<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Arquivos arteterapia - Blog IJEP</title>
	<atom:link href="https://blog.ijep.com.br/tag/arteterapia/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://blog.ijep.com.br/tag/arteterapia/</link>
	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Wed, 25 Feb 2026 17:23:39 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9.4</generator>

<image>
	<url>https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/03/cropped-logo-ijep-32x32.png</url>
	<title>Arquivos arteterapia - Blog IJEP</title>
	<link>https://blog.ijep.com.br/tag/arteterapia/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>Nise da Silveira – Uma mulher a frente de seu tempo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/nise-da-silveira-uma-mulher-a-frente-de-seu-tempo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Keller Alves Villela Ocaña Bruno]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Feb 2026 11:21:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[doentes mentais]]></category>
		<category><![CDATA[esquizofrênicos]]></category>
		<category><![CDATA[Expressão Criativa]]></category>
		<category><![CDATA[expressão simbólica]]></category>
		<category><![CDATA[humanidade]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[mandalas]]></category>
		<category><![CDATA[mitologia]]></category>
		<category><![CDATA[nise]]></category>
		<category><![CDATA[nise da silveira]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[ser humano]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12251</guid>

					<description><![CDATA[<p>O Presente artigo comemora o aniversário de Nise da Silveira, importante psiquiatra que revolucionou a psiquiatria no Brasil, recusando-se a aplicar os tratamentos da época, que eram bastante violentos. O artigo fala da trajetória desta mulher extraordinária, do seu encontro com Jung, da participação no II Congresso de psiquiatria de Zurique, dos primeiros anos no hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro e de seu trabalho com a terapêutica ocupacional. Fala ainda da fundação do Museu do Inconsciente e da Casa das Palmeiras, importante centro de acolhimento aos doentes mentais proporcionando contato com diversas expressões criativas visando a melhora dos doentes, principalmente os esquizofrênicos.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/nise-da-silveira-uma-mulher-a-frente-de-seu-tempo/">Nise da Silveira – Uma mulher a frente de seu tempo</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading has-text-align-center" id="h-estou-cada-vez-menos-doutora-cada-vez-mais-nise" style="font-size:20px"><em><strong>Estou cada vez menos doutora, cada vez mais Nise</strong></em>.</h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Resumo: </strong>O Presente artigo comemora o <strong>aniversário de Nise da Silveira</strong>, importante psiquiatra que revolucionou a psiquiatria no Brasil, recusando-se a aplicar os tratamentos da época, que eram bastante violentos. O artigo fala da trajetória desta mulher extraordinária, do seu encontro com Jung, da participação no II Congresso de psiquiatria de Zurique, dos primeiros anos no hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro e de seu trabalho com a terapêutica ocupacional. Fala ainda da fundação do <strong>Museu do Inconsciente</strong> e da <strong>Casa das Palmeiras</strong>, importante centro de acolhimento aos doentes mentais proporcionando contato com diversas expressões criativas visando a melhora dos doentes, principalmente os esquizofrênicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dia-15-de-fevereiro-de-2026-comemora-se-a-vida-de-uma-das-mulheres-mais-extraordinaria-de-nosso-tempo-nise-da-silveira-pequena-em-estatura-e-gigante-em-amor-afetividade-e-capacidade-de-enxergar-o-outro" style="font-size:19px"><strong>Dia 15 de fevereiro de 2026 comemora-se a vida de uma das mulheres mais extraordinária de nosso tempo – Nise da Silveira – pequena em estatura e gigante em amor, afetividade e capacidade de enxergar o outro.</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Nise nasceu em 1905 em Maceió, Alagoas. Filha de um professor de matemática e jornalista – Faustino Magalhães da Silveira – e da pianista Maria Lídia da Silveira.</p>



<p style="font-size:19px">Em uma entrevista realizada em 1996 e publicada no livro <em>Nise da Silveira</em>, de <strong>Ferreira Gullar</strong>, ela conta que seus pais queriam que ela fosse pianista como a mãe, que ela descreve como “<em>uma pessoa extraordinária na virtuose e interpretação</em>”, porém, em suas próprias palavras ela era “<em>desafinadíssima. Meu ouvido não percebia as dissonâncias. Eu me desesperava</em>”.</p>



<p style="font-size:19px">O que ela gostava mesmo era de acompanhar seu pai no jornal. Estudava num colégio de freiras francesas, só para moças, o Colégio do Santíssimo Sacramento. Aprendeu muito bem o francês. O pai frequentemente a levava também ao colégio particular onde dava aulas de matemática, para que Nise pudesse conviver com rapazes. Alguns desses rapazes também frequentavam sua casa para estudar. Seu interesse por medicina nasce do convívio com esses rapazes.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Na verdade, eu não tinha nenhuma vocação para a Medicina. Quando vejo sangue, fico tonta. Não podia nunca ser médica. Na verdade, a escolha se deu por influência desse grupo de rapazes, que estudavam com meu pai, e que iam todos cursar medicina, na Bahia. Assim fomos em bando para Salvador. </em>(SILVEIRA, Nise, 2009)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nise-cursa-a-faculdade-entre-os-anos-de-1921-e-1926-onde-era-a-unica-mulher-entre-157-homens-na-turma" style="font-size:19px">Nise cursa a faculdade entre os anos de 1921 e 1926, onde era a única mulher entre 157 homens na turma.</h2>



<p style="font-size:19px">Ela está entre as primeiras mulheres no Brasil a se formar em medicina. Ela se forma e um mês depois, em fevereiro de 1927 seu pai morre. Sua mãe vai morar com o pai e uma irmã mais nova e Nise se recusa a ir. Vendem tudo e ela se muda sozinha para o Rio de Janeiro. Mora a princípio numa pensão no Catete, começa a procurar trabalho e, como o dinheiro começava a ficar escasso muda-se para Santa Teresa, no Curvelo. Lá conheceu Manuel Bandeira, Ribeiro Couto, Otávio Brandão e sua esposa Laura. Discutiam sobre diversos assuntos, incluindo política.</p>



<p style="font-size:19px">Começou a estagiar na clínica de neurologia do professor Antônio Austregésilo. Nessa época ficou sabendo de um concurso que haveria para psiquiatria, mas achou que não deveria se inscrever porque não haveria tempo para se preparar. O professor Austregésilo a inscreve no concurso por conta própria e lhe diz: “<em>Você está inscrita e agora tem que fazer o concurso</em>”. Para se preparar para o concurso ela vai morar no hospício da Praia Vermelha.</p>



<p style="font-size:19px">Em 1933 ela presta o concurso e é aprovada. Vai trabalhar no hospital da Praia Vermelha. <strong>Nise lia de tudo</strong>. E em um dos dias uma enfermeira foi limpar seu quarto e viu sobre a escrivaninha livros socialistas e a denunciou na administração. Era 1936, Nise é presa, e segundo ela, tem a primeira revelação que o que a psiquiatria falava dos doentes mentais, sobretudo dos esquizofrênicos estava errado.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>E assim aprendi outra lição, que desmentia o que afirmavam os livros de psiquiatria sobre os doentes mentais. Esses livros diziam que os esquizofrênicos eram indiferentes, sem afeto. Mas a doente que me levava o café toda manhã em meu quarto, quando soube de minha prisão, não ficou indiferente. Eu não entendia nada do que ela falava, mas ela estava entendendo o que se passava. Pegou de murros a enfermeira que me havia denunciado. (SILVEIRA, Nise, 2009)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nessa-epoca-conhece-graciliano-ramos-que-escreve-sobre-nise-em-seu-livro-memorias-do-carcere-olga-benario-e-elisa-berger" style="font-size:19px">Nessa época conhece Graciliano Ramos – que escreve sobre Nise em seu livro <em>Memórias do Cárcere</em>, Olga Benário e Elisa Berger.</h2>



<p style="font-size:19px">Quando finalmente é solta, Nise é readmitida no serviço público, mas não volta a trabalhar imediatamente porque havia uma ordem que a proibia de voltar. Existiam também boatos de que poderia ser presa novamente. Vai para a Bahia, onde passa um tempo. Depois disso, em 1944, com a ajuda do diretor da Saúde Pública Barros Barreto, Nise retoma seu lugar de psiquiatra no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no <strong>Engenho de Dentro</strong>. E é aí que se inicia toda a sua briga com a psiquiatria da época, que, segundo ela “<em>a briga mais importante</em>”.</p>



<p style="font-size:19px">No período em que esteve afastada novos tratamentos e medicamentos passaram a ser utilizados. Alguns deles extremamente violentos como a eletroconvulsoterapia, também conhecida como eletrochoque; a lobotomia e o coma insulínico.</p>



<p style="font-size:19px">Viu um médico psiquiatra aplicar eletrochoque num doente e este entrou em convulsão. Ele pediu que trouxessem outro e disse a Nise: “aperte o botão”, e ela respondeu: “<strong>não aperto</strong>”. <strong>Aí nasceu a rebelde</strong>.</p>



<p style="font-size:19px">Outra experiência horrível foi aplicar choque de insulina numa mulher que depois não acordava por nada. Com muito custo Nise conseguiu trazê-la de volta. A partir daí deu um basta. Foi falar com o diretor do Centro Psiquiátrico e ele disse que não sabia onde colocá-la, pois todas as enfermarias seguiam a mesma linha de tratamento, menos a <strong>Terapêutica Ocupacional</strong> que segundo ele era para serventes. Sim – para serventes – isso porque ali não existiam médicos trabalhando. Ela concordou desde que pudesse trabalhar do seu jeito. <strong>Abriu a primeira sala, que era de costura. Logo vieram outras salas como a de encadernação, modelagem, pintura, jardinagem</strong>. Até quadra de vôlei ela construiu. E cada vez mais pessoas queriam vir trabalhar ao lado de Dra. Nise da Silveira. <strong>E assim ela começou a revolucionar a psiquiatria no Brasil</strong>.</p>



<p style="font-size:19px">Era 1946 e nasce assim a <strong>Seção de Terapêutica Ocupacional </strong>no antigo Centro Psiquiátrico Nacional de Engenho de Dentro no Rio de Janeiro, atualmente Instituto Municipal Nise da Silveira. Seu interesse era estimular a capacidade criativa com <strong>atividades expressivas</strong> para tentar compreender o que acontecia no mundo interno dessas pessoas que não conseguiam se comunicar verbalmente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>A comunicação com o esquizofrênico, nos casos graves, terá um mínimo de probabilidade de êxito se for iniciada no nível verbal de nossas relações interpessoais. Isso só ocorrerá quando o processo de cura já se achar bastante adiantado. Será preciso partir do nível não-verbal. É aí que particularmente se insere a terapia ocupacional, oferecendo atividades que permitam a expressão de vivências não verbalizáveis por aquele que se acha mergulhado na profundeza do inconsciente, isto é, no mundo arcaico de pensamentos, emoções e impulsos fora do alcance das elaborações da razão e da palavra. O exercício de atividades poderá adquirir importante significação. Em vez dos impulsos arcaicos exteriorizarem-se desabridamente, lhes oferecemos o declive que a espécie humana sulcou durante milênios para exprimi-los: dança, representações mímicas, pintura, modelagem, música. Será o mais simples e o mais eficaz. (SILVEIRA, Nise, 2015)</em></p></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Dentre todas as atividades se destacaram sobremaneira os ateliês de modelagem e pintura. Em 20 de maio de 1952 foi inaugurado o <strong>Museu de Imagens do Inconsciente, </strong>um centro de estudos e pesquisa onde estão as obras produzidas nos ateliês que tem um acervo com mais de <strong>350 mil obras</strong> e documentos históricos disponíveis para pesquisadores de várias áreas do conhecimento. O acervo, hoje é tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Em abril de 1955 forma o grupo de estudos C. G. Jung.</strong></p>



<p style="font-size:19px">Em 23 de dezembro de 1956 é inaugurada a <strong>Casa das Palmeiras</strong> que a princípio era destinada ao tratamento dos egressos de instituições psiquiátricas, no regime de externato, entrava-se as treze horas e saía as dezoito. Mais tarde passou a receber também pessoas que se encontravam na fronteira, que não tinham chegado ainda ao ponto de serem internadas, o que era visto por Nise da Silveira como uma coisa muito positiva, porque conseguiam dar assistência antes que a pessoa tivesse que passar pela experiência da internação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-afeto-catalisador" style="font-size:19px"><strong>O afeto catalisador</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Numa oficina ou num ateliê terapêutico é necessário que haja um ponto de apoio onde o doente possa investir afeto, este ponto de referência é um monitor ou monitora que funcionará como um catalisador. Ao confiar em alguém aos poucos essa confiança vai se expandindo para outras pessoas e lugares.</p>



<p style="font-size:19px">Um dos internos, Fernando Diniz, revendo sua série de pinturas que tratava do interior de uma casa, aponta para a última pintura da série dizendo que havia sido derramado ácido sobre ela. Nise da Silveira lhe pergunta o que tinha acontecido, ao que ele responde: “Porque depois desse dia, durante muito tempo, Dona Elza não foi me buscar para a pintura”.</p>



<p style="font-size:19px">O muito tempo a que Fernando se referia era o tempo de férias da monitora. Nise da Silveira ficou bastante impressionada e passou a ficar mais atenta ao relacionamento dos monitores com os doentes.</p>



<p style="font-size:19px">Um exemplo dessa função catalisadora dos monitores é o caso do próprio Fernando. Depois de ter se reaproximado do mundo real regrediu novamente em função do falecimento de sua mãe. Suas pinturas voltaram a ser garatujas caóticas. Impressionada por sua face de angústia Nise da Silveira decidiu colocar uma monitora para ficar ao lado dele no ateliê, sem nenhuma interferência, sem emitir nenhuma opinião sobre o que ele fazia.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Sua função era a de ficar ao lado dele em silêncio, mostrando interesse e simpatia pelas suas criações</strong>. Um mês depois Fernando mostra uma melhora significativa e seus desenhos começam a mostrar certa ordenação, a partir daí ele começa uma série de desenhos sobre “a japonesa”. A princípio a temática parece estranha, mas logo fica clara quando Fernando diz que a monitora parecia uma japonesa. <em>“<strong>O relacionamento com a monitora levou Fernando a um contato muito melhor com o ambiente</strong>”</em> (SILVEIRA, Nise, 2015).</p>



<p style="font-size:19px">Martha Pires, artista visual e ex-terapeuta do ateliê do Museu de Imagens do Inconsciente em entrevista para o Itaú Cultural fala sobre como era o trabalho com os doentes e de sua relação com Raphael Domingues. Ela funcionava como um catalisador. Raphael não se comunicava com ninguém e a partir da presença de Martha ele começa a falar e demonstrar afeto, sentimento, o que a psiquiatria achava impossível acontecer com esquizofrênicos.</p>



<p style="font-size:19px">A dra. Nise da Silveira conhece Martha através de um amigo artista plástico. As duas tinham um interesse em comum – <strong>Jung</strong>. Martha é então convidada para fazer parte do grupo de estudos C. G. Jung e para visitar o Engenho de Dentro. A princípio ela resiste, não queria ir de jeito nenhum, mas alguns colegas a convencem e ela então conhece Raphael Domingues. Nise pede que Martha vá trabalhar especificamente com Raphael, porque ele não falava, não se comunicava a 20 anos.</p>



<p style="font-size:19px">Raphael está desenhando, fazendo apenas uns “tracinhos” como relatou Martha, e ela diz: “Raphael você está desenhando o canto dos pássaros?” ele olha em direção a Martha e diz: “Canto dos pássaros”. Nesse momento uma monitora comenta com Martha que ela está lá a dez anos e que nunca viu Raphael falar com ninguém. Um dia Martha pede que ele assine um desenho que fez e ele escreve no meio da folha “AMIGO”. Fica claro que havia afeto ali. Raphael deu um apelido a Martha, ele a chamava de Martinica. Numa ocasião Martha viaja e fica um ano fora do Brasil, ao retornar Raphael imediatamente reconhece Martha, a chama de Martinica, faz um desenho de uma mulher com um sol na testa e escreve abaixo Martinica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dra-nise-da-silveira-diz-que-outros-excelentes-catalisadores-sao-os-animais-a-quem-ela-chama-de-coterapeutas-em-seu-livro-imagens-do-inconsciente-em-varias-entrevistas-e-varias-ocasioes-ela-narra-historias-de-animais-que-ajudaram-os-doentes-a-criar-vinculos-e-mesmo-apresentarem-melhoras-significativas" style="font-size:19px">Dra. Nise da Silveira diz que outros excelentes catalisadores são os <strong>animais</strong> a quem ela chama de <strong>coterapeutas</strong>. Em seu livro <em>Imagens do Inconsciente</em>, em várias entrevistas e várias ocasiões ela narra histórias de <strong>animais que ajudaram os doentes a criar vínculos e mesmo apresentarem melhoras significativas</strong>.</h2>



<p style="font-size:19px">A Primeira delas foi uma cachorrinha encontrada quando estavam cavando o terreno para a construção da quadra de vôlei – a cadelinha Caralâmpia que foi adotada por um dos doentes que frequentava uma das oficinas. A partir daí a Dra Nise passou a perceber as vantagens que a presença dos animais proporcionavam aos doentes no hospital psiquiátrico.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Sobretudo o cão reúne qualidades que o fazem muito apto a tornar-se um ponto de referência estável no mundo externo. Nunca provoca frustrações, dá incondicional afeto sem nada pedir em troca, traz calor e alegria ao frio ambiente hospitalar. Os gatos têm um modo de amar diferente. Discretos, esquivos, talvez sejam muito afins com os esquizofrênicos na sua maneira peculiar de querer bem. (SILVEIRA, Nise, 2015)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-encontro-com-jung-nbsp-nbsp" style="font-size:19px"><strong>Encontro com Jung &nbsp;&nbsp;</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Em 12 de novembro de 1954 Nise da Silveira resolve <strong>enviar uma carta diretamente a Jung</strong> mostrando algumas fotos dos desenhos dos doentes do Engenho de Dentro a fim de averiguar se se tratavam mesmo de mandalas, a essa altura ela já tinha centenas de desenhos assim, mas a dúvida permanecia. <strong>Seriam mesmo mandalas</strong>? A resposta veio rápida, em 15 de dezembro de 1954 Nise recebe uma carta de Aniela Jaffé com a confirmação de que se tratavam mesmo de mandalas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>O mais importante acontecimento ocorrido nas minhas buscas de curiosa dos dinamismos da psique foi o encontro com a psicologia junguiana. Jung oferecia novos instrumentos de trabalho, chaves, rotas para distantes circunavegações. Delírios, alucinações, gestos, estranhíssimas imagens pintadas ou modeladas por esquizofrênicos, tornavam-se menos herméticas se estudadas segundo o seu método de investigação. E também não lhe faltava o calor humano de ordinário ausente nos tratados de psiquiatria. (SILVEIRA, Nise)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Em abril de 1957 <strong>Nise viaja para Zurique</strong>, com o auxílio de uma bolsa do CNPq para fazer estudos no Instituto C.G. Jung e participar do II Congresso Internacional de Psiquiatria, que aconteceria entre os dias 1 a 7 de setembro do mesmo ano.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>A contribuição do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro teve por título geral A esquizofrenia em imagens. Distribuiu-se em cinco amplas salas do pavimento térreo da Eidgenössische Technische Hochschule, cedido para a sede do Congresso, e foi montada pelo artista brasileiro Almir Mavignier, meu antigo colaborador.</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>A exposição enviada pelo Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro foi aberta por C. G. Jung, na manhã de 2 de setembro. Ele visitou toda a exposição, detendo-se particularmente na sala onde se encontravam as mandalas pintadas por doentes brasileiros, fazendo sobre o assunto comentários e interpretações. </em>(SILVEIRA, Nise, 2015)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">No dia 14 de junho de 1957 <strong>Nise encontra-se pessoalmente com Jung</strong> em sua residência de Kusnacht. Conversam sobre as dificuldades que ela sente como autodidata, do desejo de aprofundar seu trabalho no hospital psiquiátrico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ele-a-ouve-atento-e-entao-pergunta" style="font-size:19px">Ele a ouve atento e então pergunta:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>&#8211; <strong>Você estuda mitologia</strong>?</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>&#8211; Não, respondeu Nise.</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>&#8211; Pois se você não conhecer mitologia nunca entenderá os delírios de seus doentes, nem penetrará na significação das imagens que eles desenhem ou pintem.</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px"><strong>De volta ao Brasil a Dra. Nise pode observar nos doentes a influência de vários mitos</strong>. A primeira experiência foi com Adelina Gomes que revive em várias de suas obras o mito de Dafne. Carlos Pertuis em seu último período de vida retrata o mito de Mithra, em algumas pinturas de Carlos é possível também observarmos o tema mítico de Dionísos. O tema do dragão-baleia, que é uma das mais antigas variações do mito do herói, aparece em algumas criações de Olívio Fidélis.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Dra. Nise da Silveira sem sombra de dúvidas foi uma mulher admirável, muito a frente de seu tempo. Uma lutadora</strong>. Não se calava diante das dificuldades, ia à luta, sempre acreditando que antes de existir um doente existia ali um ser humano, muitas vezes encarcerado em seu próprio sofrimento, mas que com carinho, paciência, cuidado e afeto poderia com ajuda sair de seu cárcere e ter uma vida digna.</p>



