Neste artigo, serão discutidos o desenvolvimento da consciência na infância, a influência do contexto familiar sobre a vida psíquica e o papel fundamental dos pais nesse percurso.
Desde o nascimento, todo indivíduo é acolhido em um contexto previamente estabelecido, marcado por uma determinada cultura, por padrões sociais, por códigos morais e por costumes específicos de seu tempo histórico. Esse ambiente inicial também é configurado por uma constelação familiar singular, que oferece à criança sua primeira moldura de sentido e pertencimento.
Nos primeiros momentos de vida, a relação da criança com seus cuidadores ocorre em um estado que Jung descreve como participation mystique.
O termo, originalmente utilizado por Lévy-Bruhl ao estudar sociedades tradicionais e originárias, refere-se a uma forma de experiência na qual não se distingue plenamente entre aquilo que pertence ao indivíduo e aquilo que pertence ao grupo ou ao mundo ao redor. Trata-se de uma vivência psíquica sem separação rígida entre sujeito e objeto, marcada por uma identidade indiferenciada e profundamente conectada ao inconsciente (JUNG, 2013a).
Partimos de uma formação como homens e como humanidade de uma fusão grupal, representada pela mescla urobórica, para só então atingirmos a individualidade promovida pelo complexo de ego. Muito embora não haja uma espécie de ‘psique objetiva de grupo’ apartada dos seus componentes, Eric Neumann (2014, p. 197) afirma que, nos grupos primevos, as diferenças individuais podiam ser percebidas e havia espaço para relativa independência.
A criança, especialmente nos primeiros anos de vida, também passa por um processo de identificação inconsciente com o grupo ao qual pertence. Ela se vincula aos pais de maneira não consciente, permanecendo imersa no campo psíquico familiar e manifestando tanto as dificuldades quanto os progressos presentes nesse ambiente.
Neste artigo, serão discutidos o desenvolvimento da consciência na infância, a influência do contexto familiar sobre a vida psíquica e o papel fundamental dos pais nesse percurso.
A formação do ego ocorre de maneira progressiva.
Antes que a consciência se estabeleça, o indivíduo permanece no âmbito do inconsciente, e o self já está presente antes mesmo da constituição egóica. Nos primeiros anos de vida, enquanto o complexo do ego ainda não está claramente delimitado, grande parte da personalidade funciona de forma inconsciente. Nesse período, segundo Erich Neumann (1995, p. 112), o que existe é uma “consciência do self”.
Ao chegar ao mundo, o ser humano encontra-se em um estágio pré-egóico, vivenciando aquilo que se denomina estado urobórico, representado pelo uroboros, a serpente que devora a própria cauda. Nessa fase, não há distinção de opostos na experiência psíquica; tudo é percebido como uma unidade. Neste ponto, a figura materna, materializada na mãe real, tem um peso expressivo de grande magnitude, pois mesmo após o nascimento, a criança ainda está imersa na mãe. Nesta ligação mãe e filho, há uma unidade primária entre eles.
Neumann discute amplamente esse tema em sua obra A Criança, que servirá como referência central para a exposição dos estágios de formação do ego.
De acordo com o autor, a vivência urubórica presente no início da vida ultrapassa a noção de uma psique indiferenciada, abrangendo uma conexão total com o ambiente. Para o bebê, ainda não existe uma separação entre “interno” e “externo”; tudo é percebido como um campo único e contínuo. Sua experiência do mundo ocorre por meio do corpo e das sensações mediadas pela mãe.
Mãe e filho permanecem simbolicamente unidos mesmo após o nascimento, como se a criança ainda estivesse envolta pelo útero. Suas necessidades fisiológicas, como fome, desconforto e busca por aconchego, são experimentadas de forma imediata e encontram alívio apenas por intermédio do cuidado maternal. Cuidado este que pode estar materializado na figura propriamente da mãe, do pai ou de um cuidador que incorpore este papel materno diante da bebê. Assim sendo, estabelece-se uma identidade biopsíquica entre o corpo do bebê e o mundo que o circunda (NEUMANN, 1995, p. 12).
Essa união primordial constitui o alicerce de toda a vida relacional.
Na perspectiva junguiana, é nesse estágio pré-egóico que o self atua como totalidade psíquica originária, enquanto o ego ainda está em formação. A qualidade do vínculo inicial, marcado pela segurança, acolhimento e previsibilidade das respostas maternas, torna-se fundamental não só para o desenvolvimento do ego, mas também para a construção da confiança básica que sustentará os futuros laços sociais. Assim, a experiência de imersão no materno não apenas organiza as primeiras percepções corporais da criança, mas também molda a maneira como ela se abrirá ao mundo e às demais relações ao longo da vida.
