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	<title>Arquivos IJEP - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos IJEP - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O Olhar que Cria e o Olhar que Destrói: Os Efeitos Pigmaleão e Golem na Clínica e na Vida</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-olhar-que-cria-e-o-olhar-que-destroi-os-efeitos-pigmaleao-e-golem-na-clinica-e-na-vida/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Monica Martinez]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Mar 2026 10:42:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[análise junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O olhar que recebemos pode expandir a vida psíquica — ou restringi-la. Neste artigo, exploramos como as expectativas do outro moldam profundamente a experiência humana, articulando dois conceitos da psicologia social: o Efeito Pigmaleão, que eleva, e o Efeito Golem, que rebaixa. A partir de mitos, pesquisas clássicas e da clínica junguiana, refletimos sobre o poder criativo ou destrutivo do olhar que incide sobre o sujeito. No setting analítico, essa dinâmica se manifesta na forma como o terapeuta sustenta — ou limita — a emergência do Self. Enquanto o olhar pigmaleônico favorece o florescimento da potência psíquica, o olhar golem pode cristalizar defesas, sintomas e identificações empobrecidas. O texto convida, assim, a uma pergunta ética e clínica fundamental: que imagem ajudamos a esculpir no outro — e em nós mesmos? Afinal, o olhar que reconhece o “suficientemente bom” não apenas vê: ele cria condições para que a vida se torne mais inteira.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-olhar-que-cria-e-o-olhar-que-destroi-os-efeitos-pigmaleao-e-golem-na-clinica-e-na-vida/">O Olhar que Cria e o Olhar que Destrói: Os Efeitos Pigmaleão e Golem na Clínica e na Vida</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O olhar que recebemos pode expandir a vida psíquica — ou restringi-la. Neste artigo, exploramos como as expectativas do outro moldam profundamente a experiência humana, articulando dois conceitos da psicologia social: <strong>o Efeito Pigmaleão, que eleva, e o Efeito Golem, que rebaixa</strong>. A partir de mitos, pesquisas clássicas e da clínica junguiana, refletimos sobre o poder criativo ou destrutivo do olhar que incide sobre o sujeito. No setting analítico, essa dinâmica se manifesta na forma como o terapeuta sustenta — ou limita — a emergência do Self. Enquanto o olhar pigmaleônico favorece o florescimento da potência psíquica, o olhar golem pode cristalizar defesas, sintomas e identificações empobrecidas. O texto convida, assim, a uma pergunta ética e clínica fundamental: <strong>que imagem ajudamos a esculpir no outro</strong> — e em nós mesmos? Afinal, o olhar que reconhece o “suficientemente bom” não apenas vê: ele cria condições para que a vida se torne mais inteira.</p>



<p style="font-size:19px">Na jornada da individuação, o campo analítico presta atenção à psicodinâmica junguiana (2012), buscando tornar conscientes complexos internos — como o parental — e sombras, com suas riquezas e pobrezas. Ainda assim, grande parte das demandas que emergem no setting terapêutico diz respeito à experiência de não ter sido verdadeiramente visto, ouvido ou acolhido, revelando que o sofrimento humano também nasce da qualidade do olhar que recebemos.</p>



<p style="font-size:19px">Partindo dessa constatação, propomos aprofundar uma reflexão essencial: somos moldados não apenas pela arquitetura interna da psique, mas também pelas expectativas que o outro projeta sobre nós — e que, inevitavelmente, passamos a projetar sobre nós mesmos. Nesse sentido, dois conceitos da psicologia social ilustram com precisão esse movimento criativo ou destrutivo: o Efeito Pigmaleão e o Efeito Golem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-forca-de-pigmaleao-a-profecia-que-eleva" style="font-size:22px"><strong>A Força de Pigmaleão: A Profecia que Eleva</strong></h2>



<p style="font-size:19px">O Efeito Pigmaleão, também chamado de Profecia Autorrealizável, descreve como expectativas positivas podem elevar o desempenho de alguém. Quando se acredita no potencial de uma pessoa, o comportamento naturalmente se ajusta para facilitar que esse potencial floresça.</p>



<p style="font-size:19px">O mito de <em>Pigmaleão </em>narra o amor do escultor por sua criação, Galateia, a quem Afrodite concede vida. Essa metáfora, transposta para a ciência por <strong>Rosenthal</strong> e <strong>Jacobson</strong> (1968), inspirou um experimento marcante: alunos de uma escola primária na Califórnia fizeram um teste de QI no início do ano. Os pesquisadores informaram aos professores que 20% das crianças haviam obtido resultados excepcionalmente altos e que, portanto, deveriam demonstrar grande avanço acadêmico. Apenas os docentes receberam essa informação; os alunos não.</p>



<p style="font-size:19px">No término do ano letivo, todas as crianças refizeram o teste — e aqueles 20% apresentaram progresso significativamente maior. Contudo, esse grupo havia sido escolhido aleatoriamente: não eram mais capazes; foram apenas percebidos como tal. Os pesquisadores concluíram que, ao acreditarem que certas crianças teriam desempenho superior, os professores passaram a tratá-las de forma mais encorajadora, receptiva e estimulante, criando um clima de confiança e entusiasmo que colaborou diretamente para seu desenvolvimento.</p>



<p style="font-size:19px">Na clínica junguiana, essa dinâmica ecoa a postura do analista ao enxergar o “Ouro na Sombra”. Ao sustentar a crença na capacidade autorreguladora da psique, o terapeuta funciona como um Pigmaleão que empresta estrutura para que o Self possa emergir com maior vitalidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-efeito-golem-o-barro-da-desvalorizacao" style="font-size:22px"><strong>O Efeito Golem: O Barro da Desvalorização</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Se Pigmaleão é a profecia que eleva, o Efeito Golem é o seu &#8220;gêmeo sombrio&#8221;, representando a profecia que rebaixa. Expectativas negativas podem ser tão influentes quanto as positivas — porém, produzindo queda real em sua autoestima e segurança.</p>



<p style="font-size:19px">O termo remete à lenda judaica do Golem de Praga: um ser de barro trazido à vida por um rabino para proteger a comunidade. Embora tenha sido criado para o bem, o Golem é uma criatura sem alma, bruta e puramente obediente, que acaba se tornando destrutiva e incontrolável.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-referencia-lembra-nos-de-que-expectativas-empobrecidas-criam-versoes-igualmente-empobrecidas-do-outro" style="font-size:19px">A referência lembra-nos de que expectativas empobrecidas criam versões igualmente empobrecidas do outro.</h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Quando alguém é observado com desconfiança ou baixa expectativa, tende a incorporar essa imagem como verdade. Em consequência, cristaliza defesas e contrai sua capacidade criativa</strong>.</p>



<p style="font-size:19px">O estudo <em>Pygmalion, Galatea, and the Golem</em> (Babad, Inbar e Rosenthal, 1982) mostrou que professores mais suscetíveis ao viés tratavam como menos capazes os alunos considerados de baixo potencial, ao passo que favoreciam aqueles vistos como promissores — mesmo quando essa distinção era inventada. Os efeitos Golem foram especialmente evidentes entre docentes mais dogmáticos, enquanto professores imparciais mantiveram tratamento equilibrado.</p>



<p style="font-size:19px">Na clínica, <strong>o Golem aparece de formas sutis:</strong> o terapeuta oferece menos tempo para respostas, reage mais aos erros do que aos acertos, reduz desafios por acreditar que o analisando “não dará conta” ou fixa-se excessivamente nos sintomas, ignorando a saúde latente. Se o analista enxerga apenas patologia, por exemplo, o paciente tende a identificar-se com a doença. Quando o analisando percebe — mesmo inconscientemente — que está sendo visto como incapaz, pode passar a agir segundo essa imagem, confirmando o preconceito inicial. Por outro lado, quando o terapeuta sustenta a visão da potência vital, ajuda o indivíduo a acessar recursos internos que talvez estejam adormecidos.</p>



<p style="font-size:19px">Simbolicamente, o Efeito Golem pode manifestar-se também como o Crítico Interno implacável, que converte o “vinho da vida” em algo sem valor, impedindo o indivíduo de habitar plenamente sua existência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-responsabilidade-do-olhar" style="font-size:22px"><strong>A Responsabilidade do Olhar</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Esse mecanismo pode ser resumido em quatro etapas: o que acreditamos sobre alguém determina como agimos em relação a essa pessoa; nossas ações influenciam diretamente seu comportamento; a resposta do outro retroalimenta nossas crenças iniciais; e assim criamos um ciclo que pode expandir ou limitar a vida psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-o-analista-junguiano-reconhecer-essa-dinamica-amplia-a-consciencia-da-cotransferencia-e-das-manifestacoes-contratransferenciais" style="font-size:19px">Para o analista junguiano, reconhecer essa dinâmica amplia a consciência da cotransferência e das manifestações contratransferenciais.</h2>



<p style="font-size:19px">É crucial perguntar: estamos atuando como Pigmaleão, invocando vida, ou como Golem, endurecendo a psique do outro com nossas projeções? A noção winnicottiana de “suficientemente bom” torna-se essencial, pois quando o terapeuta sustenta essa medida justa, permite que a realidade psíquica se reorganize rumo à totalidade.</p>



<p style="font-size:19px">O maior perigo, portanto, não é o fracasso, mas a desvalorização do “suficientemente bom”. O Efeito Golem também pode ser dirigido a si mesmo — o Autogolem — quando o próprio terapeuta minimiza seus avanços por compará-los a um ideal inalcançável.</p>



<p style="font-size:19px">Devemos nos perguntar continuamente: que “estátua” estamos ajudando nossos analisandos a esculpir? Estamos oferecendo o olhar de Pigmaleão (potência) ou de Golem (insuficiência)? Nosso olhar abre caminhos ou restringe possibilidades? Como terapeutas, também somos humanos e carregamos limites que precisam ser elaborados em análise e supervisão. Reconhecer esses limites permite, inclusive, encaminhar analisandos quando necessário, garantindo que recebam o olhar mais apropriado à sua jornada.</p>



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<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/monicamartinez/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/monicamartinez/">Monica Martinez &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p>Babad, E. Y., Inbar, J., &amp; Rosenthal, R. Pygmalion, Galatea, and the Golem: Investigations of biased and unbiased teachers.&nbsp;<strong>Journal of Educational Psychology</strong><em>, 74</em>(4), 459–474, 1982.&nbsp;Disponível em: <a href="https://psycnet.apa.org/doi/10.1037/0022-0663.74.4.459" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://doi.org/10.1037/0022-0663.74.4.459</a>. Acesso em: 12 fev. 2026.</p>



<p>JUNG, C. G. <strong>A natureza da psique (OC 8/2)</strong>. 9. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.</p>



<p>Rosenthal, R., Jacobson, L. Pygmalion in the classroom.&nbsp;<strong>Urban Rev</strong>&nbsp;3, 16–20, 1968. Disponível em: <a href="https://doi.org/10.1007/BF02322211">https://doi.org/10.1007/BF02322211</a>. Acesso em: 12 fev. 2026.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Afogando as mágoas no álcool e sendo tragado por ele</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/afogando-as-magoas-no-alcool-e-sendo-tragado-por-ele/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristiane dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Mar 2026 19:13:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dependência Química]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Psicossomática considera o indivíduo como um ser biopsicosocioespiritual, ou seja, sua parte psíquica, física e espiritual, interagem dentro de um ambiente socioeconômico-cultural e que o adoecimento é um desequilíbrio que acontece quando existe um conflito da consciência com o inconsciente. Com esse olhar holístico, ela vai em busca do sentido dos sintomas, que são um sinal de desordem.</p>
<p>Quais seriam essas desordens na psique do alcoolista?</p>
<p>Qual seria a razão desse desejo irresistível em beber?</p>
<p>O que leva uma pessoa a chegar ao fundo do poço e mesmo assim querer continuar a beber?</p>
<p>Podemos pensar simbolicamente que a alma que não se embriaga com a vida, necessita embriagar-se com o álcool? Boa leitura!</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><em>Beber começa como um ato de vontade, caminha para um hábito e finalmente afunda na necessidade. </em></p><cite>Benjamin Rush</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: A Psicossomática considera o indivíduo como um ser biopsicosocioespiritual, ou seja, sua parte psíquica, física e espiritual, interagem dentro de um ambiente socioeconômico-cultural e que o adoecimento é um desequilíbrio que acontece quando existe um conflito da consciência com o inconsciente. Com esse olhar holístico, ela vai em busca do sentido dos sintomas, que são um sinal de desordem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quais-seriam-essas-desordens-na-psique-do-alcoolista" style="font-size:18px"><a>Quais seriam essas desordens na psique do alcoolista?</a></h2>



<p style="font-size:18px"><strong>Qual seria a razão desse desejo irresistível em beber?</strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong>O que leva uma pessoa a chegar ao fundo do poço e mesmo assim querer continuar a beber?</strong></p>



<p style="font-size:18px">Podemos pensar simbolicamente que a alma que não se embriaga com a vida, necessita embriagar-se com o álcool? Boa leitura!</p>



<p style="font-size:18px">Durante a minha vida, o alcoolismo foi uma sombra que me espreitava, às vezes, seguia silenciosamente os meus passos, em outras circunstâncias, lançava sua escuridão nos meus dias, tornando-os terríveis e desesperadores, como a mais densa, profunda e escura noite.</p>



<p style="font-size:18px">Inspirando-me em São João da Cruz posso dizer que esses momentos, apesar de avassaladores, foram extremamente benéficos e profícuos para que eu pudesse fortalecer a minha fé, unir-me a Deus e transformar todo aquele sofrimento em crescimento espiritual.</p>



<p style="font-size:18px">Quando adulta, fui estudar para entender o conceito e a dinâmica do alcoolismo, que inicialmente, para mim, não passava de defeito de caráter, fraqueza e “falta de vergonha na cara”.</p>



<p style="font-size:18px">Eu via que algumas pessoas ingeriam uma quantidade de bebida alcóolica excessiva e só ficavam extremamente inconvenientes, enquanto outras, uma única dose comprometia totalmente seu organismo e sua vida.</p>



<p style="font-size:18px">Algumas pessoas apresentavam esse comportamento logo após vivenciarem uma situação muito estressante ou perda significativa, como a morte de um ente querido, uma separação conjugal, ou a saída dos filhos de casa, o que reforçava a intenção inconsciente da fuga ou alívio para sua dor, outros, entretanto, bebiam porque gostavam.</p>



<p style="font-size:18px">Após concluir a Pós-graduação de Psicologia Analítica e começar a atender, comecei a receber em minha clínica clientes que apresentavam questões com o álcool, alguns dependentes e outros como codependentes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-durante-os-atendimentos-eu-pude-perceber-que-existia-uma-dor-profunda-e-muitas-vezes-inacessivel" style="font-size:18px">Durante os atendimentos eu pude perceber que existia uma dor profunda e muitas vezes inacessível.</h2>



<p style="font-size:18px">A pessoa até apresentava a intenção de parar de beber, mas, existia algo dentro dela que a dominava, que subjugava suas forças e na primeira oportunidade, ela simplesmente se rendia e afogava suas mágoas e suas dores na bebida.</p>



<p style="font-size:18px">Eu observava também que algumas dessas pessoas que ficavam com esse comprometimento que se iniciava no corpo físico, ampliava-se para o escopo emocional, afetava a vida familiar, profissional e espiritual, não abandonavam esse vício, mesmo sendo ele tão destrutivo.</p>



<p style="font-size:18px">Eu me perguntava se era uma questão de personalidade, de falta de vontade, de caráter, ou se existia um componente biológico, mental ou psicológico que as aprisionavam nessa dinâmica, nessa compulsão obsessiva que prejudicava não só o alcoolista, mas a sua família, o seu ambiente profissional e a sociedade de forma geral.</p>



<p style="font-size:18px">Eu também pude observar que esse movimento de sobriedade (consciência) e embriaguez (inconsciência) era rítmico e cada vez mais intenso. Com o passar do tempo era necessário uma dose maior e com isso, os sintomas se intensificavam, ficavam mais visíveis e muito mais perturbadores e inconvenientes.</p>



<p style="font-size:18px">O que antigamente afetava só a mente e o corpo do indivíduo, começava a prejudicar sua vida familiar, profissional e social. Gota a gota, dose a dose, o problema vai pingando, transbordando e inundando tudo ao seu redor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-uso-abusivo-do-alcool-e-um-dos-principais-problemas-da-sociedade-atual" style="font-size:21px">O uso abusivo do álcool é um dos principais problemas da sociedade atual.</h2>



<p style="font-size:18px">Apesar de ser uma droga psicotrópica, ou seja, provoca mudança no comportamento do usuário, o álcool é legalmente comercializado e seu consumo é amplamente aceito socialmente e estimulado por intensa propaganda.</p>



<p style="font-size:18px">O uso do álcool em excesso provoca o rebaixamento da consciência e como os seus efeitos iniciam-se no cérebro, com a alteração do Sistema Nervoso Central, o indivíduo entra num processo de deterioração que afeta a percepção, coordenação e funções motoras, perda de memória e progressivamente, intoxicação das células do corpo, comprometimento do sistema imunológico e em estágios mais avançados da doença, pode ocorrer a destruição de órgãos vitais.</p>



<p style="font-size:18px">O Alcoolismo é conhecido cientificamente como a Síndrome de Dependência de Álcool (SDA), ele é um grave problema de saúde pública, pois acarreta o aumento nos índices de acidentes no trabalho e no trânsito, com a intensificação de sua gravidade, eleva a violência urbana, além de aumentar os atendimentos médicos realizados pelos CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial &#8211; Álcool e Drogas), sendo considerado um dos transtornos mentais mais prevalecentes na sociedade. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-de-ser-amplamente-estudado-e-ter-um-quadro-clinico-bem-estabelecido-muitas-vezes-a-sda-passa-despercebida-mesmo-em-avaliacoes-psiquiatricas-cf-gigliotti-2004" style="font-size:18px">Apesar de ser amplamente estudado e ter um quadro clínico bem estabelecido, muitas vezes, a SDA passa despercebida mesmo em avaliações psiquiátricas. (Cf. GIGLIOTTI, 2004)</h2>



<p style="font-size:18px">A psicossomática nos auxilia a entender melhor a dinâmica do alcoolismo, pois ela vê o homem de forma holística e tem como objetivo, encontrar o sentido dos sintomas e não necessariamente suas causas. O sintoma é um sinal de desordem.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">A consciência se desequilibra e isso se torna visível e palpável na forma de sintomas corporais e, para tanto, torna-se necessário apurarmos a escuta desse sintoma. A partir disso, podemos pensar a doença e a cura como refletindo estados de consciência. A doença seria a perda da harmonia ou de uma ordem até então conquistada e, nesse caso, a cura não seria a vitória sobre o sintoma, mas ela teria como pressuposto uma expansão da consciência, isto é, nossa própria busca da totalidade. (GUARNIERI, 2024, p. 4)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Quais seriam as desordens na psique do alcoolista? O que esses sintomas querem mostrar? Qual seria a razão desse desejo irresistível em beber? O que leva uma pessoa a “chegar ao fundo do poço” e mesmo assim querer continuar a beber? Podemos pensar simbolicamente que a alma que não se embriaga com a vida, necessita embriagar-se com o álcool?</p>



<p style="font-size:18px">Jung (2013a, p. 281) afirma que o corpo e a alma são supostamente um par de opostos, constituindo uma só realidade e expressando uma só entidade, cuja natureza não é possível se conhecer.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-o-corpo-nada-significa-sem-a-psique-da-mesma-forma-que-a-psique-nada-significa-sem-o-corpo-in-spinelli-2010-p-77" style="font-size:18px">Para Jung “O Corpo nada significa sem a psique, da mesma forma que a psique nada significa sem o corpo” (In SPINELLI, 2010, p. 77).</h2>



<p style="font-size:18px">O indivíduo é considerado um ser biopsicosocioespiritual, ou seja, sua parte psíquica, física e espiritual, interagem dentro de um ambiente socioeconômico-cultural.</p>



<p style="font-size:18px">&nbsp;O adoecimento é um desequilíbrio que acontece quando existe o conflito da consciência com o inconsciente.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Milam</strong> (1986) elenca como fatores predisponentes para o alcoolismo: o metabolismo anormal, a preferência por álcool, a hereditariedade, a influência pré-natal e as suscetibilidades étnicas.</p>



<p style="font-size:18px">No tocante ao metabolismo anormal, os alcóolatras apresentam o mau funcionamento das enzimas do fígado, o que dificulta a eliminação do álcool pelo organismo.</p>



<p style="font-size:18px">Em relação à preferência por álcool, cada pessoa reage de forma diferente ao gosto e aos efeitos da substância.</p>



<p style="font-size:18px">Outro fator predisponente que, apesar das provas, alguns profissionais e pesquisadores relutam em aceitar, é a hereditariedade, mas estudos do psiquiatra e pesquisador Donald Goodwin constatam que o alcoolismo é transmitido dos pais para os filhos através dos genes. <a href="#_ftn1" id="_ftnref1">[1]</a></p>



<p style="font-size:18px">Goodwin evidenciou que os filhos de alcóolatras tem um risco quatro vezes maior de contrair a doença do que os filhos dos não-alcóolatras, e mesmo, os filhos de pais não-alcóolatras, apresentaram taxas relativamente baixas, mesmo quando criados por pais adotivos alcóolatras. (Cf. MILAM, 1986, p. 46-47)</p>



<p style="font-size:18px">Outro fator predisponente é a Influência Pré-Natal. A grávida ao beber faz com que o feto beba junto, isso pode causar ao feto a Síndrome Alcóolica Fetal (SAF) e poderá tornar o bebê dependente ainda no ventre.</p>



<h2 class="wp-block-heading is-style-large" id="h-o-recem-nascido-e-de-fato-um-alcoolatra-anos-mais-tarde-quando-tomar-seu-primeiro-drinque-podera-sentir-uma-reativacao-instantanea-de-sua-dependencia-milam-1986-p-49" style="font-size:18px">“O recém-nascido é, de fato, um alcóolatra. Anos mais tarde, quando tomar seu “primeiro” drinque, poderá sentir uma reativação instantânea de sua dependência” (MILAM, 1986, p. 49).</h2>



<p style="font-size:18px">Um fator que também aparece nas pesquisas é a suscetibilidade étnica ao álcool. Foram constatadas diferenças extremas nos índices de alcoolismo e reações fisiológicas ao álcool entre vários grupos étnicos. Outra descoberta recente é que “<em>existe um relacionamento direto entre a extensão do tempo que um grupo étnico esteve exposto ao álcool e a taxa de alcoolismo dentro desse grupo</em>” (MILAM, 1986, p. 50).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">A evidência científica indica claramente um intercâmbio dos diversos fatores hereditários, fisiológicos &#8211; metabólicos, hormonais e neurológicos que atuam em conjunto e assim determinam a suscetibilidade do indivíduo ao alcoolismo. Seria um engano simplificar as interações no organismo, fazendo parecer que um gene específico, ou uma enzima, ou um hormônio é o único responsável por uma cadeia de eventos que conduzem em linha reta à dependência física e ao alcoolismo. (MILAM, 1986, p. 51)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-milam-corrobora-dessa-maneira-com-o-conceito-da-psicossomatica-que-afirma-ser-o-individuo-um-ser-biopsicosocioespiritual-em-que-todas-as-partes-estao-integradas-e-conectadas" style="font-size:18px">Milam corrobora dessa maneira com o conceito da Psicossomática, que afirma ser o indivíduo um ser biopsicosocioespiritual, em que todas as partes estão integradas e conectadas.</h2>



