Resumo: A individuação é o processo de tornar-se a si mesmo, tornar-se algo que não é apenas o ego, mas um processo de integração com aspectos inconscientes e um diálogo contínuo com o todo (Self). Tornar-se um indivíduo singular, tornar-se si-mesmo, tornar-se inteiro. O objetivo do yoga é caminhar em direção à alma e esse processo se dá a partir do olhar para dentro de si mesmo. O mesmo acontece no caminho da individuação quando o indivíduo vai de encontro com a alma, com o Self. Nesse sentido, o yoga apresenta paralelos com o processo de individuação, sendo dois meios que caminham para um mesmo fim: tornar-se a si-mesmo.
Minha experiência com o yoga e a Índia
Trago como inspiração para este tema minha própria experiência com o yoga. Desde muito cedo me interessei pela cultura oriental e sonhava em conhecer a Índia e o Tibet. Quando consegui realizar esse desejo não foi possível chegar até ao Tibet porque havia guerrilhas e era muito perigoso atravessar. Peço licença para contar uma história.
Meu primeiro contato com o yoga se deu através de um livro encontrado em um sebo no centro da cidade de Goiânia.
Sempre gostei de frequentar os sebos e vasculhar livros antigos. Nesse dia em especial me deparei com o livro Autobiografia de um Yogue de Paramahansa Yogananda. O levei pra casa comigo e mergulhei naquele universo mágico e encantador. A partir da experiência vivida através dessa leitura, mergulhei em outras referências sobre a Índia e o Tibet, bem como na cultura milenar desses povos. Suas práticas religiosas e filosóficas me encantaram.
Comecei a praticar hatha yoga nessa época. Tinha 17 anos e já havia ingressado na faculdade. Aos 21 anos, já formada, parti para viver na Inglaterra e continuar meus estudos. Após 5 anos fiquei sabendo de um mestre (Guru) recém-chegado da Índia em Londres. Decidi fazer seu curso de yoga. Qual foi minha surpresa ao saber que ele era um discípulo de Yogananda, aquele do livro que li aos 17 anos. Contei para ele sobre meu desejo de ir pra Índia e ele me convidou para ficar no seu Ashram (escola) em Bubaneshuar (cidade no estado de Orissa, Índia).
Vivi 8 meses na Índia e posso dizer que foi a experiência mais singular de toda a minha existência. Foi impossível não criar um triângulo comparativo entre Brasil, Índia e Inglaterra. Os extremos e o choque cultural me remetem à fala de Jung quando ele chegou à Índia. Ele conta no livro Civilização em transição (JUNG, 2022) que se sentiu melhor quando logo ao chegar em Bombain tomou um carro e seguiu para o campo.
A Índia é o mais belo caos!
Passei 4 meses no ashram praticando Kryia Yoga e trabalhando voluntariamente. Um lugar pobre, mas cheio de vitalidade. Visitávamos aldeias e assistíamos aos pujas (cerimônias de purificação com o fogo) nas casas dos aldeões. Belas mulheres trabalhavam na construção de suas próprias casas. Adornadas com seus piercings, pulseiras e saris coloridos.
A Índia é um mergulho profundo na lama interna e de fato não é para todos. Em Calcutá conheci a Madre Teresa de Calcutá, uma mulher doce, franzina, pequenininha, mas abundantemente dotada de amor universal. Conversou comigo como uma velha amiga e falou encantada sobre o trabalho da irmã Dulce no Brasil.
No norte da Índia numa cidade chamada Daramsala, aos pés do Himalaia passamos três meses à espera do Dalai Lama do Tibet. Caminhar pelas montanhas, observar o povo local em suas palafitas. Contrastes magníficos de cores, crenças e saberes. Templos budistas onde podíamos assistir palestras gratuitamente…
Definitivamente o povo budista é o mais gentil e feliz que já conheci… O encontro com o Dalai Lama do Tibet foi tão doce e gentil quanto o encontro com a Madre Tereza. Essa jornada me remete ao processo de ascensão dos chacras que Jung aproximou ao processo de individuação.
Assim, para Jung, a “descoberta” ocidental do Oriente constituiu um capítulo crítico na “descoberta” do inconsciente coletivo. A interpretação psicológica de Jung se baseia no pressuposto de que a ioga kundalini representava uma sistematização da experiência interior que se apresentava espontaneamente no Ocidente. (JUNG, 2022, p. 62)
O olhar de Jung sobre o yoga
Durante três meses Jung viajou pela Índia em motivo de convite do governo britânico para participar das comemorações dos 25 anos da Universidade de Calcutá, onde foi homenageado como Doutor Honoris Causa. Durante esse período ele observou a cultura local e o yoga, especialmente a kundalini yoga que tem em sua prática meditativa a percepção dos chacras básicos.
