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	<title>Arquivos carl jung - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos carl jung - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>A compreensão que restaura: a relação entre pai e filhas após o divórcio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Monica Martinez]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Apr 2026 18:23:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[complexo paterno]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No Oscar 2026, o thriller político brasileiro sobre a ditadura, O Agente Secreto, não levou a estatueta de Melhor Filme Internacional. Quem venceu foi Valor Sentimental (Affeksjonsverdi), drama norueguês dirigido por Joachim Trier. O filme acompanha o reencontro de duas irmãs com o pai após a morte da mãe. A trama, de alcance universal, é [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><em>No Oscar 2026, o thriller político brasileiro sobre a ditadura, O Agente Secreto, não levou a estatueta de Melhor Filme Internacional. Quem venceu foi Valor Sentimental (Affeksjonsverdi), drama norueguês dirigido por Joachim Trier. O filme acompanha o reencontro de duas irmãs com o pai após a morte da mãe. A trama, de alcance universal, é uma verdadeira aula sobre como lidar com as marcas deixadas pelas separações conjugais.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-era-uma-vez-uma-familia" style="font-size:18px"><strong>Era uma vez uma família</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Como muitos brasileiros, eu torcia pelo filme nacional, <em>O Agente Secreto</em>, que já havia assistido e apreciado no cinema. No entanto, foi <em>Valor Sentimental</em> que conquistou o prêmio. Como já não estava mais em cartaz perto de casa, recorri ao streaming — e me surpreendi com a qualidade e a sensibilidade da narrativa.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Jung, por exemplo, enfatizava mais a importância do processo psicoterapêutico nos pais do que nos filhos. No livro <em>A Vida Simbólica</em>, tomo 2, ele diz:</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p style="font-size:18px">A maioria das neuroses origina-se de uma atitude psicológica errônea que impede a adaptação ao ambiente ou às próprias necessidades do indivíduo. Esta posição psicológica errada, que está na raiz de quase toda neurose, foi construída via de regra durante o correr dos anos e muitas vezes começou na infância, como consequência de influências familiares incompatíveis.</p>



<p style="font-size:18px">Sabendo disso, Mrs. Evans deu especial atenção à atitude mental dos pais e sua importância para a psicologia da criança. Facilmente a gente esquece o grande poder de imitação das crianças. Os pais contentam-se com a crença de que uma coisa escondida da criança não pode influenciá-la.</p>



<p style="font-size:18px">Esquecem-se de que a imitação infantil está menos voltada para a ação dos pais do que para a disposição mental deles e da qual se origina a ação. Já observei várias vezes crianças que foram particularmente influenciadas por certas tendências inconscientes dos pais e, nesses casos, aconselhei o tratamento da mãe em vez do tratamento da criança. Pelo esclarecimento dos pais, pode-se ao menos evitar sua influência perniciosa e prevenir as neuroses futuras nas crianças.”</p>



<p style="font-size:18px">(Jung,&nbsp; OC18/2, par. 1793).</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Neste drama familiar, a história se desenrola, em grande parte, em uma casa norueguesa que pertence à família do protagonista, Gustav (interpretado com delicadeza por Stellan Skarsgård), desde o tempo de seu tataravô. O cenário remete à bela obra <em>A Família</em> (<em>La famiglia</em>, 1987), do cineasta italiano Ettore Scola (1931–2016), na qual a casa também funciona como guardiã das memórias e dos afetos.</p>



<p style="font-size:18px">Foi ali que Gustav viveu com sua família: a esposa, Sissel — psicoterapeuta —, e as filhas Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas). Como em tantas histórias reais, o fim do casamento é conturbado. Após a separação, Gustav se dedica à carreira de cineasta e deixa a Noruega. Sissel permanece na casa, onde cria as filhas, que crescem com a presença ausente do pai.</p>



<p style="font-size:18px">Um aspecto relevante — e bastante comum — é que o divórcio nunca é formalizado. A ausência de um encerramento claro impede a elaboração do fim da relação, deixando pendências materiais e emocionais em suspenso, como a própria escritura da casa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-com-a-morte-de-sissel-gustav-retorna-inesperadamente-trazendo-consigo-o-projeto-de-um-novo-filme-em-sua-fantasia-parece-acreditar-que-a-obra-sera-capaz-de-reunir-e-reconciliar-a-familia" style="font-size:17px">Com a morte de Sissel, Gustav retorna inesperadamente, trazendo consigo o projeto de um novo filme. Em sua fantasia, parece acreditar que a obra será capaz de reunir e reconciliar a família.</h2>



<p style="font-size:18px">As filhas, no entanto, viveram a separação de maneiras distintas. Nora, a mais velha, carrega marcas mais profundas: ressentida com o pai, torna-se atriz de teatro — justamente a linguagem que ele despreza. Sofre crises de pânico antes de entrar em cena e tem dificuldade em estabelecer vínculos afetivos saudáveis, como se vê em seu envolvimento com Jakob, um ator casado que, mesmo após se divorciar, não assume a relação.</p>



<p style="font-size:18px">Agnes, por sua vez, construiu uma vida mais estável. Historiadora, é casada e mãe de Erik. É por meio do neto que Gustav tenta, ainda que indiretamente, reconstruir vínculos, incluindo-o em seu projeto cinematográfico. Agnes, no entanto, recusa: quando criança, também participou de um filme do pai, acreditando que a atenção recebida durante as filmagens se prolongaria na vida real — o que não aconteceu.</p>



<p style="font-size:18px">À medida que as irmãs lidam com o retorno do pai, torna-se evidente que Gustav também carrega suas próprias feridas. O filme que deseja realizar narra a história de sua mãe, Karin, integrante da resistência norueguesa durante a ocupação nazista. Torturada, ela nunca conseguiu elaborar o trauma e acabou tirando a própria vida quando Gustav tinha apenas sete anos.</p>



<p style="font-size:18px">Movida pela presença do pai, Agnes passa a investigar a história da avó no acervo do Arquivo Nacional da Noruega, aprofundando sua compreensão sobre o sofrimento vivido por aquela geração.</p>



<p style="font-size:18px">Para filmar na casa da família e recriar a cena do suicídio, Gustav deseja que Nora interprete Karin. Ela se recusa até mesmo a ler o roteiro. Diante disso, ele contrata a atriz americana Rachel Kemp (Elle Fanning), cujo prestígio viabiliza o financiamento do projeto. Sensível à situação, Rachel percebe que o papel foi escrito para Nora e decide se retirar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-se-voce-ainda-nao-assistiu-ao-filme-e-pretende-faze-lo-talvez-seja-melhor-interromper-a-leitura-aqui" style="font-size:17px">Se você ainda não assistiu ao filme e pretende fazê-lo, talvez seja melhor interromper a leitura aqui.</h2>



<p style="font-size:18px">Para quem já viu, o desfecho é delicadamente surpreendente e revela a potência da “reencenação consciente” como possibilidade de elaboração psíquica. Nora assume o papel da avó, Karin, e encena a despedida de Erik, que interpreta o jovem Gustav. Ao retornar para dentro da casa, dirige-se ao quarto. Erik volta rapidamente — esqueceu o celular, numa atualização contemporânea da cena — e sai novamente. O banquinho, símbolo do gesto extremo da avó, permanece em cena.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entao-ouvimos-corta" style="font-size:18px"><strong>Então, ouvimos: “Corta!”.</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Nora olha para o pai. Não há abraços nem reconciliações efusivas, mas há algo essencial: a satisfação silenciosa de terem conseguido realizar algo juntos. As feridas permanecem, mas o olhar de Nora sugere que houve reparação — suficiente para que a relação entre pai e filha, e a própria vida, possam seguir.</p>



<p style="font-size:18px">Terá sido suficiente? Não sabemos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-a-pratica-da-psicoterapia-contudo-jung-vai-usar-a-metafora-do-jardineiro-ou-do-profissional-de-psicologia-analitica-no-caso-como-peca-fundamental-do-processo" style="font-size:18px">Em <em>A prática da psicoterapia, </em>contudo, Jung vai usar a metáfora do jardineiro – ou do profissional de psicologia analítica no caso – como peça fundamental do processo:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p style="font-size:17px">Por estranho que pareça, a cada fase da evolução da nossa psicologia pertence algo de definitivo. Na catarse, que faz despejar tudo até o fundo, somos levados a crer: pronto, agora tudo veio à tona, tudo saiu, tudo ficou conhecido, todo medo foi vivido, toda lágrima derramada, daqui para a frente tudo vai correr às mil maravilhas. Na fase do esclarecimento, diz-se com a mesma convicção: agora sabemos o que provocou a neurose, as reminiscências mais remotas foram desenterradas, as últimas raízes extirpadas, e a transferência nada mais era do que uma fantasia para satisfazer um desejo paradisíaco infantil, ou <em>uma retomada do romance familiar</em>; o caminho para uma vida sem ilusões está desimpedido, aberta a via da normalidade. A educação vem por fim, e mostra que uma árvore que cresceu torta não endireita com uma confissão, nem com o esclarecimento, mas que ela só pode ser aprumada pela arte e técnica de um jardineiro. Só agora é que se consegue a adaptação normal. (Jung, OC16/1, par. 153)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">O filme mostra, em essência, o caminho da análise: as marcas do indivíduo permanecem, o que muda é a maneira com que ele lida com estas marcas e a autonomia destas marcas na vida dele. Em outras palavras, o complexo não deixa de existir, mas deixa de estar atuante de forma invasiva e patológica.</p>



<p style="font-size:17px">Confira o vídeo de apresentação do artigo:</p>



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<p><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/monicamartinez/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/monicamartinez/">Monica Martinez &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">Eventos e Cursos IJEP:</a></strong></p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/1.-congresso-xi-1-1024x576.png" alt="" class="wp-image-12888" style="width:725px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/1.-congresso-xi-1-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/1.-congresso-xi-1-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/1.-congresso-xi-1-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/1.-congresso-xi-1-1536x864.png 1536w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/1.-congresso-xi-1-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/1.-congresso-xi-1-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/1.-congresso-xi-1-1200x675.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/1.-congresso-xi-1.png 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p><strong>XI Congresso Junguiano </strong>&#8211; <strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia">Ecologia Alquímica</a></strong> &#8211; Serão <strong>36 palestras </strong>com os professores e analistas junguianos do IJEP &#8211; Saiba mais e garanta sua participação: <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia ">https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia </a></p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/introducao-a-teoria-de-carl-gustav-jung-curso-on-line-ao-vivo-32-horas"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/curso-de-introducao-2-1-1024x576.png" alt="" class="wp-image-12877" style="width:728px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/curso-de-introducao-2-1-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/curso-de-introducao-2-1-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/curso-de-introducao-2-1-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/curso-de-introducao-2-1-1536x864.png 1536w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/curso-de-introducao-2-1-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/curso-de-introducao-2-1-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/curso-de-introducao-2-1-1200x675.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/04/curso-de-introducao-2-1.png 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p><strong>Matrículas abertas</strong> &#8211; Para graduados em geral: <a href="http://WWW.IJEP.COM.BR">https://www.ijep.com.br/cursos/show/introducao-a-teoria-de-carl-gustav-jung-curso-on-line-ao-vivo-32-horas</a>  / <em>Obs: Lembramos que é necessário formalizar o pagamento da inscrição para garantir sua vaga</em></p>
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		<title>A Elegância da Alma: A Integração do Ser no Processo de Individuação</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-elegancia-da-alma-a-integracao-do-ser-no-processo-de-individuacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 20 Mar 2026 18:50:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na obra de Carl Gustav Jung, a elegância não se configura como um conceito técnico, estético ou como um arquétipo específico. Ainda assim, o tema encontra-se de forma implícita e transversal em seus escritos, podendo ser compreendido como expressão da totalidade e da harmonia psíquica, intimamente relacionada ao processo de individuação. Nesse sentido, a elegância articula-se com conceitos fundamentais da psicologia analítica, tais como individuação, persona, sombra, e Self, bem como com o funcionamento dos tipos e funções psicológicas. Este ensaio propõe-se a ampliar a reflexão sobre a elegância no pensar, no sentir e no agir, tal como se manifesta na vida cotidiana, estabelecendo conexões com a teoria junguiana.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Na obra de Carl Gustav Jung, a elegância não se configura como um conceito técnico, estético ou como um arquétipo específico. Ainda assim, o tema encontra-se de forma implícita e transversal em seus escritos, podendo ser compreendido como expressão da totalidade e da harmonia psíquica, intimamente relacionada ao processo de individuação. Nesse sentido, a elegância articula-se com conceitos fundamentais da psicologia analítica, tais como individuação, persona, sombra, e Self, bem como com o funcionamento dos tipos e funções psicológicas. Este ensaio propõe-se a ampliar a reflexão sobre a elegância no pensar, no sentir e no agir, tal como se manifesta na vida cotidiana, estabelecendo conexões com a teoria junguiana.</p>



<p style="font-size:18px">Segundo o <em>Dicionário Aurélio</em> (Cfe. FERREIRA, 2010, p. 737), a palavra <strong>elegância</strong> deriva do latim <em>eligere</em> e refere-se à capacidade de realizar escolhas criteriosas que se expressam em harmonia e proporção, seja na aparência, no vestuário, no comportamento ou na linguagem. Tal compreensão encontra ressonância em provérbios e expressões do senso comum — como “menos é mais”, “quem é, não precisa parecer” ou “elegância é quando o interior é tão belo quanto o exterior” — amplamente difundidos pela cultura popular e vivenciados no âmbito do inconsciente pessoal e coletivo.</p>



<p style="font-size:18px">A elegância no pensar costuma ser associada à clareza, à sabedoria e à suspensão de julgamentos precipitados. No âmbito do sentir, manifesta-se por meio de qualidades como empatia, respeito, gratidão, serenidade e alteridade. Já a elegância no agir relaciona-se ao bom senso, à gentileza, à coerência, ao compromisso e à pontualidade. Tais atributos são reconhecidos, no senso comum, como fundamentais para a construção de relações sociais harmoniosas e podem ser compreendidos, à luz da psicologia analítica, como expressões de um psiquismo em processo de integração.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-conceito-de-elegancia-transcende-a-mera-aparencia-sendo-explorado-em-diversas-obras-literarias-e-cientificas-que-destacam-a-harmonia-interna-e-o-mundo-exterior" style="font-size:18px">O conceito de elegância transcende a mera aparência, sendo explorado em diversas obras literárias e científicas que destacam a harmonia interna e o mundo exterior.</h2>



<p style="font-size:18px">No romance <em>A Elegância do Ouriço</em>, de Muriel Barbery, a narrativa situa a elegância em um prédio parisiense, onde a crise adolescente e a melancolia madura se entrelaçam. A obra amplia a discussão sobre a harmonia entre o interior e o exterior — abrangendo justiça, beleza, arte e amor — e reflete sobre o tempo e a eternidade: &#8220;Afinal, sempre temos a ilusão de que controlamos o que acontece; nada nos parece definitivo&#8221; (BARBERY, 2008, p. 348).</p>



<p style="font-size:18px">De modo complementar, a obra&nbsp;<em>A Força da Elegância</em>&nbsp;(Cfe. GONTIJO, 2025) une neurociência e a elegância que vem de dentro. O livro transcende a etiqueta tradicional, valorizando a coerência entre o discurso e a ação, a comunicação não verbal e a inteligência emocional. Na psicologia, Joseph C. Zinker, em&nbsp;<em>A Busca da Elegância em Psicoterapia</em>, evidenciou a criatividade como um atributo humano fundamental. O autor defendeu que a relação terapêutica deve ser um encontro criativo:&nbsp;&#8220;Todo encontro terapêutico é potencialmente um trabalho de arte&#8221;&nbsp;(ZINKER, 2001, p. 306).</p>



<p style="font-size:18px">A e<strong>xpressão criativa</strong> é uma possibilidade de trabalho na psicologia analítica, onde a criatividade é considerada um dos cinco instintos naturais do indivíduo, assim como a fome, a sexualidade, a atividade e a reflexão (Cf. JUNG, 2013b, § 246). Jung a via como possibilidade de voltar-se para dentro, reconectar-se com o sagrado e promover o encontro com o Si-mesmo (Selbst), o arquétipo da totalidade e da realização.</p>



<p style="font-size:18px">Ainda que a palavra elegância não figure no vocabulário técnico de Jung, sua psicologia analítica oferece o suporte ideal para redefini-la como uma expressão da&nbsp;harmonia interior. Se a individuação é o processo de &#8220;tornar-se um consigo mesmo&#8221; (JUNG, 2013c, § 227), a elegância pode ser vista como o resultado estético e ético dessa integração. Ela surge quando o indivíduo alinha seu interior com sua expressão externa, despojando-se das exigências rígidas da persona para dar lugar ao seu ser autêntico (Cfe. JUNG, 2015, § 267).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-entanto-essa-elegancia-do-ser-exige-o-reconhecimento-da-sombra" style="font-size:18px">No entanto, essa elegância do ser exige o reconhecimento da sombra.</h2>



<p style="font-size:18px">Longe de ser um adereço superficial, o autoconhecimento demanda o resgate de partes ocultas da psique, um ato que, embora enfrente considerável resistência (Cfe. JUNG, 2013a, § 14), é o que confere profundidade ao indivíduo. Finalmente, ao orbitar o Self<em>,</em> o indivíduo compreende que a verdadeira distinção não reside na falta de defeitos. Nas palavras de Jung: &#8220;Não há luz sem sombra, nem totalidade anímica sem imperfeição&#8221; (JUNG, 2012, § 208). A elegância, sob este prisma, é a beleza da completude: uma essência que não busca a perfeição, mas a coragem de ser inteiro.</p>



<p style="font-size:18px">A inter-relação entre a tríade <strong>pensar, sentir e agir </strong>oferece uma via fundamental para a compreensão do funcionamento humano. Embora exploradas aqui separadamente para fins didáticos, é imperativo lembrar que o ser humano é um ser integral; nada na psique opera de forma isolada ou reduzida a classificações estáticas.</p>



<p style="font-size:18px">Nesse contexto, a&nbsp;elegância no pensar&nbsp;manifesta-se através da consciência e da clareza, exigindo o esforço da compreensão em detrimento da fixação em preconceitos. Tal tarefa não é simples, pois o desconhecido frequentemente nos conduz a caminhos sombrios. Como observou Jung, existe uma resistência inerente ao esforço intelectual:&nbsp;<em>&#8220;</em>Pensar é difícil, por isso a maioria é quem decide&#8221;&nbsp;(JUNG, 2013e, § 653). Quando o julgamento precipitado ocupa o lugar da empatia, perde-se a oportunidade de validar a perspectiva do outro. Afinal, a apreensão da realidade não é exclusividade da razão:&nbsp;&#8220;Não pretendemos conhecer o mundo apenas com o intelecto; ele pode ser compreendido tão bem igualmente pelo sentimento&#8221;&nbsp;(JUNG, 2013d, § 929).</p>



<p style="font-size:18px">Essa harmonia entre o pensar, sentir e agir encontra ressonância na&nbsp;mitologia, que povoa o imaginário com arquétipos da elegância em suas múltiplas facetas. Figuras como Afrodite, Atena e as Graças (Aglaia, Eufrosina e Talia) personificam a harmonia entre beleza, sabedoria e encanto. No universo masculino, Apolo surge como a personificação da ordem e da harmonia clássica, enquanto Hermes, com sua diplomacia e eloquência, representa a sofisticação da agilidade mental. Mesmo o mito de Narciso serve de alerta, ilustrando a elegância que se perde na vaidade estéril da aparência física. Esses exemplos arquetípicos reiteram que a verdadeira elegância reside além da perfeição estética.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-complementar-essa-elegancia-que-transcende-a-imagem-e-corroborada-pela-filosofia-e-pela-literatura-manifestando-se-atraves-da-etica-da-simplicidade-e-da-sabedoria-no-agir" style="font-size:18px">Para complementar, essa elegância que transcende a imagem é corroborada pela filosofia e pela literatura, manifestando-se através da ética, da simplicidade e da sabedoria no agir.</h2>



<p style="font-size:18px">Machado de Assis, em <em>Contos Fluminenses</em>, já distinguia com precisão o elegante do apenas enfeitado, oferecendo uma reflexão perene sobre a transitoriedade do externo: &#8220;a beleza passara, como um dia brilhante; restavam os ossos, que não emagrecem nunca<em>&#8220;</em>. No mesmo sentido, a escrita de Clarice Lispector, especialmente em <em>Um Sopro de Vida</em>, mergulha na busca pela identidade profunda. Através da personagem Ângela Pralini, Clarice ampliou o debate sobre uma beleza que nasce da investigação do ser, sugerindo que a elegância mais refinada é aquela que emana da fidelidade à própria essência.</p>



<p style="font-size:18px">A&nbsp;elegância no sentir, por sua vez, compreende a coragem de reconhecer tanto luzes quanto sombras. Olhar para dentro implica perceber que a totalidade humana não é composta apenas de qualidades; o que reprimimos — traumas, medos, impulsos ou talentos ocultos — constitui a nossa sombra. A máxima &#8220;conhecer a própria escuridão é o melhor método para lidar com as trevas das outras pessoas&#8221; resume com precisão as discussões de Jung sobre a projeção (Cfe. JUNG, 1987, p. 83-107). Em&nbsp;<em>Aion</em>, Jung (Cfe. JUNG, 2013a, § 17) amplia o impacto desse fenômeno:&nbsp;&#8220;A consequência da projeção é um isolamento em relação ao mundo exterior, pois ao invés de uma relação real o que existe é uma relação ilusória&#8221;.</p>



<p style="font-size:18px">Nesse sentido, a reprovação rígida de si mesmo ou do próximo cria um obstáculo intransponível à mudança. A elegância emocional reside na aceitação assertiva das falhas como prelúdio para a transformação:&nbsp;&#8220;Não se pode mudar aquilo que anteriormente não se aceitou. A condenação moral não liberta, ela oprime&#8221;&nbsp;(JUNG, 2012a, § 519). Assim, a verdadeira elegância não consiste em perder-se no outro ou em julgamentos, mas em estabelecer uma harmonia interna por meio do processo de individuação.</p>



<p style="font-size:18px">Essa complexidade do sentir e as diferentes formas de compreender o mundo manifestam-se também através da&nbsp;arte. Pela música, a elegância ganha contornos variados: em&nbsp;<em>&#8220;Garota de Ipanema&#8221;</em>, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, ela transparece na admiração silenciosa e na distância melancólica diante de uma beleza inalcançável. Obras como&nbsp;<em>&#8220;Linda Demais&#8221;</em>, do Roupa Nova, ou&nbsp;<em>&#8220;Coisa Mais Linda&#8221;</em>, de Caetano Veloso, celebram a estética e a presença feminina sob o olhar do encantamento.</p>



<p style="font-size:18px">Em contrapartida, a canção&nbsp;<em>&#8220;Dor Elegante&#8221;</em>, de Itamar Assumpção e Paulo Leminski (popularizada por Chico César), oferece uma das mais profundas definições desse conceito: a elegância ao lidar com o sofrimento. Ao descrever que&nbsp;&#8220;um homem com uma dor / é muito mais elegante&#8221;, a letra sugere que a postura ética diante da vulnerabilidade confere dignidade ao indivíduo. Explorar a elegância através da música, mesmo em composições de décadas passadas, permite-nos compreender o espírito da época (<em>Zeitgeist</em>) e observar como a busca pela harmonia e pela essência se reconfigura continuamente na alma humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-fim-a-elegancia-no-agir-e-marcada-pela-coerencia-etica-onde-a-pratica-e-o-discurso-se-fundem-em-atitudes-de-humildade-e-humanidade-despojadas-de-mascaras-sociais-excessivas" style="font-size:18px">Por fim, a elegância no agir é marcada pela coerência ética, onde a prática e o discurso se fundem em atitudes de humildade e humanidade, despojadas de máscaras sociais excessivas.</h2>



<p style="font-size:18px">Jung sintetizou essa postura ao afirmar que &#8220;<em>O encontro entre duas personalidades é como a mistura de duas substâncias químicas: se houver uma reação, ambas se transformam</em>” (JUNG, 2013c, §163). Assim, fica evidente que conceitos pré-concebidos podem obscurecer a relação humana.</p>