<p style="font-size:18px">Essas esferas não podem ser separadas e quando há um desequilíbrio entre a consciência e a inconsciência, surge o sintoma, que poderá se manifestar em qualquer uma das partes, pois não há separação entre energia e a matéria, entre o psíquico e o somático e entre o corpo e o espírito. (Cf. ROMANO, 2025)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-independentemente-da-esfera-em-que-se-manifeste-todos-esses-sintomas-tem-como-fator-desencadeante-primordial-o-complexo-constelado" style="font-size:18px">Mas independentemente da esfera em que se manifeste, todos esses sintomas têm como fator desencadeante primordial o complexo constelado.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">O que é, portanto, cientificamente falando, um &#8220;complexo afetivo&#8221;? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua tonalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, comporta-se, na esfera do consciente, como um corpus alienum (corpo estranho), animado de vida própria. <strong>Com algum esforço de vontade, pode-se, em geral, reprimir o complexo, mas é impossível negar sua existência, e na primeira ocasião favorável ele volta à tona com toda a sua força original.</strong> (JUNG, 2013a, p. 43-44. Grifos meus).</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Esta é exatamente a dinâmica vivenciada pelo alcoolista, ele até pode negar sua impotência diante do álcool, pode reprimir seu desejo, mas a compulsão, ou seja, essa necessidade mórbida, essa incapacidade de resistir a esse impulso, o domina como uma obsessão, aumentando sua ansiedade e impelindo-o ao comportamento repetitivo, que é o ato de beber.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">Podemos associar essa perda de controle do alcoolista em relação a bebida, com a ação do complexo quando constelado, que afetado por uma forte emoção, apresenta vontade própria e um grau elevado de autonomia, atuando com vida própria e por conter forte carga emocional, perturba totalmente o funcionamento da consciência, sendo impossível negar sua existência.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">O complexo afetado vai se constelar, ou seja, ganhará uma estrutura de disponibilidade, expectativa e prontidão à reação, que se dará a partir dos parâmetros definidos por experiências anteriores. Quando isso se dá, o complexo se revitaliza e se atualiza, aglutinando o resultado desta nova experiência em torno de si. A partir deste mecanismo, o complexo assume uma espécie de magnetismo para vivências semelhantes, que envolvam a mesma temática. A cada repetição, ele se cronifica: ganha mais vigor e, mais robusto, é capaz de atrair novas experiências que o confirmem e o atualizem. Essa autodeterminação e coerência interior conferirão ao complexo um grau de autonomia, como uma nova personalidade fragmentada e alheia às vontades do ego, que atuará a depender da carga de energia psíquica que conseguem deter no determinado momento. (ANTONIOLI, 2024, p. 10)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Podemos fazer uma analogia dessa nova personalidade fragmentada, que é uma característica do complexo quando está ativo, com o comportamento de uma pessoa que está sob o efeito do álcool, pois ela age como se fosse outra entidade totalmente diferente, é como se ela realmente tivesse adquirido outra personalidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-irmandades-de-autoajuda-os-comportamentos-dos-adictos-sao-classificados-metaforicamente-da-seguinte-forma" style="font-size:18px">Nas Irmandades de autoajuda, os comportamentos dos adictos são classificados metaforicamente da seguinte forma:</h2>



<p style="font-size:18px"><strong>1ª fase</strong>: É a fase do Pavão, onde o indivíduo começa a beber para desinibir-se, para perder a vergonha, sentir-se charmoso e para chamar a atenção.</p>



<p style="font-size:18px">Podemos associar essa fase à necessidade de superação do complexo de inferioridade, de timidez ou de insegurança.</p>



<p style="font-size:18px">A <strong>2ª fase</strong> é conhecida como a do Macaco, onde a pessoa é o bobo da corte, é aquele indivíduo que faz todos os outros rirem devido ao seu comportamento ridículo.</p>



<p style="font-size:18px">Aqui podemos associar a necessidade do indivíduo em ser aceito, em pertencer ao grupo e de ofuscar o complexo de rejeição ou de abandono.</p>



<p style="font-size:18px">A <strong>3ª fase</strong> é tida como a do Leão. O indivíduo se julga valente, quer agredir e brigar com todo mundo e arrumar confusão.</p>



<p style="font-size:18px">Podemos vincular esse comportamento ao desejo de poder e de autoridade do indivíduo, que quando sóbrio, normalmente é uma pessoa com dificuldade em expor suas vontades e opiniões, evita enfrentar conflitos e até apresenta aspectos de covardia.</p>



<p style="font-size:18px">A <strong>4ª fase</strong> é a o Porco. Nessa fase o indivíduo perde o autocuidado e não se importa mais com a aparência ou com a sua condição física.</p>



<p style="font-size:18px">Aqui podemos dizer que a baixa autoestima se apoderou do indivíduo, nada, nem ninguém, (família, saúde, trabalho, estudo) importam para ele, o único foco de interesse é a bebida.</p>



<p style="font-size:18px">A <strong>5ª fase</strong> é reconhecida como a do Rato. O indivíduo perde sua dignidade e “chega ao fundo do poço”, mas ele está tão devastado pela doença que nem consegue perceber isso.</p>



<p style="font-size:18px">Podemos dizer que esse momento da dependência é como se uma das personalidades fragmentadas estivesse conduzindo o indivíduo diretamente aos braços da morte.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assim-e-a-potencia-do-complexo-se-desejarmos-uma-comparacao-medica-nada-melhor-do-que-comparar-os-complexos-com-as-infeccoes-ou-com-tumores-malignos-que-nascem-sem-a-minima-participacao-da-consciencia-jung-2013a-p-48" style="font-size:18px">Assim é a potência do complexo: “Se desejarmos uma comparação médica, nada melhor do que comparar os complexos com as infecções ou com tumores malignos que nascem sem a mínima participação da consciência” (JUNG, 2013a, p. 48).</h2>



<p style="font-size:18px">Podemos traçar um paralelo do complexo com a vontade de beber do alcoolista, a parte consciente sabe que precisa parar de beber, que ele é impotente em relação ao álcool e que sua vida está se tornando incontrolável, mas a parte inconsciente o domina e o impele no sentido contrário, fazendo com que ele seja subjugado por essa compulsão patológica, que é o ato de beber.</p>



<p style="font-size:18px">Como diz Jung (2013a), “<em>Não possuímos os complexos, eles que nos possuem”, e para concluir essa reflexão, podemos parafraseá-lo dizendo, “Não é o alcoolista que bebe, é a bebida que o traga</em>”.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Afogando as mágoas no álcool e sendo tragado por ele&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/UgaAO8Kfio0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-santos/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-santos/">Cristiane dos Santos &#8211; Analista Junguiana em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p>ANTONIOLI, Luciana. <em>Os Complexos e o Simbolismo do Adoecimento</em><em>.</em>Curso dePsicossomática, IJEP. São Paulo, 2024. Apostila de aula.</p>



<p>DIEHL, A. et al. <em>Dependência Química: </em>prevenção, tratamento e políticas públicas. Porto Alegre: Artmed, 2011.</p>



<p>GIGLIOTTI, A e BESSA, M. A. <em>Síndrome de dependência do álcool</em>: critérios e diagnósticos, Rev. Bras. Psiquiatr. 26 (1): 11-13, 2004.</p>



<p><a href="https://doi.org/10.1590/S1516-44462004000500004">https://doi.org/10.1590/S1516-44462004000500004</a> acessado em 16/07/2025.</p>



<p>GUARNIERI, Maria Cristina. <em>Introdução à Psicossomática</em>. Curso de Psicossomática, IJEP. São Paulo, 2024.Apostila de aula.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>A Natureza da Psique.</em> 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p><em>MILAM, James Robert; KETCHAM, Katherine. Alcoolismo: Os mitos e a realidade. 2.ed. São Paulo</em>: Nobel, 1986.</p>



<p>RAMOS, Denise Gimenes. <em>A psique do corpo</em>: A dimensão simbólica da doença. 4.ed. São Paulo: Summus Editorial, 2006.</p>



<p>ROMANO, Lia Rachel B. <em>Psiconeuroendocrinoimunologia e adoecimento. </em>Curso dePsicossomática, IJEP. São Paulo, 2024. Apostila de aula.</p>



<p>______<em>Revisão de Psicossomática</em>. Curso de Psicossomática, IJEP. São Paulo, 2025.Apostila de aula.</p>



<p>SPINELLI, Maria Rosa (Org.). <em>Introdução à Psicossomática</em>. São Paulo: editora Atheneu, 2010.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Donald Goodwin, <em>Is Alcohism Hereditary? </em>(Nova York: Oxford University Press, 1976)</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O filho de mil homens: A crise no meio da vida e o grito ouvido no silêncio</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-filho-de-mil-homens-a-crise-no-meio-da-vida-e-o-grito-ouvido-no-silencio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Mar 2026 20:47:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[análise junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[análise simbólica]]></category>
		<category><![CDATA[analista junguiano]]></category>
		<category><![CDATA[C G Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Consciente]]></category>
		<category><![CDATA[IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[o filho de mil homens]]></category>
		<category><![CDATA[Psique]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há um tempo que me ocupo com produções literárias e cinematográficas. Já falei sobre os filmes Sete Minutos Depois da Meia-Noite, Oblivion, O Pequeno Príncipe e Divertida Mente, além de livros de Hermann Hesse e Khalil Gibran. Devo confessar, no entanto, que nunca me senti tão tocado quanto pelo filme O Filho de Mil Homens. As críticas já destacavam que o filme superou brilhantemente o livro homônimo de Valter Hugo Mãe.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><em>Há um tempo que me ocupo com produções literárias e cinematográficas. Já falei sobre os filmes Sete Minutos Depois da Meia-Noite, Oblivion, O Pequeno Príncipe e Divertida Mente, além de livros de Hermann Hesse e Khalil Gibran. Devo confessar, no entanto, que nunca me senti tão tocado quanto pelo filme <strong>O Filho de Mil Homens</strong>. As críticas já destacavam que o filme superou brilhantemente o livro homônimo de Valter Hugo Mãe.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-sempre-recorreu-as-obras-literarias-e-artisticas-para-observar-os-fenomenos-psiquicos-compreendendo-que-a-alma-nao-pode-ser-apreendida-apenas-no-castelo-seguro-da-especialidade-mas-precisa-ser-perseguida-em-todos-os-dominios-em-que-se-manifesta-entre-eles-a-literatura-a-arte-e-a-poesia-cf-jung-2011" style="font-size:18px">Jung sempre recorreu às obras literárias e artísticas para observar os fenômenos psíquicos, compreendendo que a alma não pode ser apreendida apenas no “castelo seguro” da especialidade, mas precisa ser perseguida em todos os domínios em que se manifesta, entre eles a literatura, a arte e a poesia (Cf. JUNG, 2011).</h2>



<p style="font-size:18px">Por isso, cultivo esse hábito e, assim como nós analistas, também incentivo clientes a assistirem filmes que possam servir de apoio à atividade clínica, pois o cinema oferece uma via privilegiada para acompanhar a expressão do inconsciente e dos arquétipos na contemporaneidade. Uma das questões centrais deste texto é a história de Crisóstomo – aliás, foi ao buscar o sentido de seu nome que tudo começou.</p>



<p style="font-size:18px">Fiz uma pequena pesquisa: “<strong>Crisóstomo</strong>” é de origem grega (<em>chrysos</em> = ouro; <em>stoma</em> = boca), significando “boca de ouro”, expressão que remete tanto à habilidade oratória quanto à figura de São João Crisóstomo, célebre por seus sermões. Ironia: o personagem de Rodrigo Santoro, Crisóstomo, fala sobretudo no silêncio; é um homem solitário, em torno dos quarenta anos, que se vê confrontado com a própria solidão</p>



<p style="font-size:18px">Seu boneco funciona como suporte projetivo: é, ao mesmo tempo, a imagem do filho que nunca teve e a personificação de sua criança interior. Em algumas cenas, essa duplicidade simbólica se torna visível quando surge uma criança com roupas em cores semelhantes às do boneco, sugerindo a sobreposição entre o filho imaginado e a dimensão infantil do próprio Crisóstomo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-relacao-de-crisostomo-com-o-boneco-e-com-as-imagens-internas-aproxima-o-filme-do-campo-que-jung-descreve-quando-pensa-a-arte-e-a-poesia-como-expressoes-da-psique" style="font-size:18px">Essa relação de Crisóstomo com o boneco e com as imagens internas aproxima o filme do campo que Jung descreve quando pensa a arte e a poesia como expressões da psique:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A arte, em sua manifestação, é uma atividade psicológica e, como tal, pode e deve ser submetida a considerações de cunho psicológico, pois, sob este aspecto, ela, como toda atividade humana oriunda de causas psíquicas, é objeto da psicologia. (JUNG, 2011, p. 42)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Penso com frequência em como a anamnese se constrói no consultório: um processo que se consolida ao longo do tempo. Nem sempre os clientes têm consciência de sua própria história; à medida que escutamos, eles se escutam, resgatando narrativas esquecidas e ampliando o campo da experiência consciente. No filme, Crisóstomo, além de enfrentar a crise do meio da vida em torno dos quarenta anos, apresenta-se como alguém profundamente conectado ao inconsciente – que poderíamos, num primeiro momento, associar ao mar, mas cuja ligação simbólica se dá, sobretudo, pela concha e pela brincadeira infantil de escutar o barulho do mar ao aproximá-la do ouvido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-crisostomo-se-volta-para-as-imagens-internas-para-desejos-e-anseios-que-parecem-ja-prefigurados-em-seu-mundo-interior" style="font-size:18px">Crisóstomo se volta para as imagens internas, para desejos e anseios que parecem já prefigurados em seu mundo interior.​</h2>



<p style="font-size:18px">No filme, essa escuta de si acontece em um momento decisivo: Crisóstomo se encontra precisamente em torno do meio da vida, ponto em que a curva biográfica deixa de ser apenas expansão e começa a confrontar o limite. Jung aponta que, a partir do meio da vida, quando a pessoa se recusa a seguir o movimento da própria existência, tende a endurecer internamente, agarrando‑se ao passado com medo da morte e, assim, perdendo contato real com o presente. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-descreve-a-virada-da-meia-idade-da-seguinte-forma" style="font-size:18px">Jung descreve a virada da meia-idade da seguinte forma:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A vida natural é o solo em que se nutre a alma. Quem não consegue acompanhar essa vida, permanece enrijecido e parado em pleno ar. [&#8230;] Do meio da vida em diante, só aquele que se dispõe a morrer conserva a vitalidade, porque na hora secreta do meio-dia da vida se inverte a parábola e nasce a morte. (JUNG, 2011b, §800).</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Em Crisóstomo, essa “hora secreta do meio-dia da vida” ganha forma simbólica: é a partir do encontro com a própria solidão e com as imagens internas que ele deixa de se petrificar e passa a tornar-se eixo de transformação para outras figuras marginalizadas do filme.</p>



<p style="font-size:18px">O aspecto talvez mais interessante do personagem de Santoro é aquilo que podemos relacionar à imaginação ativa, tal como trabalhada na psicologia junguiana: um modo de se colocar em contato genuíno com as imagens do inconsciente, sem submetê-las de imediato ao controle racional.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-destaca-que-na-imaginacao-ativa-o-material-produzido-em-estado-consciente-e-mais-completo-do-que-a-linguagem-dos-sonhos" style="font-size:18px">Jung destaca que, na imaginação ativa, o material produzido em estado consciente é mais completo do que a linguagem dos sonhos:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">         Desde que na imaginação ativa o material é produzido em estado consciente, sua estrutura é bem mais completa do que a linguagem precária dos sonhos. E contém muito mais que os sonhos; por exemplo, os valores sentimentais lá estão e podem ser julgados através do sentimento. Com frequência, os pacientes sentem que certos materiais apresentam tendências para a visualização. É comum que digam: ‘Aquelas imagens eram tão expressivas que, se eu soubesse pintar, tentaria reproduzir a sua atmosfera’. Ou então sentem que certas ideias deveriam ser expressas não racionalmente, mas por meio de símbolos. Ou, ainda, sentem-se dominados por uma emoção que, se tomasse forma, seria plenamente explicável. E assim começam a pintar, modelar e algumas mulheres começam a tecer. Tive mesmo duas clientes que dançavam suas figuras inconscientes. Logicamente o material também pode ganhar formas através da escrita. (JUNG, 2015, §400).​</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cada-individuo-encontra-o-seu-caminho-nesse-dialogo-com-o-inconsciente" style="font-size:18px">Cada indivíduo encontra o seu caminho nesse diálogo com o inconsciente.</h2>



<p style="font-size:18px">Crisóstomo o faz por meio de um ritual em que, ao confrontar uma dor, volta-se para esse espaço interno e criativo, figurado pela luz que emerge de seu órgão genital e ascende até o umbigo.</p>



<p style="font-size:18px">Em um desses momentos de disponibilidade ao mundo interno, ele escreve o bilhete “pai sem filho procura filho sem pai” e se coloca simbolicamente no lugar daquele que assume sua falta e a oferece ao outro.​</p>



<p style="font-size:18px">A forma como esse bilhete chega às mãos da mulher que levará Camilo até Crisóstomo pode ser pensada à luz da <strong>sincronicidade</strong>: não como simples cadeia causal, mas como encontro significativo entre um gesto interior e um acontecimento externo que parece responder a ele. Jung descreve a sincronicidade como um princípio de conexão acausal entre eventos internos e externos, unidos pelo sentido mais do que pela causa material (Cf. JUNG, 2011b). Nesse sentido, Camilo é a própria imagem viva dessa resposta do inconsciente, um “filho sem pai” que encontra o “pai sem filho” no exato momento em que este se dispõe a acolher a própria falta.​</p>



<p style="font-size:18px">Em contraste com o discurso contemporâneo que muitas vezes submete a decisão de ter filhos apenas à lógica do cálculo financeiro e da produtividade, o gesto de Crisóstomo rompe com a contabilidade capitalista do “custo de um filho” e se ancora em outra economia: a da disponibilidade afetiva e simbólica. Sua escolha não se apoia na garantia de oferecer “o melhor” em termos de consumo, mas na coragem de oferecer-se como pai a partir da própria incompletude.​</p>



<p style="font-size:18px">A presença de Camilo intensifica o processo já em curso em Crisóstomo: ao acolher o menino, ele é convocado a revisitar a própria história e a colocar em relação aquilo que antes vivia quase só no interior – o silêncio, a simplicidade, o cuidado atento. Nada do que Camilo diz passa despercebido por Crisóstomo; na cena em que é questionado sobre ter uma namorada, responde “mas não estamos inteiros”, ao que o menino devolve “mas pode ser o dobro”, abrindo simbolicamente a possibilidade de uma família fundada não na completude ideal, mas na partilha das faltas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-longo-do-filme-surgem-outros-personagens-que-condensam-dores-familiares-e-coletivas" style="font-size:18px">Ao longo do filme, surgem outros personagens que condensam dores familiares e coletivas. </h2>



<p style="font-size:18px">Isaura é apresentada como a mulher “carregada de ferida no meio das pernas”, segundo a mãe que percebe o amor como problema, enquanto o pai o entende como espera; entre essas duas visões, a filha passa a encarnar as projeções e frustrações amorosas dos pais. Isaura vive, de forma aguda, aquilo que Jung descreve como complexo ligado às figuras parentais: um conjunto de imagens emocionais que continua atuando como unidade viva da psique e tende a ser projetado para além da relação concreta com pai e mãe (Cf. JUNG, 2011b).​​</p>



<p style="font-size:18px">O mesmo ocorre com Antonino, o jovem sensível que experimenta a marginalização dentro da própria casa, submetido à tirania materna que evidencia um ponto nevrálgico: a homofobia que se inaugura no âmbito doméstico e revela a dificuldade de acolher a alteridade no seio da família. As dores que explodem no espaço social aparecem, aqui, como desdobramentos de <strong>complexos</strong> formados na intimidade das relações primárias; conteúdos rejeitados e não elaborados tornam‑se sombra e são projetados sobre o outro, de modo que aquilo que permanece inconsciente em nós é encontrado e combatido no vizinho (Cf. JUNG, 2011b).​​</p>



<p style="font-size:18px">Crisóstomo, a “boca de ouro” que fala sobretudo no silêncio, torna‑se uma espécie de eixo para que esses personagens possam se aproximar de suas feridas e dar nome ao que estava recalcado. É justamente aquele que menos fala quem cria as condições para que os outros encontrem palavras, lágrimas e gestos para aquilo que, muitas vezes, foi mantido no fundo da alma – gritos contidos, lágrimas engolidas, experiências varridas para “debaixo do tapete”, mas preservadas no inconsciente sob a forma de complexos.​</p>



<p style="font-size:18px">O movimento que se desenha é o da passagem da repressão à expressão: à medida que cada um entra em contato com o que foi reprimido, elementos deixados para trás são simbolicamente resgatados. No desfecho, a família que se constitui é a dos excluídos, e é precisamente essa comunidade dos que carregam a marca da exclusão social que consegue atravessar e integrar sombras com as quais a sociedade mais ampla não sabe lidar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alerta-de-spoiler-se-voce-ainda-nao-assistiu-ao-filme-e-recomendavel-interromper-a-leitura-aqui-ver-a-obra-e-entao-retornar-ao-texto-para-preservar-a-experiencia-afetiva-que-o-desfecho-oferece" style="font-size:18px"><strong>Alerta de spoiler:</strong> se você ainda não assistiu ao filme, é recomendável interromper a leitura aqui, ver a obra e, então, retornar ao texto, para preservar a experiência afetiva que o desfecho oferece.​</h2>



<p style="font-size:18px">O final apresenta, de forma contundente, que a transformação pessoal não se restringe ao indivíduo, mas reverbera na comunidade: ao lidar com dores, sombras e complexos – especialmente aquilo que o núcleo familiar não conseguiu elaborar – abre-se espaço para uma mudança que também é coletiva, num movimento que dialoga com a experiência de Jung narrada em&nbsp;Memórias, Sonhos, Reflexões. Quando Crisóstomo ensina Camilo a se conectar ao inconsciente, o filme insinua a cura da “criança divina”, imagem que remete ao arquétipo da criança como possibilidade de renovação e futuro psíquico.​</p>



<p style="font-size:18px">A cena em que diversas pessoas se reúnem atrás de Crisóstomo e Camilo sugere uma configuração ampliada do campo psíquico, quase como se a comunidade inteira participasse do processo de individuação ali encenado. Nesse contexto, ganha relevo a formulação de que o ego, longe de dominar o inconsciente, deve aprender a servir à sua realização simbólica; enquanto as dores permanecem recalcadas, a vida não se cumpre em sua plenitude.​</p>



