“Quem conta um conto, aumenta um ponto.”
Sabedoria Popular
“A vida em si é o conto de fadas mais maravilhoso.”
Hans Christian Andersen
Resumo: Este texto propõe uma análise simbólica do conto “A Rainha da Neve” (1844), de Hans Christian Andersen, sob a perspectiva da psicologia analítica de C. G. Jung. A narrativa da amizade entre Kay e Gerda interrompida pela ação do espelho de Hobglobin e pela sedução gélida da Rainha da Neve, é interpretada como metáfora da dinâmica psíquica marcada pela unilateralidade do Logos dissociado do Eros. O congelamento de Kay representa a fixação da consciência masculina em uma atitude racionalista e crítica , que, ao perder a mediação da anima, transforma-se em frieza, ceticismo e esterilidade da alma. O conto evidencia que a desconexão entre Logos e Eros gera adoecimento psíquico, enquanto sua integração abre caminho para a totalidade e o sentido da vida.
O estudo em questão pretende tratar da desconexão entre Eros (princípio feminino) e Logos (princípio masculino) como desencadeadora do ceticismo e desfavorável ao processo de individuação, a partir da análise simbólica do conto de fadas: A Rainha da Neve, de Hans Christian Andersen.
Segundo Marie Louise Von Franz:
“Os contos de fada são a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo. Consequentemente, o valor deles para a investigação científica do inconsciente é sobejamente superior a qualquer outro material. Eles representam os arquétipos na sua forma mais simples, plena e concisa.” (FRANZ, 1990, pág.01)
A partir da premissa da representação arquetípica dos Contos de Fadas, é que aprofundarei na narrativa, que se passa na cidade de Snedronnigungen, na Dinamarca e conta a história de Gerda e Kay, a partir da magia de Hobglobin – um espírito perverso.
Hobglobin é um termo muito usado em contos antigos populares para descrever um espírito maligno que lembra um goblin ou um duende, e ele, como um bom pregador de peças, inventou um espelho mágico.
Por meio desse objeto, todas as coisas boas e belas nele refletidas encolhiam até sumir. Já as coisas ruins e inúteis se destacavam e pareciam piores. Em síntese, o espelho refletia distorcidamente o mundo e a humanidade.
Hobglobin, por sua vez, possuía uma escola, em que treinava seus aprendizes nas suas táticas pouco ortodoxas. Frente à invenção do espelho seus aprendizes corriam com ele em mãos, com o objetivo de pregar peças nas pessoas. Zombavam de todos com as distorções, e assim, passaram um bom tempo se divertindo. Num determinado momento, decidiram que subiriam até os anjos para deles zombar, quando então, na subida, o espelho caiu na Terra, partindo em bilhões de pedaços. Os pedaços eram minúsculos, como grãos de areia, e acabaram entrando nos olhos das pessoas, distorcendo o que elas viam ou fazendo-as perceber coisas não notadas.
Algumas pessoas tiveram um estilhaço minúsculo do espelho cravado no coração, transformando-o em um pedaço de gelo.
A partir de então, se apresenta uma alteração profunda no modo do indivíduo ver e sentir o mundo: o olhar torna-se enviesado, e o coração, congelado. Essas condições impactam diretamente a vida de Kay e Gerda.
Kay e Gerda eram duas crianças vizinhas, inseparáveis e cheias de afeto. Viviam entre jardins e brincadeiras, cultivando uma amizade marcada pela inocência e pela pureza da infância. Essa harmonia, porém, se rompe quando um fragmento do espelho mágico de Hobglobin entra no olho e no coração de Kay.
Kay, que era um garoto gentil, divertido e afetuoso, vai se transformando a partir do fragmento do espelho e passa a se deslumbrar com o poder, a desenvolver uma arrogância e um ar de superioridade que passa a distanciá-lo da realidade doce que experimentava. Kay vai se tornando frio, insensível e cético.
É nesse estado que ele é seduzido pela Rainha da Neve, uma figura majestosa e gélida, que o leva em seu trenó deslumbrante para o seu castelo de gelo.