<p style="font-size:18px">No campo das relações, essa elegância manifesta-se no que Rubem Alves denominou escutatória — a arte de ouvir profundamente, que se sobrepõe à vaidade da oratória:&nbsp;&#8220;Amamos não a pessoa que fala bonito, mas a pessoa que escuta bonito<em>&#8220;</em>&nbsp;(ALVES, 2014, p. 21). Essa escuta exige o silêncio da alma, como sugerido por Alberto Caeiro e parafraseado por Alves (1999, p. 65), sendo o fundamento para um diálogo assertivo que renuncia ao desejo de controlar o outro.</p>



<p style="font-size:18px">No plano <strong>espiritual</strong>, a elegância transcende o comportamento social para tornar-se uma postura interior de respeito e dedicação. Longe da ostentação física ou religiosa, essa dignidade reflete-se na valorização da beleza interior, ecoando preceitos bíblicos que a centralizam em um espírito calmo e gentil (1 Pedro 3:3-4).</p>



<p style="font-size:18px">Embora essas dimensões da elegância — pensar, sentir e agir — se entrelacem teoricamente, na prática elas frequentemente colidem com os padrões sociais, gerando angústia e dificultando a integração do ser. Para compreender essa dinâmica, Jung propôs em sua obra&nbsp;<em>Tipos Psicológicos</em>&nbsp;as atitudes (extroversão e introversão) e as funções orientadoras (pensamento, sentimento, sensação e intuição). No Capítulo 10 de sua obra (JUNG, 2013d, § 621-740), ele detalha como essas funções operam na consciência e no inconsciente. A elegância psíquica, portanto, não reside em uma classificação estática, mas no esforço de integrar a função principal às funções auxiliares e, sobretudo, à função inferior, promovendo o entendimento da psique em sua totalidade.</p>



<p style="font-size:18px">Na Psicologia Analítica, uma forma privilegiada de observar a manifestação dessas virtudes é por meio dos<strong> <em>Contos de Fadas</em></strong>. Nessas narrativas, a nobreza de caráter e a elegância de alma são personificadas em figuras como <em>Cinderela</em>, que mantém sua dignidade e doçura mesmo sob opressão. Da mesma forma, o conto <em>A Bela e a Fera </em>reforça que a verdadeira sofisticação reside na generosidade e na capacidade de enxergar além das aparências, reafirmando que a elegância é, em última análise, uma conquista da alma em seu processo de transformação. Percebe-se que a elegância é um conceito em constante ampliação, que se recusa a ser aprisionado por um padrão único ou superficial. Ela sugere um refinamento que exige múltiplos cuidados, começando pelo reconhecimento de que o aspecto físico — o nosso corpo — é, em última instância, o templo da nossa alma.</p>



<p style="font-size:18px">No entanto, a manifestação mais elevada da elegância reside na&nbsp;simplicidade, uma virtude que Jung considerava um dos maiores desafios do espírito humano. No Volume 13 das <em>Obras Completas</em>, ao comentar sobre&nbsp;<em>O Segredo da Flor de Ouro</em>, Jung observa a tendência da consciência em interferir nos processos naturais da psique:&nbsp;&#8220;Seria bastante simples, se ao menos a simplicidade não fosse a mais difícil de todas as coisas&#8221;&nbsp;(JUNG, 2011, § 20). Essa disciplina da simplicidade é necessária para que a elegância não se torne um artifício do ego, mas um crescimento orgânico da totalidade.</p>



<p style="font-size:18px">A verdadeira elegância, portanto, afasta-se do desejo de controle e da ostentação de poder, que são frequentemente as sombras de uma alma fragmentada. Como nos recorda Jung: &#8220;Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro&#8221; (JUNG, 2020, § 78<strong>).</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-ultima-analise-a-elegancia-e-o-resultado-de-um-processo-de-individuacao-o-autoconhecimento-e-a-possibilidade-de-conectar-com-a-verdadeira-essencia-e-de-assumir-o-protagonismo-da-propria-vida" style="font-size:18px"><strong>Em última análise, a elegância é o resultado de um processo de individuação. O autoconhecimento é a possibilidade de conectar com a verdadeira essência e de assumir o protagonismo da própria vida.</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Assim, ser elegante é o ato de permitir que a própria essência floresça sem as correções excessivas da persona social. É a arte de deixar crescer em harmonia os processos psíquicos, integrando sombra e luz em uma existência que se manifesta com a naturalidade de quem encontrou o próprio Self, simbolizada pela beleza natural, crescimento a partir das profundezas e serenidade da <em>vitória-régia, </em>conforme ilustrado na fotografia 1. A elegância, em sua forma mais pura, é o brilho externo de uma alma que aprendeu a amar a própria verdade.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;A Elegância da Alma: A Integração do Ser no Processo de Individuação&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/m_nH0YtjzUk?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/clacistrieder/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/clacistrieder/">Claci Maria Strieder – Membro Analista IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-fontes-de-consulta" style="font-size:18px">Fontes de Consulta:</h2>



<p>ALVES, R.&nbsp;<em>O amor que acende a lua.</em> 13. ed. Campinas, SP: Papirus, 1999.&nbsp;</p>



<p>________ &nbsp; <em>Ostra feliz não faz pérola. </em>2. Ed. São Paulo: Planeta, 2014.</p>



<p>ASSIS, M.&nbsp;<strong>Contos fluminenses</strong>. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.</p>



<p>BARBERY, M. <em>A elegância do ouriço</em>. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.</p>



<p>FERREIRA, A. B. H.&nbsp;<em>Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa.</em> 5. ed. Curitiba: Positivo, 2010.</p>



<p>GONTIJO, C.&nbsp;<em>A força da elegância: O que a neurociência revela sobre a excelência no comportamento humano</em><em>.</em> Belo Horizonte, Reflexão, 2025.</p>



<p>JUNG, C. G. <em>Aion </em>– estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 10. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013a.</p>



<p><em>__________ A natureza da psique</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes: 2013b.</p>



<p><em>__________ A Prática da psicoterapia</em>. 16. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013c.</p>



<p>__________ <em>Escritos diversos. 3 ed. </em>Petrópolis, RJ: Vozes, 2012a.</p>



<p>__________&nbsp;<em>Estudos alquímicos</em>. Petrópolis: Vozes, 2011, § 20.</p>



<p>__________ <em>Memórias, sonhos e reflexões</em> (Reunidas e editadas por Aniela Jaffé). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.</p>



<p>__________ <em>O Eu e o inconsciente</em>. 27. ed. Petrópolis: RJ: Vozes, 2015.</p>



<p>__________&nbsp;<em>Psicologia do inconsciente.</em> Petrópolis, RJ: Vozes, 2020.</p>



<p>__________ <em>Psicologia e alquimia</em>. 6 ed.&nbsp; Petrópolis, RJ: Vozes, 2012b.</p>



<p><em>__________ Tipos psicológicos.</em> 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013d.</p>



<p>__________ <em>Um mito moderno sobre coisas vistas no céu</em>. 6 ed.&nbsp; Petrópolis, RJ, Vozes: 2013e.</p>



<p>LISPECTOR, C.&nbsp;<strong>Um sopro de vida</strong>. Rio de Janeiro: Rocco, 2020 (Edição Comemorativa).&nbsp;</p>



<p>STRIEDER, C.M.&nbsp;<em>Vitória-régia.</em> Cáceres-MT, 2017. Fotografia produzida pela autora.&nbsp;</p>



<p>VELOSO, C. <em>Coisa mais linda</em>. Álbum Uns, Polygram, 1983.<strong></strong></p>



<p>ZINKER, J. C. <em>A busca da elegância em psicoterapia:</em> uma abordagem gestáltica com casais, famílias e sistemas íntimos. São Paulo: Summus, 2001.</p>



<p>&#8212;</p>



<p><em>Fotografia – Vitória-régia &#8211; Fonte: a autora.</em></p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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		<title>A Alquimia da Vontade: Do Peso do “Ter que” ao Voo do “Querer”</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-alquimia-da-vontade-do-peso-do-ter-que-ao-voo-do-querer/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Mar 2026 10:18:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Alquimia da Vontade]]></category>
		<category><![CDATA[autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[autonomia]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[ndividuação]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[self]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade do Cansaço]]></category>
		<category><![CDATA[waldemar magaldi]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este ensaio completa a trilogia iniciada com o chamado vocacional no artigo intitulado Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos e continuada pela descida ao mundo das sombras em O Retorno à Caverna: O Mito da Caverna e Individuação na Arte de Ser Vagalume no Escuro. Recentemente, um cliente compartilhou uma angústia profunda após mergulhar [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Este ensaio completa a trilogia iniciada com o chamado vocacional no artigo intitulado <a href="https://blog.ijep.com.br/muitos-sao-chamados-mas-poucos-sao-escolhidos/"><strong>Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos</strong></a> e continuada pela descida ao mundo das sombras em <a href="https://blog.ijep.com.br/mito-da-caverna-e-individuacao-jung/"><strong>O Retorno à Caverna: O Mito da Caverna e Individuação na Arte de Ser Vagalume no Escuro</strong></a>. Recentemente, um cliente compartilhou uma angústia profunda após mergulhar na obra de Byung-Chul Han sobre a sociedade do cansaço. Ele expressou o desejo de que sua existência não se resumisse ao excesso de obrigações e produtividade. Observamos muitos indivíduos que, sob o manto de uma suposta motivação, escondem o vício no trabalho e negam suas obsessões por fama e capital. Convido você a descer da &#8220;esteira rolante&#8221; dos automatismos cotidianos e mergulhar em uma jornada da <strong>Alquimia da Vontade e individuação</strong>. Vamos conversar sobre como esse processo nos permite trocar o chumbo da servidão voluntária pelo entusiasmo do Self.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-divertimento-como-fuga-e-o-vazio-do-hiperconsumo"><strong>O Divertimento como Fuga e o Vazio do Hiperconsumo</strong></h2>



<p>Ao estruturar este fechamento, decidi investigar a alquimia entre os verbos <strong>tenho que</strong>, <strong>preciso</strong> e <strong>quero</strong>. Busco a profundidade da psicologia analítica em diálogo com pensadores que moldaram minha visão ao longo de décadas. Recorro ao conceito de &#8220;divertimento&#8221; de Blaise Pascal, que denuncia a distração como uma fuga de si mesmo, e ao vazio descrito por Gilles Lipovetsky na era do hiperconsumo. Encontro ecos no &#8220;amor líquido&#8221; de Zygmunt Bauman e no &#8220;espetáculo&#8221; de Guy Debord, onde a imagem artificial substitui a vivência pulsante da alma. Resgato o &#8220;direito à preguiça&#8221; de Paul Lafargue e o &#8220;ócio criativo&#8221; de Domenico De Masi, além da sensibilidade de Hermann Hesse na arte dos ociosos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-natureza-e-o-mercado-o-resgate-do-sagrado"><strong>A Natureza e o Mercado: O Resgate do Sagrado</strong></h2>



<p>Ailton Krenak e Davi Kopenawa nos lembram da urgência de reintegrar o humano à natureza contra o utilitarismo predatório que devora o sagrado. Por fim, as críticas de Karl Marx e Max Weber sobre a desumanização do homem transformando-o em um mero autônomo do mercado capitalista, fundamentam esta reflexão. O sistema tenta transformar a vida em bem de produção, mas a psicologia junguiana nos convoca ao resgate da subjetividade. <strong>A vida é curta demais para sermos pequenos</strong> e o processo de individuação exige que troquemos a engrenagem do mercado pelo pulsar do coração.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-caminho-do-meio-entre-o-velho-sabio-e-a-crianca-divina"><strong>O Caminho do Meio: Entre o Velho Sábio e a Criança Divina</strong></h2>



<p>Aquele que conseguiu se entregar ao chamado e enfrentou a saída e o posterior retorno à caverna torna-se um místico por integrar os arquétipos do Velho Sábio com a Criança Divina, encontrando a liberdade no serviço e construindo pontes para o infinito. Muitas pessoas, contudo, são tomadas pela compulsão pela liberdade ao negar vínculos, obrigações e dependências. Na realidade, tornam-se escravas de um &#8220;<strong>complexo de liberdade</strong>&#8220;. Segundo Spinoza, o livre-arbítrio genuíno não é sobre ter liberdade de escolha sem restrições, mas sim sobre compreender as causas que nos influenciam. A liberdade é o resultado do entendimento das causas que determinam nossas ações; ao compreendê-las, agimos de maneira mais livre e racional.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-espelho-a-alma-autoestima-e-individuacao"><strong>Do Espelho à Alma: Autoestima e Individuação</strong></h2>



<p>Através do autoconhecimento, torna-se possível compreender nossas peculiaridades, diferenciar-nos da imago parental e dos condicionamentos adquiridos, reconhecendo os aspectos sombrios e os complexos para nos tornarmos mais íntegros. Conscientes de quem, como e o que somos, conquistamos a autoestima e o amor-próprio, aprendendo a respeitar a nós mesmos para poder dar e exigir respeito. Sabemos agora o que nos pertence, o que desejamos e o que não desejamos, tanto para o Si-mesmo quanto para os demais.</p>



<p>Isso nos possibilita a autonomia, que nos confere a liberdade para escolhas conscientes de dependência ou servidão, livres de códigos morais rígidos, pois encontramos a dimensão ética do existir e do &#8220;bom combate&#8221;. O prisioneiro que retorna à caverna, agora consciente da luz, enfrenta a tirania dos automatismos cotidianos. Ele percebe que a maioria caminha em uma esteira rolante invisível, movida por impulsos alheios. Para o analista junguiano, isso revela uma patologia da vontade, onde a alma se perde entre o dever imposto e a carência fabricada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-despertar-do-querer-a-alquimia-da-liberdade-no-retorno-a-caverna"><strong>O Despertar do Querer: A Alquimia da Liberdade no Retorno à Caverna</strong></h2>



<p>O prisioneiro que retorna à caverna, agora consciente da luz, enfrenta um novo tipo de sombra: a tirania dos automatismos cotidianos. Ele percebe que a maioria das pessoas caminha em uma esteira rolante invisível, movida por impulsos que elas não escolheram. Para o analista junguiano, esse cenário revela uma patologia da vontade, onde a alma se perde entre o dever imposto e a carência fabricada. Precisamos, portanto, dissecar os verbos que sustentam nossas correntes ou que, se bem compreendidos, forjam nossa libertação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-tenho-que-o-algoz-que-habita-em-nos"><strong>O &#8220;Tenho Que&#8221;: O Algoz que Habita em Nós</strong></h2>



<p>O verbo &#8220;tenho que&#8221; representa a voz do algoz internalizado. Ele manifesta o superego social, as exigências do mercado e as expectativas familiares que sequestram nossa autenticidade. Quando dizemos &#8220;<strong>tenho que ser produtivo</strong>&#8221; ou &#8220;<strong>tenho que ser feliz</strong>&#8220;, estamos servindo a uma Persona que não nos pertence. Jung descreve esse estado como uma servidão voluntária, onde o indivíduo se torna uma peça funcional da engrenagem coletiva, mas perde o contato com sua essência singular.</p>



<p>Nesse estágio, a vida se transforma em um inventário de obrigações sem alma. O indivíduo autômato executa tarefas com perfeição, mas carrega um vazio que nenhum sucesso material consegue preencher. Ele habita a &#8220;sociedade do cansaço&#8221;, onde o excesso de positividade e a cobrança por desempenho esgotam a libido criativa. O &#8220;<strong>tenho que</strong>&#8221; é a sombra da caverna que tenta nos convencer de que a liberdade é apenas uma escolha entre diferentes formas de obediência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-preciso-a-armadilha-da-carencia-fabricada"><strong>O &#8220;Preciso&#8221;: A Armadilha da Carência Fabricada</strong></h2>



<p>Se o &#8220;<strong>tenho que</strong>&#8221; vem de fora, o &#8220;<strong>preciso</strong>&#8221; simula uma necessidade interna que, muitas vezes, é artificial. O sistema de consumo sequestra o verbo &#8220;precisar&#8221; para criar a ilusão de falta constante. Acreditamos que precisamos do último modelo de celular, da aprovação constante nas redes sociais ou de um corpo que atenda a padrões irreais. Essa necessidade fabricada mantém o ego em um estado de carência eterna, impedindo que ele mergulhe nas águas profundas do Ser.</p>



<p>A carência é a alavanca do mercado. Ela transforma desejos legítimos da alma em necessidades urgentes do corpo e do ego. Quando confundimos o que é essencial para nossa nutrição psíquica com o que é imposto pela vitrine, e pelos algoritmos, perdemos nossa bússola. O &#8220;preciso&#8221; torna-se uma corrente que nos prende ao objeto, impedindo o fluxo da vida. Na perspectiva da psicossomática, essa busca incessante por preenchimento externo muitas vezes se manifesta em sintomas físicos, lembretes dolorosos de que a alma está faminta por sentido, não por produtos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-quero-a-bussola-da-alma-e-o-bom-combate"><strong>O &#8220;Quero&#8221;: A Bússola da Alma e o Bom Combate</strong></h2>



<p>O verbo &#8220;<strong>quero</strong>&#8221; é o mais perigoso para qualquer sistema de controle e, por isso, é o mais sufocado. O querer autêntico não nasce da falta, mas da plenitude do Si-mesmo (Self). Ele é a manifestação do entusiasmo, que em sua raiz grega, <em>entheos</em>, significa &#8220;ter um deus dentro&#8221;. Quando um indivíduo descobre o que realmente quer, ele inicia o &#8220;<strong>bom combate</strong>&#8221; pela sua autenticidade.</p>



<p>Diferente do desejo caprichoso do ego, o &#8220;<strong>quero</strong>&#8221; junguiano é teleológico: ele aponta para uma finalidade maior. Ele é a energia que flui do centro da psique para o mundo, organizando a ação de forma coerente e vigorosa. Quem quer de verdade não se cansa da mesma maneira que quem apenas obedece. A ação que nasce do querer é devocional, é um sacrifício consciente do ego em favor da totalidade. Esse querer revolucionário permite que o indivíduo retorne à caverna não como um pregador arrogante, mas como um canal de vida que contagia o entorno com sua presença e verdade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-integracao-o-caminho-da-individuacao"><strong>A Integração: O Caminho da Individuação</strong></h2>



<p>A individuação não exige que abandonemos todas as obrigações ou necessidades. Ela propõe uma mudança na fonte do impulso. O indivíduo consciente minimiza o &#8220;<strong>tenho que</strong>&#8221; ou o transforma em um compromisso ético com seu próprio processo. Ele usa o &#8220;<strong>preciso</strong>&#8221; com sabedoria, distinguindo o que nutre a alma do que apenas entulha a existência. E, acima de tudo, ele coloca o &#8220;<strong>quero</strong>&#8221; como o mestre de sua jornada.</p>



<p>Viver de forma integral significa aceitar o paradoxo de ser um ser comum, mas singular. A vida é curta demais para sermos pequenos, como costumo dizer. Ser pequeno é aceitar a vida crônica, repetitiva e sem brilho. Ser grande é assumir a responsabilidade por nossa própria luz, integrando nossas sombras e falando a linguagem do coração.</p>



<p>Ao final desta trilogia, o convite permanece: que possamos trocar a esteira rolante pela dança ativa com o destino. Que o nosso fazer seja um &#8220;<strong>sacro ofício</strong>&#8220;, uma religação constante entre o que realizamos no mundo e o que somos em essência. A liberdade não é a ausência de limites, mas a escolha consciente de quais limites servem ao nosso crescimento. Que o seu &#8220;<strong>quero</strong>&#8221; seja a luz que ilumina não apenas o seu caminho, mas também o daqueles que ainda buscam a saída da própria escuridão. Por isso, mais importante do que a quantidade ou a intensidade do seu fazer é a certeza de que esse fazer está alinhado com seu chamado, proporcionando sentido, significado e valor pessoal, coletivo e ambiental.</p>



<p><strong>Acesse a Trilogia Alquímica de Waldemar Magaldi no Blog do IJEP:</strong></p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/muitos-sao-chamados-mas-poucos-sao-escolhidos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos</a></strong></li>
</ul>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/mito-da-caverna-e-individuacao-jung/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O Retorno à Caverna: O Mito da Caverna e Individuação na Arte de Ser Vagalume no Escuro</a></strong></li>
</ul>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/a-alquimia-da-vontade-do-peso-do-ter-que-ao-voo-do-querer/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">A Alquimia da Vontade: Do Peso do “Ter que” ao Voo do “Querer”</a></strong></li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas"><strong>Referências Bibliográficas</strong></h2>



<p>Bauman, Z. (2004). <em>Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.</p>



<p>De Masi, D. (2000). <em>O ócio criativo</em>. Rio de Janeiro: Sextante.</p>



<p>Debord, G. (1997). <em>A sociedade do espetáculo</em>. Rio de Janeiro: Contraponto.</p>



<p>Han, B.-C. (2015). <em>Sociedade do cansaço</em>. Petrópolis: Vozes.</p>



<p>Hesse, H. (1984). <em>A arte dos ociosos</em>. Rio de Janeiro: Record.</p>



<p>Jung, C. G. (2011). <em>A vida simbólica</em> (Vol. 18/1). Petrópolis: Vozes.</p>



<p>Kopenawa, D., &amp; Albert, B. (2015). <em>A queda do céu: palavras de um xamã yanomami</em>. São Paulo: Companhia das Letras.</p>



<p>Krenak, A. (2019). <em>Ideias para adiar o fim do mundo</em>. São Paulo: Companhia das Letras.</p>



<p>Lafargue, P. (1999). <em>O direito à preguiça</em>. São Paulo: Hucitec.</p>



<p>Lipovetsky, G. (2005). <em>A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo</em>. Barueri: Manole.</p>



<p>Magaldi Filho, W. (2006). <em>Dinheiro, saúde e sagrado: uma análise junguiana da relação do homem com o dinheiro</em>. São Paulo: Eleva.</p>



<p>Marx, K. (2013). <em>O capital: crítica da economia política</em>. São Paulo: Boitempo.</p>



<p>Pascal, B. (2004). <em>Pensamentos</em>. São Paulo: Martins Fontes.<strong></strong></p>



<p>Spinoza, B. (2015). <em>Ética</em>. Belo Horizonte: Autêntica.<strong></strong></p>



<p>Weber, M. (2004). <em>A ética protestante e o espírito do capitalismo</em>. São Paulo: Companhia das Letras.<strong></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Chamados, Caverna e Vontade. Jornada em três atos: vocação, consciência e transformação interior." width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/KB8MQ1jhu00?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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		<title>Partejar a si mesmo: renascimento psíquico na maturidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/partejar-a-si-mesmo-renascimento-psiquico-na-maturidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paula Pessanha Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Mar 2026 18:08:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
		<category><![CDATA[crise da meia idade]]></category>
		<category><![CDATA[crises de vida]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento pessoal]]></category>
		<category><![CDATA[individuação]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[perda de identidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[segunda metade da vida]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<category><![CDATA[transformação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando aquilo que sustenta a identidade do indivíduo já não faz mais sentido, talvez não seja fracasso — mas um chamado. A Psicologia Analítica compreende esse vazio da maturidade como uma exigência de renascimento psíquico: uma travessia em que o antigo eu precisa morrer para que algo mais verdadeiro possa emergir. “Partejar a si mesmo” é a imagem desse processo — doloroso, inevitável e profundamente transformador. Este artigo propõe olhar o envelhecimento não como declínio, mas como território iniciático, onde a pergunta decisiva finalmente se impõe: quem sou eu quando já não sou quem fui?</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>RESUMO: </strong><em>Quando aquilo que sustenta a identidade do indivíduo já não faz mais sentido, talvez não seja fracasso — mas um chamado. A Psicologia Analítica compreende esse vazio da maturidade como uma exigência de renascimento psíquico: uma travessia em que o antigo eu precisa morrer para que algo mais verdadeiro possa emergir. “Partejar a si mesmo” é a imagem desse processo — doloroso, inevitável e profundamente transformador. Este artigo propõe olhar o envelhecimento não como declínio, mas como território iniciático, onde a pergunta decisiva finalmente se impõe: quem sou eu quando já não sou quem fui?&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-momentos-da-vida-em-que-aquilo-que-antes-sustentava-o-sentido-trabalho-papeis-sociais-expectativas-reconhecimento-posicao-social-deixa-de-responder-as-perguntas-mais-profundas-da-alma-nbsp" style="font-size:18px">​​Há momentos da vida em que aquilo que antes sustentava o sentido — trabalho, papéis sociais, expectativas, reconhecimento, posição social — deixa de responder às perguntas mais profundas da alma.&nbsp;</h2>



