Resumo: Neste artigo abordo como o adoecimento e a fragilidade da figura paterna podem nos convocar a uma profunda reflexão. Diante dessa experiência, a vida pode impor uma inversão de papéis, exigindo que a experiência psíquica internalizada do complexo paterno seja revisitada, abrindo-se a possibilidade de sua reconfiguração por meio do confronto com seus aspectos sombrios e da integração de seus diferentes polos. Assim, pode-se estabelecer uma relação mais madura, consciente e real com o pai que agora se apresenta — não mais sustentado apenas pela imagem idealizada do passado, mas reconhecido em sua condição humana, limitada e frágil.
O que aprendemos quando vemos nossos pais adoecerem, quando os percebemos nos deixar a cada instante e os sentimos cada vez mais distantes, mesmo quando os cuidados exigem nossa maior proximidade?
No meu caso, aquele homem forte, austero e cheio de opinião vai, a cada final de semana quando o visito, se afastando da imagem que um dia habitou meu mundo. Diante de sua fragilidade crescente, em silêncio, me pergunto: onde será que você está?
Eis que aqui me deparo com a constatação de que o pai internalizado hoje é diferente do pai real que agora se apresenta e me vejo obrigada a rever a experiencia psíquica do pai em mim.
Essa reflexão pode ser ampliada com base na Psicologia Analítica com os conceitos de inconsciente pessoal e inconsciente coletivo definidos por Carl G. Jung. O inconsciente pessoal é aquela parte da psique que contém elementos que são apenas relativamente inconscientes, e, portanto, podem aflorar na consciência; ele abarca os complexos que são estruturas fundantes da psique humana, carregados de energia psíquica conforme os afetos que determinada interpretação da realidade mobiliza, são relativamente autônomos e compostos por um núcleo arquetípico (JUNG, 2013a).
Esse núcleo arquetípico compõe o inconsciente coletivo, assim como também os instintos. Para Jung o inconsciente coletivo seria “a camada mais profunda que conseguimos atingir na mente do inconsciente é aquela em que o homem “perde” a sua individualidade particular, mas onde sua mente se alarga mergulhando na mente da humanidade – não a consciência, mas o inconsciente, onde somos todos iguais”. Além disso, “os conteúdos do inconsciente coletivo não se encontram sujeitos a nenhuma intenção arbitrária, nem são manejáveis pela vontade” (JUNG, 2013a).
Portanto, a imagem de pai que construímos se estabelece a partir de padrões coletivos arquetípicos (núcleo) juntamente com a experiência psíquica individual que temos da figura paterna e, a partir dessas experiencias coletivas e individuais se configura a imagem psíquica de como aquela figura é e o que ela representa para nós, assim se estabelece o complexo paterno em cada um de nós.
Frente ao adoecimento de nossos pais podemos nos ver em reflexões do tipo: Como cuidar daquele que sempre cuidou de nós? Como se preocupar e zelar pela segurança daquele que sempre nos deixou seguros? Como proteger aquele que nos ensinou a nos proteger?
Em tais questionamentos observamos um padrão coletivo no qual a imagem paterna está arquetipicamente implicada ao cuidado, zelo, segurança e proteção, de forma que os aspectos sombrios dessa relação por vezes podem ter sido negados. E nesse momento talvez possamos fazer uma conversa com os dois lados desse complexo.
Jung (2016) no diz que não existe consciência sem diferenciação de opostos. Que nem o princípio materno nem o paterno podem existir sem o seu oposto, e a consciência só pode existir através do permanente reconhecimento do inconsciente e que toda vida tem que passar por muitas mortes.
Assim, a experiência de cuidado e proteção associada ao complexo paterno, ao se confrontar com a fragilidade e o adoecimento dessa figura, pode nos convocar a encarar sentimentos de medo, insegurança, desamparo e falta de proteção.