Lá, Kay permanece aprisionado, entregue a um Logos unilateral e congelado, incapaz de sentir amor ou compaixão e vai se perdendo de si.
Gerda, inconformada com a perda do amigo, decide buscá-lo. Sua jornada, porém, é longa e repleta de provações: ela passa por jardins encantados que tentam fazê-la esquecer de sua missão, encontra princesas e corvos que lhe oferecem ajuda, enfrenta a hostilidade de uma ladra, recebe o auxílio de animais e da sabedoria de mulheres do norte. Cada etapa a fortalece e simboliza uma passagem de amadurecimento.
Finalmente, Gerda chega ao castelo da Rainha da Neve. Lá encontra Kay quase irreconhecível, com o coração de gelo e a mente dominada pela frieza. Movida por seu amor e compaixão, Gerda chora; suas lágrimas, quentes e puras, derretem o gelo no coração do menino e dissolvem o fragmento do espelho. Kay desperta, reconhece Gerda e volta a sentir.
Juntos, eles retornam para casa, transformados pela experiência. Já não são apenas as mesmas crianças inocentes: são almas que atravessaram a prova da frieza e da distorção, encontrando no amor e na amizade a força para superar a unilateralidade e restaurar a plenitude da vida.
A partir do conto podemos explorar toda sua rica simbologia e, ao aprofundar na análise do comportamento de Hobglobin com seu espelho mágico, podemos associá-lo à sombra coletiva.
Para Jung (2022), a sombra é composta de todos os conteúdos rejeitados ou não reconhecidos pela consciência, que passam a ser projetados no outro e no mundo exterior.
Os fragmentos do espelho, quando espalhados na terra passam a atuar como projeções e ao penetrar nos olhos, condicionam o indivíduo a enxergar apenas o lado negativo da realidade. Do mesmo modo, ao cravarem-se no coração, tornam o indivíduo insensível, incapaz de experimentar compaixão ou amor. Temos assim que os seus estilhaços simbolizam o olhar unilateralizado, que privilegia apenas um aspecto da realidade psíquica, qual seja, o sombrio, o depreciativo, o deformado.
A essência do espelho era a distorção, e essa dinâmica, na relação entre Kay e Gerda, a partir do olhar da psicologia junguiana, pode ser compreendida como um desequilíbrio entre Eros e Logos.
A frieza decorrente do fragmento do espelho representa o Logos, em sua função discriminativa e analítica, que no seu aspecto negativo, produz ceticismo e frieza. Já o Eros, princípio do vínculo e da conexão afetiva, é apagado. Jung adverte que a unilateralidade psíquica, quando um princípio se sobressai em detrimento do outro, é capaz de prejudicar o processo de individuação, uma vez que impede a integração dos opostos que compõem a totalidade da alma.
Assim, o espelho de Hobglobin representa a consciência unilateralizada, incapaz de integrar a sombra. Ao invés de possibilitar uma visão ampliada, ele cristaliza a percepção em apenas um polo da realidade psíquica, reduzindo o mundo à sua face mais degradada. A consequência desta deformação é a alienação da alma, expressa também no congelamento do coração. O que se vê, portanto, é a psique dominada por um ponto de vista estreito, que rompe com a possibilidade de diálogo entre Eros e Logos e dificulta a escuta do Self.
Jung esclarece sobre a influência da sombra coletiva:
“A sombra expõe-se muito mais do que a personalidade consciente, a contágios coletivos. O homem que está só, por exemplo, encontra-se relativamente bem, mas assim que vê os outros comportarem-se de maneira primitiva e maldosa, começa a ter medo de o considerarem tolo se não fizer o mesmo. Entrega-se então a impulsos que na verdade não lhe pertencem.” (JUNG, 2022, pág. 223)
Kay, vai se transformando então a partir do fragmento do espelho, passando da leveza à unilateralidade.
No início da narrativa, ele é descrito como um menino alegre, sensível e puro, que brinca no jardim com sua amiga Gerda.