Na visão de Jung, os processos internos suscitados pela ioga eram universais e os métodos particulares para alcançá-los eram culturalmente específicos.
Para Jung a ioga representava um rico armazém de descrições simbólicas da experiência interior e dos processos de individuação em particular. Ele afirmou que:
“foram trazidos à luz importantes paralelos com a ioga [e com a psicologia analítica], especialmente com a ioga kundalini e com a simbólica tanto da ioga tântrica do lamaísmo quanto da ioga taoista da China. Estas formas de ioga e seu rico simbolismo nos forneceram materiais comparativos preciosíssimos para a interpretação do inconsciente coletivo”. (JUNG, 2022, p. 39)
No livro Memórias, Sonhos e Reflexões, Jung ao tratar de seu confronto com o inconsciente no contexto da Primeira Guerra Mundial (JUNG, 2022, p. 32), diz recorrer aos exercícios de yoga para desligar-se das emoções. Há uma passagem de entrevista com Fowler McCormick, em que Jung ainda destaca como estratégia para períodos de grande estresse a prática de deitar-se de costas, permanecendo em repouso e respirando tranquilamente (JUNG, 2022, p. 32).
Esse relato de Jung nos remete ao yoganidra; uma prática em que ao final das aulas de yoga nos deitamos com braços e pernas afastados em entrega e abandono trazendo a atenção à respiração abdominal. Neste contexto, vamos nos desconectando da necessidade de sustentar o peso do corpo.
Nesse processo de entrega e abandono vamos aos poucos permitindo que o solo absorva não apenas o peso do corpo, mas também pensamentos e sentimentos desnecessários. Respirando lenta e profundamente encontramos conforto e relaxamento profundo.
Na Preleção 1, realizada em 12 de outubro de 1932, transcrita no livro A psicologia da ioga kundalini, Jung aborda os Chacras; centros de energia, vitalidade e consciência.
O primeiro chacra é chamado de muladara, o chacra raiz, básico, de conexão com a terra e com as necessidades básicas do ser humano. Onde dorme o si-mesmo. Aqui Jung diria que os deuses ainda dormem. A kundalini está em sono profundo. O muladara é a terra em que nos apoiamos. Aqui somos vítimas dos impulsos, reféns dos instintos do inconsciente.
O segundo chacra é swadhistana, seu elemento simbólico é a água, seu animal é um monstro marinho terrível. Jung compara o contato desse centro com o oceano do inconsciente coletivo. O confronto com o monstro que ameaça nos aniquilar. Para Jung, o simbolismo do segundo chacra é amplamente encontrado no motivo mitológico do batismo nas águas (JUNG, 2022, 123). Ele comenta que, em oposição à cultura indiana, devemos entrar em análise ao invés de confrontar o monstro que ameaça nos aniquilar (JUNG, 2022, p. 96). Então no segundo chacra acontece o primeiro movimento da kundalini. Em outras palavras, a primeira conversa com o inconsciente. A partir desse mergulho é de se esperar um renascimento para uma nova vida, uma manifestação de luz e vitalidade que nos encaminha para o próximo chacra.
O terceiro chacra, Manipura, é o início de uma relação com Deus, fonte de luz e clareza.
Significa a plenitude das joias (JUNG, 2022, 123). É um símbolo de riqueza, de uma nova fonte de energia simbolizada pelo fogo e pelo sol. Aqui começa alguma experiência consciente. Paixões são identificadas, o fogo digestivo começa a transformar os elementos (fogo alquímico).
O quarto chacra é o anahata, o chacra do coração, representado pelo elemento ar.
Chegar aqui significa respirar livremente pela primeira vez, elevar-se das correntes do inconsciente e das emoções. Em outras palavras, se vislumbra o começo do processo de individuação. O indivíduo reconhece uma forma mais elevada de diferenciação e individualidade.
É o afastar-se das emoções; a pessoa não se identifica mais com elas. Se alguém consegue lembrar-se de si mesmo, se consegue fazer uma diferença entre ele e essa explosão de paixões, ele descobre o si-mesmo; ele começa a individuar-se. Portanto, no anâhata começa a individuação. Mas aqui de novo existe a probabilidade de sofrer uma inflação.
A individuação não significa a pessoa tornar-se um eu – neste caso ela se tornaria um individualista.
Como vocês sabem, um individualista é um homem que não teve sucesso na individuação; ele é um egoísta filosoficamente depurado. A individuação consiste em tornar-se aquilo que não é o eu, e isto é muito estranho. Por isso, ninguém compreende o que é o si-mesmo, porque o si-mesmo é apenas aquilo que a pessoa não é, aquilo que não é o eu. O eu descobre que ele é um mero apêndice do si-mesmo numa espécie de conexão solta. Porque o eu está sempre bem lá embaixo no mûlâdhâra e, de repente, se torna consciente de algo situado acima no quarto andar, no anâhata, e isto é o si-mesmo. (JUNG, 2022, p. 138)
Vishudha, o quinto chacra, é destacado por Jung como símbolo da etapa do desenvolvimento da personalidade.
