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	<title>Arquivos Redes Sociais - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Thu, 26 Feb 2026 22:31:29 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Redes Sociais - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O Sofrimento como Entretenimento nas Redes Sociais </title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-sofrimento-como-entretenimento-nas-redes-sociais/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bianca Franco]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Feb 2026 10:50:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>
		<category><![CDATA[Espetáculo]]></category>
		<category><![CDATA[redes sociais]]></category>
		<category><![CDATA[sofrimento nas redes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Observamos em nossa sociedade atual a demanda por performance na vida pessoal para que as pessoas se mantenham relevantes em seus círculos sociais. A lógica algorítmica de funcionamento das redes sociais silencia gradativamente o contato do indivíduo com sua subjetividade e desloca do ego a possibilidade de experiência simbólica diante da vida. Em busca de narrativas que promovam engajamento e audiência, o indivíduo, na escassez de sua intimidade com o mundo imaginal e tomado por complexos sombrios, dá voz à persona do sofrimento. Essa, transforma o próprio sofrimento em entretenimento de massa como ferramenta de pertencimento social e manutenção do indivíduo na identificação com a coletividade e com seus sintomas.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Neste artigo, proponho ampliarmos, à luz da psicologia analítica, o tema da identificação unilateral com a persona — em especial a persona do sofrimento — e aprofundarmos como ela se difunde nas redes sociais em forma de espetacularização, dialogando com as reflexões de Guy Debord em sua obra&nbsp;<em>A Sociedade do Espetáculo</em>&nbsp;(1992).&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-observamos-em-nossa-sociedade-atual-a-demanda-por-performance-na-vida-pessoal-para-que-as-pessoas-se-mantenham-relevantes-em-seus-circulos-sociais" style="font-size:18px">Observamos em nossa sociedade atual a demanda por performance na vida pessoal para que as pessoas se mantenham relevantes em seus círculos sociais.</h2>



<p style="font-size:18px">A lógica algorítmica de funcionamento das redes sociais silencia gradativamente o contato do indivíduo com sua subjetividade e desloca do ego a possibilidade de experiência simbólica diante da vida. Em busca de narrativas que promovam engajamento e audiência, o indivíduo, na escassez de sua intimidade com o mundo imaginal e tomado por complexos sombrios, dá voz à persona do sofrimento. Essa, transforma o próprio sofrimento em entretenimento de massa como ferramenta de pertencimento social e manutenção do indivíduo na identificação com a coletividade e com seus sintomas.</p>



<p style="font-size:18px">Observamos na atualidade o impulso dos indivíduos em experienciar a vida prioritariamente através das narrativas pautadas pelas redes sociais, enquanto a subjetividade vem sendo, cada vez mais, reduzida para caber nas dimensões das telas.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">Manter-se relevante no universo digital demanda do indivíduo a constante atitude de produzir e performar. Essa exigência, contudo, impõe exageradamente a unilateralização racional da vida e afasta os indivíduos do contato com a experiência de vida simbólica.</p>



<p style="font-size:18px">Jung afirma que só é possível alcançar um estado de realização quando temos a capacidade de sustentarmo-nos como indivíduos íntegros, ou seja, de unir a vida concreta à potência criativa do mundo imaginal.&nbsp;Ele diz:</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-large" style="font-size:18px"><blockquote><p>A pessoa humana precisa de vida simbólica. E precisa com urgência. (…) não temos vida simbólica, mas temos necessidade premente dela. Somente a vida simbólica pode expressar a necessidade da alma – a necessidade diária da alma.</p><cite>JUNG, 2023, p. 627</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-completa-mais-adiante" style="font-size:18px">E completa mais adiante:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>O simples fato de alguém viver a vida simbólica tem uma influência extraordinariamente civilizadora. Essas pessoas são bem mais civilizadas e criativas por causa da vida simbólica. As pessoas apenas racionais têm pouca influência; tudo nelas se resume a discurso e com discurso não se vai longe”.</p><cite>JUNG, 2023, p. 653</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">Neste artigo, proponho ampliarmos, à luz da psicologia analítica, o tema da identificação unilateral com a persona — em especial a persona do sofrimento — e aprofundarmos como ela se difunde nas redes sociais em forma de espetacularização, dialogando com as reflexões de Guy Debord em sua obra&nbsp;<em>A Sociedade do Espetáculo</em>&nbsp;(1992).&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sociedade-do-espetaculo-e-sua-representacao-nas-redes-sociais"><strong>A Sociedade do Espetáculo e sua representação nas redes sociais</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Guy Debord (1992, p. 4) define o espetáculo a partir da mediação de imagens nas relações sociais, que, em prol da representação acerca de determinado objeto, perdem seu caráter autêntico e real.&nbsp;O conceito de sociedade do espetáculo parte do princípio de que a desconexão das pessoas com a realidade origina-se de uma alienação generalizada, na qual a representação de uma realidade imaginada reduz a vida em moldes fragmentados. O autor afirma: “<strong><em>A realidade considerada parcialmente, apresenta-se em sua própria unidade geral como pseudomundo à parte, objeto de mera contemplação</em></strong>” (DEBORD, 1992, p.2).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-atualmente-as-redes-sociais-expressam-o-formato-mais-evidente-da-sociedade-do-espetaculo-desempenhando-o-papel-de-repositorio-de-positividade-e-anestesiamento-da-realidade-nbsp" style="font-size:18px">Atualmente, as redes sociais expressam o formato mais evidente da sociedade do espetáculo, desempenhando o papel de repositório de positividade e anestesiamento da realidade.&nbsp;</h2>



<p style="font-size:18px">A mesma tecnologia que chegou com a promessa de criar conexões tornou-se a maior ferramenta de desconexão da contemporaneidade – estamos&nbsp;<em>online</em>&nbsp;a todo momento, mas cada vez mais distantes de nós mesmos e do outro. Tomados pelo espírito da época, os indivíduos estão aprisionados na constante busca por interações externas e estímulos que reforcem sua aprovação e adequação no lugar comum.</p>



<p style="font-size:18px">Numa sociedade que estimula o espelhamento do indivíduo na cultura de massa, as experiências pessoais tornam-se apenas reflexos da repetição de padrões coletivos, sustentando indivíduos acríticos e de atitude fragilizada perante as questões da vida.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">A ótica espetacular não faz distinção entre “individual” e “coletivo”, uma vez que a total transparência impede a individualidade. Existindo de forma coletiva, as pessoas vivem uma proximidade simbiótica com sua rede. O que é individual e íntimo se torna de domínio público e a vida pessoal é transformada em entretenimento de massa.</p>



<p style="font-size:18px">Na busca por visibilidade e validação, os usuários deslocam a autenticidade das experiências para promover narrativas virais que geram engajamento, ainda que sejam desvinculadas da realidade vivida, sendo manipuladas e formatadas para caber nos requisitos dos algoritmos.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">Surge, assim, a&nbsp;instrumentalização da vida e da autoimagem, onde o sentido significativo da subjetividade é deslocado para a ode à performance.&nbsp;A partir da ótica instagramável, as pessoas buscam representar a própria vida dentro de moldes estéticos e performáticos estando, a todo momento, em evidência, promovendo o eco de si mesmo em busca de engajamento e audiência.</p>



<p style="font-size:18px">No entanto, em função de seu imediatismo e da multiplicidade de eventos no universo digital, as pessoas sofrem com o constante esgotamento de narrativas. Os símbolos de aspiracionalidade e entretenimento são rapidamente consumidos e esvaziados, precisando se reciclar o tempo todo.&nbsp;Diante disso, complexos ganham roupagens midiáticas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-esclarece-a-dinamica-geral-do-funcionamento-dos-complexos" style="font-size:18px">Jung esclarece a dinâmica geral do funcionamento dos complexos:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O complexo é um fator psíquico que, em termos de energia, possui um valor que supera, às vezes, o de nossas intenções conscientes; (…) um complexo ativo nos coloca por algum tempo num estado de&nbsp;<em>não liberdade</em>, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas.</p><cite>JUNG, 2008, p. 200</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-sofrimento-como-narrativa-de-entretenimento"><strong>O sofrimento como narrativa de entretenimento</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Pelas lentes da estetização, o sofrimento passou a ser ‘instagramável’. Narrativas sombrias surgem como novos formatos de entretenimento viral e a patologização da saúde mental manifesta-se como uma nova tendência a ser seguida e reproduzida pelos usuários.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">Sob o ponto de vista psicológico, as redes sociais oferecem aos indivíduos as ferramentas necessárias para a manutenção de persona, uma vez que os perfis são tidos como um palco particular, voltado às próprias narrativas, expressões e filtrados por seus interesses.&nbsp;Para Jung:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>A persona é, pois, um complexo funcional que surgiu por razões de adaptação ou de necessária comodidade, mas que não é idêntico à individualidade. O complexo funcional da persona diz respeito exclusivamente à relação com os objetos.</p><cite>JUNG, 1991a, p. 390</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">Nesse sentido, nasce o que chamo, nesse estudo, de “persona do sofrimento”.&nbsp;Paradoxalmente, aspectos sombrios frequentemente negligenciados ou reprimidos pelo indivíduo são as partes da persona do sofrimento performadas nas redes sociais.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">Tal espetacularização escancara a superficialidade das pessoas em relação ao próprio sofrimento e demonstra como a autoexposição se converte rapidamente em autoexploração. Publicações pautadas na identificação do indivíduo com seu sofrimento reforçam padrões de comportamento que o moldam dentro do papel de vítima, perpetuando a figura de bode expiatório de si mesmo.</p>



<p style="font-size:18px">Ou seja, a persona do sofrimento atua como um veículo para depósito de projeções, externas e internas, deslocando do ego a responsabilização e confronto com a causa de seu sofrimento e tornando-o ainda mais fragilizado e vulnerável diante da vida.</p>



<p style="font-size:18px">Existe uma inflação que caminha junto com a identificação com a imagem do bode expiatório porque esse indivíduo carrega também a projeção da esperança de cura da massa (Cf. GIRARD, 2004). Jung afirma:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Quando a sociedade, como conjunto, necessita de uma figura que atue magicamente, serve-se da vontade de poder do indivíduo e da vontade de submissão da massa como veículo, possibilitando assim a criação do prestígio pessoal.</p><cite>JUNG, 2008, p. 237</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-identificacao-unilateral-patologica-com-a-persona-do-sofrimento"><strong>Identificação unilateral patológica com a persona do sofrimento</strong></h2>



<p style="font-size:18px">À medida que o ego se confunde com a máscara social que performa o sofrimento, ele vai sendo tomado pelos conteúdos sombrios não integrados e seus complexos passam a atuar de maneira rígida. O sofrimento real não é acolhido e integrado, mas adaptado e performado no contexto das narrativas digitais.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">A constante exposição e validação da persona submete gradativamente o ego à identificação patológica, na qual o indivíduo não apenas fica unilateralmente identificado, mas acredita encontrar nela o caminho para seu pertencimento social. Desconsiderando a totalidade psíquica por meio de sua indiferenciação em relação aos complexos e a coletividade, o indivíduo fica paralisado, vivendo uma vida provisória, de sobrevivência e subserviência, de promessas sem garantias.&nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">Vivemos em uma sociedade paliativa, onde nenhuma manifestação de negatividade ou sofrimento é verbalizada ou experienciada em profundidade. Esquecemos como dar forma ao sofrimento e, como consequência, estamos perdendo a possibilidade de nos relacionarmos em profundidade com o tema da nossa dor.</p>



<p style="font-size:18px">A unilateralização patológica confere ao indivíduo não o desintegrar-se para reconstituir-se, mas sim sua identificação com os sintomas como atributos permanentes e imutáveis, inexoravelmente fundidos à sua personalidade.</p>



<p style="font-size:18px">A persona do sofrimento excessivamente unilateral reflete ausência de contato do indivíduo com a dimensão simbólica dos sintomas, inibindo o processo de cura interior, que não consiste na eliminação de sintomas, mas no processo de elaboração simbólica por meio deles, capacitando o indivíduo a atribuir sentido ao próprio sofrimento.</p>



<p style="font-size:18px">Na capacidade de morte simbólica, reside no indivíduo que ousa viver, a liberdade da vida. Assim, compreendendo-a não como um estado permanente, mas como um processo dinâmico a partir das diversas mortes e renascimentos possíveis de se experenciar dentro de uma única vida.</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-large" style="font-size:18px"><blockquote><p>Possuindo a imagem de uma coisa, possuímos a metade da coisa. A imagem do mundo é a metade do mundo. Quem possui o mundo, mas não sua imagem, possui só a metade do mundo, pois sua alma é pobre e sem bens.&nbsp;A riqueza da alma consiste de imagens. Quem possui a imagem do mundo possui a metade do mundo, mesmo quando seu humano é pobre e sem bens. Mas a fome transforma a alma em fera e engole o prejudicial e com isso se envenena. Meus amigos, é sábio alimentar a alma, senão criareis dragões e demônios em vossos corações.</p><cite>JUNG, LV, pag. 118</cite></blockquote></figure>



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<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/bianca-franco/">Bianca Franco – Analista em formação pelo IJEP</a></strong><br><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Balestrini – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p>DEBORD, Guy. <em>A sociedade do espetáculo</em>. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.</p>



<p>GIRARD, René. <em>O bode expiatório</em>. São Paulo: Paulus, 2004.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 1991.<br>______ O eu e o inconsciente. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2008.<br>______ A vida simbólica. 17. ed. Petrópolis: Vozes, 2023.<br>______ O Livro Vermelho. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Depressão e Redes Sociais: Impactos, relações e desafios</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/depressao-e-redes-sociais-impactos-relacoes-e-desafios/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pollyana de Padua]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Feb 2026 13:00:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depressão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: As redes sociais ocupam um papel central na vida atual, moldando comportamentos, relações e a percepção de si. Embora favoreçam conexões e acesso a informação, também podem intensificar conflitos internos e contribuir para quadros depressivos. A partir dos conceitos junguianos como persona, sombra, complexos e energia psíquica, o texto discute como o uso das [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: As redes sociais ocupam um papel central na vida atual, moldando comportamentos, relações e a percepção de si. Embora favoreçam conexões e acesso a informação, também podem intensificar conflitos internos e contribuir para quadros depressivos. A partir dos conceitos junguianos como persona, sombra, complexos e energia psíquica, o texto discute como o uso das redes potencializa comparações, favorecendo a unilateralização da atitude consciente e influenciando simbolicamente na construção de uma nova identidade contemporânea. O artigo destaca que as redes sociais distorcem profundamente a construção da personalidade, ampliando a distância entre ego e conteúdos inconscientes. Por fim, o artigo é um convite ao processo de autoconhecimento como via criativa para o resgate do indivíduo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-redes-sociais-tornaram-se-parte-central-da-vida-contemporanea-influenciando-comportamentos-formas-de-interacoes-e-percepcoes-de-si-mesmo" style="font-size:19px">As redes sociais tornaram-se parte central da vida contemporânea, influenciando comportamentos, formas de interações e percepções de si mesmo.</h2>



<p style="font-size:19px">Embasado nessa perspectiva, apesar de benéfica para conexões, informações e aproximações humanas, o risco é significativo para o desenvolvimento ou o agravamento de quadros depressivos.</p>



<p style="font-size:19px">A partir de conceitos como <strong>persona, sombra, complexo, energia psíquica </strong>e<strong> processo de individuação</strong>, podemos discutir como o uso das redes pode intensificar conflitos psíquicos, favorecer comparações e ativar complexos negativos. O artigo também analisa a função simbólica das redes sociais e sua influência na formação de uma nova identidade contemporânea.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-redes-sociais-tem-o-poder-de-transformar-radicalmente-o-modo-como-o-sujeito-constroi-e-apresenta-sua-identidade" style="font-size:19px">As redes sociais têm o poder de transformar radicalmente o modo como o sujeito constrói e apresenta sua identidade.</h2>



<p style="font-size:19px">Esse ambiente intensifica tensões entre persona, determinada aqui como máscara social, e sombra, enquanto aspectos não admitidos de si. Em muitos casos, tais tensões podem favorecer dinâmicas internas que alimentam quadros depressivos, especialmente quando a energia psíquica se fixa em comparações, expectativas idealizadas e buscas compulsivas por validação.</p>



<p style="font-size:19px">A <strong>depressão </strong>constitui uma categoria importante de transtorno psiquiátrico caracterizada como&nbsp; um transtorno do humor. Entretanto, ampliando na perspectiva junguiana, é compreendida como um fenômeno psíquico que pode emergir de influxos da energia psíquica e da dissociação entre consciência e inconsciente. Neste sentido, quando um indivíduo transita pelas redes sociais, encontra um espaço fértil para conflitos internos, intensificando o estado depressivo.</p>



<p style="font-size:19px">O conceito de <strong>persona</strong>, ou máscara social, bem elaborada por Jung, necessária para adaptação do ego, encontra-se nas redes sociais hiperestimulada: filtros, narrativas idealizadas e a autopromoção criam uma imagem que muitas vezes pouco corresponde à personalidade.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo”. (JUNG, 2015, p.47, §246)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Quando o indivíduo se identifica excessivamente com essa <strong>persona digital</strong>, inicia-se uma série de riscos à própria pessoa: perda das emoções autênticas, fortalecimento da comparação com personagens idealizados, imersão em um mundo fantasioso &#8211; criando um abismo entre o self e o ego -. Tais elementos, promovem a unilateralização do ego, gerando uma discrepância dolorosa entre quem se mostra e quem verdadeiramente se é, esbarrando num campo minado e fértil para os estados depressivos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-fenomeno-observavel-no-ambiente-das-redes-sociais-e-o-que-conhecemos-como-sombra" style="font-size:19px">Outro fenômeno observável no ambiente das redes sociais é o que conhecemos como sombra.</h2>



<p style="font-size:19px">Como conteúdos rejeitados pela consciência, a sombra nas redes sociais surge por meio de projeções, manifestando sentimentos como inveja, inferioridade, arrogância, ataques de fúria, ativando complexos ligados ao fracasso, abandono, culpa e perfeccionismo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>A parte inferior da personalidade. Soma de todos os elementos psíquicos pessoais e coletivos que, incompatíveis com a forma de vida conscientemente escolhida, não foram vividos e se unem ao inconsciente, formando uma personalidade parcial, relativamente autônoma, com tendências opostas às do consciente. A sombra se comporta de maneira compensatória em relação à consciência. Sua ação pode ser tanto positiva como negativa. (JUNG, 1986, p. 495)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sendo-assim-a-sombra-enquanto-caracteristicas-excluidas-do-processo-adaptativo-habita-o-que-denominamos-na-psicologia-junguiana-de-inconsciente-pessoal" style="font-size:19px">Sendo assim, a <strong>sombra</strong>, enquanto características excluídas do processo adaptativo habita o que denominamos na psicologia junguiana de inconsciente pessoal.</h2>



<p style="font-size:19px">Nesta camada do inconsciente há outro fenômeno importante para nossa discussão, denominado complexo. Os complexos são formados por núcleos autônomos, inconscientes ou semi-inconscientes, nunca conscientes &#8211; o que perderiam a característica de complexos -, influenciando comportamentos e emoções.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Como é que surge então um complexo autônomo? Por alguma razão uma região até agora inconsciente da psique é ativada; pela reanimação ela se desenvolve e se amplia mediante inclusão de associações afins. Naturalmente a energia necessária para este fim é retirada do consciente [&#8230;]. A intensidade de atividades e interesses conscientes diminui gradativamente, surgindo ou uma apatia [&#8230;] ou um desenvolvimento regressivo das funções conscientes, isto é, uma descida às suas condições infantis e arcaicas, algo como uma degenerescência. As parties inférieures des fonctions, como disse Janet, impõem-se: o instintivo sobre o ético, o ingênuo-infantil sobre o ponderado, o adulto e a inadaptação sobre a adaptação. [&#8230;] O complexo autônomo desenvolve-se usando a energia retirada do comando consciente da personalidade. (JUNG, 2013b, § 123)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">A dependência da aprovação externa, reforçada pelo aumento das ‘’curtidas’’, pelas reações e devolutivas negativas e agressivas, intensifica a ação dos complexos e a perda de autonomia do ego. Aqui mora um monstro escondido no inconsciente, pronto para aparecer e fragilizar o ego, aumentar o sentimento de vazio, retrair a energia psíquica, alimentando os sintomas depressivos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sendo-assim-quando-esses-complexos-sao-ativados-exaustivamente-dentro-do-contexto-do-uso-excessivo-das-redes-sociais-a-energia-psiquica-disponivel-para-o-ego-pode-ser-drenada" style="font-size:19px">Sendo assim, quando esses complexos são ativados exaustivamente dentro do contexto do uso excessivo das redes sociais, a energia psíquica disponível para o ego pode ser drenada.</h2>