Entre eles havia uma relação de inocência e afeto, permeada pelo encantamento com as pequenas coisas da vida. Essa pureza inicial representa um estado em que a energia psíquica circula livremente entre Logos e Eros, entre a clareza da razão e a espontaneidade do coração.
Essa harmonia, no entanto, é abruptamente rompida quando o fragmento do espelho de Hobglobin entra em seu olho e em seu coração. O olhar, antes aberto ao belo e ao lúdico, passa a ser distorcido pela perspectiva unilateral da sombra. O coração, antes capaz de sentir amor e calor, congela-se, tornando-se incapaz de compaixão. Kay sucumbe a uma identificação com um polo da psique, no qual o Logos, em sua face fria e crítica, se sobrepõe ao Eros, anulando a dimensão relacional.
Jung (2015) ressignifica os conceitos de Logos e Eros a partir da tradição grega e da filosofia de Platão, reinterpretando-os como princípios fundamentais de orientação psíquica.
O Logos sendo compreendido como o princípio da razão, da objetividade, da clareza, das opiniões e da diferenciação. Ele opera de modo discriminativo, estabelece distinções e traduz o conhecimento por meio da análise e da lógica.
Já o Eros é o princípio da relação, do vínculo e da união, refere-se à capacidade de conectar, de estabelecer laços afetivos e de perceber o valor do outro como parte constitutiva da própria existência.
Embora ambos os princípios sejam universais, Jung (2015) observa que, culturalmente, eles foram associados a polaridades de gênero: o Logos ao masculino e o Eros ao feminino. Contudo, não se trata de uma divisão rígida, mas de uma estrutura simbólica da psique, pois, homens e mulheres portam, em maior ou menor grau, essas duas orientações, que devem coexistir e dialogar para que haja equilíbrio.
Quando o Logos atua sem a presença do Eros, a psique tende à unilateralidade, a razão se converte em frieza, crítica excessiva e esterilidade. Quando o Eros se manifesta sem o Logos, corre-se o risco de uma dissolução em total fusão afetiva ou dependência emocional. Para Jung, o caminho da individuação consiste justamente em integrar Logos e Eros como forças complementares, de modo que o pensamento seja permeado pela relação e o afeto seja esclarecido pela razão.
De acordo com Jung:
Longe de mim querer dar uma definição por demais específica destes conceitos intuitivos. Uso os termos “Eros” e “Logos” meramente como meios nocionais que auxiliam a descrever o fato de que o consciente da mulher é caracterizado mais pela vinculação ao Eros do que pelo caráter diferenciador cognitivo do Logos. No homem, o Eros, que é a função de relacionamento, em geral aparece menos desenvolvido do que o Logos. Na mulher, pelo contrário, o Eros é expressão de sua natureza real, enquanto o Logos muitas vezes constitui um incidente deplorável. (JUNG, 2015, pág. 30)
Ou seja, ambos são princípios fundamentais da psique humana, e nenhum deles pode ser reduzido ao outro.
O fragmento do espelho no olho e no coração de Kay representa a queda da alma na unilateralidade: o garoto deixa então de ser guiado pela totalidade (Self) e passa a viver sob o domínio de uma visão parcial, projetiva e desumana.
Adota uma atitude psíquica defensiva e cética, na qual tudo é visto pelo viés da desconfiança e da depreciação. Assim, Kay não apenas perde a pureza infantil, mas também se desconecta de sua relação vital com Gerda, isto é, com o princípio do Eros que o mantinha ligado ao calor humano, ao afeto e ao mundo vivo e colorido.
Sua sensibilidade é substituída por indiferença e frieza, até que finalmente é seduzido e levado pela Rainha da Neve para seu castelo de gelo.
A Rainha da Neve pode ser compreendida, à luz da psicologia analítica, como a personificação da anima negativa. Jung em suas obras esclarece que a anima, quando não reconhecida e integrada, pode assumir formas destrutivas: seduz, mas paralisa; promete sentido, mas aprisiona; fascina, mas conduz ao vazio.
