Uma Perspectiva Junguiana para Reencantar o Trabalho no Mundo Contemporâneo
Este artigo propõe uma leitura junguiana da crise contemporânea do trabalho, compreendendo as organizações como campos onde a psique coletiva se expressa. Argumenta-se que o predomínio unilateral do Princípio Masculino centrado na performance, no controle e na produtividade produz ambientes emocionalmente áridos e simbolicamente empobrecidos. Com apoio em Jung e em autores junguianos como Neumann, Hillman e von Franz, sustenta-se que tal desequilíbrio só pode ser superado mediante a reintegração simbólica do Princípio Feminino, compreendido como força arquetípica que nutre a imaginação, o cuidado, o vínculo e a interioridade. Essa reintegração inaugura o movimento em direção ao Princípio da Alteridade, no qual Feminino e Masculino deixam de operar em oposição e passam a agir em complementaridade, abrindo espaço para culturas organizacionais mais humanas e criativas.
Discute-se, ainda, o trabalho como caminho de individuação, ressaltando que o sofrimento laboral funciona como chamado da alma para a ressignificação. Conclui-se que reencantar o trabalho não é luxo, mas necessidade civilizatória: somente ao integrar esses princípios arquetípicos será possível construir organizações capazes de sustentar a vida psíquica e devolver sentido ao agir coletivo.
1. Introdução
As organizações são expressões vivas da psique humana. Assim como o mundo externo reflete as dinâmicas internas dos indivíduos, a dinâmica institucional manifesta os conteúdos conscientes e inconscientes daqueles que nela trabalham. Para Jung, “a psique é um sistema autorregulador que mantém o equilíbrio entre os conteúdos consciente e inconsciente” (JUNG, 2013b, §159), revelando-se continuamente nas formas culturais, sociais e coletivas Quando o inconsciente coletivo se fragiliza, suas fissuras tornam-se visíveis nos modos de funcionamento, nas relações e nos valores que estruturam o ambiente de trabalho.
O cenário atual revela uma crise de significado que ultrapassa fatores econômicos e tecnológicos. O predomínio de valores como racionalidade instrumental, controle, mensuração e competição são atributos associados ao Princípio Masculino unilateral que contribuiu para avanços importantes, mas também gerou efeitos colaterais profundos: esvaziamento simbólico, adoecimento psíquico, fragmentação dos vínculos e perda de sentido no trabalho.
Jung adverte que toda atitude consciente dirigida é inevitavelmente unilateral e produz uma contraposição proporcional no inconsciente; quando a tensão entre esses polos se intensifica além do que a consciência pode sustentar, o conteúdo reprimido irrompe de forma inesperada (Cf. JUNG, 2013b, §§137–140). Assim como o indivíduo adoece ao reprimir partes essenciais de sua totalidade, as organizações adoecem quando ignoram dimensões simbólicas fundamentais da alma coletiva.
A psicologia analítica oferece um caminho para compreender esse adoecimento.
Segundo Jung, o inconsciente reage às unilateralidades da consciência por meio de processos compensatórios, que buscam restabelecer equilíbrio e integração (Cf. 2014b, §187).
Essa função não opera apenas no indivíduo, mas também no coletivo, uma vez que instituições são campos arquetípicos onde o inconsciente se expressa. Sintomas institucionais como desumanização, conflitos recorrentes, perda de propósito e esgotamento emocional podem ser lidos como tentativas da psique de corrigir um desequilíbrio estrutural causado pela hipertrofia do Princípio Masculino.
Na perspectiva junguiana, o Feminino não se reduz ao gênero, mas diz respeito a um princípio psíquico arquetípico que se expressa na relação, na afetividade e na dimensão vincular da alma, como se pode observar na concepção de anima e na sizígia masculino–feminino (Cf. JUNG, 2014a, §§119–120; 141–142).
Diante disso, o objetivo deste artigo é examinar como a integração simbólica do Princípio Feminino, à luz da psicologia analítica, pode contribuir para transformar as culturas organizacionais, promovendo ambientes mais saudáveis, criativos e alinhados à sua função simbólica de expressão da totalidade psíquica.
2. A unilateralidade da psique moderna e a dissolução do sentido
Jung advertiu que a modernidade, ao elevar o racionalismo científico e a produtividade material ao estatuto de valores supremos, rompeu com o universo simbólico que outrora sustentava a alma humana (Cf. 2013c). A perda de mitos, rituais e imagens coletivas não gerou apenas um vazio espiritual; abriu espaço para a hipertrofia da consciência e para a consequente repressão de conteúdos psíquicos fundamentais. Quando a cultura se distancia de seus símbolos, a psique perde suas vias naturais de expressão e integração, tornando-se terreno fértil para desequilíbrios profundos.
