Resumo: Este artigo explora a temática financeira, onde o dinheiro como um símbolo, espelha dinâmicas inconscientes ligadas ao poder, ao valor e ao merecimento. Com base na Psicologia Analitica, discute-se como crenças profundas podem influenciar o manejo financeiro e explicar porque algumas pessoas vivem maior fluidez econômica, enquanto outras enfrentam tensão ou medo, mesmo com esforços contínuos. O estudo propõe a compreensão do dinheiro como expressão da energia psíquica, convidando a uma relação mais consciente e integrada com a dimensão material da vida.
O dinheiro é uma temática de intensas emoções, pois além de um veículo de troca, é um símbolo carregado de energia psíquica refletindo a relação do individuo com o próprio poder e também com o principio de valor interior.
As atitudes e comportamentos assumidos frente ao dinheiro, impregnados da herança familiar, transgeracional e cultural, reverberam positiva ou negativamente, não só em suas trajetórias pessoais, mas também na sociedade, no presente e adiante.
Tema recorrente, é gerador de preocupações e angústias, circulando como principal meio de troca de bens e serviços humanos. É inegável que participamos de uma sociedade estruturada na produção e no consumo incessante de bens – particularmente supérfluos, que atraem afetos, ativam desejos e impulsionam praticas de compras que, muitas vezes não atendem a necessidades reais.
Na história do desenvolvimento da humanidade, em diversas culturas o dinheiro se fez presente, ocupando um lugar de importância e influenciando a vida dos indivíduos, desde a criação das primeiras moedas até o surgimento das cédulas. (MEIRELLES, 2012)
De acordo com Ferreira (2007) o dinheiro é:
Estoque de valor, unidade de contabilidade, padrão de pagamento adiantado. Possui múltiplas dimensões simbólicas, entre elas: extensão de nosso self, poder, talento, habilidade, beleza, saúde, inteligência e oferece aquela possibilidade da pessoa sentir-se sempre especial. Nas sociedades capitalistas, o dinheiro está associado à segurança, sucesso, liberdade, independência, esperteza, benção de Deus, status, merecimento, bem estar, comparação social.
Jung nos convida a observar que aquilo que não é conscientizado tende a se manifestar como destino. Nesse sentido, nossas dificuldades ou excessos na relação com o dinheiro podem ser entendidos como expressões simbólicas de conflitos mais profundos.
O presente estudo tem por objetivo uma breve analise sobre o dinheiro como um símbolo psíquico cuja manifestação está diretamente ligada à dinâmica inconsciente que atravessa o individuo no que se refere a poder, valor e também merecimento.
Observa-se que sua investigação em pesquisa parece ainda se apresentar de forma mais limitada, sendo frequentemente tangenciada muito mais por aspectos econômicos e sociais, do que simbólicos.
Qual seria a contribuição da psicologia analítica junguiana para o entendimento da relação entre as questões psíquicas e monetárias?
A representação monetária é alvo de projeções, pois o dinheiro e seu caráter psicológico encontram-se profundamente vinculado à dinâmica psíquica dos sujeitos, não se ligando somente à esfera pessoal, mas também ao coletivo, como os arquétipos.
Segundo Weatherford (2005) o dinheiro:
Permite que os seres humanos estruturem a vida de formas incrivelmente complexas que não se encontravam disponíveis antes da invenção do dinheiro. A qualidade metafórica concede-lhe um papel de enfoque na organização do significado da vida. O dinheiro representa uma forma infinitamente ampliável de estruturar o valor e as relações sociais e pessoais, politicas e religiosas, bem como as comerciais e econômicas.
Chama a atenção o fato de que, enquanto algumas pessoas conseguem estabelecer uma relação tranquila, saudável e fluida com o dinheiro – experimentando organização e planejamento, sensação de segurança e ainda prosperidade; outras, apesar da produção e competência, parecem viver em constante tensão financeira e a relação com o dinheiro pode ser permeada tanto pela escassez quanto pelo exagero.
Uma investigação mais aprofundada sobre a construção desses conceitos na psique, de modo pessoal se faz importante. O dinheiro “em si”, por vezes, não é o ponto central, mas pode estar a serviço de uma representação de suma importância para o indivíduo dentro de sua história de vida e também familiar.
Seria conveniente fazer referencia aqui ao conceito da Psicologia analítica acerca dos complexos.
