda depressão, na mais profunda desolação, nasce a nova personalidade. Quando nos sentimos esgotados esse é o momento em que ocorre a <em>conjunctio</em>, a coincidência dos opostos. (VON FRANZ, 1980, p. 141)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Von Franz (1980 p.141), ainda lembra que “<em>a coniunctio não ocorre na lua cheia, mas na lua nova, o que significa que ocorre durante a noite mais escura, quando nem mesmo a lua brilha, e nessa noite profundamente escura é que o sol e a lua se unem</em>”.  A lua nova é (ou quase é) invisível, e o que não aparece aos olhos pode estar germinando no escuro. Sendo assim, podemos pensar que a depressão não necessariamente deva ser vista como algo negativo uma vez que pode trazer à consciência elementos até então desconhecidos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">Assim, a menos que haja uma psicose latente, as depressões devem ser encorajadas e as pessoas, aconselhadas a entrar nelas e a ser deprimidas – sem tentar escapar através da televisão ou das <em>Seleções</em> – e, se as depressões dizem que a vida nada significa e que nada vale a pena, deve-se aceitar isso e perguntar o que fazer. O que há a fazer é ouvir, mergulhar cada vez mais fundo até se atingir o nível da energia psicológica onde alguma ideia criativa pode surgir; de repente, no fundo, aparecerá um impulso de vida e de criatividade que havia sido ignorado. (VON FRANZ, 1980, p. 87)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-nao-significa-romantizar-quadros-graves-ou-desconsiderar-a-necessidade-de-cuidado-medico-e-psicoterapico-quando-indicados-mas-reconhecer-que-o-sintoma-tambem-carrega-uma-mensagem-simbolica" style="font-size:18px">Isso não significa romantizar quadros graves ou desconsiderar a necessidade de cuidado médico e psicoterápico quando indicados, mas reconhecer que o sintoma também carrega uma mensagem simbólica.</h2>



<p style="font-size:18px">É necessário que haja um equilíbrio entre o solar e o lunar. Como o símbolo do taijitu (símbolo da filosofia taoísta que representa a dualidade do Yin e do Yang, onde uma divisão curva dentro de um círculo apresenta cores opostas – preto e branco – que se complementam. Dentro da parte escura (velho Yin) há um pequeno círculo branco (jovem Yang), e dentro da parte clara (velho Yang) há um pequeno círculo preto (jovem Yin)) somos feminino e masculino, somos luz e sombra, somos sol e lua.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">A função transcendente não se desenvolve sem meta, mas conduz à revelação do essencial no homem. No início não passa de um processo natural. Há casos em que ela se desenvolve sem que tomemos consciência, sem a nossa contribuição, e pode até impor-se à força, contrariando a resistência do indivíduo. O sentido e a meta do processo são a realização da personalidade originária, presente no germe embrionário, em todos os seus aspectos. É o estabelecimento e o desabrochar da totalidade originária, potencial. (JUNG, 2014, §186)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Enquanto vivermos reféns de uma consciência, negando a existência da força do inconsciente, viveremos na incompletude. “A função psicológica e transcendente resulta da união dos conteúdos conscientes e inconscientes”. (JUNG, 2013a, §131)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-depressao-enquanto-simbolo-nos-forca-a-olhar-para-o-outro-lado-para-o-lado-sem-luz-escuro-de-onde-pode-surgir-uma-nova-luz-e-um-terceiro-elemento-criativo" style="font-size:18px">A depressão, enquanto símbolo, nos força a olhar para o outro lado, para o lado sem luz, escuro, de onde pode surgir uma nova luz e um terceiro elemento criativo.</h2>



<p style="font-size:18px"><strong>Von Franz</strong> (1980, p.127) exemplifica usando a imagem de Jonas no ventre da baleia, indicando que a “<em>viagem marítima noturna – psicologicamente, um estado de conflito e depressão em que a pessoa é forçada a prestar atenção ao inconsciente – equivale à pedra filosofal</em>”. É nesse mergulho forçado nas profundezas que se inicia o lento processo de consolidação de um novo eixo interior. “<em>Se a pessoa experimentou por tempo suficientemente longo esses grandes altos e baixos acarretados pelo encontro com o inconsciente, forma-se então, lentamente, um núcleo inabalável</em>” (VON FRANZ, 1980, p.233)</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">Se a pessoa tocou o fundo do inferno, nada existe mais embaixo, e aí é onde começa a rocha sólida. (&#8230;) Se chegou até aí sem quebrar, então é pouco provável que isso venha a ocorrer, pois algo coagulou dentro da pessoa e tornou-se sólido; e apoiada nisso, de acordo com o objetivo do trabalho, ela pode retirar-se para a casa interior da sabedoria, que está edificada sobre uma rocha que é inabalável – o texto fala até em eternidade.&#8221; (VON FRANZ, 1980, p. 233-4)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Como dizem Lafourcade e Sabina (2025)<a href="#_ftn2" id="_ftnref2">[2]</a> na letra da música <em>Maria La Curandera</em>, <em>“Y recuerda siempre que tú eres la medicina”</em> (em livre tradução: lembre-se sempre que você é o remédio), é preciso recordar que a cura não está fora, a cura está na união do externo com o interno.</p>



<p style="font-size:18px">Não existe regeneração da Terra sem regeneração da psique. A devastação externa reflete uma desertificação interna. Quando o inconsciente é negligenciado, a natureza (em seus aspectos interiores e exteriores) também adoece.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-crise-ecologica-pode-ser-vista-como-expressao-coletiva-de-uma-hipervalorizacao-do-solar-e-de-um-empobrecimento-lunar" style="font-size:18px">A crise ecológica pode ser vista como expressão coletiva de uma hipervalorização do solar e de um empobrecimento lunar.</h2>



<p style="font-size:18px">Transmutar a consciência para regenerar a Terra pode começar pela coragem de atravessar nossas noites escuras interiores, nossas depressões. Talvez a verdadeira ecologia alquímica possa começar quando conseguirmos aprender a honrar e respeitar o significado tanto o sol quanto a lua que habitam em nós. Quando a unilateralidade cede lugar à tensão criativa dos opostos, algo novo pode nascer, não apenas na psique individual, mas também no modo como habitamos o mundo.</p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristina-lunardi-munaretti/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristina-lunardi-munaretti/">Cristina Lunardi Munaretti – Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:16px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p>ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA. <em>Manual Diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR.</em> 5.ed. texto revisado. Porto Alegre:&nbsp; Artmed, 2023.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>Mysterium Coniunctionis: pesquisas sobre a separação e a composição dos opostos alquímicos na alquimia</em> (OC 14/1). 6.ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p><em>______A natureza da psique</em>(OC 8/2). 10.ed. Petrópolis: Vozes, b.</p>



<p>______<em>A vida simbólica: escritos diversos</em> (OC18/1) 7.ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p>______<em>Psicologia do inconsciente</em>(OC 7/1). 24.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p>LAFOURCADE, Natalia; SABINA, María. <em>María La Curandera</em>. Disponível em: <a href="https://www.letras.mus.br/natalia-lafourcade/maria-la-curandera/">https://www.letras.mus.br/natalia-lafourcade/maria-la-curandera/</a> Acesso em: 19 out 2025. </p>



<p>NICHOLS,  Sallie. <em>Jung e o tarô: uma jornada arquetípica.</em> São Paulo: Cultrix, 2007.</p>



<p>O LIVRO DOS SÍMBOLOS – Reflexões Sobre Imagens Arquetípicas. Eslováquia: Taschen, 2012.</p>



<p>VON FRANZ, Marie-Louise. <em>Alquimia – Introdução ao Simbolismo e à Psicologia.</em> São Paulo: Cultrix, 1980.</p>



<p><em>Imagem: autoria própria</em></p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p style="font-size:15px"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Para o diagnóstico de <strong>Transtorno Depressivo Maior</strong>, de acordo com o DSM-5-TR, cinco ou mais dos seguintes sintomas devem estar presentes por pelo menos duas semanas e representam uma mudança no funcionamento anterior; sendo que os itens (1) e/ou (2) necessariamente devem estar presentes. (1) humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias, conforme indicado por relato subjetivo ou por observação feita por outras pessoas; (2) acentuada diminuição do interesse ou prazer em todas as atividades na maior parte do dia quase todos os dias; (3) perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta (5% do peso corporal em um mês), (4) insônia ou hipersonia quase todos os dias; (5) agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias; (6) fadiga ou perda de energia quase todos os dias; (7) sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada quase todos os dias; (8) capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão, quase todos os dias; (9) pensamentos recorrentes de morte (não somente medo de morrer), ideação suicida recorrente, sem um plano específico, um plano específico de suicídio ou tentativa de suicídio. Os sintomas apresentados devem causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. O episódio não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância ou condição médica.</p>



<p style="font-size:15px;line-height:0.3"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> “Cúrate, mijita, el dolor con el calor del sol</p>



<p style="font-size:15px;line-height:0.3">Y el frío de la luna</p>



<p style="font-size:15px;line-height:0.3">Endulza la mañana con aroma de lavanda, romero, eucalipto</p>



<p style="font-size:15px;line-height:0.3">Y que venga la calma</p>



<p style="font-size:15px;line-height:0.3">Con el vaivén del mar que va y viene, deja que te agarre</p>



<p style="font-size:15px;line-height:0.3">Con el vaivén del mar que va y viene, deja que te ame</p>



<p style="font-size:15px;line-height:0.3">Cúrate, mijita, con el amor del más bonito, haga caso a la intuición</p>



<p style="font-size:15px;line-height:0.3">Mira el mundo entero con el ojo aquel que lleva uste&#8217; en la frente</p>



<p style="font-size:15px;line-height:0.3">Cúrate, mi niña, con amor del más bonito</p>



<p style="font-size:15px;line-height:0.3">Y recuerda siempre que tú eres la medicina</p>



<p style="font-size:15px;line-height:0.3">Cúrate, mi niña, con amor del más bonito</p>



<p style="font-size:15px;line-height:0.3">Y recuerda siempre que tú eres la medicina</p>



<p style="font-size:15px;line-height:0.3">Que se vuelvan polvo, que se vuelvan polvo todos los dolores</p>



<p style="font-size:15px;line-height:0.3">Que los queme el fuego, que los queme el fuego y vengan nuevas flores.”</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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			</item>
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		<title>A Esperança Mercurial</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-esperanca-mercurial/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Adriane Grein Basso]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Feb 2026 23:15:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[esperança]]></category>
		<category><![CDATA[inseto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo investiga a esperança em seu aspecto psicológico, tomando como ponto de partida o surgimento de um inseto, primeiro no sonho e, em seguida, no mundo concreto, cuja presença carrega a superstição de ser um sinal de prosperidade.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px">Este artigo investiga a esperança em seu aspecto psicológico, tomando como ponto de partida o surgimento de um inseto, primeiro no sonho e, em seguida, no mundo concreto, cuja presença carrega a superstição de ser um sinal de prosperidade. A reflexão desloca o olhar da superstição em relação ao mundo externo, para o seu sentido interno, articulando dados biológicos do inseto, a etimologia da palavra esperança, o simbolismo do verde e seu lugar na alquimia enquanto espírito da vida e força germinativa.</p>



<p style="font-size:18px">Nesse horizonte, a esperança não é entendida como pensamento positivo, mas como uma tonalidade psíquica liminar, situada entre a putrefação da forma anterior e o brotar de novas possibilidades, quando o verde começa a se insinuar, numa fase em que a transformação ainda é incompleta, porém já pressentida e desejada.</p>



<p style="font-size:18px">O momento em que a transformação psíquica, não é mais sentida apenas como sofrimento, mas reconhece-se o aparecimento de uma certa alegria, como uma primavera oculta, quando brotos verdes começam a despontar na terra nua anunciando uma possível colheita futura. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>“&#8230;nosso mundo, se desumanizou. O homem está isolado no cosmos. Já não está envolvido na natureza e perdeu sua participação emocional nos acontecimentos naturais que até então tinham um sentido simbólico para ele”. Perda desses valores morais e espirituais que possibilitavam o indivíduo a dar contenção para a vida, seriam a causa de uma imensa cisão interna, assim consciente e inconsciente mostram-se cada vez mais afastados, sendo a falta de sentido do indivíduo moderno o grande sintoma.”&nbsp;</em>(JUNG, 2013, p.274).&nbsp;</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-este-artigo-tem-por-base-um-inseto-primeiro-surgido-em-um-sonho-e-no-dia-seguinte-na-concretude" style="font-size:18px">Este artigo tem por base um inseto, primeiro surgido em um sonho e no dia seguinte, na concretude.</h2>



<p style="font-size:18px">Inseto este, cuja aparição carrega, na cultura popular, certas superstições associadas a seu nome. Antes de avançar para ampliação teórica, considero este acontecimento cotidiano como ponto de partida, tendo em vista a forte carga energética que provocou reflexão e elaboração. </p>



<p style="font-size:18px">Uma vez que é neste cruzamento entre o ordinário e o extraordinário que a psicologia analítica encontra matéria viva para o estudo dos aspectos psicológicos da experiência. Assim não se trata apenas de um episódio cotidiano, mas também de uma imagem que emergiu e que, por sua força evocativa, abriu espaço para pensar a esperança em suas múltiplas camadas psicológicas.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-neste-momento-passo-a-relatar-como-a-experiencia-se-deu-em-seu-aspecto-subjetivo" style="font-size:17px">Neste momento, passo a relatar como a experiência se deu em seu aspecto subjetivo:</h3>



<p style="font-size:18px"><strong><em>“E lá estava ela, primeiro no sonho</em></strong><em>, verde, muito verde, daquele verde que me atrai o olhar no começo da primavera. No final do inverno, lá estão as plantas adormecidas com seu verde estabelecido, intenso, daquele verde de quem já acumulou dias de sol, chuva, invernos, verões e outras primaveras, e então, eles aparecem: os brotos. E como eles, era um verde novo, que se destaca, um verde fresco, alegre, mas também de certa forma um verde tímido e brilhante, o verde da esperança</em>.&nbsp;<em>Assim era ela no sonho</em>.”</p>



<p style="font-size:18px">Mas no dia seguinte, ao entrar no banheiro, sinto um temor, aquele de quando percebemos que não estamos só, e como para aqueles brotos, logo meu olhar foi atraído para ela. E ali estava, no teto do banheiro, a presença que me invadiu, o inseto, que no sonho chamaram de grilo, mas eu sabia que este verde era da esperança, as emoções se misturaram, eu seguia com medo, medo de ela voar em mim, mas porque alguém teria medo da esperança?</p>



<p style="font-size:18px"><strong>E o que eu estava chamando de grilo, mas era esperança em seu verde mais vivo? Na verdade, a descoberta da esperança foi algo recente em minha vida, antes de retornar a vida animada, todos esses insetos eram grilos, ao meu modo apático de ver.&nbsp;</strong>No entanto, meu reino de certezas ruiu e assim a esperança pode entrar.</p>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-o-inseto"><strong>O inseto</strong></h1>



<p style="font-size:18px">A esperança, enquanto inseto, pertence a família <em>Tettigoniidae</em>, ordem <em>Orthoptera,</em> também é conhecida como “inseto folha”. Apesar de serem parentes próximos de outros insetos cantores, como os grilos e gafanhotos, como eu vim descobrir, a esperança possui características que as tornam bem diferentes. Enquanto os grilos possuem um corpo mais robusto e arredondado, coloração marrom-escura, preta, e quando verde uma tonalidade mais opaca, as esperanças possuem corpo mais alongado e comprimido lateralmente, e seu verde, na maioria das espécies, mais forte e brilhante e suas asas imitam folhas, e não só na aparência, suas assas podem possuir depressões e irregularidades que refletem a luz como uma folha danificada e até ter furos como que “comida por lagartas”.</p>



<p style="font-size:18px">Ao contrário dos grilos onde só os machos produzem sons, em algumas espécies de esperanças, a fêmea também produz em resposta ao canto do macho, realizando um dueto para que o macho possa ir ao seu encontro. O canto da esperança também é bem distinto de seus parentes, pois o som que produz possui uma forma difusa e vibrátil, que faz com que sua origem não seja detectada, e somado ao seu mimetismo, se confunde com a vegetação que a abriga, causando a experiência de uma voz que não se sabe de onde vem, parecendo que o som vem do ambiente e não do inseto.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alta-sensibilidade-a-esperanca-como-radar-do-invisivel"><strong>Alta sensibilidade: a esperança como radar do invisível</strong></h2>



<p style="font-size:18px">A esperança possui tímpanos nas tíbias das patas dianteiras, ou seja, ela escuta com as pernas, e é capaz de detectar frequências extremamente altas, muito acima da capacidade humana. Ela ouve sons de morcegos predadores a distância e muda o comportamento para não ser capturada. Por isso, é um inseto de sensibilidade extrema, afinado às vibrações mínimas e às menores variações do clima.  </p>



<p style="font-size:18px">Outra marca da esperança são as antenas extremamente longas, por vezes maiores do que o próprio corpo e mesmo quando permanecem absolutamente imóveis suas antenas seguem, fazendo a “leitura do ambiente” como um mapa vibratório. Essas antenas são repletas de receptores sensoriais capazes de captar: vibrações mínimas no ar, variações de temperatura, deslocamento imperceptíveis do ambiente, presença de outros insetos, frequências sonoras.</p>



<p style="font-size:18px">Atualmente existem estudos, que consideram estes insetos como bioindicadores ecológicos, sendo possível reconhecer através de sua presença e comportamento, se o ambiente se encontra em equilíbrio, ou seja, possam indicar a possibilidade de boas colheitas. Contudo, seu excesso também demonstra desiquilíbrios, podendo causar devastações em plantações, como seus parentes cantores.</p>



<p style="font-size:18px">Nossos ancestrais já pareciam possuir a sabedoria de que quando este inceto aparecia boas colheitas estavam por vir, sendo este um dos prováveis fatores, além de sua cor verde ser reconhecida como a cor da esperança, que deram origem ao seu nome popular e a crença de que quando o inseto aparece é sinal de prosperidade, simbolizando boa sorte, renovação, transformação, prosperidade, boas colheitas, chuva, casamento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-palavra-spes-esperanca-expandir-avancar-prosperar"><strong>A palavra &#8211; <em>Spes</em>: esperança, expandir, avançar, prosperar</strong></h2>



<p style="font-size:18px">No português <em>esperança</em> deriva da raiz indo-europeia <em>spe</em>, significa expandir, estender-se, projetar-se, fazer brotar, levar adiante (Ernout &amp; Meillet, 2001). Essa raiz forma o latim <em>spes</em> que significa acreditar, mas confiar no movimento da vida, no devir. </p>



<p style="font-size:18px">Da mesma raiz deriva prosperar e espergir (espalhar), ambas imagens de gesto.<em>&nbsp;</em>E ao mesmo tempo,&nbsp;<em>spe&nbsp;</em>de origem a palavras como espuma, esporro, esperma: imagens de semente que se lança ao mundo sem garantia.<em>&nbsp;</em>Em inglês,<em>&nbsp;hope&nbsp;</em>provém do antigo inglês&nbsp;<em>hopian</em>, associado à ideia germânica de esperar, confiar, conforme registra o Oxford English Dicitionary (2024).&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-esperanca-e-verde"><strong>A esperança é verde</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Eva Heller, no livro a psicologia das cores, demonstra como o verde está associado a fertilidade, esperança, sagrado, espírito santo, sendo a cor da vida e da saúde, da primavera, dos negócios que florescem, da fertilidade, do frescor, da liberdade, da esperança, que acalma, mas também da imaturidade, do veneno, dos monstros, do diabo, da raiva, da inveja. (HELLER, 2021, p. 105-123).</p>