<p style="font-size:19px">Em outras palavras, caracteriza-se como transtorno depressivo: perda do interesse ou prazer, humor deprimido na maioria dos dias &#8211; quase todos os dias, no período de duas semanas -, alteração do apetite e do peso, insônia ou hipersonia, alterações cognitivas, fadiga ou perda de energia, sentimentos de inutilidade, evoluindo para pensamentos recorrentes de morte, ideação suicida sem plano ou com plano especifico para então cometer o suicídio (ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA, 2014, p. 161).</p>



<p style="font-size:19px">Esse sofrimento tem um significado importantíssimo para o indivíduo, um convite agridoce à interiorizar-se. Este chamado se apresenta na própria etimologia da palavra, que surge a partir do verbo <em>deprimere</em>, significando &#8220;pressionar para baixo&#8221; ou &#8220;afundar&#8221;.</p>



<p style="font-size:19px">Sendo assim, o indivíduo precisa se reorganizar, se reconhecer como um ser único e capaz, rico em possibilidades, reconhecer seus conteúdos sombrios projetados, rever os complexos que o constituem, e retomar o laço com o si-mesmo (Self).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Como a palavra sugere, numa depressão a pessoa é pressionada para baixo, comprimida, em geral porque uma parte da libido psicológica está embaixo e tem de ser resgatada; a verdadeira energia da vida caiu numa camada mais profunda da personalidade e só pode ser alcançada por meio de uma depressão. Assim, a menos que haja uma psicose latente, as depressões devem ser encorajadas e as pessoas, aconselhadas a entrar nelas e ser deprimidas [&#8230;], se as depressões dizem que a vida nada significa e que nada vale a pena, deve-se aceitar isso e perguntar o que fazer. O que há a fazer é ouvir, mergulhar cada vez mais fundo, até se atingir o nível da energia psicológica em que alguma ideia criativa pode surgir; de repente, no fundo, aparecerá um impulso de vida e de criatividade que havia sido ignorado. (FRANZ, 2022, p. 175)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conclui-se-que-a-depressao-pode-ser-um-chamado-de-alerta-para-se-distanciar-do-virtual-reviver-o-real-o-toque-sentir-o-calor-do-sol" style="font-size:19px">Conclui-se que a depressão pode ser um chamado de alerta para se distanciar do virtual, reviver o real, o toque, sentir o calor do sol.</h2>



<p style="font-size:19px">Uma resposta prática para iniciar o confronto com esta doença é praticar atividades físicas, promovendo a liberação de endorfinas, aumentando a dopamina &#8211; que participa dos circuitos de recompensa e motivação. Neste sentido, estimulando as atividades prazerosas e interações sociais, há o aumento de serotonina, associado a regulação do humor, sono, apetite e da sensação de bem estar. Longe de ser atitudes definitivas, elas são suporte para o ego que precisa ir de encontro com seus conteúdos inconscientes em prol do autoconhecimento.</p>



<p style="font-size:19px">Por fim, não podemos esquecer que na perspectiva junguiana, o confronto com estes sentimentos de angústia e com este vazio precisa ser encarado também de uma forma criativa. Associar a visão da psiquiatria e da psicologia analítica é uma estratégia que pode iluminar este embate. Também é importante não perder de vista o problema do uso abusivo das redes sociais. Como tratamos, seu excesso evidência e corrobora para a impotência do ego diante da identificação com a persona, a projeção da sombra e a invasão de complexos. A depressão não vai desaparecer enquanto não embarcarmos no processo de individuação. É preciso coragem.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Depressão e Redes Sociais: Impactos, relações e desafios" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/uaJ9_lRSC4E?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/pollyana-guilhermino-de-padua/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/pollyana-guilhermino-de-padua/">Pollyana Guilhermino de Pádua &#8211; Membro Analista em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata e Fundadora do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p><br>ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais : DSM-5. 5. ed. Porto Alegre : Artmed, 2014.</p>



<p>FRANZ, Marie-Louise von. <em>Alquimia </em>: uma introdução ao simbolismo e seu significado na psicologia de Carl G. Jung, 2. ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2022.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p>______ <em>O espírito na arte e na ciência.</em> 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p>______ <em>O eu e o inconsciente. </em>27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p>______ <em>O homem e seus símbolos. </em>3. ed. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2016.</p>



<p>______ <em>Memórias, Sonhos, Reflexões</em>&nbsp; 35. ed. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1986.</p>



<p>SADOCK, Benjamin J. <em>Compêndio de psiquiatria</em> : ciência do comportamento e psiquiatria clínica.&nbsp; 11. ed. Porto Alegre : Artmed, 2017.</p>



<p style="font-size:22px"><strong>Canais IJEP</strong>:</p>



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<p>Cursos e Pós-graduações &#8211; Psicologia Junguiana/ Arteterapia e expressões criativas / Psicossomática:</p>



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		<title>Sharenting: A exposição dos filhos nas redes sociais e o lado sombrio da parentalidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sharenting-a-exposicao-dos-filhos-nas-redes-sociais-e-o-lado-sombrio-da-parentalidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Clarisse Grand Court]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Dec 2025 17:51:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>
		<category><![CDATA[crianças]]></category>
		<category><![CDATA[exposição infantil]]></category>
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		<category><![CDATA[redes sociais]]></category>
		<category><![CDATA[sharenting]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O sharenting tornou-se uma prática comum na parentalidade contemporânea, transformando momentos íntimos da infância em conteúdo público e performático. Embora nasça do orgulho ou da vontade de partilhar, essa exposição revela tensões profundas entre privacidade, projeção parental e construção do ego infantil. Sob a ótica da psicologia analítica, o fenômeno ultrapassa o campo social [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O <em>sharenting </em>tornou-se uma prática comum na parentalidade contemporânea, transformando momentos íntimos da infância em conteúdo público e performático. Embora nasça do orgulho ou da vontade de partilhar, essa exposição revela tensões profundas entre privacidade, projeção parental e construção do ego infantil. Sob a ótica da psicologia analítica, o fenômeno ultrapassa o campo social e aponta para dinâmicas inconscientes que moldam a relação entre pais e filhos. Entre persona e sombra, visibilidade e vínculo, surge um retrato complexo da parentalidade atual. Este artigo busca iluminar essas camadas, refletindo sobre os riscos psíquicos e simbólicos que habitam por trás das postagens aparentemente inocentes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-imagine-uma-mae-ou-pai-postando-todas-as-etapas-da-vida-do-filho-primeiro-sorriso-primeiros-passos-brincadeiras-reclamacoes-conquistas-escolares-tudo-isso-numa-timeline-publica-com-amor-orgulho-mas-tambem-com-expectativa" style="font-size:19px"><strong>Imagine uma mãe ou pai postando todas as etapas da vida do filho: primeiro sorriso, primeiros passos, brincadeiras, reclamações, conquistas escolares — tudo isso numa <em>timeline</em> pública, com amor, orgulho, mas também com expectativa.</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Com o passar do tempo, esse perfil ganha centenas ou até milhares de seguidores que amam participar do crescimento daquela criança. Esse é um cenário cada vez mais comum: o fenômeno chamado <em><strong>sharenting</strong></em> — isto é, pais compartilhando excessivamente detalhes da vida de seus filhos nas redes sociais.</p>



<p style="font-size:19px">Embora muitos façam isso com boas intenções — desejo de partilha, orgulho, autopromoção leve — começam a surgir questionamentos: até onde vai o direito à privacidade da criança? Como essas exposições moldam o conceito de autoimagem da criança e o seu entendimento de pertencimento no mundo? Onde termina o cuidado e começa a projeção dos pais nos filhos?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pesquisas-realizadas-em-diversos-paises-evidenciam-que-a-pratica-de-sharenting-se-tornou-um-comportamento-do-nosso-tempo" style="font-size:19px">Pesquisas realizadas em diversos países evidenciam que a prática de <em>sharenting</em> se tornou um comportamento do nosso tempo.</h2>



<p style="font-size:19px">O artigo “<em>Sharenting</em>: características e nível de conhecimento dos pais que publicam conteúdo sensível de seus filhos em plataformas online” (tradução livre), publicado no site <em>Italian Journal of Pediatrics </em>(2024)<em>,</em> detalha um estudo que buscou identificar o perfil e o grau de conscientização dos pais que compartilhavam conteúdos de seus filhos. Para isso, foram entrevistados duzentos e vinte e oito pais de crianças menores de 18 anos (82% mães, 18% pais); 98% dos respondentes utilizavam redes sociais e 75% deles publicavam conteúdo relacionado aos seus filhos online. Trinta e um por cento dos responsáveis ​​pela publicação de conteúdo online começaram a praticar o &#8220;<em>sharenting</em>&#8221; nos primeiros 6 meses de vida de seus filhos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-brasil-estudos-apontam-a-mesma-realidade" style="font-size:19px">No Brasil, estudos apontam a mesma realidade.</h2>



<p style="font-size:19px">A exposição da vida dos filhos por seus responsáveis é uma prática cada vez mais presente: pesquisas recentes indicam que <strong>75% das crianças e adolescentes brasileiros possuem perfis em redes sociais</strong>, e<strong>um terço deles têm contas totalmente abertas ao público</strong> (Instituto Locomotiva &amp; Único, 2024). Além disso, <strong>61% das postagens infantis revelam dados pessoais e familiares</strong>, como localização e rotina (TIC Kids Online Brasil, 2024).</p>



<p style="font-size:19px">No entanto, embora o <em><strong>sharenting</strong></em> seja uma prática amplamente disseminada, ainda são escassos os estudos que investigam seus efeitos psicológicos mais profundos — tanto sobre as crianças quanto sobre os próprios pais. Sob a ótica da psicologia analítica, ampliar essa discussão permite compreender o fenômeno não apenas como um comportamento social, mas como expressão simbólica de conteúdos psíquicos inconscientes.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>A exposição constante dos filhos nas redes pode ser lida como uma manifestação do que denomino “Parentalidade Performática” — uma forma de relação entre pais e filhos mediada por ideais de sucesso, reconhecimento e validação externa.</strong></p>



<p style="font-size:19px">Nesse contexto, o amor e o cuidado passam a ser filtrados por métricas de visibilidade — <em>likes</em>, seguidores e engajamento —, deslocando o eixo da parentalidade do vínculo afetivo para a imagem idealizada. Assim, o que deveria ser espaço de encontro genuíno, construção de vínculo afetivo, transforma-se em palco para a “persona parental”, onde a sombra da parentalidade se esconde sob o verniz da dedicação e do amor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sharenting-e-a-projecao-parental" style="font-size:22px"><strong><em>Sharenting</em> e a Projeção Parental</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Sob a perspectiva Junguiana, podemos analisar o fenômeno do <em><strong>sharenting</strong></em> como uma extensão contemporânea do conceito de <strong>persona</strong>, isto é, a máscara social que o indivíduo constrói para se adaptar e ser aceito. “&#8230; um compromisso entre indivíduo e a sociedade a cerca daquilo que ‘alguém parece ser’: nome, título, função e isto ou aquilo. [&#8230;] apenas uma imagem ou compromisso” (JUNG, 2020b, p.151).</p>



<p style="font-size:19px">As redes sociais, nesse sentido, tornaram-se o novo palco onde essa persona é encenada — agora não apenas pelo adulto de forma individual, mas também através da imagem da “família perfeita”, que passa a representar um ideal de parentalidade. Nesse caso, o filho, então, é investido de um papel simbólico, refletindo o sucesso, a beleza e a harmonia que os pais desejam projetar ao mundo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Os filhos são estimulados para aquelas realizações que os pais jamais conseguiram; a eles são impostas as ambições que os pais nunca realizaram.</p><cite>JUNG, 2021, p.182</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Entretanto, como todo movimento psíquico que privilegia a persona, há um preço: a <strong>sombra</strong> &#8211; aquilo que é reprimido, negado ou não reconhecido &#8211; que se acumula no inconsciente. </p>



<p style="font-size:19px">Nesse caso, manifesta-se na forma de ansiedade, comparação, culpa e um distanciamento silencioso do vínculo afetivo genuíno, substituído pela necessidade de validação constante.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>[&#8230;] sombra, aquela personalidade oculta, recalcada, frequentemente inferior e carregadas de culpas, cujas ramificações se estendem até o reino de nossos ancestrais.   A sombra não é constituída apenas de tendências moralmente repreensíveis, mas apresenta um certo número de boas qualidades: instintos normais, reações adequadas, impulsos criadores, e outros. </p><cite>JUNG, 2020a, p. 312-13</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Nesse contexto, os pais que passam a viver a vida e a “fama” dos filhos construída através desses perfis nas redes sociais, projetando seus desejos conscientes e inconscientes nas crianças e tentando aplacar seus anseios juvenis não realizados.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jacoby-traz-a-seguinte-reflexao" style="font-size:19px">JACOBY traz a seguinte reflexão:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>[&#8230;] a projeção inconsciente da criança simbólica na criança real, concreta, deve-se frequentemente ao fato de os pais, quer seja o pai ou a mãe, ou ambos juntos, não terem acesso à realização na vida a partir dos seus próprios recursos.</p><cite>2019, p.28</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-medida-que-a-crianca-cresce-imersa-em-uma-realidade-fabricada-um-recorte-de-momentos-esteticamente-agradaveis-fofos-e-performaticos-sua-vivencia-emocional-tende-a-se-distanciar-da-experiencia-genuina-da-vida" style="font-size:19px"><strong>À medida que a criança cresce imersa em uma realidade fabricada — um recorte de momentos esteticamente agradáveis, fofos e performáticos —, sua vivência emocional tende a se distanciar da experiência genuína da vida.</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Essa infância construída sob a lógica da imagem e da aprovação pública pode comprometer o desenvolvimento da capacidade de lidar com a vida comum, imperfeita e sem aplausos: aquela que envolve erros, frustrações e limites. No entanto, é justamente no contato com essas adversidades que o ego vai encontrar um terreno fértil para se estruturar de forma saudável, resiliente e autêntica, reconhecendo sua própria força interior. Segundo Jung, “os problemas recalcados e os sofrimentos que foram deste modo poupados fraudulentamente na vida produzem um veneno secreto, que penetra na alma dos filhos&#8221;(2021, p.89).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-parentalidade-performatica-e-a-fragilidade-do-ego" style="font-size:22px"><strong>Parentalidade Performática e a Fragilidade do Ego</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Nesse sentido, retomo a importante reflexão de Jung sobre o desenvolvimento infantil<em>: “É preciso que se tomem as crianças como elas são de verdade, e não como gostaríamos que fossem” </em>(2021, p. 45). Amar uma criança, portanto, implica acolher sua realidade psíquica, suas limitações e potências, sem moldá-la à imagem dos nossos ideais.</p>



<p style="font-size:19px">Oferecer um amor verdadeiro é criar vínculos de afeto e confiança baseados na autenticidade do ser — não na performance. Isso também inclui ensiná-las, desde cedo, a distinguir o que pertence ao espaço íntimo e ao que pode ser partilhado no espaço público, favorecendo a formação de limites saudáveis.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-essa-diferenciacao-se-perde-o-processo-de-desenvolvimento-do-ego-que-depende-do-reconhecimento-entre-o-eu-interno-e-o-mundo-externo-fica-comprometido-abrindo-espaco-para-um-ego-fragilizado-e-dependente-da-aprovacao-alheia" style="font-size:19px"><strong>Quando essa diferenciação se perde, o processo de desenvolvimento do ego — que depende do reconhecimento entre o eu interno e o mundo externo — fica comprometido, abrindo espaço para um ego fragilizado e dependente da aprovação alheia.</strong></h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Ninguém pode educar para a personalidade se não tiver personalidade. E não a criança, mas sim o adulto quem pode atingir a personalidade como o fruto do amadurecido pelo esforço da vida orientada para esse fim. Atingir a personalidade não é tarefa insignificante, mas o melhor desenvolvimento possível da totalidade de um indivíduo determinado. Personalidade é a realização máxima da índole inata e específica de um ser vivo em particular. Personalidade é a obra a que se chega pela máxima coragem de viver, pela afirmação absoluta do ser individual, e pela adaptação, a mais perfeita possível, a tudo que existe de universal, e tudo isto aliado à máxima liberdade de decisão própria.</p><cite>JUNG, 2021, p.82</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-a-experiencia-subjetiva-da-crianca-e-substituida-pela-necessidade-de-manter-uma-imagem-idealizada-corre-se-o-risco-de-formar-um-ego-fragil-sustentado-por-validacoes-externas" style="font-size:19px"><strong>Quando a experiência subjetiva da criança é substituída pela necessidade de manter uma imagem idealizada, corre-se o risco de formar um ego frágil, sustentado por validações externas.</strong></h2>



<p style="font-size:19px">A criança aprende, ainda muito cedo, que o valor está na aparência, no aplauso e na aprovação — e não na vivência autêntica de quem ela é. Esse movimento gera uma dissociação sutil entre o ser e o parecer, fragilizando o contato com o si-mesmo e com o próprio sentido interno de existência. Do ponto de vista simbólico, poderíamos dizer que a imagem virtual assume o lugar do que seria o prenúncio de uma identidade: em vez de seguir no caminho do desenvolvimento natural da personalidade, passa a distorcê-lo segundo as expectativas parentais e sociais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-resultado-e-um-ego-que-busca-incessantemente-confirmar-sua-existencia-pela-visibilidade-mas-que-teme-o-anonimato-e-o-erro-justamente-as-experiencias-que-o-tornariam-mais-humano-e-inteiro" style="font-size:19px">O resultado é um ego que busca incessantemente confirmar sua existência pela visibilidade, mas que teme o anonimato e o erro — justamente as experiências que o tornariam mais humano e inteiro.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A personalidade já existe em germe na criança, mas só se desenvolverá aos poucos por meio da vida e no decurso da vida. Sem determinação, inteireza e maturidade não há personalidade.</p><cite>JUNG, 2021, p. 182</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Reconhecer a sombra presente na <strong>parentalidade performática</strong> é um passo essencial para restaurar a autenticidade dos vínculos e reequilibrar o lugar da infância em nossa sociedade. Quando pais e mães tomam consciência das motivações inconscientes que os levam a expor seus filhos — a necessidade de validação, o medo de não corresponder ao ideal social de “pais perfeitos” —, abre-se espaço para uma relação mais verdadeira e humana. A sombra, quando reconhecida se torna um guia: revela o que foi reprimido e aponta o caminho para a integração. Nesse movimento, a <strong>parentalidade</strong> deixa de ser espetáculo e volta a ser encontro — um espaço simbólico de crescimento mútuo, no qual tanto pais quanto filhos podem se tornar mais inteiros, mais reais e, sobretudo, mais humanos.</p>



<p style="font-size:19px">Romper esse ciclo de performance exige consciência e coragem para olhar o próprio desamparo sem projetá-lo no outro. Quando o pai ou a mãe reconhecem sua própria fragilidade e acolhem as partes feridas da psique — em vez de mascará-las sob a imagem idealizada da <strong>parentalidade perfeita</strong> —, algo se transforma profundamente no vínculo com o filho. A criança deixa de ser o espelho que reflete a falta dos pais e volta a ser o sujeito de sua própria jornada. Nesse momento, acredito que a rede social pode enfim deixar de ser o palco principal da vida e a intimidade da família passa a ter mais valor e sentido do que qualquer like ou novos seguidores.</p>



<p style="font-size:19px">Entendo que a rede social não é o mal em si, mas um espelho que revela a fragilidade egóica dos pais e as relações projetivas que permeiam a <strong>parentalidade contemporânea</strong>, especialmente diante do fenômeno do <em><strong>sharenting</strong></em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-compreender-o-vazio-que-as-redes-ocupam-na-vida-e-nos-vinculos-parentais-pode-ser-o-primeiro-passo-para-transformar-a-forma-como-elas-sao-utilizadas" style="font-size:19px">Compreender o vazio que as redes ocupam na vida e nos vínculos parentais pode ser o primeiro passo para transformar a forma como elas são utilizadas.</h2>



<p style="font-size:19px">É preciso deslocar o holofote das crianças e iluminarmos aquilo que realmente sustenta uma relação saudável entre pais e filhos: o afeto, o cuidado, o amparo emocional e o amor. Somente assim o filho poderá tornar-se um ser único, autêntico e independente — não mais a imagem idealizada que alimenta a projeção de uma <strong>parentalidade perfeita</strong>, mas sim o sujeito de sua própria história.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Sharenting: A exposição dos filhos nas redes sociais e o lado sombrio da parentalidade" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/_VaNFE6fmCc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-clarisse-grand-court-membro-analista-em-formacao-pelo-ijep" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/clarissegrand/">Clarisse Grand Court – Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></h2>