A realidade psíquica é confrontada com a realidade física, sendo uma esfera de abstração ainda mais refinada do que no chacra do coração. Na sequência, chegamos ao ajna chacra, o sexto chacra. Aqui os deuses não dormem mais, estão plenamente acordados. Ajna é o centro da unio mystica com o poder de Deus, onde o indivíduo é pura realidade psíquica confrontando com a realidade de que o indivíduo não é Deus. Por todo esse caminho temos que ter muito cuidado para não inflacionar. Manter a humildade para manter a sanidade.
Por último, chegamos no domínio do sétimo chacra, o sahashara chacra, em que o indivíduo é um com a natureza: a psique coletiva de Deus. Neste momento há um grande risco à integridade da personalidade, se dominado por maya (ilusão), o indivíduo pode se separar da realidade e apresentar sintomas esquizoides. Por esta razão, Jung alertava sobre o perigo de ascender a kundalini. Entretanto, em equilíbrio essas pessoas têm potencial para alcançar a libertação das amarras e vivenciar a unidade com o cosmos e o espírito. Neste sentido, somos esse vaso alquímico que contém a possibilidade de se transformar e evoluir num contínuo processo de individuação.
Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por individualidade entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo. (JUNG, 2013a, § 266)
A jornada da alma
A jornada da alma, segundo Jung, é o lento e inevitável processo de individuação — a realização do Self, centro e totalidade psíquica que transcende o ego. No Yoga, a palavra yuj — unir — aponta na mesma direção: a reintegração da consciência fragmentada em uma unidade maior, que inclui e transcende o eu pessoal. Ambas as vias, ocidental e oriental, são caminhos de retorno ao todo, expressões simbólicas de um mesmo impulso arquetípico: o anseio da alma por completude.
No pensamento junguiano, o Self é o arquétipo da totalidade, imagem de Deus no ser humano (Imago Dei). Em Aion, Jung afirma que o Self “abrange tanto o consciente quanto o inconsciente, sendo o centro regulador da psique total” (JUNG, 2011, §60, p.46). No Yoga, encontramos o mesmo princípio na noção de Purusha, a consciência pura que observa, silenciosa e intocada, os movimentos da mente (citta). Assim como o Self, o Purusha não é o ego, mas aquilo que o contém — a testemunha imóvel por trás das flutuações da consciência.
Neste caminho junguiano, há ainda o encontro com a sombra, um rito de passagem. É preciso descer às regiões mais obscuras da psique para que a luz do Self possa emergir. No Yoga, esse processo se reflete no conceito de kleshas — as impurezas mentais e emocionais que obscurecem a visão do real. Enquanto o Yoga busca queimar as impurezas pelo fogo da prática (tapas), Jung convida ao confronto consciente com aquilo que rejeitamos em nós mesmos. Ambos compreendem que a totalidade só nasce da aceitação dos opostos — “não há luz sem sombra, nem totalidade sem imperfeição” (JUNG, 2011).
O diálogo entre Jung e o Yoga não é uma fusão, mas um espelho.
O primeiro oferece à experiência oriental uma linguagem psicológica que traduz seus símbolos em processos psíquicos. O segundo recorda à psicologia que o conhecimento da alma exige também corpo, respiração e presença. Ambos apontam para a experiência do Ser que é ao mesmo tempo íntimo e universal, pessoal e cósmico. Individuar-se é, em última instância, unir o humano e o divino dentro de si e assim também é o yoga.
Namastê!
Andreia Guiotti di Gregório – Membro Analista em Formação pelo IJEP
Dra E. Simone Magaldi – Membro Analista Didata do IJEP
REFERÊNCIAS:
JUNG, C. G. A Psicologia da Ioga Kundalini. Petrópolis: Vozes, 2022.
__________ Civilização em Transição (CW 10). Petrópolis: Vozes, 2012.
__________ Memórias, Sonhos e Reflexões. Rio de Janeiro: Vozes, 2016.
__________ O Eu e o Inconsciente (CW 7). Petrópolis: Vozes, 2013a.
__________Aion : Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo (CW 9/2). Petrópolis: Vozes, 2011.
__________ Estudos Alquímicos (CW 13). Petrópolis: Vozes, 2013b.
__________ Psicologia e Religião Oriental (CW 11/5). Petrópolis: Vozes, 2012.
__________ O Livro Vermelho. Petrópolis: Vozes, 2013c.
PATAÑJALI. Yoga Sutras de Patañjali. Tradução de Carlos Eduardo Barbosa. São Paulo: Pensamento, 2017.
YOGANANDA, Paramahansa. Autobiografia de um Iogue. 3. ed. São Paulo: Self-Realization Fellowship, 2016.