<p style="font-size:18px">No livro dos símbolos, no verbete verde encontra-se:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>“A ligação entre “verde” e crescimento da planta está incorporado na própria palavra: ‘Green” (verde) está relacionado com palavra do inglês antigo growan, que significa crescer ou cobrir com verde (Barnhart, 329). O verde afeta o corpo baixando a pressão sanguínea e dilatando os vasos capilares, um efeito repousante usado contra a insônia e a fadiga (Portmann 139). Mas para além da energia física da vida, o verde também representa a esperança, a promessa de se atingir o precioso objetivo para além da escuridão do desânimo (CW 14:635-4<a href="applewebdata://2ECD4978-7C76-44B2-AFB8-DDA8A9BD9072#_ftn1"><sup><strong>[1]</strong></sup></a>).</em>(MARTIN, 2012, p.646)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Na mitologia, Osíris, o Deus da fertilidade no Egito, tinha representações com a pele verde e era considerado o espírito do milho e da árvore. Sendo que a morte e o renascimento constituem o mito. Existindo um hino, conforme relata Edward Edinger (2020,p. 243), a seu louvor que diz: “o mundo se torna verde através dele”.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Kernunnos, o “Deus Cornífero</strong>, é o rosto da própria floresta: uma deidade animal masculina, que possui o rosto coberto de folhas e chifres de veado, representando o espírito da renovação, pois quando os veados perdem os chifres outros nascem em seu lugar. Seu encontro com a&nbsp;<strong>Rainha de Maio</strong>, uma deidade feminina que personifica a fertilidade, beleza, e potência germinal da terra marca o ponto culminante do Beltane, rito celta de fertilidade. Que representa a união simbólica entre o Homem Verde e a Rainha de Maio, o casamento sagrado, entre o princípio masculino fertilizador e o princípio feminino da terra que acolhe e desperta.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-espirito-da-vegetacao-o-verde-na-alquimia"><strong>O espírito da vegetação – o verde na alquimia</strong></h2>



<p style="font-size:18px">“Este espírito, que provém de Deus, é também a causa do&nbsp;<em>verdor&nbsp;</em>muito elogiado pelos alquimistas, a&nbsp;<em>benedicta viriditas&nbsp;</em>(o verdor ou vigor abençoado)”, relata Jung (2012a, p. 114). Segue citando Mylius que dizia; “Deus inspirou às coisas criadas&#8230; uma força germinativa, isto é, o verde”. Sobre o simbolismo da cor verde, Jung discorre:&nbsp;<strong>“A cor verde, no domínio da psicologia cristã, indica propriedade espermática ou geradora. O verde é a cor atribuída ao Espírito Santo como um princípio criador.”&nbsp;</strong>&nbsp;(grifo meu) (2012b, p. 158.)&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Psicologicamente, o verde</strong>, a esperança enquanto inseto que aparece nas transições das estações e a esperança enquanto tonalidade emocional, que anuncia o frescor da renovação, expressão uma força germinativa: em estado liminar entre a putrefação da semente e o brotar da nova vida, o morrer da forma antiga e enrijecida para a promessa de novas possibilidades.</p>



<p style="font-size:18px">Este verde não é fruto da vontade consciente, nem de pensamento positivo; é uma função vital, que se mostra com o frescor, como a seiva que corre no interior da planta, que desponta para o que ainda não é, mas insiste em nascer. Neste contexto, verde é a cor da transição. Da transformação incompleta, desejada, esperada, de <strong>quando a nigredo não parece mais apenas tormento, mas um sopro de frescor</strong>, de uma felicidade positiva, que se faz sentir ainda que oculta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-ainda-acrescenta" style="font-size:18px">Jung ainda acrescenta:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:13px">
<p>Com isso se descreve o estado de uma pessoa, que em sua peregrinação pelas peripécias das transformações psíquica, a qual se parece antes com sofrimento do que qualquer coisa, encontra uma alegria oculta que a reconcilia em seu isolamento aparente. No trato consigo mesma não acha ela enfado mortal nem melancolia, mas encontra um parceiro com quem pode conviver, e, até mais ainda, um relacionamento que se parece com a felicidade de um amor secreto, ou uma primavera oculta, em que brota do chão aparentemente ressecado uma verde sementeira, promissão de futura colheita. Do ponto de vista alquímico trata-se da “Benedicta viriditas, quae cunctas res generas! (“Verdor abençoado que gera todas as coisas”) exclama o autor do Rosarium. (JUNG, 2012c, p. 228)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Talvez por isso nossos ancestrais tenham escutado o canto deste inseto esguio, verde, quase invisível entre as folhas e reconhecido nele, este espírito, o espírito do verde, que ao aparecer também fazia reconhecer o que despontava internamente. A presença verde alada, parecia ser a própria aparição do despertar, o primeiro gesto da vida em transição, retornando após a decomposição. Como se, o verde através dele ganhasse voz.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diante-disso-nao-apenas-sua-cor-lhe-deu-o-nome-mas-a-experiencia-emocional-que-sua-presenca-faz-reconhecer-um-pressagio-do-que-o-espirito-do-verde-acarreta" style="font-size:18px">Diante disso, não apenas sua cor lhe deu o nome, mas a experiência emocional que sua presença faz reconhecer: um presságio do que o espírito do verde acarreta.</h2>



<p style="font-size:18px">O momento em que apesar de parecer não restar mais nada, algo vibra, quase imperceptível no que antes era silêncio, quando tudo parecia perdido. Assim, sob este aspecto o verde não representa conclusão, e sim a primeira vibração da matéria que começa a se reorganizar após a morte da forma anterior.</p>



<p style="font-size:18px">A esperança, contudo, como pude perceber nos seis dias em que convivemos, não vem para ficar, vem para movimentar, e tentar segurá-la é contrário à sua natureza, o que a intoxica e a transforma em um movimento infértil. E se por vezes pode ser necessário suportar que ela se afaste, por outras pode ser necessário o ato de abrir a mão e retorná-la ao mundo, no mesmo ato da mão que se abre, com confiança, para lançar as sementes na terra, sem garantias, mas acreditando que assim, a possibilidade do verde se fará.</p>



<p style="font-size:18px">Como Napoleão, que se diz ter sido lentamente envenenado pelos vapores do pigmento verde arsenical que impregnava as paredes de seu exílio, também a esperança que me visitou morreu intoxicada, pelos vapores da água do banho. Mostrando que, quando mercúrio está presente, remédio e veneno andam juntos. O mesmo verde que anuncia o renascimento também pode sufocar; a mesma umidade que prepara o broto também pode afogar o sopro. Assim é o processo psíquico: aquilo que salva é o mesmo que pode ferir, porque a transformação nunca vem purificada, ela vem viva, ambígua, mercurial.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/adriane-grein-basso/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/adriane-grein-basso/">Adriane Grein Basso – Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata IJEP </a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p>CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2010.</p>



<p>SILVA, J.; GARCIA, M. Insetos na Cultura Popular Brasileira. Revista de Etnobiologia, 2018.</p>



<p>ERNNOUT, A.; MEILLET, A. Dictionnaire étymologique de la langue latine. Paris: Klincksieck, 2001.</p>



<p>EDINGER, Edward F. Ego e arquétipo:&nbsp;<em>uma síntese fascinante dos conceitos psicológicos fundamentais de Jung</em>. 2. ed. São Paulo: Editora Pensamento Cultrix, 2020.</p>



<p>ESPERANÇA. In: Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa Michaelis. São Paulo: Editora Melhoramentos, [s.d.]. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro</p>



<p>HELLER, Eva. A psicologia das cores: como as cores afetam a emoção e a razão. São Paulo: Olhares, 2021.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2012a.</p>



<p>______ Mysterium coniunctionis:&nbsp;<em>pesquisas sobre a separação e a composição dos opostos psíquicos na alquimia. Os componentes da Coniunctio; Paradoxa; As personificações dos opostos.</em>&nbsp;6. ed. Petrópolis: Vozes, 2012b.</p>



<p>______ Mysterium Conuctionis:&nbsp;<em>pesquisas sobre a separação e composição dos opostos na psíquicos na alquimia. Rex e Regina; Adão e Eva, A conjunção.</em>&nbsp;3. ed. Petrópolis: Vozes, 2012c.&nbsp;</p>



<p>______&nbsp;<em>A Vida Simbólica</em>. Vol. 1. 7 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>MARTIN, Kattlen (org.). O livro dos símbolos:&nbsp;<em>reflexões sobre imagens arquetípicas.</em>&nbsp;Köln: Tashen, 2011.&nbsp;</p>



<p>O´CONNEL, Mark. Interpretação e significado dos símbolos. São Paulo: Lafonte, 2021.</p>



<p>PINHEIRO, Karina. Esperança, o inseto que supostamente pode mudar destinos. Portal Amazônia, 4 mar. 2023. Disponível em: https://portalamazonia.com/amazonia/esperanca-o-inseto-que-supostamente-pode-mudar-destinos/￼. Acesso em: 08 dez. 2025.</p>



<p>TETIGONIÍDEOS. Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tetigoni%C3%ADdeos￼. Acesso em: 05 dez. 2025.</p>



<p>UPLIFTING German expressions with “hope”. Deutsche Welle, 2021. Disponível em: https://www.dw.com/en/uplifting-german-expressions-with-hope/g-57364624￼. Acesso em: 8 dez. 2025./esperan%C3%A7a/￼. Acesso em: 09 dez. 2025.</p>



<p>Imagem: arquivo próprio.</p>



<p><a href="applewebdata://2ECD4978-7C76-44B2-AFB8-DDA8A9BD9072#_ftnref1"><sup>[1]</sup></a>&nbsp;A citação referente a Jung, não foi encontrada nas obras completas em português, devido a diferença nas publicações.</p>



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		<title>A atitude do alquimista e a clínica junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-atitude-do-alquimista-e-a-clinica-junguiana/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Raísa Barcellos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 12:05:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[análise]]></category>
		<category><![CDATA[analista]]></category>
		<category><![CDATA[clínica]]></category>
		<category><![CDATA[junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Antigos manuscritos alquímicos ainda tem muito a nos ensinar, dentre as diferentes lições que eles nos deixam, podemos aprender com a atitude dos alquimistas frente ao seu trabalho, sua obra, o opus alchymicum. Aprendemos com os alquimistas como podemos olhar para nossos conteúdos e comportamentos com profunda curiosidade e dedicação, nos colocando, dessa forma, na posição de questionar, por exemplo, opiniões formadas e pouco flexíveis, nos abrindo a novas possibilidades e formas de viver, mantendo o fluxo vivo do “dissolve e coagula”.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-primeira-pergunta-que-pode-surgir-quando-se-fala-de-alquimia-e-para-que-estudar-textos-alquimicos" style="font-size:20px"><strong><em>A primeira pergunta que pode surgir quando se fala de alquimia é: para que estudar textos alquímicos?</em></strong></h2>



<p style="font-size:18px">Antigos manuscritos alquímicos ainda tem muito a nos ensinar, dentre as diferentes lições que eles nos deixam, podemos aprender com a atitude dos alquimistas frente ao seu trabalho, sua obra, o&nbsp;<em>opus alchymicum</em>. Aprendemos com os alquimistas como podemos olhar para nossos conteúdos e comportamentos com profunda curiosidade e dedicação, nos colocando, dessa forma, na posição de questionar, por exemplo, opiniões formadas e pouco flexíveis, nos abrindo a novas possibilidades e formas de viver, mantendo o fluxo vivo do “dissolve e coagula”.</p>



<p style="font-size:18px">O analista no seu ofício, poderá então, com a atitude de um verdadeiro alquimista, abrir-se para provar da amargura do seu próprio ser, buscando oferecer espaço para o não saber, permitindo a descoberta no tempo da alma e proporcionando dessa forma uma clínica, sem conceitos previamente construídos, crenças ou diagnósticos predeterminados, colocando-se na posição de quem quer descobrir junto, abrindo-se ao desconhecido, como quem ajoelha frente ao forno alquímico e está aberto a viver o mistério.</p>



<p style="font-size:18px">Alguns argumentariam que esses são textos defasados, provados cientificamente incorretos ou pseudociência. Nesse artigo, vamos discutir de forma introdutória, um dos muitos aspectos interessantes de textos alquímicos e como Jung os relacionou com a prática da clínica analítica.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">Para iniciarmos a compreensão do conteúdo de tais textos alquímicos, vamos primeiramente buscar em Jung o conceito de inconsciente coletivo; esse, faz referência a existência de uma parte inconsciente que não procede de natureza individual, mas sim universal e possui, portanto, “conteúdos e modos de comportamento, os quais são&nbsp;<em>cum</em>&nbsp;<em>granos salis</em>&nbsp;os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos.” (Jung, 2012, §3), esses conteúdos do inconsciente coletivo são chamados por Jung de arquétipos.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">Podemos encontrar representações de conteúdos arquetípicos em diferentes fontes, como por exemplo tradições de povos originários, mitos, contos de fadas, antigos textos religiosos e na alquimia. Através de uma leitura psicológica dessas imagens arquetípicas, entendemos que a esfera psíquica é comum a todos os seres humanos e independe de lugar, tempo ou espaço.&nbsp;&nbsp;Percebemos, porém, que essas imagens podem estar mais ou menos influenciadas pelo contexto histórico social do momento em que são relatadas, e é justamente por isso que essas manifestações e representações assumem formas diferentes.</p>



<p style="font-size:18px">Os textos alquímicos e os alquimistas, por sua vez, tinham uma atitude diferente frente à essas imagens inconscientes, nos explica Von Franz, “(&#8230;) em alquimia as projeções eram feitas de modo sumamente ingênuo e sem programação, e não passavam por qualquer forma de correção.” (Von Franz, 2022, p.35), dessa forma, entendemos uma importante diferença entre o material dos textos alquímicos e outros, isto é, os alquimistas não tinham em geral, uma intenção, crença ou tradição definida ao olhar para certo fenômeno ou imagem inconsciente. Portanto, há muito o que aprender com os alquimistas e a sua atitude frente ao seu trabalho, sua obra, o&nbsp;<em>opus alchymicum</em>.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading is-style-large" id="h-os-alquimistas-nos-convidam-a-olhar-para-nossos-conteudos-e-comportamentos-com-a-curiosidade-e-dedicacao-de-quem-olha-para-uma-barra-de-metal-e-se-pergunta-e-se-eu-colocar-isso-no-forno-o-que-sera-que-acontece" style="font-size:18px">Os alquimistas nos convidam a olhar para nossos conteúdos e comportamentos com a curiosidade e dedicação de quem olha para uma barra de metal e se pergunta: e se eu colocar isso no forno, o que será que acontece? </h2>



<p style="font-size:18px">Essa curiosidade frente aos nossos conteúdos internos, nos ajuda a questionar, por exemplo, opiniões formadas pouco flexíveis e ao olhar para nossos conteúdos com a curiosidade e a dedicação de um alquimista. Poderemos assim, abrir então&nbsp;novas possibilidades e formas de viver, o que está diretamente relacionado ao “dissolve e coagula”, duas operações que em muitos textos resumem a obra alquímica (Edinger, 2006, p.67).&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">O trabalho alquímico muitas vezes vai exigir paciência e lentidão, por exemplo, trabalhar com muito cuidado, para não queimar o conteúdo que está sendo aquecido. Às vezes, o fogo alto pode ser agressivo demais, buscamos portanto uma alternativa,&nbsp;seria&nbsp;possível então aquecer com de esterco de cavalo, por exemplo, diz o autor anônimo do<em>&nbsp;<strong>Rosarium Philosophorum</strong></em>, “<em>[segundo]</em>&nbsp;Aphidius: o cozimento com o fogo que eu te mostrarei consiste em fechar em esterco úmido de cavalo que é o fogo dos sábios, húmido e escuro. É quente em seu segundo grau, e húmido em primeiro.” (Anônimo, sem data. Tradução da autora.)</p>



<p style="font-size:18px">A paciência e a lentidão são parte do ofício, “<em>Eu, porém, descrevi a obra até o fim, apesar de nunca a ter visto. Sei que a obra chega necessariamente a essa natureza. E é impossível saber se não a aprende de Deus ou de um professor que a ensine. E deve saber que é um caminho muito longo. A paciência e a lentidão, são então, indispensáveis no nosso ofício</em>.”(Anônimo, sem data.&nbsp;Tradução da autora.).</p>



<p style="font-size:18px">Não se engane porém, já que, pode sim ser necessário, em dado momento, cozinhar rápido e com o fogo alto, mas a situação será analisada de antemão e a melhor forma de agir será eleita, de acordo com a situação individual e única que se apresentar. Entendemos dessa forma que não existe um só método ou uma forma padrão de trabalhar com esses conteúdos.</p>



<p style="font-size:18px">O espírito do nosso tempo, porém, pode nos pedir que façamos justamente o contrário, que sejamos padronizados, encaixados, embotados, produtivos e adaptados. O que, geralmente, não nos deixa espaço para essa atitude de curiosidade frente a si mesmo, ou seja, olhar para nossos complexos, nossa sombra. </p>



<p style="font-size:18px">Em tempos de inteligência artificial, onde as interações, os textos e as relações se tornam cada vez mais plásticas, estruturadas e padronizadas, resta pouco espaço para dúvidas, já que a inteligência artificial responde. <strong>Byung-Chul Han</strong>, por exemplo, descreve a atitude da nossa sociedade como a sociedade do desempenho, ele diz: “<em>A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho</em>.” (Han, 2015, p. 16).</p>



<p style="font-size:18px">A atitude dos alquimistas e, portanto, o que a análise junguiana tem a oferecer,&nbsp;acaba indo&nbsp;de encontro a esses preceitos padronizantes do nosso tempo; dentro da clínica buscamos oferecer espaço para o não saber, permitindo a descoberta no tempo da alma. A clínica junguiana é dissidente, vai no oposto do que é pregado no templo do instagram, e por isso o analista não promete resultados ou alega conhecer o caminho de antemão.&nbsp;</p>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-o-papel-do-analista-na-analise-nbsp" style="font-size:20px"><strong>O papel do analista na análise&nbsp;</strong></h1>



<p style="font-size:18px">Ao entender que cada processo é único e exige seu próprio tempo e metodologia, podemos pensar no papel do analista, que, portanto, vai precisar da curiosidade e dedicação de um alquimista dentro da sua prática clínica com cada paciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-nos-explica-jung" style="font-size:18px">Como nos explica Jung:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:15px">
<p style="font-size:19px"><em>“Se, na qualidade de psicoterapeuta, eu me sentir como autoridade diante do paciente e, como médico, tiver a pretensão de saber algo sobre a sua individualidade e fazer afirmações válidas a seu respeito, estarei demonstrando falta de espírito crítico, pois não estarei reconhecendo que não tenho condições de julgar a totalidade da personalidade que está lá à minha frente. Posso fazer declarações legítimas apenas a respeito do ser humano genérico, ou pelo menos relativamente genérico.” (Jung, 2011, §2)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Vamos descobrindo que é parte do ofício do analista entender que não é possível dizer ao outro,&nbsp;que sua forma de existir no mundo ou suas crenças não lhe servem ou que a individuação é por outro caminho, uma vez que entendemos não existir um só caminho ou forma de se portar no mundo, nas palavras de Guggenbühl-Craig: </p>



<h2 class="wp-block-heading is-style-default" id="h-o-verdadeiro-eros-nao-tem-nada-a-ver-com-a-vontade-de-impor-nosso-proprio-plano-e-nossas-proprias-ideias-sobre-os-outros-guggenbuhl-craig-2004-p-23" style="font-size:19px"><em>“O verdadeiro eros não tem nada a ver com a vontade de impor nosso próprio plano e nossas próprias ideias sobre os outros” (Guggenbühl-Craig, 2004, p. 23)</em></h2>