<p id="h-a-vida-segue-mas-algo-essencial-se-perde" style="font-size:18px"><strong>A vida segue, mas algo essencial se perde</strong>. Aquilo que antes organizava a identidade já não oferece sustentação. Instala-se um sentimento de vazio, uma perda de vitalidade, um desânimo, que frequentemente é confundido com fracasso pessoal ou até mesmo uma patologia. Esse estado costuma ser vivido com angústia, no entanto, esse esvaziamento não é, em si, depressão nem sinal de adoecimento psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-trata-se-muitas-vezes-de-uma-crise-de-identidade-o-individuo-ja-nao-se-reconhece-naquilo-que-antes-lhe-dava-contorno" style="font-size:18px">Trata-se, muitas vezes, de uma <strong>crise de identidade</strong>: o indivíduo já não se reconhece naquilo que antes lhe dava contorno.</h2>



<p style="font-size:18px">O que agradava, já não satisfaz mais; valores que eram importantes perdem a força; surge a experiência de não saber mais quem se é. Esse desconhecimento de si pode ser profundamente desestabilizador — e exatamente por isso, carregado de <strong>potencial transformador</strong>. Perguntas antes irrelevantes tornam-se urgentes. “Por que eu gostava disso e agora não gosto mais?”, “O que, afinal, ainda faz sentido para mim?, “O que a vida quer de mim?”</p>



<p style="font-size:18px">Na Psicologia Analítica, esse momento pode indicar uma <strong>exigência psíquica de transformação</strong>, típica da segunda metade da vida. A busca que se impõe já não é externa. Não se trata de novos projetos, novos papéis ou novos reconhecimentos. Trata-se de uma busca <strong>interior</strong>, que não pode ser simplesmente decidida ou planejada. Ela precisa ser gestada, sustentada e, finalmente, parida. É nesse horizonte que emerge a imagem central deste artigo: <strong>“partejar a si mesmo”</strong>, como símbolo de um processo interno árduo, inevitável e criativo do amadurecimento psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-etapas-da-vida" style="font-size:22px"><strong>As etapas da vida</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Jung descreve a primeira metade da vida como orientada fundamentalmente pela <strong>adaptação ao mundo exterior</strong>. O desenvolvimento da psique, nesse período, está centrado no fortalecimento e na estruturação do ego, que precisa se diferenciar progressivamente do inconsciente (JUNG, <em>2013</em>).</p>



<p style="font-size:18px">Nessa etapa o indivíduo desenvolve a personalidade parcialmente consciente, constrói a persona, sua vida funcional e produtiva. Trabalho, família, vida social e conquistas materiais tornam-se eixos organizadores da identidade. Trata-se de uma fase necessária e legítima do desenvolvimento psíquico. Sem um ego suficientemente estruturado, não há base para desenvolvimento de processos mais complexos.</p>



<p style="font-size:18px">Contudo, Jung é enfático ao afirmar que essa lógica não pode reger toda a existência. Na <strong>segunda metade da vida</strong> surge uma relação diferente entre ego e Self. É o que Jung denomina <strong>metanoia</strong>: uma crise profunda de reorientação psíquica, na qual ocorre um questionamento radical dos valores até então vigentes. A libido (energia psíquica), antes predominantemente dirigida ao mundo externo, volta-se para o mundo interno. O ego passa a buscar o si-mesmo (centro regulador da psique) a procura de uma nova orientação para a vida. É chegado o momento do resgate da alma. A esse movimento Jung dá o nome de <strong>processo de individuação</strong>, entendida como o objetivo do desenvolvimento psíquico em direção à realização da totalidade da personalidade, ao tornar-se verdadeiramente quem se é.</p>



<p style="font-size:18px">Para ilustrar essa inversão de valores, Jung compara o desenvolvimento humano ao curso diário do sol:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:5px">
<p style="font-size:18px">“Suponhamos um Sol dotado de sentimentos humanos e de uma consciência humana relativa ao momento presente. De manhã, o Sol se eleva do mar noturno do inconsciente […] Precisamente ao meio-dia, o Sol começa a declinar e este declínio significa uma inversão de todos os valores e ideais cultivados durante a manhã” (JUNG, <em>A natureza da psique</em>, OC 8/2, §778).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-inversao-nao-e-patologica-nem-opcional-simplesmente-acontece-quando-o-ego-insiste-em-viver-a-maturidade-segundo-a-logica-da-juventude-expansao-produtividade-adaptacao-externa-o-sofrimento-e-inevitavel" style="font-size:18px">Essa inversão não é patológica nem opcional, simplesmente acontece. Quando o ego insiste em viver a maturidade segundo a lógica da juventude — expansão, produtividade, adaptação externa —, o sofrimento é inevitável.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">“Da mesma forma que o indivíduo preso à infância recua apavorado diante da incógnita do mundo e da existência humana, assim também o homem adulto recua assustado diante da segunda metade da vida, como se o aguardassem tarefas desconhecidas e perigosas, ou como se sentisse ameaçado por sacrifícios e perdas que ele não teria condições de assumir, ou ainda como se a existência que ele levara até agora lhe parecesse tão bela e tão preciosa, que ele já não seria capaz de passar sem ela.” (JUNG, <em>A natureza da psique</em>, OC 8/2, §777)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-sofrimento-nesse-contexto-surge-pela-resistencia-a-transformacao-psiquica" style="font-size:18px">O sofrimento, nesse contexto, surge pela <strong>resistência à transformação psíquica</strong>.</h2>



<p style="font-size:18px">Jung foi muito claro ao afirmar que é a recusa em aceitar a mudança, em atender ao chamado do Self, que traz sofrimento. Segundo ele, “para o homem que envelhece é um dever e uma necessidade dedicar atenção séria ao seu próprio si-mesmo. Depois de esbanjar luz e calor sobre o mundo, o Sol recolhe seus raios para iluminar a si-próprio.” (JUNG, 2013)</p>



<p style="font-size:18px">No entanto, é muito comum vermos essa recusa perdurar até depois da metanoia, que costuma acontecer por volta dos 40 anos. Importante deixar claro que o envelhecimento, não leva necessariamente ao amadurecimento psíquico. Para que isto ocorra, o indivíduo deve aceitar esse chamado com consciência e confiança. O processo de amadurecimento pode acontecer tardiamente, ou até mesmo, nunca acontecer.&nbsp; E se assim for, se vive uma velhice sem sentido, em profunda depressão, acompanhado somente das lembranças do passado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-renascimento-psiquico" style="font-size:22px"><strong>O renascimento psíquico</strong></h2>



<p style="font-size:18px">A recusa em viver o envelhecimento sem sentido pode levar as pessoas ao processo do <strong>renascimento psíquico</strong>. Jung se debruçou sobre esse tema, considerando-o como um arquétipo. Isso porque a ideia de renascimento está presente na história da humanidade e amplamente difundida por meio de mitos em diferentes culturas. O renascimento pode ser ocasionado por um evento externo, como por exemplo, uma doença ou a morte de um ente querido, ou interno, como o caso da metanoia.</p>



<p style="font-size:18px">Renascimento, portanto, <strong>não equivale a recomeçar a vida</strong> nem a buscar uma juventude tardia. Trata-se de uma <strong>morte simbólica</strong> de antigas identificações egóicas, acompanhada de desorganização do ego e da emergência de novas imagens orientadoras do Self. Jung descreve diferentes formas de renascimento: a <em>renovatio</em>, na qual funções psíquicas são fortalecidas sem alteração essencial da personalidade; a <strong>transformação no sentido de ampliação</strong>, a possibilidade de modificação da personalidade; e o <strong>renascimento indireto</strong>, pela participação em processos ou ritos de transformação (JUNG, <em>2014</em>). Na maturidade, é frequentemente a transformação que se impõe.</p>



<p style="font-size:18px">Esse processo não é confortável. Ele envolve perda de certezas, desorientação e espera. O ego perde centralidade, e o Self passa a orientar a vida psíquica. Novas imagens e valores emergem do inconsciente, exigindo elaboração simbólica e ética.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-partejar-a-si-mesmo" style="font-size:22px"><strong>Partejar a si mesmo</strong></h2>



<p style="font-size:18px">O renascimento desejado na maturidade é, portanto, um processo consciente, ou seja, de ampliação de consciência. E exige muito trabalho e dedicação. É nesse campo que se insere a imagem simbólica de <strong>“partejar a si mesmo”</strong>. Partejar a si mesmo não é um projeto de autoaperfeiçoamento; é responder ao <strong>chamado do Self</strong>. É uma experiência psíquica: o nascimento de algo novo.</p>



<p style="font-size:18px">Como todo parto, trata-se de um processo marcado por dor, tempo próprio e impossibilidade de controle. O novo não nasce por decisão racional; ele nasce <strong>apesar do ego</strong>. Partejar a si mesmo é suportar os lutos inerentes à maturidade: deixar morrer personas que garantiam pertencimento, abandonar ideais de onipotência, integrar aspectos sombrios da personalidade que permaneceram dissociados durante a vida produtiva. O que nasce não é um “novo eu” idealizado, mas uma <strong>nova relação entre ego e Self</strong>.</p>



<p style="font-size:18px">Para partejar a si mesmo, é necessário um ego suficientemente flexível, capaz de sustentar a tensão com o inconsciente, sem colapsar nem se defender rigidamente. Esse processo ocorre no tempo do <em>kairós</em>, o tempo da alma, e não no tempo cronológico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-transformacao-psiquica-exige-tomada-de-consciencia" style="font-size:18px">A transformação psíquica exige <strong>tomada de consciência.</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Esse processo só se torna possível por meio daquilo que Jung denominou <strong>função transcendente</strong> &#8211; um processo que emerge da tensão entre consciente e inconsciente:&nbsp; passado e futuro, vida externa esvaziada e exigência interna ainda informe. Quando o ego suporta essa tensão sem repressão ou identificação inflacionada, surgem símbolos vivos — sonhos, imagens, sintomas significativos — que mediam a transformação psíquica. Jung afirma que, nesse movimento, conteúdos inconscientes são assimilados pela consciência, ampliando-a e produzindo uma nova atitude diante da vida (JUNG, 2013).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Ninguém que haja passado pelo processo de assimilação do inconsciente poderá negar o fato de ter-se emocionado profundamente e de ter-se transformado.</p><cite>JUNG, <em>O eu e o inconsciente</em>, OC 7/2, §361</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">Nesse momento da vida, as perguntas que se impõem não dizem mais respeito ao que foi conquistado ou desempenhado externamente, mas à <strong>verdade psíquica</strong> que sustenta — ou não — essa trajetória.</p>



<p style="font-size:18px"><strong><em>“As personas (máscaras sociais) que desempenhei durante toda minha vida estão conectadas aos valores do Self?”</em></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><em>“Reconheço minhas partes reprimidas da personalidade (sombras), aqueles piores defeitos ou então aquela potencialidade que não tive coragem de assumir?”</em></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><em>“Quem eu sou para além da história e dos papeis que representei?”</em></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-recusa-da-espera-da-morte" style="font-size:22px"><strong>A recusa da espera da morte</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Sob essa perspectiva, o envelhecimento pode ser compreendido como um <strong>portal iniciático</strong>. A perda de valor da persona social não é um empobrecimento, mas uma convocação à interiorização. A recusa em “esperar a morte” — tão frequente em culturas que associam valor à produtividade — pode ser lida como resposta do Self à estagnação psíquica.</p>



<p style="font-size:18px">Como imagem contemporânea desse processo temos o filme <strong>Azul Profundo</strong>. O filme acompanha uma mulher idosa que, após a aposentadoria forçada, se vê retirada do mundo produtivo e confrontada com a expectativa social de recolhimento e espera passiva da morte. Em vez disso, a personagem recusa essa morte psíquica antecipada e inicia um movimento de reinvenção subjetiva, ainda que marcado por solidão, estranhamento e conflito. A crise vivida pela protagonista não se configura como depressão, mas como <strong>desorientação existencial</strong>: aquilo que antes estruturava o cotidiano já não existe, e nada ainda ocupou o lugar deixado por essa perda. A personagem não “se reinventa”; ela <strong>atravessa uma morte simbólica</strong>. A recusa em simplesmente “esperar a morte” não se expressa como rebeldia, mas como <strong>persistência em permanecer viva psiquicamente</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-observa-que-quando-o-desenvolvimento-psiquico-e-interrompido-a-vida-perde-sentido-e-o-individuo-adoece-nao-por-envelhecer-mas-por-deixar-de-se-transformar-jung-2013" style="font-size:18px">Jung observa que, quando o desenvolvimento psíquico é interrompido, a vida perde sentido e o indivíduo adoece não por envelhecer, mas por deixar de se transformar (JUNG, 2013).</h2>



<p style="font-size:18px">O filme encarna essa afirmação ao mostrar que a velhice, quando reduzida à inutilidade social, torna-se insuportável; mas quando vivida como território de escuta e transformação, pode adquirir outro estatus simbólico.</p>



<p style="font-size:18px">Nesse sentido, o filme ilustra com precisão a imagem de <strong>“partejar a si mesmo”</strong>: algo precisa morrer, algo ainda não tem forma, e o ego — despojado de seus antigos papéis — precisa suportar a dor, o tempo e a incerteza desse processo. O novo sentido, se surgir, não virá como conquista do ego, mas como resposta silenciosa do Self à coragem de não viver de forma falsa.</p>



<p style="font-size:18px">Como disse Jung: “a vida tem de ser conquistada sempre e de novo&#8221; (JUNG, 2013). Quando a vida externa já não oferece sentido, a psique não está falhando. Ela está exigindo transformação. Nem todo envelhecimento conduz à individuação; mas <strong>sem atravessar a crise</strong>, ela não ocorre.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Partejar a si mesmo</strong> não é escolha confortável, nem promessa de plenitude. É seguir o chamado da alma, quando já não é mais possível viver de outra forma. Em última instância, é responder à pergunta que inaugura a maturidade: <strong>quem sou eu quando já não sou quem fui?</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: &quot;Partejar a si mesmo renascimento psíquico na maturidade&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/EC0BaGsVZ-Y?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ana-paula-pessanha-lima/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/ana-paula-pessanha-lima/"><strong>Ana Paula Pessanha Lima &#8211; Membro Analista em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências</strong>:</h3>



<p>JUNG, C. G. (2015). <em>O eu e o inconsciente</em> (OC 7/2). Petrópolis: Vozes.</p>



<p>JUNG, C. G. (2013). <em>A natureza da psique</em> (OC 8/2). Petrópolis: Vozes.<br>JUNG, C. G. (2014). <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em> (OC 9/1). Petrópolis: Vozes.</p>



<p>JUNG, C. G. (2013). <em>Desenvolvimento da Personalidade </em>(OC 17). Petrópolis: Vozes.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Entre o Vivido e o Não Vivido: A Sabedoria da Velhice</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/entre-o-vivido-e-o-nao-vivido-a-sabedoria-da-velhice/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rosana T W Hanada]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Mar 2026 15:20:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[crise da meia idade]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[meio da vida]]></category>
		<category><![CDATA[metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<category><![CDATA[Velhice]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12466</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este artigo apresenta reflexões sobre o envelhecimento à luz da Psicologia Analítica, destacando-o como um período simbólico de ampliação da consciência e integração dos conteúdos inconscientes. A partir de Jung e de autores contemporâneos, reflete-se sobre a vida não vivida, o movimento de interiorização e a busca por significado como aspectos fundamentais da jornada de individuação na segunda metade da vida. Envelhecer, sob essa perspectiva, deixa de ser apenas um declínio biológico e se torna um convite à integração, à reconciliação e à plenitude.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Este artigo apresenta reflexões sobre o envelhecimento à luz da Psicologia Analítica, destacando-o como um período simbólico de ampliação da consciência e integração dos conteúdos inconscientes. A partir de Jung e de autores contemporâneos, reflete-se sobre a vida não vivida, o movimento de interiorização e a busca por significado como aspectos fundamentais da jornada de individuação na segunda metade da vida. Envelhecer, sob essa perspectiva, deixa de ser apenas um declínio biológico e se torna um convite à integração, à reconciliação e à plenitude.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao"><strong>Introdução</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Envelhecer é, talvez, uma das experiências humanas mais universais e, paradoxalmente, menos compreendidas. Em uma sociedade que idolatra a produtividade, a juventude e o desempenho, o processo de envelhecimento costuma ser visto sob a ótica da perda: perda do corpo, do vigor, do espaço social, da autonomia. Entretanto, para a Psicologia Analítica, a velhice representa muito mais do que um declínio orgânico. Trata-se de um período decisivo para a alma, um momento em que os conteúdos esquecidos, negados ou não vividos ao longo da vida retornam, convidando a consciência para um diálogo profundo com o inconsciente.</p>



<p style="font-size:18px">A metáfora solar utilizada por Jung ilustra esse processo ao afirmar que “<strong>a vida desce agora montanha abaixo, com a mesma intensidade e irresistibilidade com que a subia antes da meia-idade</strong>” (JUNG, 2013a, §798). A consciência, antes dirigida ao mundo e às suas exigências, passa a se voltar para o íntimo, em que um pedido de reorganização e de sentido começa a emergir. É nesse ponto que a velhice revela sua dimensão simbólica: um tempo em que a vida nos devolve a nós mesmos. É um convite à interiorização, ao recolhimento e à pergunta essencial: <em>“O que foi feito da minha vida e o que ainda falta integrar?”</em> O envelhecimento é uma espécie de retorno ao próprio eixo, quando o ego, já cansado de manter as personas, encontra-se diante da tarefa inevitável de olhar para si mesmo.</p>



<p style="font-size:18px">Esta reflexão nasce de duas fontes: minha trajetória pessoal e o estudo desenvolvido em meu trabalho sobre envelhecimento na conclusão do curso de psicologia junguiana. A intenção desse artigo é oferecer um olhar cuidadoso e humano sobre uma etapa que, embora temida, pode ser rica e libertadora.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-envelhecimento-como-movimento-de-interiorizacao" style="font-size:22px"><strong>O Envelhecimento como Movimento de Interiorização</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Jung comparou a vida humana ao curso do sol: da aurora ao zênite, a energia progride para fora e para frente, expandindo-se em direção ao mundo (Cf. JUNG, 2014, §114). É o período da juventude e da maturidade inicial, dedicado à formação das personas, ao aprendizado social, ao trabalho, aos papéis familiares e à conquista de um lugar no mundo. Trata-se da fase em que a consciência se fortalece por meio da relação com o exterior.</p>



<p style="font-size:18px">Entretanto, ao atravessar o meio-dia simbólico da vida, algo começa a mudar internamente. A força que impulsionava o indivíduo para fora passa a demandar retorno, introspecção e simplificação. O olhar antes voltado para conquistas e estabilidade começa a buscar silêncio, significado e profundidade. Jung descreve esse fenômeno como uma mudança natural do eixo energético, um deslocamento do foco da adaptação externa para a integração interna, pois:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>O ser humano não chegaria aos setenta ou oitenta anos se esta longevidade não tivesse um significado para a sua espécie. Por isto, a tarde da vida humana deve ter também um significado e uma finalidade próprios, e não pode ser apenas um lastimoso apêndice da manhã da vida.</p><cite>JUNG, 2013a, § 787</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-segunda-metade-da-vida-a-alma-pede-um-outro-tipo-de-alimento-menos-material-mais-simbolico-menos-performatico-mais-essencial" style="font-size:18px">Na segunda metade da vida, a alma pede um outro tipo de alimento: menos material, mais simbólico; menos performático, mais essencial.</h2>



<p style="font-size:18px">É o período em que muitas pessoas começam a questionar seus valores, suas identidades e até mesmo a necessidade de manter certas máscaras sociais. A persona, tão necessária na adaptação ao mundo externo (Cf. JUNG, 2015, §246), começa a se mostrar estreita para conter o movimento da alma.</p>



<p style="font-size:18px">Esse processo costuma ser acompanhado por sentimentos de estranhamento, inquietação ou certo vazio. O que antes parecia suficiente, como carreira, desempenho, reconhecimento, segurança, status, já não oferece o mesmo sentido. É o inconsciente que está chamando a atenção da consciência para a necessidade de reorganização interna (Cf. JUNG, 2013b, §331b).</p>



<p style="font-size:18px">A vida moderna reforça um padrão que prolonga artificialmente a lógica da juventude: produtividade contínua, culto ao corpo, aceleração, hiperconexão, negação da fragilidade e da vulnerabilidade. Essa força cultural empurra o indivíduo a permanecer na expansão, mesmo quando sua psique pede quietude. O conflito entre essas duas dinâmicas, a externa coletiva e a interna individual, gera sofrimento e angústia.</p>



<p style="font-size:18px">No entanto, do ponto de vista junguiano, este é justamente o momento mais potente da existência. É quando a pessoa tem a oportunidade de questionar as narrativas que construiu sobre si mesma e de permitir que as partes esquecidas de sua alma, muitas vezes relegadas ao inconsciente por exigências da persona e do contexto social, venham à luz (Cf. HOLLIS, 1995, p. 58). É uma fase em que as perguntas se tornam mais importantes que as respostas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-meia-idade-a-pessoa-fica-mais-suscetivel-a-ocorrencia-da-metanoia-que-pode-significar-expansao-da-consciencia-ir-alem-da-razao-logica-transcender-converter-se-ter-mudanca-de-crencas-ou-visao-de-mundo-magaldi-2023" style="font-size:18px">Na meia-idade, a pessoa fica mais suscetível à ocorrência da metanoia, que pode significar “expansão da consciência, ir além da razão lógica, transcender, converter-se, ter mudança de crenças ou visão de mundo” (MAGALDI, 2023).</h2>



<p style="font-size:18px">O envelhecimento, então, deixa de ser interpretado como perda e passa a ser compreendido como um convite para reorganizar a vida a partir da verdade interior, não mais das expectativas externas, mas um chamado para viver “melhor”.</p>



<p style="font-size:18px">No caminho da individuação, esse movimento de interiorização representa maturação (Cf. JUNG, 2014, §91). Assim como o sol que se põe tingindo o céu de cores que só o entardecer pode produzir, o envelhecimento oferece tonalidades de sabedoria que não estão disponíveis em outras fases da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-vida-nao-vivida-e-o-retorno-dos-conteudos-esquecidos" style="font-size:22px"><strong>A Vida Não Vivida e o Retorno dos Conteúdos Esquecidos</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Ao atravessar a metade da vida, muitas pessoas descobrem que o passado, antes acomodado em silêncios, retorna, muitas vezes, com surpreendente intensidade. Sensações de nostalgia, lembranças persistentes, perguntas sobre escolhas feitas ou evitadas, e um sentimento difuso de que “algo essencial ficou para trás” começam a ocupar a paisagem interior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-nesse-momento-que-nossa-vida-nao-vivida-se-ergue-dentro-de-nos-exigindo-nossa-atencao-johnson-2010-p-9" style="font-size:18px"><em>“É nesse momento que nossa vida não vivida se ergue dentro de nós, exigindo nossa atenção” (JOHNSON, 2010, p. 9).</em></h2>



<p style="font-size:18px">Para Jung (Cf. 2013, §789), a vida vivida de forma expandida, útil, eficiente, com boa imagem social, emprego adequado e bom casamento são conquistas importantes e necessárias na primeira metade da vida, mas:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="is-style-large" style="font-size:19px">Infelizmente não são objetivos suficientes nem têm sentido para muitos que não veem na aproximação da velhice senão uma diminuição da vida e consideram seus ideais anteriores simplesmente como coisas desbotadas e puídas! Quantas coisas na vida não foram vividas por muitas pessoas – muitas vezes até mesmo potencialidades que elas não puderam satisfazer, apesar de toda a sua boa vontade – e assim se aproximam do limiar da velhice com aspirações e desejos irrealizados que automaticamente desviam o seu olhar para o passado (ibidem, p. 357).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nada-do-que-deixamos-de-viver-desaparece-tudo-e-preservado-no-inconsciente-a-espera-de-um-momento-propicio-para-emergir" style="font-size:18px">Nada do que deixamos de viver desaparece; tudo é preservado no inconsciente, à espera de um momento propício para emergir.</h2>



