Resumo: Encontrar alguém é a expressão do desejo de relacionar-se com aquela pessoa para a qual transferimos emocionalmente os sentimentos que alimentamos em nós. Isto ocorre graças ao fenômeno da projeção, em que conteúdos inconscientes são deslocados para um objeto externo, que pode ser o indivíduo que desperta um apaixonamento, mesmo ao primeiro encontro.
INTRODUÇÃO
Em atendimento a pessoas de ambos os sexos, é comum o questionamento sobre encontrar alguém. Não serve qualquer alguém. Este alguém precisa ter características que abrandem o sentimento de falta de completude, que atendam expectativas específicas como companheirismo, generosidade quanto a atenção, carinho, disponibilidade de tempo, e por aí vai.
É preciso que seja um alguém que traduza os desejos mais diversos; não precisa ser alguém conhecido, que tenha encontrado e já conversado, ou mesmo que já viu e observou nas atividades sociais. Este alguém parece não pertencer ao mundo dos vivos, que apresentam qualidades e defeitos, brincam e se aborrecem, são cheirosos ou apresentam cheiros de origem duvidosa, têm interesse próprio e agenda repleta de atividades cotidianas.
Na música Encontrar Alguém de Jota Quest, há a descrição de alguém que está no mundo das ideias, e por quem há a expectativa de que haja a satisfação de estar com a companhia idealizada:
“Da esquina eu vi o brilho dos teus olhos/Tua vontade de morrer de rir/Teus cabelos tentaram esconder/Mas vi tua boca feliz
Tua alma leve como as fadas/Que bailavam no teu peito/Tua pele clara como a paz/Que existe em todo sonho bom
Quis matar os seus desejos/Ver a cor dos teus segredos, baby/ E contar pra todo mundo /O beijo que nunca esqueci
Encontrar alguém/Encontrar alguém/ Encontrar alguém que me dê amor”
PROJEÇÃO E SOMBRA
O alguém desejado se apresenta nas projeções de quem o busca, atendendo critérios muito específicos, nas pessoas que encontramos a todo minuto, nos ambientes mais exclusivos ou mesmo em público, nos templos religiosos, nas academias ou escolas.
Esses critérios são os mais díspares e incontáveis: o desejo de ter ao lado alguém protetor, alegre, com disposição e desejo de aventura, sempre pronto para ir a um happy hour, assim como alguém com gosto erudito que aprecie as salas de música clássica.
Conforme o desejo inconsciente, é possível projetar em um líder religioso a figura de um pai protetor, acolhedor, aquele que se fará sempre presente nos momentos das mais diversas adversidades, que não permitirá que nada de mal aconteça. Isto só pode ocorrer se a pessoa tiver um “gancho” com essas características para que haja o deslocamento afetivo.
E do que se trata esse gancho? É algo não físico percebido inconscientemente pelo emissor da projeção em alguém que tenha as qualidades que não são reconhecidas pelo emissor. Mas esse alguém receptor também não tem a consciência de estar recebendo uma projeção.
Von Franz afirma que,
o inconsciente da pessoa faz a projeção, via de regra não escolhe simplesmente qualquer objeto ao acaso, e sim aquele que contém algumas, ou até muitas, das características da propriedade projetada. Jung fala de um “gancho” no objeto no qual a pessoa que faz a projeção a pendura como um casaco. (2011, p.280)
O que nos leva ao encantamento por um alguém que representa tão bem tudo que desejamos está no transbordamento do nosso inconsciente sobre aquilo que supostamente encontramos no outro, o que Jung denomina objeto, conforme parágrafo acima.
Facilmente identificamos nos ambientes coletivos casais nos quais um dos parceiros tem aparência ou condição social muito beneficiada em relação ao outro, e ainda assim, este parece alimentar sentimentos intensos e profundos que são traduzidos no bem-estar daquela companhia.
