Uma discussão sobre a exaustão contemporânea, a partir de uma leitura simbólica do mito de Dionisio, articulando as contribuições de Carl Gustav Jung e Rafael López-Pedraza. Argumenta-se que a sociedade moderna, marcada pela produtividade, racionalização excessiva e autocontrole, favorece a hipertrofia de um funcionamento “titânico”, que distancia o sujeito de seu corpo, de seus afetos e de sua vitalidade. Propõe-se o encontro simbólico com a imagem de Dionisio, através de práticas que restauram a presença e o prazer sem tempo nas atividades cotidianas e funcionam como vias simbólicas para reconectar o sujeito à vitalidade dionisíaca, favorecendo a circulação da energia psíquica e a harmonia entre adaptação externa e vida interior.
A contemporaneidade revela um predomínio de valores titânicos, como o excesso de produtividade, controle, racionalização e uma forma de força desvinculada do corpo. Essa hegemonia produz uma consciência unilateral patológica, que restringe o fluxo da energia psíquica, causando sintomas como esgotamento, perda de entusiasmo e falta de sentido.
Nesse artigo proponho a reflexão sobre como os excessos titânicos bloqueiam nossa vitalidade e como a figura de Dionisio pode oferecer uma via simbólica para o restabelecimento do fluxo harmônico da energia psíquica e a possível retomada da vitalidade.
A sociedade moderna parece estar vivendo em um vasto campo de exaustão, corpos sobrecarregados, mentes saturadas e sensibilidades anestesiadas. Produzimos incessantemente, mas criamos pouco. Corremos sem pausa.
A pergunta que ressoa é simples e urgente: onde está Dionisio?
A dimensão dionisíaca é aquela que celebra a vida, o corpo, o prazer e o mistério. A resposta não é externa: ela ecoa dentro de nós, onde o deus se encontra exilado.
Rafael López-Pedraza (2002) elucida a imagem de Dionisio como o deus do vinho, da loucura e do êxtase, mas também como aquele que toca a proximidade com a morte, com o corpo psíquico e com o corpo emocional, por isso, é um dos deuses mais reprimidos na cultura ocidental.
Dionisio é associado a dimensões que não se ajustam ao modelo racional, produtivo e performático predominante na atualidade. Para o autor, quando Dioniso é exilado, algo essencial na alma perde o solo, e o indivíduo se desconecta de suas próprias fontes de vida.
Na psicologia analítica, as mitologias são os registros das expressões da alma e os deuses são forças vivas na psique, modos de energia que estruturam e expressam a totalidade humana. Quando uma figura arquetípica é banida do campo da consciência, torna-se sombria.
Para compreender esse cenário de fadiga coletiva, perda de entusiasmo e empobrecimento da vitalidade, um olhar simbólico ao mito de Dionisio se torna necessário.
De acordo com o hino órfico,
“Com Perséfone, a rainha do mundo subterrâneo, Zeus teve um filho, Dionísio-Zagreu. O pai tinha a intenção de que o menino dominasse o mundo, mas os titãs o seduziram com brincadeiras e o prenderam para esquartejá-lo e devorar seus membros. Atena, no entanto, resgatou o seu coração e o levou a Zeus, que o comeu. De Zeus nasceu, então, um novo Dionisio, o filho de Sêmele. Zeus abateu os titãs com seu raio vingador e os reduziu a cinzas. Destas cinzas foi formado o homem, e por isso contém em si mesmo uma parte divina proveniente de Dionisio e uma parte oposta, procedente de seus inimigos, os titãs.” (NILSSON, 1949, apud LÓPEZ-PEDRAZA, 2002, p.10)
Segundo López-Pedraza (2002, p. 11):
“Na concepção órfica do mito, Dionísio e os titãs são os protagonistas: duas forças personificadas – a dionisíaca e a titânica – e em oposição dentro da natureza humana. Esta natureza contém uma porção de Dionísio e outra dos titãs; são forças que podem ser percebidas tanto nos níveis internos quanto nos externos da realidade: o divino Dionisio em conflito com as forças titânicas.”
O mundo moderno exalta produtividade, eficiência, racionalização e autocontrole, valores que, ao se tornarem hegemônicos, criam uma unilateralidade excessiva na consciência. Para Jung, a vida é formada por antinomias e constituída de maneira paradoxal. Enquanto algo na consciência é dominante, a sua contraparte complementar reside no inconsciente.
Essa tensão entre opostos é natural, desde que não se torne excessivamente unilateral. Quando isso acontece, a energia psíquica tende a regredir, acumulando-se em um dos pólos e gerando sintomas que podem se manifestar de várias formas. Isso acontece quando a energia psíquica não circula adequadamente e exclui dimensões internas da experiência, como a imaginação, o corpo, o prazer, a sensorialidade e os afetos.
Sempre que a vida psíquica é unilateralmente dirigida, a outra parte, a que é excluída, ganha força e retorna sob forma compulsiva ou sintomática. López-Pedraza (2002) relaciona essa dinâmica com o modo titânico de funcionamento humano moderno, caracterizado pelo excesso, pela racionalização extrema e pelo desligamento do corpo.