<p style="font-size:18px">A meia-idade é o momento propício para que isso ocorra, conteúdos antes reprimidos encontram passagem para a consciência, trazendo à tona aspectos esquecidos, negados ou simplesmente negligenciados (Cf. HOLLIS, 1995, p. 58). A psique tenta reparar e integrar aquilo que ficou sem lugar.</p>



<p style="font-size:18px">Essas imagens que emergem, os sentimentos que insistem, as memórias que reaparecem têm o propósito de ampliar a consciência, mesmo quando provocam desconforto. A nostalgia que muitos sentem é um sinal simbólico de que fragmentos da personalidade desejam ser reconhecidos. Ela aponta para partes legítimas de nós mesmos que, por circunstâncias diversas, não puderam se desenvolver.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-a-vida-nao-vivida-nao-e-apenas-sombra-dolorosa-contem-tambem-brilho-vocacao-e-vitalidade-que-nao-encontrou-expressao-cf-johnson-2010-p-147" style="font-size:18px">Por isso, a vida não vivida não é apenas sombra dolorosa: contém também brilho, vocação e vitalidade que não encontrou expressão (Cf. JOHNSON, 2010, p. 147).</h2>



<p style="font-size:18px">Muitas pessoas, ao envelhecer, se surpreendem ao reencontrar antigos desejos, gostos esquecidos, aspirações que adormeceram, sensibilidades que haviam sido abafadas pela necessidade de adaptação. Tudo isso ressurge, não para ser realizado literalmente, mas para ser integrado simbolicamente (<em>ibidem,</em> p. 239).</p>



<p style="font-size:18px">Quando esses aspectos retornam e não são reconhecidos, costumam produzir inquietação interna. A pessoa pode experimentar irritação frequente, rigidez, desânimo, ressentimentos difíceis de localizar, ou uma sensação persistente de inadequação. O sujeito percebe que viveu uma vida inteira respondendo às expectativas externas, familiares, sociais, culturais, e agora sente o peso de ter se afastado demais de si mesmo. Em alguns casos, esse processo pode manifestar-se em sintomas físicos, depressivos, sensação de fracasso ou medo de que o tempo restante não seja suficiente para viver de forma autêntica, conforme Stein (<em>apud </em>Pandini, 2014, p. 24).&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-fundamental-compreender-que-integrar-a-vida-nao-vivida-nao-significa-recuperar-literalmente-o-que-nao-foi-feito-algo-impossivel-e-muitas-vezes-fantasioso" style="font-size:18px">É fundamental compreender que integrar a vida não vivida não significa recuperar literalmente o que não foi feito – algo impossível e, muitas vezes, fantasioso.</h2>



<p style="font-size:18px">A integração ocorre quando se permite que o significado daquilo que não foi vivido encontre expressão de alguma forma. Isso pode acontecer por meio da criatividade, da arteterapia, de novos interesses, de diálogos profundos, de maior liberdade emocional, de transformações internas, ou simplesmente pela capacidade de olhar para a própria história com autoperdão, compaixão e compreensão. Ao reconhecer esses conteúdos, o indivíduo resgata energia psíquica que estava aprisionada e sente-se mais inteiro, mais coerente consigo mesmo.</p>



<p style="font-size:18px">Envelhecer, assim, revela-se como um processo de reencontro. Não se trata apenas de revisitar o que passou, mas de compreender quem se tornou e quem ainda pode ser. A vida não vivida, quando acolhida, torna-se ponte entre o que fomos e o que podemos integrar. Ela permite que a última etapa da vida seja vivida em totalidade, com a serenidade de quem reconhece, nas palavras de Caetano Veloso, “a dor e a delícia de ser o que é” da canção “Dom de Iludir”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-envelhecer-a-luz-da-psicologia-analitica" style="font-size:22px"><strong>Envelhecer à luz da psicologia analítica</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Portanto, envelhecer é muito mais do que atravessar a última etapa cronológica da vida. Se a primeira metade da vida se organiza em torno da formação das personas, da adaptação ao mundo e da consolidação do ego, a segunda metade inaugura um processo inverso: a alma pede profundidade, interiorização e plenitude.</p>



<p style="font-size:18px">A velhice nos convida a rever a biografia pela ótica da presença. Não mais perguntamos “o que conquistei?”, mas “quem me tornei?”. Nessa fase, a necessidade de manter imagens sociais se afrouxa, permitindo que a autenticidade ganhe espaço. A consciência volta-se para temas outrora evitados como a vida não vivida, sendo uma oportunidade tardia de reconciliação. A proximidade da finitude, longe de ser apenas fonte de insegurança, desperta a urgência de viver o que ainda pode ser vivido, de integrar o que ficou esquecido e de honrar aquilo que não se pôde realizar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-hillman-lembra-que-esses-fragmentos-da-biografia-nao-sao-descartaveis-eles-precisam-ser-transformados-pela-reflexao-tardia-em-substancia-capaz-de-fortalecer-o-carater" style="font-size:18px"><strong>Hillman</strong> lembra que esses fragmentos da biografia não são descartáveis, eles precisam ser transformados pela reflexão tardia em substância capaz de fortalecer o caráter.</h2>



<p style="font-size:18px">A revisão da vida, esse gesto de olhar para trás não apenas para recordar, mas para compreender, permite que erros e acontecimentos antes dispersos revelem padrões e significado. É como se a velhice nos oferecesse a oportunidade de organizar nossa narrativa interna, reconhecendo que cada experiência, mesmo as mais dolorosas, fazem parte de nossa alma (Cf. HILLMAN, 2001, p.24).</p>



<p style="font-size:18px">Quando vivido com consciência, o envelhecimento torna-se um processo alquímico. O supérfluo se dissolve, o essencial se intensifica, e aquilo que parecia fragmentado encontra coerência (Cf. MAGALDI, 2020). Revisar a vida não é apagar dores nem refazer escolhas, mas reconhecer seu propósito no desenvolvimento da psique.</p>



<p style="font-size:18px">O ser humano não envelhece para morrer, mas para se tornar inteiro. O envelhecimento é a fase em que o Self, essa instância que transcende o ego, orienta com mais clareza seu chamado (Cf. JUNG, 2013a, §787). É como se, no crepúsculo da vida, a alma adquirisse uma outra luminosidade, menos solar, mais interior; menos expansiva, mais verdadeira.</p>



<p style="font-size:18px">Assim, envelhecer torna-se um ato de coragem, a coragem de olhar para si, de acolher o que faltou, de reconciliar o vivido e o não vivido, de aceitar a própria história e de permitir que a vida siga seu curso natural. E é justamente nesse gesto de entrega, desapego e autenticidade que se revela a maior possibilidade dessa etapa: viver, finalmente, a vida como merece ser vivida – porque <strong>envelhecer é fazer da vida uma obra. E toda obra verdadeira, quando chega ao fim, não se encerra: se revela.</strong></p>



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<iframe title="Artigo novo: Entre o Vivido e o Não Vivido: A Sabedoria da Velhice" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/LrYSraK8mqI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/beatriz-whitaker/">Rosana T W Hanada – Analista em formação IJEP</a></strong><strong></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/">Lia Romano – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p>HILLMAN, James<em>. </em><em>A força do caráter</em> <em>e a poética de uma vida longa</em>. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.</p>



<p>HOLLIS, James. <em>A passagem do meio. </em>Da miséria ao significado da meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p>JOHNSON, Robert. <em>A vida não vivida: </em>A arte de lidar com sonhos não realizados e cumprir o seu propósito na segunda metade da vida. São Paulo: Paulus, 2010.</p>



<p>JUNG, C. G. <em>A Natureza da Psique. </em>10.ed.Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p>______ O <em>Desenvolvimento da Personalidade</em>. 14.ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p>______ <em>Psicologia do Inconsciente</em>. 24.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p>______ <em>O Eu e o Inconsciente</em>. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p>MAGALDI FILHO, Waldemar (2020). <em>Alquimia e Psicologia Junguiana</em>. <em>&lt;https://www.youtube.com/watch?v=zxKBRbY2ENE&gt; </em>Acesso em 29 nov. 2025.</p>



<p>MAGALDI FILHO, Waldemar (2023). Metanoia na Psicologia Analítica.&nbsp; &lt;<em>https://blog.ijep.com.br/metanoia-na-psicologia-analitica&gt;/</em> Acesso em 25 nov. 2025.</p>



<p>PANDINI, Ana. <em>Metanoia:</em> caminho para o desenvolvimento no meio da vida.&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tese Doutorado USP. São Paulo, 2014. 176 f. Disponível em: &lt;<em>https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-19122014-110846/pt-br.php</em>&gt;&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep"><img decoding="async" width="1024" height="1019" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/03/x-congresso-1024x1019.png" alt="" class="wp-image-12470" style="aspect-ratio:1.0046691354049266;width:528px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/03/x-congresso-1024x1019.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/03/x-congresso-300x300.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/03/x-congresso-150x149.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/03/x-congresso-768x764.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/03/x-congresso-450x448.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/03/x-congresso.png 1080w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p style="font-size:17px">Conheça o <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep" type="link" id="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep"><strong>X Congresso Junguiano do IJEP</strong></a>: &#8220;<strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep" type="link" id="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep">Crise da Meia Idade: O direito de envelhecer e de Morrer</a></strong>&#8221; &#8211; Online e Gravado &#8211; Certificado 30h: <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep ">https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep </a></p>



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<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A Sombra Junguiana de Winnicott: O Elo Perdido do Self</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sombra-junguiana-winnicott-elo-perdido-self-ijep-jung-self-psicanalise/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 20 Feb 2026 13:46:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[Donald Winnicott]]></category>
		<category><![CDATA[IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Michael Fordham]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise Britânica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria do Amadurecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Verdadeiro Self]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12294</guid>

					<description><![CDATA[<p>Neste artigo exclusivo, desvelamos a "dança secreta" entre a Psicanálise Britânica e a Psicologia Analítica. Descubra como a amizade íntima entre Winnicott e Michael Fordham — o principal junguiano de Londres — foi decisiva para a estruturação do conceito de Verdadeiro Self.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/sombra-junguiana-winnicott-elo-perdido-self-ijep-jung-self-psicanalise/">A Sombra Junguiana de Winnicott: O Elo Perdido do Self</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px">Na cartografia oficial da psicologia profunda, costuma-se desenhar fronteiras rígidas entre Viena e Zurique, tratando a Psicanálise Freudiana e a Psicologia Analítica de Jung como territórios irreconciliáveis. No entanto, a prática clínica e a história real das ideias desafiam essa geografia segregacionista. Em meio às disputas dogmáticas do século XX, a chamada &#8216;Escola Independente&#8217; britânica floresceu justamente por transitar nas zonas de fronteira, onde a lealdade institucional cede lugar à verdade da experiência humana. É nesse terreno fértil e pouco explorado que Donald Winnicott, longe de ser um purista, permitiu-se um diálogo profundo — ainda que discreto — com o pensamento junguiano, tecendo uma colcha de retalhos teórica que transformaria para sempre nossa compreensão sobre o que significa, verdadeiramente, ser um indivíduo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-fundamentos-da-teoria-de-donald-winnicott-1896-1971"><strong>Fundamentos da Teoria de Donald Winnicott (1896-1971)</strong></h2>



<p style="font-size:18px">A obra de Donald Winnicott representa uma mudança paradigmática na psicanálise, deslocando o foco da pulsão e do conflito psíquico (Freud) para o desenvolvimento emocional inicial e a constituição do <em>Self </em>(si-mesmo). Sua &#8220;teoria do amadurecimento&#8221; postula que a saúde psíquica não é apenas a ausência de doença, mas a capacidade de sentir-se real e criativo.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:18px">Pilares Conceituais: O desenvolvimento saudável depende intrinsecamente da díade mãe-bebê. Winnicott afirmou a célebre frase: &#8220;Não existe um bebê&#8221;, indicando que, nos estágios iniciais, o bebê e a mãe formam uma unidade psíquica indivisível. Os conceitos centrais que sustentam essa teoria são: Ambiente Suficientemente Bom: A mãe (ou cuidador) não deve ser perfeita, mas capaz de adaptar-se ativamente às necessidades do bebê e, gradativamente, falhar em doses suportáveis. É essa falha gradual que permite a desilusão necessária para o amadurecimento e a percepção da realidade externa.</li>



<li style="font-size:18px">Holding (Sustentação): O suporte físico e emocional que oferece segurança, integrando o bebê no tempo e no espaço. É a base para a confiança básica.</li>



<li style="font-size:18px">Handling (Manejo): Os cuidados físicos (banho, toque, troca) que permitem a personalização, ou seja, o &#8220;habitar&#8221; o corpo. É a união entre psique e soma.</li>



<li style="font-size:18px">Apresentação de Objetos: A capacidade da mãe de apresentar o mundo (o seio, o brinquedo) no momento exato em que o bebê cria a necessidade, gerando a &#8220;ilusão onipotente&#8221; de que ele criou o objeto.</li>



<li style="font-size:18px">Objeto Transicional: Representa a primeira posse &#8220;não-eu&#8221; da criança (o ursinho, o cobertor). Localiza-se na área transicional, um espaço intermediário entre a realidade interna e a externa, fundamental para a criatividade e a cultura.</li>



<li style="font-size:18px">Dinâmica do Self: Verdadeiro Self: Surge da espontaneidade dos gestos do bebê que são acolhidos e validados. É a fonte da criatividade e da sensação de estar vivo.</li>



<li style="font-size:18px">Falso Self: Uma estrutura defensiva desenvolvida quando o ambiente falha excessivamente. O bebê se submete às exigências externas para sobreviver, ocultando sua verdadeira natureza. Em casos patológicos, o Falso Self assume o controle total, levando a uma vida de &#8220;faz de conta&#8221; ou adaptação excessiva (normopatia).</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-conexao-junguiana-influencias-e-dialogos-historicos"><strong>A Conexão Junguiana: Influências e Diálogos Históricos</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Embora <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Donald_Woods_Winnicott">Winnicott</a> pertencesse à &#8220;Escola Independente&#8221; da Sociedade Psicanalítica Britânica (o <em>Middle Group</em>, entre kleinianos e freudianos), sua obra apresenta convergências notáveis com a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:18px">Pontos de Contato: Winnicott criticava a visão freudiana do inconsciente apenas como reprimido. Ele se aproximava da visão junguiana de um inconsciente criativo e dotado de potencial de autocura.</li>



<li style="font-size:18px">A Resenha de Jung: Ao ler a autobiografia de Jung, Memórias, Sonhos, Reflexões, Winnicott escreveu uma resenha onde diagnosticou a experiência de Jung não como uma psicose destrutiva, mas como uma &#8220;doença criativa&#8221;. Ele afirmou estar &#8220;sonhando um sonho para Jung&#8221;, validando a busca junguiana pela <a href="https://blog.ijep.com.br/o-caminho-da-alma-dos-autorretratos-as-selfies/">integração do Self.</a></li>



<li style="font-size:18px">O Medo da &#8220;Contaminação&#8221;: A relutância de Winnicott em se declarar influenciado por Jung não era rejeição teórica, mas pragmatismo político. Para manter sua posição na Sociedade Psicanalítica Britânica (fortemente freudiana), ele precisava evitar o estigma de &#8220;místico&#8221; associado a Jung. Ele optou por integrar conceitos junguianos (como o Self) usando sua própria terminologia.</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-elo-perdido-michael-fordham-e-a-estruturacao-do-self"><strong>O Elo Perdido: Michael Fordham e a Estruturação do Self</strong></h2>



<p style="font-size:18px">A peça-chave para entender a profundidade junguiana em Winnicott é <strong><a href="https://en-wikipedia-org.translate.goog/wiki/Michael_Fordham?_x_tr_sl=en&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt&amp;_x_tr_pto=tc">Michael Fordham</a> (1905–1995)</strong>, o principal analista junguiano britânico e amigo pessoal de Winnicott.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:18px">A Influência de Fordham: Fordham atuou como um &#8220;supervisor informal&#8221; e interlocutor teórico. Sua contribuição foi decisiva em dois aspectos: Refinamento Terminológico: Antes de 1962, Winnicott usava &#8220;Ego&#8221; e &#8220;Self&#8221; como sinônimos. Fordham, com sua base junguiana onde o Self é a totalidade arquetípica, convenceu Winnicott a diferenciar os termos. Isso permitiu a Winnicott solidificar a teoria do Verdadeiro Self.</li>



<li style="font-size:18px">Deintegração vs. Não-Integração: Fordham propôs que o Self primário do bebê precisa &#8220;deintegrar-se&#8221; (abrir-se) para interagir com o mundo. Winnicott chamou isso de &#8220;não-integração&#8221;. Ambos descreviam o mesmo fluxo vital de expansão e recolhimento, validando a ideia de que o caos inicial não é patológico. Para que surja o Ego é necessário que o bebe saia do pleroma e rompa o uroborus, equivalente ao narcisismo primário, para que possa se diferenciar da mãe e ingressar mais conscientemente no complexo materno saudável.</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-funcao-materna-e-a-estruturacao-do-self-dialogos-clinicos-entre-a-psicanalise-winnicottiana-e-a-psicologia-analitica"><strong>A Função Materna e a Estruturação do Self: Diálogos Clínicos entre a Psicanálise Winnicottiana e a Psicologia Analítica</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Na intersecção entre a psicanálise winnicottiana e a psicologia analítica, a figura materna transcende sua dimensão biológica. Para Donald Winnicott, a mãe constitui o &#8220;ambiente facilitador&#8221; indispensável ao desenvolvimento inicial; para C.G. Jung, ela é a primeira portadora do arquétipo da Grande Mãe, responsável por constelar a <em>imago</em> parental na psique infantil. É na fusão indiferenciada dessa díade primária que se forja a experiência de confiança primordial. Esta confiança básica não é um mero constructo afetivo, mas o alicerce ontológico sobre o qual o ego incipiente poderá emergir do estado de participação mística (<em>participation mystique</em>) e estruturar a consciência em direção à futura possibilidade de engajamento consciente ao processo de individuação.</p>



<p style="font-size:18px">Os Pilares do Cuidado Materno: Holding, Handling e Espelhamento, a transmissão dessa confiança primordial ocorre por meio de processos sutis e contínuos de adaptação às necessidades do bebê. O primeiro deles é o <em>Holding</em> (sustentação), que transcende o amparo físico para configurar uma contenção psíquica. O <em>holding</em> protege o lactente da vivência de &#8220;angústias impensáveis&#8221; (como a sensação de cair num abismo ou de desintegração), permitindo a continuidade do ser ao emprestar o ego auxiliar da mãe ao bebê. Em seguida, opera o <em>Handling</em> (manejo), referente aos cuidados corporais que promovem a união intrínseca entre psique e soma. É através do <em>handling</em> adequado que a criança alcança a &#8220;personalização&#8221;, habitando confortavelmente o próprio corpo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-contudo-o-apice-da-constituicao-da-subjetividade-encontra-se-na-funcao-de-espelhamento-mirroring" style="font-size:18px">Contudo, o ápice da constituição da subjetividade encontra-se na função de Espelhamento (<em>Mirroring</em>).</h2>



<p style="font-size:18px">Na formulação winnicottiana, o rosto da mãe atua como o precursor do espelho. Quando o bebê olha para a face materna, ele necessita ver a si mesmo refletido; isto é, a expressão da mãe deve ressoar o estado interno da criança. A mãe opera, assim, como um <em>self-objeto</em> (para utilizar um termo afim à psicologia do <em>self</em>), devolvendo ao bebê o reconhecimento de sua própria existência e validando o seu Verdadeiro Self. Para Psicologia Analítica, essa relação irá balizar tanto a construção da imagem da Anima nos meninos, quanto da Persona da futura menina, que também construirá sua imagem de animus a partir do animus materno – Anima e Animus são contrapontos sexuais na identificação de gênero de cada um de nós.</p>



<p style="font-size:18px">A complexidade dessa estruturação torna-se clinicamente evidente quando ocorre a falha ambiental severa. Em situações em que a função materna é refratária — como em casos de depressão pós-parto puerperal —, o processo de espelhamento é drasticamente interrompido. O bebê, ao olhar para a mãe deprimida, não encontra o reflexo de sua própria vitalidade, mas depara-se com o vazio, a opacidade e a paralisia afetiva do outro. Diante da ameaça de aniquilamento psíquico, a criança é forçada a uma adaptação prematura. Ocorre, então, uma intrusão (<em>impingement</em>) que obriga o bebê a reagir ao ambiente em vez de simplesmente &#8220;ser&#8221;. Como mecanismo de defesa contra essa falha estrutural, instaura-se um Falso Self patológico: uma roupagem reativa e submissa que protege o Verdadeiro Self, agora oculto e inacessível.</p>



<p style="font-size:18px">Para Jung, as repercussões de um déficit na experiência de confiança primordial estendem-se profundamente até a fase adulta. O indivíduo que não vivenciou o <em>holding</em> e o espelhamento adequados tende a desenvolver um padrão relacional pautado na compulsão à repetição. Observa-se, na clínica, uma busca nostálgica e inconsciente por essa experiência fundante em relacionamentos interpessoais e amorosos. Tais vínculos frequentemente assumem um caráter disfuncional e simbiótico, pois o sujeito não busca o outro em sua alteridade, mas tenta forçar o parceiro a encarnar a <em>imago</em> parental idealizada. Há uma tentativa desesperada de recriar o ambiente facilitador primário, exigindo do outro um espelhamento absoluto que, na vida adulta, revela-se insustentável, culminando no adoecimento da relação e na reiteração do trauma original.</p>



<p style="font-size:18px">O Setting Analítico: A Reeditação da <a href="https://blog.ijep.com.br/quando-a-mae-devora-pela-identificacao-com-o-papel-de-vitima/">Função Materna</a> e a Desadaptação Progressiva Diante dessa fenomenologia, o <em>setting</em> terapêutico apresenta-se como um espaço sagrado (<em>temenos</em> junguiano) destinado à reeditação simbólica da função materna. O analista fornece o <em>holding</em> necessário para conter as angústias primitivas do paciente, atuando como um continente seguro onde o Verdadeiro Self possa, gradativamente, emergir do estado de latência. Por meio de uma escuta continente e do espelhamento empático, o terapeuta acolhe as projeções da <em>imago</em> parental, permitindo a integração das sombras e a reparação dos déficits iniciais.</p>



<p style="font-size:18px">Entretanto, o ápice da eficácia analítica reside na capacidade do terapeuta de manejar a sua própria obsolescência. Assim como a mãe &#8220;suficientemente boa&#8221; (na concepção de Winnicott) é aquela que sobrevive aos ataques agressivos do bebê e promove uma desadaptação gradual, frustrando-o em doses suportáveis para inseri-lo no princípio da realidade, o analista rigoroso não perpetua a simbiose, evitando vínculos empáticos que, invariavelmente, tornam-se antipáticos e neuróticos. O objetivo ético e clínico do processo psicoterapêutico é a transição do paciente da dependência absoluta para a independência relativa. O analista atua como um objeto transicional vital que, ao longo do processo de individuação, destitui-se de sua onipotência projetada, tornando-se, por fim, &#8220;desnecessário&#8221; à medida que o paciente consolida sua autonomia psíquica e assume a autoria de sua própria existência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-analise-comparativa-profunda"><strong>Análise Comparativa Profunda</strong></h2>



<p style="font-size:18px">A convergência entre Winnicott e Jung, mediada por Fordham, revela pontos de contato surpreendentes que enriquecem a compreensão do desenvolvimento psíquico. A tabela a seguir sintetiza as principais áreas de ressonância e distinção, destacando como suas perspectivas, embora distintas em origem, se complementam na construção de uma visão mais holística da psique.</p>