<p style="font-size:19px">Sem dúvida alguma ainda há muito a se falar sobre ela, sobre seu trabalho e sobre os “camafeus de dra. Nise” como dizia Martha. Talvez num outro momento.</p>



<p style="font-size:19px"><strong><em>O que melhora o atendimento é o contato afetivo de uma pessoa com outra. O que cura é a alegria, o que cura é a falta de preconceito. </em></strong><strong>(SILVEIRA, Nise)</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;Nise da Silveira – Uma mulher a frente de seu tempo&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/_CfKFRv2pgs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/keller/">Me. Keller Villela – Membro Analista do IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra E. Simone Magaldi – Didata responsável</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p>MELLO, Luiz Carlos (org.). Encontros – Nise da Silveira. Rio de Janeiro, RJ: Azouque, 2009)</p>



<p>SILVEIRA, Nise. Imagens do Inconsciente. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p>_____________Gatos, a emoção de lidar. Rio de Janeiro, RJ: Léo Christiano Editorial, 2016.</p>



<p>_____________O mundo das imagens. São Paulo, SP: Ática, 1992.</p>



<p>CCMS – Centro Cultural do Ministério da Saúde. <a href="http://www.ccms.saude.gov.br">www.ccms.saude.gov.br</a></p>



<p>Itaú Cultural. www.itaucultural.org.br/ocupacao/nise-da-silveira</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/nise-da-silveira-uma-mulher-a-frente-de-seu-tempo/">Nise da Silveira – Uma mulher a frente de seu tempo</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A Produção Artesanal da Cerâmica como Exercício Simbólico</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-producao-artesanal-da-ceramica-como-exercicio-simbolico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristiane Jageneski dos Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 11:25:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Tipos Psicológicos]]></category>
		<category><![CDATA[argila]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[cerâmica]]></category>
		<category><![CDATA[esculpir]]></category>
		<category><![CDATA[escultura]]></category>
		<category><![CDATA[expressões criativas]]></category>
		<category><![CDATA[funções da consciência]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[pintura]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[símbolo]]></category>
		<category><![CDATA[tipos psicológicos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12176</guid>

					<description><![CDATA[<p>A proposta do presente artigo é refletir sobre o processo artesanal da cerâmica como exercício simbólico e recurso terapêutico na despotencialização da função pensamento unilateralizada. Enaltecida pelo espírito do tempo, que considera a razão e a lógica como premissas supremas, a função pensamento torna-se uma armadilha para aqueles que a possuem como função dominante. Como evidenciado na teoria de Carl Gustav Jung, o indivíduo só consegue caminhar rumo à sua totalidade quando passa a integrar os conteúdos inconscientes. Sendo assim, a produção da cerâmica como expressão criativa apresenta-se com potencial para expressar conteúdos inacessíveis através apenas da intelectualidade, comprovando que formas não-verbais de comunicação possuem força simbólica, facilitam a integração das outras funções da consciência e abrem caminho para o desenvolvimento psíquico</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-producao-artesanal-da-ceramica-como-exercicio-simbolico/">A Produção Artesanal da Cerâmica como Exercício Simbólico</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong><em>Resumo: A proposta do presente artigo é refletir sobre o processo artesanal da cerâmica como exercício simbólico e recurso terapêutico na despotencialização da função pensamento unilateralizada.</em></strong></p>



<p style="font-size:18px">Enaltecida pelo espírito do tempo, que considera a razão e a lógica como premissas supremas, a função pensamento torna-se uma armadilha para aqueles que a possuem como função dominante. Como evidenciado na teoria de Carl Gustav Jung, o indivíduo só consegue caminhar rumo à sua totalidade quando passa a integrar os conteúdos inconscientes. Sendo assim, a produção da cerâmica como expressão criativa apresenta-se com potencial para expressar conteúdos inacessíveis através apenas da intelectualidade. Comprovando que formas não-verbais de comunicação possuem força simbólica, facilitam a integração das outras funções da consciência e abrem caminho para o desenvolvimento psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-obra-o-homem-e-seus-simbolos-carl-gustav-jung-disse-que-o-homem-gosta-de-acreditar-se-senhor-da-sua-alma-2016-p-104" style="font-size:18px">Na obra <em><strong>O homem e seus símbolos</strong></em>, Carl Gustav Jung disse que “o homem gosta de acreditar-se senhor da sua alma” (2016, p. 104).</h2>



<p style="font-size:18px">De certo modo, em todo ser humano há um certo prazer na sensação de estar no controle, ao analisar a vida sob a ótica da racionalidade e da lógica, ignorando as maneiras secretas pelas quais os fatores inconscientes atuam nos projetos e decisões a todo tempo.</p>



<p style="font-size:18px">Esse sentimento é maximizado pelo espírito do tempo, principalmente na cultura ocidental, que eleva a razão à posição de deusa, considerada fonte de sabedoria e verdade, que dá conta de processar informações, com conectividade e produtividade constantes e, acima de tudo, de operar com positividade e eficiência. Deixar transparecer uma persona dinâmica, engajada, fluente em ideias e ter uma mente ativa parece ser o sonho de consumo do homem contemporâneo e, mais do que isso, torna-se quase que uma obrigação.</p>



<p style="font-size:18px">Nesse contexto, a hipervalorização da função pensamento apresenta-se como uma armadilha fácil, principalmente para aqueles que a tem como função superior, tornando a pessoa excessivamente identificada. Entretanto, como enfatizado na psicologia junguiana, ao unilateralizar uma função e negligenciar as outras, o indivíduo fatalmente enfrentará um desequilíbrio psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-espirito-da-epoca-e-a-unilateralizacao-patologica" style="font-size:18px"><strong>O espírito da época e a unilateralização patológica</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>Nossa vida civilizada exige uma atividade concentrada e dirigida da consciência, acarretando, deste modo, o risco de um considerável distanciamento do inconsciente. Quanto mais capazes formos de nos afastar do inconsciente por um funcionamento dirigido, tanto maior é a possibilidade de surgir uma forte contraposição, a qual, quando irrompe, pode ter consequências desagradáveis (JUNG, 2013a, p. 16).</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">A consciência não abrange a totalidade da psique, constitui-se apenas como uma de suas estruturas, sendo organizada em torno do ego e de suas funções adaptativas. Porém, durante uma parte da vida, a consciência inevitavelmente assume um ponto de vista unilateral, isto é, privilegia alguns conteúdos, valores e modos de funcionamento em detrimento de outros, sendo uma fase importante para estruturação psíquica do indivíduo.</p>



<p style="font-size:18px">A <strong>unilateralidade </strong>passa a se tornar um fator preocupante quando o ego se identifica de forma rígida com determinados comportamentos &#8211; sejam eles racionais, morais, culturais ou mesmo instintivos &#8211; deixando de integrar outros elementos do inconsciente. Com isso, a consciência corre o risco de perder sua flexibilidade e de cristalizar-se em uma visão fragmentada do mundo e de si mesma.</p>



<p style="font-size:18px">Quando a unilateralidade se intensifica, a ponto de ignorar sistematicamente as mensagens do inconsciente, o indivíduo enfrenta crises existenciais e desenvolve sintomas, favorecendo, assim, a exacerbação da função pensamento, tendo em vista o quanto o espírito da época enaltece o modelo lógico temporal como dominante.</p>



<p style="font-size:18px">Esse quadro pode ser potencializado quando o indivíduo enfrenta a noite escura da alma, ocasionando um sofrimento psíquico intenso, que pode se manifestar na forma de sintomas dolorosos e persistentes. O ego, que já estava fixado em um polo, passa a funcionar através de uma identificação ainda mais proeminente, levando o indivíduo ao esgotamento de si. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-descreve-apenas-como-exemplo-um-sujeito-identificado-com-a-funcao-pensamento-que-se-apresenta-sob-a-influencia-da-rigidez-do-tipo" style="font-size:18px">Jung descreve, apenas como exemplo, um sujeito identificado com a função pensamento, que se apresenta sob a influência da rigidez do tipo:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>Com o fortalecimento de seu tipo, mais rígidas e inflexíveis se tornam suas convicções. Descarta influências estranhas; pessoalmente perde a simpatia dos distantes e fica mais dependente dos próximos. Seu linguajar torna-se mais pessoal e mais franco, suas ideias são mais profundas, mas já não conseguem exprimir-se com clareza em vista do material de que dispõem. A emotividade e sensibilidade substituem o que falta. A influência estranha, que externamente recusa com brutalidade, assalta-o de dentro, pelo lado do inconsciente, e precisa reunir provas que sejam contrárias, e as reúne, contra coisas que parecem totalmente supérfluas aos estranhos. Dado que sua consciência se subjetiva pela falta de relação com o objeto, parece-lhe o mais importante o que secretamente diz respeito à sua pessoa. Começa, então, a confundir sua verdade subjetiva com sua pessoa. Jamais tentará pressionar alguém em favor de suas convicções, mas partirá venenosa e pessoalmente contra qualquer crítica, por mais justa. Isola-se aos poucos em todos os sentidos. Suas ideias que a princípio eram produtivas tornam-se destrutivas, porque estão envenenadas pelo sedimento da amargura. Com o isolamento para fora cresce a luta com a influência inconsciente que, aos poucos, o vai paralisando. Um forte pendor para a solidão deve protegê-lo das influências externas, mas normalmente o leva ainda mais fundo ao conflito que o consome interiormente. </em><em>(JUNG, 2013b, p. 398- 399).</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Diante disso, propomos refletir sobre a produção artesanal da cerâmica como caminho criativo e ferramenta terapêutica, ao conduzir o indivíduo à <strong>expressão simbólica</strong>. Apaziguando, assim, o protagonismo da função pensamento &#8211; sendo um meio privilegiado para que imagens surjam e sejam integradas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>O símbolo é sempre um produto de natureza altamente complexa, pois se compõe de dados de todas as funções psíquicas. Portanto, não é de natureza racional e nem irracional. Possui um lado que fala à razão e outro inacessível à razão, pois não se constitui apenas de dados racionais, mas também de dados irracionais fornecidos pela simples percepção interna e externa. A carga de pressentimento e de significado contida no símbolo afeta tanto o pensamento quanto o sentimento, e a plasticidade que lhe é peculiar, quando apresentada de modo perceptível aos sentidos, mexe com a sensação e a intuição. O símbolo vivo não pode surgir num espírito obtuso e pouco desenvolvido, pois este se contentará com o símbolo já existente conforme lhe é oferecido pela tradição. (JUNG, 2013b, p. 491).</em><em></em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-percurso-simbolico-atraves-da-expressao-criativa" style="font-size:18px"><strong>O percurso simbólico através da expressão criativa</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Para Jung, a <strong>expressão criativa</strong> exerce uma função central no desenvolvimento psicológico humano, por tratar-se de um canal<strong>entre o consciente e o inconsciente.</strong> Ele não a entendia apenas como uma manifestação artística ligada à estética, mas sobretudo como uma fonte criadora, seja de imagens, escrita, música, movimento ou qualquer outra forma simbólica, que permite que conteúdos internos encontrem um caminho para se manifestar e, assim, possam ser integrados à vida consciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-o-ato-criativo-funciona-como-um-ritual-simbolico-que-cura-e-integra-permitindo-que-a-psique-encontre-novas-formas-de-expressao-e-de-equilibrio" style="font-size:18px">Segundo Jung, o ato criativo funciona como um ritual simbólico que cura e integra, permitindo que a psique encontre novas formas de expressão e de equilíbrio:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>A pintura de quadros pelo próprio paciente produz efeitos incontestáveis, embora esses efeitos sejam difíceis de descrever. Basta, por exemplo, que um paciente perceba que, por diversas vezes, o fato de pintar um quadro o liberta de um estado psíquico deplorável, para que ele lance mão desse recurso cada vez que seu estado piora. O valor dessa descoberta é inestimável, pois é o primeiro passo para a independência, a passagem para o estado psicológico adulto.<br>Usando esse método &#8211; se me for permitido usar este termo &#8211; o paciente pode tornar-se independente em sua criatividade. Já não depende dos sonhos, nem dos conhecimentos do médico, pois, ao pintar-se a si mesmo &#8211; digamos assim &#8211; ele está se plasmando. O que pinta são fantasias ativas &#8211; aquilo que está mobilizado dentro de si. <br>[&#8230;] E o que está mobilizado é ele mesmo, mas já não mais no sentido equivocado anterior, quando considerava que o seu &#8220;eu&#8221; pessoal e o seu &#8220;self&#8221; eram uma e a mesma coisa. Agora há um sentido novo, que antes lhe era desconhecido: seu eu aparece como objeto daquilo que está atuando dentro dele. Numa série interminável de quadros, o paciente esforça-se por representar, exaustivamente, o que sente mobilizado dentro de si, para descobrir, finalmente, que é o eterno desconhecido, o eternamente outro, o fundo mais fundo da nossa alma.</p><cite>JUNG, 2013c, p. 107</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">Sendo assim, torna-se evidente que o ato criativo não é um luxo ou uma habilidade restrita à artistas, mas uma <strong>necessidade psíquica fundamental, que favorece o</strong> autoconhecimento, a transformação e a conexão com o mistério da psique. Ao permitir que as imagens internas encontrem forma e vida no mundo externo, o indivíduo não apenas dá voz e organiza seus conteúdos internos, mas avança no caminho do próprio desenvolvimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ceramica-e-a-integracao-das-quatro-funcoes-da-consciencia" style="font-size:20px"><strong>A cerâmica e a integração das quatro funções da consciência</strong></h2>



<p style="font-size:18px"><em>A Terra é apenas a matéria, o sólido, o palpável. É com a intervenção dos outros elementos Água, Ar, Fogo, que ela ganha existência como cerâmica: vida, energia, beleza&#8230;. Com a água revitalizamos a matéria e com o calor do nosso corpo, através das nossas mãos, damos unidade e densidade, expulsamos o ar nela contido, transformando-a numa massa compacta e íntegra. Nesse contato vamos reconhecendo a matéria e ganhando intimidade. Esse trabalho de amassar o barro é um trabalho de centralização, os movimentos vão do exterior para o interior, das extremidades para o centro. E nesse movimento encontramos também o sentido da Totalidade: só estamos tocando na parte externa e afetando a sua totalidade. Assim, amassando o barro o ceramista caminha também em direção ao seu centro (NAKANO, 1988, p. 61).</em></p>



<p style="font-size:18px">O trabalho com a argila é uma prática essencialmente sensorial e não-verbal. A ceramista Katsuko Nakano deixa isso bem claro na citação acima, quando menciona o contato com os quatro elementos e a forma como corpo e matéria vão ganhando intimidade através do toque, numa espécie de movimento sinestésico. A modelagem é uma experiência que, além de despertar essa sensorialidade, permite a vivência de uma comunicação intrapessoal mais plena e integrada. Entretanto, de modo geral, há que se resgatar esse diálogo, inclusive, com outras formas de expressões criativas, pois o <em>modus operandi</em> em vigor na sociedade contemporânea, imposto pelo espírito da época, promove um descolamento das práticas que caminharam junto com a evolução da humanidade. Perdeu-se a intimidade com aquilo que é artesanal, com a manufatura.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>Felizmente, o que importa é que, embora haja uma pressão social pela racionalidade, nada abafa o chamado do corpo. Em algum momento, nós somos convocados para uma vivência criativa com a matéria, que irá nos proporcionar outra relação com o mundo e com o tempo através dos sentidos. O corpo humano é um feixe complexo de sentidos, e dar sentido é anterior a conceituar. (GIANNOTTI, 2024, p. 100).</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-producao-artesanal-da-ceramica-ao-mobilizar-o-corpo-a-imaginacao-e-a-experiencia-artistica-favorece-a-expressao-de-conteudos-inconscientes-e-possibilita-ao-individuo-reconectar-se-com-funcoes-menos-desenvolvidas-de-sua-psique" style="font-size:18px">A produção artesanal da cerâmica, ao mobilizar o corpo, a imaginação e a experiência artística, favorece a expressão de conteúdos inconscientes e possibilita ao indivíduo reconectar-se com funções menos desenvolvidas de sua psique.</h2>



<p style="font-size:18px">O contato com a argila, sua plasticidade e poder de transformação revela-se não apenas como atividade manual, mas também como caminho terapêutico. Ela promove um contrapeso à unilateralidade, possibilitando o acesso a vivências simbólicas que ampliam a consciência, favorecendo o deslocamento da energia psíquica antes concentrada na função pensamento. Ao integrar mente, corpo e coração, o fazer artesanal resgata dimensões da psique negligenciadas, constituindo-se como um espaço fértil de cura e de reconciliação do indivíduo com a totalidade de sua vida psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-contato-com-o-barro-favorece-a-reconexao-com-a-natureza-e-seus-ciclos-por-ser-uma-matriz-simbolica-carregada-de-vida-memoria-e-ancestralidade-lembrando-nos-que-a-materia-esta-em-nos-e-nos-estamos-na-materia" style="font-size:18px">O contato com o barro favorece a reconexão com a natureza e seus ciclos, por ser uma matriz simbólica carregada de vida, memória e ancestralidade. Lembrando-nos que a matéria está em nós e nós estamos na matéria.</h2>



<p style="font-size:18px">A mistura de terra, água, ar e fogo transforma não apenas o barro em peças cerâmicas únicas, mas, evidencia que tudo tem uma trajetória a ser cumprida, um exemplo daquilo que Jung chama de função teleológica da psique. Ao mesmo tempo, mostra que tudo está em constante mutação e desenvolvimento. Ao buscar a interação e o equilíbrio desses quatro elementos, o ceramista acaba por encontrar seu próprio equilíbrio no mundo, devolvendo ordem ao caos através de cada peça moldada e transformada pelo fogo.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-processo-da-ceramica-artesanal-nos-permite-varios-aprendizados" style="font-size:18px">O processo da cerâmica artesanal nos permite vários aprendizados.</h2>



<p style="font-size:18px">Nele, nunca é possível ter o controle sob o produto final, mesmo depois de dar forma à argila. Muita coisa pode acontecer no meio do caminho. É necessária uma dose bastante grande de paciência até que sua existência se concretize. Não há como, por exemplo, menosprezar uma das primeiras etapas da atividade com o barro, que é a sova da argila, pois é ela que minimiza fortemente o risco de uma peça estourar. A persistência na espera do processo de secagem é primordial para que a peça não sofra distorções. Lixar exige todo o cuidado e delicadeza, para que a peça não se quebre nas mãos do ceramista. Sem contar com as horas de passagem pelo calor, que proporcionarão uma mudança drástica na estrutura da peça, funcionando como um ritual de passagem.</p>



<p style="font-size:18px">A esmaltação será uma das últimas etapas em toda essa trajetória de construção, cuidado, intimidade e amor ao trabalho com a cerâmica. Com isso, ela nos deixa mais uma lição: depois de ter passado pela segunda vez pelo fogo, a peça adquire cor e brilho que durarão por todo o tempo de sua existência. Assim também pode ser conosco, ganhar um pouco mais de cor e brilho em cada uma das vezes que enfrentamos as passagens pelo fogo em nossas vidas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>O &#8220;fazer cerâmica&#8221;, para mim, foi um encontro. Encontro com a Terra e o Fogo. A Terra me absorve totalmente, é o repouso, o aconchego. E sobretudo é receptiva e acolhedora; me limpa por dentro. O Fogo me atrai. É amigo e inimigo, traz entusiasmo e decepção, é vida ou morte. Tem sempre os seus mistérios. Fazer cerâmica é promover a harmonia dos elementos que constituem o universo: Terra, Agua, Ar, Fogo. De maneira poética: colocando em contato, os semelhantes e os opostos, o ceramista faz a união e a fusão desses elementos, para gerar sua obra. Penso que toda experiência estética deve ser um encontro com o mundo e consigo mesmo. Da vivência desse encontro e da sua maturidade nasceria a obra. Minha verdadeira obra ainda não surgiu. Mas o que me faz apresentar estes trabalhos é a certeza do encontro. São ainda experiências estéticas. Mas elas me prometem &#8230; (NAKANO, 1988, p. 67).</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Ao analisar o trecho acima, é possível perceber, através da produção artesanal da cerâmica, o quanto os elementos naturais estão correlacionados, simbolicamente, às quatro funções psicológicas, ao expressarem qualidades energéticas que caracterizam formas de perceber, avaliar, relacionar-se e criar sentido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-relacao-entre-os-elementos-e-as-funcoes-psicologicas-foi-descrita-por-waldemar-magaldi-na-obra-fundamentos-da-psicologia-analitica-2025-p-379" style="font-size:18px">Essa relação, entre os elementos e as funções psicológicas, foi descrita por Waldemar Magaldi, na obra Fundamentos da Psicologia Analítica (2025, p. 379).</h2>