<p style="font-size:18px">Ao propor uma família formada pelos excluídos e feridos, o filme lembra que somos co‑criadores e co‑curadores de nossa própria história e, em alguma medida, da história do mundo que habitamos. A convocação final é ética e imaginal: tornar‑se a transformação que se deseja ver passa por olhar para dentro, acolher o que impede o caminhar com presença e coragem e confiar que, embora tudo o que é necessário já esteja em nós, é preciso ousar encontrá‑lo.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;O filho de mil homens: A crise no meio da vida e o grito ouvido no silêncio&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/UTIL9RydjIc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniel/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/daniel/">Daniel Gomes &#8211; Membro Analista IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p><em>JUNG, C. G. O espírito na arte e na ciência. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.</em></p>



<p><em>JUNG, C. G. A natureza da psique. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2011b</em></p>



<p><em>JUNG, C. G. A vida simbólica. Petrópolis: Vozes, 2015.</em></p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>A Sombra Junguiana de Winnicott: O Elo Perdido do Self</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sombra-junguiana-winnicott-elo-perdido-self-ijep-jung-self-psicanalise/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 20 Feb 2026 13:46:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[Donald Winnicott]]></category>
		<category><![CDATA[IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Michael Fordham]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise Britânica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria do Amadurecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Verdadeiro Self]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12294</guid>

					<description><![CDATA[<p>Neste artigo exclusivo, desvelamos a "dança secreta" entre a Psicanálise Britânica e a Psicologia Analítica. Descubra como a amizade íntima entre Winnicott e Michael Fordham — o principal junguiano de Londres — foi decisiva para a estruturação do conceito de Verdadeiro Self.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/sombra-junguiana-winnicott-elo-perdido-self-ijep-jung-self-psicanalise/">A Sombra Junguiana de Winnicott: O Elo Perdido do Self</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px">Na cartografia oficial da psicologia profunda, costuma-se desenhar fronteiras rígidas entre Viena e Zurique, tratando a Psicanálise Freudiana e a Psicologia Analítica de Jung como territórios irreconciliáveis. No entanto, a prática clínica e a história real das ideias desafiam essa geografia segregacionista. Em meio às disputas dogmáticas do século XX, a chamada &#8216;Escola Independente&#8217; britânica floresceu justamente por transitar nas zonas de fronteira, onde a lealdade institucional cede lugar à verdade da experiência humana. É nesse terreno fértil e pouco explorado que Donald Winnicott, longe de ser um purista, permitiu-se um diálogo profundo — ainda que discreto — com o pensamento junguiano, tecendo uma colcha de retalhos teórica que transformaria para sempre nossa compreensão sobre o que significa, verdadeiramente, ser um indivíduo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-fundamentos-da-teoria-de-donald-winnicott-1896-1971"><strong>Fundamentos da Teoria de Donald Winnicott (1896-1971)</strong></h2>



<p style="font-size:18px">A obra de Donald Winnicott representa uma mudança paradigmática na psicanálise, deslocando o foco da pulsão e do conflito psíquico (Freud) para o desenvolvimento emocional inicial e a constituição do <em>Self </em>(si-mesmo). Sua &#8220;teoria do amadurecimento&#8221; postula que a saúde psíquica não é apenas a ausência de doença, mas a capacidade de sentir-se real e criativo.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:18px">Pilares Conceituais: O desenvolvimento saudável depende intrinsecamente da díade mãe-bebê. Winnicott afirmou a célebre frase: &#8220;Não existe um bebê&#8221;, indicando que, nos estágios iniciais, o bebê e a mãe formam uma unidade psíquica indivisível. Os conceitos centrais que sustentam essa teoria são: Ambiente Suficientemente Bom: A mãe (ou cuidador) não deve ser perfeita, mas capaz de adaptar-se ativamente às necessidades do bebê e, gradativamente, falhar em doses suportáveis. É essa falha gradual que permite a desilusão necessária para o amadurecimento e a percepção da realidade externa.</li>



<li style="font-size:18px">Holding (Sustentação): O suporte físico e emocional que oferece segurança, integrando o bebê no tempo e no espaço. É a base para a confiança básica.</li>



<li style="font-size:18px">Handling (Manejo): Os cuidados físicos (banho, toque, troca) que permitem a personalização, ou seja, o &#8220;habitar&#8221; o corpo. É a união entre psique e soma.</li>



<li style="font-size:18px">Apresentação de Objetos: A capacidade da mãe de apresentar o mundo (o seio, o brinquedo) no momento exato em que o bebê cria a necessidade, gerando a &#8220;ilusão onipotente&#8221; de que ele criou o objeto.</li>



<li style="font-size:18px">Objeto Transicional: Representa a primeira posse &#8220;não-eu&#8221; da criança (o ursinho, o cobertor). Localiza-se na área transicional, um espaço intermediário entre a realidade interna e a externa, fundamental para a criatividade e a cultura.</li>



<li style="font-size:18px">Dinâmica do Self: Verdadeiro Self: Surge da espontaneidade dos gestos do bebê que são acolhidos e validados. É a fonte da criatividade e da sensação de estar vivo.</li>



<li style="font-size:18px">Falso Self: Uma estrutura defensiva desenvolvida quando o ambiente falha excessivamente. O bebê se submete às exigências externas para sobreviver, ocultando sua verdadeira natureza. Em casos patológicos, o Falso Self assume o controle total, levando a uma vida de &#8220;faz de conta&#8221; ou adaptação excessiva (normopatia).</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-conexao-junguiana-influencias-e-dialogos-historicos"><strong>A Conexão Junguiana: Influências e Diálogos Históricos</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Embora <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Donald_Woods_Winnicott">Winnicott</a> pertencesse à &#8220;Escola Independente&#8221; da Sociedade Psicanalítica Britânica (o <em>Middle Group</em>, entre kleinianos e freudianos), sua obra apresenta convergências notáveis com a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:18px">Pontos de Contato: Winnicott criticava a visão freudiana do inconsciente apenas como reprimido. Ele se aproximava da visão junguiana de um inconsciente criativo e dotado de potencial de autocura.</li>



<li style="font-size:18px">A Resenha de Jung: Ao ler a autobiografia de Jung, Memórias, Sonhos, Reflexões, Winnicott escreveu uma resenha onde diagnosticou a experiência de Jung não como uma psicose destrutiva, mas como uma &#8220;doença criativa&#8221;. Ele afirmou estar &#8220;sonhando um sonho para Jung&#8221;, validando a busca junguiana pela <a href="https://blog.ijep.com.br/o-caminho-da-alma-dos-autorretratos-as-selfies/">integração do Self.</a></li>



<li style="font-size:18px">O Medo da &#8220;Contaminação&#8221;: A relutância de Winnicott em se declarar influenciado por Jung não era rejeição teórica, mas pragmatismo político. Para manter sua posição na Sociedade Psicanalítica Britânica (fortemente freudiana), ele precisava evitar o estigma de &#8220;místico&#8221; associado a Jung. Ele optou por integrar conceitos junguianos (como o Self) usando sua própria terminologia.</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-elo-perdido-michael-fordham-e-a-estruturacao-do-self"><strong>O Elo Perdido: Michael Fordham e a Estruturação do Self</strong></h2>



<p style="font-size:18px">A peça-chave para entender a profundidade junguiana em Winnicott é <strong><a href="https://en-wikipedia-org.translate.goog/wiki/Michael_Fordham?_x_tr_sl=en&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt&amp;_x_tr_pto=tc">Michael Fordham</a> (1905–1995)</strong>, o principal analista junguiano britânico e amigo pessoal de Winnicott.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:18px">A Influência de Fordham: Fordham atuou como um &#8220;supervisor informal&#8221; e interlocutor teórico. Sua contribuição foi decisiva em dois aspectos: Refinamento Terminológico: Antes de 1962, Winnicott usava &#8220;Ego&#8221; e &#8220;Self&#8221; como sinônimos. Fordham, com sua base junguiana onde o Self é a totalidade arquetípica, convenceu Winnicott a diferenciar os termos. Isso permitiu a Winnicott solidificar a teoria do Verdadeiro Self.</li>



<li style="font-size:18px">Deintegração vs. Não-Integração: Fordham propôs que o Self primário do bebê precisa &#8220;deintegrar-se&#8221; (abrir-se) para interagir com o mundo. Winnicott chamou isso de &#8220;não-integração&#8221;. Ambos descreviam o mesmo fluxo vital de expansão e recolhimento, validando a ideia de que o caos inicial não é patológico. Para que surja o Ego é necessário que o bebe saia do pleroma e rompa o uroborus, equivalente ao narcisismo primário, para que possa se diferenciar da mãe e ingressar mais conscientemente no complexo materno saudável.</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-funcao-materna-e-a-estruturacao-do-self-dialogos-clinicos-entre-a-psicanalise-winnicottiana-e-a-psicologia-analitica"><strong>A Função Materna e a Estruturação do Self: Diálogos Clínicos entre a Psicanálise Winnicottiana e a Psicologia Analítica</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Na intersecção entre a psicanálise winnicottiana e a psicologia analítica, a figura materna transcende sua dimensão biológica. Para Donald Winnicott, a mãe constitui o &#8220;ambiente facilitador&#8221; indispensável ao desenvolvimento inicial; para C.G. Jung, ela é a primeira portadora do arquétipo da Grande Mãe, responsável por constelar a <em>imago</em> parental na psique infantil. É na fusão indiferenciada dessa díade primária que se forja a experiência de confiança primordial. Esta confiança básica não é um mero constructo afetivo, mas o alicerce ontológico sobre o qual o ego incipiente poderá emergir do estado de participação mística (<em>participation mystique</em>) e estruturar a consciência em direção à futura possibilidade de engajamento consciente ao processo de individuação.</p>



<p style="font-size:18px">Os Pilares do Cuidado Materno: Holding, Handling e Espelhamento, a transmissão dessa confiança primordial ocorre por meio de processos sutis e contínuos de adaptação às necessidades do bebê. O primeiro deles é o <em>Holding</em> (sustentação), que transcende o amparo físico para configurar uma contenção psíquica. O <em>holding</em> protege o lactente da vivência de &#8220;angústias impensáveis&#8221; (como a sensação de cair num abismo ou de desintegração), permitindo a continuidade do ser ao emprestar o ego auxiliar da mãe ao bebê. Em seguida, opera o <em>Handling</em> (manejo), referente aos cuidados corporais que promovem a união intrínseca entre psique e soma. É através do <em>handling</em> adequado que a criança alcança a &#8220;personalização&#8221;, habitando confortavelmente o próprio corpo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-contudo-o-apice-da-constituicao-da-subjetividade-encontra-se-na-funcao-de-espelhamento-mirroring" style="font-size:18px">Contudo, o ápice da constituição da subjetividade encontra-se na função de Espelhamento (<em>Mirroring</em>).</h2>



<p style="font-size:18px">Na formulação winnicottiana, o rosto da mãe atua como o precursor do espelho. Quando o bebê olha para a face materna, ele necessita ver a si mesmo refletido; isto é, a expressão da mãe deve ressoar o estado interno da criança. A mãe opera, assim, como um <em>self-objeto</em> (para utilizar um termo afim à psicologia do <em>self</em>), devolvendo ao bebê o reconhecimento de sua própria existência e validando o seu Verdadeiro Self. Para Psicologia Analítica, essa relação irá balizar tanto a construção da imagem da Anima nos meninos, quanto da Persona da futura menina, que também construirá sua imagem de animus a partir do animus materno – Anima e Animus são contrapontos sexuais na identificação de gênero de cada um de nós.</p>



<p style="font-size:18px">A complexidade dessa estruturação torna-se clinicamente evidente quando ocorre a falha ambiental severa. Em situações em que a função materna é refratária — como em casos de depressão pós-parto puerperal —, o processo de espelhamento é drasticamente interrompido. O bebê, ao olhar para a mãe deprimida, não encontra o reflexo de sua própria vitalidade, mas depara-se com o vazio, a opacidade e a paralisia afetiva do outro. Diante da ameaça de aniquilamento psíquico, a criança é forçada a uma adaptação prematura. Ocorre, então, uma intrusão (<em>impingement</em>) que obriga o bebê a reagir ao ambiente em vez de simplesmente &#8220;ser&#8221;. Como mecanismo de defesa contra essa falha estrutural, instaura-se um Falso Self patológico: uma roupagem reativa e submissa que protege o Verdadeiro Self, agora oculto e inacessível.</p>



<p style="font-size:18px">Para Jung, as repercussões de um déficit na experiência de confiança primordial estendem-se profundamente até a fase adulta. O indivíduo que não vivenciou o <em>holding</em> e o espelhamento adequados tende a desenvolver um padrão relacional pautado na compulsão à repetição. Observa-se, na clínica, uma busca nostálgica e inconsciente por essa experiência fundante em relacionamentos interpessoais e amorosos. Tais vínculos frequentemente assumem um caráter disfuncional e simbiótico, pois o sujeito não busca o outro em sua alteridade, mas tenta forçar o parceiro a encarnar a <em>imago</em> parental idealizada. Há uma tentativa desesperada de recriar o ambiente facilitador primário, exigindo do outro um espelhamento absoluto que, na vida adulta, revela-se insustentável, culminando no adoecimento da relação e na reiteração do trauma original.</p>



<p style="font-size:18px">O Setting Analítico: A Reeditação da <a href="https://blog.ijep.com.br/quando-a-mae-devora-pela-identificacao-com-o-papel-de-vitima/">Função Materna</a> e a Desadaptação Progressiva Diante dessa fenomenologia, o <em>setting</em> terapêutico apresenta-se como um espaço sagrado (<em>temenos</em> junguiano) destinado à reeditação simbólica da função materna. O analista fornece o <em>holding</em> necessário para conter as angústias primitivas do paciente, atuando como um continente seguro onde o Verdadeiro Self possa, gradativamente, emergir do estado de latência. Por meio de uma escuta continente e do espelhamento empático, o terapeuta acolhe as projeções da <em>imago</em> parental, permitindo a integração das sombras e a reparação dos déficits iniciais.</p>



<p style="font-size:18px">Entretanto, o ápice da eficácia analítica reside na capacidade do terapeuta de manejar a sua própria obsolescência. Assim como a mãe &#8220;suficientemente boa&#8221; (na concepção de Winnicott) é aquela que sobrevive aos ataques agressivos do bebê e promove uma desadaptação gradual, frustrando-o em doses suportáveis para inseri-lo no princípio da realidade, o analista rigoroso não perpetua a simbiose, evitando vínculos empáticos que, invariavelmente, tornam-se antipáticos e neuróticos. O objetivo ético e clínico do processo psicoterapêutico é a transição do paciente da dependência absoluta para a independência relativa. O analista atua como um objeto transicional vital que, ao longo do processo de individuação, destitui-se de sua onipotência projetada, tornando-se, por fim, &#8220;desnecessário&#8221; à medida que o paciente consolida sua autonomia psíquica e assume a autoria de sua própria existência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-analise-comparativa-profunda"><strong>Análise Comparativa Profunda</strong></h2>



<p style="font-size:18px">A convergência entre Winnicott e Jung, mediada por Fordham, revela pontos de contato surpreendentes que enriquecem a compreensão do desenvolvimento psíquico. A tabela a seguir sintetiza as principais áreas de ressonância e distinção, destacando como suas perspectivas, embora distintas em origem, se complementam na construção de uma visão mais holística da psique.</p>



<figure class="wp-block-table"><table class="has-fixed-layout"><tbody><tr><td>Aspecto</td><td>C.G. Jung (Psicologia Analítica)</td><td>D.W. Winnicott (Psicanálise Independente)</td><td>Convergência (Via Fordham)</td></tr><tr><td>**Self**</td><td>Centro e totalidade da psique, arquetípico, inato, busca a individuação.</td><td>Experiência de ser real, espontâneo, emerge da relação mãe-bebê (Verdadeiro Self).</td><td>Ambos veem o Self como o cerne da identidade. Jung como potencial inato, Winnicott como experiência de ser. Fordham integra: Self arquetípico se deintegra e reintegra na relação.</td></tr><tr><td>**Ambiente**</td><td>Inconsciente Coletivo como &#8220;ambiente&#8221; psíquico universal; importância do contexto cultural e familiar.</td><td>&#8220;Mãe suficientemente boa&#8221; e &#8220;ambiente facilitador&#8221; são cruciais para o desenvolvimento.</td><td>O ambiente (seja psíquico ou relacional) é fundamental para a manifestação e estruturação do Self.</td></tr><tr><td>**Símbolo/Brincar**</td><td>Símbolos como pontes entre consciente e inconsciente; Função Transcendente.</td><td>Brincar como atividade central no &#8220;espaço potencial&#8221;; Objeto Transicional.</td><td>O brincar e a simbolização são vistos como atividades essenciais para a integração psíquica e a criatividade, mediando a realidade interna e externa.</td></tr><tr><td>**Integração/Totalidade**</td><td>Individuação como processo de integração dos opostos e realização do Self.</td><td>Integração como processo de unificação das partes do Self, dependente do holding.</td><td>Ambos valorizam a integração como meta do desenvolvimento, embora por caminhos conceituais diferentes.</td></tr><tr><td>**Inato vs. Adquirido**</td><td>Ênfase nos arquétipos inatos e no inconsciente coletivo.</td><td>Ênfase na interação com o ambiente, mas com um potencial inato para o amadurecimento.</td><td>Fordham: Self arquetípico (inato) se manifesta e se estrutura através da experiência relacional (adquirido).</td></tr><tr><td>**Patologia**</td><td>Neurose como conflito entre consciente e inconsciente; perda de contato com o Self.</td><td>Falso Self como defesa contra falhas ambientais; sensação de não-ser.</td><td>Ambos veem a patologia como uma desconexão da autenticidade e da totalidade do Self, seja por conflito interno ou falha ambiental.</td></tr></tbody></table></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-elo-invisivel-michael-fordham-winnicott-e-a-sombra-junguiana-na-psicanalise-britanica"><strong>O Elo Invisível: Michael Fordham, Winnicott e a Sombra Junguiana na Psicanálise Britânica</strong></h2>



<p style="font-size:18px">A historiografia psicanalítica tradicional tende a apresentar as escolas de Freud e Jung como linhas paralelas que jamais se tocam no infinito teórico. Contudo, uma análise minuciosa da &#8220;Escola Independente&#8221; britânica revela um subsolo rico em trocas intelectuais. Este artigo investiga como a influência crucial do analista junguiano Michael Fordham na estruturação do conceito de<em>Self</em>em Donald Winnicott e revisita a metapsicologia de Melanie Klein sob a ótica da<em>participation mystique</em>. Demonstra-se como a amizade entre Fordham e Winnicott serviu de ponte para que conceitos da Psicologia Analítica fossem, silenciosa e criativamente, assimilados pela psicanálise contemporânea.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao-a-contaminacao-fertil-em-londres"><strong>Introdução: A &#8220;Contaminação Fértil&#8221; em Londres</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Se Viena foi o palco do cisma traumático entre Freud e Jung, Londres tornou-se, décadas depois, o laboratório silencioso de uma reintegração possível. Enquanto a ortodoxia freudiana mantinha seus muros altos, a chamada &#8220;Escola Independente&#8221; (Middle Group) — liderada por figuras como Donald Winnicott — buscava oxigênio fora dos dogmas pulsionais estritos.</p>



<p style="font-size:18px">É neste cenário que emerge a figura de <strong>Michael Fordham</strong>, o &#8220;Jung de Londres&#8221;. Amigo pessoal de Winnicott, Fordham não foi apenas um interlocutor; foi o catalisador que permitiu a Winnicott organizar sua genialidade clínica em uma estrutura teórica coerente. A tese deste artigo é provocativa, mas historicamente embasada: sem a lente junguiana oferecida por Fordham, a teoria do amadurecimento de Winnicott talvez não tivesse alcançado a profundidade ontológica que hoje celebramos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-michael-fordham-e-a-genese-do-self-em-winnicott"><strong>Michael Fordham e a Gênese do Self em Winnicott</strong></h2>



<p style="font-size:18px">A contribuição mais palpável de Fordham para a obra de Winnicott reside na definição do<em>Self</em>. Até o final da década de 1950, Winnicott utilizava os termos &#8220;Ego&#8221; e &#8220;Self&#8221; de maneira intercambiável e, por vezes, confusa.</p>



<p style="font-size:18px">Foi Fordham quem, em diálogos privados e correspondências, apontou a necessidade de distinção. Baseado na visão de Jung — onde o<em>Self</em>(Si-mesmo) é o arquétipo da totalidade e o centro organizador da psique, anterior e superior ao Ego —, Fordham instigou Winnicott a refinar sua terminologia.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:18px">Deintegração vs. Não-Integração: Fordham propôs o conceito de Deintegração (Deintegration): o movimento natural do Self primário do bebê que se &#8220;abre&#8221; para o ambiente para interagir e depois se reintegra. Não é uma fragmentação patológica (disintegration), mas um ciclo vital de expansão e recolhimento. Winnicott, por sua vez, desenvolveu o conceito de Não-Integração primária. A semelhança não é coincidência. Ambos descreviam o mesmo fenômeno: o estado inicial de fluidez psíquica que precede a formação do Ego, onde a &#8220;loucura&#8221; (no sentido de não-organização) é saúde, e não doença. Fordham ajudou Winnicott a perder o medo de soar &#8220;místico&#8221; ao falar de uma totalidade que precede a experiência.</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-junguiana-em-melanie-klein-arquetipos-e-fantasia"><strong>A Sombra Junguiana em Melanie Klein: Arquétipos e Fantasia</strong></h2>



<p style="font-size:18px"><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Melanie_Klein">Melanie Klein (1882-1960)</a>, mentora de Winnicott e figura central na psicanálise britânica, nutria uma antipatia declarada por Jung. No entanto, a ironia do inconsciente é implacável: a estrutura de sua teoria é, talvez, a mais próxima da dinâmica arquetípica junguiana entre os freudianos.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:18px">Fantasias Inconscientes (Phantasy) como Arquétipo: Klein postulou que o bebê nasce com um conhecimento inato, a priori, do &#8220;seio&#8221;. Ele não precisa ser ensinado a buscar ou a temer; as imagens de bondade e perseguição são inerentes à estrutura da mente. O que Klein chama de &#8220;Fantasia Inconsciente&#8221; (escrito com ph no inglês, para denotar sua natureza estrutural) é funcionalmente idêntico ao conceito de Arquétipo em Jung. Ambos concordam: a psique não é uma tábula rasa. O drama humano já vem roteirizado nas profundezas filogenéticas.</li>



<li style="font-size:18px">Identificação Projetiva e <a href="https://blog.ijep.com.br/banho-de-floresta-e-participacao-mistica/">Participation Mystique</a>: O conceito kleiniano de Identificação Projetiva — onde partes do self são expelidas para dentro do objeto para controlá-lo ou comunicar-se com ele — é a descrição clínica e microscópica daquilo que Lucien Lévy-Bruhl e Jung chamaram de Participation Mystique. É a fusão arcaica sujeito-objeto. Quando Winnicott diz &#8220;não existe um bebê&#8221;, ele está descrevendo essa participação mística onde a psique da mãe e do bebê formam um unus mundus temporário. Klein descreveu o mecanismo (projeção); Jung descreveu a fenomenologia (participação).</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-winnicott-le-jung-o-diagnostico-da-criatividade"><strong>Winnicott &#8220;Lê&#8221; Jung: O Diagnóstico da Criatividade</strong></h2>



