Crisóstomo, sensibilidade e novos arranjos parentais
A crença de que a função paterna depende da presença de um homem ainda orienta discursos sobre família e desenvolvimento, embora não encontre sustentação psicológica. Com base em Jung, o ensaio argumenta que esta função é simbólica: um princípio de direção, limite e abertura ao mundo que pode ser vivido por qualquer pessoa cuidadora. Examina-se como a psique projeta o arquétipo do Pai sobre quem oferece presença e orientação, e como a experiência concreta — não o gênero — organiza o complexo paterno. A história de Crisóstomo, em O Filho de Mil Homens, mostra que o mundo, o trabalho e os encontros também podem desempenhar essa função. Por fim, o texto convida a ampliar o olhar: mais do que uma figura, trata-se de reconhecer as muitas formas pelas quais a vida pode sustentar a formação da criança.
Num dia qualquer, a casa azul despertava com Crisóstomo: rangia como barco ancorado, exalava o cheiro leve de sal e guardava, sobre as prateleiras, os objetos que ele recolhera ao longo dos anos — conchas partidas, pedaços de vidro vindos sabe-se lá de onde, louças antigas que tinham atravessado muitas mesas, os lençóis herdados da avó, os anzóis cuidadosamente afiados. Ele tomava a refeição simples que o sustentava, lavava a tigela com atenção, arrumava a mesa para um só, e nesses gestos havia sempre um reconhecimento: de que a vida exigia trabalho, e o trabalho exigia dele um corpo inteiro, disciplinado na fome, no cansaço e no retorno diário ao mar. Ao atravessar a areia diante da porta, sentia o vento medir seu passo e o mar impor um ritmo que ele não tinha como apressar.
A discussão contemporânea sobre configurações familiares e desenvolvimento infantil ainda tropeça na crença de que certas funções psíquicas estruturantes dependem intrinsecamente do gênero, uma visão herdada de um modelo patriarcal e tradicionalista que confunde símbolo com anatomia, e que até hoje afirma que a função paterna exige a presença física de um homem. Esta literalização, amplamente difundida na psicologia do desenvolvimento e no discurso social, empobrece o símbolo e reduz a dinâmica psíquica à superfície dos corpos.
À luz da Psicologia Analítica de C. G. Jung
A identificação entre função e figura revela-se insustentável. Jung compreende os papéis parentais não como derivações biológicas, mas como disposições psíquicas universais que aguardam realização na experiência individual (OC 9/1, 2020).
Assim, tudo o que costuma ser atribuído ao pai – autoridade, mediação com o mundo, discriminação – são potencialidades disponíveis a qualquer pessoa cuidadora. Vinculá-las exclusivamente ao masculino é uma forma de materialismo psicológico que contraria a própria lógica arquetípica.
O arquétipo, lembra Jung, é uma estrutura a priori que predispõe modos de experiência sem determinar seus conteúdos empíricos. Nesse sentido, o arquétipo do Pai se refere ao princípio de diferenciação e direção, associado à emergência da consciência discriminadora e ao ingresso no universo da cultura, da lei e da medida. Opondo-se complementarmente ao arquétipo da Mãe, que fenomenologicamente se liga ao campo da fusão e da sustentação, o Pai retira a criança do indiferenciado e a lança em direção ao coletivo (OC 5; 2019). Assim, quando falamos de função paterna, estamos falando de um movimento da psique, não de um atributo anatômico.
Projeção, literalidade e flexibilidade da psique
A criança nasce com imagens arquetípicas latentes e, para se desenvolver, projeta essas imagens sobre quem cuida dela. Jung adverte que não se deve confundir as figuras empíricas com as imagens arquetípicas projetadas sobre elas, uma vez que o arquétipo, enquanto forma psíquica universal, transcende qualquer portador individual (OC 9/1, 2020).
Tradicionalmente, a cultura fez do pai biológico o suporte primário para a projeção do arquétipo paterno. Ou seja, trata-se de uma convenção histórica, reforçada por séculos de patriarcado. Se isso fosse uma verdade psicológica universal, bastaria a presença de um homem para produzir ordem, e a clínica sabe que não é assim.
A psique, teleológica e inventiva, não aguarda a conformidade dos arranjos familiares. Na ausência do suporte tradicional, ela constela o princípio paterno em outros lugares: uma mãe, uma avó, uma comunidade, uma professora, o próprio mundo. A ausência do homem não implica ausência de função; apenas ausência de um portador convencional que, não raro, tem se mostrado inadequado quando não profundamente prejudicial.
Os complexos e a experiência real da criança
Segundo Jung, os complexos nascem do encontro entre as potencialidades arquetípicas e as experiências concretas. O complexo paterno, então, tem origem na forma com que a criança vivencia experiências relacionadas a autoridade, alteridade, limites e orientações.
Uma mãe solo que estabelece limites, introduz o mundo e sustenta o contato com a alteridade constela Logos e Eros, oferecendo matéria viva para a formação do complexo paterno. Da mesma forma, a presença de um homem violento ou incapaz de se relacionar produz um complexo paterno negativo, às vezes devastador.