Pode parecer que falta chão, e na ausência dele talvez nos reste um mergulho de fato… A fragilidade que observamos sendo vivida por nossos pais nos toca e nos convoca ao inegociável confronto com a experiencia de vulnerabilidade, com os aspectos sombrios do complexo parental e a tarefa psíquica que se apresenta é reconhecer seus dois polos — luz e sombra — para que possam ser integrados à consciência.
E, já que toda vida tem que passar por muitas mortes, o pai da experiência psíquica da criança que foi internalizado precisará morrer e deve haver a aceitação do pai real que se apresenta e dessa nova figura que teremos que aprender amar em uma nova perspectiva.
Dessa forma, a experiência psíquica atual pode favorecer o abandono daquela imagem anteriormente incorporada, possibilitando a reconfiguração do complexo paterno.
Ao mesmo tempo, poderá permitir que o homem que agora se apresenta possa viver sua própria experiência de modo distinto daquela que sustentou por anos — muitas vezes em conformidade com as exigências e padrões coletivos de seu papel social. Então, acredito que o desafio seja buscar nos aprofundar nos aprendizados que essa fase pode nos trazer e nos perguntar: o que podemos aprender com o adoecimento e fragilidade de nossos pais?
Jung, na obra A Natureza da Psique, cita:
“[751] Cada um de nós espontaneamente evita encarar seus problemas, enquanto possível; não se deve mencioná-los, ou melhor ainda, nega-se sua existência. Queremos que nossa vida seja simples, segura e tranquila, e por isto os problemas são tabu. Queremos certezas e não dúvidas; queremos resultados e não experimentos, sem, entretanto, nos darmos conta de que as certezas só podem surgir através da dúvida, e os resultados através do experimento”
Ao nos afastarmos do sofrimento que o adoecimento de nossos pais desperta, não seria uma forma de evitar o confronto com nossos próprios conflitos — buscando a segurança das certezas em vez da inquietação das dúvidas? O que poderíamos experimentar se, ao invés disso, mergulhássemos na história de vida deles e ampliássemos simbolicamente a maneira como essas histórias dialogam com as nossas?
Quando a vida nos impõe a inversão de papéis e somos chamados a ocupar o lugar de cuidado que antes era de nossos pais, pode parecer que o ciclo se encerrou — que não há mais ensinamentos a receber. No entanto, qual é o significado simbólico de nos vermos diante dessa situação? O que a fragilidade deles desperta em nós psiquicamente?
Dentro de nosso olhar pode parecer não fazer sentido viver uma vida sem sentido, doente e dependente, mas para que valeria tal sacrifício? Qual seria o sentido do “sacro ofício” do adoecimento?
Na obra A Natureza da Psique, Jung nos diz que:
“O ser humano não chegaria aos setenta ou oitenta anos, se esta longevidade não tivesse um significado para a sua espécie. Por isto, a tarde da vida humana deve ter também um significado e uma finalidade próprios, e não pode ser apenas um lastimoso apêndice da manhã da vida”.
Longevidade vem de longevo — aquele que alcança idade avançada, que tende a durar muito tempo. No entanto, essa duração pode se dar tanto com saúde quanto com doença. E qual seria o sentido de uma vida longa atravessada pelo adoecimento?
Na citação acima podemos entender o contexto apenas na perspectiva de uma vida ainda saudável onde ainda há a possibilidade de realizações, mas a experiência da doença prolongada exige outra elaboração. Ela convoca o confronto com o limite, com a dependência e a sombra que acompanha o adoecimento e o envelhecimento.
Na reconfiguração do complexo parental a doença e a fragilidade, não se apresentam apenas como perda, mas como convite. Caberá a cada indivíduo mergulhar no significado dessa condição — e é nesse mergulho, movimento de descida, que pode se abrir um caminho para uma conexão mais profunda consigo mesmo.
Patricia Silva Cordeiro – Analista em Formação IJEP
Ajax Salvador – Analista Didata IJEP
Referências:
- JUNG, C. G. A Natureza da Psique. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013b
- JUNG C.G. Vida Simbólica. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.
- JUNG C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Edição digital. Petrópolis: Vozes, 2016.

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