<p style="font-size:18px">O ápice dessa relação intelectual ocorre quando Winnicott resenha a autobiografia de Jung, <em>Memórias, Sonhos, Reflexões </em>(1963). Em vez de patologizar as visões e confrontos de Jung com o inconsciente como um surto psicótico destrutivo (visão freudiana clássica), Winnicott oferece uma leitura revolucionária.</p>



<p style="font-size:18px">Ele classifica a experiência de Jung como uma <strong>&#8220;doença criativa&#8221;</strong>(<em>creative illness</em>). Para Winnicott, Jung teve a coragem de regredir à dependência absoluta em busca do seu <em>Verdadeiro Self</em>, algo que a psicanálise ortodoxa, focada na repressão neurótica, tinha dificuldade de compreender. Winnicott viu em Jung o protótipo do indivíduo que, através do brincar com as imagens (imaginação ativa), curou a cisão interna.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-uma-clinica-integrativa"><strong>Por uma Clínica Integrativa</strong></h2>



<p style="font-size:18px">A análise histórica da relação entre Fordham, Winnicott e a sombra de Jung nos ensina que a fidelidade excessiva a uma escola pode cegar o clínico para a realidade da alma humana.</p>



<p style="font-size:18px">Winnicott não se tornou junguiano, mas tornou-se um psicanalista melhor porque permitiu que a brisa da Psicologia Analítica arejasse sua teoria. Ele integrou a teleologia (o sentido de vir-a-ser) à arqueologia freudiana.</p>



<p style="font-size:18px">Para nós, no IJEP, essa é a bússola. Reconhecer que, seja através do <em>Holding</em> ou da <em>Temenos</em>, do <em>Objeto Transicional</em> ou do <em>Símbolo</em>, estamos todos tentando descrever o sagrado mistério da individuação. A ciência psíquica avança não pela exclusão, mas pela coragem de habitar as fronteiras.</p>



<p style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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<p><a href="http://WWW.IJEP.COM.BR">WWW.IJEP.COM.BR</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA-1024x576.png" alt="" class="wp-image-12308" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA-1536x864.png 1536w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA-1200x675.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA.png 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p><strong>Estão abertas as inscrições para o XI Congresso Junguiano do IJEP: <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia" type="link" id="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia">ECOLOGIA ALQUÍMICA</a> &#8211; Saiba mais e garanta sua participação: <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia ">https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia </a></strong></p>



<p></p>
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		<title>O Encontro com o Mestre: Uma jornada de transformação pela Arteterapia</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-encontro-com-o-mestre-uma-jornada-de-transformacao-pela-arteterapia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Elaine Cristina Bedin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Feb 2026 19:38:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[expressões criativas]]></category>
		<category><![CDATA[IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[integração]]></category>
		<category><![CDATA[nise da silveira]]></category>
		<category><![CDATA[processo de individuação]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Todos nós temos um mestre interior, sabe aquele que te acompanha ao longo de sua vida? O curso de Arteterapia não é tão simples e divertido como parece, é acima de tudo, uma entrega, uma verdadeira jornada de alma. Uma travessia profunda onde não estudei apenas técnicas, obras e embasamentos teóricos, mas um chamado, fui chamada — por meio das imagens, das cores e dos símbolos — a mergulhar nos porões da minha história. Ao encerrar a formação em Arteterapia, fecho também um ciclo de vida profundamente simbólico e transformador, uma verdadeira travessia. Um chamado da alma que me levou a tocar feridas antigas e integrar as partes esquecidas de mim mesma</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>“Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece&#8230; ou desaparece.”<br>(Ditado antigo, citado por muitos mestres espirituais)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: Todos nós temos um mestre interior, sabe aquele que te acompanha ao longo de sua vida? O curso de Arteterapia não é tão simples e divertido como parece, é acima de tudo, uma entrega, uma verdadeira jornada de alma. Uma travessia profunda onde não estudei apenas técnicas, obras e embasamentos teóricos, mas um chamado, fui chamada — por meio das imagens, das cores e dos símbolos — a mergulhar nos porões da minha história. Ao encerrar a formação em Arteterapia, fecho também um ciclo de vida profundamente simbólico e transformador, uma verdadeira travessia. Um chamado da alma que me levou a tocar feridas antigas e integrar as partes esquecidas de mim mesma</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-i-o-chamado-da-alma-ferida" style="font-size:19px"><strong>I. O chamado da alma ferida</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Durante dois longos anos, tive a oportunidade de viver e reviver momentos únicos: &nbsp;um processo de mergulhos, reencontros e revelações, momentos que marcaram profundamente a minha vida. Conheci várias pessoas, algumas vivem em mim outras convivem comigo, mas com certeza, todas estão aqui, “ao lado esquerdo do peito”, como diz nosso querido Milton Nascimento.</p>



<p style="font-size:19px">&nbsp;Ao encerrar a formação em Arteterapia, fecho também um ciclo de vida profundamente simbólico e transformador, uma verdadeira travessia. Um chamado da alma que me levou a tocar feridas antigas e integrar as partes esquecidas de mim mesma.</p>



<p style="font-size:19px">O curso de Arteterapia não é tão simples e divertido como parece, é acima de tudo, uma entrega, uma verdadeira jornada de alma. Uma travessia profunda onde não estudei apenas técnicas, obras e embasamentos teóricos, mas um chamado, fui chamada — por meio das imagens, das cores e dos símbolos — a mergulhar nos porões da minha história.</p>



<p style="font-size:19px">Carrego no peito o eco de uma ferida primordial: a rejeição de uma filha não acolhida por sua mãe. Uma dor silenciosa, suavizada apenas pelo gesto amoroso dos tios que, não podendo gerar, me escolheram com o coração. Cresci entre afetos e silêncios, marcada por uma ferida invisível, que mais tarde encontraria eco. No entanto, como nos ensina Jung, &#8220;nós não nos tornamos iluminados imaginando figuras de luz, mas sim tornando consciente a escuridão&#8221; (JUNG, 1976, p. 265). E, mais uma vez, a sombra se fez presente novamente em experiências de abuso, repetições, silêncios e traumas que marcaram minha adolescência e vida adulta. Os complexos gritando e emergindo de uma dor sem fim!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-das-dores-algo-em-mim-permanecia-resistente-uma-centelha-viva-que-me-impulsionava-a-buscar-sentido" style="font-size:19px">Apesar das dores, algo em mim permanecia resistente &#8211; uma centelha viva que me impulsionava a buscar sentido.</h2>



<p style="font-size:19px">Foi nesse movimento que encontrei a Psicopedagogia, meu primeiro portal de sentido e, mais adiante, a Psicologia Analítica, onde pude compreender e acolher as dores de crianças e adolescentes. Atendendo a este público com dificuldades de aprendizagem, percebia que por trás das questões escolares havia dores emocionais profundas, afinal a cognição não funciona sem sua aliada, a psique. &nbsp;E foi movida por essa sede de compreender a psique humana, especialmente a infância ferida e as dores da alma, que encontrei Jung. Encontrei Jung ou fui encontrada por ele? &nbsp;Afinal, como diz o ditado, “<em>Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece.&#8221;</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ii-o-encontro-com-jung-o-velho-sabio" style="font-size:19px"><strong>II. O encontro com Jung: o Velho Sábio</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Meu caminho, porém, ainda ansiava por algo mais profundo. Foi nesse movimento de busca que nos encontramos, eu e Jung. Em seu arquétipo do Velho Sábio, reconheci uma figura que, simbolicamente, me parecia familiar — quase como Merlin, o mago que aparece nos momentos certos para guiar o herói. Este velho Sábio apareceu todas as vezes que finalizava um curso, além dos de especialização, os diversos cursos de extensão que cumpri. Em sonhos ou através de imaginação ativa, ele se manifestava com uma palavra de acolhimento ou alguma mensagem provocativa<strong>. </strong>Como descreve Silveira (1981, p.161): “No mistério do ato criador, o artista mergulha até as profundezas imensas do inconsciente. Ele dá forma e traduz na linguagem de seu tempo as intuições primordiais e, assim fazendo, torna acessíveis a todos as fontes profundas da vida”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-me-ofereceu-um-mapa-para-a-psique-onde-pude-entender-que-cada-imagem-cada-simbolo-cada-criacao-artistica-e-expressao-do-inconsciente-buscando-se-manifestar" style="font-size:19px">Jung me ofereceu um mapa para a psique, onde pude entender que cada imagem, cada símbolo, cada criação artística é expressão do inconsciente buscando se manifestar.</h2>



<p style="font-size:19px">As dores não elaboradas, emergem em busca de reconhecimento. E, foi através da Arteterapia que essas imagens ganharam corpo: em mandalas, colagens, esculturas, máscaras e sonhos, emergiram minhas personas, minhas sombras e, principalmente, meus potenciais esquecidos.</p>



<p style="font-size:19px">Neste ponto, a Arteterapia entrou em minha vida como um reencontro de almas, um despertar. Um despertar que trouxe à luz a criança silenciada, a mulher criativa e a filha esquecida. As imagens emergentes me conduziram, passo a passo, ao centro de mim mesma. Vivenciei cada encontro como uma oferenda simbólica, onde os materiais — argila, tinta, tecido, papel, lápis e o meu próprio corpo — ganharam vida e se tornaram linguagem da alma.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Duchastel</strong>, com sua profunda escuta simbólica, diz que “<em>Na terapia, toda intervenção colocada a serviço de uma ideia gera ideias originais; toda interpretação de uma imagem cria imagens. Assim, o processo de cura é perseguido sem cessar</em>.” (DUCHASTEL, 2010, p. 117)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-iii-a-bola-de-cristal-simbolo-de-integracao" style="font-size:19px"><strong>III. A bola de cristal: símbolo de integração</strong></h2>



<p style="font-size:19px">E como falar de imagem sem citar Nise da Silveira, a mestra brasileira que deu forma ao invisível. Ao trabalhar com pacientes psiquiátricos no Hospital Pedro II, através da sua sensibilidade, percebeu que o que a sociedade chamava de &#8220;loucura&#8221; era, muitas vezes, a linguagem simbólica da alma. Ela dizia que “As imagens não são apenas representações de sentimentos, mas manifestações do próprio inconsciente se expressando por símbolos.” (SILVEIRA, 1981)</p>



<p style="font-size:19px">No meu processo de formação, essa compreensão foi essencial. Ao criar imagens que vinham de dentro, comecei a ver que eu também carregava mundos internos inteiros: mandalas, casas, feridas, mães, meninas e anciãs. Parecia que a imagem não era apenas uma imagem e sim um pedaço de mim, um dentro do outro que desabrochava &nbsp;&nbsp;e aparecia.</p>



<p style="font-size:19px">Na última aula da formação, vivi uma experiência simbólica inesquecível. Durante um exercício profundo de imaginação ativa, reencontrei meu Mestre interior — uma figura arquetípica que sempre me acompanhou nos momentos decisivos. Parecia Merlin, com seu olhar amoroso e sua bola de cristal nas mãos.</p>



<p style="font-size:19px">Naquela esfera luminosa, vi surgir imagens da minha trajetória: desde a menina rejeitada até a mulher que hoje escreve este relato. Vi meus rostos de infância, juventude e maturidade emergirem e se fundirem num mesmo centro — um mosaico de mim mesma, costurado por vivências, dores, conquistas e resiliência.</p>



<p style="font-size:19px">Rimos, nos olhamos com ternura e, ao final, ele me disse:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-agora-ela-e-sua-siga-seu-caminho" style="font-size:19px">— Agora ela é sua. Siga seu caminho.</h2>



<p style="font-size:19px">Colocou a bola de cristal em minhas mãos e eu chorei. Chorei porque naquele gesto entendi que o mestre já não estava fora e sim dentro de mim. E esse símbolo, a esfera translúcida, passou a representar minha intuição, minha escuta sensível e meu dom criativo.</p>



<p style="font-size:19px">A entrega da bola de cristal simbolizou um retorno, parecia que estava retornando ao centro de mim mesma e renascendo, as lagrimas escorriam pela face. Não era mais o Mestre quem me mostrava os caminhos — ele me devolveu a responsabilidade e a liberdade de trilhar o meu. Agora sou eu quem carrego a bola da intuição, da visão e da criação.</p>



<p style="font-size:19px">E essas lágrimas são de reconhecimento, de libertação, de amor-próprio. Aquela menina rejeitada, silenciada, agora era vista, acolhida e conduzida por sua própria força interior.</p>



<p style="font-size:19px">Jung descreve o processo de individuação como o retorno ao Self — centro organizador da psique —, quando o ego se curva diante da totalidade interior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-iv-a-arteterapia-como-caminho-de-individuacao" style="font-size:19px"><strong>IV. A Arteterapia como caminho de individuação</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Esse processo, vivido profundamente na formação, é o que Jung chamou de caminho de individuação: um movimento de integração das polaridades internas, do ego com o self, da persona com o ego e do ego com a sombra. Cada produção artística foi uma ponte entre o consciente e o inconsciente, entre o passado e o presente, entre a dor e a cura.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px">“<em>Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por “individualidade” entendermos a nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si mesmo.” (JUNG,1987, p.49)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Nise nos lembra que “O arteterapeuta não é um artista, mas sim um testemunho do Sagrado que emerge da alma do cliente.” E o mais Sagrado de todos esses testemunhos é quando esse papel se volta para nós mesmos. Quando nos tornamos testemunhas da nossa própria travessia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-arte-e-a-expressao-do-ser-humano-e-a-expressao-do-que-ele-e-do-que-ele-sente-do-que-ele-pensa-silveira-1992" style="font-size:19px"><em>“A arte é a expressão do ser humano, é a expressão do que ele é, do que ele sente, do que ele pensa.” (SILVEIRA, 1992)</em></h2>



<p style="font-size:19px">A arte, nesse sentido, não cura por si só, mas nos permite acessar partes de nós que estavam adormecidas. E ao dar forma à dor, podemos ressignificá-la. Como Jung bem expressou: “aquilo que não enfrentamos em nós mesmos, encontraremos como destino” (JUNG, 1976, p. 169). A Arteterapia nos convida a enfrentar, elaborar e integrar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-v-o-retorno-do-feminino-criador" style="font-size:19px"><strong>V- O retorno do feminino criador</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Hoje, sinto que retornei ao centro. Carrego comigo a bola de cristal — metáfora do olhar simbólico, da escuta sensível, da criatividade que transcende a técnica. A menina rejeitada se tornou mulher criativa. A dor deu lugar à potência. E o Mestre, em seu gesto silencioso de despedida, não desapareceu: ele mora agora dentro de mim.</p>



<p style="font-size:19px">Nise nos diz que “<strong><em>Para navegar contra a corrente são necessárias condições raras: espírito de aventura, coragem, perseverança e paixão</em></strong>.”(SILVEIRA, 1990)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-formacao-em-arteterapia-nao-foi-um-curso-foi-um-rito-de-passagem-um-renascimento" style="font-size:19px">A formação em Arteterapia não foi um curso, foi um rito de passagem, um renascimento. </h2>



<p style="font-size:19px">Afinal, segundo minha analista Simone Magaldi: “<em>Fazer análise é para os fortes.</em>” E que alegria é poder dizer isso ao final dessa jornada.</p>



<p style="font-size:19px">Que outras mulheres, filhas, mães, meninas e mestras possam encontrar também seu caminho através da arte, da alma e do amor.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Hoje sigo com minha bola de cristal simbólica nas mãos</strong>. Sigo com Jung, Nise, Von Franz e tantos outros como guias internos. Mas, sobretudo, sigo comigo mesma e entendo que a verdadeira cura não está em apagar as cicatrizes, mas em honrá-las como parte da nossa história.</p>



<p style="font-size:19px"><em><strong>“Portanto, não se chega à claridade pela representação da luz, mas tornando consciente aquilo que é obscuro.” (JUNG, 2013, p.280)</strong></em></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: O Encontro com o Mestre Uma jornada de transforma" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/cNh96MLMTt4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/elaine-cristina-bedin/">Elaine Bedin dos Reis – Analista em formação do IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas" style="font-size:18px"><strong>Referências Bibliográficas</strong>:</h2>



<p>DUCHASTEL, Alexandra<em>. O caminho do imaginário.</em> São Paulo: Paulus, 2010.</p>



<p>JUNG, C. G. <em>Estudos Alquímicos.</em> Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p>JUNG, C. G. <em>Psicologia do Inconsciente.</em> Petrópolis: Vozes, 2014</p>



<p>JUNG, C. G. <em>O Eu e o Inconsciente.</em> Petrópolis: Vozes, 1987.</p>



<p>JUNG, C. G. <em>Memórias, Sonhos, Reflexões</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1976.</p>



<p>SILVEIRA, Nise da. <em>Imagens do Inconsciente</em>. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981.</p>



<p>SILVEIRA, Nise da. <em>Cartas a Spinoza</em>. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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		<title>I.A. &#8211; INTELIGÊNCIA ARTÍSTICA</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/ia-inteligencia-artistica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Denise Largman]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Feb 2026 19:09:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[blog ijep]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O texto contrapõe a Inteligência Artificial à Inteligência Artística, destacando a criatividade e a consciência reflexiva como atributos exclusivamente humanos. À luz de Jung, defende que a IA deve ser ferramenta e não substituta da alma e do sentido. Preâmbulo A ideia da provocação do acrônimo de I.A. para esse artigo surgiu por uma [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O texto contrapõe a Inteligência Artificial à Inteligência Artística, destacando a criatividade e a consciência reflexiva como atributos exclusivamente humanos. À luz de Jung, defende que a IA deve ser ferramenta e não substituta da alma e do sentido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-preambulo" style="font-size:19px">Preâmbulo</h2>



<p id="h-a-ideia-da-provocacao-do-acronimo-de-i-a-para-esse-artigo-surgiu-por-uma-confusao-num-dialogo-com-o-meu-filho-pelo-whatsapp" style="font-size:19px">A ideia da provocação do acrônimo de I.A. para esse artigo surgiu por uma confusão num diálogo com o meu filho pelo whatsapp. Ele me enviou uma foto de uma peça de marcenaria que tinha acabado de fazer e lhe perguntei como conseguiu fazê-la? A resposta foi “<strong>Inteligência Artística</strong>”. Imediatamente li “<strong>Inteligência Artificial</strong>”. Obviamente a confusão gerou risadas, mas também uma reflexão. Ele se referia a sua capacidade criativa de resolver problemas. Uma capacidade dele, que desenvolveu, porque tem os atributos humanos para fazê-lo. Assim, faço uma digressão à Inteligência Artificial, uma vez que o acrônimo só existe porque estamos mergulhados na consciência coletiva dessa temática, muitos com medos reais de perderem seus empregos, ou sem saberem qual será o rumo da humanidade nesse novo mundo que se descortinou nos últimos anos.</p>



<p style="font-size:19px">Então, voltando ao tema da Inteligência Artística, tento mostrar que nossas capacidades são complexas e muito maiores do que os algoritmos de uma suposta inteligência. Porém, precisamos despertar para as nossas capacitações e exercer a nossa verdadeira humanidade no planeta.  Entendermos que não temos a capacidade de fazer cálculos e memorizar coisas como a Inteligência Artificial, mas somos pessoas capazes de criar, de amar, de rir, de chorar, o que nos proporciona leveza e plenitude. Mais do que nunca precisamos perceber nossa diferença, desenvolvê-la. É um momento de grande oportunidade para nos tornarmos, enfim, Humanos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-somos-diferentes" style="font-size:19px"><strong>SOMOS DIFERENTES!</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Sinto um aperto no peito quando ouço uma música. Também o sinto quando vejo nos olhos de outra pessoa a sua dor. São emoções! Um dia desses, em conversa pelo whatsapp com meu filho, marceneiro e extremamente criativo, vejo a foto de uma peça que havia acabado de confeccionar e pergunto, admirada, como conseguiu fazê-lo? A resposta foi: “Inteligência Artística”. Foi hilário, porque imediatamente li “Inteligência Artificial”! Demorou pelo menos mais algumas trocas de diálogo para eu entender o que ele estava comunicando: uma I.A., mas completamente humana!</p>



<p style="font-size:19px">Dentro desse contexto, <strong>como podemos avaliar a nossa posição, como humanos, perante a Inteligência Artificial</strong>? Como podemos comparar tantas emoções que vêm da alma com o poder algorítmico de uma máquina? Será a inteligência artificial capaz de, sequer, chegar próximo a qualquer uma das emoções humanas? Então estamos com medo. O criador com medo da criatura. Numa reflexão sobre a nossa inteligência artística, acredito ser ela a única capaz de nos salvar da idiotização completa que vem nos proporcionando a inteligência artificial.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-afinal-o-que-e-uma-inteligencia-artificial" style="font-size:19px"><strong>AFINAL, O QUE É UMA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL?</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Segundo <strong>Miguel Nicolelis</strong>, neurocientista, a IA não é nem inteligência e nem artificial. Não poderia ser chamado de inteligência, uma vez que, por definição, esta é uma propriedade dos organismos. É o que surge quando os organismos entram em contato com outros organismos e com o ambiente. É uma propriedade da matéria orgânica. Existem milhões de seres humanos para sustentar, na base, a inteligência artificial, portanto ela não tem autonomia. Esse nome foi criado por John Mc Carthy na década de 50 para conseguir dinheiro do Pentágono e desenvolver toda essa ciência. Ele já tinha um nome, <strong>Sistemas Estatísticos Automáticos</strong>, mas esse nome não chamava a atenção para o investimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-nicolelis-as-promessas-da-substituicao-do-cerebro-humano-sempre-foram-muito-mais-de-marketing-do-que-de-realidade-cf-nicolelis-2023" style="font-size:19px">Para Nicolelis, as promessas da substituição do cérebro humano sempre foram muito mais de marketing do que de realidade (Cf. NICOLELIS, 2023)</h2>



<p style="font-size:19px">No entanto, está ocorrendo perda das aptidões cognitivas com esta última onda da Inteligência Artificial. Ela já faz parte da nossa rotina, trazendo consequências sérias. Estudos têm mostrado que, pela primeira vez desde que se tem registro de testes de Q.I., a nova geração está apresentando o quociente de inteligência menor do que o da geração de seus pais. Crianças e adolescentes têm utilizado a tecnologia para recreação, com pouquíssimo uso enriquecedor ou reflexivo e muito tem se falado de uma catástrofe iminente, de um emburrecimento sem volta. (Cf. SANTANA, 2023, p.14,15).</p>



