A abertura dos arquivos do caso Jeffrey Epstein não é apenas um evento forense ou um escândalo midiático; é, sob a ótica da psicologia analítica, a irrupção purulenta de uma ferida psíquica coletiva. O que vemos exposto nas listas de voos e nos depoimentos não é apenas a perversão de um indivíduo ou de um grupo isolado, mas a confirmação trágica de um axioma que Carl Gustav Jung repetiu à exaustão e que a nossa cultura insiste em ignorar: “Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro”. Neste caso, fica evidente a sombra do poder anulando o amor como tema recorrente na sociedade.
Vivemos tempos em que a sombra do poder se alastrou de tal forma que eclipsou a capacidade humana de relacionar-se, transformando o “outro” — seja ele uma criança, uma mulher, um fiel ou um eleitor — em mero objeto de consumo. A revelação dos nomes ligados a Epstein é o sintoma agudo de uma doença crônica: a monetarização da existência e, pior, a monetarização do sagrado.
Ao observarmos a galeria de figuras que frequentavam a ilha de Epstein — príncipes, ex-presidentes, cientistas renomados, bilionários —, notamos um padrão que transcende a mera criminalidade. Estamos diante da híbris (a desmedida) de uma elite que, embriagada pela onipotência, acreditou ter comprado o direito de suspender a ética. E, ironicamente, é essa mesma elite que, em palanques e púlpitos, prega a moralidade, os “bons costumes” e a teologia da prosperidade, sequestrando a cosmovisão de Jesus Cristo para justificar exatamente aquilo que Ele rejeitou no deserto.
Estou mais do que convencido de que o caminho da vida só continua onde está o fluxo natural. Mas nenhuma energia é produzida onde não houver tensão entre contrários; por isso, é preciso encontrar o oposto da atitude consciente. É interessante verificar como essa compensação dos opostos também teve sua função na história da teoria da neurose: a teoria de Freud representa Eros; a de Adler, o poder. Pela lógica, o contrário do amor é o ódio; o contrário de Eros, Phobos (o medo). Mas, psicologicamente, é a vontade de poder. Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro. Quem se encontra do ponto de vista de Eros procura o contrário, que o compensa, na vontade de poder. Mas quem põe a tônica no poder, compensa-o com Eros. Visto do ponto de vista unilateral da atitude consciente, a sombra é uma parte inferior da personalidade. Por isso, é reprimida, devido a uma intensa resistência. Mas o que é reprimido tem que se tornar consciente para que se produza a tensão entre os contrários, sem o que a continuação do movimento é impossível. A consciência está em cima, digamos assim, e a sombra embaixo, e como o que está em cima sempre tende para baixo, e o quente para o frio, assim todo consciente procura, talvez sem perceber, o seu oposto inconsciente, sem o qual está condenado à estagnação, à obstrução ou à petrificação. É no oposto que se acende a chama da vida. (C. G. Jung – CW 7/1 §78)
O Deserto Esquecido e as Tentações Modernas
Para compreendermos a profundidade do abismo moral revelado pelos arquivos Epstein, precisamos revisitar a simbologia do deserto. Na narrativa bíblica, Jesus é levado ao deserto para ser tentado pelo Diabo, capacitando-se para cumprir seu propósito, o calvário, exercitando e fazendo tanto a kenosis quanto a Nekia, respectivamente o esvaziamento e a descida às profundezas. Ali, em sua fragilidade humana, Ele confronta as três grandes pulsões que, se não integradas, destroem a alma: o Prazer (transformar pedras em pães para saciar a fome física e os desejos da carne/corpo), a Fama/Vaidade (atirar-se do templo para que os anjos o salvem espetacularmente ou fazer milgres) e o Poder/Riqueza Material (curvar-se ao mal para ganhar todos os reinos do mundo).
Cristo recusa as três ofertas. Ele escolhe o caminho da individuação, da integridade do Ser, em detrimento da inflação do Ego. No entanto, a nossa cultura contemporânea, especialmente aquela moldada pelo ethos do sucesso a qualquer custo, fez a escolha oposta. O que vemos hoje, na epidemia de religiões da teologia do poder e nos discursos de influenciadores digitais e coaches messiânicos, é a aceitação entusiástica da proposta do Diabo.