<p style="font-size:18px">A função sensação, responsável pela captação imediata do dado concreto, encontra sua expressão simbólica no elemento terra. A manipulação da argila constitui uma experiência primordial de enraizamento, que convoca a função sensação e reequilibra subjetividades excessivamente abstraídas ou racionalizadas.</p>



<p style="font-size:18px">A função sentimento, vinculada à avaliação de valor, relaciona-se simbolicamente ao elemento água, tradicionalmente associado à fluidez, ao vínculo e à profundidade emocional. No fazer cerâmico, esse elemento emerge de múltiplas formas, no uso da água para tornar a matéria moldável, nos estados afetivos que acompanham o processo de criação e na relação íntima entre mãos e matéria.</p>



<p style="font-size:18px">A função pensamento, caracterizada pela discriminação lógica e pela elaboração conceitual, encontra sua analogia no elemento ar, símbolo da clareza, da articulação e da razão estruturante. No processo cerâmico, essa função se manifesta não como uma hipertrofia da racionalização abstrata, mas como planejamento e estruturação, integrando-se organicamente às demais funções, servindo ao processo criativo e cedendo espaço à dimensão simbólica.</p>



<p style="font-size:18px">A função intuição, orientada à percepção de possibilidades, corresponde ao elemento fogo, símbolo da transformação, da iluminação súbita e do vir a ser. O fogo transcende o dado imediato e revela potencialidades ocultas, assim como a intuição apreende direções ainda não manifestas. A cerâmica incorpora esse elemento tanto metafórica quanto literalmente, pois é no forno que a obra encontra sua forma definitiva, revelando cores, texturas e qualidades inesperadas.</p>



<p style="font-size:18px">Ao integrar essas quatro dimensões, observa-se que a prática cerâmica opera como um campo simbólico privilegiado para a recomposição da totalidade psíquica.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: A Produção Artesanal da Cerâmica como Exercício Si" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/OVo4zDPmFd0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-jageneski-dos-reis/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-jageneski-dos-reis/"><strong>Cristiane Jageneski – Membro Analista em formação</strong> <strong>pelo IJEP</strong></a></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências: </strong></h2>



<p><em>Imagem: foto de arquivo pessoal da autora</em></p>



<p>GIANNOTTI, Sirlene. <em>Vivenciar-se no fazer</em>. Caderno – Ensaio 1: Barro, p. 97-105. SP: Instituto Tomie Ohtake, 2024.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p>____, Carl Gustav.&nbsp; <em>Tipos psicológicos</em>. 7ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p>____, Carl Gustav.&nbsp; <em>A prática da psicoterapia</em>. 16ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p>____, Carl Gustav, <em>et al</em>. <em>O homem e seus símbolos. </em>3ª ed<em>.</em> RJ: Harper Collins, 2016.</p>



<p>MAGALDI, Waldemar. (Org.) Fundamentos da Psicologia Analítica. 2ª ed. São Paulo: Eleva Cultural, 2025.</p>



<p>NAKANO, Katsuko. <em>Terra, Fogo, Homem</em>. Tese de doutorado. Universidade de São Paulo, 1988.</p>



<p></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-producao-artesanal-da-ceramica-como-exercicio-simbolico/">A Produção Artesanal da Cerâmica como Exercício Simbólico</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O Encontro com o Mestre: Uma jornada de transformação pela Arteterapia</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-encontro-com-o-mestre-uma-jornada-de-transformacao-pela-arteterapia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Elaine Cristina Bedin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Feb 2026 19:38:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[expressões criativas]]></category>
		<category><![CDATA[IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[integração]]></category>
		<category><![CDATA[nise da silveira]]></category>
		<category><![CDATA[processo de individuação]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12016</guid>

					<description><![CDATA[<p>Todos nós temos um mestre interior, sabe aquele que te acompanha ao longo de sua vida? O curso de Arteterapia não é tão simples e divertido como parece, é acima de tudo, uma entrega, uma verdadeira jornada de alma. Uma travessia profunda onde não estudei apenas técnicas, obras e embasamentos teóricos, mas um chamado, fui chamada — por meio das imagens, das cores e dos símbolos — a mergulhar nos porões da minha história. Ao encerrar a formação em Arteterapia, fecho também um ciclo de vida profundamente simbólico e transformador, uma verdadeira travessia. Um chamado da alma que me levou a tocar feridas antigas e integrar as partes esquecidas de mim mesma</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-encontro-com-o-mestre-uma-jornada-de-transformacao-pela-arteterapia/">O Encontro com o Mestre: Uma jornada de transformação pela Arteterapia</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>“Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece&#8230; ou desaparece.”<br>(Ditado antigo, citado por muitos mestres espirituais)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: Todos nós temos um mestre interior, sabe aquele que te acompanha ao longo de sua vida? O curso de Arteterapia não é tão simples e divertido como parece, é acima de tudo, uma entrega, uma verdadeira jornada de alma. Uma travessia profunda onde não estudei apenas técnicas, obras e embasamentos teóricos, mas um chamado, fui chamada — por meio das imagens, das cores e dos símbolos — a mergulhar nos porões da minha história. Ao encerrar a formação em Arteterapia, fecho também um ciclo de vida profundamente simbólico e transformador, uma verdadeira travessia. Um chamado da alma que me levou a tocar feridas antigas e integrar as partes esquecidas de mim mesma</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-i-o-chamado-da-alma-ferida" style="font-size:19px"><strong>I. O chamado da alma ferida</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Durante dois longos anos, tive a oportunidade de viver e reviver momentos únicos: &nbsp;um processo de mergulhos, reencontros e revelações, momentos que marcaram profundamente a minha vida. Conheci várias pessoas, algumas vivem em mim outras convivem comigo, mas com certeza, todas estão aqui, “ao lado esquerdo do peito”, como diz nosso querido Milton Nascimento.</p>



<p style="font-size:19px">&nbsp;Ao encerrar a formação em Arteterapia, fecho também um ciclo de vida profundamente simbólico e transformador, uma verdadeira travessia. Um chamado da alma que me levou a tocar feridas antigas e integrar as partes esquecidas de mim mesma.</p>



<p style="font-size:19px">O curso de Arteterapia não é tão simples e divertido como parece, é acima de tudo, uma entrega, uma verdadeira jornada de alma. Uma travessia profunda onde não estudei apenas técnicas, obras e embasamentos teóricos, mas um chamado, fui chamada — por meio das imagens, das cores e dos símbolos — a mergulhar nos porões da minha história.</p>



<p style="font-size:19px">Carrego no peito o eco de uma ferida primordial: a rejeição de uma filha não acolhida por sua mãe. Uma dor silenciosa, suavizada apenas pelo gesto amoroso dos tios que, não podendo gerar, me escolheram com o coração. Cresci entre afetos e silêncios, marcada por uma ferida invisível, que mais tarde encontraria eco. No entanto, como nos ensina Jung, &#8220;nós não nos tornamos iluminados imaginando figuras de luz, mas sim tornando consciente a escuridão&#8221; (JUNG, 1976, p. 265). E, mais uma vez, a sombra se fez presente novamente em experiências de abuso, repetições, silêncios e traumas que marcaram minha adolescência e vida adulta. Os complexos gritando e emergindo de uma dor sem fim!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-das-dores-algo-em-mim-permanecia-resistente-uma-centelha-viva-que-me-impulsionava-a-buscar-sentido" style="font-size:19px">Apesar das dores, algo em mim permanecia resistente &#8211; uma centelha viva que me impulsionava a buscar sentido.</h2>



<p style="font-size:19px">Foi nesse movimento que encontrei a Psicopedagogia, meu primeiro portal de sentido e, mais adiante, a Psicologia Analítica, onde pude compreender e acolher as dores de crianças e adolescentes. Atendendo a este público com dificuldades de aprendizagem, percebia que por trás das questões escolares havia dores emocionais profundas, afinal a cognição não funciona sem sua aliada, a psique. &nbsp;E foi movida por essa sede de compreender a psique humana, especialmente a infância ferida e as dores da alma, que encontrei Jung. Encontrei Jung ou fui encontrada por ele? &nbsp;Afinal, como diz o ditado, “<em>Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece.&#8221;</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ii-o-encontro-com-jung-o-velho-sabio" style="font-size:19px"><strong>II. O encontro com Jung: o Velho Sábio</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Meu caminho, porém, ainda ansiava por algo mais profundo. Foi nesse movimento de busca que nos encontramos, eu e Jung. Em seu arquétipo do Velho Sábio, reconheci uma figura que, simbolicamente, me parecia familiar — quase como Merlin, o mago que aparece nos momentos certos para guiar o herói. Este velho Sábio apareceu todas as vezes que finalizava um curso, além dos de especialização, os diversos cursos de extensão que cumpri. Em sonhos ou através de imaginação ativa, ele se manifestava com uma palavra de acolhimento ou alguma mensagem provocativa<strong>. </strong>Como descreve Silveira (1981, p.161): “No mistério do ato criador, o artista mergulha até as profundezas imensas do inconsciente. Ele dá forma e traduz na linguagem de seu tempo as intuições primordiais e, assim fazendo, torna acessíveis a todos as fontes profundas da vida”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-me-ofereceu-um-mapa-para-a-psique-onde-pude-entender-que-cada-imagem-cada-simbolo-cada-criacao-artistica-e-expressao-do-inconsciente-buscando-se-manifestar" style="font-size:19px">Jung me ofereceu um mapa para a psique, onde pude entender que cada imagem, cada símbolo, cada criação artística é expressão do inconsciente buscando se manifestar.</h2>



<p style="font-size:19px">As dores não elaboradas, emergem em busca de reconhecimento. E, foi através da Arteterapia que essas imagens ganharam corpo: em mandalas, colagens, esculturas, máscaras e sonhos, emergiram minhas personas, minhas sombras e, principalmente, meus potenciais esquecidos.</p>



<p style="font-size:19px">Neste ponto, a Arteterapia entrou em minha vida como um reencontro de almas, um despertar. Um despertar que trouxe à luz a criança silenciada, a mulher criativa e a filha esquecida. As imagens emergentes me conduziram, passo a passo, ao centro de mim mesma. Vivenciei cada encontro como uma oferenda simbólica, onde os materiais — argila, tinta, tecido, papel, lápis e o meu próprio corpo — ganharam vida e se tornaram linguagem da alma.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Duchastel</strong>, com sua profunda escuta simbólica, diz que “<em>Na terapia, toda intervenção colocada a serviço de uma ideia gera ideias originais; toda interpretação de uma imagem cria imagens. Assim, o processo de cura é perseguido sem cessar</em>.” (DUCHASTEL, 2010, p. 117)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-iii-a-bola-de-cristal-simbolo-de-integracao" style="font-size:19px"><strong>III. A bola de cristal: símbolo de integração</strong></h2>



<p style="font-size:19px">E como falar de imagem sem citar Nise da Silveira, a mestra brasileira que deu forma ao invisível. Ao trabalhar com pacientes psiquiátricos no Hospital Pedro II, através da sua sensibilidade, percebeu que o que a sociedade chamava de &#8220;loucura&#8221; era, muitas vezes, a linguagem simbólica da alma. Ela dizia que “As imagens não são apenas representações de sentimentos, mas manifestações do próprio inconsciente se expressando por símbolos.” (SILVEIRA, 1981)</p>



<p style="font-size:19px">No meu processo de formação, essa compreensão foi essencial. Ao criar imagens que vinham de dentro, comecei a ver que eu também carregava mundos internos inteiros: mandalas, casas, feridas, mães, meninas e anciãs. Parecia que a imagem não era apenas uma imagem e sim um pedaço de mim, um dentro do outro que desabrochava &nbsp;&nbsp;e aparecia.</p>



<p style="font-size:19px">Na última aula da formação, vivi uma experiência simbólica inesquecível. Durante um exercício profundo de imaginação ativa, reencontrei meu Mestre interior — uma figura arquetípica que sempre me acompanhou nos momentos decisivos. Parecia Merlin, com seu olhar amoroso e sua bola de cristal nas mãos.</p>



<p style="font-size:19px">Naquela esfera luminosa, vi surgir imagens da minha trajetória: desde a menina rejeitada até a mulher que hoje escreve este relato. Vi meus rostos de infância, juventude e maturidade emergirem e se fundirem num mesmo centro — um mosaico de mim mesma, costurado por vivências, dores, conquistas e resiliência.</p>



<p style="font-size:19px">Rimos, nos olhamos com ternura e, ao final, ele me disse:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-agora-ela-e-sua-siga-seu-caminho" style="font-size:19px">— Agora ela é sua. Siga seu caminho.</h2>



<p style="font-size:19px">Colocou a bola de cristal em minhas mãos e eu chorei. Chorei porque naquele gesto entendi que o mestre já não estava fora e sim dentro de mim. E esse símbolo, a esfera translúcida, passou a representar minha intuição, minha escuta sensível e meu dom criativo.</p>



<p style="font-size:19px">A entrega da bola de cristal simbolizou um retorno, parecia que estava retornando ao centro de mim mesma e renascendo, as lagrimas escorriam pela face. Não era mais o Mestre quem me mostrava os caminhos — ele me devolveu a responsabilidade e a liberdade de trilhar o meu. Agora sou eu quem carrego a bola da intuição, da visão e da criação.</p>



<p style="font-size:19px">E essas lágrimas são de reconhecimento, de libertação, de amor-próprio. Aquela menina rejeitada, silenciada, agora era vista, acolhida e conduzida por sua própria força interior.</p>



<p style="font-size:19px">Jung descreve o processo de individuação como o retorno ao Self — centro organizador da psique —, quando o ego se curva diante da totalidade interior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-iv-a-arteterapia-como-caminho-de-individuacao" style="font-size:19px"><strong>IV. A Arteterapia como caminho de individuação</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Esse processo, vivido profundamente na formação, é o que Jung chamou de caminho de individuação: um movimento de integração das polaridades internas, do ego com o self, da persona com o ego e do ego com a sombra. Cada produção artística foi uma ponte entre o consciente e o inconsciente, entre o passado e o presente, entre a dor e a cura.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px">“<em>Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por “individualidade” entendermos a nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si mesmo.” (JUNG,1987, p.49)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Nise nos lembra que “O arteterapeuta não é um artista, mas sim um testemunho do Sagrado que emerge da alma do cliente.” E o mais Sagrado de todos esses testemunhos é quando esse papel se volta para nós mesmos. Quando nos tornamos testemunhas da nossa própria travessia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-arte-e-a-expressao-do-ser-humano-e-a-expressao-do-que-ele-e-do-que-ele-sente-do-que-ele-pensa-silveira-1992" style="font-size:19px"><em>“A arte é a expressão do ser humano, é a expressão do que ele é, do que ele sente, do que ele pensa.” (SILVEIRA, 1992)</em></h2>



<p style="font-size:19px">A arte, nesse sentido, não cura por si só, mas nos permite acessar partes de nós que estavam adormecidas. E ao dar forma à dor, podemos ressignificá-la. Como Jung bem expressou: “aquilo que não enfrentamos em nós mesmos, encontraremos como destino” (JUNG, 1976, p. 169). A Arteterapia nos convida a enfrentar, elaborar e integrar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-v-o-retorno-do-feminino-criador" style="font-size:19px"><strong>V- O retorno do feminino criador</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Hoje, sinto que retornei ao centro. Carrego comigo a bola de cristal — metáfora do olhar simbólico, da escuta sensível, da criatividade que transcende a técnica. A menina rejeitada se tornou mulher criativa. A dor deu lugar à potência. E o Mestre, em seu gesto silencioso de despedida, não desapareceu: ele mora agora dentro de mim.</p>



<p style="font-size:19px">Nise nos diz que “<strong><em>Para navegar contra a corrente são necessárias condições raras: espírito de aventura, coragem, perseverança e paixão</em></strong>.”(SILVEIRA, 1990)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-formacao-em-arteterapia-nao-foi-um-curso-foi-um-rito-de-passagem-um-renascimento" style="font-size:19px">A formação em Arteterapia não foi um curso, foi um rito de passagem, um renascimento. </h2>



<p style="font-size:19px">Afinal, segundo minha analista Simone Magaldi: “<em>Fazer análise é para os fortes.</em>” E que alegria é poder dizer isso ao final dessa jornada.</p>



<p style="font-size:19px">Que outras mulheres, filhas, mães, meninas e mestras possam encontrar também seu caminho através da arte, da alma e do amor.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Hoje sigo com minha bola de cristal simbólica nas mãos</strong>. Sigo com Jung, Nise, Von Franz e tantos outros como guias internos. Mas, sobretudo, sigo comigo mesma e entendo que a verdadeira cura não está em apagar as cicatrizes, mas em honrá-las como parte da nossa história.</p>



<p style="font-size:19px"><em><strong>“Portanto, não se chega à claridade pela representação da luz, mas tornando consciente aquilo que é obscuro.” (JUNG, 2013, p.280)</strong></em></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: O Encontro com o Mestre Uma jornada de transforma" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/cNh96MLMTt4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/elaine-cristina-bedin/">Elaine Bedin dos Reis – Analista em formação do IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas" style="font-size:18px"><strong>Referências Bibliográficas</strong>:</h2>



<p>DUCHASTEL, Alexandra<em>. O caminho do imaginário.</em> São Paulo: Paulus, 2010.</p>



<p>JUNG, C. G. <em>Estudos Alquímicos.</em> Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p>JUNG, C. G. <em>Psicologia do Inconsciente.</em> Petrópolis: Vozes, 2014</p>



<p>JUNG, C. G. <em>O Eu e o Inconsciente.</em> Petrópolis: Vozes, 1987.</p>



<p>JUNG, C. G. <em>Memórias, Sonhos, Reflexões</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1976.</p>



<p>SILVEIRA, Nise da. <em>Imagens do Inconsciente</em>. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981.</p>



<p>SILVEIRA, Nise da. <em>Cartas a Spinoza</em>. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-encontro-com-o-mestre-uma-jornada-de-transformacao-pela-arteterapia/">O Encontro com o Mestre: Uma jornada de transformação pela Arteterapia</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Me conta seu conto</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/me-conta-seu-conto/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Barbara Pessanha]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Jun 2025 13:08:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Contos de Fada]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[contos de fadas]]></category>
		<category><![CDATA[Imaginação ativa]]></category>
		<category><![CDATA[individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Marie-Louise von Franz]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10586</guid>

					<description><![CDATA[<p>Os contos de fadas são assim.Uma manhã, a gente acordaE diz: &#8220;era só um conto de fadas&#8230;&#8221;E a gente sorri de si mesma.Mas, no fundo, não estamos sorrindo.Sabemos muito bem que os contos de fadasSão a única verdade da vida. Antoine de Saint-Exupéry Resumo: Este ensaio visa formular ideias e experiências a partir dos contos [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/me-conta-seu-conto/">Me conta seu conto</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center" style="font-size:17px">Os contos de fadas são assim.<br>Uma manhã, a gente acorda<br>E diz: &#8220;era só um conto de fadas&#8230;&#8221;<br>E a gente sorri de si mesma.<br>Mas, no fundo, não estamos sorrindo.<br>Sabemos muito bem que os contos de fadas<br>São a única verdade da vida.</p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:17px"><a href="https://www.pensador.com/autor/antoine_de_saint_exupery/">Antoine de Saint-Exupéry</a></p>
</blockquote>