<p style="font-size:19px">Na realidade a I.A. veio para facilitar nossas vidas, mas, é claro, acabou tornando-se uma muleta. Grande parte das pessoas acabam seguindo a vida sem nenhuma consciência reflexiva, na luta diária pela sobrevivência, sem estímulo à criatividade.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>A luta pela sobrevivência e a falta de uma educação que estimule o pensamento crítico prendem grande parte da humanidade em uma rotina de reatividade (&#8230;) a verdadeira liberdade nasce do autoconhecimento e da auto aceitação. Despertar a consciência reflexiva é o caminho para a liberdade genuína (MAGALDI FILHO, 2025).</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entendendo-a-diferenca-que-nos-torna-humanos" style="font-size:19px"><strong>ENTENDENDO A DIFERENÇA QUE NOS TORNA HUMANOS</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Nós, humanos, desenvolvemos a consciência a apenas alguns milhares de anos. A consciência se caracteriza por um estado de extrema sensibilidade, controle de nossas vontades, por ações orientadas e racionais (Cf. JUNG, 2013b, p.65). Toda essa evolução aconteceu devido a força de nossa energia psíquica, que impulsiona nossos desejos, vontades, nossa atenção, afetos, enfim, todos os fenômenos dinâmicos da alma (Cf. JUNG, 2013a, p.25).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-humanidade-chegou-a-este-momento-devido-apenas-a-sua-capacidade" style="font-size:19px">A humanidade chegou a este momento devido apenas a sua capacidade:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px">“<em>As grandes inovações jamais vêm de cima, sempre de baixo, como as árvores que não nascem do céu mas germinam do solo, ainda que suas sementes tenham caído do alto</em>” (JUNG, 2013c, p.97).</p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Pessoas foram capazes de criar, germinaram ideias através, primeiro, de seus sonhos. Possibilidades infinitas que são apenas nossas!</p>



<p style="font-size:19px"><em>“(&#8230;) nos seres humanos, existe a possibilidade de despertar a consciência reflexiva, uma capacidade que nos permite sustentar e conviver com a dúvida, simbolizando e ressignificando as intercorrências existenciais.” (MAGALDI FILHO, 2025)</em></p>



<p style="font-size:19px">O nosso cérebro é extremamente complexo, mais complexo do que o Universo cósmico, com conexões entre todas as suas áreas, adaptado a todas as situações, atuando de forma democrática. São cerca de 100 bilhões de neurônios, uma floresta cerebral, em uma dinâmica harmônica (Cf. LENT, 2001, p.14,15).</p>



<p style="font-size:19px">Explicando nossa psique, Jung (Cf. 2013b, p.60) fala dos cinco instintos básicos: fome, sexualidade, ação, reflexão e criatividade, colocando-os como forças motivadoras dos processos psíquicos. A sua assimilação é a psiquificação desse instinto como fenômeno psíquico. A sexualidade, por exemplo, é um instinto de conservação da espécie, mas as restrições sociais e de natureza moral fizeram com que este instinto se modificasse, sendo associado a diversos sentimentos e emoções, ou seja, psiquificou-se.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-instinto-de-reflexao-esta-associado-ao-estado-consciente-da-mente" style="font-size:19px">O instinto de reflexão está associado ao estado consciente da mente.</h2>



<p style="font-size:19px">Um estímulo qualquer, interno ou externo, pode ser interrompido da corrente instintiva e psiquificado. Assim, “<em>devido a interferência da reflexão, os processos psíquicos exercem uma atração sobre o impulso de agir, produzido pelo estímulo</em>” (JUNG, 2013b, p.63). Com isso, um instinto inconsciente é substituído pela reflexão, tornando-se consciente e então perdendo a força reacional e impulsiva.</p>



<p style="font-size:19px"><em>O instinto de reflexão talvez constitua a nota característica e a riqueza da psique humana (&#8230;) e tem lugar sob diferentes formas: ora diretamente, como expressão verbal, ora como expressão do pensamento abstrato, como representação dramática ou como comportamento ético, ou ainda como feito científico ou como obra de arte. (JUNG, 2013b, p.63)</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outra-caracteristica-humana-e-o-instinto-de-criatividade" style="font-size:19px">Outra característica humana é o instinto de criatividade.</h2>



<p style="font-size:19px">Jung colocou-o na ordem dos instintos por sua natureza assim se assemelhar, porém sem ter nenhuma relação com os outros instintos (fome, sexualidade, ação, reflexão). A criatividade pode “<em>reprimir todos estes instintos e colocá-los a seu serviço até à autodestruição do indivíduo. A criação é, ao mesmo tempo, destruição e construção</em>”. (JUNG, 2013b, p.64)</p>



<p id="h-mesmo-sabendo-de-todo-nosso-diferencial-nossa-capacidade-reflexiva-nossa-criatividade-pessoas-estao-com-medo-vivemos-tempos-dificeis-pessoas-estao-anestesiadas-mergulhadas-num-mundo-do-embotamento-cerebral-da-idiotizacao-em-atividades-profissionais-que-estimulam-apenas-o-automatismo-sem-nenhuma-alegria-genuina-de-ver-sua-criatividade-estimulada-pessoas-se-sentem-diminuidas-perante-a-inteligencia-artificial-com-medo-de-serem-substituidas-com-muita-facilidade-nos-seus-empregos-no-seu-ganha-pao" style="font-size:19px"><strong>Mesmo sabendo de todo nosso diferencial, nossa capacidade reflexiva, nossa criatividade, pessoas estão com medo</strong>. Vivemos tempos difíceis. Pessoas estão anestesiadas, mergulhadas num mundo do embotamento cerebral, da idiotização, em atividades profissionais que estimulam apenas o automatismo, sem nenhuma alegria genuína de ver sua criatividade estimulada. Pessoas se sentem diminuídas perante a Inteligência Artificial, com medo de serem substituídas com muita facilidade nos seus empregos, no seu ganha pão.</p>



<p style="font-size:19px">Em 1924 Jung foi questionado sobre o problema psíquico do homem moderno e já apontava os mesmos problemas que vivemos hoje, a insegurança que caminha paralelamente ao mundo tecnológico, distante da alma:</p>



<p style="font-size:19px"><em>(&#8230;) a ciência, a técnica e a organização podem ser uma bênção, mas sabe também que podem ser catastróficas. (&#8230;) Considerando todos os aspectos, acho que não estou exagerando se comparar a consciência moderna com a psique de um homem que, tendo sofrido um abalo fatal, caiu em profunda insegurança. (JUNG, 2013c, p.87)</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-miguel-nicolelis-nao-deveriamos-estar-com-medo" style="font-size:19px">Segundo <strong>Miguel Nicolelis</strong>, não deveríamos estar com medo.</h2>



<p style="font-size:19px">Como explicado acima, a Inteligência Artificial depende completamente do ser humano para poder existir. O pai da I.A., Alan Turing, na década de 50, falava que os vastos problemas que existem no mundo natural não são computáveis, que para resolvê-los é necessário chamar um oráculo, ou seja, o ser humano. Os grandes cientistas da Inteligência Artificial têm certeza absoluta que ela não vai substituir o ser humano.</p>



<p style="font-size:19px">Porém, algo novo está acontecendo, que é a influência de uma consciência coletiva que vem aprendendo a se comportar como o digital, de forma binária, preto e branco, sem as várias nuances dos cinzas. Estamos assistindo a polarização. Hoje vivemos em bolhas sociais, recebendo informações provenientes de algoritmos binários, apenas o preto ou o branco.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-que-isto-tem-a-ver-com-o-nosso-medo-estamos-perdendo-a-fluidez-emocional" style="font-size:19px">E o que isto tem a ver com o nosso medo? Estamos perdendo a fluidez emocional.</h2>



<p style="font-size:19px">Zumbis digitais, que não se importam com nada além de sua satisfação pessoal imediata, completamente mergulhados no que as redes sociais daquele grupo acreditam, sem reflexão, sem criação, na crença de que tudo que aquela suposta “Inteligência Artificial” está nos entregando é a verdade absoluta. O cérebro é como um camaleão, vai se automodelando conforme aquilo que recebe de estímulo. Ele evoluiu para otimizar as nossas chances de sobreviver e se utiliza da estatística da recompensa para calcular qual caminho seguir. E hoje a recompensa são as migalhas dos “joinhas” recebidos no Instagram, ou ganhar no jogo de videogame. Estamos interagindo com telas antes até de falar e retraindo o cérebro de certas habilidades básicas por falta de uso.</p>



<p style="font-size:19px">Todavia, segundo Nicolelis, há uma indústria por trás disso com interesse econômico gigantesco para propagar a falácia de que estamos ficando obsoletos. &nbsp;Passou-se a acreditar que as nossas criações superaram a nossa capacidade. Milhões de pessoas estão sem condições cognitivas de escolher e esta é a grande jogada desse sistema.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-novos-caminhos-se-descortinam" style="font-size:19px"><strong>NOVOS CAMINHOS SE DESCORTINAM</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Parece que, finalmente, chegou o momento de entendermos o que nos faz diferentes. Há tempos vimos que uma simples calculadora faz contas absurdas em um milésimo de segundo. Também já entendemos que o Google responde quase a qualquer pergunta que lhe fazemos. E nós? Será que a nossa capacidade se resumiria a apenas saber fazer cálculos absurdos ou a ter uma memória fantástica?</p>



<p style="font-size:19px">Não, absolutamente! A capacidade de reflexão e criação é nossa, humanos. Percebemos a nossa diferença de qualquer ser desse planeta quando vemos algo sendo criado vindo da nossa capacidade de imaginação, como o que meu filho fez em sua marcenaria. Sem nenhuma ferramenta especial, algo se faz, adequadamente colocado como o acrônimo de Inteligência Artificial: Inteligência Artística.</p>



<p style="font-size:19px">É uma nova jornada que se descortina. A inteligência artificial está realmente tomando muitos lugares que antes eram ocupados apenas por humanos. Mas já vimos isso acontecer antes na história, como os empregos maçantes em lavouras que hoje são substituídos por tratores, ou qualquer outra função que foi muito bem substituída por máquinas, desde a revolução industrial. Desde esse tempo temos ficado livres de trabalhos pesados. Assim, livres do peso dos trabalhos robóticos, enfadonhos, que comem o nosso precioso tempo, podemos, enfim, sermos seres humanos, desenvolvendo a nossa capacidade reflexiva e criativa.</p>



<p style="font-size:19px">Sim, é um caminho, mas não é uma trajetória passiva, tranquila. Há um trabalho a ser feito, exigente de uma psique ativa, que não se deixa levar pela inércia enfadonha que a tranquilidade do uso da Inteligência Artificial parece proporcionar, energia psíquica que se coloca num movimento contrário à entropia, presente em todos os fenômenos da alma, como nossos instintos, vontades, nossos afetos, atitudes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-formacao-de-uma-nova-atitude-diferente-dessa-passividade-precisa-necessariamente-acontecer-atraves-da-forca-de-designio-dessa-alma" style="font-size:19px">A formação de uma nova atitude, diferente dessa passividade, precisa necessariamente acontecer através da força de desígnio dessa alma:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Os mais graves conflitos, quando superados, deixam uma segurança e tranquilidade difícil de perturbar ou então uma ruptura, quase impossível de curar, e vice-versa: são justamente as maiores oposições e sua conflagração que vão produzir resultados valiosos e estáveis. (JUNG, 2013a, p.37)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Estamos assistindo ao mundo mudar. Grandes dificuldades estão surgindo. Estamos vivendo novos paradigmas, um pouco perdidos, tentando descobrir qual o nosso lugar nesse mundo contemporâneo. Provavelmente, não veremos o fim da humanidade neste movimento que vem surgindo de diminuição do Q.I. a cada geração. Somos demasiadamente complexos para nos reestruturarmos e nos refazermos.</p>



<p style="font-size:19px">Entramos numa nova era de oportunidades, com mais tempo para usarmos nossa criatividade, para refletirmos, para usarmos toda a nossa capacidade de alma e nos conhecermos na integralidade. Colocando a Inteligência Artificial para trabalhar a nosso favor, teremos mais tempo para desenvolver aquilo que é nosso, somente nosso, a nossa “Inteligência Artística”.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;I.A. - INTELIGÊNCIA ARTÍSTICA&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/aPpuR7M9iZs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/denise-largman/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/denise-largman/">Denise Largman &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/">Lia Romano &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>A energia psíquica</em>. 14 ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p>_______________ <em>A natureza da psique</em>. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p>_______________ <em>Civilização em transição</em>. 6 ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p>LENT, Robert. <em>Cem bilhões de neurônios: conceitos fundamentais da neurociência.</em> São Paulo: Atheneu, 2001.</p>



<p>MAGALDI FILHO, Waldemar. Sem pensamento crítico, “ocupações uberizadas” dão às pessoas ilusão de autonomia. Folha de São Paulo, São Paulo, 30 ago. 2025. Disponivel em: &lt;https:www.folha.uol.com.br&gt;. Acesso em: 08 out. 2025.</p>



<p>MIGUEL NICOLELIS EXPLICA PORQUE A I.A. NEM É INTELIGÊNCIA NEM É ARTIFICIAL. [vídeo], 1:40:46, [s.l.:s.n.], 2023. Youtube Reconversa #21. Disponível em: www.youtube.com/reinaldoazevedo. Acesso em: 11 out. 2025.</p>



<p>SANTANA, Letícia Maria. <em>O uso das telas e sua influência no desenvolvimento da inteligência na área de exatas.</em>2023. 68f. Monografia (graduação em análise e desenvolvimento de sistemas). Faculdade de Tecnologia de Indaiatuba, Indaiatuba, 2023.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



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			</item>
		<item>
		<title>Jung, as Pedras e o Unus Mundus</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/jung-as-pedras-e-o-unus-mundus/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristina Lunardi Munaretti]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Feb 2026 14:16:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
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		<category><![CDATA[Simbolismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto explora a relação entre Jung e as pedras como símbolos de eternidade, transformação e totalidade psíquica. A partir das formações geológicas — ígneas, sedimentares e metamórficas — estabelece-se um paralelo com os processos de mudança internos da psique e com o percurso alquímico que culmina na pedra filosofal. As pedras aparecem na vida, na obra e nos sonhos de Jung como imagens vivas do Self: desde sua infância, passando pelas visões de 1944, pelas experiências do Livro Vermelho e pelo último sonho conhecido. Nas esculturas de Bollingen, Jung deixou gravada na pedra sua compreensão simbólica e alquímica. Em todas essas manifestações, a pedra emerge como expressão de origem, morte e renascimento, e como possível expressão do unus mundus – a unidade fundamental entre matéria, psique e cosmos.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: O texto explora a relação entre Jung e as pedras como símbolos de eternidade, transformação e totalidade psíquica. A partir das formações geológicas — ígneas, sedimentares e metamórficas — estabelece-se um paralelo com os processos de mudança internos da psique e com o percurso alquímico que culmina na pedra filosofal. As pedras aparecem na vida, na obra e nos sonhos de Jung como imagens vivas do Self: desde sua infância, passando pelas visões de 1944, pelas experiências do Livro Vermelho e pelo último sonho conhecido. Nas esculturas de Bollingen, Jung deixou gravada na pedra sua compreensão simbólica e alquímica. Em todas essas manifestações, a pedra emerge como expressão de origem, morte e renascimento, e como possível expressão do <em>unus mundus</em> – a unidade fundamental entre matéria, psique e cosmos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-pedras-sempre-fizeram-parte-do-imaginario-e-da-cultura-das-diferentes-civilizacoes" style="font-size:19px">As pedras sempre fizeram parte do imaginário e da cultura das diferentes civilizações. </h2>



<p style="font-size:19px">Monólitos instalados em pontos específicos do planeta, imensas construções e templos dispostos em formas geométricas enigmáticas, e que ainda suscitam as mais variadas especulações de como foram erguidos, desafiam a engenharia moderna. Feitas a partir de blocos colossais, essas estruturas pertencem não somente ao nosso mundo concreto, como também povoam o mundo onírico.</p>



<p style="font-size:19px">A relação das pedras com <strong>Carl Gustav Jung</strong> aparece em momentos diversos de sua obra: desde quando, ainda criança, imaginava sendo a própria pedra em que estava sentado, até seu último sonho conhecido, com a pedra redonda entre quatro árvores. Sua obra é permeada por citações referentes a este mineral, que se materializam também em sua própria mão: C. G. Jung talhou pedras e nelas deixou gravados símbolos e inscrições em sua torre de Bollingen, como é narrado em sua biografia no livro Memórias, Sonhos e Reflexões.</p>



<p style="font-size:19px">As rochas se formam a partir do núcleo da Terra, composto por magma líquido, que em contato com diferentes condições ambientais de pressão e temperatura, vai formar diferentes tipos rochosos, alguns muito valiosos. Rochas magmáticas (ou ígneas), se solidificam a partir do magma terrestre ou da lava (quando na superfície); rochas sedimentares se formam a partir de erosão e, sendo desgastadas por água, vento ou outros intemperismos, esses sedimentos então se depositam em bacias sedimentares e são compactados pelas camadas superiores. Há ainda um terceiro tipo de rocha, as metamórficas, resultantes da transformação de rochas preexistentes (magmáticas ou sedimentares), que sob condições de alta pressão e temperatura transformam-se em novas rochas como o mármore, por exemplo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-podemos-pensar-a-psique-de-forma-semelhante-sob-diferentes-estimulos-e-pressoes-internos-e-externos-ela-tambem-se-transforma" style="font-size:19px">Podemos pensar a psique de forma semelhante: sob diferentes estímulos e pressões, internos e externos, ela também se transforma.</h2>



<p style="font-size:19px">Por exemplo, dentro da totalidade psíquica, aquela estrutura que conhecemos como ego, pode sustentar-nos adequadamente sendo mais rígido durante certa fase da vida, mas &#8211; cedo ou tarde &#8211; precisa flexibilizar-se e tornar-se estruturante, para suportar os desígnios e exigências do processo vital. Dependendo do momento, nossa psique pode ser como uma rocha ígnea, sedimentar ou &#8211; espera-se &#8211; transformar-se em uma rocha metamórfica, sinal de que algo novo e essencial emergiu do fundo da existência.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>É estranho, se olharmos isso com simplicidade, que na alquimia, o produto final seja algo na ordem da natureza que consideramos em nível muito baixo, uma pedra, cuja qualidade consiste simplesmente em existir. Uma pedra não come nem bebe nem dorme, permanece meramente onde estiver por toda a eternidade. Se lhe damos um pontapé, ela fica onde tiver sido jogada e não se mexe. Mas na alquimia essa coisa desprezada é o símbolo da meta suprema. (VON FRANZ, 1980, p. 146)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-alquimia-o-objetivo-do-artifex-era-concluir-a-opus-magna-tendo-assim-alcancado-a-lapis-philosophorum" style="font-size:19px"><strong>Na alquimia o objetivo do <em>artifex</em> era concluir a <em>opus magna</em>, tendo assim alcançado a <em>lapis philosophorum</em></strong>.</h2>



<p style="font-size:19px">Se a psique, em sua transformação, pode tornar-se simbolicamente uma rocha metamórfica, a tradição alquímica reconheceu na pedra a imagem daquilo que permanece, que resiste e que, ao mesmo tempo, se transforma. Assim, ao se falar da <em>opus magna</em> e da tão buscada pedra filosofal, fala-se também de um símbolo capaz de condensar estabilidade, duração e sentido.</p>



<p style="font-size:19px">Crianças e adultos encantam-se, ainda que de formas diferentes, com a pedra. Quem nunca guardou uma pedrinha no bolso só porquê era bonita ou lembraria um lugar ou momento especial? O fascínio dos adultos pode aparecer de uma forma aparentemente mais aprimorada: pedras consideradas valiosas são expostas em joias e nos mais variados artefatos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-imaginario-e-fertil-e-encontramos-na-obra-e-na-vida-de-c-g-jung-varias-alusoes-a-pedras" style="font-size:19px">O imaginário é fértil, e encontramos na obra e na vida de C. G. Jung várias alusões a pedras:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>(&#8230;) eu estou sentado nesta pedra. Eu, em cima, ela, embaixo. Mas a pedra também poderia dizer “eu” e pensar: “Eu estou aqui, neste declive e ele está sentado em cima de mim” – Surgia então a pergunta: “Sou aquele que está sentado na pedra, ou sou a pedra na qual ele está sentado? (JUNG, 1990, p.32)</em></p>
</blockquote>



<p id="h-nesta-passagem-ele-se-imagina-confundido-quando-ainda-crianca-com-a-propria-nbsp-pedra-sobre-a-qual-estava-sentado" style="font-size:19px">Nesta passagem ele se imagina confundido &#8211; quando ainda criança – com a própria &nbsp;pedra sobre a qual estava sentado. C. G. Jung conta ainda que sempre que se sentia bloqueado “pintava ou esculpia na pedra: tratava-se sempre de um <em>rite d´entrée</em> (rito de entrada) que trazia pensamentos e trabalhos” (JUNG, 1990, p.155). Quando de seu infarto e adoecimento, em 1944, C. G. Jung teve visões, numa das quais está no espaço cósmico e avista “<em>um enorme bloco de pedra, escuro como um meteorito</em>” (JUNG, 1990, p. 253), tendo visto em vida pedras semelhantes no Golfo de Bengala, sendo estas blocos de granito marrom escuro.</p>



<p id="h-nesta-passagem-ele-se-imagina-confundido-quando-ainda-crianca-com-a-propria-nbsp-pedra-sobre-a-qual-estava-sentado" style="font-size:19px">Se pensarmos que se tratava de granito &#8211; uma rocha ígnea formada pelo lento resfriamento do magma nas profundezas da crosta terrestre, o que permite o desenvolvimento de minerais visíveis a olho nu &#8211; podemos imaginar que também somos assim: pequenos fragmentos de materiais diversos que, unidos, formam algo maior; ou talvez sejamos apenas um desses pequenos minerais visíveis, pertencentes à totalidade. No livro em que relata algumas de suas experiências com imaginação ativa – o <strong>Livro Vermelho</strong> – C. G. Jung descreve uma experiência em que avista uma “pedra com brilho vermelho” (JUNG, 2015, p.133) – a qual vê em sua descida ao inferno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-alquimia-o-vermelho-evoca-a-rubedo-fase-alquimica-da-realizacao" style="font-size:19px">Na alquimia, o vermelho evoca a <strong>rubedo</strong>, fase alquímica da realização.</h2>



<p style="font-size:19px">Von Franz (1975, p.184) explica que a rubedo ocorre quando o trabalho do artífice chega ao fim, a retorta é aberta e a pedra filosofal começa a irradiar o efeito de cura cósmica. A pedra que irradiava o vermelho, nas imaginações ativas de C. G. Jung, estava – naquele momento – no inferno.</p>