<p style="font-size:18px">Entendemos&nbsp;que ninguém busca tornar-se analista porque não gosta de ajudar as pessoas, o desejo de ajudar é verdadeiro, porém o desejo genuíno de ajudar precisa ser educado, não sabemos na posição de analista o que é benéfico ou maléfico para nossos clientes, ou seja, se um conteúdo precisa cozinhar no fogo alto e seco ou no esterco úmido, as regras e o ajuste sob os quais uma pessoa vive podem ser necessários a sua própria sobrevivência em um dado momento de sua vida.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">Dentro de um&nbsp;<em>vas bene clausum</em>&nbsp;(um vaso hermeticamente fechado)&nbsp;dentro do qual acontece o processo de análise, a clínica (os clientes) afetam o analista assim como o analista afeta a clínica, talvez essa seja a nossa forma de entender a transferência e contratransferência, ou como diz Guggenbühl-Craig “as psiques do terapeuta e do paciente começam a se afetar mutuamente.” (Guggenbühl-Craig, 2004, p. 46) e reconhecer que essa relação&nbsp;é imprescindível para o trabalho do analista.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">Dessa forma é parte do trabalho de análise conectar-se com o cliente profundamente, um encontro íntimo, que do latim,&nbsp;<em>intimus</em>, “interior, o que é de dentro”&nbsp;e&nbsp;para isso, o analista precisa estar disposto a provar da amargura do seu próprio ser, como coloca von Franz&nbsp;&nbsp;“O lampejo que se obtém ao olharmos para nós mesmos é geralmente muito amargo, sendo por isso que poucas pessoas o tentam; é pikros &#8211; azedo &#8211; porque corroí e porque é deveras desagradável para as ilusões da consciência.” (Von Franz, 2022, p.152).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ainda-sobre-a-relacao-entre-cliente-e-analista-jung-nos-alerta-nbsp" style="font-size:18px">Ainda sobre a relação entre cliente e analista, Jung nos alerta:&nbsp;</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>“Poderíamos dizer, sem grande exagero, que mais ou menos metade de cada tratamento em profundidade consiste no autoexame do médico, porque ele só consegue pôr em ordem no paciente aquilo que está resolvido dentro de si mesmo.” (Jung, 2011, §239).&nbsp;</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">É esperado, portanto, que o analista esteja profundamente comprometido com o seu próprio trabalho de análise pessoal, tornando-se cada vez mais capaz de reconhecer, ou seja, tornar-se consciente, de suas crenças pessoais e ideais morais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sanford-nos-diz-nbsp" style="font-size:18px"><strong>Sanford </strong>nos diz,&nbsp;</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>“[&#8230;] ao invés de se lutar pelos mais altos ideais morais (ainda que ideias morais também sejam importantes), enfatiza-se a luta por melhor autoconhecimento, na crença de que os ideais e os valores morais do homem só são efetivos no contexto de sua consciência.” (Sanford, 2021, p. 36)&nbsp;</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Sendo portanto, como analistas, capazes de reconhecer que dentro de uma vontade de liberar um paciente de suas tendências vistas como desfavoráveis e prejudiciais, corremos o risco&nbsp;de nos tornarmos&nbsp;ditadores da liberdade.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">Assim além de aprendermos com os antigos alquimistas como podemos nos transformar, também aprendemos como podemos construir uma prática clínica sem conceitos previamente construídos, crenças ou diagnósticos predeterminados, que transcende a persona, entendemos a importância de estar na posição de quem quer descobrir junto, abrindo-nos ao desconhecido, como quem ajoelha frente ao forno alquímico e está aberto a viver o mistério.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="A atitude do alquimista e a clínica junguiana" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/sDDIC1Y7Bps?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/raisa-barcellos/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/raisa-barcellos/">Raísa Barcellos Nepomuceno &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Balestrini &#8211;&nbsp;Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p><strong>Fonte da imagem</strong>: <em>Mutus Liber</em>&nbsp;(1702). Imagem colorida. Alchemy Website. Disponível em:<a href="https://www.alchemywebsite.com/prints_series_mutus.html"></a><a href="https://www.alchemywebsite.com/prints_series_mutus.html">https://www.alchemywebsite.com/prints_series_mutus.html</a></p>



<p><strong>ANÔNIMO.</strong>&nbsp;<em>Rosarium Philosophorum &#8211;&nbsp;</em>El rosario de los filósofos: segunda parte de la alquimia. De la verdadera forma de preparar la piedra filosofal. [sem local], [sem editora], [sem data]. PDF.&nbsp;</p>



<p>EDINGER, Edward F. Anatomia da psique: o simbolismo alquímico na psicoterapia. São Paulo: Cultrix, 2006.</p>



<p>GUGGENBÜHL-CRAIG, Adolf.&nbsp;<em>O abuso do poder na psicoterapia.</em>&nbsp;São Paulo: Paulus, 2004.</p>



<p>HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.&nbsp;</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Prática da psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p>VON FRANZ, Marie-Louise. Alquimia. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2022.</p>



<p>SANFORD, John A. O mal: o lado sombrio da realidade. São Paulo: Paulus, 2021</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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		<title>Jung, as Pedras e o Unus Mundus</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/jung-as-pedras-e-o-unus-mundus/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristina Lunardi Munaretti]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Feb 2026 14:16:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[albedo]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
		<category><![CDATA[IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[minerais]]></category>
		<category><![CDATA[nigredo]]></category>
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		<category><![CDATA[rubedo]]></category>
		<category><![CDATA[Simbolismo]]></category>
		<category><![CDATA[simbologia]]></category>
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		<category><![CDATA[unus mundus]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto explora a relação entre Jung e as pedras como símbolos de eternidade, transformação e totalidade psíquica. A partir das formações geológicas — ígneas, sedimentares e metamórficas — estabelece-se um paralelo com os processos de mudança internos da psique e com o percurso alquímico que culmina na pedra filosofal. As pedras aparecem na vida, na obra e nos sonhos de Jung como imagens vivas do Self: desde sua infância, passando pelas visões de 1944, pelas experiências do Livro Vermelho e pelo último sonho conhecido. Nas esculturas de Bollingen, Jung deixou gravada na pedra sua compreensão simbólica e alquímica. Em todas essas manifestações, a pedra emerge como expressão de origem, morte e renascimento, e como possível expressão do unus mundus – a unidade fundamental entre matéria, psique e cosmos.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: O texto explora a relação entre Jung e as pedras como símbolos de eternidade, transformação e totalidade psíquica. A partir das formações geológicas — ígneas, sedimentares e metamórficas — estabelece-se um paralelo com os processos de mudança internos da psique e com o percurso alquímico que culmina na pedra filosofal. As pedras aparecem na vida, na obra e nos sonhos de Jung como imagens vivas do Self: desde sua infância, passando pelas visões de 1944, pelas experiências do Livro Vermelho e pelo último sonho conhecido. Nas esculturas de Bollingen, Jung deixou gravada na pedra sua compreensão simbólica e alquímica. Em todas essas manifestações, a pedra emerge como expressão de origem, morte e renascimento, e como possível expressão do <em>unus mundus</em> – a unidade fundamental entre matéria, psique e cosmos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-pedras-sempre-fizeram-parte-do-imaginario-e-da-cultura-das-diferentes-civilizacoes" style="font-size:19px">As pedras sempre fizeram parte do imaginário e da cultura das diferentes civilizações. </h2>



<p style="font-size:19px">Monólitos instalados em pontos específicos do planeta, imensas construções e templos dispostos em formas geométricas enigmáticas, e que ainda suscitam as mais variadas especulações de como foram erguidos, desafiam a engenharia moderna. Feitas a partir de blocos colossais, essas estruturas pertencem não somente ao nosso mundo concreto, como também povoam o mundo onírico.</p>



<p style="font-size:19px">A relação das pedras com <strong>Carl Gustav Jung</strong> aparece em momentos diversos de sua obra: desde quando, ainda criança, imaginava sendo a própria pedra em que estava sentado, até seu último sonho conhecido, com a pedra redonda entre quatro árvores. Sua obra é permeada por citações referentes a este mineral, que se materializam também em sua própria mão: C. G. Jung talhou pedras e nelas deixou gravados símbolos e inscrições em sua torre de Bollingen, como é narrado em sua biografia no livro Memórias, Sonhos e Reflexões.</p>



<p style="font-size:19px">As rochas se formam a partir do núcleo da Terra, composto por magma líquido, que em contato com diferentes condições ambientais de pressão e temperatura, vai formar diferentes tipos rochosos, alguns muito valiosos. Rochas magmáticas (ou ígneas), se solidificam a partir do magma terrestre ou da lava (quando na superfície); rochas sedimentares se formam a partir de erosão e, sendo desgastadas por água, vento ou outros intemperismos, esses sedimentos então se depositam em bacias sedimentares e são compactados pelas camadas superiores. Há ainda um terceiro tipo de rocha, as metamórficas, resultantes da transformação de rochas preexistentes (magmáticas ou sedimentares), que sob condições de alta pressão e temperatura transformam-se em novas rochas como o mármore, por exemplo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-podemos-pensar-a-psique-de-forma-semelhante-sob-diferentes-estimulos-e-pressoes-internos-e-externos-ela-tambem-se-transforma" style="font-size:19px">Podemos pensar a psique de forma semelhante: sob diferentes estímulos e pressões, internos e externos, ela também se transforma.</h2>



<p style="font-size:19px">Por exemplo, dentro da totalidade psíquica, aquela estrutura que conhecemos como ego, pode sustentar-nos adequadamente sendo mais rígido durante certa fase da vida, mas &#8211; cedo ou tarde &#8211; precisa flexibilizar-se e tornar-se estruturante, para suportar os desígnios e exigências do processo vital. Dependendo do momento, nossa psique pode ser como uma rocha ígnea, sedimentar ou &#8211; espera-se &#8211; transformar-se em uma rocha metamórfica, sinal de que algo novo e essencial emergiu do fundo da existência.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>É estranho, se olharmos isso com simplicidade, que na alquimia, o produto final seja algo na ordem da natureza que consideramos em nível muito baixo, uma pedra, cuja qualidade consiste simplesmente em existir. Uma pedra não come nem bebe nem dorme, permanece meramente onde estiver por toda a eternidade. Se lhe damos um pontapé, ela fica onde tiver sido jogada e não se mexe. Mas na alquimia essa coisa desprezada é o símbolo da meta suprema. (VON FRANZ, 1980, p. 146)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-alquimia-o-objetivo-do-artifex-era-concluir-a-opus-magna-tendo-assim-alcancado-a-lapis-philosophorum" style="font-size:19px"><strong>Na alquimia o objetivo do <em>artifex</em> era concluir a <em>opus magna</em>, tendo assim alcançado a <em>lapis philosophorum</em></strong>.</h2>



<p style="font-size:19px">Se a psique, em sua transformação, pode tornar-se simbolicamente uma rocha metamórfica, a tradição alquímica reconheceu na pedra a imagem daquilo que permanece, que resiste e que, ao mesmo tempo, se transforma. Assim, ao se falar da <em>opus magna</em> e da tão buscada pedra filosofal, fala-se também de um símbolo capaz de condensar estabilidade, duração e sentido.</p>



<p style="font-size:19px">Crianças e adultos encantam-se, ainda que de formas diferentes, com a pedra. Quem nunca guardou uma pedrinha no bolso só porquê era bonita ou lembraria um lugar ou momento especial? O fascínio dos adultos pode aparecer de uma forma aparentemente mais aprimorada: pedras consideradas valiosas são expostas em joias e nos mais variados artefatos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-imaginario-e-fertil-e-encontramos-na-obra-e-na-vida-de-c-g-jung-varias-alusoes-a-pedras" style="font-size:19px">O imaginário é fértil, e encontramos na obra e na vida de C. G. Jung várias alusões a pedras:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>(&#8230;) eu estou sentado nesta pedra. Eu, em cima, ela, embaixo. Mas a pedra também poderia dizer “eu” e pensar: “Eu estou aqui, neste declive e ele está sentado em cima de mim” – Surgia então a pergunta: “Sou aquele que está sentado na pedra, ou sou a pedra na qual ele está sentado? (JUNG, 1990, p.32)</em></p>
</blockquote>



<p id="h-nesta-passagem-ele-se-imagina-confundido-quando-ainda-crianca-com-a-propria-nbsp-pedra-sobre-a-qual-estava-sentado" style="font-size:19px">Nesta passagem ele se imagina confundido &#8211; quando ainda criança – com a própria &nbsp;pedra sobre a qual estava sentado. C. G. Jung conta ainda que sempre que se sentia bloqueado “pintava ou esculpia na pedra: tratava-se sempre de um <em>rite d´entrée</em> (rito de entrada) que trazia pensamentos e trabalhos” (JUNG, 1990, p.155). Quando de seu infarto e adoecimento, em 1944, C. G. Jung teve visões, numa das quais está no espaço cósmico e avista “<em>um enorme bloco de pedra, escuro como um meteorito</em>” (JUNG, 1990, p. 253), tendo visto em vida pedras semelhantes no Golfo de Bengala, sendo estas blocos de granito marrom escuro.</p>



<p id="h-nesta-passagem-ele-se-imagina-confundido-quando-ainda-crianca-com-a-propria-nbsp-pedra-sobre-a-qual-estava-sentado" style="font-size:19px">Se pensarmos que se tratava de granito &#8211; uma rocha ígnea formada pelo lento resfriamento do magma nas profundezas da crosta terrestre, o que permite o desenvolvimento de minerais visíveis a olho nu &#8211; podemos imaginar que também somos assim: pequenos fragmentos de materiais diversos que, unidos, formam algo maior; ou talvez sejamos apenas um desses pequenos minerais visíveis, pertencentes à totalidade. No livro em que relata algumas de suas experiências com imaginação ativa – o <strong>Livro Vermelho</strong> – C. G. Jung descreve uma experiência em que avista uma “pedra com brilho vermelho” (JUNG, 2015, p.133) – a qual vê em sua descida ao inferno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-alquimia-o-vermelho-evoca-a-rubedo-fase-alquimica-da-realizacao" style="font-size:19px">Na alquimia, o vermelho evoca a <strong>rubedo</strong>, fase alquímica da realização.</h2>



<p style="font-size:19px">Von Franz (1975, p.184) explica que a rubedo ocorre quando o trabalho do artífice chega ao fim, a retorta é aberta e a pedra filosofal começa a irradiar o efeito de cura cósmica. A pedra que irradiava o vermelho, nas imaginações ativas de C. G. Jung, estava – naquele momento – no inferno.</p>



<p style="font-size:19px">Segundo Abt (2005, p. 90) o vermelho evoca o sangue, a cor dos impulsos biológicos, emoções, sentimentos de amor e ódio, paixão; e também o vermelho do fogo brilhante é associado ao calor, mas um calor destrutivo. Assim, o vermelho pode simbolizar tanto calor, união, renovação, quanto combustão &#8211; &nbsp;o calor que queima &#8211; divisão, destruição. Para os romanos, tanto a deusa do amor, Vênus, como o deus da guerra, Marte, estavam conectados a esta cor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-von-franz-2021-p-222-conjectura-que-a-mesma-pedra-que-c-g-jung-viu-por-ocasiao-do-seu-infarto-aparece-sob-formato-algo-diferente-no-ultimo-sonho-relatado-por-esse-como-um-bloco-negro-de-pedra" style="font-size:19px"><strong>Von Franz (2021, p.222) conjectura que a mesma pedra que C. G. Jung viu por ocasião do seu infarto, aparece sob formato algo diferente no último sonho relatado por esse como um bloco negro de pedra:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Ele via uma grande pedra redonda num lugar alto, uma praça árida, na qual estavam inscritas as seguintes palavras: “E isto será para ti um sinal da Totalidade e da Unidade”. Então ele via, à direita, vários receptáculos numa praça aberta e um quadrângulo de árvores, cujas raízes circundavam a terra e a envolviam. No meio dessas raízes brilhavam fios de ouro. (VON FRANZ, 2021, p.222)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Aqui não nos deteremos em ampliar o significado do sonho, apenas falaremos sobre a pedra. Para começar, pedras da cor preta costumam ser usadas, por quem acredita em seu poder, para proteção.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cunningham-2019-p-38-diz-que" style="font-size:19px">Cunningham (2019, p.38) diz que:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Pedras pretas são receptivas. Representam a terra e a estabilidade, sendo regidas com Saturno, o planeta da restrição. As pedras pretas são simbólicas de autocontrole, resiliência e de poder calmo. Consideradas como pedras protetoras, na maioria das vezes são usadas para “aterrissar” uma pessoa. (&#8230;) Misticamente, preto é a cor do espaço sideral, da ausência de luz.</em></p>
</blockquote>



<p id="h-podemos-pensar-na-ausencia-de-luz-tambem-como-o-apagamento-da-consciencia-experiencia-a-qual-c-g-jung-se-aproximava-porque-sua-vida-estava-chegando-ao-fim" style="font-size:19px">Podemos pensar na ausência de luz também como o apagamento da consciência &#8211; experiência à qual C. G. Jung se aproximava porque sua vida estava chegando ao fim.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-cor-preta-evoca-ainda-a-lembranca-da-fase-alquimica-da-nigredo-que-segundo-jung-2012-p-247-e-um-estagio-inicial-onde-a-prima-materia-pode-ser-transformada" style="font-size:19px">A cor preta evoca ainda a lembrança da fase alquímica da <strong>nigredo</strong>, que segundo Jung (2012, p.247) é um estágio inicial onde a <em>prima materia</em> pode ser transformada.</h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Há uma variedade de pedras na cor preta</strong>: obsidiana, turmalina negra, cianita negra, ônix preta, hematita, dentre outras. Se formos ampliar, por exemplo, o significado da pedra obsidiana, veremos que essa, quanto a sua origem “<em>nada mais é do que lava que esfriou tão rápido que os minerais contidos dentro dela não tiveram tempo de se formar. Trata-se de um tipo de vidro que ocorre naturalmente</em>” (CUNNINGHAM, p.138). É o encontro da lava com o mar. Ainda, “<em>os antigos astecas confeccionam espelhos planos e quadrados desse vidro negro para usar em adivinhação</em>” (CUNNINGHAM, p.138). Hall (p. 198) nos diz que do ponto de vista psicológico a obsidiana “nos ajuda a descobrir quem realmente somos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deixa-nos-cara-a-cara-com-a-nossa-sombra-e-nos-ensina-como-integra-la-e-ainda" style="font-size:19px"><strong>Deixa-nos cara a cara com a nossa sombra e nos ensina como integrá-la”, e ainda:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>&nbsp;(&#8230;) a obsidiana preta nos força a olhar nosso verdadeiro eu, ajudando-nos a mergulhar na nossa mente subconsciente, destacando fatores ocultos e trazendo à tona desequilíbrios e qualidades sombrias, para que sejam liberadas. Ela aumenta as energias negativas de modo que possam ser sentidas e então liberadas.</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Esta descrição das qualidades da obsidiana poderia muito bem definir o abandono da vida concreta e retorno à totalidade. De acordo com Abt (2005, p.104) a cor preta é uma não-cor que aponta para a perda de consciência, morte, caos, medo, depressão, e para o diabo; e, do ponto de vista positivo é da escuridão que vem a nova luz, e por isso também é a cor da ressurreição. É o retorno ao útero ou origem, a preparação para a renovação e a concepção de uma nova vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-a-partir-do-chumbo-escuro-que-os-alquimistas-podem-chegar-ao-ouro" style="font-size:19px"><strong>É a partir do chumbo escuro que os alquimistas podem chegar ao ouro.</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Se, através da luta e do encontro com o inconsciente, uma pessoa sofre por longo tempo, estabelece-se uma espécie de personalidade objetiva; forma-se na pessoa um núcleo que está em paz, calmo e até em meio às maiores tempestades vitais, intensamente vivo, mas sem ação e sem participação no conflito. Essa paz mental sobrevém frequentemente quando as pessoas sofreram por bastante tempo; um dia, algo estala e o rosto adquire uma expressão serena, pois nasceu alguma coisa que permanece no centro, fora ou além do conflito, que não tem o mesmo vigor de antes. (VON-FRANZ, 1980, p. 147)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-trecho-acima-evoca-a-lembranca-da-descricao-da-pedra-filosofal-dos-alquimistas" style="font-size:19px">O trecho acima evoca a lembrança da descrição da pedra filosofal dos alquimistas.</h2>



<p style="font-size:19px">Mesmo em meio a tempestade, manter-se inerte, manter-se igual, manter-se livre da influência das amarras da concretude do mundo. Para os alquimistas, a nigredo (fase alquímica relacionada ao preto) “não era causa para consternação, mas para alegria; ele expressava conjunção com o potencial ilimitável e abundante da mente, no qual podia ser concebido o embrião dourado do self” (OLDS, p.658).</p>