No texto, a Rainha atrai Kay para o seu castelo de gelo, espaço simbólico da consciência unilateral, onde o Logos reina sem o calor do Eros. Essa figura não se apresenta como um mal evidente, mas como um feminino congelado, dotado de racionalidade fria e beleza inatingível, que, ao invés de mediar a relação entre ego e inconsciente, congela o fluxo da vida. Sua função, assim, é estéril: ela não gera, não cria, apenas conserva o menino em estado de pausa e suspensão.
Kay fica ali como um servo, deslumbrado exclusivamente com a beleza do castelo, sem perceber que está perdendo a vida e literalmente congelando por completo.
Nesse sentido, a Rainha da Neve revela a face perigosa da anima quando se torna negativa. Ela domina a psique masculina, suprimindo a afetividade e bloqueando a abertura para o Self. O que deveria ser ponte torna-se barreira, e a alma, ao invés de ser vivificada, é aprisionada na rigidez do gelo.
Para Jung:
A anima é um fator da maior importância na psicologia do homem, sempre que são mobilizadas suas emoções e afetos. Ela intensifica, exagera, falseia e mitologiza todas as relações emocionais com a profissão e pessoas de ambos os sexos. As teias da fantasia a ela subjacentes são obra sua. Quando a anima é constelada mais intensamente ela abranda o caráter do homem, tornando-o excessivamente sensível, irritável, de humor instável, ciumento, vaidoso e desajustado. Ele vive num estado de mal-estar consigo mesmo e o irradia a toda volta. (JUNG, 2016, pág. 107)
Na psicologia analítica, podemos entender o castelo como uma prisão, também equivalente a fixação do ego em uma atitude unilateral, em que o princípio masculino (Logos) atua dissociado do princípio feminino (Eros). Essa separação gera não apenas ceticismo e cinismo, mas uma verdadeira morte da alma: Kay sobrevive, mas não vive; raciocina, mas não sente; enxerga, mas sua visão é distorcida.
O castelo de gelo, nesse aspecto, tem mais uma forte representação, qual seja, a imagem arquetípica da consciência petrificada, que perdeu a conexão com o inconsciente fértil e compensador. É o símbolo do ego que, em sua pretensão de autonomia, controle e domínio se afasta do Self e, por isso, mergulha em vazio e esterilidade.
Assim, a condição de Kay sob o domínio da Rainha da Neve ilustra de forma contundente o risco da unilateralidade. Quando a psique privilegia um princípio em detrimento do outro, ocorre uma ruptura da totalidade, e o indivíduo se vê aprisionado em um mundo interno empobrecido.
Essa postura de Kay pode ser tida como uma ligação com sua anima negativa, ou seja, um aspecto sombrio de sua alma.
Para Jung, a anima é a personificação do princípio feminino na psique do homem, arquétipo que atua como mediador entre a consciência e o inconsciente, abrindo a dimensão da afetividade, da imaginação e da religiosidade.
Quando a anima é reprimida ou negada, o indivíduo masculino tende a cair em unilateralidade: seu Logos, separado do Eros, transforma-se em frieza, ceticismo e esterilidade. É justamente essa condição que observamos em Kay, quando a alma congelada já não consegue experimentar amor ou compaixão. Jung fala sobre a voluntariedade da anima:
“O homem gosta de acreditar-se senhor da sua alma. Mas enquanto for incapaz de controlar os seus humores e emoções ou de se tornar consciente das inúmeras maneiras secretas pelas quais os fatores inconscientes se insinuam nos seus projetos e decisões, certamente não é seu próprio dono. (JUNG, 2022, pág. 104)
Fala ainda sobre a necessidade de confronto com a anima:
Se o confronto com a sombra é obra do aprendiz, o confronto com a anima é a obra-prima. A relação com a anima é outro teste de coragem, uma prova de fogo para as forças espirituais e morais do homem. Jamais devemos esquecer que, em se tratando da anima, estamos lidando com realidades psíquicas, as quais até então nunca foram apropriadas pelo homem, uma vez que se mantinham fora de seu âmbito psíquico, sob a forma de projeções. Para o filho, a anima oculta-se no poder dominador da mãe e a ligação sentimental com ela dura às vezes a vida inteira, prejudicando gravemente o destino do homem ou, inversamente, animando a sua coragem para os atos mais arrojados. Para o homem da Antiguidade a anima aparece sob a forma de deusa ou bruxa.” (JUNG, 2016, pág. 49)
Convém aqui, entretanto, fazer uma importante distinção entre anima e Eros. O Eros é, para Jung, um princípio mais amplo: a força de ligação, o movimento da alma em direção ao outro, a energia que cria vínculos. Já a anima é uma imagem arquetípica específica desse princípio no homem, expressão simbólica de seu feminino interior.