<p style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/"><strong>Maria Cristina Mariante Guarnieri – Analista didata</strong> <strong>do IJEP</strong></a></p>



<p style="font-size:19px"><strong>Referências:</strong></p>



<p>Conti, MG, Del Parco, F., Pulcinelli, FM&nbsp;<em>et al.</em>&nbsp;(2024). Sharenting: características e consciência dos pais que publicam conteúdo sensível de seus filhos em plataformas online. Disponível em<a href="https://doi.org/10.1186/s13052-024-01704-y">https://doi.org/10.1186/s13052-024-01704-y</a> . Acesso em 06 de novembro de 2025.</p>



<p>Ferreira, Lucia Maria T. (2020). A superexposição dos dados e da imagem de crianças e adolescentes na Internet e a prática de <strong>Sharenting</strong>. Reflexões iniciais. Disponível em</p>



<p><a href="https://www.mprj.mp.br/documents/20184/2026467/Lucia_Maria_Teixeira_Ferreira.pdf">https://www.mprj.mp.br/documents/20184/2026467/Lucia_Maria_Teixeira_Ferreira.pdf</a> . Acesso em 06 de novembro de 2025.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav.&nbsp; Aion: estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2020a.</p>



<p>&nbsp;______, O desenvolvimento da personalidade. 14. Ed. Petrópolis: Vozes, 2021.</p>



<p>______, O eu e o Inconsciente. 27. Ed. Petrópolis: Vozes, 2020b.</p>



<p>Ferreira, Luiz Claudio. (2025). Uma a cada três crianças tem perfil aberto em redes, alerta pesquisa. Disponível em</p>



<p><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-01/uma-cada-tres-criancas-tem-perfil-aberto-em-redes-alerta-pesquisa">https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-01/uma-cada-tres-criancas-tem-perfil-aberto-em-redes-alerta-pesquisa</a> Acesso em 06 de novembro de 2025.</p>



<p>Tic Kids Online Brasil (2024). Pesquisa sobre o uso da internet por crianças e adolescentes no Brasil. Disponível em</p>



<p><a href="https://cetic.br/media/docs/publicacoes/2/20250512154312/tic_kids_online_2024_livro_eletronico.pdf">https://cetic.br/media/docs/publicacoes/2/20250512154312/tic_kids_online_2024_livro_eletronico.pdf</a> Acesso em 06 de novembro de 2025.</p>



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		<title>O caminho da alma: dos autorretratos às selfies</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-caminho-da-alma-dos-autorretratos-as-selfies/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Dec 2025 13:43:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Eu ando pelo mundo prestando atençãoEm cores que eu não sei o nome Cores de AlmodóvarCores de Frida Kahlo, cores Esquadros, Adriana Calcanhoto Resumo: Este artigo tem o objetivo de propor uma conversa sobre dois movimentos: primeiro, os autorretratos tão frequentemente pintados por artistas nos séculos passados e o movimento contemporâneo das selfies, as fotos [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:14px">
<figure class="wp-block-pullquote has-text-align-center is-style-solid-bg" style="font-size:18px"><blockquote><p><em>Eu ando pelo mundo prestando atenção<br>Em cores que eu não sei o nome <br>Cores de Almodóvar<br>Cores de Frida Kahlo, cores</em></p><cite>Esquadros, Adriana Calcanhoto</cite></blockquote></figure>
</blockquote>



<p style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo tem o objetivo de propor uma conversa sobre dois movimentos: primeiro, os autorretratos tão frequentemente pintados por artistas nos séculos passados e o movimento contemporâneo das selfies, as fotos individuais tiradas e postadas com frequência nas redes sociais. Não é de hoje que o ser humano se interessa por se retratar. Divulgar sua própria imagem é algo mais novo. Mas o que há de diferente nestes dois movimentos? Como o pensamento de Jung e a psicologia analítica nos convida a compreender as diferenças destas atitudes? O que elas expressam sobre os seus respectivos tempos?</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Palavras-chave</strong>: Arte; Autorretrato; Selfie; Espírito do Tempo; Jung</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-e-de-hoje-que-o-ser-humano-se-interessa-por-se-retratar" style="font-size:22px">Não é de hoje que o ser humano se interessa por se retratar.</h2>



<p style="font-size:19px">Desde os áureos tempos, no universo da arte, temos um histórico de artistas de renome se representando nas telas. Dentre estes gênios, posso destacar aqui Rembrandt, Frida Kahlo, Van Gogh, Picasso, entre muitos outros. Este desejo de se retratar, com o passar dos tempos foi se moldando ao desenvolvimento tecnológico e hoje chegamos às famosas <em>selfies</em> &#8211; as fotos tiradas com os <em>smartphones</em> e postadas com frequência nas redes sociais.</p>



<p style="font-size:19px">Aqui, vem a pergunta: O que separa umas imagens das outras? Vamos fazer um olhar sobre como as mudanças foram acontecendo e o que isso tem a ver com a alma e como a psicologia analítica compreende estes fenômenos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-artistas-e-seus-autorretratos" style="font-size:21px"><strong>Os artistas e seus autorretratos</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Para dar início a esta conversa, vale lembrar que o homem sempre utilizou a arte e as imagens como uma forma de expressão. Os artistas em suas obras representaram em suas produções cenas do cotidiano, a natureza os animais e as pessoas. No século XVII houve na Europa um crescimento na pintura de paisagens, mas ainda assim a figura humana nunca deixou de ser um objeto de desejo dos artistas, conforme Mullins (2024, p.144). &nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">Na história da arte há registros muito antigos de autorretratos, como na Grécia antiga, onde eram criadas imagens de si mesmos. Conforme aponta Bugler (2019, p. 190), “Na Idade Média, a arte ocidental era extremamente voltada para a religião e os poucos retratos feitos eram de pessoas eminentes e poderosas como governantes ou líderes da igreja.” Continua a autora dizendo que, na época da Renascença o autorretrato ressurge, facilitado pelo avanço tecnológico da época: o espelho. Isto facilita em muito para os artistas a produção das suas autoimagens, uma vez que pagar modelos para serem retratados custava muito caro.</p>



<p style="font-size:19px">Os autorretratos serviam na época, como um “cartão de visitas”, onde o artista podia demonstrar seu talento e sua obra. Ao observar a imagem do próprio artista representada, aquele que queria seu retrato pintado poderia contratá-lo. Conforme o desenvolvimento socioeconômico da época, a temática da arte começa a se expandir e os retratos a se popularizar. Logo, pessoas de um nível social inferior aos altos escalões já podiam pagar por um retrato. Diz Bugler (2019) que um mercador bem-sucedido poderia encomendar um retrato de si mesmo e um artista poderia, do mesmo modo, expressar o orgulho de sua profissão e ter conquistas por meio de um autorretrato. Estes autorretratos demonstravam muito mais do que habilidade e uma capacidade técnica, por assim dizer.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-rembrandt-o-grande-retratista" style="font-size:21px"><strong>Rembrandt – o grande retratista</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606 – 1669), pintor holandês, foi um dos artistas que mais se representou por meio de autorretratos. Viveu na Idade Moderna e é um dos mais famosos representantes da época áurea holandesa (1600 – 1714). Hoje há um número de mais de 80 autorretratos deste artista. Ele foi um jovem talentoso. Professor de arte conhecido por ser esnobe e extravagante, pois dava mais atenção às suas autoimagens do que a seus clientes. Na meia idade o artista entra em falência. A Holanda, sua terra, começa a passar por uma crise econômica. Rembrandt continua a viver sua vida de forma modesta, atendendo a pedidos de seus clientes e sendo respeitado por sua arte. “Trabalhou até sua morte em 1669, e sua arte cresceu em esplendor pictórico e em profundidade de sentimentos até o fim.” (Bugler, 2019 p. 188).</p>



<p style="font-size:19px">Autores como Gompertz (2023) e Mullins (2024) falam de Rembrandt como uma persona, alguém capaz de desenvolver personagens diversos em suas representações, mas que conservava nas autoimagens uma imagem singular e penetrante, o que também realizava para aqueles que o contratavam. Diz Mullins (2024, p. 188) que ele se tornou “o artista mais importante para os comerciantes metropolitanos ricos e para as guildas da cidade”.</p>



<p style="font-size:19px">Sobre o artista, Gompertz (2023) comenta que Rembrandt se interessava pela essência em seus autorretratos, ao olhar para si era o que procurava captar e representar. Tinha em seu semblante um ato de dúvida, “de um mestre artesão conferindo se a mancha de empaste aplicada vigorosamente logo abaixo do olho esquerdo dá a impressão correta de uma profunda ruga na pele”. (Gompertz, 2023, p.78)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-autorretrato-mais-famoso-de-rembrandt-e-o-autorretrato-com-dois-circulos-1665-onde-esta-em-uma-fase-de-vida-mais-introspectiva" style="font-size:19px">O autorretrato mais famoso de Rembrandt é o <em>Autorretrato com dois círculos (1665)</em>, onde está em uma fase de vida mais introspectiva.</h2>



<p style="font-size:19px">Ele havia perdido sua esposa, seus três filhos e sua amante. Neste autorretrato, ele expressa o que vai em sua alma:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Rembrandt tinha passado mais de quarenta anos desenvolvendo sua técnica, sempre se empenhando em obter um efeito que revelasse uma verdade para além do poder descritivo das palavras. [&#8230;] É mais do que um autorretrato, é uma autoavaliação: um acerto de contas. Rembrandt montou laboriosamente a imagem com múltiplas camadas de tinta translúcida para criar essa apresentação inflexivelmente honesta da maneira como se via pouco antes de morrer. Ele está nos dando uma aula magistral sobre a arte da autopercepção. Cada músculo contraído, cada pequena ruga revela algo sobre o espírito interior.&#8221; </p><cite>Gompertz, 2023, p.78</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:15px"></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="298" height="239" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Imagem1-1.jpg" alt="" class="wp-image-11476" style="width:374px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Imagem1-1.jpg 298w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Imagem1-1-150x120.jpg 150w" sizes="(max-width: 298px) 100vw, 298px" /></figure>
</div>


<p style="font-size:15px"></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p><em>Autorretrato com dois círculos (1665)&nbsp;https://www.historiadasartes.com/rembrandt/. Acesso em 26/10/2025.</em></p>



<p style="font-size:19px">O autor continua dizendo que Rembrandt escolhia a si mesmo como modelo não apenas por praticidade ou economia, como já citado, mas também porque buscava compreender como a interioridade humana se reflete na aparência externa.</p>



<p style="font-size:19px">Esse estudo exigia um olhar intenso e honesto que poucos modelos suportariam. Ao se retratar, ele podia observar-se sem restrições e perseguir a verdade interior. Para Rembrandt, conhecer-se exigia sinceridade absoluta. Suas imperfeições e expressões revelavam aspectos profundos de si; pintar era, acima de tudo, um ato de autoconhecimento e autenticidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-frida-kahlo-suas-dores-sua-janela-para-o-mundo" style="font-size:21px"><strong>Frida Kahlo – suas dores, sua janela para o mundo</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Uma outra artista famosa por seus autorretratos é a mexicana Frida Kahlo (1907 – 1954). Conforme <strong>Bugler</strong> (2019, p. 191) “<strong>Talvez a contribuição mais notável ao autorretrato na arte recente tenha vindo da pintora mexicana Frida Kahlo. Cerca de 150 pinturas suas são conhecidas, e mais de um terço, são autorretratos</strong>.”</p>



<p style="font-size:19px">Ela teve uma vida curta, marcada por tragédias pessoais e por um relacionamento bastante conturbado. Teve poliomielite na infância, sofreu um grave acidente de ônibus aos dezoito anos, que a impediu de estudar medicina, bem como de ter filhos (sofreu alguns abortos). Sua coluna, bacia e órgãos internos foram severamente atingidos neste acidente.</p>



<p style="font-size:19px">Afirma Mullins (2024), que Frida começa a pintar aos 18 anos após o grave acidente. Por estar imobilizada sua mãe providencia um cavalete especial para que pudesse pintar deitada. Os autorretratos que cria contém grande intensidade emocional e reflete o seu corpo fraturado. Lágrimas, sangue e feridas são imagens comuns em seus quadros.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Às vezes, pintava seu coração com as artérias se enroscando nos membros, ou sua espinha dorsal como a coluna de um templo grego, quebrada e desmoronando. [&#8230;] é o fogo emocional da obra de Kahlo que nos fala mais alto hoje.</p><cite>(Mullins, 2024, p. 233)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-seus-autorretratos-costumava-estampar-suas-dores-sao-imagens-marcadas-por-cores-fortes" style="font-size:19px">Em seus autorretratos costumava estampar suas dores. São imagens marcadas por cores fortes.</h2>



<p style="font-size:19px">Gompertz (2023) comenta que as obras de Frida fazem parte de uma capacidade de observação e percepção muito aguçadas; segundo o autor, ela usava sua dor para ver o mundo e o retratava assim como o percebia em suas pinturas e em seus autorretratos. &nbsp;&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">A artista casou-se precocemente com Diego Rivera, também artista e revolucionário, 20 anos mais velho, que alimentava muitos casos extraconjugais. Ele torna-se amante de Cristina, irmã mais nova de sua esposa. Isso aconteceu cinco anos depois de eles se casarem. Frida procura a ajuda do pai, um fotógrafo alemão, que ela considera amante da filosofia, mas um pai ausente e difícil no relacionamento. Frida se divorcia em 1939, depois de anos de sofrimento, e produz a obra <em><strong>As Duas Fridas</strong></em>, um famoso autorretrato.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esta-e-uma-obra-de-grandes-dimensoes-quase-em-tamanho-natural" style="font-size:19px">Esta é uma obra de grandes dimensões quase em tamanho natural:</h2>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="382" height="383" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image.png" alt="" class="wp-image-11477" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image.png 382w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-300x300.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-150x150.png 150w" sizes="(max-width: 382px) 100vw, 382px" /></figure>



<p><em><a href="https://www.culturagenial.com/quadro-as-duas-fridas-frida-kahlo/">https://www.culturagenial.com/quadro-as-duas-fridas-frida-kahlo/</a> Acesso em 26/10/2025.</em></p>



<p style="font-size:19px">De acordo com Gompertz (2023), Frida pintava a sua realidade e não os seus sonhos. O cenário de fundo desse retrato é um céu de um azul intenso, com muitas nuvens. Na pintura, estão retratadas uma Frida com vestes mexicanas e outra com vestido de casamento em estilo colonial.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>São dois aspectos ancestrais da artista expressos na imagem: as raízes indígenas maternas e suas raízes europeias germânicas paternas. As duas figuras se ligam por uma veia que vai de coração a coração.</strong></p>



<p style="font-size:19px">A Frida vestida de noiva tem uma tesoura na mão e o vestido manchado de sangue que se funde com as flores vermelhas pintadas na barra do seu vestido. As Fridas olham diretamente para o observador. É um autorretrato que:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>expõe suas dores, [&#8230;] seu conhecimento anatômico [&#8230;] o dualismo de suas origens, suas identidades, seu interior e exterior, o corpo e a mente, a Madonna e o Menino, a vida e a morte, a Frida europeia tem sangue nas mãos a Frida mexicana tem amor.</p><cite>(Gompertz, 2023, p. 42)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Ela usou todas as suas experiências dolorosas como janela para compreender o mundo. A artista pode ser compreendida como uma força da natureza na expressão de sua arte. Frida, além de artista, foi também uma defensora e revolucionária, expressando por meio de sua arte os valores nacionalistas. Diz Gompertz (2023, p. 37) “<em>O que ela dizia, pintava, vestia e escrevia era um manifesto sobre a independência e a cultura do México. Esse era seu tema. A dor era a lente pela qual o via</em>.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-fotografia-entra-na-cena-dos-autorretratos" style="font-size:21px"><strong>A fotografia entra na cena dos autorretratos</strong></h2>



<p style="font-size:19px">O advento da fotografia no século XIX trouxe um avanço tecnológico para o universo da arte. Como toda grande mudança, essa também não foi inicialmente bem aceita. Artistas pensaram que seria ali o fim da pintura. Na verdade, a fotografia trouxe para o universo da arte, depois deste susto inicial, novas maneiras de olhar e captar o mundo ao redor. Comenta-se que a pintura <em>Mulheres no Jardim</em> de <strong>Claude Monet</strong> provavelmente foi baseada em uma fotografia, e algumas de suas visitas aos bulevares parisienses foram inspiradas por fotos de Nadar, fotógrafo mais famoso da época, que as tirou de um balão de ar quente. (cf. Bugler, 2019, p. 229)</p>



<p style="font-size:19px">No cenário dos retratos, com a fotografia passando a ocupar um espaço no mundo contemporâneo, ela torna acessível a possibilidade das autoimagens àqueles que gostariam de ter seus retratos, mas que não tinham condições de arcar com os custos que isto representava. Artistas utilizavam da fotografia para minimizar o tempo e as dificuldades naturais de usar um modelo vivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-gompertz-nos-diz-que-a-fotografia-revolucionou-a-arte-ao-passo-que-com-a-camera-o-artista-poderia-modificar-sua-forma-de-ver-para-o-autor-a-maquina-fotografica" style="font-size:19px"><strong>Gompertz</strong> nos diz que a fotografia revolucionou a arte, ao passo que com a câmera o artista poderia modificar sua forma de ver; para o autor a máquina fotográfica:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“desafiou os artistas a fazerem melhor. &nbsp;Ela permitia criar uma imagem com perspectiva linear com muito mais rapidez e com um custo muito menor do que faria um artista, e com maior autenticidade.” </p><cite>(Gompertz, 2023, p.175)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Para <strong>Walter Benjamin </strong>(1892 – 1940), ensaista alemão e um dos representantes da Escola de Frankfurt, o advento da fotografia representava um risco para as obras de arte. Segundo Benjamin (1933), as obras possuem uma “aura”, o que as torna autênticas e únicas, originais e vinculadas ao seu tempo-espaço de criação. Para o teórico, este caráter sagrado se perde, quando a técnica da fotografia passa a reproduzir de modo massivo as obras de arte. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-benjamim-escreve-em-1933-um-ensaio-chamado-a-obra-de-arte-na-era-de-sua-reprodutibilidade-tecnica-a-ssim-diz-ele" style="font-size:19px">Benjamim escreve, em 1933, um ensaio chamado <em>A Obra De Arte na era de Sua Reprodutibilidade Técnica</em>. A<strong>ssim diz ele:</strong></h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>No início do século XX, a reprodução técnica tinha atingido um nível tal que começara a tornar objeto seu, não só a totalidade das obras de arte provenientes de épocas anteriores, e a submeter os seus efeitos às modificações mais profundas, como também a conquistar o seu próprio lugar entre os procedimentos artísticos. </p><cite>(Benjamim, 1933, e-book)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px"><strong>Benjamin</strong> (1933) compreendia, inclusive, que a reprodução de uma obra de arte, como um exercido de aprendizado de um novo artista, é altamente compreensível e inclusive recomendável, onde este estaria sendo treinado em sua nova &nbsp;&nbsp;profissão. A crítica vem da reprodução massiva e realizada por um meio tecnológico, o que tira o indivíduo da realização manual e da presença. Assim, ainda que bem reproduzida, a obra perde “o aqui e o agora”, que na visão do autor é o que vincula a obra a seu tempo. Esse modo de observar a entrada da fotografia no espaço da arte nos remete ao mundo contemporâneo.</p>



<p style="font-size:19px">É verdade que, com o passar do tempo, a fotografia se populariza e amplia a possibilidade de vermos imagens captadas, tornarem-se eternizadas. Além dos retratos pessoais, as fotografias congelam cenas de eventos, lugares, vivências, pessoas. Elas criam memórias que foram se acumulando em álbuns de retratos. Com o passar do tempo, esses álbuns armazenam as imagens fotográficas de forma tecnológica, por meio de imagens digitais, agora guardadas nas nuvens!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-selfies-e-as-autoimagens-nas-redes" style="font-size:21px"><strong>As selfies e as autoimagens nas redes</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Chegamos então à época das redes sociais. Recheadas de imagens criadas primeiro pelas máquinas dos celulares, depois por solicitação e montagens feitas pela inteligência artificial. Em seu livro <em>Existências Penduradas</em>, Norval Baitello Júnior (2019) nos presenteia com pequenos textos que provocam reflexões importantes acerca de como, em nosso mundo contemporâneo, estamos lidando com as imagens que criamos.</p>