<p style="font-size:19px">Podemos apenas fazer suposições sobre a pedra que C. G. Jung viu em sua flutuação sobre a terra e em seu último sonho relatado, mas sua simbologia é inquestionável. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-comparativamente-ao-breve-periodo-da-vida-humana-a-pedra-torna-se-um-simbolo-de-durabilidade-na-verdade-ela-sugere-o-conceito-e-eternidade-olds-p-106" style="font-size:19px"><strong><em>“Comparativamente ao breve período da vida humana, a pedra torna-se um símbolo de durabilidade; na verdade, ela sugere o conceito e eternidade” (OLDS, p.106).</em></strong></h2>



<p style="font-size:19px">C. G. Jung não somente se imaginou e sonhou com pedras, fez delas seu instrumento e trabalho artístico, deixando gravado na eternidade desses minerais parte de seu legado. Uma das mais conhecidas é a do monumento em uma pedra em formato de cubo, o qual foi feito no ano de 1950. Jung (1990, p.198) havia encomendado pedras, mas uma delas chegou no formato e dimensões não solicitado; seu pedreiro pediu que os barqueiros levassem-na de volta, ao que C. G. Jung proferiu “Não! É a minha pedra, e eu preciso dela”. Tratava-se de um cubo perfeito, com arestas de 50 centímetros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-primeira-frase-que-gravou-na-pedra-do-alquimista-arnaud-de-villeneuve-fora" style="font-size:19px"><strong>A primeira frase que gravou na pedra, do alquimista Arnaud de Villeneuve, fora:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px;line-height:0.2"><em>Eis a pedra, de humilde aparência.</em></p>



<p style="font-size:19px;line-height:0"><em>No que concerne ao valor, pouco vale –</em> </p>



<p style="font-size:19px;line-height:0.3"><em>Desprezam-na os tolos</em></p>



<p style="font-size:19px;line-height:0"><em>E por isso mais a amam os que sabem (JUNG, 1990, p. 199)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px;line-height:1.7">Na face anterior desta mesma pedra, Jung (1990, p.199) observou um entalhe que imaginou ser uma espécie de olho; ali esculpiu um Cabiro, era Telésforo<a href="#_ftn1" id="_ftnref1">[1]</a>, o qual usa um manto com capuz e uma lanterna. Nesta face da pedra inscreveu em grego:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>O tempo é uma criança – brincando como uma criança – sobre um tabuleiro de xadrez – o reino da criança. Eis Telésforo, que vaga pelas regiões sombrias deste cosmo e que brilha qual estrela se erguendo das profundidades. Indica o caminho das portas do sol e do país dos sonhos. (JUNG, 1990, p. 199)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-terceira-face-da-pedra-talhou-mais-uma-frase-tirada-da-alquimia-esta-face-era-voltada-para-o-lago" style="font-size:19px">Na terceira face da pedra talhou mais uma frase tirada da alquimia. Esta face era voltada para o lago:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Sou uma órfã, sozinha; entretanto, podem encontrar-me por toda a parte. Sou uma, mas oposta a mim mesma. Sou ao mesmo tempo “adolescente” e “velha”. Não conheci nem pai nem mãe, pois devem me ter retirado das profundezas como um peixe ou porque caí do céu, mas como uma pedra branca. Vagueio pelas florestas e montanhas, mas estou escondida no mais íntimo do homem. Sou mortal para cada um e no entanto a sucessão dos tempos não me atinge. (JUNG, 1990, p. 199)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Com estas frases, C. G. Jung deixou registrado como era estreita e intensa sua ligação com textos alquímicos, místicos e religiosos. Aqui aparece uma possível representação da pedra filosofal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-ainda-em-outra-pedra-uma-imagem-de-uma-serpente-com-um-peixe-com-a-respectiva-inscricao-em-latim-cuja-traducao-e" style="font-size:19px">Há ainda, em outra pedra, uma imagem de uma serpente com um peixe, com a respectiva inscrição em latim, cuja tradução é:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Por ter devorado um peixe muito grande, a cobra sufocou. Desta forma, ambos pereceram simultaneamente, para testemunhar que a missa (cristã) e o trabalho (alquímico) são a mesma coisa e não a mesma, ou seja, a sua morte é um acontecimento que coincide e corresponde aos meus pensamentos. Em memória deste evento, eu, C.G.J., coloco esta pedra no ano de 1933. (JOHNSON, 2025b)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Na base da torre de Bollingen, há outros desenhos e inscrições talhados, um dos quais o de uma ursa e de uma bola, cuja inscrição é a que segue: <em>The She-bear moves the mass</em><strong>. </strong>(JOHNSON, 2025a). Em livre tradução: a Ursa move a massa (a pedra). A face de mercúrio também está esculpida em uma pedra na base de sua torre em Bollingen (VON FRANZ, 1975, p. 193). Podemos pensar que esses símbolos &#8211; o peixe, a ursa, a serpente, a face mercurial – possivelmente apontam para um movimento de transformação da totalidade psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-a-aparicao-de-simbolos-da-totalidade-von-franz-amplia-nbsp" style="font-size:19px"><strong>Sobre a aparição de símbolos da totalidade, Von Franz amplia: &nbsp;</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Enquanto que na imagem do anthropos, como símbolo do Self, acentua-se a unidade subjacente de todos os seres humanos, no simbolismo dos mandalas e da pedra filosofal acentua-se a unidade de toda a existência cósmica – como um fundamento irrepresentável do mundo. Uma experiência genuína do unus mundus era que sempre esperada no passado como um acontecimento que só ocorreria na hora da morte ou depois da morte. (VON&nbsp; FRANZ, 1975, p.200)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Jung (1990, p.257) nos diz: <em>“(&#8230;) a vida é este fragmento da existência, que se desenrola num sistema universal de três dimensões com essa finalidade específica”</em>. A pedra &#8211; na nossa simplista visão de mundo em que o tempo é uma sucessão cronológica &#8211; é inerte, é inabalável, quase como se não ocorressem transformações; e vista a partir da efemeridade de nossa existência, é passado, presente e futuro.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Jung, as Pedras e o Unus Mundus&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/MtwxgK2wxrM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristina-lunardi-munaretti/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristina-lunardi-munaretti/">Cristina Lunardi Munaretti – Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p>ABT, Theodor. <em>Introduction to Picture Interpretation – According to C.G. Jung.</em> Living Human Heritage Publications: Zurich, 2005.</p>



<p>CUNNINGHAM, Scott. <em>Enciclopédia Cunningham de magia com cristais, gemas e metais.</em> São Paulo: Madras, 2019.</p>



<p>HALL, Judy. <em>A Bíblia dos cristais: o guia definitivo dos cristais.</em> São Paulo: Pensamento, 2008.</p>



<p>JOHNSON, Christiane Brooks. <a href="https://pcooperwhite.wordpress.com/2013/10/25/snake-stone-at-bollingen/">Snake Stone at&nbsp;Bollingen</a>. <em>WordPress.com</em>, 2013. &nbsp;Disponível em <a href="https://pcooperwhite.wordpress.com/2013/10/25/snake-stone-at-bollingen/comment-page-1/">https://pcooperwhite.wordpress.com/2013/10/25/snake-stone-at-bollingen/comment-page-1/</a>.&nbsp; Acesso em: 26 set. 2025a</p>



<p>______The She-Bear Who Keeps the World&nbsp;Rolling.WordPress.com, 2013. Disponível em https://pcooperwhite.wordpress.com/2013/10/25/the-she-bear-who-keeps-the-world-rolling/#:~:text=One%20of%20the%20lesser%20known,of%20Telesphorus%20inside%20the%20tower. Acesso em: 26 set. 2025b</p>



<p>JUNG, C.G. <em>Memórias, Sonhos e Reflexões.</em> 13.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.</p>



<p><em>______Psicologia e Alquimia</em> (OC 12). 6.ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p>______ <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>(OC 9/1). 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p>______<em>O Livro Vermelho: Edição sem ilustrações</em>. 4.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p>O LIVRO DOS SÍMBOLOS – Reflexões Sobre Imagens Arquetípicas. Eslováquia: Taschen, 2012.</p>



<p>VON FRANZ, Marie-Louise. <em>Alquimia – Introdução ao Simbolismo e à Psicologia.</em> São Paulo: Cultrix, 1980.</p>



<p>______<em>C.G. Jung Seu Mito em Nossa Época.</em> São Paulo: Cultrix, 1975.</p>



<p>______<em>Os sonhos e a Morte: Uma visão da Psicologia Analítica sobre os Múltiplos Simbolismos do Estágio Final da Vida.</em> São Paulo: Cultrix, 2021.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a>Telésforo é um deus da mitologia grega (também conhecido por <em>Telésphorus</em>), relacionado à convalescença e recuperação de doenças. Era filho de Asclépio, deus da medicina. Simbolizado por um anão, cuja cabeça estava sempre coberta por um capuz.</p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="960" height="540" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-1.png" alt="" class="wp-image-11890" style="width:665px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-1.png 960w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-1-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-1-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-1-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-1-450x253.png 450w" sizes="(max-width: 960px) 100vw, 960px" /></figure>



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			</item>
		<item>
		<title>O Ritmo Lento da Transformação: A Porta Oculta e a Síntese da Ave-Preguiça</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-ritmo-lento-da-transformacao-a-porta-oculta-e-a-sintese-da-ave-preguica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Monica Martinez]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Dec 2025 00:12:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[animus]]></category>
		<category><![CDATA[cgjung]]></category>
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		<category><![CDATA[fases alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[processo de individuação]]></category>
		<category><![CDATA[psicologiaanalitica]]></category>
		<category><![CDATA[PsicologiaJunguiana]]></category>
		<category><![CDATA[transformação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este artigo parte da análise de um sonho para desvelar um momento de transição psíquica. O símbolo central, um bichinho híbrido (ave e bicho-preguiça) no ninho, pode representar a função transcendente, que exige a síntese entre a visão elevada (Apolo) e o ritmo orgânico (Dionísio), contrariando o ativismo compulsivo. O dilema de sacrificar os [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:20px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo parte da análise de um sonho para desvelar um momento de transição psíquica. O símbolo central, um bichinho híbrido (ave e bicho-preguiça) no ninho, pode representar a função transcendente, que exige a síntese entre a visão elevada (Apolo) e o ritmo orgânico (Dionísio), contrariando o ativismo compulsivo. O dilema de sacrificar os seios (Eros) em prol da liberdade de ser um homem (Animus) revela o conflito entre nutrição e autonomia. A resolução ocorre na alquímica <em>Solutio</em>, quando a rigidez do Ego (o portão fixo) se dissolve, revelando uma Porta Oculta. O processo de individuação aponta para a humildade de desconfiar da própria inflexibilidade, permitindo que a nova atitude, lenta e sábia, se manifeste.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-sonho" style="font-size:20px"><strong>O Sonho</strong></h2>



<p style="font-size:20px">Estou com uma amiga (professora da USP). Ela me mostra um bichinho que tem. Ele está numa espécie de ninho. Eu olho e digo que algo mudou quando aquele bichinho chegou. Ela concorda e olhamos para o bichinho, que parece ser um misto de ave e bicho-preguiça.</p>



<p style="font-size:20px">Estou numa casa grande e um pouco escura. Converso com um homem. Ele comenta a conversa que teve com outro homem, mais desleixado, que disse que ele estava bem vestido. O homem ri e explica que era porque ia trabalhar mesmo no dia de folga.<br>Olho para ele e penso que daria uma parte de meu corpo para poder estar na pele de um homem, pois sabia que eles agiam de forma diferente na frente de mulheres e entre homens. Não consigo decidir qual parte seria esta. Olho para meus seios, firmes e morenos, bonitos e ornados com um colar, e penso que preciso deles para dar colo.<br>Estou na frente da casa, na calçada, e me apoio numa parte do portão que julgava fixa. Ele se abre para eu entrar, revelando uma porta que eu não imaginava existir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-funcao-prospectiva-do-sonho" style="font-size:20px"><strong>A Função Prospectiva do Sonho</strong></h2>



<p style="font-size:20px"><strong>O sonho não apenas reflete o estado atual da psique, mas aponta para a atitude futura necessária à individuação</strong>. Em termos simbólicos e alquímicos, pode revelar um momento de profunda renegociação entre Logos, Animus e Eros, sugerindo a emergência de um novo ritmo de ser, a partir do trabalho analítico da associação e ampliação simbólica dos seus elementos.</p>



<p style="font-size:20px">O cenário se inicia com o Ego na esfera do Logos, representado pela amiga professora — um ambiente de alta intelectualidade e exigência social. Nesse contexto, a função transcendente se manifesta no símbolo central: o bichinho híbrido, aninhado, como uma fórmula do Self para a transformação.</p>



<p style="font-size:20px">A ave representa a esfera superior, o espírito, a intuição, a clareza e a luz — o princípio Apolíneo, o voo do Logos em busca da ordem superior. O bicho-preguiça, por outro lado, evoca a quietude, o ritmo orgânico, a conexão com a Terra e a entrega ao fluxo instintivo — o princípio Dionisíaco.</p>



<p style="font-size:20px"><strong>O ninho é o receptáculo, o vaso alquímico onde a nova atitude é gestada</strong>. A síntese que emerge indica que o Self exige um Logos temperado pelo tempo interno, uma visão elevada que se manifesta com paciência e aterramento — um antídoto à compulsão pela produtividade e ao ativismo desenfreado. O crescimento autêntico deve ser lento e orgânico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-conflito-alquimico-calcinatio-e-o-dilema-do-animus" style="font-size:20px"><strong>O Conflito Alquímico: <em>Calcinatio</em> e o Dilema do Animus</strong></h2>



<p style="font-size:20px">O sonho prossegue com a manifestação do Animus projetado na figura de um homem que trabalha no dia de folga, representando uma sombra da compulsão e da negação do descanso.</p>



<p style="font-size:20px">O ponto de <em>Calcinatio</em> — a queima da atitude rígida — reside no desejo de sacrificar uma parte do corpo (os seios) – como a figura da Amazona que o amputa para manejar melhor o arco e a flecha – para conquistar a liberdade e autenticidade do Animus. Este é um dilema arquetípico: integrar o Animus (ação, Logos) sem castrar ou mutilar o Eros (relação, nutrição, acolhimento).</p>



<p style="font-size:20px">O Self intervém na hesitação: o Eros da sonhadora está em plenitude e não deve ser desmembrado. A liberdade de ação não precisa custar a capacidade de acolhimento; <strong>é possível integrar a força do Animus sem renunciar à riqueza do Eros</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-porta-oculta-solutio-e-a-redencao-da-rigidez" style="font-size:20px"><strong>A Porta Oculta: <em>Solutio</em> e a Redenção da Rigidez</strong></h2>



<p style="font-size:20px">A resolução, típica da <em>Solutio </em>alquímica, acontece quando o Ego se apoia no portão que julgava fixo — símbolo da rigidez defensiva — e este se abre, revelando uma porta invisível anteriormente.</p>



<p style="font-size:20px">O toque do Self é claro: o caminho para a &#8220;casa grande e escura&#8221; (o inconsciente a ser iluminado) não está na barganha dolorosa ou no esforço da vontade, mas na humildade e na confiança. A Porta Oculta é o reconhecimento de que a rigidez do Ego é uma barreira que bloqueia a passagem. O suporte estava presente o tempo todo, mas invisível à percepção.</p>



<p style="font-size:20px">O sonho convida a confiar na fluidez do processo e no ritmo orgânico da ave-preguiça. A verdadeira liberdade é agir a partir da quietude, não da compulsão. Ao abandonar a exigência de sacrifício e a rigidez do portão, a sonhadora adentra o vasto território do Self, onde a integração entre Eros e Logos, Apolo e Dionísio, pode ser sustentada pela alma.</p>



<p style="font-size:20px"><strong>Esta jornada onírica serve como guia: para se libertar, é preciso desacelerar, confiar na força do que nutre e abandonar a crença de que a Porta da Iniciação exige sempre um preço alto.</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📄Artigo novo: &quot;O Ritmo Lento da Transformação: A Porta Oculta e a Síntese da Ave-Preguiça&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/lfT_PwUrF1M?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/monicamartinez/">Monica Martinez – Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br"><strong>www.ijep.com.br</strong></a></p>



<p></p>
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		<item>
		<title>A Alquimia da Escrita</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-alquimia-da-escrita/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dimas Künsch]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 May 2024 12:22:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[escrever]]></category>
		<category><![CDATA[escrita criativa]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vale também para a escrita, eu imagino, o que se pode dizer de toda criação humana: há escrita com e sem alma. A boa escrita aciona uma conversa animada da consciência com o inconsciente, da ilha com o oceano. Criativa e compreensiva em seus propósitos e em suas estratégias, a boa escrita se deixa afagar pela arte. Institui um cosmos possível de sentidos em um lugar da vida onde, sem a alquimia do “laboratorium”, o que resta é o caos – como convite, como desafio. Mais do território da poética que da técnica, a escrita pode ser terapêutica. Arteterapêutica!</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><mark style="background-color:rgba(0, 0, 0, 0)" class="has-inline-color has-dark-gray-color">Vale também para a escrita, eu imagino, o que se pode dizer de toda criação humana: há escrita com e sem alma. A boa escrita aciona uma conversa animada da consciência com o inconsciente, da ilha com o oceano. Criativa e compreensiva em seus propósitos e em suas estratégias, a boa escrita se deixa afagar pela arte. Institui um cosmos possível de sentidos em um lugar da vida onde, sem a alquimia do “<em>laboratorium</em>”, o que resta é o caos – como convite, como desafio. Mais do território da poética que da técnica, a escrita pode ser terapêutica. Arteterapêutica!</mark></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-escrever-e-um-ato-decente-ou-indecente">Escrever é um ato decente ou indecente?</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Este foi o tema de uma conversa entre o Sócrates do “conhece-te a ti mesmo” e Fedro, um dos amigos dele, numa bela manhã de verão, à sombra de um plátano na beira do rio Ilissos, fora dos muros da cidade de Atenas.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>A escrita é indecente, responderia Sócrates, sem pestanejar.</strong></p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Melhor não escrever nada! Nunca.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Interrompendo por um momento a conversa, a pergunta que já desde este início nos interessa é a seguinte: sob o ponto de vista da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, o que poderia ser uma escrita decente… ou indecente?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Um ponto de vista, como se sabe, é a visão a partir de um ponto. Representa uma escolha.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Escolher o ponto de vista alquímico da alma humana não significa desprezar os lados técnico, estético e ético de toda escrita. Simbolicamente, no entanto, estamos convidando para compor essa trindade sagrada – técnica, ética e estética – um personagem da mais elevada beleza e relevância: a alma!</p>