Assim, pode-se dizer que a anima é uma representação concreta e personificada do Eros no psiquismo masculino, mas não se esgota nele, é o liame relacional, a mediação possível ao caminho da totalidade.
Portanto, o adoecimento de Kay decorre não apenas da influência do espelho e da Rainha, mas sobretudo da perda da mediação da anima, que o privou da ligação entre consciência e inconsciente. Sua salvação só é possível porque Gerda, como se verá a seguir, como manifestação do Eros ativo e compassivo, recoloca em movimento essa função mediadora, restabelecendo o equilíbrio entre Logos e Eros – condição indispensável ao processo de individuação.
Gerda, por sua vez, inconformada com o desaparecimento de Kay, sai em uma jornada altruísta em busca do amigo.
Esta viagem pode ser compreendida como mais do que um ato infantil de amizade, trata-se de uma jornada movida pelo Self. Para Jung (2015), o Self é o centro regulador da psique, que orienta a consciência em direção à totalidade. Muitas vezes, essa orientação não se manifesta em ideias abstratas, mas em impulsos profundos, quase instintivos, que conduzem o indivíduo a buscar o que está em falta para a alma.
Gerda, mesmo pequena, atravessa mundos desconhecidos, enfrenta perigos, dialoga com figuras sombrias e sábias. Sua perseverança não nasce de uma lógica consciente. Ela não calcula chances de sucesso. Tampouco vacila diante de fracassos e dos medos, mas brota a partir de uma força instintiva interior que a move. Essa força é expressão do Self que, ao perceber o desequilíbrio psíquico causado pela prisão de Kay no Logos unilateralizado, através da anima negativa, desperta em Gerda o desejo de restabelecer a harmonia.
Nesse aspecto, Gerda age como a mediadora entre o Self e a consciência, exatamente como a anima. Sua jornada altruísta mostra que a psique não tolera a estagnação em um único princípio. Se o Logos se fecha em gelo e racionalidade fria, o Eros surge como contraponto vital. Ao seguir sua intuição e seu amor, Gerda traz de volta o calor, derrete o gelo no coração de Kay e devolve ao Logos a possibilidade de dialogar com o Eros.
Assim, o movimento de Gerda não é apenas pessoal ou afetivo, mas arquetípico.
Ela encarna a função compensatória da alma (anima) que busca incessantemente a reconexão entre os princípios masculino e feminino, Logos e Eros. Sua jornada é, portanto, o próprio caminho da individuação em ação, ou seja, a tentativa do Self de reunir o que foi separado, devolver sentido ao que se congelou e reintegrar a psique à sua totalidade.
Segundo Jung “o arquétipo é, na realidade, uma tendência instintiva, tão marcada como o impulso das aves para fazer seu ninho e o das formigas para se organizarem em colônias”. (JUNG, 2022, p. 83)
Em termos junguianos, Gerda simboliza a função compensatória do inconsciente, que emerge para restaurar o equilíbrio perdido. À unilateralidade do Logos, o inconsciente responde com a manifestação súbita do Eros e à frieza do gelo, oferece o calor do vínculo humano. Cada etapa de sua jornada pode ser lida como a travessia da alma que, enfrentando arquétipos maternos, sombras e forças instintivas, encontra no final a sabedoria profunda da psique. Não uma magia externa, mas a potência transformadora de sua pureza afetiva.