<p style="font-size:19px">Conforme já foi apresentado, quando falamos de uma obra de arte, falamos de imagens que vão além do artista. Vimos que, quando o artista retrata numa pintura sua autoimagem, ele expressa emoções complexas e símbolos universais, presentes no espírito de seu tempo, como também nas feridas de sua alma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-o-que-retratam-as-selfies-queridinhas-das-redes-sociais" style="font-size:19px"><strong>Mas o que retratam as <em>selfies</em>, queridinhas das redes sociais?</strong></h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Baitello</strong> (2019), em suas reflexões compreende que a <em>selfie</em> surge como um fenômeno, parte de um cenário global sendo disseminada pelos celulares, que cabem na mão e que contém um mundo em si. As fotos são realizadas de forma muito simples: “<em>A mão direita ou a esquerda levantada à frente e acima do corpo, o rosto voltado para o alto. Ao fundo, em frente, ou no fundo, logo abaixo, um cenário espetacular qualquer</em>” (Baitello, 2019 p. 14).&nbsp; Continua Baitello (2019, p. 15) a dizer que nesta imagem, todo o restante, o entorno perdem seu valor, dando lugar a um “corpo pendurado diante de um cenário”.&nbsp;&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">Em sua obra, o autor questiona se estamos vivendo no mundo real ou nas imagens de nós mesmos e nos provoca a pensar, que ao seguir este padrão comportamental de nosso tempo, estaremos propensos a habitar mais as imagens do que o mundo. Nestas imagens somos imortais, transfigurados (vide os milhares de filtros fornecidos hoje pela IA). O homem encontra-se em uma encruzilhada entre viver nas fantasias de “eus” fictícios e imortais e a realidade de uma vida plena, sujeita às adversidades das dores, do envelhecimento e da morte. Para Baitello (2019) este cenário contemporâneo nos coloca em um paradoxo &#8211; estamos nelas e, ao mesmo tempo, fora delas &#8211; uma coexistência entre presença e ausência, em certo ponto, similar ao que apontava Benjamin (1933).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-baitello-no-decorrer-de-seu-livro-vai-ampliando-estas-imagens-sobre-as-selfies-e-suas-representacoes-e-nos-traz-diversas-provocacoes-como-nbsp-expressao-de-desamparo-2019-p-19" style="font-size:18px"><strong>Baitello</strong>, no decorrer de seu livro, vai ampliando estas imagens sobre as <em>selfies</em> e suas representações e nos traz diversas provocações como &nbsp;“expressão de desamparo” (2019, p.19).</h2>



<p style="font-size:19px">Em consonância com Benjamin (1933), ele comenta sobre o valor massivo capitalista das imagens “Isso é o valor da exposição, a grande moeda do nosso tempo.” (p. 53); e sobre o fato dessas imagens circularem ou orbitarem nas redes, o autor diz: “Orbitar é permanecer, ainda que como lixo!” (p. 84).</p>



<p style="font-size:19px">Há diversas outras pontuações como estas, o que nos faz compreender, como as <em>selfies</em> e sua profusão nas redes sociais representam não mais um alinhamento genuíno e profundo, com a alma do artista (quando estes se retratavam), mas um verdadeiro distanciamento do indivíduo de si mesmo e de sua alma.</p>



<p style="font-size:19px">Ao provocar essa comparação, não tenho o interesse de demonizar o que acontece no mundo atual e nem retirar o valor da nossa evolução tecnológica. A comparação entre estas dois mundos nos servem para uma reflexão sobre a polaridade racionalista e distanciada do sentido da vida que estamos vivendo. A vida hoje se dá em um mundo regido sob a égide de um conjunto de normas sociais que nos coloca num estado de alerta constante.</p>



<p style="font-size:19px">Parece que estamos em vias de perder a capacidade de fazer aquilo que uma obra de arte nos convidava a fazer: parar, contemplar, observar. Tudo é muito rápido, tudo é muito instantâneo. A um clique, você posta uma selfie, que é uma imagem sua. O artista, quando apresentava o seu autorretrato como referência do seu trabalho, tinha que ser fidedigno, como era Rembrandt, aos traços, às emoções, às expressões. Se pensarmos no que era o autorretrato, uma imagem trabalhada com muito cuidado, com muito apreço, com muita cautela. A alma do artista, de algum modo, estava expressa ali.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-varias-sao-as-questoes-que-surgem-aqui" style="font-size:19px"><strong>Várias são as questões que surgem aqui:</strong></h2>



<p style="font-size:19px"><strong>A alma de uma <em>selfie</em> está onde? Essa rapidez de pensamentos e sensações permite a contemplação? Será que há tempo de se pensar nessa <em>selfie</em> como um espelho da alma do indivíduo que se retrata nas redes sociais?</strong></p>



<p style="font-size:19px">Se Jung estivesse hoje acompanhando esse movimento, fico imaginando aqui o que ele diria. Uma das falas que penso ilustrar essa breve análise é a seguinte, presente na OC 8/2:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A psicologia analítica é uma reação contra uma racionalização exagerada da consciência que na preocupação de produzir processos orientados se isola da natureza e assim priva o homem de sua história natural e o transpõe para um presente limitado racionalmente que consiste num curto espaço de tempo situado entre o nascimento e a morte [&#8230;] A vida se torna então insípida e já não representa o homem em sua totalidade [&#8230;] Vivemos protegidos por nossas muralhas racionalistas contra a eternidade da natureza a psicologia analítica procura justamente romper essas muralhas ao desencavar de novo as imagens fantasiosas do inconsciente que a nossa mente é racionalista havia rejeitado.</p><cite>(Jung, OC 8/2, §739)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Claro que as selfies não são arte, mas estão vinculadas a um registro fotográfico, que tem origens e desdobramentos artísticos por sua natureza de reproduzir imagens pictóricas. Assim, as autoimagens se transformam em quadros “pendurados”, como conceitua Baitello (2019), distanciando-se da corporificação de quem as produz. Vale lembrar que, vinculado ao espírito de seu tempo, os autorretratos serviam para expor o talento do artista, mas também para expressar de forma autêntica, singular e genuína a profundidade anímica de quem produzia aquela pintura, muito além da técnica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-vazio-mecanicista-e-massivo-das-selfies-representam-uma-linha-bem-diferente" style="font-size:19px"><strong>O vazio mecanicista e massivo das <em>selfies</em> representam uma linha bem diferente.</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Estas autoimagens traduzem o espírito de nosso tempo, em que se apela por pertencimento e aceitação. O meio ou o externo é mais importante. São imagens fragmentárias das identidades contemporâneas. Versões múltiplas de si mesmo, efêmeras e desconectas da expressão da alma.</p>



<p style="font-size:19px">Jonathan Haidt (2024, p. 200 &#8211; 202) em seu livro <em>A Geração Ansiosa</em>, comenta que as meninas são mais afetadas pelas imagens nas redes sociais do que os meninos. É mais comum, também, que as meninas façam mais <em>selfies</em> do que os meninos &#8211; uma vez que este meio, com este fim expositivo, as atraem bem mais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-modo-como-elas-sao-afetadas-e-descrito-pelo-autor-com-os-seguintes-pontos" style="font-size:19px">O modo como elas são afetadas é descrito pelo autor, com os seguintes pontos:</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:19px">Há uma maior tendência das adolescentes se afetarem mais pela comparação social e pelo perfeccionismo;</li>



<li style="font-size:19px">O fato de as adolescentes serem mais sensíveis a agressões do tipo relacional, logo, serem vítimas fáceis de <em>bullying,</em> que as remetem exatamente a esse lugar das comparações e do ideal de imagem difundida nas redes sociais;</li>



<li style="font-size:19px">As meninas são mais abertas a exporem suas emoções, suas dificuldades, tornando-as, de algum modo, mais vulneráveis aos ataques e suas consequências;</li>



<li style="font-size:19px">Por serem mais vulneráveis, ficam mais expostas e mais sujeitas às cenas de assédio.</li>
</ul>



<p style="font-size:19px">Continua o autor, dizendo que as redes sociais se tornam uma grande armadilha, tendo ela um poder sobre relacionamentos para meninos e meninas, o que traz sérios desdobramentos para a saúde mental e uma tendência à solidão que disparou entre as meninas no início da década de 2010 (cf. Haidt, 2024, p. 202).</p>



<p style="font-size:19px">A partir desta análise, temos aqui uma questão evidenciada nas <em>selfies</em>: aspectos do espírito de um tempo, infelizmente, vazio, que não privilegia a contemplação, a possibilidade de uma conversa, a possibilidade de expressão de alma.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>O mundo moderno expõe mecanicamente imagens de pessoas, na busca de uma comparação, de uma referência irreal, massificando a possibilidade do alcance de uma identidade que converse com as reais demandas do indivídu</strong>o.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-os-artistas-e-suas-obras" style="font-size:21px"><strong>Jung, os artistas e suas obras</strong></h2>



<p style="font-size:19px">E o que é que a psicologia analítica, então, tem a ver com tudo isso? Para Jung (OC 15), o artista é um mediador. Como humano, é uma pessoa que possui um potencial criativo, mas que está a serviço de seu tempo e do sentido da sua época. Sobre isto, ele diz o seguinte:&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">Ainda que a obra de arte e o homem criador estejam ligados entre si por uma profunda relação, numa interação recíproca, não é menos verdade que não se explicam mutuamente. Certamente é possível tirar de um deduções válidas no que concerne ao outro, mas tais deduções nunca são concludentes. (Jung, OC 15 §134)</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Com esta afirmação, Jung nos convida a refletir sobre como a arte nasce de processos psíquicos profundos. Há uma intencionalidade inconsciente e um trabalho simbólico da alma. A tentativa de compreender o artista não pode ser vista separadamente da possibilidade de compreender o próprio funcionamento da psique humana. Quando o artista cria uma obra, ele torna-se um canal por meio do qual manifesta-se o inconsciente coletivo e o sentido pulsante do espírito de seu tempo. A arte, neste sentido tem pra Jung uma função compensatória, trazendo à luz da consciência daquilo que precisa ser reconhecido e integrado. Assim, a visão de Jung sobre o artista se dá da seguinte forma: “Enquanto pessoa, tem seus humores, caprichos e metas egoístas; mas enquanto artista ele é, no mais alto sentido, “homem”, e <em><strong>homem coletivo</strong></em>, portador e plasmador da alma inconsciente e ativa da humanidade.” </p><cite>(Jung, OC 15, § 157, grifos do autor)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Assim, a arte não é compreendida por Jung simplesmente como um sintoma da vida pessoal do artista, nem a psique do artista se reduz à sua criação. Jung enxerga a autonomia da obra de arte. Depois de criada, ela adquire uma vida própria, em uma existência simbólica independente de seu autor. O vínculo entre o criador e sua obra é profundo, mas não causal nem explicativo no sentido estrito. Assim, as possíveis análises de uma obra de arte não podem se propor a fechar uma reflexão. Elas devem ser amplas, do mesmo modo que Jung compreende o sonho. Não se deve perder a riqueza simbólica que uma obra carrega em todos os elementos que ela possui.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-dizia-que-a-psique-se-expressa-por-meio-de-imagens" style="font-size:19px">Jung dizia que a psique se expressa por meio de imagens.</h2>



<p style="font-size:19px">São muitas as suas afirmações a este respeito, mas uma em particular, tem um trecho na OC 8/2 que vem contribuir para a análise que está sendo desenvolvida aqui. Para o autor:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Somente quando nos contemplamos no espelho da imagem que temos do mundo é que nos vemos de corpo inteiro. Só aparecemos na imagem que criamos. Só aparecemos em plena luz e nos vemos inteiros e completos em nosso ato criativo. Nunca imprimiremos uma face no mundo que não seja a nossa própria; e devemos fazê-lo, justamente para nos encontrarmos a nós próprios, porque o homem, criador de seus próprios instrumentos, é superior à Ciência e à Arte em si mesmas. </p><cite>(Jung, OC 8/2, §737)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Partindo deste ponto, fico imaginando Frida Kahlo, dada a delicadeza e a profundidade de suas autoimagens, sendo expostas num imediatismo sem reflexão das redes sociais. Suas obras, além de expressarem sua dor e o seu físico vilipendiado, expressam marcas do seu tempo. <strong>Não há na obra de arte os tais filtros que disfarçam e que mascaram aquilo que a alma pretende dizer</strong>.</p>



<p style="font-size:19px">Os filtros das redes funcionam como <strong>personas</strong>, máscaras midiáticas e digitais, por meio das quais as pessoas tentam aparentar o que não são, na tentativa de se adaptar a um mundo que não os aceita em sua forma autêntica.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo - &quot;O caminho da alma: dos autorretratos às selfies&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/fIMwPN3T1KQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/gilmaraalves/">Gilmara Marques Fadim Alves – Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/">Cristina M. Guarnieri – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p>BAITELLO JÚNIOR, Norval. <em>Existências penduradas: ensaios sobre o mundo da imagem e o pensar</em>. São Paulo: Unisinos, 2019.</p>



<p>BENJAMIN, Walter. <em>A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica</em>. 1933, E-book.</p>



<p>BUGLER, Caroline [et al.]. <em>O Livro da Arte</em>. 1. ed. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019.</p>



<p>GOMPERTZ, Will. <em>Como os artistas veem o mundo</em>. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.</p>



<p>HAIDT, Jonathan. <em>A Geração Ansiosa: como a Grande Reconfiguração da Infância está causando uma epidemia de doenças mentais</em>. 1. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 2024.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>O espírito na arte e na ciência</em>. Petrópolis: Vozes, 2017 OC 15</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da Psique</em>. Petrópolis: Vozes, 1991. OC 8/2</p>



<p>MULLINS, Charlotte. <em>Uma breve história da arte</em>. Porto Alegre: L&amp;PM, 2024.</p>



<p></p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><a href="www.ijep.com.br"><img loading="lazy" decoding="async" width="960" height="540" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP.png" alt="" class="wp-image-11494" style="width:637px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP.png 960w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-450x253.png 450w" sizes="(max-width: 960px) 100vw, 960px" /></a></figure>



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			</item>
		<item>
		<title>Isolamento e solidão no mundo hiperconectado</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/isolamento-e-solidao-no-mundo-hiperconectado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Lorena Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Jun 2025 16:29:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>
		<category><![CDATA[afastamento social]]></category>
		<category><![CDATA[conexão humana]]></category>
		<category><![CDATA[hiperconexão]]></category>
		<category><![CDATA[isolamento]]></category>
		<category><![CDATA[performance]]></category>
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		<category><![CDATA[redes sociais]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[Solidão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O texto aborda a solidão como uma experiência essencial da condição humana, que se expressa de formas distintas conforme o contexto histórico e cultural. No mundo contemporâneo, marcado pela hiperconectividade e pelo culto à produtividade, a solidão se revela paradoxalmente presente, ainda que estejamos constantemente &#8220;conectados&#8221;. A análise destaca a diferença entre a solidão [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><em><strong>Resumo</strong>: O texto aborda a solidão como uma experiência essencial da condição humana, que se expressa de formas distintas conforme o contexto histórico e cultural. No mundo contemporâneo, marcado pela hiperconectividade e pelo culto à produtividade, a solidão se revela paradoxalmente presente, ainda que estejamos constantemente &#8220;conectados&#8221;. A análise destaca a diferença entre a solidão fértil — que propicia mergulho interior para uma travessia necessária e transformadora — e a solidão estéril dos tempos atuais, marcada pelo isolamento e pela superficialidade das relações.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-solidao-e-uma-experiencia-humana-fundamental-transpassa-os-contextos-historicos-e-culturais-mostrando-se-constante-na-alma-humana" style="font-size:19px">A <strong>solidão</strong> é uma experiência humana fundamental. Transpassa os contextos históricos e culturais mostrando-se constante na alma humana.</h2>



<p style="font-size:19px">Ora se expressa pela necessidade de recolhimento e nos visita para integrar e buscar um sentido na existência, ora aparece inesperadamente mesmo em comemorações ou momentos de celebração. Fato é que esta solidão que faz parte de nós também é vivenciada em um Espírito do Tempo. Marcado pela <strong>hiperconectividade</strong> digital, o mundo contemporâneo mostra faces paradoxais no que diz respeito a presença e solidão: estamos constantemente em rede, mas frequentemente desconectados de nós mesmos e dos outros.</p>



<p style="font-size:19px">Redes sociais, mensagens instantâneas e uma infinidade de canais de comunicação estão disponíveis 24 horas por dia, criando a ilusão de que nunca estivemos tão acompanhados. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-existe-de-fato-uma-comunicacao-real-uma-troca-verdadeira" style="font-size:19px">Mas existe de fato uma comunicação real, uma troca verdadeira?</h2>



<p style="font-size:19px">Ou estamos tão inundados de dados, fatos, vídeos, fotos, opiniões, que nadamos em uma superfície demasiado rasa de intercâmbio? Ao lado da alta conectividade virtual, paradoxalmente, a solidão e o vazio existencial crescem como sintomas sociais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muito-embora-a-conexao-ultraveloz-por-diversos-meios-como-individuos-vivemos-ilhados-e-afastados" style="font-size:19px"><strong>Muito embora a conexão ultraveloz por diversos meios, como indivíduos vivemos ilhados e afastados</strong>.</h2>



<p style="font-size:19px">Em um passado não distante, grande parte da população vivia em áreas rurais, com mais espaço e maior distanciamento geográfico uns dos outros. Agora vivemos em espaços reduzidos, apartamentos apertados, uns sobre as cabeças dos outros&#8230; Entre taxas altíssimas de densidade populacional e uma interconexão tecnológica crescente, existe uma queixa comum do sentimento de solidão e de isolamento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-se-estamos-cada-vez-mais-juntos-se-a-comunicacao-nao-encontra-barreiras-tecnologicas-e-a-conexao-virtual-e-constante-como-essa-solidao-se-apresenta" style="font-size:19px">Se estamos cada vez mais juntos, se a comunicação não encontra barreiras tecnológicas e a conexão virtual é constante, como essa solidão se apresenta?</h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Byung-Chul Han</strong> afirma que vivemos uma crise: <strong>a crise de ressonância</strong>. Em uma sociedade marcada pela ênfase na performance, eficiência e produtividade, as pessoas perderam a capacidade de &#8220;ressoar&#8221; com o outro e com o mundo. Ressonância no sentido de se envolver de maneira autêntica e reflexiva com o que nos circunda, em contraste com a comunicação superficial e impessoal. &nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">Em contraponto, como é próprio da vida, o isolamento apresenta várias faces. Existe um recolhimento interior necessário ao conhecimento da alma. No mergulho dentro de si, um silêncio dos ruídos externo é buscado, na tentativa de escuta dos movimentos internos. Esse processo é marcado por um natural afastamento, uma procura individual, uma solidão que ensina. Aguçar os ouvidos para os sons no mundo interno requer uma pausa, um tempo, um distanciamento. Tal movimento por vezes é marcado pela experiência solitária. Por mais que existam guias, livros, terapeutas, incursionar as águas profundas do mundo interno é um labor feito sozinho, mas com a companhia dos múltiplos habitantes da psique, nossos complexos. É preciso silenciar fora, para distinguir as vozes de dentro com maior consciência.</p>



<p style="font-size:19px">A solidão, dentro desse caminho de experiência psíquica, se torna um chamado ao conhecimento e integração do ser, um momento de recolhimento necessário para a escuta de aspectos inconscientes, como <strong>Jung</strong> nos traz neste trecho de<em> “Memórias, Sonhos e Reflexões”:</em></p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A solidão não vem de não ter pessoas por perto, mas de ser incapaz de comunicar as coisas que parecem importantes, ou de manter certos pontos de vista que os outros consideram inadmissíveis.” (JUNG, 2000, p. 356)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-este-isolamento-nao-e-um-afastamento-social-patologico-mas-sim-uma-retirada-simbolica-do-mundo-exterior-para-que-o-individuo-possa-reencontrar-se-internamente" style="font-size:19px">Este isolamento não é um afastamento social patológico, mas sim uma retirada simbólica do mundo exterior para que o indivíduo possa reencontrar-se internamente.</h2>



<p style="font-size:19px">Mesmo nos contos de fadas e narrativas mitológicas, observa-se um momento de isolamento necessário em que o herói, heroína ou protagonista da peripécia realiza uma transformação simbólica através de um recolhimento ou exílio. Seja o refugio na floresta, como em a Branca de Neve ou a descida ao Hades com Perséfone, o encontro com um potencial, aspecto ou sombra é feito em um lugar a parte, que requer uma travessia solitária. O verdadeiro crescimento se opera quando o indivíduo se defronta com seu próprio ser e com lugares antes desconhecidos em si mesmo. Processo esse que pede distanciamento da opinião externa já estruturada na consciência egóica.</p>



<p style="font-size:19px">Para <strong>Jung</strong>, a solidão está profundamente ligada ao processo de individuação e oferta um espaço simbólico de metamorfose. Ele afirma que “<strong>a individuação requer solidão, porque sem ela o indivíduo não pode tornar-se consciente de sua totalidade e de sua verdadeira natureza</strong>” (JUNG, 2011, §74).</p>