O “sucesso” tornou-se o novo sacramento. A riqueza material é vista não como um recurso, mas como um sinal de eleição divina ou de superioridade biológica. Nesse cenário, o prazer e a fama são mercadorias que se compram. Quando o sagrado é monetarizado, o divino é expulso e o templo se torna um mercado. E num mercado, tudo tem preço, inclusive a inocência.
A sociedade que aplaude o acúmulo desenfreado de capital e que mede o valor de um ser humano pelo seu engajamento nas redes sociais criou o terreno fértil para que figuras como Epstein prosperassem. Ele não era uma anomalia; ele era um fornecedor de serviços para uma demanda reprimida e sombria. Ele oferecia a concretização da fantasia de onipotência: o acesso irrestrito a corpos, a anulação das leis e a suspensão da realidade. Para o homem que escolheu o Poder em detrimento do Amor, o prazer nunca é relacional; é sempre predatório. É a tentativa desesperada de preencher, com a intensidade da sensação, o vazio deixado pela morte do afeto.
A Máscara do “Cidadão de Bem” e o Fenômeno WASP
A análise torna-se ainda mais cortante quando observamos o perfil predominante nos documentos revelados: o arquétipo do homem branco, anglo-saxão e protestante (WASP – White, Anglo-Saxon, Protestant), ou seus equivalentes culturais em outras geografias. Historicamente, essa figura representa o pilar da ordem, da lei e da moral ocidental. São os homens que constroem impérios, que legislam sobre o corpo alheio e que se autodenominam “cidadãos de bem”.
Jung nos ensinou que quanto mais luminosa e rígida é a Persona (a máscara social que usamos para nos adaptarmos ao mundo), mais escura e densa é a Sombra (tudo aquilo que rejeitamos, reprimimos e escondemos). O “falso moralista” não é apenas um hipócrita consciente; muitas vezes, ele é uma vítima de sua própria cisão psíquica. Ele precisa manter uma aparência de retidão imaculada publicamente — a família perfeita, a filantropia, a frequência aos cultos —, o que exige uma repressão brutal de seus instintos e fragilidades.
Essa energia reprimida não desaparece. Ela se acumula no inconsciente, ganhando autonomia e força, até se transformar em algo monstruoso. O conservadorismo rígido, que julga e condena o comportamento alheio com ferocidade, é frequentemente o mecanismo de defesa de quem luta contra seus próprios demônios inconfessáveis.
Os arquivos de Epstein são o esgoto a céu aberto dessa psique cindida. Eles mostram onde os “homens de bem” iam para despir suas personas pesadas. Longe dos olhos do público, na ilha privada, a sombra assumia o controle. A justificativa interna para tal comportamento é, invariavelmente, uma distorção cognitiva típica da híbris: “Eu sou especial. Eu faço tanto pelo mundo, gero tanta riqueza, carrego tanto poder, que mereço essa recompensa. As leis dos homens comuns não se aplicam a mim”.
Essa dissociação permite que o mesmo indivíduo que financia campanhas contra os direitos humanos ou que prega a santidade da família tradicional participe de orgias com menores de idade. Não há, na mente deles, contradição, pois o Ego inflado pelo poder perdeu a conexão com o Self — o centro regulador da psique. Eles se tornaram deuses de seus próprios pequenos universos, e deuses, na mitologia grega, frequentemente estupravam e destruíam por capricho.
A Híbris, o Self e a Inevitável Enantiodromia
A tragédia grega e a psicologia analítica concordam em um ponto fundamental: a híbris (o orgulho desmedido que desafia os deuses) é sempre seguida pela nêmesis (a retribuição divina). Em termos psicológicos, quando a atitude consciente se torna unilateral demais — focada excessivamente no poder, na razão instrumental e na negação da sombra —, o inconsciente reage para restaurar o equilíbrio.
Jung chamou esse movimento pendular de enantiodromia: a tendência de todas as coisas se transformarem em seu oposto. A busca obsessiva pelo controle total (poder) leva, invariavelmente, à perda total de controle (o escândalo, a prisão, a ruína). A busca pela fama imaculada leva à infâmia eterna. A busca pelo prazer sem limites leva ao sofrimento atroz e ao vazio existencial.
