Resumo: O artigo explora o fenômeno da projeção, da constelação de complexos e da sincronicidade a partir de uma experiência pessoal da autora com um casal de guepardos na savana africana. Um convite a exercitarmos o olhar simbólico para os acontecimentos da vida e refletirmos sobre nossa inevitável e intrincada participação neles. Há um dentro e um fora de nós, afinal? Seja qual for a resposta a esta pergunta, Jung nos convoca a direcionarmos o foco de atenção ao que entendemos como sendo nosso mundo interno, em busca de ampliação de consciência sobre nós mesmos.
UM RELATO DE FATOS REAIS
A jaula chega, na caçamba de uma pequena caminhonete. É uma caixa de aproximadamente três metros cúbicos. Respirações suspensas. Dedos nos disparadores das câmeras fotográficas. Foco. Corações palpitando. O homem que restou – o único homem – dentro da área cercada de duzentos metros quadrados na paisagem da região do Karoo, África do Sul, abaixa-se, aproximando sua face da lateral da jaula. Lá dentro, Ivory – seu nome de animal doméstico – vira a cabeça na direção do homem, como se estivesse se aproximando para ouvir o que ele teria a lhe dizer. Sim, tenho certeza que o homem lhe falou algo. Good luck my friend, talvez.
A grade da jaula é então suspensa lentamente pelo homem que permanece em pé, transpirando respeito, sabendo-se presa que liberta seu predador. Em breve, Ivory não terá mais esse nome; ganhará um número de identificação como forma de “romper os laços afetivos que caracterizavam sua relação com os humanos que o mantinham cativo como um animal doméstico desde o nascimento, há 4 anos”, diz o chefe da equipe que realizava a operação aos sortudos turistas que presenciavam a cena.
Ivory, ou o guepardo macho número 2, dá um passo titubeante para fora da jaula e então para. Ergue a cabeça deixando o vento frio que cortava a planície africana e que conectava a todos – humanos, felinos, antílopes, babuínos – roçar-lhe a face, movendo-a suavemente, de um lado para o outro. Inclina o focinho levemente para cima, depois um pouco para baixo. E então, lentamente, vai saindo da jaula. Passo após passo. Cauteloso. Começa a andar pela área cheirando cada tronco de arbusto, cada buraco de besouro no chão. Espreguiça-se. Mesmo sedado com medicamentos para suportar a longa viagem entre as instalações da ONG onde esteve por alguns meses depois de ser libertado de seu cativeiro doméstico e a reserva natural que será seu novo lar, ele reúne forças para começar a explorar seu novo entorno. E imediatamente faz brotar água de meus olhos, uma fêmea da espécie homo sapiens que estava testemunhando a cena, profundamente emocionada enquanto tentava filmar e tirar fotografias, como se quisesse eternizar em imagens aquela sensação inesperada de conexão com algo indescritível, desconhecido e, ao mesmo tempo, estranhamente familiar.
(Vale dizer que nada daquilo havia sido programado; a guia que conduzia o veículo no safari turístico em que eu estava foi informada pelo rádio no meio do passeio sobre o que aconteceria, e assim resolveu mudar a rota original para que o grupo pudesse presenciar a cena.)
A REALIDADE INTERNA DOS FATOS
Tem vida aqui, foi como traduzi em palavras silenciosas o que senti ao estar frente a frente com aquele animal magnífico sendo libertado de seu cativeiro por mãos humanas. Olhar direta e intensamente para os olhos do guepardo, para a beleza de seu corpo esguio, para o âmbar cristalino de seus olhos me colocou em contato com a força da vida. Era isto o que eu sentia. Mas não somente isso. Eu sentia também profunda tristeza por aquele ser, que seria capaz de correr em uma velocidade de mais de 100 km por hora, estar em um estado tão fragilizado por ter servido de pet para humanos desde seu nascimento.
A força do que me afetou me surpreendeu. Olhei rapidamente ao redor; eu era a única do grupo de turistas que chorava, e não estava somente emocionada, eu estava arrebatada, arrancada violentamente de meu estado consciente e controlado.