Essa dissociação se manifesta de forma evidente no contexto organizacional. A lógica instrumental como: mensurar, controlar, padronizar, otimizar, tornou-se eixo estruturante das instituições modernas. O indivíduo é frequentemente reduzido a função, número ou desempenho, enquanto sua vida interior é desconsiderada como irrelevante para o funcionamento institucional. Quando o inconsciente é negligenciado, ele pode retornar na forma de sintomas, buscando compensar a unilateralidade da consciência. Ansiedade, burnout, cinismo, desmotivação, perda de criatividade e rupturas relacionais tornam-se manifestações visíveis desse retorno compensatório no campo do trabalho.
Nesse cenário, o Princípio Feminino ligado à interioridade, à imaginação, ao cuidado, à nutrição e ao vínculo é sistematicamente desvalorizado ou excluído. Sua marginalização produz ambientes áridos, emocionalmente hostis e pobres em simbolização. A crise contemporânea do trabalho, portanto, não é apenas técnica ou econômica: é também uma crise da alma, resultante da desconexão entre a vida institucional e as dimensões simbólicas que dão profundidade, direção e sentido à existência humana.
3. Anima e Animus: chaves junguianas para compreender o desequilíbrio
Na psicologia analítica, Anima e Animus constituem dois dos arquétipos mais fundamentais do inconsciente coletivo, princípios estruturantes da psique humana. Para Jung, trata-se das personificações psíquicas do Princípio Feminino (anima) e do Princípio Masculino (animus) presentes em todo ser humano, independentemente do gênero biológico (Cf. 2014a, §§ 519-520).
A Anima, compreendida como contraponto sexual feminino de um ego masculino, representa a dimensão relacional, imaginal e afetiva da psique; o Animus, como contraponto sexual masculino de um ego feminino, expressa a força da racionalidade, da direção, da argumentação e da estruturação lógica. Embora distintos, esses dois princípios são complementares e, quando integrados à consciência formam a base da totalidade interior.
Quando uma cultura como a corporativa privilegia exclusivamente o Princípio Masculino, instala-se uma atitude unilateral que compromete o equilíbrio psíquico individual e coletivo.
Tal unilateralidade se manifesta em rigidez, hipertrofia da hierarquia, competitividade hostil, fragmentação dos vínculos e esvaziamento do sentido. Jung descreve que toda repressão ou exclusão de aspectos essenciais da psique provoca uma reação compensatória do inconsciente, frequentemente dolorosa, destinada a restaurar o equilíbrio perdido (Cf. 2014b, §187). No campo organizacional, essa compensação aparece na forma de sofrimento psíquico generalizado: ansiedade, exaustão emocional, cinismo, perda de criatividade e conflitos relacionais persistentes.
Para Jung, a tarefa do desenvolvimento psicológico e também da vida coletiva consiste em integrar opostos, não em substituí-los. Ele destaca que a função transcendente emerge precisamente da tensão criativa entre polaridades, produzindo uma nova atitude capaz de ampliar a consciência (Cf. 2014b, §§ 121–125). Assim, quando os Princípios Feminino e Masculino dialogam com o ego de maneira equilibrada, abre-se um campo fértil para novas formas de ser, trabalhar e liderar. A razão pode coexistir com a sensibilidade; a ação, com a escuta; a objetividade, com a imaginação. É dessa integração que nasce uma cultura organizacional mais humana, criativa e alinhada à totalidade psíquica.
4. O Feminino simbólico como potência transformadora nas organizações
Na psicologia analítica, o desenvolvimento da consciência segue um movimento arquetípico que atravessa etapas estruturais: da indiferenciação do estado uroboróico à organização simbólica do matriarcado, passando pela afirmação da consciência patriarcal. Em suas obras, Neumann descreve esse percurso como um processo evolutivo tanto da psique individual quanto da cultura. Em A História da Origem da Consciência, ele apresenta esse eixo formativo (NEUMANN, 1990). Já em Psicologia Profunda e uma Nova Ética, aponta para a possibilidade de um estágio posterior, marcado pela alteridade uma relação de parceria, integração e reciprocidade entre os polos Feminino e Masculino, sem supremacia de um sobre o outro (NEUMANN, 1991). Esse movimento, simultaneamente ontogenético e filogenético, manifesta-se também nos sistemas coletivos, inclusive nas organizações. Assim como o indivíduo amadurece ao integrar seus opostos internos, as instituições precisam superar a unilateralidade do Princípio Masculino para adentrar um estágio de complementaridade e equilíbrio simbólico.