<p style="font-size:17px"><em><strong>Resumo</strong>: Este ensaio visa formular ideias e experiências a partir dos contos de fadas que surgem no processo terapêutico, além de aspirar impulsionar terapeutas, analistas e arteterapeutas a ampliar os contos, histórias ou &#8220;vestígios&#8221; mitológicos dos clientes trazidos a clínica. A busca pelos conteúdos sombrios que emergem a partir da associação com histórias e &#8216;estórias&#8217; podem nos auxiliar como condutor simbólico para revelar ao cliente mais de si mesmo.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-era-uma-vez-era-uma-vez-nao-respeita-chronos-o-grande-senhor-do-tempo-cronologico-pelo-menos-assim-me-parece" style="font-size:19px"><em>Era uma vez&#8230;</em> Era uma vez não respeita Chronos, o grande senhor do tempo cronológico &#8211; pelo menos assim me parece.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Os contos trazem o tempo do <em>não tempo</em>, eles trazem o efeito do agora e mesmo que a história tenha sido escutada, ouvida, assistida e elaborada uma vida inteira quando acessamos esse espaço do que <em>uma vez foi</em>, posso assegurar com alguma confiança de o tempo é agora.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Uma vez que, na prática, existem fenômenos da consciência e do inconsciente, o si mesmo como totalidade psíquica tem aspecto consciente e inconsciente. O si mesmo aparece empiricamente em sonhos, mitos e contos de fadas, na figura de “personalidades superiores” como reis, heróis, profetas, salvadores etc., ou na figura de símbolos de totalidade como o círculo, o quadrilátero, a quadratura circuli (quadratura do círculo), a cruz etc. Enquanto representa uma complexio oppositorum, uma união dos opostos, também pode manifestar-se como dualidade unificada, como, por exemplo, no tao, onde concorrem o yang e o yin, como irmãos em litígio, ou como o herói e seu rival (dragão, irmão inimigo, arqui-inimigo, Fausto e Mefisto etc.). Empiricamente, pois, o si mesmo aparece como um jogo de luz e sombra, ainda que seja entendido como totalidade e, por isso, como unidade em que se unem os opostos.</p><cite>JUNG, 2012. vol.6 §902</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-contos-de-fadas-estao-presentes-em-diversas-culturas-ao-redor-do-mundo-e-em-cada-lugar-ele-se-adapta-para-responder-e-reescrever-as-necessidades-de-coletivos-e-individuos-e-fazem-isso-pois-carregam-uma-riqueza-simbolica-que-transcende-fronteiras-e-epocas" style="font-size:19px">Os contos de fadas, estão presentes em diversas culturas ao redor do mundo e em cada lugar ele se adapta para responder e reescrever as necessidades de coletivos e indivíduos, e fazem isso pois carregam uma riqueza simbólica que transcende fronteiras e épocas.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Para Jung, esses contos representam manifestações do inconsciente coletivo, uma camada da psique compartilhada por toda a humanidade e composta por arquétipos que nos afetam de forma laboriosa, é inevitável o afeto, assim como é inevitável para de respirar para se viver. Esses contos, mitos e histórias reveladas de forma ancestral nos apresentam símbolos e contextos que aparecem de forma simbólica nas narrativas, oferecendo um espelho das experiências humanas mais profundas.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Do mesmo modo como as constelações foram projetadas no céu, assim também outras figuras semelhantes foram projetadas nas lendas e nos contos de fadas ou em personagens históricas. Por isso, podemos estudar o inconsciente coletivo de duas maneiras: na mitologia ou na análise do indivíduo. Como não posso colocar este último material ao alcance dos leitores, devo limitar-me à mitologia.</p><cite>JUNG, 2012. vol.6 §325</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">C. G. Jung tenta trazer na sua obra a importância do trabalho terapêutico feito a partir de elaborações e ampliações na clínica em cima de determinados temas trazidos pelos clientes pelo método de contação de estórias ou ampliação simbólica de mitos e contos de fadas. Essa condução atinge camadas da psique que não conseguimos acessar de forma livre ou espontânea, mas permite ao indivíduo elaborar questões de valor pessoal que muitas vezes não são perceptíveis pela consciência. Afinal, “<strong>todos os contos de fadas tentam descrever apenas um fato psíquico</strong>” (Von Franz, p.10) e muitas vezes nos negamos a conscientizar que nos apoiamos em fatores externos para não darmos conta desses fatos internamente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-maria-louise-von-franz-aprofundou-essa-compreensao-ao-analisar-os-contos-de-fadas-como-expressoes-simbolicas-do-processo-de-individuacao-o-caminho-de-integracao-do-self" style="font-size:19px"><strong>Maria Louise Von Franz</strong>, aprofundou essa compreensão ao analisar os contos de fadas como expressões simbólicas do processo de individuação &#8211; o caminho de integração do self. </h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Segundo ela, esses contos não são apenas histórias infantis, mas mapas simbólicos que orientam o indivíduo na jornada de autoconhecimento, confrontando aspectos internos como medos, desejos e potencialidades; e mais que isso a analista abre seu livro <em>A interpretação dos contos de fada </em>afirmando de forma objetiva que os contos de fada são “a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo” (Von Franz, p.9) e completa que o valor deles dentro de um processo analítico de investigação do inconsciente é tão importante, que ela considera o mais importante.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Nos mitos, lendas ou qualquer outro material mitológico mais elaborado, atingimos as estruturas básicas da psique humana através de uma exposição do material cultural. Mas nos contos de fada existe um material cultural consciente muito menos específico e, subsequentemente, eles espelham mais claramente as estruturas básicas da psique.</p><cite>VON FRANZ, PÁG.09</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Na prática terapêutica, tanto <strong>Jung </strong>quanto <strong>Von Franz </strong>utilizavam os contos de fadas como ferramentas de ampliação para a elaboração dos processos individuais dos clientes em seus respectivos processos. Através da análise dos símbolos presentes nas histórias, o cliente pode reconhecer padrões internos, conflitos e potencialidades. Essa abordagem arteterapêutica nos ajuda a acessar uma compreensão mais profunda do inconsciente, promovendo a integração de aspectos reprimidos ou desconhecidos.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“Nos mitos e contos de fada, como no sonho, a alma fala de si mesma e os arquétipos se revelam em sua combinação natural, como “formação, transformação, eterna recriação do sentido eterno””. </p><cite>(Jung, 2012. vol.9/1 §400)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Na arteterapia, os contos de fadas servem como fonte de inspiração para a criação de imagens que representam os processos internos do indivíduo, e quando falamos imagens, podemos ficar apenas na elaboração verbal, no caso. Imagens dentro do processo arteterapêutico junguiano fala de todo e qualquer aspecto que traga conteúdo para elaboração simbólica na clínica. Mas os contos de fada podem promover mais, pois ao ilustrar ou dramatizar esses contos, o paciente acessa emoções e símbolos que muitas vezes estão além da fala, facilitando a expressão de conteúdos inconscientes e promovendo algumas integrações e percepções que dirigidas pelos afetos das práticas e dos materiais rompem um padrão de controle, ao qual todos somos submetidos, quando nosso complexo do Ego tem a permissão para elaborar.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">A arteterapia nos possibilita usar todas as funções e olhar o objeto como um terceiro elemento promovendo uma percepção única e apurada dos elementos trazidos a consciência pelo Self. “<strong>Quanto mais diferenciadas e desenvolvidas são as funções do consciente, melhor e mais rica será a interpretação feita, pois, a história será circundada, tanto possível, pelas quatro funções</strong>&#8220;. (Von Franz, pág.24)</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Do mesmo modo como as constelações foram projetadas no céu, assim também outras figuras semelhantes foram projetadas nas lendas e nos contos de fadas ou em personagens históricas. Por isso, podemos estudar o inconsciente coletivo de duas maneiras: na mitologia ou na análise do indivíduo. Como não posso colocar este último material ao alcance dos leitores, devo limitar-me à mitologia.</p><cite> JUNG, 2012. vol.6 §325</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Assim sendo, podemos “contar” com os contos de fadas, sob a perspectiva da psicologia analítica como um recurso extremamente importante e funcional pois são instrumentos poderosos de conexão com o inconsciente coletivo, facilitando o processo de reconhecimento de conteúdos muitas vezes desconhecidos por nós mesmos. Sua virtude está nos acessos simbólico e universal os torna recurso valiosos tanto na prática clínica junguiana quanto na arteterapia com elaboração e aprofundamento da psicologia analítica sobre os conteúdos oriundos das práticas. <strong>Com isso, contribuímos para uma compreensão mais profunda de si mesmo e do mundo interior dos nossos clientes/criantes/analisandos</strong>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-large is-style-default" style="font-size:18px"><blockquote><p>Não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos.</p><cite><strong>Anais Nin</strong></cite></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Me conta seu conto&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/hL_X19zOwes?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/barbara/">Bárbara Pessanha &#8211; Membro Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">E. Simone Magaldi – Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p>JUNG, Carl Gustav. <strong>Tipos Psicológicos</strong>. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 6)</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <strong>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</strong>. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 9/1)</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <strong>Aion – Estudo sobre o simbolismo do si mesmo</strong>. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 9/2)</p>



<p>VON FRANZ, Marie Louise.&nbsp;A Interpretação dos Contos de Fada. São Paulo. Paulus, 7ª edição, 2008.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/me-conta-seu-conto/">Me conta seu conto</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Mosaico como recurso de Ressignificação no Processo Terapêutico</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/mosaico-como-recurso-de-ressignificacao-no-processo-terapeutico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Beatriz Proença Whitaker de Assumpção]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Feb 2025 22:02:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[kintsugi]]></category>
		<category><![CDATA[mosaico]]></category>
		<category><![CDATA[processo terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[setting terapeutico]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10191</guid>

					<description><![CDATA[<p>RESUMO: Esse artigo, de motivação pessoal, aborda a expressão criativa de se fazer um mosaico, no processo terapêutico, como uma oportunidade de se trabalhar os complexos e reintegrá-los à totalidade psíquica, facilitando a reorganização do mundo interno do indivíduo. INTRODUÇÃO Tenho em casa um jogador mirim de futebol, que sonha muito em um dia ser [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/mosaico-como-recurso-de-ressignificacao-no-processo-terapeutico/">Mosaico como recurso de Ressignificação no Processo Terapêutico</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>RESUMO</strong>: Esse artigo, de motivação pessoal, aborda a expressão criativa de se fazer um mosaico, no processo terapêutico, como uma oportunidade de se trabalhar os complexos e reintegrá-los à totalidade psíquica, facilitando a reorganização do mundo interno do indivíduo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao" style="font-size:18px">INTRODUÇÃO</h2>



<p style="font-size:18px">Tenho em casa um jogador mirim de futebol, que sonha muito em um dia ser jogador profissional. Seu corpo, mesmo que ele se esforce, não consegue parar de chutar a bola o tempo todo, da hora que sai da cama, até a hora do boa noite. Pouco tempo atrás, ele acertou a bola em uma prateleira muito alta, onde eu acreditava que meus objetos favoritos estariam protegidos do seu talento futebolístico. Me equivoquei, pois um vaso, que tinha um valor emocional muito significativo para mim, despencou lá de cima e, sendo de cerâmica, partiu-se em diversos pedaços e muitos farelos.</p>



<p style="font-size:18px">Por saber do meu apreço pelo vaso, meu filho chorava e me abraçava, completamente decepcionado consigo mesmo. Logo que comecei a varrer os cacos, ele me pediu pra que não os jogasse fora, pois ele daria um jeito de colar. Apesar de estar totalmente descrente da eficácia de sua ideia, resolvi guardar os pedaços, para que houvesse uma chance dele se retratar, ainda que apenas em tentativa. Na mesma noite do ocorrido, quando meu marido chegou em casa, ao saber do “caso” do vaso partido, ele me contou que no dia seguinte filmaria uma cena de vaso se quebrando, com a presença no set de filmagem de um restaurador, que usaria uma técnica japonesa para colar os pedaços. Pôde então ser concretizado o desejo muito sincero de uma criança arrependida de sua “boa” pontaria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-tecnica-citada-e-chamada-de-kintsugi-que-significa-emendar-com-ouro" style="font-size:19px">A técnica citada é chamada de <strong>Kintsugi</strong>, que significa “emendar com ouro”.</h2>



<p style="font-size:18px">A técnica consiste em misturar cola com pó de ouro, prata ou platina para recuperar cerâmicas e porcelanas. Surgiu no Japão, no século XV, quando o xogum (mais alto título militar concedido pelo imperador) Ashikaga Yoshimasa enviou à China uma cerâmica quebrada para ser restaurada. Não satisfeito com o resultado, que utilizou grampos metálicos para juntar os pedaços, o xogum pediu para que artesãos japoneses desenvolvessem outra maneira de consertar a peça. Esses artesãos, ao invés de tentarem disfarçar as emendas entre os pedaços partidos, usaram ouro para colá-los e, assim, evidenciar as falhas. <strong>Com isso, os defeitos e imperfeições não foram mais escondidos, mas valorizados, trazendo uma nova beleza para a peça</strong>. Assim, a técnica Kintsugi permitiu que o objeto ganhasse novo uso após seu dano ou ruptura (Cf. HATANAKA, 2023, sp).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-gracas-ao-kintsugi-meu-filho-teve-a-possibilidade-de-reparar-algo-muito-importante-dentro-de-si" style="font-size:19px">Graças ao Kintsugi, meu filho teve a possibilidade de reparar algo muito importante dentro de si. </h2>



<p style="font-size:18px"><strong>Ele teve a chance de fazer algo novo surgir dos cacos e me presenteou com um objeto novo, diferente do antigo, mas com um significado muito mais importante para mim.</strong></p>



<p style="font-size:18px">Essa situação me fez pensar no uso do mosaico como recurso, dentro de um <em>setting</em> de arteterapia, de possibilidade de ressignificação de uma dor ou até mesmo de conteúdos psíquicos rompidos de nossos clientes. Antes de entrarmos nessa reflexão, vamos conhecer um pouco da sua história como expressão artística.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-breve-historia-do-mosaico" style="font-size:18px">UMA BREVE HISTÓRIA DO MOSAICO</h2>



<p style="font-size:18px">A palavra mosaico, de origem grega, significa “paciência digna das musas”. “Paciência porque requer concentração e muita atenção para executá-lo, e digna das musas por se tratar de um trabalho de uma beleza rara e magnífica” (MEDEIROS; BRANCO, 2012, p. 39). O mosaico é considerado, assim como a pintura e a escultura, uma das primeiras manifestações culturais do ser humano. Pesquisas indicam que a técnica tem origem nas civilizações antigas, como Egito e Mesopotâmia. Segundo historiadores, o primeiro mosaico produzido data de 3.500 a.C, na antiga cidade de Ur, sendo composto por dois painéis realizados em mármore, arenito vermelho e conchas, que eram carregados em procissões.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“A obra retrata a guerra e a paz, com cenas do cotidiano de uma sociedade que utilizava veículos de transporte e de combate com características bem rudimentares.” </p><cite>(MEDEIROS; BRANCO, 2012, p. 40)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">No Egito, os mosaicos eram usados para ornamentar as paredes e colunas dos templos com pedras preciosas e vidro. Já na Grécia, os mosaicos eram usados para pavimentar os pisos, retratando cenas com motivos mitológicos e recriando situações de lutas e caças de animais. Quando os romanos conquistaram a Grécia, assimilaram diversas formas de arte, incluindo o mosaico. Neste período, começou a ser usado em basílicas onde eram reproduzidas cenas bíblicas. O mosaico passou então a ser um elemento de difusão do Cristianismo, adquirindo um caráter majestoso de riqueza e poder (Cf. MEDEIROS; BRANCO, 2012, p. 40-43).</p>



<p style="font-size:18px">Bem mais tarde, no começo do século XX, o arquiteto catalão Antonio Gaudí, utilizou-se do mosaico para conciliar arquitetura e decoração, rompendo com a sua estrutura plana. A técnica chegou no Brasil, sendo utilizada em várias construções espalhadas pelo país, principalmente como revestimento externo. As primeiras cidades a adotarem a técnica, que foi trazida pelos franceses e italianos, foram São Paulo e Rio de Janeiro. Nesta ultima cidade, “as calçadas também ganharam graça e beleza com a iniciativa do prefeito Pereira Passos, quando, em 1905, pavimentou a Avenida Central &#8211; hoje Avenida Rio Branco” (MEDEIROS; BRANCO, 2012, p.43).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uso-do-mosaico-na-arteterapia" style="font-size:18px">USO DO MOSAICO NA ARTETERAPIA</h2>



<p style="font-size:18px">Assim como o vaso despedaçado e depois restaurado, o mosaico permite que peças inteiras de azulejos sejam quebradas para, então, criar e transformar seus múltiplos cacos em uma nova peça, uma nova unidade.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“A produção da peça depende de cada caco encaixado adequadamente na composição da imagem. Um caco que se encaixa em uma determinada parte não cabe na outra.” </p><cite>(MARQUES, 2024, p. 9)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-mesmo-modo-que-o-mosaico-tambem-somos-feitos-de-pedacos-de-diversos-fragmentos-psiquicos-que-nos-compoe" style="font-size:18px">Do mesmo modo que o mosaico, também somos feitos de pedaços; de diversos fragmentos psíquicos que nos compõe.</h2>



<p style="font-size:18px">Apesar de nos reconhecermos como uma unidade, o inconsciente é habitado por inúmeros <strong>complexos</strong>, isto é, imagens de situações psíquicas de forte carga emocional, que geralmente são incompatíveis com a atitude da consciência. Como explica Jung, “<strong>esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de <em>autonomia</em></strong>” (2013, p. 43).</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Os complexos são como pedaços que foram arrancados da psique por um choque emocional ou moral, no embate com o mundo exterior</strong>. Por nascerem dessa incompatibilidade com a atitude da consciência, os complexos são reprimidos e se tornam inconscientes. Eles são, então, sentidos em nós como personagens internos autônomos, ou externos (quando projetados), e que têm influência na nossa maneira de pensar, de agir e de sentir. Esse processo de cisão entre consciência e conteúdos do inconsciente tem efeito no indivíduo como uma sensação de perda, “e quando um complexo perdido se torna, de novo, consciente, por exemplo, através do tratamento psicoterapêutico, o indivíduo sente que houve um aumento de força” (JUNG, 2013, p.265).</p>



<p style="font-size:18px">Verena Kast (2013, p.42), em <em><strong>A dinâmica dos símbolos</strong></em>, identifica no trabalho terapêutico com os complexos, uma chance de desenvolvimento do indivíduo. A autora explica que os complexos podem ter tanto caráter inibidor, quanto promotor. Para ela, ao trabalhar os complexos em um processo analítico, identificando-os e conscientizando-se de sua dinâmica, sempre há a chance de liberar a energia contida nele para que haja sua integração à consciência e, assim, favorecendo o desenvolvimento do indivíduo.</p>



<p style="font-size:18px">Há complexos que inibem, outros que promovem. Esse é um lado da realidade. O outro é que, em todo complexo, ainda que inicialmente se trate de um complexo inibidor sempre será também, se nos envolvermos com ele, um tema de desenvolvimento, um estimulo para o desenvolvimento. (KAST, 2013, p. 72)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-trabalhamos-os-complexos-na-clinica-atraves-da-fantasia-sonhos-e-expressoes-artisticas-ativamos-a-formacao-de-simbolos" style="font-size:18px">Quando trabalhamos os complexos na clínica, através da fantasia, sonhos e expressões artísticas, ativamos a formação de símbolos.</h2>



<p style="font-size:18px">Os símbolos têm uma função de mediar a relação conflituosa entre a consciência e o inconsciente. Ao simbolizarmos, conseguimos lidar criativamente com a vida, com os conflitos, e, acima de tudo, transformamos as forças inibidoras dos complexos em forças promotoras de desenvolvimento.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“Os complexos se tornam visíveis nos símbolos, por meio de fantasias. Pois onde há emoções, também há imagens. Os complexos se fantasiam, por assim dizer, nos símbolos.” </p><cite>(KAST, 2013, p. 48)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">A função simbólica do fazer artístico confere uma manifestação visível ao afeto do complexo. Jung percebeu a importância do uso de técnicas expressivas como meio de acesso ao inconsciente. </p>



<p style="font-size:18px">Como descreve Lígia Diniz (2018, p.35), em <em><strong>Arte: a linguagem da alma</strong></em>, “<strong>a Arteterapia, sob a ótica junguiana, parte do princípio que a vida psíquica tem uma tendência inata à organização e que o processo terapêutico por meio da arte poderá dinamizar esta tendência</strong>”.</p>



<p style="font-size:18px">Segundo Diniz (2018, p.35), o símbolo, trazido pela expressão artística, tem a capacidade de tocar o afeto, de compreender, refazer e reparar estruturas. Embora seu sentido oculto nunca seja totalmente esgotado, o símbolo traz a chance de trabalharmos o mundo interno do cliente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pratica-da-arteterapia-facilita-a-decifracao-do-mundo-interno-o-conflito-com-as-imagens-e-a-energia-psiquica-que-ai-se-configuram" style="font-size:18px">A prática da Arteterapia facilita a decifração do mundo interno, o conflito com as imagens e a energia psíquica que aí se configuram.</h2>