A avalanche de emoções não terminou aí. Ao final do passeio, fomos todos para o alto de uma colina, observar o pôr-do-sol. Lá, a guia nos contou que cerca de seis meses antes, uma guepardo fêmea havia sido libertada naquela reserva, ficando inicialmente confinada a uma área de duzentos metros quadrados e depois passando a habitar uma área bem maior, o equivalente a aproximadamente trezentos campos de futebol. A equipe comemorava o fato dela já estar fortalecida, conseguindo caçar para se alimentar sozinha. Desde então, nenhum grupo havia conseguido avistá-la. Se tudo corresse bem, em breve ela e Ivory estariam se encontrando e procriando.
Em certo momento eu me distancio do grupo para, sozinha, contemplar o indescritível horizonte da savana africana. E então vejo ao longe um animal correndo exatamente em minha direção, em uma linha reta. Levei uns bons segundos para processar a informação que meus olhos me traziam. Gritei chamando a guia que correu até mim com um binóculo e pôde confirmar que sim, era a guepardo fêmea, a mesma que ninguém havia conseguido observar nos últimos seis meses! Uma inacreditável “coincidência”, exclamaram todos os presentes ali.
De fato, qual a chance de se avistar um único felino selvagem em uma área daquele tamanho, correndo em linha reta na sua direção? A probabilidade deste evento é naturalmente baixa. E qual a probabilidade de, além disso, ter “coincidentemente” testemunhado no mesmo dia a reintrodução de outro felino da mesma espécie em ambiente selvagem, sem programação, sem agendamento?
Este episódio, acontecido há sete anos, rendeu e ainda rende muitos relatos empolgados da minha parte. E principalmente: o fato tornou-se matéria prima para um profundo processo de autorreflexão, ancorado na psicologia analítica de Carl Gustav Jung.
PROJEÇÃO: O PRIMEIRO SINAL DO INCONSCIENTE
A partir da teoria junguiana podemos considerar que situações como esta que vivi, de grande intensidade afetiva, intenso significado pessoal e catalisadora de profundas transformações internas, indicam que algumas dinâmicas psíquicas importantes estão acontecendo.
A primeira delas diz respeito a um fenômeno do funcionamento psíquico que é a projeção de conteúdos inconscientes. Neste fenômeno, um objeto externo ao sujeito – seja ele uma pessoa, um animal, ou uma situação social por exemplo – é visto por este sujeito como portador de determinadas características que relacionam-se a conteúdos inconscientes ativados na psique deste sujeito, ou seja, carregados de energia psíquica. O contato com um objeto externo determinado que engancha nestes aspectos inconscientes faz disparar na consciência associações de pensamentos, reações afetivas e fisiológicas.
Portanto, as projeções são, geralmente, os primeiros caminhos pelos quais o inconsciente se manifesta (Cf. JUNG, 2012, p. 383), seguido pelos sonhos e fantasias.
No meu caso, por exemplo, de fato o guepardo estava sendo libertado de uma situação de cativeiro e reagindo com seus instintos a uma nova situação. Porém a minha intensa reação emocional e os pensamentos que passaram pela minha cabeça no momento relacionavam-se a aspectos do meu mundo interno, e não somente ao guepardo. Certamente o contexto todo era propício a esse enganchamento da projeção, já que “o portador da projeção não é um objeto qualquer, mas sempre se ajusta à natureza do conteúdo a ser projetado, isto é, oferece um gancho adequado à coisa a ser pendurada” (JUNG, 2012, p. 499).
COMPLEXOS, ARQUÉTIPOS E NOSSA ANCESTRALIDADE ANIMAL
O segundo fato psíquico que podemos identificar com esta situação é que um complexo foi ativado, ou constelado. Um complexo é “uma imagem de determinada situação psíquica de forte carga emocional” (JUNG, 2013, p. 201), um conjunto determinado de afetos, memórias, pensamentos, associações que é parte constitutiva da psique individual e que compõe o inconsciente pessoal, atuando com relativa autonomia em relação ao ego. Por isso e também por conter elevada carga afetiva associada a seu núcleo arquetípico, um complexo pode tomar de assalto – arrebatar – a consciência, interferindo assim na percepção e nas reações fisiológicas e comportamentais, quando alguma situação objetiva externa é associada ao complexo.