<p style="font-size:18px">Quaternidade.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Melhor do que trindade, como ensina Jung.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Um símbolo mais completo da totalidade.</p>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-demonio-interior" style="font-size:20px">Um demônio interior</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Coerente com seu modo de pensar, Sócrates não deixou nada escrito ao longo de toda sua vida. Abominava simplesmente a ideia de escrever algo. Seria indecente fazê-lo, pensava.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Pelas ruas e praças de Atenas e também pelos corredores do movimentado mercado da cidade, Sócrates preferia provocar as pessoas a olharem para dentro de si mesmas, inspirado até a medula no lendário “conhece-te a ti mesmo”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E ele provocava de verdade as pessoas. Provocava uma cidade-estado inteira: “Sou uma mutuca”, ele dizia de si mesmo. A égua era Atenas… E tome picada!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O aforismo “conhece-te a ti mesmo” estava inscrito na entrada da nau do templo de Apolo, em Delfos.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E é aqui que a filosofia – o “amor à sabedoria” – abraça amorosamente o mito; a consciência, o inconsciente; o masculino, o feminino… <em>Mysterium coniunctionis</em>!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-belos-tempos-aqueles-em-que-o-logos-abracava-compreensivamente-o-mito-em-que-a-razao-nao-havia-sido-ainda-atacada-pela-doenca-do-racionalismo-moderno" style="font-size:20px">Belos tempos aqueles em que o logos abraçava compreensivamente o mito! Em que a razão não havia sido ainda atacada pela doença do racionalismo moderno.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-que-o-logos-nao-virava-a-cara-emburrado-para-o-dia-logos" style="font-size:20px">Em que o logos não virava a cara, emburrado, para o dia-logos!</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Quais irmãos que às vezes não se bicavam, <em>logos </em>e <em>mythos </em>coexistiam e, em tempos de vacas gordas do espírito, conseguiam sem muitos pudores e na maior alegria se abraçar.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O diálogo – sempre tenso, vamos combinar – entre logos e mito, como se pode imaginar, tornava mais fácil o comércio com os conteúdos do vasto mundo do inconsciente humano.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-tensao-faz-parte" style="font-size:20px">A tensão faz parte.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo como o grande universo – multiverso – frequentado por deuses e demônios os mais diversos, as mais diversas.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Divertidamente diversos.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O inconsciente como o mundo coletivamente humano de onde saltam para a vida os conteúdos de nossos sonhos e de nossas esperanças, representados por símbolos – também os mais diversos – que nos visitam por meio dos mitos, das artes, das religiões, tanto quanto das sabedorias cotidianas, algo assim como as artes do saber viver…</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Um mundo onde cabe também, com todo respeito – mas, ai, como às vezes é difícil! –, o bom convívio com as ciências e com as técnicas; com a razão, o método, a régua e o esquadro.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Compreensão!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O abraço dos sentidos!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Saber colocar um “e” em lugares nos quais a nossa vã filosofia ama, adora o tempo todo colocar um “ou”, violentamente, arrogantemente.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Voltando à história de Sócrates – da mutuca e da égua –, quem o tinha mandado ser como era, dizer o que dizia, fazer o que fazia?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Bem feito! Merecia morrer!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Foi o Deus, responderia Sócrates aos seus acusadores, no grande Tribunal da Mentira.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Sócrates era movido por um <em>daimon</em>, uma força transcendente que se apossa da gente, vamos dizer assim, se a gente abre espaço para essa força agir!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E, então, coisas do arco da velha podem acontecer.</p>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-escrita-como-pharmakon" style="font-size:20px">A escrita como ‘phármakon’</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A propósito, na conversa com Fedro, Sócrates recorre mais uma vez e com muita naturalidade ao mito, quando lembra o Egito antigo e cita “um dos velhos deuses daquele país” – o deus Toth.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Deus de múltiplas qualidades e portador de muitos títulos, um inventor de primeira, a tradição mítica atribui a Toth, entre tantas outras maravilhas, a invenção da escrita.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Todo feliz, nosso deus sempre muito criativo, como costumava fazer, vai ter com o poderoso Amon com o baú cheio de novas artes.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">– Artes que, veja bem, Grande Amon, com todo o respeito, precisam ser ensinadas aos egípcios!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Toth estava, de verdade, <em>entusiasmado</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tinha-um-deus-dentro-de-si" style="font-size:20px">Tinha um deus dentro de si!</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tinha-um-demonio" style="font-size:20px">Tinha um demônio!</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Foram muitas as perguntas que teve que escutar, dirigidas a ele pelo deus Sol, a respeito da utilidade de todas aquelas artes.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Na hora de falar da escrita e dos encantadores hieróglifos que inventou, Toth caprichou no argumento:</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">– Esta arte, meu caro rei, tornará os egípcios mais sábios e lhes fortalecerá a memória. Portanto, com a escrita, inventei um grande auxiliar para a memória e a sabedoria.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Toth falava da técnica da escrita!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Falava bem: uma bênção!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O deus-rei, no entanto, não apreciou o que ouviu.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Aliás, odiou.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A escrita – ele sentenciou – tornaria os egípcios esquecidos. Mais ainda do que isso, eles se tornariam uns preguiçosos, onde já se viu?!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Os egípcios, por meio da escrita, sempre na visão de Amon, deixariam de cultivar a memória. Eles passariam a confiar apenas nos livros escritos. Só se lembrariam de um assunto por terem visto algo escrito sobre ele, em algum lugar externo, e não a partir de si mesmos.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E não a partir de dentro, do mundo interior.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E não a partir da alma, poderíamos dizer.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Toth, ainda segundo o deus-rei, podia até ter inventado um auxiliar para a recordação. Mas não para a memória.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E Amon continuou, expressando-se no seu modo divino de falar:</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">– Transmites aos teus alunos uma aparência de sabedoria, e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber, embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em consequência, serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Aparência de sabedoria!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Sábios imaginários!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Ignorantes ignorantes, diria Sócrates: uns verdadeiros sofistas!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E não ignorantes sábios, ou filósofos!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-suma-amon-via-a-tecnica-como-ameaca-uma-possivel-maldicao" style="font-size:20px">Em suma, Amon via a técnica como ameaça, uma (possível?) maldição!</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Qual Martin Heidegger dos tempos antigos, Amon parecia antecipar o que o filósofo alemão deixaria registrado em seu ensaio sobre “A questão da técnica”, de 1952. “A essência da técnica não é técnica”, escreveu Heidegger, provocando à reflexão. Convocando as mentes críticas ao gesto sagrado da “devoção do pensamento”!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Aliás, no texto “<a href="https://blog.sudamar.com.br/pegaso-crisaor-jung-heidegger/">Toth e a Inteligência Artificial</a>”, de minha autoria, você encontra um pouco mais sobre o tema da técnica e a visão de Heidegger a respeito do assunto. O ponto de partida, lá como aqui, é a história de Toth e a crítica à técnica da escrita.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A história que estou contando sobre a decência ou a indecência da escrita encontra-se no diálogo <em>Fedro</em>, um dos mais famosos de Platão, uma espécie de prolongamento do <em>Banquete</em>. Em ambos, a conversa altamente filosófica gira em torno do amor.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Mas, nesse ponto, no <em>Fedro</em>, o assunto é a escrita.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Uma indecência, na opinião de Sócrates!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Um enorme risco para a inteligência humana, pontificou Amon.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Viva Amon e abaixo Toth?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Calma!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-toth-faz-e-ver-na-escrita-um-auxilio-um-remedio-uma-cura-e-o-lado-positivo-do-que-o-termo-grego-pharmakon-indica-o-lado-bendito" style="font-size:19px">O que Toth faz é ver na escrita um auxílio, um remédio, uma cura: é o lado positivo do que o termo grego <em>pharmakon </em>indica. O lado bendito!</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pode-fazer-viver" style="font-size:19px">Pode fazer viver.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-amon-por-sua-vez-enxerga-na-mesma-escrita-o-outro-lado-do-que-pharmakon-tambem-evoca-em-vez-de-auxilio-uma-droga-lixo-maldicao" style="font-size:19px">Amon, por sua vez, enxerga na mesma escrita o outro lado do que <em>pharmakon </em>também evoca: em vez de auxílio, uma droga. Lixo. Maldição.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pode-matar" style="font-size:19px">Pode matar.</h2>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alias-engracada-e-a-historia-de-platao" style="font-size:20px">Aliás, engraçada é a história de Platão…</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Discípulo de Sócrates e fundador da Academia, a primeira grande escola filosófica de Atenas, ele andava sempre dizendo a todo mundo que escrever era, sim, indecente! Como o mestre, aliás, havia ensinado.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Mas Platão desandou a escrever, e não parou mais.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Contraditório?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Não, responderia Platão, autor de tantos e tão famosos diálogos!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Ele se defendia, dizendo só ter escrito o que o grande Sócrates havia falado.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Kkkkk!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Conta-se que, certa vez, ele teria escrito uma carta a um amigo com uma anotação, no final: leia, e depois queime, por favor!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Vai saber.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Por essas e outras é que Jung, que tantos e tão férteis diálogos traçou com o pensamento platônico, achava o fundador da Academia um tanto “avoado”. Parecia às vezes viver meio que “no mundo da lua”.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Bendito Platão, no entanto, o autor dos diálogos socráticos!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Bendita escrita!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Ou maldita escrita?</p>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-symbolum-e-diabolus" style="font-size:20px">‘Symbolum’ e ‘diabolus’</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Bênção ou maldição. Simples assim?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Não, não é simples.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É mais movimentado, dinâmico e interessante do que simples.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É mais divertido, até.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Porque não pode haver de verdade nada de simples em tudo aquilo que nós humanos imaginamos, desenhamos, criamos, produzimos.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Atravessada da cabeça até a ponta dos pés pelas promessas iluminadas, tanto quanto pelo lado noturno de nossa natureza, a cultura humana é sempre assim: dual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-ha-outro-jeito-e-nao-e-bem-assim-que-se-possa-dizer-e-o-que-temos-para-hoje" style="font-size:20px">Não há outro jeito, e não é bem assim que se possa dizer: é o que temos para hoje.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Porque é o que tivemos para ontem, o que temos para hoje e o que teremos para amanhã. Há que se negociar o tempo todo com os opostos em nós e no mundo em que nos foi dado viver. Outra condição humana não há.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Assustador?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Sim, não é?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Mas humanamente maravilhoso, também, você não acha?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Ambivalente como o próprio Toth – que às vezes é deus da vida e outras é deus da morte –, o humano existir se deixa compor em muitos sentidos por diversos graus de promiscuidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desse-modo-a-pergunta-sobre-quem-tem-razao-se-amon-ou-toth-nao-e-boa" style="font-size:20px">Desse modo, a pergunta sobre quem tem razão, se Amon ou Toth, não é boa.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-pessima" style="font-size:20px">É péssima.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-pobre-porque-divide-separa-funcao-da-consciencia-o-que-precisa-ser-visto-em-sua-unidade-ainda-que-paradoxal" style="font-size:20px">É pobre, porque divide, separa – função da consciência! – o que precisa ser visto em sua unidade, ainda que paradoxal!</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Dividir e separar, no fundo e no raso, é coisa do diabo: <em>diabolus</em>!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O <em>symbolum</em>, por sua vez, une, junta, mesmo deixando vivos os cheiros e as cores – às vezes o fedor – do paradoxo!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Assim, entre Amon e Toth, você poderia dizer que ambos ou que nenhum deles tem razão. Precisa, aí, nesse caso, diria Jung, de um <em>tertium non datur</em>, uma função transcendente…</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Levante o olhar!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Integrar ou não integrar: <em>that’s the question</em>!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Necessitamos de um símbolo, ou de vários símbolos que nos permitam sair da enrascada.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Símbolos redentores.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Não se trata, portanto, de buscar solucionar o conflito pela via do recurso ao ato diabólico. Dá ruim. Coisa de gente doida, diria Jung!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Literalmente.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Uma ideia muito besta, essa de a gente imaginar-se num mundo encantado e paradisíaco de perfeição, sempre e em todo canto, divinamente maravilhoso.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Ai, como isso é doentio!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-viva-o-antidepressivo-o-ansiolitico-uma-dependencia-licita-ou-ilicita-qualquer-nossa-como-a-industria-da-medicacao-fica-feliz-demonicamente-feliz" style="font-size:21px">Viva o antidepressivo, o ansiolítico, uma dependência lícita ou ilícita qualquer! Nossa, como a indústria da medicação fica feliz. Demonicamente feliz!</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Falando nisso, vale muito a pena ver com carinho e bastante atenção o vídeo “<strong><a href="https://www.youtube.com/watch?v=9ozcHpOzn5M&amp;t=5s">Sociedade antidepressiva</a></strong>”, de Waldemar Magaldi, no canal do Youtube do IJEP. <strong>Mein Gott, diria a minha avó! A coisa está feia</strong>.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O humano existir, ao contrário disso, nos convoca a levarmos a vida para a frente, na arte e graça de ver e sentir complementaridades lá onde a pequena razão (Nietzsche) só enxerga a triste sina dos opostos que se opõem, nesse eterno jogo nojento de perde-e-ganha, de vencedores e vencidos, segundo a máxima de Hobbes, <em>bellum omnia omnes</em> (a guerra de todos contra todos).</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Ou do <em>homo hominis lupus</em> (o homem como lobo do próprio homem).</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É da guerra dos opostos que nasce a mais perfeita harmonia! – proclama Heráclito, filósofo pré-socrático.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Essa é a guerra boa de ser guerreada, na visão do mito, da filosofia e, também, da Psicologia Analítica.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><em>Enantiodromia</em>!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Uma guerra que se deixa traduzir pela expressão “busca de sentido de viver”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Individuação.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“Não vim trazer a paz, mas a guerra”, diz Jesus, o Cristo, símbolo maior do Si-mesmo na mandala do Ocidente, como entendia Jung.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">De novo é o mito que comparece: a deusa Harmonia é filha de Ares (Marte), o deus da guerra, e de Afrodite (Vênus), a deusa do amor.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Jung fez uma verdadeira festa com essa ideia, ao assumi-la como um dos eixos básicos de sua concepção de energia psíquica, de desenvolvimento da personalidade, de individuação: o tornar-se quem se é (de novo, Nietzsche).</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><em>Habentibus symbolum facilis est transitus</em>! Se você tem o símbolo, a travessia se torna fácil.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Uma deusa, um deus e outra deusa!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Harmonia, Ares e Afrodite.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E é assim, portanto – e de novo –, que o logos dialoga com o mito, o racional com o não-racional, o Ego com o inconsciente!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Transcender!</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“Traduzir uma parte na outra parte, que é questão de vida ou morte” – pergunta o poeta (Ferreira Gullar), em “Traduzir-se” – “será arte?”<br>O poeta pergunta, não responde.<br>Precisava responder?<br>Porque a resposta “é a desgraça da pergunta” </p><cite>Maurice Blanchot</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-compreender-e-diferente-de-explicar" style="font-size:20px">Compreender é diferente de explicar</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O <em>symbolum </em>abraça, no sentido latino de <em>comprehendere</em>, que é o que compreender originalmente de fato significa: juntar, integrar, colocar as coisas para conversarem entre si, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença…</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A meta: o casamento alquímico, que resulta mais da doidice (do inconsciente, do não-racional) que da farra do Ego!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Tão divino e maravilhoso, o Ego! Tão pequeno, porém. Ilha num imenso oceano.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Compreender não é o mesmo que explicar. É diferente.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Duas atitudes espirituais altamente nocivas se confrontam nesse duelo diabólico e infrutífero, que acontece quando um dos dois lados da equação maltrata, despreza, renega o outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dualismo" style="font-size:20px">Dualismo.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A unilateralidade, no campo onde o grito é pelo diálogo e pela integração, só pode ser do mal.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Filhos mal-aventurados da Explicação, com um Ego miseravelmente aferrado ao logos não-dialógico, temos uma dificuldade enorme de abraçar o mundo irreverente do inconsciente, com suas ameaças e suas promessas: o feminino, a mãe.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Não acolhemos, não damos colo, não nutrimos.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Porque a mãe é aquela que <em>compreende</em>, diz Jung, referindo-se justamente ao sentido etimológico de <em>comprehendere</em>.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Explicar. Explicar. Explicar.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><em>Ad nauseam</em>.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Uma indigestão explicativa!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Uma neurose das boas!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A morte do ato terapêutico da escrita!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Mais desordem ainda no caos!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A explicação torra a paciência do símbolo, o castra, afoga, mata.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Com a compreensão não é assim.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A compreensão – aquela que compreende – abraça a explicação, num “romance astral”, diria Raul Seixas, para lembrar “O trem das 7”, falando sobre o mal: “Ói, olhe o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Onde o casamento alquímico não é buscado – “o tesouro difícil de ser encontrado” – e muito menos acontece; onde o astro deixa de representar um delicado convite para olharmos para além da matéria, da coisa, do fenômeno, vem o <em>desastre</em>: do grego = má estrela. Do latim: <em>dis</em> + <em>aster</em>, <em>astrum </em>= “mau”, “contrário”, “inadequado” + “astro”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A escrita desastrosa?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Algumas notas interessantes sobre o método da compreensão aplicado à Psicologia Analítica, você encontra em “<strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/jung-e-a-heresia-do-metodo/">Jung e a heresia do método</a></strong>”, mais um texto de minha autoria.</p>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-imagem-da-cachoeira" style="font-size:20px">A imagem da cachoeira</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“A explicação adota geralmente uma visão unilateral, verticalizada, de cima para baixo, reducionista.”</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É o querido professor Edvaldo Pereira Lima quem diz isso, falando sobre escrita criativa. Ele busca em Jung a inspiração para tratar do tema. Um banho de imaginação ativa.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“A explicação” – ele continua – “mostra o mundo sob uma ótica única ou de pouca abertura.”</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A compreensão, por sua vez, “busca exibir o mundo sob perspectivas diversificadas. Mais do que isso, ilumina as conexões entre conteúdos aparentemente desconectados. Interliga dados, mostra sentidos, perspectivas”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A compreensão é mais divertida.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Lima dedicou desde sempre a vida ao estudo e à prática do jornalismo a que ele dá o nome de literário.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Deambulando com carinho e emoção pelo universo dos símbolos da compreensão, Lima gosta de pensar em namoro e casamento nessa área (entre jornalismo e literatura, entre ficção e não-ficção). Ele fala de simbioses; fala de arte, ética e estética, e também de técnica, por que não?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Coloca o racional para abraçar o não-racional.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Lima dedica páginas inteiras a temas como o da capacidade de simbolizar, de ser criativo, de assumir uma voz autoral, de cultivar um estilo próprio, de se lambuzar com a vida, de se deixar pautar pela ética…</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-contexto-lima-alerta-para-um-erro-que-nos-fazemos-demais-o-tempo-todo-alegremente-como-filhos-da-gulodice-da-explicacao-colocamos-o-carro-na-frente-dos-bois-na-hora-de-parir-um-texto" style="font-size:20px">Nesse contexto, Lima alerta para um erro que nós fazemos demais, o tempo todo, alegremente, como Filhos da Gulodice da Explicação: colocamos o carro na frente dos bois na hora de parir um texto.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-carro-no-caso-e-o-ego-o-racional-e-logico-o-metodo" style="font-size:20px">O carro, no caso, é o Ego, o racional e lógico, o método…</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muita-furia-explicativa" style="font-size:20px">Muita fúria explicativa.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A explicação, no entendimento de Jung, é de tipo redutivo-causal. Costuma se fixar nos porquês. Vive e morre querendo saber o porquê das coisas. Regride, em vez de avançar. Olha para trás – o que, aliás, pode ser muito importante –, mas erra redondamente quando fica presa nesse passado.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Com a compreensão não é assim, ainda na visão de Jung. A compreensão olha para a frente, ainda que muitas vezes com o olho no retrovisor. É de tipo prospectivo-sintético. Foca nos para-quês.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O signo da explicação tem demais a ver com essa mania de querer ter certeza e segurança o tempo todo, com essa compulsão pelo “by the book” da nossa cultura racionalista, doente porque unilateral, mutiladora das virtualidades da alma humana…&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É colocar o Ego na frente, no comando: “Marcha, soldado, cabeça de papel!”</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É editar, antes do jogo mágico da escrita…</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“Jorrar” é o verbo que Lima utiliza para o ato primeiro da escrita.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Primeiro deixar jorrar, e editar, e editar e editar, só depois!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A imagem é a da cachoeira: deixar jorrar “como água de cachoeira despencando do alto”, deixando fluir “suas emoções, suas impressões, suas sensações, suas informações”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-primum-vivere-deinde-philosophare-primeiro-viver-depois-filosofar" style="font-size:20px"><em>Primum vivere, deinde philosophare</em>. Primeiro viver, depois filosofar.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É possível aplicar também ao ato da escrita – qualquer escrita! – a sabedoria embutida nesse antigo adágio.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A Vida, em primeiro lugar, com inicial maiúscula!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><strong>O vigor</strong>.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><strong>O viço</strong>.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E não o vício do rigor – cruz-credo! –, que o rigor é importante, em alguns tipos de texto, mas não demais porque estraga!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E estraga bastante. Empobrece.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Nunca, mas nunca mesmo, o rigor pode vir à frente do vigor, do encanto, do embate difícil, mas necessário e promissor, com o mundo das loucuras do não-racional, loucuras loucas e loucas sabedorias!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><em>Habentibus symbolum!</em></p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E já que mencionei um pouco antes um método junguiano por excelência – o método da imaginação ativa –, não custa indicar mais um vídeo de Waldemar Magaldi sobre o assunto &#8220;<strong><a href="https://www.youtube.com/watch?v=zhl2CcY60VQ">Imaginação Ativa</a></strong>&#8220;, você vai gostar!</p>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-montaigne-prefere-ensaiar" style="font-size:20px">Montaigne prefere ensaiar</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Um dos gênios da boa escrita, Michel de Montaigne (1533-1592) preferia ensaiar: é o pai do ensaísmo moderno.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Montaigne criou o termo, e viu que era bom! E acabou despertando ao longo dos cinco últimos séculos a raiva dos Filhos das Luzes, esses pobres “sábios imaginários”, como a eles se referiu o deus egípcio Amon.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Cinco séculos antes de Edgar Morin, o pai do pensamento moderno da complexidade, o criador do gênero do ensaio dos tempos modernos atacava o <em>mainstream </em>intelectual de sua época, que, já antes de René Descartes (1596-1650), sabia fazer muita análise (dividir, separar) e pouca síntese (juntar, unir).</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Sábios imaginários que acabam produzindo aquilo&nbsp; que o francês do século 16, em diálogo com o francês do século 21, chamava de “picotamento do saber”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><em>Confusum est quidquid usque in pulverem sectum est</em>. Tudo o que é reduzido a pó torna-se confuso.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Hiperespecialização, como chama a atenção Morin.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Um desastre.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Saber sempre mais sobre cada vez menos – e sem conexão de umas coisas com as outras!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“As glosas aumentam as dúvidas e as ignorâncias”, escreve Montaigne. E, no entanto, era o que mais ele via acontecer já em seu tempo.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“Há mais trabalho em interpretar as interpretações do que em interpretar as coisas”, reclama Montaigne. “E mais livros sobre os livros do que sobre outro assunto: não fazemos mais do que glosar uns aos outros. Tudo fervilha de comentários, mas de autores há poucos.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ai-essa-doeu" style="font-size:20px">Ai, essa doeu!</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Onde foi que enterramos o estilo e a voz autoral, de que nos falou há pouco Lima?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Conversando amorosamente com os seus cálculos renais – quanto sofrimento! –, Montaigne ergue bem alta a bandeira da experiência, da vida que vem antes da filosofia, dos bois que é bom que fiquem à frente do carro, do vigor e do viço que pedem licença ao imperativo violento do rigor: “Eu sou a minha física, eu sou a minha metafísica”, ele dizia.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Experiência – nesse caso, não a do empirismo científico, mas a da vida, do <em>primum vivere</em>&nbsp; –, eis a palavra mágica, a palavra-chave do verdadeiro ensaio. Da boa escrita.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">De Montaigne aos mais importantes teóricos de nosso tempo que escreveram sobre o ensaio, todos são unânimes em reconhecer que o ensaio, esse Filho da Compreensão, haure sua força e encanto da experiência.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“No caso do ensaio” – afirma <strong>Vilém Flusser</strong> –, diferentemente do que esse autor chama de texto acadêmico ou de tratado, “viverei meu assunto e dialogarei com os meus outros. No primeiro caso [<em>o do tratado</em>], procurarei explicar meu assunto. No segundo, procurarei implicar-me nele”.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“No tratado o assunto interessa, no ensaio, <em>intersou </em>e <em>intersomos </em>no assunto. A decisão pelo tratado é desexistencializante.”</p></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O ensaio de Montaigne “Sobre a experiência” – de onde extraí as palavras dele que acabo de citar – é um dos mais lidos e apreciados de todos os que ele escreveu. Trata-se de uma espécie de manual – não de regras, mas de atitudes – de como se deixar atingir pelo “jorro da cachoeira” da boa, compreensiva e criativa escrita.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-segundo-mais-importante-ensaio-de-montaigne-e-sobre-os-canibais" style="font-size:20px">O segundo mais importante ensaio de Montaigne é “<strong>Sobre os canibais</strong>”.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Os “canibais” eram para todo mundo, lá na França de então, os índios brasileiros. Os franceses tinham levado alguns deles para o seu país, depois de haver fundado no Rio de Janeiro a sua França Antártica, pelos idos de 1555.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Montaigne, porém, em pleno século 16, ensaia uma compreensão diferente.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Montaigne não quer fazer a glosa da glosa. Ele quer fugir da bolha maldita da explicação violenta, associada sem exceção ao imperativo do poder.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Como uma voz quase completamente isolada frente ao coro das elites pensantes de então – incluindo a própria Igreja católica de Montaigne, na figura de seus papas, teólogos e canonistas –, o nosso ensaísta não nega que os indígenas possam ter lá os seus motivos para comer carne humana.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Mas canibais, de verdade mesmo, no pior sentido… eram os europeus!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-shakespeare-gostou-de-ler-o-ensaio" style="font-size:20px">Shakespeare gostou de ler o ensaio.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jean-jacques-rousseau-idem" style="font-size:20px">Jean Jacques Rousseau, idem.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Fundado sobre o princípio da liberdade do espírito, e livre, portanto, das amarras da escrita racionalizante e repleta de perversas certezas e violentas seguranças, o ensaio abre os olhos. Faz ver. Amplia a consciência.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">E mudar o olhar – coisa difícil para todo mundo –, nessa linha de pensamento, “é tudibão”,diria um mineiro.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Sabem por que vocês odeiam tanto o ensaio?, pergunta Adorno às elites pensantes da Alemanha de seu tempo, menos de dez anos depois de acabada a Segunda Guerra Mundial.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É porque vocês se dão mal com uma coisa chamada “liberdade de espírito”, responde.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O autor de “O ensaio como forma”, um texto clássico sobre o ensaio como método de escrita, se levanta contra o cientificismo e o cartesianismo de seus contemporâneos alemães.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Adorno é lapidar em sua conclusão: a heresia é a lei maior do ensaio.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Ensaístico, o texto criativo é herético – porque herético é o mundo da alma humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ir-ao-laboratorium" style="font-size:20px">Ir ao ‘laboratorium’</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">No parto alquímico do ato da escrita, a dor faz parte, e essa percepção nos situa justamente na contramão da perversão contemporânea representada pela negação pura e simples de toda dor: é proibido sofrer!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Como não sofrer, não se angustiar, não sentir algo assim como um frio na barriga, uma ansiedade qualquer?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Como desejar um parto natural sem dor na hora da escrita?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A perversão do “é proibido sofrer” se deixa inevitavelmente acompanhar pela doença do mimimi, da irresponsabilidade, do regredir e se fixar na idade que um dia foi, a da criança criança…</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-eis-a-receita-do-eterno-puer" style="font-size:20px">Eis a receita do eterno <em>puer</em>.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Eis o homicídio de toda possibilidade humana de criação, de arte, mito, religião, filosofia e ciência.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O que aqui neste texto se está querendo afirmar, não é que escrever seja fácil e indolor, uma pura beleza, algo quase tão simples como descascar uma banana e comê-la!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Não é.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Ordinariamente, não!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Mas a coisa fica pior – impossível até –, se esquecemos a imagem da água que jorra da cachoeira (Lima).</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Se não damos crédito à ideia da experiência de si e do mundo (Montaigne).</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Se não prestarmos a atenção que merece o&nbsp; apelo à heresia (Adorno).</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Se insistimos em colocar o carro na frente dos bois e não deixamos que se manifeste em toda a sua exuberância o que há de mais pleno e amplo em nós: o não-racional, o inconsciente como território de nossos sonhos e de nossas ilusões! De nossa relação com o maravilhoso, com o <em>mysterium </em>– <em>tremendum et fascinans</em>, como ensina Rudolf Otto.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Vamos ao <em>laboratorium</em>!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É o convite dos alquimistas.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">O <em>labor </em>criativo do<em> solve et coagula </em>se deixa inscrever no abençoado fascínio espiritual do <em>oratorium</em>: é coisa do espírito, como tão bem expressa Jung, em <em>O espírito na arte e na ciência</em>!</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4"><em>Ora et labora</em>, diz a máxima dos monges beneditinos.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Nessa luta, vamos, como sugere o alquimista Ostanes, às correntezas do Nilo, em busca da <em>lapis&nbsp; philosophorum</em>, “o tesouro difícil de ser encontrado”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">A pedra tem espírito (pneuma).</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“Toma-a, divide-a e enfia tua mão dentro dela para extrair-lhe o coração, pois sua alma (<em>psiqué</em>) reside em seu coração.”</p>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-meditatio-e-imaginatio" style="font-size:20px">‘Meditatio’ e ‘imaginatio’</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Filhos da Explicação como somos, apaixonamo-nos facilmente por um conceito ou uma definição.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-gostamos-demais-de-uma-regra-uma-tecnica-ou-uma-receita-qualquer-que-nos-prometa-a-va-seguranca-de-uma-cerca-ou-de-um-muro-em-lugares-onde-a-vida-esta-chamando-para-a-alegria-de-se-arriscar-se-jogar-se-entregar-ao-banho-nas-aguas-da-cachoeira" style="font-size:20px">Gostamos demais de uma regra, uma técnica ou uma receita qualquer que nos prometa a vã segurança de uma cerca ou de um muro, em lugares onde a vida está chamando para a alegria de se arriscar, se jogar, se entregar ao banho nas águas da cachoeira.</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“<strong>Nós nos contentamos, assim, de adquirir certos conceitos verbais</strong>”, diz Jung, “mas passamos ao largo de seu verdadeiro conteúdo, que consiste na experiência viva e impressionante do processo feito sobre nós mesmos”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">É nesse ponto que Jung dialoga com Montaigne: a experiência viva e impressionante de como a coisa se dá em nós mesmos, com nós mesmos. De como a coisa nos atravessa.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“Não devemos entregar-nos a nenhuma ilusão quanto a isto”, continua Jung: “nenhuma compreensão de palavras, nenhum artifício da sensibilidade podem substituir a experiência verdadeira”.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">No meio de toda a sua doidice, a sabedoria alquímica nos aponta o caminho das pedras, ou da pedra filosofal.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“Meditatio.”</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“Imaginatio.”</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">“Soliloquium.”</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Os caminhos da alma humana, de suas linguagens, de seus amores e dissabores, dos vapores e odores do vaso alquímico.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Escrever parece exigir bem mais do que aprender uma técnica: é abraçar compreensivamente o desafio de se confrontar consigo mesmo, com o Si-mesmo.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Mas, enfim, escrever é uma coisa decente ou indecente?</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Depende.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Sabe-se lá o que a gente escreve e como o faz.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Mas será sempre indecente se não formos às correntezas do Nilo.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Se não nos banharmos nas águas da cachoeira.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">Se não mergulharmos no vasto oceano do inconsciente, onde a vida pulsa em tom maior.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: &quot;A Alquimia da Escrita&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/kwOy4W6tfxo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/dimaskunsch/">Dimas Künsch &#8211; Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">ADORNO, Theodor. O ensaio como forma. In: COHN, Gabriel. <strong>Theodor W. Adorno</strong>. São Paulo: Ática, 1986, p. 167-187.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">FLUSSER, Vilém. Ensaios. In: <strong>Ficções filosóficas</strong>. São Paulo: Edusp, 1998, p. 93-98.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">HEIDEGGER, Martin. A questão da técnica. <strong>Scientiæ Studia</strong>, São Paulo, v. 5, n. 3, p. 375-98, 2007. Disponível em: http://www.scientiaestudia.org.br/revista/PDF/05_03_05.pdf. Acesso em: 1 maio 2024.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">JUNG, Carl Gustav. <strong>Mysterium coniunctionis</strong>. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2012 [OC 14/1].</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">JUNG, Carl Gustav. <strong>O espírito na arte e na ciência</strong>. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2012 [OC 15].</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">KÜNSCH, Dimas A. <strong>Compreender:</strong> indagações sobre o método. São Bernardo do Campo, SP: Editora Metodista, 2020.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">KÜNSCH, Dimas A. Toth e a Inteligência Artificial. <strong>Portal do IJEP</strong>. Disponível em: <a href="https://blog.sudamar.com.br/pegaso-crisaor-jung-heidegger/">https://blog.sudamar.com.br/pegaso-crisaor-jung-heidegger/</a>. Acesso em: 1 maio 2024.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">KÜNSCH, Dimas A. Jung e a heresia do método. <strong>Portal do IJEP</strong>. Disponível em: <a href="https://blog.sudamar.com.br/jung-e-a-heresia-do-metodo/">https://blog.sudamar.com.br/jung-e-a-heresia-do-metodo/</a>. Acesso em: 1 maio 2024.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">LIMA, Edvaldo Pereira. Da escrita total à consciência planetária. In: BRANDÃO, Carlos Rodrigues; ALESSANDRINI, Cristina Dias; LIMA, Edvaldo Pereira. <strong>Criatividade e novas metodologias</strong>. São Paulo: Peirópolis, 1998. [Série Temas Transversais, v. 4].</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">MAGALDI, Waldemar. Sociedade antidepressiva. <strong>Youtube</strong>. Disponível em: <a href="https://youtu.be/9ozcHpOzn5M?si=5ErFktn73W9aUuWc">https://youtu.be/9ozcHpOzn5M?si=5ErFktn73W9aUuWc</a>. Acesso em: 1 maio 2024.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">MAGALDI, Waldemar. Imaginação ativa. Youtube. Disponível em: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=zhl2CcY60VQ">https://www.youtube.com/watch?v=zhl2CcY60VQ</a>. Acesso em: 12 maio 2024.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">MONTAIGNE, Michel. <strong>Os ensaios</strong>.São Paulo: Companhia das Letras, 2010.</p>