<p style="font-size:18px">A compreensão destas formas simbólicas possibilita o confronto com o inconsciente e a tomada de consciência de seus conteúdos, pois o mundo das emoções e o mundo das coisas concretas não estão separados por fronteiras intransponíveis. Ambos permeiam-se no dia a dia, o que é particularmente manifesto nas obras de artes plásticas e literárias, e a Arteterapia pode aperfeiçoar estes intercâmbios. (DINIZ, 2018, p.33)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conclusao" style="font-size:18px">CONCLUSÃO</h2>



<p style="font-size:18px">Trabalhar com mosaico no processo terapêutico é propor para o indivíduo que ele revisite seus fragmentos, os complexos, assim como sua memória e experiências, e possa reorganizá-los em uma nova versão. Através dos símbolos que surgem do inconsciente, o mosaico, como recurso terapêutico, traz uma possibilidade de reintegração dos aspectos que estavam cindidos à totalidade psíquica. A expressão do inconsciente através da arte permite que a carga emocional da imagem simbólica seja despotencializada, facilitando essa reorganização do mundo interno.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>O indivíduo pode ressignificar então seus conflitos, juntando os cacos, reorganizando e colando</strong>. Desse modo, um novo sentido para a experiência vivida surge, assim como aconteceu com meu filho e o vaso restaurado.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Mosaico como recurso de Ressignificação no Processo Terapêutico" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/lgpLdFT0k3Q?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><strong>Beatriz Assumpção &#8211; Analista em formação IJEP</strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/liaromano/">Lia Romano &#8211; Analista Didata IJEP</a> </strong></p>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">REFERÊNCIAS:</h2>



<p style="font-size:17px">DINIZ, Lígia. <em>Arte: linguagem da alma</em>. Arteterapia e psicologia junguiana. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2018.</p>



<p style="font-size:17px">HATANAKA, Paulo (2023). <em>Kintsugi</em>: <em>aceitar e valorizar as imperfeições</em>. <a href="https://www.japanhousesp.com.br/artigo/kintsugi/">https://www.japanhousesp.com.br/artigo/kintsugi/</a> Acesso em: 18 nov. 2024.</p>



<p style="font-size:17px">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10ed. Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p style="font-size:17px">KAST, Verena. <em>A dinâmica dos símbolos</em>. Fundamentos da psicoterapia junguiana. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p style="font-size:17px">MARQUES, Gilmara. <em>O mosaico e a expressão da totalidade da alma</em>. Curso de Arteterapia e expressões criativas, IJEP. São Paulo, 2024. Apostila de aula.</p>



<p style="font-size:17px">MEDEIROS, Adriana; BRANCO, Sonia. <em>Conto de fada</em>. Vivências e técnicas em arteterapia. 2ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2012.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p style="font-size:19px">Conheça nossas&nbsp;<strong>Pós-graduações</strong>&nbsp;com matrículas abertas:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a>&nbsp;–&nbsp;<strong><em>Arteterapia e Expressões Criativas; Psicossomática; Psicologia Junguian</em></strong><em><strong>a</strong></em></p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="https://www.ijep.com.br/"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/02/PSICOLOGIA-JUNGUIANA-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10196" style="width:764px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/PSICOLOGIA-JUNGUIANA-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/PSICOLOGIA-JUNGUIANA-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/PSICOLOGIA-JUNGUIANA-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/PSICOLOGIA-JUNGUIANA-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/PSICOLOGIA-JUNGUIANA-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/PSICOLOGIA-JUNGUIANA-1200x675.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/PSICOLOGIA-JUNGUIANA.png 1280w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p style="font-size:19px"><strong>Não perca</strong>: Vem aí o&nbsp;<strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep">X Congresso Junguiano do IJEP</a></strong>, com o tema “<strong>Crise da meia idade: O direito de Envelhecer e de Morrer</strong>“, que ocorrerá nos dias&nbsp;<strong>9, 10 e 11 de Junho de 2025</strong>,<strong>&nbsp;inscrições abertas</strong>! Serão mais de trinta palestras com os Professores e Analistas do IJEP, imperdível! Saiba mais e inscreva-se:&nbsp;<a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep">https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img decoding="async" width="1024" height="533" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2-1024x533.png" alt="" class="wp-image-10197" style="width:761px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2-1024x533.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2-300x156.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2-768x399.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2-1536x799.png 1536w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2-150x78.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2-450x234.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2-1200x624.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2.png 1909w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/mosaico-como-recurso-de-ressignificacao-no-processo-terapeutico/">Mosaico como recurso de Ressignificação no Processo Terapêutico</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A Substância: quando o feminino rejeita a segunda metade da vida</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-substancia-quando-o-feminino-rejeita-a-segunda-metade-da-vida/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marta Beatriz Conceição Guedes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Dec 2024 13:23:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[meia-idade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9866</guid>

					<description><![CDATA[<p>Resumo: O artigo analisa o filme A Substância (2024) sob a ótica da psicologia analítica, explorando a crise de meia-idade enfrentada pela protagonista Elisabeth Sparkles. Após ser demitida aos 50 anos, ela participa de um experimento para recuperar a juventude, mas a coexistência entre sua versão jovem e velha gera conflito e desintegração. O texto [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-substancia-quando-o-feminino-rejeita-a-segunda-metade-da-vida/">A Substância: quando o feminino rejeita a segunda metade da vida</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em><strong>Resumo</strong>: O artigo analisa o filme <strong>A Substância</strong> (2024) sob a ótica da psicologia analítica, explorando a crise de meia-idade enfrentada pela protagonista Elisabeth Sparkles. Após ser demitida aos 50 anos, ela participa de um experimento para recuperar a juventude, mas a coexistência entre sua versão jovem e velha gera conflito e desintegração. O texto aborda os arquétipos da puella e da anciã, que não se integram, evidenciando sua rejeição ao processo de metanoia e à individuação. Elisabeth permanece presa à persona e à ilusão de perfeição, culminando em um estado de fragmentação psíquica. O filme reflete os desafios contemporâneos de envelhecimento e busca de identidade.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-recentemente-entrou-em-cartaz-o-filme-a-substancia-2024-estrelado-pela-atriz-demi-moore-e-dirigido-por-coraline-fargeat-o-qual-causou-grande-impacto-na-critica-e-no-publico-em-geral" style="font-size:16px">Recentemente entrou em cartaz o filme <em><strong>A Substância</strong></em> (2024), estrelado pela atriz Demi Moore e dirigido por Coraline Fargeat, o qual causou grande impacto na crítica e no público em geral.</h2>



<p>O filme conta a história da apresentadora de TV Elisabeth Sparkles, que é demitida no seu aniversário de 50 anos, demissão justificada pelo seu envelhecimento. Inconformada com a rejeição sofrida, ela aceita passar por um experimento que prometia que ela retomasse a vida perdida e atingisse a sua “melhor versão”. Melhor versão esta que, na verdade, é um duplo de Elisabeth, mais jovem, mais bonita, mais perfeita. Contudo, mesmo havendo duas Elisabeth, uma jovem e uma velha, o experimento alertava que elas eram <em>uma</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-filme-tanto-a-antiga-como-a-nova-versao-de-elisabeth-coexistem-mas-distantes-entre-si-enquanto-uma-esta-performando-a-outra-esta-escondida" style="font-size:17px">No filme, tanto a antiga como a nova versão de Elisabeth coexistem, mas distantes entre si. <strong>Enquanto uma está performando a outra está escondida</strong>.</h2>



<p>Pelas orientações do experimento, ambas deveriam ter um tempo de recuperação em que haveria uma retroalimentação entre as versões, mas no decorrer do tempo essa tentativa e integração fica insuportável. A nova Elisabeth não consegue conviver com os limites da velha Elisabeth, e as versões acabam por se afastar e adoecer. A coexistência que poderia ocorrer se o protocolo estipulado pelo experimento fosse respeitado não acontece e, ao final, a integração das versões gera um monstro. A jovem não aceita a experiência da velha, e a velha não aceita a vida na jovem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-analisando-pela-perspectiva-junguiana-elisabeth-aos-50-anos-constela-o-arquetipo-da-puella-pelo-qual-recusa-se-a-sofrer-as-consequencias-do-envelhecimento-utilizando-para-tanto-a-s-ubstancia" style="font-size:17px">Analisando pela perspectiva junguiana, Elisabeth, aos 50 anos, constela o arquétipo da <em><strong>puella</strong></em>, pelo qual recusa-se a sofrer as consequências do envelhecimento, utilizando para tanto a S<em>ubstância</em>. </h2>



<p>Quando demitida, ao invés de utilizar o fato como impulso para a transformação, regride, buscando uma forma de parar o tempo, demonstrando estar identificada com a persona valorizada pelo patriarcado. A personagem recusa-se à <strong>metanoia</strong>, seja por inconsciência, seja por atendimento do z<em>eitgeist </em>ou espírito da época contemporâneo &#8211; que possui como um de seus valores a supremacia da ciência e a técnica.</p>



<p>Como<strong> Jung</strong> bem anuncia, falando do espírito da época, ele é como uma religião, um credo, e não se enquadra em categorias da razão humana (2000, p. 296). Estar sempre jovem, ser bem-sucedido, sempre com alta performance são algumas das fantasias da atualidade, e que impregna a todos os indivíduos.</p>



<p>Ao mesmo tempo que o duplo jovem recusa-se a ir em direção ao pôr-do-sol, utilizando-se aqui a metáfora de Jung para a segunda metade da vida, a outra parte, o arquétipo da velha sábia, a chama para aceitar o destino de todo ser humano, a passagem do tempo, quando vê que a jovem não possui a sua sabedoria. A sua versão do presente e, portanto, mais antiga, a chama, a partir da consciência de que a jovialidade do corpo não traz a sabedoria da experiência. Contudo, por resistência, Elisabeth não as integra, não progredindo sua energia psíquica para a individuação. Se transformando ao final não num indivíduo íntegro, mas numa coisa amorfa, desintegrada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-personagem-no-filme-esta-totalmente-vinculada-persona-que-e-a-mascara-social-da-profissional-bem-sucedida-jovem-e-simbolo-sexual" style="font-size:17px">A personagem no filme está totalmente vinculada persona, que é a máscara social da profissional bem-sucedida, jovem e símbolo sexual.</h2>



<p>Na definição de Jung, podemos entender persona como “uma simples máscara da psique coletiva, máscara que <em>aparenta uma individualidade</em>. Procurando convencer os outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade, não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva” (2015, p. 47)</p>



<p>Como evidência, no filme podemos ver várias fotos suas sozinha, tanto em sua casa como na empresa, todas em grandes dimensões, sem demonstrar em nenhuma delas relações de intimidade com ninguém, sendo apenas <em>ela</em>. Aparentemente, além de tomada pela persona, ela encontra-se em <em><strong>hybris</strong></em>. Isto é, vê-se em uma situação de superioridade, com o ego desconectado da totalidade psíquica, com uma inflação que não reconhece suas limitações e se desconecta da função do self como regulador psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outra-caracteristica-apresentada-no-filme-por-elisabeth-e-que-ela-constela-o-arquetipo-da-puella-pois-nao-aceita-a-inexoravel-acao-do-tempo" style="font-size:17px">Outra característica apresentada no filme por Elisabeth é que ela constela o arquétipo da <em>puella</em>, pois não aceita a inexorável ação do tempo.</h2>



<p>Antes de explicarmos no que consiste a <em>puella</em>, cabe esclarecer o que é <strong>arquétipo</strong>.  Segundo a teoria da psicologia analítica, o arquétipo é entendido sob o conceito de <strong>inconsciente coletivo</strong>. Para Jung, os arquétipos são padrões coletivos, significando um “<em>typos</em>” (impressão, marca-impressão), um grupamento definido de caráter arcaico que, em forma e significado, encerra <em>motivos mitológicos</em>, os quais surgem em forma pura nos contos de fadas, nos mitos, nas lendas e no folclore” (Jung, 2017, p. 35)</p>



<p>Quando se dá a constelação do arquétipo “<strong>indica que o indivíduo adotou uma atitude preparatória e de expectativa, com base na qual reagirá de forma inteiramente definida</strong>” (Jung, 2000, p. 41). Assim, Elisabeth ao agir identificada com a jovem, com o <strong>ideal de beleza </strong>eterna está atuando sob os efeitos do arquétipo da <em>puella</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-elisabeth-no-decorrer-do-filme-demonstra-que-tem-grande-dificuldade-em-aceitar-a-passagem-do-tempo-e-mudanca-provocada-por-ele" style="font-size:17px">Elisabeth, no decorrer do filme, demonstra que tem grande dificuldade em aceitar a passagem do tempo e mudança provocada por ele.</h2>



<p>Ela demonstra de várias formas uma incapacidade de amar e de sentir, não tendo relacionamento significativos com outras pessoas, apenas e exclusivamente com o trabalho e com sua própria imagem. Como característica da <em>puella</em> que expressa, ela possui um ego frágil, uma persona rígida. Funcionando como fachada, com o eu abandonado, e o entusiasmo embotado, o que podemos observar quando ela ao ser demitida ao invés de refletir sobre o fato, reage de forma intempestiva para reverter o ocorrido.</p>



<p>O arquétipo da <em>puella aeterna</em> representa a menina eterna, aquela que se sente uma fraude, vergonhosa, pequena, vulnerável e medrosa, muitas vezes com grande sentimento de insuficiência. A marca registrada da <strong><em><u>puella aeterna</u></em> </strong>é aquela que vive provisoriamente, escondendo-se nas sombras da desconexão, auto aversão e rejeição da autoexpressão autêntica, enquanto recusa as partes inconscientes que precisam de integração (Schwartz, 2025).</p>



<p>Sob determinado aspecto, dentre os mitos que tratam da juventude feminina no ocidente, podemos identificar para o caso, como <em>puella</em>, o mito de <strong>Artémis</strong>, a deusa virgem, que se refere ao auto centramento, ainda não pronto para se abrir. Como virgem, ela é autodirigida, autônoma e fechada, não estabelecendo relações com outras pessoas do mundo exterior.</p>



<p>Na personagem, podemos observar o aspecto da <em>puella</em>, pelo qual ela está presa na fantasia que vive em uma bolha do sucesso e da juventude. Abdicando do espelho masculino, submissa ao patriarcado (que é representado pela emissora e pelo seu chefe), com sua individualidade interrompida, já que busca atender o ideal performático da coletividade. Tem uma capacidade subdesenvolvida de empatia e compaixão por si mesma e pelos outros. Sendo extremamente dura consigo mesma e implacavelmente crítica, o que podemos observar quando ela não aceita sair com um homem que demostra interesse por ela, por se considerar velha demais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tensionando-com-a-puella-constelada-temos-um-outro-aspecto-que-emerge-do-arquetipo-do-feminino-em-sua-versao-sombria-que-e-a-bruxa" style="font-size:17px">Tensionando com a <em>puella</em> constelada, temos um outro aspecto que emerge do arquétipo do feminino, em sua versão sombria, que é a bruxa.</h2>



<p>Segundo <strong>Magaldi</strong>, a imagem arquetípica da bruxa, a qual “tem um perfil de personalidade histriônica, impaciente, ressecada e rígida, com desejos de vingança e poder, devido seus sentimentos de exclusão e de infertilidade”, o que podemos observar em Elisabeth.</p>



<p> A Elisabeth do presente, vendo que a sua versão mais jovem a estava ignorando, desconsiderando a sua importância e que ela a jovem só existe porque a velha-bruxa ali também está, começa a sabotar o processo da <em>Substância</em>.</p>



<p>A versão velha e nova, ao invés de coexistirem para uma síntese, uma transformação para formação do <em>tertium non datum</em> (terceiro elemento que surge como síntese ou resolução de uma oposição entre as duas imagens arquetípicas opostas) elas se digladiam, querendo um sobressair sobre a outra, querendo existir unilateralmente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-a-vida-seria-dividida-em-duas-fases-que-ele-denominou-de-primeira-e-segunda-metade-cada-qual-com-suas-tarefas-e-desafios-psicologicos-especificos" style="font-size:17px">Para<strong> Jung</strong>, a vida seria dividida em duas fases, que ele denominou de primeira e segunda metade. Cada qual com suas tarefas e desafios psicológicos específicos.</h2>



<p>A primeira metade da vida teria como característica o foco no mundo externo, pois o principal objetivo é a adaptação do indivíduo à sociedade. Nesta fase, se constrói uma identidade pessoal, se estabelece uma carreira, formam-se relações pessoais e cria-se a base material e social. N<strong>esse sentido, o ego e a persona são fortalecidos, favorecendo à adaptação</strong>.</p>



<p>Já na segunda metade da vida, que ocorre ao atingir a meia-idade (geralmente em torno dos 35-40 anos), a adaptação não está focada no mundo externo, mas sim na adaptação ao mundo interno, como um chamado do Self. Nesta fase, a tarefa principal é a individuação, que Jung descreve como o processo de tornar-se quem você realmente é. Isso envolve integrar aspectos inconscientes da psique e alcançar um equilíbrio entre o ego e o Self. O foco principal volta-se para o mundo interior, e o indivíduo é empurrado, muitas vezes através da crise existencial ou de eventos externos, a voltar-se para dentro e reconectar-se com o Self, arquétipo da totalidade e centro psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esse-momento-e-chamado-de-metanoia-consistindo-em-uma-profunda-transformacao-psicologica-e-espiritual-que-ocorre-em-um-individuo" style="font-size:17px">Esse momento é chamado de <strong>metanoia</strong>, consistindo em uma profunda transformação psicológica e espiritual que ocorre em um indivíduo.</h2>



<p>O termo tem origem no grego antigo, significando literalmente &#8220;mudança de mente&#8221; (<em>meta</em> = além, mudança; <em>noia</em> = mente). Seria descrito como um processo de reorientação interior, em que a pessoa enfrenta aspectos reprimidos, desconhecidos ou não integrados de si mesma, dando início a uma nova percepção de vida e identidade.</p>



<p>No filme, a demissão leva a personagem a crise. Contudo ela resiste à transformação, a sair da vida adaptada ao mundo externo para encarar aquilo que desconhece sobre si, a sua sombra, que nas palavras de <strong>Von Franz</strong> consiste em “<em>qualidades reprimidas, não aceitas ou não admitidas porque incompatíveis com as que foram escolhidas</em>” (2003, p. 8).</p>



<p>Ao resistir à chegada da metade da vida, todas as consequências psicossomáticas e tarefas externas que a passagem do meio impõe, Elisabeth resiste à metanóia e a <em>puella</em> e a anciã-bruxa não são integradas de forma harmônica, mas formam uma coisa, que não é nem nova nem velha, nem um terceiro elemento, mas pedaços sobrepostos e não digeridos de si. Ao final, essa coisa acaba por morrer de forma trágica, sem sentido, por não ter tido consciência da jornada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sendo-assim-esta-breve-analise-de-a-substancia-evidencia-como-a-rejeicao-a-segunda-metade-da-vida-e-a-resistencia-a-metanoia-podem-levar-a-desintegracao-psiquica-e-ao-afastamento-do-processo-de-individuacao" style="font-size:17px">Sendo assim, esta breve análise de <em>A Substância</em> evidencia como a rejeição à segunda metade da vida e a resistência à metanoia podem levar à desintegração psíquica e ao afastamento do processo de individuação.</h2>



<p>A trajetória de Elisabeth Sparkles reflete as tensões entre os arquétipos da <em>puella</em> e da anciã, destacando os desafios do envelhecimento em uma sociedade que valoriza a juventude e a performance.</p>



<p><strong>Ao buscar manter a ilusão de perfeição, Elisabeth nega aspectos essenciais de sua psique. Resultando em uma fragmentação que impede sua transformação em um ser íntegro</strong>.</p>



<p>O filme, sob a perspectiva junguiana, funciona como um alerta sobre os perigos de se resistir às mudanças inevitáveis da vida, ressaltando a importância de integrar seus conteúdos sombrios para que o ego se submeta ao Self.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;A Substância: quando o feminino rejeita a segunda metade da vida&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/AqZAw19DIZM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p><strong>Marta Beatriz Conceição Guedes</strong> &#8211; <strong>Analista em formação</strong> <strong>IJEP</strong></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/anapaulamaluf/"><strong>Ana Paula Z. Maluf</strong> &#8211; <strong>Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h1>



<p>Franz, M.-L. V. (1985). <em>A sombra e o mal nos contos de fada</em> (18e ed.). São Paulo: Paulus.</p>