Para Jung os complexos se constituem a partir de ideias com forte carga afetiva, capazes de influenciar os pensamentos e ações. “[…] uma determinada situação de forte carga emocional incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência.” (JUNG, 2013, p. 47).
Jung explicou que a palavra “complexo”, no seu sentido psicológico, introduziu-se na língua alemã e que hoje em dia todo mundo sabe que as pessoas “tem complexos”, mas acabam desconhecendo algo de grande importância: que os complexos podem nos ter.
Em Estudos experimentais, trabalhando com as associações, Jung aponta a existência do complexo financeiro.
A temática financeira não aparece em grande quantidade nos referenciais teóricos da psicologia e, de forma similar, assuntos sobre dinheiro ainda geram desconforto e podem ser evitados, por isso “[…] é considerado de bom tom escamotear assuntos de dinheiro” (JUNG, 2013, p.254).
Dessa forma vai se revelando as relações estabelecidas no cenário financeiro, de acordo com o funcionamento interno de cada um. Jung, 2012, aponta, por exemplo, que economizar dinheiro pode trazer mais prazer do que despender, enquanto que para outros, o contentamento está em esbanja-lo.
Alcançamos, assim, a compreensão de que no traço psicológico do dinheiro, além da existência do complexo monetário, há ainda espaço para as projeções pessoais sobre sua figura. Na relação estabelecida com o dinheiro, fica claro como os afetos estão dispostos, desde os temores existentes em sua vida, até os sonhos que pretende viver no futuro. LOCKHART et al ,1997)
Somando-se a isso temos os arquétipos e o inconsciente coletivo, onde os arquétipos como instancias psíquicas relativamente autônomas não são capazes de se integrar a consciência por meio racionais.
Os arquétipos, como estruturas psíquicas inatas e universais, desempenham um papel essencial na compreensão da abordagem analítica.
Para Jung são formas típicas de comportamento que ocorrem sempre e em toda parte; padrões recorrentes que moldam a experiência humana e de forma espontânea aparecem nos sonhos e narrativas culturais.
O dinheiro atua como uma força de caráter arquetípico, portanto, passível de múltiplas leituras e aplicações de acordo com aquele que dele faz menção. Nessa direção, o dinheiro não se fixa em uma única definição, seja como troca, valor ou energia, pois possui múltiplas raízes, preservando um caráter de incerteza e indeterminação. Podemos dizer: “[…] o dinheiro é tão amplo e profundo quanto o oceano, o inconsciente primordial, e nos torna assim também. Ele sempre nos leva a enormes profundezas” (LOCKHART ET al. 1997, p.29).
O dinheiro pode ser entendido como uma expressão de padrões arquetípicos, impactando no desenvolvimento psicológico. Poderíamos citar arquétipos financeiros tais quais: o arquétipo do provedor, do perdulário, do avarento e outros.
Lockhart complementa que a influência desses arquétipos financeiros vai além dos aspectos racionais das decisões, trazendo as historias inconscientes que moldam as escolhas econômicas associadas ao dinheiro. Com isso, entende-se que quando as questões relativas ao dinheiro não encontram um espaço reconhecido na consciência, sua dimensão arquetípica pode adquirir autonomia e tornar-se invasiva, irrompendo na vida psíquica sem pedir consentimento ao ego.
Consequentemente, compreender o arquétipo do dinheiro exige ainda a ponderação de uma característica central dessa instancia psíquica: o seu caráter simbólico. Esses aspectos simbólicos mostram-se capazes de estabelecer uma ligação com os conteúdos monetários, resultando numa dimensão simbólica que se inscreve no próprio fenômeno do dinheiro; ou seja, o entendimento de símbolo guarda aproximações importantes com a maneira como o dinheiro é concebido.
Convém ressaltar que o dinheiro, embora atue como instrumento de troca, mobiliza também forças psicológicas que permeiam a vida interior e as relações humanas. Na perspectiva da psicologia analítica, pode ser compreendido como um arquétipo contemporâneo, um símbolo que excede o domínio material e revela sentidos profundos, enraizados tanto no inconsciente coletivo quanto na jornada de individuação.
Embora o dinheiro apresente aspectos universais, sua leitura e compreensão estarão conectadas a experiência pessoal e subjetiva do Self.
Magaldi (2004) analisa intersecções culturais, religiosas e econômicas, mostrando como o dinheiro, compreendido como símbolo arquetípico, interfere nas questões existenciais e na própria busca do sagrado na sociedade atual. Para o autor, o dinheiro ultrapassa sua utilidade econômica e adquire uma função psíquica e arquetípica de grande peso.
