Browsing: Patriarcado
Atualmente vivemos sob o signo de um paradoxo avassalador. De um lado, um patriarcado abstrato e onipresente, que governa através do poder tecnológico e dos algoritmos do mercado financeiro dominados por um pai-máquina que tudo controla e nada abraça. De outro, uma ausência de paternagem que deixa um vazio ensurdecedor nos lares. Esta não é apenas a falta de um corpo, mas a do amparo que guia e fortalece. No lugar do pai amoroso, impera a sombra de uma estrutura tirânica que, por sua própria rigidez, gera uma geração de órfãos de pais vivos, com a alma marcada pela tristeza, o abandono e a rejeição.
A crença de que a função paterna depende da presença de um homem ainda orienta discursos sobre família e desenvolvimento, embora não encontre sustentação psicológica. Com base em Jung, o ensaio argumenta que esta função é simbólica: um princípio de direção, limite e abertura ao mundo que pode ser vivido por qualquer pessoa cuidadora. Examina-se como a psique projeta o arquétipo do Pai sobre quem oferece presença e orientação, e como a experiência concreta — não o gênero — organiza o complexo paterno. A história de Crisóstomo, em O Filho de Mil Homens, mostra que o mundo, o trabalho e os encontros também podem desempenhar essa função. Por fim, o texto convida a ampliar o olhar: mais do que uma figura, trata-se de reconhecer as muitas formas pelas quais a vida pode sustentar a formação da criança.