<p>Franz, M.-L. v. (2003). <em>Mitos da Criação.</em> São Paulo: Paulus.</p>



<p>Hollis, J. (1995). <em>A passagem do meio: da miséria do significado na meia-idade.</em> São Paulo: Paulus.</p>



<p>Jung, C. G. (2000). <em>A natureza da psique.</em> Petrópolis: Vozes.</p>



<p>Jung, C. G. (2015). <em>O eu e o inconsciente</em> (27 ed., Vol. 7/2). Petrópolis: Vozes.</p>



<p>Jung, C. G. (2017). <em>Os fundamentos da psicologia analítica.</em> Petrópolis: Vozes.</p>



<p>Magaldi Filho, W. (22 de dez de 2022). <em>Crise da meia idade feminina – rainha ou bruxa?</em> Fonte: www.ijep.com.br: https://blog.sudamar.com.br/crise-da-meia-idade-feminina-rainha-ou-bruxa/</p>



<p>Schwartz, S. (2025). <em>A Jungian exploration of the puella archetype: girl unfolding</em> (1 ed.). New York: Routledge.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP</h2>



<p>Saiba mais sobre nossos&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">Cursos, Pós-graduações e Formação de Analistas</a></p>



<p>Acompanhe nosso<a href="https://www.youtube.com/@IJEPJung">&nbsp;Canal no YouTube</a>&nbsp;para receber as novidades</p>



<p>Conheça nossos&nbsp;<a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">Congressos Junguianos</a>, Online e Gravados, com 30h de Certificação por Congresso</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-substancia-quando-o-feminino-rejeita-a-segunda-metade-da-vida/">A Substância: quando o feminino rejeita a segunda metade da vida</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Self-book como recurso para acessar Conteúdos Inconscientes durante o processo terapêutico</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/self-book-como-recurso-para-acessar-conteudos-inconscientes-durante-o-processo-terapeutico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristiane dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 25 Nov 2024 11:33:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[escrita terapêutica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[self-book]]></category>
		<category><![CDATA[selfbook]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9753</guid>

					<description><![CDATA[<p>Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. Clarice Lispector Resumo: Esse artigo aborda a importância da Escrita Expressiva no processo de autoconhecimento e de transformação pessoal e [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/self-book-como-recurso-para-acessar-conteudos-inconscientes-durante-o-processo-terapeutico/">Self-book como recurso para acessar Conteúdos Inconscientes durante o processo terapêutico</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. </p><cite>Clarice Lispector</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:16px">Resumo: Esse artigo aborda a importância da Escrita Expressiva no processo de autoconhecimento e de transformação pessoal e como suas propriedades terapêuticas auxiliam na ordenação das ideias e consequentemente a fluidez na comunicação.</p>



<p style="font-size:18px">A escrita expressiva proporciona ao indivíduo compreender os acontecimentos do seu mundo interno e a interagir com o simbolismo das imagens, que são passos fundamentais para a regulação da tensão dos conteúdos Inconscientes e Conscientes da psique.</p>



<p style="font-size:18px">Ela é um potente recurso para produção de imagens, desbloqueio criativo e um meio para propiciar um profícuo e silencioso diálogo com os conteúdos simbólicos que habitam a psique, pois permite que conteúdos psíquicos possam aparecer espontaneamente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-o-que-e-a-escrita-expressiva" style="font-size:19px"><strong>Mas o que é a escrita expressiva?</strong></h2>



<p style="font-size:18px">É necessário ser poeta, ou poetisa, ser escritor, ou repentista?</p>



<p style="font-size:18px">As palavras devem rimar e abordar um assunto com maestria?</p>



<p style="font-size:18px">Não, na escrita expressiva o indivíduo escreve sobre seus sentimentos, pensamentos, afetos, sonhos e tormentos para chegar ao Hades e enfrentar seus aspectos mais sombrios e aterrorizantes.</p>



<p style="font-size:18px">Expressar no papel aquilo que sentimos é como dar voz aos diversos personagens que nos habitam e revelar aspectos inconscientes de nossa psique, possibilitando aliviar as “cargas” e mitigar a tensão dos núcleos afetivos, por essa razão, esse processo se torna tão transformador.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><strong>Depois de escrever, leio&#8230; Por que escrevi isto</strong>? Onde fui buscar isso?  De onde me veio isto?  Isto é melhor do que eu&#8230; Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?&#8230; </p><cite>(PESSOA, 2016, p. 287)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">Durante os anos de 1913 e 1930, Carl G. Jung descreveu regularmente sua autoexperimentação, com os exercícios frequentes de esvaziar a mente, o que ele denominou de “<strong>confronto com sua alma</strong>” e de “confronto com o Inconsciente”, material que primeiramente registrou nos <strong>Livros Negros</strong>.</p>



<p style="font-size:18px">Posteriormente, no <strong>Líber Novus</strong> (Livro Novo), assim denominado por Jung, por conter trabalhos tardios, ele transcreveu fielmente muitas das fantasias dos Livros Negros, incluindo reflexões e o significado de cada episódio, além de os copiar em escrita caligráfica. Esse livro também é conhecido como <strong>Livro Vermelho</strong>.</p>



<p style="font-size:18px">Esvaziar a mente parece ser uma ação tão necessária atualmente, num mundo em que os indivíduos são bombardeados por tantas informações, saber filtrar, analisar e classificar o que é útil, importante ou relevante, faz com que o indivíduo fique constantemente acorrentado à Consciência e aos seus processos.</p>



<p style="font-size:18px">De acordo com<strong> Jung</strong> (2013) a vida civilizada demanda em demasia da Consciência, de tal forma que houve um gradual distanciamento entre o ser humano e o Inconsciente.  </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-classifica-o-inconsciente-em-pessoal-e-coletivo" style="font-size:18px">Jung classifica o Inconsciente em: Pessoal e Coletivo.</h2>



<p style="font-size:18px">Para Jung (2014), o <strong>Inconsciente Pessoal</strong> é composto basicamente por conteúdos que perderam energia e que foram esquecidos, reprimidos ou que nunca emergiram à Consciência devido sua pouca intensidade psíquica. Alguns deles apesar de estarem inconscientes ainda podem ganhar força e essas cargas afetivas são denominadas por <strong>Complexos</strong>.  </p>



<p style="font-size:18px">Já o <strong>Inconsciente Coletivo</strong>, define Jung (2013), é o conteúdo herdado de todos os antepassados desde a origem dos tempos. É o gerador de todos os fatos psíquicos e o organizador dos processos conscientes e, por esta razão, influencia fortemente a liberdade da Consciência. Ele é constituído pelos <strong>instintos </strong>e pelos <strong>arquétipos</strong> e parece ser constituído por algo similar aos temas ou imagens de natureza mitológica. </p>



<p style="font-size:18px">Para “entrar” no processo terapêutico, o indivíduo precisa ampliar a simbologia das imagens e a mitologia que o Inconsciente revela, decodificar a linguagem por ele trazida e mergulhar nas fantasias que ele apresenta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-movimento-de-ampliacao-simbolica-as-seguintes-questoes-surgem-o-que-esse-simbolo-quer-me-dizer-qual-o-seu-significado-qual-a-sua-finalidade-como-essa-fantasia-retrata-a-minha-realidade" style="font-size:18px">Nesse movimento de ampliação simbólica, as seguintes questões surgem: “O que esse símbolo quer me dizer?”, “Qual o seu significado?”, “Qual a sua finalidade?”, “Como essa fantasia retrata a minha realidade?”.</h2>



<p style="font-size:18px"><strong>Jung</strong> enquanto supervisionava seus pacientes, relatava seus experimentos e os instruía a fazerem o mesmo. Ele costumava pedir uma cópia desses trabalhos para estudar essas imagens e compará-las com as dele. Para alguns ele até sugeriu que elaborassem seu próprio Liber Novus.  Ele comentou esse procedimento em uma carta a J.A. Gilbert em 1929:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Descobri que, às vezes, é uma grande ajuda, ao manusear um caso desse tipo, encorajá-los a expressar seus conteúdos específicos na forma de escrita ou de desenho e pintura. Existem tantas intuições incompreensíveis nesses casos, fragmentos de fantasia que surgem do inconsciente, para as quais quase não existe linguagem adequada. Deixo que meus pacientes encontrem suas próprias expressões simbólicas, sua “mitologia.</p><cite> (JUNG, 2020a, p. 94 grifos do autor)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">Verifica-se assim a eficácia da escrita expressiva durante o processo terapêutico. Onde a palavra oral não encontra o significado para elucidar os conteúdos inconscientes, realizar a amplificação simbólica e integrar criativamente a experiência psicológica.</p>



<p style="font-size:18px">Para <strong>Philippini</strong> (2018) a palavra é como uma fonte geradora da produção de imagens. Ela considera a palavra uma caixa que contém múltiplas potencialidades simbólicas e que, às vezes, uma única palavra pode estar “grávida” de significados.  </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-palavras-por-vezes-brotam-repletas-de-infinitos-significados-dando-a-possibilidade-da-expansao-de-ideias-e-percepcoes-que-anteriormente-estavam-adormecidas-nbsp" style="font-size:18px">As palavras, por vezes, brotam repletas de infinitos significados, dando a possibilidade da expansão de ideias e percepções que anteriormente estavam adormecidas.&nbsp;</h2>



<p style="font-size:18px">Esse é um processo que se inicia despretensioso e que com a prática amplia a fluência da comunicação e da integração dos conteúdos.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Philippini</strong> considera que no processo arteterapêutico a escrita criativa tem a importância de escrever para compreender a si mesmo, que as palavras seriam como o Fio de Ariadne que conduziriam para a saída do labirinto e que a codificação de afetos e emoções através da palavra é uma das possibilidades expressivas de se acessar o inconsciente. (Cf. PHILIPPINI, 2018, p. 111)</p>



<p style="font-size:18px">Os “Self-books”, ou “Livros do self”, ou ainda, “Livro feito à mão” são os nomes dados ao conteúdo criado mesclando-se a escrita com os diversos materiais expressivos e recursos plásticos, e uma infinidade de temas e subjetividades podem ser abordados.</p>



<p style="font-size:18px">Na criação desse livro, pode se utilizar colagem, decupagem, desenho, fotografia, pintura, poema, poesia, tecidos e linhas e de toda possibilidade criativa disponível para dar concretude às imagens e ideias.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cada-um-desses-recursos-auxiliara-o-individuo-a-mergulhar-nos-processos-expressivos-acessando-algum-aspecto-de-sua-personalidade-a-ser-aperfeicoado-por-exemplo" style="font-size:18px"><strong>Cada um desses recursos auxiliará o indivíduo a mergulhar nos processos expressivos acessando algum aspecto de sua personalidade a ser aperfeiçoado, por exemplo:</strong></h2>



<p style="font-size:18px">O uso da <strong>colagem </strong>colabora nos processos de estruturação, organização, sintetização, integração, além de ser uma facilitadora do início do processo terapêutico.</p>



<p style="font-size:18px">O <strong>desenho</strong> auxilia na ampliação da objetividade, na percepção espacial, na observação, na coordenação visual e motora, na percepção das relações luz e sombra e ativar a memória.</p>



<p style="font-size:18px">A <strong>fotografia</strong> serve para resgatar memórias afetivas, desenvolver a percepção da autoimagem, autopercepção sobre si e sobre o entorno, além de servir como ponte para outras linguagens plásticas, como pintura e colagem. </p>



<p style="font-size:18px">A pintura auxilia o indivíduo a desbloquear e ativar o fluxo criativo, facilitar a liberação de conteúdos inconscientes, fazer experimentações sensoriais e lúdicas através das cores, além de ter a possibilidade de mobilizar emoções.</p>



<p style="font-size:18px">Confeccionar o <em>self-book</em> é mergulhar no mundo interno e resgatar fragmentos da história de nossas vidas, ter a possibilidade de decodificar imagens simbólicas e padrões arquetípicos e com muita paciência e atenção, permitir a integração desses conteúdos à Consciência, que é o objetivo do processo de individuação.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p> A codificação de emoções e afetos pela mediação da palavra corresponde a mais uma, entre as inúmeras das possibilidades expressivas de acesso ao inconsciente, oferecendo canal e continente para sentimentos difusos e, muitas vezes desconhecidos. (&#8230;)<br><br>A escrita oferece meios de estabelecer um efetivo diálogo silencioso entre indivíduo e fragmentos seus, muitas vezes, sombrios e inconscientes que, em cada releitura dos textos produzidos, tornam-se mais claros, pois gradualmente os significados vão sendo apreendidos pela consciência.</p><cite> (PHILIPPINI, 2018, p. 113)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-vemos-a-releitura-do-self-book-propicia-a-continuidade-do-processo-terapeutico-e-como-disse-o-filosofo-heraclito-de-efeso-nenhum-homem-pode-banhar-se-duas-vezes-no-mesmo-rio-pois-na-segunda-vez-o-rio-ja-nao-e-o-mesmo-nem-tao-pouco-o-homem" style="font-size:18px">Como vemos, a releitura do self-book propicia a continuidade do processo terapêutico e como disse o filósofo Heráclito de Éfeso: “<em>Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois, na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tão pouco o homem</em>.”  </h2>



<p style="font-size:18px">Acessar o Inconsciente e ouvir o que o Self quer de nós, encontrando o sentido e o significado de nossa vida, para que possamos nos realizar através desse mito, deve ser a busca de cada indivíduo. Pois, podemos estar atravessando o deserto, mas se tivermos a consciência de que o Inconsciente é um oceano com infinitas possibilidades e que contém as respostas para as nossas dúvidas mais cruciais, nenhuma aridez externa impedirá que nos saciemos com a água da fonte da vida e a escrita expressiva oferece meios para que essa travessia seja feita de forma mais fértil.</p>



<p style="font-size:18px">Você já se utiliza desse recurso? Se ainda não, experimente e elabore o seu <em>selfbook</em> e depois comente conosco como foi a sua experiência. Boa travessia!</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Self-book como recurso para acessar Conteúdos Inconscientes durante o processo terapêutico" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/f37Xupsg2pY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><strong>Cristiane dos Santos &#8211; Analista em formação IJEP</strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p style="font-size:15px">JUNG, C.G. O<em> Livro vermelho: Liber Novus</em>. Edição: Sonu Shamdasani; tradução: Edgar Orth; revisão da tradução: Dr. Walter Boechat, Petrópolis: Vozes, 2010</p>



<p style="font-size:15px">______ A Natureza da Psique. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p style="font-size:15px">______ Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p style="font-size:15px">______ O Eu e o Inconsciente. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p style="font-size:15px">______Os Livros Negros, 1913-1932: Cadernos de transformação. Edição: Sonu Shamdasani; tradução: Markus A. Hediger; revisão da tradução: Dr. Walter Boechat</p>



<p style="font-size:15px">Petrópolis: Vozes 2020a – Livro I &#8211; 2020b -Livro II</p>



<p style="font-size:15px">PESSOA, Fernando. Obra poética de Fernando Pessoa. Volume 2. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016</p>



<p style="font-size:15px">PHILIPPINI, Angela. Arteterapia: Métodos, projetos e processos. 3.ed. Rio de Janeiro: Wak, 2013</p>



<p style="font-size:15px">PHILIPPINI, Angela. Linguagens e materiais expressivos em arteterapia: uso indicações e propriedades – 2.ed. Rio de Janeiro: Wak, 2018</p>



<p style="font-size:15px">SANTOS, Cristiane dos. Trabalho Monográfico para obtenção do título de especialista em Arteterapia e Expressões Criativas – IJEP:  <em>Arteterapia de abordagem Junguiana: A Escrita Expressiva revelando aspectos da sombra e o caminho para transformação no processo terapêutico</em>, 2022.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p>Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



<p>Acesse nosso site e conheça nossos Cursos e&nbsp;<strong>Pós-Graduações</strong>&nbsp;com&nbsp;<strong>Matrículas Abertas</strong>:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a>.</p>



<p><em>*Psicossomática</em></p>



<p><em>*Psicologia Analítica</em></p>



<p><em>*Arteterapia e Expressões Criativas</em></p>



<p><strong>Promoção especial para o próximo semestre&nbsp;</strong>(março/abril 2025):</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="https://chk.eduzz.com/801V2KKQ97"><img decoding="async" width="1024" height="1024" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2024/11/COMBO-1-e-4-1-1024x1024.png" alt="" class="wp-image-9759" style="width:520px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/11/COMBO-1-e-4-1-1024x1024.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/11/COMBO-1-e-4-1-300x300.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/11/COMBO-1-e-4-1-150x150.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/11/COMBO-1-e-4-1-768x768.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/11/COMBO-1-e-4-1-450x450.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/11/COMBO-1-e-4-1.png 1080w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/self-book-como-recurso-para-acessar-conteudos-inconscientes-durante-o-processo-terapeutico/">Self-book como recurso para acessar Conteúdos Inconscientes durante o processo terapêutico</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Sobre a música na Arteterapia</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sobre-a-musica-na-arteterapia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Barbara Pessanha]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Sep 2024 14:19:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[música]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9472</guid>

					<description><![CDATA[<p>Esse ensaio visa refletir sobre a música na arteterapia de forma subjetiva e pessoal a partir de um conhecimento de condução clínica distinta da musicoterapia. Buscamos ponderar sobre áreas de conhecimento que vão além do nosso arcabouço dentro da arteterapia e entender como podemos nos suprir na clínica em cima de uma ferramenta ao qual não temos domínio</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/sobre-a-musica-na-arteterapia/">Sobre a música na Arteterapia</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg" style="font-size:18px"><blockquote><p>A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que<br>a razão não compreende.</p><cite> Arthur Schopenhauer</cite></blockquote></figure>



<p>Meu percurso como Arteterapeuta não é longo, mas posso considerar robusto dada minha iniciação tardia como terapeuta, minha precocidade em ter gosto por arte e alguma habilidade manual que sempre foi incentivada em casa, me colocaram em contato desde cedo com expressões criativas. Dado meu gosto e habilidade pelas artes plásticas de um modo geral e pela história da arte &#8211; e os bastidores desse meio -, sempre me vi pouquíssimo envolvida com a música. Talvez pensasse ser uma “inabilidade natural” (o que podemos falar de pronto, que talvez não exista nem em mim nem em ninguém isso). Ou mais provável uma falta de interesse por achar que não estava habilitada para lidar com sons, instrumentos e com a música.</p>



<p>Ao me deparar com a <strong>arteterapia</strong> vi a mim mesma com um “grande problema” quando entendi que teria que pelo menos “entender” como a música funciona na psique e no processo terapêutico. Não foi menor o pânico ao me relacionar com a dança, mas isso fica para outro momento mais oportuno. Eu gostaria de fazer um artigo científico sobre o tema, mas tenho “sido chamada a atenção” pela minha rigidez e falta de “alma” ao tentar desenvolver temas aos quais eu domino e tenho respaldo referencial para divagar (assertivamente) sobre o tema. Logo, a proposta aqui é diametralmente oposta. Vou expor meus sentimentos e conhecimentos em cima de um tema ao qual não domino, mas vibra em mim, assim como vibra em você.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-musica-esta-inserida-na-arteterapia-mas-o-arteterapeuta-nao-necessariamente-e-musicoterapeuta" style="font-size:19px">A música está inserida na arteterapia, mas o Arteterapeuta não necessariamente é musicoterapeuta.</h2>



<p>Este profissional normalmente é músico ou educador musical, ele trabalha com instrumentos, e sua música já é em sim parte do tratamento terapêutico e não apenas ferramenta. Entendo que o domínio de toda a construção musical para a clínica da musicoterapia seja fundamental, dada a importância do profissional na construção de uma dinâmica que muitas vezes dispensa palavras. </p>



<p>Por isso é uma terapia importantíssima para portadores de TEA (Transtorno de Espectro Autista) e outras pessoas atípicas, principalmente TDL (Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem) (BANDEIRA, 2022).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-existe-uma-aula-que-eu-tenha-dado-ate-hoje-e-que-nao-tenham-me-perguntado-e-a-musica-professora" style="font-size:20px">Não existe uma aula que eu tenha dado até hoje e que não tenham me perguntado “e, a música, professora?”</h2>