<p>Foto: THALES CARRARO</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p>Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



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		<title>O tolo de ouro (ou “o homem que não enxergou ninguém”)</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-tolo-do-ouro-ou-o-homem-que-nao-enxergou-ninguem/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[José Luiz Balestrini Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jun 2022 14:57:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Depressão]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Felicidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O ouro é um dos símbolos mais marcantes que representam o si-mesmo, ou seja, a totalidade da psique. Partindo dessa afirmação, trago no presente texto uma ampliação simbólica de uma pequena história chinesa de autoria atribuída ao filósofo chinês Lao Tsé entitulada “O homem que não enxergou ninguém”. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Da janela digital do meu computador observo atentamente a busca inconsciente quase desesperada das pessoas por <strong>sentido</strong> e <strong>significado</strong> em suas vidas. Talvez, numa época em que a transparência exagerada não fosse algo tão presente no cotidiano do ser humano, fosse mais difícil perceber tal comportamento. Mas assim, com tudo exposto, publicado, compartilhado e reproduzido de maneira massificada na internet o tempo todo, a dificuldade é não ver. No entanto, <strong>paradoxalmente</strong>, o mais difícil é o que acaba acontecendo na prática: a maioria das pessoas passa de uma imagem para outra sem prestar a menor atenção no que elas representam em suas camadas mais profundas. A vitória é dos algoritmos, representantes fiéis da sociedade do consumo e da cultura de massas.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; C. G. Jung encontrou no texto alquímico chinês chamado <em>O segredo da flor de ouro</em> a correspondência simbólica para os processos de transformações psíquicas que ele mesmo vivia em seu mundo interior; a partir daí, continuou ampliando e amplificando as imagens alquímicas encontradas nos mais variados tratados. O ouro, que já aparece inclusive no título desse texto chinês, é um dos <strong>símbolos</strong> mais marcantes que representam o <strong>si-mesmo</strong>, a totalidade e o resultado da transformação psicológica que leva à criação de consciência e ao <strong>processo de individuação</strong>.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Podemos entender o ouro como o germe do “s<em>er-um-só”, </em>é o <em>aurum philophosorum</em>, a semente que dará origem à totalidade e da qual nascerá a ave de <em>Hermes</em> que pode ser comparada a uma fênix, símbolo do constante ciclo de morte e renascimento que precisamos experienciar de maneira repetida durante nossa existência terrena. Essa ave é formada a partir dos vapores que surgem do elixir do <em>lápis philosophorum </em>que pode transformar tudo em ouro. O ouro é a meta de toda <strong><em>opus </em>alquímica</strong> (JUNG, 2011a). Ele carrega a ideia de perfeição; é como se a <strong>numinosidade arquetípica</strong> se manifestasse em sua luz celeste e divina. Em chinês o ouro é chamado de <em>Kin</em>, que etimologicamente indica algo que seria produto de uma gestação lenta, de uma transformação e do aperfeiçoamento de algo. Encontramos o mesmo princípio na <strong>alquimia</strong> ocidental: “A transmutação é uma redenção, é a transformação do homem, por meio de Deus, em Deus” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1990, p. 669).</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A partir da ideia do ouro como representante <strong>simbólico</strong> do <strong>si-mesmo</strong>, vamos dar atenção à uma pequena história chinesa de autoria atribuída ao filósofo Lao Tsé:</p>



<p><strong><em>O homem que não enxergou ninguém<a href="#_ftn1" id="_ftnref1"><sup><strong><sup>[1]</sup></strong></sup></a></em></strong></p>



<p><em>Havia um homem no estado de Qi que desejava possuir ouro. Numa manhã ele se vestiu com sua melhor roupa e foi até o mercado local. Chegando na banca do comerciante de ouro, ele agarrou uma peça e correu como louco.</em></p>



<p><em>O policial que o prendeu perguntou: “Porque você roubou o ouro na frente de tantas pessoas?”</em></p>



<p><em>Ele respondeu: “Quando eu peguei o ouro eu não enxerguei ninguém. Tudo o que eu vi foi o ouro”. </em>(YANG, 1957, p. 21)</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Impressiona como um texto que data do século V a.C. ainda conte muito sobre o comportamento do ser humano contemporâneo, parece que aprendemos muito pouco durante esse tempo. Num breve exercício de ampliação, podemos brincar com a imagem dessa narrativa e encontrar correspondência com a vida da maioria das pessoas nos dias de hoje. A força <strong>arquetípica</strong> do ouro que, supostamente deveria ser encontrada de maneira simbólica no mundo interior, acaba projetada de maneira literal no mundo <strong>concreto</strong>. A peça de ouro que o personagem da história deseja possuir pode ser compreendida como a projeção do si-mesmo no mundo externo. Me parece que é exatamente esse o tipo de atitude que podemos observar em grande parte da população da sociedade contemporânea. Para além disso, nos dias de hoje, o ouro é transformado e confundido com as mais diversas conquistas que podem ser materiais ou até mesmo digitais. Podemos pensar em muitos exemplos, mas de uma maneira geral, mesmo os objetivos que podemos classificar como superficiais, têm por trás o desejo de <strong>poder</strong>, seja ele financeiro, econômico, social ou político.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Retomando a imagem da história, o homem, cego pelo desejo, não enxergou ninguém quando agarrou a peça de ouro. Aqui cabe a provocação: qual é ouro em nossas próprias vidas? O que temos como objetivo que nos cega fazendo com que não enxerguemos as pessoas à nossa volta? Será o dinheiro? O reconhecimento? Será o número de seguidores ou de visualizações nas redes sociais? Em qual &#8211; ou quais &#8211; objeto está projetado aquilo que só o verdadeiro autoconhecimento pode fazer surgir de maneira luminosa em nosso caminho? O ser humano se esconde atrás de valores ditados pela <strong>sociedade do consumo</strong>; encontra facilmente justificativas para as atitudes que o mantém longe do conflito ético e moral que precisa enfrentar para encontrar o verdadeiro caminho para o si-mesmo. “Esse é o meu ouro, tenho certeza!” diz a pessoa para esconder, na verdade, sua preguiça e seu medo de enfrentar o desconhecido e o sombrio que existem na sua própria psique. Quando desfazemos as <strong>projeções</strong>, somos obrigados a lidar com a realidade do mundo interior; só podemos fazer isso com disposição, prontidão e atitude para empreitar a <em>opus</em> de que tanto falaram os alquimistas.</p>