<p style="font-size:19px">O isolamento vivido como salutar distanciamento do mundo externo ou como solitária prisão nos habita de tempos em tempos. Como um vento que penetra nosso ser, o espírito da solidão faz parte da experiência humana. Por vezes com tonalidades de incompreensão e abandono, outras acompanhadas de desamor e crenças de não merecimento, o sentimento de solidão transpassa a alma e se faz presente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-choque-de-sofrimento-talvez-se-de-pela-ideia-de-que-nao-devemos-ser-sos-de-que-isso-e-errado-prejudicial-e-desagradavel-logo-surge-um-impulso-de-querer-retirar-a-solidao-e-ve-la-como-indesejavel" style="font-size:19px">O choque de sofrimento talvez se dê pela ideia de que não devemos ser sós, de que isso é errado, prejudicial e desagradável. Logo surge um impulso de querer retirar a solidão e vê-la como indesejável.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Para nos livrar desses momentos, temos filosofias que os explicam e fármacos que os negam. As filosofias dizem que a vida desenraizada e corrida da cidade grande e o trabalho impessoal criaram uma condição social de anomia. O sistema econômico industrial nos isola. Passamos a ser meros números. Vivemos o consumismo em vez de a comunidade. A solidão é um sintoma da vitimização. Somos vítimas de um modo de viver errado. <strong>Não devemos ser solitários</strong>. Mude o sistema — viva numa cooperativa ou numa comuna; trabalhe em equipe. Ou crie relacionamentos: “Se ligue, apenas se ligue.” Socialize-se, participe de grupos de recuperação, envolva-se. Pegue o telefone. Ou peça a seu médico uma receita de Prozac (HILLMAN, 1993, p. 27).</p></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Ao mesmo tempo em que existe uma norma social implícita de <strong>positividade</strong>. Sorria; seja feliz; seja bem-sucedido; dê certo na vida; ache o seu propósito e seja autêntico, independente e especial; tenha uma vida produtiva; seja comunicativo; esteja atualizado, ligado, conectado com as novidades; esteja informado, por dentro, sempre ligado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nessa-tonica-tudo-depende-de-voce-faca-e-aconteca-voce-pode-se-moldar-se-construir-achar-sua-melhor-versao" style="font-size:19px">Nessa tônica, tudo depende de você. Faça e aconteça. Você pode se moldar, se construir, achar sua melhor versão.</h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Então, não surpreendentemente, aparecem a depressão, o isolamento, o afastamento e a sensação de estar sozinho no mundo.</strong> <strong>Claro, tudo depende de você, só de você</strong>. O peso sobre os ombros de cada indivíduo cresce, se torna insuportavelmente pesado. Uma vez que ‘querer é poder’, seria só você querer, só você fazer. Tudo está excessivamente centrado no ideal narcísico de realização, produção e satisfação. Não se pode ficar por fora, improdutivo, sem entregar resultados.</p>



<p style="font-size:19px">No panorama social contemporâneo, existe uma valorização exacerbada da extroversão, que entra em choque com esse impulso de recolhimento. Podemos conjecturar: não ser a toa que a depressão nos visita tão massivamente e insistentemente. Quando os valores sociais pedem ânimo, disposição, produtividade, autonomia, o que cresce como sintoma é um chamado depressivo que inviabiliza essa entrega unilateral de performance.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-byung-chul-han-argumenta-que-a-solidao-hoje-e-diferente-da-solidao-do-passado" style="font-size:19px"><strong>Byung-Chul Han</strong> argumenta que a solidão hoje é diferente da solidão do passado. </h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Antigamente</strong>, a solidão podia ser <strong>frutífera</strong>, ligada à contemplação, à criatividade e à liberdade interior. <strong>Hoje</strong>, ela é vivida como <strong>abandono</strong>, vazio e até sofrimento. Resultado de uma sociedade excessivamente conectada, em que todos estão presentes digitalmente o tempo todo, mas de modo superficial. A solidão atual se coloca assim como diferente da solidão fértil e meditativa do passado, passando ela a ser estéril, marcada pela falta de encontro real com o outro e por uma hiperexposição que, paradoxalmente, isola. Atualmente, não decorre necessariamente da ausência de convivência física com outras pessoas, mas sim da crescente dificuldade em criar vínculos profundos e significativos. Vivemos cercados por conexões constantes no meio digital, muito embora essas interações muitas vezes carecem de profundidade e presença real. É nesse vazio relacional, em que predominam contatos superficiais e a lógica da performance, que a experiência de estar só se intensifica e se torna mais dolorosa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isolamento-que-co-rompe-vem-nao-como-sintoma-pontual-mas-como-onda-coletiva-da-vivencia-da-solidao" style="font-size:19px">Isolamento que (co)rompe vem não como sintoma pontual, mas como onda coletiva da vivência da solidão.</h2>



<p style="font-size:19px">Este é vivido como fruto da fragmentação das conexões. Muito embora a solidão seja uma vivência arquetípica que atravessa a história da humanidade e habita o imaginário coletivo com múltiplas faces — ora como angústia, ora como passo para transformação, no contexto contemporâneo, essa solidão toma a tonalidade de isolamento mais acentuado. Não se apresenta apenas como um sintoma individual, mas como uma onda coletiva, fruto da fragmentação das conexões e do esvaziamento dos vínculos autênticos. A solidão que emerge nesse cenário nasce também da incompreensão — de nos sentirmos incompreendidos pelo outro, mas sobretudo por nós mesmos. A ausência de ressonância com o mundo externo reflete, muitas vezes, um desconhecimento profundo deste nosso mundo interno.</p>



<p style="font-size:19px">Sob a ótica <strong>junguiana</strong>, no entanto, essa solidão não deve ser tratada como um mal a ser erradicado, mas como um espaço psíquico legítimo e necessário para escuta, integração e amadurecimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-vazio-interior-longe-de-ser-negado-ou-anestesiado-pode-ser-compreendido-como-terreno-fertil-para-o-processo-de-individuacao" style="font-size:19px">O vazio interior, longe de ser negado ou anestesiado, pode ser compreendido como terreno fértil para o processo de individuação.</h2>



<p style="font-size:19px">O isolamento, portanto, não é patológico em si — ele pode ser uma condição propícia ao crescimento simbólico e à reconstrução de uma relação mais profunda consigo mesmo e com o outro.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/lorenaoliveira/">Lorena de Sousa Oliveira &#8211;  Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Simone Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas">Referências bibliográficas:</h2>



<p>HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2024.</p>



<p><em>______. O desaparecimento dos rituais: uma topologia do presente</em>. Petrópolis: Vozes, 2020.</p>



<p>HILLMAN, James. <em>O suicídio e a alma</em>. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1993.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>A psicologia e a alquimia</em> (Psychology and Alchemy). Obras completas, v. 12. Petrópolis: Vozes, 1980.</p>



<p>______. <em>Memórias, sonhos, reflexões</em>. 13. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.</p>



<p>______. <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. Obras completas, v. 9, parte I. Petrópolis: Vozes, 2000.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="www.ijep.com.br"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-8-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10740" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-8-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-8-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-8-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-8-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-8-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-8.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



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<p></p>
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		<title>O procedimento estético mais cobiçado da modernidade: o resgate da autoestima</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-procedimento-estetico-mais-cobicado-da-modernidade-o-resgate-da-autoestima/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pedro Pimentel Rocha]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Apr 2025 23:52:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[autenticidade]]></category>
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		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O constante avanço dos procedimentos estéticos e a construção de uma autoestima. Nesse artigo, se aborda a relação desses dois elementos, perpassando pelo conceito e pela ampliação do que é ter uma autoestima saudável, bem como seu processo de construção. Inúmeros casos de deformação corporal e prejuízos na saúde, alguns levando até a morte, [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Resumo</strong>: O constante avanço dos procedimentos estéticos e a construção de uma <strong>autoestima</strong>. Nesse artigo, se aborda a relação desses dois elementos, perpassando pelo conceito e pela ampliação do que é ter uma autoestima saudável, bem como seu processo de construção. Inúmeros casos de deformação corporal e prejuízos na saúde, alguns levando até a morte, são noticiados pela mídia a todo instante. Afinal, qual o sentido de tudo isso? Como a culpa e a vergonha de ser quem somos interferem nessa intrincada construção? <strong>Será que a persona tem influência nessa busca desmedida pelo belo através de seringas e ampolas</strong>? Este artigo explora essas questões sensíveis e angustiantes pontudas e estimuladas a todo instante pela cultura, pela mídia, por nós mesmos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-injecoes-de-alegria-e-ampolas-de-autoestima-nunca-foi-tao-facil-comprar" style="font-size:21px">Injeções de alegria e ampolas de autoestima, nunca foi tão fácil comprar.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">O conceito de autoestima atravessa dois campos principais: a valorização das próprias competências e uma relação harmoniosa com o corpo. O gostar de si mesmo é uma conquista difícil de ser alcançada nos tempos atuais, quando se há uma padronização daquilo que é considerado saudável, aceito e belo. Com isso, as diferenças são jogadas na sombra. Assim, o valorizar o que há de singular e de diferente em nós acaba sendo um processo não estimulado ou visto como falta de empatia com o próximo.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Ter uma visão honesta e completa daquilo que somos e do que nos constitui lança o ego em uma encruzilhada de contradições e paradoxos. Não há possibilidade de amar pontos cegos, negados e desconhecidos pela consciência. Quando mais se rejeita, mais energia psíquica este conteúdo ganha, impactando e constrangendo o ego de maneira intensa e incontrolável. Portanto, o primeiro passo para desenvolver uma autoimagem consistente é aceitar as próprias falhas; é reconhecer que perfeição não há, mas sim inteireza.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-espelho-espelho-meu-existe-alguem-mais-bela-do-que-eu" style="font-size:21px">Espelho, espelho meu; existe alguém mais bela do que eu?</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Ter uma autoestima bem trabalhada não é algo fixo, imutável e permanente no tempo, tampouco um processo estanque. É um trabalho pessoal dinâmico, com oscilações e repleto de incertezas e descobertas. É de suma importância estabelecer uma conexão do Eu com o Si-mesmo, pois é nesse diálogo e integração que residem os valores mais genuínos e autênticos de cada indivíduo. A busca desmedida e constante por seringas e ampolas para aplacar o vazio existencial e de sentido interno nunca foi tão procurado; e simultaneamente tão ineficaz.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“O valor tanto energético como moral da personalidade consciente e inconsciente está sujeito às maiores variações no indivíduo.” (JUNG, OC.14/2, §281)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-redes-sociais-filtros-sao-criados-a-todos-instante-se-tornando-uma-regra-para-a-validacao-social-de-corpo-estetica-e-imagem" style="font-size:19px">Nas redes sociais, filtros são criados a todos instante, se tornando uma regra para a validação social de corpo, estética e imagem.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Um sequestro coletivo de traços de humanidade e diversidade é autorizado de forma subliminar a todo instante. A insegurança natural de ser quem se é acaba sendo anulada e exterminada a todo custo. A possibilidade de criação e desenvolvimento de consciência, permeada de riscos, incertezas e dúvidas, é esterilizada. Como consequência, insônias, crises de ansiedade, fobias sociais e distorção de imagem, viram queixas constantes e diárias.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>É bom ressaltar que o corpo é a extensão da psique</strong>. O não reconhecimento daquilo que se enxerga no espelho afeta intensamente o gostar e a liberdade de expor a própria imagem. Estamos cada vez mais inclusivos, humanos e fraternos. Será? <strong>É público e notório o aumento crescente e intenso por procedimentos estéticos, como a harmonização. Cirurgias plásticas, a busca pelo rosto quadrado, o levantamento de linhas de expressão. Qual a finalidade de todas essas intervenções</strong>? O cuidado consigo mesmo não pode ser álibi para um assassinato da própria natureza.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">O senso de autoestima conversa diretamente com o conceito de <strong>persona</strong>, desenvolvido por <strong>Jung</strong>. <strong>Persona é uma construção psicológica constituída por valores, aspectos, ideias e comportamentos, selecionados por todos nós com a finalidade de aceitação e movimentação no mundo social e coletivo. É tudo aquilo que escolho para me apresentar ao outro.</strong></p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">O grande paradoxo começa quando há uma<strong> identificação com a persona</strong>. Mesmo sendo uma estrutura necessária, ao se identificar com esses aspectos, pode-se criar um falso eu, uma ilusão, uma fragmentação daquilo que somos em essência. Logo, ocorre um choque com a nossa natureza, criando dúvidas, confusões, angústias e incertezas sobre a nossa individualidade. Deste modo <strong>a autoestima e a espontaneidade são enterradas e solapadas</strong>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo.” (JUNG, OC.7/2, §246)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-expectativa-de-terceiros-seja-na-forma-do-nucleo-familiar-ou-de-um-coletivo-social-impacta-diretamente-a-autopercepcao-do-individuo" style="font-size:21px">A expectativa de terceiros, seja na forma do núcleo familiar ou de um coletivo social, impacta diretamente a autopercepção do indivíduo.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Quando há um conflito entre aquilo que sabemos sobre nós, a nossa função no mundo e a qualidade das relações subjetivas estabelecidas e o que a sociedade cria como expectativa de bom, moral e justo, o senso de identidade é o primeiro a ser sacrificado. É um sacrifício caro e contra a natureza, fortalecendo o sentimento de inadequação e o enfraquecimento da autoestima.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">A culpa e a vergonha são aspectos a serem amplificados nessa jornada da busca ao amor próprio. Um dos pontos cruciais a se pensar é a própria autorização de ser quem se é e viver harmoniosamente e coerentemente com sua singularidade, independente da avaliação constante do mundo e seus pilares de eficiência e alegria constante. A culpa por não seguir um padrão estimula a correção do dito imperfeito.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>O que fazemos com a culpa? Uma das grandes questões de um processo psicoterapêutico</strong>. É um mecanismo legítimo que nos coloca frente a frente com a responsabilidade e conscientização dos nossos atos, retirando a sua projeção nos outros, ou é uma algema instalada por ideais e ofensas falsas coletivas que impede o autorrespeito?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-experiencias-da-infancia-quando-sao-permeadas-por-episodios-de-humilhacao-ofensa-e-descredito-podem-abrir-feridas-emocionais-profundas-e-dolorosas" style="font-size:19px">As experiências da infância quando são permeadas por episódios de humilhação, ofensa e descrédito podem abrir feridas emocionais profundas e dolorosas. </h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Dessa maneira, imagens de experiências desafiadoras (que são atraídas e circundam complexos com um núcleo arquetípico) surgem e deixam rastros capazes de desvendar temas e conteúdos preciosos necessários à consciência. Ter a coragem e a honestidade demandadas ao lidar com questões arquetípicas como vaidade, soberba, inferioridade, rejeição, auxiliam fortemente o desenvolvimento e a formação do senso de existência e amor próprio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-constrangimento-decorrente-do-olhar-a-realidade-que-se-e-nunca-sera-maior-do-que-o-desconforto-de-viver-refem-de-dogmas-e-mandos-sem-sentido" style="font-size:19px">O constrangimento decorrente do olhar a realidade que se é nunca será maior do que o desconforto de viver refém de dogmas e mandos sem sentido.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Mas se esse homem conscientizar seus conteúdos inconscientes, tais como aparecerem inicialmente nos conteúdos fáticos de seu inconsciente pessoal e depois nas fantasias do inconsciente coletivo, chegará às raízes de seus complexos.” (JUNG, OC. 7/2, §387)</p></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Jacoby </strong>cita: “<strong><em>Com que rapidez nos sentimos envergonhados e com que intensidade, afinal de contas, depende da medida de tolerância que somos capazes de concentrar para nossos próprios lados sombrios</em></strong>.” (2023. p.41).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-lidar-com-a-autoestima-e-um-convite-de-paz-com-os-nossos-proprios-demonios-e-questoes-sombrias-demonstrando-uma-autocompaixao-por-nos-e-pelos-outros" style="font-size:19px">Lidar com a autoestima é um convite de paz com os nossos próprios demônios e questões sombrias, demonstrando uma autocompaixão por nós e pelos outros.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">À medida que me reconheço e tenho consciência das minhas imperfeições, consigo respeitar e ser tolerante com o outro. Com a tolerância, uma união pode ocorrer e uma estima nascer. Eros pode reestabelecer o vínculo com a vida, com o corpo e com o autorrespeito.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">A capacidade de estabelecer limites e de dizer não sem ter a compressão desse ato como uma ofensa ao outro é um aspecto rico a ser debatido. Se colocar na posição de humilde e sempre prestativo para que a aceitação de quem se é ocorra é um perigo, que pode camuflar compensações inconscientes das mais variadas formas e conteúdo. A partir do momento que não estabeleço uma distância com o que chega até mim, uma simbiose inconsciente pode ocorrer, afastando cada vez mais a possibilidade de diferenciação e individualização. Por consequência, se não sei quem sou, uma dificuldade em valorar o que faço, o que penso, se instala.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-fim-a-autenticidade-e-o-fruto-de-uma-autoestima-trabalhada" style="font-size:19px">Por fim, <strong>a autenticidade é o fruto de uma autoestima trabalhada</strong>.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">O centro da totalidade psíquica, o Si-mesmo, abre caminhos simbólicos, seja por sonhos, sincronicidade, expressões criativas, para que uma união seja realizada. Antes de mais nada, ter autoestima é ter conhecimento do mundo interno; dos paradoxos e das polaridades subjetivas; dos diálogos com conteúdos inconscientes. Processo impossível de acontecer se rejeitarmos a voz e o encontro com esse centro mandálico.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📝Artigo novo: &quot;O procedimento estético mais cobiçado da modernidade: o resgate da autoestima&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/blFXwiWV6wg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/pedro-rocha/">Pedro Pimentel Rocha – Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/"><strong>Waldemar Magaldi – Analista Didata</strong> <strong>do IJEP</strong></a></p>



<p style="font-size:22px"><strong>Referências:</strong></p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">JACOBY, M. <strong>A vergonha e as origens da autoestima. Abordagem Junguiana</strong>. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">JUNG, C. G. <strong>O eu e o inconsciente</strong>. OC.7/2. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">JUNG, C. G. <strong>Mysterium Coniunctionis</strong>. OC.14/2. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="has-luminous-vivid-orange-color has-text-color has-link-color wp-elements-fc40df6cbddff4d11be9709c55dbd258" style="font-size:18px"><em><strong>X Congresso Junguiano IJEP&nbsp;(9, 10, 11 Junho/2025)</strong>&nbsp;–&nbsp;<strong>Online e Gravado – 30h Certificação</strong></em></p>



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<p class="has-luminous-vivid-orange-color has-text-color has-link-color wp-elements-c40715b522ea1a85eca82db21cd14f75" style="font-size:18px"><strong><em>Acompanhe nosso Canal no YouTube:&nbsp;https://www.youtube.com/@IJEPJung</em></strong></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Os impactos dos algoritmos no trabalho do psicoterapeuta junguiano</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/os-impactos-dos-algoritmos-no-trabalho-do-psicoterapeuta-junguiano/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leandro Scapellato]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Jan 2025 15:13:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[algoritmos]]></category>
		<category><![CDATA[fake news]]></category>
		<category><![CDATA[infocracia]]></category>
		<category><![CDATA[redes sociais]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10156</guid>

					<description><![CDATA[<p>Resumo: O ensaio tece reflexões acerca dos possíveis impactos da “infocracia”, temo usado por Byung-Chul Han para designar a dinâmica de controle e poder por meio das redes sociais, com pressões por exposição sobre os profissionais terapeutas, tendo em vista a atual perspectiva sobre o que seria “sucesso” pela população em geral, além da pressão [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong><em>Resumo:</em></strong> <em>O ensaio tece reflexões acerca dos possíveis impactos da “infocracia”, temo usado por Byung-Chul Han para designar a dinâmica de controle e poder por meio das redes sociais, com pressões por exposição sobre os profissionais terapeutas, tendo em vista a atual perspectiva sobre o que seria “sucesso” pela população em geral, além da pressão por se adequarem aos algoritmos, que exigem, cada vez mais, conteúdos rasos, práticos, os mais genéricos possíveis, prezando pela quantidade em detrimento da qualidade, o que pode ir exatamente na contramão da individualidade necessária no processo de individuação apresentado por Carl Gustav Jung na psicologia analítica.</em></p>



<p style="font-size:18px">O filósofo e ensaísta sul-coreano Byung-Chul Han usa o termo “<strong>infocracia</strong>” para definir o sistema de controle e poder ao qual estamos submetidos hoje, com o vasto uso das redes sociais em todas as áreas da sociedade contemporânea.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>A informação, segundo ele, domina as esferas social, política e pessoal, e facilmente se torna ferramenta de controle e manipulação.</strong></p>