<p>A música demanda um cuidado especial na clínica, principalmente se trabalhamos com <strong>grupos</strong>. A música que eu gosto pode afetar ao outro de maneira completamente oposta ao bem-estar que me causa. Músicas com letras e/ou muito populares, se o facilitador não conhece bem o grupo ou não tem domínio do que está sendo feito ali naquele espaço com aquelas pessoas pode ter problemas, pessoas afetadas podem “sair de si”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-relata-uma-observacao-se-dando-como-exemplo-em-estudos-psiquiatricos-vol-1-nas-obras-completas" style="font-size:22px">Jung relata uma observação se dando como exemplo em <em>Estudos Psiquiátricos Vol.1</em>  nas obras Completas:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg" style="font-size:16px"><blockquote><p>Estou ocupado num trabalho qualquer e assobio alguma melodia; naquele momento não estou me lembrando da letra. Alguém me pergunta que música é essa que estou assobiando e então me lembro: é uma canção do tempo de estudante.<br>“Não tenho um centavo no bolso”. Não faço a menor ideia de como cheguei a esta canção que, no momento, nada tinha a ver com as associações que estavam ocupando minha consciência. Passei em revista retrospectivamente o curso do pensamento que percorri durante meu trabalho. De repente me lembrei que poucos minutos antes pensara, com certo acento emocional, numa grande conta que recebera no Ano-Novo. Daí o motivo da canção! Nem preciso dizer que dessa maneira é possível fazer todo tipo de belos diagnósticos psicológicos em nossos semelhantes. Quando um amigo meu teve a imprudência de assobiar, no espaço de dez minutos, três pequenas melodias, pude dizer-lhe que seu caso amoroso tivera um fim infeliz. As melodias eram <em>Im Aargau sind zwei Liebi</em> (“Em Aargau há dois amantes” – melodia popular suíça), <em>Verlassen, verlassen bin ich</em> (“Abandonado, abandonado estou eu”) e <em>Steh’ich in fínster Mitternacht</em> (“Estou na lúgubre meia-noite”). Já me aconteceu inclusive assobiar uma melodia cujo texto me era desconhecido.</p><cite>JUNG, 2012a §168</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-neste-pequeno-relato-da-duas-importantes-dicas-diretas-e-podemos-ampliar-mais-algumas-questoes-a-partir-de-uma-reflexao-do-saber-da-ferramenta-no-caso-a-musica" style="font-size:17px">Jung, neste pequeno relato, dá duas importantes dicas diretas e podemos ampliar mais algumas questões a partir de uma reflexão do “saber” da ferramenta, no caso: a música.</h2>



<p>Quando o próprio Jung assovia, ele entende que aquilo queria dizer algo, mas de forma afetiva e inconsciente lhe vem uma música sem letras a cabeça que ele vai entrar em um processo autorreflexivo para compreender aquilo ter ocorrido. Ele consegue e percebe a questão do afeto e chega à conclusão de que ele <em>nem precisa</em> “dizer que dessa maneira é possível fazer todo tipo de belos diagnósticos psicológicos em nossos semelhantes” (JUNG, 2012a) e faz isso com um amigo. E, sim, música vibra. Somos de água e a água vibra junto com o som. O som faz a água se mobilizar no seu ritmo e mesmo que eu não queira, não há som que nos deixe indiferente. Somos manipulados em nossas <em>águas internas</em> mesmo que não consigamos perceber e nos atentar no momento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-perceber-que-a-experiencia-musical-acontece-antes-mesmo-do-nascimento-nbsp-a-partir-das-percepcoes-ainda-no-utero-materno-paula-2022-nos-faz-ter-um-infimo-entendimento-o-quao-importante-os-sons-sao-na-nossa-constituicao-psiquica" style="font-size:17px">Perceber que “<strong>a experiência musical acontece antes mesmo do nascimento,&nbsp;a partir das percepções ainda no útero materno</strong>” (PAULA, 2022) nos faz ter um ínfimo entendimento o quão importante os sons são na nossa constituição psíquica. </h2>



<p>A música ser um meio tão eficaz de tratar transtornos e problemas de comunicação faz com que seja uma ferramenta dentro do processo terapêutico muito importante, mas também muito delicada. <strong>A responsabilidade do arteterapeuta é entender que usar uma música sem conhecimento prévio pode não ser uma boa ideia, não sabemos como aquilo pode mobilizar o indivíduo</strong>. Mas, trabalhar algo que tenha sido trazida pelo próprio cliente pode ser muito rico e ajudar a condução clínica assim como um sonho, um desenho, um filme &#8211; a música se torna uma imagem com vibração que toca afetivamente com consciência.</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg" style="font-size:17px"><blockquote><p>O desenvolvimento da musicalidade humana, ou seja, do comportamento musical, engloba as reações musicais hereditárias, somadas à experiência pessoal, às experiências musicais de caráter histórico e às experiências musicais de caráter social. Em outras palavras, à medida que a criança se desenvolve na sociedade humana, os reflexos musicais incondicionados (genéticos) se tornam condicionados e se forjam através do outro, do social, enfim, da cultura.<br>Isso nos habilita a dizer, pelo olhar da teoria que nos alicerça, que toda função psicológica musical superior (escuta voluntária ou atenta, memória e imaginação, musical etc.) historicamente, origina-se de uma relação social entre pessoas antes de a internalizarmos intrapsicologicamente.<br>Neste momento, queremos explicitar que conceber uma didática específica da educação musical calcada na Teoria Histórico-Cultural é primar pela ética no sentido mais estrito do termo, a saber: defender a conduta e o sentimento de alteridade para com as experiências musicais do outro que nos constitui musicalmente.</p><cite>PEDERIVA &amp; GONÇALVES, 2018, pp. 316-317</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pensar-a-musica-pela-psicologia-analitica-e-encaixar-uma-imagem-dentro-de-um-processo-construtivo-que-afeta-a-todos-e-quando-falo-todos-sao-todos-mesmo" style="font-size:17px">Pensar a música pela psicologia analítica é encaixar uma imagem dentro de um processo construtivo que afeta a todos (e quando falo todos, são todos mesmo!)</h2>



<p>Pessoas com deficiências ou atípicas dão respostas positivas a esse tipo de terapia, além de TEA, TDL, deficientes visuais, pacientes psiquiátricos diversos e até mesmo surdos e surdos oralizados; a música vibra e mesmo sem o ouvir, eles podem sentir. E, sendo uma sociedade apegada a rótulos e pré-conceitos, nos distanciamos da questão simbólica da linguagem. <strong>A música é uma linguagem sonora e vibracional ao mesmo tempo</strong> e quando possui letra ela também entra na metalinguística de todo o conjunto da obra.</p>



<p>Pessoalmente, é um lugar bem difícil para eu habitar, talvez pela falta de controle que a vibração promove; mesmo tendo a consciência de que isso vai acontecer pode me passar despercebido e eu ser “afetada”. E, a respeito disso, eu simplesmente sei que não temos controle.</p>



<p>Afinal, Jung já explicou que “<strong>todas as neuroses contêm complexos autônomos</strong>” (JUNG, 2012b §1353). E para um analista ser afetado de forma incontrolável e autônoma por um complexo basta estar vivo.</p>



<p><strong>Entrar em contato com aquilo que eu não sei, me leva a lugares surpreendentes, e na clínica sempre busco sutilezas além do ouvir</strong>.</p>



<p>Busco sentir como os relatos vibram em mim e percebi que a minha pouca competência com a música, com a musicalidade, com os sons que vibram dos instrumentos musicais são incompatíveis com o que eu vivencio diariamente. Eu entendo não de forma conceitual, acadêmica e prática de um musicista, mas de um outro lugar.</p>



<p>E esse lugar me ajuda a caminhar com meus clientes para um outro lugar além da fala e do que se fala. Como disse o multifacetado romancista alemão E. &nbsp;T. &nbsp;A. <strong>Hoffmann</strong>: “<strong>A música começa onde acaba a fala</strong>.” </p>



<p><strong>Na clínica junguiana ouvimos música todos os dias!</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Sobre a música na arteterapia&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Ttfk6REOKZQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p><strong>Bárbara Pessanha &#8211; Membro Analista IJEP</strong></p>



<p><strong>Simone Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. Estudos Psiquiátricos. 1. ed. Petrópolis: Vozes, 2012a. Obras Completas de C. G. Jung, v.1.</p>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. Estudos Experimentais. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2012b. Obras Completas de C. G. Jung, v.2.</p>



<p style="font-size:15px">BARCELLOS, L. R. M. ., &amp; SANTOS, M. A. C. . (2022). A musicoterapia no Brasil.&nbsp;<em>Brazilian Journal of Music Therapy</em>, (32), 4–35. Disponível: <a href="https://doi.org/10.51914/brjmt.32.2021.378">https://doi.org/10.51914/brjmt.32.2021.378</a> Acesso em: 30. ago. 2024</p>



<p style="font-size:15px">PAULA, Tatiane Ribeiro Morais de. &amp; PEDERIVA, Patrícia Lima Martins A musicalidade das pessoas surdas: um olhar a partir da teoria histórico-cultural Artigos • DELTA 38 (1) • <a>Disponível:&nbsp; &nbsp;2022. </a><a href="https://doi.org/10.1590/1678-460X202257176">https://doi.org/10.1590/1678-460X202257176</a>&nbsp; Acesso em: 30. ago. 2024</p>



<p style="font-size:15px">BANDEIRA, Gabriela. Práticas baseadas em evidências: a musicoterapia como estratégia de intervenção. Disponível:&nbsp; 27. mai. 2022 <a href="https://genialcare.com.br/blog/musicoterapia/">https://genialcare.com.br/blog/musicoterapia/</a> Acesso em: 30. ago. 2024</p>



<p style="font-size:15px">PEDERIVA, P. L. M., &amp; GONÇALVES, A. C. A. B. (2018). Educação musical na perspectiva histórico-cultural: uma didática para o desenvolvimento. Disponível:&nbsp; 2022. <a href="https://www.academia.edu/38830356/Educa%C3%A7%C3%A3o_musical_na_perspectiva_hist%C3%B3rico_cultural_uma_did%C3%A1tica_para_o_desenvolvimento_da_musicalidade_Music_education_in_the_historical_cultural_perspective_a_didactic_for_the_development_of_musicality">https://www.academia.edu/38830356/Educa%C3%A7%C3%A3o_musical_na_perspectiva_hist%C3%B3rico_cultural_uma_did%C3%A1tica_para_o_desenvolvimento_da_musicalidade_Music_education_in_the_historical_cultural_perspective_a_didactic_for_the_development_of_musicality</a> .&nbsp;Acesso em: 30. ago. 2024</p>



<p></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/sobre-a-musica-na-arteterapia/">Sobre a música na Arteterapia</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O uso do Barro como ferramenta Arteterapêutica na busca pelo Autoconhecimento</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-uso-do-barro-como-ferramenta-arteterapeutica-na-busca-pelo-autoconhecimento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Caroline Santos Costa]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Jul 2024 15:23:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[barro]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[simbologia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9300</guid>

					<description><![CDATA[<p>Através do contato com o barro, aos poucos, o cliente recupera a capacidade de sentir o mundo e a si mesmo, reconhecendo e integrando aspectos desconhecidos da sua personalidade, desenvolvendo a criatividade e a maleabilidade que permite fluir no mundo com mais inteireza.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-uso-do-barro-como-ferramenta-arteterapeutica-na-busca-pelo-autoconhecimento/">O uso do Barro como ferramenta Arteterapêutica na busca pelo Autoconhecimento</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A busca por uma melhor qualidade de vida tem sido uma tendência contemporânea. O ritmo alucinante imposto pelo turbilhão de informações, conectividade e produtividade caracteriza o espírito da época em que vivemos.&nbsp; Mergulhados nesse ritmo de hiperconexão com o mundo externo, internamente nos sentimos desconectados e vazios, condição que gera uma enantiodromia, ou seja, uma força no sentido oposto do movimento consciente, que é justamente essa necessidade de olhar para o mundo interno e se aproximar de si mesmo numa reconexão ao ritmo da alma.</p>



<p>Diante deste fenômeno, podemos perceber o crescimento pela busca do autoconhecimento e pela necessidade de reconexão com o mundo interno, a fim de não viver escravizado pelo espírito da época e encontrar a sua essência para poder viver com sentido e significado.</p>



<p><strong>Na perspectiva da psicologia analítica, a personalidade como um todo é denominada psique, palavra grega que significa originalmente “espírito” ou “alma</strong>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-psique-e-constituida-de-consciente-e-inconsciente"><strong>A psique é constituída de consciente e inconsciente</strong></h2>



<p><strong>Podemos dizer de forma resumida que a consciência é a parte da psique conhecida diretamente pelo indivíduo</strong>. É aquilo que acreditamos ser. Vale ressaltar que não existe elemento consciente que não se relacione com o ego, gestor da consciência e responsável por todos os esforços de adaptação à realidade. O ego, atua selecionando o material psíquico que acessa a consciência, possibilitando-nos escolher uns e renunciar a outros, e através deste trabalho seletivo e diretivo construímos uma identidade baseada em suas crenças, que na maioria das vezes, visam agradar e ser amado pelo mundo externo.</p>



<p>No entanto, as experiências e características que não são percebidas como importantes pelo ego não desaparecem da psique, pois nada do que foi vivenciado e constitui o indivíduo deixa de existir. Essas experiências ficam armazenadas no que Jung chamou de inconsciente.</p>



<p>Percebemos, assim, que durante o processo de desenvolvimento da personalidade, é natural que algumas características sejam ressaltadas e fiquem no campo da consciência, formando as personas, e outras fiquem inconsciente. Contudo, essa atitude de seleção, quando exercida de forma exagerada, pode desencadear uma divisão interna, através da qual o indivíduo passa a viver conflitos psíquicos, sentindo-se angustiado, vazio e perdido, devido a um esvaziamento que suscita a necessidade de reconhecer e integrar a sua totalidade.</p>



<p>Assim, para que o indivíduo possa experienciar uma vida com sentido e autorrealização é fundamental que os conteúdos inconscientes sejam reconhecidos e integrados à consciência. Condição que possibilita o desenvolvimento das suas potencialidades de acordo com sua essência e não somente passeado no que é considerado importante pelas imposições do espírito da época.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-qual-a-importancia-da-arteterapia-no-processo-de-autoconhecimento"><strong>Qual a importância da arteterapia no processo de autoconhecimento?</strong></h2>



<p>Por meio da arte é possível acessar emoções e sentimentos que são complexos e confusos para serem expressos de forma intelectual.</p>



<p>A <em>arteterapia</em> utiliza a expressão criativa como ferramenta projetiva que possibilita materializar conteúdos inconscientes conflituosos que afetam o indivíduo, possibilitando aproximá-los da consciência para serem trabalhados durante o processo arteterapêutico.</p>



<p>Na experiência da produção criativa ocorre a relação do homem com o objeto material e, desta relação, algo novo se cria. Ou seja, pela atitude criativa ocorre uma metamorfose que permite dar forma as imagens inconscientes carregadas de emoção. O objeto serve de continente para as projeções inconscientes e o indivíduo, tendo a matéria como espelho, se vê refletido no mais profundo do seu ser.</p>



<p>Desta forma, a expressão criativa pode dar voz e forma as emoções o que permite que elas sejam trabalhadas durante o processo arteterapêutico.</p>



<p>O trabalho com barro é uma das ferramentas arteterapêutica que podem auxiliar o cliente a compreender e reorganizar os seus conflitos e emoções de forma mais lúdica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-barro-como-ferramenta-arteterapeutica"><strong>O barro como ferramenta arteterapêutica</strong></h2>



<p>Para introduzir o <em>barro no processo arteterapêutico</em> é preciso reconhecer as suas propriedades arquetípicas e o potencial transcendente que o seu manuseio proporciona.</p>



<p>Encontramos referências à terra e à água e suas respectivas propriedades arquetípicas, desde o Livro de Gênesis: “<strong>E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente”</strong> (Gn 2:7). Mitologicamente o homem foi criado a partir do barro e na sua morte, volta para suas origens, sendo acolhido por ele.</p>



<p>O trabalho com o barro é uma oportunidade de resgatar o contato com a natureza e promover o reencontro com nosso mundo e ritmo interno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-barro-e-um-material-vivo-e-o-trabalho-com-ele-nos-coloca-em-contato-com-a-energia-da-natureza-e-dos-seus-quatro-elementos-agua-terra-ar-e-fogo" style="font-size:17px">O barro é um material vivo e o trabalho com ele, nos coloca em contato com a energia da natureza e dos seus quatro elementos: água, terra, ar e fogo.</h2>



<p>Trabalhar com o elemento terra no barro é entrar em contato com nossa terra interna que nos dar consistência e sustentação, permitindo enraizar e obter nutrição.</p>



<p>O elemento água no barro proporciona a flexibilidade e maleabilidade para a modelagem. Nos coloca em contato com nossa água interna, com nossas emoções. É a fluidez da água que ajuda a dar forma as sensações, sentimentos e pensamentos que nos atravessam.</p>



<p>O elemento ar no barro nos coloca em contato com o ar que inspiramos e expiramos. Reflete o que estamos comunicando, ou seja, o que é comunicado através da peça.</p>



<p>O elemento fogo entra em ação quando a peça está pronta para comunicar. É o momento em que ganha consistência.&nbsp; Falamos do fogo alquímico onde a peça é transformada de argila em cerâmica. Ocorre uma mudança na matéria. Esse é um momento de muita emoção, no forno tudo pode acontecer, inclusive a peça rachar ou explodir.</p>



<p>Vivenciar os quatro elementos da natureza no contato com o barro possibilita um encontro com a função criativa. Desde o momento de tocar no barro, sentir a massa, amassar e dialogar com ela, até dar forma as sensações experimentadas, as emoções escondidas e as imagens que nos atravessam.</p>



<p>O trabalho com argila tem uma conotação religiosa no sentido primordial de religação com um espiritual que está na natureza, permitindo a manipulação prazerosa e a possibilidade de expressar suas emoções em consonância com um material dotado de energia própria.</p>



<p>Desta forma, o <em>barro</em> apresenta-se como um objeto transicional entre o terapeuta e o cliente. O que possibilita a <strong>expressão tridimensional das emoções</strong> de maneira respeitosa e no tempo em que a psique dita.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neste-sentido-gouvea-elucida-que" style="font-size:19px">Neste sentido, Gouvêa elucida que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“Da natureza secreta do barro percebe-se também um revelar e esconder. A concretude do barro desperta a psique de quem manuseia e algo próprio existencial do indivíduo acaba por revelar-se sem que agrida o seu silêncio, sem expor os seus medos. A revelação se dá no processo, o brilho cresce ao aproximar-se do centro da alma e só verão os que tiverem olhos para ver.”&nbsp;</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-funciona-o-uso-do-barro-no-setting-arteterapeutico"><strong>Como funciona o uso do barro no <em>setting</em> arteterapêutico?</strong></h2>



<p>O barro pode ser utilizado de diversas formas como ferramenta arteterapêutica. A mais frequente se dá em <em>experiências livres</em>, onde o cliente precisa estar à vontade para explorar o material e criar sem nenhum tipo de direcionamento, o que facilita acessar as imagens que estão por trás das emoções, dando-lhes formas e consciência.</p>



<p>O <em>amassar</em> já é em si um ato transformador, conduz a um estado onírico de liberação e faz com que o amassador se confunda com a massa e desperte sentimentos e emoções, como exemplo, podemos observar a reação do cliente que pode ser de mal-estar em lidar com o sujo ou a alegria e leveza de viver essa experiência de liberdade.</p>



<p>Pela <em>construção de máscaras</em>durante o processo terapêutico surge a possibilidade de um desvelar revelando-se, permitindo materializar o indizível aprisionado na dualidade, dando forma e expressão a personagens que vivem no âmago do ser. Traduzir-se em máscaras é nos revelar por inteiro, vivenciar rostos desconhecidos ou negados que clamam por serem acolhidos e integrados a personalidade.</p>



<p><strong>Modelar sonhos</strong> também é uma das possibilidades do uso do barro no <em>setting</em> arteterapêutico, visto que muitas vezes não é suficiente explicar o contexto do sonho. Surgindo a necessidade de esclarecer conteúdos obscuros, imprimindo-lhe uma forma visível.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-ressalta-que">Jung ressalta que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“Muitas vezes as mãos sabem resolver enigmas que o intelecto em vão lutou por compreender. Modelando um sonho, podemos continuar a sonhá-lo com mais detalhes, em estado de vigília, e um acontecimento isolado, inicialmente ininteligível, pode ser integrado na esfera da personalidade total, embora inicialmente o sujeito não tenha consciência disto.”</p></blockquote></figure>