Jung esclarece sobre a situação ilusória que a projeção carrega sobre o objeto de desejo, sendo algo que não transita pela realidade e que permeia o mundo das ideias de quem procura alguém. Mas que, ainda que ilusória, ao projetar sobre o objeto, ou a pessoa, suas fantasias sobre os mais diversos temas, esta ação faz do receptor dessa projeção, alguém ilusoriamente real. Portanto “as projeções criam uma relação ilusória; mas acontece que, num determinado momento, esta relação é da maior importância para o paciente […]” (JUNG, 2022a, p.19). As projeções vêm sempre do inconsciente e se desvanecem após seu recolhimento, conforme explica Jung:
“Uma vez que o adepto tem consciência de si como homem, sua masculinidade não pode ser projetada, desde que só podem ser projetados os conteúdos inconscientes.” (2022a, p.104)
Quando buscamos encontrar alguém projetamos algo admirável, sedutor e socialmente aceito, porém há oportunidades em que projetamos algo totalmente oposto, ou seja, conteúdos que provocam repulsa por representar tudo aquilo que consideramos ruim, desagradável, ou politicamente incorreto.
No momento em que encontramos alguém que nos evoca repulsa, esta reação está enxarcada de projeção, que representa nossa própria sombra, aquele conteúdo que menos admiramos e que reprimimos. Segundo Jung, “estamos convencidos de que certas pessoas possuem todos os defeitos que não encontramos em nós mesmos […] Devemos ter o máximo cuidado para não projetar despudoradamente nossa própria sombra […] “ (2022c, p.105)
É difícil e muito doloroso reconhecer que em nós há conteúdos menos nobres, ou mesmo que somos capazes de abrigar os monstros mais terríveis, ainda que eles não estejam manifestos no nosso cotidiano. Fica muito mais fácil reconhecê-los nos outros, naqueles que estão fora de nós, e que, portanto, poderão ser receptores de todo nosso sentimento discriminatório e repulsivo.
ENCONTRAR ALGUÉM E O OUTRO EM MIM
Dione diz que projeção é uma forma de vida potencial repleta de energia psíquica que encontra expressão no objeto (Cf. 1990, p.166). Isto esclarece muito do que seja a busca de encontrar alguém com quem seja possível desenvolver um relacionamento satisfatório.
A energia psíquica de quem está buscando encontrar alguém estará voltada para fora, para o objeto que denominamos outra pessoa. Aquelas características sedutoras, atraentes e acolhedoras que identificamos naquele alguém especial e que procuramos por tanto tempo, estão dentro daquele que procura, mas que desconhece em si.
Esta atração que o outro nos provoca,
esta empatia, é uma espécie de processo de percepção que se caracteriza por transferir sentimentalmente um conteúdo psíquico para o objeto… e isto é possível se o conteúdo projetação estiver mais vinculado ao sujeito do que ao objeto…e não é submetido a controle consciente. (JUNG, 2022d, p.303)
Encontrar alguém que atenda as expectativas é uma jornada difícil, muitas vezes frustrante e sempre trilhada para fora de si. É responsabilizar o outro pelo atendimento ou não dos nossos desejos e fantasias, é transferir nossos melhores sentimentos para alguém que não tem, obrigatoriamente, como satisfazer nossas expectativas.
Encontrar alguém é buscar no outro o que não é possível, ainda, reconhecer em si, e caminhar a passos largos para alguém que não terá como manter as expectativas daquele que procura.
Jung nos esclarece que “com a retirada das projeções, desenvolveu-se lentamente um conhecimento consciente […]” (JUNG, 2022, p.104), o que torna possível o “casamento interior” com as qualidades positivas e negativas inconscientes em nós. No processo de individuação a primeira tarefa é recolhermos as projeções sombrias, para caminharmos rumo ao desenvolvimento da nossa personalidade, ao potencial inerente que devemos nos tornar e que intrinsecamente já somos.
Dayse Raphael – Membro Analista em formação IJEP
Lia Romano – Membro Analista Didata IJEP
Referências:
DIONE, Arthut. Jung e astrologia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.
JUNG, Carl Gustav. Ab-reação, análise dos sonhos e transferência. 9.ed. Petrópolis: Vozes, 2022.
______ Mysterium Coniunctionis. 6.ed. Petrópolis: Vozes, 2022.
______Psicologia e Religião. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2022.
______ Tipos psicológicos. 7.ed. Petrópolis: Vozes, 2022.
VON FRANZ, Marie Louise. Psicoterapia. São Paulo. Paulus, 2011.