<figure class="wp-block-table"><table class="has-fixed-layout"><tbody><tr><td>Aspecto</td><td>C.G. Jung (Psicologia Analítica)</td><td>D.W. Winnicott (Psicanálise Independente)</td><td>Convergência (Via Fordham)</td></tr><tr><td>**Self**</td><td>Centro e totalidade da psique, arquetípico, inato, busca a individuação.</td><td>Experiência de ser real, espontâneo, emerge da relação mãe-bebê (Verdadeiro Self).</td><td>Ambos veem o Self como o cerne da identidade. Jung como potencial inato, Winnicott como experiência de ser. Fordham integra: Self arquetípico se deintegra e reintegra na relação.</td></tr><tr><td>**Ambiente**</td><td>Inconsciente Coletivo como &#8220;ambiente&#8221; psíquico universal; importância do contexto cultural e familiar.</td><td>&#8220;Mãe suficientemente boa&#8221; e &#8220;ambiente facilitador&#8221; são cruciais para o desenvolvimento.</td><td>O ambiente (seja psíquico ou relacional) é fundamental para a manifestação e estruturação do Self.</td></tr><tr><td>**Símbolo/Brincar**</td><td>Símbolos como pontes entre consciente e inconsciente; Função Transcendente.</td><td>Brincar como atividade central no &#8220;espaço potencial&#8221;; Objeto Transicional.</td><td>O brincar e a simbolização são vistos como atividades essenciais para a integração psíquica e a criatividade, mediando a realidade interna e externa.</td></tr><tr><td>**Integração/Totalidade**</td><td>Individuação como processo de integração dos opostos e realização do Self.</td><td>Integração como processo de unificação das partes do Self, dependente do holding.</td><td>Ambos valorizam a integração como meta do desenvolvimento, embora por caminhos conceituais diferentes.</td></tr><tr><td>**Inato vs. Adquirido**</td><td>Ênfase nos arquétipos inatos e no inconsciente coletivo.</td><td>Ênfase na interação com o ambiente, mas com um potencial inato para o amadurecimento.</td><td>Fordham: Self arquetípico (inato) se manifesta e se estrutura através da experiência relacional (adquirido).</td></tr><tr><td>**Patologia**</td><td>Neurose como conflito entre consciente e inconsciente; perda de contato com o Self.</td><td>Falso Self como defesa contra falhas ambientais; sensação de não-ser.</td><td>Ambos veem a patologia como uma desconexão da autenticidade e da totalidade do Self, seja por conflito interno ou falha ambiental.</td></tr></tbody></table></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-elo-invisivel-michael-fordham-winnicott-e-a-sombra-junguiana-na-psicanalise-britanica"><strong>O Elo Invisível: Michael Fordham, Winnicott e a Sombra Junguiana na Psicanálise Britânica</strong></h2>



<p style="font-size:18px">A historiografia psicanalítica tradicional tende a apresentar as escolas de Freud e Jung como linhas paralelas que jamais se tocam no infinito teórico. Contudo, uma análise minuciosa da &#8220;Escola Independente&#8221; britânica revela um subsolo rico em trocas intelectuais. Este artigo investiga como a influência crucial do analista junguiano Michael Fordham na estruturação do conceito de<em>Self</em>em Donald Winnicott e revisita a metapsicologia de Melanie Klein sob a ótica da<em>participation mystique</em>. Demonstra-se como a amizade entre Fordham e Winnicott serviu de ponte para que conceitos da Psicologia Analítica fossem, silenciosa e criativamente, assimilados pela psicanálise contemporânea.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao-a-contaminacao-fertil-em-londres"><strong>Introdução: A &#8220;Contaminação Fértil&#8221; em Londres</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Se Viena foi o palco do cisma traumático entre Freud e Jung, Londres tornou-se, décadas depois, o laboratório silencioso de uma reintegração possível. Enquanto a ortodoxia freudiana mantinha seus muros altos, a chamada &#8220;Escola Independente&#8221; (Middle Group) — liderada por figuras como Donald Winnicott — buscava oxigênio fora dos dogmas pulsionais estritos.</p>



<p style="font-size:18px">É neste cenário que emerge a figura de <strong>Michael Fordham</strong>, o &#8220;Jung de Londres&#8221;. Amigo pessoal de Winnicott, Fordham não foi apenas um interlocutor; foi o catalisador que permitiu a Winnicott organizar sua genialidade clínica em uma estrutura teórica coerente. A tese deste artigo é provocativa, mas historicamente embasada: sem a lente junguiana oferecida por Fordham, a teoria do amadurecimento de Winnicott talvez não tivesse alcançado a profundidade ontológica que hoje celebramos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-michael-fordham-e-a-genese-do-self-em-winnicott"><strong>Michael Fordham e a Gênese do Self em Winnicott</strong></h2>



<p style="font-size:18px">A contribuição mais palpável de Fordham para a obra de Winnicott reside na definição do<em>Self</em>. Até o final da década de 1950, Winnicott utilizava os termos &#8220;Ego&#8221; e &#8220;Self&#8221; de maneira intercambiável e, por vezes, confusa.</p>



<p style="font-size:18px">Foi Fordham quem, em diálogos privados e correspondências, apontou a necessidade de distinção. Baseado na visão de Jung — onde o<em>Self</em>(Si-mesmo) é o arquétipo da totalidade e o centro organizador da psique, anterior e superior ao Ego —, Fordham instigou Winnicott a refinar sua terminologia.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:18px">Deintegração vs. Não-Integração: Fordham propôs o conceito de Deintegração (Deintegration): o movimento natural do Self primário do bebê que se &#8220;abre&#8221; para o ambiente para interagir e depois se reintegra. Não é uma fragmentação patológica (disintegration), mas um ciclo vital de expansão e recolhimento. Winnicott, por sua vez, desenvolveu o conceito de Não-Integração primária. A semelhança não é coincidência. Ambos descreviam o mesmo fenômeno: o estado inicial de fluidez psíquica que precede a formação do Ego, onde a &#8220;loucura&#8221; (no sentido de não-organização) é saúde, e não doença. Fordham ajudou Winnicott a perder o medo de soar &#8220;místico&#8221; ao falar de uma totalidade que precede a experiência.</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-junguiana-em-melanie-klein-arquetipos-e-fantasia"><strong>A Sombra Junguiana em Melanie Klein: Arquétipos e Fantasia</strong></h2>



<p style="font-size:18px"><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Melanie_Klein">Melanie Klein (1882-1960)</a>, mentora de Winnicott e figura central na psicanálise britânica, nutria uma antipatia declarada por Jung. No entanto, a ironia do inconsciente é implacável: a estrutura de sua teoria é, talvez, a mais próxima da dinâmica arquetípica junguiana entre os freudianos.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:18px">Fantasias Inconscientes (Phantasy) como Arquétipo: Klein postulou que o bebê nasce com um conhecimento inato, a priori, do &#8220;seio&#8221;. Ele não precisa ser ensinado a buscar ou a temer; as imagens de bondade e perseguição são inerentes à estrutura da mente. O que Klein chama de &#8220;Fantasia Inconsciente&#8221; (escrito com ph no inglês, para denotar sua natureza estrutural) é funcionalmente idêntico ao conceito de Arquétipo em Jung. Ambos concordam: a psique não é uma tábula rasa. O drama humano já vem roteirizado nas profundezas filogenéticas.</li>



<li style="font-size:18px">Identificação Projetiva e <a href="https://blog.ijep.com.br/banho-de-floresta-e-participacao-mistica/">Participation Mystique</a>: O conceito kleiniano de Identificação Projetiva — onde partes do self são expelidas para dentro do objeto para controlá-lo ou comunicar-se com ele — é a descrição clínica e microscópica daquilo que Lucien Lévy-Bruhl e Jung chamaram de Participation Mystique. É a fusão arcaica sujeito-objeto. Quando Winnicott diz &#8220;não existe um bebê&#8221;, ele está descrevendo essa participação mística onde a psique da mãe e do bebê formam um unus mundus temporário. Klein descreveu o mecanismo (projeção); Jung descreveu a fenomenologia (participação).</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-winnicott-le-jung-o-diagnostico-da-criatividade"><strong>Winnicott &#8220;Lê&#8221; Jung: O Diagnóstico da Criatividade</strong></h2>



<p style="font-size:18px">O ápice dessa relação intelectual ocorre quando Winnicott resenha a autobiografia de Jung, <em>Memórias, Sonhos, Reflexões </em>(1963). Em vez de patologizar as visões e confrontos de Jung com o inconsciente como um surto psicótico destrutivo (visão freudiana clássica), Winnicott oferece uma leitura revolucionária.</p>



<p style="font-size:18px">Ele classifica a experiência de Jung como uma <strong>&#8220;doença criativa&#8221;</strong>(<em>creative illness</em>). Para Winnicott, Jung teve a coragem de regredir à dependência absoluta em busca do seu <em>Verdadeiro Self</em>, algo que a psicanálise ortodoxa, focada na repressão neurótica, tinha dificuldade de compreender. Winnicott viu em Jung o protótipo do indivíduo que, através do brincar com as imagens (imaginação ativa), curou a cisão interna.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-uma-clinica-integrativa"><strong>Por uma Clínica Integrativa</strong></h2>



<p style="font-size:18px">A análise histórica da relação entre Fordham, Winnicott e a sombra de Jung nos ensina que a fidelidade excessiva a uma escola pode cegar o clínico para a realidade da alma humana.</p>



<p style="font-size:18px">Winnicott não se tornou junguiano, mas tornou-se um psicanalista melhor porque permitiu que a brisa da Psicologia Analítica arejasse sua teoria. Ele integrou a teleologia (o sentido de vir-a-ser) à arqueologia freudiana.</p>



<p style="font-size:18px">Para nós, no IJEP, essa é a bússola. Reconhecer que, seja através do <em>Holding</em> ou da <em>Temenos</em>, do <em>Objeto Transicional</em> ou do <em>Símbolo</em>, estamos todos tentando descrever o sagrado mistério da individuação. A ciência psíquica avança não pela exclusão, mas pela coragem de habitar as fronteiras.</p>



<p style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<p><a href="http://WWW.IJEP.COM.BR">WWW.IJEP.COM.BR</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA-1024x576.png" alt="" class="wp-image-12308" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA-1536x864.png 1536w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA-1200x675.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/XI-CONGRESSO-ECOLOGIA-ALQUIMICA.png 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p><strong>Estão abertas as inscrições para o XI Congresso Junguiano do IJEP: <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia" type="link" id="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia">ECOLOGIA ALQUÍMICA</a> &#8211; Saiba mais e garanta sua participação: <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia ">https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia </a></strong></p>



<p></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Ninho vazio: quando essa fase pode se tornar uma síndrome para a mulher</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/ninho-vazio-quando-essa-fase-pode-se-tornar-uma-sindrome-para-a-mulher/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Fabiana T. Cruz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Feb 2026 11:04:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[síndrome do ninho vazio]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12129</guid>

					<description><![CDATA[<p>Entender a mulher contemporânea ajuda a compreender suas relações com a sociedade, parceiro/a (quando possui), filhos e consigo mesma. As estatísticas mostram que o papel de mãe está mudando, mas a sociedade ainda a coloca num lugar de abnegação em prol dos filhos. Refletir e tomar consciência sobre como essa identificação com o papel de mãe poderá gerar solidão, tristeza, dentre outros sintomas no ninho vazio é uma possibilidade de prevenção ao aparecimento da síndrome.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Entender a mulher contemporânea ajuda a compreender suas relações com a sociedade, parceiro/a (quando possui), filhos e consigo mesma. As estatísticas mostram que o papel de mãe está mudando, mas a sociedade ainda a coloca num lugar de abnegação em prol dos filhos. Refletir e tomar consciência sobre como essa identificação com o papel de mãe poderá gerar solidão, tristeza, dentre outros sintomas no ninho vazio é uma possibilidade de prevenção ao aparecimento da síndrome.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-refletir-sobre-a-mulher-contemporanea-e-se-reconhecer-como-uma-e-fazer-um-movimento-simultaneo-para-fora-e-para-dentro-de-si-mesma" style="font-size:18px">Refletir sobre a mulher contemporânea e se reconhecer como uma é fazer um movimento simultâneo para fora e para dentro de si mesma.</h2>



<p style="font-size:18px">Podemos dizer que a mulher contemporânea pertence ao contexto histórico atual, que inclui as complexidades sociais, econômicas e culturais do momento presente. Dados do IBGE de 2022, divulgados em junho de 2025, mostram uma mudança estrutural: as mulheres brasileiras estão tendo menos filhos e mais tarde. A taxa de fecundidade é de 1,55 filho por mulher e a idade média para ter filhos é de 28,1 anos. Acompanhando essa realidade, outro dado se apresenta: em 2024, mais de 91 mil crianças foram registradas no Brasil sem o nome do pai, de acordo com dados do Portal da Transparência da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen); desde o início do levantamento, em 2016, o número total de crianças registradas sem a paternidade reconhecida na certidão de nascimento já soma 1.283.751 em todo o país.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-dados-apresentados-nbsp-nos-levam-nbsp-as-seguintes-reflexoes-sera-que-as-mulheres-estao-tendo-menos-filhos-devido-nbsp-a-nbsp-falta-de-apoio-e-abandono-dos-pais-de-seus-filhos-ou-pela-possibilidade-de-se-sentirem-sozinhas-nessa-jornada-que-e-ter-um-filho" style="font-size:18px">Os dados apresentados&nbsp;<strong>nos levam</strong>&nbsp;às seguintes reflexões: será que as mulheres estão tendo menos filhos devido&nbsp;<strong>à</strong>&nbsp;falta de apoio e abandono dos pais de seus filhos? Ou, pela possibilidade de se sentirem sozinhas nessa jornada que é ter um filho?</h2>



<p style="font-size:18px">Faz parte da realidade da mulher as exigências de um mundo capitalista/<strong>neoliberal</strong>, estruturado no patriarcado, em que elas precisam lutar por igualdade de direitos: no trabalho, para terem os mesmos salários dos homens que ocupam os mesmos cargos; na saúde, onde seu corpo é muitas vezes desconsiderado e não validado por apresentar uma forma diferente de cuidados em cada fase da vida; no existir, os índices alarmantes de feminicídio e estupro deixam as mulheres em estado de alerta constante.</p>



<p style="font-size:18px">São tantos os desafios que a mulher contemporânea precisa enfrentar que, atualmente, não há espaço externo e nem interno para ela estar no mundo como mãe, mas existem mulheres que vivem nos dias de hoje e também estão como mães.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-podemos-dizer-que-para-a-psicologia-analitica-a-adaptacao-e-a-forma-que-nos-relacionamos-socialmente-devem-se-a-criacao-de-uma-persona-jung-escreve" style="font-size:18px">Podemos dizer que, para a Psicologia Analítica, a adaptação e a forma que nos relacionamos socialmente devem–se à criação de uma persona. Jung escreve:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><strong><em>“A persona é um complicado sistema de relação entre a consciência individual e a sociedade; é uma espécie de máscara destinada, por um lado, a produzir um determinado efeito sobre os outros e por outro lado a ocultar a verdadeira natureza do indivíduo” (JUNG, 2015, §305).</em></strong></p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-outra-citacao-ele-afirma-e-um-composto-do-comportamento-do-individuo-e-do-papel-a-ele-atribuido-pelo-publico-jung-2012-1-334" style="font-size:18px"><strong>Em outra citação, ele afirma, “é um composto do comportamento do indivíduo e do papel a ele atribuído pelo público” (JUNG, 2012, §1.334).</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Atrás da persona de mãe existe uma mulher que também pode estar com outras máscaras: a de profissional, de amiga, de filha, de noiva, de religiosa, de irmã, de namorada, de ex-esposa, de madrasta dentre inúmeras outras. Não há problema algum exercer tantos papéis, desde que haja uma consciência de qual papel exercer em determinadas situações; ou seja, não estar sempre com a mesma máscara para diferentes relações.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-nos-aproximarmos-das-mulheres-que-se-tornaram-maes-pudemos-observar-que-isso-ocorreu-de-diferentes-formas-e-para-elucidar-apresentaremos-a-seguir" style="font-size:18px">Ao nos aproximarmos das mulheres que se tornaram mães, pudemos observar que isso ocorreu de diferentes formas e, para elucidar, apresentaremos a seguir:</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:18px">mães biológicas: são mulheres que passam pela experiência da maternidade, mas não cuidam e nem criam o seu filho;</li>



<li style="font-size:18px">mães biológicas e que exercem a maternagem: são a maioria das mães que conhecemos. Entendemos maternagem como construção de vínculo afetivo por meio do acolhimento e da oferta de segurança, atendendo às necessidades físicas e psíquicas da criança para promover um desenvolvimento saudável;</li>



<li style="font-size:18px">mães que exercem a maternagem: são as mães adotivas;</li>



<li style="font-size:18px">mães solo ou sozinhas: quando a mãe assume exclusivamente todas as responsabilidades na criação do filho, sejam elas tanto financeiras quanto afetivas, e que podem ter passado pela maternidade ou não.</li>
</ul>



<p style="font-size:18px">Uma pesquisa realizada pelo Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas) mostrou que, até o final de 2022, havia mais de 11 milhões de mães solo no Brasil. Dados complementares do relatório indicam que 15% dos lares brasileiros são chefiados por mães solo. Além disso, 72,4% dessas mulheres vivem apenas com os filhos, sem contar com uma rede de apoio próxima. O estudo apontou a existência de 11,3 milhões de mães que criam seus filhos de forma independente, além de um aumento de 1,7 milhão nesse número entre 2012 e 2022 (TERRA, 2024).</p>



<p style="font-size:18px">Vale ressaltar que, nas pesquisas citadas acima, não apontamos qual era a situação econômica dessas mulheres no ano que foram realizadas, assim como desconhecemos informações sobre idade, cor, estado e cidade de residência, condições de moradia, de emprego e a idade dos filhos. Todos esses fatores são importantes, pois trazem recortes específicos que influenciam diretamente, de forma negativa e/ou positiva, a vida das mulheres.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mae-solo-contribui-para-a-desconstrucao-do-que-se-entende-por-familia-tradicional-aquela-formada-por-um-homem-uma-mulher-e-seus-filhos" style="font-size:18px">A mãe solo contribui para a desconstrução do que se entende por família tradicional, aquela formada por um homem, uma mulher e seus filhos.</h2>



<p style="font-size:18px">Ela evidencia que não são poucas as mulheres que exercem a maternidade e a maternagem em um modelo muito mais amplo e complexo. Um movimento político de existir e se fazer presente na sociedade tem ganhado força. Podemos dizer que esta mulher está sobrecarregada e cansada fisicamente, em alguns casos até mais do que aquela mulher que exerce outras formas de estar como mãe, mas será que as outras mães também não se sentem sozinhas?</p>



<p style="font-size:18px">Ser mãe no Brasil é estar sozinha para lidar com inúmeras atividades e demandas que uma casa, um lar ou, simbolicamente falando, um ninho exigem. Por mais que esta mulher seja casada com o pai ou não dos filhos dela, culturalmente as obrigações da casa e com os filhos são entendidas, normalmente, como pertencentes exclusivamente às mulheres. Somando isso à possibilidade de estar em um casamento insatisfatório, onde não há apoio, várias mulheres se isolam por não suportarem frustrações nos seus relacionamentos e, assim, acabam projetando nos filhos suas expectativas de sucesso, melhoria e salvação de suas vidas.</p>



<p style="font-size:18px">Apesar das mulheres reconhecerem que assumem inúmeras funções, elas ainda se cobram demais para darem conta de tudo. Talvez os homens precisem se aproximar mais para dividirem essas funções, que também lhes pertencem, ao mesmo tempo em que as mulheres possam dar espaço para que isso aconteça, possibilitando uma harmonia na relação e na organização das tarefas do dia a dia, e a sobrecarga deixará de existir.</p>



<p style="font-size:18px">Enquanto essa tomada de consciência vai acontecendo aos poucos, voltemos o nosso olhar novamente para a mulher que é absorvida pelo padrão de comportamento social imposto. Podemos perceber o quanto ela quase não tem tempo para mais nada além de ser, exclusivamente, mãe.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-descreve" style="font-size:18px">Jung descreve:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><strong><em>“A construção de uma persona coletivamente adequada significa uma considerável concessão ao mundo exterior, um verdadeiro autossacrifício, que força o eu a identificar-se com a persona. Isto leva certas pessoas a acreditarem que são o que imaginam ser. A “ausência de alma” que essa mentalidade parece acarretar é só aparente, pois o inconsciente não tolera de forma alguma tal desvio do centro de gravidade.” </em></strong></p><cite><strong><em>(JUNG, 2015, §306)</em></strong></cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">A mulher pode se identificar excessivamente com o papel de mãe, tentando encontrar felicidade apenas na felicidade do filho e anulando suas próprias necessidades. Como a sociedade valoriza a abnegação materna, fica difícil perceber o caráter patológico dessa relação. Se a mãe não desenvolver consciência de que seu papel é deixar o filho adquirir a autonomia, e não mantê-lo preso a ela, sofrerá demais quando a fase do ninho vazio chegar.</p>



<p style="font-size:18px">Antes de falarmos sobre o conceito de ninho vazio, traremos o trecho de um texto escrito pelo teólogo e escritor, <strong>Rubem Alves</strong>. Apesar de ser um homem, ele nos revela suas emoções ao descrever, de forma muito sensível, como passou por essa fase:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px;line-height:1.4"><blockquote><p><strong><em>“Sei que é inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho. Eu mesmo sempre os empurrei para fora. Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas. Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira… Mas, o que eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo…&nbsp;“ (Quando os filhos voam… &#8211; Rubem Alves).</em></strong></p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ninho-vazio-e-o-termo-que-se-utiliza-para-nomear-o-momento-no-qual-o-ultimo-filho-deixa-a-casa-familiar-para-buscar-a-sua-independencia-e-faz-parte-da-etapa-evolutiva-familiar" style="font-size:18px">Ninho vazio é o termo que se utiliza, para nomear o momento no qual o último filho deixa a casa familiar para buscar a sua independência e faz parte da etapa evolutiva familiar.</h2>



<p style="font-size:18px">Podemos dizer que, para os filhos que deixarão a casa da família, essa é uma fase repleta de novidades, aventuras, desafios, medos, sonhos, entre outras emoções e expectativas. Na maioria das vezes, eles buscam realização pessoal, independência e autonomia em suas decisões e escolhas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-enquanto-os-filhos-saem-para-viver-novas-experiencias-sera-que-as-maes-conseguem-enfrentar-essa-nova-fase-com-o-mesmo-entusiasmo" style="font-size:18px">Enquanto os filhos saem para viver novas experiências, será que as mães conseguem enfrentar essa nova fase com o mesmo entusiasmo?</h2>



<p style="font-size:18px">O ninho vazio não indica o fim da maternagem, mas uma transição para nova etapa. Muitas mulheres vão se dando conta do esvaziamento do ninho e procuram alternativas para preencher essa lacuna, e, quando isso não acontece, a vida vem acompanhada de isolamento e solidão.</p>



<p style="font-size:18px">A nova etapa para a mulher chega junto com a menopausa, que, resumidamente, pode ser descrita como o fim da menstruação e da fertilidade feminina. Marca um período de mudanças físicas e emocionais que podem ser leves, intensas ou bastante desconfortáveis, interferindo significativamente na vida da mulher.</p>



<p style="font-size:18px">Como se não bastassem as emoções despertadas pela saída do filho de casa e as alterações hormonais pelas quais seu corpo passa, a mulher precisa lidar também com seu mundo interno, com os complexos. Sendo eles, segundo Jung, <strong>“imagens de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as atitudes ou atitude habitual da consciência” (JUNG, 2012, §201).</strong></p>



<p style="font-size:18px">Quando o manejo de todos esses sintomas físicos e relacionais não é trabalhado, por exemplo, no processo terapêutico, ressignificando o papel de mãe e ampliando sua consciência, a mãe pode sentir como algo doloroso em sua vida, considerando seus cuidados dispensáveis e reagindo de forma resistente e angustiante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-permanencia-desses-sentimentos-pode-levar-aquilo-que-conhecemos-como-sindrome-do-ninho-vazio" style="font-size:18px">A permanência desses sentimentos pode levar àquilo que conhecemos como síndrome do ninho vazio.</h2>