O que estamos testemunhando com a exposição desses arquivos é a ação do Self. O Self, na psicologia junguiana, é a totalidade da psique, a imagem de Deus dentro de nós. Ele busca a integridade, não a perfeição moralista. Quando o indivíduo ou a cultura se desviam radicalmente de sua verdade interior, o Self orquestra uma crise. Ele força o confronto.
Ainda bem que existe o Self. Sem essa força reguladora, a humanidade se perderia em seus delírios de grandeza. O Self leva essas pessoas ao confronto consigo mesmas, gerando sintomas de adoecimento psíquico, pânico, depressão e, finalmente, revelações catastróficas. Para o ego inflado, a exposição pública é uma catástrofe, uma morte social. Mas, simbolicamente, é a única chance de salvação. É o momento em que a máscara cai e o indivíduo é forçado a olhar para a sua própria feiura.
Essa dinâmica não se restringe aos frequentadores da ilha de Epstein. Ela se reproduz recorrentemente com lideranças religiosas que caem em desgraça sexual ou financeira, com políticos que são pegos em esquemas de corrupção grotescos, e com influenciadores que, vendendo uma vida de felicidade plástica, sucumbem ao suicídio ou ao vício. É a natureza cobrando o preço da artificialidade. É a alma gritando que não pode ser vendida.
O Retorno ao Humano
A lição dos arquivos Epstein é dura, mas necessária. Ela nos obriga a confrontar a ilusão de que o poder e o dinheiro conferem dignidade ou imunidade moral. Pelo contrário, o poder sem amor é, como disse Jung, demoníaco. Ele fragmenta, isola e destrói.
A cosmovisão de Cristo, tão deturpada pela teologia da prosperidade, propunha o oposto: o poder do serviço, a riqueza do espírito e a fama de ser conhecido por Deus, não pelos homens. Jesus venceu o deserto não porque era imune à tentação, mas porque sabia quem era. Ele não precisava transformar pedras em pães porque não era definido pela sua fome. Ele não precisava se jogar do templo porque não precisava de aplausos para validar sua existência.
Enquanto nossa cultura continuar a idolatrar os bezerros de ouro do sucesso financeiro e da visibilidade midiática, continuaremos a produzir Epsteins e a alimentar as sombras de nossos líderes. A cura para essa patologia social não virá de novas leis ou de mais policiamento, embora estes sejam necessários. A cura virá de uma reorientação dos valores.
Precisamos resgatar o Eros — o princípio de conexão, de relacionamento e de amor. Precisamos entender que a verdadeira riqueza é a capacidade de olhar para o outro e ver um semelhante, não um objeto. Precisamos de menos “cidadãos de bem” e de mais seres humanos conscientes de suas sombras, capazes de integrar suas fragilidades em vez de projetá-las no mundo.
A enantiodromia já começou. O pêndulo está voltando. Que a queda dos falsos deuses nos sirva de alerta: o sagrado não está à venda, e o preço que se paga por tentar comprá-lo é, invariavelmente, a própria alma.
Referências Bibliográficas e Sugestões de Leitura:
- Jung, C. G. (2013). Aion: Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo (Vol. 9/2). Petrópolis: Vozes. (Para a discussão sobre o Self e a Sombra).
- Jung, C. G. (2012). Psicologia do Inconsciente (Vol. 7/1). Petrópolis: Vozes. (Sobre a relação entre Poder e Amor).
- Bíblia de Jerusalém. (2002). São Paulo: Paulus. (Evangelhos de Mateus 4:1-11 e Lucas 4:1-13 – As Tentações no Deserto).
- Hillman, J. (1993). O Código do Ser. Rio de Janeiro: Objetiva. (Sobre a vocação e o desvio do caráter).
- Guggenbühl-Craig, A. (2004). O Abuso do Poder na Psicoterapia e na Medicina, Serviço Social, Sacerdócio e Magistério. São Paulo: Paulus. (Análise fundamental sobre a sombra nas profissões de cuidado e liderança).
- Zweig, C., & Abrams, J. (Eds.). (1994). Ao Encontro da Sombra: O Potencial Oculto do Lado Escuro da Natureza Humana. São Paulo: Cultrix.