<p style="font-size:18px">Como exemplo disso, podemos observar as forças atuais, dentro da esfera política, das chamadas <strong><em>Fake News</em> </strong>nos jogos políticos durante as eleições por todo o globo terrestre. Mais precisamente, pode-se verificar, por exemplo, o papel do X (antigo Twitter) nas últimas eleições (2024) americanas, onde Trump foi eleito presidente dos EUA.</p>



<p style="font-size:18px">O dono do X, o bilionário Elon Musk, defensor da liberdade de expressão irrestrita, foi apoiador declarado do candidato republicano — o comitê criado por ele gastou mais de 200 milhões de dólares para ajudar a eleger Trump (G1, 2024) —, e sua rede social, segundo fontes jornalísticas, foi uma grande, senão a maior ferramenta de pulverização de <em><strong>Fake News</strong></em> que, de alguma maneira, tinham como objetivo ajudar aquele candidato a ganhar votos.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Alguns usuários do X (antigo Twitter) que passam os dias compartilhando conteúdo que inclui desinformação eleitoral, imagens geradas por inteligência artificial (IA) e teorias de conspiração infundadas dizem que estão ganhando &#8220;milhares de dólares&#8221; pela plataforma de rede social. <br><br>A BBC identificou redes de dezenas de contas que compartilham o conteúdo umas das outras várias vezes ao dia — incluindo uma mistura de material verdadeiro, infundado, falso e forjado — para aumentar seu alcance e, portanto, a receita na plataforma </p><cite>(BBC, 2024).</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-infocracia-substitui-o-poder-tradicional-ainda-segundo-o-mesmo-autor-pela-influencia-e-direcionamento-da-atencao-muitas-vezes-sutis-porem-de-eficacia-incontestavel-e-como-consequencia-do-comportamento-dos-individuos-por-meio-de-um-fluxo-massivo-de-dados" style="font-size:18px"> A “infocracia” substitui o poder tradicional, ainda segundo o mesmo autor, pela influência e direcionamento da atenção, muitas vezes sutis, porém de eficácia incontestável, e, como consequência, do comportamento dos indivíduos por meio de um fluxo massivo de dados.</h2>



<p style="font-size:18px">O poder nas redes sociais é exercido por algoritmos sem alma, que, indo na contramão da autonomia individual de maneira nunca observada — muito mais forte do que, por exemplo, a televisão era capaz de fazer poucas décadas atrás —, “decidem” o que as pessoas consomem, leem e até mesmo o que pensam sobre determinados assuntos, sem, ao menos, notarem que estão sendo manipuladas.</p>



<p style="font-size:18px">E por que estou escrevendo sobre isso hoje? Porque é uma ilusão pensar que esse fenômeno não nos atinge, psicoterapeutas e analistas junguianos. Primeiramente porque, cada vez mais, para conseguir se lançar ou construir uma carreira minimamente segura — em termos de número de clientes e entrada financeira — nos atendimentos clínicos, os psicoterapeutas recém-formados, em sua grande maioria, acabam compreendendo que, hoje, muitas pessoas escolhem os profissionais da área pelo que veem nas redes sociais, que estão funcionando como substitutos modernos dos currículos de outrora. Na prática, isso significa quase uma imposição para que esses profissionais se adequem à dinâmica das redes sociais na esperança de captar clientes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-segundo-lugar-podemos-pensar-que-esse-fenomeno-do-controle-exercido-em-massa-pelos-algoritmos-de-certa-maneira-como-o-proprio-byung-chul-han-afirma-enfraquece-o-espirito-critico-e-a-reflexao-dos-individuos" style="font-size:18px">Em segundo lugar, podemos pensar que esse fenômeno do controle exercido em massa pelos algoritmos, de certa maneira, como o próprio Byung-Chul Han afirma, <strong>enfraquece o espírito crítico e a reflexão dos indivíduos</strong>.</h2>



<p style="font-size:18px">As pessoas deixam de ser ativas dentro de sua própria jornada, construindo opiniões baseadas em críticas e valores internos, e passam a ser apenas consumidores passivos de informações selecionadas e filtradas por inteligências artificiais que trabalham de acordo com os interesses de empresas de tecnologia e de publicidade.</p>



<p style="font-size:18px">A meu ver, a <strong>infocracia</strong>, tal qual como definida por Byung-Chul Han, pode interferir profundamente no trabalho dos psicoterapeutas quando a relevância profissional passa a ser medida pela popularidade do profissional nas redes, forçando uma dinâmica de “obrigação” de exposição em redes sociais que, em sua maioria, senão todas, são ambientes que priorizam a visibilidade e o afeto acima do conteúdo em si.</p>



<p style="font-size:18px">Em outras palavras, os conteúdos que têm o poder de causar afetos nos usuários, independentemente de serem verdadeiros ou realmente úteis, são entregues para cada vez mais usuários, enquanto conteúdos profundos, verdadeiros, que poderiam ser úteis, mas que não possuem esse apelo emocional como foco, são abandonados e não são entregues nem para os próprios seguidores dos perfis que os produzem, fazendo pressão para que esses mesmos profissionais acabem por se adaptar e se alinhar a essa estrutura que favorece o engajamento emocional ao invés de um conteúdo devidamente embasado e teoricamente válido, sob risco de não conseguirem alcançar clientes em potencial.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-tentarem-se-tornar-ou-se-manter-atrativos-para-o-algoritmo-os-profissionais-da-psicoterapia-muitas-vezes-se-veem-obrigados-a-produzir-cada-vez-mais-materiais-rasos-mas-que-afetem-o-publico-de-maneira-rapida-priorizando-posts-que-gerem-engajamento-afetivo-como-compartilhamentos-comentarios-e-curtidas-em-vez-de-reflexoes-profundas-consequentemente-cada-vez-mais-pautando-o-espirito-da-epoca-ao-inves-do-espirito-das-profundezas" style="font-size:18px">Ao tentarem se tornar ou se manter atrativos para o algoritmo, os profissionais da psicoterapia muitas vezes se veem obrigados a produzir cada vez mais materiais rasos, mas que afetem o público de maneira rápida, priorizando <em>posts</em> que gerem engajamento afetivo, como compartilhamentos, comentários e curtidas, em vez de reflexões profundas. Consequentemente, cada vez mais pautando o espírito da época, ao invés do espírito das profundezas.</h2>



<p style="font-size:18px">A infocracia, portanto, nos traz um grande desafio, no sentido de os terapeutas imersos no mundo online precisarem encontrar algum ponto de equilíbrio entre a necessária presença nas redes sociais e a necessidade de seguir um caminho ético e substancial, que realmente esteja em consonância com os desejos do Self e do processo de individuação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vale-ressaltar-ainda-que-carl-gustav-jung-nos-diz-em-sua-obra-indispensavel-para-o-analista-junguiano-a-pratica-da-psicoterapia-que-o-individual-nao-importa-perante-o-generico-e-o-generico-nao-importa-perante-o-individual-jung-2013-p-15" style="font-size:18px">Vale ressaltar, ainda, que Carl Gustav Jung nos diz, em sua obra indispensável para o analista junguiano, <em>A prática da psicoterapia, </em>que &#8220;<strong>o individual não importa perante o genérico, e o genérico não importa perante o individual</strong>” (JUNG, 2013, p. 15).</h2>



<p style="font-size:18px">Essa é uma tensão fundamental que deve ser analisada dentro desse contexto das redes sociais, já que a referida pressão para produzir conteúdos que gerem engajamento afetivo em muitas pessoas também significa a produção de conteúdos rasos e genéricos, padronizados e de fácil consumo.</p>



<p style="font-size:18px">Esse tipo de conteúdo normalmente se afasta das necessidades únicas do individual que o consome e, ao mesmo tempo, cria uma ilusão de fórmula única que vá servir como resposta aos questionamentos internos existentes. Produzindo um distanciamento e uma desconexão entre o que deveria ser a prática da psicoterapia junguiana e o que é consumido pelos seguidores nas redes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-outras-palavras-os-conteudos-genericos-produzidos-com-intuito-de-gerarem-engajamento-emocional-que-garantem-reacoes-rapidas-nao-capturam-a-profundidade-necessaria-para-se-trabalhar-a-individualidade-de-quem-os-consome-afinal" style="font-size:18px">Em outras palavras, os conteúdos genéricos, produzidos com intuito de gerarem engajamento emocional, que garantem reações rápidas, não capturam a profundidade necessária para se trabalhar a individualidade de quem os consome, afinal:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“<strong>O sapato que serve num pé aperta no outro, e não existe uma receita de vida válida para todo mundo. Cada qual tem sua forma de vida dentro de si, sua forma irracional, que não pode ser suplantada por outra qualquer</strong>.”</em></p><cite> (JUNG, 2013, p. 53)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">Assim, por exemplo, <strong>o psicoterapeuta ou analista, que publica conselhos amplos e acessíveis, pode atrair uma massa de seguidores, mas corre o risco de, ao ver as pessoas de maneira homogênea em vez de indivíduos com jornadas específicas, trair e negligenciar a dimensão profunda e singular dessas pessoas</strong>, tão defendida por Jung e tão necessária para o processo de individuação.</p>



<p style="font-size:18px">Outro ponto que acho importante mencionar para reflexão é o fato de os algoritmos acabarem forçando uma identificação do terapeuta com uma persona válida para o engajamento buscado — o terapeuta engraçado, o provocativo, o que fala sobre só determinado tema, o que age de determinada maneira, etc. — em detrimento da personalidade desse terapeuta, com todas as nuances e instabilidades inerentes ao humano, que, na prática clínica, se faz necessário no processo dialético proposto por Jung.</p>



<p style="font-size:18px">Assim, nesse contexto, o terapeuta acaba por se desconectar de sua própria profundidade única e autêntica para performar uma identidade aprovada pelo algoritmo e, com isso, manter o alcance de sua exposição, e corre o risco, caso não esteja atento e confronte continuamente essa possibilidade, de levar essa <strong>identificação com a “persona de sucesso na perspectiva do algoritmo</strong>” para o atendimento analítico.</p>



<p style="font-size:18px">Ao conversar com colegas sobre esse assunto, não é incomum receber como resposta ricas críticas a essa dinâmica de adaptação às redes sociais, mas que, de alguma maneira, parecerem falar sempre sobre o outro, somente sobre o outro, fazendo de nós mesmos estandartes de nobreza analítica, impecáveis e preenchidos apenas com a mais pura luz de cura, que jamais caímos ou cairíamos nas armadilhas do mundo moderno.</p>



<p style="font-size:18px">Neste ponto, acho interessante trazer a provocadora perspectiva do analista junguiano <strong>Adolf Guggenbühl-Craig</strong>, em seu livro <strong>O <em>Abuso do Poder na Psicoterapia</em></strong>, sobre as sombras que todo analista — assim como o médico, o sacerdote, dentre outros — carrega: <strong>a do charlatão e a do falso profeta</strong> (p, 27). Segundo ele, essas sombras nos acompanham permanentemente, e que ignorar isso nos faz vítimas fáceis delas.</p>



<p style="font-size:18px">Fazendo uma analogia entre a figura do analista e a figura do sacerdote (pp. 29-30), <strong>Guggenbühl-Craig</strong> nos provoca afirmando que o analista, de certa maneira, é reconhecido por seus clientes como uma espécie de sacerdote, que, de alguma maneira, possui um acesso privilegiado a “Deus” — inconsciente, Self — e, por isso, possui certezas salvadoras sobre os caminhos a serem seguidos por todos. Porém, ainda segundo ele, “<strong><em>O lado sombrio dessa nobre imagem do homem Deus é o hipócrita, aquele que prega não porque acredita, mas para ter influência e poder</em></strong>” (p. 29).</p>



<p style="font-size:18px">Podemos carregar essa provocação para o nosso trabalho, e que as redes sociais fazem um papel de igreja, onde as pessoas não mais se ajoelham, mas permanecem por horas de cabeça baixa, rolando barras de rolagem infinitas, buscando e absorvendo passivamente respostas que ajudem em seus caminhos, e oferecendo, para aqueles que apresentam essas respostas — mesmo sem acreditar verdadeiramente nelas — influência e poder.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Assim como no caso do médico e seus pacientes, com o clérigo também ocorre serem os membros de sua congregação os responsáveis involuntários pela ativação do irmão obscuro, pois exercem considerável pressão para que ele desempenhe o papel de hipócrita. A dúvida é companheira da fé. Mas ninguém  quer ouvi-la da boca de um sacerdote [analista] — as nossas já bastam. Assim, este acaba não tendo alternativa a não ser tornar-se hipócrita de quando em vez, escondendo suas próprias dúvidas e mascarando um momentâneo vazio interior com palavras eloquentes. Se seu caráter for fraco este poderá tornar-se um traço habitual. </p><cite>(Guggenbühl-Craig, 2004, p. 29)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">E, ainda:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Da mesma forma que o sacerdote, trabalhamos com nossa alma, nosso ser; os métodos, as técnicas e o aparato utilizados são secundários. Nós, nossa honestidade e autenticidade, nosso contato pessoal com o inconsciente e o irracional — são esses os nossos instrumentos. É grande a pressão que sofremos para apresentá-los melhores do que são; mas, nesse caso, tornamo-nos vítima da sombra do psicoterapeuta. </p><cite>(Guggenbühl-Craig, 2004, pp. 32-33)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">Talvez fosse mais fácil ter consciência e capacidade de confrontar essa pressão se ela viesse apenas dos indivíduos &#8211; já que as formações sérias tentam preparar os estudantes para isso -, mas a pressão dos algoritmos sobre todos, e em especial sobre aqueles profissionais que chegam às redes com suas carreiras ainda incipientes, buscando clientela para cumprir compromissos básicos de sobrevivência, é cruel, desalmada e ameaçadora.</p>



<p style="font-size:18px">Por isso, a meu ver, <strong>o algoritmo cria o paraíso perfeito para que o analista se identifique cegamente com a sombra do falso profeta e do charlatão</strong> — e, até onde sei, essa temática não faz parte de nenhuma formação de analistas.</p>



<p style="font-size:18px">Não é meu objetivo aqui levantar uma bandeira contra as redes sociais. Eu mesmo fui agraciado, no começo de minha carreira como terapeuta, pelos benefícios de uma ferramenta onde eu pude me expor e me apresentar para pessoas do mundo inteiro. Além disso, sei de inúmeros e incontáveis casos em que o genérico foi apenas uma porta de entrada para que o indivíduo buscasse uma jornada individual de psicoterapia. Porém, uma reflexão, a meu ver, se faz necessária no sentido de acompanhar e não perder o <strong>senso crítico</strong> em relação às mudanças que estão ocorrendo ao longo dos anos em relação aos algoritmos das redes sociais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-barras-de-rolagem-infinitas-conteudos-curtos-e-faceis-de-compreender-que-nao-estimulam-avaliacao-critica-alguma-sobre-o-que-e-mostrado-e-manipulam-a-atencao-dos-individuos-estao-cada-vez-mais-presentes-e-aparentemente-ainda-nao-chegamos-ao-fundo-do-poco-nessa-questao" style="font-size:19px">Barras de rolagem infinitas, conteúdos curtos e fáceis de compreender, que não estimulam avaliação crítica alguma sobre o que é mostrado, e manipulam a atenção dos indivíduos, estão cada vez mais presentes e, aparentemente, ainda não chegamos ao fundo do poço nessa questão.</h2>



<p style="font-size:18px">E, pelos motivos explicados — mas sem exaurir o tema — acredito que se Carl Gustav Jung vivo fosse, provavelmente veria a pressão dos algoritmos, com seu poder de <strong>manipulação eficaz e sutil</strong>, como um <strong>obstáculo à jornada de individuação</strong>. Já que, no ambiente digital, muitas vezes a individualidade do terapeuta e de cada seguidor é substituída facilmente por um conteúdo padronizado que não promove o autoconhecimento real e, muitas vezes, apenas reforça padrões e complexos que deveriam ser confrontados.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-se-essa-mesma-dinamica-de-alguma-maneira-inconsciente-contaminar-a-clinica-do-terapeuta-identificado-com-a-persona-de-sucesso-no-online-ele-tratara-o-individual-como-generico-anulando-a-forca-do-processo-analitico" style="font-size:18px">E, se essa mesma dinâmica, de alguma maneira inconsciente, “contaminar” a clínica do terapeuta identificado com a persona de “sucesso” no online, ele tratará o individual como genérico, anulando a força do processo analítico.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Se, na qualidade de psicoterapeuta, eu me sentir como autoridade diante do paciente [&#8230;] e tiver pretensão de saber algo sobre sua individualidade e fazer afirmações válidas a seu respeito, estarei demonstrando falta de espírito crítico, pois não estarei reconhecendo que não tenho condições de julgar a totalidade da personalidade que está lá à minha frente. Posso fazer declarações legítimas apenas a respeito do ser humano genérico, ou pelo menos relativamente genérico. Mas como tudo o que vive só é encontrado na forma individual, e visto que só posso afirmar sobre a individualidade de outrem o que encontro em minha própria individualidade, corro o risco ou de violentar o outro, ou de sucumbir por minha vez ao seu poder de persuasão. [&#8230;] Tenho que optar necessariamente por um método dialético, que consiste em confrontar as averiguações mútuas. Mas isto só se torna possível se eu deixar ao outro a oportunidade de apresentar seu material o mais completamente possível, sem limitá-lo com meus pressupostos. [&#8230;]. </p><cite>(JUNG, 2013, pp.15-16).</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px"></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📝 Artigo novo: &quot;Os impactos dos algoritmos no trabalho do psicoterapeuta junguiano&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/PvlQIjYUTD4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px">Membro Analista em formação<strong>: <a href="https://blog.sudamar.com.br/author/leandroscapellato/">Leandro Scapellato</a></strong></p>



<p style="font-size:19px">Analista didata: <strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Dr. Waldemar Magaldi</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p style="font-size:15px">BBC. <em>Como usuários do X ganham milhares de dólares espalhando fake News sobre eleição dos EUA</em>. Disponível em <a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c937q4p7g09o">https://www.bbc.com/portuguese/articles/c937q4p7g09o</a>. Acesso em 12 nov. 2024.</p>



<p style="font-size:15px">G1. Comitê de Elon Musk gastou cerca de US$ 200 milhões de dólares para ajudar a eleger Trump, diz agência. Disponível em <a href="https://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2024/noticia/2024/11/12/comite-de-elon-musk-gastou-cerca-de-us-200-milhoes-para-ajudar-a-eleger-trump-diz-agencia.ghtml">https://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2024/noticia/2024/11/12/comite-de-elon-musk-gastou-cerca-de-us-200-milhoes-para-ajudar-a-eleger-trump-diz-agencia.ghtml</a>. Acesso em 13 nov. 2024.</p>



<p style="font-size:15px">GUGGENBÜHL-CRAIG, Adolf. <em>O abuso do poder na psicoterapia</em>: e na medicina, serviço social, sacerdócio e magistério. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2004.</p>



<p style="font-size:15px">HAN, Byung-Chul. <em>Infocracia</em>: digitalização e a crise da democracia. ed. Petrópolis: Vozes, 2022.</p>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. <em>A prática da psicoterapia</em>. 16. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p style="font-size:17px">Conheça nossas <strong>Pós-graduações</strong> com matrículas abertas: <a href="https://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a> &#8211; <strong><em>Arteterapia e Expressões Criativas; Psicossomática; Psicologia Junguian</em></strong><em><strong>a</strong></em></p>



<p style="font-size:17px">Vem aí o <strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep">X Congresso Junguiano do IJEP</a></strong>, com o tema &#8220;<strong>Crise da meia idade: O direito de Envelhecer e de Morrer</strong>&#8220;, que ocorrerá nos dias <strong>9, 10 e 11 de Junho de 2025</strong>,<strong> inscrições abertas</strong>! Serão mais de trinta palestras com os Professores e Analistas do IJEP, imperdível! Saiba mais e inscreva-se: <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep ">https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/01/1-819x1024.png" alt="" class="wp-image-10173" style="width:409px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/01/1-819x1024.png 819w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/01/1-240x300.png 240w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/01/1-768x960.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/01/1-150x188.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/01/1-450x563.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/01/1.png 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" /></figure>



<p></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Narciso: os ecos do mito em tempos de redes sociais</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/narciso-os-ecos-do-mito-em-tempos-de-redes-sociais/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Wagner Borges]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Apr 2024 19:20:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8937</guid>

