Resumo: Este artigo discute, a partir da psicologia analítica, os fatores simbólicos e estruturais que contribuem para a permanência de mulheres em relacionamentos abusivos. Articulam-se os conceitos junguianos de anima e animus, sombra, complexo, feminino ferido e patriarcado para compreender por que tantas mulheres aprendem a suportar, silenciar-se e assumir responsabilidades que não lhes pertencem. Defende-se que tais padrões não derivam de fraqueza, mas de dinâmicas psíquicas profundas que, quando compreendidas e integradas, tornam-se chave para a transformação e para o restabelecimento da dignidade do feminino. Por fim, aborda-se o caminho de saída, que exige segurança, rede de apoio e processo de análise terapêutica.
O Feminino Ferido, o Patriarcado e os Complexos Psíquicos nas Relações Abusivas: Uma Leitura Junguiana
O fenômeno do relacionamento abusivo, embora frequentemente analisado sob perspectivas sociológicas e jurídicas, também pode — e deve — ser compreendido por meio da psicologia analítica. Para Carl Gustav Jung, a psique humana é uma dinâmica viva, composta por complexos, imagens arquetípicas e padrões relacionais que moldam profundamente a forma como nos vinculamos.
Mulheres que permanecem em relações abusivas enfrentam não apenas pressões externas geradas por um sistema patriarcal, mas também conflitos internos que operam muitas vezes fora da consciência.
A cultura patriarcal feriu o feminino — tanto nas mulheres quanto nos homens — ao desqualificar sensibilidade, vulnerabilidade, intuição e cuidado, ao mesmo tempo em que inflou formas distorcidas do masculino. Como resultado, muitas mulheres internalizam a crença de que seu valor está na capacidade de compreender, acomodar e salvar o outro. Quando inseridas em relações abusivas, tais tendências tornam-se gatilhos para complexos de culpa, autocrítica, simpatia e responsabilidade desmedida.
Patriarcado, Sombra Cultural e o Feminino Ferido
Jung compreendia a sombra individual como tudo aquilo que a consciência rejeita ou não reconhece em si. No entanto, a sombra também pode ser compreendida como uma força coletiva que se manifesta culturalmente.
Do ponto de vista junguiano, Logos e Eros são dois princípios fundamentais da psique. Logos diz respeito à ordem, discernimento, clareza e delimitação; Eros, à relação, ao vínculo, à sensibilidade e à integração. No pensamento simbólico de Jung, eles se associam ao masculino e ao feminino — não enquanto gêneros biológicos, mas como modos arquetípicos de funcionamento da psique. Assim, o masculino (Logos) estrutura, separa e ilumina, enquanto o feminino (Eros) conecta, acolhe e vivifica.
O patriarcado expressa uma sombra cultural que enalteceu unilateralmente a função psíquica masculina — ativa, racional, dominadora — e reprimiu a função psíquica feminina — receptiva, intuitiva, relacional. O resultado dessa assimetria histórica é o que diversas autoras como, Clarissa Pinkola Estés, Marie-Louise von Franz, Marion Woodman, chamam de feminino ferido: insegurança, silenciamento, perda da confiança na própria voz, sensação de inadequação, medo de ocupar espaço e tendência a priorizar as necessidades do outro. No inconsciente coletivo feminino, isso se traduz na valorização da adaptação excessiva, no medo do masculino impositivo que tolhe a liberdade e na capacidade de suportar o insuportável.
Essa ferida cultural combina-se às experiências pessoais de cada mulher, formando complexos que podem predispor à manutenção de vínculos nocivos. Assim, o patriarcado não é apenas contexto cultural: é conteúdo psíquico introjetado, operando silenciosamente.
Uma psique bem desenvolvida não unilateraliza o princípio masculino ou feminino, nem privilegia um contra o outro. Ao contrário, conjuga Logos e Eros, permitindo pensamento com alma e sentimento com clareza. É nesse equilíbrio que reside a profundidade da personalidade.