Ao encontrar Kay congelado, Gerda não argumenta, não disputa, não se opõe racionalmente. Ela simplesmente chora e o ama. Suas lágrimas derretem o gelo no coração dele e dissolvem o fragmento do espelho. Esse gesto simples simboliza o que Jung descreve como a necessidade de integrar os opostos para alcançar a totalidade. Somente o calor do Eros é capaz de compensar a frieza do Logos unilateralizado.
A libertação de Kay, portanto, não é somente a vitória de uma menina sobre uma rainha poderosa, mas a imagem arquetípica da psique que encontra novamente seu centro no Self. É o reencontro da alma com sua integridade. Quando Eros e Logos deixam de ser princípios em oposição para se tornarem complementares no processo de individuação.
Jung esclarece:
Há uma destinação, uma possível meta além das fases ou estádios de que tratamos na primeira parte deste livro: é o caminho da individuação. Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por “individualidade” entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio Si-Mesmo. Podemos, pois, traduzir “individuação” como “tornar-se Si-Mesmo” (Verselbstung) ou “o realizar-se do si -mesmo (Selbstverwirklichung). (JUNG, 2014, p. 64)
Em conclusão o conto “A Rainha da Neve”, ao ser lido sob a ótica da psicologia analítica, revela-se uma poderosa metáfora do processo de individuação.
Na primeira parte, o espelho de Hobglobin, ao distorcer o belo e enaltecer o feio, introduz na humanidade o olhar da sombra não reconhecida, projetada e introjetada como fragmentos que cegam e endurecem os corações. Kay, em sua pureza inicial, simboliza a consciência em equilíbrio, ainda ligada ao Self, mas ao receber os estilhaços, sucumbe à unilateralidade do Logos frio, afastando-se do Eros e mergulhando em ceticismo e isolamento.
A captura de Kay pela Rainha da Neve representa o auge dessa dissociação. O castelo de gelo é a imagem da consciência petrificada, onde a clareza lógica se transforma em esterilidade e vazio, incapaz de gerar vida ou sentido. Nesse estado, o ego perde o contato com a totalidade, vivendo apenas em um polo da psique.
É então que a jornada de Gerda se torna expressão da força instintiva do Self. Movida pelo Eros, ela atravessa provas arquetípicas, enfrenta sombras, recebe ajuda de sábios e integra dimensões esquecidas da psique. Seu amor, lágrimas e compaixão derretem o gelo e liberam Kay, permitindo que Logos e Eros voltem a dialogar.
O conto, assim, mostra que a desconexão entre os princípios do Eros e do Logos leva ao adoecimento da alma, produzindo cinismo, frieza e estagnação. Por outro lado, a integração desses opostos, simbolizada pela vitória do amor de Gerda sobre o gelo da Rainha, aponta para a plenitude da individuação. Na visão junguiana, somente quando a psique reconhece e acolhe tanto o racional quanto o afetivo, tanto a luz quanto a sombra, pode reencontrar o sentido e caminhar em direção à integralidade.
Alessandra Mazzieri – Membro Analista em formação do IJEP
Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP
Referências:
AVILA, Marina, et al., Contos de Fadas em suas versões originais. 6ª Edição, São Caetano do Sul: Ed. Wish, 2019.
FRANZ, Marie Louise Von, A Interpretação dos Contos de Fadas. 3ª Edição, São Paulo: Ed. Paulus,1990.
JUNG, Carl Gustav, O eu e o inconsciente. Edição Digital. Petrópolis: VOZES, 2014.
______. Aion: estudo sobre o simbolismo do Si-Mesmo. Edição Digital. Petrópolis: VOZES, 2015.
______. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Ed. Digital. Petrópolis: VOZES, 2016.
______. O Homem e seus Símbolos. 3ª Edição, Rio De Janeiro: Ed. HarperCollins Brasil, 2022.