					<description><![CDATA[<p>O mito de Narciso e Eco expressa um traço atemporal da psique humana que, no mundo contemporâneo, parece potencializado pelas relações que temos estabelecido com e por meio das redes sociais. Essa relação, entre mito e “tecnologia”, não é novidade e a ideia deste artigo não é inventar a roda, mas mergulhar nesta narrativa mitológica e em sua simbologia, trazendo personagens muitas vezes esquecidos e mais elementos que, espero, nos ajudarão a transcender o senso comum e a ampliar o significado dessa milenar história. Tudo isso sob o prisma da psicologia analítica.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px">“<strong>É que Narciso acha feio o que não é espelho</strong>…” O verso de Caetano Veloso, na célebre canção “<a href="https://www.youtube.com/watch?v=Nmxp4XQnBpw">Sampa</a>”, ao sintetizar o mito numa metáfora, é capaz de preservar, em grande medida, a sua amplitude. O que significa dizer que deixa, dessa forma, bastante espaço para uma análise psicologicamente mais profunda dessa milenar história.</p>



<p style="font-size:18px">Mais que uma boa, embora incompleta síntese do mito, o verso reflete um traço atemporal do ser humano que, no mundo contemporâneo, parece potencializado pelas relações que temos estabelecido com e por meio das redes sociais. Essa relação não é novidade e a ideia deste artigo não é inventar a roda, mas mergulhar nesta narrativa mitológica e em sua simbologia, trazendo personagens muitas vezes esquecidos e outros elementos que, espero, nos ajudarão a transcender o senso comum.</p>



<p style="font-size:18px">Por isso, antes de me debruçar na relação entre <strong>Narciso</strong> e as <strong>redes sociais</strong>, vale recontar essa história, que narra a trajetória do mais belo dos mortais da Grécia Antiga, cuja beleza provocava paixões desmedidas e a inveja não apenas dos outros mortais, mas também dos deuses do Olimpo. Filho de uma ninfa náiade, dos rios e riachos, chamada Liríope e do violento rio Céfiso, <strong>Narciso </strong>foi concebido quando sua mãe, ao atravessar o caudaloso curso d’água, foi violentada por sua furiosa torrente.</p>



<p style="font-size:18px">Fluido, impermanente, violento e autocentrado, Céfiso, em grande medida, representa o pai indiferente e ausente. Liríope, como as ninfas, em geral, traz uma boa dose de inconsciência e ingenuidade. Vive e protege os rios e os riachos, mas, apesar do desejo, comum a toda mãe, de proteger seu filho, logo saberá que, no fim das contas, cabe a Narciso, e mais ninguém, proteger-se a si mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-beleza-como-maldicao" style="font-size:20px">Beleza como maldição</h2>



<p style="font-size:18px">Na história de Narciso, é especialmente importante observar que, entre os gregos antigos, a beleza era vista como uma maldição: um ingrediente a mais para a natural tendência ao autoengano e à vaidade entre os humanos, o que poderia acarretar, aos olhos de Liríope, na morte precoce do filho (Cf. BRANDÃO, p. 175). Por isso, ela procurou o velho cego e sábio Tirésias, dono do dom da adivinhação (no grego, <em>manteia</em>), e perguntou:</p>



<p style="font-size:18px"><em>— Meu filho viverá bastante?</em></p>



<p style="font-size:18px">Ao que o velho respondeu:</p>



<p style="font-size:18px"><em>— Se ele não se vir.</em></p>



<p style="font-size:18px">O jovem Narciso se “veria” de uma maneira que Tirésias, por ter sido cego pela deusa Hera, jamais poderia ver-se. O castigo divino que se abateu sobre Tirésias e lhe trouxe uma deficiência física contribuiu, porém, para transformá-lo em alguém capaz de enxergar, de sua mais profunda escuridão, o que realmente importava. Tirésias antevia com todos os demais sentidos, com a experiência e, sobretudo, com a imaginação. Tinha os olhos da sabedoria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-eco">Eco</h2>



<p style="font-size:18px">Já Narciso, no esplendor de sua beleza e juventude, com os olhos intactos para enxergar o que quisesse, mas imaturo para poder valorizar o que não o refletisse, desprezando a oportunidade de aprender sobre si e transformar-se por meio do contato com o outro, encontrou na floresta a bela e jovem ninfa oréade (das montanhas) <strong>Eco</strong>.</p>



<p style="font-size:18px">A exemplo de Tirésias, Eco também fora castigada por Hera, depois de se valer de sua eloquência para distrair a esposa de Zeus enquanto este descia ao mundo dos homens para desfrutar de sua vida adúltera. O castigo imposto a Eco consistiu em tirar-lhe a autonomia da fala, fazendo-a apenas repetir as últimas palavras pronunciadas por seu interlocutor.</p>



<p style="font-size:18px">Apaixonada por Narciso, mas impossibilitada de dizer a ele tudo o que queria, Eco o encontrou na floresta e não se conteve: foi na direção dele. Ao avistá-la, Narciso se surpreendeu, disse-lhe algo — talvez, “<em>quem é você?</em>” — e, ao escutar a pergunta ecoar de volta, fugiu da ninfa e de seu amor, deixando-a literalmente petrificada de desamparo e desapontamento. A pedra em que Eco se transformou até hoje ecoa as últimas palavras dos que passam por ela… Isso mesmo: o substantivo eco e o verbo ecoar têm história.</p>



<p style="font-size:18px">Indignadas com a atitude do belo jovem, as ninfas, amigas de Eco, se unem para pedir a Nêmesis — a deusa da vingança, que pune a arrogância dos mortais — que Narciso pague por sua incapacidade de se relacionar e respeitar os sentimentos alheios. Nêmesis, então, pede a <strong>Eros</strong>, o deus dos relacionamentos, que fleche Narciso, fazendo-o apaixonar-se pela primeira pessoa que visse. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assim-ele-aprenderia-o-que-e-sofrer-de-paixao"><strong>Assim, ele aprenderia o que é sofrer de paixão</strong>.</h2>



<p style="font-size:18px">Desavisado, depois de ser flechado, Narciso se encaminha para a límpida fonte de Téspias e, ao debruçar-se e se avistar no espelho d’água, apaixona-se pelo próprio reflexo. Narciso tenta tocar o rosto que admira, mas ao mais suave toque, ele se deforma, se desfaz, desaparece.</p>



<p style="font-size:18px">A angústia por amar o que se desvanece ao mais sensível toque, sendo assim, intangível, leva-o a ferir seu próprio peito e sangrar. Narciso, então, descobre que é o próprio reflexo o que vê. Incapaz de deixar a beira da fonte de Téspias, para de se alimentar, enfraquece-se, desmaia e morre afogado na própria superficialidade. Alguns relatos do mito dizem que, no Hades (mundo dos mortos), Narciso teria continuado a buscar, no Estige, rio da Invulnerabilidade, seu reflexo. Seu esforço, em virtude da escuridão do submundo, é em vão.</p>



<p style="font-size:18px">A história de Narciso é popular há cerca de três mil anos porque expressa um aspecto fundamental da natureza humana, ou seja, é, sob o prisma da psicologia analítica, a representação mitológica de um arquétipo; por isso, existe em cada um de nós. Ampliar essa história é entregar-se a uma miríade de possíveis compreensões e talvez todas sejam, em algum aspecto, válidas.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Certa vez ouvi de um professor que o mal psíquico da contemporaneidade é o narcisismo</strong>. Quando analisamos o mito, é inevitável pensar que o mal de Narciso está em sua incapacidade de se relacionar. Não é por acaso que Nêmesis incumbe Eros da missão de castigá-lo por sua <em>húbris</em> (Cf. BRANDÃO, p. 180). A questão de Narciso é com Eros e esse fato torna o narcisismo contemporâneo especialmente irônico, porque, em tese, as redes sociais teriam a finalidade de facilitar e estimular os relacionamentos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sera-que-as-redes-sociais-de-fato-estimulam-as-pessoas-a-se-relacionarem-genuinamente">Será que as redes sociais, de fato, estimulam as pessoas a se relacionarem genuinamente?</h2>



<p style="font-size:18px">O que é relacionar-se genuinamente? Para Jung (2013c, §324-325), “<strong>Não existe nenhum relacionamento psíquico entre dois seres humanos, se ambos se encontrarem em estado inconsciente</strong>”. Mas, ainda nas palavras do fundador da psicologia analítica, “existe a inconsciência parcial em amplitude nada desprezível. Na medida em que existirem tais inconsciências, também se reduz o relacionamento psíquico.”</p>



<p style="font-size:18px">Sendo assim, é possível dizer que <strong>se relacionar genuinamente é estar o mais consciente possível de si e do outro</strong>. Mais do que isso, é possível supor que o encanto que o outro nos inspira e a atração que exerce sobre nós, num primeiro momento, é um convite para ampliar a consciência de si mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-e-sem-motivo-que-se-faz-analise-de-forma-relacional">Não é sem motivo que se faz análise de forma relacional.</h2>



<p style="font-size:18px">É se entregando ao outro que se descobre mais sobre si mesmo e, ao fazer tais descobertas, vê-se aspectos da própria personalidade que, até dado momento, não se desejaria enxergar, mas cuja visão, compreensão e acolhimento são indispensáveis para o amadurecimento do indivíduo, para que se reinvente e se redescubra.</p>



<p style="font-size:18px">Eco, a cara-metade desprezada de Narciso, entregou-se ao relacionamento de forma inconsciente e foi incapaz de lidar com a frustração da rejeição, do relacionamento que não se realizou, foi incapaz de aprender com a experiência e, assim, foi incapaz de tomar consciência do quão assustadora, por mais bela que fosse, poderia se tornar ao refletir, em palavras, o que o outro não gostaria de descobrir em si mesmo.</p>



<p style="font-size:18px">Narciso, por sua vez, negou o relacionamento e, com isso, abriu mão completamente da possibilidade de tomar consciência — se Eco foi frágil demais, Narciso foi covarde. Em termos junguianos, o ego de Narciso não era flexível o suficiente para compreender e acolher o que fosse distinto do que idealizava de si mesmo. Fechou-se, assim, em sua beleza superficial, inebriou-se da própria imagem e afogou-se na inconsciência, temendo e, até por isso, sendo incapaz de jogar luz na própria sombra.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-era-das-redes-sociais-nossos-narcisos-e-ecos-se-expressam-na-busca-pelos-tais-indicadores-de-vaidade">Na era das redes sociais, nossos Narcisos e Ecos se expressam na busca pelos tais indicadores de vaidade.</h2>



<p><strong>Se meu post não engaja, refletindo curtidas, comentários e compartilhamentos, não tenho valor, porque sou incapaz de me valorizar sem a valorização alheia</strong>. Assim, “<strong>petrifico-me</strong>”. Agora, se “viralizo”, reduzo-me ao conteúdo do meu post, tentando repeti-lo, em forma e beleza, nos “novos conteúdos”; afinal, encontrei o padrão que me define e me empodera; não posso me alienar dele, mesmo que ele me aliene do mistério infinito que eu sou de verdade.</p>



<p>Assim como a fonte de Téspias não é a culpada nem a responsável pelo infortúnio suicida de Narciso, as redes sociais tampouco são a causa do nosso narcisismo midiático; apenas o reflete. O mito de Narciso é uma narrativa sobre a (auto)alienação. Reflete o medo humano, ao mergulhar na vida e na relação com os outros, de descobrir-se “menos” do que se idealiza. Reflete a falta de prontidão para compreender, por exemplo, que trazemos, metaforicamente falando, a feiura na mesma medida e proporção que a beleza.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-cf-2013a-241-o-ser-humano-e-constituido-por-cinco-instintos-o-da-autoconservacao-da-sexualidade-da-acao-da-reflexao-e-da-criatividade" style="font-size:18px">Para <strong>Jung</strong> (Cf. 2013a, §241), o ser humano é constituído por cinco instintos: O da autoconservação, da sexualidade, da ação, da reflexão e da criatividade.</h2>



<p style="font-size:18px">Interessa-nos, aqui, em especial, o da reflexão, que faz menos alusão a pensamentos do que à atitude reflexiva. A palavra se origina do latim <em>reflexion</em> e, no contexto analítico, quer dizer “voltar-se para dentro”. Esse instinto humano explica, por exemplo, a cultura e todos os seus produtos. Assim como os demais instintos, a reflexão é vital. Mas há uma condição para a sua vitalidade, não apagar os demais instintos.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Junito Brandão</strong> (Cf. 1987, p. 184), a partir de uma palestra de <strong>Murray Stein</strong>, considera, na perspectiva junguiana, que o mito de Narciso possa versar justamente sobre um homem possuído pelo <strong>instinto da reflexão</strong>. Todos os demais instintos, por prejudicarem o ideal que Narciso fazia de si mesmo, foram negligenciados. Assim, tornaram-se <strong>sombras</strong> e, diante da incapacidade de Narciso em confrontá-las, provaram, ao mais belo dos mortais, que é impossível viver só do próprio reflexo, é preciso entregar-se à experiência material, é preciso realizar.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-interessante-observar-ainda-que-na-raiz-da-palavra-narciso-esta-narke-que-quer-dizer-entorpecimento-cf-brandao-1987-p-173" style="font-size:21px">É interessante observar, ainda, que, na raíz da palavra Narciso, está <em>nárke</em>, que quer dizer entorpecimento (Cf. BRANDÃO, 1987, p.173).</h2>



<p style="font-size:18px">Ou seja, Narciso tem a mesma raiz que a palavra narcótico. A flor chamada narciso é narcoléptica, causa torpor. E o entorpecimento, muitas vezes, é uma maneira de fugir da consciência e se refugiar na inconsciência. É uma maneira de alienar-se e negar a vida, justamente o que fazemos, algumas vezes, olhando para a tela do celular.</p>



<p style="font-size:18px">Vale observar ainda que, na linha do entorpecimento, o mito de Narciso e Eco também pode ser visto como alegoria da dependência e da codependência. Nesse sentido, ao nos tornarmos reféns dos indicadores de vaidade nas redes sociais, estamos em busca de encontrar, nas timelines, a “beleza” que idealizamos de nós mesmos. Por outro lado, muitos dos “nossos” seguidores, como Eco, alimentam nossa ilusão com a própria desilusão. Embora desejem alcançar a suposta perfeição que queremos compartilhar, no fundo, não se sentem capazes nem merecedores dela.</p>



<p style="font-size:18px">De novo, o problema não são as redes sociais nem as telas, mas o olhar que lançamos para elas. De alguma forma, esse “ver” para não enxergar nos torna reféns da própria covardia, impede-nos de realizar a vida para além das nossas idealizações e de experimentá-la com a humildade que Narciso jamais foi capaz de ter.</p>



<p style="font-size:18px">Como escreveu o poeta português, <strong>Fernando Pessoa</strong>: “<strong>Toda a ação é incompleta e imperfeita. O poema que eu sonho não tem falhas, senão quando tento realizá-lo</strong>.” Não há fonte nem tela capaz de refletir a inteireza imperfeita, instintiva e arquetípica que é cada indivíduo. Tal inteireza também não cabe em nenhuma reflexão. <strong>A maneira mais apropriada de se aproximar dela é aceitar a própria escuridão, como fez Tirésias, o velho sábio cego que via além do próprio reflexo</strong>.</p>



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<iframe title="Artigo novo: &quot;Narciso: os ecos do mito em tempos de redes sociais&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/fWnvT7CW8TY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/wagnerhilario/">Wagner Borges &#8211; Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Membro Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:21px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p style="font-size:18px">BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega Volume II. Petrópolis: Vozes, 1987.</p>



<p style="font-size:18px">JUNG, C. G. A natureza da psique. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p style="font-size:18px">_________. A prática da psicoterapia. 16ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p style="font-size:18px">_________. O desenvolvimento da personalidade. 14ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p style="font-size:18px">_________. Os fundamentos da psicologia analítica. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p style="font-size:18px">Acesse nosso site e conheça nossos cursos e pós-Graduações:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



<p style="font-size:18px">Conheça também os&nbsp;<a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">Congressos Junguianos do IJEP</a>! Online e gravados, uma ótima maneira de estudar a Psicologia Junguiana.</p>



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		<title>Por que estamos tão cansados? Uma apologia à celebração</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/por-que-estamos-tao-cansados-uma-apologia-a-celebracao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Nov 2022 18:08:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
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		<category><![CDATA[contágio psíquico]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O despertador toca. Em um ritmo e em uma altura que adrenalina e cortisol invadem seu corpo como um tiro. Simultaneamente a isso, aquele outro em você, ansioso e preocupado com o trabalho, sim, aquele que te fez dormir tarde da noite fazendo você repassar suas tarefas e agendas já voltou a te contaminar com [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>O despertador toca. Em um ritmo e em uma altura que adrenalina e cortisol invadem seu corpo como um tiro. Simultaneamente a isso, aquele outro em você, <strong>ansioso e preocupado</strong> com o trabalho, sim, aquele que te fez dormir tarde da noite fazendo você repassar suas tarefas e agendas já voltou a te contaminar com suas intempéries. <strong>Talvez ele nunca tenha dormido, só sentou em sua cadeira e esperou ansiosamente o &#8220;eu&#8221; acordar para retomar tudo de novo.</strong></em> </p>



<p><strong>Desperto, os sonhos já se vão em segundos. </strong>Quiçá, dê tempo de pensar “eu sonhei com algo”. Mas seu coração já está de tal maneira acelerado devido ao outro em você, demandando de toda atenção que os sonhos voltam para o mundo dos sonhos. Outro tiro e num piscar de olhos, você já está no trabalho. Pergunta-se “eu fechei a porta?”; “eu tomei banho?”. “Acho que sim, meus cabelos estão molhados!”. </p>



<p>Tudo tornou-se tão automático que não somente os sonhos, mas cuidar de si também é levado para o inconsciente com o intuito de automatizar banalidades, deixando o foco e a atenção somente para o que importa. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-que-importa-ora-aquele-outro-em-voce-sabe-de-tudo-o-que-importa" style="font-size:21px"><strong>E o que importa?</strong> Ora, aquele outro em você sabe de tudo o que importa.</h2>



<p>Para ele o que importa é sua <strong>performance</strong>. Ele é o seu treinador – <em><strong>o coaching</strong></em>. Ele quer números cada vez melhores. Afinal, o que podemos fazer a não ser melhorar cada vez mais? E o melhor disso tudo é que ser melhor não tem limites.</p>



<p>O seu treinador acredita piamente em você. Ele te transformará, talvez, no melhor do seu setor, o mais rápido em galgar cargos e <em>status</em>, o melhor na academia pegando cada vez mais pesos, o melhor no sexo, a ponto de se esperar a frase provinda do outro: “<em>foi o melhor sexo da minha vida”. </em></p>



<p>Mesmo que o outro diga isso de forma iludida por ter se envolvido no momento ou de forma mentirosa para acalentar você. Se isso tudo acontecer, o treinador em ti vai se orgulhar por um segundo ou menos. E depois, exigirá de ti ainda mais. Afinal, se você alcançou a meta, agora ela já é passado! &#8220;Precisamos de novas metas!”, diz ele. </p>



<p>Neste momento você percebe que o treinamento vai continuar e que as metas são ilusões criadas por ele para te convencer a continuar. Afinal, ele é um exímio desenvolver pessoal, sabe de todas as táticas e estratégias para você não fugir da <strong>performance</strong>. Mas, não há fim. É um abismo no qual os olhos não conseguem ver o chão. Todo aquele empreendimento para ser o melhor, é um vazio sem fim.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-faz-seu-corpo-estremecer" style="font-size:20px">Isso faz seu corpo estremecer.</h2>



<p>Momento de grande oportunidade para a sua Alma, contaminada pelas Erínias, acender o seu corpo com mais adrenalina, cortisol, ativando sua amídala fazendo o medo e a vertigem te possuírem. Não é mais uma simples contaminação. </p>



<p>É uma possessão da Alma de forma sombria para criar em você atitudes. Ela sente que precisa te interditar para você reconhecer outra dinâmica além da do treinador. Poderíamos nos perguntar: “mas por que sombria?”. Ora, se ela viesse acolher e acalentar, muito provavelmente você continuaria nessa dinâmica da <strong>performance</strong>. O ser humano precisa da crise e da tensão para se transformar. Mas muitas vezes é em vão.</p>