Ao analisar historicamente e antropologicamente diferentes culturas, Neumann estabelece uma analogia entre a organização dos agrupamentos humanos e o processo de amadurecimento da personalidade individual. Ele observa que sociedades consideradas tradicionais mantinham uma forte fusão entre o coletivo e o individual, em que predominava a inconsciência coletiva sobre a consciência pessoal. Nesses contextos, as estruturas egóicas eram incipientes ou pouco desenvolvidas, e a organização social sob influência do princípio matriarcal refletia uma vivência psíquica mergulhada no inconsciente. O ser humano, ligado profundamente ao ambiente, experienciava uma identidade simbiótica com o mundo, marcada pela participation mystique. De modo semelhante, a criança inicia sua vida psíquica no interior de um estado inconsciente matriarcal, do qual gradualmente se diferencia à medida que o ego emerge.
Neumann igualmente descreve uma sequência evolutiva na formação do ego que transita simbolicamente do matriarcado ao patriarcado.
Os estágios iniciais, considerados inferiores ou primordiais, estão vinculados ao princípio materno e à relação primal com o inconsciente. Nos estágios posteriores, denominados superiores ou solares, ocorre a ascensão do princípio paterno, relacionado ao desenvolvimento da consciência, da diferenciação e à aproximação com a dimensão masculina do self. Esse movimento expressa não apenas uma mudança estrutural da personalidade, mas também um deslocamento arquetípico: da acolhida materna inconsciente para a direção e ordenação do arquétipo paterno.
Quando o ego começa a adquirir atividade própria, o que Neumann descreve como o aparecimento do ego ativo, ele passa por etapas progressivas até sua consolidação.
Entre elas estão os estágios fálicos, divididos em fálico-ctônico e mágico-fálico. Nessas fases, a criança vive um senso de totalidade e uma percepção do corpo relativamente autônoma, embora ainda profundamente permeada pelo inconsciente. A vivência permanece transpessoal e unificada, pois a consciência ainda não produziu a separação entre polos opostos. Como afirma Neumann (1995, p. 112), nesse período “a criança possui uma consciência flutuante, instável e não localizada, uma consciência de Self”.
Esse caráter ainda indiferenciado da experiência infantil corresponde ao momento em que o ego está em formação, emergindo gradualmente da matriz inconsciente que o sustenta.
No estágio inicial, denominado fálico-ctônico, a psique incipiente opera sob a influência predominante do inconsciente coletivo e do arquétipo da Grande Mãe, refletindo uma fase essencialmente matriarcal e inconsciente. O ego em gestação permanece flutuante e guiado por processos inconscientes. A progressão deste estágio se dá de uma fase vegetativo-passiva para uma manifestação mais ativa, instintiva e animal, coincidente com o desenvolvimento da locomoção e a orientação do impulso libidinal para o exterior.
A transição para o segundo estágio, o mágico-fálico, assinala o início da estruturação da consciência.
Embora o ego permaneça inserido na esfera de influência matriarcal, e o self seja experienciado de forma corporal e integrada ao inconsciente, emerge uma atividade mais delineada. Esta etapa é marcada pelo surgimento de uma posição mais ativa do ego e uma busca antropocêntrica, na qual o ego começa a se consolidar como o centro organizador da consciência, demarcando o início da diferenciação em relação ao inconsciente coletivo indiferenciado.
No estágio seguinte, o mágico-guerreiro, o ego inicia sua diferenciação do inconsciente, buscando a libertação da influência da Grande Mãe arquetípica por meio de um movimento de oposição ativo. Este processo exige um distanciamento da figura da mãe pessoal, que carrega a projeção do arquétipo, em direção à esfera patriarcal, marcando uma fase crucial de separação.
As fases solares, que compreendem os quarto e quinto estágios (solar-guerreiro e solar-racional), denotam um ego com maior autonomia e assertividade (Neumann, 1995, p. 137). A evolução da consciência progride de características de um “caçador” e “guerreiro devorador”, que luta pela sua existência e diferenciação, para aspectos mais elevados e espirituais da paternidade, simbolizados pela figura do pai celestial. Esta transição entre as esferas matriarcal e patriarcal também coincide com a paulatina diferenciação das expressões do masculino e feminino na personalidade, culminando na independência clara do ego nas fases solares.
O ambiente familiar na formação do ego
A construção do ego acontece de maneira progressiva e é profundamente marcada pelas experiências externas que a criança recebe desde muito cedo. A consciência, por sua vez, emerge gradualmente do inconsciente, que lhe é anterior, e se apoia em uma herança psíquica comum a toda a humanidade: os arquétipos e os instintos, que conectam o ser humano atual às gerações ancestrais.
Embora cada sujeito percorra seu próprio caminho de desenvolvimento, existem padrões gerais que caracterizam esse processo como essencialmente transpessoal. Um dos movimentos centrais é o afastamento progressivo do ego em relação ao inconsciente, formando o eixo ego–self, estrutura pela qual a personalidade se organiza numa oscilação constante entre o mundo interno e o contexto externo. Neumann descreve esse movimento inicial como matriarcal, pois é conduzido pelo inconsciente, de onde surge a consciência.