<p>As imagens modeladas podem não agradar, podem rachar depois de secas, mas também podem ser remodeladas, e isso é uma metáfora para a possibilidade de recomeçar, ao renascimento que o barro evoca. Assim, através do contato com o barro, aos poucos, o cliente recupera a capacidade de sentir o mundo e a si mesmo. Reconhecendo e integrando aspectos desconhecidos da sua personalidade, desenvolvendo a criatividade e a maleabilidade que permite fluir no mundo com mais qualidade e inteireza.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="ARTIGO: O USO DO BARRO COMO FERRAMENTA  ARTETERAPÊUTICA NA BUSCA PELO AUTOCONHECIMENTO" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/YR4_0v7q_d0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/caroline/"><strong>Caroline Costa &#8211; Analista em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p style="font-size:18px"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/"><strong>Waldemar Magaldi &#8211; Membro didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p style="font-size:15px">DINIZ, Lígia. <em>Arte linguagem da alma: arteterapia e psicologia junguiana</em>. Rio de Janeiro: Wak, 2019.</p>



<p style="font-size:15px">GOUVÊA, Álvaro de Pinheiro. <em>Sol da terra</em>: o uso do barro na psicoterapia. 2. ed. São Paulo: Summus, 2019.</p>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p>Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



<p>Acesse nosso site e conheça nossos Cursos e pós-Graduações com <strong>Matrículas Abertas</strong>:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a>.</p>



<p><em>*Psicossomática</em></p>



<p><em>*Psicologia Analítica</em></p>



<p><em>*Arteterapia e Expressões Criativas</em></p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2024/07/ARTETERAPIA-E-EXPRESSOES-CRIATIVAS-1024x576.png" alt="" class="wp-image-9316" style="width:716px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/07/ARTETERAPIA-E-EXPRESSOES-CRIATIVAS-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/07/ARTETERAPIA-E-EXPRESSOES-CRIATIVAS-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/07/ARTETERAPIA-E-EXPRESSOES-CRIATIVAS-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/07/ARTETERAPIA-E-EXPRESSOES-CRIATIVAS-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/07/ARTETERAPIA-E-EXPRESSOES-CRIATIVAS-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/07/ARTETERAPIA-E-EXPRESSOES-CRIATIVAS-1200x675.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/07/ARTETERAPIA-E-EXPRESSOES-CRIATIVAS.png 1280w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p>Conheça os&nbsp;<a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">Congressos Junguianos do IJEP</a>, gravados e online:</p>



<figure class="wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex"></figure>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-uso-do-barro-como-ferramenta-arteterapeutica-na-busca-pelo-autoconhecimento/">O uso do Barro como ferramenta Arteterapêutica na busca pelo Autoconhecimento</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Maquiagem como expressão criativa: possibilidades arteterapêuticas</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/maquiagem-como-expressao-criativa-possibilidades-arteterapeuticas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 06 Jul 2024 15:07:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[complexos]]></category>
		<category><![CDATA[maquiagem]]></category>
		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9279</guid>

					<description><![CDATA[<p>O presente artigo busca explorar teoricamente e refletir sobre o uso da maquiagem no trabalho arteterapeutico, no trabalho com a diade persona-sombra. Fala exclusivamente da pintura facial  sem abordar outras formas de transformação da aparência.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/maquiagem-como-expressao-criativa-possibilidades-arteterapeuticas/">Maquiagem como expressão criativa: possibilidades arteterapêuticas</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Maquiar-se é um costume humano que pode ser datado desde o Egito e a Mesopotâmia. Pinturas rupestres e os murais egípcios apontam que desde essa época o ser humano usava as pinturas faciais como ferramenta de proteção, diferenciação, religiosidade ou simples adorno corporal. Os povos indígenas também são adeptos da prática da pintura corporal e facial pelos mesmos motivos. &nbsp;Atualmente a maquiagem faz parte do rol de produtos de estética e beleza, assim como dos materiais das artes dramáticas principalmente.</p>



<p>A pintura facial é uma prática antiga da humanidade e não é realizada apenas com fins estéticos. Maquiagem é derivado do francês <em>maquillage</em> que significa “pintar o rosto”. A maquiagem ajuda a realçar os traços naturais do rosto, criando efeitos que o iluminam e revelam sua beleza, ao mesmo tempo que pode encobrir pequenas imperfeições (SOUZA e MACHADO, 2019). Podemos estender também seu significado para expressões criativas com as maquiagens artísticas e as do cinema e das artes dramáticas, cuja função é transformar a aparência.</p>



<p>O uso da pintura facial data desde antes de Cristo com egípcios, mesopotâmicos, gregos e romanos. Há indícios de que até os homens das cavernas já pintavam os seus rostos para eventos, guerras e ritos religiosos (SOUZA e MACHADO, 2019). Os materiais utilizados nos primórdios da pintura facial eram de origem natural, principalmente extratos de vegetais e minerais, com destaque para o <em>kohl, </em>uma mistura de fumo, minérios de chumbo e estanho utilizada principalmente ao redor dos olhos (ibid.). Nos povos indígenas no Brasil encontramos uma coloração vermelha, oriunda principalmente do extrato do urucum e o jenipapo com uma coloração preta ou azul bem escuro, utilizadas até hoje (FUNAI, 2022). Antes do surgimento da indústria, como muitas outras coisas, os cosméticos eram feitos em casa, com receitas de família (LANÖE, 2019; SOUZA e MACHADO, 2019).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-habito-de-pintar-o-rosto-nao-era-exclusivo-das-mulheres-como-e-mais-comum-hoje-em-dia" style="font-size:17px">O hábito de pintar o rosto não era exclusivo das mulheres, como é mais comum hoje em dia.</h2>



<p>Os homens costumavam se maquiar também, principalmente nos momentos de guerra, caça e rituais religiosos. Na guerra e na caça com os objetivos de camuflagem e de assustar os inimigos e nos rituais religiosos como maneira de destaque principalmente aos sacerdotes. No Egito, o uso não se restringiu ao estético, mas com fins de cuidado com a pele, protegendo do brilho do sol e contra doenças, isso em 3.200 a. C. (SOUZA e MACHADO, 2019).</p>



<p>Os gregos e os católicos se incomodaram com a excessiva preocupação das pessoas com a aparência, representada pelo uso da maquiagem e proibiram ou restringiram seu uso em momentos da história. Os gregos diziam que a beleza deveria estar no corpo e no espírito, e não no rosto. Os católicos, durante a Idade Média, pregavam que o culto à higiene e à beleza eram profanos, e que as doenças oriundas da falta de higiene só poderiam ser curadas por intervenção divina e a maquiagem alterava a beleza original das mulheres (SOUZA e MACHADO, 2019).</p>



<p>A maquiagem também encontrou inimigos no parlamento inglês no século XVIII, que dizia que uma mulher que seduzisse um homem para matrimônio com artifícios como pinturas, dentes artificiais, perfumes e outros cosméticos poderia incorrer nas penalidades da lei contra bruxaria, e casamentos poderiam até ser anulados caso a mulher usasse a maquiagem no processo de sedução (SOUZA e MACHADO, 2019).</p>



<p>No mesmo século XVIII se inicia a demarcação dos limites do uso da maquiagem e se aprofunda a restrição do uso da mesma pelos homens, tornando-se então um adereço praticamente reservado e identificado com o sexo feminino. Não raramente, havia manifestações contra o uso de qualquer tipo de maquiagem pelos homens, restava a eles apenas o uso de pó nas perucas, sabão de barbear e tônicos capilares assim como se criticava o excesso nas mulheres (LANÖE, 2019). Essa delimitação vem no rastro de uma crítica aos nobres e a aristocracia, que se entupiam de adereços e pinturas para demonstrar destaque social, e passam de uma crítica religiosa, no sentido de que a maquiagem e os adereços corrompem e ocultam a obra de Deus, para uma crítica secular sobre refinamento, principalmente voltada às mulheres (id.).</p>



<p>O uso da maquiagem como produto de consumo se consolida em meados do século XX com a ascendência das estrelas de Hollywood e a introdução da mulher no mercado de trabalho, que fez com que a produção caseira se tornasse difícil e as maquiagens prontas fossem mais atraentes (SOUZA e MACHADO, 2019).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-maquiagem-entra-no-rol-das-expressoes-criativas-como-complementar-as-artes-plasticas-e-dramaticas-e-ocupa-um-lugar-ao-lado-da-mascara" style="font-size:17px">A maquiagem entra no rol das expressões criativas como complementar às artes plásticas e dramáticas e ocupa um lugar ao lado da máscara.</h2>



<p>Ao falar das máscaras, Philippini (2018, p. 99) traz a perspectiva de que “o que foi feito para encobrir, revela” e complementa: “não há nada mais revelador que as máscaras que escondem um rosto, sejam elas feitas com materiais de modelagem ou, simplesmente, através da maquiagem”.</p>



<p>Entendo máscara e maquiagem como similares, mas não idênticas. Ao contrário da máscara, a maquiagem não pode ser tirada rapidamente e a qualquer momento, ela adere à pele e necessita de um tempo para ser totalmente removida. Ao trazer essa informação é importante a reflexão sobre a identificação com a persona, que adere à pele e muitas vezes se confunde com ela, mas pele não é. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung" style="font-size:19px">Para Jung: </h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Como seu nome revela (persona), ela é uma simples máscara da psique coletiva, máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade, não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva. (Jung, O.C 7/2, 2014 §245).</p></blockquote></figure>



<p>Quando usamos uma maquiagem, no sentido comum do dia a dia, a intenção é encobrir defeitos e destacar qualidades do rosto, tal qual fazemos com nossas características quando aderimos fortemente à tentação de identificação com a persona. A persona é, pois, um complexo funcional que surgiu por razões de adaptação ou de necessária comodidade, mas que não é idêntico à individualidade. O complexo funcional da persona diz respeito exclusivamente à relação com os objetos externos. (JUNG, 2015)</p>



<p>&nbsp;Além disso, a experiência sensorial do material sobre o rosto pode ser incômoda, ou ainda, a impossibilidade de suar, chorar, comer, beber sem que deixe algum vestígio no rosto ou nos objetos, diferencia a maquiagem, que deixa marcas temporárias na pele ou no desenho. Uma máscara é capaz de esconder um choro, um revirar de olhos, um toque no rosto, mas a maquiagem, não tem essa mesma capacidade. Triolo-Rodriguez (2023) classifica a experiência de maquiagem como multissensorial, de toque e autoexpressão, pelas cores e uma forma de arte.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-diferenca-entre-uma-mascara-e-uma-maquiagem-parte-desde-o-processo-da-sua-elaboracao-ate-o-momento-do-encerramento-do-seu-uso" style="font-size:18px">A diferença entre uma máscara e uma maquiagem parte desde o processo da sua elaboração até o momento do encerramento do seu uso.</h2>



<p>A maquiagem traz um componente sensorial à experiencia de confecção da pintura. O processo de pintura facial coloca a pele em contato com substâncias líquidas, sólidas, viscosidade, pó etc que possibilitam a iluminação, destaque, sombreamento, ocultação, alteração de forma, tamanho, volume de estruturas. Tudo isso acompanhado de uma sensação tátil em uma pele sensível como a do rosto.</p>



<p>A máscara por si, pode até ser moldada no rosto, mas não tem a capacidade de alterar, mesmo que temporariamente, a percepção sobre sua forma. Ela o esconde. A maquiagem faz com que a pessoa tenha que lidar com o que vê, e com o que sente, e no processo pode se conscientizar de seu próprio corpo e imagem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-maquiagem-tambem-adere-a-pele-do-rosto-e-se-move-quando-este-se-move-podendo-dar-novos-olhares-a-expressoes-faciais-e-revelar-ou-esconder-aspectos-do-rosto" style="font-size:17px">A maquiagem também adere à pele do rosto e se move quando este se move, podendo dar novos olhares a expressões faciais e revelar ou esconder aspectos do rosto.</h2>



<p>A remoção da maquiagem é outro processo único, que pode ser até desconfortável e desvela novamente o rosto por trás da pintura e muitas vezes pode deixar vestígios de sua presença durante mais tempo. Todo esse processo constrói, revela, esconde e destaca aspectos faciais muitas vezes desconhecidos da própria pessoa. Remover a maquiagem foi um alívio ou um medo? Colocar a maquiagem evocou quais sentimentos? O que a pintura revela ou esconde sobre você?</p>



<p>O processo de remoção da maquiagem também pode ser uma vivência interessante para pessoas que não conseguem se colocar no mundo sem antes de cobrir (ou revelar?) com uma bela camada de maquiagem, ou seja, usam a pintura facial como máscara e não como acessório. Nesses casos é interessante o convite a remover a máscara e encontrar o que se esconde, quais vulnerabilidades podem estar abafadas, não faladas e não observadas, aumentando gradativamente no esconderijo inconsciente (Adaptado de Triolo-Rodriguez, 2023).</p>



<p>O uso da maquiagem como técnica de expressão criativa pode criar um espaço seguro para o cliente tentar novos papéis na vida, dando voz aos personagens internos, ou ainda se livrar de alguns personagens criados, podendo experimentar a vivência do ator de entrar e sair do personagem, sem se identificar com ele, experimentar e redefinir normas sociais e culturais da sociedade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-explorarmos-as-facetas-perdao-pelo-trocadilho-do-material-de-pintura-facial-brincamos-com-os-diversos-aspectos-envolvidos-na-diade-persona-sombra" style="font-size:17px">Ao explorarmos as facetas (perdão pelo trocadilho) do material de pintura facial, brincamos com os diversos aspectos envolvidos na díade persona-sombra.</h2>



<p>A brincadeira de esconder e revelar é típica da interação desses dois aspectos da psique,&nbsp; quando uma persona não é construída como resposta a aspectos sombrios, dessa forma, quando olhamos para a persona a fundo, podemos ver um aspecto complementar residente na sombra ou no inconsciente. Quando pinto um novo rosto, quem é esse personagem interno que se revela, ou qual personagem ele pode estar tentando esconder? Com o rosto pintado, convida-se o indivíduo a criar em cima daquela imagem aderida à sua pele: que voz tem esse rosto que agora se apresenta? O que ele diz? Quais são suas motivações?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-invoco-philippini-2018-que-diz" style="font-size:20px">Nesse sentido invoco Philippini (2018) que diz:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Algumas linguagens e materiais estão a serviço do desbloqueio de conteúdos inconscientes e fluência no processo criativo. Outras favorecem comunicação e configuração de informações objetivas enquanto outras permitem a saída do plano fugidio das ideias, sensações e emoções para o campo concreto. Combinar essas estratégias e complementá-las com outras, advindas de outras áreas de criação, além das Artes Plásticas, é atividade complexa, que é auxiliada por observação, mas é também exercício teórico e técnico, resultante do estudo e do conhecimento da natureza harmonizadora e organizadora do fazer artístico, e de suas propriedades terapêuticas específicas, inerentes à cada materialidade e à cada linguagem plástica.</p></blockquote></figure>



<p>Cada símbolo produzido poderá ser compreendido simultaneamente em relação ao seu criador, nas suas ressonâncias subjetivas e biográficas e, paralelamente, também em seus aspectos universais e arquetípicos. O processo de amplificação simbólica passa por um olhar atento ao “rastreamento cultural” na procura de pistas e registros de sentidos arquetípicos e universais do símbolo pesquisado em referências diversas (PHILIPPINI, 2018).</p>



<p>A maquiagem como expressão criativa pode ser usada de maneiras diversas. E se, ao invés de esconder imperfeições na face, as destacássemos? O que as imperfeições escondidas podem revelar sobre a pessoa que as esconde? Pode-se também pedir que desenhe formas, use cores, crie um personagem com base no que a expressão revela. Por não ser feita necessariamente por artistas, a maquiagem como expressão criativa pode muitas vezes mostrar uma configuração que talvez nunca se repita e se vá conforme o demaquilante age.</p>



<p>Uma reflexão da maquiagem é que, por mais que esteja aderida à pele, e possa até ser confundida com ela, a maquiagem não é a pele, remover a maquiagem pode ser um exercício interessante de remover uma persona aderida e a possibilidade de se encontrar com sua individualidade. Ao se realizar o ciclo: pintar, analisar e remover exercitamos com o cliente uma forma de tratar as personas assim como as pinturas faciais, de maneira transitória e entender que só transformam temporariamente o rosto e criam a percepção da mudança da forma, no entanto, o rosto continua o mesmo por debaixo da pintura.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo”. De certo modo, tais dados são reais; mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário, uma vez que resultam de um compromisso no qual outros podem ter uma quota maior do que a do indivíduo em questão. A persona é uma aparência, uma realidade bidimensional, como se poderia designá-la ironicamente. (JUNG, 2014)</p></blockquote></figure>



<p>Quando convidamos então, como exercício terapêutico, a remoção da maquiagem ou ainda sugerir que, ao invés de esconder características indesejadas passe a destacá-las, estamos convidando a individualidade oculta a que se revele, uma vez que a persona é um pacto com a coletividade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-0" style="font-size:20px">Para Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>Seria incorreto, porém, encerrar o assunto sem reconhecer que subjaz algo de individual na escolha e na definição da persona; embora a consciência do ego possa identificar-se com ela de modo exclusivo, o si-mesmo inconsciente, a verdadeira individualidade, não deixa de estar sempre presente, fazendo-se sentir de forma indireta. (JUNG, 2014)</p></blockquote></figure>



<p>A atitude meramente pessoal da consciência produz reações da parte do inconsciente e estas, juntamente com as repressões pessoais, contêm as sementes do desenvolvimento individual, sob o invólucro de fantasias coletivas (JUNG, 2014). Quando convidamos o cliente a expressar-se pela maquiagem fica a questão, quem se manifesta naquele novo rosto? Quais personagens internos se revelam quando destacamos as imperfeições ao invés de escondê-las? Não há resposta certa a priori, cabe apenas a ampliação e circuambulação, estabelecendo um diálogo entre os aspectos escondidos e revelados, em busca do terceiro oculto.</p>



<p>Observa-se que não tratamos nesse artigo de maquiagens transformadoras de indivíduos em outras espécies (animais, plantas etc).</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="ARTIGO: Maquiagem como expressão criativa: possibilidades arteterapêuticas" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/MViRXzh3GHg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/maurosoave/">Mauro Ângelo Soave Jr – Membro Analista Didata em formação</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">E. Simone Magaldi – Membro didata</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p style="font-size:15px">FUNAI (Fundação Nacional do Índio). <em>Pinturas corporais indígenas carregam marcas de identidade cultural. </em>29 mar 2022. Disponível em: <a href="https://www.gov.br/funai/pt-br/assuntos/noticias/2022-02/pinturas-corporais-indigenas-carregam-marcas-de-identidade-cultural">https://www.gov.br/funai/pt-br/assuntos/noticias/2022-02/pinturas-corporais-indigenas-carregam-marcas-de-identidade-cultural</a> , acesso em 18 jun 2024.</p>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl G. O eu e o inconsciente /O.C 7/2. Petrópolis. Vozes. 2014</p>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl G. Tipos Psicológicos. O/C 6. Petrópolis. Vozes, 2015.</p>



<p style="font-size:15px">LANÖE, C. A maquiagem tem um gênero? Olhares sobre a maquiagem masculina. Tradução de Thiago Mattos. VOLUME 12 | NÚMERO 25 | ABRIL 2019 https://dobras.emnuvens.com.br/dobras | e-ISSN 2358-0003</p>



<p style="font-size:15px">PHILIPPINI, Angela. Linguagens e Materiais Expressivos em Arteterapia: uso, indicações e propriedades. Rio de Janeiro, Wak Ed. 2018.</p>



<p style="font-size:15px">STRICKLAND, Fernanda. Mercado de beleza atingirá cerca de US$ 580 bilhões até 2027, aponta pesquisa. <em>Correio Braziliense.</em> 13 fev 2024. Disponível em <a href="https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2024/02/6802132-mercado-de-beleza-atingira-cerca-de-uss-580-bilhoes-ate-2027-aponta-pesquisa.html">https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2024/02/6802132-mercado-de-beleza-atingira-cerca-de-uss-580-bilhoes-ate-2027-aponta-pesquisa.html</a>, acesso em: 19 jun 2024.</p>



<p style="font-size:15px">TRIOLO-RODRIGUEZ, Rhys. &#8220;<em>Exploring Core Concepts and Uses of Makeup in Expressive Arts Therapy and Mental Health:</em> A Critical Review of the Literature&#8221; (2023). Expressive Therapies Capstone Theses. 698. <a href="https://digitalcommons.lesley.edu/expressive_theses/698">https://digitalcommons.lesley.edu/expressive_theses/698</a>. Acesso em 20 jun 2024.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p>Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



<p>Acesse nosso site e conheça nossos Cursos e pós-Graduações:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a>.</p>





<p>Nos siga no <a href="https://www.instagram.com/ijep_jung/">Instagram</a>.</p>



<p>Conheça os <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">Congressos Junguianos do IJEP</a>.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/maquiagem-como-expressao-criativa-possibilidades-arteterapeuticas/">Maquiagem como expressão criativa: possibilidades arteterapêuticas</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