Mantendo um diálogo constante com o inconsciente e configurando valores e motivações pessoais e coletivas. Diz ainda que, em muitas situações, nota-se que a falta de saúde produz perda de dinheiro e aumento de sagrado. Em outras, a falta do sagrado produz aumento do dinheiro e a perda da saúde.
Ao assumir a função de instrumento de poder e autonomia, o dinheiro é igualmente capaz de desestabilizar a psique, provocando compulsões e tensões emocionais.
Pode atuar como uma projeção psíquica, condensando afetos e desejos inconscientes, tornando-se assim, tanto um agente de alienação quanto um potencial caminho para a integração.
O dinheiro funciona como um mediador entre o mundo material e o espiritual. Quando acolhido de modo equilibrado pode encarnar liberdade e sentido; mas, quando mal elaborado, converte-se em símbolo de alienação e aprisionamento. Tal compreensão vincula o dinheiro ao percurso de individuação proposto por Jung, no qual se busca a integração entre os aspectos da consciência e do inconsciente. (LOCKHART 2001)
Quando o dinheiro é percebido como um fim em si mesmo, ele pode se tornar um elemento alienante, desconectando o indivíduo de seus valores essenciais, pois, se relacionar de modo saudável com o dinheiro envolve sua percepção a fim de um propósito maior e não como finalidade em si.
O dinheiro, enquanto símbolo traz projeções inconscientes, revelando complexos relevantes.
Entre eles, destacam-se o medo da escassez e a compulsão pela acumulação, que frequentemente expressam conflitos internos ligados à segurança e autovalorização. Essas projeções podem atuar de forma limitante ou transformadora, conforme sejam ou não integradas ao processo de individuação. Quando esses temas são trazidos para consciência e trabalhados, pode-se chegar ao crescimento psicológico, direcionando o individuo para uma relação mais equilibrada com o dinheiro.
Transformar a relação com o dinheiro de uma forma livre e criativa é o sentido maior e isso nada tem haver com falta de dividas ou condições e capacidade para gastar. A transformação chega quando se transita suavemente entre as escolhas conscientes e os valores pessoais.
Magaldi nos lembra de que é a partir do uso consciente do dinheiro que todas essas demandas serão conciliadas; ou seja, é preciso transformar o dinheiro em um elemento facilitador tanto para o sagrado, com sua estrutura ética e moral, quanto para a saúde, não só do individuo, mas da sociedade e do meio ambiente.
E ainda, com o passar do tempo fica claro que a falta de autoconhecimento, produz o desejo do poder e, neste caso, o dinheiro, e o seu acumulo, servem de instrumento que sustenta a ilusão do poder e o enfrentamento do medo. Logo, os princípios universais da evolução, com sua dinâmica do dar, receber e retribuir ficam comprometidos. A ambição do indivíduo que atingiu o autoconhecimento e encontrou o prazer em servir, não abre mão da sua qualidade de vida, mas esta voltada para a própria humanidade. O dinheiro é uma energia capaz de produzir transformações. (MAGALDI 2004).
Na perspectiva da psicologia analítica, ele é mais do que um meio de troca, é um símbolo carregado de energia psíquica, um reflexo da relação do individuo com o próprio poder e com o princípio de valor interior.
A forma como cada pessoa lida com ele revela aspectos profundos de sua historia psíquica e de suas crenças inconscientes. Reconhecer a parte sombria do dinheiro é integrar o poder pessoal sem se deixar dominar por ele.
Outra limitação diz respeito à sensação de não merecer prosperar; uma vivencia ligada ao complexo, muitas vezes formado nos primórdios da vida, quando a autoestima se molda a partir da aceitação ou rejeição das figuras de autoridade. Ao alimentar a ideia de perfeição ou sofrimento relacionada a merecimento, o dinheiro passa a simbolizar uma recompensa proibida. A partir disso, barreiras invisíveis a abundancia são criadas, e a prosperidade se associa assim à culpa ou ate mesmo perda de amor.
As pessoas que estabelecem uma relação difícil com o dinheiro não vivem apenas um estado de escassez em seu aspecto material, mas experimentam um estado interno de constante tensão, insegurança e significado distorcido em relação ao valor – tanto financeiro quanto pessoal.