Além disso, a mulher desde muito cedo é educada e condicionada a desempenhar os papéis de filha obediente, irmã prestativa e mãe dedicada antes mesmo de ser convidada a reconhecer sua identidade feminina. Aprende, assim, a existir para o outro e atender as demandas que o mundo tem para ela, e não a partir de si mesma. O resultado é uma sensação íntima de não saber “o que é ser mulher” para além das funções que desempenha.
Do ponto de vista simbólico e junguiano, o desenvolvimento psíquico feminino pode ser visto como uma travessia por imagens arquetípicas:
Eva – a mulher biológica, identificada como objeto sexual e procriativo, que vive a serviço da realização dos instintos primários; mulher Helena — a mulher da aparência, da agradabilidade e da adaptação, que vive no espelho do olhar alheio e representa o feminino que ainda não encontrou um centro próprio; Maria — o feminino devotado, sacrificial e abnegado, associado ao ideal da mãe perfeita, da mulher que cuida e renuncia, mesmo que isso aprisione seu desejo; Sofia — a mulher que busca sabedoria e sentido, voltando-se para dentro e perguntando-se quem é, o que quer e o que faz sua alma vibrar, conforme essa ampliação de Jung:
Os exemplos mais expressivos dessas complicações encontramo-los certamente na fenomenologia erótica. A Antiguidade já conhecia a escala erótica das quatro mulheres: Chawwa (Eva), Helena (de Troia), Maria, Sofia; uma sequência que se repete de maneira alusiva no Fausto de Goethe, ou seja, na figura de Gretchen, enquanto personificação de uma relação puramente instintiva (Eva); de Helena, enquanto figura da anima, de Maria, enquanto personificação de uma relação celestial, isto é, religiosa e cristã, e do Eterno-Feminino (Sofia), enquanto expressão da “sapientia” alquímica. Pela denominação, deduz-se que se trata de quatro estágios do eros heterossexual, ou seja, da imagem da anima e, consequentemente, de quatro estágios culturais do Eros. O primeiro grau da Chawwa, Eva, Terra é apenas biológico, em que a mulher=mãe não passa daquilo que pode ser fecundado. O segundo grau ainda diz respeito a um Eros predominantemente sexual, mas em nível estético e romântico, em que a mulher já possui certos valores individuais. O terceiro grau eleva o Eros ao respeito máximo e à devoção religiosa, espiritualizando-o. Contrariamente a Chawwa, trata-se da maternidade espiritual. O quarto grau explicita algo que contraria as expectativas e ainda supera esse terceiro grau dificílimo de ser ultrapassado: é a sapientia. Mas como a sabedoria consegue sobrepujar o que há de mais santo e puro? A resposta pode estar na verdade elementar de que não raro algo que é menos significa mais. Este grau representa a espiritualização de Helena, portanto, do próprio Eros. Daí o paralelo, no Cântico dos Cânticos, entre a Sapientia e a Sulamita. (JUNG – OC16/2 – § 361)
A mulher contemporânea precisa atravessar e integrar essas camadas, isto é, sair das identidades herdadas (Helena), reconhecer ideais internalizados (Maria) e finalmente tomar consciência do feminino a partir de si mesma (Sofia). É a transição de papéis impostos para uma identidade que nasce do próprio desejo e da própria alma — um movimento do espelho do outro para o próprio corpo, do dever para o desejo, da adaptação para a presença.
Anima, Animus e a Configuração dos Vínculos Abusivos
Para a Psicologia Junguiana, em cada indivíduo existe um arquétipo feminino e masculino internos — anima e animus. Quando essas figuras estão infladas ou distorcidas, criam processos de identificação que limitam a autonomia.
Quando o animus se manifesta de forma madura, ele se torna mediador da capacidade de discriminação, assertividade e pensamento estruturado. Contudo, quando contaminado por complexos e pela sombra patriarcal, surge como voz interna crítica e implacável, marcada por julgamentos rígidos sobre o próprio valor, exigência de perfeição e racionalizações que justificam a permanência no sofrimento.