<p style="font-size:18px">Ela é caracterizada pelo intenso estresse provocado pelo excessivo sentimento de perda que invade a mãe quando seus filhos saem de casa. Isso pode vir acompanhado de tristeza, preocupação, ansiedade, aflição, isolamento, solidão e/ou remorso exagerados e, pela duração e intensidade desses sintomas, provocar um quadro de depressão profunda, uma crise de identidade e crise conjugal, afetando o bem-estar físico, psicológico e social, diminuindo, assim, a qualidade de vida. A partir da psicologia junguiana podemos dizer que isso é a <strong>intervenção de uma ideia de forte tonalidade afetiva, ou seja, como sintomas da constelação do complexo (cf. JUNG, 2013, §204).</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-lidar-com-a-sindrome-do-ninho-vazio" style="font-size:18px"><strong>Como lidar com a síndrome do ninho vazio?</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Ao ampliarmos simbolicamente a persona de mãe por meio do <strong>mito de Deméter</strong>, vemos que, quando ela se dá conta de que sua filha desapareceu, fica desorientada e sai à sua procura. Entra em um grande desespero, sem comer, beber ou se banhar. Enquanto Deméter está à procura de sua filha, a terra fica sem vegetação e sem fertilidade, situação que pode se relacionar aos sentimentos de depressão e tristeza.</p>



<p style="font-size:18px">Outros estados emocionais estão presentes no mito, como: ansiedade, preocupação, medo, raiva, reflexão, desejo, revolta, recolhimento, saudade, determinação, vingança. Por fim, quando Deméter consegue encontrar sua filha periodicamente, percebendo que não a perdeu para sempre, surgem a alegria, o alívio e a aceitação. Quando uma mãe vivencia a saída do filho de casa, esses sentimentos podem vir à tona. Ao aproximarmos esses estados emocionais de Deméter dos da mãe, há a possibilidade de ser esse o caminho para a criação de consciência e a transformação de que ela esteja precisando.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outra-maneira-de-lidar-com-essa-etapa-seria-a-mulher-se-preparar-para-enfrentar-a-fase-do-ninho-vazio" style="font-size:18px">Outra maneira de lidar com essa etapa seria a mulher se preparar para enfrentar a fase do ninho vazio.</h2>



<p style="font-size:18px">Olhar antecipadamente para a relação existente entre mãe e filho poderá auxiliar no desapego em relação ao momento que o filho deixará o ninho. Possibilitará a compreensão dos possíveis desafios e emoções que ela poderá ter se escolher ressignificar seu papel de mãe de forma consciente, assim como outras formas de estar no mundo. O ideal seria que esse olhar fosse constante, caso contrário ela tende a se identificar novamente com a persona de mãe.</p>



<p style="font-size:18px">Ressaltamos que essas duas maneiras de lidar com a síndrome do ninho vazio são apenas hipóteses e sugestões. Não há receita de bolo ou alguma certeza de alcançar o que foi proposto, porque cada mulher é única e seu caminho é individual. <strong>O importante é olharmos para o fenômeno de maneira simbólica</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>“(…) Muitas vezes confundimos amor com segurança. Por excesso de zelo ou proteção cortamos as asas de nossos filhos. Impedimos que eles busquem respostas próprias e vivam seus sonhos em vez dos nossos. Temos tanta certeza de que sabemos mais do que eles, que o porto seguro vira uma âncora que impede-os de navegar nas ondas de seu próprio destino. Muitas vezes confundimos amor com apego. Ansiamos por congelar o tempo que tudo transforma. Ficamos grudados no medo de perder, evitando assim o fluxo natural da vida. Respiramos menos, pois não cabem em nosso corpo os ventos da mudança. Aprendo que o amor nada tem a ver com apego, segurança ou dependência, embora tantas vezes eu me confunda. Não adianta querer que seja diferente: o amor é alado. Aprendo que a vida é feita de constantes mortes cotidianas, lambuzadas de sabor doce e amargo. Cada fim venta um começo. Cada ponto final abre espaço para uma nova frase. Aprendo que tudo passa menos o movimento. É nele que podemos pousar nosso descanso e nossa fé, porque ele é eterno. Aprendo que existe uma criança em mim que ao ver meus filhos crescidos, se assusta por não saber o que fazer. Mas é muito melhor ser livre do que imprescindível. Aprendo que é preciso ter coragem para voar e deixar voar. E não há estrada mais bela do que essa.” (Quando os filhos voam… &#8211; Rubem Alves)</em></p>
</blockquote>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;Ninho vazio: quando essa fase pode se tornar uma síndrome para a mulher&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/ryjxWD-bQWo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/fabiana-t-cruz/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/fabiana-t-cruz/">Fabiana Theodoro Cruz – Membro Analista em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">Analista Didata – José Balestrini</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p>ALVES, Rubem. <strong>Quando os filhos voam… </strong>Disponível em:https://viviancardoso.com.br/quando-os-filhos-voam-por-rubem-alves/ Acesso em: 02 dez. 2025.</p>



<p>JUNG, C. G.&nbsp;<strong>A vida simbólica</strong> <strong>v</strong><strong>ol. 18/2</strong><strong>. </strong>4.ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p>__________&nbsp;<strong>A natureza da psique</strong><strong>vol. 8/2</strong><strong>. </strong><strong>9.ed. Petrópolis: Vozes, 2012</strong><strong>.</strong></p>



<p>__________&nbsp;<strong>Psicogênese das doenças mentais</strong> <strong>v</strong><strong>ol. 3</strong><strong>. </strong>6.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>__________&nbsp;<strong>O eu e o inconsciente v</strong><strong>ol. 7/2</strong><strong>. </strong>27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p>TERRA. <strong>Brasil possui mais de 11 milhões de mães solo, aponta estudo</strong>. 2024. Disponível em: <a href="https://www.terra.com.br/nos/brasil-possui-mais-de-11-milhoes-de-maes-solo-aponta-estudo,67095da2f71938c73bca67a2b4a2862bnher8h3u.html?utm_source=clipboard">https://www.terra.com.br/nos/brasil-possui-mais-de-11-milhoes-de-maes-solo-aponta-estudo,67095da2f71938c73bca67a2b4a2862bnher8h3u.html?utm_source=clipboard</a> Acesso em: 02 dez. 2025.</p>



<p><em>Imagem: Produção da autora</em></p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A Produção Artesanal da Cerâmica como Exercício Simbólico</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-producao-artesanal-da-ceramica-como-exercicio-simbolico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristiane Jageneski dos Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 11:25:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Tipos Psicológicos]]></category>
		<category><![CDATA[argila]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
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		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[pintura]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[símbolo]]></category>
		<category><![CDATA[tipos psicológicos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A proposta do presente artigo é refletir sobre o processo artesanal da cerâmica como exercício simbólico e recurso terapêutico na despotencialização da função pensamento unilateralizada. Enaltecida pelo espírito do tempo, que considera a razão e a lógica como premissas supremas, a função pensamento torna-se uma armadilha para aqueles que a possuem como função dominante. Como evidenciado na teoria de Carl Gustav Jung, o indivíduo só consegue caminhar rumo à sua totalidade quando passa a integrar os conteúdos inconscientes. Sendo assim, a produção da cerâmica como expressão criativa apresenta-se com potencial para expressar conteúdos inacessíveis através apenas da intelectualidade, comprovando que formas não-verbais de comunicação possuem força simbólica, facilitam a integração das outras funções da consciência e abrem caminho para o desenvolvimento psíquico</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong><em>Resumo: A proposta do presente artigo é refletir sobre o processo artesanal da cerâmica como exercício simbólico e recurso terapêutico na despotencialização da função pensamento unilateralizada.</em></strong></p>



<p style="font-size:18px">Enaltecida pelo espírito do tempo, que considera a razão e a lógica como premissas supremas, a função pensamento torna-se uma armadilha para aqueles que a possuem como função dominante. Como evidenciado na teoria de Carl Gustav Jung, o indivíduo só consegue caminhar rumo à sua totalidade quando passa a integrar os conteúdos inconscientes. Sendo assim, a produção da cerâmica como expressão criativa apresenta-se com potencial para expressar conteúdos inacessíveis através apenas da intelectualidade. Comprovando que formas não-verbais de comunicação possuem força simbólica, facilitam a integração das outras funções da consciência e abrem caminho para o desenvolvimento psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-obra-o-homem-e-seus-simbolos-carl-gustav-jung-disse-que-o-homem-gosta-de-acreditar-se-senhor-da-sua-alma-2016-p-104" style="font-size:18px">Na obra <em><strong>O homem e seus símbolos</strong></em>, Carl Gustav Jung disse que “o homem gosta de acreditar-se senhor da sua alma” (2016, p. 104).</h2>



<p style="font-size:18px">De certo modo, em todo ser humano há um certo prazer na sensação de estar no controle, ao analisar a vida sob a ótica da racionalidade e da lógica, ignorando as maneiras secretas pelas quais os fatores inconscientes atuam nos projetos e decisões a todo tempo.</p>



<p style="font-size:18px">Esse sentimento é maximizado pelo espírito do tempo, principalmente na cultura ocidental, que eleva a razão à posição de deusa, considerada fonte de sabedoria e verdade, que dá conta de processar informações, com conectividade e produtividade constantes e, acima de tudo, de operar com positividade e eficiência. Deixar transparecer uma persona dinâmica, engajada, fluente em ideias e ter uma mente ativa parece ser o sonho de consumo do homem contemporâneo e, mais do que isso, torna-se quase que uma obrigação.</p>



<p style="font-size:18px">Nesse contexto, a hipervalorização da função pensamento apresenta-se como uma armadilha fácil, principalmente para aqueles que a tem como função superior, tornando a pessoa excessivamente identificada. Entretanto, como enfatizado na psicologia junguiana, ao unilateralizar uma função e negligenciar as outras, o indivíduo fatalmente enfrentará um desequilíbrio psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-espirito-da-epoca-e-a-unilateralizacao-patologica" style="font-size:18px"><strong>O espírito da época e a unilateralização patológica</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>Nossa vida civilizada exige uma atividade concentrada e dirigida da consciência, acarretando, deste modo, o risco de um considerável distanciamento do inconsciente. Quanto mais capazes formos de nos afastar do inconsciente por um funcionamento dirigido, tanto maior é a possibilidade de surgir uma forte contraposição, a qual, quando irrompe, pode ter consequências desagradáveis (JUNG, 2013a, p. 16).</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">A consciência não abrange a totalidade da psique, constitui-se apenas como uma de suas estruturas, sendo organizada em torno do ego e de suas funções adaptativas. Porém, durante uma parte da vida, a consciência inevitavelmente assume um ponto de vista unilateral, isto é, privilegia alguns conteúdos, valores e modos de funcionamento em detrimento de outros, sendo uma fase importante para estruturação psíquica do indivíduo.</p>



<p style="font-size:18px">A <strong>unilateralidade </strong>passa a se tornar um fator preocupante quando o ego se identifica de forma rígida com determinados comportamentos &#8211; sejam eles racionais, morais, culturais ou mesmo instintivos &#8211; deixando de integrar outros elementos do inconsciente. Com isso, a consciência corre o risco de perder sua flexibilidade e de cristalizar-se em uma visão fragmentada do mundo e de si mesma.</p>



<p style="font-size:18px">Quando a unilateralidade se intensifica, a ponto de ignorar sistematicamente as mensagens do inconsciente, o indivíduo enfrenta crises existenciais e desenvolve sintomas, favorecendo, assim, a exacerbação da função pensamento, tendo em vista o quanto o espírito da época enaltece o modelo lógico temporal como dominante.</p>



<p style="font-size:18px">Esse quadro pode ser potencializado quando o indivíduo enfrenta a noite escura da alma, ocasionando um sofrimento psíquico intenso, que pode se manifestar na forma de sintomas dolorosos e persistentes. O ego, que já estava fixado em um polo, passa a funcionar através de uma identificação ainda mais proeminente, levando o indivíduo ao esgotamento de si. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-descreve-apenas-como-exemplo-um-sujeito-identificado-com-a-funcao-pensamento-que-se-apresenta-sob-a-influencia-da-rigidez-do-tipo" style="font-size:18px">Jung descreve, apenas como exemplo, um sujeito identificado com a função pensamento, que se apresenta sob a influência da rigidez do tipo:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>Com o fortalecimento de seu tipo, mais rígidas e inflexíveis se tornam suas convicções. Descarta influências estranhas; pessoalmente perde a simpatia dos distantes e fica mais dependente dos próximos. Seu linguajar torna-se mais pessoal e mais franco, suas ideias são mais profundas, mas já não conseguem exprimir-se com clareza em vista do material de que dispõem. A emotividade e sensibilidade substituem o que falta. A influência estranha, que externamente recusa com brutalidade, assalta-o de dentro, pelo lado do inconsciente, e precisa reunir provas que sejam contrárias, e as reúne, contra coisas que parecem totalmente supérfluas aos estranhos. Dado que sua consciência se subjetiva pela falta de relação com o objeto, parece-lhe o mais importante o que secretamente diz respeito à sua pessoa. Começa, então, a confundir sua verdade subjetiva com sua pessoa. Jamais tentará pressionar alguém em favor de suas convicções, mas partirá venenosa e pessoalmente contra qualquer crítica, por mais justa. Isola-se aos poucos em todos os sentidos. Suas ideias que a princípio eram produtivas tornam-se destrutivas, porque estão envenenadas pelo sedimento da amargura. Com o isolamento para fora cresce a luta com a influência inconsciente que, aos poucos, o vai paralisando. Um forte pendor para a solidão deve protegê-lo das influências externas, mas normalmente o leva ainda mais fundo ao conflito que o consome interiormente. </em><em>(JUNG, 2013b, p. 398- 399).</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Diante disso, propomos refletir sobre a produção artesanal da cerâmica como caminho criativo e ferramenta terapêutica, ao conduzir o indivíduo à <strong>expressão simbólica</strong>. Apaziguando, assim, o protagonismo da função pensamento &#8211; sendo um meio privilegiado para que imagens surjam e sejam integradas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>O símbolo é sempre um produto de natureza altamente complexa, pois se compõe de dados de todas as funções psíquicas. Portanto, não é de natureza racional e nem irracional. Possui um lado que fala à razão e outro inacessível à razão, pois não se constitui apenas de dados racionais, mas também de dados irracionais fornecidos pela simples percepção interna e externa. A carga de pressentimento e de significado contida no símbolo afeta tanto o pensamento quanto o sentimento, e a plasticidade que lhe é peculiar, quando apresentada de modo perceptível aos sentidos, mexe com a sensação e a intuição. O símbolo vivo não pode surgir num espírito obtuso e pouco desenvolvido, pois este se contentará com o símbolo já existente conforme lhe é oferecido pela tradição. (JUNG, 2013b, p. 491).</em><em></em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-percurso-simbolico-atraves-da-expressao-criativa" style="font-size:18px"><strong>O percurso simbólico através da expressão criativa</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Para Jung, a <strong>expressão criativa</strong> exerce uma função central no desenvolvimento psicológico humano, por tratar-se de um canal<strong>entre o consciente e o inconsciente.</strong> Ele não a entendia apenas como uma manifestação artística ligada à estética, mas sobretudo como uma fonte criadora, seja de imagens, escrita, música, movimento ou qualquer outra forma simbólica, que permite que conteúdos internos encontrem um caminho para se manifestar e, assim, possam ser integrados à vida consciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-o-ato-criativo-funciona-como-um-ritual-simbolico-que-cura-e-integra-permitindo-que-a-psique-encontre-novas-formas-de-expressao-e-de-equilibrio" style="font-size:18px">Segundo Jung, o ato criativo funciona como um ritual simbólico que cura e integra, permitindo que a psique encontre novas formas de expressão e de equilíbrio:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>A pintura de quadros pelo próprio paciente produz efeitos incontestáveis, embora esses efeitos sejam difíceis de descrever. Basta, por exemplo, que um paciente perceba que, por diversas vezes, o fato de pintar um quadro o liberta de um estado psíquico deplorável, para que ele lance mão desse recurso cada vez que seu estado piora. O valor dessa descoberta é inestimável, pois é o primeiro passo para a independência, a passagem para o estado psicológico adulto.<br>Usando esse método &#8211; se me for permitido usar este termo &#8211; o paciente pode tornar-se independente em sua criatividade. Já não depende dos sonhos, nem dos conhecimentos do médico, pois, ao pintar-se a si mesmo &#8211; digamos assim &#8211; ele está se plasmando. O que pinta são fantasias ativas &#8211; aquilo que está mobilizado dentro de si. <br>[&#8230;] E o que está mobilizado é ele mesmo, mas já não mais no sentido equivocado anterior, quando considerava que o seu &#8220;eu&#8221; pessoal e o seu &#8220;self&#8221; eram uma e a mesma coisa. Agora há um sentido novo, que antes lhe era desconhecido: seu eu aparece como objeto daquilo que está atuando dentro dele. Numa série interminável de quadros, o paciente esforça-se por representar, exaustivamente, o que sente mobilizado dentro de si, para descobrir, finalmente, que é o eterno desconhecido, o eternamente outro, o fundo mais fundo da nossa alma.</p><cite>JUNG, 2013c, p. 107</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:18px">Sendo assim, torna-se evidente que o ato criativo não é um luxo ou uma habilidade restrita à artistas, mas uma <strong>necessidade psíquica fundamental, que favorece o</strong> autoconhecimento, a transformação e a conexão com o mistério da psique. Ao permitir que as imagens internas encontrem forma e vida no mundo externo, o indivíduo não apenas dá voz e organiza seus conteúdos internos, mas avança no caminho do próprio desenvolvimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ceramica-e-a-integracao-das-quatro-funcoes-da-consciencia" style="font-size:20px"><strong>A cerâmica e a integração das quatro funções da consciência</strong></h2>



<p style="font-size:18px"><em>A Terra é apenas a matéria, o sólido, o palpável. É com a intervenção dos outros elementos Água, Ar, Fogo, que ela ganha existência como cerâmica: vida, energia, beleza&#8230;. Com a água revitalizamos a matéria e com o calor do nosso corpo, através das nossas mãos, damos unidade e densidade, expulsamos o ar nela contido, transformando-a numa massa compacta e íntegra. Nesse contato vamos reconhecendo a matéria e ganhando intimidade. Esse trabalho de amassar o barro é um trabalho de centralização, os movimentos vão do exterior para o interior, das extremidades para o centro. E nesse movimento encontramos também o sentido da Totalidade: só estamos tocando na parte externa e afetando a sua totalidade. Assim, amassando o barro o ceramista caminha também em direção ao seu centro (NAKANO, 1988, p. 61).</em></p>



<p style="font-size:18px">O trabalho com a argila é uma prática essencialmente sensorial e não-verbal. A ceramista Katsuko Nakano deixa isso bem claro na citação acima, quando menciona o contato com os quatro elementos e a forma como corpo e matéria vão ganhando intimidade através do toque, numa espécie de movimento sinestésico. A modelagem é uma experiência que, além de despertar essa sensorialidade, permite a vivência de uma comunicação intrapessoal mais plena e integrada. Entretanto, de modo geral, há que se resgatar esse diálogo, inclusive, com outras formas de expressões criativas, pois o <em>modus operandi</em> em vigor na sociedade contemporânea, imposto pelo espírito da época, promove um descolamento das práticas que caminharam junto com a evolução da humanidade. Perdeu-se a intimidade com aquilo que é artesanal, com a manufatura.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>Felizmente, o que importa é que, embora haja uma pressão social pela racionalidade, nada abafa o chamado do corpo. Em algum momento, nós somos convocados para uma vivência criativa com a matéria, que irá nos proporcionar outra relação com o mundo e com o tempo através dos sentidos. O corpo humano é um feixe complexo de sentidos, e dar sentido é anterior a conceituar. (GIANNOTTI, 2024, p. 100).</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-producao-artesanal-da-ceramica-ao-mobilizar-o-corpo-a-imaginacao-e-a-experiencia-artistica-favorece-a-expressao-de-conteudos-inconscientes-e-possibilita-ao-individuo-reconectar-se-com-funcoes-menos-desenvolvidas-de-sua-psique" style="font-size:18px">A produção artesanal da cerâmica, ao mobilizar o corpo, a imaginação e a experiência artística, favorece a expressão de conteúdos inconscientes e possibilita ao indivíduo reconectar-se com funções menos desenvolvidas de sua psique.</h2>



<p style="font-size:18px">O contato com a argila, sua plasticidade e poder de transformação revela-se não apenas como atividade manual, mas também como caminho terapêutico. Ela promove um contrapeso à unilateralidade, possibilitando o acesso a vivências simbólicas que ampliam a consciência, favorecendo o deslocamento da energia psíquica antes concentrada na função pensamento. Ao integrar mente, corpo e coração, o fazer artesanal resgata dimensões da psique negligenciadas, constituindo-se como um espaço fértil de cura e de reconciliação do indivíduo com a totalidade de sua vida psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-contato-com-o-barro-favorece-a-reconexao-com-a-natureza-e-seus-ciclos-por-ser-uma-matriz-simbolica-carregada-de-vida-memoria-e-ancestralidade-lembrando-nos-que-a-materia-esta-em-nos-e-nos-estamos-na-materia" style="font-size:18px">O contato com o barro favorece a reconexão com a natureza e seus ciclos, por ser uma matriz simbólica carregada de vida, memória e ancestralidade. Lembrando-nos que a matéria está em nós e nós estamos na matéria.</h2>



<p style="font-size:18px">A mistura de terra, água, ar e fogo transforma não apenas o barro em peças cerâmicas únicas, mas, evidencia que tudo tem uma trajetória a ser cumprida, um exemplo daquilo que Jung chama de função teleológica da psique. Ao mesmo tempo, mostra que tudo está em constante mutação e desenvolvimento. Ao buscar a interação e o equilíbrio desses quatro elementos, o ceramista acaba por encontrar seu próprio equilíbrio no mundo, devolvendo ordem ao caos através de cada peça moldada e transformada pelo fogo.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-processo-da-ceramica-artesanal-nos-permite-varios-aprendizados" style="font-size:18px">O processo da cerâmica artesanal nos permite vários aprendizados.</h2>



<p style="font-size:18px">Nele, nunca é possível ter o controle sob o produto final, mesmo depois de dar forma à argila. Muita coisa pode acontecer no meio do caminho. É necessária uma dose bastante grande de paciência até que sua existência se concretize. Não há como, por exemplo, menosprezar uma das primeiras etapas da atividade com o barro, que é a sova da argila, pois é ela que minimiza fortemente o risco de uma peça estourar. A persistência na espera do processo de secagem é primordial para que a peça não sofra distorções. Lixar exige todo o cuidado e delicadeza, para que a peça não se quebre nas mãos do ceramista. Sem contar com as horas de passagem pelo calor, que proporcionarão uma mudança drástica na estrutura da peça, funcionando como um ritual de passagem.</p>



<p style="font-size:18px">A esmaltação será uma das últimas etapas em toda essa trajetória de construção, cuidado, intimidade e amor ao trabalho com a cerâmica. Com isso, ela nos deixa mais uma lição: depois de ter passado pela segunda vez pelo fogo, a peça adquire cor e brilho que durarão por todo o tempo de sua existência. Assim também pode ser conosco, ganhar um pouco mais de cor e brilho em cada uma das vezes que enfrentamos as passagens pelo fogo em nossas vidas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>O &#8220;fazer cerâmica&#8221;, para mim, foi um encontro. Encontro com a Terra e o Fogo. A Terra me absorve totalmente, é o repouso, o aconchego. E sobretudo é receptiva e acolhedora; me limpa por dentro. O Fogo me atrai. É amigo e inimigo, traz entusiasmo e decepção, é vida ou morte. Tem sempre os seus mistérios. Fazer cerâmica é promover a harmonia dos elementos que constituem o universo: Terra, Agua, Ar, Fogo. De maneira poética: colocando em contato, os semelhantes e os opostos, o ceramista faz a união e a fusão desses elementos, para gerar sua obra. Penso que toda experiência estética deve ser um encontro com o mundo e consigo mesmo. Da vivência desse encontro e da sua maturidade nasceria a obra. Minha verdadeira obra ainda não surgiu. Mas o que me faz apresentar estes trabalhos é a certeza do encontro. São ainda experiências estéticas. Mas elas me prometem &#8230; (NAKANO, 1988, p. 67).</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Ao analisar o trecho acima, é possível perceber, através da produção artesanal da cerâmica, o quanto os elementos naturais estão correlacionados, simbolicamente, às quatro funções psicológicas, ao expressarem qualidades energéticas que caracterizam formas de perceber, avaliar, relacionar-se e criar sentido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-relacao-entre-os-elementos-e-as-funcoes-psicologicas-foi-descrita-por-waldemar-magaldi-na-obra-fundamentos-da-psicologia-analitica-2025-p-379" style="font-size:18px">Essa relação, entre os elementos e as funções psicológicas, foi descrita por Waldemar Magaldi, na obra Fundamentos da Psicologia Analítica (2025, p. 379).</h2>



