No Oscar 2026, o thriller político brasileiro sobre a ditadura, O Agente Secreto, não levou a estatueta de Melhor Filme Internacional. Quem venceu foi Valor Sentimental (Affeksjonsverdi), drama norueguês dirigido por Joachim Trier. O filme acompanha o reencontro de duas irmãs com o pai após a morte da mãe. A trama, de alcance universal, é uma verdadeira aula sobre como lidar com as marcas deixadas pelas separações conjugais.
Era uma vez uma família
Como muitos brasileiros, eu torcia pelo filme nacional, O Agente Secreto, que já havia assistido e apreciado no cinema. No entanto, foi Valor Sentimental que conquistou o prêmio. Como já não estava mais em cartaz perto de casa, recorri ao streaming — e me surpreendi com a qualidade e a sensibilidade da narrativa.
Jung, por exemplo, enfatizava mais a importância do processo psicoterapêutico nos pais do que nos filhos. No livro A Vida Simbólica, tomo 2, ele diz:
A maioria das neuroses origina-se de uma atitude psicológica errônea que impede a adaptação ao ambiente ou às próprias necessidades do indivíduo. Esta posição psicológica errada, que está na raiz de quase toda neurose, foi construída via de regra durante o correr dos anos e muitas vezes começou na infância, como consequência de influências familiares incompatíveis.
Sabendo disso, Mrs. Evans deu especial atenção à atitude mental dos pais e sua importância para a psicologia da criança. Facilmente a gente esquece o grande poder de imitação das crianças. Os pais contentam-se com a crença de que uma coisa escondida da criança não pode influenciá-la.
Esquecem-se de que a imitação infantil está menos voltada para a ação dos pais do que para a disposição mental deles e da qual se origina a ação. Já observei várias vezes crianças que foram particularmente influenciadas por certas tendências inconscientes dos pais e, nesses casos, aconselhei o tratamento da mãe em vez do tratamento da criança. Pelo esclarecimento dos pais, pode-se ao menos evitar sua influência perniciosa e prevenir as neuroses futuras nas crianças.”
(Jung, OC18/2, par. 1793).
Neste drama familiar, a história se desenrola, em grande parte, em uma casa norueguesa que pertence à família do protagonista, Gustav (interpretado com delicadeza por Stellan Skarsgård), desde o tempo de seu tataravô. O cenário remete à bela obra A Família (La famiglia, 1987), do cineasta italiano Ettore Scola (1931–2016), na qual a casa também funciona como guardiã das memórias e dos afetos.
Foi ali que Gustav viveu com sua família: a esposa, Sissel — psicoterapeuta —, e as filhas Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas). Como em tantas histórias reais, o fim do casamento é conturbado. Após a separação, Gustav se dedica à carreira de cineasta e deixa a Noruega. Sissel permanece na casa, onde cria as filhas, que crescem com a presença ausente do pai.
Um aspecto relevante — e bastante comum — é que o divórcio nunca é formalizado. A ausência de um encerramento claro impede a elaboração do fim da relação, deixando pendências materiais e emocionais em suspenso, como a própria escritura da casa.
Com a morte de Sissel, Gustav retorna inesperadamente, trazendo consigo o projeto de um novo filme. Em sua fantasia, parece acreditar que a obra será capaz de reunir e reconciliar a família.
As filhas, no entanto, viveram a separação de maneiras distintas. Nora, a mais velha, carrega marcas mais profundas: ressentida com o pai, torna-se atriz de teatro — justamente a linguagem que ele despreza. Sofre crises de pânico antes de entrar em cena e tem dificuldade em estabelecer vínculos afetivos saudáveis, como se vê em seu envolvimento com Jakob, um ator casado que, mesmo após se divorciar, não assume a relação.
Agnes, por sua vez, construiu uma vida mais estável. Historiadora, é casada e mãe de Erik. É por meio do neto que Gustav tenta, ainda que indiretamente, reconstruir vínculos, incluindo-o em seu projeto cinematográfico. Agnes, no entanto, recusa: quando criança, também participou de um filme do pai, acreditando que a atenção recebida durante as filmagens se prolongaria na vida real — o que não aconteceu.
À medida que as irmãs lidam com o retorno do pai, torna-se evidente que Gustav também carrega suas próprias feridas. O filme que deseja realizar narra a história de sua mãe, Karin, integrante da resistência norueguesa durante a ocupação nazista. Torturada, ela nunca conseguiu elaborar o trauma e acabou tirando a própria vida quando Gustav tinha apenas sete anos.
Movida pela presença do pai, Agnes passa a investigar a história da avó no acervo do Arquivo Nacional da Noruega, aprofundando sua compreensão sobre o sofrimento vivido por aquela geração.
Para filmar na casa da família e recriar a cena do suicídio, Gustav deseja que Nora interprete Karin. Ela se recusa até mesmo a ler o roteiro. Diante disso, ele contrata a atriz americana Rachel Kemp (Elle Fanning), cujo prestígio viabiliza o financiamento do projeto. Sensível à situação, Rachel percebe que o papel foi escrito para Nora e decide se retirar.
Se você ainda não assistiu ao filme e pretende fazê-lo, talvez seja melhor interromper a leitura aqui.
Para quem já viu, o desfecho é delicadamente surpreendente e revela a potência da “reencenação consciente” como possibilidade de elaboração psíquica. Nora assume o papel da avó, Karin, e encena a despedida de Erik, que interpreta o jovem Gustav. Ao retornar para dentro da casa, dirige-se ao quarto. Erik volta rapidamente — esqueceu o celular, numa atualização contemporânea da cena — e sai novamente. O banquinho, símbolo do gesto extremo da avó, permanece em cena.
Então, ouvimos: “Corta!”.
Nora olha para o pai. Não há abraços nem reconciliações efusivas, mas há algo essencial: a satisfação silenciosa de terem conseguido realizar algo juntos. As feridas permanecem, mas o olhar de Nora sugere que houve reparação — suficiente para que a relação entre pai e filha, e a própria vida, possam seguir.
Terá sido suficiente? Não sabemos.
Em A prática da psicoterapia, contudo, Jung vai usar a metáfora do jardineiro – ou do profissional de psicologia analítica no caso – como peça fundamental do processo:
Por estranho que pareça, a cada fase da evolução da nossa psicologia pertence algo de definitivo. Na catarse, que faz despejar tudo até o fundo, somos levados a crer: pronto, agora tudo veio à tona, tudo saiu, tudo ficou conhecido, todo medo foi vivido, toda lágrima derramada, daqui para a frente tudo vai correr às mil maravilhas. Na fase do esclarecimento, diz-se com a mesma convicção: agora sabemos o que provocou a neurose, as reminiscências mais remotas foram desenterradas, as últimas raízes extirpadas, e a transferência nada mais era do que uma fantasia para satisfazer um desejo paradisíaco infantil, ou uma retomada do romance familiar; o caminho para uma vida sem ilusões está desimpedido, aberta a via da normalidade. A educação vem por fim, e mostra que uma árvore que cresceu torta não endireita com uma confissão, nem com o esclarecimento, mas que ela só pode ser aprumada pela arte e técnica de um jardineiro. Só agora é que se consegue a adaptação normal.
(Jung, OC16/1, par. 153).
O filme mostra, em essência, o caminho da análise: as marcas do indivíduo permanecem, o que muda é a maneira com que ele lida com estas marcas e a autonomia destas marcas na vida dele. Em outras palavras, o complexo não deixa de existir, mas deixa de estar atuante de forma invasiva e patológica.
Monica Martinez – Analista em formação IJEP
Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP

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