Esse animus sombrio reforça sentimento de culpa e a subserviência. A mulher que aprendeu que “ficar quieta é mais seguro do que reagir” não está apenas obedecendo a pressões externas, mas lidando com uma instância interna que a convence de que render-se é a única forma de sobreviver.
Aqui é importante diferenciar subserviência de submissão: A mulher subserviente se coloca como serva da vontade alheia, cumprindo desejos do outro e tornando-se extensão do outro, sem reconhecer sua própria identidade. A mulher submissa, por sua vez, sente-se no dever de salvar seus amores — mãe, pai, filhos, irmãos, parceiro — vivendo sob a missão do amor e acreditando que deve contribuir para a realização do outro.
A projeção de anima e animus nos parceiros abusivos
Homens abusivos — que exercem controle, dominação ou violência — frequentemente projetam numa mulher a própria anima ferida — rejeitada, infantilizada ou depreciada — e tentam dominá-la no outro para evitar confrontá-la em si mesmos. A anima é a porta de entrada para o inconsciente e, para um ego imaturo, esse contato é assustador e ameaça o monoteísmo da consciência.
A mulher, por sua vez, pode projetar no parceiro sua parte masculina madura, acreditando que ele tem potencial de mudança se ela o “amar o suficiente”. Essa dança de projeções cria vínculos profundos, poderosos e destrutivos, pois ela passa a “amar” mais o outro do que a si mesma.
Os complexos são centrais para compreender tais dinâmicas. Jung descreveu-os como agrupamentos de energia psíquica que atuam de modo autônomo e compulsivo.
Em mulheres que cresceram sob à cultura do patriarcado e apresentam histórias pessoais de insegurança afetiva, os complexos de culpa, autocrítica e responsabilidade pelo bem-estar do outro tornam-se especialmente ativados. Surge, então, a crença de que é dever da mulher reparar, curar ou mudar o comportamento do parceiro. O cuidado — que poderia ser virtude — transforma-se em prisão psíquica quando associado à compulsão.
Muitas mulheres foram educadas para acreditar que sua função é manter a harmonia do ambiente. Quando o parceiro se desregula, questionam-se a si mesmas: “O que fiz de errado?” O complexo de culpa atua como prisão interna, criando a ilusão de poder, pois só tem culpa quem assume responsabilidade.
A introjeção do animus sombrio alimenta vozes internas de inadequação: “eu sou o problema”, “não sou suficiente”. Esse diálogo interno mina o senso de merecimento e reduz a capacidade de reconhecer o abuso, muitas vezes reforçado por atitudes de gaslighting do parceiro.
Esses complexos atuam em conjunto, tornando extremamente difícil romper o vínculo abusivo — não por fraqueza, mas pela energia psíquica concentrada do inconsciente.
Do mesmo modo, simpatia, medo de rejeição e de abandono, apego inseguro e baixa autoestima são respostas psíquicas a experiências passadas que deram origem a padrões de comportamento formados para garantir pertencimento e sobrevivência emocional. Eles aumentam a vulnerabilidade à manutenção de relações abusivas.
Assim, o alto nível de simpatia — sintonia com a ferida do outro — facilita compreender o sofrimento alheio, mas também permite justificar comportamentos destrutivos. O senso de responsabilidade e a necessidade de aprovação fazem com que a mulher priorize uma paz aparente, mesmo à custa de si mesma. O medo de rejeição intensifica o pavor de perder o outro e ativa memórias de abandono. O apego inseguro faz com que relações ambivalentes — amor seguido de abuso — pareçam familiares, ainda que dolorosas. A baixa autoestima é simultaneamente causa e consequência da dinâmica abusiva.