Autores junguianos aprofundam essa compreensão do Feminino simbólico.
Neumann, em O Medo do Feminino, descreve o Feminino como potência arquetípica de ligação, nutrição e transformação, cuja repressão produz rigidez, empobrecimento simbólico e estagnação cultural, sinais claros de uma psique coletiva unilateralmente patriarcal (Cf. NEUMANN, 2000, pp. 2–3; 35–37).
Hillman, ao conceber a Anima como princípio imaginal da psique, mostra que, quando essa dimensão é negligenciada, a vida inclusive a vida organizacional, torna-se literalizada, mecânica e sem profundidade simbólica, perdendo sua capacidade de criar sentido e renovar-se (Cf. HILLMAN, 2020, p. 91).
Dessa forma, a reintegração do Feminino nas organizações vai muito além de políticas de diversidade ou do aumento de mulheres em posições de liderança. Embora tais iniciativas sejam relevantes, não promovem transformação arquetípica por si sós. Integrar o Feminino significa transitar do paradigma de dominação para o paradigma de alteridade, no qual Masculino e Feminino se relacionam em parceria: a ação é equilibrada pela escuta, a razão pela intuição, a estrutura pela criatividade, a produtividade pelo sentido.
Ao abraçar o Feminino simbólico, as organizações deixam de reproduzir padrões patriarcais unilaterais e passam a operar a partir de um campo psíquico mais integrado, aproximando-se do estágio de alteridade descrito por Neumann. É nesse horizonte que o trabalho pode recuperar sua dimensão simbólica, tornando-se novamente espaço de vida, criação e individuação.
5. Liderança simbólica Feminina: para além do gênero
A liderança fundamentada no Feminino arquetípico ultrapassa qualquer identificação com o gênero biológico. Ela emerge quando a consciência integra o Princípio Feminino como dimensão estruturante da psique, Princípio que, na tradição junguiana, expressa o Eros: a capacidade de relação, vínculo, cuidado, imaginação e interioridade (Cf. JUNG, 2014a, §§ 58-60). Assim, homens e mulheres podem encarnar essa liderança quando ampliam sua relação com o inconsciente e permitem que o Feminino simbólico participe ativamente de suas atitudes e decisões.
Essa forma de liderança representa um movimento evolutivo da consciência que se aproxima daquilo que Neumann descreve como a nova ética — um estágio em que os contrários deixam de se confrontar pela hegemonia e passam a relacionar-se por meio da complementaridade.
Em Psicologia Profunda e Nova Ética, Neumann afirma que a tarefa do desenvolvimento ético não é a vitória de um polo sobre o outro, mas a síntese dos opostos, realizada por meio de uma estrutura unitária sustentada pela tensão criativa entre eles (Cf. 1991, pp. 81–82).
Nesse paradigma, Masculino e Feminino passam a operar em reciprocidade, formando uma totalidade em que nenhum princípio é abolido, mas ambos são integrados em um nível mais amplo de maturidade psíquica (Cf. NEUMANN, 1991, pp. 104–105). Assim, o que se estabelece não é a substituição do Princípio Masculino, mas sua integração consciente, resultando em uma postura mais complexa, madura e criativamente tensionada entre opostos.
Essa liderança não se opõe ao Princípio Masculino; ao contrário, integra-o de forma equilibrada.
Firmeza, clareza, orientação, objetividade e capacidade decisória continuam indispensáveis; entretanto, quando isoladas, tornam-se destrutivas. O Feminino simbólico oferece a contrapartida necessária para que tais qualidades se expressem sem rigidez, arrogância ou desumanização. É a partir dessa tensão criativa que surge uma liderança mais íntegra, capaz de sustentar conflitos, favorecer transformações e orientar processos organizacionais baseados em sentido, e não apenas em desempenho.
Nesse horizonte, liderar não significa exercer poder sobre os outros, mas conduzir processos de individuação coletiva. Reconhecendo que toda organização, assim como todo indivíduo, amadurece ao integrar suas polaridades internas. A liderança simbólica Feminina torna-se, assim, uma via para que instituições transitem da lógica unilateral do patriarcado para a lógica relacional da alteridade, abrindo espaço para um trabalho mais humano, vivo e significativo.