<p>Para a sociedade, nada é mais alienante e devastador do que esse comodismo e essa irresponsabilidade moral e, por outro lado, nada é mais provocante para a compreensão e a aproximação do que o abandono das projeções. Essa correção necessária requer autocrítica, uma vez que não se pode obrigar a alguém a entender suas projeções (JUNG, 2011b, p. § 577).</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diferentes comportamentos ilustram essa busca literal por algo que deveria ser uma <strong>transformação</strong> simbólica e mostram o absurdo, o exagero, o descomedimento e o desespero do qual eu falava no início desse texto me referindo à transparência exagerada, patológica e muitas vezes falsa da vida digital e digitalizada. Algumas pessoas chegam ao ponto de pagar valores exorbitantes para literalmente comer o metal. Através de uma busca simples na internet, podemos encontrar as mais diferentes receitas que levam ouro em seu preparo; encontramos desde cobertura de sorvete decorada com fios de ouro até churrasco folheado com o metal. As informações são as mais diversas e confusas sobre se isso faz bem ou não ao organismo, a maioria das pesquisas mostra que, aparentemente, ingerir o metal não tem efeito fisiológico algum, nem para o bem, nem para o mal. Porém, o mais importante para a nossa <strong>análise</strong> <strong>psicológica</strong> do fenômeno é que isto serve como mais um exemplo da <strong>literalização</strong> inconsciente em busca do si-mesmo e da imortalidade que esse metal representa: o ouro, por ser um metal que não oxida, é símbolo da vida eterna; condição almejada, simbolicamente, pelos alquimistas taoistas. Para aqueles de menor poder aquisitivo, que não podem se alimentar de ouro, resta tentar a sorte em outras projeções: no trabalho incessante e compulsivo; na esperança de ganhar, de uma hora para outra, uma grande quantidade de dinheiro; na atitude de roubar o ouro literal de outros etc. Obviamente, esses comportamentos não são exclusivos daqueles que não possuem poder financeiro para ingerir ouro, na sociedade de hoje, parece que a maioria age da mesma maneira, procurando compulsivamente fora algo que poderia ser encontrado dentro. Na minha visão, um comportamento que pode ser visto como um dos maiores expoentes dessa projeção se revela no vício nas redes sociais, onde, paradoxalmente, as pessoas perseguem a imortalidade em imagens mortas dos outros e de si mesmas.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O homem que busca o ouro fora de si torna-se um ladrão que rouba de si mesmo a possibilidade de transformação; a obtenção concreta do metal precioso não é o objetivo buscado pelos verdadeiros alquimistas porque, se a argila pode ser transmuta em ouro, então as duas coisas são uma só. Somos argila e ouro e através do processo alquímico que leva à <strong>transformação</strong> e à <strong>transmutação</strong> podemos transitar entre as duas condições. A matéria é ambivalente, portanto o próprio ouro é ambivalente, assim como <em>Hermes</em>:</p>



<p>Hermes, o iniciado, o condutor de almas, o mensageiro divino e o deus do comércio, é também o deus dos ladrões, significando assim a ambivalência do ouro” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1990, p. 671).</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Hermes é o deus do comércio e dos ladrões! Na história de que tratamos parece que ele tomou o partido do comerciante, mas talvez estivesse agindo à serviço da totalidade mostrando, através do revés, que algo precisava se tornar consciente na vida do larápio. Podemos dizer que a negação da possibilidade da experiência simbólica explicita na cegueira desejosa e literal do homem enfureceu o deus que o leva ao aparente infortúnio. Ele apanha o <strong>ouro</strong>, cego pela possibilidade de supostamente encontrar o si-mesmo, mas como não leva em conta a coletividade &#8211; não enxerga ninguém &#8211; acaba preso. Ora, sabemos que a jornada do herói só é completa quando o elixir mágico, ou seja, o tesouro conquistado, é oferecido para a coletividade. Do contrário o aventureiro não é herói, é apenas mais um ser identificado com o monoteísmo da consciência. Para o <strong>processo de individuação</strong> acontecer é preciso que seja oferecido uma contrapartida para a <strong>coletividade</strong> e tudo isso caracteriza um movimento contínuo que precisa ser repetido sempre e de novo. Afinal, falamos aqui de um processo dinâmico que não alcança a estase enquanto estivermos aprisionados em nossa dimensão corpórea, até a morte será preciso lidar com a sombra.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para encerrar esse pequeno ensaio, retomo a provocação proposta anteriormente: será que aquilo que buscamos em nosso cotidiano é uma expressão verdadeira do <strong>mito</strong> do nosso <strong>significado</strong> individual, ou será que somos apenas tolos correndo atrás de algum ouro enquanto não enxergamos as pessoas à nossa volta?</p>



<p>José Balestrini &#8211; Membro Analista do IJEP; Analista Didata em Formação do IJEP</p>



<p>Analista Didata Responsável &#8211; Waldemar Magaldi</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="O tolo de ouro (ou “o homem que não enxergou ninguém”) | José Balestrini" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/7wzZ86Pp6KE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p>Imagem utilizada para fins educacionais segundo a licença: HBR, CC BY 3.0 &lt;https://creativecommons.org/licenses/by/3.0&gt;, via Wikimedia Commons; pode ser encontrada em: <a href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Chinesischer_Goldbarren.JPG">https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Chinesischer_Goldbarren.JPG</a></p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><a href="#_ftnref1" id="_ftn1"><sup>[1]</sup></a> Essa é uma tradução livre do autor; o texto original em inglês pode ser encontrado no livro citado nas referências.</p>
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		<title>O Complexo Oppositorum da Natureza da Psique</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-complexo-oppositorum-da-natureza-da-psique/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jun 2022 13:42:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Neurociência]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psiquiatria]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[cérebro]]></category>
		<category><![CDATA[neurociência]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O cérebro, que é uma máquina viciante e unilateral, por ser regida exclusivamente pelo princípio do prazer e pela necessidade de segurança territorial, sempre irá valorizar a dimensão material e instintiva presente ancestralmente no animal primitivo em busca da Bio-Sobrevivência. Por outro lado, temos a alma, também chamada de psique, numa atitude opositiva e incomodativa [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O cérebro, que é uma máquina viciante e unilateral, por ser regida exclusivamente pelo princípio do prazer e pela necessidade de segurança territorial, sempre irá valorizar a dimensão material e instintiva presente ancestralmente no animal primitivo em busca da Bio-Sobrevivência. Por outro lado, temos a alma, também chamada de psique, numa atitude opositiva e incomodativa ao cérebro, que nos leva para a dimensão espiritual em busca da virtuosidade, possibilitando a instalação do princípio da governança servidora, que implica na descentralização do poder, na transparência e, acima de tudo, nas atitudes altruístas do servir para poder ser.Obviamente, por conta deste complexo oppositorum, entre a ditadura do cérebro, que funciona na polaridade binária, e a alma, é que surgem a angústia e todas as tentativas de alívio alienante, como medicações psicoativas, drogas ou fanatismos obsessivos, como ser medalha olímpica, ficar milionário, ser o mais belo ou o mais puro e fiel seguidor de qualquer religião.</p>



<p><br>Quando o cérebro domina o que surge é uma espécie de escravidão monotemática. Sem perceber, quanto mais o indivíduo deseja a riqueza, mais ele fica as voltas com a pobreza. Da mesma forma, quanto mais ele quer a cura, mas ele encontrará a doença. Porque o cérebro trabalha pela oposição e para evidenciar um lado na consciência, o outro também terá que ficar evidenciado no inconsciente.</p>



<p><br>Escrevo isso motivado pelo drama de uma mulher que atendo como analista junguiano. Ela sofre profundamente com as questões de território. Na sua fantasia paranoide, tudo e todos querem tirar seu poder. Obviamente já foi medicada e toma, como a grande maioria da população, antidepressivos, estabilizantes de humor e soníferos, mas como esses medicamentos tentam modificar o comportamento pela mudança bioquímica do cérebro, mas não são capazes de modificar as crenças, eles servem apenas como paliativos.</p>



<p><br>Enquanto a crença de que ela é um ser superior e inteligente, injustiçado e perseguido, porque ninguém consegue lidar com sua imaculada ética e infalibilidade, na sua capacidade de controle e planejamento, e por isso a desprezam, rejeitam ou excluem, jamais conseguirá sair desse complexo oppositorum sofrido e dramático.</p>



<p><br>Esse é o desafio da análise, porque até o analista é absorvido pelo complexo, correndo o risco de ser colocado na mesma dimensão do seu entorno relacional, que a discrimina e rejeita, criando um ciclo vicioso dominado pelo cérebro, que exigirá, cada vez mais, remédios, até que um colapso aconteça. Neste caso, a saída é parecida com o que aconteceu com a história bíblica de Jó, que teve que lidar com a ambivalência de Javé, ao ter que pedir ajuda a Deus contra o próprio Deus, porque esse é o drama tremendo e fascinante da dualidade humana, que é sagrada por excelência, porque Javé, assim como o Self, que é representante da totalidade psíquica, contém a dualidade e é representado pela imagem de Deus.</p>



<p><br>Para complicar um pouco mais, a mudança de atitude que possibilite a diminuição da autonomia do complexo, necessita do ato da vontade. Este, por sua vez, acontece pela influência do desejo, que representa o vazio ou a falta, produzindo mais um paradoxo, porque exige a aceitação da angústia como condição existencial. Como o cérebro sempre vai tentar criar padrões de repetição, em busca de prazer, segurança, gratificação e recompensa imediatos, com o menor esforço possível, as possibilidades viciantes são as mais frequentes. Com isso, toda a dimensão e potencialidade inconsciente acaba sendo negada pelo ego fascinado com a ilusão do poder e a equivocada sensação de controle e segurança advinda do padrão de repetição do complexo dominante.</p>



<p><br>O objetivo da análise é o de promover a diferenciação do ego, possibilitando a conscientização de que ele é, na perspectiva material do cérebro, uma realidade binária, linear, lógica, egoísta, temporal e finita, fazendo-o reconhecer e servir a existência da alma, que é única, complexa, relacional, criativa, analógica, altruísta, imaterial, atemporal e infinita. Isso irá contribuir para a conscientização da nossa condição plural e diversa e a existência dos nossos aspectos sombrios, fazendo-nos perceber que o perfeito e o absolutamente bom é uma ilusão, porque temos o lado oposto, antes dessa conscientização projetado no outro.&nbsp;</p>



<p><br>Estar consciente entre as polaridades não é tarefa fácil, porque o tempo todo somos forçados, pela dimensão biológica e material, para assumirmos posições unilaterais. A consequência dessa desintegração consciente para quem sucumbe a um dos lados é a de deixamos de viver simbolicamente, com alegria, diversão e criatividade, percebidas nas crianças saudáveis. Neste caso, no lugar do simbólico assumimos, inconscientemente, a vida diabólica, independente do lado da escolha, porque a unilateralidade nos deixa partidos e em conflito pela divisão, sem capacidade de amar, mas com muito desejo de controle e poder.</p>



<p>Photo by Gaspar Uhas on Unsplash</p>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Frozen 2: um conto alquímico</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/frozen-2-um-conto-alquimico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rafael Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Jun 2020 17:31:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[filmes]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Fiquei positivamente surpreso com o segundo filme de “Frozen: uma aventura congelante”. Não que o primeiro não tenha sua graça, mas especialmente o segundo me prendeu a atenção pelas diversas passagens que ilustram o processo de individuação pelo simbolismo da alquimia. Alerto aos que ainda&#160;não&#160;assistiram ao filme de que necessariamente este artigo contém spoilers.&#160; No [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Fiquei positivamente surpreso com o segundo filme de “Frozen: uma aventura congelante”. Não que o primeiro não tenha sua graça, mas especialmente o segundo me prendeu a atenção pelas diversas passagens que ilustram o processo de individuação pelo simbolismo da alquimia. Alerto aos que ainda&nbsp;não&nbsp;assistiram ao filme de que necessariamente este artigo contém spoilers.&nbsp;</p>



<p>No primeiro filme, o qual não me aprofundarei, Elsa, personagem principal, se liberta da persona de rainha “perfeita”, quando assume a sua magia, cantando a belíssima canção “Let it go” (Deixe ir), traduzida para o português como “Livre estou”, que também representa a ideia de libertação de algo. Mas para isso ela se isola, deixando o reino de Arendelle, herdado após a morte trágica de seus pais num acidente de navio. Para resgatá-la e tirá-la deste isolamento, partem Kristoff, um aldeão que coleta gelo, Sven, seu alce de estimação (ou seria uma rena?), Olaf, o boneco de neve que ganhou vida pela magia de Elsa, e a encantadora Anna, sua irmã que revela facetas óbvias para qualquer ser humano, mas curiosas quando observadas numa princesa da Disney: ela baba involuntariamente quando dorme, acorda descabelada, é bem desastrada e tem sardas na pele – algo tido até pouco tempo atrás como não compatível com a beleza estética do ponto de vista mercadológico. Anna guarda um amor incondicional pela irmã e, apesar de demonstrar ingenuidade em certas situações, é articulada e cheia de iniciativa.</p>



<p>No segundo filme, já devidamente reinstalada em Arendelle com sua trupe e assumindo publicamente sua capacidade mágica de gerar e moldar gelo, Elsa passa a escutar uma voz que introduz uma bela melodia. Ela questiona seus colegas e irmã para saber se também escutam, mas não, é um chamado para ela.</p>



<p>Dá-se então a canção tema do filme, a “Into the unknown” (Rumo ao desconhecido), traduzida para o português como “Minha intuição”. Na cena que permeia a canção, olhares mais atentos perceberão que são apresentados os quatro elementos: terra, fogo, água e ar. Tal como outros contos da Disney e seguindo a narrativa mítica do herói, num primeiro momento Elsa tenta ignorar a voz, se negando de ir rumo ao desconhecido, para depois entender que essa voz era um chamado.</p>



<p>A voz que Elsa escuta de maneira projetada, atribuída como uma voz do exterior, mas ouvida apenas por ela, pode ser entendida na visão junguiana que é potencialmente a “voz” do self, ou seja, algo em nós que nos convida a fazer um mergulho dentro do desconhecido. É por isso que apenas Elsa escuta a voz e mais ninguém. Aliás, tudo que é mostrado externamente no filme, parece configurar uma totalidade, ou seja, poderíamos pensar Elsa como o ego, e os outros personagens e locais como aspecto da psique da própria Elsa. A dúvida que pairava sobre a Elsa era: por que ela, filha de pais humanos e “normais”, possuía poderes mágicos? É como se o ego perguntasse: o que há além (ou antes) de mim?</p>



<p>Elsa não parte sozinha ao desconhecido, leva consigo Anna, Kristoff, Sven e Olaf. Num dado momento ela encontra uma massa densa de nuvens. O vento (ar) afasta as nuvens e ela adentra num espaço, que é a Floresta Encantada, local conhecido por ser “aonde a magia se origina”. Mas pouco se explica ali, e inesperadamente o fogo aparece. Ao mesmo tempo que atordoa e queima a floresta, o fogo estimula em Elsa o interesse por um aprofundamento em sua história pessoal. É na Floresta Encantada, e após o incêndio, que ela descobre que sua mãe salvou magicamente o seu pai de uma grande guerra quando eles eram jovens.&nbsp;</p>



<p>Ciente da inclinação mágica da mãe, Elsa continua sua jornada, ao saber que as respostas de suas dúvidas estariam num local além do mar, chamado Ahtohallan. Para isto ela se desvencilha de seus amigos e de Anna. Essa passagem é interessante, pois demonstra a responsabilização de Elsa pelo seu processo. Em termos junguianos, apesar da individuação ser uma meta, estimulada pelas sincronicidades e chamados do self, ela também precisa ser uma escolha consciente, que não pode ser feita por outro senão pelo indivíduo.</p>



<p>Em seguida uma das passagens mais marcantes acontece: Elsa precisa atravessar o mar com ondas violentas e gigantes para chegar em Ahtohallan. Ela se prepara para enfrentá-lo, tirando o laço do cabelo, tirando algumas peças de roupa e ficando descalça. Chama atenção o detalhe dela ficar descalça, pois parece um entrar em contato com a realidade, tocar genuinamente a situação, se colocar em pé, sustentada pelos seus próprios recursos, diante de um desafio tão grande.</p>



<p>Ao entrar no mar pela primeira vez, mesmo usando de seus recursos mágicos, congelando a superfície da água para atravessá-la, ela não obtém sucesso. Na segunda vez, surge um cavalo formado pela água. Eles travam uma luta, ele tenta afogá-la, mas em meio a este embate eles entram numa espécie de harmonia, e o cavalo que era seu inimigo, torna-se seu aliado, cavalgando por sobre as águas do temível mar, proporcionando a chegada em Ahtohallan.</p>



<p>Marie-Louise von Franz, menciona que&nbsp;<em>“A função inferior é como um cavalo que não pode ser domado”&nbsp;</em>(von Franz &amp; Hillman, 2016, Pág. 37). Neste contexto, von Franz se refere mais à tipologia inferior, aquela que faz oposição ao tipo psicológico dominante na consciência, e conclui dizendo que esse cavalo não deve ser adestrado, e sim respeitado. No filme, a Elsa precisamente doma o cavalo, mas ficará claro no decorrer do filme que eles chegaram à um bom termo, ou seja, ele não fica submisso a ela, mas sim ao lado dela. Pode ser adequado pensar no cavalo como o tipo psicológico inferior da Elsa, mas me parece que ele se apresenta como o psicopompo, ou seja, aquele que acompanha e guia a descida ao mundo interior.&nbsp;</p>



<p>De maneira geral, Elsa é uma princesa que rompe o padrão Disney, que é “salva” por um príncipe encantado. Isso até fez com que parte do público pedisse à Disney que colocasse Elsa como sua primeira princesa homossexual. Mas precisamos lembrar que em termos psicológicos, Jung nos apresenta a existência dos simbolismos arquetípicos do masculino e do feminino na psique humana, fazendo contraponto ao gênero de identificação na consciência. Esses arquétipos fazem oposição ao gênero identificado pelo ego. Ele chama de&nbsp;<em>anima</em>&nbsp;o simbolismo do feminino para o ego identificado com o gênero masculino e de&nbsp;<em>animus</em>&nbsp;o simbolismo do masculino para o ego identificado com o gênero feminino (Jung, 2013, v. 7/2). É também o animus (ou a anima) que faz simbolicamente a condução para o mundo interior. É ele que viabilizará entrada de contato com a nossa profundidade psíquica. Nesse sentido, o cavalo psicopompo que se apresenta a Elsa, é também uma potência do seu animus, que a conduz diretamente à Ahtohallan, auxiliando-a nesta travessia e aprofundamento.</p>



<p>Adicionalmente, este cavalo é composto de água e atravessa a água. Em Símbolos da Transformação Jung afirma que a simbólica da água pode estar associada à imago materna (Jung, 2012, v. 5). Neste ponto do filme, Elsa sabe que a sua magia tem relação com história de sua mãe. Ela está sendo conduzida para compreensão de sua imago materna. A caminhada de Elsa pelo seu passado, também pode ser compreendida como o movimento de regressão da energia psíquica (Jung, 2002, v. 8/1).</p>



<p>Ao chegar em Ahtohallan, Elsa fica assustada, pois deve descer uma espécie de caverna. Não deveria ser diferente, já que entrar em contato com a nossa profundidade pode ser amedrontador, tal como menciona Jung:&nbsp;<em>“No fundo, o medo e a resistência que todo ser humano experimenta em relação a um mergulho demasiado profundo em si mesmo é o pavor da descida ao Hades</em>” (Jung, 2012, v. 12, pág. 355, § 439).</p>



<p>Ao terminar a descida, Elsa é possuída pelos 4 elementos, terra, fogo, água e ar. Ao mesmo tempo ela acessa acontecimentos dos seus antepassados, seu vestido fica branco e ela congela, como se morresse dentro daquela profundidade. Seu último ato foi enviar um “sopro” ao mundo superior, antes de congelar totalmente. Já falaremos do sopro, pois são diversas transformações que acontecem neste ponto que precisamos detalhar cada fase.&nbsp;</p>