Os números são brutais: apenas em 2025, cerca de 3,7 milhões de brasileiras relataram ter sofrido violência doméstica ou familiar geralmente cometida por parceiros ou ex-parceiros, ou seja, pelos próprios pais ou conviventes das crianças.
No mesmo período, o país registrou mais de 87 mil estupros, sendo que 65% ocorreram dentro de casa e grande parte envolveu meninas e crianças em situação de vulnerabilidade. Estudos epidemiológicos mostram que em 82,4% dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes o autor é um homem, muitas vezes um familiar próximo. [i][ii]
Isto demonstra que a presença masculina, em inúmeros lares, está longe de garantir proteção, segurança ou estrutura psíquica. Em muitos casos, é justamente o homem que introduz violência, instabilidade e medo, comprometendo a possibilidade de a criança experienciar limites como cuidado e não como ameaça. O que de fato organiza o complexo é a qualidade da experiência que a pessoa cuidadora oferece, independentemente de seu gênero.
Logos e Eros além do gênero
Grande parte da confusão contemporânea deriva da antiga dicotomia que associa masculinidade ao Logos (razão, lei, discriminação) e feminilidade ao Eros (relação, vínculo, sentimento) (OC 7, 2022). Jung, no entanto, não tomou essa divisão como fato e, em sua obra madura, enfatizou que ambos os princípios pertencem à totalidade humana e que sua integração é condição de desenvolvimento da personalidade. (OC 9/2, 2021)
A função paterna, enquanto expressão do Logos, não pertence ao homem, mas ao campo da consciência que delimita, discrimina e orienta. Exige flexibilidade, não rigidez; delimitação, não autoritarismo; presença, não performance. A fixação nas expectativas de gênero, inclusive, denuncia o próprio empobrecimento psíquico de quem cuida.
A vida como suporte
O romance O Filho de Mil Homens, de Walter Hugo Mãe, oferece uma imagem especialmente fecunda para compreender a função paterna além da figura masculina. Crisóstomo é um personagem cuja história não se organiza pela falta, independentemente de ter crescido sem a presença de um pai.
A narrativa o acompanha enquanto aprende a existir no mundo por meio das forças que lhe atravessam, como o trabalho que o disciplina e sustenta, os encontros que o introduzem à alteridade e, sobretudo, a natureza que o confronta com a própria vulnerabilidade.
É ela quem lhe ensina medida, quem o lembra de que há limites, desproporções, ritmos que não obedecem à vontade humana. Nesse diálogo com o mundo surgem o gesto de separação, a percepção de distância e a possibilidade de responder à vida com discernimento, condições simbólicas que permitem a constelação do princípio paterno.
Crisóstomo
Crisóstomo recebe o mundo como horizonte e é justamente essa abertura para o real, com suas exigências e suas metáforas, que opera como função paterna em sua forma mais essencial. Cada uma dessas experiências lhe dá contorno, revelando gradualmente a própria possibilidade do devir.
A ausência do pai, em Crisóstomo, é uma fresta. Um espaço simbólico onde a psique pode projetar o que necessita para sua formação. O romance sugere que aquilo que reconhecemos como função paterna não é atributo da figura masculina e sim um princípio vivo que pode emergir nos mais diversos encontros. Seja na travessia, no laço com o outro, na contemplação da paisagem, na exigência do trabalho. Crisóstomo desmonta, de modo silencioso e poético, a suposição de que a diferenciação depende de uma genealogia masculina.
Crisóstomo personifica o movimento da psique que vai ao encontro de equivalentes simbólicos quando a figura tradicional não está disponível. E, muitas vezes, encontra equivalentes mais férteis, mais amplos, mais próximos da própria vida.
Indo além do modelo patriarcal
A Psicologia Analítica, quando lida em sua profundidade simbólica, desfaz o mito da necessidade biológica da figura masculina para o exercício da função paterna. O arquétipo não pertence ao homem; pertence à psique humana. Perpetuar a ideia de que a masculinidade é condição para estruturação psíquica da criança é perpetuar a um materialismo psicológico já antiquado — e, muitas vezes, cúmplice de contextos desiguais e violentos onde justamente o masculino falha em oferecer proteção, limite ou cuidado.
O que sustenta uma criança não é o cumprimento de um ideal patriarcal, mas a presença de vínculos que saibam equilibrar o amor que nutre e a lei que estrutura. A psique sempre encontrou caminhos, resta à clínica a coragem de reconhecê-los e deixar cair, enfim, a velha ilusão de que o Pai tem, obrigatoriamente, um rosto masculino.
Fernanda Viscardi – Membro analista em formação IJEP
Glória Miranda – Analista Didata
Referências:
JUNG, C. G. Obras completas. v. 5, Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2019.
___________ Obras completas. v. 7, Dois escritos sobre psicologia analítica. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2022.
___________. Obras completas. v. 9/1, Os arquétipos e o inconsciente coletivo: 2ª parte. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2020.
___________. Obras completas. v. 9/2, Aion: contribuições ao simbolismo do si mesmo. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2021.