<p style="font-size:18px">A função sensação, responsável pela captação imediata do dado concreto, encontra sua expressão simbólica no elemento terra. A manipulação da argila constitui uma experiência primordial de enraizamento, que convoca a função sensação e reequilibra subjetividades excessivamente abstraídas ou racionalizadas.</p>



<p style="font-size:18px">A função sentimento, vinculada à avaliação de valor, relaciona-se simbolicamente ao elemento água, tradicionalmente associado à fluidez, ao vínculo e à profundidade emocional. No fazer cerâmico, esse elemento emerge de múltiplas formas, no uso da água para tornar a matéria moldável, nos estados afetivos que acompanham o processo de criação e na relação íntima entre mãos e matéria.</p>



<p style="font-size:18px">A função pensamento, caracterizada pela discriminação lógica e pela elaboração conceitual, encontra sua analogia no elemento ar, símbolo da clareza, da articulação e da razão estruturante. No processo cerâmico, essa função se manifesta não como uma hipertrofia da racionalização abstrata, mas como planejamento e estruturação, integrando-se organicamente às demais funções, servindo ao processo criativo e cedendo espaço à dimensão simbólica.</p>



<p style="font-size:18px">A função intuição, orientada à percepção de possibilidades, corresponde ao elemento fogo, símbolo da transformação, da iluminação súbita e do vir a ser. O fogo transcende o dado imediato e revela potencialidades ocultas, assim como a intuição apreende direções ainda não manifestas. A cerâmica incorpora esse elemento tanto metafórica quanto literalmente, pois é no forno que a obra encontra sua forma definitiva, revelando cores, texturas e qualidades inesperadas.</p>



<p style="font-size:18px">Ao integrar essas quatro dimensões, observa-se que a prática cerâmica opera como um campo simbólico privilegiado para a recomposição da totalidade psíquica.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: A Produção Artesanal da Cerâmica como Exercício Si" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/OVo4zDPmFd0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-jageneski-dos-reis/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-jageneski-dos-reis/"><strong>Cristiane Jageneski – Membro Analista em formação</strong> <strong>pelo IJEP</strong></a></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências: </strong></h2>



<p><em>Imagem: foto de arquivo pessoal da autora</em></p>



<p>GIANNOTTI, Sirlene. <em>Vivenciar-se no fazer</em>. Caderno – Ensaio 1: Barro, p. 97-105. SP: Instituto Tomie Ohtake, 2024.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p>____, Carl Gustav.&nbsp; <em>Tipos psicológicos</em>. 7ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p>____, Carl Gustav.&nbsp; <em>A prática da psicoterapia</em>. 16ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p>____, Carl Gustav, <em>et al</em>. <em>O homem e seus símbolos. </em>3ª ed<em>.</em> RJ: Harper Collins, 2016.</p>



<p>MAGALDI, Waldemar. (Org.) Fundamentos da Psicologia Analítica. 2ª ed. São Paulo: Eleva Cultural, 2025.</p>



<p>NAKANO, Katsuko. <em>Terra, Fogo, Homem</em>. Tese de doutorado. Universidade de São Paulo, 1988.</p>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A dinâmica narcisista como um caminho de criação de consciência</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-dinamica-narcisista-como-um-caminho-de-criacao-de-consciencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Schmidt]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 11:01:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[complexos]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
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		<category><![CDATA[narcisismo]]></category>
		<category><![CDATA[Narciso]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O objetivo deste artigo é oferecer uma ampliação sobre o mito de Narciso, destacando e refletindo dinâmicas psíquicas importantes, que estão presentes desde o início na história. O que nos condena e às nossas relações? E, principalmente, como é possível, mesmo encurralados em extremos e polaridades, encontrarmos aquilo que ajuda a mirar o caminho?</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: O objetivo deste artigo é oferecer uma ampliação sobre o mito de Narciso, destacando e refletindo dinâmicas psíquicas importantes, que estão presentes desde o início na história. O que nos condena e às nossas relações? E, principalmente, como é possível, mesmo encurralados em extremos e polaridades, encontrarmos aquilo que ajuda a mirar o caminho?</p>



<p style="font-size:18px">Afinal, Narciso já nasceu condenado. Era belo demais. Isto, por si só, constituía um grande pecado contra os deuses: um mortal mais bonito que um deus não era permitido. Para os gregos, tratava-se de uma <em>hybris</em>, um descomedimento, quando algo ultrapassa sua medida. Conforme vai crescendo, provoca paixões em todos, mulheres, homens, ninfas (Brandão, 1987).</p>



<p style="font-size:18px">O excesso está presente desde o berço. Pelo olhar da Psicologia Analítica, esse descomedimento pode se dar quando uma energia arrebatadora, coletiva, se impõe sobre uma situação, capaz de tomar para si não apenas um, mas muitos indivíduos. Testemunha-se, no mito, a irresistibilidade exercida pela poderosa constelação de uma imagem de natureza arquetípica, relacionada ao fascínio e desejo pelo Belo, pelo Perfeito. Um complexo autônomo foi ativado e toma conta da consciência. &nbsp;O relativo deixa de existir em nome do absoluto.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-vezes-ficamos-encurralados" style="font-size:20px"><strong>Às vezes ficamos encurralados</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Esse excesso que nasce com Narciso pode ser visto como a representação de uma espécie de possessão arquetípica. Ele nem precisa se ver para já se encontrar identificado. Os arquétipos estruturam a base coletiva fundamental da psique humana, são conteúdos autônomos que possuem um caráter numinoso, ou seja, “mágico”, espiritual. Podem ter um efeito integrador ou dissociador. Enquanto o indivíduo permanece inconsciente da influência de uma imagem arquetípica, a possessão se mantém. Como sob um feitiço, a inflação se instala e afasta a individualidade, a vida interior subjetiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-seguinte-trecho-de-jung-poderia-auxiliar-narciso-a-compreender-sua-tarefa" style="font-size:18px">O seguinte trecho de Jung poderia auxiliar Narciso a compreender sua tarefa:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">“A característica da reação patológica é em primeiro lugar a identificação com o arquétipo que determina um tipo de inflação ou possessão pelos conteúdos emergentes, cuja irresistibilidade é um desafio a qualquer terapia. A identificação pode transcorrer no melhor dos casos como uma inflação mais ou menos inócua. Em todo caso, a identificação com o inconsciente significa uma certa fragilidade da consciência e nisso reside o perigo. A identificação não é “feita” por nós, não “nos identificamos”, mas sofremos inconscientemente o tornar-nos idênticos a um arquétipo, isto é, somos por ele possuídos. Em casos graves é mais importante fortificar previamente o eu do que compreender e assimilar os produtos do inconsciente.” (Jung, 2021a, p. 356)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Esse seria um dos trabalhos de Narciso. É preciso ver, olhar e, então reconhecer para se ter a chance de desprender-se de um enredamento desse tipo. Jung (2021a, p.48) reforça essa proposição quando diz que “<strong>o perigo principal é sucumbir à influência fascinante dos arquétipos, o que pode acontecer mais facilmente quando as imagens arquetípicas não são conscientizadas</strong>”. </p>



<p style="font-size:18px">Com isso, ressalta a importância da tomada de consciência. Sobre investir na construção de um ego estruturante, ou seja, capaz de se adaptar e de lidar com os conteúdos objetivos e subjetivos que o cercam. Esse “ver”, a tomada de consciência, pressupõe ser capaz de discernir, separar, refletir, encarar. Trata-se da difícil tarefa da formação do ego para a conquista da individualidade no processo de individuação. O eu precisa nascer, crescer e amadurecer. O desenvolvimento da consciência é instigado por um impulso interno, inconsciente, que conduz ao encontro com o outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desenvolver-uma-perspectiva-para-alem-do-que-se-conhece" style="font-size:20px"><strong>Desenvolver uma perspectiva para além do que se conhece</strong></h2>



<p style="font-size:18px">É preciso se relacionar com o diferente, o outro, tanto dentro quanto fora de si. No caminho da criação de consciência, vamos construindo e desconstruindo pontos de vista, opiniões, entendimentos, convicções. Experimentando polaridades distintas em nós e na vida que nos cerca, dando espaço para a totalidade psíquica se expressar e se realizar. Desenvolver consciência é um trabalho árduo e contínuo, que resulta na compreensão de que somos muito mais do que sabemos ser. Jung explica que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">“A consciência é a função ou atividade que mantém a relação dos conteúdos psíquicos com o eu. Consciência não é a mesma coisa que psique, pois a psique representa o conjunto de todos os conteúdos psíquicos; estes não estão todos necessariamente vinculados ao eu, isto é, relacionados de tal forma com o eu que lhes caiba a qualidade de conscientes”. (Jung, 2021b, p.440)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Se a consciência surge à partir do mar do inconsciente de onde viemos, a separação e a diferenciação da dimensão arquetípica são tarefas inegociáveis para criação do sujeito. Fazemo-nos inteiros pelo discernimento, no contato com esse outro em nós, representado por aspectos de Sombra, complexos, ambiguidades e contradições, o belo e o feio em si mesmo. É importante refletir. Narciso ainda se encontrará com o espelho, que o levará à possibilidade de criar reflexão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-enquanto-o-espelho-nao-vem" style="font-size:18px">Enquanto o espelho não vem&#8230;</h2>



<p style="font-size:18px">Pode ser prudente mantermos por perto tanto nossa pequenez quanto o diálogo criativo com o inconsciente.&nbsp; Lembrar que ego e consciência são uma pequena fração da psique humana, ou seja, conhecemos, diretamente, apenas uma parte do que somos. Para além do que se vê, existe o Inconsciente: autônomo, indomável, criativo, pulsante; o “psíquico desconhecido” (Jung, 2021c, p.131-132). As chances do ego residem em saber se ele é capaz de estabelecer um relacionamento com o inconsciente e a Alma, de forma humilde e atenta.</p>



<p style="font-size:18px">A totalidade psíquica convida o “eu” a se desenvolver e, pelo amadurecimento, se desprender das identificações coletivas, rumo a uma individualidade que possa estar à serviço da coletividade, mas não guiada por ela. Para seguir este caminho, precisa-se mais que apenas ver, precisa-se ver além. Ver a si e além de si. A alteridade é necessária, e, à partir, dela o exercício da nossa capacidade de ampliar e incluir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-alteridade-comeca-dentro-de-cada-individuo-tem-a-ver-com-reconhecer-a-diferenca" style="font-size:18px">A alteridade começa dentro de cada indivíduo, tem a ver com reconhecer a diferença.</h2>



<p style="font-size:18px">A psique é, por natureza, antinômica: consciente e inconsciente, feminina e masculina, luz e sombra. Suas relações se dão através de mecanismos compensatórios e complementares, que exercem uma ação autorreguladora do aparelho psíquico. Existimos entre polaridades e o intercâmbio energético entre elas configura-se saúde psíquica. Então, se existe um “eu” na totalidade da esfera psíquica, há também o “não-eu”. Não é possível conhecer a si mesmo sem estar diante do outro e, enquanto isso não acontece, não alcançamos a alteridade.</p>



<p style="font-size:18px">Talvez Narciso tenha ficado tempo demais “encarcerado” na evitação sugerida pelo Oráculo, o qual disse que ele viveria muitos anos com a condição de não se ver.&nbsp; A imagem do mito traz um jovem frio, alheio às relações de afeto, ao interesse pelo outro, desconectado de Eros. Experimentando o mundo apenas na incipiência de sua esfera individual, regredido e fixado em um aspecto infantil, distante de sua profundidade. Pode-se pensar que ele está inteiro consigo, mas, na verdade, lhe falta contraste, o contraponto relacional capaz de lhe revelar a inteireza. Como uma criança não tem consciência da complexidade e diversidade em si e na vida, Narciso percebe apenas uma pequena parte do que ele e o mundo podem ser.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-perigo-do-excesso" style="font-size:20px"><strong>O perigo do excesso</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Enquanto não se afasta, minimamente, do jugo do arquétipo, o indivíduo preso numa dinâmica narcisista mantém-se no excesso e identificado. Em outras palavras, exageradamente unilateralizado, o que também pode ser uma posição considerada como “pecado”, uma <em>hybris</em> para a totalidade psíquica: ser, demasiadamente, uma coisa só. Uma consciência fixada unilateralmente está tomada por um complexo dominante, desprovida de suas habilidades de discernimento e diferenciação, enfeitiçada. No caso de Narciso, isso aparece como uma maldição.</p>



<p style="font-size:18px">O mito começa a revelar as consequências desse descomedimento:&nbsp; comportamentos obsessivos, fixados e que, enantiodromicamente, se compensam nas extremidades. Muitos desejam ardentemente o jovem, enquanto ele rejeita quem se aproxima. Essa é uma dinâmica que já se delineava na história e que se amplifica com o aparecimento da relação de Eco e Narciso, como se uma lupa fosse colocada para que não se perdesse de vista. De um lado, o desejo ardente e compulsivo pelo amor-objeto. Do outro, a fuga e total falta de interesse, desconexão. À fixação unilateral de Narciso faltava a oposição, por isso ele não se interessava.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-tensao-leva-a-criacao" style="font-size:20px"><strong>A tensão leva à criação</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Talvez a vivência dessa dinâmica opositiva e compensatória, “desejo x desinteresse”, possa ser a projeção de algo novo, de uma necessidade interna que começa a se inquietar no âmago de Narciso. Uma necessidade ainda não conhecida por ele, mas que pulsa nas profundezas da sua psique. A unilateralidade sofre a pressão da tensão dos opostos e a angústia fundamental para que algo novo possa se realizar.</p>



<p style="font-size:18px">Quando se fica preso no extremo de uma polaridade, sem diálogo e sem relativização, o resultado são relações e indivíduos fechados e alheios ao interesse pelo o que é do outro, pelo o que a troca pode oferecer, isolados para novos afetos e possibilidade. Perde-se amplitude e profundidade. Também não se vive situações de conflito, crise e angústia, tão necessárias para o amadurecimento pessoal e conquistas de aptidões e recursos internos para lidar com a vida com inteligência emocional. Deixa-se de fazer contato com dimensões humanas importantes que levam à experiência integral da psique, como a vivência da raiva, frustração, decepção; situações onde é preciso se reinventar, buscar novas referências.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-unilateralidade-e-um-aspecto-inerente-ao-ego-tem-a-ver-com-a-formacao-da-identidade-consciente-do-individuo" style="font-size:18px">A unilateralidade é um aspecto inerente ao ego, tem a ver com a formação da identidade consciente do indivíduo.</h2>



<p style="font-size:18px">A consciência escolhe, decide e, naturalmente, elege um aspecto ou caminho, negligenciando outro. Algo sempre fica para trás, escondido ou não desenvolvido. Pela dinâmica energética compensatória da psique, aquilo que não foi vivido na consciência perde valor e passa para a esfera do inconsciente.</p>



<p style="font-size:18px">Por um lado, isso é um mecanismo inato e necessário para a construção da individualidade, da singularidade humana, para o dar-se conta de si. Por outro, pode vir a ser aquele pecado ou feitiço que condena. Quando a tensão entre os opostos aumenta, quanto maior a identificação unilateral, mais intensamente os conteúdos inconscientes e suas projeções atuarão para compensar e autorregular os excessos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-espelho-tambem-pode-salvar" style="font-size:20px"><strong>O espelho também pode salvar</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Então, Narciso é o rapaz que nasce mais belo que os deuses, cuja mãe tenta afastá-lo de um contato consigo mesmo. Afinal ele não pode se ver se quiser continuar vivo. Cresce rodeado de pessoas apaixonadas e interessadas por ele; tanto desejo que leva Narciso a experimentar um comportamento oposto compensatório, afastando-se e negando o relacionamento. Vivencia em si os dois extremos: é, ao mesmo tempo, a fonte de grande desejo e a sua negação. Se nada mais acontecesse no mito, como seria suportar uma vida inteira de tanto desencontro?</p>



<p style="font-size:18px">A qualidade da relação que o indivíduo estabelece consigo se projeta em seus relacionamentos interpessoais. Assim, quanto mais se conhece e se acolhe, quanto mais se vê, mais prontidão apresentará para estabelecer vínculos profundos e verdadeiros. Por outro lado, é na experiência da alteridade, através do relação com o outro, que é possível, a cada um, vislumbrar a própria alma, a imensidão inconsciente que quer se realizar. É esse outro o único capaz de se opor às convicções do eu, instaurando uma dialética em direção ao novo. O diálogo flexível com opostos nos amplia e através das relações nos vemos melhor e crescemos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-explica" style="font-size:18px">Jung explica:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">“O si-mesmo, enquanto polo oposto, ou o absolutamente “Outro” do mundo, é a conditio sine qua non do conhecimento do mundo e da consciência de sujeito e objeto. É a alteridade psíquica que possibilita verdadeiramente a consciência. A identidade não possibilita a consciência. Somente a separação, o desligamento e o confronto doloroso através da oposição, pode gerar consciência e conhecimento.”&nbsp; (Jung, 2021a, p. 173)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Então, de novo, é preciso ver, a si e além, além daquilo que se mostra à primeira vista. Coisa que Narciso vai adiando pelo caminho. Demora, mas, quando a sede é grande e não dá mais para seguir em tanta secura emocional, chega a necessária hora de começar um movimento novo. Finalmente, chega a hora de Narciso se ver, mas, na verdade, ainda não vê realmente a si mesmo. No reflexo do lago, de depara com uma imagem, aquele excesso que o condena. Reencontra-se com a imagem constelada no início e segue tomado por ela, mas, agora, condenando-se ao apaixonamento cego e à superficialidade. &nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">Mas, abaixo do que se vê, algo novo acontece. Pela primeira vez, o desejo e o encanto passam a fazer parte da consciência de Narciso. Ele não apenas rejeita e se isola. Ele agora precisa, se interessa, busca. Ainda distante do verdadeiro outro, mas, quem sabe, esse pode ser seu próximo passo: através do ato da reflexão, retirar a projeção do espelho para, enfim, encontrar-se com aquele algo mais, a Sombra e tudo que ela tem a oferecer. Afinal, esse é o caminho para o encontro afetivo genuíno. Como resume Jung, “O encontro consigo mesmo significa, antes de mais nada, o encontro com a própria sombra” (Jung, 2021a, p. 30)</p>



<p style="font-size:18px">Com o trecho abaixo, Jung faz pensar se o feitiço do mito de Narciso pode estar mais perto do fim quando o jovem se debruça sobre seu reflexo, ensinando-nos que a predisposição para o diálogo e para a reflexão atenta pode nos salvar da superficialidade e do entorpecimento que nos mantém cegos e desconectados de nós e das nossas relações:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">“Verdadeiramente, aquele que olha o espelho da água vê em primeiro lugar sua própria imagem. Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia, mostrando fielmente o que quer que nele se olhe; ou seja, aquela face que nunca mostramos ao mundo, porque a encobrimos com a persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira.” (Jung, 2021a, p. 29)</p>
</blockquote>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;A dinâmica narcisista como um caminho de criação de consciência&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/huHkhBcuEh0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela-schmidt/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/daniela-schmidt/">Daniella Schmidt &#8211; Membro Analista em Formação</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas"><strong>Referências Bibliográficas:</strong></h2>



<p>BRANDÃO, Junito. Mitologia Grega, volume II. Petrópolis: Vozes, 1987.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2021c.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2021a.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2021b.</p>



<p><em>Imagem: Narcissus, Jacopo Tintoretto (1519–1594)</em> &#8211; <em>Domínio Publico</em>. <em>Disponível em: <a href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tintoretto_-_Narcyz.jpg">https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tintoretto_-_Narcyz.jpg</a></em></p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Existe solitude?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/existe-solitude/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Feb 2026 12:06:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Solidão]]></category>
		<category><![CDATA[Solitude]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A solidão, longe de ser apenas um estado emocional, tornou-se um dos grandes desafios da saúde mental contemporânea, associada ao aumento de depressão, ansiedade, suicídio e declínio cognitivo. Diante desse cenário, ganha força a ideia de “solitude” como um estar só supostamente positivo e criativo. Questionamos o porquê e o significado dessa oposição gramatical. E com base em Jung, dados científicos, música e poesia, sugerimos uma reflexão: talvez a “solitude” não seja um contraponto à solidão, mas um parceiro necessário para que possa cumprir uma missão, permitir a integração das sombras, individuais e coletivas.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: A solidão, longe de ser apenas um estado emocional, tornou-se um dos grandes desafios da saúde mental contemporânea, associada ao aumento de depressão, ansiedade, suicídio e declínio cognitivo. Diante desse cenário, ganha força a ideia de “solitude” como um estar só supostamente positivo e criativo. Questionamos o porquê e o significado dessa oposição gramatical. E com base em Jung, dados científicos, música e poesia, sugerimos uma reflexão: talvez a “solitude” não seja um contraponto à solidão, mas um parceiro necessário para que possa cumprir uma missão, permitir a integração das sombras, individuais e coletivas.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-center" id="h-solid-a-o-que-nada-viver-e-bom" style="font-size:18px">“<em>Solid</em><em>ã</em><em>o que nada, viver é bom”.</em></h2>



<p style="font-size:18px">Estas são as palavras de Cazuza. E de imediato, percebemos que a vírgula introduz um contraponto. Se viver é bom, então o que vem antes, a solidão, é obrigatoriamente ruim. Ele parece nos dizer que tudo aquilo que ele relata da vida de artista nessa música que fez em parceria com George Israel e Nilo Romero, as partidas e as chegadas, as diárias de hotéis e os quartos, em princípio vazios, haveriam de parecer um sacrifício, mas que, em verdade, são oportunidades de encontros, crescimento e alegria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-mistura-de-estar-so-com-bem-estar-ha-quem-chame-de-solitude" style="font-size:18px">Essa mistura de estar só com bem-estar, há quem chame de <em>solitude</em>.</h2>



<p style="font-size:18px">A palavra solitude carrega consigo uma carga histórica, cultural e psicológica significativa. Tradicionalmente, é compreendida como a experiência de estar só ou, mais profundamente, de sentir-se isolado do convívio e do reconhecimento do outro. Não por acaso, é uma das condições humanas mais temidas e evitadas, pois remete ao vazio, à ausência e, muitas vezes, ao sofrimento psíquico. Em oposição, o termo <em>solitude</em> se popularizou nos últimos tempos para tentar diferenciar a solidão “sofrida” de uma suposta solidão “escolhida” ou “produtiva”. <em>Solitude</em> seria, então, o estado de estar só, mas em paz, desfrutando de si mesmo, enquanto solidão representaria o sofrimento pela ausência do outro.</p>



<p style="font-size:18px">Este significado para a palavra <em>solitude</em> já consta em vários dicionários, o que lhe confere uma legitimidade; no entanto, se procurarmos analisar a essência e os conceitos por trás dela, ao comparar a etimologia das duas palavras, encontramos que:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:18px">Solitude vem do latim&nbsp;<em>solitū</em><em>do,</em><em>īnis</em>&nbsp;&#8216;solidão, retiro&#8217;;</li>



<li style="font-size:18px">Solidão vem do latim&nbsp;<em>solitū</em><em>do,</em><em>īnis</em>&nbsp;&#8216;solidão, retiro; desamparo, abandono&#8217;;</li>
</ul>



<p style="font-size:18px">Lemos no dicionário <em>Oxford</em> <em>Language</em> que ambas têm a mesma raiz latina, que significa “estado de estar só”. O termo <em>solitude</em>, incorporado ao português por influência de línguas estrangeiras (especialmente do inglês <em>solitude</em> e do francês <em>solitude,</em> que significa literalmente solidão), não traz, em sua origem, uma distinção positiva em relação à solidão.</p>