<p>Ao ser possuída pelos 4 elementos, Elsa se torna a quintessência. A quintessência, segundo von Franz,&nbsp;<em>“não é outro elemento adicional, mas, por assim dizer, a essência dos quatro e, todavia, nenhum deles; é o quatro em um”</em>&nbsp;(von Franz &amp; Hillman, 2016, Pág. 102). Em Estudos Alquímicos, Jung afirma que a&nbsp;<em>lapis philosophorum&nbsp;</em>(pedra filosofal) dos alquimistas, também é chamada de quintessência (Jung, 2013, v. 13). Ela é a meta máxima da alquimia. É como se Elsa conseguisse finalmente entrar em contato tanto com a sua história particular, mas também com a dos seus antepassados, tocando de alguma forma o inconsciente coletivo. A partir disso, ela passa por um processo de purificação alquímica, daí a razão do seu vestido ficar branco. Seu congelamento seria sua morte simbólica, que é aquela que encerra um ciclo para permitir o início de outro.</p>



<p>Jung resume a descrição acima nesta passagem<em>:&nbsp;&nbsp;<a>“A partir da “nigredo”, a lavagem (ablutio, baptisma) conduz diretamente ao embraquecimento, ou então ocorre que a alma (anima) liberta pela morte é reunida ao corpo morto e cumpre a sua ressureição; pode dar-se finalmente que as múltiplas cores (omnes colores) – a “cauda pavonis” (cauda do pavão) – conduzam à cor branca e una, que contém todas as cores. Neste ponto, a primeira meta importante do processo&nbsp;</a></em>[alquímico]<em>&nbsp;é alcançada: trata-se da “albedo”, “tinctura alba”, “terra alba foliata”, “lapis albus” etc., altamente valorizada por muitos alquimistas como se fosse a última meta”&nbsp;</em>(Jung, 2012, v.12, pág. 248).</p>



<p>Na perspectiva do processo de individuação, se por um lado Elsa faz a descida e se adapta ao mundo interior, é preciso que o mundo exterior não seja relegado. Em termos psicológicos, se perder no mundo interior pode indicar a instalação de uma psicose. É pela função transcendente (Jung, 2014, v. 7/1), aquela que faz a união dos opostos e representa uma ponte na brecha entre consciente e inconsciente, que Elsa terá a possibilidade de ressignificar sua história pessoal.&nbsp;</p>



<p>A Elsa alquímica alcançou a albedo, mas sua adaptação ao mundo interior pareceu lhe privar do contato com o mundo exterior. Mas o seu último sopro foi captado intuitivamente pela sua irmã Anna, que logo entende o que precisa fazer: destruir uma barragem de água que representa o aprisionamento da Floresta Encantada nas nuvens densas. Sabendo de sua incapacidade de fazer isso sozinha, Anna provoca seres de pedras gigantes, que no contexto do filme representam o elemento terra. Passa a impressão de que é a função psicológica da sensação que aparece aqui. É como se ela lembrasse de que é preciso também lidar com a realidade exterior para resolver nossos dilemas. Nesse sentido, Anna é, simbolicamente, a função transcendente de Elsa (a exemplo do que acontece no primeiro filme), que é aquela que permite a Elsa interior resolver também os problemas do mundo exterior.</p>



<p>Ao passo que Anna cumpre com sua obrigação, orientada pelo sopro da irmã, Elsa descongela, volta à superfície e vai impedir que a água lançada pelo rompimento da barragem destrua o reino de Arendelle. Para fazer isso ela cavalga em seu cavalo aquático, como se fossem unos, Elsa e o cavalo, o animus.</p>



<p>Vale notar que do primeiro ao segundo filme, Elsa vai desconstruindo sua imagem de perfeição para poder entrar em contato com seu mundo interior. Neste sentido, Jonhson (1987) diz que todos nós temos sombras que nos salvam nos momentos críticos, e que perfeição não é totalidade. Elsa parecia ser perfeita, mas quem a salva é sua irmã Anna, que também representa aspectos de sua sombra (a princesa descabelada, etc.). Anna faz Elsa se lembrar de que é humana.</p>



<p>Ao término da narrativa, já recuperada, Elsa se torna uma rainha “alquímica” na Floresta Encantada, que é local de nascimento de sua mãe, e que explica a origem de sua magia – sua mãe também possuía poderes mágicos. Ela passa a usar o vestido branco, andar descalça e a cavalgar seu cavalo aquático, se despindo totalmente da persona de rainha perfeita.</p>



<p>A verdade é que este filme é muito rico em representações simbólicas. Segundo Jung,&nbsp;<em>“Os símbolos funcionam como transformadores, conduzindo a libido&nbsp;</em>[energia psíquica]&nbsp;<em>de uma forma ‘inferior’ para uma forma superior”</em>. (Jung, 2013, v.5, pág 277). São as diversas representações simbólicas que permitem fazer uma aproximação do processo de transformação de Elsa com as etapas do processo alquímico e por consequência com a individuação.</p>



<p>A leitura analítica do filme apresentada neste texto é apenas uma dentre as diversas possíveis. Também não houve uma intenção em fazer uma análise da psicologia do feminino. A ênfase nos aspectos descritos aqui cumpre com seu objetivo, que era fazer uma ampliação simbólica dos aspectos relacionados à alquimia e o processo de individuação contidos no filme Frozen 2. Outras visões e ampliações são bem-vindas do conto/filme.</p>



<p>Rafael Rodrigues de Souza, membro Analista em formação do IJEP.</p>



<p><strong>Referências:</strong></p>



<p>JOHNSON, Robert A. She: a chave do entendimento da psicologia feminina: uma interpretação baseada no mito de Eros e Psiquê, usando conceitos psicológicos junguianos. São Paulo: Mercuryo, 1987.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. A energia psíquica, v. 8/1. 8ª ed. corrigida. Petrópolis: Vozes, 2002.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia, v. 12. 6ª ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Estudos alquímicos, v. 13. 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente, v. 7/2. 25ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Símbolos da transformação, v. 5. 9ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Psicologia do inconsciente, v. 7/1. 24ª ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p>VON FRANZ, Marie-Louise &amp; HILLMAN, James.&nbsp;A tipologia de Jung: ensaios sobre psicologia analítica. 2ª ed. São Paulo: Cultrix, 2016.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Rafael Rodrigues de Souza</em></strong></h4>
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		<title>A alquimia do Amor na Arte de Transformar Alimentos.</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-alquimia-do-amor-na-arte-de-transformar-alimentos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 19 Jun 2019 18:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>De origem germânica, nasci no sul do Brasil, com predominância da cultura europeia em que é muito valorizado o preparo de alimentos, produzidos e colhidos pelas famílias nas suas hortas, quintais e roças. Neste contexto, receber bem os familiares e os amigos envolve a fartura na mesa que, simbolicamente, pode ser entendida como reflexos do complexo materno, transmitido pela transgeracionalidade, fixado pela ideia de escassez decorrente das guerras. Por outro lado, também pode representar uma forma de comemorar e, neste contexto, geralmente as mulheres prepararam delícias da culinária alemã e italiana, transmitidas pelos seus descendentes, cozinhando em diferentes tipos de panelas, misturando cores, sabores e muito afeto.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>De origem germânica, nasci no sul do Brasil, com predominância da cultura europeia em que é muito valorizado o preparo de alimentos, produzidos e colhidos pelas famílias nas suas hortas, quintais e roças. Neste contexto, receber bem os familiares e os amigos envolve a fartura na mesa que, simbolicamente, pode ser entendida como reflexos do complexo materno, transmitido pela transgeracionalidade, fixado pela ideia de escassez decorrente das guerras. Por outro lado, também pode representar uma forma de comemorar e, neste contexto, geralmente as mulheres prepararam delícias da culinária alemã e italiana, transmitidas pelos seus descendentes, cozinhando em diferentes tipos de panelas, misturando cores, sabores e muito afeto.</p>



<p>A etimologia da palavra comemorar é de origem latina.&nbsp;Commemorare&nbsp;significa trazer à memória. Também significa&nbsp;com-memorare, recordar junto com outro e na minha lembrança comemorar envolve comer e orar. As celebrações em torno de uma mesa, no dia a dia, ou em datas festivas, iniciava com orações de agradecimento. Muitas recordações&#8230; A sopa da avó, cujo cheiro se eterniza. As rodas de chimarrão e pipocas em torno do fogão à lenha nos dias frios e chuvosos, tão significativo quanto o&nbsp;chá das cinco&nbsp;em Londres. E, neste sentido, comemorar em uma mansão ou em um barraco, envolve os mesmos princípios de alcançar a consciência pela preparação e partilha de alimentos. Desde cedo aprendemos a reproduzir a grandeza do simbolismo da fé e gratidão, orando: &#8220;Pai nosso, que estás nos céus! Santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia&#8230;&#8221;&nbsp;(Mateus 6:9-11). Sábias palavras e presença constante da alquimia!</p>



<p>Carl Gustav Jung estudou a alquimia por longos anos e desde o início, com a leitura de registros e textos, percebeu que ela coincidia com a psicologia analítica junguiana, podendo representar o processo de individuação. De acordo com diferentes autores, a alquimia envolve um processo de transmutação, que transforma os componentes em matérias diferenciadas para o alcance do&nbsp;opus&nbsp;alquímico. O objetivo era criar uma substância transcendente e miraculosa, simbolizada como pedra filosofal, elixir da vida ou remédio universal. Para tanto, era necessário utilizar material adequado, a&nbsp;prima matéria,&nbsp;submetendo-a a uma série de operações (calcinatio, solutio, coagulatio, sublimatio, mortificatio, separatio,e coniunctio). Vindo ao encontro, podemos afirmar que cada uma das operações é o centro de um elaborado de símbolos, que compõem o principal conteúdo de todos os produtos culturais e permite compreender a vida da psique, com as experiências da individuação&#8221; (Edinger, 2006, p. 34).</p>



<p>Preparar alimentos é uma alquimia. O processo que envolve transformar elementos em pão é um exemplo típico, que passa por todas as operações alquímicas. Para tanto, misturamos os ingredientes, a&nbsp;prima matéria, colocamos a massa em assadeira para crescer, depois a submetemos ao calor de um forno para transformá-la em essência, que é o alimento que vamos consumir. É um processo moroso, que envolve dedicação, persistência e amor.&nbsp; Em termos psicológicos, é o conteúdo sombrio que precisa ser ressignificado.</p>



<p>De forma similar, nas diferentes regiões do Brasil é comum nesta época do ano a comemoração com fogueiras, queimando e animando as noites frias das festas juninas, nos invernos da vida. Grãos de pipocas estourando com o calor do fogo envolvem a operação do&nbsp;calcionatio, representando a energia psíquica que é liberada gradativamente, dissolvendo emoções e sentimentos, construindo novas realidades.</p>



<p>Neste sentido, as receitas passadas de geração para outra geração são histórias que envolvem afeto e emoção. As panelas utilizadas no preparo de alimentos (barro, alumínio, pedra, cerâmica, vidro, aço inox, ferro, antiaderente) e assadeiras, remetem-nos aos vasos alquímicos, onde a&nbsp;prima materia&nbsp;recebia uma série de procedimentos químicos. Escolhemos a panela, de acordo com a receita. Cozinhar mais tempo, fritar ou assar, são escolhas que exigem conhecimento. Recipiente frágil não suporta o fogo ou o calor, que é essencial no preparo da comida. Colocar lenha no fogo, mexer para não grudar ou para dar o ponto, engrossar e entornar o caldo, são formas simbólicas de lembrar da fragilidade e da resistência do indivíduo diante das adversidades. Processo de transformação em que o cozinheiro mistura ingredientes, escolhe o recipiente e o calor adequado para realizar as mutações. &nbsp;</p>



<p>Da mesma forma, no preparo dos alimentos utilizamos processos que se intensificam no nosso entorno relacional. Picar, cortar, triturar, amassar, liquidificar&#8230; Alguns alimentos são tão duros que necessitam ser transformados, precisam cozinhar mais e a dosagem do calor do fogo é essencial para que isso ocorra.&nbsp; Analogicamente, assim são os indivíduos, que precisam passar por apertos, entrar em contato com o lado sombrio, para promover o autoconhecimento e ressignificação de padrões e de forma idêntica ao cozinheiro, o psicoterapeuta realiza a arte da transformação com a habilidade de controlar o fogo. Em outras palavras, envolve um processo em que é essencial respeitar o momento do cliente e a partir das suas reais possibilidades, dosar as transformações dos seus conteúdos sombrios para o alcance de um novo sentido e significado.</p>



<p>Diferentes culturas, diferentes temperos, mistura perfeita que envolve a sabedoria do tempo. O conjunto de imagens vinculado com a comida, aquilo que nutre o corpo e que foi assimilado pelo ego, também pode ter qualidades estranhas, miraculosas e indicar a expressão arquetípica da psique. Comer algo significa incorporá-lo (Edinger, 2006, p.127). Jung fez inúmeras viagens e, segundo relatos em seus diversos escritos, permitiu-se conhecer e provar as comidas típicas de cada lugar, uma das formas que encontrou para ampliar a compreensão dos aspectos simbólicos que moviam os diferentes povos, o que lembra a Eucaristia, considerado o rito central do cristianismo e como Jung ponderou, pode ser considerada como o rito do processo de individuação. Como afirma Edinger, &#8220;do ponto de vista do simbolismo do&nbsp;coagulatio, compartilhar o alimento eucarístico significa a incorporação, por parte do ego, de uma relação com o Si-mesmo&#8221; (2006, p.129).</p>



<p>Cozinhar é um ato de amor, uma mistura de elementos de várias cores, especialmente os verdes, amarelos e vermelhos &#8211; o colorido que encanta os olhos &#8211; que ativa memórias e emoções, ressaltado também em embalagens de produtos comestíveis. De forma similar, percebe-se uma conexão entre a comida e a expressão artística. Em diferentes culturas, cantores exaltam o preparo de alimentos. Isso nos remete a Chico Buarque, que na canção&nbsp;O Circo Místico,&nbsp;aproxima-se do comemorar, colocando mais água no feijão: &#8220;&#8230;&nbsp;Arroz branco, farofa e a malagueta; a laranja-bahia ou da seleta. Joga o paio, carne seca, toucinho no caldeirão e vamos botar água no feijão&#8221;. Dissolver e coagular, premissa básica da alquimia!</p>



<p>Dorival Caymmi nos deixou a música&nbsp;Você já foi a Bahia?&nbsp;Na letra, ele nos convidou para a gastronomia: &#8220;Você já foi à Bahia, nêga? Não? Então vá! Lá tem vatapá. Então vá! Lá tem caruru. Então vá! Lá tem munguzá. Então vá. Se &#8220;quiser sambar&#8221;, então vá!&#8221; Marisa Monte, por sua vez, apresenta-nos uma explosão de doces, na música&nbsp;Não&nbsp;é Proibido:&nbsp;&#8220;Jujuba, bananada, pipoca. Cocada, queijadinha, sorvete. Chiclete, sundae de chocolate. Paçoca, mariola, quindim, frumelo, doce de abóbora com coco, bala juquinha, algodão doce, manjar&#8221;. Produzir, colher e saborear nos faz lembrar de Alceu Valença, que compara&nbsp;Morena Tropicana&nbsp;a uma infinidade de frutas brasileiras: &#8220;Da manga rosa quero gosto e o sumo melão maduro, sapoti, juá. Jabuticaba, teu olhar noturno. Beijo travoso de umbu cajá. Pele macia, ai! Carne de caju! Saliva doce, doce mel. Mel de uruçu&#8230;&#8221;.</p>



<p>Por outro lado, quantos poemas e dizeres populares sobre comidas repetimos e muitas vezes não nos damos conta do que estamos reproduzindo. Descascar abacaxis e resolver pepinos são exemplos típicos, que simbolicamente representam a resolução de problemas. Assim como a comida é o alimento do corpo, a poesia é o alimento da alma. Alguns autores acreditam que a poesia e a culinária podem e devem habitar a mesma mesa. Nosso eterno Vinícius de Moraes entregou em suas palavras o seu amor por comida, no poema&nbsp;Não Comerei da Alface a Verde Pétala: &#8220;&#8230;&nbsp;Não nasci ruminante como os bois, nem como os coelhos, roedor; nasci, omnívoro: deem-me feijão com arroz, e um bife, e um queijo forte, e parati, e eu morrerei feliz, do coração de ter vivido sem comer em vão&#8221; (Los Angeles, 1962).</p>



<p>De acordo com os especialistas da culinária, o que pensamos gera emoções e o que comemos também. Atualmente nos deparamos com estudos específicos que definem os alimentos que mais contribuem para regular as emoções. Percebe-se um movimento de aperfeiçoamento de técnicas e realização de transformações nos alimentos, misturando cores, sabores, aromas, texturas, processo que compreende o preparo e o processamento, para o alcance da satisfação do nosso paladar, semelhante ao que os alquimistas realizavam com a&nbsp;prima matéria&nbsp;em seus vasos para alcance da opus alquímica.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Ainda pensando no afeto que envolve o preparo de comidas, podemos observar em nossas vivências que o lugar mais aconchegante da casa é a cozinha, considerado por muitos o coração da casa, onde acontece o milagre da alquimia: o preparo do alimento. Os equipamentos de laboratório dos alquimistas são substituídos por panelas, frigideiras, fogões e diferentes utensílios. Na cozinha temos o equilíbrio perfeito dos quatro elementos. A água para equilibrar nossas emoções; o ar para suavizar nossos pensamentos; a terra para estabilizar nosso físico e o fogo para nos dar ação em nosso dia a dia.</p>



<p>No contexto da psicoterapia, entram questões que envolvem a construção do vaso psicoterapêutico, que requer um espaço reservado, pautado num elo de confiança, para trabalhar a&nbsp;prima matéria&nbsp;que o cliente traz em forma de queixas ou demandas. É possível perceber que elas estão interligadas com a negação das necessidades do transcendente de sua vida interior e o Self cria caminhos para a sua expressão, muitas vezes por meio de crises e doenças psicossomáticas, a fim de sair da unilateralização egóica ou de complexos geradores de conflitos psíquicos, transformando em conscientes os seus conteúdos inconscientes, possibilitando um novo sentido para as suas dores da alma e alcance da harmonia, respeitando a totalidade do ser.</p>



<p>Assim como a alquimia possibilita a transmutação de elementos e a preparação de alimentos permite trazer emoções à memória, a psicoterapia favorece o processo de individuação e a função transcendente, com saídas criativas para o encontro do ego com o Self. As dores da alma (nigredo) vão se transformando e se tornando mais claras (albedo), para finalmente serem ressignificadas, com novo sentido e significado (rubedo), para o alcance da opus alquímica.</p>



<p>Para finalizar, deixo uma reflexão. Só continua vivo o que nosso coração alimenta. Alquimista na cozinha, no consultório ou no mundo, permita-se experimentar diferentes ingredientes, inventar e reinventar o sabor, o significado e o sentido da vida.</p>



<p>Leituras de apoio:</p>



<p>BÍBLIA De&nbsp;Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2003.</p>



<p>EDINGER, E.&nbsp;Anatomia da Psique: o simbolismo alquímico na psicoterapia. São Paulo: Cultrix, 2006.</p>



<p>HUTIN, Serge.&nbsp;História Geral da Alquimia.&nbsp;São Paulo: Editora Pensamento, 2017.</p>



<p>&nbsp;IJEP &#8211; Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa. Segundo Congresso, palestra do professor Waldemar Magaldi Filho sobre Alquimia, 2017.&nbsp;&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a></p>



<p>JUNG, C.G.&nbsp;&nbsp;A Prática da Psicoterapia. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 2013.</p>



<p>_________&nbsp;Psicologia e Alquimia.&nbsp;Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 1994.</p>



<p>https://www.gazetadopovo.com.br/bomgourmet/musicas-brasileiras-que-falam-da-paixao-pela-comida/Copyright © 2019, Gazeta do Povo.</p>



<p>Claci Maria Strieder, Pedagoga, Psicóloga, Especialista em Psicossomática, em Psicologia Junguiana e Analista Junguiana em formação pelo IJEP.</p>



<p>Brasília/DF &#8211;&nbsp; Contato: (61) 99951.0003 &#8211;&nbsp;<a href="mailto:clacims@gmail.com">clacims@gmail.com</a></p>
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