<p style="font-size:19px">Segundo Abt (2005, p. 90) o vermelho evoca o sangue, a cor dos impulsos biológicos, emoções, sentimentos de amor e ódio, paixão; e também o vermelho do fogo brilhante é associado ao calor, mas um calor destrutivo. Assim, o vermelho pode simbolizar tanto calor, união, renovação, quanto combustão &#8211; &nbsp;o calor que queima &#8211; divisão, destruição. Para os romanos, tanto a deusa do amor, Vênus, como o deus da guerra, Marte, estavam conectados a esta cor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-von-franz-2021-p-222-conjectura-que-a-mesma-pedra-que-c-g-jung-viu-por-ocasiao-do-seu-infarto-aparece-sob-formato-algo-diferente-no-ultimo-sonho-relatado-por-esse-como-um-bloco-negro-de-pedra" style="font-size:19px"><strong>Von Franz (2021, p.222) conjectura que a mesma pedra que C. G. Jung viu por ocasião do seu infarto, aparece sob formato algo diferente no último sonho relatado por esse como um bloco negro de pedra:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Ele via uma grande pedra redonda num lugar alto, uma praça árida, na qual estavam inscritas as seguintes palavras: “E isto será para ti um sinal da Totalidade e da Unidade”. Então ele via, à direita, vários receptáculos numa praça aberta e um quadrângulo de árvores, cujas raízes circundavam a terra e a envolviam. No meio dessas raízes brilhavam fios de ouro. (VON FRANZ, 2021, p.222)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Aqui não nos deteremos em ampliar o significado do sonho, apenas falaremos sobre a pedra. Para começar, pedras da cor preta costumam ser usadas, por quem acredita em seu poder, para proteção.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cunningham-2019-p-38-diz-que" style="font-size:19px">Cunningham (2019, p.38) diz que:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Pedras pretas são receptivas. Representam a terra e a estabilidade, sendo regidas com Saturno, o planeta da restrição. As pedras pretas são simbólicas de autocontrole, resiliência e de poder calmo. Consideradas como pedras protetoras, na maioria das vezes são usadas para “aterrissar” uma pessoa. (&#8230;) Misticamente, preto é a cor do espaço sideral, da ausência de luz.</em></p>
</blockquote>



<p id="h-podemos-pensar-na-ausencia-de-luz-tambem-como-o-apagamento-da-consciencia-experiencia-a-qual-c-g-jung-se-aproximava-porque-sua-vida-estava-chegando-ao-fim" style="font-size:19px">Podemos pensar na ausência de luz também como o apagamento da consciência &#8211; experiência à qual C. G. Jung se aproximava porque sua vida estava chegando ao fim.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-cor-preta-evoca-ainda-a-lembranca-da-fase-alquimica-da-nigredo-que-segundo-jung-2012-p-247-e-um-estagio-inicial-onde-a-prima-materia-pode-ser-transformada" style="font-size:19px">A cor preta evoca ainda a lembrança da fase alquímica da <strong>nigredo</strong>, que segundo Jung (2012, p.247) é um estágio inicial onde a <em>prima materia</em> pode ser transformada.</h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Há uma variedade de pedras na cor preta</strong>: obsidiana, turmalina negra, cianita negra, ônix preta, hematita, dentre outras. Se formos ampliar, por exemplo, o significado da pedra obsidiana, veremos que essa, quanto a sua origem “<em>nada mais é do que lava que esfriou tão rápido que os minerais contidos dentro dela não tiveram tempo de se formar. Trata-se de um tipo de vidro que ocorre naturalmente</em>” (CUNNINGHAM, p.138). É o encontro da lava com o mar. Ainda, “<em>os antigos astecas confeccionam espelhos planos e quadrados desse vidro negro para usar em adivinhação</em>” (CUNNINGHAM, p.138). Hall (p. 198) nos diz que do ponto de vista psicológico a obsidiana “nos ajuda a descobrir quem realmente somos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deixa-nos-cara-a-cara-com-a-nossa-sombra-e-nos-ensina-como-integra-la-e-ainda" style="font-size:19px"><strong>Deixa-nos cara a cara com a nossa sombra e nos ensina como integrá-la”, e ainda:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>&nbsp;(&#8230;) a obsidiana preta nos força a olhar nosso verdadeiro eu, ajudando-nos a mergulhar na nossa mente subconsciente, destacando fatores ocultos e trazendo à tona desequilíbrios e qualidades sombrias, para que sejam liberadas. Ela aumenta as energias negativas de modo que possam ser sentidas e então liberadas.</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Esta descrição das qualidades da obsidiana poderia muito bem definir o abandono da vida concreta e retorno à totalidade. De acordo com Abt (2005, p.104) a cor preta é uma não-cor que aponta para a perda de consciência, morte, caos, medo, depressão, e para o diabo; e, do ponto de vista positivo é da escuridão que vem a nova luz, e por isso também é a cor da ressurreição. É o retorno ao útero ou origem, a preparação para a renovação e a concepção de uma nova vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-a-partir-do-chumbo-escuro-que-os-alquimistas-podem-chegar-ao-ouro" style="font-size:19px"><strong>É a partir do chumbo escuro que os alquimistas podem chegar ao ouro.</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Se, através da luta e do encontro com o inconsciente, uma pessoa sofre por longo tempo, estabelece-se uma espécie de personalidade objetiva; forma-se na pessoa um núcleo que está em paz, calmo e até em meio às maiores tempestades vitais, intensamente vivo, mas sem ação e sem participação no conflito. Essa paz mental sobrevém frequentemente quando as pessoas sofreram por bastante tempo; um dia, algo estala e o rosto adquire uma expressão serena, pois nasceu alguma coisa que permanece no centro, fora ou além do conflito, que não tem o mesmo vigor de antes. (VON-FRANZ, 1980, p. 147)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-trecho-acima-evoca-a-lembranca-da-descricao-da-pedra-filosofal-dos-alquimistas" style="font-size:19px">O trecho acima evoca a lembrança da descrição da pedra filosofal dos alquimistas.</h2>



<p style="font-size:19px">Mesmo em meio a tempestade, manter-se inerte, manter-se igual, manter-se livre da influência das amarras da concretude do mundo. Para os alquimistas, a nigredo (fase alquímica relacionada ao preto) “não era causa para consternação, mas para alegria; ele expressava conjunção com o potencial ilimitável e abundante da mente, no qual podia ser concebido o embrião dourado do self” (OLDS, p.658).</p>



<p style="font-size:19px">Podemos apenas fazer suposições sobre a pedra que C. G. Jung viu em sua flutuação sobre a terra e em seu último sonho relatado, mas sua simbologia é inquestionável. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-comparativamente-ao-breve-periodo-da-vida-humana-a-pedra-torna-se-um-simbolo-de-durabilidade-na-verdade-ela-sugere-o-conceito-e-eternidade-olds-p-106" style="font-size:19px"><strong><em>“Comparativamente ao breve período da vida humana, a pedra torna-se um símbolo de durabilidade; na verdade, ela sugere o conceito e eternidade” (OLDS, p.106).</em></strong></h2>



<p style="font-size:19px">C. G. Jung não somente se imaginou e sonhou com pedras, fez delas seu instrumento e trabalho artístico, deixando gravado na eternidade desses minerais parte de seu legado. Uma das mais conhecidas é a do monumento em uma pedra em formato de cubo, o qual foi feito no ano de 1950. Jung (1990, p.198) havia encomendado pedras, mas uma delas chegou no formato e dimensões não solicitado; seu pedreiro pediu que os barqueiros levassem-na de volta, ao que C. G. Jung proferiu “Não! É a minha pedra, e eu preciso dela”. Tratava-se de um cubo perfeito, com arestas de 50 centímetros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-primeira-frase-que-gravou-na-pedra-do-alquimista-arnaud-de-villeneuve-fora" style="font-size:19px"><strong>A primeira frase que gravou na pedra, do alquimista Arnaud de Villeneuve, fora:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px;line-height:0.2"><em>Eis a pedra, de humilde aparência.</em></p>



<p style="font-size:19px;line-height:0"><em>No que concerne ao valor, pouco vale –</em> </p>



<p style="font-size:19px;line-height:0.3"><em>Desprezam-na os tolos</em></p>



<p style="font-size:19px;line-height:0"><em>E por isso mais a amam os que sabem (JUNG, 1990, p. 199)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px;line-height:1.7">Na face anterior desta mesma pedra, Jung (1990, p.199) observou um entalhe que imaginou ser uma espécie de olho; ali esculpiu um Cabiro, era Telésforo<a href="#_ftn1" id="_ftnref1">[1]</a>, o qual usa um manto com capuz e uma lanterna. Nesta face da pedra inscreveu em grego:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>O tempo é uma criança – brincando como uma criança – sobre um tabuleiro de xadrez – o reino da criança. Eis Telésforo, que vaga pelas regiões sombrias deste cosmo e que brilha qual estrela se erguendo das profundidades. Indica o caminho das portas do sol e do país dos sonhos. (JUNG, 1990, p. 199)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-terceira-face-da-pedra-talhou-mais-uma-frase-tirada-da-alquimia-esta-face-era-voltada-para-o-lago" style="font-size:19px">Na terceira face da pedra talhou mais uma frase tirada da alquimia. Esta face era voltada para o lago:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Sou uma órfã, sozinha; entretanto, podem encontrar-me por toda a parte. Sou uma, mas oposta a mim mesma. Sou ao mesmo tempo “adolescente” e “velha”. Não conheci nem pai nem mãe, pois devem me ter retirado das profundezas como um peixe ou porque caí do céu, mas como uma pedra branca. Vagueio pelas florestas e montanhas, mas estou escondida no mais íntimo do homem. Sou mortal para cada um e no entanto a sucessão dos tempos não me atinge. (JUNG, 1990, p. 199)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Com estas frases, C. G. Jung deixou registrado como era estreita e intensa sua ligação com textos alquímicos, místicos e religiosos. Aqui aparece uma possível representação da pedra filosofal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-ainda-em-outra-pedra-uma-imagem-de-uma-serpente-com-um-peixe-com-a-respectiva-inscricao-em-latim-cuja-traducao-e" style="font-size:19px">Há ainda, em outra pedra, uma imagem de uma serpente com um peixe, com a respectiva inscrição em latim, cuja tradução é:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Por ter devorado um peixe muito grande, a cobra sufocou. Desta forma, ambos pereceram simultaneamente, para testemunhar que a missa (cristã) e o trabalho (alquímico) são a mesma coisa e não a mesma, ou seja, a sua morte é um acontecimento que coincide e corresponde aos meus pensamentos. Em memória deste evento, eu, C.G.J., coloco esta pedra no ano de 1933. (JOHNSON, 2025b)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Na base da torre de Bollingen, há outros desenhos e inscrições talhados, um dos quais o de uma ursa e de uma bola, cuja inscrição é a que segue: <em>The She-bear moves the mass</em><strong>. </strong>(JOHNSON, 2025a). Em livre tradução: a Ursa move a massa (a pedra). A face de mercúrio também está esculpida em uma pedra na base de sua torre em Bollingen (VON FRANZ, 1975, p. 193). Podemos pensar que esses símbolos &#8211; o peixe, a ursa, a serpente, a face mercurial – possivelmente apontam para um movimento de transformação da totalidade psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-a-aparicao-de-simbolos-da-totalidade-von-franz-amplia-nbsp" style="font-size:19px"><strong>Sobre a aparição de símbolos da totalidade, Von Franz amplia: &nbsp;</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Enquanto que na imagem do anthropos, como símbolo do Self, acentua-se a unidade subjacente de todos os seres humanos, no simbolismo dos mandalas e da pedra filosofal acentua-se a unidade de toda a existência cósmica – como um fundamento irrepresentável do mundo. Uma experiência genuína do unus mundus era que sempre esperada no passado como um acontecimento que só ocorreria na hora da morte ou depois da morte. (VON&nbsp; FRANZ, 1975, p.200)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Jung (1990, p.257) nos diz: <em>“(&#8230;) a vida é este fragmento da existência, que se desenrola num sistema universal de três dimensões com essa finalidade específica”</em>. A pedra &#8211; na nossa simplista visão de mundo em que o tempo é uma sucessão cronológica &#8211; é inerte, é inabalável, quase como se não ocorressem transformações; e vista a partir da efemeridade de nossa existência, é passado, presente e futuro.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Jung, as Pedras e o Unus Mundus&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/MtwxgK2wxrM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristina-lunardi-munaretti/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristina-lunardi-munaretti/">Cristina Lunardi Munaretti – Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p>ABT, Theodor. <em>Introduction to Picture Interpretation – According to C.G. Jung.</em> Living Human Heritage Publications: Zurich, 2005.</p>



<p>CUNNINGHAM, Scott. <em>Enciclopédia Cunningham de magia com cristais, gemas e metais.</em> São Paulo: Madras, 2019.</p>



<p>HALL, Judy. <em>A Bíblia dos cristais: o guia definitivo dos cristais.</em> São Paulo: Pensamento, 2008.</p>



<p>JOHNSON, Christiane Brooks. <a href="https://pcooperwhite.wordpress.com/2013/10/25/snake-stone-at-bollingen/">Snake Stone at&nbsp;Bollingen</a>. <em>WordPress.com</em>, 2013. &nbsp;Disponível em <a href="https://pcooperwhite.wordpress.com/2013/10/25/snake-stone-at-bollingen/comment-page-1/">https://pcooperwhite.wordpress.com/2013/10/25/snake-stone-at-bollingen/comment-page-1/</a>.&nbsp; Acesso em: 26 set. 2025a</p>



<p>______The She-Bear Who Keeps the World&nbsp;Rolling.WordPress.com, 2013. Disponível em https://pcooperwhite.wordpress.com/2013/10/25/the-she-bear-who-keeps-the-world-rolling/#:~:text=One%20of%20the%20lesser%20known,of%20Telesphorus%20inside%20the%20tower. Acesso em: 26 set. 2025b</p>



<p>JUNG, C.G. <em>Memórias, Sonhos e Reflexões.</em> 13.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.</p>



<p><em>______Psicologia e Alquimia</em> (OC 12). 6.ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p>______ <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>(OC 9/1). 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p>______<em>O Livro Vermelho: Edição sem ilustrações</em>. 4.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p>O LIVRO DOS SÍMBOLOS – Reflexões Sobre Imagens Arquetípicas. Eslováquia: Taschen, 2012.</p>



<p>VON FRANZ, Marie-Louise. <em>Alquimia – Introdução ao Simbolismo e à Psicologia.</em> São Paulo: Cultrix, 1980.</p>



<p>______<em>C.G. Jung Seu Mito em Nossa Época.</em> São Paulo: Cultrix, 1975.</p>



<p>______<em>Os sonhos e a Morte: Uma visão da Psicologia Analítica sobre os Múltiplos Simbolismos do Estágio Final da Vida.</em> São Paulo: Cultrix, 2021.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a>Telésforo é um deus da mitologia grega (também conhecido por <em>Telésphorus</em>), relacionado à convalescença e recuperação de doenças. Era filho de Asclépio, deus da medicina. Simbolizado por um anão, cuja cabeça estava sempre coberta por um capuz.</p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img decoding="async" width="960" height="540" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-1.png" alt="" class="wp-image-11890" style="width:665px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-1.png 960w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-1-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-1-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-1-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-1-450x253.png 450w" sizes="(max-width: 960px) 100vw, 960px" /></figure>



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			</item>
		<item>
		<title>Depressão e Redes Sociais: Impactos, relações e desafios</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/depressao-e-redes-sociais-impactos-relacoes-e-desafios/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pollyana de Padua]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Feb 2026 13:00:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: As redes sociais ocupam um papel central na vida atual, moldando comportamentos, relações e a percepção de si. Embora favoreçam conexões e acesso a informação, também podem intensificar conflitos internos e contribuir para quadros depressivos. A partir dos conceitos junguianos como persona, sombra, complexos e energia psíquica, o texto discute como o uso das [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: As redes sociais ocupam um papel central na vida atual, moldando comportamentos, relações e a percepção de si. Embora favoreçam conexões e acesso a informação, também podem intensificar conflitos internos e contribuir para quadros depressivos. A partir dos conceitos junguianos como persona, sombra, complexos e energia psíquica, o texto discute como o uso das redes potencializa comparações, favorecendo a unilateralização da atitude consciente e influenciando simbolicamente na construção de uma nova identidade contemporânea. O artigo destaca que as redes sociais distorcem profundamente a construção da personalidade, ampliando a distância entre ego e conteúdos inconscientes. Por fim, o artigo é um convite ao processo de autoconhecimento como via criativa para o resgate do indivíduo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-redes-sociais-tornaram-se-parte-central-da-vida-contemporanea-influenciando-comportamentos-formas-de-interacoes-e-percepcoes-de-si-mesmo" style="font-size:19px">As redes sociais tornaram-se parte central da vida contemporânea, influenciando comportamentos, formas de interações e percepções de si mesmo.</h2>



<p style="font-size:19px">Embasado nessa perspectiva, apesar de benéfica para conexões, informações e aproximações humanas, o risco é significativo para o desenvolvimento ou o agravamento de quadros depressivos.</p>



<p style="font-size:19px">A partir de conceitos como <strong>persona, sombra, complexo, energia psíquica </strong>e<strong> processo de individuação</strong>, podemos discutir como o uso das redes pode intensificar conflitos psíquicos, favorecer comparações e ativar complexos negativos. O artigo também analisa a função simbólica das redes sociais e sua influência na formação de uma nova identidade contemporânea.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-redes-sociais-tem-o-poder-de-transformar-radicalmente-o-modo-como-o-sujeito-constroi-e-apresenta-sua-identidade" style="font-size:19px">As redes sociais têm o poder de transformar radicalmente o modo como o sujeito constrói e apresenta sua identidade.</h2>



<p style="font-size:19px">Esse ambiente intensifica tensões entre persona, determinada aqui como máscara social, e sombra, enquanto aspectos não admitidos de si. Em muitos casos, tais tensões podem favorecer dinâmicas internas que alimentam quadros depressivos, especialmente quando a energia psíquica se fixa em comparações, expectativas idealizadas e buscas compulsivas por validação.</p>



<p style="font-size:19px">A <strong>depressão </strong>constitui uma categoria importante de transtorno psiquiátrico caracterizada como&nbsp; um transtorno do humor. Entretanto, ampliando na perspectiva junguiana, é compreendida como um fenômeno psíquico que pode emergir de influxos da energia psíquica e da dissociação entre consciência e inconsciente. Neste sentido, quando um indivíduo transita pelas redes sociais, encontra um espaço fértil para conflitos internos, intensificando o estado depressivo.</p>



<p style="font-size:19px">O conceito de <strong>persona</strong>, ou máscara social, bem elaborada por Jung, necessária para adaptação do ego, encontra-se nas redes sociais hiperestimulada: filtros, narrativas idealizadas e a autopromoção criam uma imagem que muitas vezes pouco corresponde à personalidade.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo”. (JUNG, 2015, p.47, §246)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Quando o indivíduo se identifica excessivamente com essa <strong>persona digital</strong>, inicia-se uma série de riscos à própria pessoa: perda das emoções autênticas, fortalecimento da comparação com personagens idealizados, imersão em um mundo fantasioso &#8211; criando um abismo entre o self e o ego -. Tais elementos, promovem a unilateralização do ego, gerando uma discrepância dolorosa entre quem se mostra e quem verdadeiramente se é, esbarrando num campo minado e fértil para os estados depressivos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-fenomeno-observavel-no-ambiente-das-redes-sociais-e-o-que-conhecemos-como-sombra" style="font-size:19px">Outro fenômeno observável no ambiente das redes sociais é o que conhecemos como sombra.</h2>



<p style="font-size:19px">Como conteúdos rejeitados pela consciência, a sombra nas redes sociais surge por meio de projeções, manifestando sentimentos como inveja, inferioridade, arrogância, ataques de fúria, ativando complexos ligados ao fracasso, abandono, culpa e perfeccionismo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>A parte inferior da personalidade. Soma de todos os elementos psíquicos pessoais e coletivos que, incompatíveis com a forma de vida conscientemente escolhida, não foram vividos e se unem ao inconsciente, formando uma personalidade parcial, relativamente autônoma, com tendências opostas às do consciente. A sombra se comporta de maneira compensatória em relação à consciência. Sua ação pode ser tanto positiva como negativa. (JUNG, 1986, p. 495)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sendo-assim-a-sombra-enquanto-caracteristicas-excluidas-do-processo-adaptativo-habita-o-que-denominamos-na-psicologia-junguiana-de-inconsciente-pessoal" style="font-size:19px">Sendo assim, a <strong>sombra</strong>, enquanto características excluídas do processo adaptativo habita o que denominamos na psicologia junguiana de inconsciente pessoal.</h2>



<p style="font-size:19px">Nesta camada do inconsciente há outro fenômeno importante para nossa discussão, denominado complexo. Os complexos são formados por núcleos autônomos, inconscientes ou semi-inconscientes, nunca conscientes &#8211; o que perderiam a característica de complexos -, influenciando comportamentos e emoções.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Como é que surge então um complexo autônomo? Por alguma razão uma região até agora inconsciente da psique é ativada; pela reanimação ela se desenvolve e se amplia mediante inclusão de associações afins. Naturalmente a energia necessária para este fim é retirada do consciente [&#8230;]. A intensidade de atividades e interesses conscientes diminui gradativamente, surgindo ou uma apatia [&#8230;] ou um desenvolvimento regressivo das funções conscientes, isto é, uma descida às suas condições infantis e arcaicas, algo como uma degenerescência. As parties inférieures des fonctions, como disse Janet, impõem-se: o instintivo sobre o ético, o ingênuo-infantil sobre o ponderado, o adulto e a inadaptação sobre a adaptação. [&#8230;] O complexo autônomo desenvolve-se usando a energia retirada do comando consciente da personalidade. (JUNG, 2013b, § 123)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">A dependência da aprovação externa, reforçada pelo aumento das ‘’curtidas’’, pelas reações e devolutivas negativas e agressivas, intensifica a ação dos complexos e a perda de autonomia do ego. Aqui mora um monstro escondido no inconsciente, pronto para aparecer e fragilizar o ego, aumentar o sentimento de vazio, retrair a energia psíquica, alimentando os sintomas depressivos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sendo-assim-quando-esses-complexos-sao-ativados-exaustivamente-dentro-do-contexto-do-uso-excessivo-das-redes-sociais-a-energia-psiquica-disponivel-para-o-ego-pode-ser-drenada" style="font-size:19px">Sendo assim, quando esses complexos são ativados exaustivamente dentro do contexto do uso excessivo das redes sociais, a energia psíquica disponível para o ego pode ser drenada.</h2>



<p style="font-size:19px">Em outras palavras, caracteriza-se como transtorno depressivo: perda do interesse ou prazer, humor deprimido na maioria dos dias &#8211; quase todos os dias, no período de duas semanas -, alteração do apetite e do peso, insônia ou hipersonia, alterações cognitivas, fadiga ou perda de energia, sentimentos de inutilidade, evoluindo para pensamentos recorrentes de morte, ideação suicida sem plano ou com plano especifico para então cometer o suicídio (ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA, 2014, p. 161).</p>



<p style="font-size:19px">Esse sofrimento tem um significado importantíssimo para o indivíduo, um convite agridoce à interiorizar-se. Este chamado se apresenta na própria etimologia da palavra, que surge a partir do verbo <em>deprimere</em>, significando &#8220;pressionar para baixo&#8221; ou &#8220;afundar&#8221;.</p>