<p>Graças aos treinadores que habitam cada um de nós e suas demandas por <strong>performance</strong>, a Ciência já desenvolveu remédios que aplacam as demandas da Alma de forma mais ou menos eficiente. A Alma pode vir de diversas formas. Hoje denominamos, popularmente, suas empreitadas como: &#8220;síndrome do impostor”; “burnout”; “disfunção sexual”; “ejaculação precoce”; “enxaqueca”; “infarto”, “<a href="https://blog.sudamar.com.br/psicossomatica-e-o-stress/">TAG – transtorno de ansiedade generalizada</a>”, entre outros. Não à toa Byung Chul Han diagnostica a contemporaneidade como a sociedade do cansaço.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-de-querermos-desviar-os-olhos-do-abismo-nietzsche-estava-certo-ele-esta-olhando-para-voce-desde-sempre" style="font-size:18px">Apesar de querermos desviar os olhos do abismo, <strong>Nietzsche estava certo: ele está olhando para você desde sempre</strong>.</h2>



<p><em>O abismo é vazio, é a falta que cada um de nós encontra ao percorrer a estrada da <strong>performance</strong>. </em></p>



<p>O abismo é um olhar para si de forma explícita, que evidencia que o caminho da <strong>performance</strong> tornou-lhe uma pessoa insatisfeita e insaciável (e alguns até se vangloriam por ser uma pessoa insaciável). Afinal, você quer satisfazer seu chefe, quer satisfazer seu status, quer satisfazer seu parceiro(a) sexual, mesmo que para isso, ao ver o outro insatisfeito com sua <strong>performance</strong> você precise dar satisfações e justificativas alheias. </p>



<p>Nessa dinâmica unilateral de satisfazer o outro ou de dar satisfações justificadas, é impossível satisfazer a si mesmo e o si-mesmo. O abismo te possui e te paralisa neste instante e para sempre. Esta é outra oportunidade de reconhecer sua incompletude e sua imperfeição.&nbsp;</p>



<p>Temos hoje inúmeras ideias do quão o ser humano é um ser em falta e oco, um ser que carece. A Alquimia e a maioria das mitologias concebem o ser humano como cindido, dividido há muito tempo entre masculino e feminino, mas que anteriormente, ainda em indiferenciação, estavam em uma fusão. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-fisica-atomica-e-o-ser-humano"> A física atômica e o ser humano</h2>



<p>Já na Ciência, a física atômica afirma que cada molécula do nosso corpo (e do universo) é em grande parte vazia. Por exemplo, em um átomo de hidrogênio (o mais comum), a distância entre o núcleo e o elétron é de um décimo bilionésimo de um metro.</p>



<p>Para ilustrar, se o núcleo fosse uma bola de tênis, seu elétron estaria a uma distância de 2.042,9 metros, isto é, dois quilômetros. O que existe, então, entre eles? Em síntese, a energia da força de atração e repulsão e nada além.</p>



<p>Para <strong>Edgar Morin</strong>, visando sua <strong>teoria da complexidade</strong>, o ser humano é também um sistema aberto, isto é, precisamos realizar trocas com o meio ambiente de diversas formas possíveis. Biologicamente falando, o vazio dos pulmões, do estômago, entre outros, nos permite continuar a manter a vida biológica. </p>



<p><strong>Vilém Flusser</strong>, na teoria da Comunicação, aponta que a comunicação surgiu por simples necessidade do outro (que também são forças de atração e repulsão).<strong> C. G. Jung </strong>afirma que é instintivo queremos preencher nossos vazios: alguns deles parecem até ser fáceis de se reconhecer, como as imagens psíquicas da fome e da sede.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-o-vazio-que-o-treinador-e-a-performance-escondiam-talvez-demore-um-pouco-mais-para-ser-percebido" style="font-size:22px"><strong>Mas o vazio que o treinador e a performance escondiam, talvez demore um pouco mais para ser percebido.</strong> </h2>



<p>Diante do abismo, não à toa muitas vezes nos perguntamos de forma simbólica “eu tenho fome de quê?”; “eu gosto de matar minha sede com o quê?”. E quando não paramos para refletir e confrontar este vazio, desviamos os olhos dele e acabamos por cair ainda mais nos vícios, nas obsessões e compulsões. </p>



<p>Alguns tornar-se-ão ainda mais discípulos do treinador, afinal o treinador ainda está cheio de promessas. Já, outros, se decepcionarão com ele e encontrarão fugas, como o vício nas substâncias químicas e nas redes sociais (telas digitais) para não ter que conviver com o abismo. Na mitologia, podemos lembrar das Danaides enchendo seu vaso insaciável.&nbsp;</p>



<p>Lembro-me de um dia estar com dois amigos bebendo cervejas. Um deles quis sair para fumar. O outro perguntou: “para que você fuma?”. O fumante respondeu: “para ter prazer!”. O perguntante questionou novamente: “mas você não está tendo prazer aqui, bebendo e rindo conosco? Você precisa ainda mais de prazer?”. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-me-atravessou-como-uma-flecha"><strong>Isso me atravessou como uma flecha.</strong></h2>



<p>Isso me atravessou como uma flecha. Na minha imaginação e nas minhas projeções, senti ali que o rapaz havia tido um dia o encontro com o treinador e havia encarado o abismo da insatisfação. E não percebera que seu vício por prazer para aplacar sua insatisfação iria tirá-lo da comemoração conosco. Evidentemente, esse lampejo e esse diagnóstico não foi para o rapaz, mas para o autor desse artigo. Afinal, escrevemos o que somos. </p>



<p>A partir desse dia pensei o quanto a <strong>performance</strong> acaba por deteriorar a celebração. Conversando isso com uma amiga mestra em educação física, ela me disse: <strong>as Olimpíadas na sua gênese eram sumariamente uma grande celebração, depois a performance capilarizou cada passo da corrida, cada vara do salto, cada movimento da ginástica.</strong></p>



<p>Ocorreu o mesmo com o trabalho, com a família, com o amor e o sexo. No fundo, parece que as Olimpíadas hoje aprimoram e premiam os indivíduos que possuem os transtornos obsessivos compulsivos por tornarem-se cada vez mais especializados nas respectivas modalidades. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-perfomance-x-celebracao">Perfomance x Celebração</h2>



<p>Nesta reflexão de hoje, vislumbro a <strong>performance</strong> como uma <em><a href="https://blog.sudamar.com.br/o-complexo-oppositorum-da-natureza-da-psique/">complexio oppositorum</a></em> da celebração. À primeira visa o resultado futuro; a segunda, o prazer do presente. A primeira tende ao racionalismo matemático e estatístico, a segunda às emoções. </p>



<p>Primeiro Kronos; depois Kairós. <strong>A primeira é <a href="https://blog.sudamar.com.br/a-mentira-que-falta-a-verdade-a-tensao-criativa-entre-hermes-e-apolo/">Apolo</a> – o deus da perfeição. E ele, quando não cultuado, lança sua flecha mortífera no coração dos homens jovens. </strong>Não à toa ele além de ser uma divindade solar é também a divindade das maldições e da morte súbita. A segunda é Dioniso, a pulsão de vida, do êxtase e do álcool (espiritual), que quando acompanhado de Pã, pode causar o furor nas massas. Podemos depreender uma relação entre as maldições de Apolo, o álcool de <a href="https://blog.sudamar.com.br/o-coringa-ou-a-hannya-dionisiaca/">Dioniso</a> e aquilo que mencionamos acima sobre o escape do indivíduo quando se vê unilateralizado na <strong>performance</strong>. </p>



<p>Quando o indivíduo continua a seguir a <strong>performance</strong> de forma unilateral ele encontra a flecha sombria de Apolo; quando o indivíduo busca o entorpecimento das substâncias químicas, ele encontra Dioniso sombrio. Portanto, aqui, a unilateralização leva para o aspecto sombrio dessa&nbsp;<em>complexio oppositorum.&nbsp;</em></p>



<p>A crítica aqui não aponta para o abandono da <strong>perfomance</strong>, e sim para o reavivamento da celebração/comemoração. <strong>C. Jung</strong> sabia disso em Eranos, momento em que grandes autores reuniam-se para comemorar –<em> comer e orar </em>– ou, como Waldemar Magaldi aponta <em>co-memorar</em>. A <strong>performance</strong> possuiu tanto nossa sociedade que acabamos por esquecer até de celebrar as pequenas coisas e momentos do cotidiano. Seja o banho após a labuta, a lasanha compartilhada pela família, ou até mesmo a cerveja entre amigos &#8211; que, por vezes, vamos somente para nos embriagar sem sequer realizar <strong>trocas verdadeiras</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-celebrar-comemorar-nao-esta-somente-ligada-a-alegria-mas-a-tristeza-tambem" style="font-size:18px"><strong>Celebrar/comemorar</strong> não está somente ligada à alegria, mas à tristeza também.</h2>



<p>Viver o presente com suas alegrias e tristezas é que dá movimento à vida – é o que nos faz viver. Viver tal movimento é também, portanto, <strong>celebrar</strong> a tristeza quando ela se apresenta. Sim! <strong>É possível comemorar a tristeza, pois, uma hora ou outra, ela se inverte <em>in excessu affectus– </em>enantiodromicamente.</strong></p>



<p><strong>Celebre!</strong></p>



<p>Leonardo Torres</p>



<p>Membro didata: Waldemar Magaldi</p>



<p><strong>Referências</strong></p>



<p>JUNG, C. G. Obras Completas. Petrópolis: Vozes. </p>



<p>HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. 2. ed. ampliada. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p>TORRES, Leonardo. Contágio psíquico: a loucura das massas e suas reverberações na mídia. São Paulo: Eleva Cultural, 2021.</p>



<p></p>



<p></p>
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		<title>Androides e a Ilusão da Humanidade Puramente Artificial</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/androides-e-a-ilusao-da-humanidade-puramente-artificial/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 May 2022 22:12:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[Transdisciplinaridade]]></category>
		<category><![CDATA[atualidade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Durante os estudos para a minha participação no Congresso Junguiano do IJEP, fiz a reflexão sobre a nossa conexão com a natureza. Me perguntei como seria se a humanidade se desconectasse totalmente das suas raízes naturais e orgânicas. Nessa elaboração cheguei a um ponto de que já fantasiamos isso na figura do robô humanoide, mais [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Durante os estudos para a minha participação no Congresso Junguiano do IJEP, fiz a reflexão sobre a nossa conexão com a natureza. Me perguntei como seria se a humanidade se desconectasse totalmente das suas raízes naturais e orgânicas. Nessa elaboração cheguei a um ponto de que já fantasiamos isso na figura do robô humanoide, mais comumente chamado de androide, nas obras de ficção científica e na linguagem em geral.&nbsp;</p>



<p>Androide é designado no dicionário online Michaelis como um autômato com figura de homem e que imita os movimentos dos seres animados[1]. No Dicionário Online de Português, também temos a definição de aparelho ou máquina que se assemelha à figura humana, sendo seus movimentos idênticos aos dos humanos[2].</p>



<p>Acredito que existe um desejo egóico na consciência, principalmente na ocidental, de se destacar de uma vez por todas da dependência vital que temos da natureza como meio ambiente, Grande Mãe, assim como da natureza que habita em nossa psique, o inconsciente. O quanto esse desejo e essa luta não desembocam na figura do androide, essa figura que responde apenas a comandos binários pré-programados, teoricamente não precisa de uma alimentação completa e balanceada, não precisa refletir sobre a sua existência, não precisa lidar com seus dejetos orgânicos e com a sua própria sombra.</p>



<p>Em uma de suas passagens mais significativas, Jung chegou a afirmar que sua obra (a psicologia analítica) visa, acima de tudo, “romper com as muralhas que nos separam da natureza que há em nós” (JUNG, 2011, v. 8/2, par. 739). O autor afirmou, ao longo de toda a sua pesquisa científica, a necessidade do homem de se realizar, assim como uma semente se realiza tornando-se árvore. A esse processo, que consiste no ato de tornar-se si mesmo, ele deu o nome de individuação. Ao longo da obra de Jung é possível identificar, ainda, inúmeras passagens alegóricas nas quais o autor comparava os fenômenos naturais aos processos inconscientes e maturacionais dos seres humanos (Duarte, 2017).</p>



<p>Jung fala em sua obra que para que possamos elaborar uma neurose é necessário realizar a&nbsp;<em>coniunsci oppositorum</em>, ou seja, integração dos opostos que se encontram na consciência e no inconsciente e criar um símbolo por meio da função transcendente. Esse processo ocorre inúmeras vezes durante nossa vida e é chamado de individuação. Esse é o processo de desenvolvimento psicológico, em que olhamos para dentro em busca de nós mesmos, na busca do nosso verdadeiro Eu.</p>



<p>O abandono da nossa natureza significa uma cisão de nós mesmos e talvez essa dissociação, do homem com o meio e com sua própria natureza, esteja à frente dos principais problemas ecológicos da atualidade (Duarte, 2017). A crise ecológica parece ser um tanto distante e abstrata, mas tem ligação direta com a nossa vida.</p>



<p>Essa crise é nossa sombra coletiva. Uma neurose planetária que busca nos levar a uma reflexão sobre nossa relação com a natureza nos mais diversos aspectos. O espírito da nossa época, governado pelo capitalismo consumista, transformou a natureza em produto, matéria-prima. Esquecemos que da natureza vem nosso alimento e a nossa vida.</p>



<p>Jogamos nossos mais diversos detritos para a natureza e esquecemos que logo em seguida precisaremos ir até ela colher nossa comida, nossos remédios e beber a nossa água. Não há nada que exista em nosso planeta que não tenha sido originado na natureza. Não há nada que existe no mundo que não tenha passado pela psique. Nosso descaso com a natureza externa, mostra nosso desprezo pela nossa própria natureza psíquica. Queremos uma vida sem os incômodos da organicidade e do inconsciente.</p>



<p>Mas, curiosamente, essa criatura imaginária, o androide, não escapa das intempéries da psique humana. Quando não se tornam revoltosos contra a humanidade, ou ainda, nos escravizam (a exemplo: Eu, Robô e Matrix) se voltam a uma atitude reflexiva e quase invejosa sobre a humanidade (IA: Inteligência Artificial, O homem Bicentenário) desejando viver coisas que a programação binária não permite.</p>



<p>Os androides aparecem principalmente como ferramentas para realização de atividades que são consideradas monótonas, perigosas ou servis, que não exigem reflexão e que muitas vezes são repetitivas, tanto que as leis da robótica, inventadas por Isaac Asimov em 1950 no livro, Eu, Robô (Aleph), são apenas 3: 1) um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal; 2) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; e 3) um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores[3].</p>



<p>Segundo Jung:&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>[&#8230;] para o julgamento científico, o indivíduo constitui uma mera unidade que se repete indefinidamente e pode ser igualmente expresso por uma letra ou um número. Para a compreensão, o homem em sua singularidade consiste no único e no mais nobre objeto de sua investigação, sendo necessário o abandono de todas as leis e regras que, antes de tudo, se encontram no coração da ciência [&#8230;]. (Jung, 2013,&nbsp;§497).</p></blockquote>



<p>Essa fala de Jung já traz luz sobre o problema da robotização da vida. Há um desejo de transformar as pessoas em números, letras e massificar a compreensão da sociedade, esquecendo que somos uma composição de indivíduos. O espírito capitalista simpatiza com essa visão e não é à toa que robôs substituem pessoas a cada dia.</p>



<p>Estamos vivendo em um mundo de relações extremas e binárias: ou é isso, ou é aquilo. Não há meio termo. Esse é o pensamento robótico. Pensando aqui no androide como o homem 100% cultural, não iremos mais nos alimentar de comida, mas de recursos. Não teremos mais dilemas, nem sentimentos, apenas estatísticas.</p>



<p>[&#8230;]A separação de sua natureza instintiva leva o homem civilizado ao conflito inevitável entre consciência e inconsciente, entre espírito e natureza, fé e saber, ou seja, à cisão de sua própria natureza que, num dado momento, se toma patológica, uma vez que a consciência não é mais capaz de negligenciar ou reprimir a natureza instintiva [&#8230;]. (Jung, 2013, §558).</p>



<p>Jung já alertava sobre o conflito homem natural x homem cultural. Para ele não podemos ser unilateralizados em nenhum desses extremos. Precisamos da cultura para viver em sociedade, da tecnologia para garantir bem-estar, saúde, informação e alimentos para todos. No entanto precisamos da natureza para fornecer tudo isso e, ao contrário do que se parece imaginar, ela não é infinita. Nossas ações têm impacto sobre o sistema ecológico e os desequilíbrios afetam diretamente nossa vida. Não podemos viver apenas na esfera egóica, precisamos do inconsciente para trazer criatividade, mistério e criação.</p>



<p>Coincidência ou não, já estamos a mercê de exércitos de robôs virtuais que comandam as redes sociais e algoritmos. Não há espaço na análise desses robôs para a reflexão. Apenas respondem a comandos e nos inundam com seu trabalho de repetição.</p>



<p>O androide muitas vezes é retratado como o fim à humanidade, de forma que a inteligência artificial considera a existência humana imperfeita, arriscada e perigosa, a partir de então a destruição do ser humano em carne e osso passa a ser a solução para os problemas. Nesse sentido evoco a reflexão sobre o quanto nosso ego individual e nossa consciência coletiva não querem acabar com essa existência orgânica e incômoda, para dar lugar a um ideal de existência estéril, binária e artificial, onde tudo pode ser controlado?</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>[&#8230;] Quanto mais o homem conseguiu dominar a natureza, mais lhe subiu à cabeça o orgulho de seu saber e poder, e mais profundo o seu desprezo por tudo que é apenas natural e casual, isto é, pelos dados irracionais, inclusive a própria psique objetiva que não é a consciência. [&#8230;] (Jung, 2013, §562)</p></blockquote>



<p>Talvez esse desejo manifesto na imagem do androide revele um anseio antigo do humano de viver eternamente, e isso só é possível saindo do ciclo de vida e morte da natureza, levado às vias da literalidade. Estamos tentando fugir da nossa própria natureza, negar nossa sombra, nossa carne e nos refugiar numa vida artificial, mas esquecemos que da natureza viemos e a ela voltaremos.</p>



<p>Curiosamente esse desejo egóico, manifestado na imagem do androide 100% racional e cultural, ao invés de nos levar para um lugar de ampla consciência faz justamente o oposto. Transforma o homem apenas em uma unidade indiferenciada no coletivo. Para Jung:&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>[&#8230;]Quanto mais uma pessoa é inconsciente, tanto mais ela se conforma aos cânones do comportamento psíquico. Mas, quanto mais ela toma consciência de sua individualidade, tanto mais acentuada se torna sua diferença em relação a outros indivíduos e tanto menos corresponderá ela à expectativa comum. Além disso, suas reações se tornam muito menos previsíveis. [&#8230;] (Jung, 2000. §344).</p></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>[&#8230;] Como se sabe, a natureza não é tão pródiga com seus dons a ponto de dar, por exemplo, a uma grande inteligência também o dom do coração. Via de regra, quando um é dado, o outro falta, quando uma faculdade se aperfeiçoa isso acontece, na maior parte das vezes, à custa de todas as outras. Um capítulo especialmente penoso é precisamente a falta de integração entre sentimento e intelecto que, na experiência, dificilmente se compatibilizam. (Jung, 2013, §569)</p></blockquote>



<p>O próprio Jung refletia sobre a incapacidade humana de abarcar e se aperfeiçoar em todos os aspectos da vida. Talvez, seja uma lei natural a que não se pode ter tudo nessa vida, para que precisemos observar nos outros o que falta em nós com uma atitude integrativa e não defensiva. Ele mesmo diz que não há sentido em formular a tarefa que se impõe à nossa época e ao nosso mundo como uma espécie de exigência moral (Jung, 2013, §570).</p>



<p>Reconhecer que temos nossas finitudes, limitações e incapacidades nos traz humildade. Reconhecer que em nós há a natureza e que é ela que nos torna humanos é uma reverência ao sagrado e ao profano. É um bom passo para uma integração maior com o mundo e com nosso verdadeiro Eu.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<p><strong>Mauro Angelo Soave Junior – Membro Analista em Formação</strong></p>



<p><strong>E. Simone Magaldi – Analista didata</strong></p>



<p>Referências Bibliográficas</p>



<p>Duarte, Alisson J. O. Ecologia da alma: a natureza na obra científica de Carl Gustav Jung. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, v. 35, p. 5-19, 2017.</p>



<p>Jung, C. G. A Natureza da Psique, Vol. 8/2, Vozes, 2000.</p>



<p>Jung, C.G. Presente e futuro Vol. 10/1: Civilização em Mudança &#8211; Parte 1: Volume 10, Vozes, 2013.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p>[1]https://michaelis.uol.com.br/palavra/o0Nq/androide/#:~:text=Aut%C3%B4mato%20com%20figura%20de%20homem,%2C%20andr%C3%B3s%2Boide%2C%20como%20fr%20andro%C3%AFde.</p>



<p>[2]&nbsp;https://www.dicio.com.br/androide/</p>



<p>[3]&nbsp;https://super.abril.com.br/cultura/as-tres-leis-da-robotica/</p>
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