Pensem comigo: uma experiência de retorno à liberdade, de expressão de reações naturais, espontâneas, de realização da natureza interior de cada ser é fundamentalmente arquetípica, aproximando o ser humano da Humanidade. E ainda vai além; a experiência relaciona-se com a mais profunda ancestralidade humana, profunda no sentido de alcançar nossos ancestrais não-humanos – os animais – conosco ainda ligados de certa maneira no inconsciente coletivo. Conecta-se, assim, com uma dimensão instintiva de sobrevivência. E por isso, envolve uma quantidade enorme de energia psíquica, de valor afetivo e emocional, e é justamente daí que provém sua força de irrupção, como a lava incandescente de um vulcão que precisa vir à tona para aliviar sua pressão interior.
Tanto arquétipos quanto instintos formam o inconsciente coletivo.
Jung (2013, p. 270) afirma que “da mesma maneira como os instintos impelem o homem a adotar uma forma de existência especificamente humana, assim também os arquétipos forçam a percepção e a intuição a assumirem determinados padrões especificamente humanos.”
Devemos concordar com Jung (2013, p. 271) quando este diz que “a questão do instinto não pode ser tratada psicologicamente sem levar em conta a dos arquétipos, pois uma coisa condiciona a outra.” Isto nos leva a crer, portanto, que a minha experiência subjetiva ao testemunhar o que acontecia com o guepardo sendo liberto, dada a característica incontrolável e afetivamente intensa da reação gerada, pode ter tocado os âmbitos arquetípico e instintivo simultaneamente, âmbitos que tratamos separadamente para tentar compreendê-los conscientemente, mas que relacionam-se e interpenetram-se de uma maneira muito complexa, como dois aspectos de uma mesma realidade. Jung chega a nomear os arquétipos como “imagens do instinto”, dizendo que somente por assimilação das imagens instintivas é que nós humanos entramos em contato com a realidade do instinto, pois as imagens do instinto significam e ao mesmo tempo evocam o instinto (Cf. JUNG, 2013, p. 414).
NÃO FOI OBRA DO ACASO
Por fim, o encontro não planejado com os dois guepardos recém-libertos, macho e fêmea, na mesma tarde, uma coincidência sem conexão causal porém profundamente significativa para mim, de caráter numinoso, me levou a pensar, como pensou Jung em relação a uma experiência que ele próprio teve em 1949, que aquilo não poderia ser obra do acaso (Cf. JUNG, 2014, p.826-827), o que me fez qualificar a minha experiência como uma sincronicidade.
Digo isto pois, além da ausência de conexões causais, além do caráter numinoso e afetivo, esta experiência relacionou-se diretamente com o meu estado psíquico na ocasião. Como escreveu Jung:
A sincronicidade, portanto, significa, em primeiro lugar, a simultaneidade de um estado psíquico com um ou vários acontecimentos que aparecem como paralelos significativos de um estado subjetivo momentâneo e, em certas circunstâncias, também vice-versa.
JUNG, 2014, p. 850
Jung também afirma que (2014, p. 846) “os casos de coincidências significativas, que devemos distinguir dos grupos casuais, parecem repousar sobre fundamentos arquetípicos” (grifo do autor). Ele relaciona a sincronicidade com os arquétipos justamente pelo fator emocional e afetivo que é presente nestes fenômenos e que “repousa grandemente nos instintos cujo aspecto formal é justamente o arquétipo.” (JUNG, 2014, p. 846)
O fenômeno da sincronicidade é demasiado complexo, abrangente e misterioso para ser colocado em palavras em sua integralidade. Nem o próprio Jung conseguiu fazer isso ao longo de sua vida de prática e estudo, plantando as sementes para as próximas gerações seguirem o trabalho. O que sabemos através de seus escritos é que parece haver uma relação entre a dimensão psíquica humana e a dimensão concreta e material do mundo e que determinadas disposições psíquicas parecem ser capazes de eliminar o fator tempo e o fator espaço dos fenômenos (Cf. JUNG, 2014, p. 836) dando origem a eventos como o que eu – e tantas outras pessoas na história – experienciaram.
O PAPEL DO EGO NESSA HISTÓRIA
Mas, afinal de contas, o que fazer com toda essa informação? Como podemos dar início a uma transformação em nossa atitude consciente que vá ao encontro das necessidades de realização criativa do que reside como potência no vir-a-ser do inconsciente?