<p style="font-size:19px">Sendo assim, o indivíduo precisa se reorganizar, se reconhecer como um ser único e capaz, rico em possibilidades, reconhecer seus conteúdos sombrios projetados, rever os complexos que o constituem, e retomar o laço com o si-mesmo (Self).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Como a palavra sugere, numa depressão a pessoa é pressionada para baixo, comprimida, em geral porque uma parte da libido psicológica está embaixo e tem de ser resgatada; a verdadeira energia da vida caiu numa camada mais profunda da personalidade e só pode ser alcançada por meio de uma depressão. Assim, a menos que haja uma psicose latente, as depressões devem ser encorajadas e as pessoas, aconselhadas a entrar nelas e ser deprimidas [&#8230;], se as depressões dizem que a vida nada significa e que nada vale a pena, deve-se aceitar isso e perguntar o que fazer. O que há a fazer é ouvir, mergulhar cada vez mais fundo, até se atingir o nível da energia psicológica em que alguma ideia criativa pode surgir; de repente, no fundo, aparecerá um impulso de vida e de criatividade que havia sido ignorado. (FRANZ, 2022, p. 175)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conclui-se-que-a-depressao-pode-ser-um-chamado-de-alerta-para-se-distanciar-do-virtual-reviver-o-real-o-toque-sentir-o-calor-do-sol" style="font-size:19px">Conclui-se que a depressão pode ser um chamado de alerta para se distanciar do virtual, reviver o real, o toque, sentir o calor do sol.</h2>



<p style="font-size:19px">Uma resposta prática para iniciar o confronto com esta doença é praticar atividades físicas, promovendo a liberação de endorfinas, aumentando a dopamina &#8211; que participa dos circuitos de recompensa e motivação. Neste sentido, estimulando as atividades prazerosas e interações sociais, há o aumento de serotonina, associado a regulação do humor, sono, apetite e da sensação de bem estar. Longe de ser atitudes definitivas, elas são suporte para o ego que precisa ir de encontro com seus conteúdos inconscientes em prol do autoconhecimento.</p>



<p style="font-size:19px">Por fim, não podemos esquecer que na perspectiva junguiana, o confronto com estes sentimentos de angústia e com este vazio precisa ser encarado também de uma forma criativa. Associar a visão da psiquiatria e da psicologia analítica é uma estratégia que pode iluminar este embate. Também é importante não perder de vista o problema do uso abusivo das redes sociais. Como tratamos, seu excesso evidência e corrobora para a impotência do ego diante da identificação com a persona, a projeção da sombra e a invasão de complexos. A depressão não vai desaparecer enquanto não embarcarmos no processo de individuação. É preciso coragem.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Depressão e Redes Sociais: Impactos, relações e desafios" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/uaJ9_lRSC4E?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/pollyana-guilhermino-de-padua/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/pollyana-guilhermino-de-padua/">Pollyana Guilhermino de Pádua &#8211; Membro Analista em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata e Fundadora do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p><br>ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais : DSM-5. 5. ed. Porto Alegre : Artmed, 2014.</p>



<p>FRANZ, Marie-Louise von. <em>Alquimia </em>: uma introdução ao simbolismo e seu significado na psicologia de Carl G. Jung, 2. ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2022.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p>______ <em>O espírito na arte e na ciência.</em> 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p>______ <em>O eu e o inconsciente. </em>27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p>______ <em>O homem e seus símbolos. </em>3. ed. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2016.</p>



<p>______ <em>Memórias, Sonhos, Reflexões</em>&nbsp; 35. ed. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1986.</p>



<p>SADOCK, Benjamin J. <em>Compêndio de psiquiatria</em> : ciência do comportamento e psiquiatria clínica.&nbsp; 11. ed. Porto Alegre : Artmed, 2017.</p>



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		<title>Um diálogo necessário entre a Psicologia Analítica e relatórios de saúde mental da criança e do adolescente</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/um-dialogo-necessario-entre-a-psicologia-analitica-e-relatorios-de-saude-mental-da-crianca-e-do-adolescente/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Danielle Chaves Gomes de Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Jan 2026 17:49:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo busca tangenciar informações de relatórios de saúde mental da criança e do adolescente e a Psicologia Analítica. O objetivo é fazer um recorte na vida psíquica desta etapa da vida e discuti-los como expressão do que se manifesta na alma das crianças e dos adolescentes e que está pedindo olhar, acolhimento, cuidado e escuta.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo: </strong>Este artigo busca tangenciar informações de relatórios de saúde mental da criança e do adolescente e a Psicologia Analítica. O objetivo é fazer um recorte na vida psíquica desta etapa da vida e discuti-los como expressão do que se manifesta na alma das crianças e dos adolescentes e que está pedindo olhar, acolhimento, cuidado e escuta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tenho-grande-interesse-em-aproximar-a-psicologia-analitica-de-outras-areas-do-conhecimento-e-das-questoes-que-marcam-a-contemporaneidade" style="font-size:19px">Tenho grande interesse em aproximar a Psicologia Analítica de outras áreas do conhecimento e das questões que marcam a contemporaneidade.</h2>



<p style="font-size:19px">Acredito que nós, terapeutas junguianos, podemos construir pontes entre a Psicologia Analítica e os fenômenos atuais, ampliando reflexões sobre os desafios do nosso tempo. Esse tangenciamento — seja em artigos como esse, congressos, aulas, diálogos ou sessões de análise — enriquece terapeutas, analisandos, profissionais de outras áreas e o coletivo. Por isso, considero essencial que a Psicologia Analítica dialogue com campos como políticas públicas, epidemiologia, cultura, educação e saúde, pois esses espaços evidenciam, de forma concreta, como a vida psíquica se expressa na sociedade em determinado tempo e espaço.</p>



<p style="font-size:19px">Entre os muitos temas possíveis, escolho aqui a infância e a adolescência. Seguindo a intenção exposta anteriormente, os dados oficiais de saúde mental aparecem como uma fonte valiosa de reflexão, já que há a possibilidade de analisá-los como expressão do que se manifesta na alma das crianças e dos adolescentes e que está pedindo olhar, acolhimento, cuidado e escuta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-antes-de-avancar-e-importante-fazer-algumas-ressalvas" style="font-size:19px">Antes de avançar, é importante fazer algumas ressalvas.</h2>



<p style="font-size:19px">Definir saúde mental não é simples, devido às diversas discussões sobre o tema. Assim, utilizo a definição da Organização Mundial de Saúde (OMS) pela frequência com que aparece na literatura e por ser uma das principais referências deste trabalho. Além disso, embora o foco aqui seja a vida psíquica de crianças e adolescentes, é essencial lembrar que todos somos frutos de um contexto biopsicossocial e espiritual, que deve sempre ser considerado na análise.</p>



<p style="font-size:19px">Para a OMS, a saúde mental está inserida em um contexto biopsicossocial e, portanto, sofre a influência de múltiplos fatores que estão interligados entre si, exercendo cada qual a sua participação no bem-estar mental. Quando há saúde mental, o indivíduo é capaz de lidar com situações estressantes da vida, de aprender, desenvolver suas habilidades, trabalhar, se relacionar e contribuir com sua comunidade. Especificamente em relação às crianças, ela se reflete em distintos aspectos do desenvolvimento, como um senso positivo de identidade, capacidade de organizar pensamentos e emoções, construção de relacionamentos sociais e capacidade de aprendizado &#8211; o que irá impactar, no futuro, na sua participação na sociedade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-oms-lembra-que-a-saude-mental-nao-esta-inserida-em-um-sistema-binario-no-qual-ou-se-tem-saude-mental-ou-nao" style="font-size:19px">A OMS lembra que a saúde mental não está inserida em um sistema binário, no qual ou se tem saúde mental ou não.</h2>



<p style="font-size:19px">Pelo contrário, uma pessoa com algum diagnóstico de transtorno mental pode experienciar períodos de maior bem-estar mental, assim como uma pessoa sem qualquer transtorno pode passar por momentos de baixo nível de bem-estar. Sendo assim, no decorrer da vida, o bem-estar mental oscila na dependência de fatores individuais, familiares e estruturais que, combinados, são determinantes da saúde mental porque podem atuar de forma protetiva ou não (WHO, 2021; WHO, 2022).</p>



<p style="font-size:19px">Em 2022, ano em que a ONU estimou a população mundial em 8 bilhões, a OMS divulgou sua maior revisão sobre saúde mental desde a virada do século, e apontou que cerca de 970 milhões de pessoas viviam com pelo menos um transtorno mental em 2019,&nbsp; aproximadamente 13% da população mundial (WHO, 2022; UNITED NATIONS, 2022).</p>



<p style="font-size:19px">Em relatório mais recente, constatou-se que a prevalência aumentou para 14% em 2021, avançando mais rápido que o crescimento populacional entre 2011 e 2021. Entre as crianças de 5 a 9 anos, 7% viviam com algum transtorno mental; entre adolescentes de 10 a 19 anos, esse número subia para 14%.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alem-disso-um-terco-dos-transtornos-que-aparecem-na-vida-adulta-se-inicia-ate-os-14-anos-metade-ate-os-18-e-quase-dois-tercos-ate-os-25-anos-who-2025" style="font-size:19px">Além disso, um terço dos transtornos que aparecem na vida adulta se inicia até os 14 anos; metade até os 18; e quase dois terços até os 25 anos (WHO, 2025).</h2>



<p style="font-size:19px">A esses dados soma-se o relatório do UNICEF (2021), que reforça o papel decisivo dos determinantes de saúde mental na infância e adolescência. O documento destaca o papel crucial dos determinantes de saúde mental nessa fase do desenvolvimento e mostra como experiências adversas — como abuso, negligência e violência — influenciam de forma significativa o bem-estar psíquico infantil.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Para facilitar a compreensão, o UNICEF organiza esses determinantes em três esferas</strong>: o mundo da criança (ambiente doméstico e cuidados), o mundo ao redor (escola, comunidade, vínculos) e o mundo mais amplo (determinantes sociais).</p>



<p style="font-size:19px">Em relação ao primeiro fator, foco deste artigo, ressalta que o papel dos pais no processo de promoção e apoio ao desenvolvimento físico, emocional, social e intelectual de uma criança é de suma importância para a construção de uma base sólida da saúde mental da criança e do adolescente. Porém, muitos pais precisam de apoio nesta construção em relação à própria saúde mental, com orientações, informações e apoio psicossocial. (UNICEF, 2021).</p>



<p style="font-size:19px">Dentre tantos dados, estudos, considerações e apontamentos, uma informação é comum e de extrema importância: o período da vida compreendido desde a gestação até a puberdade é a etapa da vida na qual o ser humano está mais suscetível à influência dos fatores determinantes de saúde mental.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-por-sua-vez-destaca-que-nesta-fase-se-encontram-as-bases-da-vida-psiquica-como-sera-explicitado-adiante" style="font-size:19px">Jung, por sua vez, destaca que nesta fase se encontram as bases da vida psíquica, como será explicitado adiante.</h2>



<p style="font-size:19px">Considerando que a criança permanece por muitos anos sob a influência dos pais e do ambiente familiar, é de extrema importância ir além dos critérios diagnósticos e, com base na Psicologia Junguiana, compreender como a dinâmica familiar impacta o desenvolvimento psíquico, ajudando a interpretar o que os dados oficiais revelam.&nbsp; Isto não significa que se negue os diagnósticos apresentados.</p>



<p style="font-size:19px">Sobre isso, a psicopatologia, na perspectiva da Psicologia Analítica, tem uma visão importante sobre a forma como se dá a dinâmica da relação consciência e inconsciente, na compreensão da psicogênese do que é dito “doente”, conforme pontua <strong>Salvador</strong>:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O texto Junguiano leva a refletir que algo apareceria como psicopatológico (doente) quando, numa dissociação na psique, se instalasse uma cisão e embate onde o padrão dominante na consciência vivesse como ameaça e lutasse contra os aspectos configurados em complexo de outra forma. (&#8230;) E, quanto mais unilateral e rígida, maior a intensidade do que diverge do dominante.</p><cite>(2022, p. 441)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Desta forma, o Professor <strong>Ajax Salvador</strong> nos traz que aquilo que aparece como ‘doente’, trata-se, na realidade, da dinâmica de um eu rígido, inflexível e unilateral, que não se relaciona com os conteúdos do inconsciente.</p>



<p style="font-size:19px">É essa dinâmica de “luta” contra os conteúdos inconscientes que está como pano de fundo do sofrimento da alma, podendo chegar até mesmo a uma dissociação psíquica, levando a um quadro de psicose. Porém, quando falamos da infância e da adolescência, um olhar para além desta dinâmica deve ser lançado, pois se trata de uma etapa da vida em que a psique ainda está em formação e desenvolvimento e a criança ainda está imersa na vida psíquica dos pais e cuidadores.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neste-sentido-carl-gustav-jung-destaca-que-ha-um-fator-preponderante-em-relacao-aos-outros-que-influencia-a-formacao-e-o-desenvolvimento-da-psique-infantil" style="font-size:19px">Neste sentido, Carl Gustav Jung destaca que há um fator preponderante em relação aos outros que influencia a formação e o desenvolvimento da psique infantil:</h2>



<p style="font-size:19px">Via de regra, o fator que atua psiquicamente de um modo mais intenso sobre a criança é a vida que os pais ou antepassados não viveram (pois se trata de fenômeno psicológico atávico do pecado original). Tal afirmação poderia parecer algo de sumário e artificial sem esta restrição: essa parte da vida a que nos referimos seria aquela que os pais poderiam ter vivido se não a tivesse ocultado mediante subterfúgios mais ou menos gastos. Trata-se, pois, de uma parte da vida que — numa expressão inequívoca — foi abafada talvez com uma mentira piedosa. É isto que abriga os germes mais virulentos. (JUNG, 2013a, p. 52).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-ressalta-ainda-que-os-pais-sao-fontes-primarias-das-neuroses-dos-filhos-e-que-via-de-regra-as-reacoes-mais-fortes-sobre-as-criancas-nao-provem-do-estado-consciente-dos-pais-mas-de-seu-fundo-inconsciente-jung-2013a-p-51-p-84" style="font-size:19px">Jung ressalta ainda que os pais são fontes primárias das neuroses dos filhos e que “<em>(&#8230;) via de regra, as reações mais fortes sobre as crianças não provêm do estado consciente dos pais, mas de seu fundo inconsciente</em>.” (JUNG, 2013a, p. 51, p. 84).</h2>



<p style="font-size:19px">Sendo assim, é importante compreender que não são somente as atitudes conscientes de pais e cuidadores que afetam a vida psíquica da criança. A forma que se relacionam com o inconsciente também afeta, ou seja, aquilo que não é falado, que é negado, reprimido e não confrontado também afeta. Isso ocorre porque o eu da criança está em formação e, portanto, principalmente a criança pequena, vive em um estado de inconsciência sobre si própria, que origina uma indiferenciação em relação ao objeto, de tal maneira que experimenta a mãe e o mundo como sendo si própria. (JUNG, 2013a, p. 50).</p>



<p style="font-size:19px">A consequência é que, devido ao estado de identidade que se estabelece, a criança não sabe diferenciar o que é conteúdo dela e o que é conteúdo de seus pais, e a consequência é que ela vai se tornando depositária das questões deles, tomando como parte de si tudo o que ocorre na vida psíquica de seus pais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-isso-jung-nos-diz-nesse-trecho-que-e-longo-mas-fundamental-para-o-entendimento" style="font-size:19px"><strong>Sobre isso, Jung nos diz nesse trecho que é longo, mas fundamental para o entendimento:</strong></h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Não é a vida honesta e piedosa, não é a inculcação de verdades pedagógicas que exercem influência moldadora sobre o caráter da pessoa em formação; o que tem maior influência é a atitude emocional, pessoal e inconsciente, dos pais e educadores. A desarmonia latente entre os pais, uma preocupação secreta, desejos secretos e reprimidos, tudo isso produz na criança um estado emocional, com sinais perfeitamente reconhecíveis, que devagar, mas segura e inconscientemente vai penetrando na psique dela, levando às mesmas atitudes e, portanto, às mesmas reações aos estímulos do meio ambiente. (&#8230;). Se nós, adultos, mostramo-nos sensíveis a estas influências do meio ambiente, o que dizer então de uma criança cuja psique é mole e moldável como cera! O pai e a mãe gravam o sinete de sua personalidade fundo na psique da criança; e mais fundo quanto mais sensível e impressionável ela for. Tudo é retratado inconscientemente na criança, mesmo coisas das quais nunca se falou.</p><cite>JUNG, 2012, p. 524</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Zweig e Abrams (1994, p.69) ampliam essa ideia ao dizer que&nbsp; “Cada um de nós tem uma herança psicológica que não é menos real que nossa herança biológica. Essa herança inclui um legado de sombra que nos é transmitido e que absorvemos no caldo psíquico do nosso ambiente familiar.” Portanto, estamos falando de uma herança psíquica transgeracional.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-ponto-essencial-da-relacao-parental-e-a-projecao" style="font-size:19px"><strong>Outro ponto essencial da relação parental é a projeção.</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Jacoby (2010, p.28) mostra como a imagem arquetípica da criança é frequentemente projetada sobre o filho quando os pais não buscam sua própria realização. Nestes casos, o desejo de autorrealização é projetado nas crianças e pode trazer consequências significativas em suas vidas porque “ela rouba, até mesmo violenta, o crescente esforço por autonomia da criança em amadurecimento.” (JACOBY, 2010, p.27).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-campo-da-relacao-primal-autores-como-neumann-e-edinger-destacam-que-sera-fundamental-para-o-desenvolvimento-psiquico" style="font-size:19px">No campo da relação primal, autores como Neumann e Edinger destacam que será fundamental para o desenvolvimento psíquico.</h2>



<p style="font-size:19px">É a vivência de segurança adquirida na relação primal que capacita o eu a integrar as possíveis crises que possam transcorrer no percurso do desenvolvimento. Também é esta experiência que capacita a criança a suportar as inibições impostas por um código de conduta ou por valores culturais (NEUMANN, 1995, p. 51). Edinger (2020, p. 29, p.60) pontua que&nbsp; a vivência de segurança e acolhimento nos primeiros anos é decisiva para a formação do eixo eu–Si-mesmo.</p>



<p style="font-size:19px">Quando essa relação é fragilizada — seja por ausência de afeto, violência, rejeição, abandono ou mesmo conflitos familiares intensos — surgem danos psíquicos que podem ressoar por toda a vida, como sentimentos de vazio, desespero, falta de sentido e, em casos extremos, psicoses e risco de suicídio. Aqui, vale lembrar os dados de suicídio na infância e na adolescência apresentados nos relatórios e a reflexão acerca do quanto tais análises podem estar representando a dor da falta do amor, da aceitação e de um ambiente amoroso. Por outro lado, um ambiente excessivamente permissivo também pode gerar inflação do eu, dificultando o contato com limites e frustrações.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-desafio-da-educacao-esta-em-estabelecer-o-equilibrio-entre-os-dois-caminhos" style="font-size:19px">O desafio da educação está em estabelecer o equilíbrio entre os dois caminhos.</h2>



<p style="font-size:19px">É possível perceber, após toda a discussão do tema, que a conclusão dos relatórios de que a maioria dos transtornos mentais se iniciam no início do desenvolvimento é perfeitamente plausível de acordo com a visão junguiana, ao considerar que a psique do adulto é uma consequência da psique que iniciou sua formação na infância. Inclusive, como coloca Jung, tal influência pode conduzir toda a vida da pessoa: “Vemos em cada neurótico como a constelação do meio ambiente infantil influencia não só o caráter da neurose, mas também o destino de vida, até mesmo em pequenos detalhes.” (JUNG, 2012, p. 526).</p>



<p style="font-size:19px">Em resumo, pais e cuidadores exercem grande influência sobre o desenvolvimento psíquico infantojuvenil por diversas vias: herança psicológica transgeracional; formação da sombra; projeções parentais; e prejuízo da formação e desenvolvimento do eixo eu-Si-mesmo &#8211; onde está a influência da relação primal, do tipo de educação e do ambiente. Por isso, quando falamos de saúde mental da criança e do adolescente, não podemos separar essa discussão da saúde mental dos pais e cuidadores e de seu compromisso com o autoconhecimento. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-que-esse-efeito-seja-minimizado-jung-pontua-que" style="font-size:19px">Para que esse efeito seja minimizado, Jung pontua que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A única coisa que pode preservar a criança desses danos desnaturais é a atitude sincera dos pais diante dos problemas da vida.” (JUNG, 2013a, p. 89). Também nos lembra que: “Para o bem de seus filhos, os pais deveriam considerar seu dever jamais esquecer suas próprias dificuldades íntimas. O que não devem fazer é reprimi-las levianamente e talvez fugir de confrontos dolorosos. </p><cite>JUNG, 2013a, p. 140</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">É possível concluir o quanto esta fase da vida é importante e determinante para o bem-estar mental de toda uma vida, não somente na infância. Além disso, fica claro que não é possível separar saúde mental da criança e do adolescente da saúde mental parental.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-resumo-a-compreensao-junguiana-mostra-que-quando-se-fala-de-saude-mental-da-crianca-e-do-adolescente-e-de-suma-importancia" style="font-size:19px"><strong>Em resumo, a compreensão junguiana mostra que quando se fala de saúde mental da criança e do adolescente, é de suma importância:</strong></h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:19px">a valorização do autoconhecimento dos pais;</li>



<li style="font-size:19px">que se incluam intervenções que ajudem pais e cuidadores a reconhecerem suas projeções;</li>



<li style="font-size:19px">que políticas públicas considerem pais e cuidadores, e não apenas as crianças;</li>



<li style="font-size:19px">a compreensão dos sintomas infantis como expressões também de complexos familiares;</li>



<li style="font-size:19px">que considerem a criança como sujeito, mas também como parte de um campo psíquico maior.</li>
</ul>



<p style="font-size:19px">Por fim, ressalto o quanto Jung foi pioneiro: muito antes de haver dados epidemiológicos mundiais, ele já apontava que as bases da vida psíquica se estruturam nos primeiros anos de vida, aquilo que hoje é sustentado por pesquisas globais.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Psicologia Analítica e saúde mental da criança e do adolescente" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/kXYWMnIix98?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/danielle-chaves-gomes-de-oliveira/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/danielle-chaves-gomes-de-oliveira/">Danielle Chaves Gomes de Oliveira – Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/">Maria da Glória Miranda &#8211; Membro Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas"><strong>Referências Bibliográficas:</strong></h2>



<p>EDINGER, E.F. Ego e arquétipo: uma síntese fascinante dos conceitos psicológicos</p>



<p>fundamentais de Jung. 2.ed. São Paulo, Cultrix, 2020.</p>



<p>HILLMAN, J. Estudos de psicologia arquetípica. 1.ed. Rio de Janeiro, Vozes, 1978.</p>



<p>JACOB, M. Psicoterapia Junguiana e a pesquisa contemporânea com crianças. 1.ed. São</p>



<p>Paulo, Paulus, 2010.</p>



<p>JUNG, C.G. Estudos Experimentais, 3. ed., Petrópolis, Vozes, 2012.</p>



<p>JUNG, C.G O desenvolvimento da personalidade. 14. ed. Petrópolis, Vozes, 2013a.</p>



<p>NEUMANN, E. A criança. 10. ed. São Paulo, Cultrix, 1995</p>



<p>SALVADOR, A.P. Psicopatologia na perspectiva junguiana: uma psicopatologia “re-imaginada”.In: MAGALDI, W. (Org.). Fundamentos da psicologia analítica. 1.ed. São Paulo, Eleva Cultural, 2022.</p>