Observa-se muitas vezes, uma dissociação entre competência e merecimento.
A capacidade até pode ser reconhecida racionalmente, mas emocionalmente permanece vinculada a uma imagem interna de insuficiência. O dinheiro, então, passa a representar uma medida simbólica de amor, segurança e aceitação – e sua ausência pode reativar feridas antigas ligada ao abandono, rejeição e desamparo.
Já, para aqueles que vivenciam o dinheiro com maior fluidez, parece haver uma relação mais integrada com o próprio valor, com a noção de merecimento e com o exercício do poder pessoal. O dinheiro é percebido como um meio, não como uma ameaça ou única fonte de identidade.
Na visão simbólica, o dinheiro representa energia em movimento.
Ao fluir livremente encontramos vitalidade e o principal, criatividade. Quando bloqueada, há estagnação e medo. Assim como o ouro na alquimia, o dinheiro simboliza a transformação da matéria bruta em valor consciente, onde a verdadeira riqueza não esta em acumular, mas em fazer circular – dentro e fora de si.
Para apreender as atitudes e valores que moldam nossa relação com o dinheiro, é essencial voltar o olhar também à família, matriz primeira de transmissão simbólica, pois dela recebemos identidade e reconhecimento, bem como um modo de agir que se desdobra e se renova ao longo das gerações. Este valor familiar pode ser transmitido entre as gerações, influenciando comportamentos e perpetuando os mais diversos padrões de comportamento.
A educação financeira é considerada instrumento central para aprimorar a maneira como as pessoas se relacionam com o dinheiro. Entretanto, os programas atuais, voltados, sobretudo para aspectos técnicos e operacionais acabam negligenciando a dimensão simbólico-psíquico que permeia e orienta grande parte das condutas financeiras.
Em síntese, comprova-se a necessidade de uma reflexão critica sobre o manejo dos indivíduos acerca de suas finanças e como essas interações podem impactar emocionalmente, pois as questões financeiras podem ser causas frequentes de sofrimento psíquico na contemporaneidade, em um contexto social pressionado pelo ideal de sucesso econômico.
Nesse cenário, a psicologia analítica pode muito contribuir.
Trabalhar as crenças sobre o dinheiro é, na verdade, um convite à integração psíquica; olhar para o poder, o medo e o merecimento como partes legitimas do ser. Ao reconhecer que o dinheiro é apenas um veículo do próprio poder criativo, deixa-se de ser escravo dessas “verdades” inconscientes para se tornar coautor de sua própria prosperidade. O dinheiro deixara de ser tabu, para voltar a ser o que sempre foi: energia a serviço da vida.
Desse modo, torna-se possível evitar que o dinheiro, à semelhança de qualquer conteúdo psíquico não reconhecido, deslize para a sombra e assuma um caráter destrutivo, incidindo tanto sobre a vida pessoal quanto sobre a dimensão coletiva. (JUNG, 2015)
Integrar todas essa dimensões não significa apenas aprender a administrar melhor as finanças, mas reconectar-se com o próprio valor essencial, permitindo que o dinheiro deixe de ser campo de batalha e passe a ser expressão coerente de uma vida que se sente legitimada a prosperar.
Patrícia Moura Vernalha – Analista em Formação IJEP
Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP
Referências:
FERREIRA, Vera Rita. Psicologia Econômica: Estudo do Comportamento econômico da tomada de decisão. 1 ed. Rio de Janeiro: Campus, 2008.
JUNG, C.G. A Natureza da psique. ed. Vozes: Petrópolis, 2013
JUNG, C.G. Aspectos do drama contemporâneo. ed. Vozes: Petrópolis, 2012
JUNG, C.G. Civilização em transição. ed. Vozes: Petrópolis, 2007
JUNG, C.G. Vida Simbólica: escritos diversos. ed. Vozes: Petrópolis, 2015
JUNG, C.G. Estudos Experimentais. ed. Vozes: Petrópolis, 2011
LOCKHART, Russel et al. Dinheiro e Alma. Dallas: Spring Publications, 1997
MEIRELLES, Valéria Maria. Atitudes, crenças e comportamentos de homens e mulheres em relação ao dinheiro na vida adulta. 2012. 155f. TESE (Doutorado em Psicologia Clinica) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2012.
MAGALDI, Waldemar. Dinheiro, Saúde e Sagrado. Eleva, 2004
WEATHERFORD, J. A História do Dinheiro. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.