A desconexão do corpo na atualidade, sendo uma consequência direta do predomínio titânico, manifesta-se como um afastamento da experiência sensível, da afetividade e do ritmo orgânico da vida. Para o autor, o sujeito contemporâneo vive numa espécie de “corpo ausente”, um corpo funcionalizado, controlado, submetido a metas e aceleração, mas incapaz de sentir. Esse esvaziamento corporal não é apenas um fenômeno cultural, corresponde, na visão da psicologia analítica, a uma dissociação profunda entre consciência e instinto.
Encontramos em Jung:
“.…Sem dúvida alguma a autonomia e autarquia da consciência representam qualidades sem as quais esta última não existiria; no entanto, tais qualidades podem constituir também um perigo de isolamento e de aridez, por criarem uma alienação insuportável do instinto, resultante da cisão entre consciência e inconsciente. Esta perda de instinto é fonte de infindáveis extravios e confusões.” (JUNG, 2012, §174, grifos do autor)
Jung compreende que o instinto é portador de energia psíquica e de orientação vital. Quando ele é reprimido ou negligenciado, a energia deixa de circular de maneira espontânea e se converte em tensão, ansiedade, compulsões ou exaustão.
A unilateralidade titânica, excessivamente racional, produtivista e orientada ao desempenho, rompe a ponte natural entre psique e corpo, produzindo um estado de alienação somática que empobrece a vitalidade.
Enquanto os excessos titânicos amputam a sensorialidade e transformam o corpo em mero instrumento, Jung aponta que é justamente no reconhecimento do corpo e de seus impulsos que a energia psíquica se renova. Sobre o movimento saudável da energia psíquica, o autor afirma:
“…A pessoa humana não é uma máquina no sentido de poder ter um rendimento de trabalho constante, mas ela só pode corresponder de forma ideal à necessidade externa se também estiver ajustada ao seu próprio mundo interno, isto é, se estiver em harmonia consigo mesma. E, inversamente, ela só pode ajustar-se a seu próprio mundo interno e alcançar a harmonia consigo mesma se também estiver adaptada às condições do ambiente. O descuidar de uma ou outra dessas funções só pode ocorrer temporariamente, como mostra a experiência: se só se realiza uma adaptação unilateral ao mundo exterior, por exemplo, deixando de lado o mundo interior, pouco a pouco um aumento do valor das condições internas vai se tornando perceptível, através de uma irrupção de elementos pessoais na adaptação externa.” (JUNG, 2013, §75)
Dessa forma, a necessidade de adaptação externa no contexto da sociedade capitalista, quando hipertrofiada, produz um distanciamento da alma; e é justamente nesse ponto que, como lembra Jung, a regressão emerge como uma força psíquica que confronta a consciência com os conteúdos internos que foram negligenciados, a fim de restabelecer a reciprocidade entre mundo exterior e mundo anímico.
“Porque a regressão ativa um fato inconsciente, ela faz com que a consciência se defronte com o problema da alma, diante do problema da adaptação externa. É natural que a consciência resista à aceitação dos conteúdos regressivos, mas ela será finalmente obrigada a submeter-se àqueles valores regressivos porque a progressão fica impossibilitada; em outras palavras: a regressão leva à necessidade de adaptação à alma, ou seja, ao mundo psíquico interior.” (JUNG, 2013, §66)
Na perspectiva da psicologia analítica, é possível afirmar que a imagem de Dionísio mobiliza conteúdos instintivos e corporais. Como representante de um arquétipo, revela um padrão estruturante do inconsciente coletivo vinculado à vitalidade, ao afeto e à esfera pulsante da psique.
Quando essa imagem é constelada e o ego consegue se relacionar de forma simbólica, inicia-se um movimento interno capaz de restaurar o fluxo da energia psíquica, favorecendo a retomada da vitalidade.
É possível favorecer o reencontro com a dimensão dionisíaca, não com ações que se orientam por performance, mas pela restauração da presença e da sensorialidade.
Práticas criativas espontâneas, movimentos corporais livres, dança e ações cotidianas realizadas com respeito ao tempo lento da alma; prazer sem pressa, deixar fluir e viver o momento funcionam como vias simbólicas para a expressão do corpo emocional.
Ao permitir que o sujeito entre em contato com ritmos internos menos subordinados ao ideal produtivista, essas atividades criam condições para que a energia psíquica recupere seu fluxo e sua vitalidade.
Evocar Dionisio e suas imagens é, sobretudo, lembrar que a psique carece de narrativas que a toquem onde o discurso lógico não alcança. A figura do deus, sempre em movimento, à beira entre a vida e a morte, atua como um símbolo capaz de reabrir passagens internas que a consciência moderna exclui em nome da eficiência.
Jung observa que os símbolos vivos organizam o fluxo da energia psíquica, devolvendo ao sujeito aquilo que a unilateralidade titânica devora; e López-Pedraza ressalta que Dionisio insiste em se manifestar no corpo, na emoção e no pulsar sensível da vida. Nesse sentido, o convite é que cada leitor reconheça, em si, a presença e autonomia de Dionisio vivo, e permita que ele reanime a vitalidade que a cultura contemporânea tantas vezes consome.
Paula Chiavone – Analista em formação pelo IJEP
José Balestrini – Analista didata pelo IJEP
Referências:
JUNG, C.G. Psicologia e Alquimia. 6ª ed. Petrópolis: Vozes, 2012.
______ A energia psíquica. 14ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
LÓPEZ-PEDRAZA, Rafael. Dionisio no exílio: sobre a repressão da emoção e do corpo. 1ª ed. São Paulo: Paulus, 2002.