O Abuso como Reedição da Sombra e do Passado
Jung afirmava que a psique sempre busca repetição de padrões não resolvidos, na tentativa de integrá-los. Desse modo, relacionamentos podem reencenar traumas antigos ou dinâmicas familiares internalizadas. Relações abusivas frequentemente representam a atuação do inconsciente, especialmente da sombra ainda não integrada. Quando a mulher começa a reconhecer sua sombra — e a sombra do relacionamento — abre-se a possibilidade de mudança.
Tais relações não surgem do nada: muitas vezes reencenam padrões infantis, feridas de abandono, experiências traumáticas ou modelos familiares. A mulher pode, sem perceber, ser atraída por figuras que representam aspectos de sua própria sombra. Entretanto, ao reconhecer essa sombra — interna e externa — ela recupera autonomia, autoestima e poder pessoal.
Conclusão: Resgate do Feminino e Reconstrução da Identidade como Caminho
A permanência de mulheres em relações abusivas, sob a perspectiva da psicologia analítica, decorre da convergência entre fatores psíquicos e socioculturais: a sombra coletiva do patriarcado, a educação para papéis relacionais, complexos de culpa e responsabilidade, além das distorções do animus e das projeções inconscientes. Essa combinação produz vínculos intensos e destrutivos que não se rompem pela vontade consciente, mas pelo fortalecimento do ego, pela ampliação da consciência e pela integração das feridas do feminino.
Clinicamente, é essencial reconhecer que a mulher não permanece no abuso por fraqueza, mas por forças psíquicas autônomas que precisam ser compreendidas, nomeadas e integradas. O trabalho terapêutico consiste em: diferenciar o animus sombrio das funções discriminativas saudáveis; retirar projeções e recuperar partes dissociadas do Self; trabalhar complexos de culpa, autocrítica e responsabilidade excessiva; reconstruir o senso de merecimento e a capacidade de confiar na própria percepção; restaurar o vínculo com o corpo e regular o sistema nervoso. A saída do abuso é, portanto, um processo de individuação que exige paciência, segurança e apoio consistente.
O fenômeno do abuso não pode ser compreendido apenas no nível individual: ele revela a ferida cultural do feminino, produzida pelo patriarcado e perpetuada por normas, expectativas e discursos que desvalorizam o Eros, a sensibilidade e a autonomia da mulher. É necessário reconhecer que o patriarcado atua como complexo cultural, moldando subjetividades e condicionando formas de amar. Superar essas estruturas requer uma mudança coletiva de valores, na qual a voz feminina — interna e externa — possa emergir, ser ouvida e legitimada.
A saída de uma relação abusiva não é apenas ruptura, é renascimento.
Quando a mulher recupera sua voz, seus limites e sua capacidade de confiar em si, bem como, quando ela aprende a ocupar espaço e confiar na sua percepção, ela restaura o princípio feminino em sua dignidade original. Esse processo é ao mesmo tempo individual e coletivo, pois cada mulher que se liberta abre caminho para outras. Que este conhecimento sirva como instrumento de cura, de despertar e reconexão com o Self, para que o feminino — em todas as suas formas — volte a ocupar seu lugar sagrado na psique e no mundo.
Que este conhecimento possa servir não apenas como reflexão acadêmica, mas como instrumento de cura, de despertar, de renascimento, de restabelecimento da autoestima, de desenvolvimento da autonomia e da integração dos princípios feminino e masculino em cada um de nós.
Paula de Faria Guaratini – Analista em Formação pelo IJEP
Waldemar Magaldi – Analista Didata
Referências:
JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. v. 7/2. Petrópolis: Vozes, 2013.
______Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. v. 9/1. Petrópolis: Vozes, 2017.
______A Prática da Psicoterapia. v. 16/1. Petrópolis: Vozes, 2006.
______A Natureza da Psique. v. 8/2. Petrópolis: Vozes, 2014.
______Ab-reação, Análise dos Sonhos e Transferência. v. 16/2. Petrópolis: Vozes, 2015.