6. O trabalho como caminho de individuação
Para Jung, o Self, centro regulador e totalidade da psique, busca continuamente manifestar-se na vida consciente, orientando o indivíduo em direção à plenitude (Cf. 2013a, §§44-46; §§73–74). A individuação é o processo pelo qual a personalidade se torna aquilo que é em potencial. Integrando opostos, reconciliando tensões internas e desenvolvendo uma relação progressivamente consciente com o inconsciente. Esse movimento de integração é mediado pela função transcendente, que permite a emergência de novas atitudes a partir do diálogo entre polos aparentemente incompatíveis (Cf. JUNG, 2013b, §§ 131–145).
No mundo contemporâneo, o trabalho tornou-se um dos principais cenários do processo de individuação.
Mais do que garantir sobrevivência, ele constitui um espaço de expressão, pertencimento, reconhecimento e criação de sentido. É no exercício cotidiano das funções profissionais que grande parte de nossas potencialidades, conflitos, complexos e buscas de realização se atualiza. Por isso, quando o trabalho se desconecta da alma, perde-se não apenas a motivação, mas também uma via privilegiada de autodesenvolvimento. Nessas situações, o sofrimento que emerge no ambiente laboral pode ser compreendido como um chamado simbólico: ele revela que a atividade perdeu profundidade e já não dialoga com as necessidades internas da psique. O sintoma, nesse contexto, funciona como mensageiro do inconsciente, indicando que a vida profissional se tornou incompatível com o movimento natural da personalidade em direção à totalidade.
Reencantar o trabalho significa devolver-lhe densidade simbólica, reaproximando-o da alma.
No mundo contemporâneo, o trabalho tornou-se um dos principais cenários do processo de individuação. Mais do que garantir sobrevivência, ele constitui um espaço de expressão, pertencimento, reconhecimento e criação de sentido. É no exercício cotidiano das funções profissionais que grande parte de nossas potencialidades, conflitos, complexos e buscas de realização se atualiza. Por isso, quando o trabalho se desconecta da alma, perde-se não apenas a motivação, mas também uma via privilegiada de autodesenvolvimento. Nessas situações, o sofrimento que emerge no ambiente laboral pode ser compreendido como um chamado simbólico: ele revela que a atividade perdeu profundidade e já não dialoga com as necessidades internas da psique. O sintoma, nesse contexto, funciona como mensageiro do inconsciente, indicando que a vida profissional tornou-se incompatível com o movimento natural da personalidade em direção à totalidade.
Considerações finais
A análise aqui desenvolvida evidencia que a crise contemporânea do trabalho não pode ser compreendida apenas por categorias econômicas, tecnológicas ou administrativas. Ela expressa, em nível coletivo, a mesma dinâmica psíquica descrita por Jung no desenvolvimento individual: uma unilateralidade que se cristaliza, reprime aspectos essenciais da totalidade e, inevitavelmente, gera sintomas.
Ao revisitar Jung e autores junguianos como Neumann, Hillman e von Franz, torna-se claro que a superação desse quadro exige um movimento de reintegração simbólica do Feminino e de passagem ao Princípio da Alteridade, no qual os opostos deixam de disputar hegemonia e passam a operar em parceria.
A transição das organizações para estruturas baseadas na alteridade aponta para um modelo mais humano, mais simbólico e mais sustentável de convivência. Nas instituições que acolhem o diálogo entre Feminino e Masculino, emergem lideranças mais integrais, culturas mais saudáveis e relações mais criativas. Nessas condições, o inconsciente coletivo institucional torna-se fértil, colaborando com a construção de ambientes de trabalho onde a vida psíquica possa florescer.
Reencantar o trabalho não é um ideal romântico, mas uma necessidade civilizatória. Ao integrar o Feminino simbólico e permitir que o Self se manifeste também no campo profissional, criam-se organizações capazes de refletir um nível mais elevado de consciência – instituições mais maduras, mais humanas e mais alinhadas à totalidade da alma.
A questão que permanece é: até quando suportaremos organizações que insistem em sobreviver à custa da alma?
Josianne Martins de Oliveira – Analista em formação pelo IJEP
Lia Romano – Analista Didata IJEP
Referências:
HILLMAN, James. Anima: a psicologia arquetípica do Lado Feminino da Alma no Homem e sua Interioridade na Mulher. 2ª ed. São Paulo: Cultrix, 2020.
JUNG, Carl Gustav Aion: Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.
______ A Natureza da Psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.
______ Civilização em Transição. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.
______ Psicologia do Inconsciente. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014a.
______ Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2014b.
NEUMANN, Erich. História da origem da consciência. 5. ed. São Paulo: Cultrix, 1990.
______ Psicologia profunda e uma nova ética. 5. ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1991.
______ O medo do feminino e outros ensaios sobre a psicologia feminina. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2000.