Nos primeiros tempos de vida, antes do estabelecimento do ego, a criança permanece em um estado urobórico, como mencionado anteriormente, marcado por uma intensa fusão emocional e psíquica com o ambiente. Especialmente com a mãe, figura que simboliza o arquétipo materno.
Posteriormente, passa-se para a etapa patriarcal, associada às identificações com a figura paterna. Para Jung, a constituição plena da individualidade só começa a ocorrer quando a criança consegue referir-se a si mesma como “eu”, algo que geralmente se dá entre os três e cinco anos de idade (JACOBY, 2010, p. 121). Nesse período inicial, sobretudo antes do ingresso na escola, o impacto da família é determinante, podendo inclusive desencadear conflitos emocionais e dificuldades psíquicas na criança.
A família é o primeiro ambiente em que a criança observa, imita e aprende modos de agir. Nos primeiros anos, esse convívio intenso faz dela um verdadeiro “centro de gravidade emocional”, onde a identidade e o caráter começam a se formar sob a influência das diferentes personalidades presentes (ZWEIG; ABRAMS, 1994). Nesse estágio de forte dependência, algo natural ao desenvolvimento psíquico infantil, qualquer perturbação pode afetar seu crescimento saudável.
Jung ressalta que a mente da criança é extremamente sensível às influências do meio, absorvendo impressões profundas dos pais, inclusive conteúdos não verbalizados ou inconscientes:
Se nós, adultos, nos mostramos sensíveis a estas influências do meio ambiente, o que dizer então de uma criança cuja psique é mole e moldável como cera! O pai e a mãe gravam o sinete de sua personalidade fundo na psique da criança; e mais fundo quanto mais sensível e impressionável ela for. Tudo é retratado inconscientemente na criança, mesmo coisas das quais nunca se falou.
(JUNG,1995, p. 496)
Por ainda viverem em participação mística com as figuras parentais, as crianças captam tanto os comportamentos visíveis, quanto o movimento psíquico interno dos pais. Assim mesmo quando os adultos tentam controlar seus complexos, sua energia inconsciente continua atuando e repercutindo na psique infantil, pois, como observa Jung, os complexos têm força contagiante e alcançam a criança mesmo sem intenção.
Com a entrada na escola, a criança passa a se afastar gradualmente da influência direta dos pais, e o ambiente escolar assume um papel importante nesse processo de autonomia. Por isso, Jung (2013b) destaca que educadores deveriam ter consciência da responsabilidade que exercem na formação da personalidade infantil, investindo em autoconhecimento e amadurecimento para poderem educar de forma mais íntegra.
Ainda assim o ambiente familiar continua exercendo forte impacto sobre a expressão individual da criança. Os pais transmitem condicionamentos emocionais e padrões afetivos que influenciam profundamente a formação da psique e da consciência nos primeiros anos de vida. Zweig e Abrams (1994) lembram que todos recebemos uma “herança psicológica” que inclui aspectos da sombra familiar, valores, hábitos, tensões e até problemas não resolvidos pelos próprios pais, que podem se manifestar na criança como dificuldades de socialização. Jung reforça que, nesse início, a criança tende a mergulhar no inconsciente parental, reproduzindo padrões que atravessam gerações.
A análise do desenvolvimento infantil evidencia que a consolidação do ego é um processo profundamente vinculado ao ambiente familiar e às primeiras relações estabelecidas pela criança.
Desde o nascimento, as vivências emocionais, os vínculos formados e a qualidade do cuidado recebido moldam a base sobre a qual a consciência se estrutura. A família, com seus padrões afetivos, valores e conteúdos conscientes e inconscientes, exerce influência determinante sobre esse percurso inicial, deixando marcas que podem favorecer o crescimento ou gerar conflitos que se prolongam ao longo da vida. Embora transitar por outro meio sociais, como o ambiente escolar, amplie o universo da criança e introduza novas referências, é no seio da família que se encontram os primeiros alicerces da personalidade que acompanharão o indivíduo em sua trajetória. Assim, compreender a dinâmica familiar e seu impacto na formação psíquica é fundamental para reconhecer como se constitui a formação egóica e como se perpetuam tendências que atravessam gerações.
Lorena de Sousa Oliveira – Analista em formação IJEP
Simone Magaldi – Analista Didata IJEP
Referências bibliográficas:
JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique, 10ª edição, Petrópolis: Vozes, 2013a.
______, A vida simbólica. Vol. 1, 6ª edição, Petrópolis: Vozes, 2012.
______, Estudos Experimentais, 6ª edição, Petrópolis: Vozes, 1995.
______, Freud e a psicanálise, 16 ª edição, Petrópolis: Vozes, 2011.
______, O desenvolvimento da personalidade, 10ª edição, Petrópolis: Vozes, 2013b.
NEUMANN, Erich, A criança: Estrutura e dinâmica da personalidade em
desenvolvimento desde o início de sua formação, 10ª edição, São Paulo: Editora Cultrix, 1995.31
ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah (orgs.). Ao encontro da sombra: o potencial oculto do lado escuro da natureza humana, São Paulo: Editora Cultrix, 1994