<p style="font-size:18px">Mas então, se não tem na base nenhuma diferença, se a distinção entre solidão e <em>solitude</em> não se sustenta etimologicamente, por que a língua brasileira sentiu necessidade de inventar uma nova palavra a partir da mesma raiz, mas derivando-a de maneira em aparência totalmente oposta?</p>



<p style="font-size:18px">Vamos desenvolver aqui uma reflexão a este respeito e procurar entender se a arte, especialmente a poesia e a música popular, e a psicologia analítica, conseguem nos ajudar a entender esse mistério da linguística moderna.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esta-reflexao-me-veio-apos-ouvir-novamente-a-frase-bem-conhecida-do-jung" style="font-size:18px">Esta reflexão me veio após ouvir novamente a frase bem conhecida do Jung:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>A solid</em><em>ã</em><em>o n</em><em>ão significa a aus</em><em>ê</em><em>ncia de pessoas </em><em>à </em><em>nossa volta, mas sim o fato de não podermos comunicar-lhes as coisas que julgamos importantes, ou mostrar-lhes o valor de pensamentos que lhes parecem improv</em><em>á</em><em>veis. (JUNG, 2016, p. 349)</em><em></em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Pouco à frente ele acrescenta:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>A solid</em><em>ã</em><em>o n</em><em>ã</em><em>o significa necessariamente oposi</em><em>çã</em><em>o à </em><em>comunidade; ningu</em><em>é</em><em>m sente mais profundamente a comunidade do que o solit</em><em>á</em><em>rio, e esta s</em><em>ó </em><em>floresce quando cada um se lembra de sua pr</em><em>ó</em><em>pria natureza, sem identificar-se com os outros. (</em><em>JUNG, 2016, p. 349)</em><em></em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Jung aqui não somente nos fala em conceitos e ideias intelectuais. Por “coisas” precisamos também entender sensações, sentimentos e dores de todas as naturezas. Esses pensamentos do Jung parecem trazer uma dupla perspectiva sobre a solidão. De um lado, a solidão nasce de não poder expressar algo que vem de dentro, quando o mundo interior se choca com o mundo exterior, mesmo quando cheio de gente. E, nesse caso, se sente só aquele que não encontra um ouvido competente, compassivo ou compreensivo. Mas ao mesmo tempo, o encontro com a própria natureza precisa de um afastamento do coletivo para acontecer.</p>



<p style="font-size:18px">É nesse recolhimento que certas verdades internas finalmente conseguem emergir, pois o silêncio e a ausência de estímulos externos abrem espaço para escutarmos a nós mesmos. Estar só permite que aspectos profundos da psique se tornem visíveis, revelando conteúdos que dificilmente afloram na presença constante do outro. Assim, a solidão, quando vivida conscientemente, pode transformar-se em um terreno fértil para reflexão e autoconhecimento. &nbsp;</p>



<p style="font-size:18px">E, quando o tema é solidão, algumas referências musicais vêm à minha mente, expressando também essas duas facetas da solidão. Isto parece corroborar a necessidade do uso de duas palavras. Aprofundemos mais um pouco. Imediatamente ouço na minha cabeça a voz de Marisa Monte cantando as palavras de Paulinho da Viola:</p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.4"><em>Solid</em><em>ã</em><em>o é </em><em>lava que cobre tudo;</em><em></em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.4"><em>Amargura em minha boca, sorri seus dentes de chumbo</em><em></em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.4"><em>Solid</em><em>ão, palavra cavada no coraçã</em><em>o;</em><em></em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.4"><em>Resignado e mudo no compasso da desilusã</em><em>o.</em><em></em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esses-versos-dentro-dos-mais-bonitos-da-musica-popular-brasileira-ja-nos-dao-o-tom-para-muitos-a-solidao-doi-o-fato-de-estar-so-quando-imposto-pelo-outro-e-doloroso" style="font-size:18px">Esses versos, dentro dos mais bonitos da música popular brasileira, já nos dão o tom: Para muitos, a solidão dói. O fato de estar só, quando imposto pelo outro, é doloroso.</h2>



<p style="font-size:18px">A solidão desponta como um fenômeno global e crescente que afeta pessoas de todas as idades, mas os dados recentes mostram que seu impacto precoce, especialmente na infância e adolescência, pode gerar efeitos duradouros sobre o desenvolvimento emocional, cognitivo e social. Jovens entre 13 e 29 anos já relatam níveis elevados de solidão, desmontando a ideia de que esse sofrimento pertence apenas à velhice e revelando vulnerabilidades intensas em fases de formação identitária. (Wang, J., Jiao, D., Zhao, X., et al., 2025).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-estudos-contemporaneos-indicam-que-experiencias-de-isolamento-na-infancia-aumentam-o-risco-de-depressao-ansiedade-e-ate-declinio-cognitivo-e-demencia-na-vida-adulta-reforcando-que-a-solidao-atua-de-forma-cumulativa-ao-longo-da-vida" style="font-size:18px">Estudos contemporâneos indicam que experiências de isolamento na infância aumentam o risco de depressão, ansiedade e até declínio cognitivo e demência na vida adulta, reforçando que a solidão atua de forma cumulativa ao longo da vida.</h2>



<p style="font-size:18px">Somado a isso, a solidão está associada à mortalidade precoce em níveis comparáveis a fatores como tabagismo e sedentarismo, além de relacionar-se ao aumento de suicídios e sofrimento mental, especialmente em contextos de ruptura social e falta de apoio. Esses achados evidenciam que compreender e prevenir a solidão desde cedo é essencial para reduzir seus impactos profundos na saúde individual e coletiva. (Holt-Lunstad, J., Smith, T. B., Baker, M., Harris, T., &amp; Stephenson, D., 2015).</p>



<p style="font-size:18px">O <em>Harvard Study of Adult Development</em><em> </em>(WALDINGER, Robert J.; SCHULTZ, Marc, 2023), pesquisa realizada desde 1938, o mais longo estudo já realizado sobre vida adulta e felicidade, demonstra que pessoas com relacionamentos sociais fortes vivem mais, têm melhor saúde mental e física e apresentam menor risco de declínio cognitivo do que aquelas isoladas, colocando os vínculos afetivos acima de riqueza ou status como fator central de bem-estar.&nbsp; O estudo conclui que a ausência de conexões humanas profundas coloca indivíduos em clara desvantagem física e emocional ao longo da vida, reforçando que o oposto da solidão não é a presença de pessoas, mas a presença de relacionamentos significativos, comprovando o que C.G. Jung já nos havia dito.</p>



<p style="font-size:18px">Segundo o diretor do estudo, Robert Waldinger, a solidão é tão prejudicial à saúde quanto tabagismo e abuso de álcool, contribuindo para maior mortalidade e sofrimento psicológico. Razão pela qual ele é categórico ao afirmar que “loneliness kills”: solidão mata.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-daquilo-que-nos-quer-matar-queremos-distancia" style="font-size:18px">E, daquilo que nos quer matar, queremos distância.</h2>



<p style="font-size:18px">E se, estar só, como o disse Jung, é consequência do fato de não podermos compartilhar com os outros tudo aquilo que sentimos e pensamos, entendemos que a solidão vem sempre acompanhada, e também retroalimenta, o que ele chamou de Sombra.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-figura-da-sombra-personifica-tudo-o-que-o-sujeito-nao-reconhece-em-si-e-sempre-o-importuna-direta-ou-indiretamente-como-por-exemplo-tra-c-os-inferiores-de-car-a-ter-e-outras-tend-e-ncias-incompat-i-veis-jung-2016a-p-513" style="font-size:18px"><em>A figura da sombra personifica tudo o que o sujeito não reconhece em si e sempre o importuna, direta ou indiretamente, como por exemplo tra</em><em>ç</em><em>os inferiores de car</em><em>á</em><em>ter e outras tend</em><em>ê</em><em>ncias incompat</em><em>í</em><em>veis. (JUNG, 2016a , p.</em><em> 513)</em><em></em></h2>
</blockquote>



<p style="font-size:18px">Quando Carlos Drummond de Andrade diz poeticamente que “solidão gera inúmeros companheiros em nós”, poderíamos ouvir isso como se estivéssemos em uma aula sobre os fundamentos da psicologia analítica. A solidão gera o que Jung chamou de complexos, amalgamas autônomos de afetos agrupados em volta de um mesmo conceito e que para muitos tornam-se parceiros, infelizes cúmplices para a vida inteira.</p>



<p style="font-size:18px">Mas uma das características mais importantes da sombra e dos complexos, que formam o inconsciente pessoal, é que eles são partes constituintes do nosso ser. Como Jung disse singelamente em Prática da Psicoterapia (p. 146), “a sombra não existe sem a luz, o mal não existe sem o bem, e vice-versa”. Nós somos, portanto, feitos de tudo que gostamos em nós, das nossas qualidades, mas também daquilo que nos deixa desconfortáveis, dos desejos, vontades que temos dificuldade em aceitar, porque se chocam com a realidade e as necessidades dos outros e do mundo e que preferimos ignorar.</p>



<p style="font-size:18px">E, o nosso processo de evolução, que alguns podem chamar de autoconhecimento e que em parte corresponde ao que Jung chamou de “processo de individuação”, que seria de forma resumida, o processo de “tornarmos nós quem nascemos para ser”, basicamente consiste em recuperar todos os conteúdos, todos os afetos, sentimentos, pensamentos, atitudes frustradas que jazem nas profundezas do inconsciente e trazê-los de volta para a luz da consciência para que a personalidade possa ser novamente unificada e completa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-isso-precisa-ser-feito-so-em-silencio" style="font-size:18px">E isso precisa ser feito só, em silêncio.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>O lado sombrio também pertence à minha totalidade, e ao tomar consciência da minha sombra, consigo lembrar-me de novo de que sou um ser humano como os demais. Em todo caso, com essa redescoberta da própria totalidade – que a princípio se faz em silêncio – fica restabelecido o estado anterior, o estado do qual derivou a neurose, isto é, o complexo isolado. (JUNG, 2014, p.143)</em><em></em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-se-a-psicologia-profunda-argumenta-cientificamente-a-poesia-e-a-musica-ciencias-populares-dos-que-sofrem-ja-o-dizia-ha-muito-tempo" style="font-size:18px">Se a psicologia profunda argumenta cientificamente, a poesia e a música, ciências populares dos que sofrem, já o dizia há muito tempo.</h2>



<p style="font-size:18px">Rolando Laserie o expressa perfeitamente na letra do bolero <em>Hola Soledad</em> que se tornou um clássico do novo flamenco na voz de Sandra Carrasco, aqui livremente traduzido para o português:</p>



<p style="font-size:17px"><em>Olá, solid</em><em>ã</em><em>o,</em><em><br></em><em>N</em><em>ão me surpreende a tua presen</em><em>ça.</em><em><br></em><em>Quase sempre est</em><em>á</em><em>s comigo.</em><em><br></em><em>Te saú</em><em>da um velho amigo.</em><em><br></em><em>Este encontro </em><em>é </em><em>apenas mais um.</em><em></em></p>



<p style="font-size:17px"><em>Olá, solid</em><em>ã</em><em>o,</em><em><br></em><em>Esta noite eu te esperava.</em><em><br></em><em>Embora eu nã</em><em>o te diga nada.</em><em><br>É </em><em>t</em><em>ão grande a minha tristeza,</em><em><br></em><em>Tu j</em><em>á conheces a minha dor</em><em></em></p>



<p style="font-size:17px"><em>Eu sou um p</em><em>á</em><em>ssaro ferido</em><em><br></em><em>Que chora sozinho no seu ninho</em><em><br></em><em>Porque n</em><em>ão pode voar.</em><em><br></em><em>E por isso estou contigo.</em><em><br></em><em>Solid</em><em>ão, eu sou teu amigo</em><em><br></em><em>Vem, vamos conversar.</em><em></em></p>



<p style="font-size:18px">A música nos faz mergulhar profundamente nas nossas emoções, emoções que são somente nossas, e que têm algo a dizer, se as podemos ouvir, lá, no fundo da alma, mas somente se silenciarmos a algazarra incessante da vida moderna.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-solidao-nos-convida-a-ter-uma-conversa-intima-conosco-mesmos" style="font-size:18px">A solidão nos convida a ter uma conversa íntima conosco mesmos.</h2>



<p style="font-size:18px">Georges Moustaki, cantor e poeta francês de origem egípcia, autor de mais de 300 canções disse em uma delas:</p>



<p style="font-size:18px"><em>Pour avoir si souvent dormi avec ma solitude,<br>Je m&#8217;en suis fait presque une amie, une douce habitude.<br>Elle ne me quitte pas d&#8217;un pas, fidèle comme une ombre.<br>Elle m&#8217;a suivi ça et là, aux quatres coins du monde.</em></p>



<p style="font-size:18px"><em>Non, je ne suis jamais seul avec ma solitude</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ai-aparece-a-solitude" style="font-size:18px"><strong>Aí aparece a </strong><strong>“</strong><strong>solitude</strong><strong>’</strong><strong>&#8230;</strong><strong></strong></h2>



<p style="font-size:18px">Pois é, mas a tradução literal nos mostra que o estar só não sempre é a personificação de um monstro perigoso, mas também uma presença companheira:</p>



<p style="font-size:18px"><em>Por ter tantas vezes dormido com a minha solidã</em><em>o,</em><em><br></em><em>Acabei fazendo dela quase uma amiga, um doce h</em><em>á</em><em>bito.</em><em><br></em><em>Ela n</em><em>ão me deixa um s</em><em>ó </em><em>instante, fiel como uma sombra.</em><em><br></em><em>Ela me seguiu por toda parte, pelos quatro cantos do mundo.</em><em><br></em><em>N</em><em>ão, eu nunca estou sozinho com a minha solidã</em><em>o.</em><em></em></p>



<p style="font-size:18px">E em meio a tudo isso surge essa palavra nova, em contraponto, em oposição à solidão, e com ela, o paradoxo. Se a <em>solitude</em> se nutre da paz e da luz para permitir o crescimento, o que fazemos com a poeira debaixo do tapete, os afetos recalcados que não conseguimos mais enxergar, mas que são partes integrantes da gente?</p>



<p style="font-size:18px">E se relembrarmos Cazuza, poeta exagerado, procurando a felicidade nas curvas de todas as estradas, pelo menos como o mostravam os filmes a seu respeito e recortes de jornais e televisão, ele não era feliz. E parece que essa busca constante pelo contato com o outro, nada mais era que uma forma de driblar uma solidão da qual não conseguia dar conta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-aprendemos-a-fugir-do-que-amedronta-e-doi-e-um-reflexo-herdado-dos-tempos-antigos-nos-quais-ainda-eramos-frageis-e-cacados-por-criaturas-reais-mais-fortes-de-que-nos" style="font-size:18px">Nós aprendemos a fugir do que amedronta e dói. É um reflexo herdado dos tempos antigos nos quais ainda éramos frágeis e caçados por criaturas reais, mais fortes de que nós.</h2>



<p style="font-size:18px">Apesar da evolução, ainda vive dentro de todos os <em>Homo Sapiens</em>, um ser reptiliano que mantém essas atitudes de preservação, esquivando-se dos monstros simbólicos, até imaginários que vivem dentro da gente, escondidos em nossa sombra.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">“<em>N</em><em>ã</em><em>o é </em><em>de admirar que seja este o caso, uma vez que o reconhecimento mais elementar da sombra provoca ainda as maiores resist</em><em>ê</em><em>ncias no homem europeu contempor</em><em>âneo</em>” disse Jung (JUNG, 2016a, 486) explicando por que, por mais que necessário e exigido pelo processo de individuação, o encontro com a sombra é um processo complexo e às vezes improvável.</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neste-contexto-podemos-comecar-a-indagar-um-motivo-para-a-aparicao-da-solid-a-o" style="font-size:18px">Neste contexto podemos começar a indagar um motivo para a aparição da <em>solid</em><em>ã</em><em>o</em>.</h2>



<p style="font-size:18px">Na sociedade contemporânea, a hiperconexão digital cria a ilusão de que estamos sempre acompanhados, cercados de mensagens, notificações, “amigos” virtuais e fluxos incessantes de informação, mas raramente presentes de fato uns para os outros. As redes sociais nos oferecem a sensação reconfortante de pertencimento imediato, enquanto, na prática, muitas interações permanecem superficiais, performáticas e desprovidas de intimidade. Vivemos um paradoxo: quanto mais conectados tecnologicamente, mais isolados afetivamente. A lógica da exposição constante transforma vínculos em vitrines e conversas em likes, substituindo a profundidade do encontro pelo consumo de imagens.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-cenario-a-solidao-nao-desaparece-apenas-se-disfarca" style="font-size:18px">Nesse cenário, a solidão não desaparece, apenas se disfarça.</h2>



<p style="font-size:18px">A ausência de diálogo autêntico e de relações que sustentem nossa interioridade amplia o vazio psíquico, fazendo com que a “conexão” digital funcione muitas vezes como ruído, distração e anestesia para o medo de estarmos realmente sós. Uma característica dos meios de comunicação digitais é que eles são assíncronos, ou seja, a resposta não sempre se dá exatamente em seguida da pergunta, não permitindo uma verdadeira conexão emocional. Os afetos se desencontram e o clássico modelo projeção / contra projeção muda de fugura, podendo até deixar de existir. Na conversa presencial, as reações do interlocutor, afetam direto e imediatamente a pessoa. No virtual, o impacto emocional dos assuntos discutidos pode se diluir no tempo, a medida que as respostas demoram para chegar. Assim, um sentimento, mesmo quando claramente expressado, pode não encontrar ouvido e fica inevitavelmente absorvido pela sombra.</p>



<p style="font-size:18px">Uma análise recente posiciona a solidão de forma explícita como um desafio de saúde pública, reunindo evidências robustas de que ela aumenta tanto a morbidade quanto a mortalidade, e destacando a necessidade de políticas e intervenções que abordem o problema em múltiplos níveis. O estudo propõe ainda um “modelo de espectro da solidão”, que reconhece suas diferentes intensidades e manifestações ao longo da vida, facilitando a criação de estratégias preventivas e terapêuticas mais precisas e efetivas (Zeas-Sigüenza, A., Voldstad, A., Ruisoto, P., et al. 2025).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-portanto-uma-dimensao-coletiva-na-solidao" style="font-size:18px">Há, portanto, uma dimensão coletiva na solidão.</h2>



<p style="font-size:18px">Isso é meio subentendido. O fato de estar só pode ser percebido em contraponto a um grupo e, como os estudos mostram, a solidão de um único ser precisa tornar-se uma preocupação de todos. A solidão dói e amedronta, isto é um fato. Portanto precisamos da ideia, do conceito de <em>solitude</em> e do seu conforto desapegado para criar coragem de enfrentar momentos a sós, para esquecermos, durante um tempo, o medo de entrar em contato com os nossos lados sombrios, o que é necessário para evoluirmos.</p>



<p style="font-size:18px">Mas a leitura junguiana nos obriga a ficarmos atentos. A verdadeira superação da solidão não está em rebatizá-la, mas em aceitá-la com tudo o que ela traz à tona. A <em>solitude</em> que emergiu, na forma de uma palavra estrangeira, bonita, leve e descolada, não pode ser um meio de evitarmos a necessidade de enfrentar partes de nós mesmos para as quais não queremos olhar. A <em>solitude</em> não deve oferecer à sociedade brasileira um motivo politicamente correto de não encarar, sem ser taxada de covarde, a sombra coletiva contemporânea: A dificuldade de viver e de se relacionar no mundo moderno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deixo-os-com-o-poema-ausencia-de-carlos-drummond-de-andrade-2012" style="font-size:18px">Deixo-os com o poema Ausência de Carlos Drummond de Andrade (2012):</h2>



<p style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>Por muito tempo achei que</em><em></em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>a aus</em><em>ência é falta.</em><em></em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>E lastimava ignorante, a falta.</em><em></em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>Hoje n</em><em>ã</em><em>o a lastimo.</em><em></em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>N</em><em>ã</em><em>o h</em><em>á falta na aus</em><em>ência.</em><em></em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>A aus</em><em>ência é </em><em>um estar em mim.</em><em></em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>E sinto-a, branca, t</em><em>ã</em><em>o pegada,</em><em></em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>Aconchegada nos meus bra</em><em>ç</em><em>os,</em><em></em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>que rio e dan</em><em>ç</em><em>o e invento</em><em></em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>exclama</em><em>çõ</em><em>es alegres,</em><em></em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>porque a aus</em><em>ê</em><em>ncia assimilada,</em><em></em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>ningué</em><em>m a rouba mais de mim.</em><em></em></p>



<p style="font-size:18px"><strong>E pergunto-lhes: quantas solidões cabem nossas <em>solitudes</em>?</strong></p>



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<iframe title="Artigo novo: Existe Solitude?" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/ku0WJeJUaFI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/sebastienbaudry/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/sebastienbaudry/">Sebastien Baudry &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Guarnieri &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px">REFERÊNCIAS:</h2>



<p>Site agência brasil: <a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-07/oms-uma-em-cada-seis-pessoas-no-mundo-e-afetada-pela-solidao?utm_source=chatgpt.com">OMS: uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão | Agência Brasil</a></p>



<p>Site CNN Brasil: <a href="https://www.cnnbrasil.com.br/saude/solidao-causa-quase-1-milhao-de-mortes-por-ano-diz-oms/?utm_source=chatgpt.com">Solidão causa quase 1 milhão de mortes por ano, diz OMS | CNN Brasil</a></p>



<p>Site do Governo&nbsp; federal: <a href="https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/setembro/anualmente-mais-de-700-mil-pessoas-cometem-suicidio-segundo-oms?utm_source=chatgpt.com">Anualmente, mais de 700 mil pessoas cometem suicídio, segundo OMS — Ministério da Saúde</a></p>



<p>Site do Tribunal de justiça do distrito federal: <a href="https://www.tjdft.jus.br/informacoes/programas-projetos-e-acoes/pro-vida/dicas-de-saude/pilulas-de-saude/setembro-amarelo-2025-se-precisar-peca-ajuda?utm_source=chatgpt.com">Setembro Amarelo 2025: se precisar, peça ajuda! — Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios</a></p>



<p>Holt-Lunstad, J., Smith, T. B., Baker, M., Harris, T., &amp; Stephenson, D. (2015). <em>Loneliness and social isolation as risk factors for mortality: A meta-analytic review.</em> Perspectives on Psychological Science, 10(2), 227–237.</p>



<p>Hajek, A., &amp; König, H.-H. (2023). <em>Prevalence and correlates of loneliness and social isolation: A systematic review and meta-analysis.</em></p>



<p>Wang, J., Jiao, D., Zhao, X., et al. (2025). <em>Childhood Loneliness and Cognitive Decline and Dementia Risk in Middle-Aged and Older Adults.</em> JAMA Network Open, 8(9), e2531493.</p>



<p>Zeas-Sigüenza, A., Voldstad, A., Ruisoto, P., et al. (2025). <em>Loneliness as a Public Health Challenge: A Systematic Review and Meta-Analysis to Inform Policy and Practice.</em> European Journal of Investigation in Health, Psychology and Education, 15(7), 131.</p>



<p>DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. <em>Claro enigma</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2012</p>



<p>JUNG, Carl Gustav, <em>A prática da psicoterapia</em>. 16/1 Obra Completa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p>_________,&nbsp;Memórias, sonhos, reflexões.&nbsp;31 ed.Rio de Janeiro, rj:&nbsp;Nova Fronteira,&nbsp;2016.</p>



<p>_________, <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 9/1 Obra Completa. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016a.</p>



<p>_________, <em>Tipos psicológicos</em>. 6 Obra Completa. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p>WALDINGER, Robert J.; SCHULTZ, Marc. <em>A boa vida: lições do estudo científico mais longo sobre a felicidade</em>. Rio de Janeiro: Sextante, 2023.</p>



<p><em>Videos:</em></p>



<p>Solidão que nada: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=yF13CeJsrFY">Solidão Que Nada</a></p>



<p>Hola Soledad: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=AB5dlQUaSfo">https://www.youtube.com/watch?v=AB5dlQUaSfo</a></p>



<p>Ma solitude: https://www.youtube.com/watch?v=h9-OzSzCDWo</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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