Bem, no meu caso, um primeiro movimento foi identificar quais as características do acontecimento eu considerava que estavam relacionadas com minha forte emoção. Ou seja, foi a hora do ego entrar em cena novamente, após ser impiedosamente posto de lado nas coxias do teatro da consciência pelo complexo constelado e pelo efeito numinoso da sincronicidade. O papel do ego foi então ampliar simbolicamente o acontecido e cada um de seus elementos, buscando nesta ampliação conexões com o meu estado subjetivo do momento, com o meu contexto de vida na ocasião e, principalmente, abrindo espaço para a conscientização de conteúdos inconscientes que poderiam estar sendo projetados na situação dos guepardos, situação que tinha funcionado como um anteparo, uma tela de projeção que estava prestes a rebater de volta para minha consciência aspectos meus que precisavam ser corajosamente encarados.
Por onde andava meu lado natural, espontâneo, selvagem? Como estava eu vivendo meus talentos e dons inatos? Eu me sentia de alguma forma enjaulada, domesticada? Que crenças e padrões de comportamento me aprisionavam dentro de meu próprio ser? Como seria poder viver minha natureza mais íntima e singular? Que papel a união fêmea-macho, feminino-masculino (uma coniunctio oppositorum)estava ocupando – e precisando ocupar – na minha vida? No que eu precisava começar a conscientemente colocar minha atenção? Estas perguntas me acompanham até hoje, como uma fonte viva e pulsante de energia – vital e psíquica – e estão presentes no meu processo de análise pessoal. Pois esse é aquele tipo de pergunta que não tem uma resposta definitiva e nem deve ter; serve como disparador do movimento da vida, cutuca o espírito, reacende a dúvida e a fagulha que mantém acesa a chama da nossa alma.
AFINAL, EXISTE “O DENTRO” E “O FORA” DE NÓS?
Viver uma experiência como esta que relatei aqui pode mexer profundamente com a noção que temos do que é interno e externo a nós mesmos. A consciência e seu gestor, o ego, têm por prerrogativa natural estabelecer limites, discriminar, ordenar, selecionar, julgar. E portanto a tendência predominante e quase automática em nós – ainda mais considerando o estado geral da consciência coletiva da humanidade, o espírito da época – é que nos vejamos como seres bem separados do restante dos seres, humanos ou não-humanos. É demasiado fácil nos percebermos limitados e definidos por “nossos” corpos, “nossa” pele, “nossos” pensamentos, “nossa” pátria.
A ciência contemporânea, no entanto, sobretudo a física de partículas e de campo, já enxerga a realidade das coisas de maneira diversa há algumas décadas. Experiências nestas áreas têm revelado a matéria como sendo algo “completamente inconstante” (Cf. CAPRA, 1988, p. 67).
Em seu best seller mundial O Tao da Física, o físico Fritjof Capra diz:
Todas as partículas podem ser transmutadas em outras partículas; elas podem ser criadas da energia e podem desfazer-se em energia. Nesse mundo, conceitos clássicos como “partículas elementares”, “substância material” ou “objeto isolado” perderam qualquer significado. A totalidade do universo aparece-nos como uma teia dinâmica de padrões inseparáveis de energia.
CAPRA, 1988, p. 67. Grifos nossos
Tanto Jung quanto sua fiel colaboradora Marie-Louise von Franz mantiveram profundo e regular contato pessoal e realizaram intensas trocas intelectuais com um dos mais reconhecidos físicos do século XX, Wolfgang Pauli. Esta relação frutificou no trabalho de ambos e hoje é alimento para todos os que são apaixonados pelo assunto e instigados por este mistério, como eu.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta experiência reafirmou em mim a certeza que dedicar a devida atenção às situações em que somos intensamente afetados, seja de forma positiva ou negativa, é fundamental. Trata-se de um exercício de investigação no qual, a partir dos acontecimentos que consideramos externos a nós e, principalmente, da sinalização que nossas emoções nos dão, redirecionamos a lupa para dentro de nós mesmos ao encontro de algo que demanda tornar-se consciente, de algo que está pedindo para realizar-se a partir do inconsciente. Nem sempre este algo é agradável aos olhos de nosso ego, porém trazê-lo à luz é nossa mais preciosa tarefa como seres humanos.
Veridiana Aleixo de Moura e Souza – Membro Analista em formação pelo IJEP
Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP
Referências:
CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. Um paralelo entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental. ed. 7. São Paulo: Cultrix, 1988.
JUNG, Carl Gustav. Ab-reação, análise dos sonhos e transferência. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.
______ A Natureza da Psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
______ Sincronicidade. 21. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

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