<p>UNICEF. United Nations Children’s Fund, The State of the World’s Children 2021: On My</p>



<p>Mind – Promoting, protecting and caring for children’s mental health, UNICEF, New York:</p>



<p>2021.</p>



<p>UNITED NATIONS. Department of Economic and Social Affairs, Population Division. World Population Prospects 2022: Summary of Results. New York: United Nations; 2022.</p>



<p>WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Comprehensive mental health action plan</p>



<p>2013–2030. Geneva: World Health Organization; 2021.</p>



<p>WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). World mental health report: transforming</p>



<p>mental health for all. Geneva: World Health Organization; 2022.</p>



<p>WORLD HEALTH ORGANIZATION. World mental health today: latest data. Genebra:2025.</p>



<p>ZWEIG, C.; ABRAMS, J. Ao encontro da sombra. 1. ed. São Paulo, Cultrix, 1994.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>O menino Ney: a peleja entre o puer e a sombra em Neymar</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-menino-ney-a-peleja-entre-o-puer-e-a-sombra/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 13 Dec 2025 12:38:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neymar é uma figura controversa: por um lado, com seu "futebol moleque", é criativo, ousado e habilidoso; por outro, um homem infantilizado, inconsequente e sombrio. Ao "homenino", tudo é permitido e concebido. Neymar foi colocado numa espécie de Terra do Nunca e não quer sair de lá. Em terminologia junguiana, Neymar está identificado com Puer aeternus, o arquétipo da criança-divina que, quando na polaridade negativa, a pessoa fica presa nunca espécie de adolescência e se recusa a amadurecer. Neste ensaio, proponho, de forma despretensiosa, um diálogo entre a teoria junguiana e as narrativas midiáticas, em um exercício argumentativo e hipotético, para explorar o arquétipo do puer aeternus, tomando Neymar como referência.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-menino-ney-a-peleja-entre-o-puer-e-a-sombra/">O menino Ney: a peleja entre o puer e a sombra em Neymar</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Neymar é uma figura controversa: por um lado, com seu &#8220;futebol moleque&#8221;, é criativo, ousado e habilidoso; por outro, um homem infantilizado, inconsequente e sombrio. Ao &#8220;homenino&#8221;, tudo é permitido e concebido. Neymar foi colocado numa espécie de Terra do Nunca e não quer sair de lá. Em terminologia junguiana, Neymar está identificado com Puer aeternus, o arquétipo da criança-divina que, quando na polaridade negativa, a pessoa fica presa nunca espécie de adolescência e se recusa a amadurecer. Neste ensaio, proponho, de forma despretensiosa, um diálogo entre a teoria junguiana e as narrativas midiáticas, em um exercício argumentativo e hipotético, para explorar o arquétipo do puer aeternus, tomando Neymar como referência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-percebe-se-que-na-sociedade-contemporanea-em-sua-rica-diversidade-ha-uma-notavel-e-crescente-tendencia-de-rejeitar-o-processo-natural-do-envelhecimento" style="font-size:18px">Percebe-se que na sociedade contemporânea, em sua rica diversidade, há uma notável e crescente tendência de rejeitar o processo natural do envelhecimento.</h2>



<p style="font-size:18px">Uma espécie de sombria pressão social para manter a imagem jovial, levando muitas pessoas a se sentirem compelidas a buscar meios extremos para retardar ou até mesmo reverter sinais de envelhecimento, a manter corpos perfeitos e rostos sem rugas divulgados no narcísico espelho do Instagram. O apego à ideia da perpetuação da juventude não se limita apenas a preocupação estética; também pode refletir um temor do desconhecido, da perda de vitalidade e da inevitável aproximação da morte.</p>



<p style="font-size:18px">A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica estima que em 2023 mais de 2 milhões de procedimentos foram realizados pelos brasileiros<a href="#_ftn1" id="_ftnref1">[1]</a>. Em contrapartida, em 2022 o IBGE apontou aumento da longevidade nos cidadãos do nosso país<a href="#_ftn2" id="_ftnref2">[2]</a>.</p>



<p style="font-size:18px">Estamos imersos num Espírito da Época no qual a juventude é exaltada de forma exacerbada e a velhice é temida. Para Jung, o termo Espírito da Época, ou &#8220;Zeitgeist&#8221; em alemão, refere-se ao conjunto de ideias, valores, crenças, atitudes e comportamentos que predominam em uma determinada época ou cultura. É como um &#8220;clima psicológico&#8221; que molda a forma como as pessoas pensam, sentem e se comportam. O temor e a aversão ao envelhecimento permeiam tanto o inconsciente individual quanto o coletivo na contemporaneidade. Segundo a máxima de que &#8220;o que está fora também está dentro&#8221;, essa apreensão também pode estar profundamente ligada ao arquétipo do <em>puer aeternus</em>, o eterno jovem, pois reflete uma relutância em aceitar o processo natural de maturação e envelhecimento que caracteriza a jornada da vida.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Von-Franz</strong> (1992, p. 9) reflete acerca do <em>puer aeternus</em> como arquétipo do deus criança-divina, “o deus da vida, da morte e da ressurreição — o deus da juventude divina, correspondente aos deuses orientais Tamuz, Átis e Adônis.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-titulo-puer-aeternus-portanto-significa-juventude-eterna" style="font-size:18px">O título puer aeternus, portanto, significa juventude eterna&#8221;.</h2>



<p style="font-size:18px">O <em>puer aeternus</em>, ou &#8220;eterno jovem&#8221;, é um arquétipo que representa uma pessoa que se recusa a amadurecer emocionalmente, preferindo permanecer em um estado de juventude e irresponsabilidade. De forma apressada e bastante resumida, em sua polaridade negativa, os <em>pueri</em> &nbsp;(plural de puer e puella) apresentam relutância em assumir responsabilidades consideradas adultas; buscam continuamente liberdade e aventura; têm a tendência a evitar compromissos duradouros; se recusam em enfrentar as realidades do envelhecimento e da maturidade emocional; buscam (por vezes de forma desesperada) pela preservação da juventude e da vitalidade física; são muito impacientes e volúveis emocionalmente; possuem um <em>donjuanismo</em> e dificuldades em estabelecer vínculos afetivos como característica, e enorme dificuldade de adaptação a rotina.</p>



<p style="font-size:18px">O sociólogo e filósofo <strong>Zygmunt Bauman</strong> (2001, p. 8) reflete que as principais características da modernidade líquida são: &nbsp;desapego, provisoriedade e acelerado processo da individualização, tempo de liberdade e, concomitantemente, de insegurança. Talvez o Espírito da Época esteja tão líquido quanto as relações estabelecidas pelo “espírito <em>puer”</em> que pulsa na contemporaneidade.</p>



<p style="font-size:18px">Os fluidos se movem facilmente. Eles &#8216;fluem&#8217;, &#8216;escorrem&#8217;, &#8216;esvaem-se&#8217;, &#8216;respingam&#8217;, &#8216;transbordam&#8217;, &#8216;vazam&#8217;, &#8216;inundam&#8217;, &#8216;borrifam&#8217;, &#8216;pingam&#8217;, são &#8216;filtrados&#8217;, &#8216;destilados&#8217;; diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos &#8211; contornam certos obstáculos, dissolvem outros e invadem ou inundam seu caminho&#8230; Associamos &#8216;leveza&#8217; ou &#8216;ausência de peso&#8217; à mobilidade e à inconstância: sabemos pela prática que quanto mais leves viajamos, com maior facilidade e rapidez nos movemos (Bauman, 2001, p. 8).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-analise-didatica-trabalharemos-a-figura-publica-e-polemica-de-neymar-jr-o-menino-ney-para-refletir-nao-apenas-o-puer-que-o-habita-mas-a-sombra-projetada-em-seu-estilo-de-vida" style="font-size:18px">Como análise didática, trabalharemos a figura pública e polêmica de Neymar Jr, o “menino Ney”, para refletir não apenas o <em>puer</em> que o habita, mas a sombra projetada em seu estilo de vida.</h2>



<p style="font-size:18px">A intenção é dialogar com a teoria no campo da Psicologia Analítica e das notícias coletadas na mídia, num exercício argumentativo e hipotético, sem nenhuma pretensão de limitar ou fechar o tema.</p>



<p style="font-size:18px">Neymar da Silva Santos Júnior, aos 11 anos de idade, chegou às categorias de base do Santos, de onde não saiu mais até tornar-se profissional. Dotado de grande talento e virtuosismo, à medida que o adolescente crescia sustentava precocemente a família com seu salário, promovendo gradativamente a melhora no padrão de vida parental<a href="#_ftn3" id="_ftnref3">[3]</a>.</p>



<p style="font-size:18px">Com suas jogadas criativas, Neymar possui singular capacidade de driblar em espaços apertados, escapar da marcação de vários jogadores e criar oportunidades de gol para si mesmo e para seus companheiros de equipe. Sua visão antecipa as jogadas e, por vezes, resulta em assistências decisivas. É um jogador extremamente criativo, buscando maneiras de surpreender seus adversários, pois não tem medo de tentar formas ousadas e inventivas em campo. Tudo isso temperado com um “jeito moleque”, conquistou o coração dos torcedores e a atenção dos clubes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-hiper-estimulado-e-protegido-pelos-pais-desejado-e-promovido-pelos-clubes-enaltecido-e-ovacionado-pelos-fas-nao-demorou-muito-para-sua-meteorica-ascensao" style="font-size:18px">Hiper estimulado e protegido pelos pais, desejado e promovido pelos clubes, enaltecido e ovacionado pelos fãs, não demorou muito para sua meteórica ascensão.</h2>



<p style="font-size:18px">Um profissional de alto rendimento como ele requer compromisso e dedicação, mas Neymar driblou as regras e viveu uma vida permeada de festas, romances, escândalos financeiros e sexuais. De certo modo, parte de seus admiradores o isentam de suas responsabilidades quando o tratam por “menino Ney”. Ao menino, tudo é permitido e concedido.</p>



<p style="font-size:18px">Em geral, aquele que se identifica com o arquétipo do <em>puer aeternus</em> “<em>permanece durante muito tempo como adolescente, isto é, todas aquelas características que são normais em um jovem de dezessete ou dezoito anos continuam na vida adulta, juntamente com uma grande dependência da mãe</em>” em boa parte dos casos (VON-FRANZ, 1992, p. 9).</p>



<p style="font-size:18px">Em sua polaridade positiva, os <em>pueri</em> são muito criativos, estimulantes e mantém o charme da juventude. São divertidos, interessantes, agradáveis de conversar desde que sejam conversas superficiais, não gostam de situações convencionais. <strong>Geralmente o charme juvenil do <em>puer aeternus</em> se prolonga até os últimos estágios da vida</strong> (VON-FRANZ, 1992, p. 9).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-e-novidade-que-neymar-tem-um-lado-religioso-e-nao-esconde-de-ninguem" style="font-size:18px">Não é novidade que Neymar tem um lado religioso e não esconde de ninguém.</h2>



<p style="font-size:18px">Evangélico e conservador, suas polêmicas são antigas&#8230; Em 2015 usou faixa na cabeça escrita 100% Jesus ao ganhar a Liga dos Campeões jogando pelo Barcelona durante a comemoração no estádio olímpico de Berlim, após a vitória por 3 a 1 sobre o Juventus. Tal manifestação causou polêmica na França, e os torcedores o acusaram nas redes sociais de proselitismo religioso<a id="_ftnref4" href="#_ftn4">[4]</a>. Outra polêmica foi ostentar um enorme crucifixo ao desembarcar na Arábia Saudita, para se apresentar ao seu time (islâmico) contratante Al Hilal<a id="_ftnref5" href="#_ftn5">[5]</a>. Numa atitude desrespeitosa e arrogante, o <em>puer</em> Neymar percebe-se como alguém especial, e que “não tem necessidade de adaptar-se, pois as pessoas é que têm que adaptar-se a um gênio como ele” (VON FRANZ, 1992, p.10).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-paradoxalmente-o-lado-evangelico-de-neymar-e-facilmente-sublimado-pelas-festas-babilonicas-que-promove-numa-combinacao-de-ostentacao-mulheres-bebidas-e-sabe-se-la-quais-outras-situacoes-dionisiacas-algumas-de-suas-festas-duram-dias-promovidas-de-casas-a-cruzeiros" style="font-size:18px">Paradoxalmente, o lado evangélico de Neymar é facilmente sublimado pelas festas babilônicas que promove. Numa combinação de ostentação, mulheres, bebidas e sabe-se lá quais outras situações dionisíacas, algumas de suas festas duram dias, promovidas de casas à cruzeiros.</h2>



<p style="font-size:18px">Como vimos anteriormente, desde menino, ao revelar sua enorme habilidade, obteve o apoio obsessivo e incondicional do pai, ex-jogador fracassado, que incentivou o jovem a alavancar sua carreira. Neymar Jr vive a vida não vivida de seu pai; este mesmo que, ao projetar sua vida frustrada no filho, o impede de crescer e ser responsável por seus atos.</p>



<p style="font-size:18px">Neymar pai, assume as inconsequências do filho para que os problemas não atrapalhem sua performance dentro de campo. Problemas como sonegação de impostos na Espanha; liberação da acusação de amigos por estupro; atenuar as acusação do filho de traições amorosas; minimizar os flagras das festas quando deveria estar recluso se recuperando de lesões entre outros escândalos. Hiper protegido pelo pai e blindado das consequências de seus atos, o menino Ney é mantido cativo numa espécie de Terra do Nunca pela figura paterna.</p>



<p style="font-size:18px">Não assumir a consequência de seus atos faz com que a sombra emerja, pois, conforme Jung (2013, OC 9/2, §14) “<em>a sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais</em>”. Neste processo de conscientização, é necessário reconhecer os aspectos sombrios da personalidade como eles realmente são. Essa prática é uma base essencial para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, costuma enfrentar resistência significativa.</p>



<p style="font-size:18px">A relação com a mãe é de quase reverência. Seu iate, palco de várias festas, foi batizado de Nadine, em deferência a ela. Em seu Instagram pessoal, Neymar fez uma homenagem no dia das mães se referindo como “minha super heroína”.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="553" height="413" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-4.png" alt="" class="wp-image-11664" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-4.png 553w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-4-300x224.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-4-150x112.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-4-450x336.png 450w" sizes="(max-width: 553px) 100vw, 553px" /></figure>



<p>Fonte: Instagram – acesso em 12 mar. 2023</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-2001-p-98-diz-que-o-aspecto-negativo-do-puer-aeternus-indica-o-si-mesmo-preso-no-inconsciente-e-que-nao-se-realiza-na-pratica-o-desenvolvimento-bloqueado-depende-muitas-vezes-de-uma-ligacao-muito-estreita-do-filho-com-a-mae" style="font-size:18px">Jung (2001, p. 98) diz que o aspecto negativo do <em>puer aeternus</em> indica o “<em>si mesmo preso no inconsciente e que não se realiza na prática. O desenvolvimento bloqueado depende muitas vezes de uma ligação muito estreita do filho com a mãe</em>”.</h2>



<p style="font-size:18px">Por sua vez, a mãe não esconde uma predileção em namorar homens muito mais jovens, atléticos, na mesma faixa etária do filho. Podemos arriscar a pensar em projeção, uma vez que, para Jung (2013, OC 6, §881), projeção significa “<em>transferir para o objeto um processo subjetivo” e que “pertencem à esfera da sombra, isto é, ao lado obscuro da própria personalidade</em>” (JUNG, 2013, OC 9/2, §19).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-idealizacao-da-mae-pelo-filho-ocorre-devido-a-uma-serie-de-razoes-que-pode-incluir-a-tentativa-de-preenchimento-do-vazio-emocional-na-busca-por-realizacao-pessoal-atraves-do-sucesso-dele" style="font-size:18px">Essa idealização da mãe pelo filho ocorre devido a uma série de razões, que pode incluir a tentativa de preenchimento do vazio emocional na busca por realização pessoal através do sucesso dele.</h2>



<p style="font-size:18px">Neste caso, a mãe pode demonstrar comportamento superprotetor e manipulador em relação ao filho, além de codependência emocional, onde ela inconscientemente espera que o filho atenda suas necessidades; tentativa de controle; dificuldade em aceitar a falibilidade do filho (que, aos olhos dela, é sempre perfeito).</p>



<p style="font-size:18px">Por outro lado, o filho fica inconscientemente estigmatizado na condição de “pequeno príncipe”, infantilizado e fragilizado, e tem a tendência de buscar a mãe projetivamente em suas companheiras. Uma espécie de “donjuanismo” faz com que o filho inconscientemente reproduza as dinâmicas experimentadas com a mãe em seus relacionamentos amorosos, buscando parceiras com características semelhantes a ela. O menino Ney coleciona beldades e pouco se fixa nas relações, numa falta de comprometimento afetivo com as mulheres que se envolve. Num misto de encantamento e tédio, envolve-se amorosamente, mas trai suas companheiras, expondo-as, por vezes, a situações públicas e constrangedoras.</p>



<p style="font-size:18px">Além deste imbróglio familiar que foi levantado de forma tão didática e despretensiosa neste texto, temos os amigos. Neymar é como <strong>Peter Pan</strong> cercado por seus &#8220;parças&#8221;, os amigos inseparáveis que decidiram ter como missão na vida desfrutar do reino do amigo-príncipe. E o acompanham pelo mundo, aplaudindo, incentivando, defendendo e desfrutando de privilégios que nunca teriam, graças à fortuna do menino Ney, sem jamais o contrariar ou o questionar. Os “parças” são uma espécie de meninos perdidos da Terra do Nunca, que veem em Peter Pan seu ídolo, inspiração e chefe.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neymar-e-talentoso-milionario-vive-de-forma-luxuosa-se-relaciona-com-as-mais-lindas-mulheres-com-mais-de-221m-de-seguidores-1-no-instagram-seu-estilo-de-vida-e-cobicado-por-milhares-de-fas" style="font-size:18px"><strong>Neymar é talentoso, milionário, vive de forma luxuosa, se relaciona com as mais lindas mulheres. Com mais de 221M de seguidores<a href="#_ftn1" id="_ftnref1"><strong>[1]</strong></a> no Instagram, seu estilo de vida é cobiçado por milhares de fãs.</strong></h2>



<p style="font-size:18px"><strong>Fica a reflexão que talvez Neymar seja uma espécie de receptáculo da sombra coletiva</strong>, pois, “<em>a sombra coletiva, agregada e institucional sempre contém a sombra não examinada de cada um de nós. Aquilo do qual somos inconscientes, ou não desejamos enfrentar, contribuirá para nossa sombra coletiva e institucional</em>” (HOLLIS, 2010, p. 138).</p>



<p style="font-size:18px">No caso de Neymar, a figura do <em>puer aeternus</em> resplandece com força arquetípica. Ele é o menino eterno, brincante, seduzido pelo instante orgástico, pela leveza irresponsável do agora. Esse puer, ainda que fascinante, provoca inquietação, pois nos lembra tanto o desejo secreto de viver livres das amarras quanto o risco de sermos devorados pela própria recusa em amadurecer. Sua conduta desperta nossas sombras individuais e coletivas, pois revela aquilo que por vezes ocultamos: a nossa dificuldade em sustentar escolhas, limites, consequências, e o desejo de uma sedutora vida permeada de luxos e facilidades.</p>



<p style="font-size:18px">Neymar encarna, assim, uma mensagem ambígua e um tanto sombria: a de que a juventude e a liberdade podem ser buscadas a qualquer custo, mesmo quando o preço é a erosão do compromisso, o adiamento da responsabilidade e a impossibilidade de sustentar um eixo interno mais maduro. Ele nos confronta com o dilema eterno entre o impulso do puer brincante e a exigência transformadora da vida adulta, dilema que, no fundo, pertence menos ao atleta e mais ao inconsciente deste “homenino”.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;O menino Ney: a peleja entre o puer e a sombra em Neymar&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/05CtpCSpQxE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/">Me. Daniela A. Euzebio – Didata em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p>BAUMAN, Zygmunt. Modernidade liquida. Rio de Janeiro: Zahar,</p>



<p>2001</p>



<p>HILLMAN, James. O livro do Puer: ensaios sobre o Arquétipo do Puer Aeternus. São Paulo: Paulus, 1998.</p>



<p>HOLLIS, James. A sombra interior. Por que pessoas boas fazem coisas ruins? São Paulo &#8211; Novo Século, 2010.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Cartas, Volume I. São Paulo: Ed. Vozes, 2001.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 6).</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Aion &#8211; Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 9/2).</p>



<p>VON FRANZ, Marie-Louise. Puer Aeternus: a luta do adulto contra o paraíso da infância. 2ª ed. São Paulo: Paulus,1992.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Acesso em 22 de abril de 2024</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Fonte: <a href="https://www.sbcp-sp.org.br/na-midia/cirurgias-plasticas-devem-somar-2-milhoes-de-procedimentos-em-2023-aponta-pesquisa/">https://www.sbcp-sp.org.br/na-midia/cirurgias-plasticas-devem-somar-2-milhoes-de-procedimentos-em-2023-aponta-pesquisa/</a>. Acesso em 29 jan. 2023.</p>



<p><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> Fonte: <a href="https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/expectativa-de-vida-sobe-de-768-para-77-anos-no-brasil-diz-ibge/">https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/expectativa-de-vida-sobe-de-768-para-77-anos-no-brasil-diz-ibge/</a>. Acesso em 29 jan. 2023.</p>



<p><a href="#_ftnref3" id="_ftn3">[3]</a> Fonte: Wikipedia. Disponiível em: <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Neymar#Biografia">https://pt.wikipedia.org/wiki/Neymar#Biografia</a>. Acessado em: 19 fev. 2024.</p>



<p><a href="#_ftnref4" id="_ftn4">[4]</a> Fonte: Le Figaro. Disponível em <a href="https://www.jusbrasil.com.br/noticias/le-figaro-diz-que-faixa-de-neymar-100-jesus-foi-vista-como-proselitismo-por-torcedores/197437074#:~:text=Campe%C3%A3o%20pela%20primeira%20vez%20da,o%20jornal%20%E2%80%9CLe%20Figaro%E2%80%9D">https://www.jusbrasil.com.br/noticias/le-figaro-diz-que-faixa-de-neymar-100-jesus-foi-vista-como-proselitismo-por-torcedores/197437074#:~:text=Campe%C3%A3o%20pela%20primeira%20vez%20da,o%20jornal%20%E2%80%9CLe%20Figaro%E2%80%9D</a>. Acesso em 22 abr. 2024</p>



<p><a href="#_ftnref5" id="_ftn5">[5]</a> Fonte: Metrópole. Disponível em <a href="https://www.metropoles.com/entretenimento/neymar-chama-atencao-ao-chegar-na-arabia-saudita-com-crucifixo-veja">https://www.metropoles.com/entretenimento/neymar-chama-atencao-ao-chegar-na-arabia-saudita-com-crucifixo-veja</a>. Acesso em 22 abr. 2024.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-menino-ney-a-peleja-entre-o-puer-e-a-sombra/">O menino Ney: a peleja entre o puer e a sombra em Neymar</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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